Uni e sidade No a de Lisboa
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Imagens do es angei o no
Diá io
de Miguel To ga
Do a Ma ia Nunes Gago
Disse ação de Dou o amen o em Li e a u as Românicas Compa adas
ap esen ada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
da Uni e sidade No a de Lisboa, sob a O ien ação
do P o esso Dou o Ál a o Manuel Machado
1
Ag adecimen os
Nes a b e e no a, p e endo lemb a os que, de di e sos modos, pa ilha am es a
«caminhada» pa a colhe e analisa as imagens con igu adas pelo olha do na ado
o guiano, o nando-a mais alician e e menos á dua.
Em p imei o luga , mani es o a minha p o unda g a idão ao senho P o esso Dou o
Ál a o Manuel Machado pela cons an e disponibilidade, sábia e a en a o ien ação
cien í ica concedida.
Ag adeço mui o especialmen e à minha i mã, aos meus pais e a ós o apoio
dispensado, assim como aos colegas da Escola EB 2,3/S. D . Isido o de Sousa de Viana do
Alen ejo e aos amigos (pa icula men e, à Ma ia Sa men o, Ma iana Louzeau, Cidália
Co im, Es ela Pinhei o, Ál a o Re ello e Ma ia Vila).
Po im, que o ag adece ambém aos Se iços de Ges ão dos Recu sos Humanos a
concessão da Licença Sabá ica que me possibili ou o desen ol imen o e conclusão des e
abalho.
2
«O uni e sal é o local sem pa edes».
Miguel To ga, T aço de União, 1969.
3
Índice
In odução..................................................................................................................p. 5
P imei a pa e
I. A iagem como modo de conhecimen o do es angei o.............................p.12
II. Li e a u a Compa ada e imagologia...................................... ..................p. 43
III. Imagem do es angei o e es e eó ipo........................................................p. 58
IV. A ep esen ação simbólica do
Ou o.........................................................................................................p. 73
Segunda pa e
I. A ge ação da P esença: ecepção e di ulgação de modelos
es angei os............................................................................................................p. 90
.
II. Os modelos li e á ios es angei os na ob a de Miguel To ga.................. p.123
III. In luências e o iginalidade do Diá io......................................................p. 148
IV. A especi icidade do Diá io: agmen a ismo s.unidade........................p. 165
Te cei a pa e
I. Os i ine á ios do na ado - iajan e..........................................................p. 179
II . A imagem de Espanha.............................................................................p. 201
III. O B asil: da i ência da emig ação ao ascínio do eencon o................p. 229
IV. Á ica: o exo ismo e a di e enciação......................................................p. 247
V. O O ien e: a busca dos es ígios do Impé io..........................................p. 260
.
4
VI. As cidades e isi adas: a sac alização dos espaços.............................. p. 278
VII. O im da jo nada: en e a alibilidade da His ó ia
e a ameaça da mo e..........................................................................................p. 300
Conclusão..................................................................................................................p. 322
Bibliog a ia...............................................................................................................p. 330
In odução
5
In odução
O Diá io de Miguel To ga cons i ui um manancial de e e ências e imagens do
es angei o de onde eme ge o múl iplo olha do au o sob e os di e sos espaços e empos
da dimensão humana, ao longo de sessen a e ês anos de ida. Assume-se, po
conseguin e, como documen o de ex ema impo ância pa a o es udo da o mação de
imagens do es angei o, que se i á de ema à p esen e disse ação de Dou o amen o, no
âmbi o da Li e a u a Compa ada.
Nes e sen ido, sendo o nosso co pus cons i uído pelos dezasseis olumes do Diá io,
a endendo à complexa in e comunicabilidade que imp egna a ob a o guiana, não podemos
deixa de conside a ambém ou as ob as do au o que complemen am as ep esen ações
do es angei o p esen es no Diá io, como é o caso de A C iação do Mundo, Poemas
Ibé icos, T aço de União e Fogo P eso.
No ea á es e abalho o objec i o de, a a és da análise das imagens do es angei o
ap eendidas po To ga, desen ol e o es udo de uma no a dimensão de eo uni e salis a
de um au o ma cadamen e conhecido pelo seu elu ismo. Is o po que é a a és do
con on o com o «ou o» que é possí el de ini a iden idade do «eu» e do seu país de
o igem. Nes e con ex o, a me odologia seguida se á, pois, a da imagologia, pa indo
semp e do ge al pa a o pa icula e da eo ia pa a a p á ica.
Numa p imei a pa e, e lec i emos ace ca da impo ância da iagem como o ma de
conhecimen o do es angei o e dos di e sos au o es (po ugueses e es angei os),
mencionados po To ga no Diá io, que a eesc e e am, pa indo sob e udo de uma
expe iência de con ac o di ec o com ou os países, como oi o caso de Fe não Mendes
Pin o, Mon aigne, Cha eaub iand, en e ou os. Impo a á, nes e âmbi o, desen ol e e
In odução
6
salien a a impo ância da iagem não apenas na sua dimensão geog á ica e his ó ica, mas
ambém cul u al e social, como ap op iação de um mundo, de de e minadas imagens.
Po conseguin e, pa a o es udo des as imagens u iliza emos, como já e e imos, a
imagologia, um dos mé odos mais an igos da Li e a u a Compa ada, cuja con ex ualização
eó ica e impo ância como campo de in es igação se á pe inen e abo da . Nes a
sequência, ap esen a emos o pe cu so de desen ol imen o des e mé odo, desde a escola
ancesa de Jean-Ma ie Ca é, ocando o seu ca ác e in e disciplina . Nes e âmbi o, a
ap esen ação de concei os de imagem e a análise do modo como se o mam es e eó ipos é
essencial numa con ex ualização eó ica do nosso es udo. Do mesmo modo, se ão
abo dados os ês elemen os cons i uin es da imagem: a pala a, a elação hie a quizada e o
cená io. No con ex o des e úl imo, a en a emos na ep esen ação simbólica do «ou o»,
conside ando as a i udes undamen ais na sua ep esen ação: a supe io idade da ealidade
cul u al es angei a ela i amen e à nacional; a in e io idade da ealidade cul u al
es angei a em elação à nacional; a elação de admi ação mú ua (conducen e a uma
assimilação das ideias do es angei o); e, inalmen e, uma qua a a i ude, na qual não são
ecidos juízos de alo posi i os, nem nega i os, e idenciando-se o cosmopoli ismo do
esc i o .
Além disso, a consciência enuncia i a do «Eu», a in luência da sua ideologia na
o ganização e elabo ação das ep esen ações do «Ou o» se ão ques ões a desen ol e .
Nes e sen ido, is o que Miguel To ga in eg ou o Segundo Mode nismo, es uda emos
na segunda pa e a impo ância da ge ação da P esença na di ulgação e ecepção de
modelos li e á ios es angei os, al como o seu eco na ob a o guiana. Nes e campo,
oca emos o con ibu o da Nou elle Re ue F ançaise e dos seus colabo ado es na
o mação da P esença.
In odução
7
Uma ques ão assume, nes e con ex o, ele ância: de que modo o am ecebidos
de e minados esc i o es es angei os, nes a época, em Po ugal, po Miguel To ga e pelos
ou os au o es do Segundo Mode nismo? Es a ques ão eme e-nos pa a a es é ica da
ecepção de Jauss e pa a o seu concei o de ho izon e de expec a i a – es es se ão
e ec i amen e pon os a desen ol e ainda na segunda pa e.
Nes e âmbi o, pa icula iza emos os modelos es angei os p esen es na ob a
o guiana, sendo de oda a pe inência sublinha a dis inção en e «modelo p odu o »
(aquele que p o oca, despe a a ecepção li e á ia) e «modelo de e e ência» (si uado num
plano mais dis an e de admi ação, ou a inidade, não se in eg ando no undamen al da
ob a)1. De en e os au o es conside ados «modelos» de emos salien a os anceses And é
Gide e P ous ; os espanhóis Miguel Ce an es e Unamuno, e o usso Dos oie ski. Impo a
ainda abo da as in luências ansmi idas po Raul B andão, em cuja ob a encon amos
ma cas an o de Vic o Hugo como de Dos oie ski.
Ainda nes a pa e, ap esen a emos as in luências e o iginalidade do Diá io,
nomeadamen e conside ando os modelos es angei os de esc i a dia ís ica e e idos po
To ga, como é o caso de Amiel e de Gide.
Des e modo, quando inicia mos a análise dos i ine á ios do na ado já conhece emos
o con ex o social e his ó ico em que se mo imen a, as lei u as e e e ências cul u ais que
anspo a na sua «bagagem» de iajan e. Além disso, analisa emos igualmen e as
ca ac e ís icas que ma cam a o iginalidade do Diá io.
Na e cei a pa e, p ocede emos à análise das imagens do es angei o, do seu
signi icado, dos pe cu sos e mecanismos (ex e nos e in e nos ao sujei o) que as ge a am.
1 Ál a o Manuel Machado, «Génio nacional e modelos es angei os: e lexões compa a i is as sob e Miguel
To ga», Aqui, Nes e Luga e Nes a Ho a – Ac as do Cong esso In e nacional sob e Miguel To ga, Po o,
Edições Uni e sidade Fe nando Pessoa, 1994, p. 285.
I. A iagem como modo de conhecimen o do es angei o
14
En aizando-se num mo imen o ulc al de indagação, o pon o de chegada da iagem é
semp e um no o pon o de pa ida, de e o no. O iajan e não az consigo nenhum
elemen o conc e o dessa expe iência. À semelhança de Láza o, que essusci ou da mo e e
abandonou a sepul u a de mãos azias, ambém o iajan e assim eg essa ao seu o ão
na al. F isa-se a passagem pa a uma a i ude passi a e con empla i a a a és da imagem do
«manje ico», plan a adicionalmen e po uguesa.
A iagem assume-se como p á ica cul u al que ab ange uma e en e his ó ica e
an opológica. Nes e caso, in e essa-nos pa icula men e o es emunho esc i o da iagem
como expe iência humana insubs i uí el que ans o ma o iajan e, a as ando-o pa a longe
do mundo quo idiano, amilia . Co esponde, pois, o ac o de iaja a uma deslocação
e ansc i a, eesc i a, u o de um in e câmbio, de uma espécie de usão en e o espaço
es angei o e a escolha de um modo de esc i a, de um con eúdo cul u al suscep í el de a
ep oduzi .
Assim, cons i uindo uma p á ica cul u al, «a iagem é, simul aneamen e, uma
expe iência humana singula , única, incon undí el pa a aquele que a i eu, e um
es emunho humano que se insc e e num momen o p eciso da his ó ia cul u al de um país:
o do iajan e.»5
No que conce ne à elação en e iagem e li e a u a, é pe inen e menciona a
dis inção e ec uada po Ál a o Manuel Machado e Daniel-Hen i Pageaux en e os
concei os de iagem, de pe eg inação e de u ismo, conside ando o seu ca ác e
indi idual e li e: «a iagem opõe-se diame almen e que à pe eg inação que ao u ismo,
5 Ál a o Manuel Machado - Daniel-Hen i Pageaux, Da Teo ia da Li e a u a à Li e a u a Compa ada, ed.
ci . p. 33.
I. A iagem como modo de conhecimen o do es angei o
15
dado que o iajan e – con a iamen e ao pe eg ino e ao u is a – ei indica ou conside a
implíci o o ca ác e indi idual da sua decisão e do seu ac o.»6
Des e modo, a exp essão li e á ia da iagem e ela a adequação do homem ao meio
ex e io , aliada ao pode de comp eende e desc e e o mundo ci cundan e, ap op iando-se
dele e con e endo o elemen o desconhecido em algo amilia e comp eendido.
Desempenha, nes a sequência, um papel ulc al na in e p e ação que do mundo, que da
His ó ia.
É em A C iação do Mundo- Qua o Dia, que encon amos algumas conside ações
que escla ecem a a i ude de To ga como esc i o - iajan e. Dialogando com um amigo em
Pa is, a p opósi o de uma iagem emp eendida e do ac o de mui os a is as se muda em
pa a essa cidade, a i ma a incapacidade de deixa a sua e a pa a i e nou o país:
De es o, enho o co po e a alma plan ados naquele chão. E não posso ugi ambém
a esse condicionalismo, complemen a ou pa alelo ao da ala. Ando de on ei a em
on ei a a e coisas. Mas sei de ciência ce a que só quando ol a é que lhes ou
descob i a e dadei a signi icação. Chega a se eng açado: o uni e sal, que num país
es angei o sin o in ini amen e longe de mim, das agas na i as pa ece-me ao alcance da
mão...7
P imei amen e, cons a amos o o e elu ismo do na ado , a a és da alusão a um
p ocesso uni icado , quase de « usão», que o con e e em pa e in eg an e do chão do seu
país, simul aneamen e condicionado a do seu p óp io se . As incu sões pelo e i ó io
es angei o uncionam como um modo de a e i a sua iden idade nacional. No en an o, esse
p ocesso só adqui e sen ido após o eg esso e um dis anciamen o que pe mi e
edimensiona as expe iências i idas.
6 Idem, p. 35.
7 A C iação do Mundo - O Qua o Dia, Lisboa, 3ª ed. in eg al, Pub. Dom Quixo e, 2002, p. 347.
I. A iagem como modo de conhecimen o do es angei o
16
É, po conseguin e, a iagem que lhe pe mi e aça os seus limi es: «Feliz ou
in elizmen e conheço os meus limi es, que es e passeio pela Eu opa ajudou u iosamen e a
p ecisa .»8
Cu iosamen e, o in e esse pela li e a u a de iagens (sob e udo po algumas ob as)
e idencia-se em di e sas passagens do Diá io. To ga e e e a ausência na li e a u a
espanhola de uma no á el ob a de iagens que seja «compa á el, po exemplo, à nossa
Pe eg inação, ou ao I ine á io de Cha eaub iand.»9
Nes e sen ido, abo da emos, em seguida, em linhas mui o ge ais, o modo como o
ema da iagem em sido a ado ao longo do empo na li e a u a e a impo ância dos
au o es e e idos po To ga no seu Diá io, cuja in luência oi no ó ia na li e a u a
po uguesa e eu opeia, em ge al: Fe não Mendes Pin o, Mon aigne, Cha eaub iand; By on,
S e ne, Goe he, S endhal, Flaube , Almeida Ga e , Eça de Quei ós e Thomas Mann.
Mui os ou os pode iam se abo dados. No en an o, não p e endemos elabo a um
his o ial da Li e a u a de Viagens, mas apenas e lec i ace ca do con ibu o de alguns
au o es, conside ados mais p óximos de To ga – que pelas e e ências a eles ei as no
Diá io, que po alguma in luência ansmi ida. Po ou o lado, hou e a p eocupação de
selecciona esc i o es de di e sas épocas, numa pe spec i a diac ónica, pa a melho
abo da mos a impo ância da iagem ao longo do empo como modo de conhecimen o do
es angei o e como ac o impulsionado pa a os es udos de Li e a u a Compa ada.
Na cul u a ociden al, emon a a li e a u a de iagens à Idade Média e à adição c is ã
da pe eg inação. Es a inha como des ino a Te a San a, cons i uindo um modo de
a i mação da é, com o in ui o de a ingi a ida e e na. Po ezes, os iajan es, p ocu ando
apenas a con i mação das suas quime as, e ec ua am egis os, ge almen e no as pouco
8 A C iação do Mundo, ed. ci ., p. 348.
9 Diá io VI, ed. ci ., p. 632.
I. A iagem como modo de conhecimen o do es angei o
17
a iculadas, o madas po me os in en á ios ou cu iosidades. Nes e âmbi o, a p imei a ob a
amosa é o Li o de Ma co Polo, que pa ece cons i ui o modelo des e géne o. Foi esc i o
no século XIII e ela a as iagens do me cado eneziano pelo mundo. Con udo, é de
salien a que as pe eg inações o nece am, de ce o modo, os p imei os «guias de iagem»,
com alguns de alhes ace ca de i ine á ios, hospeda ias, e c., ap esen ando i ine á ios ixos e
conselhos es e eo ipados. Assemelha am-se a uma p imei a o ma «emb ioná ia» de
u ismo, di e en e, po isso, do concei o de iagem já an e io men e ocado.
É com os Descob imen os que a li e a u a de iagens se expande. Desde o início do
século XVI, a esc i a de iagens deixa de se me a ansc ição de no as omadas de
memó ia, e i icando-se um encon o e uma usão en e o discu so e o pe cu so.
A pa i do momen o em que a pe cepção do no o implica a mudança incessan e do
ho izon e de conhecimen os, a expe iência de iagem ab e-se aos no os ho izon es da
imaginação. Ela possibili a ao iajan e da Renascença, de sen idos bem despe os pa a a
ealidade ci cundan e, adqui i conhecimen os dis in os dos que são p opo cionados pela
ciência. Pa alelamen e à descobe a do Ou o, do di e en e, há uma e lexão humanis a
sob e si p óp io. Tal como e e e Ál a o Manuel Machado:
A pa i de en ão, a na a i a de iagem, c iando a imagem do es angei o, le a o
esc i o - iajan e a o na -se simul aneamen e p odu o do ex o, objec o do ex o e
encenado da sua p óp ia pe sonagem, ou seja: na ado , ac o , expe imen ado e objec o
da expe iência, e abulando, cons uindo um imaginá io p óp io.10
Em Po ugal, como se sabe, a p imei a na a i a de iagens conside ada como ex o
li e á io é a Ca a do Achamen o do B asil, da au o ia de Pe o Vaz de Caminha. É da ada
10 Ál a o Manuel Machado in Dicioná io de Li e a u a Po uguesa, o ganização e di ecção de Ál a o
Manuel Machado, Lisboa, Ed. P esença, 1996, p. 566.
I. A iagem como modo de conhecimen o do es angei o
18
de 1 de Maio de 1500 e ela a ao ei D. Manuel a descobe a do país mencionado. Pa a
além de ou os ex os, impo a ainda menciona a His ó ia T ágico Ma í ima (publicada
em 1735 e 1736). Po ém, é a Pe eg inação de Fe não Mendes Pin o o ex o pa adigmá ico
da na a i a de iagens do século XVI, endo sido publicado em Lisboa em 1614.
São di e sas as e e ências ace ca des a ob a p esen es no Diá io. Numa passagem
da ada de 28 de Janei o de 1941, é c i icada a al a de uni e salidade da li e a u a
po uguesa, que az com que as suas ob as não sejam econhecidas além- on ei as, como
sucede com au o es es angei os (são ci ados Ce an es, Shakespea e, Moliè e e Goe he)
11.
To ga conside a que, pe an e as ob as dos au o es sup amencionados, que Os
Lusíadas, que a His ó ia T ágico-Ma í ima, que a Pe eg inação, se assumem como os
«monumen os li e á ios» nascidos dos Descob imen os, não passando de « ealizações
casei as». Além disso, a «Pe eg inação não ai além do li o bem ememo ado do seu
au o .»12
An e io men e, a 5 de Julho de 1940, é ainda ci ada uma ase, onde, com o in ui o de
c i ica o exage o dos ingleses, To ga eco e à compa ação e a uma ci ação da ob a de
Mendes Pin o:
Es es ingleses, quando azem uma das deles e depois a con am nos Comuns, pa ecem
o Fe não Mendes Pin o:
“E com mui as a e-ma ias e mui o pelou o nos omos a eles e em menos de um
c edo os ma ámos a odos.” 13
11 C . Diá io I, ed. ci ., p. 135.
12 Idem, p. 136.
13 Idem, p. 119.
I. A iagem como modo de conhecimen o do es angei o
19
Numa ou a passagem do Diá io, o na ado con essa e sen ido desejo de se , en e
ou os he óis li e á ios, o p o agonis a da Pe eg inação:
Não há dú ida nenhuma: se um lei o não se em i me nos pés dian e de ce os
li os e de ce os au o es, acon ece-lhe como quando a gen e se deb uça a uma al a
janela e olha com adesão exage ada pa a o undo: a i a-se dali abaixo [...]
Po mim, já es a semana i e en ações de se o Binma de da Menina e Moça, o
An ónio de Fa ia da Pe eg inação [...]14.
Ve i ica-se en ão, a a és des e comen á io, uma admi ação pelo he ói de Fe não
Mendes Pin o, um desejo de se me amo osea nele, expe imen ando a in luência e o pode
que uma ob a li e á ia pode exe ce no seu lei o . Cu iosamen e, nes e caso, Fa ia não se
pode conside a um he ói, mas an es um «an i-he ói» pica esco, que nos e ela o ascínio
pelo O ien e longínquo, em oposição à is e ealidade po uguesa. Nes a ob a, a
ci ilização es angei a é is a como supe io à de o igem, sendo a acção nos po ugueses
no O ien e c i icada e sa i izada, c í ica que se es ende à ci ilização ociden al.
Po isso, como e e iu An ónio José Sa ai a, o que mais in e essa nes a ob a é
p ecisamen e «a in enção da na a i a, o que ela exp ime sob e a posição pessoal do au o
pe an e o mundo em que i ia e, a a és dela, odo um xad ez social e, po an o, humano.
Não é a e dade geog á ica o que nos in e essa na Pe eg inação, mas ou a e dade que só
a icção nos pode da .»15
Pa a a análise do con ac o en e eu opeus e asiá icos na Pe eg inação, es abelece
Ma ia Leono Ca alhão Buescu uma ipologia di e enciada, baseada num esquema
14 Diá io II, ed. ci ., p. 198.
15 An ónio José Sa ai a, Pa a a His ó ia da Cul u a em Po ugal, 5ª ed., Lisboa, Be and, 1982, ol. II, p.
97.
I. A iagem como modo de conhecimen o do es angei o
20
ico ómico que ab ange ês pe spec i as16. Em p imei o luga , a e idenciação de um
es a u o de p edominância do Eu (iden i icado com um na ado indi idual ou um g upo,
um «nós») ela i amen e ao Ou o. Em segundo, o es a u o de igualdade en e o Eu e o
Ou o. Finalmen e, a si uação que pa ece p edomina na Pe eg inação é o es a u o de
in e io idade do «Eu» ace ao Ou o. Nes e caso, o na ado p esen e na Pe eg inação é o
eu opeu, o es angei o, o «di e en e» desp o ido de pode e de espaço.
Assim, «a Pe eg inação ep esen a o pa adigma duma a i ude expec an e e ecep i a,
ma cada pela a en u a da cap ação de imagens oscilan es e e e sí eis.»17
Na segunda me ade do século XVI, a iagem p incipia a e es i -se de um alo
enciclopédico e de unções epis emológicas cada ez mais complexas18. Mon aigne é ou o
dos au o es des e século e e ido, pelo qual To ga mani es a alguma admi ação, in ejando
o isolamen o a que se podia o a na sua época o esc i o e a dedicação consag ada à
esc i a:
Mon aigne. Capí ulo XXIII. De la cous ume, e de ne change aisémen une loy eçüe.
Bons empos es es em que um in elec ual podia isola -se numa o e, e consumi a
p eguiça a ano a la gos exemplos e a i a b e es e sub is conclusões. Bons empos es es,
sem pedagogias nem psicologias [...]19.
De 22 de Junho de 1580 a é 30 de No emb o de 1581, Mon aigne e ec ua um longo
pé iplo a a és da Eu opa, desc i o no seu Jou nal de Voyage. Após um a amen o em
16 Ma ia Leono Ca alhão Buescu, «As al e na i as do olha : pa a uma ipologia do encon o», in As
dimensões da al e idade nas Cul u as de Língua Po uguesa, Ac as do I Simpósio In e disciplina de
Es udos Po ugueses, Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Uni e sidade No a de Lisboa,
1985, p. 149.
17 Idem, p. 161.
18 Paola Mildonian, « e e, e i oi e, paysage: les ins ances de la eche che, le emps de l’ a en u e, l’ espace
de l’his oi e», in Les éci s de oyages, ypologie, his o ici é, o g. Mª Alzi a Seixo e G aça Ab eu, Lisboa,
Ed. Cosmos, 1998, p. 270.
19 Diá io II, ed. ci ., p. 190.
I. A iagem como modo de conhecimen o do es angei o
21
Plombiè es e em Bade, isi a a Ba ie a, a a essa a Áus ia, pe co e a I ália.
Seguidamen e, conclui a segunda edição dos ensaios, em 1588 (a p imei a su gi a em
1580, sendo cons i uída po dois li os), ac escen ando-lhe mais um olume que en iquece
com nume osas ano ações, desencadeadas pelos pe cu sos emp eendidos.
Sendo um homem enascen is a, do século XVI, época que elega a a desc ição pa a
o plano da pin u a ou da poesia e não da iagem, Mon aigne não con e e a enção pa icula
à paisagem com que se depa a. Pa a es e au o , a iagem é acima de udo uma ac i idade
p o ícua pa a o conhecimen o, independen emen e do objec i o, do pon o de pa ida ou de
chegada. Como e e e Paola Mildonian, pa a es e au o a iagem é ge ada po uma
«doença» u í e a, o denominado «animus ins abilis», ou seja, um espí i o inquie o, que
necessi a de se deixa le a pela na u eza, de aco do com o seu mo imen o in e io 20. Tal
ac o e lec e-se no e mo «b anle » usado po Mon aigne e que con agia odos os
elemen os da na u eza e do mundo in ei o21. Nes e con ex o, a iagem é udo e isa a busca
do que é di e en e, da di e sidade, pe mi indo o en iquecimen o pessoal.
A ida de Mon aigne é, pois, ma cada pelo p o isó io, pelo desejo de uma mo e sem
e o no em e a es angei a, que se e lec e na a i mação: «plu ô à che al que dans un li ,
ho s de ma maison e eloigné des miens.»22
Assim, o ac o de iaja assume-se como modo insubs i uí el de desen ol imen o do
«eu», que implica o esquecimen o da e en e domés ica, libe ando o indi íduo de odos
os en a es da sociedade ci il. Tende a o na -se numa a e indi idual de ida,
emp eendida po um sujei o conscien e dos seus p óp ios meios. O p incipal objec i o da
20 Paola Mildonian, «Te e, e i oi e, paysage», in Les éci s de oyages, ed. ci . p. 271.
21 «Le monde n’es qu’ un b anloi e pe enne. Tou es les choses y b anlen sans cesse : la e e, les oche s du
Caucase, les py amides d’ Égyp e [...]» (Mon aigne, Essais III. P é ace de Mau ice M. Pon y, Pa is,
Gallima d-Folio, 1996, p. 44).
22 Idem, p. 250.
I. A iagem como modo de conhecimen o do es angei o
22
iagem é o en iquecimen o pessoal, a a és de um abalho in elec ual baseado nas a i udes
de medi , julga e compa a . A i ma Mon aigne:
[...] le oyage me semble un exe cice p o i able. L’âme y a une con inuelle exci a ion
à ema que les choses inconnues e nou elles; e je ne sache poin meilleu e école,
comme j’ai di sou en , à o me la ie que de lui p opose incessammen la di e si é de
an d’au es ies, an aisies e usances, e lui ai e goû e une si pe pé uelle a ie é de
o mes de no e na u e.23
Nes a sequência, cons a amos que a iagem do Renascimen o é um meio p i ilegiado
pa a o es abelecimen o de uma elação de al e idade, assen e na ap op iação do Ou o,
a a és da qual se alo iza a i ude da expe iência, o espí i o c í ico e a obse ação di ec a
em de imen o do sabe adicional. E idencia-se uma ên ase colocada no eo p o isó io,
e elando a isão plu al do homem enascen is a.
À semelhança de To ga, ambém Mon aigne p e e e a iagem po e a, is o que lhe
ab e maio es hipó eses de pe cu sos (ao con á io da ma í ima).
No Jou nal de oyage cons a amos que a expe iência de iagem se ele a ao es a u o
de um mé odo baseado na expe iência p á ica. Nes e con ex o, a busca da di e sidade
conduz a uma dessac alização e dessimbolização do caminho pe co ido24.
No inal do século XVI e du an e o século XVII, p incipia a di ulga -se o «G and
Tou »25, que se con e e á numa «p á ica ins i ucional» ce ca de 1650 e cuja adição se á
p olongada a é ao século XIX. Es a iagem a a és da F ança, I ália, Alemanha e Suíça,
con emplando o ci cui o das p incipais cidades e locais de in e esse, assumia-se como pa e
in eg an e da educação dos jo ens pe encen es a uma classe social p i ilegiada. Es a
23 Idem, pp. 244-245.
24 C . F ied ich Wol ze el, Le discou s du oyageu , Pa is, PUF, 1996, p. 115.
25 A exp essão «Le G and Tou » pe ence a Richa d Lassels, que, como p ecep o , ealizou a iagem po
I ália cinco ezes en e 1637 e 1668. (C . Jean Goulemo , «Le G and Tou comme app en issage», in
Magazine Li é ai e, nº 432 juin 2004, Pa is, p. 33)
I. A iagem como modo de conhecimen o do es angei o
23
dig essão isa a con e i ealidade a um sabe abs ac o, ap ende e ape eiçoa o «bom
gos o» a a és, sob e udo, do con ac o com a a e em I ália. A sua inalidade não e a, em
suma, a esc i a de uma na a i a de iagens.
Com e ei o, no século XVII sin e izam-se e ul apassam-se as expe iências i idas no
Renascimen o, p ocu ando uni ica e ans o ma o espaço dispe so do Renascimen o num
no o mundo, ma cado pela unidade. Abundam ainda as iagens come ciais emp eendidas
po indi íduos que se deixam conduzi ge almen e pela azão, con e ida num ins umen o
de pesquisa, julgamen o e comp eensão. Segundo Wol ze el:
Le oyage sa an e é udi à l’é a pu n’ exis e pas au XVII siècle. Pa con e, ce
ype de oyage es suscep ible d’ ê e considé é comme un idéal qui in lue su le choix des
in o ma ions e la ou nu e de l’esp i , c éan ainsi le oyage é idique e comple ypique
de la seconde moi ié du siècle. 26
Não obs an e, a época aú ea das iagens e da li e a u a que as ela a oco e
p ecisamen e no pe íodo do Iluminismo. Seguindo a pe spec i a de Daniel-Hen i Pageaux,
podemos conside a que iaja , nes e século, signi ica essencialmen e descob i e
compa a , disce ni ca ac e ís icas o iginais, con e e a mul iplicidade na unidade,
aglome a a di e sidade num sis ema de pensamen o. Po isso, « oyage c’ es moins
ega de au ou de soi que emon e le il des siècles, é abli des syn hèses, des ableaux
pe me an l’é ude compa ée des g andeu s e des décadences, c’es eo ganise ,
hie a chise , classe .»27
Pe inen e se á con on a es a de inição do e bo « iaja » com a an e io men e
e elada po To ga. Nes e caso, su ge-nos uma pe spec i a igualmen e ac i a, mas mais
26 F ied ich Wol ze el, Le discou s du oyageu , ed.ci ., p. 192.
27 D-H. Pageaux, La li é a u e géné ale e compa ée, Pa is, A mand Colin, 1994, p. 33.
I. A iagem como modo de conhecimen o do es angei o
30
di idida em se e pa es, con empla os di e sos locais isi ados: (I) iagem da G écia, (II)
iagem do A quipélago, da Ana olie e de Cons an inopla, (III) iagem de Rodes, de Ja a,
de Belém e do Ma Mo o, (IV e V) iagem de Je usalém, (VI) iagem do Egip o, (VII)
iagem de Tunes e eg esso a F ança.
Inicia-se assim uma no a endência das na a i as de iagem, de eo mais li e á io.
Paul Van Thieghem ci a es e au o como exemplo da iagem como on e de exo ismo
omân ico:
Comme lui, beaucoup de oman iques de di e s pays aimen oyage à l’é ange , de
p é é ence aux e es loin aines, moins pou é udie les ins i u ions, comme le aisai
Mon esquieu, que pou décou i des déco s, des cos umes, des moeu s p i ées, des ypes
nou eaux.40
Ace ca ainda de Cha eaub iand, To ga az ou a e e ência a p opósi o da lei u a da
página e e en e a By on de Memoi es d’ Ou e Tombe: «Que despei o, e ao mesmo empo
que c í ica ce ei a! Se os g andes homens se pudessem en ende como os pequenos, que
bela ajuda pode iam da uns aos ou os!»41
No que conce ne a By on, o poe a e ela alguma admi ação pela sua co agem, pelas
i ências anspos as pa a a poesia, sem deixa de aludi à sua ida dissolu a ao apelidá-lo
de «Hen ique VIII»:
40 Paul Van Thieghem, Les oman ismes dans la li é a u e eu opéenne, Pa is, Ed. Albin Michel, 1969, p.
259.
41 Diá io IV, ed. ci ., p.429.
I. A iagem como modo de conhecimen o do es angei o
31
Lei u a de uma “Vida de By on”. Não há dú ida nenhuma que aquele homem oi
uma espécie de Hen ique VIII do eino da poesia. Co agem de se quem e a, e co agem de
pô a sua ealeza ao se iço do seu co po.42
By on ep esen ou, como se sabe, uma a iedade pa icula de oman ismo, ma cada
pela e ol a e o o gulho, a iolência e a p o ocação, endo le ado uma exis ência
ca ac e izada pela insolência, amo es inces uosos e longas iagens. A ob a que o
celeb izou in i ula a-se Child Ha old’s Pilg image (Pe eg inação de Childe Ha old),
poema cujos p imei os can os o am publicados em 1812, o segundo em 1816 e o e cei o
em 1818. Desc e e as iagens e e lexões de um pe eg ino que p ocu a dis acções po
e as es angei as. Nos dois p imei os can os são desc i os os luga es isi ados po Ha old
em Po ugal, Espanha, nas ilhas Ionianas e na Albânia, e minando com um lamen o
mo i ado pela esc a a u a na G écia. Nes es can os, e ela Po ugal como uma espécie de
pa aíso pe dido, do qual e oca quad os pi o escos, onde, de ce o modo, é ea alizada a
pob eza. Po seu u no, o e cei o can o e ela-nos a isi a à Bélgica, às ma gens do Reno,
aos Alpes e Ju a, en a izando a impo ância da na u eza. Além disso, os locais isi ados
desencadeiam equen emen e e lexões ace ca de acon ecimen os his ó icos, como é o
caso da gue a de Espanha. Finalmen e, a úl ima pa e é in ei amen e dedicada a I ália e a
algumas das suas p incipais cidades, como é o caso de Veneza (onde aleceu Pe a ca), de
Flo ença, pá ia de Dan e, de Roma, en e ou as. Es a ob a ob e e g ande sucesso, pois,
como e e e T.F. Aubie : «Ha old, anspa en e pe sonni ica ion de By on, u conside é
comme un esp i é olu ionnai e e pa u inca ne le mal du siècle.»43
42 Diá io I, ed. ci . p. 46.
43 T. F. Aubie , «Che alie Ha old (Le)», in Dic ionnai e des oeu es de ous les emps e de ous les pays,
ol. I, ed. ci ., p. 726.
I. A iagem como modo de conhecimen o do es angei o
32
Po seu u no Le Co sai e (1814), poema cons i uído po ês can os, em como
cená io o O ien e (mais especi icamen e a Tu quia e o a quipélago g ego).
Po ou o lado, não podemos deixa de menciona dois au o es anceses que, embo a
com p esença mais apagada, são igualmen e e e idos no Diá io, endo assumido papel
ele an e a a és de ob as e elado as do seu conhecimen o do es angei o, nomeadamen e
de I ália e do O ien e, des inos p e e enciais. P imei amen e, S endhal44, cuja sensibilidade
oi bas an e ma cada pela descobe a de I ália e que esc e eu Mémoi es d’ un ou is e
(1838), onde ainda encon amos um iajan e «amado », egocên ico. De seguida, Flaube ,
que pe co eu a I ália, o Egip o e a G écia, numa iagem de dois anos, e minada em
185145. Es as expe iências são na adas na ob a No es de oyages en O ien (publicada
pos umamen e em 1910). Es e au o ocupa um luga pa icula na li e a u a de iagens46,
de ido ao pon o de is a singula do na ado que desc e e o que iu sem julga , quase
sem in e i , con e indo à na a i a um ca ác e impessoal. T ansmi e, desse modo, uma
noção de al e idade, o iginal na época, baseada na en a i a de comp eende o «Ou o» sem
e ec ua juízos de alo , e idenciando uma a i ude desp o ida de indi e ença, de
a ogância, mas sem pe da de iden idade.
Quan o a Ga e , su ge no Diá io, in eg ada numa e lexão ace ca da His ó ia da
Li e a u a Po uguesa e do alo dos nossos poe as, da ada de 6 de Ab il de 1944: «Mas
es á bem, acei emos Camões. E a segui ? A segui êm dois séculos em que ninguém sabia
44 S endhal é ci ado, quando To ga e e e a debilidade do omance po uguês, que é a ibuído à al a de
imaginação e à p eca iedade da ida social: «[o esc i o po uguês] ou se esigna a desen e a esquele os
enquan o S endhal e gue das ealidades do seu empo a sín ese que se chama So el, ou en ão pin a ealismos
sociais po imi ação.» (Diá io IV, ed. ci ., p. 449).
45 Rela i amen e a Flaube , To ga c i ica-lhe o excesso de objec i idade, de ieza, de pe eição, p e e indo a
Co espondência às ou as ob as. Após ap esen a á ias ci ações, e e e: «Que omance, se odas essas
ca as es i essem em Madame Bo a y!» (Diá io II, ed. ci ., p. 196). Não obs an e, aquando da lei u a do 4º
olume da Co espondência, mani es a a sua desilusão (c . Idem, p. 207).
46 C . Pie e Biasi, «Flaube ,une con e sion du ega d», in Magazine Li é ai e, nº432, juin 2004, Pa is, p.
42.
I. A iagem como modo de conhecimen o do es angei o
33
o que e a um e so! Lá apa ece Ga e po im a es uda o omancei o, a ap ende de no o
a magia das coisas, e consegue esc e e as Asas B ancas»47.
Como se sabe, Almeida Ga e esc e eu os poemas D. B anca e Camões (1825) no
exílio, o necendo-nos ambém algumas e e ências do es angei o. Sob e udo em Camões,
cons a amos uma imagem essencialmen e polí ica, pois a Ingla e a é is a como um país
dominado pelo libe alismo, que ecebe bem os exilados, ao con á io, po exemplo, da
F ança, cuja imagem é nega i a, o que se cons a a a a és da compa ação en e o Tejo e o
Sena. Con udo, oi a ob a Viagens na minha Te a que, como se sabe, não ela a uma
dig essão localizada em e i ó io es angei o, mas sim no nacional, cen ando-se a ob a
numa ida ao ale de San a ém que mais e á in luenciado os au o es po ugueses. No
e e ido ale, o na ado de e e-se e icou dian e de uma janela, à qual su gem o he ói
(Ca los) da no ela en elaçada pelo esc i o no ela o da sua iagem, a he oína (Joaninha) e
ou as pe sonagens. É no ó ia nes a ob a a in luência da ecepção de um modelo li e á io
es angei o: Law ence S e ne, sob e udo da Sen imen al Jou ney. Uma das ma cas
e idenciadas é o es ilo coloquial, que lhe pe mi e a a com amilia idade o seu lei o .
