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ARTE INCLUSIVA? QUEM INCLUI QUEM?

PINTO, Luísa Isabel da Costa; PALINHOS, Jorge Miguel Ferrão; CABRAL, Ivam

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ARTE INCLUSIVA? QUEM INCLUI QUEM? Luísa Pin o Jo ge Palinhos I am Cab al Edi o es CEAA CEAA I Cen o de Es udos A naldo A aújo, 2021 ARTE INCLUSIVA? QUEM INCLUI QUEM? 160 1 2 3 ARTE INCLUSIVA? QUEM INCLUI QUEM? Luísa Pin o Jo ge Palinhos I am Cab al Edi o es 4 Tí ulo ARTE INCLUSIVA? QUEM INCLUI QUEM? Edi o es Luísa Pin o, Jo ge Palinhos e I am Cab al © os au o es e CESAP/CEAA, 2021 Di eção g á ica Jo ge Cunha Pimen el e Joana Cou o Composição Joana Cou o Edição CEAA | Cen o de Es udos A naldo A aújo da CESAP/ESAP P op iedade Coope a i a de Ensino Supe io A ís ico do Po o Imp essão e Acabamen o Se Sili o, Emp esa G á ica Lda 1s Edição, Po o, No emb o 2021 Ti agem: 300 exempla es ISBN: 978-972-8784-94-2 [Supo e: Imp esso] ISBN: 978-972-8784-95-9 [Supo e: Ele ónico] Depósi o Legal: Es a publicação é inanciada po undos nacionais a a és da FCT - Fundação pa a a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbi o do p oje o UIDB/04041/2020 (Cen o de Es udos A naldo A aújo). A ob enção dos di ei os de ep odução de ou as imagens é da exclusi a esponsabilidade dos au o es dos ex os a que as mesmas es ão associadas, não se esponsabilizando os edi o es po qualque u ilização inde ida e espec i as consequências. Cen o de Es udos A naldo A aújo Escola Supe io A ís ica do Po o La go de S. Domingos, 80 4050-545 PORTO, PORTUGAL (+351)223392130 [email protected] www.ceaa.p 5 NOTA INTRODUTÓRIA Luísa Pin o, Jo ge Palinhos e I am Cab al SOMOS TODOS DESIGUAIS? PEREGRINAR EM SI E ENCONTRAR O OUTRO COMO ESTRANGEIRO, REVELAR SEGREDOS, NOTÍCIAS, RECRIAR A MEMÓRIA DO MUNDO Elen de Fa ima Londe o DESCOLONIZAÇÃO DO CURRÍCULO NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM. A EXPERIÊNCIA DA SP ESCOLA DE TEATRO – CENTRO DE FORMAÇÃO DAS ARTES DO PALCO Elisabe h Sil a Lopes, I am Cab al e Joaquim C. M. Gama ENCENAR A VIZINHANÇA: UMA EXPERIÊNCIA DE PERFORMANCE SOCIAL NA ZONA URBANA PÓS-INDUSTRIAL DE CAMPANHÃ Jo ge Palinhos O TEATRO NÃO CHEGA? UMA REFLEXÃO SOBRE ARTE, INCLUSÃO E TRANSFORMAÇÃO POLÍTICA José Soei o 9 13 31 61 81 ÍNDICE 6 PERSPECTIVAS SOBRE INCLUSÃO NO CENTRO PAULA SOUZA: CAMINHOS DA ARTE PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA E EDUCAÇÃO PROFISSIONAL TECNOLÓGICA Lucilia Gue a A ARTE COMO PONTE PARA O EXTERIOR. CRIAÇÃO ARTÍSTICA, PRISÃO, REINTEGRAÇÃO Luísa Pin o PEDAGOGIA ARTE-SOCIAL. PARA UMA CULTURA DA DEMOCRACIA E DEMOCRACIA NA CULTURA Sanna Ryynänen QUEM SE INTERESSA POR “MEMÓRIAS AO SOL”? REFLEXÕES SOBRE OS SENTIDOS DO TEATRO COM MULHERES APRISIONADAS Vicen e Concilio AUTORES RESUMOS ÍNDICE 95 109 123 137 151 155 7 ARTE INCLUSIVA? QUEM INCLUI QUEM? 14 ELEN DE FATIMA LONDERO uma pos u a de imp o iso: a on ei a en e o mes e que sabe e o aluno que igno a são ompidas inaugu ando assim, um p incípio de igualdade en e eles. Ampa ados pela edição bilíngue da ob a As A en u as de Telêmaco, de F ançois Fénelon, a en u a am-se na expe iência da ap endizagem, assim como a c iança que ap ende a pa i da língua ma e na, sem a necessidade de um mes e, mas a pa i da on ade e necessidade de exp essão. Assim, segundo Ranciè e, es abelece-se inicialmen e en e p o esso e aluno uma elação de igualdade e a iniciação oma o luga da explicação a pa i da expe iência. Quem es abelece a igualdade como obje i o a se a ingido, a pa i da si uação de desigualdade, de a o a pos e ga a é o in ini o. A igualdade jamais em após, como esul ado a se a ingido. Ela de e semp e se colocada an es. (Ranciè e, 2002, p.11) A pa i des e caso, ap endemos que a expe iência de se encon a com uma si uação dis in a e apa en emen e in ansponí el pode e oluciona um ideá io pedagógico p edominan e do mes e explicado que ensina e do aluno que igno a, pois, mais do que discu i mé odos educacionais e pedagógicos, com es e ensinamen o Ranciè e suge e econhece inicialmen e uma condição polí ica p é-es abelecida em que igualdade e desigualdade es ão en elaçadas em ações ope an es de um discu so hegemônico e dominan e na qual es amos inse idos his o icamen e. Desen ol endo o concei o de pe eg inação, sendo es a uma iagem ao desconhecido capaz de p opo ciona ine i a elmen e o encon o com o ou o, aqui en endido como es angei o (de si), no a o pedagógico aquele em que se encon a na si uação desigual, é necessá io no a o pedagógico desmobiliza -se cons an emen e de si mesmo. A on ade de po ência, o de i , elabo a um es ado “igno an e” no sen ido p opos o po Rancìe e pa a pe segui uma elação de igualdade como obje i o e, consequen emen e, de libe dade na cons i uição emancipa ó ia do conhecimen o. Nes e sen ido, mais do que um mé odo de 15 SOMOS TODOS DESIGUAIS? ensino, pa a Ranciè e a ação se o na uma con icção polí ica. Pa indo des es ensinamen os, emos que se a educação oi dada como luga genuíno de mani es ação da libe dade nas sociedades con empo âneas e como um espaço possí el de se equaciona os p i ilégios e as desigualdades do mundo, ac edi amos que é nela que de emos cen a nossos es o ços pa a que não seja uma ex ensão de um mecanismo op esso e epe ido de o mas colonizado as do pensamen o hegemônico na sociedade, mas de emancipação. Pa a an o, se a ação é a on e mobilizado a, en endemos ambém que é p eciso e le i sob e a subje i idade do sujei o a a és da ação e do discu so, uma ez que jun os são o que nos colocam em uma condição humana uni e sal, o que nos o na singula es na plu alidade. Pa a Hanna A end é na ação e no discu so que os homens mos am quem são, po an o, desse pon o de is a podemos conclui que a adição cul u al e a pala a alada é o que nos az se es polí icos. Sem o discu so, a ação deixa ia de se ação, pois não ha e ia a o ; e o a o , o agen e do a o, só é possí el se o , ao mesmo empo, o au o das pala as. A ação que ele inicia é humanamen e e elada a a és de pala as; e embo a o a o possa se pe cebido em sua mani es ação b u a, sem acompanhamen o e bal, só se o na ele an e a a és da pala a alada na qual o au o se iden i ica, anuncia o que ez, az ou p e ende aze . (A end , 2007, p.191) Do pon o de is a conjun u al, i emos a ualmen e em uma sociedade que é impac ada po acon ecimen os deco en es do p ocesso de globalização, como a c ise econômica expe imen ada pela economia mundial a pa i de 2008, as econ igu ações dos Es ados nacionais em suas es u u as polí icas e sociais, c ises ambien ais, en e ou os. No B asil, is o em se ap esen ado como um cená io de ins abilidade, po exemplo, nas di e izes educacionais e nos caminhos u u os que a educação pode i a se pau a den o de um p og ama go e namen al nacional que a ualmen e em desp ezado o pensamen o c í ico e demonizado 16 p á icas pedagógicas conside adas libe á ias1. Es as si uações nos azem conside a os ensinamen os de Mil on San os (1994), onde nos explica que a globalização a ende a dimensão do me cado, ou seja, a um sis ema de elações hie á quicas cons uído pa a pe pe ua um subsis ema de dominação sob e ou os subsis emas, em bene ício de poucos. Pa a ele, a globalização a ende a lógica da compe ição, e não da coope ação e co ompe, alsi ica, desequilib a e des ói. No en an o, o en en amen o des a lógica se ope acionaliza na dimensão do “luga ”, onde eúne pessoas po suas semelhanças, pela coope ação na di e ença, e onde se descob e no conjun o que não se es á sozinho. (...) o luga o na-se o mundo do e az e da espe ança, e o global, media izado po uma o ganização pe e sa, o luga da alsidade e do engodo. Se o luga nos engana, é po con a do mundo. Nessas condições o que globaliza sepa a; é o local que pe mi e a união. De ina-se o luga como a ex ensão do acon ece homogêneo ou do acon ece solidá io e que se ca ac e iza po dois gêne os de cons i uição: uma é a p óp ia con igu ação e i o ial; a ou a é a no ma, a o ganização os egimes de egulação. O luga , a egião não são mais o u o de uma solida iedade o gânica, mas de uma solida iedade egulada ou o ganizacional. Não impo a que es a seja e ême a (...). É pelo luga que e emos o mundo e ajus amos a nossa in e p e ação, pois nele o ecôndi o, o pe manen e, o eal iun am. (San os, 1994, p.20) Con e gindo com o pensamen o de San os, Canclini (1997) a i ma que o me cado ao eo ganiza a p odução e o consumo pa a ob e maio es luc os e concen á-los ende a con e e a eunião de di e enças nacionais em 1 Nes e sen ido, No a K awcyk em “A Educação F en e à Pandemia e o Du o Fascismo: Du os Comba es nos Agua dam” nos ale a sob e o mo imen o de desigualdade que ul apassa 200 anos de his ó ia, nunca es e e ão e iden e nas ins i uições públicas, com a polí ica decla adamen e ascis a em que nos encon amos. A nec opolí ica na base o ma i a do exe cício democ á ico e de cidadania. ELEN DE FATIMA LONDERO 17 desigualdades. E, subme e a polí ica às eg as do comé cio e da publicidade, do espe áculo e da co upção. Assim, pa a Canclini, uma al e na i a a es a imposição capi alis a se ia pensa mos sob e o núcleo daquilo que na polí ica é elação social: o exe cício da cidadania – e sem des inculá-la das elações de consumo, uma ez que (...) se cidadão não em a e apenas com os di ei os econhecidos pelos apa elhos es a ais pa a os que nasce am em um e i ó io, mas ambém com as p á icas sociais e cul u ais que dão sen ido de pe encimen o. (Canclini , 1997, p.22) Depa ámo-nos em um aspec o c ucial pa a chega mos a es a noção de pe encimen o como cí culo de po ência. Como se iden i ica e pe ence a um espaço que é ma cado pela colonização e seus p ocessos iolen os de aniquilamen o cul u al? Em Pode o Subal e no Fala ? (2014), a au o a Gaya i Spi ak, escanca a a o ça op esso a do pensamen o hegemônico e nos ap esen a a noção de uma decolonização da ação polí ica e in elec ual, com elação aos es udos subal e nos, ao luga de ala e de ep esen ação do ‘Ou o’ – o sujei o igno ado, explici ado pelos po os colonizados, em sua maio ia do Te cei o Mundo. C i ica a noção de ep esen ação no âmbi o polí ico em que se ‘ ala po ’ e a e-p esen ação no sen ido ilosó ico e a ís ico, de ep esen ação de alguém. Nos dois exemplos, a igu a do subal e no ou do ou o é desquali icada e silenciada, pois no sen ido de ep esen ação e ala, quem ala em ca egado de mul iplicidade. A pa i do momen o em que se escolhe a ep esen ação no luga do Ou o, es a se encon a sob a égide do Sobe ano em de imen o do op imido. A au o a az ainda, uma di e enciação en e op imido e explo ado e c i ica eemen e o luga do in es igado in elec ual na igu a dos ilóso os que e o çam suas pe spec i as ociden ais e da sobe ania eu opeia colonizado a. Assim, e omamos a na a i a inicial, em que somen e a pa i do inusi ado encon o que iden i ica ba ei as undadas nas di e enças en e in e locu o SOMOS TODOS DESIGUAIS? 18 e ecep o e que a incapacidade de comp eensão do discu so en e mes e e es udan e, p o ocou o deslocamen o, como no caso de Ranciè e, onde o p o esso Joco o a pa i do seu luga de explicado - que pode se ap oxima da igu a do colonizado no con ex o das elações hegemônicas his o icamen e p é- es abelecidas - omen ado do emb u ecimen o cogni i o de seus alunos pa a, imbuídos de uma expe iência c ia i a e i ica o p incípio de igualdade como pon o de pa ida. Olha pa a nossa ealidade his ó ica, colonizada e explo ada, a pa i da educação como uma possibilidade de ompe on ei as é mais do que u gen e no p ocesso emancipa ó io do conhecimen o, pois a educação a elada a um p incípio de igualdade, não se con igu a á um p ocesso de di e enciação dos es udan es a pa i da in eligência e a e ição da mesma, mas da on ade, como p incípio iniciado de no os pe cu sos. Des aca-se aqui a expe iência ea al a pa i do eco e da pe o ma i idade como um possí el agen e p o ocado nos p ocessos educacionais, na en a i a de es abelece um acesso, de o ma elacional, dialógico e a e i o com p o esso es e es udan es. Nes a análise, le amos em conside ação a expe iência pedagógica elabo ada pela SP Escola de Tea o, localizada na cidade de São Paulo (B asil), que oi c iada a a és dos pa adigmas “a is as que o mam a is as” e “ap ende-se ao aze ”. Com uma es u u a pedagógica que se ap esen a em um modelo modula e não hie á quico, a SP Escola de Tea o es á a ualmen e di ecionada em qua o eixos: Pe sonagem e Con li o; Na a i idade; Pe o ma i idade e Au onomia. Es a p opos a de ensino, segundo nos explica I am Cab al (2016, p.11), possui um ca á e maleá el do sis ema, o que p opo ciona a possibilidade de compa ilhamen o pa a qualque ins i uição (...) uma ez que a a de um mé odo undamen ado po meio de p oje os, o que pe mi e o es udo simul âneo de componen es o iundos dos mais di e sos campos do conhecimen o. ELEN DE FATIMA LONDERO 19 A pe o ma i idade na medida em que abalha com a sensibilidade c í ica do mundo dialoga ambém com a pedagogia ensinada po Paulo F ei e (2011), pa a o qual é a a és da educação que educado e educando ans o mam-se em sujei os eais da cons ução do sabe (...) é p opicia as condições em que os educandos em suas elações uns com os ou os e odos com o p o esso ensaiam a expe iência p o unda de assumi se... Assumi -se como sujei o po que capaz de econhece -se como obje o... É a ou edade do “não eu”, ou do u, que me az assumi a adicalidade do meu eu. (F ei e, 2011, p.42) Is o nos e ela que pa a F ei e, o ensinamen o exige não apenas a e lexão c í ica sob e a p á ica, mas o econhecimen o pelos educandos enquan o sujei os sociais, his ó icos, pensan es, ans o mado es, c iado es e capazes de muda o mundo. A expe iência adical e c í ica da educação p opos a po F ei e nos ale a, o abalho da educação ou a pedagogia nunca são neu as: ou elas libe am o homem ou o domes icam. Ampa ados pela linguagem pe o ma i a, que pode se lida pela noção de acon ecimen o, colocamos os sujei os em cena em posição de igualdade onde a o dem do discu so explicado e emb u ecedo se dissipa em con apon o en e o dize e o aze em uma ensão en e discu so, co po alidade e compo amen o. Encon amos no es udo de Jose e Fé al (2009) que o ea o pe o ma i o eme ge do c uzamen o dos dois eixos de concepções de pe o mance desen ol ido a pa i da década de 80 po Richa d Schechne e And eas Huyssen, pelo qual pa a o p imei o a pe o mance dizia espei o an o aos espaços quan o às di e sões popula es e, em seu sen ido mais amplo, a pe o mance e a é nica e in e cul u al, his ó ica e a-his ó ica, es é ica e i ualís ica, ou seja, ele amplia a a noção pa a odos os domínios da cul u a e oda o ma de mani es ação do co idiano. Já pa a o segundo, a pe o mance ca ega ia um sen ido pu amen e a ís ico, e não sociológico ou an opológico, ou seja, ele a ou a pe o mance SOMOS TODOS DESIGUAIS? 20 numa isão essencialmen e es é ica. Es a in o mação é impo an e pa a comp eende mos que oi a pa i des es dois eixos de concepções pos os em e lexão e deba e (pe o mance como expe iência e compe ência e pe o mance como a e) que eó icos como o alemão Hans Thies Lehmann es uda am a co en e es é ica conhecida po Tea o Pós-d amá ico, que em uma de suas p incipais ca ac e ís icas que o a o ea al se con igu a enquan o um acon ecimen o, ou seja, a si uação ea al se cons i ui du an e a imedia a p esença en e a is as e seu público, ques ionando o impac o da a e na ida e da ida na a e. Pa a Lehmann, po an o, o (...) ea o signi ica empo de ida em comum que a o es e espec ado es passam jun o no a que espi am jun o daquele espaço em que a peça ea al e os espec ado es se encon am en e a en e. (Lehmann, 2007, p.18) Ainda, ale menciona que no es udo de Fé al encon amos que é a a és do ea o pe o ma i o que o ea o se dis ancia da ep esen ação e aspi a a p oduzi e en o, acon ecimen o, eencon ando o p esen e, mesmo que es e não possa se a ingido (Fé al, 2009). Ace ca dis o, encon amos na ala de Bo iaud (2009, p.113) que “a a e em po inalidade eduzi a pa e mecânica em nós...”, is o signi ica dize que a a e pode es abelece um espaço de negociação en e as ealidades daquele que az e daquele que ecebe e pe cebe a ob a. Po an o, uma dinâmica de ap oximação, o ganização e mo i ação pa a o encon o en e p o esso es e alunos e de mobilidade pe an e os modelos que endem a se c is aliza . Se no ea o, especi icamen e na pe o ma i idade, os a o es en ol idos, agen es da ação e na p odução de acon ecimen os, se conec am com sua exp essão – discu so e ação no p ocesso de emancipação e pe encimen o de si e do con ex o sociopolí ico, po que não se con amina dessa expe iência em p ocessos educacionais? Na cidade de São Paulo, a SP Escola de Tea o, a pa i do p oje o Es ação SP, ELEN DE FATIMA LONDERO 21 na qual a linguagem ea al oi le ada em p ocessos o ma i os de p o esso es às Escolas Técnicas do Es ado de São Paulo (E ec), em uma aplicação do modelo de p oje o polí ico pedagógico da ins i uição, como mul iplicado de expe iências a ís icas em escolas de ensino básico, a expe iência oi colocada em p á ica em 15 (quinze) polos de E ec, a endendo 216 (duzen as e dezesseis) cidades do in e io paulis a em uma capaci ação pa a 600 (seiscen os) p o esso es. A inicia i a se inco po ou em um espaço educacional onde as a es hipo e icamen e não igu a am como uma á ea p io i á ia de o mação dos es udan es e, consequen emen e, como possibilidade de esidi no ensino do ea o uma al e na i a de ans o mação social2. Nas ações oi possí el a e i que o cons an e deslocamen o p opo cionado pela mani es ação a ís ica como elemen o p o ocado da ação pedagógica, c iou expe iências, espaços de libe dade, in e esse e ap oximação en e p o esso es e es udan es, uma ez que, do pon o de is a da o mação in elec ual e c í ica daqueles alunos, p o esso es e ou as pessoas e en ualmen e en ol idas pode iam a ua como em um p ocesso de despe a de suas espec i as sensibilidades pa a um p ocesso de consciência indi idual pe an e acon ecimen os eais de seu empo, espaço e cená ios em que i em. A expe iência p opos a oi ealizada com p o esso es de odas as á eas: a es, economia, sec e a iado, engenha ia, ma emá ica, jun amen e com seus es udan es. Todas as ações o am elabo adas le ando em conside ação o Eixo Pe o ma i o como linguagem, o Ope ado a pa i da ob a de Michel Foucaul , sob e “O Cuidado de Si e dos Ou os”, como e e encial es é ico, que nos pe mi iu abo da a his ó ia dos es udan es, p o esso es e da ida em seu en o no, bem como, exe ci a a o pensamen o c í ico, além das pala as esc i as e aladas, 2 Nes e sen ido, as Escolas Técnicas de São Paulo o e ecem os cu sos de ensino médio, ensino écnico in eg ado ao médio em adminis ação, desen ol imen o de sis emas, desenho de cons ução ci il, e en os, in o má ica, meio ambien e, anspo e me o iá io, u ismo ecep i o e ensino écnico de ele ônica. Embo a enham po missão o ma cidadãos com amplos conhecimen os humanís icos, cien í icos e ecnológicos, elas le am em conside ação as condições do me cado de abalho e ainda o e ecem cu sos majo i a iamen e egula es nas á eas di e sas das humanas, po exemplo. Vide: www.e ecsaopaulo.com.b . SOMOS TODOS DESIGUAIS? 