À semelhança da já mencionada ob a de S e ne, ambém as Viagens na minha Te a
e ão in luenciado di e sos au o es a a és do denominado «ga e ismo», como e e e João
Gaspa Simões:
As Viagens na minha Te a são uma pe spec i a sem im na his ó ia das nossas
le as [...] aí ínhamos o «ga e ismo», ilho legí imo des a ob a, e es ado de espí i o
inaugu ado po ela e po ela ansmi ido a oda uma ge ação de esc i o es po ugueses do
im de século. [...] E que se ia de An ónio Nob e, e de Cesá io Ve de, e de um ce o
Fe nando Pessoa [...] e de um ce o Miguel To ga – que se ia de algumas das
47 Diá io III, ed. ci ., p. 272.
I. A iagem como modo de conhecimen o do es angei o
34
pe sonalidades mais i as e i adian es da mode na li e a u a po uguesa, se odas elas
não i essem ao menos p o ado desse néc a emb iagado ?48
Reg essando ao Diá io, Vic o Hugo é e e ido pa a isa o ca ác e in e en i o do
poe a (semelhan e ao de um p o e a) na sociedade: «O poe a ep esen a á, como pude , o
a do indignado e a e no de quan os, de Villon a Vic o Hugo, de Gil Vicen e a Gue a
Junquei o, p o es a am con a o iníquo pesadelo, e con ibuí am pa a a sua ex inção ou
epulsa na consciência uni e sal;»49.
Além disso, Vic o Hugo é de no o mencionado, numa passagem em que To ga
elogia a li e a u a do século XIX em de imen o daquela que é p oduzida no século XX,
que nem seque é p es á el, nem g aciosa: «En e a sua oz en a amelada e a balbucian e
de an anho, a dos Tols ois e a dos Hugos, a oa olimpicamen e das es an es do mundo.»50
To ga so eu a in luência «hugoliana» a a és de um esc i o que ele mui o admi a:
Raul B andão. Tal in luência (que desen ol e emos no capí ulo consag ado aos modelos
li e á ios, na segunda pa e), é, à pa ida, no ó ia na concepção o guiana do poe a como
um p o e a, um demiu go, pa a além do i alismo que imp egna a sua esc i a.
Viajou Vic o Hugo mais longe em pensamen o do que na ealidade, nunca endo
ul apassado as on ei as da Eu opa. Du an e a in ância isi ou a I ália e pos e io men e
pe co eu a F ança, a Bélgica, a Holanda, a Alemanha, a Suíça, além de e egis ado
b e es passagens po Lond es e B uxelas.
Assim, embo a nunca se enha a en u ado po e as do Le an e, esc e eu Les
O ien ales (1829), ob a cons i uída po uma ecolha poé ica que nos p opo ciona uma
« iagem imaginá ia» a a és da qual anspa ece um O ien e sedu o , ma cado pela
48 João Gaspa Simões, Almeida Ga e , Lisboa, Ed. P esença, 1964, p. 140.
49 Diá io X, ed. ci ., pp. 1111-1112.
50 Diá io XI, ed. ci ., p. 1165.
I. A iagem como modo de conhecimen o do es angei o
35
opulência. No p e ácio da edição o iginal, o au o e e e algumas azões de ca ác e geo-
-polí ico que desempenha am um papel ulc al no desen ol imen o do o ien alismo
oi ocen is a:
Au es e, pou les Empi es comme pou les li é a u es, a an peu -ê e l’O ien es
appelé à joue un ôle dans l’Occiden .[...] Voici main enan que l’équilib e de l’Eu ope
pa aî p ê à se omp e ; [...] Tou le con inen penche e s l’O ien . Nous e ons de
g andes choses. La ieille ba bá ie asia ique n’es peu -ê e pas aussi dépou ue
d’hommes supé ieu es que no e ci ilisa ion le eu c oi e.51
Em Choses ues cons a a-se uma mis u a e ec uada pelo iajan e en e a obse ação
e a imaginação, al e nando o «eu» ín imo com o espaço pe co ido, desc i o. Embo a não
esqueça a unidade da iagem, eco e a écnicas da icção, como é o caso da analepse.
Es as ob as undamen ais in luenciam os con ac os in e nacionais, a psicologia dos
po os, eno ando a li e a u a e o pensamen o dos esc i o es.
To ga ambém isi ou o O ien e, em 1987, e an es de pa i mos a-nos como essa
iagem e a há mui o espe ada, mui os anos depois de e esc i o uma ob a (O Senho
Ven u a) cuja acção se passa na China – espaço cons uído a pa i da imaginação:
Mais uma iagem. Mais opo unidades pa a o espí i o e mais cansei as ao co po.
Foi semp e assim, e semp e os dois o ag adece am à ida.[...] Espe o que des a ez
acon eça o mesmo, já que ambos sa is azem um desejo elho, cons an emen e us ado, de
conhece ao na u al e as e ma es po onde em empos eme a iamen e me a en u ei na
pessoa in en ada do Senho Ven u a. .52
51 Vic o Hugo, Les O ien ales, Pa is, Ed. Gallima d, 1981, pp. 23-24.
52 Diá io XV, ed. ci ., p. 1576
I. A iagem como modo de conhecimen o do es angei o
36
Po um lado, a iagem é concebida como uma opo unidade de en iquecimen o do
espí i o, a a és do con ac o com uma ealidade dis in a. Po ou o, cons a a-se um ce o
eceio de que a ealidade não co esponda à expec a i a cons uída a pa i da li e a u a e
da imaginação.
E idencia-se, como já an e io men e sucedeu, o papel das lei u as como ac o
de e minan e pa a a o mação da expec a i a es abelecida en e o que se planeia e e
aquilo que o iajan e obse a na ealidade, assumindo-se como um aspec o ulc al, que
nas na a i as de iagem, que pa a a abo dagem dos egis os p esen es no Diá io de
To ga.
Rela i amen e a Eça de Quei ós, To ga econhece-lhe a mes ia e o es ilo, e elando
conhecimen o da sua ob a, embo a não seja um dos seus au o es p e e idos, de ido ao seu
cosmopoli ismo e a uma al a de cas icismo, de in eg ação na cul u a nacional, e
simul aneamen e de uni e salismo: «Res a a Eça. Mas al a a a es e uma in eg ação
pe ei a no nosso húmus, o conhecimen o i o do po o.»53
Eça, apesa de e iajado bas an e, não mani es ou no ó ia p opensão pa a ixa pela
esc i a essas iagens. Não obs an e, deixou-nos algumas ob as, conside adas de meno
ele ância, cen adas nes a emá ica.
Como se sabe, embo a enha isi ado o O ien e, somen e abo dou a emá ica o ien al
em ob as conside adas secundá ias (O Egip o. No as de Viagem e o Manda im). Publicou
no Diá io de No ícias o ela o in i ulado «De Po Said a Suez» (edi ado pos umamen e na
ob a No as Con empo âneas), onde oca a inaugu ação do Canal de Suez, à qual assis iu.
Nessa dig essão iniciada a 23 de Ou ub o de 1869, isi ou a Alexand ia, o Cai o e ou os
53 Diá io I, ed. ci . ,p. 137.
I. A iagem como modo de conhecimen o do es angei o
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locais como Heliópolis, Guiza, Saka a, Mên is, en e ou os. Te minou o pe cu so com
uma es ada de quinze dias na Pales ina.
Na ob a O Egip o. No as de iagem (esc i a em 1869-70, mas só publicada
pos umamen e em 1926), Eça espei a os «p o ocolos» em igo e e en es às na a i as de
iagem. No en an o, nou as ob as o au o en a desmis i ica alguns con encionalismos e
luga es-comuns da iagem, desmon ando a e en e a i icial dessas na a i as. Tal ac o
sucede, po exemplo, em A Relíquia, onde o p o agonis a, Teodo ico Raposo, se opõe ao
iajan e omân ico, não passando de um u is a bu lesco e sac ílego, que ejei a o exo ismo,
p e e indo Pa is a uma e a longínqua e desconhecida. Nes a sequência, o ac o de iaja é
emp eendido como o ma de ugi ao domínio da ia e a sua p epa ação é ni idamen e
u ís ica54. Em Os Maias cons a amos igualmen e que Ca los da Maia e Ega enca am a
iagem com a a i ude snob e con encional da época.
Po seu u no, Thomas Mann é e e ido po To ga, a p opósi o das ob as Os
Buddenb ook e a Mon anha Mágica, e idenciando p o unda admi ação pelo esc i o 55. O
econhecimen o da g andiosidade des e au o e idencia-se ainda quando o au o se e e e à
aca qualidade dos omances po ugueses, decla ando: «[...] só um milag e nos podia da
um Mann ou um S einbeck.»56. Nenhuma das ob as an e io men e mencionadas se in eg a
na li e a u a de iagens, nem deixa anspa ece ep esen ações pa icula es do es angei o,
apesa de o p imei o omance e e ido (que ela a a decadência de uma amília) e sido
iniciado du an e uma es ada em I ália de 1897 a 1898. Con udo, é pos e io men e na ob a
Mo e em Veneza (1912) de Mann, que a I ália, pa icula men e a cidade de Veneza, su ge
54 «[...] e endo comp ado um Guia do O ien e e um capace e de co iça» (Eça de Quei ós, A Relíquia,
Lisboa, Li os do B asil, s/d, p. 63).
55 A i ma To ga a p opósi o de Os Buddenb ooks: «[...] é um belo espec áculo le um li o assim. Tem a
gen e a imp essão de que oda a G écia e oda a Eu opa se diluí am na caixa de compo da ipog a ia.»
(Diá io III, ed. ci ., p. 314)
56 Diá io IV, ed. ci ., p. 450.
I. A iagem como modo de conhecimen o do es angei o
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como cená io e simul aneamen e como e úgio do p o agonis a. Es a ob a me gulha-nos na
complexa psicologia e no des ino ágico de um a is a (Aschenbach, um esc i o céleb e)
que acaba po sucumbi à en ação da mo e. É desc i a a a mos e a de Veneza,
ansmi indo-nos a imagem de uma cidade que eme ge numa p o usão de esplendo es e
con as es. Nela pai a a ameaça de uma epidemia, a co upção, a mo e, a decadência
mo al, a deso dem, que se aliam à espe ança e a um modo pa icula de doçu a57.
Em suma, a época aú ea das iagens deco eu en e o século XVI e o XIX58. A ânsia
de ap ende e de ap ecia as ma a ilhas da His ó ia, da An iguidade, conduz
equen emen e os iajan es ocados pelo Humanismo a é Roma.
Es as iagens o igina am, como já cons a ámos, uma li e a u a abundan e. Sob e udo
com a Sen imen al Jou ney de S e ne, l’I alienische Reise de Goe he e l’I iné ai e de Pa is
à Jé usalem, a iagem con e e-se em «géne o li e á io». Algumas cidades são mi i icadas,
como é o caso de Roma, Pa is, Flo ença, Nápoles ou Veneza. Su ge um pa icula in e esse
em de e mina os elemen os dinâmicos de cons ução desses mi os
Assim, com o Roman ismo, o «eu-na ado - iajan e» con empla o ou o a pa i de si,
implicando-se em cons uções de al e idade ao ala do «ou o», mas ambém em
cons uções de iden idade, ainda que esse p ocesso seja, po ezes, inconscien e. Não se
es inge esse olha a uma me a de ecção de semelhanças e di e enças, como sucedia
an e io men e, mas ala ga-se a uma e lexão mais p o unda, ansmi ida a a és dos
mecanismos da esc i a. Es e «eu» assume-se como um p i ilegiado mediado na celeb ação
da al e idade. Assumindo-se como pe sonagem ulc al da sua na a i a, ansmi e a sua
57 «Is o e a Veneza, beleza lisonjeado a e suspei a, cidade meio con o- de – adas, meio a madilha pa a
es angei os, em cujo a pú ido a a e ou o a lo esce a luxuosamen e [...]». (Thomas Mann, A mo e em
Veneza, Lisboa, Ed. Relógio d’Agua, 1987, p. 63).
58 C . Pie e B unel/ Claude Pichois/ And é Michel Rousseau, Qu’es -ce que la li é a u e compa ée?, 3ªed.
Pa is, A mand Colin, 1983, p. 34.
I. A iagem como modo de conhecimen o do es angei o
39
p óp ia na a i a de iagem, as suas imp essões e emoções, e elando, a a és da busca do
exo ismo, o olha lançado do Ociden e pa a o O ien e.
Po conseguin e, à medida que se a ança no século XIX, a p ocu a do exo ismo
con e e-se numa o ma di e en e de pi o esco, a as ada do p og esso e da mode nidade. O
esc i o anseia e ela a sua necessidade de se abandona , de se e adi pa a um local
dis an e onde, escapando à ideia da e eme idade possa a ingi a pu eza do sonho,
con e ida na pala a. Nes e pa adigma podemos in eg a a cidade de Veneza (Mo e em
Veneza de Thomas Mann), onde no seio da decadência o na ado , Aschenbach, encon a
simul ânea e pa adoxalmen e a e dade, a ida, a beleza e a mo e.
Cons a ámos pela b e e análise de algumas iagens ela adas pelos esc i o es
abo dados a p e e ência pela I ália como cen o de cul u a pa a os eu opeus. Miguel To ga
isi ou igualmen e es e país, endo pe co ido as cidades de Veneza, Flo ença, Roma,
Milão e Nápoles – en e ou as cidades i alianas, cuja imagem analisa emos na e cei a
pa e.
A e dade é que es e au o sen iu bem p esen e a passagem dos seus an ecesso es
pelos locais que isi ou, pois a i ma em Milão, a 28 de Dezemb o de 1937:
Um dos ângulos mais ape ados de quem iaja numa e a des as é caminha como
um cão nas pegadas dos g andes homens [...]
Eu p óp io, hoje, na Amb osiana, não pude deixa de e es e es emecimen o
imbecil: nes e mesmo luga es e e S endhal, es e e By on...59
Em Roma, numa ou a iagem, isi a o Albe go dell O so, «onde Dan e, Rabelais,
Mon aigne e Goe he se hospeda am.»60
59 Diá io I, ed. ci ., pp. 56-57.
60 Diá io V, ed. ci ., p. 545.
II. Li e a u a Compa ada e imagologia
46
na imagem adicional da Alemanha, ixada po Mme de S aël em 1813. Essa isão
man e e-se, açando uma disc epância en e a ealidade da Alemanha e a imagem que dela
man i e am os in elec uais anceses. Po isso, Jean-Ma ie Ca é e e e: «Nos in ellec uels
e nos éc i ains n’ on p esque jamais jugé l’Allemagne en elle-même, mais p esque
oujou s, au con ai e, pa appo aux idées qu’ils sou enaien chez nous. Ils l’on ega dée
à a e s le p isme de leu s p op es idéologies.»6
Es a ob a isa comp eende a o igem da imagem ancesa da Alemanha, o modo
como ela o ien ou as elações in elec uais e li e á ias en e os dois países. Nes e âmbi o,
e idencia a soma de clichés, de es e eó ipos cul u ais, a endendo igualmen e ao modo
como são ecebidos os esc i o es de uma nação pela ou a. Coloca, assim, a ques ão da
elação en e li e a u a e imaginá io social, is o que é aí que as imagens são delineadas.
Como a i ma Jean-Ma c Mou a: «Il ne s’engageai na u ellemen pas dans une sociologie
li é ai e, ou plu ô une sociosémio ique, mais il dégageai une dimension ca dinale des
é udes d’images.»7
Assim, in e essando-se pelas ob as li e á ias e pelo seu con ex o his ó ico e sócio-
cul u al, Ca é p econiza que a de inição de uma li e a u a nacional engloba o ecu so a
elemen os de uma cul u a es angei a.
Embo a p oduzida numa época em que a eo ia li e á ia não se encon a a mui o
desen ol ida e o mé odo imagológico da a os seus p imei os passos, des a ob a eme gi am
p incípios decisi os pa a o desen ol imen o dos mé odos compa a i is as.8
P imei amen e, é ele an e a a enção con e ida à dinâmica das in e acções en e as di e sas
li e a u as nacionais - is o que es as não se cons óem pela me a adesão a um espí i o
6 Apud Jean-Ma c Mou a, «Jean-Ma ie Ca é (1887-1958): images d’un compa a is e», in Re ue de
Li é a u e Compa ée, juille -sep emb e 2000, pp. 366-367.
7 Idem, p. 367.
8 C . idem, p. 369.
II. Li e a u a Compa ada e imagologia
47
colec i o, mas a a és da di e enciação ace ao es angei o. Em seguida, impo a isa o
ala gamen o dos es udos li e á ios à análise dos con ex os in elec ual e ideológico da ob a,
ou seja, ao seu imaginá io social. Tal ac o cons a a-se igualmen e na ob a do mesmo au o
in i ulada Voyageu s e éc i ains ançais en Egyp e, em que se e ela um pa icula
in e esse pelo con ex o his ó ico e sócio-cul u al onde as ob as se p oduzem.
De en e os p econizado es e seguido es de Ca é, podemos salien a Hugo Dyse inck
(Aix–la-Chapelle), Alexande Du u (Buca es e), F anco Me egalli (Veneza), Pe e Boe ne
(em Indiana, nos Es ados Unidos), en e ou os.
Vá ios o am os abalhos baseados na imagologia, de en e os quais podemos ci a
apenas alguns exemplos: L’Allemagne de an les le es ançaises de 1814 à 1835 de
And é Monchoux (publicado em 1953); L’ Image de la G ande-B e agne dans le oman
ançais [1914-1940] de Ma ius-F ançois Guya d (publicado em 1954); Romain Rolland, l’
Allemagne e la gue e de René Che al (1963); L’Image de la Russie dans la ie
in ellec uelle ançaise [1839-1856] de Michel Cado (1967); L’ image de la Belgique dans
les le es ançaises de 1830 à 1870 de Claude Pichois (1957); L’ Espagne de an la
conscience ançaise au XVIIIe siècle de Daniel-Hen i Pageaux (1975).
A in e p e ação ecíp oca de po os, iagens e mi agens é legi imada, passando a
cons i ui pa e in eg an e da Li e a u a Compa ada. Na ob a esc i a dezoi o anos depois,
Guya d ei e a a p incipal a e a do compa a i is a, que de e á «déc i e exac emen
l’image ou les images d’ un pays en ci cula ion dans un au e à une époque donnée.»9
Além disso, o e e ido in es igado deposi a g andes espe anças no desen ol imen o da
Li e a u a Compa ada, baseada na imagologia, possibili ado a de uma comp eensão mais
ní ida dos modos de elabo ação e pe manência dos g andes mi os nacionais nas
9 Ma ie-F ançois Guya d, La Li é a u e compa ée, Pa is, P esses Uni e si ai e de F ance, «Que sais-je?»,
1969, p. 118.
II. Li e a u a Compa ada e imagologia
48
consciências indi iduais e colec i as. A a és do es udo dos mecanismos de
desen ol imen o e o mação de ce as in e p e ações de um país, ab iam-se no os
caminhos de pesquisa na Li e a u a Compa ada.
Con udo, os de enso es da imagologia sucumbi am ao e o do ex emismo e, po
ezes, o luga do in es igado compa a i is a oi legado ao his o iado . Em F ança, a
u ilização des e mé odo inco eu, sob e udo, em dois excessos10. P imei amen e, uma
excessi a a enção con e ida aos ex os li e á ios despojados de análise his ó ica e cul u al.
Em segundo luga , o in e so, ou seja, uma lei u a demasiado edu o a de ex os,
ans o mados em me os in en á ios de imagens do es angei o. Nes a sequência, en e os
de ei os apon ados salien a-se a ca alogação de emas, a abundância abusi a de ci ações e
de pa á ases, a con usão en e o domínio da his ó ia e o da li e a u a.
Jean-Ma c Mou a ale a, igualmen e, pa a os ícios em que a imagologia é
suscep í el de cai : «in e disciplina i é sau age e nacionalisme, oi e psychologie des
peuples non a oués»11. Es e au o e e e, pois, o ac o de se concede excessi a
impo ância aos ac o es ex a-li e á ios, descu ando a componen e es é ica do ex o,
enquan o é eiculado um nacionalismo «dis a çado» da e ocação do es angei o e apoiado
numa supos a «psicologia dos po os».
De ido aos ex emismos em que inco eu, o es udo das imagens desencadeou
nume osas c í icas, endo con ado com di e sos oposi o es. Aliás, é céleb e a que ela en e
a já mencionada «escola ancesa» e a «escola ame icana» – embo a não se enham a ado
e ec i amen e de escolas, mas sim de co en es, de cí culos de opinião di e gen es.
Os compa a i is as anceses p i ilegia am aspec os como a his ó ia li e á ia,
en a izando os enómenos de in luência, ansmissão, endo como pon o de pa ida as
10 C . D.-H. Pageaux, «De l’image ie cul u elle à l’imaginai e», in P écis de li é a u e compa ée, di .Pie e
B unel- Y es Che el, Pa is, PUF, 1989, p. 134.
11 Jean-Ma c Mou a, L’Eu ope li é ai e e l’ailleu s, Pa is, PUF, 1998, p. 36
II. Li e a u a Compa ada e imagologia
49
li e a u as nacionais. Em con apa ida, os ame icanos basea am-se em dois p incípios:
p imei amen e um mo al, assen e numa abe u a ao uni e so, numa a i ude «democ á ica»
ace a odas as ou as cul u as (de modo a não p i ilegia as li e a u as eu opeias); e um
in elec ual, baseado numa p eocupação de p ese a alo es es é icos e humanos da
li e a u a, de u iliza as mais eclé icas expe iências de mé odo e in e p e ação.
Um dos elemen os da «escola ame icana» oi o in es igado checo René Wellek, que
se e elou em 1953, a a és de um a igo publicado no Yea book o Compa a i e and
Gene al Li e a u e, onde e idenciou a sua oposição aos es udos de ipo his o icis a que
in eg a am a imagologia. Rei e a-a ainda, c i icando Ca é e Guya d em he «C isis o
Compa a i e Li e a u e»12, publicado em P oceedings o he Second Cong ess o he ICLA,
Chapel Hill, Uni .o No h Ca olina P ess, 1959. Nes e ex o, após e e i o acasso das
en a i as pa a delimi a os mé odos e o objec o de es udo da Li e a u a Compa ada,
Wellek a i ma:
Também não me con encem as en a i as ecen es de Ca é e Guya d de amplia
epen inamen e o espec o da li e a u a compa ada a im de inclui o es udo das ilusões
nacionais, das ideias ixas que as nações êm umas das ou as. Pode se mui o in e essan e
sabe o concei o que os anceses aziam dos alemães ou dos ingleses – mas se ia es e
ainda um es udo li e á io?13
Wellek p econiza, des e modo, a a és do ex o e e ido, o im de um pa adigma
unicamen e his o icis a da Li e a u a Compa ada. De endeu como solução, pe an e um
impasse his ó ico, a ap oximação à eo ia li e á ia. Es a ap oximação possibili ou uma
12 Foi consul ado o ex o aduzido e in eg ado na ob a Li e a u a Compa ada- ex os undado es,
o ganização de Edua do F. Cou inho e Tânia F. Ca alhal, Rio de Janei o, Ed. Roco, 1994.
13 René Wellek, «A c ise da Li e a u a Compa ada», in Li e a u a Compa ada - ex os undado es,
o ganização de Edua do F. Cou inho e Tânia F. Ca alhal, ed. ci ., p. 110.
II. Li e a u a Compa ada e imagologia
50
econ igu ação do campo do conhecimen o compa a i is a, endo assumido um ele an e
papel na e- undação da sua p á ica.
Ou a das ozes c í icas que se e gueu con a a já mencionada «escola ancesa» oi a
do in es igado suíço F ançois Jos , que c i icou a concepção de Li e a u a Compa ada
p econizada po Ca é, acusando-o de «au a cia cul u al», is o que o es udo das elações
li e á ias in e nacionais assim emp eendido e o ça ia o concei o de li e a u a nacional, ao
con á io do que de e ia se o objec i o dos compa a i is as 14.
Ainda nes e con ex o, René E iemble, em 1963, em Compa aison n’es pas aison,
es igma izou as pesquisas no âmbi o da imagologia, uma ez que « ega den l’his o ien, le
sociologue ou l’homme d’é a »,15 ap oximando-se de Wellek ela i amen e aos
a gumen os u ilizados, aludindo, po exemplo, a pesquisas ace ca dos iajan es de
Madagásca , de o ma i oniza a ques ão e mos a a pouca pe inência des e mé odo de
es udos.
É iemble de endeu a concepção de um compa a i ismo plane á io undado numa
ideologia acionalis a, humanis a e uni e salis a. Sendo o homem um se uno, a li e a u a
só pode ia se igualmen e una, uni e sal, conc e izando-se a a és de di e sas in a ian es.
É iemble opunha-se a um «eu opocen ismo» e his o icismo eiculado pela escola
ancesa. Ao insis i na necessidade de um disce nimen o c í ico que aplicasse o c i é io da
li e a iedade, con ibuiu, pa alelamen e a ou os compa a i is as ame icanos, pa a uma
e olução conducen e à de inição da Li e a u a Compa ada ambém como Li e a u a Ge al,
ou seja, o ien ada pa a o es abelecimen o de uma eo ia capaz de a con empla na sua
o alidade e unidade.
14 C . F ançois Jos , Essais de Li é a u e Compa ée, F ibou g, Ed. Uni e si ai es, 1968, p. 331.
15 Daniel-Hen i Pageaux, «De l’image ie cul u elle à l’imaginai e», in P écis de li é a u e compa ée, di .
Pie e B unel - Y es Che el, ed.ci ., p. 133.
II. Li e a u a Compa ada e imagologia
51
Po seu u no, Hugo Dyse inck esponde às c í icas ecidas pelos apologis as da
co en e ame icana, de endendo a o ien ação ancesa16. P econiza que a «imagem-
mi agem» do es angei o cons i ui pa e in eg an e da Li e a u a Compa ada, is o igu a
na ob a li e á ia. Baseando-se na a gumen ação de Ca é e Guya d, conside a se a
de inição de imagens uma desmi i icação necessá ia pa a que os po os se comp eendam
melho en e si.
Pa ilhando es a linha de opinião, Cado apon a a du eza das c í icas que abala am a
escola ancesa de compa a i ismo,17 o ulada de posi i is a, p imei o pelo new c i icism
anglo-ame icano, depois pelo o malismo usso, checo e a nou elle c i ique. Po ém, isa a
eabili ação do es udo da imagem, implicando o ecu so a uma base documen al não-
li e á ia. Salien a igualmen e o con ibu o das Ciências Humanas (His ó ia, Mi ologia,
Psicologia, Linguís ica).
Assim, impo a einsc e e a e lexão li e á ia numa análise ge al, espei an e à
cul u a das sociedades (obse ada e obse ado a). Nes e sen ido, Daniel-Hen i Pageaux,
um dos in es igado es esponsá eis pela e olução da eo ização da imagologia, en a iza o
pendo ela i is a da imagem, ei indicando pa a o seu es udo o luga da in e acção, da
mul iplicidade de discu sos e de olha es18. P econiza, consequen emen e, a abo dagem
sis émica, plu idisciplina e his ó ica, complemen ada po uma análise a en a das
ca ac e ís icas ex uais e ca ego ias po elas enunciadas. Conside a, en ão, o es udo da
imagem do es angei o dis anciado, an o da sociologia quali a i a ou desc i i a (de inido a
16 C . Hugo Dyse inck, «Zun P oblem de images und mi ages und ih e Un e suchung in Rahmem de
Ve gleichenden Li e a u wissencha », in A cadia 1, 1966.
17 C . Michel Cado , «Les e udes d’ images», in La eche che en li é a u e géné ale e compa ée, Pa is,
SFLGC, 1983, pp. 71-86.
18 C . (en e ou as): «Pou un nou eau p og amme d’é udes en li é a u e compa ée: les ela ions
in e li é ai es e in e cul u elles», in The Fu u o Li e a y Schola ship, Bay u h, Ve lag Pe e Lang, 1986;
«De l’image ie cul u elle à l’imaginai e», in P écis de li é a u e compa ée, ed.ci .; La li é a u e géne ale
e compa ée, ed.ci . ; Le bûche d’ He cule.His oi e, c i ique e héo ies li é ai es, Pa is, Hono é Champion,
1996; T en e essais de Li é a u e géné ale e compa ée ou la co ne d’ Amal hée, Pa is, L’Ha ma an, 2003.
II. Li e a u a Compa ada e imagologia
52
duma imagem média ou s anda d), como duma monog a ia edu o a ou duma in es igação
pu amen e es e icizan e.
Assim, es e es udo possibili a á ao in es igado , po um lado, a comp eensão do
discu so c í ico sob e a li e a u a es angei a e as suas unções cul u ais, e, po ou o, numa
p imei a abo dagem da ampla his ó ia das men alidades e sensibilidades ou ideologias, e-
si ua o es udo da ecepção c í ica. Além disso, o compa a i is a pode á p ocede a uma
e isão e eap op iação da sua p óp ia cul u a.
Pa indo da con o é sia en e Wellek e Ca é, Ge ha d Kaise pa ece ap oxima -se
eo icamen e dos es udos anceses, nomeadamen e de Pageaux, ao oca , p imei amen e, a
impo ância dos second- a e w i e s (ou seja, esc i o es conside ados de menos
impo ância), como in e mediá ios, pois a a és deles é possí el analisa e escla ece a
adap ação especí ica das suas ob as a um de e minado con ex o his ó ico19. Em segundo
luga , a ele ância dos géne os li e á ios ípicos de mediação (li e a u a de iagens, c í ica
li e á ia, co espondência) – exemplos que e elam como se ia a bi á io, na pe spec i a
o mal, exclui do epe ó io de emas compa a i is as as publicações pe iódicas.
Seguidamen e, o es udo dos clichés, dos mi os cul u ais (como pode se o caso, po
exemplo, do «bom sel agem») e da p óp ia au o- e lexão cien í ica. A impo ância dos
es udos da imagem ecíp oca é, pois, de ex ema pe inência nes e con ex o.
Impo a, igualmen e, de ini o objec o cen al da imagologia. A sua ele ância pa a a
ciência li e á ia e idencia-se nos casos em que a li e a u a (po ezes conjun amen e com
ou as a es) ma ca alguns conjun os de imagens de eo simbólico e alegó ico ou
ca ica u al. Tal ac o sucede, po exemplo, com a imagem de I ália na li e a u a alemã ou
de Veneza na li e a u a de in-de-siècle. Cons a a-se, des e modo, que as imagens li e á ias
19 C . Ge ha d Kaise , In odução à li e a u a compa ada, Lisboa, Fundação Calous e Gulbenkian, 1989, p.
164.
II. Li e a u a Compa ada e imagologia
53
e elam semp e o mas especí icas de uma au o-comp eensão ansmi ida. Nes e âmbi o, a
imagologia se ia pe inen e no es udo de oposições his ó ico- eó icas, como a exis en e
en e as li e a u as do no e e as do sul. Se ia ambém essencial a análise po meno izada
dos es emunhos imagológicos e mesológicos nas pe spec i as di e gen es do emisso e
ecep o .
Ainda segundo Kaise , se ia pe inen e salien a a unção especí ica da li e a u a na
his ó ia ge al, insis indo nos aspec os es é icos dos p ocessos de mediação in e nacionais e
das imagens do es angei o. T a a -se-ia de comp eende con eúdos e unções es é icas
com o auxílio da his ó ia social, no in ui o de en ende de o ma mais p ecisa a His ó ia
ge al. Assim, e i a -se-ia o isco de se «malog a » a His ó ia a a és de uma sociologia da
li e a u a edu o a.
Po seu u no, Y es Che el na ob a La Li é a u e compa ée20 salien a a
con e gência com a His ó ia, sublinhando o ac o de, nes e domínio, o ma e ial li e á io e o
não li e á io se assumi em como ma é ia de es udo, is o se nos ex os não-li e á ios que
se encon am os exemplos mais ní idos. Além disso, in eg a na imagologia o que denomina
se uma impo an e pa e dos es udos compa a i is as consag ados às imagens cul u ais
ep esen ando o es angei o.
Segundo o au o sup amencionado, exis em ês ias de in es igação no âmbi o da
imagologia. Em p imei o luga , o es udo das na a i as de iagem que cons i uem um meio
p i ilegiado de encon o com o es angei o: «[...] les éci s de oyage en disen beaucoup
su les s uc u es men ales e psychologiques de qui les édige [...]»21. Es as na a i as
een iam, po conseguin e, equen emen e, a p essupos os de uma ep esen ação colec i a
do es angei o que é necessá io descodi ica . Em segundo, o es udo de ob as de icção
20 C . Y es Che el, La Li é a u e compa ée, Pa is, P esses Uni e si ai es de F ance, «Que sais-je?»,1989,
pp. 25-26.
21 Idem, p. 25.
II. Li e a u a Compa ada e imagologia
54
(que incluam di ec amen e es angei os ou se e i am a uma isão de conjun o, mais ou
menos es e eo ipada de um país es angei o). Em e cei o e a pa i daqui, pode ão
conside a -se abo dagens mais ge ais, elacionadas com a an opologia e a
e nopsicologia22.
Nes e pon o, é undamen al conside a a comunicação ap esen ada po Ál a o
Manuel Machado no IV Cong esso da Associação Po uguesa de Li e a u a Compa ada
(É o a, Maio de 2001), in i ulada «Repensando a Li e a u a Compa ada: Imagologia e
Es udos Cul u ais»23. P incipia com a o mulação da seguin e pe gun a: «A Li e a u a
Compa ada ainda exis e?» Cen ando-se em ques ões especí icas da imagologia, o au o
epensa «a au onomia da unção eó ica da Li e a u a Compa ada»,24 a endendo à sua
polémica e olução ao longo do empo, às agmen ações e c í icas de que em sido al o.
Na comunicação acima e e ida, a p oblemá ica imagológico-cul u al é de inida a ês
ní eis: o p imei o, e e en e a ques ões de comunicação; o segundo, à mi ologia do espaço
es angei o e o e cei o ela i o ao imaginá io como modelo simbólico. Nes a sequência a
imagologia é elacionada com os Es udos Cul u ais, endo como pon o comum a análise
sócio-his ó ica da cons i uição de es e eó ipos25. Além disso, os Es udos Cul u ais podem
igualmen e ajuda a ap o unda a mi ologia do espaço, elacionada com a o mação da
imagem do es angei o. Des e modo, os Es udos Cul u ais só e ão sen ido se pa i em do
uni e so ex ual e se es e se in eg a na e lexão ace ca da his ó ia e da cul u a.
Ál a o Manuel Machado conclui que, no campo da in es igação da imagologia, a
Li e a u a Compa ada se assume como uma disciplina cuja ac ualidade é incon es á el. No
22 Idem, ibidem.
23 Es a comunicação in eg a a ob a Do ociden e ao O ien e. Mi os, Imagens, Modelos, Lisboa, Edi o ial
P esença, 2003.
24 Ál a o Manuel Machado, Do Ociden e ao O ien e. Mi os, Imagens, Modelos, ed. ci ., p. 57.
25 Nos Es ados Unidos, a Li e a u a Compa ada «me amo oseou-se» nos denominados «Cul u al S udies»,
expandidos igualmen e no B asil sob a designação de Es udos Cul u ais.
II. Li e a u a Compa ada e imagologia
55
en an o, pa a sal agua da a sua au onomia, de e á delimi a as suas on ei as eó ico-
me odológicas. A p o ícua elação en e imagologia e Es udos Cul u ais é ilus ada, no
inal, com uma ci ação de um es udo de Jean-Ma c Mou a cuja ansc ição é pe inen e:
L’ his oi e des illusions li é ai es su l’ é ange , qu’elle emp un e les oies anglo-
saxones des «Cul u al S udies» ou de la c i ique pos coloniale, qu’elle ejoigne la
my hoc i ique ou les é udes de écep ion ou bien enco e qu’elle e ienne su la héo ie,
onda ice, de l’espace li é ai e es plus que jamais d’ac uali é pou le compa a is e. 26
De ido ao seu ca ác e in e disciplina , é de oda a impo ância pa a a imagologia o
conhecimen o das pesquisas e ec uadas no âmbi o da e nologia, an opologia, sociologia e
his ó ia das men alidades, ela i os a aspec os ulc ais como é o caso da al e idade, da
iden idade ou do imaginá io social, en e ou os. Nes a sequência, o compa a i is a de e
conside a os es udos ealizados nos domínios sup amencionados, de modo a possibili a a
compa ação en e os mé odos de es udo li e á io e os ou os. Só assim se á possí el
es abelece um pa alelismo en e a imagem li e á ia e ou as ep esen ações eiculadas
a a és de ou os meios, como a imp ensa ou as ou as o mas de a e. Is o po que a
li e a u a elaciona-se in imamen e com as ou as a es, e lec indo semp e os pa adigmas
e os mecanismos da sociedade e da época his ó ica em que se in eg a.
Do mesmo modo, pa a es uda mos, analisa mos e in e p e a mos a imagem do
es angei o, e emos de conside a odos os ac o es que a odeiam e não somen e a me a
ep esen ação ex ual, linguís ica e li e á ia. Ela cons i ui semp e o u o de nume osos
ac o es ex a-li e á ios ligados a enómenos his ó icos, sociais, é nicos, cul u ais e e en es
an o ao Ou o (ao país ou cul u a obse ada) como à en idade obse ado a.
26 Apud Ál a o Manuel Machado, «Repensando a Li e a u a Compa ada: Imagologia e Es udos Cul u ais»,
in Do Ociden e ao O ien e. Mi os, Imagens, Modelos, ed. ci ., p. 65.
III. Imagem do es angei o e es e eó ipo
62
No Diá io de To ga depa amo-nos com di e sas imagens es e eo ipadas. Embo a a
sua análise mais de alhada es eja ese ada, como já an e io men e mencionámos, pa a a
e cei a pa e, impo a e e i e comen a alguns exemplos conce nen es às imagens
e idenciadas de Espanha e F ança.
Na p imei a isi a a F ança, da ada de 24 de Dezemb o de 1937, no Al o dos
Pi inéus, em Lou des, To ga a i ma: «Uma luz ma a ilhosa inunda es a g ande mu alha
que de ende o meu Senho D. Quixo e das en ações das “Folies Be gè es”.»10. Nes e
caso, a a és da con e são da ealidade geog á ica em ealidade espi i ual, eme ge a ideia
es e eo ipada de u ilidade associada à F ança, opos a à espi i ualidade ibé ica simbolizada
pelo mi o li e á io de D. Quixo e. Es es dois mundos são sepa ados po uma «mu alha»
na u al, que en a iza ainda mais o abismo que os sepa a. O ínculo a Espanha é acen uado
a a és do de e minan e possessi o «meu», que eme e pa a uma elação de p oximidade e
de a ec i idade.
To ga oge à moda do « ancesismo», is o que as cono ações e e en es a es e país
opõem-se aos alo es po ele conside ados p imo diais: a simplicidade, a pu eza o iginal, a
comunhão com as o ças e os elemen os da na u eza (à semelhança de um e dadei o
An eu).
Es e eo ipada é igualmen e a imagem ansmi ida dos omances anceses, quando
a i ma a 9/8/1942, a p opósi o de Manon Lescau : «Se alguém o capaz de me mos a um
dia um omance ancês com uma mulhe hon ada, um homem hon ado e meia dúzia de
izinhos hon ados, dou-lhe um doce.»11. Des e modo, pa indo do conhecimen o de alguns
omances anceses, To ga pa e do p incípio de que nenhum deles em pe sonagens
hon adas, a a és de um mecanismo de simpli icação e gene alização. Des e modo, a
10 Diá io I, ed. ci ., p. 55.
11 Diá io II, ed. ci ., p. 172.
III. Imagem do es angei o e es e eó ipo
63
imagem es e eo ipada da i olidade e de uma ce a le iandade é cons uída ambém
a a és de um p ocesso de ecepção li e á ia.
Nes a sequência, podemos ainda menciona o egis o duma iagem a Mon pellie
(da ado de 7 de Se emb o de 1950), do qual eme ge a ideia da F ança acionalis a a a és
da oposição i ónica e humo ís ica es abelecida en e Desca es e Ce an es12.
Do mesmo modo, o es e eó ipo ambém su ge na imagem ansmi ida de Espanha. A
ela subjaz a ca ga cul u al e his ó ica do imaginá io social. Is o po que é p ecisamen e no
seio do imaginá io social que se o ja a imagem li e á ia ansmi ida pelo esc i o . Nes e
caso, impo a lemb a as pala as de Oli ei a Ma ins, ci adas po Edua do Lou enço,
conce nen es à elação de Po ugal com o es angei o: «O es angei o pode ama -nos ou
odia -nos: não pode se -nos indi e en e. A Espanha p o ocou en usiasmos ou anco es:
jamais oi enca ada com desp ezo ou i onia».13 Aliás, es e peso do pa imónio his ó ico e
cul u al é econhecido po To ga quando decla a:
Os po os limí o es, em eg a, dão-se mal. Há essen imen os mú uos, ge ados ao
longo da His ó ia, que nenhuma diplomacia supe a e nenhuma égua adoça. É o que nos
acon ece com a Espanha desde que nos libe ámos do seu jugo. Mesmo nas melho es
ho as de en endimen o, es amos semp e de pé a ás.14
É ainda nes a linha que a i ma, aquando de uma isi a a Ve in: «A Espanha semp e
amada e semp e emida»15. Encon amos aqui subjacen e uma ce a necessidade de
libe ação, sen ida po Po ugal, ela i amen e a Espanha, aliada a um eceio, p o enien e
12 «O gua da da aduana ancesa, a olha o colega cas elhano, pa ecia Desca es a con empla um bison e. E o
ou o e a o Ce an es...» (Diá io V, ed. ci ., p. 541).
13 Apud Edua do Lou enço, Nós e a Eu opa, ou as Duas azões, Lisboa, Imp ensa Nacional-Casa da Moeda,
1988, p. 79.
14 Diá io XIV, ed. ci ., pp. 1476-1477.
15 Diá io XV, ed. ci ., p. 1637.
III. Imagem do es angei o e es e eó ipo
64
do complexo de in asão, ge ado pelos pe íodos de ocupação oco idos no passado, como
sucedeu en e 1580 e 1640.
Assim, é o sabe colec i o açado pela His ó ia, pela he ança cul u al e social que
anspa ece da imagem es e eo ipada do país izinho.
Claudio Guillén ci a ainda Geo ge O well, aludindo à banalidade de alguns
es e eó ipos que se aduzem em ópicos, de ido à di iculdade e iden e na de inição de
ca ac e ís icas nacionais, o que conduz equen emen e à ixação de aspec os i iais, e po
ezes desconexos16.
O es e eó ipo co esponde, po an o, a uma o ma mínima de comunicação, uma
espécie de esumo, uma exp essão emblemá ica de uma cul u a, de um sis ema ideológico.
T ansmi e uma de inição do ou o a a és de um sabe conside ado colec i o que se
p e ende alida . Não sendo polissémico, ou seja, possuindo apenas um signi icado, é
policon ex ual e eemp egá el. Implici amen e, coloca uma hie a quia, uma dico omia dos
mundos e das cul u as. Po ou as pala as, como e e e Daniel-Hen i Pageaux :
«P odigieuse ellipse de l’esp i , du aisonnemen , il es une cons an e pé i ion de p incipe:
il mon e (e démon e) ce qu’il allai démon e .»17
De inida como comunicação p og amada, a imagem é eo icamen e cons i uída po
ês elemen os: a pala a, a elação hie a quizada e o cená io, conducen es a ês ní eis de
es udo18. No p esen e abalho pe co e emos es es ês ní eis, cujos undamen os eó icos
e exemplos ap esen a emos de seguida, mas cuja aplicação p á ica se á desen ol ida,
aquando da análise das imagens cons i uídas a a és dos di e sos pe cu sos e ec uados
pelo na ado o guiano. Seguindo a o dem de complexidade c escen e e pa indo do
16 C . Claudio Guillén, Muliples mo adas. Ensayo de Li e a u a Compa ada, ed.ci ., p. 339.
17 D-H.Pageaux, La li é a u e géné ale e compa ée, ed. ci ., p. 63.
18 C . Daniel Hen i -Pageaux, «De l’image ie cul u el à l’ imaginai e», in P écis de Li é a u e compa ée, ed.
ci ., p. 142; La li é a u e géné ale e compa ée, ed.ci ., p. 64.
III. Imagem do es angei o e es e eó ipo
65
menos pa a o mais li e á io, do mais especí ico pa a o ge al, ap esen a emos seguidamen e
os ês ní eis de es udo imagológico, de aco do com os p essupos os eó icos de Pageaux.
Em p imei o luga , conside amos a pala a, ou seja, um «s ock» mais ou menos
es i o de pala as possibili ado as da di usão da imagem do Ou o numa de e minada
época e cul u a. Nes e âmbi o, de emos p ocede a uma análise do léxico, a endendo à
o mação de campos lexicais e semân icos (que possibili am o es abelecimen o de
iso opias). Além disso, é undamen al dis ingui as «pala as-cha e» (que se ap oximam
do es e eó ipo pela sua na u eza e uncionamen o), das denominadas «pala as- an asma»
(des inadas a se i uma comunicação de eo simbólico). Impo a a ende a duas o dens
lexicais: po um lado, as pala as da língua de o igem que se em pa a de ini o país
obse ado; po ou o, as pala as e i adas da língua e do imaginá io do país es angei o,
sem adução – es as cons i uem um inal e á el elemen o de al e idade, is o eicula em
uma ealidade es angei a absolu a. Nes e caso, podemos exempli ica a a és da u ilização
ei a po To ga da pala a cas elhana «homb idad»,19 ansc i a sem adução pa a de ini
p ecisamen e a g andiosidade geog á ica do país izinho, e lec ida nas suas qualidades
sociais e cul u ais.
Além disso, nes a análise lexical é necessá io a en a nas ma cas de i e ação,
epe ição (e ec ua o in en á io de de e minadas oco ências conside adas ele an es), nos
indicado es de empo e de espaço, na adjec i ação u ilizada pa a ca ac e iza a ealidade
es angei a obse ada. En im, impo a abo da odos os elemen os que, ao ní el da pala a,
são suscep í eis de aça um sis ema de equi alência do «eu» ela i amen e ao «ou o».
Só assim é possí el comp eende de que modo se esc e e a ap op iação do es angei o, se
nos encon amos pe an e uma edução do desconhecido ao amilia , ao elemen o nacional,
19 «A homb idad espanhola é uma sob ance ia geog á ica» (Diá io IX, ed. ci ., p. 955).
III. Imagem do es angei o e es e eó ipo
66
ou se, pelo con á io, cons a amos uma exo ização dos p ocessos de in eg ação cul u al da
ealidade obse ada.
Podemos exempli ica , eco endo a algumas «pala as-cha e» emp egues po To ga
pa a e ela a sua opinião ace ca de Cas ela, que con as a, po exemplo, com a da
Ca alunha e da es an e «Ibé ia». Cas ela é desc i a a a és de pala as como «op essão»,
« iolência» e « i ania», opos as ao modo de sen i e de se da Ibé ia. Segundo o au o : «A
oz cen ípe a de Cas ela nunca há-de se en endida pelo es o da Ibé ia. Magoa, pela sua
iolência, ou idos milena men e habi uados à doçu a dos seg edos do ma , mu mu ados
pela boca dum búzio...»20. Assim, um elemen o que ca ac e iza a es an e Ibé ia e do qual
Cas ela se encon a a as ada é o ma , ou seja, o a lan ismo. O po o cas elhano é cono ado
com o excesso, a megalomania, o ana ismo eligioso («Pensa , em Cas ela, é deambula
numa p isão. A p isão da Fé e da Pá ia.»)21. Em con apa ida, a egião da Ca alunha, mais
especi icamen e, Ba celona, po exemplo, ma ca a di e ença en e os seus habi an es e os
ou os, que, embo a unidos pelo mesmo espaço geog á ico, êm o mas de pensa , de sen i
e de agi di e en es. Po isso, To ga decla a: «Indus ioso e sensí el, o homem daqui, a
ab ica ou a idealiza coisas conc e as, em pouco que e com a somb a espec al dum
salman ino e e namen e a lança no descampado da Mese a a semen e abs ac a da sua
é.»22. Pa a melho ilus a es as di e enças exempli ica ainda com a imagem de duas
cas anhas colocadas den o da mesma casca, mas condenadas a des inos di e sos.
É ainda a es e ní el que de emos a en a na esc i a da al e idade, no ando odos os
elemen os possibili ado es da di e enciação ou da assimilação en e o «Ou o» e o «Eu».
Po conseguin e, o ocabulá io u ilizado nos comen á ios ecidos às e as
pe encen es à p o íncia de Cas ela, assim como as e e ências à capi al, deno am uma
20 Diá io V, ed. ci ., p. 537.
21 Idem, p. 536.
22 Idem, p. 540.
III. Imagem do es angei o e es e eó ipo
67
a i ude de a as amen o ace ao «Ou o» de ejeição do clima de op essão que domina esses
locais. Em con apa ida, há uma p oximidade e iden i icação com a Ca alunha, e a ada
com «pala as-cha e» que nos eme em pa a a libe dade. Po conseguin e, enquan o no
p imei o exemplo é u ilizada adjec i ação de alo nega i o, no segundo e idencia-se o
uso de adjec i os de cono ação posi i a.
No caso conc e o de To ga, ela i amen e aos mecanismos de elabo ação de imagens,
impo a conside a o isolamen o cul u al do país de o igem que acompanha a elabo ação
dos p imei os doze olumes do Diá io (pe íodo di a o ial) e o posicionamen o c í ico do
au o pe an e o ambien e polí ico, cul u al e social onde se encon a ime so.
Nes e âmbi o, a imagem do es angei o ambém pode e ela aspec os di íceis de
concebe e de exp imi ace ca do país de o igem. Na nossa análise não podemos esquece
alguns dados ulc ais, que biog á icos, que do con ex o cul u al, social, polí ico, do
imaginá io social onde se o mou a sua pe sonalidade e que e á de e minado as suas
posições ideológicas, eligiosas, e c.
A imagem elabo ada a pa i da con emplação do «ou o» pode su gi como um
p olongamen o do «eu» e do seu espaço de o igem, anspondo me a o icamen e ealidades
nacionais. Des e modo, es a imagem do elemen o es angei o eicula a que o na ado em
de si p óp io. Tal ac o pode se exempli icado a a és da noção de Ibé ia, que, ao engloba
os dois países, acaba po ap esen a Espanha como um p olongamen o de Po ugal e ice-
e sa. Além disso, cons a a-se ainda quando To ga conside a a Amé ica do Sul como uma
ansposição da Ibé ia.
Nes a sequência, a ideologia eligiosa e polí ica do esc i o in luencia a sua isão de
ou o país, de ou a cul u a. Sendo essa imagem e elado a das opções ideológicas que
a a essam e es u u am a sociedade, é necessá io e i a uma lei u a edu o a, de endo-se
III. Imagem do es angei o e es e eó ipo
68
sai do ex o, is o as imagens eicula em elações com dados de o dem his ó ica, social e
cul u al.
Po isso, sendo a imagem que To ga o ma da Espanha his o icamen e
con ex ualizá el, encon amos na sua génese, não apenas a expe iência indi idual do au o ,
mas ambém o con ex o his ó ico e social onde se inse e.
Se á, pois, líci o coloca a seguin e ques ão: de que modo as imagens elabo adas
To ga e lec em o con ex o social, his ó ico e cul u al da sua época?
Impo a analisa ainda em que medida a linguagem simbólica da imagem nos conduz
à linguagem simbólica do mi o (nas páginas do Diá io de To ga, su gem-nos, po exemplo,
o mi o de Dom Quixo e, de An eu e de O eu). Em que medida nos conduz a uma
mi ologia colec i a ou indi idual? É sob e udo a consciência enuncia i a, o modo como o
«eu» diz o «ou o», que de e á cons i ui o pon o de pa ida, uma ez que:
Segui os meand os da esc i a des e Eu enunciado , é iden i ica , pa a lá dos
mo i os, das sequências, dos emas, dos os os e das imagens que dizem o Ou o, a
manei a de se a icula em no in e io de um ex o, os p incípios o ganizado es, os
p incípios dis ibuido es (sé ie do Eu e sus sé ie do Ou o), as o mas lógicas e as
di agações do imaginá io.23
O segundo momen o de es udo é o das elações hie a quizadas Tem inspi ação
es u u alis a, u ilizando os mé odos desc i i os u ilizados pelo an opólogo Claude Lé i-
S auss pa a a lei u a e comp eensão do uncionamen o dos mi os.
23 Ál a o Manuel Machado - Daniel-Hen i Pageaux, Da Li e a u a Compa ada à Teo ia da Li e a u a, ed.
ci ., p. 56.
III. Imagem do es angei o e es e eó ipo
69
A es e ní el, abo dando o ex o na sua dimensão in o ma i a, é necessá io e ec ua o
seguin e pe cu so es u u alis a:24 p imei amen e, iden i ica as oposições es u u ado as do
ex o (po exemplo: eu-na ado -cul u a de o igem s. Ou o, cul u a ep esen ada); em
seguida, oca as unidades emá icas, as pausas desc i i as (cons a a de que modo o
elemen o es angei o é in es ido de uma unção pa icula ); em e cei o luga , a en a nas
sequências onde se encon am os elemen os ca alisado es da imagem do es angei o. Ainda
nes e ní el, é necessá io analisa o quad o espácio- empo al, is o que es es elemen os,
além de se em desc i i os, assumem ambém uma unção explica i a.
Assim, é pe inen e o es udo do p ocesso de o ganização ou eo ganização do espaço
es angei o, as modalidades de de e minação espacial e as dico omias p esen es no discu so
ace ca des e espaço. A í ulo de exemplo, podemos e e i , no Diá io, a con igu ação da
imagem de Espanha a a és da dico omia libe dade/op essão, cono ada, espec i amen e,
com a Ca alunha e Cas ela. Ve i ica-se, além disso, po ezes, uma con igu ação do espaço
a a és da oposição «eu» (ou cul u a de o igem) e sus o «ou o» (ou cul u a obse ada). É
o que sucede, po exemplo, na ep esen ação da imagem de F ança em con on o, que com
a de Espanha, que com a de Po ugal. Nes e caso, o a i icialismo e o acionalismo ancês
opõem-se à au en icidade e espi i ualidade espanhola e po uguesa.
Nes a e apa é ainda necessá io não esquece os locais que são alo izados e isolados
a a és de um pensamen o mí ico, con e indo-lhes uma posição ulc al. Po conseguin e,
há zonas in es idas de alo es posi i os ou nega i os, pe mi indo a simbolização (ou
«sac alização») do espaço. No Diá io o guiano são di e sas as cidades e isi adas e
mi i icadas (que pos e io men e abo da emos), como é o caso de Roma ou de Veneza,
en e ou as. Além disso, depa amo-nos com alguns locais conside ados e dadei amen e
24 C . Daniel-Hen i Pageaux, «De l’image ie cul u el à l’ imaginai e», in P écis de li é a u e compa ée,
ed.ci ., p. 146.
III. Imagem do es angei o e es e eó ipo
70
pa adisíacos – como é o caso da ilha de Moçambique25, um e dadei o «locus amoenus», -
em oposição a ou os onde eina o caos, en endidos como «locus ho endus» in e nais
(como a cidade de Luanda).26
Ainda nes e pon o de abo dagem das ep esen ações imagé icas, é necessá io a en a
na elação en e o espaço geog á ico e o psíquico, is o que, po ezes, o modo como é
e a ado o espaço ex e io es angei o ep oduz uma paisagem men al do «eu» do
na ado .
Ou o elemen o cujo es udo é undamen al é o empo, uma ez que as indicações
c onológicas e as da as his ó icas pe mi em si ua o elemen o es angei o no empo,
su gindo igualmen e a possibilidade de mi i icação do empo his ó ico. No caso pa icula
do nosso co pus de es udo, as indicações c onológicas são p ecisas e cons an es, pois odos
os egis os do Diá io se encon am da ados e localizados geog a icamen e. Não obs an e,
impo a igualmen e analisa , po exemplo, as analepses e odos os elemen os suscep í eis
de possibili a a coexis ência en e o empo linea i e e sí el da his ó ia e o empo
e e sí el, cíclico da imagem.
Nes e con ex o, ela i amen e ao ecuo empo al, no amos, po ezes, no Diá io a
e ocação do passado com o objec i o de jus i ica si uações oco idas no empo p esen e.
É o que sucede, numa passagem localizada em San o An ónio do Zai e, no dia 23 de Maio
de 1973, quando o na ado , aludindo ao isco de nau ágio que i enciou du an e uma
iagem de ba co pelo io, e e e: «A obs inação de isi a o sí io que o meu
comp o inciano Diogo Cão pisou pela p imei a ez ia-me cus ando a ida. A ai a do
Zai e pa ecia que e inga -se em mim da iolação de quinhen os.»27. Assim, os
25 C . Diá io XII, ed. ci ., pp.1257-1258
26 C . idem, pp. 1247-1248.
27 Idem, p. 1249.
III. Imagem do es angei o e es e eó ipo
71
acon ecimen os his ó icos jus i icam a ú ia demons ada po um país, po uma Na u eza
pe soni icada, num momen o p esen e.
Após a ca ac e ização des es elemen os enunciado es da al e idade, de emos
examina o sis ema de pe sonagens, a sua elação com o «eu», o modo como se in eg am
num p ocesso de inclusão ou de exclusão, o seu posicionamen o cul u al ou polí ico, o
ac o de exis i uma p edominância do elemen o eminino ou masculino e as suas
implicações na cons ução ex ual e imagé ica.
Nes e âmbi o, cons a amos a p io i que a esc i a dia ís ica se cen a no «eu», no
p o agonis a, in e indo, ou sendo e e idas espo adicamen e, ou as pe sonagens, que
con ibuem pa a consolida ou con igu a uma de e minada ep esen ação do es angei o.
Como exemplo, podemos ansc e e um exce o duma passagem e e en e à isi a a
Angola: «Penoso diálogo com um cabecilha nacionalis a. In eligen e, io e pe emp ó io,
cada pala a que lhe saía da boca pa ecia uma punhalada.»28. Aqui, apesa do
econhecimen o de uma qualidade ao «ou o» (a in eligência) desp ende-se da desc ição
e ec uada uma c í ica ao ex emismo, à ag essi idade e in ole ância, que cons i uem
en a es ao diálogo e ao en endimen o en e o po o colonizado e o colonizado . Pe inen e
é ainda o ac o de, nes e caso, como nou os, em que há e e ência à in e enção de ou as
pe sonagens, es as não e em nome, o que lhes con e e um ce o g au de inde inição.
Além disso, o ex o de e se en endido como um documen o an opológico, onde se
exp essa o sis ema de alo es do «ou o», assumindo-se como um es emunho da cul u a
es angei a. De e á, po conseguin e, se es udado como um p ocesso na a i o, desc i i o
e ambém cogni i o, conducen e à comp eensão da génese e desen ol imen o do p ocesso
de conhecimen o do esc i o , ace ao elemen o «es angei o». Nes e caso, sendo o nosso
28 Diá io XII, ed. ci ., p. 1258.
IV. A ep esen ação simbólica do Ou o
78
conc e a da iagem pa ece e o ça a imagem já an ecipadamen e delineada a a és da
lei u a, con i mando o ho izon e de expec a i a o mado.
Aquando da passagem po Lond es, em Junho de 1977, To ga ai ambém ansmi i
de Ingla e a, inicialmen e, uma ce a ideia de supe io idade, seguindo a linha de Ga e ,
An e o ou de Eça de Quei ós, pa a quem es e país e a sinónimo de ci ilização e de
«cul u a supe io ».
En ão, ao con á io do que sucede em Po ugal, país desp o ido de iden idade e de
coesão, naquela e a b i ânica, sen e-se a coe ência e a o dem, uma solidez social, que
pa ece ansbo da , inclusi amen e pa a a p óp ia na u eza:
Tudo ce o, udo ha monioso. O io co e disciplinado, a libe dade au olimi a-se, as
ins i uições uncionam. Pa a cada ac i idade há uma dignidade. [...]
A pá ia que é memó ia e acção. Que é uma comunhão quo idiana de p esenças e
ausências, sac amen o que nunca igu ou no nosso ca ecismo cí ico.13
A es e elogio à supe io idade da o ganização e da dignidade b i ânica, ac esce ainda
a eacção a alguns esc i o es ingleses, pelos quais é e elada g ande admi ação. Um dos
exemplos que podemos e e i é o de Kea s (já an e io men e mencionado), ou o é o de
Shakespea e, conside ado po To ga como um au ên ico génio c iado 14.
No en an o, es a a i ude da pa e do na ado o guiano, que ap oximámos da
«mania», não p essupõe a impo ação conscien e de hábi os ou aspec os cul u ais dos
países conside ados supe io es em alguns aspec os. Nes es casos, no a-se apenas
admi ação e econhecimen o de elemen os que são posi i os no es angei o e que se
encon am ausen es no país de o igem. Não obs an e, al ac o, ge ado , po ezes, de
13 Diá io XII, ed. ci ., pp. 1344-1345.
14 C . Diá io I, ed. ci ., p. 101.
IV. A ep esen ação simbólica do Ou o
79
algum complexo de in e io idade, embo a desencadeie uma a i ude c í ica, não p o oca o
desp ezo pelo país de o igem. Po isso, conside amos que há uma ce a ap oximação
ela i amen e à «mania», embo a não englobando odas as ca ac e ís icas eó icas que lhe
são apon adas. Aliás, es a ep esen ação do «ou o» não se baseia numa elabo ação ex ual
da imagem p op iamen e li e á ia, o nando-se po isso um es e eó ipo, is o cons i ui
uma o ma massi a de comunicação dum sabe colec i o, assumindo-se como «a e dade
do esc i o como ep esen an e duma de e minada cul u a nacional»15. Po ou as pala as,
es a ep esen ação do «es angei o» enquad a-se no esquema cul u al dominan e.
Podemos assim conside a que, nes e caso, o «ou o» é delineado como «al e »,
a a és de uma ep esen ação de ca ác e ideológico, in eg ado a. Aliás, a ideologia
alimen a-se p ecisamen e dos es e eó ipos cul u ais, das imagens es e eo ipadas que
assumem um ca ác e p ese ado .
A segunda a i ude, opos a à an e io , denomina-se « obia». Nes e caso, a ealidade
es angei a é conside ada, de ce o modo, in e io à da cul u a de o igem. Em To ga, não
encon amos a i udes au ên icas de « obia». Depa amo-nos, an es, com alguma ejeição
po de e minadas ealidades es angei as, às quais al a a pu eza p imi i a, a au en icidade,
ou a coesão – ca ac e ís icas mui o alo izadas pelo au o .
Como exemplo que se ap oxime pa cialmen e des a a i ude, podemos e e i algum
descon o o e desag ado, e elado pelo na ado ao pe co e a F ança (nomeadamen e,
Pa is) e um ce o desespe o du an e a isi a a Angola e Moçambique, aliado ao sen imen o
de di e enciação ace ao Ou o. Po ém, es a úl ima a i ude não se en aíza numa eacção
acis a, mas an es na desilusão de e um país dilace ado pela gue a, onde en e o mundo
dos b ancos e o dos na i os se desenhou um osso in ansponí el. Nes e caso, é de ex ema
15 Ál a o Manuel Machado, Do Roman ismo aos oman ismos em Po ugal. Ensaios de ipologia
compa a i is a, Lisboa, Ed. P esença, 1996, p. 53.
IV. A ep esen ação simbólica do Ou o
80
impo ância abo da a si uação his ó ica i ida du an e a isi a: Angola, à semelhança dos
ou os países a icanos colonizados pelos po ugueses, encon a a-se em plena gue a
colonial.
P incipiemos en ão pela imagem da F ança que, como já an e io men e cons a ámos,
é concebida sob e udo como ú il e a i icial. A es as ca ac e ís icas ac escem ainda a
megalomania, a inconsis ência, a aidade sem azão, como e e e o na ado a 2 de
Ou ub o de 1950, em Pa is, após elogia a au en icidade espanhola: «Quan o a es a pob e
F ança, se um dia lhe sop a um en o a ale , pul e iza-se. Com a ceguei a de se julga
uma no a G écia, cuida que de o a á odos os in aso es.»16. Além disso, a e en e
cosmopoli a de Pa is e es e-se pa a o obse ado duma dimensão quase « ampi esca»,
assemelhando-se a um pa asi a, na medida em que a acusa de ex ai aos isi an es a sua
ca ac e ís ica mais pu a e au ên ica17.
No en an o, é an e io men e, aquando da p imei a isi a egis ada à capi al des e país,
que mais ni idamen e se e idencia o desag ado e uma ce a incomunicabilidade com o
espaço isi ado:
Se me ob igassem a paga aqui ou o impos o que não osse es e dum ca ão de li e
ânsi o po an os dias - mo ia. Se i esse que se nes es Campos Elíseos qualque coisa
que me secasse a lemb ança da minha a enida da Libe dade de Lisboa – mo ia. Se
i esse de esc e e aqui um poema sem o jei o da língua que mamei – mo ia.18
Ve i ica-se, des e modo, a impossibilidade de in eg ação do isi an e no espaço
isi ado, aliada à sua o e inculação à pá ia. O o miguei o humano pa isiense,
compos o po cinco milhões de habi an es, p o oca-lhe epulsa. Além disso, ainda no
16 Diá io V, ed. ci ., p. 554.
17 C . Idem, p. 555.
18 Diá io I, ed. ci ., p. 63.
IV. A ep esen ação simbólica do Ou o
81
mesmo egis o, e idencia-se uma ce a «supe io idade» da cul u a de o igem, quando
To ga con es a o ac o de Pa is se conside ada a capi al do mundo, a i mando: «A capi al
do mundo de meu Pai é S. Ma inho de An a»19.
Es a imagem nega i a é ainda con igu ada a a és do modo como são ecebidos
alguns au o es anceses (como é o caso de Sa e e de Baudelai e) e da opinião ge al e
es e eo ipada ace ca do omance ancês (já e e ida no capí ulo an e io a p opósi o de
Manon Lescau ). Rela i amen e ao p imei o poe a sup amencionado, To ga e ela um
p o undo dis anciamen o e ecusa pe an e a sua ob a ao esc e e : «As Fusées de
Baudelai e. Decididamen e, não pe enço a semelhan e aça. Aquilo, de es o, não é nada, a
não se o ígado a da sinais de si.»20. Po seu u no, Sa e é acusado de al a de
since idade, is o a sua ob a não se uma exp essão de ida nem de anqueza, qualidades
essenciais na li e a u a, segundo To ga. Po isso, comen a de o ma i ónica: «A ida é uma
paixão inú il, diz o Sa e. Mas, a inal, não se ma ou depois da descobe a.»21
Bas an e dis in a é a imagem cons uída de Á ica, que decidimos in eg a nes e
âmbi o, não pela supe io idade da cul u a de o igem, mas an es pelo dis anciamen o ace
ao «ou o», pela incomunicabilidade e pela impossibilidade de adap ação do «eu» num
e i ó io comple amen e «es anho» e es angei o». Em p imei o luga , o na ado
con essa o seu desespe o na ano ação da ada de 2 de Junho de 1973: «Mas que hei-de eu
aze , se desde que pus o pé em Á ica i o em pânico, sin o a e a ugi -me debaixo dos
pés?»22
Dois dias depois, numa caçada na Go ongosa (que lhe despe a saudades das caçadas
à pe diz ei as em Po ugal), obse a em elação às pessoas que o odeiam:
19 Idem,ibidem.
20 Idem, p. 91.
21 Diá io V, ed. ci ., p. 516.
22 Diá io XII, ed. ci ., p. 1255.
IV. A ep esen ação simbólica do Ou o
82
Po mui o que i a nunca esquece ei o pasmo i ónico de ês mulhe es abo ígenes,
que não en endiam uma pala a de po uguês, e o olha oblíquo de um bando de homens
[...] Ca as es anhas, enigmá icas, onde a minha má consciência b anca lia o ódio, e
al ez espelhassem apenas a ins in i a descon iança em qualque na u al po um
semelhan e que o não é.23
T anspa ece da passagem sup aci ada um p ocesso de es anhamen o e
dis anciamen o ace à ealidade obse ada. A di e ença acial encon a-se subjacen e na
exp essão «a minha má conciência b anca». É p ecisamen e essa consciência de se sen i
um «inimigo» que o le a a in e p e a como ódio um sen imen o que pode á se de medo
ou de me a descon iança. Es e p ocesso de ejeição é a ibuído aos ac o es his ó icos, ao
ac o de en e o colonizado e o colonizado nunca e exis ido um en endimen o, nem uma
comunhão de cul u as. Po ém, cons a amos que a imagem das ex-colónias não é
in ei amen e sob ede e minada pela ideologia po uguesa, e idenciando-se a independência
de pensamen o do au o . Nes e caso, podemos conside a que o «ou o» se assume como
«alius», pela sua inde inição e pelo ques ionamen o exis en e da cul u a de o igem. Além
disso, numa passagem localizada em No a Lisboa e da ada de 30 de Maio de 1973, o
iajan e menciona as po encialidades daquela e a, e ocando a possibilidade de uma
sociedade al e na i a, ma cada pela pe eição, onde einasse a libe dade e a igualdade, que
pode ia e sido (ou i a se ) ali edi icada, embo a isso não passe de me a u opia: «Sim,
um p óspe o país u u o, cons uído com amo e suo do Zai e ao Cunene, cada habi an e a
semea e a colhe os u os ag idoces da ida po con a p óp ia e não po con a alheia.»24.
Além disso, é ecida uma c í ica ao acasso de Po ugal em Á ica (ao con á io do que
23 Diá io XII, ed. ci ., p. 1256.
24 Idem, p. 1254.
IV. A ep esen ação simbólica do Ou o
83
sucedeu, compa a i amen e, no B asil), apon ando a p incipal causa - que no undo se
en aizou na a i ude po uguesa - pois e ia sido apenas necessá io «que cada um dos que
ie am ma o a ouxesse a con icção que se angolano, moçambicano, guinéu ou
imo ense e am manei as he e ónimas de se po uguês»25.
Po seu u no, a e cei a a i ude conside a a ealidade cul u al es angei a posi i a,
in eg ando-a na cul u a de o igem. Ve i ica-se uma alo ização posi i a, uma es ima
mú ua, designada po « ilia». Assen a num in e câmbio eal, bila e al, pe mi indo o
desen ol imen o de p ocessos de a aliação e ein e p e ação do es angei o. Ao con á io
do que sucede nas a i udes an e io es, aqui p essupõe-se um diálogo, uma oca de ideias
equi a i a e ha moniosa, onde se cons a a um econhecimen o do «Ou o», sem se
supe io , nem in e io . Aqui, o elemen o «es angei o» não é impo ado, a a és de um
p ocesso de acul u ação, mas sim epensado e assimilado.
Es a elação é no ó ia no Diá io quando são egis adas isi as a países como a
Espanha - apesa de a elação com es e país se e es i de alguma ambi alência que
desen ol e emos pos e io men e - ou o B asil.
No que conce ne ao país izinho, apesa das já e e idas di e enças de opinião
ela i amen e a Cas ela e à Ca alunha, a e dade é que To ga se conside a um esc i o
«ibé ico» e a sua pá ia é, po conseguin e, a Ibé ia (a união de Po ugal e Espanha)26.
Reside nes e «ibe ismo espi i ual» a a i ude de « ilia» ace a Espanha, como se nela
p ocu asse uma sensação de comple ude, que o le a a decla a :
Não há dú ida que me sin o bem a pisa e a espanhola! É uma sensação
ag adá el de ala gamen o ísico, de econciliação ín ima, de ome sa is ei a. Pa ece que
25 Idem,ibidem.
26 No p e ácio da adução espanhola da colec ânea de con os in i ulada Bichos, assume-se como «Filho
ociden al da Ibé ia», decla ando-se «pela g aça da ida, peninsula ». ( Diá io III, ed. ci ., pp. 281-282).
IV. A ep esen ação simbólica do Ou o
84
se comple am em mim não sei que c escimen o celula in e ompido, que oo espi i ual
a ado, que comp eensão esboçada.27
Es a « ilia» é ainda co obo ada com a ecepção li e á ia de au o es espanhóis (como
é o caso de Unamuno, Ga cia Lo ca, Ce an es, en e ou os), pelos quais é e elada
p o unda admi ação, pa alelamen e ao que sucede ambém, po exemplo, com pin o es
como Picasso ou Goya. Além disso, o mi o de D. Quixo e su ge com alguma equência
no Diá io o guiano, ec iado de uma o ma peculia .
Em suma, na imagem do país sup amencionado, o «ou o» su ge no amen e como
«al e ». Ele não se ence a numa di e ença i edu í el, nem é concebido como um
elemen o inde inido, ab indo-se ao diálogo, à comunicação bila e al, in eg ada na
ideologia do g upo, da sociedade a que pe ence o obse ado da cul u a es angei a.
O B asil é ou a nação cuja imagem se desenha a a és da « ilia». Na segunda isi a
e ec uada a es e país, onde o au o passou cinco anos da sua adolescência, e e e:
A concen a a a enção nes e se uno e di e so, local e uni e sal, cioso e p ódigo,
inquie o como um adolescen e e a en o como um adul o, que é o b asilei o – eu opeu
opical a inaugu a o u u o, po uguês polic omado que melho ou a alma e a an asia, e
em oi o milhões de quilóme os quad ados de ex ensão humana.28
Ve i icamos que o «elemen o es angei o» é is o como uma espécie de e são
ape eiçoada do «Eu» (nes e caso, p ojec ando a cul u a de o igem). Nes a sequência, o
«ou o» eúne em si odas as qualidades que augu am um u u o p omisso , aliando
ca ac e ís icas à pa ida conside adas con adi ó ias (uno e di e so, local e uni e sal).
Po ém, é p ecisamen e na e sa ilidade e o iginalidade esul an e da união de
27 Diá io IX, ed. ci ., p. 958.
28 Diá io VII, ed. ci ., p. 758.
IV. A ep esen ação simbólica do Ou o
85
ca ac e ís icas ão díspa es, que eside a capacidade des e po o pa a conquis a o u u o,
desen ol endo-se cada ez mais. Além disso, a ex ensão geog á ica é humanizada,
me amo oseada em «ex ensão humana». E idenciam-se nes e caso os dois p ocessos de
simbolização do ou o mais equen es: a me á o a (na medida em que e e e o b asilei o
como «po uguês polic omado») e a me onímia («eu opeu opical»), ao designa uma
ealidade a a és de um e mo e e en e a uma ou a, elacionada com a p imei a.
O B asil con igu a-se como um país de disponibilidade e comunhão, pleno de
po encialidades, com o qual Po ugal e o mundo pode ão ap ende mui o, como e ela o
na ado :
Deslumb ado, a olha o caleidoscópio humano que me odeia.
O mundo nunca se á su icien emen e g a o ao B asil po es a digni icação do neg o,
que é um iun o no plano mo al e no es é ico.29
No egis o acima ansc i o, a imagem me a ó ica do caleidoscópio assume-se como
um ecu so ca ac e izado e de inido da ep esen ação do es angei o, e idenciando a
mul icul u alidade, a di e sidade e a iqueza humana concen ada nesse espaço. É
en a izada e elogiada pelo na ado a «digni icação do neg o», que nou os países oi
disc iminado. Acen ua-se, des e modo, a ep esen ação do B asil como luga de comunhão
e união en e aças.
Depa amo-nos, en ão, com uma imagem do B asil u ópica, a as ada dos esquemas
dominan es da sociedade de o igem, onde o «ou o» se assume como «alius», na medida
em que há um ques ionamen o da pe spec i a que a sociedade po uguesa em des e país.
Aliás, a o iginalidade des a ep esen ação é co obo ada na ob a T aço de União, onde o
29 Idem, p. 757.
IV. A ep esen ação simbólica do Ou o
86
au o salien a a necessidade de uma ap oximação e de um ap o undamen o das elações
en e Po ugal e o B asil, com os quais ambos bene icia ão. Po ou o lado, alude ao ac o
de Po ugal pe manece a eigado à imagem dum B asil «quinhen is a»30.
Nes e âmbi o podemos ainda ques iona -nos: a é que pon o es a imagem o iginal e
«sub e si a» (no sen ido de u ópica) do B asil pode á desenha -se como um mi o pessoal
do au o ? Es a se á uma ques ão a desen ol e no capí ulo consag ado à análise da
ep esen ação des e país.