22 na ação pe o ma i a. Como A is a Pedagogo, a aje ó ia do a is a b asilei o A hu Bispo do Rosá io3 e sua mani es ação poé ica no mundo a pa i de uma esc i a de si. Po im, como Ma e ial de T abalho, elegemos a ob a do di e o ea al polonês Tadeusz Kan o , que essigni ica os obje os na cenog a ia ea al. O obje o é, pa a Kan o , uma espécie de p ó ese do a o . Cada pe sonagem em o seu p óp io obje o que, ligado a seu co po, o mando com ele um só se . Na cena esses obje os ão mudando de signi icado. Ângulos e linhas que se modi icam no con ex o da cena. A manipulação do obje o e suas elações com o pe sonagem con e em ao obje o aspec os mágicos e inespe ados – a noção de “ob e so”. Em nossa p opos a os obje os de iam se azidos pelos agen es do encon o, seus obje os-memó ia, obje o- ida, obje o-mo e, obje o- e lexão, obje o- acasso, obje o-so e, obje o-mo imen o, obje o-in e upção, obje o-sonho, obje o- público, obje o- ansição, obje o- azio, obje o-sín ese. Obje os conside ados inú eis, mas que ca egam em si, memó ia e his ó ias que se conec am aos a o es, aqui en endidos como p o esso es e es udan es. A ação p opos a po uma equipe de a is as pedagogos colocou em mo imen o odos os en ol idos em uma ação de ec ia suas aje ó ias e seus papéis dian e, p incipalmen e, da noção con eudís ica e ins umen al dos p og amas de ensino, essigni icando o “luga ” comum de suas idas a pa i do encon o consigo e com o ou o. Assim, de aco do com Elizabe h Lopes, A alo ização dos p ocessos, que, mui as ezes, são mais p eciosos que os p óp ios esul ados que o mulam os pensamen os em mo imen o, di e en emen e da pe cepção de algo que i a no ma, ixa e imu á el. É uma o ma de o na la en e um modo de pensa a elação homem e mundo em mo imen o, em p ocesso, ligado ao inde e minado e à noção de “acon ecimen o”, como 3 A hu Bispo do Rosá io (1909/80), é um a is a plás ico b asilei o que ca ega a odos os es igmas de ma ginalização social ainda igen es em nossa sociedade – neg o, pob e, louco, asilado em um manicômio – consegue, na sua genialidade, sub e e a lógica excluden e p opondo, a pa i da sua ob a, a essigni icação do uni e so, pa a se eunido e ap esen ado no dia do juízo inal. Mais sob e o a is a em h ps://museubispodo osa io.com/ob a- ida/ ELEN DE FATIMA LONDERO 23 de ende o ilóso o ancês Jacques De ida. Pa a ele, esse é o modo como um ex o az/diz a sua e dade. O “acon ecimen o”, em nossos p ocedimen os, es á associado ao modo poé ico que as e amen as i uais e ecnológicas pe mi em p ese a e à legi imação do ex o si uado en e a icção e a ealidade, po meio da possibilidade de epe ição, ci ação, ans e ência e adução, con igu ando a sua dimensão pe o ma i a. Dessa o ma, es ei amos de ini i amen e a elação co po/men e ecusando as o mas con encionais c is alizadas de pensa a educação com uma es abilização, p opondo, ao con á io, pensa em/na educação como um pensamen o que pulsa como a ida. (Lopes, 2015, p.18) Podemos assim, c ia um pa alelo com a ação pedagógica pau ada pela pe o ma i idade e essigni ica a ação e cons ução de um discu so emancipa ó io do sujei o em elação a si e ao ou o, o es angei o – sendo o encon o pedagógico um a o pe o ma i o, co po al, elacional, dialógico e pe cep i o, que es á inse ido em um campo ep esen acional, mas não da ep esen ação. O espaço escola /pedagógico como um luga de p odução de sen idos, dis anciando-se das demandas de um mundo p odu i o em que ação é ab icação. A noção pe o ma i a, aliando ação e discu so na p odução de acon ecimen os pode nos ap esen a caminhos pa a uma pe cepção mais p o unda da condição humana, sua in e e ência no campo social e posicionamen o c í ico em elação ao mundo em que i emos e como nos p oje amos pa a o u u o. É a pa i de encon os e pa ce ias como o do p oje o Es ação SP que a Escola amplia suas elações a ís icas e pedagógicas es abelecendo encon os e ocas de expe iências com ins i uições nacionais e in e nacionais de in e esses análogos e ans e sais, po que, assim, consegue amplia o alcance das ações ealizadas, ul apassando os mu os da Escola, c iando um campo de ação dila ado, jun o a di e en es comunidades, inicia i as e o ganizações ci is. Des e p opósi o, a Escola p omo e com equência di e sos encon os como o ealizado em 2019 em pa ce ia com a Escola Supe io A ís ica do Po o/ SOMOS TODOS DESIGUAIS? 30 31 DESCOLONIZAÇÃO DO CURRÍCULO NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM. A EXPERIÊNCIA DA SP ESCOLA DE TEATRO – CENTRO DE FORMAÇÃO DAS ARTES DO PALCO ELISABETH SILVA LOPES IVAM CABRAL JOAQUIM C. M. GAMA Colonización - e i o io es ablecido po gen e que no es de ahí Ao se obse a a de inição em espanhol da pala a ‘colonização’, emos a dimensão de seu sen ido geog á ico, polí ico e cul u al. Is o é, o na-se impo an e comp eende que o e mo ‘ e i ó io’ não é apenas aplicado às ques ões de domínio geog á ico e polí ico, mas a odo o p ocesso his ó ico, social e cul u al que a colonização eu opeia ge ou e impôs à Amé ica La ina. Fala de e i ó io es abelecido po pessoas que não são do p óp io e i ó io equi ale a inclui nas discussões sob e colonização aspec os a elados ao que podemos denomina ‘colonialidade do sabe ’ (Lande , 2000). Há uma he ança eu ocên ica do conhecimen o, epis emológica, que de e minou manei as de pensa , comp eende e o ganiza o mundo, e que não é legí ima à colonizada e ao colonizado. Ao econhece , po exemplo, que os g egos in en a am o pensamen o ilosó ico ociden al, não podemos ac edi a que somen e eles enham a hegemonia do pensamen o. Foi no âmbi o dessas pe spec i as de descons ução da hegemonia e da epis emologia da cul u a eu ocên ica sob e o Ociden e que, en e julho e agos o de 1998, oco eu o Cong esso Mundial de Sociologia, em Mon eal, pa ocinado pela UNESCO. Pa iu-se da ideia de que a colonização e i o ial eu opeia 32 ELISABETH SILVA LOPES, IVAM CABRAL e JOAQUIM C. M. GAMA e a colonialidade do sabe são pa es cons i uin es de uma mesma moeda de exp op iação, domínio e explo ação. Desde en ão, há uma p eocupação em ecupe a a iden idade dos di e en es luga es, quan o ao modo de e e concebe o mundo, con igu ando a ideia de que exis em múl iplos mundos, com sabe es di e sos, e que de em coexis i , dialoga , e não se subjuga . Especi icamen e, no B asil, essas p eocupações ize am eme gi ques ionamen os sob e as pe spec i as eu opeias uni e sais, globalizan es, como undamen os do conhecimen o disciplina sob e o mundo. Os es udos sob e o pós-colonialismo b asilei o, o pensamen o c í ico à colonialidade, ouxe am à baila ambém aspec os e e en es às ma izes ame índias e a icanas que azem pa e da base cul u al b asilei a, e que o am e i adas dos cu ículos das escolas de educação básica. O a o de e oco ido o im do colonialismo não aca e ou o im da colonialidade. Assim, pe du a sob e nós o legado cul u al, hegemônico, impos o pelo colonizado eu opeu b anco, que ai desde ques ões econômicas às c ises de iden idade, em seus múl iplos a o es, elacionadas aos indígenas e aos a odescenden es. Dessa manei a, na con empo aneidade, ao se pensa no cu ículo da escola pública, e, po conseguin e, na o mação de indi íduos, o na-se p emen e a necessidade de his o iciza essas ques ões e descoloniza o conhecimen o sis ema izado, ensinado e disponibilizado pelas docen es e pelos docen es aos discen es e às discen es. Comp eende-se, assim, o cu ículo ambém como campo de ques ionamen o de sabe es hegemônicos, uni e sais, que desquali ica am e desquali icam pe spec i as de mundo que não se enquad a am, e con inuam não se enquad ando, nas con igu ações econômicas, pe e sas, e neolibe ais, cujas o ças de pensamen o alo izam a na a i a his ó ica do conhecimen o uni e sal, obje i o e cien í ico. Inclui-se ambém a necessidade de e isão do es abelecimen o da cul u a judaico-c is ã como pad ão, inculada à ideia de Deus (o sag ado), do indi íduo (o humano) e da na u eza. Essa íade cos uma sepa a o co po da men e, e a azão do p ocesso de simbolização do mundo, 33 DESCOLONIZAÇÃO DO CURRÍCULO NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM ge ando co pos azios de signi icados e a exclusão do pensamen o simbólico como o ma de exp essão humana sob e a ida. Nas ci ilizações ociden ais, a cisão en e o co po e a men e acabou po c ia uma issu a epis emológica en e a azão e a na u eza. Não se conhece al sepa ação em ou as cul u as (Lande , 2000). É jus amen e buscando ompe com a base das sepa ações en e co po e men e que se á possí el pensa num conhecimen o co po i icado e con ex ualizado nas expe iências, cujo subje i o e obje i o não são uni e sais, e que de e se comp eendido den o de um quad o c í ico, his ó ico e emancipa ó io. Assim, são mui os os desa ios a se em en en ados. Num mundo no qual pa ecem impo -se, po um lado, o pensamen o único, e po ou o, a agmen ação da con empo aneidade, quais se iam as po encialidades c í icas que se ab em ao con inen e do conhecimen o, en ol endo iden idade e cul u a? Que pe spec i as educacionais e co en es concei uais su gem da necessidade de da oz e sen ido às lu as dos po os his o icamen e excluídos, como os po os neg os e indígenas? Como se ecolocam os elhos-no os emas sob e a iden idade, a miscigenação e a expe iência his ó ica e cul u al de cada g upo social? Como o cu ículo pode omen a discussões ace ca da ealidade local e mundial, o pensamen o c í ico en e às imposições das sociedades neolibe ais, e o conhecimen o hegemonizado, de e minado e impos o pelos países di os desen ol idos? Como é possí el descoloniza o cu ículo das pe spec i as da indús ia cul u al de massa? (Gama, 2017). Sabe-se que a pio dominação é aquela que, na u alizada, deixa de se ques ionada, pa a de se pe cebida como al, e é ele ada à exp essão de um mundo globalizado, que desquali ica iden idades, sen imen os e pe cepções locais e indi iduais, p óp ias de cada cul u a. Den o desse quad o, é p eciso um comp omisso e e i o das educado as e dos educado es pa a ques iona , imagina e pensa em o mas de supe a as dispa idades educacionais. É p eciso ha e um es o ço pa a que g upos excluídos - pob es; meninas e 34 meninos de ua; abalhado as e abalhado es; mulhe es e/ou homens u banos e/ou de zonas u ais; as nômades e os nômades mig an es; os po os indígenas; as e ugiadas e os e ugiados, deslocadas e deslocados dos seus e i ó ios po gue as, ques ões sexis as, é nicas e aciais - não so am qualque ipo de disc iminação no acesso ao conhecimen o e no di ei o à educação. O cu ículo p ecisa ompe com a con o mação colonial do mundo, na qual exis e a cul u a uni e sal, eu opeia, e a cul u a dos ou os (Lande , 2000). É p eciso encon a ou as o mas de o ganiza o conhecimen o, po meio do qual a lógica eu ocên ica hegemônica seja comba ida, não só no p ocesso epis emológico da colonização, mas ambém na pe manência de sua cosmo isão de mundo, ainda p esen e em países como o B asil. De aco do com Lande (2000), a cosmo isão de mundo es á apoiada na ideia de mode nidade. T a a-se de comba e a cosmo isão baseada em qua o dimensões, a sabe : 1. uni e salização da his ó ia a elada à ideia de p og esso, cujos ideais es ão de e minados pela classi icação e hie a quização dos po os; 2. a sup emacia da sociedade libe al-capi alis a, como balizado a das elações sociais; 3. a eliminação das múl iplas pe spec i as cul u ais e sociais, p óp ias das inúme as sociedade que ocupam o mundo; e 4. a necessidade de de e mina a supe io idade de de e minados conhecimen os de uma sociedade, em elação a odos os ou os p oduzidos po di e sos po os. As qua o dimensões ap esen adas po Lande indicam caminhos que de em se epensados, ao se conside a a lógica eu ocên ica como o ma de o ganização do pensamen o, do empo e do espaço pa a odos os po os. Nas o mulações cu icula es, de emos le a em conside ação ou os pon os de is a, ansmu ando as e e ências eu opeias, comp eendidas, acei as e di undidas como supe io es e uni e sais. Repensa os cu ículos das escolas públicas b asilei as implica ambém modi ica a o ma de se da sociedade. Ao se ans o ma o disposi i o colonizado do conhecimen o, em-se a opo unidade de ambém modi ica o se humano e a sociedade. Dessa manei a, ou as o mas de pensa e concebe o mundo, ELISABETH SILVA LOPES, IVAM CABRAL e JOAQUIM C. M. GAMA 35 as di e sas possibilidades de o ganização da sociedade e os inúme os sabe es p ecisam se obse ados, analisados e expos os às es udan es e aos es udan es. Todos p ecisam se es imulados a encon a , na sua p óp ia cul u a, caminhos que indiquem suas capacidades de p odução e o ganização do conhecimen o, pa a que deixem de se a ados como di e en es, adados a pe manece den o do g upo dos des a o ecidos, econômica e in elec ualmen e. Um cu ículo que p i ilegia conhecimen os eu ocên icos acaba po legi ima a missão ci ilizado a/no malizado a da colonização (Lande , 2000). A educação em a ob igação de u iliza di e en es ecu sos pedagógicos e didá icos que c i iquem os p ocessos his ó icos de e angelização e de ci ilização do humano b anco sob e as demais pessoas. Não az sen ido ac edi a que um único pad ão ci iliza ó io, sob o p e ex o de desen ol imen o do mundo con empo âneo, globalizado, seja ainda enca ado como o ma supe io , na u al e necessá ia à ele ação das capacidades cogni i as das es udan es e dos es udan es. To na-se, assim, necessá io inse i nos cu ículos a concepção de comunidade, em que a pa icipação popula e ambém o sabe popula sejam pa es cons i uin es da o ganização e sis ema ização do conhecimen o, ao mesmo empo que ambém seja possí el ques iona e desen ol e o pensamen o c í ico sob e a hegemonia do conhecimen o uni e sal. A elabo ação de um cu ículo menos p esc i i o e mais c í ico em como ho izon e de expec a i as a ideia de emancipação po meio de p áxis, que p essupõe a cons ução do pensamen o c í ico ol ado à desna u alização das o mas canônicas de conhece e ap ende . De e-se ambém epensa o papel social do conhecimen o, conside ando as elações en e o sujei o e o mundo, seu ca á e his ó ico, ansi ó io, e a mul iplicidade de ozes sob e a ida e es e. To na-se, ainda, undamen al minimiza as ensões en e mino ias e maio ias hegemônicas, ab indo espaços pa a modos al e na i os de p oduzi e o ganiza o conhecimen o. Po im, e e mé odos que se o na am co en es, ac í icos e hegemônicos no modo de seleciona e a alia o conhecimen o (Mon e o, in Lande , 2000). DESCOLONIZAÇÃO DO CURRÍCULO NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM 36 Ao se deb uça sob e a ideia de um cu ículo con empo âneo b asilei o, se á p eciso coloca ambém em discussão a o mação das docen es e dos docen es, e inclui es o ços que implicam a descons ução do ubíquo, da desna u alização e desuni e salização da mode nidade, pa a que haja o o alecimen o das ma cas cul u ais pessoais. Fa o es da economia que de e minam a p odução cul u al, a manei a de p oduzi sujei os humanos e o dens sociais den o de um único pad ão, de em se ques ionados pelos cu ículos. É p eciso in es i na comp eensão e na c í ica aos mecanismos simbólicos e imaginá ios que o nam legí imos de e minados domínios, azendo desapa ece as con adições e na u alizando o conhecimen o. Nesse sen ido, as pe spec i as p agmá icas, ac í icas, jun amen e com as p esc i i as, do cu ículo p ecisam se e is as, ab indo um espaço maio pa a os p ocessos de cons ução e exe cício do imaginá io, pois é po meio da cons ução e ep esen ação simbólica que o sen ido de comunidade – nacional, é nica e sexual – adqui e o ma e con eúdo, e pode se econhece como al. Em ace dessas ques ões, o cu ículo con empo âneo de e não só sa is aze às necessidades básicas de ap endizagem e acesso ao conhecimen o sis ema izado, como ambém es abelece um campo de deba e e ques ionamen o. De e undamen almen e conside a os e i ó io de sabe es que acompanham cada pessoa – po exemplo, sabe es o ais, sabe es ances ais, sabe es adqui idos na escola e compõem sua ede conhecimen os e olha es sob e o mundo. Assim, o cu ículo p ecisa es a abe o a iden i ica emá icas que êm como oco a di e sidade e o mul icul u alismo, si uando-se no âmbi o dos deba es, di ecionado pa a uma educação em oposição ao e nocen ismo. T a a-se de um cu ículo pau ado em no os pa adigmas, en e eles as eo ias pós-coloniais e es udos cul u ais. Nesse sen ido, não se a a apenas de c ia leis que legi imem os cu ículos das escolas b asilei as ou a p esc ição de mé odos e didá icas a se em abalhados em sala de aula. ELISABETH SILVA LOPES, IVAM CABRAL e JOAQUIM C. M. GAMA 37 A inse ção no cu ículo de emá icas é nicas po o ça de lei, po si só, não dá con a de eduzi o osso que sepa a a escola, no B asil, da comunidade da qual ela az pa e e dos sujei os que a compõem na sua di e sidade. (A aújo; Ba os, 2015, p.2) Faz-se, assim, necessá ia a ampliação dos es udos, isando acompanha p opos as, pa âme os e o ien ações de on es o iciais, de cole i os de educado es e da academia, pa a que se possa descons ui paula inamen e a concepção epis emológica eu ocên ica, que em disciplinado os co pos e pe pe uado a condição b asilei a de colonizados. Ou seja, os cu ículos, e aquilo que se ensina po meio deles, êm pe pe uado a imagem de po os subal e nos, polí ica, econômica e cul u almen e. E, simul aneamen e, ambém em di undido a ideia de homogenia cul u al e iden i á ia, excluindo ou desquali icando ou os ma cos p óp ios das cul u as locais b asilei as. Pa a a e icácia des e olha sob e o cu ículo con empo âneo b asilei o, não bas a inclui um ol de con eúdo a se desen ol ido em sala de aula, ou olclo iza ques ões ligadas à expe iência a o e à di e sidade egional b asilei a, po exemplo, p omo endo ei as cul u ais nas escolas. É p eciso agi mais p o undamen e pa a al e a a manei a de concebe e exe ce p á icas cu icula es. Além da lógica de o ganização eu ocên ica, p agmá ica e hegemônica, é necessá io ambém a alia o p óp io cu ículo, a manei a como es á es u u ado, a que in e esses ele esponde, e em quais alo es ci iliza ó ios e humani á ios es á pau ado. Somen e dessa manei a se á possí el epensá-lo, não apenas como caminho pa a ep oduzi e eduzi o p ocesso de ensino e ap endizagem a p á icas me odológicas, mas en endendo-o como a e a o cul u al e impo an e ins umen o polí ico des inado à o mação social dos indi íduos. A escolha de de e minadas disciplinas em p ejuízo de ou as acabou po legi ima a desigualdade social, p i ilegiou de e minadas o mas de sabe , e calou inúme os segmen os cul u ais e his ó icos. De e-se en ende o cu ículo escola como uma cons ução comuni á ia, po meio da qual es ão en ol idas ques ões de sabe e DESCOLONIZAÇÃO DO CURRÍCULO NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM 38 pode . Po essas azões, de ende-se a cons an e e isi ação c í ica dos cu ículos e a busca po uma p opos a que e li a a dinâmica e a di e sidade social b asilei a (A aújo; Ba os, 2015). Além das ques ões epis emológicas, eu opeias e coloniais p esen es na educação e cul u a b asilei as, não se pode deixa ambém de des aca a in luência da li e a u a educacional no e-ame icana na consolidação da educação de massa b asilei a. No início do século XX, os EUA passa am a pon ua os deba es ace ca dos cu ículos b asilei os, p opondo uma educação des inada a o ma sujei os pa a a economia ou pa a a democ acia. Dessa manei a, associa-se a escola e seus ins à dinâmica indus ial e adminis a i a do capi alismo. O cu ículo passa a especi ica , po meio dos planos de ensino, os obje i os p e endidos, os esul ados a se em alcançados, a me odologia a se aplicada e a mensu ação dos esul ados, de inindo aquelas e aqueles que es ão ap as ou ap os pa a o me cado (A aújo; Ba os, 2015). O dilema ace ca dos obje i os dos cu ículos do século XX - o ma pessoas pa a a economia ou pa a a democ acia – ouxe à ona eo ias c í icas sob e o cu ículo, colocando em oposição eo ias adicionais que p io iza am os elemen os écnicos na sua cons i uição e a aliação. O modelo adicional acabou po ge a alunas e alunos desin e essados, p o esso as e/ou p o esso es desmo i ados, ime sos em um cu ículo con eudis a e em uma educação ac í ica. Ou seja, uma escola dis an e da dinâmica da ida e da sociedade, incapaz de exe ci a a al e idade das en ol idas e dos en ol idos no p ocesso educacional, inap a pa a lida com as ques ões é icas e polí icas, e pa a epensa a sociedade b asilei a den o das pe spec i as da di e sidade de gêne o, mul ié nica, mul i acial e mul icul u al. Pa a as eo ias c í icas, o mais impo an e não e am as écnicas de como aze o cu ículo, mas o desen ol imen o de concei os que pudessem comp eende as ques ões polí icas, sociais e cul u ais p esen es na sua cons i uição (Sil a, 2011). Nesse âmbi o, ganha am des aque as pe spec i as cu icula es que aziam maio p oximidade com o co idiano das alunas e dos alunos, que alo iza am as discussões é nicas e de gêne o, as his ó ias locais e os sabe es popula es. ELISABETH SILVA LOPES, IVAM CABRAL e JOAQUIM C. M. GAMA 39 Esse pe cu so his ó ico e pedagógico colocou o cu ículo das escolas públicas b asilei as dian e da necessidade de e o mula a p óp ia escola e seus cu ículos, po meio de p áxis pedagógicas e eo ias ligadas à educação, capazes de p oblema iza e inclui o mul icul u alismo, a al e idade e a di e sidade. Ressal a-se que o mul icul u alismo es á embasado em es udos eó icos epis emológicos, ao mesmo empo que se a a ambém de uma p á ica social. Ou seja, p ecisa se pe cebido como um ins umen o de lu a polí ica, con es ado a, que comba e os p econcei os e as disc iminações de indi íduos e g upos cul u ais his o icamen e subme idos a p ocessos de ejeição e/ou silenciamen o. O mul icul u alismo em na sua base a de esa do pe encimen o iden i á io dis in o de pad ões hegemônicos, alidados e acei á eis po de e minados segmen os sociais, que que em impo suas pe spec i as de mundo sob e as ou as pessoas, sejam ais imposições no espaço escola ou no con ex o social mais amplo (A aújo; Ba os, 2015). Dessa o ma, os cu ículos p ecisam es a em pe manen e p ocesso de a aliação e cons ução, endo em is a que eles de em con empla pe spec i as dos Es udos Cul u ais. Es es, po sua ez, eme gem con a a adição dominan e, que legi ima apenas a cul u a a elada às g andes ob as li e á ias e a ís icas, ou com o imaginá io de uma de e minada sociedade econhecida pelos seus alo es uni e sais. Os cu ículos b asilei os p ecisam se is os como espelhamen o do mul icul u alismo, como exp essão da expe iência humana, e como um impo an e campo de signi icação social. Mesmo comp eendendo o cu ículo como uma de i ação do pensamen o c í ico, e apoiado no econhecimen o das p oblemá icas sociais b asilei as, é p eciso que as p o esso as e os p o esso es sejam incen i adas e incen i ados a comp eende o p ocesso de ensino e ap endizagem po meio de conhecimen os mul idisciplina es, ansdisciplina es e in e disciplina es, conside ando o espei o à condição humana, o di ei o à exis ência em suas múl iplas o mas de exp essão, e o di ei o ao p ocesso de ap endizagem. Dessa o ma, a educação se á o caminho pa a a DESCOLONIZAÇÃO DO CURRÍCULO NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM 46 são espaços pa a con e ências, e o a se con igu am como salas pa a as esidências a ís