Finalmen e, é colocada a possibilidade de uma qua a a i ude, denominada
cosmopoli a ou in e nacionalis a. Apa en emen e, ela não coloca a ques ão de um juízo
posi i o ou nega i o, uma ez que as elações en e as cul u as se con e em
endencialmen e num p ocesso de uni icação cul u al. Es a análise, de ido p ecisamen e à
mencionada ausência de juízos, é suscep í el de conduzi a si uações ex emas, po ezes,
de obia ou de mania. Po ou as pala as, pode esidi numa gene alização da
ecip ocidade, ou pelo con á io na sua in ei a anulação. Po isso, como e e e Pageaux:
Dans le cas du cosmopoli isme, a i ude qu’on pou ai loue comme ou e e e
géné euse, on se a a en i à l’his oi e: le cosmopoli isme des Lumiè es suppose une
«philie» en e éli es e un cen e posi i : Pa is [...] . Quan au es e, elle somb e [...] dans
les énèb es du ana isme.[...] On se mé ie a donc de ses échanges p ésen és sou en dans
leu s mani es a ions pa ielles mais aussi pa iales.31
Es a ideia de uni icação, embo a não anspa eça, à pa ida, dos egis os do Diá io,
le a-nos a e lec i ace ca da céleb e ase p o e ida pelo au o e egis ada na ob a T aço
30 C . Miguel To ga, T aço de União, 2ª ed. e is a ,Coimb a, Ed. do Au o , 1969, p. 9
31 Daniel-Hen i Pageaux, la li é a u e géné ale e compa ée, ed. ci . p. 72.
IV. A ep esen ação simbólica do Ou o
87
de União, em que a i ma que «o uni e sal é o local sem pa edes.»32. Toda ia, não
conside amos que es a ase apon e pa a uma a i ude de cosmopoli ismo e idenciada po
To ga, is o que da imagem que nos ansmi e do «ou o» acaba semp e po eme gi um
juízo de alo . No con ex o em que é ei a, a a i mação mencionada des ina-se
p ecisamen e a e ela a p ojecção de T ás-os-Mon es como exemplo de uma ealidade
au ên ica, e dadei a. Po ou as pala as, es e «a o ismo» a i ma a «esc i a» e
« ansc ição» de um espaço p imo dial, inaugu al, en endido como exp essão do uni e sal
e concebido como «axis mundi» pa a To ga. Po maio que seja a abe u a ao «ou o», as
on ei as do «eu o guiano» encon am-se semp e delimi adas e en aizadas numa pá ia,
numa cul u a.
Como sabemos, delimi a a especi icidade do ou o signi ica ece compa ações com
o «eu» e consequen emen e, singula izá-lo. Daí oda a azão da ase: «Diz-me como ês o
Ou o, di - e-ei quem u és»33. A iden idade do «eu» (que pode se ambém se ex ensi a
ao país de o igem) é, po an o, undamen ada e delineada a a és do es a u o e da
ep esen ação do «ou o».
Em sín ese, as qua o a i udes con igu ado as da ep esen ação simbólica do «ou o»
assumem-se como e iden es mani es ações duma lei u a e in e p e ação do «es angei o».
Cons i uem, po isso, a i udes suscep í eis de cla i ica no seio de um de e minado ex o,
as escolhas, as ejeições que p esidem a es as ep esen ações, desenhadas a pa i da
ensão en e os dois pólos: a u opia e a ideologia.
Pa a uma mais ap o undada e lexão ace ca dos mecanismos que as condiciona am,
e emos ob iga o iamen e de conhece a ge ação li e á ia a que To ga pe enceu, assim
32 T aço de União, ed. ci ., p. 69.
33 Daniel-Hen i Pageaux, Imagens de Po ugal na cul u a ancesa, ed. ci ., p. 14.
I. A ge ação da «P esença»: ecepção e di ulgação de modelos li e á ios es angei os
94
Po isso, a P esença oi conside ada po alguns c í icos como e óg ada
ela i amen e à ge ação an e io . Coloca-se, pois, a ques ão da di ulgação em Po ugal nos
anos 20-30 de ob as pe encen es à adição do oman ismo do século XIX, numa a i ude
de ecusa da up u a o al angua dis a de O pheu. Aliás, a designação de «segundo
mode nismo» aplicada à Ge ação da P esença é polémica. Edua do Lou enço, po
exemplo, conside ou que es e g upo não ep esen ou nenhum a anço ela i amen e ao
p imei o Mode nismo, mas an es um e ocesso, expondo a sua opinião no a igo in i ulado
«P esença ou a con a- e olução do mode nismo po uguês?»TPF
9
FPT, onde p econiza que ao se
a ibuída a designação de «segundo mode nismo» se p i ilegiou o ac o c onológico, em
de imen o da na u eza cul u al. Casais Mon ei o con es a es a ideia, salien ando o ac o de
a P esença su gi como «um pon o de con e gência de odas as endências mode nis as»TPF
10
FPT,
azendo com que o al apa en e «passo a ás» seja um passo em en e, de ido à
ein eg ação de alo es que ha iam pe manecido a é en ão ocul os.
Cons a a-se, ela i amen e à P esença, uma de esa da o iginalidade indi idual,
ín ima do au o , em de imen o da o iginalidade excên ica e colec i a. Assim como
p econiza Edua do Lou enço:
A “P esença” nasce p og amá ica e poé ica ao mesmo empo. A sua p imei a página
é um a igo de c í ica. O “O pheu” nasce poesia. A ge ação da “P esença” c iou e
conse ou o sangue io dian e da c iação, ez poemas e e lec iu sob e eles, ez li e a u a
e omou dela uma con ínua consciência, de endendo-a como li e a u a.TPF
11
FPT
TP
9
PT Es e a igo oi publicado no jo nal O Comé cio do Po o (Suplemen o «Cul u a e A e», 14.6.1960, com
sup essões impos as pela Censu a e pos e io men e (numa e são supos amen e de ini i a) na ob a Tempo e
Poesia, Lisboa, Ed. G adi a, 2003, pp. 131-154.
TP
10
PT Adol o Casais Mon ei o, A poesia da P esença, Lisboa, Mo aes Edi o es, 1972, p. 14.
TP
11
PT Edua do Lou enço, «O desespe o humanis a de Miguel To ga e o das no as ge ações», in Tempo e Poesia,
ed. ci ., p. 75.
I. A ge ação da «P esença»: ecepção e di ulgação de modelos li e á ios es angei os
95
Po ou as pala as, o O pheu o na a a ida li e a u a, en ando i encia as
expe iências da imaginação, is o que esc e e assemelha a-se pa a ele a espi a , sendo
quase um ac o in olun á io, a as ado da e lexão ace ca dos mecanismos que o
desencadea am. Po isso, ao con á io dos p esencis as, os p imei os mode nis as nasce am
« o a da His ó ia da Li e a u a», endo su gido como um «ac o de sub e são», sem
qualque in enção conscien emen e dou iná ia.
Assim, em aços ge ais, a dou ina es é ica da P esença desen ol e-se a é meados de
1930 a a és de um cons an e «diálogo» en e Régio e Gaspa Simões. A pa i daí, con a
ambém com o con ibu o de Casais Mon ei o e de José Ma inho.
Nos p imei os ês núme os, Régio p incipia a eo ização do «Mode nismo ou
Li e a u a i a», a i mando: «Em A e é i o udo o que é o iginal. É o iginal udo o que
p o ém da pa e mais i gem, mais e dadei a e mais ín ima de uma pe sonalidade
a ís ica.»TPF
12
FPT.
De ende uma li e a u a i a, humanizan e, pe sonalis a, ma cada pelo
indi idualismo, como aliás se e lec e, inclusi amen e, no nome «P esença» - signi ica a
p esença pessoal do poe a pe an e as suas p óp ias ideias, en a izando o pe sonalismo
como a i ude es é ica.
Nes a sequência, al como e e e Régio: «Eis como udo se eduz a pouco: Li e a u a
i a é aquela em que o a is a insu lou a sua p óp ia ida e que po isso mesmo passa a
i e de ida p óp ia»TPF
13
FPT.
Des e modo, à p ocu a da au en icidade pessoal e ao indi idualismo, aliam-se os
ou os p incípios no eado es da es é ica p esencis a: o iun o do psicologismo sob e o
TP
12
PT Apud Eugénio Lisboa, O segundo mode nismo em Po ugal, 2ª ed. Lisboa, ICLP, «Biblio eca
B e e»,1984, pp. 78-82.
TP
13
PT Idem, p. 81.
I. A ge ação da «P esença»: ecepção e di ulgação de modelos li e á ios es angei os
96
social, o p i ilégio da in uição em de imen o da azão, a independência de pensamen o
ela i amen e aos pode es e a p imazia da libe dade de c iação.
No en an o, não podemos esquece que uma ge ação nunca su ge isolada, mas
semp e en elaçada com ou as e num de e minado con ex o his ó ico e sócio-cul u al.
Nes e caso, pa a além da in luência de O pheu, ambém oi no ó io o con ibu o da
Nou elle Re ue F ançaise e de au o es es angei os que os p esencis as se p eocupa am em
di ulga , al como di e sas li e a u as pouco conhecidas na al u a, como oi o caso das
li e a u as b asilei a, i aliana e ussa.
Nes a al u a, impunha-se no ho izon e li e á io eu opeu, o iunda de uma F ança ainda
dilace ada po uma gue a e na eminência de um no o con li o bélico, a Nou elle Re ue
F ançaise, iniciada quinze anos an es da P esença. Nes e con ex o, Jo ge de Sena isa a
in luência li e á ia da F ança ao sin e iza a his ó ia des a e is a do seguin e modo:
A P esença, po an o, nasce, logo após o 28 de Maio, condicionada pela a mos e a
de censu a que domina á o país po décadas; ai esmo ece no im dos anos 30, quando
os seus di ec o es se di idem [...] e mo e, com não menos ca ác e simbólico, em 1940,
no ano em que a de o a da F ança não signi ica an o a i ó ia nazi que a inal não hou e,
mas de algum modo um im de época [...] Mesmo a Re olução Russa de 1917 chega a a
Po ugal e a ou os países aduzida em ancês.[...] Mas desejo acen ua que mesmo a
di ulgação de ou as cul u as, ei a nesse pe íodo, em g ande pa e dependeu da di usão
que g andes c í icos da F ança lhes ha iam dado ou es a am dando.TPF
14
FPT
Cons a amos, assim, que os au o es ussos, cuja impo ância oca emos ao longo
des e capí ulo, o am lidos pelos p esencis as aduzidos em ancês, o que ilus a, à
pa ida, a impo ância da mediação cul u al ancesa.
TP
14
PT Jo ge de Sena, Régio, Casais, a «p esença» e ou os a ins, Po o, B asília Edi o a, 1977, pp. 28-29.
I. A ge ação da «P esença»: ecepção e di ulgação de modelos li e á ios es angei os
97
Su giu o p imei o núme o da Nou elle Re ue F ançaise a 15 de No emb o de 1908,
sob a di ecção de And é Gide, embo a só se enha a i mado no pano ama li e á io ancês
no ano seguin e. Cons i uída po um g upo c iado de um no o concei o es é ico e uma
no a sensibilidade li e á ia, ma cada pela ausência de on ei as, in eg a am-na esc i o es
como Jacques Ri iè e, Paul Valé y, Jean Coc eau, Ma cel P ous , Paul Claudel, Jules
Supe ielle, en e ou os.
Os p incípios essenciais que a no ea am e que o am de inidos no p imei o núme o
da no a sé ie da e is a (da ado de 1909) po Schlumbe ge , baseiam-se na de esa do
abalho poé ico em de imen o do imp o iso, na p ocu a dum es ilo, na ânsia de
independência do espí i o, aliados à en a i a de encon a a e dade e a since idade da
a e, na ha monia en e a adição e a ino ação. Assim, a Nou elle Re ue F ançaise
assumia uma a i ude cosmopoli a, empenhando-se, segundo Cla a Rocha:
[...] na de esa de uma a e indi idualis a, au ónoma ela i amen e ao social, e
pa icula men e in e essada na pesquisa da complexidade psicológica do homem (em
pa e, de ido à in luência do in uicionismo de Be gson e das eo ias eudianas), se
di idido en e impulsos supe io es e in e io es e que de e se analisado sem p econcei os
mo ais.TPF
15
FPT
O seu objec i o e a sob e udo ques iona e não encon a as espos as. Uma ez que,
como a i ma And é Gide: «há duas espécies de a is as: uns azem espos as, os ou os
azem pe gun as [...] po que aquele que pe gun a, não é nunca aquele que esponde.»TPF
16
FPT
Es es au o es in eg a am-se p ecisamen e no segundo g upo.
TP
15
PT Cla a Rocha, Re is as Li e á ias do séc. XX em Po ugal, Lisboa, Imp ensa Nacional -Casa da Moeda,
1985, p. 389.
TP
16
PT Apud Augus e Anglès, And é Gide e le P emie G oupe de «La Nou elle Re ue F ançaise», Pa is,
Edi ions Gallima d, 1978, p. 205.
I. A ge ação da «P esença»: ecepção e di ulgação de modelos li e á ios es angei os
98
Nes a medida, elabo ou a Nou elle Re ue um conjun o de p opos as conside adas
exempla es: «[...] de esa da o iginalidade e do génio in e io do a is a, com o co olá io da
p ese ação da sua libe dade in e io , since idade [...], ónica nos alo es especí icos da
a e (em a e as soluções isadas são soluções es é icas e não ou as).»TPF
17
FPT
No undo, são e iden es as a inidades en e a Nou elle Re ue e a P esença, que
ela i amen e aos concei os de a e e de a is a, que en e os p incípios basila es: o
amo alismo, o indi idualismo e a o iginalidade.
O empenhamen o dos p esencis as ela i amen e à mencionada e is a ancesa e a
de al modo no ó io que, como e e e Ma ia Isabel Vaz, di e sos a igos nela publicados,
um mês depois su giam aduzidos na P esençaTPF
18
FPT. Po isso, a in luência des e ó gão e a
econhecida pelos p esencis as, que não ecea am as in luências, uma ez que uma
pe sonalidade o e nunca se ia in luenciada, mas an es despe ada. Aliás, Régio ejei a o
concei o de «in luência», admi indo an es «a inidades». Na e dade, oi a Nou elle Re ue
que di ulgou os au o es ussos, conside ados pelos p esencis as como e dadei os « a óis»,
como é o caso de Tols oi e, sob e udo, Dos oie ski.
Nes e caso, é pe inen e a e e ência de To ga ainda ela i amen e ao ambien e i ido
inicialmen e, de onde anspa ece a impo ância da ecepção de alguns au o es
es angei os:
À po ia, cada qual ia descob indo o seu au o . Joyce, Ches o , Be gson, Fe não
Mendes Pin o, Dos oie sky passa am a con i e connosco à mesa do ca é. E a um a co-
-í is humano que aba ca a o mundo. Fiéis à g andeza do passado, es o çá amo-nos po
TP
17
PT Eugénio Lisboa, O segundo mode nismo em Po ugal, ed. ci ., p. 41.
TP
18
PT C . Ma ia Isabel do Ama al An unes Vaz, Imagens da ida (P esença: Poesia e A es Plás icas), Po o, Ed.
Uni e sidade Fe nando Pessoa, 1996, p. 63.
I. A ge ação da «P esença»: ecepção e di ulgação de modelos li e á ios es angei os
99
da -lhe con inuidade e eno o. [...] Que íamos se a au en icidade dum Po ugal local,
que desejá amos o na uni e sal.TPF
19
FPT
Mani es a-se, des e modo, o objec i o de eno a e de assegu a a g andiosidade dos
au o es do passado mais ecen e ou ecuado, pois como a i ma Daniel-Hen i Pageaux:
«L’a poé ique de P esença [...] s’éc i à pa i de «conséc a ions», de céléb a ions. Le
emps e les espaces poé iques son i ualisés pa les c i iques-poè es qui on e s les
Anciens, les é ange s ou les con empo ains [...]»TPF
20
FPT. Pa alelamen e, é no ó ia a
p eocupação de pe manece iel às aízes, a uma au en icidade possibili ado a da p ojecção
uni e sal de Po ugal.
Assim, segundo Ál a o Manuel Machado, al como a Nou elle Re ue F ançaise, a
P esença a as a a li e a u a da con ingência polí ica e social, em bene ício da imaginação
psicológica, inse indo-se p ecisamen e nes e con ex o a in luência de Dos oie ski,
conside ado um modelo na época, conhecido pela no a ge ação mode nis a a a és dos
anceses (Gide ez uma lei u a p o unda e sub il des e au o )TPF
21
FPT. A impo ância e admi ação
pelo esc i o usso e lec e-se nas pala as de Gaspa Simões esc i as no nº6 da e is a
P esença: «Em Dos oie ski udo é i o. A con ibuição mais ex ao diná ia com que o
esc i o usso aco eu à sal ação da no ela ociden al, oi p ecisamen e uma con ibuição
i al, biológica.»TPF
22
FPT
Nes a sequência, como e e e Ál a o Manuel Machado, a ecepção do modelo
dos oie skiano pe mi i á ambém a Régio, a aído pela emá ica me a ísica, le a a um
TP
19
PT A C iação do Mundo – O Te cei o Dia, ed. ci ., p. 196.
TP
20
PT Daniel-Hen i Pageaux, Le bûche d’He cule, ed. ci ., 515.
TP
21
PT C . Ál a o Manuel Machado, Les Roman ismes au Po ugal, ed. ci ., p. 597.
TP
22
PT João Gaspa Simões, «Depois de Dos oie ski», in P esença, nº6, 18 de Julho de 1927, p. 1.
I. A ge ação da «P esença»: ecepção e di ulgação de modelos li e á ios es angei os
100
pon o ex emo a exp essão de uma es é ica omân ica, da qual Camilo oi um modelo e que
Raul B andão he da iaTPF
23
FPT.
Além disso, com o objec i o de mos a que o in e esse p imo dial da a e eside na
explo ação do undo psicológico e humano, esc e e Gaspa Simões ainda sob e a ob a do
esc i o usso sup amencionado:
O a é a es e p ocedimen o o iginalíssimo que nós chama emos a e elação dinâmica
do mecanismo psicológico: ansposição e ec i a do in e no d ama das consciências pa a
o ex e no con li o dos se es, con e são dum obscu o d ama espi i ual num não menos
obscu o con li o ísico.TPF
24
FPT
Nes e caso, é igualmen e pe inen e ci a Raul B andão, que endo como modelo
p incipal e decisi o Dos oie ski, se assumiu pa a a P esença como «modelo dum
Mode nismo mais au ên ico, mais i al»TPF
25
FPT. Sob e B andão, esc e eu Régio, após e
elogiado as suas ob as de icção, que «é um isioná io do g o esco, possui um modo
p óp io de exp imi e sen i , é um psicólogo agmen á io mas audaz e lúcido»TPF
26
FPT. De no o,
são, pois, o «psicologismo» e a o iginalidade as ca ac e ís icas b andonianas que
imp essionam Régio. Mas a Raul B andão eg essa emos mais adian e, pa a da con a da
sua impo ância na ob a de To ga.
É, en ão, ní ida a adesão de Régio aos p incípios de Be gson, c iado e apologis a do
in uicionismo, p esen e na de inição do mode nismo po uguês is o como «uma a e oda
in ui i a, di ec a ou indi ec amen e iliá el em Be gson [...]»TPF
27
FPT. Es e indi idualismo
TP
23
PT C . Ál a o Manuel Machado, Les Roman ismes au Po ugal, ed. ci ., p. 604.
TP
24
PT João Gaspa Simões, «Depois de Dos oie ski», in P esença, nº 6, ed. ci ., p. 2.
TP
25
PT Ál a o Manuel Machado, Raul B andão en e o Roman ismo e o Mode nismo, 2ª ed. e is a e aumen ada,
Lisboa, Ed. P esença, 1999, p. 87.
TP
26
PT José Régio, «Li e a u a li esca e li e a u a i a», in P esença, nº9, 9 de Fe e ei o de 1928, p. 3.
TP
27
PT José Régio, Pequena His ó ia da Mode na Poesia Po uguesa, Lisboa, Edi . Inqué i o, S/d, p. 89.
I. A ge ação da «P esença»: ecepção e di ulgação de modelos li e á ios es angei os
101
in uicionis a assume-se como a ace mais ní ida da eo ização p esencis a, embo a os
eo izado es lhe sin am, po ezes, as an inomias. Des e pensado , são ci adas po Gaspa
Simões p incipalmen e duas ob as: Le i e, Ma iè e e mémoi e e Essai su les données
immédia es de la conscience. A usão en e o acional e o i acional se iu o psicologismo
e idenciado pela P esença.
Po seu u no, e idenciam-se ecos das eo ias eudianas em João Gaspa Simões,
que, no a igo «Indi idualismo e Uni e salismo», e e e: «A descobe a do inconscien e e a
sua elabo ação nas mais udimen a es mani es ações psíquicas [...] colabo am,
decisi amen e, nessa eição indi idualis a que a li e a u a ão ma a ilhosamen e
os en a.»TPF
28
FPT. Nes a linha, é seguida a eo ia de Gide, segundo a qual «quan o mais
indi idual, mais uni e sal».
F eud in luencia ainda Régio, ao explo a o inconscien e a a és da poesia,
es o çando-se po a ingi o seu «mundo p o undo».
Com e ei o, como já cons a ámos, a posição dos c í icos p esencis as assen a,
essencialmen e, na dou ina ilosó ica do in uicionismo be gsoniano. P econiza es a eo ia
que di icilmen e se ia possí el p ocede à in e p e ação da expe iência es é ica, dada a sua
na u eza incomunicá el. Po isso, apenas a aplicação da dou ina psicanalí ica eudiana às
a es pode ia ga an i o des enda da mani es ação a ís ica. Po conseguin e, e i ica-se
uma aliança en e o be gsonismo e o quase acionalismo de F eud. De ido a al ac o, na
c í ica p esencis a a e en e sensí el alia-se à in elec ual. Nes e con ex o, a a e
co esponde a uma e elação da e dade, o que eme e, segundo Pageaux pa a a eo ia da
ob a de A e de Heiddege , que se ia aquela onde uma e dade essencial (ale heia) se
e elaTP
F
29
FPT. En ão, uma ez que a ob a de a e jus i ica o c iado , encon amos em Régio
TP
28
PTJoão Gaspa Simões, «Indi idualismo e Uni e salismo» in P esença, nº4, 8 de Maio de 1927, p. 1.
TP
29
PT C . Daniel-Hen i Pageaux, T en e essais de li é a u e géné ale e compa ée, ed. ci ., p. 107.
I. A ge ação da «P esença»: ecepção e di ulgação de modelos li e á ios es angei os
102
uma concepção on ológica do ac o c iado . Tal concepção se á, como e emos, pa ilhada
po To ga, pa a quem «esc e e é um ac o on ológico»TPF
30
FPT.
Po seu u no, Ches o é di ulgado po José Ma inho, que c i ica a sua isão nega i a
da ida, mani es ando incapacidade que de a supe a , que de a ap o unda TPF
31
FPT. Po ou o
lado, o pensamen o des e ilóso o in luenciou pa icula men e Gaspa Simões. Pois, como
e e e Ósca Lopes, « odo o pensamen o ches o iano se eduzi ia a uma simples insis ência
em udo o que na ida humana há de nega i o, a im de coones a o sal o mís ico ao seio de
Deus, ou de um Anjo da Mo e, anscenden e a odas as azões, e i icações e alo es
humanos.»TPF
32
FPT. Além disso, segundo Ál a o Manuel Machado, os ex os de Gaspa Simões
e lec em ainda a in luência de au o es anceses do século XIX: Sain e Beu e, Taine,
B une iè e, aliada à de F eud e de Be gsonTPF
33
FPT.
Além da inspi ação nie zschianaTPF
34
FPT, ecebida a a és dos esc i o es ussos
(nomeadamen e de Dos oie ski), dois ilóso os o am ainda abo dados pela P esença
a a és da pena de Jaime San os: Hegel e C oceTPF
35
FPT. É pe inen e a lo a alguns pon os de
di e gência nas eo ias des es dois ilóso os. Nes e sen ido, segundo Hegel, a ealidade é o
absolu o p esen e numa e olução dialéc ica de eo lógico, acional. Po conseguin e, odo
o eal é acional e odo o acional é eal. Concebe a íade da a i mação, da negação e da
sín ese das duas em e dade. Em con apa ida, C oce opõe-se à aplicação des e i mo
e ná io ao conhecimen o humano, ga an indo que apenas a sín ese é e dadei a.
Es abelece a di isão biná ia do uni e so em eo ia (a e e iloso ia) e p á ica (economia e
TP
30
PT Diá io XII, ed. ci ., p. 1319.
TP
31
PT C . José Ma inho, «O equí oco Ches o iano», in P esença, nº 29, No emb o-Dezemb o, 1930, pp. 5,6,7 e
15.
TP
32
PT Ósca Lopes, En e Fialho e Nemésio II, Lisboa, 1987, Ed. Imp ensa Nacional-Casa da Moeda, pp. 650-
651.
TP
33
PT C . Ál a o Manuel Machado, Les Roman ismes au Po ugal, ed. ci ., p. 598.
TP
34
PT O pensamen o de Nie zsche cen a-se no homem, na sua his ó ia e é ica, negando a me a ísica, a é em
Deus e a imo alidade da alma. Po conseguin e, negando Deus, nega odos os pad ões e e e ências mo ais.
TP
35
PT C . Jaime San os, «Sob e Hegel e C oce», in P esença, nº 18, Janei o de 1929, p. 3.
I. A ge ação da «P esença»: ecepção e di ulgação de modelos li e á ios es angei os
103
mo al). Pa indo des es p essupos os, podemos e e i que o ideal pa a os p esencis as
(sob e udo pa a Régio) se ia a ingi uma sín ese en e a c í ica e a c iação, is o que es a
sín ese possibili a ia uma a i mação simul ânea da indi idualidade e da uni e salidade.
Po seu u no, O ega y Gasse com as eo ias da ealidade adical e da azão adical -
p esen es na ob a La Deshumanización del A e - não susci ou a adesão dos p esencis as,
embo a i esse sido po eles lido. Is o po que, sendo o emen e indi idualis as, não
acei am a concepção da a e como écnica pu a. Apesa disso, econhece Gaspa Simões
que:
Gasse é p o undo, mas pe segue sob e udo, as ideias em si, a as ando-se de mais da
ealidade humana.[...] Mas o seu de ei o, a inal é o de odos os ilóso os quando se
ap oximam de uma ques ão que escapa aos a ibu os das suas in eligências. Po que
e ec i amen e a a e não é a écnica pu a que supõe o au o de El ema de nues o
iempo.TPF
36
FPT
Es a ecepção da ob a do ilóso o mad ileno é, segundo Jesús He e o, o mais
e iden e indício do «an i-mode nismo» p esencis a, pois se ossem e dadei os
mode nis as e iam ecebido de bom g ado as ca ac e ís icas apon adas po Gasse pa a o
mode nismoTPF
37
FPT. Des e modo, os p esencis as p e e iam a ese do ensaís a ancês Julien
Benda que con a ia a a de Gasse , p econizando a «humanidade» da a e mode na.
Da li e a u a ancesa, b ilham sob e udo And é Gide e Ma cel P ous , embo a seja
es e úl imo o p e e ido e mais elogiado, conside ado po Régio como supe io a Gide, po
TP
36
PT João Gaspa Simões, «Realidade e Humanidade na A e- a p opósi o de La Deshumanización del A e de
O ega Y Gasse », in P esença, nº 16, No emb o 1928, p. 4.
TP
37
PT C . Jesús He e o, Miguel To ga, poe a ibé ico, ed. ci ., pp. 43-44.
I. A ge ação da «P esença»: ecepção e di ulgação de modelos li e á ios es angei os
110
con ac o com a e a, [...] em que a sensualidade se en elaça aos jogos duma imaginação
que descob e signi icações e os os no os às coisas [...]»TPF
61
FPT.
Finalmen e, ou o au o espanhol mui o ap eciado é Pio Ba oja, que João Gaspa
Simões conside a e ido a co agem de queb a as adições e de lu a con a o édio da
a e e da li e a u a demasiado sábia, con a a alsidade e a es e ilidade. Po isso, a
since idade e independência des e au o de e iam cons i ui um exemplo na li e a u a
po uguesa. A de esa da libe dade de c iação é e iden e nas seguin es pala as: «[...] el
auc o oma á la palab a quando le pa ezca, opo una y inopo unamen e; [...] a emos
odas las ex a agancias y nos pe mi i emos odas las libe dades»TPF
62
FPT. Po seu u no, To ga
pa ece conside a Ba oja «ul apassado» po Gide e P ous ao menciona : «Aga ado às
no elas ca lis as de Pio Ba oja, o Al a enga não podia comp eende o no o empo
omanesco de P ous e de Gide, e menos ainda a sensualidade ambígua que documen a am
em cada página.»TPF
63
FPT.
No en an o, como não é de es anha num ó gão incen i ado da libe dade de
exp essão e da polémica, a P esença so eu cisões in e nas. Nes e con ex o, oi e éme a a
colabo ação de Miguel To ga, iniciada, como já e e imos, no núme o 19 (Fe e ei o-
Ma ço de 1929). Seguidamen e, na edição de Se emb o-No emb o publica os poemas
«Baloiço» e «Iné cia» e no seguin e, da ado de Dezemb o do mesmo ano, «Remendo».
Ainda no núme o de Janei o de 1930 su gem os úl imos poemas publicados: «Balada da
Mo gue» e «Compene ação». No en an o, a sua colabo ação se á ence ada com um ex o
em p osa in i ulado «O caminho do meio», publicado no nº26 (Ab il-Maio do mesmo
ano).
TP
61
PT Idem, ibidem.
TP
62
PT Apud João Gaspa Simões, «Con empo aneos Espanhois (con inuação)», in P esença, nº 2, 28 de Ma ço
de 1927, p. 4.
TP
63
PT A C iação do Mundo - O Te cei o Dia, ed. ci ., p. 191.
I. A ge ação da «P esença»: ecepção e di ulgação de modelos li e á ios es angei os
111
A up u a não é indi idual, acompanham-no B anquinho da Fonseca e Edmundo
Be encou . Esc e em uma ca a conjun a, na qual acusam a e is a de cai no a caísmo
es á ico das escolas, de se excessi amen e dou iná ia e de al a de libe dade. Con udo, em
A C iação do Mundo, o au o explica á melho os mo i os da up u a:
Bons cama adas quase odos, inham, con udo, os de ei os das p óp ias i udes.
In elec ualizados da cabeça aos pés, mal oca am a ealidade. E am pla ónicos no amo ,
eó icos no despo o, me a ísicos no con í io. A consciência de se em únicos dis ancia a-
-os do ulgo, o nando-os incapazes dum con ac o pe manen e com as o ças as ei as da
na u eza.TPF
64
FPT
Essencialmen e, e idencia-se a acusação de a P esença se encon a ence ada no seu
subjec i ismo e alheada das ans o mações da sociedade. Esse excesso de in ospecção é,
pois, esponsá el pela ausência de eno ação, po uma de icien e in e acção com o mundo
que ci cunda a « o e de ma im» onde se enclausu am os p esencis as, não se coadunando
com a ânsia e inquie ude humanis a de To ga, que e e e ainda: «Depois de algum empo
de en usiasmo, saí a da Vangua da, onde a minha inquie ação não cabia [...]»TPF
65
FPT. Mais
adian e, decla a ambém a sua c ença na solidão do a is a, ace ao absolu o: «Passada a
eu o ia colec i a do empo da Vangua da, o sen imen o ín imo, que semp e i e a, e que
mo i ou em pa e a cisão, de que o a is a e a um peni en e soli á io a en en a o absolu o,
ec udesceu.»TPF
66
FPT. Em suma, To ga ebelou-se con a a de esa in ansigen e dos pu os
alo es es é icos, a independência (e, de ce o modo, indi e ença) ela i amen e aos alo es
polí icos e mo ais, conducen es a uma li e a u a es é il e he mé ica. Pelo con á io, ele
TP
64
PT Idem, p. 197.
TP
65
PT Idem, p. 205.
TP
66
PT Idem, p. 207.
I. A ge ação da «P esença»: ecepção e di ulgação de modelos li e á ios es angei os
112
p econiza a uma li e a u a in e essada, en ol ida na i ência humana eal e não o me o
polemismo abs acizan e e desumanizado.
Po isso, como e e e Ma ia Isabel Vaz, «da sua passagem pela P esença deixou
Adol o Rocha a con icção da sua p o unda humanidade – duma lu a sem éguas de igual
pa a igual, logo con li uosa»TPF
67
FPT.
Uma exp essão dessa ideia de con li o é ansmi ida po To ga mais adian e, na ob a
sup amencionada, deixando anspa ece alguma mágoa pela incomp eensão de que é
í ima, de ido ao ac o de e op ado po segui o seu caminho soli á io, esumindo mais
uma ez as causas que o impeli am ao a as amen o:
[...] a acado de odas as manei as pelos an igos companhei os da Vangua da, que
cada ez me pe doa am menos a cisão do g upo, de que eu o a o p incipal esponsá el.
C is alizados na sua e dade, não podiam comp eende que é p óp io da na u eza
humana a a en u a, embo a às ezes à cus a da des uição. Razões de disco dância
es é ica e azões de libe dade humana inham-me ob igado a abandoná-los e a oma
ou o umo.TPF
68
FPT
Não obs an e, an es de To ga inicia o seu caminho soli á io, imedia amen e após a
cisão com a P esença, di igiu ainda o único núme o da e is a Sinal (em Julho de 1930),
com a colabo ação de B anquinho da Fonseca, que assina a com o pseudónimo «An ónio
Madei a» e pos e io men e a Mani es o (da qual saí am cinco núme os, en e Janei o de
1936 e Julho de 1938). À p imei a e is a se e e e To ga, a ibuindo-lhe o nome de Facho
da seguin e manei a: «Mal abandona a a Vangua da, unda a uma e is a independen e,
Facho, que mo eu ao nasce . As boas in enções de aze dela um a ol de no a luz, não
TP
67
PT Ma ia Isabel Vaz, «De pe emp ó io a hesi an e: Adol o Rocha na P esença», in Aqui, Nes e Luga e Nes a
Ho a, ed. ci ., p. 484.
TP
68
PT A C iação do Mundo – O Te cei o Dia, ed. ci ., p. 232.
I. A ge ação da «P esença»: ecepção e di ulgação de modelos li e á ios es angei os
113
bas a am.»TPF
69
FPT. Seguidamen e, To ga menciona alguns dos objec i os e dos sonhos
pe seguidos a a és da e is a Mani es o (a que chama T ajec o):
Po isso, p ocu á amos um caminho de libe dade assumida, onde nem o homem
osse aído, nem o a is a negado. [...] Embo a indi idualis as, não concebíamos uma
sociedade de solidões. Sonhá amos o mundo uni icado num es o ço mú uo de
colabo ação, cada qual na sua in imidade in iolá el.TPF
70
FPT
Embo a no Diá io não encon emos e e ências especí icas a es a e is a,
encon amos, na passagem da ada de 20 de Janei o de 1949, uma e lexão pa icula men e
in e essan e ace ca do concei o de «ge ação» e uma c í ica algo acu ilan e aos homens da
ge ação de To ga. P incipia o au o po e e i que conside a « aiçoei a» a pala a
«ge ação» e que en ende como pe encen es à sua ge ação aqueles com quem pa ilha,
além do «pa en esco de idade, a inidades de espí i o»TPF
71
FPT. Nes a passagem, o au o não
hesi a em econhece o acasso dos homens da sua época, ao a i ma : «[...] se á com um
sen imen o de alência que os homens da minha ge ação hão-de acaba os dias.»TPF
72
FPT. Es e
insucesso é a ibuído ao con ex o his ó ico, mas ambém à al a de con icção pa a
emp eende uma lu a a é ao inal, à « alência social» e al a de con iança.
Po seu u no, o poema que inicia o Diá io, in i ulado «san o e senha», é de ex ema
impo ância, o necendo-nos uma espécie de «cha e» pa a a comp eensão da ob a
o guiana e da sua concepção da esc i a como um ac o on ológico. Re ela-nos a
indi idualidade do poe a como se soli á io e li e de ilha o seu p óp io caminho, libe o
de «peias», ou eo ias es é icas. Do mesmo modo, eme ge a imagem do poe a-p o e a
TP
69
PT Idem, p. 243.
TP
70
PT Idem, pp. 244-245.
TP
71
PT Diá io IV, ed. ci ., p. 447.
TP
72
PT Idem, ibidem.
I. A ge ação da «P esença»: ecepção e di ulgação de modelos li e á ios es angei os
114
(p o enien e da he ança de Vic o Hugo), o ema da p edes inação poé ica, que concebe o
a is a como um se e dadei amen e excepcional, ideia que se encon a ambém p esen e
em Régio, sendo um dos pon os da dou ina p esencis a:
Deixem passa quem ai na sua es ada.
Deixem passa
Quem ai cheio de noi e e de lua .
Deixem passa e não lhe digam nada.
[...]
Que ai cheio de noi e e solidão.
Que ai se
Uma es ela no chão.TPF
73
FPT
Eme ge, des e modo, o apelo do «eu» a que o deixem segui o seu caminho, pois ele
ai, simul aneamen e, cheio de noi e, lua e solidão, pa a se «uma es ela no chão», ou
seja, pa a ilumina odos os ou os, pa a exe ce uma unção de «demiu go», is o que al
como su ge nou o poema, o poe a «é um Deus que passeia o seu caminho/ A bebe a
ama gu a de quem cho a»TPF
74
FPT. T anspa ece a ideia de que o ac o poé ico é um exe cício de
al modo sublime, au ên ico, que só pode se emp eendido com pu eza, idelidade pessoal
e, simul aneamen e, dis anciamen o.
Nes a linha, encon amos em To ga ou os aspec os comuns aos p esencis as, como é
o caso dos mo i os do húmus, do lodo como subs ancialização da misé ia humana e do
cons an e diálogo com Deus (ambos p esen es ambém, po exemplo, na poesia de
TP
73
PT Diá io I, ed. ci ., p. 31.
TP
74
PT Diá io II, ed. ci ., p. 219.
I. A ge ação da «P esença»: ecepção e di ulgação de modelos li e á ios es angei os
115
Régio)TPF
75
FPT. No en an o, em To ga es e diálogo assume-se como um desa io lançado em nome
da condição humana. Es es elemen os su gem no poema «P ece», publicado no Diá io:
Senho , dei o-me na cama
Cobe o de so imen o;
E a odo o comp imen o
Sou se e palmos de lama:
Se e palmos de exc emen o
Da e a-mãe que me chama.
Senho , e go-me do im
Des a minha condição:
Onde e a sim, digo não,
Onde e a não, digo sim;
Mas não calo a oz do chão
Que g i a den o de mim.
Senho , acaba comigo
An es do dia ma cado;
Um golpe bem ace ado,
O i o dum inimigo...
Qualque p e ex o i ado
Dos sa casmos que e digo.TPF
76
FPT
Es e con on o en e o C iado e a c ia u a encon a-se in imamen e elacionado com
a p oblemá ica exis encial da libe dade. Cons a a-se uma oscilação do poe a en e o
TP
75
PT C . Cla a Rocha, Re is as li e á ias do séc. XX em Po ugal, ed. ci ., p. 415.
TP
76
PT Diá io I, ed. ci ., p. 35.
I. A ge ação da «P esença»: ecepção e di ulgação de modelos li e á ios es angei os
116
homem e Deus, ou, se a ende mos a uma ce a in luência nie zschiana mui o em oga na
época, en e o homem e o supe -homemTPF
77
FPT.
Ou a endência li e á ia, cujas aízes me gulham no Roman ismo, passando po
Baudelai e e pela ge ação de O pheu, pa a pe passa pelas páginas da P esença, é o
«sa anismo», pa en e no poema «Balada da Mo gue» de To ga, do qual é pe inen e
ap esen a o seguin e exce o:
Olho es e co po mo o aqui dei ado
E sin o impulsos de beijá-lo e e
Toda a o ça de beijá-lo
Com suges ões de p aze ...