icas. Assim, es a unidade em ca ac e ís icas de um cen o cul u al, com a i idades aos domingos e segundas- ei as. Com base em múl iplas expe iências e encon os com a is as que es ão na lida, a escola ponde a o papel social das A es Cênicas em módulos que alo izam a emancipação c iado a, o pensamen o c í ico e a con luência absolu a de alen os e poé icas, des iando-se da elação hie á quica e homogeneizado a que cos uma es a p esa às bases educacionais. Os p essupos os do cu ículo da Escola são: • Ensino não hie á quico: a Escola se baseia em um modelo de ensino que ompe com o egime de subo dinação das pedagogias adicionais. O conhecimen o a ança de aco do com abalhos p á icos e e lexi os, le ando em conside ação o i mo de ap endizagens das es udan es e dos es udan es. • Ensino não cumula i o: busca dilui comple amen e o pa âme o de que a es udan e e o es udan e no qua o semes e são mais a ançados do que aqueles e aquelas no es ágio inicial. Compa imen a o conhecimen o a ís ico é uma con adição imp odu i a, pois ele de e se abalhado como um mecanismo de expansão, desdob amen o na u al do aze a ís ico, e não de acumulação. • Ensino modula : um módulo co esponde à unidade de con eúdos e p á icas daquele semes e. A es udan e e o es udan e da SP Escola de Tea o equen am qua o módulos independen es em uma das linhas de es udo que compõe as a es do palco, cada um com a du ação de um semes e e iden i icado po uma co : e de, ama elo, azul e e melho. Assim, o na-se possí el cons ui aje ó ias indi iduais no p ocesso de ensino e ap endizagem, no qual a ques ão da acessibilidade, como já oi pon uado, o na-se um dos p incípios no eado es do sis ema pedagógico. Dessa o ma, o concei o de inclusão social é edimensionado. Em ge al, p essupõe-se que ELISABETH SILVA LOPES, IVAM CABRAL e JOAQUIM C. M. GAMA 47 as pessoas que es ejam o a de algum sis ema – seja de bem-es a social ou abundância econômica – necessi am se inco po adas po uma e cei a ou po um e cei o. Aquelas e aqueles supos amen e excluídas e excluídos podem se ans o ma , assim, em se es sem au onomia, ma ione es ine es, em uma elação de ansi i idade que ex apola seu pode de escolha singula . A SP Escola de Tea o p opõe subs i ui a noção de inclusão social po acessibilidade, em odos os nossos p oje os a ís icos e pedagógicos. E i a-se, assim, a obje i icação das pessoas, que p ecisa iam, po sua condição de op imida, op imido, excluída ou excluído do cí culo de opo unidades socioeconômicas, se em inse idas den o de algo, po o ças ex e nas alheias às suas condições exis enciais. Ao con á io, as pessoas de em se comp eendidas como se es a i os, que azem escolhas de aco do com os e i ó ios que almejam acessa , em ez de se conside adas obje os que p ecisam se incluídas po alguém. As pessoas em si uação de ulne abilidade social não p ecisam se inco po adas po agen es exógenos. Necessi am, sim, de um ambien e sociopolí ico que lhes p opo cione boas escolas, biblio ecas e espaços cul u ais, associados a in aes u u a e icien e, sis ema de saúde e emp ego (Aquiles; Cab al; Ga cía, 2018). Com es e p essupos o, o acesso à SP Escola de Tea o oco e po di e sas ias. Inicialmen e, um p ocesso que ga an a uma escola mul icul u al, habi ada po odos os pe is é nicos, polí icos, de gêne o, o ien ação sexual ou o igem socioeconômica. Em segundo luga , o acesso é ga an ido po meio dos cu sos g a ui os. Além disso, exis em bolsas de es udo que p o êm supo e pa a a é me ade das es udan es e dos es udan es. Sem a Bolsa-Opo unidade, uma g ande pa cela, o iunda de amílias economicamen e desp i ilegiadas, não e ia condições de a ca nem mesmo com o anspo e a é a escola. Finalmen e, um p og ama de in e câmbios in e nacionais ga an e o acesso a impo an es uni e sidades o a do B asil. A chamada “inclusão social” pode se elacionada a he anças de subo dinação colonial, como esc a idão, dogma ismo eligioso, in ole ância é nica, ganância DESCOLONIZAÇÃO DO CURRÍCULO NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM 48 pela iqueza ma e ial e pode polí ico, pa ia cado e he e ono ma i idade. Esses pad ões de subo dinação subes imam e minam alen os e capacidades indi iduais. Spi ak (1988) abo da a ques ão do chamado subal e no, e e indo-se à ação de encon a uma oz “den o e o a do ci cui o de iolência epis êmica da no ma impe ialis a e da educação” (p.283). Quando enxe gamos a acessibilidade como aje ó ias abe as pa a que qualque um possa iaja a é qualque e i ó io, a au onomia indi idual e o li e-a bí io se expandem, ao in és de se em limi ados po ba ei as econômicas, sociais, é nicas ou bio ísicas. Assim, o que se p opõe é uma no a abo dagem concei ual e p agmá ica, e não simplesmen e uma modi icação semân ica. O obje i o é p omo e o ala gamen o das discussões sob e esses alo es na sociedade. Con udo, isso de e se semp e en endido como uma a enida de mão dupla, pa a que se assegu e o diálogo. Com isso, a oca e a po osidade são componen es cen ais do sis ema pedagógico da Escola (Aquiles; Cab al; Ga cía, 2018). Uma igu a cen al no desen ol imen o da pedagogia da escola oi o geóg a o b asilei o Mil on San os (2009). Pa a ele, o e i ó io é a u ilização que os se es humanos azem do espaço geog á ico, e a o ma como se c iam as edes de elações no mesmo. A globalização, em seu pensamen o, de e se en endida como uma das dimensões da cons ução das elações sociais. Ao ala da “na u eza do espaço”, San os a i ma que es e (...) se impõe a a és das condições que ele o e ece pa a a p odução, pa a a ci culação, pa a a esidência, pa a a comunicação, pa a o exe cício da polí ica, pa a a exp essão das c enças, pa a o laze como condição do ‘ i e bem’. (San os, 2009, p.55) Le ando adian e essas ideias, um dos obje i os da escola é u iliza o ea o pa a ocupa e ans o ma o e i ó io. Po an o, en ende como o aze ea al, as a is as e os a is as podem in e agi nes e e i ó io é undamen al pa a de ini o p óp io p ocesso de ap endizagem das es udan es e dos es udan es. ELISABETH SILVA LOPES, IVAM CABRAL e JOAQUIM C. M. GAMA 49 Ou o p essupos o eó ico que em ap imo ado o cu ículo da Escola, na busca da descolonização do sabe e da hie a quia do conhecimen o, é a noção de “pedagogia da au onomia”, c iada pelo pedagogo b asilei o Paulo F ei e. Es e concei o é undamen al, pois e i a um olha colonizado sob e o p ocesso de c iação e ap endizagem ea al. Pa a as a is as e os a is as docen es, o in ui o não é ansmi i conhecimen os. An es, e sob e udo, há mui o o que ap ende com as jo ens e os jo ens es udan es. Assim, o eixo de nosso p ocesso pedagógico pode se esumido na ase de Paulo F ei e: Ninguém igno a udo. Ninguém sabe udo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós igno amos alguma coisa. Po isso ap endemos semp e. (F ei e, 1983, p.39) Desse modo, não exis e conhecimen o p é io ob iga ó io a se ensinado an es da p á ica. Ao con á io, o sabe é cons uído a pa i de expe iências eais; é cons uído a pa i de p oje os cênicos escolhidos odo semes e, e de e minados como pa âme os às es udan es e aos es udan es. Consequen emen e, a ap endizagem acon ece an o a pa i do singula quan os das conexões elacionais es abelecidas en e odas as en ol idas e odos os en ol idos no abalho a ís ico. O conhecimen o é compa ilhado de di e en es manei as, en e odas e odos que pa icipam do p ocesso de ensino e ap endizagem. Finalmen e, o e cei o p essupos o undamen al pa a a elabo ação do p oje o pedagógico da SP Escola de Tea o oi o concei o de ‘pensamen o sis êmico’ de F i jo Cap a, a pa i do con ex o, que é adicalmen e opos o ao pensamen o analí ico. Segundo o au o , (...) análise signi ica isola algo com o in ui o de en endê-lo; o pensamen o sis êmico signi ica coloca esse algo em um con ex o de um odo maio . (Cap a, 2000, p.41) DESCOLONIZAÇÃO DO CURRÍCULO NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM 50 Sua abo dagem sis êmica en a iza os p incípios de o ganização, em de imen o do uncionamen o de elemen os indi iduais. Como co olá io, es udan es são enco ajadas e enco ajados a expe imen a á ios p ocessos de ap endizagem, como pa e de um sis ema a iculado de pensamen o e ação. Dessa o ma, a Escola é semp e sensí el aos concei os de hib idação e cul u a poli alen e. O B asil em uma complexa o ma de in e agi , nega e disc imina hábi os sociais e linguís icos. Os b asilei os compa ilham, num mesmo e i ó io, ances alidades eu opeias, a icanas e ame índias. Mas isso não signi ica que essas pe spec i as cul u ais es ejam in eg adas, apaziguadas ou em diálogo. Ao con á io, olha-se mui o mais pa a a Eu opa do que pa a a p óp ia Amé ica La ina, quando se pensa em ea o ou na o ganização do pensamen o eó ico sob e as a es cênicas. São Paulo é uma cidade po oada an o po imig an es como po mig an es de ou as egiões do país. Ao se conside a os con ex os aqui ap esen ados, o na-se undamen al uma abo dagem pedagógica não hie á quica, dando igual alo às o igens e ca ac e ís icas singula es de odas e odos que i em e compa ilham o e i ó io b asilei o. Is o diz espei o especialmen e ao modo de p odução da educação ea al, que é ocada na c iação de no os ma e iais e e e ências (ou sua essigni icação), ao in és de acei a sem c í icas o cânone ociden al como um modelo e e encial e uni e sal. Po an o, o obje i o não é ep oduzi as “g andes” na a i as, nem eina as es udan es e os es udan es à exaus ão pa a dominá-las. Ao con á io, a in enção é c ia aje ó ias au o ais, e é po isso que odos os p oje os ea ais (Expe imen os) ap esen am d ama u gia o iginal desen ol ida pelas es udan es e pelos es udan es. Na SP Escola de Tea o não há ex os d ama ú gicos “clássicos” a se encenados pelas u mas de es udan es; em ez disso, o oco es á ol ado às pe spec i as da con empo aneidade. Assim como não há disciplinas acadêmicas a se em cu sadas, não há aulas no cu so écnico em ea o que se concen em na d ama u gia g ega, shakespea iana ou de Becke , po exemplo. No en an o, esses con eúdos podem se acessados como ma e iais de pesquisa ou como o icinas especiais nos ELISABETH SILVA LOPES, IVAM CABRAL e JOAQUIM C. M. GAMA 51 cu sos de ex ensão, mas nunca enquad ados como on e ex ual p imá ia pa a a encenação. A adição clássica é de in e esse cen al, apenas se e quando es i e associada a uma p opos a con empo ânea de mon agem. Como exemplo dessa pe spec i a, uma es udan e pode ia p ocu a mais in o mações a espei o de um d ama u go como Eu ípides ou Tchekho , pa a esc e e suas p óp ias peças. No en an o, esses au o es se i iam apenas como e e ência em e mos de p ocedimen o, con eúdo ou o ma. Es a abo dagem ai além do simples desman elamen o do cânone ea al al amen e eu ocên ico; em ez disso, ep esen a a oxigenação da p odução de no os concei os al e na i os e ma e iais ea ais. O mesmo se aplica a ou as e e ências. Na escola, o eó ico mais so is icado nos es udos pós-coloniais é ão impo an e quan o o a is a local, que é um d ama u go e in é p e e au odida a. As es udan es e os es udan es êm au onomia pa a decidi se seu desen ol imen o pessoal como a is as se á mais balizado po um ou ou o ipo de conhecimen o, ao longo do desen ol imen o de qualque p oje o especí ico (Aquiles; Cab al; Ga cía, 2018). Todo esse p ocesso o na signi ica i as noções como plu alidade e al e idade. Elas são is as como on es de ene gia e po encial c ia i o, bem como elemen os que queb am pa adigmas anac ônicos e p o ocam ans o mações sociocul u ais. Na SP Escola de Tea o, po exemplo, as es udan es e os es udan es lidam cons an emen e com ques ões como iden idade de gêne o e empode amen o social, de ido à conexão his ó ica da ins i uição com a comunidade ansexual e ma ginalizada da p aça Roose el (Cab al; Vázquez, 2016). Essas ques ões não es ão apon adas no cu ículo apenas como discussões ans e sais ao seu p ocesso de o mação. A p opos a é mais ampla, e é pa e cons i uin e dos emas que são le ados à cena, du an e os expe imen os cênicos desen ol idos pelas e pelos jo ens a is as dos cu sos. No p ocesso de pesquisa, du an e as in es igações cênicas e nas abe u as das salas de ensaio, as es udan es e os es udan es êm espaço pa a discu i ques ões de gêne o, aça e classe, apoiados em pe spec i as de au o as e au o es con empo âneos que êm se dedicados a e le i sob e esses emas. Também es ão em cena as expe iências pessoais que cada jo em DESCOLONIZAÇÃO DO CURRÍCULO NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM 52 ca ega consigo ou que o am i enciadas den o da p óp ia escola. Assim, não se a a de apenas descoloniza conhecimen os nem ampouco ans o ma a ques ão em emas de es udos. Ao con á io, a a-se de cons ui dia iamen e a i udes e posicionamen os que conduzam à i ência de pos u as an icoloniais, an i acismo e con a qualque p econcei o iden i á io. São expe iências que de em es a p esen es na es u u ação das p opos as pedagógicas e a ís icas da Escola, na condução do abalho de c iação e nas p opos as cênicas das es udan es e dos es udan es. Essas expe iências oco em de mui as manei as no co idiano da Escola. Elas es ão p esen es nas escolhas dos ma e iais didá icos, nas a is as con idadas e a is as con idados pa a as mesas de discussão e ó uns de deba es, nas elações es abelecidas en e os en ol idos no p ocesso de ensino e ap endizagem e, undamen almen e, no modo de es a e se pe cebe numa Escola plu al, ho izon al, que em in e esse pela pesquisa, pela ino ação e pela cons ução de elações in e pessoais saudá eis, pau as na polissemia de ozes e cul u as. Nesse sen ido, a escola busca di imi a dis ância en e comp eende eo icamen e os p opósi os da con i ência plu al e a ealização da ans o mação social pela A e e com o Tea o. Po meio de uma abo dagem pedagógica e a ís ica, que es á em cons an e e lexão, o desejo deixa de se um pa adigma concei ual e passa a se con igu a como o p imei o passo pa a a consolidação de uma p opos a de ap endizagem mú ua, cujas expe iências i idas no âmbi o da Escola e, po an o, du an e o p ocesso de c iação ea al, são capazes de edimensiona a ida humana, ampliando pe spec i as undadas em hie a quias aciais e descons uindo a sup emacia de uma de e minada cul u a sob e ou as cul u as e e i ó ios que endem a sepa a “nós”, “elas” e “eles”. Um álbum musical pa a ilumina alguns caminhos No segundo semes e de 2015, como semp e oco e na Escola, um g upo de a is as docen es es a am empenhadas e empenhados em de ini uma au o a con empo ânea pa a se i de base às discussões do módulo que i ia oco e em 2016. Jun amen e com es a escolha, esse g upo ambém busca a seleciona ELISABETH SILVA LOPES, IVAM CABRAL e JOAQUIM C. M. GAMA 53 ma e iais (imagens, ex os, ou ma é ias jo nalís icas) pa a inicia as pesquisas cênicas, bem como a eleição de uma a is a pedagoga pa a que as es udan es e os es udan es pudessem encon a na aje ó ia dessa a is a a inspi ação pa a as in es igações es é icas do semes e. Em ge al, essas discussões semp e le am em con a o que es á o bi ando en e as es udan es e os es udan es, e deco em ambém, mui as ezes, dos p oblemas encon ados nos abalhos de semes es an e io es. E acon eceu que, naquele momen o, segundo semes e de 2015, eio à ona um expe imen o cênico que ala a da mulhe , da ques ão do empode amen o, e da iolência; ainda uma iolência su il, po que acon ecia num casamen o em que o ma ido não que ia que a mulhe abalhasse o a, e insis ia, a odo cus o, que ela se o nasse dona de casa. Esse expe imen o oi bas an e con unden e, e apon a a pa a algumas ques ões que sabíamos que e iam que se ecupe adas em algum momen o. Em uma eunião pedagógica, J. C. Se oni, coo denado de Cenog a ia e Figu ino e Técnicas de Palco, ouxe a in o mação de que, em 2016, se ia comemo ado o cen ená io do samba. Hugo Possolo, coo denado de A uação, ez co o, dizendo que se ia in e essan e abalha com le as de samba. Imedia amen e, pe cebeu- se que as le as de samba, p incipalmen e dos mais an igos, aziam uma dose o e de machismo e in ole ância. Foi ine i á el lemb a do machismo de canções como “Ai! Que saudade da Amélia”, de A aul o Al es e Má io Lago: Você só pensa em luxo e iqueza / Tudo o que ocê ê, ocê que / Ai meu Deus que saudade da Amélia / Aquilo sim é que e a mulhe / Às ezes passa a ome ao meu lado / E acha a boni o não e o que come / E quando me ia con a iado / Dizia “meu ilho, o que se há de aze ?” / Amélia não inha a meno aidade / Amélia é que e a mulhe de e dade (1942). DESCOLONIZAÇÃO DO CURRÍCULO NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM 54 “Mulhe indiges a”, de Noel Rosa: Mas que mulhe indiges a / Me ece um ijolo na es a / Essa mulhe não namo a / Também não deixa mais ninguém namo a / (...) Ela é mais indiges a do que p a o / De salada de pepino à meia-noi e / Essa mulhe é ladina / Toma dinhei o, é a é chan agis a / A ancou- me ês den es de pla ina / E oi logo ende no den is a (1932). E “Emília”, de Wilson Ba is a e Ha oldo Lobo: Que o uma mulhe que saiba la a e cozinha / Que de manhã cedo me aco de na ho a de abalha / Só exis e uma / E sem ela eu não i o em paz/ Emília (1941). E, nessa eunião, mais uma ez o expe imen o do Módulo Ve melho, aquele da cena do casamen o, eio à baila. Po an o, e a undamen al se conec a com o nosso empo, com as ques ões que nossas es udan es e nossos es udan es inham apon ando. Em azão disso, a ideia de celeb a o cen ená io do samba pe deu o ça. Mas, naquele momen o, um CD azia bas an e sucesso en e as a is as e os a is as da Escola: “A mulhe do im do mundo” (2015)2, de Elza Soa es, p oduzido pelo selo Ci cus. Assim, a pa i daquele momen o, es a a escolhido o ma e ial de abalho. Fal a a, no en an o, de ini Ope ado e A is a Pedagogo. 2 O CD de Elza Soa es, com 11 canções, p oduzido po Guilhe me Kas up e E ns on Bönninghausen (o álbum é de músicas compos as, em sua maio ia, po homens b ancos), mis u a á ios gêne os musicais, como samba, ock, ap e ele ônica, com emas como iolência domés ica, ansexualidade, u banidade e acismo, en e ou os. Em 2016, o álbum ecebeu o p êmio G ammy La ino, na ca ego ia Álbum de Música Popula B asilei a. A icha écnica do CD eúne os seguin es composi o es: José Miguel Wisnik, Rômulo F óes, Alice Cou inho, Douglas Ge mano, Kiko Dinucci, Clima, Celso Sim, Joana Ba ossi, Fe nanda Diaman , Rod igo Campos, Cacá Machado, Ma celo Cab al e Albe o Tassina i. h ps://www.you ube.com/wa ch? =I38EcMJX8A8 ELISABETH SILVA LOPES, IVAM CABRAL e JOAQUIM C. M. GAMA 55 Com o CD “A mulhe do im do mundo”, oi p eciso busca e e ências eminis as que dialogassem com o nosso empo. Fo am dias pesquisando, indo a ás de e e ências, a é que chegou a nossas mãos o abalho da nige iana Chimamanda Ngozi Adichie, especialmen e um li o chamado “Sejamos odos eminis as” (2014), u o de uma con e ência ealizada pela undação no e-ame icana Sapling, na qual a esc i o a ap esen ou uma ideia pa a o eminismo do século 21, a pa i de suas expe iências pessoais, e de endeu a inclusão e consciência da mulhe na con empo aneidade. Nesse momen o, ambém ci cula a nas edes sociais Twi e e Facebook a hash ag #meup imei oassedio. Um mo imen o po in e médio do qual as mulhe es começa am a desc e e expe iências de assédios que ha iam so ido em suas idas. Assim, a pe spec i a con empo ânea de Chimamanda começa a a aze sen ido. En im, inha-se o Ma e ial de T abalho (o CD “A mulhe do im do mundo”3) e o Ope ado (o li o “Sejamos odos eminis as”); mas ainda e a necessá io busca a A is a Pedagoga, alguém que pon uasse o diálogo en e esses dois luga es. E a p eciso de ini quem se ia essa a is a. Tínhamos, de an emão, uma única ce eza: de e ia se uma mulhe . O nome da a iz, encenado a e d ama u ga espanhola Angélica Liddell imedia amen e oi lemb ado e de inido. Angélica é uma das g andes ozes emininas na esc i a ea al con empo ânea. Ela inha indo ao B asil em 2014, du an e a Mos a In e nacional de Tea o de São Paulo (MITsp), pa a ap esen a a pe o mance “Eu não sou boni a” – um abalho con essional sob e um abuso sexual que ha ia so ido. 3 As canções des e CD azem uma d ama u gia sono a que ai do samba ao ock, passando pelo ap, ele ônico e punk ock. Uma a iedade mui o ampla pa a as in es igações cênicas das es udan es e dos es udan es. Elza Soa es é uma mulhe neg a, de 80 anos, com uma his ó ia de ida cu iosa e que pa ecia me ece um olha mais a en o. De amília pob e, Elza i eu na pe i e ia do Rio de Janei o, oi mãe aos 14 anos, e, p ecisando da con a da ma e nidade, começou a can a nessa época, quando pa icipou do p og ama de A y Ba oso na Rádio Tupi. Aos 15 anos, já inha sido mãe pela segunda ez e pe dido os dois ilhos, e o ma ido adoece a de ube culose. Viú a aos 21 anos, com cinco ilhos, abalhou como emp egada domés ica e axinei a. No início dos anos 1960, en im, o nou-se conhecida e, após qua o elacionamen os, en ol eu-se com o jogado de u ebol Ga incha. Te e que en en a odos os ipos de p econcei o po se pob e, neg a e mulhe . DESCOLONIZAÇÃO DO CURRÍCULO NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM 62 JORGE PALINHOS O p oje o conseguiu ob e inanciamen o eu opeu pa a a sua conc e ização e, g aças a isso, ealizou uma sé ie de inicia i as locais em cada uma das á eas en ol idas, que deco iam den o de um p