[...]
Ai! Dos co pos me idos em sa có agos!...
Ai! De quem mo e es ido!...
Nes a luxú ia da Mo gue
Há odo o sa anismo
Que nos oi p ome ido
No Final...TPF
78
FPT
Nes e caso, o sa anismo, aliado à mo e, su ge como e úgio de uma e ol a, de ido
à incapacidade de qualque i ó ia pe an e a e e nidade. No en an o, a e ol a pe manece,
não encon a solução, assumindo-se o poema como uma denúncia da sua p óp ia
incomp eensão. Em A C iação do Mundo – O Te cei o Dia, o na ado o nece-nos uma
explicação pe inen e no que conce ne a es e ex o. Re ela o ac o de a pala a «mo e» e
adqui ido pa a ele uma maio densidade após a expe iência de dissecação do p imei o
cadá e . Te á sido após essa i ência que esc e eu o poema sup aci ado, ace ca do qual
TP
77
PT C . Cla a Rocha, Re is as li e á ias do séc. XX em Po ugal, ed. ci ., p. 417.
TP
78
PT P esença, nº 24,Janei o de 1930, p. 6.
I. A ge ação da «P esença»: ecepção e di ulgação de modelos li e á ios es angei os
117
a i ma: «Na Balada da Mo gue que en ão esc e i é que assinei e dadei amen e o meu
pac o com O eu. Toda a misé ia humana e oda a angús ia da ida no pa oxismo dum
g i o.»TPF
79
FPT. Des e modo, es e é conside ado o p imei o poema au ên ico e digno desse nome.
O in e esse p esencis a pelo sa anismo (que ambém anspa ece em José Régio),
mani es a-se igualmen e a a és da adução po Luiz Ca dim de a «Alocução de Sa ã ao
Sol», que in eg a o Li o IV do Pa aíso Pe dido de Mil onTPF
80
FPT.
E idencia-se igualmen e a busca de um humanismo en aizado na essência do eu, que
p ocu a no seu âmago a since idade – é, pois, o psicologismo p esencis a que se e ela no
já nomeado poema «Baloiço» (ainda assinado po Adol o Rocha):
Subo e desço. En ou eço...
Um epelão de alido.
Rega eio; pago o p eço
E sigo desiludido...
[...]
Lá, mui o al o, no al o
Olhei a cu a da ol a
E de medo en on eci...
Eu inha a minha mão dada com Deus
Mas, sem o ça, desp eguei-me
Da mão de Deus e caí
[...]
Ago a es e o gulho ále a:
Hei-de subi mas de co ;
Que eu deixei a po a abe a
Nou a passagem maio ...TP
F
81
FPT
TP
79
PT A C iação do Mundo – O Te cei o Dia, ed. ci ., p. 190.
TP
80
PT C . P esença nº 41-42, Maio de 1934, p. 4.
TP
81
PT P esença, nº 16,No emb o de 1928, p. 6.
I. A ge ação da «P esença»: ecepção e di ulgação de modelos li e á ios es angei os
118
Nes e poema anspa ece a dico omia ascese/ queda. A úl ima pode á coincidi com
uma consciencialização do mundo eal e, logo, com a desilusão. O con essionalismo e o
indi idualismo cons a am-se imedia amen e a a és da u ilização insis en e do p onome
pessoal «eu». Além disso, é e elado o con li o homem/Deus, is o que, de ido ao
en on ecimen o das al u as, o sujei o poé ico cai «sem o ça da mão de Deus». Toda ia, o
«o gulho» ma ca p esença e é abe a a pe spec i a de «uma passagem maio »,
anscenden e, libe ado a, p o a elmen e, do ci cui o echado, epe i i o, en on ecedo do
«baloiço», a a és da qual seja possí el, pela p ocu a de si mesmo, chega mais além.
Ou o mo i o equen e, que em To ga, que nou os poe as da P esença, como po
exemplo em Albe o de Se pa, é a noi eTPF
82
FPT. Em To ga ela é, ge almen e, o empo p opício
ao isolamen o, o cená io dos con li os in e io es, mas ambém de um encon o consigo
mesmo, es ando, po isso, ligada ao ac o ge ado da Poesia. É o que cons a amos, po
exemplo, no poema in i ulado «Noi e»: «Noi e, man o do nada/ Onde se acolhe udo,/ [...]
Pecado sem pe dão./ Aceno sem e nu a;/ Noi e, o meu co ação/ Anda à ua p ocu a»TPF
83
FPT.
Assim, al como e e e Cla a Rocha, sendo um mo i o equen e na ob a p esencis a, a
noi e pode su gi : «associada que a uma “ iagem à oda do qua o” plena de inquie ação e
poesia, que a uma na císica descida ao undo do poço, que a uma «descensio ad In e os»
cheia de conhecimen o.»TPF
84
FPT. Is o po que, nes a li e a u a, o acesso ao conhecimen o an o
su ge como uma «subida aos Céus» como anspa ece numa «descida aos In e nos».
Aliada à ideia, já an e io men e e e ida, do A is a como um se excepcional, su ge a
ques ão da inspi ação, pois an o To ga como os p esencis as ac edi am que o poe a é
TP
82
PT C . o poema in i ulado «Poesia» (publicado em A Poesia de Albe o de Se pa, p. 34), onde a noi e
co esponde ambém ao empo da poesia.
TP
83
PT Diá io III, ed. ci ., p. 269.
TP
84
PT Cla a Rocha, Re is as Li e á ias do séc. XX em Po ugal, ed. ci ., p. 422.
I. A ge ação da «P esença»: ecepção e di ulgação de modelos li e á ios es angei os
119
ocado pela g aça, pela isi a das MusasTPF
85
FPT, is o que «i eal e con o me,/ O poema i á no
seu momen o».TPF
86
FPT
No en an o, embo a nos enhamos es ingido a é ao momen o aos aspec os de eo
li e á io da P esença, é de oda a pe inência oca suma iamen e o seu ca ác e
plu idisciplina . Aliás, José Régio e An ónio Na a o nos nºs 26 e 27 da e is a,
es abelecem um pa alelismo em elação às di iculdades sen idas pelos a is as das di e sas
á eas, que em e mos de c iação, que de di ulgação da a e. Além disso, no âmbi o das
a es plás icas, o am publicadas ep oduções de desenhos de Almada Neg ei os, Sa ah
A onso, Má io Eloy, Júlio, Dó dio Gomes, en e ou os. Do mesmo modo, oi con e ido
pa icula des aque ao «p imei o salão dos independen es»TPF
87
FPT. Nes a sequência, a abe u a
ao es angei o ambém oi ei a a a és da di ulgação de g andes nomes da pin u a
(Picasso, Cézanne, Vlaminck) e do cinema (Chaplin e Bus e Kea on). Nes e âmbi o,
impo a e e i que ambém To ga es emunhou a sua admi ação po es as duas g andes
igu as do cinema no Diá io. Ace ca de Bus e Kea on, esc e e a 2 de Fe e ei o de 1966,
aquando da mo e des e a is a:
Mo eu Bus e Kea on. E com a sua mo e apagou-se den o de mim mais uma luz
exempla . O cinema oi o g ande educado da minha adolescência. [...] Bus e Kea on oi
um desses he óis libe ais, pungen es e abnegados. Apa ecia na ela sé io e solene, lu a a
á dua e desas adamen e con a os moinhos do des ino, e pa ia encido, com o iun o
adiado na undu a dos olhos. Cha lo e eza a-se com ele nos p og amas e nas
a en u as.TPF
88
FPT
TP
85
PT Num poema in i ulado «Inu ilidade» Albe o de Se pa esc e e : «Eu sou aqui um pob e poe a espon âneo e
is e/ [...] Deixai-me ecebe a g aça des a poesia inú il». (P esença, nº 49, p. 11).
TP
86
PT Diá io V, ed. ci ., p.566.
TP
87
PT C . «À oda do 1º salão dos independen es», in P esença, nº 27 Junho/Julho 1930, pp. 4-8.
TP
88
PT Diá io X, ed. ci ., pp. 1077-1078.
II. Os modelos li e á ios es angei os na ob a de Miguel To ga
126
po Po ugal e To ga po Espanha, ou seja, enquan o o p imei o é cul u almen e lusó ilo, o
segundo é hispanó ilo. Ve i ica-se em ambos a en a i a de egene ação e de conhecimen o
da pá ia a a és da descobe a da essência do país izinho.
A ligação de Unamuno a Po ugal p ende-se à admi ação e elada po esc i o es
como An e o de Quen al, de quem he da elemen os de eo ilosó ico. Além da in luência
de An e o, e idencia-se a de Manuel La anjei a e Teixei a de Pascoais, com quem man e e
co espondência. Aliás, a ge ação de 98 em Espanha, que Unamuno in eg a, e ela g andes
a inidades com a ge ação de 70 po uguesa, is o e em i enciado con ex os sociais e
cul u ais semelhan es.
Menciona To ga que Unamuno oi o esc i o que deu a conhece a Ibé ia em oda a
sua essência à Eu opa, uma ez que soube «explica ao mundo a na u eza da nossa língua,
o caminho da nossa his ó ia, a e osidade do nosso chão, a se iedade da nossa paisagem, a
in imidade da nossa li e a u a, a g andeza dos nossos he óis»11.
Nes e con ex o, encon amos no Diá io de To ga e iden es ecos do cas icismo
unamoniano. Po isso, assume pa icula ele ância a de inição unamuniana de
«cas icismo», de i ado de «cas a» e cas a p o ém do adjec i o «cas o», que signi ica
pu o12. Assim, «cas iço» se á uma aça ou um po o que se man êm pu os, genuínos, sem
con aminação de elemen os es anhos, al como um idioma pu o se á aquele que não oi
con aminado po ou os idiomas.
Nes a sequência, no ensaio En o no al cas icismo (1895), Unamuno e ela a
ealidade cas elhana a a és de uma longa desc ição da paisagem. Segundo ele, o clima e o
meio assumem-se como p incípio explica i o do psiquismo indi idual e colec i o, an o da
his ó ia de uma nação como do con eúdo das suas c enças e aspi ações. Tal ac o eme e-
11 C . Idem, p. 186.
12 C . Miguel de Unamuno, En o no al cas icismo, 11ªed, Mad id, Col. Aus al, Espasa Calpe, 1991, p. 35.
II. Os modelos li e á ios es angei os na ob a de Miguel To ga
127
-nos imedia amen e pa a uma passagem do Diá io, onde To ga jus i ica a g andiosidade
espanhola pela g andeza geog á ica, a i mando:
A “homb idad” espanhola é uma sob ance ia geog á ica. Não há g andeza possí el
emoldu ada num pequeno caixilho e i o ial. Ninguém peça la gueza de espí i o,
idalguia de ges os, nob eza de a i udes a um homem que i a a opeça nas on ei as da
pá ia e a con a os g ãos de cen eio da cou ela que amanha.13
Po ém, es a ideia insc e e-se mais ni idamen e em A C iação do Mundo, num
exce o onde se conside a que o ca ác e dos po os é esculpido pelas ca ac e ís icas
geog á icas:
Sabia já que cada po o possuía o seu es ilo de ida p óp io, o seu ca ác e , mais
p odu o do meio do que da aça. A secu a e amplidão da mese a ibé ica, a amenidade da
e a gaulesa e o sol ansalpino explica am mais o cas elhano, o ancês e o i aliano do
que o sangue que lhes co ia nas eias.14
Des e modo, encon amo-nos pe an e um de e minismo geog á ico, en aizado no
de e minismo «mesológico» de Unamuno, no qual a comunhão com a na u eza
p opo ciona ao indi íduo a busca de uma no a de inição do seu se , o enasce das
ene gias, um encon o consigo mesmo e com a sua p óp ia na u eza.
Po seu u no, é no campo, na na u eza e não na cidade que, segundo Unamuno, se
enquad a o homem espanhol (e no caso de To ga, o homem po uguês), onde se si ua o
espaço ma e ial e espi i ual necessá io à eno ação das suas ene gias. Consequen emen e,
o se humano de e assumi o seu passado, a sua cul u a e pe manece iel à his ó ia.
13 Diá io IX, ed. ci ., p. 955.
14 A C iação do Mundo - O Qua o Dia, ed. ci ., p. 322.
II. Os modelos li e á ios es angei os na ob a de Miguel To ga
128
Além de i manados pelo mesmo ibe ismo cul u al, é ambém o desespe o humanis a
que une os dois esc i o es. Es e elemen o oi ni idamen e he dado de Unamuno, que soube
abso e e adap a à sua ealidade conc e a, cul u al e espacial as ideias ilosó icas de
Pascal, Leibniz, Kie kegaa d e Nie szche, aduzidas num humanismo sem on ei as.
A ideia unamuniana da eu opeização con a com a ap o ação de To ga, que conside a
e sido Unamuno quem mais nos ap oximou da Eu opa, endo en endido o p oblema na
sua p o undidade e espei ado as ideias en aizadas na cul u a de o igem, ao explica ao
mundo a sua his ó ia, a língua, a li e a u a e odos elemen os ine en es a uma cul u a
au ên ica, genuína. Is o po que «só depois de bem a alia as suas ca ac e ís icas
pa icula es e de as caldea a segui no g ande lume uni e sal, pode um qualque se ao
mesmo empo cidadão de T ás-os-Mon es e cidadão do mundo. Foi o que Unamuno se
es o çou po nos ensina e ensina à Eu opa.»15. Des e modo, a a és do concei o de «in a-
-his ó ia»16, conseguiu o esc i o de Salamanca que a Eu opa i esse consciência da
«Ibé ia» e ice- e sa. O na ado o guiano es ende a sua c í ica à li e a u a e aos esc i o es
po ugueses que não assumem a nacionalidade, nem a genuinidade. Em con apa ida,
en am imi a os au o es eu opeus, conseguindo assim debili a ainda mais os seus pa cos
dons na u ais. Segundo ele, ambém no domínio li e á io:
Tudo es á em ap ende e segui a g ande lição do elho mocho de Salamanca.
Finca p imei o, amo osa e obs inadamen e, os pés na e a esb aseada da Ibé ia; e, com
ela na sensibilidade e no en endimen o, olha en ão, num mo imen o de humana e na u al
cu iosidade, pa a o que se passa do ou o lado do mu o.17
15 Diá io II, ed. ci ., p. 186-187.
16 Es e concei o exp esso na ob a En o no al cas icismo en aíza-se na p ocu a da adição e dadei a, e e na,
ou seja, aquela que se encon a subjacen e à his ó ia (a in a-his ó ia).
17 Diá io II, ed. ci ., p. 187.
II. Os modelos li e á ios es angei os na ob a de Miguel To ga
129
Signi ica i a é a me á o a ca ac e izado a de Unamuno, designado po « elho
mocho». Con ém eco da mos que es a a e é cono ada com a sabedo ia, mas ambém
associada ao e i o soli á io e melancólico. Po ou o lado, impo a isa o pe cu so a
emp eende : só depois de conhece p o undamen e o espaço de o igem se de e olha pa a o
ex e io , pa a o es angei o, nes e caso ep esen ado pelo «ou o lado do mu o». Po ou as
pala as, só após o conhecimen o ín imo da cul u a de o igem é possí el di ulgá-la e
in eg á-la no con ex o eu opeu. Nes a es ei a, a «eu opeização» p econizada po Unamuno
e -se-ia desen ol ido em duas ases18: a p imei a, coinciden e com a época da publicação
da ob a En To no al Cas icismo (1895), assen a a na assimilação espanhola da cul u a
eu opeia de o igem; a segunda ase (iniciada em 1906, após a publicação de Don Quijo e y
Sancho), denominada de «quixo ismo quixo esco», de endia uma «espanholização da
Eu opa».
Além disso, a con adição pe manen e en e a azão e a é é ou a ca ac e ís ica que
ap oxima es es dois au o es. Assim, é a oz de Unamuno que a i ma:
[...] mi eligión es busca la e dad en la ida y la ida en la e dad, aun a
sabiendas de que no he de encon a las mien as i a; mi eligión es lucha incesan e e
incansablemen e com el mis e io; mi eligión es lucha com Dios desde el ompe del alba,
has a el cae de la noche como dicen que com Él luchó Jacob.19
É, pois, a a és da busca incessan e da e dade, que Unamuno es abelece uma
elação pessoal com Deus, e lec ida num con on o abe o. Is o po que, embo a
con inuamen e negado, Deus apa ece como um p i ilegiado in e locu o . Es a concepção
eligiosa ap oxima-se signi ica i amen e da de To ga. Es e, a pa i do momen o em que
18 C .Laín En algo, La Gene ación de No en a y Ocho, apud Jesús He e o, Miguel To ga Poe a Ibé ico,
ed.ci ., p. 103.
19 Miguel Unamuno, Mi Religión y o os Ensayos B e es, Mad id, Colección Aus al, 1986, p. 10.
II. Os modelos li e á ios es angei os na ob a de Miguel To ga
130
pe de a é da in ância, assume-se como um homem em c ise, is o não encon a uma isão
ilosó ica da exis ência possibili ado a da comp eensão da ida a a és da azão. É, al
como Unamuno, na lu a com Deus que To ga e ela o seu amo à ida e ao Homem. Po
isso, al como o seu «mes e» não encon a espos as no ca olicismo, mas ambém não
consegue cai no comple o a eísmo. Como consequência, sen e a angús ia de não pode
con a com o apoio da eligião, com a c ença na ida e e na, que lhe p opo ciona ia um
sen ido à ida:
Is o de eligião es á cada ez pio den o de mim. Depois de uns a ancos undos e
angus iosos, a coisa oi secando, secando, a é chega a es a mi a mís ica [...] Mas quan o
mais pob e es ou desse con eúdo humano, mais cheio me sin o de desespe o. [...] Que ia
e a sen i -me ligado a um des ino ex a-biológico, a uma ida que não acabasse com a
úl ima pancada do co ação.20
Além disso, To ga e idencia o seu dis anciamen o dos i uais ca ólicos e dos dogmas
ao a i ma a 9 de Agos o de 1944: «Cada ez sei menos de ezas e de san os.[...] O
ca olicismo, sem o C is o que e , encheu es e mundo de c uzes e de água ben a».21
Nes e campo, conside a Ca los Ca anca que, ela i amen e à eligião, Unamuno e
To ga são «he é icos», is o p o essa em uma opinião pessoal, pa icula , usando
li emen e a sua opinião, mani es ando um sen imen o eligioso ex e io a qualque
con issão22. Es abelecem assim uma elação pessoal com o di ino, sem acei a nenhuma
o odoxia, nem seque a ca ólica, que se ia a única possí el.
20 Diá io I, ed. ci ., p. 42.
21 Diá io III, ed. ci ., p. 297.
22 C . Ca los Ca anca, O sen imen o eligioso em To ga e Unamuno, Lisboa, Ed. Hugin, 2002, p.38.
II. Os modelos li e á ios es angei os na ob a de Miguel To ga
131
Po isso, To ga a i ma se «um a eu a con i e com di indades desde a pia
bap ismal»23. Is o po que o a eísmo não iun a comple amen e de ido, em pa e, ao peso
que a eligião assume no meio sócio-cul u al onde se encon a inse ido. Po an o, Deus é
uma p esença cons an e na ob a de To ga, e es ida de con adições, angús ias e
ambiguidade, na medida em que «esc e e deuses e pensa Deus, que esc e e Deus e não
sabe ao ce o se pensa Nada. Mas esse nada o inquie a como se osse Deus [...]»24.
Apagadas as c enças, ins au ada a isão pessimis a, a agonia (semp e deno ado a de
uma lu a), o poe a só pode con a consigo p óp io. En ega-se à espe ança, con e endo o
seu desespe o num «desespe o humanis a», is o que a eligiosidade se consubs ancializa
na ansiedade, angús ia e inquie ação.
Aliás, ace ca de Unamuno esc e eu To ga: «Mís ico sem Deus, en aizado numa
Espanha que lhe doía, a a essa a os anos de o ado pela ome de absolu o. E desse
absolu o mo e a sac amen ado»25. E iden e é o pa alelismo de sen imen os dos dois
esc i o es, dilace ados pela ânsia de absolu o, de libe dade e de uma e dade que ul apassa
os dogmas e i uais eligiosos. Pa a ambos, o homem de e se conside ado como um im
em si mesmo, is o cons i ui o imedia o undamen o da eligiosidade. É o Homem de
«ca ne e osso» («aquele que nasce, c esce e mo e – sob e udo o que mo e26») e a ques ão
da sua mo alidade que no eia o pe cu so li e á io dos dois au o es. Po seu u no, o
concei o de «in a-his ó ia» p econizado po Unamuno é ainda e e ido no Diá io em 1949,
ela i amen e ao homem conc e o e esponsá el pelo cump imen o do seu des ino:
23 Diá io XI, ed. ci ., p. 1226.
24 Edua do Lou enço, «O Desespe o Humanis a de Miguel To ga e o das No as Ge ações», in Tempo e
Poesia, ed. ci ., p. 110.
25 A C iação do Mundo - O Qua o Dia, ed. ci ., p. 279.
26 Miguel de Unamuno, O Sen imen o T ágico da Vida, Lisboa, Edi o a Relógio de Água, 1988, p. 7.
II. Os modelos li e á ios es angei os na ob a de Miguel To ga
132
Também eu ac edi o que a exis ência p ecede a essência. Que udo começa quando o
co ação pulsa pela p imei a ez, e udo acaba quando ele desis e de lu a . [...]
Se ao cabo de qua en a anos de ida cada um de nós olha pa a a sua in a-his ó ia,
que ê ele? Que são os as os e as misé ias da sua ac uação pessoal que a memó ia
assinala e e ém. [...]
A mãe que o pa e e o co ei o que o sepul a é que limi am e condicionam a sua
emp esa.27
E ec i amen e, no amos nes a ci ação alguns lai os de exis encialismo28 («a
exis ência p ecede a essência») e de i alismo de he ança b andoniana, de ido ao ele o
con e ido ao nascimen o e à mo e – aspec o que mais adian e desen ol e emos.
Além disso, an o em Unamuno como em To ga, é e iden e a impe iosa necessidade
de lu a con a o empo, a solidão e a incomunicação, a ânsia de since idade, de pene a a
alma humana em oda a sua p o undeza, aliada à con issão li e á ia.
A i ma To ga: «Não ac edi a a em Deus, mas ac edi a a na poesia.»29. Assume-se,
en ão, a poesia como uma eligião opos a ao pode o ali á io de Deus. Aliás,
pa icula men e ele an e nes e con ex o é o poema in i ulado «ca equese» p esen e no
úl imo olume do Diá io, quando o na ado sen e mais ní ida a p oximidade da mo e, que
e ela um Deus con e ido em pu a poesia: «Reza comigo, se e que es sal a / Deus é pu a
poesia/ E o poema uma humilde pe ição»30.
Na e dade, como cons a ou José Ma ía Mo ei o, as semelhanças en e os dois
au o es são di e sas:
27 Diá io IV, ed. ci ., pp. 460-461.
28 Nes e âmbi o, é ambém pe inen e e e i que Unamuno é conside ado po José Ma ía Mo ei o um p é-
exis encialis a: «Unamuno é um dos g andes pensado es “exis encialis as” que se adian a à no a iloso ia»
(José Ma ía Mo ei o, Eu, Miguel To ga, ed. ci ., 99).
29 A C iação do Mundo - O Te cei o Dia, ed. ci ., p. 208.
30 Diá io XVI, ed. ci ., p. 1739.
II. Os modelos li e á ios es angei os na ob a de Miguel To ga
133
[...] a exis ência como p eocupação ulc al, ge ado a de um p o undo sen imen o
ágico no meio de um ma de dú idas; o e o da mo e ine i á el, a obsessão e a ânsia
conscien emen e impossí el da e e nização ou, no mínimo de se pe eniza em na memó ia
humana [...] 31.
Em ambos se e idencia, po conseguin e, a consciência do im, da mo e e da do . O
se humano que pe co e as páginas que ge a am, não é uma en idade abs ac a, mas sim o
Homem au ên ico, como ma é ia i a plena de con adições, impe ei a, que p esen i ica
a humanidade. Apesa do amo ao solo pá io, cons a a-se um uni e salismo de
pensamen o.
Em suma, ambos e elam o o gulho da sua o igem, da sua cul u a e língua, do
elu ismo, da his ó ia e da humanidade, concebendo a Ibé ia como uma «má ia». Po isso,
con o me explici a José Ma ía Mo ei o:
O o gulho, a obs inação, o amo comum à Ibé ia ligam Unamuno e To ga, dois
c iado es que en en a am o mundo media o e imedia o, a ida e o p óp io des ino com
uma única a ma: a con iança em si p óp ios, na alia das suas ob as e no seu julgamen o
a o á el mesmo que a dio.32
E ec i amen e, quan o mais pessoal, d amá ico, agónico e ebelde To ga se e ela,
mais se ap oxima de Unamuno. Do pon o de is a cul u al, como já cons a ámos, enquan o
Unamuno se de ine pela sua «luso ilia», To ga é «hispanó ilo». Ambos con ibuí am (um
em Espanha, ou o em Po ugal) pa a ap oxima a Península Ibé ica da Eu opa e
p o a elmen e ambém pa a o na um pouco mais ibé ica a Eu opa. Is o po que o
31 José Ma ía Mo ei o, Eu, Miguel To ga, ed. ci ., p. 101.
32 Idem, p. 254.
II. Os modelos li e á ios es angei os na ob a de Miguel To ga
134
e dadei o cas icismo consis e «em p ojec a -se no mundo, no uni e sal»33. Con udo,
enquan o em Unamuno a espe ança undamen ou a edi icação de uma ida espi i ual, em
To ga ela adqui iu «uma capacidade de ec eação poé ica que susci a espaços in e io es de
paz a ec i a.»34
Des e modo, os elemen os da «he ança» unamuniana não se encon am
es u u almen e insc i os no Diá io, mas an es me amo oseados pela sensibilidade única e
o iginalidade c iado a de To ga.
Es a iden i icação com Unamuno conduz-nos a Ce an es. Con ém eco da que es e
au o comen ou a ob a de Ce an es a a és do seu ensaio Vida de Don Quijo e y Sancho
(1905). Ve i icamos a a és da lei u a do Diá io que Ce an es é um au o admi ado e
e e ido (sob e udo en e 1936 e meados de 1960), al como D. Quixo e, o pe sonagem
con e ido em mi o que, sob e udo no século XIX, se assumiu como p esença ele an e
an o na li e a u a po uguesa como na eu opeia.35 Po ém, não nos cabe nes e momen o
desen ol e a ques ão de o mação des e mi o, mas an es abo da esquema icamen e a
ecepção e p esença ce an ina na ob a de To ga, pa icula men e no Diá io.
Nes e con ex o, é de oda a pe inência a ap esen ação e análise de um agmen o do
Diá io da ado de 18 de No emb o de 1939, que p incipia do seguin e modo: «Ce an es.
Pego no seu li o e começo:
“En un luga de la Mancha”»36.
Seguidamen e, o na ado ela a-nos o modo como o he ói, Dom Quixo e, i ompe na
ob a, dominando o lei o e azendo esquece o seu c iado . Tal ac o só se á compa á el ao
Robinson C usoé de Daniel De oe, onde, mais uma ez, a pe sonagem c iada suplan a o
33 Jesus He e o, Miguel To ga, poe a ibé ico, ed. ci ., p. 108.
34 Idem, p. 126.
35 Sob e a impo ância e o mação do mi o quixo esco eja-se: Ma ia Fe nanda de Ab eu, Ce an es no
Roman ismo po uguês, Lisboa, Edi o ial Es ampa, 1994.
36 Diá io I, ed. ci ., p. 93.
II. Os modelos li e á ios es angei os na ob a de Miguel To ga
135
c iado . Especi ica es e caso eco endo a dois esc i o es conside ados ambém geniais,
Shakespea e e Dos oie ski, mas que não se sac i ica am em de imen o das suas
pe sonagens, enquan o que no que oca a Ce an es: «con e gi am no li o do g ande
Espanhol a o ça da nossa p é ia e o al acei ação e a do seu génio demiú gico e
gene oso»37. Pa indo de um con on o en e o c iado e a c iação li e á ia, en e a
li e a u a e a ida, o na ado compa a Ce an es a uma mãe que pe de a ida ao da à luz.
Po ou as pala as, a ealidade espi i ual, cul u al é me amo oseada num ac o biológico,
e elando um mecanismo de p ocu a dos ins in os e dos p incípios básicos, p imi i os e
genesíacos.
Nes a linha, o uni e salismo ce an ino e do seu he ói são elogiados no agmen o
da ado de 28 de Junho de 1941, onde é colocado em pa alelo com Shakespea e, Moliè e e
Goe he e em oposição aos au o es po ugueses (como Camilo e Gil Vicen e), que ca ecem
dessa qualidade38. A mesma ideia é ealçada na passagem da ada de 11/11/1942, onde se
compa a es e au o a Unamuno39. Além disso, a 6/4/1944, de no o são compa adas as
limi ações da li e a u a po uguesa com a g andeza da espanhola, ques ionando o na ado :
«Onde emos nós coisa que se compa e a um Dom Quixo e, essa gigan esca coluna do
génio mais es emado que se iu?»40. Ainda nes a passagem, é e e ido que a é as «pio es»
páginas do D. Quixo e e idenciam um diálogo uni e sal ausen e nas ob as dos au o es
po ugueses. Nes a sequência, a 10/4/1948 é c i icado o ac o de o público p e e i a lei u a
de jo nais à de Ce an es41. Po seu u no, a oposição en e o espí i o e a ma é ia su ge
37 Idem, ibidem.
38 C . Idem, p.135.
39 C . Diá io II, ed. ci ., p. 186.
40 Diá io III, ed. ci ., p. 271.
41 C . Diá io IV, ed. ci ., p. 414.
II. Os modelos li e á ios es angei os na ob a de Miguel To ga
142
C iado li e a iamen e à somb a de P ous s e Joyces, a a e e a pa a mim um
descampado lúdico e pessoal de que messe. Embo a odo o meu se i esse p o es ado
desde o início con a es a isão, pa adisíaca e p i a i a, da beleza, a e dade é que nunca
i e o ças pa a e e in ei amen e a minha posição. [...] Todos os Gides me inham
ensinado que os homens se di idiam em a is as e não a is as, e que os dois g upos não se
podiam encon a na ida.68
No que conce ne a P ous , a sua admi ação é e iden e, pois To ga a i ma a ce a
al u a: «De P ous pa a cá, é semp e a pe de o pé da e a.[...] Os li os não êm o ça nem
e dade»69.
Mais adian e, o dia is a esc e e que ao explica a um amigo quem e a P ous se sen e
admi ado, po , apesa de não o le há mui o empo, eco da ão ni idamen e a sua ob a. Tal
ac o explica-se po que: «Uma ob a genial é assim. A gen e muda de umo, esquece-se da
sua signi icação, en a negá-la; mas ela con inua i a den o de nós. [...] É qualque coisa
de nós que não en elheceu e que não en elhece á»70.
Nes e agmen o, encon amos uma sub il alusão ao a as amen o do esc i o
ela i amen e ao g upo da P esença e aos seus modelos li e á ios, a a és da exp essão «a
gen e muda de umo». Não obs an e, o ca ác e genial e único da ob a p ous iana pa ece e
pe manecido g a ado pa a o au o , ul apassando as on ei as das ge ações e das escolas
li e á ias.
Po ém, no que conce ne ao ele o de P ous , no amos uma di e ença ela i amen e
aos esc i o es e eo ias p esencis as, no seguin e egis o da ado de 3 de Se emb o de 1941,
in i ulado «Co eio»:
68 Diá io III, ed. ci ., p. 294.
69 Diá io V, ed. ci ., p. 507.
70 Idem, p. 532.
II. Os modelos li e á ios es angei os na ob a de Miguel To ga
143
Ca a de minha Mãe.
Quando já nenhum P ous sabe en edos,
A sua le a em
A eme -lhe nos dedos.
-«Filho»....
E o que a segui se lê
É de uma al pu eza e de um al b ilho,
Que a é da minha escu idão se ê.71
Assim, nes e poema, al como e e e Ál a o Manuel Machado, não se e idencia a
p eocupação de esc e e «à manei a de P ous », nem a e ó ica do «eu» que em Régio se
ap oxima do om o a ó io de Viei a, su gindo como um elemen o limi ado 72. Pelo
con á io, To ga ul apassa-a, de ido «a uma isão cósmica em que a ances alidade se
sob epõe à pe sonalidade, as o igens do homem e a sua lu a o al no mundo, às o igens e à
e olução psíquica do indi íduo»73.
Ainda nes e âmbi o, conside a Te esa Ri a Lopes que To ga se ap oxima de P ous ,
de ido à p ocu a de um «eu pe dido», à nos algia de um pa aíso pe dido e ao ac o de
ambos se «con a em pa a se encon a em». No en an o, uma ez que To ga eduz o homem
à «pu eza dos seus ins in os», a au o a a i ma que:
To ga e P ous peu en bien ep ésen e les deux pôles opposés: na u a-cul u a. La
nos algie de P ous le condui de p é é ence, e s un in é ieu bien cal eu é, plein
d’odeu s exquises, de con ac s insaisissables, nuancés à l’ex ême. [...] To ga, pa con e,
eche che non seulemen le plein ai mais, plus enco e, l’ai de la jungle.74
71 Diá io II, ed. ci ., p. 147.
72 C . Ál a o Manuel Machado, A no elís ica po uguesa con empo ânea, 2ª ed., Lisboa, Ed. ICLP,
Biblio eca B e e, 1984, pp. 56-57.
73 Idem, p. 57.
74 Te esa Ri a Lopes, «To ga e P ous », in ADAM In e na ional Re iew, nºs 481-486, London, 1987, p. 60.
II. Os modelos li e á ios es angei os na ob a de Miguel To ga
144
De seguida, impo a aze uma b e e alusão à e e ência aos modelos do omance
inglês do início do século XX. Tais e e ências são p edominan es no olume I do Diá io,
p opo cionando-nos uma isão de eo sob e udo cul u al, que pa e equen emen e de
uma compa ação com a ealidade po uguesa. Des e modo, a 12 de Ab il de 1939, To ga
mos a o seu desag ado pe an e o in elec ualismo de Aldous Huxley75. Pos e io men e,
lamen ando a sua al a de inspi ação, o au o e e e um omancis a inglês que e e
ecepção ele an e na P esença: «De es o, de que ale esc e e es as po ca ias que eu
esc e o, se po in e escudos, enho aqui o Cha les Mo gan à cabecei a?!»76. Nes a
sequência, a 6 de Agos o, e e e-se mais conc e amen e à ob a des e au o :
Spa kenb oke. Nada que se compa e com The Foun ain; mas ainda assim uma
g ande coisa.[...]
Depois de le um inglês des e amanho, é que se ê bem que, quando oca mesmo a
queb ados cá na li e a u a, as au ên icas on ei as dela são os Mon es U ais e o
Me idiano de G eenwich.77
Po seu u no, a 26 de Agos o de 1939 e oca a lei u a de Vi gínia Wool , que
compa a com P ous , mas a quem não econhece genialidade nem o iginalidade: «Todo o
dia Vi gínia Wool . Um P ous sem a g andeza do ou o.(Chega a aze imp essão a
manei a como es e P ous in luencia a li e a u a inglesa con empo ânea)»78.
75 C . «[...] hoje, depois de ele Aldous Huxley, concluí que um dos maio es esc i o es que enho lido é... o
Júlio Dinis.» (Diá io I, ed. ci ., p. 82). Além disso, e e e a p opósi o des e au o : «E o Huxley de ca ne e
osso é um memb o insigne da sociedade in elec ualizada e dep a ada que desc e e.» (Diá io IV, ed. ci ., p.
449).
76 Diá io I, ed. ci ., p. 85.
77 Idem, pp. 85-86.
78 Idem, p. 88.
II. Os modelos li e á ios es angei os na ob a de Miguel To ga
145
Seguidamen e, a 28 de Junho de 1941, em Coimb a, ece algumas conside ações
ace ca da li e a u a inglesa num agmen o ela i amen e longo – depois de e pa ido da
c í ica à al a de uni e salidade dos au o es po ugueses ( alo izando, no en an o, Eça,
ela i amen e a Camilo) em oposição, po exemplo, ao uni e salismo de D. Quixo e (que
já an e io men e ocámos). No que conce ne à li e a u a inglesa, o dia is a isa o ac o de a
poesia, po se aga e in aduzí el, ca ece de um uni e salismo que se encon a no
omance e no ea o, po isso: «Não é em Shelley que a li e a u a inglesa se ia pa a
a a essa o Canal, mas num Dickens ou num Shaw.»79
Em suma, segundo To ga, à p osa po uguesa al a con eúdo, pois desen ol eu-se ao
longo do empo num o malismo oco. Além disso, es e p oblema não pode se esol ido
com a «impo ação» de elemen os do omance es angei o, nomeadamen e do inglês, is o
que ele emana de uma ealidade comple amen e dis in a da po uguesa. Assim, como
menciona o au o : «O a a signi icação do omance inglês em-lhe em g ande pa e do ac o
de ele e lec i ao mesmo empo a complexidade e a sedução da ida de uma sociedade
dia iamen e coscu ilhada pela cu iosidade dos cinco con inen es.»80. Po ou as pala as, a
g andiosidade des e omance ad ém, em pa e, da p ojecção e do luga ele an e ocupado
po Ingla e a no mundo.
Em sín ese, embo a se enham cons a ado a inidades com Unamuno a ní el de alguns
ec o es emá icos e ilosó icos, como é o caso da p oblemá ica eligiosa, do desespe o
humanis a e do cas icismo, emos que admi i que es a p oximidade não bas a pa a
conside a mos o esc i o salman ino como «modelo p odu o ». Po isso, an o Unamuno,
como Ce an es, P ous , ou mesmo Ga cia Lo ca, He nández ou An ónio Machado, não
ul apassam o es a u o de «modelos de e e ência», apesa da impo ância que lhes
79 Idem, p. 139.
80 Idem, p. 140.
II. Os modelos li e á ios es angei os na ob a de Miguel To ga
146
econhece To ga. Embo a os ês p imei os assumam maio ele ância do que He nández,
Machado ou Lo ca (cuja p esença é, a nosso e , mais apagada no Diá io), odos eles são
me os «au o es ado mecidos», cujo as o de ec amos, po ezes, na ob a o guiana. Is o
po que é semp e a o iginalidade do au o que p e alece pa a além de odas as in luências.
Ainda nes e con ex o, impo a ci a uma passagem do Diá io, onde é ansc i o um diálogo
em o no da ques ão do ac o c iado ela i amen e ao seu aspec o indi idual e colec i o:
-En ão mas a ca ed al não é p ecisamen e uma p o a i e u á el da a e po
equipas? E Shakespea e e Camões e Goe he não se a a am de cons ui sob e ma e iais
ca eados po ou os?