ocesso con ínuo de in e câmbio com as ou as companhias, e i ia e mina com uma pa ada in e nacional no co ação da União Eu opeia, em B uxelas, às po as do Pa lamen o Eu opeu. Nes a a iculação en e companhias e egiões, o p oje o p ocu a a conjuga duas dimensões apa en emen e con adi ó ias: uma dimensão local, em que cada companhia abalha a com uma comunidade local especí ica, e uma dimensão in e nacional, em que se es abeleciam pon os de con ac o en e os di e sos países, companhias, comunidades e aspi ações. Com es a apa en e con adição o p oje o acaba a po econhece ambém a na u eza pa adoxal do p óp io p oje o eu opeu, que p ocu a enquad a di e en es comunidades, com iden idades, cul u as e his ó ias mui o di e sas, den o de um âmbi o mul inacional e a é con inen al. Adicionalmen e, o Reclaim he Fu u e p ocu a a ambém a icula uma dimensão social da a e com as p eocupações a ís icas he e ogéneas das á ias en idades a ís icas en ol idas, na sua elação com as múl iplas ealidades sociais de países ão di e en es como a Suécia, a Escócia, a F ança, a Li uânia e Po ugal. É jus amen e nes e pon o que i á incidi o p esen e abalho, que p ocu a desc e e o p ocesso a ís ico, a sua elação com a sociedade en ol en e, as opções omadas e alguns dos esul ados. I ei oca -me p incipalmen e sob e um dos e en os des e p oje o, a Pa ada Desa ada, que se ealizou na cidade do Po o em Julho de 2017. I ei iden i ica como es e p oje o en ou in e i socialmen e numa comunidade segundo uma pe spe i a a ís ica e pa a an o i ei apoia -me nos abalhos sob e p á ica social de Shannon Jackson (2011) e Clai e Bishop (2012), na o ma como es a p ocu am mapea , e c i ica , o c escen e papel di e o dos a is as nas elações sociais. Nes e ex o p ocu a ei da con a do p ocesso, escolhas e esul ados da e en e po uguesa desse p oje o, lide ada pela companhia Visões Ú eis. Em p imei o luga , i ei desc e e o his o ial do p oje o in e nacional, o p ocesso de cons ução 63 ENCENAR A VIZINHANÇA e as suas di e en es aces no que diz espei o à sua implemen ação na eguesia de Campanhã. Em seguida p ocu a ei da con a de di e en es isões e p opos as no que diz espei o ao papel des e ipo de in e enção a ís ico-social, as suas po encialidades e di iculdades ou p oblemas, e en a ei conclui p ocu ando a alia os esul ados p á icos do mesmo no con ex o social em que o mesmo deco eu em Po ugal. A e e Sociedade A dimensão social da a e é cada ez mais deba ida na a ualidade, sendo um assun o con o e so. Es a dimensão con e e um u ili a ismo à a e que é ejei ada po aqueles que de endem o p incípio da au onomia da a e, enquan o campo de expe imen ação da écnica e de libe dade de exp essão do p óp io a is a, mas de endida po eó icos e a is as apologis as da he e onomia da a e e o seu papel enquan o in e enien e e ans o mado a da ealidade social, o que ambém esponsabiliza a a e enquan o campo con ibu i o pa a a expe iência social humana. Não i ei deba e nes e a igo ambas as abo dagens, embo a seja ine i á el ponde á-las pa a aze o es udo de caso de um p oje o de in e enção a ís ica que me p oponho, is o que uma p á ica social da a e ge a opções es é icas e polí icas que a e am an o a ob a de a e como a sociedade que com ela se en ol e. Como de inição de p á ica social soco o-me da de inição de Shannon Jackson, de que uma p á ica social é uma in e enção a ís ica que ge a e lexão sob e as in aes u u as de supo e an o de obje os es é icos como de se es i os (2011, p.39). E o p oje o Reclaim he Fu u e, e nomeadamen e a Pa ada Desa ada, endo como pon o de pa ida uma inicia i a de a is as na elação com comunidades ma ginalizadas, pa ece enquad a -se nes a de inição. Apesa da ab angência de al desc ição, que pode engloba uma quan idade bas an e g ande de p á icas a ís icas, ambém pe mi e sus en a o lado he e onómico de ce as ob as de a e sem lhes impo o ma os ou ideologias. 64 Toda ia, é indesmen í el que uma p á ica social e li a uma ideologia, an o nos seus p incípios es é icos como na o ma como e le e sob e a in aes u u a do p óp io obje o es é ico ou sob e as idas humanas que en ol e. Tal e lexão pode passa an o pela elação do a is a com as pessoas e ma e iais não-a ís icos en ol idos na o ma como es es são ap esen ados na ob a de a e e como in luem na sua conceção ou execução. De ac o, o en ol imen o de não-a is as não é legi imado da ob a de a e nem de qualque ei indicação de ealidade, mas pelo con á io o ça a ob a de a e a conside a uma dimensão não-a ís ica e não- écnica de como es á a in lui na ealidade e como es a a ec a a p óp ia p odução da ob a de a e e, em úl imo caso, que ep esen ação da ealidade es á a cons ui , com base no uso dos ma e iais da p óp ia ealidade. His o ial do p oje o Reclaim he Fu u e O p oje o in e nacional Reclaim he Fu u e e e a sua génese num p oje o an e io in i ulado PACE – Pe o ming A s o C isis in Eu ope, o iginalmen e concebido como um g upo de e lexão em o no do impac o da c ise económica de 2008 e cons i uído po companhias de a es pe o ma i as de á ios países eu opeus, que se p opunham discu i o mas a ís icas de lida com essa mesma c ise. A pla a o ma de e lexão g adualmen e começou a p ocu a o mas de le a à p á ica as suas ideias, es abelecendo um p oje o consis en e que pudesse se implemen ado no e eno. Es a busca e e como p imei a o ma o p oje o “Cul u al Rese a ion”, cujo p incipal p opósi o e a a p omoção das ca ei as de jo ens a is as. Toda ia al e são inicial i ia e olui pa a o p oje o “Seeds”, mais amplo e ambicioso, que p e endia omen a o dinamismo a ís ico de g upos he e ogéneos de pessoas, desde jo ens a is as a é g upos amado es de ea o, cidadãos ma ginalizados ou mesmo in es igado es, a im de p omo e no os âmbi os a ís icos, numa lógica de coope ação e inclusão que não echasse o p oje o à simples alo ização a ís ica, mas que incen i asse a alo ização social a a és da a e. JORGE PALINHOS 65 O decu so p á ico da elabo ação da candida u a a undos eu opeus, a en ada e saída de en idades pa icipan es, bem como a cons an e e olução do pensamen o sob e o p oje o ize am com que “Seeds” se ans o masse em “Reclaim he Fu u e – Nomadic Ca ni als o Change”, o p oje o com que o conjun o de companhias inalmen e ob e e apoio eu opeu pa a emp eende a sua expe iência a ís ico-social. Es e no o p oje o su gia da con inuidade de que e emp eende a i idades que p omo essem maio inclusão social e elação en e as a es e a mudança social, e o in e esse da companhia líde do p oje o, Thea e maskinen, em explo a a ideia do des ile de Ca na al como momen o dis up i o do sis ema social es abelecido, que se pudesse cons i ui como oco pa a o desejo de ans o mação social, pela simbologia de união, libe dade social e inclusão da di e ença. Tal in e esse elaciona a-se ambém com o ac o de a companhia na al u a es a a explo a a écnica do bu ão, em a iculação com o a is a Al edo Angelici. O bu ão, a igu a de ea o medie al associada à ideia da i acionalidade, da libe dade, da explosão dos sen idos, ep esen a a ambém, pa a a men alidade medie al, a ideia do mundo in e ido, em que os mais ma ginalizados da sociedade podiam ques iona a o dem e o pode es abelecidos, e elando ou o lado do eal: o g o esco, o dis o me, mas ambém aquilo que há de ma e ial e obscu o na p óp ia exis ência, que em ez de se ma ginalizada pa a as anjas da sociedade, inha a opo unidade de se azida pa a a p aça cen al da comunidade. Desse modo, o ca na al p opos o, na o ma de pa ada, inha como ideia base a sub e são da o dem de pode es abelecida na Eu opa, usando a igu a do des ile ca na alesco como o ma de in e pela esse mesmo pode e ap oxima dele comunidades ma ginais e des a o ecidas, que pudessem mos a -se na sua ealidade, a i ando as p óp ias comunidades nas suas expe a i as e ambições, e mos ando-lhes o po encial que inham de se ap esen a ao pode . Mesmo podendo não se delibe ado, pela ligação ao ca na al, o p oje o pa ecia demons a a inidades com o Tea o O icina de São Paulo. Es a companhia, uma ENCENAR A VIZINHANÇA 66 das mais an igas companhias de ea o b asilei as ainda em a i idade, lide ada pelo encenado Zé Celso, usa o des ile de ca na al como ma iz d ama ú gica do seu ea o com o in ui o de encon a modos de libe a os seus espec ado es da acionalidade di a apolínea e p omo e uma lógica de comunhão do g upo, dissol endo os limi es da iden idade indi idual e expandindo o conhecimen o dos sen idos pa a lá da azão ins i uída. Es e pa ecia se o concei o subjacen e ao p oje o Reclaim he Fu u e, e desse modo o des ile ca na alesco cons i uía-se como hipó ese pa a um “ u u o pa ilhado”, de sub e são do pode cen al e celeb ação do comunal, na sua junção de companhias e egiões da anja se en ional da Eu opa, unidas pela sua noção de pe i e ia, de es a e de igualdade. A companhia líde do p oje o e a a Thea e maskinen, uma companhia sueca sedeada nas lo es as de Ridda hy an, uma an iga egião minei a que a ualmen e se econ e eu num des ino de laze ecológico e ese a da Na u eza. A sua a i idade cen a-se em p oje os comuni á ios, educa i os e de coope ação in e nacional, acolhendo di e sas esidências a ís icas. As es an es companhias e am Visões Ú eis, na qual es e a igo se oca, uma companhia de ea o sedeada no Po o, uma an iga cidade indus ial em p ocesso de econ e são em des ino u ís ico pa imonial e de e en os. A companhia cen a-se p imo dialmen e em p oduções de ea o de ex o o iginal, com o e engajamen o polí ico, in e caladas com pe o mances de âmbi o mais expe imen al e um c escen e in e esse na p á ica social. Ru al Na ions, sedeada em S o noway, nas Héb idas Ex e io es, na Escócia, uma zona o emen e ag á ia e de laze na u al, cons i ui-se como uma pla a o ma mul ia es de dinamização cul u al, pe o ma i a e cinema og á ica. Di y Deal Tea o é uma companhia de ea o independen e sedeada em Riga, na Le ónia, um an igo país da es e a so ié ica em p ocesso de ociden alização. A companhia é o emen e in es ida na ino ação es é ica e no omen o de jo ens c iado es, e cen ada an es de udo no o ma o do palco. Compagnie des Me s du No d es á sedeada em Dunque que, uma an iga JORGE PALINHOS 67 zona de indús ia pesada a econ e e -se às no as ecnologias e aos se iços. A companhia é ocacionada pa a a d ama u gia de ex o o iginal e o omen o de no os públicos. São, po an o, na sua globalidade companhias bas an e di e en es, maio i a iamen e sedeadas em locais pe i é icos – com a exceção de Di y Deal Tea o, si uada na capi al – mas unidas po se encon a em em paisagens humanas e geog á icas de inidas pelo abandono da indus ialização e econ e são em se iços e ou as a i idades ípicas da e a pós-indus ial que pe passa pelo mundo ociden al, em que os cole i os de abalhado es se desag egam em indi íduos que se iden i icam como emp eendedo es ou abalhado es libe ais, a i e em si uações de p eca iedade económica, mas que buscam abalhos socialmen e e pessoalmen e sa is a ó ios, que pe mi am uma u opia de ealização pessoal, numa al u a em que as u opias cole i as pa ecem e desapa ecido do ho izon e das expe a i as de ida. A conc e ização do Reclaim he Fu u e O p oje o, na sua globalidade, deco eu en e Junho de 2017 e Junho de 2018, da as escolhidas pa a coincidi em com o sols ício as onómico, um pode oso símbolo mís ico e cul u al da eno ação e do enascimen o, mas ambém egula men e associado às es as popula es, de que são exemplo as Fes as de São João que acon ecem em á ias localidades do no e de Po ugal. Cada uma das en idades en ol idas icou incumbida de o ganiza di e sas inicia i as locais (o icinas, con e ências, espec áculos) em a iculação com a comunidade, de que a ace a mais isí el se ia uma pa ada em cada egião, que jun a ia o ças e comunidades locais. O i o de pa ida do mesmo oi dado em Ridda hy an, na Suécia, pelo Thea e maskinen, com uma pa ada que deco eu nos bosques em o no daquela localidade. Seguiu-se o des ile Pa ada Desa ada, em Campanhã, p omo ido po Visões Ú eis, depois em Riga, na Le ónia, pelo Damn Deal Thea e, nas Héb idas Ex e io es, na Escócia, pelo Ru al Thea e, em Dunque que, na F ança, ENCENAR A VIZINHANÇA 68 pela Compagnie do Me du No d, e inalmen e em B uxelas, no des ile inal, ealizado em pa ce ia com o cen o de o mação a ís ica b uxelense, CIFAS. Nessa úl ima pa ada, in e nacional, os pa icipan es ize am uma ma cha len a, em á ias e apas, e com á ias pe o mances, que e minou no Pa lamen o Eu opeu como sinal da chegada da pe i e ia ao cen o do pode , do local à sede do in e nacional, daqueles que es ão sujei os à suas ci cuns âncias sociais a ba e à po a dos que podem in lui decisi amen e nas ci cuns âncias da sociedade. Embo a osse de g ande in e esse pode analisa odos os des iles e o seu esul ado inal, e o p oje o con emplasse, inclusi amen e, o acompanhamen o dos in es igado es Michael Gus a sson e Ma s Hy önen ao longo das suas e apas, a im de o pode em u iliza como ala anca de pesquisas e conhecimen os, a é ao momen o desconheço se exis e algum esul ado publicado dessa in es igação, e só me oi possí el acompanha de pe o um desses des iles, pelo que me i ei oca nele enquan o exemplo de um p oje o de in e enção social de p oximidade. Salien o que no âmbi o des a e apa no Po o, i e ambém um pequeno papel de colabo ação em o ganiza um encon o de deba e sob e o papel da a e na in e enção social, in i ulado “Da mesma laia: con e sas e emba aços sob e a e e comunidade”. Nesse encon o2, que acon eceu a 13 de Julho de 2017, no Mi a Fó um, em Campanhã, pa icipa am in es igado es de cen os de in es igação de cul u a e sociedade, a is as a dinamiza p oje os sociais, assis en es sociais e an igos pa icipan es desses p oje os de in e enção social. Es i e am ainda p esen es os a is as das á ias companhias en ol idas, bem como os in es igado es no uegueses e inlandeses que es a am a acompanha o p oje o, além de algum público. Foi um colóquio que p e endeu omen a a e lexão em o no do p óp io p oje o Reclaim he u u e e ajudou a con ex ualiza as suas possibilidades segundo di e en es pe spe i as, con ando com a in e enção dos sociólogos Albe ino Gonçal es (Uni e sidade do Minho) e Cláudia 2 É possí el assis i a pa e do egis o ídeo desse encon o em: h ps://www.you ube.com/wa ch? =yZoGk8maE g JORGE PALINHOS 69 Pa o de Ca alho (Uni e sidade de Coimb a), a is as e in es igado es, como Ma a Lei ão (ESMAE e Uni e sidade de A ei o), Joana B aga (ISCTE-IUL e Baldio), Sónia Passos (ESMAE), e a is as como a encenado a A eLina Pé ez, o músico Lino Mo ei a e o baila ino B uno Dias, es es úl imos ambém enquan o pa icipan es em p oje os de in e enção a ís ica em zonas ca enciadas. Es a pa ilha de expe iências apon ou á ias pis as e possibilidades da A e e comunidade que con ibuí am pa a o pensamen o em o no des e a igo. Da inicia i a po uguesa cons ou ainda um p ocesso de in e câmbio en e companhias, em que a companhia Visões Ú eis ap esen ou a ins alação pe o ma i a “C’es Tou ”, baseada numa ob a o iginal da companhia Tea e maskinen, e es a companhia ap esen ou “ ans/mission”, que adap a a uma ob a o iginal da companhia Visões Ú eis. Es e oi um p ocesso de con aminação a ís ico, mas que não e e in e enção social. De menciona ainda ou as inicia i as, como um p oje o de ca og a ia social, uma expe iência de geo e e enciação em São Vicen e de Paulo e ainda o documen á io Reclaim he Fu u e/Exige o Fu u o, sob e o p oje o, ealizado po Nuno San os, Sa a Allen e Alexand a Allen3, e ainda o li o Ficou udo ao deus-da á, de Má cia And ade, que compila memó ias de an igos habi an es do Bai o de São Vicen e de Paulo, bem como um wo kshop de Pe o mance em Comunidade que deco e ia pos e io men e. De odas es as inicia i as i ei abo da apenas a Pa ada Desa ada, que deco eu em Campanhã, sob a di eção de Inês de Ca alho. A Pa ada Desa ada Em elação à Pa ada Desa ada, o e en o cen al e aquele que maio exp imia a ligação à comunidade, es a deco eu com a pa ce ia do P oje o Cul u a em Expansão, da Câma a Municipal do Po o e en ol eu a Jun a de F eguesia de 3 Disponí el em: h ps:// imeo.com/264895491 ENCENAR A VIZINHANÇA 70 Campanhã, a gale ia de a e Mi a Fó um, a associação cul u al e ec ea i a Malmeque es da Noêda e o seu g upo de danças u banas MK, o espaço cul u al Po o d'A es, o es údio de dança Belly S udio, Associação ecológica Te a Sol a, a O ques a Comuni á ia Mundo em Campanhã/Te a Sol a, Ce ca - e E6G, “E a uma ez ea o”, da Associação Po uguesa de Pa alisia Ce eb al, “Rugas de Exp essão” G upo de Tea o da Associação Bené ica e P e iden e / Casa das Glicínias; Ba ucada Radical, Gimnoce co do Po o, Mo ado es da T a essa do Mon e da Bela, No e ida, Con umil / Sine gias e Associação Columbó ila In ic a, IEFP – Cen o de Fo mação do Ce co, Cen o Social e Pa oquial Nossa Senho a do Cal á io. Todas es as são cole i idades sedeadas em Campanhã e com uma o e a iculação e en osamen o com as populações locais, algumas das quais p ocu am já u iliza p á icas a ís icas como o ma de omen o cul u al e social, ou as anco adas em p oje os de o mação, de abalho ou dinamização de populações ca enciadas. Mas o ecu so a es as cole i idades pa ece aduzi uma on ade de mobilização da população que passe pelos se o es mais a i os dessa. E iden emen e, pa a a sua pa icipação na Pa ada hou e odo um p ocesso p epa a ó io de á ios meses, que en a ei esumi em seguida. Após a iden i icação e con ac o e es abelecimen o das pa ce ias com es as en idades, ealiza am-se á ias o icinas lide adas po Inês de Ca alho, com o apoio de ou os colabo ado es. O concei o p incipal des as o icinas e a “linhas com que se cose uma comunidade”, e o obje i o e a o de iden i ica e mapea os ios sociais e de imaginá io que pudessem uni odas es as en idades locais a im de os usa como undamen o da Pa ada e e o çá-los. Uma dessas o icinas e a a das Fo os do Fu u o, em que cada pa icipan e e a o og a ado com uma a dósia onde ha ia esc i o o que que ia le a pa a o u u o ou o que deseja a pa a es e, o og a ias essas que não só se i am de base pa a as in e enções locais em Campanhã, como depois o am usadas pa a uma exposição em Halles Sain - Ge y, em B uxelas, já na e a inal do p oje o. Toda ia, nes e p ocesso, e i icou-se que, apesa da p oximidade geog á ica e JORGE PALINHOS 71 u bana, a maio ia des as en idades man inha pouco con ac o e a iculação en e si, uncionando an es como uni e sos au ónomos, cen ados na sua p óp ia comunidade p óxima e nas a i idades que desen ol iam. Desse modo, um abalho impo an e, e possi elmen e um esul ado bas an e ele an e des a inicia i a, oi o es abelece de pon es de con ac o en e algumas das cole i idades mencionadas a ás, que pude am assim e a opo unidade de es abelece pa ce ias de u u o. Ou a das p imei as o icinas do p oje o cen ou-se em explo a possibilidades pa a o des ile, en e an o in i ulado “Pa ada Desa ada”, pa a p opo ciona aos pa icipan es an o uma ideia da libe dade ca na alesca que se p ocu a a, como ab i o espaço pa a deba e as ais linhas in isí eis que se p e endia que pudessem uni a zona u bana. Hou e ainda uma segunda o icina cen ada em con e i capacidades de conceção e p odução às di e en es en idades. O concei o cen al da pa ada e a a ejeição de uma imposição hie á quica em que os a is as di igissem os não- a is as, mas acul a a cada cole i idade a possibilidade de desen ol e a sua au onomia a ís ica, an o p opo cionando-lhes e amen as a ís icas que al ez não de i essem, como con e indo-lhes a capacidade de decidi em aquilo que p e endiam ap esen a den o da d ama u gia global da pa ada. A e cei a o icina, de in e nacionalização, p opo cionou às á ias en idades locais a possibilidades de conhece em e in e agi em com ep esen an es dos pa cei os in e nacionais, a im de c ia em laços en e di e en es pe i e ias eu opeias e ganhando uma mais cla a consciência da dimensão eu opeia do e en o, que e a ambém um dos obje i os do apoio eu opeu a es e. A qua a o icina oi uma o icina de bu ões, o ien ada po Ana Aze edo. A écnica do bu ão inha sido escolhida pa a se comum a odas as pa adas, não só pela associação do bu ão à dimensão ca na alesca do des ile, como po ep esen a a sub e são da o dem apolínea social, e a libe dade das pulsões humanas con a as con enções sociais e polí icas. Se ia ambém um dos elemen os a ís icos comuns a odas as pa adas, que con e issem iden idade ao p oje o in e nacional. ENCENAR A VIZINHANÇA 78 cada cole i idade, mas sub ilmen e omen ou a ideia de cole i o como sendo do ada de capacidade pa a ans o ma o empo u ópico do u u o a a és de uma ação comum e conscien e, assen e nas aspi ações indi iduais, e ambém no po encial do g upo. A p opos a de comunidade que o p oje o suge ia segue em con aco en e com ideias mais ecen es de comunidade, p oje ando-se num ideal de ha monia possí el en e o g upo e o indi íduo, que não chega a a se ques ionado. A p óp ia elação en e o abalho a ís ico e a elação social não e a ques ionado, mas na u alizado, es abelecendo-se um p olongamen o en e écnicas a ís icas como o bu ão e o can o lí ico, com p á icas comuni á ias e sociais como as danças u banas e é nicas, o ado popula , a columbo ilia, e c. Nesse aspe o, mesmo sem