- Embo a. En o na Sé Velha ou na Ba alha, e digo: Aqui, o génio de udo is o es á
na padiei a da po a. Quem a a edondou ou ogi ou, esse é que em a gló ia. Quan o ao
Camões e aos ou os, po cada cena que já es a a imaginada an es deles, menos um alo .
E an o se me dá que me chamem indi idualis a, como não. Enquan o não apa ece uma
escola de ginás ica que ab ique um Nijinski, em a e sou pelo dom e pela p edes inação.81
E idencia-se, des e modo, a de esa acé ima do eo pessoal, o iginal e indi idual da
a e. Cu iosa é a ap oximação en e os domínios da a qui ec u a e da li e a u a, lemb ando
a ques ão da écnica, da u ilização de ma e iais já «ca eados» po ou os, ou de pala as já
di as po ou os. Nes e âmbi o, o na ado o guiano con apõe a impo ância da
o iginalidade, ad ogando com a ideia do «dom e da p edes inação». Segundo ele, se osse
apenas necessá io o abalho, a écnica, en ão, se ia possí el o « ab ico», numa escola, de
a is as g andiosos como é o caso do g ande baila ino e co eóg a o usso, de o igem
polaca, Nijinski – po ou as pala as, só o alen o, génio ou p edes inação lhe e ão
possibili ado o sucesso no exe cício da sua a e. Ainda nes a linha de pensamen o,
81 Diá io III, ed. ci ., p. 309.
II. Os modelos li e á ios es angei os na ob a de Miguel To ga
147
podemos menciona a c í ica à imi ação de modelos e al a de o iginalidade: «P oduções de
jo ens a epe i Pessoa, B e on, Sa e, e c. Mas é escusado. [...] O undado da escola
esgo a logo as i ualidades que ela con ém»82.
Seguidamen e, abo da emos a si uação de To ga no con ex o da adição dia ís ica e
ela i amen e a dois au o es, conside ados ambém como «modelos» ( e e idos sob e udo
de ido aos diá ios que edigi am): Gide e Amiel.
82 Diá io VI, ed. ci ., p. 654.
III. In luências e o iginalidade do “Diá io”
148
III. In luências e o iginalidade do
Diá io
Com o in ui o de comp eende mos a o iginalidade do Diá io de To ga, impo a
conhece ou as ob as an e io es (sob e udo es angei as) insc i as no géne o dia ís ico, que
o am lidas pelo au o e de cuja ecepção nos é ansmi ida uma opinião pessoal, sob e udo
nos p imei os olumes da e e ida ob a. Po ou o lado, é igualmen e pe inen e abo da de
o ma sumá ia algumas ob as que in eg a am a adição dia ís ica po uguesa.
Tendo su gido como u o do desen ol imen o da ci ilização eu opeia, a esc i a
dia ís ica desen ol eu-se com o indi idualismo omân ico. Aliás, Béa ice Didie ad oga
que o diá io se o mou como géne o de ido à con e gência de ês ac o es his ó icos: o
c is ianismo, o capi alismo e o indi idualismo1. Des e modo, segundo Ma ia da Assunção
Mon ei o, é a pa i do século XVII, em Ingla e a, que o Diá io se e es e de in e esse
li e á io2. Nes e con ex o, um dos p imei os diá ios di ulgados é o de Samuel Pepys,
edi ado em 1825, com o í ulo Memoi s o S.P. Re a a a ida lond ina en e Janei o de
1660 e Maio de 1669.
A ob a sup amencionada oi lida po To ga em 1948, depois de já e iniciado o seu
diá io. Es e au o e ela admi ação pela since idade e desnudamen o ansmi idos po
Pepys, is o a sua ob a na a po meno izada e espon aneamen e os aspec os cu iosos da
ida pública inglesa e ambém as i ências pessoais do esc i o inglês, sem qualque ipo
de « il o» ou p eocupação de eo es ilís ico-li e á io. Nes a medida, e e e To ga:
1 Apud Cla a Rocha, Másca as de Na ciso. Es udos sob e a li e a u a au obiog á ica em Po ugal,
Coimb a, Almedina, 1992, p. 16.
2 C . Ma ia da Assunção Mon ei o, O con o no Diá io de Miguel To ga, 2ª ed., Vila Real, Uni e sidade de
T ás-os -Mon es e Al o Dou o, 2004.113.
III. In luências e o iginalidade do “Diá io”
149
Acabei de le o Diá io de Samuel Pepys. Nenhuma li e a u a, nem nenhuma
g andeza cons uída. Uma ida ao na u al, mediana, since a, lúb ica e mesquinha. Mas
que ex ao diná io li o, a inal![...]
Um diá io como o de Pepys é uma lição de espe ança. Uma espécie de cu a
psicanalí ica.3
Po ou o lado, a p opósi o das limi ações das biog a ias, suscep í eis de não
co esponde em in ei amen e à e dade, e do con ibu o dos diá ios pa a o conhecimen o
de ce as pe sonalidades ele an es, To ga ece a seguin e conside ação:
An es do conhecimen o de ce os diá ios ín imos, que e a os amá eis não ínhamos
nós de ce as pe sonalidades! Suponhamos que não apa eciam ais diá ios. Não e a a
e são o icial a omada po e dadei a? E quem nos diz que um Amiel, que um Pepys ou
que um Gide disse am udo? 4
Des e modo, é colocada a ques ão da au en icidade, da e acidade na esc i a dia ís ica
e dos seus limi es. Po um lado, os diá ios o necem uma no a imagem dos seus au o es,
mas po ou o, não há ga an ia de que es a seja e dadei a e iel.
Nes e pon o, se á pe inen e ap esen a mos de o ma sin é ica um concei o de
«diá io». Reco endo às pala as de Aguia e Sil a, podemos de ini-lo como um «esc i o
em que o au o egis a e analisa, dia a dia e du an e uma longa ex ensão de empo,
oco ências da sua ida ou acon ecimen os de que e e conhecimen o, p oblemas e
aspec os da sua in imidade e da sua consciência, e lexões, sonhos, e c.»5
Po seu u no, a e e ência aos diá ios de Amiel e Gide assumem pa icula
ele ância. No e-se que ou os modelos de e e ência pa a To ga, como é o caso de
3 Diá io IV, ed. ci ., p. 432.
4 Diá io V, ed. ci ., p. 495.
5 Ví o Manuel de Aguia e Sil a, «Diá io» in Enciclopédia Ve bo Luso-B asilei a de Cul u a, ol. 9,
Lisboa/S. Paulo, Ed. Século XXI, , 1999, p. 208.
III. In luências e o iginalidade do “Diá io”
150
Unamuno e de Dos oie ski, ambém esc e e am diá ios, mas não encon amos alusões a
essa esc i a in imis a no Diá io.
Des e modo, os F agmen s d’un Jou nal In ime de Hen i F ede ic Amiel, iniciados
em 1847 e esc i os du an e in a anos, e elam a sensibilidade de uma alma
p o undamen e omân ica, de um «eu» simul aneamen e conscien e e insa is ei o,
aspi ando ao in ini o e ao impossí el. Con ém egis os quo idianos, e lexões, c í icas à
ealidade ci cundan e e con idências. Como e e e Philipe Monnie : «Le jou nal, c'es aussi
la ie quo idienne, le soleil e la pluie, les joies e les pleu s, la g andeu e la misè e de
l'homme condamné à a on e sa in. C'es en in une anche de l'his oi e du monde ue
pa un émoin singuliè emen lucide e isionnai e»6. Es e diá io subs i ui, de ce o modo,
a ob a que o au o nunca conseguiu esc e e . Nele, Amiel desen ol e os emas do
desdob amen o, da mul iplicação das consciências, o que conduz Fe nando Pessoa-
Be na do Soa es a iden i ica -se p o undamen e com ele. Es a ideia da despe sonalização
do eu-so edo ap oxima Pessoa e Amiel, dis anciando-os de To ga, onde o sen ido do
«eu» não se pe de. Des e modo, essa despe sonalização é isí el nas seguin es pala as do
esc i o suíço, da adas de 19 de Ab il de 1876: «Le Jou nal In ime me depe sonnalise
ellemen que je suis pou moi un au e e que j’ai à e ai e la connaissance biog aphique e
mo ale de ce au e»7.
Foi, p ecisamen e, des a ob a que To ga ex aiu a ase u ilizada como epíg a e em
odos os olumes do Diá io: «chaque jou nous laissons une pa ie de nous-mêmes en
chemin». Con udo, é em A C iação do Mundo- o Qua o Dia que encon amos e e ência
ao signi icado des e au o como modelo pa a To ga. A alusão a Amiel enquad a-se no
con ex o da iagem à Suíça, mais conc e amen e no encon o num pequeno ho el de
6 Philippe Monnie , «Amiel en b e » - h p://www.amiel.o g/a elie /compagnondune ie. h m.
7 Apud Ca he ine Dumas, «Diá io ín imo e icção», in Colóquio/ Le as nº131, Janei o-Ma ço, 1994, p. 128.
III. In luências e o iginalidade do “Diá io”
151
Ma igny, quando o na ado se depa a com a emp egada que o se iu à mesa (cujo nome é
Ma gue i e) ime sa na lei u a de uma biog a ia de Amiel, o que o az decla a :
[...] Amiel e a um dos meus homens, sec e amen e admi ado pela minha p óp ia
imidez que, apesa de compensada, se doía ambém nos ecessos do meu se . Reencon á-
-lo na sua e a, naquele dia e nas mãos duma mulhe , pa ecia-me simbólico. To na a-se-
-me anspa en e o seu d ama, odo de gelo ci cundan e, de ín ima solidão, e de eminina
solici ude.8
Cons a amos, assim, que To ga já inha lido e admi a a Amiel, is o e e i-lo como
«um dos meus homens». P o a elmen e, nes a al u a já e ia ambém seleccionado pa a
epíg a e a ase an e io men e mencionada. Toda ia, nes e caso, é ele an e, além do
con ac o li e á io já an e io men e es abelecido, a expe iência i al que consis iu em
encon a o au o na sua e a de o igem e além do mais, a a és «do encon o com uma
mulhe que, ma e nal, enca na o p óp io «espí i o do luga ».9
Nes e con ex o, ainda no cená io da iagem à Suíça, insc e e-se a e e ência à es á ua
de Rousseau, em Genè e, na iagem de eg esso a Po ugal, após uma despedida ão
dolo osa pa a o na ado como pa a Ma gue i e, pois con essa que:
So ia como um cão, po se como e a. Que o dissessem as páginas ín imas que
esc e ia dia iamen e, mesmo se, no pu o plano da since idade, mui o hou esse a objec a -
-lhes, como às do Amiel que me ab i a as po as daquela e a, e às dele p óp io,
Rousseau, que as echa a.10
8 A C iação do Mundo - O Qua o Dia, ed. ci ., p. 323.
9 Ál a o Manuel Machado, «Modelos e e e ências es angei as na ob a de Miguel To ga», in «Sou um
homem de g ani o», ed. ci ., p. 337.
10 A C iação do Mundo - O Qua o Dia, ed. ci ., p. 326.
IV. Á ica: o exo ismo e a di e enciação
254
É, en ão, a g andeza e o ca ác e p imi i o, sel agem e la a des e e i ó io que
su p eende e pa ece a ai o na ado . Enquan o os discu sos an e io es deixa am
anspa ece uma ideia de desilusão ace ao país isi ado, nes e, pa ece-nos islumb a
alguma espe ança e um econhecimen o das po encialidades ainda po despe a . O iajan e
eco e semp e à compa ação com a ealidade a que pe ence, pa a cons a a que en e a
cul u a a icana e a eu opeia exis e uma di e ença abismal, delineada pela dico omia en e
o p imi i o e o ci ilizado.
Em Moçambique, a ealidade obse ada assemelha-se à já ap eendida em Angola. O
isi an e pe cebe a esis ência do na i o ace ao colono, os sin omas seg egacionis as
aduzidos na hos ilidade do «ou o» em elação ao «eu» e aos que se in eg am na sua
cul u a de o igem. Simul aneamen e, sen e a comple a incomunicabilidade ace ao
es angei o (que nenhum ges o ou a i ude podem a enua ), en aizada na p óp ia His ó ia,
nas i ências de odo um passado de op essão e incomp eensões: «En e mim e aqueles
i mãos de espécie ab ia-se um abismo in ansponí el com quinhen os anos de la gu a.
Desse as ol as que desse, eu e a ali um inimigo.»23
Aquando da isi a a Cabo a Bassa, o na ado c i ica a cons ução da ba agem que
des ui á o passado, a cul u a, as memó ias. Cons a a-se o domínio da e en e ma e ialis a,
económica, ace à espi i ual, cul u al, que é condenada pelo «eu». Nes a ano ação,
p incipia po ap oxima a ealidade es angei a de ou as conhecidas, onde o p og esso
a assalou as memó ias e os cos umes comuni á ios ances ais e nuclea es dos habi an es:
«Aqui como em Vila inho da Fu na, como em Assuão, como em oda a pa e.[...] Um lago
imenso ai deixa sem deuses, sem mo os, sem be ço e sem memó ia milha es de
c ia u as. [...] Milhões de pulsações ca díacas ocadas po milhões de quilo á ios.»24.
23 Idem, p. 1256.
24 Idem, p. 1257.
IV. Á ica: o exo ismo e a di e enciação
255
Nes a medida, é a desumanização, o des espei o pela singula idade dos alo es ances ais e
p imo diais do se humano que a ligem o na ado .
Finalmen e, a chegada à Ilha de Moçambique ecompensa o iajan e pelas desilusões,
angús ias e sensação de e o sen idos ao pe co e o e i ó io a icano. Esse local
ul apassa as suas melho es expec a i as, acendendo-lhe o o gulho de se po uguês.
A a és do seu discu so cons a amos que nes a ilha eina a a e nidade, a comunhão ão
ansiada de aças, cul u as e eligiões, is o cada um e dado o melho de si, ul apassando
os p óp ios limi es. Po isso, oi a ingido um econ o an e pa adigma de o ganização
social. Nes e con ex o, o p o agonis a e ela cla amen e o seu deslumb amen o pe an e a
ealidade desse local (um au ên ico locus amoenus) que pa ece u ópico, assumindo-se,
segundo Raul Sil a, como a Eu ídice (símbolo da pá ia) p ocu ada após a descida aos
In e nos pelo O eu (na ado ) 25. Cons a a-se o eencon o com uma pá ia sonhada e
p ocu ada. «É o Po ugal mí ico de To ga eencon ado, é o quin o impé io semp e
imaginado [...] To ga-O eu iu a sua esposa Po ugal-Eu ídice e deslumb ou-se.»26. A
comp o a es a dimensão u ópica encon ada, a i ma o na ado : «Em ez de uma ilha eal,
com la i ude e longi ude, enho a imp essão de su p eende um ac o de imaginação da
pá ia.»27. Nes e caso, a ealidade es angei a é ap eendida de o ma bas an e posi i a,
como uma ealização supe io e ape eiçoada da cul u a de o igem.
Em con apa ida, as imp essões p o ocadas pela isi a, em Lou enço Ma ques, ao
es údio de um pin o moçambicano (cujo nome não é e elado, mas que sabemos a a -se
de Malanga ana) são dominadas pelas sensações de ag essi idade, ai a, ódio, u o de
memó ias en aizadas em aspec os his ó icos auma izan es, assumindo-se como p esságio
25 C . Raul Calane da Sil a, «Moçambique na Á ica de Miguel To ga», in Aqui, Nes e Luga e Nes a Ho a,
ed. ci ., p. 472.
26 Idem, pp. 472-473.
27 Diá io XII, ed. ci ., p. 1258.
IV. Á ica: o exo ismo e a di e enciação
256
de «um pu o massac e ibal en e neg os ibais e b ancos ibais»28. E idencia-se, assim,
uma in e p e ação da ob a des e pin o à luz do con u bado con ex o bélico i enciado na
al u a.
De eg esso a Luanda, o na ado p opo ciona-nos, no amen e, a desc ição da isão
aé ea do e i ó io, me a o izado sob a o ma de uma «imensa placen a». Es a imagem
e ela o ca ác e emb ioná io des e con inen e, cujo des ino e na u eza ainda se encon am
inde inidos, po ecunda . A isão ge al e p i ilegiada do espaço, p opo cionada pela
iagem de a ião, pe mi e ao na ado um dis anciamen o e uma la gueza de ho izon es,
conducen es à elabo ação de uma imagem mais ge al e, simul aneamen e, mais humana
dos países isi ados.
Dos úl imos momen os passados em Luanda, é e e ida a isi a às ig ejas, cuja beleza
e ocam um empo de paz e de é, que há mui o oi sepul ado. Além disso, é mencionada a
con emplação de um pô -do-sol « eé ico» do al o da o aleza. No amen e, cons a amos
que, a a és do mo imen o ascensional, o isi an e p ocu a uma no a pe pec i a da
ealidade, onde esida uma maio beleza. Po im, o p o agonis a e ela a inquie ude que
aquele clima bélico lhe p o oca e ansc e e o diálogo com um anseun e, no qual o
na ado ap o ei a pa a censu a a colonização po uguesa em Á ica ao isa : «Na sua
exempla idade ágica, os massac es o am o sinal eloquen e da nossa alência
ci ilizado a.»29
No inal, To ga sin e iza a imagem de Á ica no poema in i ulado «B e e adeus»,
onde acen ua a sua desmesu ada dimensão elú ica («g ande e e men e co ação de
e a»30), acen uando o ambien e de e o e pesadelo que se i e nesse e i ó io. Assume-
28 Idem, p. 1259.
29 Idem., p. 1260.
30 Idem, ibidem.
IV. Á ica: o exo ismo e a di e enciação
257
-se o poema como um g i o de angús ia pelo in e no ge ado pelo acasso his ó ico, onde se
espelha uma ní ida ideia de pe da, p esen e, inclusi e, no í ulo «B e e adeus».
Em sín ese, a imagem desenhada des e con inen e a a és das imp essões esc i as a
pa i de Angola e Moçambique é a de um locus ho endus, um local de pesadelo, um eino
de somb as, onde se espi a um clima bélico hos il, dominado pelo medo, o acismo e a
seg egação, aliados à descon iança e a um ódio mú uos. Na e dade, di icilmen e se
pode ia espe a imp essões di e en es de países dilace ados pela gue a colonial. A imagem
do Po ugal mí ico des anece-se comple amen e pe an e o caos p esenciado, sendo
eencon ada apenas na Ilha de Moçambique, um e dadei o oásis e locus amoenus, um
«cosmos», a con as a com o es an e e i ó io isi ado.
O exo ismo, a di e enciação (que englobam a paisagem humana e na u al), a
hos ilidade ge ada pelo clima bélico e a sub e são dos pad ões cul u ais con ibuem pa a
uma sensação de comple a desin eg ação e eceio e elada pelo na ado , que mos a
sen i -se um in uso, um inimigo. Es as sensações e imagens de países dilace ados são
delineadas po algumas dico omias essenciais: p imi i o/ci ilizado, b anco/ neg o,
na i o/colono, a acção/ epulsa e opulência/misé ia.
O discu so do isi an e, po seu u no, deixa anspa ece uma ideologia e uma
posição polí ica ma cadas pela de esa de uma descolonização inadiá el, is o que só sendo
li es, independen es e paci icados, es es países pode ão desen ol e -se e ealiza -se. Só
assim a «imensa placen a» pode á ge a ida. Consequen emen e, a a i ude de obia, de
epulsa, e elada po ezes, de e-se ao clima bélico ins au ado, ao es anhamen o
ela i amen e à paisagem e não a uma posição ideológica de acismo ou xeno obia. É
sob e udo ao colonizado (po isso, de ce o modo, ambém à conside ada «cul u a de
o igem») que é apon ada a esponsabilidade pela ealidade insus en á el i ida nesses
IV. Á ica: o exo ismo e a di e enciação
258
e i ó ios. O colonizado oi incapaz de es abelece um diálogo com o po o indígena, de
conhece p o undamen e a sua cul u a, os mo i os que o le am a agi . De ido a esse o al
desin e esse oi impossí el es abelece uma comunhão, uma coope ação que conduzisse à
cons ução de uma sociedade equilib ada e ha moniosa. É no ó io o ac o de o na ado ,
equen emen e, ao c i ica o acasso dos po ugueses, u iliza o p onome pessoal «nós», o
que implica uma in eg ação do sujei o nos ac os comen ados e c i icados (ex: «É pena.
Falhámos po um iz».)31. Des e modo, anspa ece uma en a i a de usão com a pá ia
e ocada e, simul aneamen e, um modo de a enua as alhas apon adas, ou, po ou as
pala as, uma assumpção des e acasso como enómeno colec i o, nacional.
Com e ei o, após a isi a egis ada a Angola e Moçambique, cons a amos que Á ica,
p incipalmen e as ex-colónias, con inua ão a se objec o de p eocupação de To ga, sendo
e e idas nou as páginas do Diá io. Nes a sequência, ainda no Diá io XII, no egis o de 11
de Julho de 1976, e idencia o seu p o es o con a os uzilamen os em Angola32.
Pos e io men e, a 22 de Julho de 1986, é ainda mais eemen e a sua indignação com os
uzilamen os na Guiné-Bissau33. No mesmo ano, a 20 de Ou ub o, e ela g ande
cons e nação pela mo e do P esiden e de Moçambique, Samo a Machel, eco dando um
encon o com ele, onde se no a a a eição, admi ação e empa ia sen idas: «Encon ámo-nos
[...] e alámos la gamen e das nossas pá ias. Da dele, que e guia co ajosamen e dos
alice ces, e da minha que his ó ica e ci ilizado amen e os ha ia undado.»34.
Em suma, embo a com con o nos ni idamen e nega i os, is o e sido delineada num
clima de gue a, a imagem que o na ado nos o nece de Angola e Moçambique não é
31 Idem, p. 1254.
32 C . idem, p. 1319.
33 C . Diá io XIV, ed. ci ., pp. 1561-1562.
34 Idem, p. 1565.
IV. Á ica: o exo ismo e a di e enciação
259
in ei amen e es e eo ipada. Apesa de odos os elemen os nega i os deco en es da si uação
polí ica, his ó ica e social i ida na época, To ga, como obse ado pene an e da
inconsciência colonial, e ela-nos uma ou a e en e des es países, en aizada na sua
pe spec i a pessoal, de lu a pela libe dade como alo p imo dial: são países dilace ados,
esc a izados, que necessi am u gen emen e de libe dade pa a se de ini , o ma ,
desen ol e e encon a um caminho. É, essencialmen e, o sen imen o de desilusão pe an e
as injus iças sociais p esen es na Á ica po uguesa, o desp ezo pela polí ica do Es ado
No o, aliados ao espan o p o ocado pelo acasso do colonialismo po uguês nessas
pa agens e à ideia da necessidade de uma descolonização inadiá el, que dominam o
espí i o do iajan e du an e es a isi a.
No en an o, To ga oi mais longe na busca dos es ígios de Po ugal no mundo,
iajando ambém a é às longínquas e as do O ien e, como e emos em seguida.
V. O O ien e: a busca dos es ígios do Impé io
260
V. O O ien e: a busca dos es ígios do Impé io
Nes e capí ulo, analisa emos a úl ima g ande iagem, ealizada po To ga em 1987, e
na ada no Diá io, cujo des ino oi o O ien e, endo o na ado isi ado Macau, Can ão,
Hong-Kong, Goa e Bombaim.
Ao oca mos o i ine á io do iajan e, a en a emos, pa icula men e, nas imp essões
ela i as ao exo ismo e à di e enciação, ao es anhamen o. Algumas ques ões no ea ão a
nossa abo dagem: de que modo se in eg am as no as imagens ap eendidas no imaginá io
cul u al do isi an e? Que es e eó ipos anspa ecem nessas desc ições? Que dis ância
exis e en e as expec a i as do na ado e a ealidade com que se de on a?
Con udo, an es de acompanha mos e analisa mos o olha do na ado du an e es e
pe cu so, é pe inen e oca , esquema icamen e, a o mação e p esença do mi o do O ien e
na li e a u a po uguesa, de modo a pode mos cons a a em que medida esse mi o e á ou
não in luenciado a ep esen ação elabo ada po To ga.
Nes a sequência, o O ien e e á sido mi i icado de ido ao acasso dos po ugueses
nessas pa agens. Po isso, segundo Ál a o Manuel Machado, o nascimen o desse mi o
ad ém:
[...] da pe da da nossa opo unidade his ó ica de anspo pa a o O ien e o que
do Ociden e enascen is a ap ende amos. A pe da de uma he ança enascen is a que a
elha ci ilização ociden al en iquece ia cul u almen e, he ança que icou pa a semp e
pe dida, acção que icou pa a semp e incomple a, pe da mo al que a pe da da
independência nacional com a mo e de D. Sebas ião só eio agicamen e conc e iza .1
1 Ál a o Manuel Machado, O mi o do O ien e na li e a u a po uguesa, ed. ci ., p. 16.
V. O O ien e: a busca dos es ígios do Impé io
261
Na o igem do mi o do O ien e encon amos di e sos esc i o es e his o iado es, como
oi o caso de João de Ba os, Diogo do Cou o, Fe não Mendes Pin o, Camões, além de
ou os que o desen ol e am (po exemplo, Bocage, An e o de Quen al, Eça de Quei ós,
Wenceslau de Mo ais, Camilo Pessanha ou mesmo Fe nando Pessoa). Além disso,
in eg ada na mi i icação gené ica do O ien e, su ge pa icula izada e especi icada a Índia,
«que pa ece não se si ua em lado nenhum e, po isso mesmo, é ubíqua e sempi e na, ou
melho : oma a o ma duma e dadei a u opia.»2
Nes e sen ido, João de Ba os, econhecido sob e udo pela unção de his o iado ,
e ela ascínio pelo desconhecido dis an e, longínquo, ma e ializado a a és de desc ições
de alhadas das e as descobe as, num discu so ei ado de e ó ica. Is o po que, endo
apenas ealizado b e es iagens pela Índia e pela Guiné, é em Lisboa e não in loco que
elabo a a sua ob a in i ulada Décadas. Conscien e da ine icácia da adminis ação
po uguesa no O ien e, desc e e a Índia como um local po oado de ocul os pe igos.
Ap esen a, po conseguin e, uma isão mí ica gene alizan e, onde c is aliza os po ugueses
num passado his ó ico mi i icado.
Po seu u no, Diogo do Cou o, que i eu pa e da sua ida na Índia e lá aleceu,
desen ol eu o mi o a pa i da sua expe iência indi idual e his ó ica. Abo da, numa
p imei a ase, a Índia do passado, dos conquis ado es indi e en es à iqueza, como se ia o
caso de A onso de Albuque que e, pos e io men e, a do seu p esen e (ou seja dos inais do
século XVI e início do século XVII), ma cada pelo me can ilismo, decadência e co upção,
que se mani es a sob e udo na ob a O Soldado P á ico. Desenha-se, assim, o mi o da Índia
como um pa aíso pe dido, cuja pu eza con as a, p ecisamen e, com a impu eza e ganância
dos colonizado es.
2 Ál a o Manuel Machado, Do Ociden e ao O ien e. Mi os, Imagens, Modelos, ed. ci ., p. 31.
V. O O ien e: a busca dos es ígios do Impé io
262
Ou o au o ele an e é, como se sabe, Fe não Mendes Pin o com Pe eg inação, cujo
na ado , que emba ca em 1537 pa a o O ien e, é o an i-he ói pica esco, agabundo,
mos ando em ce os momen os mais medo do que co agem, um pouco à semelhança do
«Ven u a» o guiano, como obse a Pie e B unel3. Aliás, na ob a O Senho Ven u a de
To ga, o p o agonis a é um homem simples, que deixa o seu Alen ejo na al e chega a
Lisboa, à case na. Seguidamen e, de ido a dis ú bios que conduzi am à mo e de um
indi íduo, o p o agonis a jun a-se ao con ingen e mili a que pa e pa a Macau. O mesmo
modelo su ge na Pe eg inação de Fe não Mendes Pin o, onde o he ói, de ido a um
acon ecimen o oco ido em Lisboa, se e ugia em Se úbal, sendo, em seguida, o çado a
pa i . Do mesmo modo, à semelhança do na ado de Mendes Pin o, que encon a um iel
companhei o de iagem, chamado An ónio de Fa ia, ambém Ven u a encon a á o
compa io a e depois amigo, Pe ei a. No en an o, es a amizade e mina na Pe eg inação
com a sepa ação e na ob a de To ga com a mo e de Pe ei a, sendo a pa i daí o
p o agonis a acompanhado apenas pela lemb ança e «somb a» do amigo. Nes e con ex o,
B unel suge e um papel de «mediação» exe cida pela Pe eg inação na ob a de To ga, ao
a i ma : «Comme Soc a e, Mendes Pin o peu ai e igu e de «média eu ». E il l’es
d’au an plus qu’en an qu’ éc i ain il in i e To ga à su mon e son impuissance c éa ice
momen anée e à i e l’ a en u e de l’ éc i u e.»4
Des e modo, na ob a de Mendes Pin o o na ado au odiegé ico na a as suas iagens,
desc e endo os cos umes e as ci ilizações o ien ais, os emplos, os cul os, as supe s ições,
a auna e a lo a exó ica, os nau ágios e as lu as. Dos ac os na ados de i a uma isão do
O ien e mais gené ica e menos mí ica, onde se coloca em causa o mé i o da expansão da
Ci ilização Ociden al. Numa a i ude de « ilia», a Ci ilização Chinesa é conside ada
3 C . Pie e B unel, «Le oyageu e son omb e», in T anspa ences du oman, Pa is, Ed. José Co i, p. 273.
4 Idem, p. 275.
V. O O ien e: a busca dos es ígios do Impé io
263
supe io à de o igem e, inclusi e, à ociden al, não só pelas iquezas na u ais, mas sob e udo
pela a e de bem go e na . Apesa de não abandona «a aiz mí ica nacionalis a» comum
ambém a João de Ba os e Diogo de Cou o, Mendes Pin o c i ica e sa i iza, de o ma
alegó ica, a acção dos po ugueses e dos ociden ais em ge al. Não obs an e, segundo
Ál a o Manuel Machado, e á sido, pos e io men e, Camões o esponsá el pela
epe cussão duma mi ologia da Índia na li e a u a po uguesa que, mais a de, oi ec iada
po Fe nando Pessoa5.
Assim, enquan o Diogo do Cou o concebe a Índia como um local pa adisíaco,
con as an e com a impu eza dos colonizado es po ugueses, na lí ica camoniana
depa amo-nos com imagens o nadas a que ípicas, que, embo a desencadeadas pela
ealidade, «co espondem an es a uma ans igu ação simbólica que mi i ica esses luga es,
con e indo-lhes in e io idade, o nando-os “cosa men ale”»6.
Po seu u no, Camões na «Elegia I – o poe a Simónides alando», abo da a pa ida
pa a Goa em 1553, concebendo a Índia como um local mí ico, imp egnado de um ascínio
maldi o, inde inido, quase in e nal. Es a ideia e lec e-se, igualmen e, po exemplo, no
sone o «Cá nes a Babilónia donde mana», onde Goa é me a o izada na cidade bíblica da
Babilónia, cono ada com o exílio: «Cá nes a Babilónia, donde mana / ma é ia a quan o mal
o mundo c ia;/ cá onde o pu o Amo não em alia [...]»7. É, pois, ecida uma se e a
ap eciação da polí ica go e na i a no O ien e.
Pos e io men e, é Bocage quem e oma es e mi o, pa indo de Camões e con e indo-
-lhe a ideia de decadência do Impé io po uguês na Ásia. Tal ac o e lec e-se, po
exemplo, no sone o XXIII: «Po e a jaz o empó io do O ien e/ Que do ígido A onso, o
5 Ál a o Manuel Machado, Do O ien e ao Ociden e. Mi os, Imagens, Modelos, ed. ci . , p. 32
6 Idem, p. 34.
7 A lí ica de Luís de Camões. Ap esen ação, c í ica, selec. de Ma ia Vi alina Leal de Ma os, 3ª ed., Lisboa,
Ed. Comunicação, 1988, p. 110
V. O O ien e: a busca dos es ígios do Impé io
270
Albuque que ou Veloso, po exemplo), modelados psicologicamen e, esponsá eis pelas
acções que ealizam. Segundo To ga, es a ob a, do ada de uma ino ado a mode nidade,
assume-se como uma ans igu ação do conc e o, ep esen ando pe sonagens e dadei as,
na ando e en os oco idos num passado p óximo. Seguidamen e, o isi an e ealça a
edução da pá ia à sua pequenez: «A pá ia que emos hoje não é a mesma de en ão.
Geog a icamen e, não passa de uma nesga de e a deb uada de ma [...]»28. Po ém, o
na ado econhece o di ei o dos po os colonizados à sua independência, que cons i ui o
« os o colec i o da libe dade», do mesmo modo que o econheceu du an e a isi a a
Angola e Moçambique, já an e io men e abo dada. Pos e io men e, o isi an e alude à
eminen e pe da de Macau. A i ma a sua lusi anidade, salien ando o ac o de a sua aldeia
na al, S. Ma inho de An a, se assumi como o seu «axis mundi», espaço p imo dial de
nascimen o: «[...] semp e i Po ugal e a ci ilização ociden al começa ali.»29. Re lec indo
a p opósi o da iden idade e ances alidade do homem po uguês, To ga salien a a
impo ância da sua p esença po odo o mundo, is o e «pegadas indelé eis po odos os
con inen es, que neles oi imp imindo, a a és dos empos, nas á ias modalidades da sua
acção.»30. Além disso, salien a que es as ma cas não se des anece ão a a és da pe da da
sobe ania, pois ica am en aizadas na cul u a dos po os colonizados. Assim, o ca ác e
a en u ei o, mas conciliado , dos po ugueses espelha-se na acilidade de in eg ação dos
emig an es: «E aonde chegue um emig an e lusíada, chega uma c ia u a con i en e,
p es an e, diligen e e in luen e, que concilia, cong ega, desb a a, c ia iqueza, unda
ins i uições beneme en es, semeia humanidade.»31. Essa igu a do po uguês «comple o»,
pionei o e isioná io é ep esen ado po Camões, que ep esen a o «génio da pá ia», com
28 Idem, p. 1582.
29 Idem, ibidem.
30 Idem, p. 1583.
31 Idem, p. 1584.
V. O O ien e: a busca dos es ígios do Impé io
271
odos os seus de ei os e i udes, assumindo-se igualmen e como um guia. Aliás, es a ideia
é ambém p econizada po Edua do Lou enço quando e e e que: «À imagem ideal e
“imo al” da pá ia po uguesa, Camões es a á pa a semp e, o semp e da nossa pe enidade
his ó ica e linguís ica, ligado.»32
Além disso, To ga a i ma o i alismo dos po ugueses, que, ao con á io do que se
pode á pensa , não são um po o esgo ado, nem es agnado, possuindo uma aliosa cul u a e
uma a ec i idade que são necessá ias ao es o do mundo. Toda ia, um dos de ei os do
po o po uguês, na opinião des e iajan e, é a al a de ieza e de lucidez pa a se
comp eende em a si p óp ios. Ainda nes a linha de pensamen o, ambém Edua do
Lou enço isou como aço gené ico do compo amen o po uguês «o de i e mais a sua
exis ência do que comp eendê-la»33. Po isso, impulsionados pela paixão, os po ugueses
ac uam ao longo da His ó ia com uma «obscu a inocência». Re elam, po seu u no,
complexos de in e io idade, na medida em que minimizam semp e as suas qualidades,
hipe o iando as dos ou os.
Do pon o de is a do na ado , o alo de um indi íduo ad ém da sua inquie ude e,
nesse con ex o, o po o po uguês é «inquie ação enca nada», que possibili ou a
ansposição dos limi es espaciais e a descobe a das di e sas «longi udes humanas». Po
conseguin e, e i icamos que es e discu so deixa anspa ece a emoção do poe a,
en aizada na g andeza espi i ual de uma pá ia que se p ojec ou no mundo,
edimensionando- o.
O dia 10 de Junho é assinalado com um poema in i ulado «Na g u a de Camões», no
qual To ga apelida esse poe a de e sido o «p imei o Encobe o da nação» e «o poe a
32 Edua do Lou enço, O labi in o da saudade: Psicanálise Mí ica do Des ino Po uguês, 5ª ed., Lisboa,
Publicações Dom Quixo e, 1992, p. 121.
33 Idem, p. 65.
V. O O ien e: a busca dos es ígios do Impé io
272
uni e sal de Po ugal»34. Po ou o lado, é elogiado um jan a ipicamen e chinês, que
cons i ui pa a o iajan e uma ag adá el su p esa.
No egis o da ado do dia seguin e (o úl imo passado em Macau), o na ado con essa
a sua incapacidade pa a en ende aquela e a:
É udo ão enigmá ico, ão mo ediço, ão ambíguo, ão labi ín ico, que o ino pe de-
-se a cada passo. P ocu a-se Po ugal angus iadamen e e não se encon a, apesa de as
uas e em nomes de igu as nacionais e de a es á ua de Vasco da Gama se e gue a dois
passos do ho el. [...] Os exó icos, no meio da uni o midade ama ela, somo nós.35
Cons a amos, en ão, que o «eu» não se consegue dis ancia dos seus pon os de
e e ência, p ocu ando naquele e i ó io es angei o a p ojecção da pá ia. Po ém, é
incapaz de a encon a , pois depa a-se com uma sociedade onde a maio ia das ma cas
coloniais se des anece am, não se ala po uguês e a eligião dominan e é a budis a, is o a
população se maio i a iamen e chinesa. Po isso, nes e cená io exó ico, o isi an e sen e-se
excluído, di e en e. O exo ismo que o odeia encon a-se de al modo gene alizado que é
ele p óp io, como po uguês, que se conside a desin eg ado, «exó ico». Desiludido, o
isi an e e i ica que dos qua ocen os anos de colonização po uguesa es am apenas
alguns monumen os, como é o caso do a ol de Nossa Senho a da Guia e da achada da
Ig eja de S. Paulo. Conclui, ela i amen e à p esença de Po ugal no mundo, que:
«Co emos o mundo an asmago icamen e, a deixa nele pegadas sonâmbulas.»36
Apesa do om de decepção com que abandona Macau, de ido à ausência das ma cas
p ocu adas da iden idade po uguesa, é na China, pa icula men e em Can ão, que se
e idencia o maio choque (embo a nes e caso, seja posi i o) en e o ho izon e de
34 Diá io XV, ed.ci ., p. 1587.
35 Idem, p. 1588.
36 Idem, ibidem.
V. O O ien e: a busca dos es ígios do Impé io
273
expec a i a do na ado e a ealidade com que se depa a. Aquilo que p esencia a as a-se
comple amen e da imagem o mada daquele país, a pa i da li e a u a, das lei u as
ealizadas. Po isso, exp ime admi ação e emoção:
A lição en odilhada dos li os, e a eloquência singela dos ac os! [...] A China
en o pecida e cép ica que eu azia na ideia, e a China desen ol a e con iada com que im
depa a ! Uma, in empo al, a sonha no sono da His ó ia; ou a, empo al, aco dada, de
olhos pos os na ida.37
Des e modo, a imagem do país es agnado, ado mecido no passado, en elhecido, é
subs i uída po uma ealidade plena de i alidade. O esponsá el po essa me amo ose e á
sido o pode da e olução, que ans o mou as men alidades, ab indo pe spec i as de
u u o, ans o mações sociais cujas consequências e impac o são imp e isí eis, dada a
exis ência de: «Mil milhões de sábios indi e en es, ans o mados do pé pa a a mão num
ené ico e alucinan e o miguei o de inquie ações.»38. É, pois, a dimensão humana que
con igu a a imagem des e país onde, no amen e, a inquie ação su ge associada à
i alidade, como sinónimo de ida, de mudança.
Na passagem po Hong Kong, oco ida a 13 e 14 de Junho, To ga compa a com
Macau es e e i ó io de colonização b i ânica, que lhe p o oca p o undo desag ado.
Enquan o Hong Kong é «um desa o o capi alis a que o ende e a e céu», Macau é um
«disc e o pad ão a en u ei o». Assim, ao des eg ado e sel agem capi alismo p o enien e
de Ingla e a, opõe-se a simplicidade, a disc ição e o espí i o de a en u a ansmi idos po
Po ugal. A imagem nega i a des a cidade hipe boliza-se a a és da exp essão: «o ende
e a e céu». Nes e egis o o na ado insinua a disco dância pela passagem de Macau pa a
37 Idem, pp. 1588-1589.
38 Idem, p. 1589.
V. O O ien e: a busca dos es ígios do Impé io
274
a sobe ania chinesa. Pos e io men e, o iajan e decla a e conseguido dis ancia -se da
paisagem u bana e comunga com a beleza na u al que ainda es a. No en an o, essa
paisagem con as a com a misé ia indígena, que le a o na ado a lamen a : «[...] em
e mos humanos, is o não p es a. É uma p e igu ação dum mundo sem alma, a zumbi em
colmeias de mui os anda es. Mas que caleidoscópio geog á ico! Que isão aco dada do
sonhado!»39. Domina, po an o, a desumanização e a despe sonalização, uma ez que, pa a
o na ado , esse po o pa ece e pe dido a alma. Nes e âmbi o, as suas habi ações são
ep esen adas a a és da imagem das «colmeias», eme endo pa a o anonima o e a azá ama
impessoal em que i e essa gen e. Nes e caso, o alhanço da colonização inglesa pa ece e
sido o al, co ompendo e des i uindo de alma e humanidade aquele e i ó io.
O p óximo des ino é Goa, onde o iajan e con inua p ocu ando os es ígios da pá ia,
como se p e endesse econs ui a sua iden idade a pa i das ma cas do passado. Po ém, a
língua e a cul u a po uguesa pa ecem esquecidas: «De Po ugal, nes as e as, em e mos
conc e os, só es am ig ejas e balua es.»40. Nes e local, os balua es deno am a
necessidade de de esa, de segu ança, al como as ig ejas eme em pa a o e úgio espi i ual.
E idencia-se, nes a passagem, o cons an e duelo en e a Na u eza e a His ó ia, uma ez que
a p imei a p incipiou já a ecupe a o que a segunda lhe oubou, deg adando as cons uções
humanas, edi icadas pelos po ugueses, le ando To ga a a i ma : «[...] deambulo pelas
mu alhas da p aça, que a salsugem ai oendo do seu aga .»41. Nes a passagem, a é o
oceano Índico pa ece cioso dos seus domínios, ou o a conquis ados pelos descob ido es
lusos, pa ecendo con e «uma ai a an iga». Não obs an e, a na u eza o na-se con iden e
do «eu» - ma ca ni idamen e omân ica, que emon a ambém às Can igas de Amigo da
Idade Média, sob e udo às ba ca olas ou ma inhas, onde o sujei o poé ico eminino
39 Idem, ibidem.
40 Idem, ibidem.
41 Idem, p. 1590.
V. O O ien e: a busca dos es ígios do Impé io
275
e oca a as ondas do ma . Nes e caso, ambém o iajan e decla a con essa -se às ondas,
mas são ou os os seus mo i os. A desilusão e a ideia de pe da, do declínio, são e iden es
na ase inal: «Sim, sou o descenden e in eliz de uma aça he óica e absu da, que
senho eou o mundo, e anda ago a po ele a cabo a ma a saudades.»42. Ainda nes e
e i ó io, o iajan e e ugia-se na His ó ia, no passado, como elemen o es u u ado que
lhe pe mi e supo a o p esen e, pois: «Sem a sua lição impe ecí el, não consegui ia
encon a pé nes a c ucian e desolação.»43. T anspa ece, e ec i amen e, a oposição en e o
apogeu do passado e o declínio do p esen e. Nes e caso, a ealidade con adiz o que as
c ónicas, a li e a u a e a His ó ia a i mam44. De no o, e i ica-se a disc epância en e as
lei u as, o sabe adqui ido pelo na ado e a ealidade depois p esenciada. Po conseguin e,
as lei u as ealizadas e ão con ibuído pa a a c iação de uma expec a i a di e en e,
ma cada pelo mi o da Índia como um local pa adisíaco. Ao con á io do que sucedeu com a
China, a «su p esa» é desag adá el. O na ado pa ece ejei a o cená io que p esencia,
pa a se ence a nos « es emunhos insubo ná eis» que « ans igu am magicamen e o pouco
de ago a no mui o de an anho.»45. No undo, pe an e al ealidade, o que impo a é que a
His ó ia pe manece á esc i a, a a essando os séculos, man endo i as as gló ias do
passado. A desilusão sen ida pe an e Goa é ainda e o çada no egis o da ado de 6 de
Ou ub o de 1987, a p opósi o de uma epo agem sob e es e local, que co obo a a
ealidade já conhecida pelo poe a, le ando-o a ea i ma a sensação de desencan o: «Ainda
42 Idem, p. 1590.
43 Idem, ibidem.
44No que conce ne ao conhecimen o da Índia adqui ido a a és da lei u a, To ga mos a pa icula in e esse
pela cul u a e li e a u a des e país, numa e lexão da ada de 9 de Agos o de 1941, a p opósi o da mo e de
Tago e: «A p opósi o da mo e de Tago e, ui ele coisas da Índia. Daquela Índia ma a ilhosa, que em mim
começa em Fe não Mendes Pin o, passa pelo Buda e acaba no Rudya d Kipling.» (Diá io I, ed. ci ., p. 142).
Po ou o lado, o au o e ela p o unda admi ação po Gandhi, mos ando g ande indignação aquando do seu
assassina o, pois conside a-o um «Sóc a es da acção», endo o seu apos olado cons i uído «a exp essão mais
al a do que se iu a é hoje da in angibilidade humana.» (Diá io IV, ed. ci ., p. 407).
45 Diá io XV, ed. ci ., p. 1590.
V. O O ien e: a busca dos es ígios do Impé io
276
hoje me não consolo de e aco dado daquele sonho.»46. Po im, no dia dezasse e de
Junho, o úl imo passado em Goa, o na ado az o balanço conc e o dessa isi a: «Faço das
ipas co ação, mas ou desiludido. O passado que ando aqui a e oca não me consola.»47
Em suma, nada co esponde às expec a i as alimen adas pelo iajan e, que p ocu a a
naquela e a a amilia idade, a cul u a deixada pela pá ia. Com e ei o, a es agnação
ca ac e iza aquele espaço e o «eu» e ela-se impossibili ado de sen i a sensação de
amilia idade, possibili ado a de in eg ação. Pe an e esse cená io, e ela o es anhamen o,
o sen imen o de se es angei o. À luz da sua bagagem cul u al aquele é um mundo
pe dido, onde o io Mando i não passa dum «Tejo sem saudades». Cap ada pelo olha do
iajan e desiludido, a imagem que se desenha de Goa é a de um cemi é io onde jazem as
ma cas da pá ia, da memó ia e da His ó ia. Po isso, é isí el a desilusão e uma ce a
nos algia nas úl imas ases: «An es não i esse indo! Con encido de que a podia ala ga ,
e o que eu pe di da minha dimensão lusíada nes es ês dias!»48.
Finalmen e, uma e lexão ace ca das eligiões é susci ada pela passagem po
Bombaim. Segundo To ga, ao con á io do c is ianismo, que me gulha o homem no medo
da mo e e do in e no, o budismo ansmi e anquilidade, segu ança e libe ação ao se
humano. Po isso, embo a odeados pela mais p o unda deg adação e misé ia, os habi an es
daquela e a mos am dignidade, compos u a e se enidade.
Em suma, na imagem do O ien e desenhada po To ga ecoam, em ce a medida, as
concepções do mi o da Índia an e io es, aliando a nos algia pessoana com a ideia de
decadência e ocada po Bocage. Assim, na nossa opinião, To ga p opo ciona-nos uma
«imagem» e não uma «mi i icação» do O ien e, acen uando a nos algia do acasso, em
46 Idem, p. 1604.
47 Idem, p. 1590.
48 Idem, p. 1591.
V. O O ien e: a busca dos es ígios do Impé io
277
con as e com o an e io he oísmo de Po ugal, do qual, ao con á io do que se ia de
espe a , não es ou p a icamen e nada.
Seguidos, en ão, os di e sos pe cu sos do na ado - iajan e, é chegada a al u a de
analisa mos, no capí ulo seguin e, o seu eg esso a de e minadas cidades alo izadas,
«mi i icadas».
VI. As cidades e isi adas: a sac alização dos espaços
278
VI. As cidades e isi adas: a sac alização dos
espaços
Di e sas são as cidades e isi adas ao longo do empo. De en e elas, abo da emos
mais de alhadamen e os eg essos àquelas que são in es idas de um maio alo li e á io,
his ó ico e simbólico, como é o caso de Pa is, Roma, Veneza, Flo ença (que, como se sabe
cons i uí am pólos de a acção e de p o undo in e esse cul u al, sob e udo en e os séculos
XVI e XIX). Nes e âmbi o, impo a, igualmen e, oca os eg essos a B uges, B uxelas e às
duas cidades e ila espanholas isi adas com mais equência: Mad id, Salamanca e Ve in.
Is o po que, po ezes, «o espaço es angei o é en ol ido num p ocessus de mi i icação: o
espaço, na imagem da cul u a, não é con ínuo nem homogéneo; um pensamen o mí ico
alo iza ce os luga es, isola ou os, condena ou os ainda»1. É, pois, nes e con ex o, que se
insc e em odos os elemen os p opo cionado es da simbolização do espaço, ou como
denominou Mi cea Eliade, a «sac alização do espaço»,2 con igu ada, equen emen e, po
á ios eg essos aos mesmos locais.
A impo ância dos eg essos é co obo ada po uma a i mação do au o :
Mais pa a e i ica a minha capacidade de eacção do que comp o a a o ça
imp essi a que as anima, gos o de e e ce as e as e ele ce as ob as. Ao mesmo
empo que ecapi ulo nelas oda uma ap endizagem humilde dos alo es, ou a aliando o
g au de in ensidade emo i a que me es a.3
Assumem-se es as e isi as, a p io i, como um modo de conhecimen o do «eu», de
medi os seus sen imen os, limi es e on ei as.
1 Ál a o Manuel Machado - Daniel-Hen i Pageaux, Da Li e a u a Compa ada à Teo ia da Li e a u a, ed.
ci ., p. 57.
2 C . Mi cea Eliade, O sag ado e o p o ano. A essência das eligiões, Lisboa, Ed. Li os do B asil, s/d, p. 35.
3 Miguel To ga, Diá io VIII, ed. ci ., p. 878.
VI. As cidades e isi adas: a sac alização dos espaços
279
Nes e sen ido, Pa is é uma cidade com ex ensa o una li e á ia, conside ada «cidade-
luz», e que, segundo Ma cello Dua e Ma hias, condensou a época mais b ilhan e da sua
his ó ia a ní el a ís ico, in elec ual e li e á io, na ase do p imei o pós-gue a. Assim,
sendo «cidade de angua da e luga de passagem, a Pa is desses anos é ambém à boa
manei a eu opeia con inuidade e ememo ação.[...] E po isso ambém, mais do que de
passagem e a local de pe eg inação. On em an o como hoje.»4. O a, não é es a ideia de
Pa is como cen o cul u al do mundo e sonho de odos os es angei os que eme ge dos
egis os das isi as de To ga.
Aliás, no egis o da p imei a isi a, oco ida em Janei o de 1938, o na ado insu ge-
-se con a a ideia es e eo ipada de Pa is se conside ada a capi al do mundo, pois a sua
e dadei a capi al é S. Ma inho de An a5. O p o agonis a e ela es anhamen o e
incapacidade de adap ação nes a cidade, cono ada com um es ilo de ida equin ado,
luxuoso e ú il, onde se sen e incapaz de i e , uma ez que es a ealidade é con apos a à
da sua e a na al. De ine os habi an es que pe co em a cidade como um « o miguei o
humano» que lhe despe a epulsa. E idencia-se, des e modo, a dico omia de cunho
omân ico, eu/ ou os, sendo o «ou o» desc i o como um g upo massi icado,
despe sonalizado, o que incen i a o isolamen o do «eu». Nes e espaço, os edi ícios, os
monumen os pa ecem domina o se humano, des i uído de alma e de humanidade. Po
ou o lado, a a e des e país ambém não emociona o p o agonis a, ao con á io do que
sucede com a espanhola, uma ez que a é as escul u as do A co do T iun o são
conside adas demasiado « e ó icas».
Pe inen e é con on a es e egis o com o p esen e em A C iação do Mundo - O
Qua o Dia, co esponden e à mesma isi a. To ga p incipia, aqui, po con apo Pa is a
4 Ma cello Dua e Ma hias, «Pa is e a ge ação pe dida» in Colóquio/ Le as nº 155/156, Janei o-Junho, 2000,
p. 394.
5 C . Diá io I, ed. ci ., p. 63.
VI. As cidades e isi adas: a sac alização dos espaços
286
épocas e ace as da Humanidade: «E a esse o p i ilégio único da Cidade E e na: i e -se
nela, num só momen o, séculos de o iginalidade e di e sidade.»31. T anspa ece, po an o, a
ideia de Roma como ped a angula da undação da nossa cul u a, o locus classicus da
ci ilização ociden al, salien ando-se com a denominação «e e na» a ideia da cidade como
um con ínuo en e o seu passado monumen al e o p esen e, en e a mo e e a ida.
O eg esso à capi al i aliana oco e a 13 de Se emb o de 1950. Nes e caso, o dia is a
alonga-se nos egis os. No p imei o, inicia cada ase com a u ilização do in ini i o, a a és
do qual p e ende sin e iza os objec i os des e eg esso: «Apaga o deslumb amen o
espan ado do p imei o encon o, e admi a calma e demo adamen e cada c iação, cada
solução, cada imponde á el oque do pincel ou do escop o. Ve , e e , analisa , assimila ,
e eg essa mais conscien e e mais humilde.»32
Mani es a, assim, a consciencialização do en iquecimen o cul u al e pessoal
p o enien e des a e isi a, des e eencon o com o es angei o. In i ula um poema «San a
Te esa de Be nini»33, que apelida de «Filha da Ibé ia, mís ica dou o a». Des e modo, a
Ibé ia assume-se como o omnip esen e pon o de e e ência. Nesse poema, a ibui a Roma
os adjec i os «papal» e « eden o a», acen uando a inculação eligiosa emanen e des a
cidade. Do dia 15 de Se emb o, edige uma no a em om e lexi o, susci ada pela isi a ao
Albe go dell’ O so onde se hospeda am g andes esc i o es: Dan e, Rabelais, Mon aigne e
Goe he. Embo a ascinado pelo passado e pelo peso da he ança cul u al, o na ado e ela
o desejo de queb a o «íman da adição», de não se e ugia nesse passado, mas an es es a
a en o ao p esen e, iden i ica -se com ele e p eocupa -se com o u u o. T anspa ece,
consequen emen e, a sua ânsia de segui o seu pe cu so li e e indi idual, semp e
31 Idem, p. 312.
32 Diá io V, ed. ci ., p. 543.
33 Idem, p. 544.
VI. As cidades e isi adas: a sac alização dos espaços
287
p eocupado com o p esen e que o odeia e pe spec i ando o u u o. Em om de máxima,
decla a:
Po mais pequeno que seja cada c iado , e á de amadu ece os seus u os a céu
abe o. Acoba dado à somb a de qualque ca alho gigan esco da lo es a, a isca-se a
nem seque da con a da empes ade que passa, que lhe pode ia pô à p o a a esis ência
das ib as. Robles dos ais, Dan e, Rabelais, Mon aigne e Goe he cump i am em amanho
desmedido a sua missão. U zes as ei as, saibamos cump i a nossa.34.
De no o se en a iza a ideia do poe a como um se p edes inado, enca egue de uma
missão pa icula e indi idual.
Em suma, a e isi ação de Roma ep esen a uma ap op iação e assimilação dos
alo es do passado, que inicialmen e pa ece e «o uscado» o na ado e que depois se
en ec uza com o p esen e e o u u o, a a és de uma a i ude de maio dis anciamen o
c í ico.
Veneza é, como se sabe, ou a das cidades que alcançou no á el o una li e á ia,
des acando-se, desde a Idade Média, no seio da Eu opa, pela sua beleza e iqueza, endo-se
con e ido num pon o de encon o e ligação en e os á ios quad an es eu opeus. A
p imei a isi a e ec uada po To ga é egis ada no Diá io, com a da a de 2 de Janei o de
1936, esumindo-se a passagem a ês linhas, onde e ela a expec a i a com que agua da a
o encon o e ambém a desilusão: «O a a é que en im, Veneza! Mas es a elha namo ada
es á gas a. Não há co po de mulhe que esis a às noi adas de in e ge ações.»35. A
deg adação da cidade é pe soni icada e me a o izada a a és do co po de uma mulhe ,
como sucede á ambém com Mad id. Depa amo-nos, assim, com a p esença de um « opus»
34 Idem, p. 545.
35 Diá io I, ed. ci ., p. 59.
VI. As cidades e isi adas: a sac alização dos espaços
288
que emon a à Bíblia, onde Je usalém e a Babilónia su gem me a o izadas como mulhe es
e ainda, como e e e S ephen Recke , à adição e ó ica á abe que desc e ia as cidades
como donzelas a conquis a 36. Ou seja, To ga ec ia um luga -comum ex emamen e
an igo, que conheceu na época omân ica bas an e sucesso, pa a ep esen a a impo ância
que con e e a Veneza e uma ce a desilusão quando a conhece in p aesen ia. Re ela-se,
po conseguin e, uma descon inuidade en e a cidade empí ica e a li e á ia.
Em A C iação do Mundo - O Qua o Dia é desen ol ida a imagem des a cidade
an e is a como um e úgio de a is as. Acen ua-se e desen ol e-se a disc epância en e a
expec a i a o mada a pa i da li e a u a e a ealidade conc e a p esenciada: «Po mais que
izesse, não conseguia ajus a a Veneza que azia no pensamen o à Veneza que inha
dian e de mim. A ou a e a mui o mais conc e a, apesa de apenas lida nos li os ou
an asiada.»37. Assim, a imagem iccionada o na-se mais eal do que a e dadei a, de ido
ao ac o de se a que in eg a o imaginá io do na ado , a que ele p econcebeu a a és da
cul u a adqui ida.
No en an o, ao isi a as ob as de a is as como Cano a, Tin o e o, Ve onese ou
Ticiano, To ga deixa anspa ece uma sensação de eu o ia, conside ando aquele espaço
como um «oásis do mundo». Pos e io men e, nas ano ações da isi a oco ida em Se emb o
de 1950, as imp essões já são bas an e posi i as. Po ém, e ela que a pe eição da P aça de
S. Ma cos lhe p o oca pouco en usiasmo. Is o po que ao depa a -se com uma ob a pe ei a,
sen e que nada pode aze po ela, is o já se encon a comple a. Consequen emen e, essa
comple ude p o oca no na ado uma sensação de impo ência, como se nada pudesse aze
pela p óp ia ida. A con a ia , assim, a imagem de decadência o mada à p imei a is a,
des a ez, é a ideia de ida que eme ge, apagando o impac o da desilusão do p imei o
36C . S ephen Recke , «O Signo da Cidade», in O imaginá io da Cidade, Lisboa, Fundação Calous e
Gulbenkian, Aca e, 1989, p. 16
37 A C iação do Mundo - O Qua o Dia, ed. ci ., p. 318.
VI. As cidades e isi adas: a sac alização dos espaços
289
encon o: «Que i a me pa ece Veneza des a ez! Se á dela, ou de uma onda de
mode nidade a a e nes e momen o?»38. Po conseguin e, o sen imen o que in ade o
iajan e é o de um «op imismo pu i icado », e idenciando-se uma sensação de
enascimen o.
Uma ou a cidade i aliana isi ada duas ezes é Milão, que su ge, à semelhança de
Roma, como um espaço p o undamen e ma cado pelo passado, pelas g andes igu as que a
pe co e am ou habi a am, assumindo-se es es como elemen os con igu ado es da
paisagem, que le am o sujei o de enunciação a decla a a in enção de «caminha como um
cão nas pegadas dos g andes homens.»39. O p óp io na ado e ela a di iculdade de se
libe a do peso das igu as do passado: «Eu p óp io, hoje, na Amb osiana, não pude deixa
de e es e es emecimen o imbecil: nes e mesmo luga es e e S endhal, es e e
By on....»40. Toda ia, es a ca ga his ó ica e cul u al pa ece aze des anece a
espon aneidade e a pu eza, que o az a i ma : «Já não e a eu como po T ás-os Mon es a e
a aleg ia i gem de es a só e pu o dian e de uma gies a lo ida.»41. Assim, em con on o
com o espaço es angei o, do «ou o», ma cado po uma p o unda ca ga cul u al e
ci ilizacional, eme ge o espaço de o igem, ca ac e izado pela na u eza pu a e au ên ica. É
no ó ia a «con aminação» exe cida pelos luga es no na ado , ao e e i «Já não e a eu».
Assis imos, pois, a uma ce a «desin eg ação» da unidade do «eu», conscien e da
in luência exe cida sob e ele pelo espaço. Além disso, o na ado ambém isi a mais de
uma ez a cidade de Pisa, de cujas imp essões sob essai a imagem da o e, en endida
como símbolo da Humanidade, na sua melho exp essão42.
38 Diá io V, ed. ci ., p. 550.
39 Diá io I, ed. ci ., p. 56
40 Idem, p. 57.
41 Idem, ibidem.
42 C . Diá io V, p. 541.
VI. As cidades e isi adas: a sac alização dos espaços
290
Po seu u no, Flo ença, cidade cuja impo ância his ó ica e cul u al, como se sabe, se
o nou decisi a sob e udo en e os séculos XIII e XVI, oi isi ada ês ezes po To ga.
Da p imei a isi a não encon amos nenhuma ano ação no Diá io. Em A C iação do
Mundo, ela é e e ida a p opósi o da admi ação pela «Pie á» de Miguel Ângelo e pa a
en a iza ainda mais a g andiosidade de Roma, pois em Flo ença lia-se «apenas uma
página empolgan e e glo iosa da his ó ia do espí i o c iado do homem.»43. É no egis o da
segunda isi a que encon amos no Diá io alusão à p imei a, a a és da e ocação de
Mussolini: «Quando aqui im, há anos, encon ei as pa edes cobe as de imp opé ios e
a ogâncias. O Tempo passou, o au o das olices pôs a I ália a e o e ogo, e mo eu
cobe o de ignomínia.»44. Po ém, des a ez o que mais emociona o na ado , pa a além da
a e de Dona elo, Miguel Ângelo ou Celini, é o local onde oi queimado o p egado
Je ónimo Sa ona ola, cuja memó ia pene a na alma do p o agonis a, ao con á io do que
sucede com os ou os isi an es, que passam indi e en es. En a iza-se, no amen e, a
cu iosidade do na ado em des enda o sen ido ocul o e o essencial dos espaços isi ados,
a p eocupação com a dimensão humana que passa despe cebida. Po ou o lado, na e cei a
isi a, e ec uada em 1970, To ga cons a a um ambien e con u bado, uma i upção da
ama gu a humana do p esen e na e e nidade quase «di ina» do passado, po isso, decla a:
«Des a ez ha ia go as de el humano na amb ósia di ina.»45. Com e ei o, nes a época a
I ália encon a a-se me gulhada num clima dominado pela iolência e ana quia. Po ém, o
p o agonis a econhece a legi imidade des a imposição do ci cuns ancial ao pe ene, das
ozes denunciado as que pa ecem a enua o b ilho das ob as de a e, pois a i ma: «Mas
acabei po gos a de ecebe a lição mo al na e a onde mais ezes enho esquecido que a
43 A C iação do Mundo- O Qua o Dia, ed. ci ., p. 312.
44 Diá io V, ed. ci ., p. 542.
45 Diá io XI, ed. ci ., p. 1193.
VI. As cidades e isi adas: a sac alização dos espaços
291
sobe ania do pe ene pode se em ce as ho as uma c iminosa a on a à legi imidade do
ci cuns ancial.»46.
De um modo ge al, a imagem das cidades i alianas isi adas é bas an e posi i a,
sendo-lhe incon es a elmen e econhecida a supe io idade cul u al: «O mundo que azia
nos sen idos e no en endimen o pa ecia-me bá ba o, ao lado de an a sensibilidade, de an a
inu a, de an o equin e [...] E um sen imen o de in e io idade começou a in adi -me.»47.
Assim, pa a além da g andiosidade dos monumen os e das ob as isi adas, acompanha
semp e o na ado a memó ia dos g andes a is as i alianos, como é o caso de Dan e;
Leona do Da Vinci, Miguel Ângelo, Gio o.
Po seu u no, no pe cu so pela Bélgica são isi adas mais de uma ez as cidades de
B uges e B uxelas. Rela i amen e a es a úl ima, encon amos o egis o de ês isi as,
sendo a p imei a da ada de 15 de Janei o de 1938. No poema que assinala esse p imei o
encon o, o sujei o poé ico conside a-se um «Duque de Alba de ago a». Es a iden i icação
com Fe nando Al a ez de Toledo, gene al de Ca los V e de Filipe II, cuja ac uação oi
ené gica (embo a poli icamen e pouco co ec a) é signi ica i a, eme endo-nos pa a uma
iden i icação com a co agem e alen ia des a igu a his ó ica. Numa a i ude na cisis a,
p ossegue o iajan e, ac escen ando: « im olha o que sou/como quem se namo a.»48. É,
sem dú ida, a e elação da p ocu a e do encon o da p óp ia iden idade. O egis o do dia
seguin e ansmi e-nos a ideia de uma deslocação penosa, da usão na ealidade elú ica:
«Mais um ebolão do penhasco que sou, pela Eu opa acima, sem Polido i nenhum a oma
no a dos meus passos.»49. Nes e caso, o sujei o de enunciação dema ca-se de Lo d By on,
que na sua iagem pela Eu opa oi acompanhado pelo seu sec e á io, o médico e esc i o
46 Idem, ibidem.
47 A C iação do Mundo – O Qua o Dia, pp. 301-302.
48 Diá io I, ed. ci ., p. 63.
49 Idem, p. 64.
VI. As cidades e isi adas: a sac alização dos espaços
292
John William Polido i. E idencia-se uma sensação de p oximidade com o espaço, is o
que conside a a cidade «ín ima», ao e e i que o objec i o dos poe as ac uais é p ocu a
«um amigo, um quad o», ou po ou as pala as, a beleza, a a e e a a e nidade.
Nes a sequência, numa b e e passagem pela An ué pia, To ga inse e o poema
«Pe eg inação», ansmi indo-nos as sensações de nos algia, mas ambém de sonho, magia
e mis é io («Vim e o cais da b uma./ [...] Vim echa o meu sol nes a is eza»50). No
en an o, no apon amen o localizado na Ga e du Midi, a 17 de Janei o, e ela desalen o,
desilusão e is eza, is o não e encon ado no espaço es angei o o e úgio e o leni i o
que p ocu a a51.
Em A C iação do Mundo - O Qua o Dia o p o agonis a e e e a ida a B uxelas com
o in ui o de isi a um amigo que exe ce a unção de Sec e á io da Embaixada. A
ap eciação que az ao eg essa a Pa is é que, apesa da mono onia da paisagem e dos
habi an es, ag ada-lhe a «solidez humana», sen indo-se «desconsolado e oni icado ao
mesmo empo. Com a alma is e e o co po con en e.»52.
Aquando do eg esso a B uxelas (4 de Junho de 1958), To ga idealiza um iajan e
imo al que, eg essando cons an emen e aos di e sos locais, conseguisse p esencia o
nascimen o, desen ol imen o e mo e dos mesmos, comp eendendo-os assim
in eg almen e. Nes a sequência, con on a o G and Palace que o deslumb ou com o
A omium, causado de epulsa. Lamen a a ausência de uma «capacidade englobado a» que
lhe pe mi isse in eg a , objec i a e impa cialmen e, os elemen os que ejei a, po lhe
pa ece em insóli os, es anhos. Além disso, a isi a à Exposição Uni e sal desilude-o e
p o oca-lhe us ação, de ido à incapacidade de consegui encon a nela uma «unidade
humana»: «E eu inha dispos o a encon a udo, menos uma con a e nização uni e sal,
50 Idem, p. 64.
51 C . idem, p. 65.
52 A C iação do Mundo - O Qua o Dia, ed. ci ., p. 346.
VI. As cidades e isi adas: a sac alização dos espaços
293
cul u al e écnica, de den es a eganhados.»53. No meio des a hos ilidade que pa ece opo
as di e sas nacionalidades, apenas os países pequenos (ex: Áus ia, Holanda) pa ecem
do ados de maio humanidade, de ido à sua simplicidade, acendendo a espe ança,
incen i ando ao p og esso pa a conquis a o luga que «nos coube na ole a da ida».
Finalmen e, a úl ima isi a oco ida a B uxelas, em 1977, em como objec i o a
ecepção do P émio In e nacional de Poesia das Bienais de Knokke-Heis . Ao chega ,
To ga compa a o desemba que nes a cidade com o do Rio de Janei o, quando e a um
jo em emig an e, de ido ao ac o de se ecebido po uma pessoa desconhecida que e gue
um ca ão com o seu nome. Tal ac o e es e-se pa a o p o agonis a de um ca ác e
simbólico, como se nesse momen o o poe a osse ecompensado pelo so imen o an e io ,
pela ida á dua expe imen ada no B asil, uma ez que ai ecebe «O p émio de se iel às
o igens, e de e semp e, como os an epassados, mou ejado na mesma humildade e
enacidade, de enxada na mão ou de cane a na mão.»54. Obse amos, nes e caso, a
ap oximação en e o ac o de c iação li e á ia e o do cul i o da e a, is o que ambos se
e es em da mesma sac alidade. Além disso, no discu so p onunciado na ecepção do
e e ido p émio, o au o cong a ula-se com o ac o de, a a és da sua poesia, a língua e
cul u a po uguesa e pene ado num país es angei o, onde a é en ão «nenhum Espí i o
San o a ize a desce »55. Nes a medida, o que aleg a e dadei amen e To ga é a expansão e
di ulgação da singula idade de Po ugal, além- on ei as. Po isso, es e discu so é
dominado po uma e lexão ace ca do papel desempenhado pelo poe a e pela poesia na
sociedade, ao longo da his ó ia, sendo en a izada a necessidade de o poe a se iel a si
p óp io e às suas aízes.
53 Diá io VIII, ed. ci ., p. 875.
54 Diá io XII, ed.ci ., p. 1339.
55 Idem, p. 1340.
VI. As cidades e isi adas: a sac alização dos espaços
294
Po seu u no, B uges, embo a não enha ido a o una li e á ia de Veneza, ou Pa is,
conheceu, como se sabe, sob e udo en e os séculos XIV e XV, g ande p ospe idade, endo
sido das cidades eu opeias mais po oadas e cosmopoli as. Nes e cená io, a cidade impôs-se
como cen o a ís ico, a a és do desen ol imen o da escola de pin u a lamenga. Nes e
âmbi o, no p imei o con ac o que To ga egis a com B uges, é p ecisamen e a p esença
monumen al do passado, aliada à imagem da se enidade e de uma ce a es agnação que
eme ge, a a és das pala as do sujei o de enunciação: «Gos o des as cidades pa adas, que
azem pa a a gen e – Veneza, B uges, Gand, Ou o P e o, Pompeia, po o dem da sua
iné cia.»56. Espelha-se, des e modo, uma ideia de c is alização no empo, que ap oxima
B uges, po exemplo, de Veneza. Aliás, B uges oi apelidada de «Veneza do no e». Nes e
âmbi o, no eg esso a es a cidade belga, o na ado a i ma no amen e a sua con icção, no
que conce ne ao eg esso aos mesmos locais: «Nunca consigo esgo a a ealidade no
p imei o encon o. Mas, nos seguin es, as coisas, embo a ganhem mais signi icação,
pe dem não sei que escu a i ginal.»57. Des e modo, no segundo encon o com a
ealidade es angei a, o iajan e já não se encon a «anes esiado» pela su p esa,
conseguindo analisa , ou mesmo, podemos dize , «disseca » de o ma minuciosa e mais
objec i a a ealidade ci cundan e. No caso especí ico des a segunda isi a a B uges, o
sujei o enuncia i o decla a ape cebe -se de aspec os nega i os, como é o caso do
desag adá el odo exalado pelos canais da cidade, que an e io men e lhe ha ia passado
despe cebido.
Nes a sequência, na en ada co esponden e ao penúl imo dia passado em B uxelas,
encon amos uma e lexão ace ca do eencon o com «duas elhas paixões», ou seja, duas
ob as de a e admi adas po To ga: a «Ten ação de San o An ónio» de Bosch e a «Queda
56 Diá io VIII, ed.ci ., p. 876.
57 Diá io XII, ed. ci ., p. 1339.
VI. As cidades e isi adas: a sac alização dos espaços
295
de Íca o» de B eughel. No e-se que, ambém nes e caso, é a o iginalidade e genialidade
des es dois a is as lamengos do século XVI que seduzem o iajan e o guiano.
Des e modo, o egis o do dia seguin e é cons i uído pelo poema «Íca o», que se
assume como uma ans igu ação do sujei o poé ico, ep esen ando o es o ço ingló io do
espí i o que, quando ousa ul apassa os seus limi es, é ulminado. No en an o, es e Íca o,
não desis e po que, após a queda: «A alma já lhe pede, impeni en e,/A g aça u gen e/ De
uma no a a en u a.»58
Po seu u no, ou o a is a belga é ap eciado po To ga, nes e caso no domínio da
música: encon amos e e ência à mo e do can o Jacques B el, conside ado «uma das
a as enca nações ai osas do a is a empenhado em e lec i o mundo in ei o no espelho
da sua p óp ia a lição.»59
Em suma, a pa i das passagens po B uxelas e B uges, To ga o nece-nos uma
imagem da Bélgica, cuja ónica dominan e é uma ce a ieza, aliada à «solidez humana»,
de onde sob essai, de en e as a es, a pin u a de B eughel e Bosch60, pa icula men e a
ep esen ação de Íca o, com quem o «eu» sen e alguma a inidade. Re ela-se assim o
in e esse do na ado pelas di e sas a es e em cap a os elemen os essenciais de cada
e i ó io isi ado.
Po im, não podemos deixa de oca , suma iamen e, o eg esso a duas das cidades
espanholas mais isi adas: Mad id (cinco incu sões) e Salamanca ( seis isi as), bem como
à ila de Ve in, da qual encon amos dez egis os.
Nes e sen ido, ela i amen e a Mad id na p imei a isi a, To ga ansmi e as suas
imp essões, me a o icamen e, eco endo à imagem de ca iz biológico do co po pa a
58 Idem, p. 1344.
59 Diá io XIII, ed. ci ., p. 1373.
60 Ao longo do Diá io encon amos ou as e e ências a es es pin o es. A genialidade de B eughel e a sua
imaginação pode osa é e e ida, po exemplo, no Diá io III, ed. ci ., p.335 e no Diá io IV, ed. ci ., p. 441. No
caso de Bosch, ele é mencionado, po exemplo, no Diá io XI, ed. ci ., p. 1209.
VII. O im da jo nada: en e a alibilidade da his ó ia e a ameaça da mo e
302
cadeia de pensamen os, subo dinados a de e minadas leis, mos ando que a humanidade
caminha ia umo a um im, a ançando de modo impa á el pa a o au oconhecimen o e o
au odesen ol imen o. Ao di igi -se pa a um im, segundo Hegel, a His ó ia e ela um
desen ol imen o inequí oco umo a uma maio acionalidade e libe dade. Assim, es e
ilóso o oi o p imei o a cons a a «a essência da ealidade na mudança his ó ica e no
desen ol imen o da consciência de si que o homem em»5. Nes a sequência, Hegel
conside a que a his ó ia é go e nada pela azão. Po isso a his ó ia uni e sal desen ol e-se
acionalmen e. É, de ce o modo, a c ença nes e p ocesso acional do de i his ó ico, na
unção inga i a da His ó ia, que o na ado o guiano e idencia, ao espe a que seja
p ecisamen e ela a puni e julga a época em que i eu. Assim, pa a To ga a e olução da
his ó ia humana desen ola-se a a és do desen ol imen o da au oconsciência da libe dade.
Is o po que a his ó ia não se cons ói apenas com elemen os de mudança, pois «as
es u u as sociais e sob e udo as de men alidade ac uam em elação às o ças momen âneas
como igo osos agen es de esis ência, de pe manência e de con inuidade.»6
Du an e a época di a o ial não encon amos mui as e e ências a acon ecimen os
his ó icos. No en an o, mesmo em iagem, longe do seu país, cons a amos que o au o não
se consegue libe a do clima de op essão que se i e em Po ugal. A condição de
po uguês ep imido acompanha-o semp e, po isso desc e e em aços ge ais essa
si uação, que ul apassa a é a a aliação da His ó ia7.
Além disso, a his ó ia é um elemen o ine en e à p óp ia condição humana, que nunca
o abandona, is o que o homem nunca deixa de eco da 8. É ainda no ó ia a e ol a do
sujei o po i e num empo onde os alo es se encon am in e idos. Po isso desaba a:
5 Apud Jacques le Go , «His ó ia», in Enciclopédia Einaudi, ol. I, Lisboa, Imp ensa Nacional-Casa da
Moeda, 1984, p. 210.
6 Fe não Magalhães Gonçal es, Se e le To ga, Cha es, Ed. Ta a uga, 1998, p. 111.
7 C . Diá io VIII, ed. ci ., p. 873.
8 Idem, p. 877.
VII. O im da jo nada: en e a alibilidade da his ó ia e a ameaça da mo e
303
«Tem cada homem o seu empo his ó ico, e eu acei o, com odas as implicações
espec i as, o que me coube. Que emédio! Mas cus a.»9. Des a manei a, eme ge a
consciencialização da inse ção do indi íduo num momen o his ó ico, que lhe condiciona a
ida, mas ela i amen e ao qual é e elada alguma e ol a.