ques iona essas elações, o p oje o ambém não cai naquilo que é a p incipal c í ica de Clai e Bishop (2012, p.219) às p á icas sociais, de se em um ou sou cing de au en icidade, is o é, de delega em em e cei os um simulac o de eal e hones idade que con i a legi imidade ao papel do a is a. Is o po que a in e enção a ís ica des ina-se jus amen e a po encia e e le i a na u eza do social, omen ando ainda a au onomia cole i a e a au o ep esen ação ins i ucional do cole i o. Nes e a igo p ocu ei desc e e e ap esen a uma sé ie de e lexões sob e um p oje o de in e enção comuni á ia numa eguesia em Po ugal, a Pa ada Desa ada, do Visões Ú eis, enquad ado den o do p oje o eu opeu “Reclaim he u u e”, um p oje o que na egou de o ma conscien e en e as a madilhas da con ingência social e da con ingência es é ica, que não sendo capaz de escapa a limi es ela i amen e ins i uídos de concei o de comunidade, sem dú ida le an ou á ias ques ões sob e a elação en e a a e e a comunidade, e ainda dú idas e possibilidades sob e a p óp ia na u eza e possibilidades do que é a comunidade hoje e de que caminhos de u u o pode á i a pe co e . Ag adecimen os Es e abalho é inanciado po undos nacionais a a és da FCT – Fundação pa a a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbi o do p oje o UIDB/04041/2020 JORGE PALINHOS 79 Re e ências bibliog á icas BISHOP, Clai (2012). A i icial Hells: Pa icipa o y A and he Poli ics o Spec a o ship. London: Ve so. CAPANI, El on; TOTTA, En uela H. (s/d). Reclaim he Fu u e (Documen á io). h ps:// imeo. com/308821945 (Acedido a 10 de Maio de 2020). HOBSBAWN, E ic; RANGER, Te ence (ed.) (2012). The In en ion o T adi ion. Camb idge: Camb idge Uni e si y P ess. JACKSON, Shi ley (2011). Social Wo ks: Pe o ming A , Suppo ing Publics. London: Rou ledge. NANCY, Jean-Luc (2014). La Communau é Désa ouée. Pa is: Galilée. SANTOS, Nuno; ALLEN, Sa a; ALLEN, Alexand a (2017). Exige o Fu u o / Reclaim he u u e. h ps:// imeo.com/264895491 (Acedido a 10 de Maio de 2020). Visões Ú eis – Exige o Fu u o (p og ama online) h p:// isoesu eis.p /p /c iacoes/i em/1922-exige-o- u u o-/- eclaim- he- u u e (Acedido a 10 de Maio de 2020). ENCENAR A VIZINHANÇA 80 81 O TEATRO NÃO CHEGA? UMA REFLEXÃO SOBRE ARTE, INCLUSÃO E TRANSFORMAÇÃO POLÍTICA JOSÉ SOEIRO 1. Inclusão, Exclusão, T ans o mação Há ce amen e á ias dimensões que in e pelam um olha c í ico sob e o papel da a e em p ocessos de pa icipação e sob e o impac o que as p á icas de c iação a ís ica podem e no comba e às múl iplas o mas de desigualdade, de op essão e de exclusão. Na o igem des a e lexão que a Luísa Pin o suge iu que pa ilhasse no colóquio “A e Inclusi a? Quem inclui quem?”, ealizado no Po o, es ão pelo menos ês inquie ações. A p imei a p ende-se com o ca á e p oblemá ico do p óp io concei o de inclusão. In ocada de o ma quase indisc iminada, a p eocupação com a “inclusão” – na economia, na sociedade, na educação, na cul u a, na a e... – pa ece cons i ui uma espécie de consenso social, um p essupos o que não se ia polémico ou obje o de dispu a, assumindo-se an es como um obje i o la gamen e pa ilhado, a pa i do qual se discu i ia mas que não es a ia, em si mesmo, em deba e. O a, como em sido assinalado, o pa adigma da “inclusão” na análise sociológica a i mou-se pelo ac o de en a iza , po um lado, a na u eza mul idimensional dos p ocessos de exclusão – mui o pa a além das dimensões ma e iais ap eendidas a a és da ca ego ia da “pob eza”, po exemplo, ou das dimensões económicas associadas à ca ego ia de “explo ação” – e, po ou o, 82 JOSÉ SOEIRO po acen ua a na u eza p ocessual dessas dinâmicas. No en an o, ao insis i na necessidade de econs ui o “elo social” e ao con oca as p á icas a ís icas pa a o p opósi o de “ aze sociedade”, o discu so da inclusão co e o isco de elega pa a segundo plano um olha a pa i do con li o en e “excluídos” e “excluido es” e de, assim, sub alo iza o desígnio de “ ans o ma a sociedade”, essa mesma que “exclui incluindo” (Ga nie , 1998, pp.77-80). Não po acaso, a in lação e ó ica em o no da “inclusão” pôde con i e , nas úl imas décadas, com o ag a amen o da desigualdade. Essa “ideologia da inclusão”, pa a usa os emos de José Albe o Co eia (2003), pode ia assim con ibui , mais conscien e ou inconscien emen e, pa a uma “despoli ização” e “pedagogização dos p oblemas sociais e, consequen emen e, pa a o e o ço das pe spec i as compo amen alis as e psicologizan es da p oblemá ica da desigualdade e da injus iça social”, p omo endo uma “cul u a da ole ância, suscep í el de espei a a di e ença, mas ocul ando o ac o de es a se , ge almen e, uma exp essão de uma p o unda desigualdade e injus iça social” (Co eia, 2003, p.46). Em segundo luga , pa ece se impossí el pensa es as p á icas a ís icas sem as si ua no con ex o em que oco em e sem as insc e e no ema anhado de elações que as a a essam. Se não i e mos da a e uma concepção que a en ende como uma es e a o almen e sepa ada da ida, uma espécie de zona au ónoma imune às elações de pode que es u u am o mundo social, en ão o p oblema da elação en e “a e e inclusão” con oca ambém uma e lexão sob e as possibilidades eais de ans o mação de um mundo em que a desigualdade e a exclusão, longe de se em uma exceção ou uma exc escência do sis ema, se encon am insc i as no âmago das suas lógicas de ep odução. Is o é, con ida-nos a e oma o deba e sob e a capacidade de a a e in e e i e con a ia p ocessos de exclusão que se si uam na lógica ín ima de uncionamen o do sis ema ou, se quise mos dize de ou a o ma, con on a-nos com a ques ão de sabe a é que pon o a a e pode se inclusi a num mundo que não o é. Po udo is o, e em e cei o luga , a e lexão que se p e ende pa ilha pa e de um desassossego que assal a p o a elmen e odos e odas aquelas que se en ol e am 83 O TEATRO NÃO CHEGA? já nes es p ocessos a ís icos e que p ocu am pensa quais os seus impac os eais: a ques ão da con inuidade des as p á icas e das elações que elas es abelecem com ou os epe ó ios de lu a e com ou os p ocessos de ans o mação social que es ão, necessa iamen e, aquém e além dos p óp ios momen os, p oje os, inicia i as e p ocessos c ia i os. Fá-lo-emos a pa i da expe iência com o Tea o do Op imido (TO) e pa indo de uma ideia que nos pa ece cen al na p opos a do seu c iado , Augus o Boal: a de que o ea o não chega. Ou seja, a hipó ese de que, a ando-se o Tea o do Op imido de um “ensaio” da ans o mação, ele é semp e um p ocesso que eclama a ação o a de si p óp io. 2. Boal e a incomple ude pe manen e de um p oje o a ís ico Uma das azões pelas quais o Tea o do Op imido pode se um luga in e essan e a pa i do qual pensa o po encial e as limi ações das p á icas a ís icas que se que em in e enien es e ans o mado as é pela audácia e ambição (ainda que equen emen e i ealizadas) com que Boal o mula o seu p oje o poé ico- polí ico. A p imei a o ma como pode íamos pensa a “inclusão” no Tea o do Op imido é a de inição des e como uma linguagem uni e sal que odos os se es humanos já possuem: (...) mesmo quando inconscien es, as elações humanas são es u u adas em o ma ea al: o uso do espaço, a linguagem do co po, a escolha das pala as e a modulação das ozes, o con on o de ideias e paixões, udo que azemos no palco azemos semp e em nossas idas: nós somos ea o! (Boal, 2019, p.420) Es e “Tea o Essencial” an ecede assim o “ aze ea al” como um o ício especializado dos a o es (San os, 2015). Um pouco à manei a de Jaco o , o pedagogo cujas lições o am e omadas po Ranciè e (2010), e ce amen e inspi ado em Paulo F ei e (2018), pa a Boal o conhecimen o do ea o como linguagem não é an o um obje i o da ação cul u al, mas sim um p essupos o. Is o 84 é, cons i uiu algo que já lá es á e que se a a de abalha pa a, ao mesmo empo, “des amiliza iza ”, “desmecaniza ” e o na conscien e. Po isso mesmo, o Tea o do Op imido pa e de duas hipó eses cen ais: a de que “ oda a gen e pode aze ea o, a é os a o es” (Boal, 2008, p.ix) e a de que é p eciso “de ol e ao po o os meios de p odução ea al”. É a pa i des as hipó eses que Boal ques iona á a di isão social do abalho que, no ea o, a ibui a uns o monopólio da ação (os a o es) e a ou os a condição de obse ado es do que acon ece no “espaço es é ico” (os espec ado es). Pa a supe a essa di isão, que exis e an o no ea o quan o na sociedade, Boal p opõe que se ein en e o p óp io disposi i o ea al, ompendo a qua a pa ede que sepa a “palco” e “pla eia”. A ca ego ia de espec -a o es assen a ia na possibilidade de, num p ocesso e num e en o ea al, odos os p esen es combina em a obse ação dos con li os ea ais com a capacidade de ans o ma em esses mesmos acon ecimen os e p ocessos a a és da in e enção em cena. Se a base do TO é a explo ação de si uações de op essão e a alo ização da capacidade c iado a e c ia i a de odas as pessoas, ele oma como pon o de pa ida uma inquie ação p o unda: se á possí el es i ui a odos a capacidade de se simul aneamen e espec ado c í ico do que acon ece e c iado a i o da ealidade? No âmago do Tea o do Op imido es á, po isso, a ideia de que cada um e cada uma em não apenas o di ei o de ala (o que se ia uma o ma pob e de inclusão), mas ainda o de ejei a os papéis sociais a que somos con inados, aqueles que a o dem exis en e nos ese a e que ep oduzem as es u u as de pode da sociedade. Ou seja, o di ei o não apenas de nos inclui mos nos guiões, nos luga es e nos papéis que exis em, mas de ejei a mos essa “inclusão subo dinada”. No undo, o di ei o de nos exclui mos dela pa a in en a mos cole i amen e ou as cenas. Es a des-especialização, es a aspi ação de undo de uma democ a ização adical dos meios de p odução simbólica da ealidade implica uma eo ia e uma p á ica da libe ação que pa ece es a além de uma me a “ideologia da inclusão”, p ecisamen e po que p essupõe uma con iança na capacidade de JOSÉ SOEIRO 85 au o-emancipação dos op imidos. Na ealidade, ela epousa numa combinação dialé ica en e, po um lado, uma eo ia da op essão capaz de explica os mecanismos de ep odução da o dem social e das suas di isões; e, po ou o, uma eo ia da emancipação capaz de encon a as b echas a pa i das quais os op imidos, em luga de se em apenas submissos con o mados com o sis ema, e iam ambém in e esses e condições pa a po em em causa essa mesma o dem que os inclui em papéis subal e nos.1 Pensada assim, a “inclusão” desejada não pode desliga -se de um p ocesso de emancipação que é, com e ei o, al amen e con a-in ui i o. Ao con á io das eo ias da ep odução que desc e em a op essão como uma espécie de cí culo echado, o Tea o do Op imido pa e da hipó ese de que os op imidos êm capacidade pa a comp eende esse sis ema e êm um in e esse em ans o má- lo. O p óp io ea o, ao p essupo a capacidade de nos obse a mos em ação, se ia um ins umen o p i ilegiado pa a essa análise c í ica, po pe mi i essa ope ação de deslocamen o ela i amen e a nós p óp ios, a possibilidade de se mos ou os, de desna u aliza mos a p óp ia condição de op imido e de ensaia mos a ans o mação. Nes e sen ido, aos p ocessos a ís icos cabe ia esga a as o mas de cul u a popula , desen ol e esse bom senso emancipa ó io e in e ompe a ep odução da op essão. Não p op iamen e po e ei o de uma omada de consciência mágica, mas po ia de um abalho de descons ução da insc ição das es u u as de op essão nos co pos e nas ins i uições – es u u as que mecanizam os sujei os, que p ocu am encaixá-los em de e minadas elações sociais e que buscam a sua adesão às es u u as de pensamen o e às ca ego ias de classi icação do mundo dos op esso es. É in e essan e, po ou o lado, como es a decla ada ambição do p oje o poé ico e polí ico de Boal não absolu iza a expe iência ea al. Uma das de inições mais popula es do Tea o do Op imido, e do ea o ó um em pa icula , é que ele é 1 Es e a gumen o sob e que concepção de iden idade, al e idade e de emancipação es á subjacen e à p opos a poé ica e ao abalho d ama ú gico do Tea o do Op imido é desen ol ida num ou o luga , num ex o conjun o com Julian Boal (c . Boal e Soei o, 2019). O TEATRO NÃO CHEGA? 86 um “ensaio da e olução” (Boal, 2013, p.163). Es a exp essão suge e duas ideias o es. A p imei a é que no ea o ó um se p epa a alguma coisa que acon ece nou o luga e nou o empo, o a do espaço es é ico – e po isso se a a de um ensaio e não da peça em si. A segunda ideia é que esse ensaio p epa a não apenas uma pequena mudança mas uma ans o mação p o unda – uma e olução. Comecemos pelo ensaio. No Tea o do Op imido os espec a-a o es omam con a da cena e agem pa a muda a ep esen ação da ealidade. Po que exis em den o e o a do espaço es é ico, como a o es e como pessoas, no momen o em que os espec -a o es ans o mam a icção, es ão já a p epa a -se pa a agi na sua p óp ia ealidade. No ea o, analisam-se os mecanismos de op essão, expe imen am-se o mas de a con es a , exe ci am-se modos de esis ência e einam-se écnicas de comba e. A a és dele e ela-se a o ça e a agilidade dos op esso es e descob e-se a po ência dos op imidos. O Tea o do Op imido assume assim com humildade o po encial do seu p oje o mili an e. O ea o é mais um momen o do abalho dos op imidos pa a a sua libe ação. Não se esgo a em si mesmo, não é me a celeb ação da a e pela a e, não é a busca de acon ecimen os sublimes que se bas a iam a si p óp ios, não se con en a em se apenas um espaço de exp essão daqueles a quem a oz, a pala a e o ges o são no malmen e con iscados. Pode ce amen e se udo isso (o que já não se ia pouco!), mas é semp e um ea o inacabado. Como dizia Boal, o Tea o do Op imido (...) em ez de i a algo do espec ado , pelo con á io, in unde nele o desejo de p a ica na ealidade o a o ensaiado no ea o. A p á ica des as o mas ea ais c ia uma espécie de insa is ação que necessi a complemen a -se a a és da ação eal. (Boal, 2008, p.148) Es e en endimen o de uma p á ica a ís ica (o Tea o do Op imido ou ou a) como o ensaio incomple o de uma ans o mação na sociedade con ida- nos pois a aze mos as necessá ias ligações en e os di e sos ní eis nos quais a op essão ope a: o ní el da inco po ação subje i a (a “in asão dos cé eb os” ou a JOSÉ SOEIRO 87 chamada op essão in e nalizada), o das in e ações en e os sujei os (as elações in e pessoais, o desempenho dos papéis, as o mas de u ilização do co po), a escala das ins i uições (a escola, a emp esa, o hospi al, a p isão, a amília...), o ní el das es u u as sociais e económicas (as elações en e as classes, os géne os, os g upos sociais), a supe es u u a polí ica e legal (as ins i uições de ep esen ação, as leis, o Es ado). Es imula-nos, ambém, a pensa as p á icas a ís icas no quad o mais as o de um p oje o e de uma es a égia de ans o mação polí ica. Se acei a mos a ideia de que o ea o não chega, en ão as en a i as de a iculação com as ou as modalidades de lu a – os mo imen os sociais e as suas o mas de ação, o comba e ins i ucional e a dispu a pela hegemonia, as es a égias legais e ansg essi as de mobilização, o abalho de cons ução de comunidades polí icas a i as – podem ambém aze pa e da in e enção que en ol e as p á icas c ia i as, que não se esgo am nas pa edes de uma o icina, de um p oje o ou de um e en o ea al. Aí apenas começa um caminho, no malmen e longo, de ans o mação. 3. O “ ea o como polí ica” A expe iência do Tea o Legisla i o é um exemplo des a en a i a de in eg a p ocessos a ís icos num quad o mais amplo de in e enção polí ica. Com e ei o, o es o ço de desinsc ição da op essão não pa ece se nes e caso pensada apenas a pa i da soma de “epi anias” e de “momen os mágicos” que a expe iência es é ica p oduz (e sabemos que o az!), mas sim do modo como essas expe iências se aliam com ou as p á icas e pa icipam de p ocessos mais con inuados no empo. F equen emen e ap esen ado como uma “ écnica” do Tea o do Op imido, uma das úl imas ami icações do mé odo desen ol ido po Augus o Boal, con ém lemb a que o Tea o Legisla i o oi na e dade o esul ado de uma espos a conc e a a um p oblema e a um con ex o especí icos (Boal, 1996). Após o seu exílio na A gen ina (1971-1976), em Po ugal (1976-1978) e em F ança (1978- 1986), Boal eg essa inalmen e ao B asil, em 1986, a con i e de Da cy Ribei o que e a, na época, o ice-go e nado do Rio de Janei o. Da cy c ia a os Cen os O TEATRO NÃO CHEGA? 94 95 1. Educação Pública do Cen o Paula Souza – Diálogos com a A e O Cen o Paula Souza é uma au a quia do Go e no do Es ado de São Paulo, com mais de 50 anos, que o e ece Educação Básica de Ní el Médio, Educação P o issional de Ni el Médio e de Ní el Supe io Tecnológico. Es á p esen e em 322 municípios do Es ado de São Paulo, a ende a mais de 300 mil es udan es e o e ece ainda cu sos de pós-g aduação, a ualização ecnológica e ex ensão. Mesmo que sua o e a educacional es eja dis ibuída po odo o Es ado de São Paulo, em 223 escolas écnicas p óp ias e 74 aculdades de ecnologia, mui as pessoas ainda não conseguem uma opo unidade pa a es uda nessas escolas. O Cen o Paula Souza, en ão, em con ênio com as p e ei u as de mui os municípios, que não dispunham de unidades de educação p o issional, possibili ou a inclusão de es udan es das escolas locais pa a amplia as possibilidades de o mação p o issional des es. Ainda que, po meio des as es a égias se enha conseguido aumen a o a endimen o aos es udan es, ainda há mui o a aze , mui o a amplia . A p eocupação em e uma educação de qualidade, acessí el aos di e sos pe is p esen es na sociedade do Es ado de São Paulo, que do pon o de is a socioeconômico, que do pon o de is a das p e ensões p o issionais, ez com PERSPECTIVAS SOBRE INCLUSÃO NO CENTRO PAULA SOUZA: CAMINHOS DA ARTE PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA E EDUCAÇÃO PROFISSIONAL TECNOLÓGICA LUCILIA GUERRA 96 que, ao longo do empo, a Ins i uição conseguisse ealiza a o e a de mais de 150 cu sos écnicos de ní el médio e 80 cu sos de ní el supe io ecnológico. Es a ab angência é pa a que se a enda aos a anjos p odu i os locais de o ma adequada, p epa ando as pessoas pa a o abalho, com qualidade e em a endimen o aos anseios dos es udan es. Pa a ga an i que a excelência es eja p esen e nas salas de aulas de odas as unidades escola es, alguns p ecei os são seguidos de o ma obje i a e igo osa, em especial quan o à o mação do co po docen e. Especi icamen e na á ea de A es, a ins i uição já em um di e encial bas an e impo an e, que é a exigência de o mação adequada pa a que as aulas de A e sejam minis adas aos es udan es da Educação Básica, ou seja, 100% dos docen es des e componen e cu icula em o mação em A e, no Cen o Paula Souza, o que di e e do índice de 7,7% que co esponde aos docen es que lecionam a e e que possuem o mação especí ica no B asil1. Es e cená io absolu o em elação à p epa ação do co po docen e, ambém se con i ma nos cu sos da o mação p o issional. Na Ins i uição é exigida habili ação dos docen es nas á eas elacionadas aos cu sos o e ecidos. Es a ques ão é de g ande ele ância, pois inse e, na pon a, um p o issional p epa ado pa a ealiza o acolhimen o dos es udan es e p opo ciona uma digna expe iência educacional a eles, em odas as dimensões da cons ução do conhecimen o. A Educação Básica de ní el médio, bem como a o mação p o issional ecnológica o e ecida pelo Cen o Paula Souza em como p emissa a isão ab angen e em elação aos es udan es que a ende. Obse a-se es a a enção já no acesso aos cu sos, que p e ê uma pon uação ac escida aos eg essos das escolas públicas e a odescenden es, pa a ga an i maio igualdade em opo unidades en e odos que buscam a con inuidade dos es udos na ins i uição. 1 Dados do Censo Escola 2013 que o am compilados pela ONG Todos Pela Educação. LUCILIA GUERRA 97 Pa a além do ing esso, o es udan e p ecisa se is o em oda a sua complexidade e necessidades, an o de o mação escola como pa a a ida de o ma cidadã e p oposi i a, pa a que, na sociedade, seja um agen e de ans o mação. Desde os cu ículos, me odologias e demais ações didá ico-pedagógicas, o es udan e é amplamen e a endido po equipes mul idisciplina es e docen es, com p oje os desa iado es pa a que o es udan e se desen ol a da melho manei a possí el e, assim, possa descob i suas po encialidades e amplie suas possibilidades p o issionais. Nes e cená io, de ges ão p eocupada com o desen ol imen o dos es udan es de o ma global, o Cen o Paula Souza se es abelece com um pe il bas an e eclé ico na o e a de cu sos e, na á ea de A es, cons i ui-se como a maio o e a pública do B asil. O e ecendo cu sos écnicos em Can o, Comunicação Visual, Dança, Design de In e io es, Design de Mó eis, Fab icação de Ins umen os Musicais, Ins umen o Musical, Modelagem do Ves uá io, Mul imídia, Museologia, Paisagismo, P ocessos Fo og á icos, P odução de Áudio e Vídeo, Regência e Tea o, em o obje i o de quali ica p o issionais pa a a ua na á ea de A es com as compe ências e habilidades necessá ias pa a que p ossigam suas ilhas p o issionais com maio e udição e pa indo de expe iências es é icas impo an es pa a seus epe ó ios. Dian e des a o e a ab angen e de cu sos, é signi ica i o obse a a in luência da Ins i uição na o mação de p o issionais pa a as ca ei as a ís icas, pois os cu sos são amplamen e p ocu ados. 2. E ec de A es – Espaço de Desen ol imen o P o issional pa a as A es A necessidade de se e um espaço de desen ol imen o p o issional a ís ico se impôs ao longo da aje ó ia da Ins i uição e, em 2008, o Cen o Paula Souza inaugu ou a E ec de A es, escola écnica localizada em uma es u u a emanescen e do an igo Complexo Peni enciá io do Ca andi u. PERSPECTIVAS SOBRE INCLUSÃO NO CENTRO PAULA SOUZA 98 Esse luga emblemá ico, conhecido po iolência e mo e, deu, po im, espaço pa a o desen ol imen o de pessoas, em á ias dimensões e, em especial no campo a ís ico em di e en es exp essões e linguagens. A do de an as idas pe didas pa a a c iminalidade, em um local que não sua izou o so imen o, hoje, pela música, dança, design, o og a ia e ea o exo ciza pensamen os e sen imen os, de ou o a, pensados e sen idos. Mui os es udan es encon a am mais do que uma ilha p o issional, encon a am um sen ido, uma o ma de se exp essa e de se comunica com a ida. A p opos a pedagógica da E ec de A es é di e enciada pois não exige p é- equisi os comuns a mui as escolas de a es. Conhecimen o p é io em lei u a musical, pa a os cu sos de Música, i ências e p epa o co po al pa a os cu sos das á eas de Dança e de Tea o são no malmen e pedidos ao ing essa em cu sos dessas modalidades. En e an o, na E ec de A es, os es es de ap idão aplicados são pa a apoia a Figu a 1. P édio da Escola Técnica de A es, Ca andi u, São Paulo, SP, B asil h p://www.po al.cps.sp.go .b LUCILIA GUERRA 99 seleção de pessoas que possuem musicalidade, mínima consciência co po al e pa a, de a o, descob i em, nes e momen o, se que em ealiza uma ime são nos conhecimen os a ís icos nos quais se ão desa iados, sem que conside em es a aje ó ia complicada ou inadequada pa a seus pe is de pe sonalidade e p e ensões. É mais um momen o de au oconhecimen o e em nada excluden e. Es e di e encial da escola é de suma impo ância, pois não impede o acesso àqueles que não i e am como es uda música, dança, ea o e ou as linguagens em en a in ância, mas ecepciona os que que em encon a , nessas á eas, opo unidades pa a se exp essa em, in es iga em e se p o issionaliza em. É abe o a odos que quei am. Mui os ing essan es seque conhecem as no as musicais, nos cu sos de música, nunca o am en ol idos em cu sos de ins umen o musical, mas em exíguo pe íodo de empo conseguem se in oduzidos nes e uni e so com ní el elemen a de e udição, mas que os p epa a am pa a uma jo nada de descobe as no campo da música, inclusi e pa a sen i em-se con ian es pa a a con inuidade dos es udos em ní el supe io . O mesmo oco e com os eg essos dos cu sos de Dança, Tea o, Fo og a ia e Design. Um espaço de expe iências e educação em A es em que man e os acessos abe os, pois a o mação em A e é u gen e e necessá ia e odos de em se bem ecepcionados e e em a ga an ia da li e exp essão, o mação digna e com ní el de p op iedade que os p epa e pa a pe co e no os caminhos, busca p ocessos c ia i os que os mobilizem a soluciona p oblemas com uso de sensibilidade, empa ia e c ia i idade. Pa a ci a um caso em especial, que demons a a g ande ans o mação que a educação pela a e pode aze pa a a ida de um indi íduo, ap esen a-se a aje ó ia de um ex-p esidiá io do Complexo do Ca andi u, que ha ia cump ido pena no p édio onde hoje é a E ec de A es e que conseguiu ing essa no cu so Técnico em Design de In e io es. Foi pa a ele mui o signi ica i o e o na ao espaço ísico num ou o con ex o, PERSPECTIVAS SOBRE INCLUSÃO NO CENTRO PAULA SOUZA 100 em edenção com a sociedade e buscando mobilidade p o issional e social. Em mui as aulas den o do espaço, que mesmo essigni icado, oi sua an iga cela, ao con á io do p imei o momen o, e a sim um sinal de libe dade, de independência. Te minou o cu so e ouxe seu pai, que ambém inha sido p esidiá io no Complexo, pa a e seu abalho inal. A edenção oi pa a oda a amília. O olha de g a idão pela opo unidade, po e sido a ado com equidade e acolhimen o. Educação ans o mado a, a e como ans o mação e idas que ecebem es a in luência posi i a. A apa en e ulne abilidade p esen e nes e caso pode se conside ada sim um pon o de o ça. O es udan e, a pa i das e e ências que inha, sen iu-se enco ajado a ab aça suas chances e a abandona as ma cas do so imen o. Es as al e na i as que a educação az e impulsiona são essenciais pa a a mudança posi i a e quali icada da sociedade. A o mação p o issionalizan e no B asil é mui o pouco explo ada, a é mesmo po que se comp eende que es e ipo de o e a é pa a indi íduos que não conseguem cu sa o ensino supe io , em especial po a o es socioeconômicos. Es e ipo de e lexão causa um eno me p ejuízo ao desen ol imen o econômico do país e eduz as opo unidades de o mação de jo ens e adul os em á eas especí icas pa a o mundo do abalho. Menos pessoas o nam-se p epa adas pa a execu a unções no me cado, começam a e opo unidades de se desen ol e em em á eas di e en es e exe ce unções que, inclusi e, podem p o oca mobilidade social pa a suas idas e de suas amílias. Mesmo que hou esse uma sé ia p opos a de o mação de pessoas pa a ou as a i idades, o que já se ia um ganho es a égico pa a o país, ainda al a ia a p epa ação pa a as a i idades a ís ico-cul u ais, pois con igu a-se ou o passi o no B asil. Em mui os casos, são obse ados discu sos sob e a eal necessidade de o ma pa a as ca ei as a ís icas, sob o mi o de que o alen o é ina o e nada há pa a se ap endido na educação o mal. LUCILIA GUERRA 101 Es e é um g ande engano, pois, pa a além das écnicas que podem se ensinadas, as ime sões es é icas, as expe iências indi iduais e cole i as em cu sos de a es, con igu am-se elemen os-cha e pa a a educação da sensibilidade, ão essencial pa a a p epa ação de pessoas em odas as dimensões de suas idas. Em mui os casos, os es udan es espe am que a escola só pe mi a que se conec em com sua c ia i idade, emoções e capacidade de exp essão. Uma escola inclusi a é aquela que é sensí el às necessidades e aspi ações dos es udan es, espei ando oda a sua complexidade e di e sidade. Além da o mação, a escola de e assumi seu papel de agen e desa iado e p o ocado , com me odologias que p i ilegiem o lo esce dos alen os a se iço do po encial c ia i o e da exp essão a ís ica. Educa a sensibilidade como es a égia que a o ece o desen ol imen o do ap eço pelo conhecimen o é undamen al pa a a sociedade, pois indi íduos que são es imulados em sua capacidade de pesquisa, em sua cu iosidade e on ade de ap ende se o nam a en os à ealidade onde i em e es abelecem uma elação de esponsabilidade pa a con ibui de o ma p oposi i a. 3. A expe iência es é ica é pa a odos? Pa a Deleuze (2010), “alguém só se o na ma cenei o o nando-se sensí el aos signos da madei a e médico o nando-se sensí el aos signos da doença.” Nes as analogias p opos as po Deleuze, se pode e le i o quan o é indispensá el que os indi íduos c iem in imidade com a A e pa a conhece seus signos e aze elações, con ex ualizações e lei u as. As escolas e os espaços cul u ais p ecisam es a p epa ados pa a c ia opo unidades de ime são a ís ica de modo que os indi íduos possam descob i suas po encialidades e cons uam signi icados a pa i de seus pe cu sos. As linguagens a ís icas se ab em à explo ação de possibilidades e cada um em o p i ilégio de o ná-las únicas, a pa i de seu epe ó io indi idual em in e aces o almen e no as a cada pessoa. G ande pa e do p oblema é a al a de acesso elemen a às linguagens a ís icas e PERSPECTIVAS SOBRE INCLUSÃO NO CENTRO PAULA SOUZA 102 à ausência de polí icas públicas de cul u a pa a odos e odas. Mui as ezes, a isão ma ginal da a e em seu p incípio na educação que não econhece o alo da expe iência es é ica e desp eza a po ência da educação da sensibilidade pa a que, odos que inco po em seus ap endizados, e oluam no sen ido da cons ução de pon es pa a o conhecimen o. A escola que de e ia o na seus p ocessos pedagógicos signi ica i os, igno a possibilidades de g ande ele ância. Po ou o lado, os espaços de uição cul u al p epa am-se pa a o ma público, aze as linguagens a ís icas pa a o con í io da sociedade e ap esen a opo unidades pa a diálogos luídos, mas encon am ba ei as na al a de epe ó io e impo ância de mui os, que seque se expõem aos p ocessos c ia i os, po não comp eende o bene ício e o p aze que pode se o e ecido. Es es desencon os p ecisam se solucionados e o papel da educação se es abelece como decisi o. Con o me Vigo ski (2010), (...) a educação nunca começa no azio, não se o jam eações in ei amen e no as nem se conc e iza o p imei o impulso.... Nesse sen ido, oda educação é a eeducação do já ealizado. Des a o ma, a A e dialoga com o que os indi íduos azem. O conhecimen o se cons ói a pa i do indi íduo e pa a o ou o. Os pon os de conexão se o ganizam pela sensibilidade e as linguagens a ís icas azem es ímulos di e en es pa a os indi íduos, espei ando seus epe ó ios indi iduais. Se conside a que a “A A e de e se a base da Educação”, como az Pla ão, ci ado po Read (2001), pa a que se possa de ende esse p incípio, pa a além dos elemen os ca ac e ís icos da A e, de e-se en ende o impac o des a nas p o ocações que ealiza, es anhamen os e econhecimen os que cada um pa icula iza em seus p ocessos de expe imen ação. LUCILIA GUERRA 103 Segundo Egle on (2011), (...) se a c ia i idade ago a podia se encon ada na a e, e a po que não podia se encon ada em nenhum ou o luga ? Tão logo cul u a enha a signi ica e udição e as a es, a i idades es i as a uma pequena po ção de homens e mulhe es, a ideia é ao mesmo empo in ensi icada e empob ecida. Nes a e lexão pode-se pe cebe que es a dualidade de o ças se man ém e, embo a subjugada na educação à uma á ea de meno in e esse pa a in es igação e ap op iação, ambém se coloca sob e os omb os da A e um s a us de ele ância e exclusi ismo. Como aze planejamen o conscien e pa a a sala de aula? Qual a abo dagem adequada pa a a o mação de pessoas, dian e disso? Deixando de lado ap eensões eli is as e dis an es, pe cebe-se que o p aze da ilha e as possibilidades que a A e pode aze pa a as pessoas, se sob epõe aos julgamen os daqueles que não a conside am impo an e, pois os e ei os das expe iências es é icas na educação o mal e não o mal são de g ande des aque. Es as e lexões são mui o impo an es pa a que sejam de inidas polí icas de acesso que ga an am que a escola ac edi e na capacidade ans o mado a da Educação pela A e e como ela pode se iden i icada no co idiano das pessoas em múl iplas o mas de ap esen ação e com g ande o ganicidade em elação a ida de cada uma. Po que se eli is a e inacessí el se a A e es á na ida? Se es á na ida, po que não es á na escola? A a e não se es inge aos obje os museológicos e de ele ada e udição. Os bens cul u ais que compõe o uni e so das pessoas, de em se azidos e in e p e ados na sala de aula. Os es udan es po sua ez se econhece ão ci cundados po eles, pode ão assim aze compa ações com ou as cul u as, ou os momen os c onológicos e o pensamen o a iculado se a á, de modo indi idual. Nes e pe cu so, a e udição, em p imei o momen o dis an e, se es abelece á na u almen e. De aco do com as pala as do c í ico de a e inglês John Ruskin (1819-1900), PERSPECTIVAS SOBRE INCLUSÃO NO CENTRO PAULA SOUZA 110 LUÍSA PINTO nos dois es abelecimen os p isionais de San a C uz do Bispo em Ma osinhos (Po ugal), pe cebi apidamen e, após o é mino do p imei o abalho nos e e idos EPs, que a ans o mação pessoal nos pa icipan es en ol idos inha oco ido ela i amen e à aquisição de conhecimen os, desen ol imen o de compe ências e ecupe ação de au oes ima. No en an o, no momen o da despedida, pa a mim le an a a-se a seguin e ques ão: Qual o eal impac o do esul ado no ex e io , endo em is a a ein eg ação social dos eclusos/as? Foi es a inquie ação que me mo i ou a ol a a es e assun o e a p ossegui a in es igação e nes a á ea, cen ando des a ez a e lexão no p oje o O Filho P ódigo-Filme conce o, que p e endeu mais uma ez ompe as on ei as da p isão; abalha a ein eg ação o al na sociedade sem es igma de eclusos e eclusas; en ol endo eclusos (en e eles inimpu á eis) e eclusas de dois es abelecimen os p isionais de San a C uz do Bispo em Ma osinhos ( Po ugal), ala eminina e masculina, bem como músicos, a o es e a izes p o issionais. A odagem do e e ido ilme oco eu o a dos mu os da p isão, assim como a es eia do mesmo, que acon eceu na Casa das A es de Famalicão (Po ugal) com a p esença dos eclusos/as pa icipan es, do público em ge al, amilia es, ins i uições en ol idas e o es ado ep esen ado pela Minis a da Cul u a G aça Fonseca. Sabemos que as ins i uições o ais, nes e caso a p isão, são conside adas es igma izan es, consequência da sepa ação e di e enciação en e os eclusos e a es an e sociedade. Segundo o sociólogo E ing Go man, a ins i uição o al pode-se de ini como um luga onde o indi íduo é subme ido a uma igilância cons an e, echado, isolado da sociedade, e onde odos os aspe os da ida do sujei o são e e uados num mesmo local na companhia de um g upo de pessoas que ecebem o mesmo a amen o e que são ob igados a aze em as mesmas coisas sob a mesma au o idade, le ando o indi íduo à mo i icação do “eu”.1 1 E ing Go man, Manicómio, P isões e Con en os. São Paulo: Pe spec i a, 2005, p.18. 111 A ARTE COMO PONTE PARA O EXTERIOR Também na análise que Foucaul az sob e as p isões na sua ob a ”Vigia e Puni ”, a p isão pode se en endida como “(…) uma ins i uição disciplina c iada pa a exe ce o pode de puni pela p i ação de libe dade, pa a p oduzi docilidade e u ilidade median e o exe cício de coação educa i a o al sob e o condenado”.2 Pe cebemos, po an o, que odo o p ocesso de despe sonalização p o ocado no indi íduo que en a na p isão, le a à pe da de iden idade que se á mui o di ícil es abelece no u u o. Impo a não esquece que embo a es as pessoas es ejam numa ase de eclusão azem pa e da sociedade e o que se obje i a é que enham a se is os como cidadãos de co po in ei o após o cump imen o da pena. Face ao expos o, a einse ção do indi íduo de e se a p io idade das polí icas go e namen ais, obje i ando-se a possibilidade de opo unidades iguais nas polí icas de inclusão social. Impo a en ão e le i sob e aspe os de eabili ação do ecluso, en e eles, a a és de p ocessos c ia i os e de humanização, e que de em inicia -se logo após a en ada do sujei o na p isão, assim como e le i sob e a a e como e amen a de abalho de campo no p ocesso de c iação a e i a das elações in e pessoais. Da p axis ea al na p isão à odagem do ilme O Filho P ódigo no ex e io Ao longo de qua o meses os ensaios das cenas a ilma pos e io men e do p oje o O Filho P ódigo-Filme conce o oco iam duas ezes po semana no es abelecimen o p isional eminino pa a ês ho as de abalho em cada dia en e as 14h00 e as 17h00. Só e a possí el es e ho á io po azões que conce nem às ocupações labo ais que são emune adas, assim como aos cu sos que alguns equen am. De salien a que o p imei o ensaio com odo o elenco, (homens e mulhe es, a o es p o issionais e eclusos/as), oi mui o signi ican e, e esul ou numa g ande alo ização no compo amen o e na au oes ima dos eclusos/as, endo em con a que o p oje o p opo ciona a a es a população uma opo unidade excecional, 2 Michel Foucaul , Vigia e Puni , Nascimen o da P isão. Pe ópolis: Vozes, 2004, p.154. 112 pois o con ac o com o sexo opos o po pessoas que se encon am em medidas p i a i as de libe dade, po no ma, não é pe mi ido, o que con ibui pa a a mo i icação do eu como e e e Go man: ”(…) nas p isões, a negação de opo unidades pa a elações he e ossexuais pode p o oca o medo da pe da da masculinidade. (…) Mas, numa p isão o indi íduo p ecisa de a i idades cujas consequências simbólicas são incompa í eis com a sua conceção do eu”.3 Impo a e e i que os di igen es de cada um dos EPs, assim como os écnicos de educação a e os ao p oje o, desde o início mani es a am on ade em acolhe a inicia i a, no en an o, alguns gua das p isionais eagiam com alguma descon iança e eceio, pelo simples ac o de pe u ba mos as o inas e as eg as da ins i uição. 3 E ing Go man, Manicómios, P isões e Con en os, T adução Dan e Mo ei a Lei e. São Paulo: Pe spec i a, 2005, p.31. LUÍSA PINTO Figu a 1. Fo og a ia de cena que in eg a o ilme. C édi os: Paulo Pimen a 113 Po es a azão, a i mou-se a necessidade de conquis a a con iança de odos (di eção, écnicos e gua das) de o ma abe a e em diálogo cons an e. Os ensaios se i am pa a le e analisa o ex o, que, ainda que o conhecessem po que o le ámos à cena em 2017 com o mesmo elenco, e i o-me à peça de ea o O Filho P ódigo de João Ma ia And é e Helde Was e lain, des a ez, es a a adap ado pa a cinema sendo po isso necessá io ajudá-los a comp eende udo o que ainda não inha sido pe cebido no e e ido ex o, ago a anspos o pa a a ela. Es e empo se iu ambém pa a con ex ualiza o ilme, analisa no as pe sonagens e aze um le an amen o de cenas a abalha pos e io men e nos deco s selecionados pa a o e ei o, com o obje i o de acili a o p ocesso quando iniciássemos a odagem do ilme. Como encenado a e co- ealizado a do ilme em causa, i i es a in es igação em campo, numa si uação de c iado a/obse ado a/pa icipan e, e es a elação oi c ucial pa a o enquad amen o e o desen ol imen o da expe iência emocional e da cons ução do obje o a ís ico. Nes e caso e den o des e con ex o, pa ece-me signi ica i o menciona ambém a obse ação dos a o es eclusos aos a o es p o issionais e ice- e sa. Es a oca de obse ação desen ol eu-lhes a capacidade exp essi a do co po; pois aze ea o com um g upo sociológico, ainda sem au onomia, implica a di iculdades, na medida em que os a o es eclusos não conseguiam esponde da mesma o ma que os a o es p o issionais, dada a inexpe iência da p á ica da ep esen ação. Com e ei o, a inocência e a espon aneidade do não a o o e eciam uma emoção especial na o ma de aze , a isca ia um aze genuíno e que me conduziu a B ech , que nos seus úl imos anos de ida su p eendeu os colabo ado es, quando a i mou que o ea o de ia se ingénuo.4 Nes e p ocesso c ia i o, a ingenuidade, inexpe iência a ís ica e as quase inexis en es habili ações li e á ias dos eclusos/as pa icipan es não impedi am o 4 Be ol B ech a pa i de Pe e B ook, O Espaço Vazio, T adução Rui Lopes. Lisboa: O eu Neg o, 2008, p.109. A ARTE COMO PONTE PARA O EXTERIOR 114 alcance dos esul ados desejados no p oje o. Aqui ez-se p esen e a impo ância dos aspe os não cogni i os, como os a e os e emoções, izemos exe cícios ea ais en ando mo i á-los e incen i á-los a cons uí em uma no a ealidade/ possibilidade, desejando azê-los sen i enamo ados pelo p oje o. Conco do com Albe oni, quando diz: “(…) quando es amos enamo ados, adqui imos uma ex ao diná ia capacidade de e , de ou i , de pa icipa . As co es são mais i as, as músicas mais in ensas, os sen imen os mais ib an es, acolhemos odas as coisas boas que êm ao nosso encon o, es amos es upe ac os dian e da beleza, da in eligência, da c ia i idade e ecebemo-las com aleg ia”.5 É esse es ado de enamo amen o que en á amos p o oca pa a, em conjun o, consegui mos c ia um obje o a ís ico, pela simples azão de es a mos apaixonados po ele. Du an e os ensaios, ainda no es abelecimen o p isional, p ocedeu-se a uma simulação igo osa do espaço cénico a implemen a em cada déco no ex e io pa a ilmagens. Se os a o es não i essem expe ienciado an e io men e um disposi i o cénico p óximo da implemen ação inal nos locais de ilmagens, a elação do co po (se ) no espaço não e ia acili ado a habi abilidade, nem o esul ado da pe o mance e ia sido ão ico. Du an e o p ocesso oco e am á ios momen os signi ican es e um deles p ende- se com a en ada dos músicos Edua do Sil a e Rui Lace da. Es es sabiam, desde o início, que exis ia no elenco uma eclusa, a Ad iana, que can a a e esc e ia le as, com o desejo de i em a se musicadas. Logo no p imei o dia de abalho com os músicos, su giu uma eno me empa ia en e os ês elemen os. Es e momen o e elou-se num jogo de admi ação mú ua e cumplicidade a ís ica en e músicos/can o a. T a a a-se de uma ci cuns ância a a, que na ida da eclusa pa icipan e que na dos músicos. Numa a mos e a de cama adagem 5 F ancesco Albe oni, Os In ejosos, adução Ma ia Sa men o. Venda No a: Be and Edi o a, 5ª Edição, 2000, p.217. LUÍSA PINTO 115 en e uma can o a amado a e músicos expe ien es, encon a am-se a c ia , em conjun o, dois emas que i iam a in eg a a banda sono a do ilme, pa ilhando écnicas e me odologias pa a as e e idas composições musicais. Es as duas canções o iginais, cujos ex os es ão elacionados com a na a i a de O Filho P ódigo-Filme conce o, êm a pa icula idade de e em sido esc i as pela Ad iana, o que lhe p o ocou um c escendo na sua au oes ima, pelo simples ac o de consegui es a naquele momen o de c iação em ci cuns ância igual aos músicos p o issionais. Os es emunhos de eclusos ela i os a es a expe iência e elam os bene ícios da a i idade a ís ica pa a os que nela pa icipam e mos am como pode con ibui pa a c ia uma subje i idade nos mesmos. A eclusa Ad iana Mau ício, na p imei a saída ao ex e io pa a g a a os emas musicais em es údio, disse ao Jo nal Público “(…) es e é um daqueles dias que me du a pa a um ano de p o eção den o da cadeia, lá é um en o camen o, aqui A ARTE COMO PONTE PARA O EXTERIOR Figu a 2. Ensaio de composição musical, no ex e io , no dia de g a ação da cena. C édi os: Paulo Pimen a 116 é espe ança dá-me a capacidade de cons ui e econs ui a minha ida. Lu a con a quem me puxa pa a o lado neg o. Só que o sai como uma no a Ad iana, esquece o passado. Quando can o, é pa a acende algo que se apagou den o de mim há mui o empo”. E a Paula Gonçal es, eclusa pa icipan e na peça an e io e que nes e ilme já se encon a a em libe dade condicional, ac escen a ao Jo nal Público com odo o en usiasmo “(…) num dia deco ei o ex o, iz um papelão. Es a aqui muda udo”.6 Pa a sus en a es es es emunhos, eco o a Albe oni, quando diz que “(…) a pala a en usiasmo em do g ego en heós, exis i em Deus, p esença de Deus, inspi ação di ina. O en usiasmo é, po conseguin e, ene gia ex ao diná ia, ímpe o, é. É uma o ça que nos empu a pa a o que é ele ado, pa a o que em alo . Uma po ência que nos le a a supe a a nossa ida diá ia, a i pa a além daquilo que somos habi ualmen e. É um es ímulo na di eção do u u o, uma é na p óp ia me a, nas p óp ias possibilidades. O en usiasmo é uma explosão de espe ança”.7 De aco do com Albe oni ac edi o que o en usiasmo, a espe ança e o sen imen o de libe dade, ainda que in amu os, se enquad em nas p incipais p emissas pa a a supe ação e consequen emen e pa a a aquisição de au oes ima dos eclusos. Po quê? A isca ia á ias azões, en e elas: po que sabemos que a a e é um espaço de libe dade de c iação, que se opõe àquela da ida da p isão, de cons angimen o, de anulação; po que começam a ecupe a o seu “eu” de an es, na medida em que são chamados pelo nome e não po um núme o; po que o espaço da a e é um espaço de pa ilha; po que nos p oje os os eclusos abandonam o sen imen o de ma ginalização social adqui indo au oes ima; po que no espaço da a e é pe mi ida a a e i idade e, po úl imo, po que nes e espaço os eclusos descob em possui aculdades impensá eis. 6 Ma iana Pin o, “Quando a A e Rompe os Mu os da P isão, a Mudança Acon ece-se” in Jo nal Público, Po o, 06/10/2019. 7 F ancesco Albe oni, A Espe ança, T adução Jo ge Valen e. Lisboa: Be and Edi o a, 3ª edição, 2002, p.63. LUÍSA PINTO 117 A ARTE COMO PONTE PARA O EXTERIOR Os dias de odagem do ilme no ex e io e ela am-se num u bilhão de emoções; a opo unidade de i encia momen os de libe dade du an e dias consecu i os e a enca ada como uma espécie de p ecá ia p olongada e is o p o oca a-lhes uma eno me ansiedade. No en an o, a esse empo, o sen imen o da ins i uição e dos p óp ios a o es inclusos e exclusos já e a de e dadei a con iança, po que es a am es abelecidas en e as pa es as condições necessá ias pa a o desen ol imen o do p ocesso. Com e ei o, a saída de eclusos/as dos dois es abelecimen os p isionais ao ex e io , po á ios dias consecu i os, esul ou numa complexa e igo osa ope ação em e mos de ia u as, au o izações judiciais, igilância e ecu sos humanos da Di eção-Ge al de Reinse ção e Se iços P isionais. Po odas as expe iências p óp ias que ealizei an e io men e em con ex o p isional, a isco a i ma que, na maio pa e dos p oje os a ís icos com a comunidade eclusa, o que es á em jogo é a passagem da sala de ensaios pa a o palco, que pela possibilidade de con on o com o público do ex e io , que pela Figu a 3. Filmagem no ex e io . C édi os: Paulo Pimen a 118 LUÍSA PINTO possibilidade de ap oximação às suas amílias. No momen o da es eia da exibição do ilme o olha dos ou os/público es á ocado no que oi c iado. Pa a os a o es eclusos, é o momen o pa a pode em mos a e p o a ao público/sociedade que se é capaz! Ac edi o que, nesse momen o/ap esen ação pública, o que es á em jogo é uma o e ei indicação ao econhecimen o e ao espei o. São inúme os os es emunhos de eclusos ela i os às di e sas expe iências ealizadas nas úl imas décadas em á ios países que demons am que a au oes ima se o na uma compe ência cada ez mais impo an e, uma ez que em um papel ele an e no uncionamen o saudá el do sujei o, con ibuindo pa a o sucesso a ní el a pessoal e p o issional e podemos comp eende ainda, que os esul ados mais impac an es nos eclusos pa icipan es es ão elacionados com os p oje os que incluem ap esen ações públicas. Nes as expe iências, o aze ea al acon ece enquan o abalho a ís ico e ao mesmo empo abalho elacional com o ex e io , con aminando o g upo pa a um mesmo obje i o, a “es eia”. Nas pala as de Pe e B ook “(…) Não há dú ida que o ea o pode se um luga mui o especial. É di e en e da ida quo idiana, po an o ambém pode acilmen e se sepa ado da ida. (…) Pa a uma pessoa, é di ícil e um só obje i o na ida. No ea o, po ém, o obje i o é mui o simples. A pa i do p imei o ensaio, o obje i o es á semp e à is a, p óximo e en ol endo oda a gen e. Conseguimos e di e sos modelos de pad ões sociais em ação: a p essão da es eia, com as suas inequí ocas exigências, p oduz um espí i o de g upo, dedicação, ene gia e p eocupação com as necessidades dos ou os – udo o que qualque go e no gos a ia de consegui inspi a em empo de paz”.8 En ão, podemos conside a que a einse ção do indi íduo de e se a p io idade das polí icas go e namen ais, obje i ando-se a possibilidade de opo unidades iguais nas polí icas de inclusão social. 8 Pe e B ook, O Espaço Vazio, T adução Rui Lopes. Lisboa: O eu Neg o, 2008, p.139. 119 A ARTE COMO PONTE PARA O EXTERIOR Conside ações inais Es a expe iência p e endeu ques iona a inalidade obje i a do aze a ís ico no p ocesso educacional do ecluso/a, endo em con a a necessidade de no u u o ap esen a o indi íduo à sociedade como um se capaz. Es a expe iência demons ou cla amen e que é possí el a conjugação en e a ins i uição e um g upo do ex e io que pelo ac o de e em sublinhado no dia de es eia uma on ade cla a na con inuidade de p opos as semelhan es, que pelo ac o de e em assinado um p o ocolo es abelecido en e a minha companhia Na a i ensaio-AC e a Di eção-Ge al de Reinse ção e Se iços P isionais com o obje i o de ma e ializa p opos as ea ais/pe o ma i as de o ma egula e con inuada. En endo que es a e lexão é u gen e, conduzindo a uma pa icipação a i a da sociedade na p omoção da einse ção e cidadania e que a p oblema ização do p ocesso c ia i o e educacional em con ex o p isional me ece se discu ida. Figu a 4. Es eia da exibição de O Filho P ódigo - Filme Conce o, ocado ao i o. C édi os: Paulo Pimen a 126 no plane a, em um sen ido amplo. Sendo assim, a pedagogia social pode se comp eendida como um modo de se posiciona en e a uma ação pedagógica, ao in és de um campo especí ico de a uação, e p o issionais de á eas dis in as podem u iliza a pedagogia social como uma o ien ação eó ico-p á ica. Nesse sen ido, a c ia i idade e as a es em um papel undamen al. A pe spec i a especi ica suge ida nes e ex o, a pedagogia a e-social, se si ua no con ex o da in e p e ação ampla da pedagogia social, com oco no papel das a es e dos demais p ocessos c ia i os no desen ol imen o humano e social. Con ex ualizamos essa ques ão abo dando a democ acia como um modo de i e jun os. Depois, discu imos a ques ão da p esença das expe iências a ís icas na ida co idiana, u ilizando a noção de democ a ização da cul u a, o que le a a pensa , especi icamen e, na ques ão do acesso às a es. Nos ap oximamos das a es e dos demais p ocessos c ia i os ambém como uma abo dagem da educação – um p ocesso pedagógico em si – u ilizando a pe spec i a da democ acia cul u al, que en a iza a impo ância do aze a ís ico, em ez de ica somen e na posição de espe ado . Finalizamos o ex o com um exemplo de um p oje o que en elaça ea o e ciências sociais pa a discu i como pode ia se a “pedagogia a e-social” na p á ica. Democ acia como um modo de se no mundo A capacidade de imagina di e en es ealidades e a anjos sociais é cen al pa a a ealização da democ acia. […] A democ acia é o exe cício cole i o da imaginação. (Eskelinen, 2019, pp.85-86) Começamos a e lexão nes e ópico com uma p eocupação azida po Nussbaum (2012) sob e a diminuição da ca ga ho á ia dedicada às a es no cu ículo escola . Subjacen e a isso, es á a p eocupação com a e osão da i alidade da democ acia. Pa a aseando Nussbaum, há a p eocupação de que a educação no mundo neolibe al apoie o c escimen o das ge ações endo-as como peças ú eis SANNA RYYNÄNEN 127 de máquina, em ez de educa cidadãos capazes de pensa , e le i e colabo a (ibid.). A democ acia é uma o ma de go e no e uma o ganização de omada de decisões, mas acima de udo, é um a modo de sociedade baseado em uma ideia adical de igualdade das pessoas e de suas capacidades de decidi em jun as os assun os em comuns. Em A enas, chamada de be ço da democ acia, as condu as democ á icas de go e no e de ida e am conside adas inex ica elmen e ligadas. O es ado democ á ico ga an ia as condições pa a uma boa ida (jun os), o que e a possibili ado pelo a o de que os cidadãos inham c escidos com ce os ipos de i udes, como po exemplo, co agem, acionalidade, azoabilidade e jus iça (Alhanen, 2016). Quando a democ acia é en endida como um modo de ida comuni á io, a sociedade é is a como um odo, na qual não apenas há in e esses indi iduais, mas, acima de udo, ques ões e in e esses em comuns. A democ acia, en ão, não apenas oco e em ní el do apa elho do Es ado e nas assembleias de o o, mas sob e udo a a és das p óp ias pessoas e de suas associações, a o es da sociedade ci il. A i alidade da democ acia, po sua ez, eque pessoas que es ejam comp ome idas com a cons ução e o desen ol imen o de uma sociedade iguali á ia e jus a, e que ambém se sin am pa e da sociedade e de suas comunidades. O desen ol imen o dessas habilidades es á associado, pa icula men e, com as humanidades e as a es (Nussbaum, 2012). Podemos dize que a democ acia é um componen e undamen al de uma sociedade iguali á ia, jus a e humana – mas só unciona quando a democ acia é como de e ia se , quando não é en endida somen e como um modo de go e na , mas como um modo de i e jun o, cuja i alidade depende de cada um de nós. A democ acia, assim en endida, é pública e comunica i a e, ambém, um p ocesso sem im. “Em ez de de ende a democ acia exis en e, ela de e se le ada adian e” (Eskelinen, 2019, p.11). O pensamen o c í ico, a capacidade de en en a ou a pessoa em espí i o de diálogo e a imaginação, po exemplo, são conside ados ap idões pa icula men e PEDAGOGIA ARTE-SOCIAL 128 impo an es pa a a i alidade da democ acia (Nussbaum, 2012). A imaginação apoia a capacidade de empa ia, ou seja, a capacidade de assumi a posição de uma ou a pessoa, e ambém ajuda a imagina di e en es ipos de ealidade e suas possibilidades. O diálogo, po sua ez, é a habilidade de conhece , ou i e e a ou a pessoa – uma manei a de e a alma do ou o, como coloca Nussbaum (ibid.). Nesse caso, não se a a de qualque con e sa, mas de um encon o en e se es no qual não emos o ou o como um ins umen o pa a alguma coisa, mas buscamos acessá-lo em sua in eg idade, comp eendendo como o mesmo es u u a o mundo. Comp eende , po ém, não signi ica que udo de a se acei o, ou que odas as o mas de es u u a o mundo de am se alo izadas do mesmo jei o. O diálogo como um ideal é ico signi ica um comp omisso com os p incípios undamen ais de uma sociedade iguali á ia e jus a, na qual ninguém es á, em p incípio, excluído desses di ei os (Alhanen, 2016; Ni ala & Ryynänen, 2019). Uma elação dialógica com as ou as pessoas e com o mundo não su ge po si mesma, mas somen e po meio do diálogo, que é ap endido a a és da p á ica. É ambém uma habilidade que p ecisa se p a icada e p o egida – especialmen e no mundo a ual que, mui as ezes, segue a con aco en e. O ilóso o inlandês Kai Alhanen (2016) a i ma que, o desen ol imen o e o exe cício de compe ências essenciais pa a dialoga , são ques ões polí icas c uciais pa a a i alidade das democ acias. Ele ci a cinco habilidades, pa icula men e impo an es pa a o nosso modo de ida a ual, e que, po an o, de em ecebe a enção. São elas: a inação ou sin onização, imaginação, a o de b inca , e lexão ou delibe ação, e espe ança. Essas habilidades são moldadas pelo e ei o combinado das endências de um indi íduo e de suas condições no con ex o social. No con ex o do p esen e a igo, concen amos nas ês p imei as habilidades, po que elas êm uma ligação especialmen e in e essan e com a c ia i idade e as a es. A inação ou sin onização é a capacidade de alcança as expe iências de ou as pessoas, essonando a si mesmo nelas, is o é: es abelece elações de empa ia. A imaginação amplia os ho izon es do cí culo imedia o da expe iência e é uma capacidade de imagina SANNA RYYNÄNEN 129 algo que não sabemos pela p óp ia expe iência. E um a o de b inca é uma capacidade de expe imen a , hipo e icamen e, algo que ainda não exis e e que ajuda a desen ol e si uações al e na i as (Alhanen, 2016). Democ a ização da cul u a Há uma g ande a iedade de es udos mos ando que, as o mas na a i as de a e, em pa icula a icção e o ea o, alimen am e ampliam a nossa capacidade de empa ia, ou seja, de nos posiciona em elação ao ou o, seja ele um ep esen an e da humanidade ou do mundo animal (Nussbaum, 2012; Aal ola & Ke o, 2017). A a e em a capacidade de ab i pe spec i as sob e ou as ealidades possí eis, bem como no as o mas de comp eende e lida com o mundo. Se analisa mos ce as expe iências da a e da sob a pe spec i a das habilidades de diálogo desc i as po Alhanen (2016), como po exemplo a lei u a de icção ou a expe iência de assis i a uma ap esen ação do ea o, es as encon am-se, acima de udo, no eino da a inação/sin onização e da imaginação. As o mas na a i as de a e azem à imaginação as ealidades de ou as pessoas e podem ajuda a sensibiliza a ida do ou o, a apoia a capacidade de ê-lo como um se digno, a espei á-lo e a cuida dos mesmos. Isso acon ece especialmen e com his ó ias nas quais as pe sonagens ic ícias con idam a cons ui conexões com pessoas e e en os eais, ou seja, pe mi em o econhecimen o e a iden i icação (Nussbaum, 2012; Aal ola & Ke o, 2017). Esses são alguns a gumen os que, po exemplo, Nussbaum usa pa a en a iza a impo ância das possibilidades de se e con a o com as a es, an o nos con ex os da educação o mal e não- o mal, quan o nas ou as es e as da ida. Em ou as pala as, os a gumen os des acam a impo ância da democ a ização da cul u a, ou seja, uma melho di usão das a es, um melho acesso, um desen ol imen o das “cul u as de cul u a”. Quando pensamos na educação, as a i idades c ia i as e as a es podem se inco po adas aos cu ículos e demais con ex os educacionais o mais e não- o mais de di e en es manei as, se en a izando a expe iência ou o aze . No PEDAGOGIA ARTE-SOCIAL 130 en an o, do pon o de is a de p a ica as habilidades de diálogo, po exemplo, as ob as ou abalhos a ís icos não são igualmen e pedagógicos. Pa a os sê-los, eles de em, de uma o ma ou de ou a, es a ligados a uma isão de mundo que ca egue em si a ideia do alo indi isí el da dignidade dos se es humanos, dos ou os animais e dos ambien es na u ais. Po ém, há uma ques ão sob e a impo ância da sele i idade das ob as de a e a se em u ilizadas nos con ex os educacionais. T aze uma dimensão pedagógica à expe iência a ís ica ambém signi ica es imula e o ien a a e lexão sob e quais ipos de “pon os cegos” as ob as de a e podem con e como p odu os de sua época e de seu con ex o social (Nussbaum, 2012; Ni ala & Ryynänen, 2019). No con ex o das polí icas cul u ais, a abo dagem da democ a ização da cul u a é mui as ezes c i icada po se baseada no concei o de cul u a es i o ao campo das a es consag adas e ol ada, especi icamen e, pa a a di usão da cul u a de eli e ou da chamada “al a cul u a”. Quando aplicamos a democ a ização da cul u a como um concei o analí ico nos con ex os da educação o mal e não- o mal, em ez de um concei o (sócio)polí ico no con ex o social mais amplo, conseguimos ul apassa alguns desa ios – mas pa a a a das expe iências e sá eis é p eciso uma e lexão c í ica e cuidadosa. O educado em que e uma capacidade de ul apassa os mu os en e a “al a cul u a” e àquelas o mas de a e que icam às ma gens, e econhece os pe igos da colonização cul u al (Ni ala & Ryynänen, 2019). Mesmo assim, pode-se dize que a pe spec i a da democ a ização da cul u a não é su icien e, como em sido a i mado ambém no con ex o da polí ica cul u al (Souza, 2017). Ademais, é necessá io inclui a pe spec i a da democ acia cul u al que não é somen e ol ada à di usão da cul u a exis en e (e mui as ezes “de eli e”) e à ideia de um público consumido das a es e da cul u a, mas que ambém econheça a c ia i idade e a agência de odos e que, além disso, en a ize o econhecimen o da p odução au ônoma que lemb e que as a es ão mui o além das suas o mas ins i ucionalizadas. No amen e, não se a a somen e de uma ques ão de polí ica cul u al, mas ambém em a e com con ex os educacionais. SANNA RYYNÄNEN 131 Democ acia cul u al A ideia de democ acia cul u al az o espec ado ou lei o se mo imen a pa a o luga do au o , pa icipando e azendo. O pon o de pa ida é a ideia de que odos são c ia i os a sua p óp ia manei a e é impo an e nu i essa c ia i idade e imaginação pa a o alece o agenciamen o. É assim que chegamos ambém na e cei a habilidade de diálogo, num a o de b inca . B inca é, em suma, a capacidade de aze expe imen os conc e os u ilizando a imaginação. O a o de b inca não é apenas pa a c ianças, mas de e se man ido de o ma conscien e ao longo da ida e se incluindo em di e en es ambien es educacionais, desde a p imei a in ância na escola a é em a i idades com adul os e idosos. O psicólogo Donald Winnico (1896–1971) en a izou a impo ância do b inca pa a o desen ol imen o da c iança e pa a a o mação da cidadania democ á ica. Como algo cen al pa a man e a capacidade de b inca , mesmo no mundo adul o, Winnico conside a a as a es em suas á ias o mas (Nussbaum, 2012). O jogo a ís ico pode desen ol e a imaginação e as habilidades emocionais, es imula e amplia a empa ia, acili a ou c ia encon os, ge a no as o mas de comunicação, o alece a expe iência da comunidade e ab i no as pe spec i as sob e as ealidades co idianas. O oco não es á an o nas habilidades e know- how, ou seja, na capacidade de a ua no palco ou oca um ins umen o pe ei amen e, mas no me gulho no p ocesso c ia i o, que é pa icipação na c iação. Isso é impo an e po si só, assim como a aleg ia e o p aze que esul am do compa ilhamen o dos p ocessos a ís icos. Pa a e mina a nossa e lexão em o no das noções de democ a ização da cul u a e de democ acia cul u al como meios que isam des aca a impo ância das expe iências e dos p ocessos a ís icos e c ia i os na ida humana, azemos um exemplo p á ico de um p oje o que en elaça ciências sociais e ea o, como en a i a de p a ica pedagogia a e-social na es e a pública. PEDAGOGIA ARTE-SOCIAL 132 Pedagogia a e-social na es e a pública: Puhekupla, ou Balão de Fala No início de 2017, um g upo de cien is as sociais e p o issionais de dança e ea o começa am a o ganiza e en os com emas de imig ação em ba es de um subú bio de Helsinque, Finlândia. O cole i o denominou-se Puhekupla1 (Balão de ala), que deu o mesmo nome pa a os e en os. A ideia oi a de abo da um ópico que é polêmico, o da imig ação, po meio de ea o pa icipa i o e discussão, com o obje i o de ompe on ei as, p oduzi encon os imp o á eis e ab i no as pe spec i as pa a odos os pa icipan es. Ao planeja os e en os (que com o empo i a am ambém um p oje o de pesquisa) pensamos num e o no ao ideal de ea o, aquele que c ia um espaço de discussão conjun a (O’Conno & Ande son, 2015). P e endemos, com as e amen as do ea o pa icipa i o e do Tea o Fó um (Boal, 2000), c ia um espaço público pa a p a ica , conjun amen e, as habilidades do diálogo. Puhekupla se assemelha à adição do ea o social de ua, em que o obje i o das peças ou cenas indi iduais le adas a um luga público é o de p o oca um deba e sob e algum ema socialmen e canden e. Nesse caso, o ea o a uou como um es imulado da p odução colabo a i a de in o mações, po meio de cenas baseadas em si uações eais, aduzidas em d ama. O ea o ai a luga es onde as pessoas já es ão, ou seja, as ap esen ações não são especi icamen e seguidas, como em um ea o adicional. Que íamos a ingi públicos que nós, como cien is as e a is as, não pode íamos acilmen e alcança de ou a o ma e cuja oz não es á, necessa iamen e, no cen o dos deba es na sociedade. O nosso p oje o ap esen a-se como uma en a i a de abalha com a ques ão de como p o ege as capacidades de diálogo e man ê-las i as em um con ex o social que, mui as ezes, unciona exa amen e ao con á io das pessoas e de seus elacionamen os sociais. Mesmo que o p oje o não enha sido in encionalmen e pensado pa a inco po a as habilidades do diálogo con o me o desc i o po Alhanen, é possí el econhece as dimensões de sin onização, imaginação, a o 1 Em inlandês. SANNA RYYNÄNEN 133 de b inca , e lexão ou delibe ação, e espe ança. O ea o pa icipa i o pode ap oxima as pessoas de uma manei a que simpa iza com os emas a ados, a é mesmo nas o mas co po ais, e ab e espaço pa a hesi ações, pe cepções e emoções con li an es. A abo dagem das a es cênicas a ua como um queb a-gelo, ab e espaço pa a discussões conjun as e a ua como uma chamada pa a b inca , como é insc i a nas écnicas do Tea o Fó um. Conside ações inais Iniciamos o p esen e a igo com a p eocupação exp essa po Nussbaum (2012) em o no do es aziamen o das humanidades e das a es dos cu ículos e dos demais p ocessos educacionais a ando, inclusi e, das consequências disso, po encialmen e de as ado as, pa a a democ acia. U ilizamos as e amen as da pedagogia social, especi icamen e a noção das habilidades de diálogo necessá ias pa a uma ida democ á ica. Suge imos uma abo dagem especí ica, a que Figu a 1. P imei o e en o do Puhekupla em um ba no subú bio de Helsinque, Finlândia, em dezemb o de 2017. Os clien es do ba pa icipando da elabo ação de uma cena. Fon e: ace o da au o a do ex o PEDAGOGIA ARTE-SOCIAL 134 chamamos de pedagogia a e-social, pa a analisa as ligações possí eis en e a i alidade da democ acia e o i encia ou aze a e, buscando des aca meios pedagógicos que ca egam em si a p o unda impo ância das a es pa a a ida humana. Com os concei os de democ a ização da cul u a e democ acia cul u al, p ocu amos mos a caminhos necessá ios pa a se pensa o ‘luga ’ das a es na educação o mal e não- o mal. Podemos conclui que o signi icado das a es na ida humana e na sociedade ai mui o além da expe iência imedia a. As a es de em se conside adas como pa e algo maio quando buscamos soluções pa a a a ual c ise da democ acia. Po ém, não é su icien e pensa que amplia as possibilidades de i e e de aze a e é uma solução ácil pa a a complexa ques ão de como de ende e a ança a democ acia po meios pedagógicos. Mas ale essal a que, as compe ências necessá ias pa a uma democ acia i a, são, a inal de con as, as compe ências de como i e jun o na sociedade. As a es podem alimen a e amplia a capacidade de empa ia, e possibili a expe iências pa icipa i as de posições es igma izadas e ma ginalizadas. Eis a impo ância de ga an i o acesso às a es em odas as ases da ida. Inclusi e, é necessá io pensa no acesso às a es e à cul u a de duas pe spec i as que são c is alizadas nos concei os de democ a ização da cul u a e democ acia cul u al. Con udo, a coisa mais impo an e pa a se lemb a é: a educação pa a a democ acia acon ece melho pelas ias dos p ocessos democ á icos. Ag adecimen os Es e abalho oi inanciado po Kone Founda ion (Finlândia), no âmbi o do p oje o 201903968 (2020– 2022). Ag adeço à P o .ª D .ª Hosana Celes e pelo abalho de e isão do a igo. SANNA RYYNÄNEN 135 Re e ências bibliog á icas AALTOLA, Elisa; KETO, Sami (2017). Empa ia: Myö äelämisen Tiede. Helsinki: In o. ALHANEN, Kai (2016). Dialogi Demok a iassa. Helsinki: Gaudeamus. ANDER-EGG, Ezequiel (1987). Polí ica Cul u al a Ní el Municipal. Buenos Ai es: Edi o ial Humani as. BOAL, Augus o (2000). Thea e o he Opp essed. New Edi ion. London: Plu o P ess. (O ig. 1974). ESKELINEN, Teppo (2019). Demok a ia U opiana Ja Sen Vas a oima . Tampe e: Vas apaino. HÄMÄLÄINEN, Juha (1995). Sosiaalipedagogiikan Oppihis o iallinen Kehi ys Saksassa. Kuopion Yliopis on Julkaisuja E. Yh eiskun a ie ee 26. Kuopio: Kuopion yliopis o. 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VILLAÇA, Ia a de Ca alho (2014). “A e-Educação: a A e como Me odologia Educa i a” in Cai u em Re is a, 3 (4). pp.74-85. PEDAGOGIA ARTE-SOCIAL 142 inse ida em um disposi i o de igilância e con ole – pa ece-me que con abula o im das p isões é necessá io pa a que a a e não se assujei e ac i icamen e aos desígnios colocados pelo discu so “ essocializado ”, que imp ega e jus i ica a exis ência da p isão desde seus p imó dios a é hoje. Ob iamen e, hoje eu obse o meu li o, publicado em 2008, e penso que ele é uma ob a com qualidades, mas não consigo deixa de me incomoda com algumas ausências que me sal am aos olhos. A ob a ainda é uma das pouquíssimas publicações sob e a e a ás das g ades em o ma de li o no B asil. E eu alo isso sem nenhuma aleg ia – se ia mui o bom que mui as pesquisas i essem sido publicadas en ol endo ea o e p isão em nosso país. Ac edi o ambém que ui capaz de ealiza uma desc ição hones a dos p ocessos analisados, sob e udo po comp eende como as aulas de ea o que cons uíamos, pau adas em uma elação ho izon alizada na omada de decisões, con ibuía pa a que as pessoas en ol idas no p ocesso econhecessem a impo ância da e omada de sua au onomia, edescob indo seu papel de sujei as da p óp ia his ó ia e ol assem a de ini um p oje o de ida – em oposição ao sis ema p isional, que es á es u u ado pa a que as pessoas, que a ele es ão sujei as, apenas obedeçam a eg as p e iamen e es abelecidas, es u u adas em nome da o ganização, con ole e segu ança. Além disso, elabo ei um esboço da his ó ia de abalhos ea ais em unidades peni enciá ias paulis anas, buscando inse i o abalho que ealizá amos em uma aje ó ia de p á icas de esis ência do ea o den o de cadeias. Tomei como e e ência mais an iga a expe iência que F ei Be o ela ou a Paulo F ei e no li o Essa escola chamada ida, quando menciona expe imen os ea ais po ele ealizados, en e 1969 e 1971, quando cump ia pena como p eso polí ico, í ima da di adu a mili a . Hoje, já sabemos, po meio da ese5 de Vi iane 5 Vi iane Becke Na aes, O Tea o do Sen enciado de Abdias Nascimen o: Classe e Raça na Mode nização do Tea o B asilei o, Tese (Dou o ado em A es Cênicas) – Escola de Comunicações e A es da Uni e sidade de São Paulo. São Paulo, 2020, p.309. VICENTE CONCILIO 143 Na aes, p o esso a da Uni io, que Abdias Nascimen o, quando es e e p eso no Ca andi u (olha o Ca andi u de no o aqui!), en e 1941 e 1943, ealizou uma sé ie de expe imen os cênicos que ele denomina a Tea o do Sen enciado, que inclusi e an ecede am o Tea o Expe imen al do Neg o, ma co pelo qual o a is a e pensado é econhecido. Ainda sob e o li o, penso ambém que consegui es u u a uma comp eensão do sis ema p isional a pa i dos es udos clássicos de Michel Foucaul 6 e E ing Go man7, co ejando a esses dois au o es, undamen ais pa a a cons ução de um pon o de is a c í ico sob e a p isão, alguns pesquisado es que con ibuí am com uma abo dagem his ó ica e c í ica das especi icidades do sis ema ca ce á io b asilei o. Nesse sen ido, o í ulo da ese de Luiz Ca los da Rocha, A p isão dos pob es8, esume exa amen e uma e idência que hoje é ampli icada quando unimos a ques ão econômica, a pob eza, ao ma cado acial: a p isão é um ins umen o de con ole que pune e ap isiona a população p e a e pob e. É jus amen e aqui que eu começo a en a e le i sob e aquilo que eu en endo como “ausências” da minha pesquisa. Não que seja necessá io eesc e ê-la, mas é undamen al olha pa a ela como uma pesquisa u o de um momen o em que não le á amos em conside ação pon os que hoje, a pa i das mudanças discu si as pos as sob e udo pelo pensamen o eminis a, pelo pensamen o eminis a neg o, se iam undamen ais pa a amplia os sen idos p oduzidos po aquelas p á icas. Na pesquisa, a pa i do concei o de “implicação”, ca o à pesquisa-ação al qual p econizada po René Ba bie (1988), busquei demons a da o ma mais explíci a possí el a quan idade de p i ilégios que dema ca am o meu olha sob e aquele uni e so odo. Nesse sen ido, sin o que o que hoje comp eendemos po 6 Michel Foucaul , Vigia e Puni . O Nascimen o da P isão. Pe ópolis: Vozes, 2004. 7 E ing Go man, Manicômios, P isões e Con en os. São Paulo: Pe spec i a, 2001. 8 Luiz Ca los da Rocha, A P isão dos Pob es, Tese (Dou o ado em Psicologia Social) – Ins i u o de Psicologia, Uni e sidade de São Paulo, São Paulo, 1994, p.279. QUEM SE INTERESSA POR “MEMÓRIAS AO SOL”? 144 “luga de ala”9 es a a e iden e – mui o embo a esse concei o nem onda a nossa á ea naquele momen o. Ainda assim, cabe ia ali uma e lexão sob e os papeis de gêne o – alunas mulhe es enca ce adas, p o esso es homens em libe dade – que ce amen e ende iam ques ões que não apa ece am na ocasião. Também conside o que a ia bem ao abalho uma busca po au o as mulhe es que se deb uça am sob e o sis ema penal e seus e ei os sob e a ida das mulhe es enca ce adas. As especi icidades do ap isionamen o das mulhe es an o no âmbi o subje i o quan o nos e ei os da p isão sob e seus con ex os amilia es e am al o de es udos impo an es, como a ob a de Juli a Lemg ube , cujo li o Cemi é io dos i os: análise sociológica de uma p isão de mulhe es (1983) já e a uma e e ência. No en an o, naquele momen o eu não me a en ei pa a essas ques ões – e hoje é p a icamen e impossí el pensa em abo da aquelas p á icas sem le a em con a os aspec os colocados em p imei o plano pelos es udos eminis as, no adamen e os elabo ados po pesquisado as neg as, que demons am que a in e seccionalidade10 en e gêne o, aça e classe é c ucial pa a en ende mos a complexidade das op essões p esen es em nossa sociedade, da qual o ap isionamen o az pa e. Essa dig essão, a e omada do li o de 2008 não es á aqui como uma en a i a de e isá-lo. O que acon ece é que, passados 14 anos desde a úl ima ez que en ei em uma unidade p isional (saímos da Peni enciá ia Feminina do Ta uapé em 2003), eu inalmen e consegui e oma um abalho a ís ico e pedagógico em uma unidade p isional. Isso acon eceu a pa i agos o de 2017, ago a no P esídio Feminino de Flo ianópolis, cidade onde i o desde 2008. Vol ei a abalha em uma unidade penal eminina, po meio de uma ação de ex ensão que coo deno na unidade, após 9 Sob e esse ema, o es udo de Djamila Ribei o, O Que é: Luga de Fala? Belo Ho izon e: Le amen o, 2017. 10 O concei o de in e seccionalidade emon a aos es udos eminis as neg os e ganhou popula idade na década de 90, sob e udo a pa i dos es udos in e disciplina es de Kimbe lé C enshaw, que mescla am as ca ego ias de aça, gêne o e classe pa a es u u a a análise das expe iências de mulhe es neg as. Pa a conhece mais, sugi o a lei u a de Ca la Ako i ene, In e seccionalidade. São Paulo: Jandaí a, 2019. VICENTE CONCILIO 145 mui as negociações e a conquis a de apoio jun o à Sec e a ia de Adminis ação P isional e Socioedica i a do Es ado de San a Ca a ina. Fo am os esponsá eis pela á ea educacional das p isões que decidi am que meu p oje o de e ia oco e nessa unidade, e po an o mais uma ez eu me i dian e de um con ex o em que oi necessá io comp eende e me elaciona com as especi icidades do enca ce amen o de mulhe es. Ao longo dos anos de 2017, 2018 e 2019 o p oje o oi se consolidando jun o à unidade, en en ando ob iamen e as ad e sidades que eu já imagina a que acon ece iam: a elu ância inicial das agen es p isionais, incomodadas pela inse ção de uma a i idade a mais pa a elas igia em; as dispu as co idianas pa a que as aulas ossem conquis ando maio du ação (em 2019, conseguímos encon os de 3 ho as semanais com nossas alunas, empo que conside á amos ó imo pa a nossas p opos as) e pa a que pudéssemos le a pa a os nossos ensaios obje os como cade nos, cane as, igu inos e maquiagem, com o in ui o de inc emen a nossas p opos as cênicas. Também conquis amos au o ização pa a que pudéssemos ealiza egis os o og á icos e ilmagens de alguns encon os, undamen ais pa a documen a nossa expe iência. Quando, em julho de 2018, um juiz au o izou a saída de 7 de nossas alunas pa a a ealização de uma pe o mance em um e en o ins i ucional11, pudemos inalmen e demons a pa a mui as das pessoas que abalha am na unidade que nosso abalho, embo a osse conside ado pouco sé io e incapaz de le a às alunas alguma o mação que es i esse no alo izado âmbi o da “p o issionalização”, inha e ei os signi ica i os na ida delas. A pa i dessa ap esen ação, e a pe cep í el uma mudança posi i a na o ma com que eu e Yu i Lima Cab al, en ão meu o ien ando de mes ado e que minis a a as aulas comigo, é amos ebidos pelas agen es da unidade. Esse econhecimen o oi, pa a mim, uma p o a de que há, en e as agen es peni enciá ias, pessoas ealmen e in e essadas em ealiza um 11 Sob e essa ap esen ação, e : <h ps://www.udesc.b /cea /no icia/p oje o_da_udesc_e_ap esen ado_ na_2__mos a_labo al_do_sis ema_p isional_b asilei o>. Acesso em: 08 de no . de 2020. QUEM SE INTERESSA POR “MEMÓRIAS AO SOL”? 146 abalho que a enda aos di ei os das pessoas p esas. Foi a pa i desse ano ambém que a o icina oi conside ada a i idade educacional complemen a , e passou a aze pa e das polí icas de emissão de pena (a cada 12 ho as de pa icipação nas aulas de ea o, descon a a-se um dia de pena). A con apa ida a essa conquis a oi que i emos que e o ça alguns aspec os que já es a am p esen es em nossa p á ica, mas que pude am se ap o undados ao longo do ano de 201912: desde o início dos encon os nes e ano, in oduzimos o egis o esc i o como pa e de nossas a i idades, inc emen ando a p á ica ea al com p opos as de esc i a c ia i a, coo denadas pela en ão mes anda Ca oline Ve o i de Souza. Ao longo daquele ano, a coo denação do p ocesso oi compa ilhado po cinco pessoas: além de mim e Ca oline, in eg a a o p oje o Naguissa Takemo o Viegas (es agiá ia e aluna da Udesc) e, a pa i de maio, nós ambém acolhemos a p esença de Thuanny Paes e Alexand a Melo, in eg an es do Cole i o Nega, g upo de ea o o mado po in eg an es neg as que desen ol iam um p oje o chamado Mulhe es Neg as Resis em. Ou seja, à p opos a com a qual iniciamos o ano, que oi coo denada sob e udo pela pesquisa en e cena e esc i a coo denada po Ca oline Ve o i, ac escen ou- se o deba e acial azido pelas a izes do Cole i o Nega. Fo am elas que en a iza am a impo ância de acializa mos o deba e sob e a p isão, um deba e que e a in isibilizado quando nossas conside ações es a am es i as a nossas alunas que e am, em sua g ande maio ia, b ancas. Vale aqui uma no a: o pano ama do ma cado acial é ligei amen e di e en e na egião Sul do B asil, em compa ação com o pano ama nacional. Embo a nos ês es ados (Pa aná, San a Ca a ina e Rio G ande do Sul) a maio ia das pessoas ap isionadas seja b anca, ainda assim a p opo ção de pessoas neg as nas p isões é maio que a média populacional. 12 Sugi o a lei u a de Vicen e Concilio e Ca oline Ve o i, Rela o Sol o de uma O icina A ás das G ades: um P ocesso de Esc i a Tea al den o do P esídio Feminino de Flo ianópolis, 2019. Disponí el em: <h ps:// pe iodicos.uni ap.b /index.php/iaca/a icle/ iew/5088> Acesso em: 08 de no . de 2020. VICENTE CONCILIO 147 No en an o, hoje me pa ece impossí el não deba e mos a p isão e as es a égias de comba e ao enca ce amen o em massa sem en ende mos o papel undamen al do acismo es u u al no o alecimen o desse disposi i o. O acismo e seu papel desumanizado sob e a exis ência das idas p e as (e ambém indígenas, e mais ecen emen e ambém sob e pessoas de o igem la ina) oi uma o ça undamen al na cons ução desse apa elho puni i o, que é peça e iden e da nec opolí ica (Mbembe, 2018). Foi ao longo de 2019 que cons uímos, a pa i dos diá ios esc i os po nossas alunas, o espe áculo Es endemos nossas memó ias ao sol. O ex o nasceu de um p ocesso que sua au o a, Ca oline Ve o i de Souza, de iniu como “d ama u gia da escu a”13. Nosso papel ali oi de ap ende a ou i , an es de p opo . Tínhamos que en ende que o ea o é ação, mas que há mui as coisas sendo explici adas quando conseguimos comp eende o epouso. Naqueles encon os, semp e aos sábados à a de, cu ucá amos com delicadeza a co agem de nossas alunas em expo seus pon os de is a e, uma ez es abelecida nossa elação de con iança mú ua, as memó ias ocadas pude am se enca adas como ma é ia-p ima pa a uma ob a de icção (mas nem ão icção, no im). Foi ali que nasceu a His ó ia da Chu a, em uma imp o isação que p opunha a cons ução cole i a de uma ábula, quando em oda cada in eg an e de e ia comple a a na ação da pessoa que o an ecedeu. Essa his ó ia se ans o mou em um espe áculo, ap esen ado no Fes i al Flo ipa Tea o – Isna d Aze edo, o maio e en o da á ea na cidade, e do qual elas pude am aze pa e. Quando acon ece uma ap esen ação desse ipo, há uma guinada nos sen idos do nosso abalho. Essas ap esen ações ex e nas ep esen am uma conquis a mui o o e pa a nossas a izes: po meio delas, elas pude am e e amilia es e amigos, e essas pessoas amadas po nossas alunas pude am ê-las não mais ajando um uni o me la anja. O que as pessoas p esencia am o am a izes em 13 Pa a ap o undamen o, sugi o consul a a disse ação de mes ado de Ca oline Ve o i de Souza, chamada Es endemos Nossas Memó ias ao Sol: Caminhos pa a uma D ama u gia da Escu a com Mulhe es em P i ação de Libe dade. QUEM SE INTERESSA POR “MEMÓRIAS AO SOL”? 148 VICENTE CONCILIO seus igu inos, es indo pe sonagens que elas mesmas in en a am e pude am en ão compa ilha , comp o ando que elas são mui o mais do que aquilo que o sis ema p isional as en a encapsula . Essa lu a pa a e oma a humanidade das pessoas p esas não é uma ques ão pequena na lu a con a o enca ce amen o em massa. Pa a desmon á-lo, é p eciso muda a pe cepção que a sociedade em das p isões e das pessoas que as habi am. É p eciso mais uma ez que o ema enha a público de o ma saudá el e c í ica, que o deba e sob e as p isões aga a dimensão eal de seu cus o humano e econômico. Os discu sos de comba e ao c ime p ecisam se dimensionados de o ma à elabo ação de polí icas públicas que o e i em, pa a que eles pa em de se i de jus i ica i a pa a o o alecimen o sis emá ico de polí icas conse ado as que espondem ao c ime sem en endê-lo de o ma ab angen e. Que papel o ea o em nesse pano ama? O ea o cabe nesse deba e? Sigo ac edi ando que as espos as pa a esses emas ainda não es ão dadas. Mas gos a ia de ajuda a cons uí-las. 149 Re e ências bibliog á icas AKOTIRENE, Ca la (2019). In e seccionalidade. São Paulo: Jandaí a. BARBIER, René (1988). A Pesquisa-Ação nas Ins i uições Educacionais. Rio de Janei o: Zaha . CONCILIO, Vicen e (2008). Tea o e P isão: Dilemas da Libe dade A ís ica. São Paulo: Huci ec. CONCILIO, Vicen e; VETORI, Ca oline (2019). Rela o Sol o de uma O icina A ás das G ades: um P ocesso de Esc i a Tea al den o do P esídio Feminino de Flo ianópolis. Disponí el em: <h ps://pe iodicos.uni ap.b /index.php/iaca/a icle/ iew/5088> Acesso em: 08 de no . de 2020. BORGES, Juliana (2018). O Que é: Enca ce amen o em Massa? Belo Ho izon e: Le amen o. BORGES, Juliana (2020). P isões. Espelhos de Nós. São Paulo: Toda ia. FOUCAULT, Michel (2004). Vigia e Puni . O Nascimen o da P isão. Pe ópolis: Vozes. GOFFMAN, E ing (2001). Manicômios, P isões e Con en os. São Paulo: Pe spec i a. MBEMBE, Achille (2018). Nec opolí ica. São Paulo: N-1 edições. NARVAES, Vi iane Becke (2020). O Tea o do Sen enciado de Abdias Nascimen o: Classe e Raça na Mode nização do Tea o B asilei o. Tese (Dou o ado em A es Cênicas) – Escola de Comunicações e A es da Uni e sidade de São Paulo. São Paulo. RIBEIRO, Djamila (2017). O Que é: Luga de Fala? Belo Ho izon e: Le amen o. ROCHA, Luiz Ca los da (1994). A P isão dos Pob es. Tese (Dou o ado em Psicologia Social) – Ins i u o de Psicologia, Uni e sidade de São Paulo. São Paulo. SOUZA, Ca oline Ve o i de (2020). Es endemos Nossas Memó ias ao Sol: Caminhos pa a uma D ama u gia da Escu a com Mulhe es em P i ação de Libe dade. Disse ação (Mes ado em Tea o) – Cen o de A es, Uni e sidade do Es ado de San a Ca a ina. Flo ianópolis. QUEM SE INTERESSA POR “MEMÓRIAS AO SOL”? 150 151 AUTORES ELEN DE FATIMA LONDERO A iz, pesquisado a e p odu o a cul u al. Mes anda em Pedagogia do Tea o na Escola de Comunicação e A es na Uni e sidade de São Paulo/ECA-USP. Es udou bacha elado em A es Cênicas, na Uni e sidade Fede al de San a Ma ia (RS), e g aduou-se em Tecnologia em P ocessos Ge encias, no Cen o Uni e si á io Senac São Paulo. A uou no espe áculo "Mademoiselle Chanel", es elado po Ma ília Pê a, sob di eção de Jo ge Takla e com ex o de Ma ia Adelaide Ama al. É a iz undado a e in eg an e da Cia. Veneno do Tea o, onde coo dena a Mos a Cul u al Exp essões da Les e. Foi uma das o ganizado as do li o “P oje o Es ação SP: Pedagogias da Expe iência”, e do li o “O Sujei o His ó ico do Tea o de G upo na cidade de SP e g ande SP”, ambos edi ados pelo Selo Lucias da Adaap. Colabo ado a da SP Escola de Tea o desde 2010, a ualmen e é esponsá el pelos P oje os Especiais da ins i uição. ELISABETH SILVA LOPES Licenciada em Educação A ís ica e A es Cênicas pela Uni e sidade Fede al de San a Ma ia (1979), Especialização em A e-Educação (1987) na Uni e sidade de São Paulo; Mes ado em A es Cênicas pela Uni e sidade de São Paulo (1992) com o ien ação de Rena a Pallo ini; Dou o ado em A es Cênicas pela USP (2001) com o ien ação de Jacó Guinsbu g; Pós-dou o ado no P og ama de Pós-G aduação em Linguís ica da Uni e sidade Fede al de San a Ma ia (UFSM) na linha de pesquisa de Análise do Discu so, sob e a memó ia do a o (2006), supe isão de Amanda Sche e ; e um segundo Pós-dou o ado sob e pe o mance oi ealizado na Tisch School o he A s, na New Yo k Uni e si y (2009-2010), com a supe isão de Richa d Schechne . Tem expe iência como p o esso a de ea o de 1º e 2º g aus (1977- 1978), e uni e si á ia desde 1980, du an e 18 anos na UFSM e ou os 21 na USP. A ualmen e é P o esso a Sênio , aposen ada do Depa amen o de A es Cênicas, e inculada apenas ao PPGAC. Exe ceu a unção adminis a i a de Coo denado a do cu so de G aduação e do P og ama de Pós- G aduação em A es Cênicas, da Escola de Comunicações e A es, na USP. Foi ambém Vice-di e o a do TUSP - Tea o da Uni e sidade de São Paulo. É associada e memb o da di e o ia do Hemisphe ic Ins i u e o Pe o mance and