A 18 de Ab il de 1963 o na ado ol a a e oca a His ó ia como um úl imo ecu so:
«O T ibunal da His ó ia... A úl ima ins ância que es a ao desespe o. Uma Boa-Ho a do
u u o onde os Plená ios não lemb em os da Boa-Ho a do p esen e...»10.
Po ém, dado o in e esse de To ga pelo ac o humano, impo a-lhe e lec i sob e udo
ace ca da essência do se po uguês, da iden idade da sua pá ia e das ma cas que nela
deixou a di adu a. Tal como e e e João Medina: «nes e aspec o, os seus diá ios são uma
das e lexões mais impo an es de Lusi anologia em oda a cul u a po uguesa passada e
coe a.»11. Is o po que o que in e essa a To ga é a essência e a i ência do Po ugal
p o undo (na sequência do que Unamuno chama a de in a-his ó ia) e não os me os
acon ecimen os polí icos, sociais ou his ó icos.
É, sob e udo, no Diá io XII (ab angendo o pe íodo en e 17 de Maio de 1973 e 22 de
Junho de 1977), que a ma ca indelé el da His ó ia se p incipia a insc e e mais
ni idamen e, is o que nes e olume é na ada a isi a à Á ica colonial po uguesa, e
ambém o g ande acon ecimen o his ó ico que oi a e olução do 25 de Ab il. Es a
e olução não co espondeu às expec a i as do au o como cons a amos, po exemplo,
a a és da seguin e a i mação:
9 Idem, p. 909.
10 Diá io IX, ed. ci ., p. 1027.
11 João Medina, «To ga e Salaza , a di adu a e o di ado nos Diá ios de Miguel To ga», in Sou um homem de
g ani o, ed. ci ., p. 399.
VII. O im da jo nada: en e a alibilidade da his ó ia e a ameaça da mo e
304
Es amos a i e em pleno absu do, a esc e e no li o da His ó ia ga a unhos que
nenhuma in eligência pode á deci a no u u o.[...] Jogamos numa ole a de loucos, que
an o anda como desanda. O que apelidamos de e olução é um despau é io social a que
eimamos em da esse nome sag ado. Quem az e oluções não exibe e oluções.12
No e-se que não é ejei ada a ideia sociopolí ica da e olução nem a sua necessidade
his ó ica. O que o au o condena é o iun alismo polí ico, o opo unismo, a desumanização
e a ideia de caos que di e ge do ideal de plena libe ação indi idual e colec i a.
Nes a es ei a, é p incipalmen e e cada ez mais a ideia de deg adação que p incipia a
eme gi , uma ez que o na ado a i ma:
O mundo pa ece p os i uído. Nas e as es angei as po onde me pe di no passado,
e me pe co quando posso no p esen e, acon ece ou o an o. O an igo ecan o em que
i iam oi igualmen e de assado, e pouco da singula idade, pu eza e especí ico encan o
lhes es a e as dis ingue do comum.13
É, assim, a an inomia en e um passado ma cado pela pu eza e in eg idade, opos o ao
p esen e cada ez mais co up o, que eme ge des a passagem. Além disso, cons a amos um
pa alelismo en e a deg adação de eo ísico, mo al, social e cul u al, aliada a uma ce a
nos algia do passado, de uma espécie de «pa aíso pe dido», onde eina a uma pu eza e
genuinidade, de ini i amen e sepul adas pelo p og esso, pelo consumismo, pelos in e esses
capi alis as. É o ema da decadência, já abo dado po An e o de Quen al nas Causas da
decadência dos po os peninsula es (1868) e nas Ca as Peninsula es de Oli ei a Ma ins
(1894), que, de ce o modo, To ga e oma, nes e caso, con e indo-lhe um cunho di e en e e
adap ando-o aos condicionalismos da sua época. Assim, cons a amos que o momen o
his ó ico con empo âneo, seja qual o a sua si uação c onológica, é semp e injus o,
12 Diá io XII, ed. ci ., p. 1300.
13 Idem, p. 1263.
VII. O im da jo nada: en e a alibilidade da his ó ia e a ameaça da mo e
305
caó ico, ágico, ep esen ando uma decadência ela i amen e aos an e io es momen os
his ó icos14.
Nes e âmbi o, numa passagem da ada de 3 de Ab il de 1976, o na ado e ela o
eceio da pe da da His ó ia, ao decla a : «Começo a eme que es ejamos no im da nossa
His ó ia. De ubadas as on ei as na u ais, se emos um ago na ga gan a da Eu opa. E as
on ei as na u ais es ão a ui a e ado amen e!»15. Es a p eocupação acen ua-se ainda
mais, num egis o pos e io , onde To ga lamen a e e ela alguma mágoa pelo ac o de os
po ugueses não alo iza em, nem se es o ça em po p ese a o pa imónio, nem
es abelece em uma co espondência en e o passado e o p esen e, igno ando a memó ia
indi idual e colec i a, pois, al como e e e o dia is a: «Olhamos os es emunhos da nossa
iden idade como as es elhos, sem p és imo, que apenas a a ancam o quo idiano.»16. É,
pois, o eceio da pe da da iden idade his ó ica e cul u al que eme ge des a passagem.
In e essan e é ambém uma e lexão ace ca da His ó ia, onde o plano mi ológico e o
humano se en ec uzam. Pa alelamen e, en elaça-se ambém o plano do «homem
his ó ico» (mode no), assumido como c iado da His ó ia e o homem das ci ilizações
adicionais que, en endendo-a de um modo nega i o, não a concebe como ca ego ia
especí ica do seu modo de exis ência:
A His ó ia é uma paixão dos Homens e uma i onia dos deuses. Sendo i ida po nós,
pa ece ei a po eles. Quan o mais nos obs inamos em o ná-la o espelho dos nossos
iun os, mais não sei que ocul os desígnios cap icham em eduzi-la a uma a en u a
absu da. Po que, ao im e ao cabo, semp e que nela lo esce a espe ança, u i ica a
desilusão. A ena ingló ia onde a ida e a mo e se con on am a oda a ho a, o sangue que
14 C . Mi cea Eliade, O mi o do e e no e o no, Lisboa, Edições 70, 2000, p. 145.
15 Diá io XII, ed. ci ., p. 1316.
16 Diá io XIII, ed. ci ., p. 1352.
VII. O im da jo nada: en e a alibilidade da his ó ia e a ameaça da mo e
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a mancha nem seque em sen ido. Inocen e ou culpado, mi iga apenas a sede insaciá el e
ã da a alidade.17
A His ó ia su ge, em pa e, aliada a uma ideia de a alismo e de paganismo, is o que
pa ece subjuga -se a um des ino açado pelos deuses. Nes a sequência, a ideia da
alibilidade da His ó ia p incipia a desenha -se numa passagem localizada em Coimb a,
onde To ga e e e uma aga de iolência ju enil a alas a em Ingla e a. To ga e oca a
c ise de alo es ao a i ma :
Há mui os indícios de que es a ci ilização es á no im. Mas o mais segu o é, sem
dú ida, a ecusa dos no os em se em os he dei os dos alo es dos pais. Semp e que assim
acon ece, a His ó ia dá ca as de no o pa a que o jogo da ida colec i a possa con inua .
Com ou as eg as e ou os aza es...18
Des e modo, a His ó ia assume-se como uma en idade pe soni icada que, de ce o
modo, condiciona o des ino dos homens. Semp e que exis e uma si uação de acasso,
alência a ní el ci ilizacional, uma no a época se inicia, com ou as eg as. Po isso, a
His ó ia é in e miná el, são as ci ilizações que e minam, pa a o igina ou as, com ou os
alo es, ou os objec i os. Assim, o que conside amos como « alibilidade» da His ó ia é,
sob e udo, a alibilidade da ci ilização, dado que a His ó ia pe mi e semp e um ecomeço.
Nes a medida, a si uação em que o homem i e ag a a-se à medida que o empo passa. No
en an o, esse ag a amen o pode se en endido como um sin oma da egene ação que se
de e á segui .
17 Idem, p. 1433.
18 Idem, p. 1445.
VII. O im da jo nada: en e a alibilidade da his ó ia e a ameaça da mo e
307
Pos e io men e, To ga ea i ma a sua si uação de ma ginal, de con a-co en e, ao
lamen a o ac o de es a ci cunsc i o a um de e minado empo, espaço e pe sonalidade: «A
es a semp e do mau lado da so e, dos acon ecimen os, da His ó ia.»19
No Diá io XIV, depa amo-nos com a indignação do na ado pe an e os mo icínios
do Líbano, as chacinas na Índia e o a en ado da Rússia a um a ião ci il co eano. Po ou as
pala as, aumen a g adualmen e a e lexão e a censu a dos acon ecimen os em que a
sac alidade da ida humana é cons an emen e ameaçada.
Po ou o lado, num egis o da ado de 30/5/1982, To ga e e e a p oli e ação de
g upos cul u ais pelo país, que pa ecem no eados po uma ce a ânsia de p ocu a as
aízes. Toda ia, es e in e esse, segundo o au o , eduz-se a um ilusó io enascimen o, is o
que: «Pe dido o sen ido da His ó ia, oda a eiden i icação colec i a não passa de um
opismo obs inado da memó ia.»20. Po conseguin e, a His ó ia assume-se como elo de
ligação en e a memó ia e a iden idade colec i a.
Seguidamen e, numa en ada da ada de Dezemb o do mesmo ano, o na ado ece
uma no a e lexão ace ca dos empos i idos e do declínio i enciado, pois de ce o
modo, To ga pa ilha com Nie zsche a c ença de que a época ac ual se encon a ma cada
pelo im das ideologias:
Tempo e í el, es e![...] A ida colec i a simul aneamen e epidan e e po um io.
Todas as ideias, odas as c enças, odas as ideologias, odos os sen imen os pos os em
causa. A His ó ia ala-nos dou as épocas ambém a idas po ciclones de inquie ação.
Mas nenhuma oi ão abe a a quan os en os quise am sop a dos qua o can os da
e a.21
19 Idem, p. 1455.
20 Diá io XIV, ed. ci ., p. 1461.
21 Idem, p. 1472.
VII. O im da jo nada: en e a alibilidade da his ó ia e a ameaça da mo e
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Segundo o au o , encon amo-nos no im de um ciclo ci ilizacional, no qual o pode
se sob epôs à exp essão pessoal e indi idual do se humano. De um modo ge al, a
humanidade encon a-se es e ilizada numa o ganização que ende pa a a massi icação e
pa a a au odes uição. Eme ge, en ão, o esquema mí ico do en elhecimen o e da
egene ação a a és da mo e, da desin eg ação da elha ci ilização, em ce a medida, na
es ei a de Spengle ou de Toynbee22.
Nes e âmbi o, a p opósi o da isi a a uma exposição ace ca de «Os Descob imen os
Po ugueses e a Eu opa do Renascimen o», o na ado c i ica, no amen e, o ac o de os
po ugueses não se o gulha em nem p ese a em o seu pa imónio, os es emunhos da sua
iden idade, isando que: «Flu uamos i esponsa elmen e à ona da His ó ia.»23
Mais adian e, a p opósi o da alusão a um p o es o em de esa da libe dade, To ga
censu a o ac o de os di igen es polí icos igno a em as lições da His ó ia, agindo como se
udo p incipiasse no momen o em que chegam ao pode 24.
Toda ia, como já e e imos, é o inal da jo nada, ou seja, os olumes quinze e
dezasseis do Diá io, que me ece ão pa icula a enção nes e capí ulo. Nes e caso,
cons a amos uma no a o ma de mediação pa a o conhecimen o do es angei o: os ó gãos
de comunicação social, is o que os acon ecimen os i idos no es angei o chegam a é ao
sujei o de enunciação, mas a a és das no ícias dos jo nais, da ele isão ou da ádio.
Nes e con ex o, e i icamos que no Diá io XV o au o segue com pa icula in e esse
os acon ecimen os desen olados na Polónia e na Rússia, cong a ulando-se, nes e caso, com
a e i ada das opas ussas do A eganis ão e o iun o do amo pela iden idade ace ao
22 Oswald Spengle , na ob a De Un e gang des Abenlandes (A decadência do Ociden e), compa a as
ci ilizações, no sen ido mais amplo, com os se es i os que nascem, desen ol em-se e, em seguida, mo em
inexo a elmen e. Po seu u no, Toynbee na ob a S udy o His o y (que con ém 12 olumes publicados en e
1934-1961) p econiza que cada ci ilização ap esen a qua o ases do seu ciclo i al: a génese, o
desen ol imen o, o p og esso, a decadência e a desag egação.
23 Diá io XIV, ed.ci ., p. 1482.
24 Idem, p.1513.
VII. O im da jo nada: en e a alibilidade da his ó ia e a ameaça da mo e
309
pode de uma g ande po ência25. Apesa de udo, pa ece exis i no na ado alguma
espe ança na lu a pela indi idualidade, quando, a 6/3/88, o au o esc e e: «Os impé ios da
His ó ia, com a mesma língua, os mesmos a cos de iun o, os mesmos uni o mes, e a sua
paz op essi a, semp e me causa am engulhos.[...] Fal a-lhes, no palada da g andeza, o sal
das di e enças e da libe dade.»26. Po ou as pala as, sendo o homem um se social, de e
es abelece com os ou os uma elação de ecip ocidade, de acei ação mú ua pelas
di e enças de cada indi íduo. Pa a que a libe dade exis a é, po an o, necessá io que cada
indi íduo ac ue de aco do com a sua azão, sem p essões ex e nas do pode . Aliás, o pode
é en endido como um elemen o noci o que aniquila a na u alidade do homem,
no malizando-o, uni o mizando-o. Is o po que a e dadei a g andeza de uma comunidade
eside nas pa icula idades, nas di e enças en e os indi íduos.
A a i ude de desc ença, o pessimismo pe an e a p oximidade da mo e e lec e-se no
Diá io XV, na passagem que alude à mo e de um gene al nazi, Rudol Hess, de quem já
ninguém se lemb a e à qual odos pa ecem indi e en es, quando To ga a i ma: «A His ó ia
memo ia; mas o empo desmemo ia. E o homem i e no empo, não i e na His ó ia.»27
Nes e olume encon amos e e ência às eleições no Chile e à de o a do di ado
(5/10/88), aos mo ins na A gélia em de esa da democ acia, cuja ep essão indigna o
na ado (7/10/88). Po ou o lado, To ga ece um comen á io mais desen ol ido ace ca de
um cong esso em I ália sob e o diabo, en a izando o ac o de ele i e na maldade de cada
se humano, embo a se con inue a insis i na e en e eológica. Além disso, o dia is a
e e e ainda o domínio da e ol a dos mili a es na A gen ina (5/12/88) e idenciando uma
25 C . Diá io XV, ed. ci ., p. 1515.
26 Idem, p. 1617.
27 Idem, pp.1599-1600.
VII. O im da jo nada: en e a alibilidade da his ó ia e a ameaça da mo e
310
posição «an imili a is a» que, nes e caso, se p ende à posição an ibelicis a do au o , pois:
«A humanidade não e á paz enquan o não o oda ci il. Po den o e po o a.»28
Po seu u no, com a da a de 27 de Ma ço de 1989, encon amos um egis o de ês
linhas a p opósi o das eleições na Rússia, que o dia is a conside a como um auspicioso
começo, pois «o gos o pela libe dade apu a-se à medida que a amos p o ando.»29
Ou o b e e comen á io, de ca ác e ac ual, ace ca do aco do na Polónia en e a
oposição e o go e no polaco su ge a 5/4/1989, no qual To ga ealça de o ma lapida e
algo i ónica o ac o de os i anos do passado se con e e em nos democ a as do u u o30.
Seguidamen e, ainda na mesma página, mas com da as dis in as, dois acon ecimen os, que
pode íamos conside a como « ai di e s», me ecem a a enção do au o : o assassina o de
cinquen a doen es po cinco en e mei as aus íacas e os 93 mo os po esmagamen o num
campo inglês de u ebol. Mais uma ez, é a dimensão humana que con igu a o olha do
na ado pa a o ex e io , indignando-se com a a ocidade, a iolência, a desumanidade e o
des espei o pela ida.
Em seguida, num ou o egis o sin é ico, p óximo do ex o in o ma i o, To ga e e e
as mani es ações es udan is na China, elemb ando que, aquando da sua isi a a esse país,
islumb ou o início des a lu a pela libe dade e democ acia. Indigna-se, po isso, com o
massac e desses lu ado es pela libe dade31.
O egis o da ado de 9 de No emb o de 1989 consis e num comen á io mais
desen ol ido e subjec i o da queda do mu o de Be lim, conside ado um dos
acon ecimen os his ó icos mais signi ica i os des a época. No e-se que o au o con ac ou
p esencialmen e com o e e ido mu o, aquando da sua iagem a Be lim, encon ando-se
28 Idem, p. 1646.
29 Idem., p. 1656.
30 C . Idem, p. 1657.
31 Idem, p. 1658.
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po an o, numa posição p i ilegiada pa a a alia a « e gonha e humilhação» ep esen adas
po essa ba ei a. Po isso, o na ado e ela o seu alí io pe an e a abolição do mu o, pois:
«Já se podem oca as i udes, os ícios e as ideias. E olha li e e a e nalmen e em
odas as di ecções.»32
Ou os acon ecimen os ele an es me ecem comen á ios do dia is a, como é o caso
da aclamação de Dubcek em P aga e do encon o no Va icano de Go ba che com o Papa,
sendo es e úl imo conside ado pelo na ado como o «homem ce o» pa a o ca go que
ocupa33.
Pa alelamen e, o na ado e ela g ande a enção e en usiasmo ace a odas as
mudanças oco idas no Les e da Eu opa e que ele assume não consegui ela a com a
dimensão me ecida pelos ac os, e elando uma sensação de incomunicabilidade, que
con apõe a esc i a à ida. Nes e caso, o ac o da esc i a não consegue ep esen a de o ma
sa is a ó ia os ac os eais. Há um des asamen o en e a capacidade de exp essão e o g au
de exigência do au o , eme endo assim pa a uma ce a «impu eza» da exp essão. Is o
po que os acon ecimen os mencionados cons i uem «[...] um sismo da His ó ia. Um abalo
colec i o de essu eição.»34
Seguidamen e, encon amos uma c í ica ao desempenho dos po ugueses em Timo ,
ao se e e ido um aco do en e a Aus ália e a Indonésia pa a explo ação de pe óleo nesse
e i ó io.
Po im, é com uma nesga de espe ança ela i amen e às mudanças que ão
oco endo no mundo que o dia is a e mina es e olume. Simul aneamen e, az um b e e
balanço dos seus oi en a e dois anos de ida que, pa a ele, pa ecem icção35. Su ge assim a
32 Idem, p. 1668.
33 C . idem, p.1669.
34 Idem, p. 1670.
35 Idem, p. 1671.
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massac es oco idos na Somália58. É, igualmen e, o pa ido dos op imidos e injus içados
que o au o semp e oma, ao condena e se indigna com o assassina o de se e c ianças no
Rio de Janei o59.
Po im, os úl imos acon ecimen os mundiais e e idos e comen ados são a assina u a
na Casa B anca da paz is aelo-pales iniana (10/9/93), que p o oca alí io no dia is a e
alguma espe ança no u u o; a lu a pelo pode na Rússia (3/10/93) e o iun o da maio ia
socialis a na G écia (11/10/93). Es e úl imo é comen ado de o ma mais desen ol ida,
espelhando o desejo de que os g egos hon em a lição de sabedo ia e ci ismo dos seus
an epassados, is o que es e po o «conheceu, como nenhum ou o na His ó ia, a dignidade
de se cidadão a empo in ei o.»60.
No en an o, pa alelamen e a odas as ans o mações e icissi udes his ó icas, e ao
acasso da ci ilização, eme ge, cada ez mais in ensamen e, a somb a da mo e:
«Co ajosamen e, en elheci, e co ajosamen e mo o.»61; ou ainda numa ou a passagem
esc i a em 1993, onde To ga con essa:
Penso e epenso dia e noi e na mo e. [...] Com o ins in o de conse ação de bicho,
ui-lhe ocando as ol as. Mas o empo passou, as de esas na u ais diminuí am, eio a
elhice, e chegou a ez dela. Sem con emplações, i anicamen e, comanda ago a odos os
meus ac os e pensamen os. [...] Ao im e ao cabo, a ida é i emedia elmen e um dom
p o isó io.62
Em sín ese, os acon ecimen os que abalam o mundo, conce nen es sob e udos à
polí ica in e nacional, não são ela ados po To ga com o in ui o de os his o ia , mas sim
58 C . idem., p. 1763.
59 Idem, pp. 1764-1765.
60 Idem, p. 1775.
61 Idem, p. 1769.
62 Idem, p. 1777.
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com o objec i o de e lec i sob e eles. Pe an e a ameaça da mo e, no amos que as
p incipais p eocupações do au o con inuam a se a ealidade humana subjacen e aos
enómenos polí icos e sociais e, p incipalmen e, os e en os his ó icos elacionados com a
conquis a ou a pe da de libe dade dos po os, ou ainda com a ameaça à sac alidade da ida
humana. De ce o modo, e idencia-se uma simpa ia pelo socialismo, mas «o socialismo de
To ga é, como nou as coisas, de eci u a elemen a e popula »63. Po ou as pala as, a a-
-se de um «socialismo» de aiz popula e não pa idá ia, is o que To ga semp e oi um
«li e pensado » e nunca se deixou «a egimen a » pelos polí icos. Nes e âmbi o, o
in e esse pelo conhecimen o do Ou o, do mundo, não dec esce, simplesmen e conc e iza-
-se a a és de ou os elemen os de mediação. Po ou o lado, o juízo c í ico e o
dis anciamen o ace aos acon ecimen os agudizam-se, sendo ansmi idos de o ma cada
ez mais sin é ica e lapida , assemelhando-se a sen enças e a o ismos.
Como e e e Cla a Rocha, o úl imo olume do Diá io assume-se como a
ep esen ação do « im da caminhada» anunciada a a és do «Requiem po Mim». En e
es e úl imo e o p imei o olume, iniciado sessen a anos an es pelo «San o e Senha»:
[...] ica a paisagem dum “eu” que se cons ói na sua descon inuidade, na sua
con li ualidade, na sua opacidade a si mesmo, e naquilo que em de singula e de comum a
odos os da sua espécie. E ambém a paisagem dum empo his ó ico não menos con li ual e
a ibulado.64
Pe an e a ameaça cada ez mais eminen e da mo e, o empo dessac alizado é
ep esen ado com a du ação p ecá ia, e anescen e, conduzindo inexo a elmen e ao im.
63João Maia, «Diá io XVI de Miguel To ga», in B o é ia, ol. 138, nº3, Lisboa, Ma ço de 1994, p. 344.
64 Cla a Rocha, Miguel To ga - Fo obiog a ia, ed. ci ., p. 179.
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No e-se que, de en e os países que egis am acon ecimen os ele an es, e idencia-se
a Rússia. Apesa de nunca e sido isi ada pessoalmen e pelo na ado o guiano, ela é
conhecida, essencialmen e a a és da li e a u a, dos au o es que cons i uem impo an es
ma cos de e e ência. Nes e caso, além de Dos oie ski, depa amo-nos com di e sas
alusões ilus ado as da admi ação po Tols oi65 e Soljeni sine. Des e úl imo é admi ada a
igu a exempla , con es a á ia, in épida,66 pa a além da sua ob a O A quipélago de
Goulag, que é ca ac e izada como «uma angús ia concen acioná ia do amanho da
Rússia»67. Es es elemen os, aliados ao egis o dos acon ecimen os polí icos e sociais que
con ulsiona am o país nos úl imos anos ab angidos pelo Diá io, con ibuem pa a esboça
da Rússia a imagem de um país assen e numa cul u a sólida, que p incipia a despe a pa a
a libe dade e no qual ainda é possí el deposi a alguma espe ança.
No úl imo olume do Diá io, à sede de libe dade e de independência sen ida na
Eu opa de Les e, pa ece con apo -se um ce o obscu ecimen o da pá ia, cuja his ó ia,
iden idade e cul u a, pe igam ace à subse iência e dependência da Eu opa económica
comuni á ia. De ce o modo, domina a ideia da alibilidade da his ó ia de Po ugal, que ai
declinando como pá ia, desde o im do impé io a é ao anunciado im de uma iden idade.
Encon amos, nes a medida, uma sin onia en e a mo e, a decadência da pá ia e a do
au o , pois po odo o país ecoa: «Um dob e a inados de uma pá ia sem espe ança, que o
pode não ou e, ou inge não ou i , [....] num desp ezo olímpico pelo po o que em má
ho a o elegeu.»68. Aliás, es e declínio comum ao au o e à pá ia é já an ecipado, em pa e,
quando, numa passagem da ada de 15/5/77, To ga a i ma a: «À medida que o empo
passa, mais agónicas são as ho as. A saúde pio a, a pá ia desin eg a-se, a solidão
65 C . Diá io IV, ed. ci ., p. 377 e p. 433.
66 C . Diá io XII, ed. ci ., p. 1377.
67 Idem, p. 1294.
68 Diá io XVI, ed. ci ., p. 1778.
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aumen a.»69. Nes a sequência, pa a além da con angedo a ealidade nacional, ambém
pelo mundo in ei o, os desígnios da a e nidade e da ole ância ão sendo
p og essi amen e aniquilados.
Eme ge, en ão, a a és de odos os comen á ios ei os aos e en os que ão ma cando
a his ó ia mundial, a ele ada concepção do homem, localizada mui o pa a além das
con ingências his ó icas. Salien a-se, assim, a unidade de pensamen o do au o , en aizada
numa cons an e isão do mundo, do es angei o, con igu ada pelo mais ní ido humanismo.
Espelha-se, cons an emen e, a p eocupação social do au o com os acon ecimen os que
op imem a pá ia e o mundo, que a ec am o «eu» e ambém o «ou o», is o que o nacional
se e lec e ambém no uni e sal. Nes e sen ido, pe an e o acasso ci ilizacional e a
inexo á el ameaça da mo e, o ac o «on ológico» da esc i a su ge como único leni i o,
como acção libe ado a das eias da co upção e da mo e, elemen o uni icado de um «eu»
agmen ado a a és de uma cons an e exposição à acção da empo alidade. Nes e caso,
e i icamos que o « i ual» da c iação li e á ia se assume como única uga possí el à
inexo abilidade da passagem do empo linea i e e sí el. O ac o de esc e e e es e-se da
mesma sac alidade de que são do ados pa a To ga odos os ac os p imo diais (como po
exemplo, o cul i o da e a), me gulhados no empo cíclico da imagem e do mi o.
69 Diá io XII, ed. ci ., p. 1336.
Conclusão
322
Conclusão
Em sín ese, pa indo dos p essupos os eó icos da o mação e unção da imagem do
es angei o em Li e a u a Compa ada, ap esen ados na p imei a pa e do nosso abalho,
acompanhámos o na ado o guiano, e dadei o «homo ia o », ao longo das suas
inúme as dig essões, pa a colhe mos e analisa mos as imagens p oduzidas pelo seu olha .
Cons a ámos que a iagem é pa a To ga a o ma p i ilegiada de en iquecimen o e
desen ol imen o pessoal, de delimi ação das suas p óp ias on ei as e iden idade a a és
do imp escindí el con ac o com o «Ou o». Aliás, em To ga, a al e idade encon a-se
semp e p esen e, dada a sua ânsia de des enda o essencial da exis ência humana, o que só
pode á se a ingido plenamen e a a és do con on o do «Eu» com o «Ou o»,
compa ilhando o seu sen ido de humanidade. Como o au o decla a: «Reg a ge al, as
pessoas só que em conhece o modo de ida dos ou os. [...] Eu, pelo con á io, es o ço-me
po su p eende a di e ença especí ica que az de cada indi íduo um se adicalmen e
dis in o. O meu semelhan e.»1. É, en ão, a p ocu a das semelhanças nas di e enças que
no eia es e p ocesso de al e idade, es e cons an e diálogo e abe u a ace ao ou o (que
seja es angei o ou po uguês), embo a no p esen e abalho nos enha in e essado
pa icula men e o es angei o. Aliás, «o encon o com os ou os é o e dadei o encon o
connosco.»2. Po isso, esc e e sob e o ou o se á au ode ini -se.
Na senda de Mon aigne, como no ou Pie e Veille e ao esc e e «Aujou d’hui,
Mon aigne es po ugais. C’es Miguel To ga», o Diá io e idencia a ní ida consciência «da
1 Diá io XII, ed. ci ., p.1284.
2 Edua do Lou enço, O labi in o da saudade, ed. ci ., p. 184.
Conclusão
323
inalidade da esc i a do eu»3. No en an o, a análise do «eu» não se sob epõe à análise da
ealidade ci cundan e, ambas se undem e se in e pene am.
To ga não nega a impo ância de odos os que o an ecede am, no ela o das suas
iagens e na iqueza das ob as li e á ias, que sejam es angei os como Mon aigne, ou
po ugueses, assumindo-se como discípulo «modes o e aplicado» dos g andes c onis as que
calco ea am o mundo e dele de am no ícia, como oi o caso de Pê o Vaz de Caminha e
Fe não Mendes Pin o. Nes e sen ido, e e e:
Co i ambém, desde a meninice, as se e pa idas. P esenciei, alanceado, cenas
c uen as de gue a, con emplei, a óni o e en e gonhado, os des oços de ci ilizações
c iminosamen e des uídas, ou i oci e ações de ene gúmenos a anuncia a mul idões
ana izadas o aniquilamen o de colec i idades in ei as, comunguei com na u ais dou as
aças e cul u as no mesmo sonho de um u u o p óximo de ha monia humana. E dei, com o
engenho que pude e algum isco, es emunho empenhado mas descomp ome ido dessas
andanças. Sou, a inal, como ós e à minha medida, o epó e inquie o dum quo idiano
sem on ei as.4
Essa epo agem do «quo idiano sem on ei as», sob e udo das ealidades com que
se oi depa ando po e as es angei as, é, pois, elabo ada de o ma p o undamen e
o iginal e au ên ica no seu Diá io, que con inua á uma ob a ímpa na li e a u a po uguesa.
Se, como e e iu Dos oie ski, os homens se di idem em duas ca ego ias : os
c iado es e os ep odu o es, cabendo aos p imei os a in enção da a e e da li e a u a5,
pode emos indubi a elmen e in eg a To ga no p imei o g upo, pois «só depois de se
3 Cla a Rocha, O cachimbo de An ónio Nob e e ou os ensaios, Lisboa, Publicações Dom Quixo e, 2003, p.
105.
4 Diá io XVI, ed. ci ., pp. 1744-1745.
5 Apud Fe não Magalhães Gonçal es, «To ga um au o- e a o po uguês», in Homenagem a Miguel To ga,
Lisboa, Fundação Calous e Gulbenkian, 1979, p. 28.
Conclusão
324
au ên ico se é li e, e que há uma comunicação dos homens do espí i o ão mis e iosa e
sag ada como a dos san os.»6
Es a ânsia de libe dade como alo p imo dial, aliada à sua si uação his ó ica e
pessoal, de e minam o seu papel singula , a sua oz incon undí el e a sua e eme idade no
seio do mo imen o p esencis a, a ma ginalidade ela i amen e às co en es li e á ias com
que se depa ou ao longo do seu empo, passando incólume po di e sos códigos li e á ios,
sem po eles se deixa ma ca , is o que a li e a u a b o a da âmago da ida e do se . Nes a
medida, To ga ece uma análise lúcida, dis anciada e concisa das i udes e de ei os da sua
ge ação, que conside a an ecipadamen e condenada po e nascido num con ex o his ó ico
ad e so, ma cado pela op essão, a quem al ou comba i idade, chegando ao im da ida
«melancolicamen e con encida de que oi quase inú il e indo ao mundo, uma ez que o
mundo não e a um pano ama pa a se goza , pensa ou desc e e , mas sim uma o aleza
pa a se conquis a .»7. Encon amos, assim, esboçados nes a passagem os mo i os, já
abo dados, que di a am o a as amen o de To ga ela i amen e à ge ação p esencis a, que
i e ence ada na sua « o e de ma im», p oduzindo uma li e a u a, de ce o modo es é il,
in ei amen e alheia às con ingências da ealidade social, às icissi udes do «homem de
ca ne e osso», uma ez que escolheu a li e a u a em de imen o da ida. Nes e âmbi o,
embo a o au o enha e elado a sua admi ação pelos «modelos» enal ecidos pela ge ação
p esencis a, es es nunca ul apassa am, no in e io da sua ob a, o es a u o de me os
«modelos de e e ência», e elado es da sua adesão, ainda que impa cial, a uma endência
ge acional. Po ém, é a sua au onomia a ní el es é ico ideológico e o mal que semp e
p e alece. Is o po que a esc i a de To ga, como ac o p imo dial, on ológico que é, ge mina
nas agas p o undas do seu se , au ên ica e única (pois quan o mais au ên ica, mais
6 Diá io XVI, ed. ci ., p. 1738.
7 Diá io IV, ed. ci ., p. 448.
Conclusão
325
uni e sal). O seu as o conhecimen o da li e a u a nacional e mundial é apenas um «meio»
e nunca um im. Aliás, nes a medida, c i ica di e sas ezes os au o es que cedem ao
« ancesismo» e a odas as modas impo adas do es angei o, con inando-se a uma me a
imi ação, sem co agem de se au ên icos e o iginais. Nes e campo, a i mou o au o quando
o in e oga am ace ca do seu seg edo: «Se idên ico em odos os momen os e si uações.
Recusa -me a e o mundo pelos olhos dos ou os e nunca pac ua com o luga comum.»8.
Po ou o lado, a dimensão uni e sal apenas adqui e sen ido na e a na al. O
genuíno, au ên ico e humano não em limi es, po isso o uni e sal é o local desp o ido de
on ei as. As pe sonagens, os sen imen os p esen es na ob a o guiana não se
ci cunsc e em à ealidade de Po ugal ou de T ás-os-Mon es, são uni e sais e, po isso,
exis em em qualque ou a pa e do mundo, is o que o espí i o não em limi ações
geog á icas. Como o na ado a i ma: «Não enho on ei as espi i uais, mas ago
g a ados nos c omossomas os ma cos da minha eguesia e a isionomia dos meus
con e âneos»9. Além disso, ainda e e e:
Do meu Ma ão na i o ab ange-se Po ugal; e de Po ugal, ab ange-se o mundo.
Ob igado pela necessidade, e po gos o, cedo comecei a calco ea os dois, e a
ma a ilha -me com a dimensão incomensu á el de cada c ia u a que neles subia a sua
ia-sac a, aqui b anca, ali neg a, acolá ama ela, semp e a iada na apa ência e igual na
ealidade.10
Assim, apesa de odos os locais isi ados e e isi ados, da impo ância con e ida a
mui os deles, aquele cuja «sac alização» é mais in ensa, o seu e dadei o «axis mundi» é a
sua aldeia na al, mi i icada, que usu ui de um es a u o on ológico único no uni e so
8 Dia io XVI, ed.ci ., p. 1686.
9 Idem, p. 1749.
10 Idem, p. 1737.
Conclusão
326
p i ado do sujei o. Pois: «S. Ma inho oi o luga de onde»11. Con udo, a iagem desloca o
cen o de g a idade do na ado pa a um luga desconhecido, co espondendo à
cosmização de um espaço, ou, como di ia Mi cea Eliade, à ei e ação de uma cosmogonia,
ao ac o de o dena um caos12. Apesa disso, cons a amos que os elemen os assimilados,
ap eendidos nas iagens e ec uadas, con i mam o sabe que se ai inc emen ando ace ca
desse «axis mundi» de onde o «eu» pa iu e ao qual semp e eg essa, uma ez que odos os
pon os de chegada são p o isó ios.
De um modo ge al, o na ado - iajan e in eg a-se no espaço que pe co e,
es abelecendo uma compa ação en e a ealidade p esenciada e o conjun o de imagens p é-
-adqui idas a a és das lei u as. A ealidade co obo a ou con adiz essas imagens,
ul apassando quase semp e as expec a i as do na ado ; o espaço geog á ico e o espaço
imaginá io con undem-se, po ezes, con i mando a g andeza mí ica da iagem li esca.
A lei u a das imagens o madas pelo olha a en o e pe spicaz des e na ado pe mi iu-
-nos comp eende o modo como são p og essi amen e in e io izadas as imagens do
«ou o», como elemen o con igu ado do «eu» e po ex ensão do país de o igem.
E idencia-se a p og essi a in e io ização das imagens do «ou o» como p ocesso de
au oconhecimen o do «eu», a a és da sua incessan e abe u a ao diálogo in e cul u al.
Rela i amen e ao sen ido das imagens do es angei o delineadas, cons a ámos que,
nos locais isi ados, o que in e essa pa icula men e ao na ado é a dimensão humana,
simbólica e mí ica (não podemos esquece que «os mi os são e dades e e nas»13), que eles
ence am e a a és dos quais o iajan e ala ga as suas on ei as espi i uais. Nes e con ex o,
as e e ências cul u ais assumem a unção de mediado as do sen ido do espaço isi ado.
Po isso, o iajan e descob e-se, edescob indo a sua p óp ia nacionalidade,
11 Idem, p. 1683.
12 C . Mi cea Eliade, O sag ado e o p o ano. A essência das eligiões, ed. ci ., p. 46.
13 Diá io XV, ed. ci ., p. 1667.
Conclusão
327
pa icula men e nos espaços adequados à sua sensibilidade, onde sen e mais a inidades,
onde o «ou o» não su ge con igu ado apenas como «di e en e», mas ambém como
idên ico ao na ado . É o que sucede em Espanha, onde encon a a sua unidade cul u al
mais p o unda e in ínseca, embo a ei ada de uma ambi alência de aízes his ó icas e
cul u ais; no B asil, que lhe deixou ma cas p o undas, endo con ibuído pa a a o mação
da sua pe sonalidade, e que é enca ado como uma e dadei a « e a p ome ida»,
e ilhan e de ida, de beleza, de po encialidades pa a conc e iza , «país-i mão»,
complemen o cul u al e espi i ual da pá ia de o igem, e o mulado a a és de uma
mi ologia pessoal; na I ália dos enascen is as, onde a a e domina e se assume como
cons an e e eno ado milag e, concebida como uma espécie de « eino supe io » da cul u a,
«a pá ia dos simbólicos e úgios»14, onde cons an emen e caminham os poe as; na G écia,
onde encon a in p aesen ia o ascínio i o de uma cul u a clássica (da qual o «eu» se
econhece bene iciá io), conside ada on e genuína e au ên ica da cul u a eu opeia, onde o
na ado pode sacia a sede de beleza.
Em con apa ida, ao p ocu a os es ígios das pegadas colonizado as dos
po ugueses, To ga desilude-se p o undamen e com a gue a colonial de Angola e
Moçambique, com o acismo e a iolência que o azem sen i -se um inimigo e são a p o a
do acasso colonial po uguês, que apenas no B asil a ingiu a sua g andiosa dimensão e
comunhão com os indígenas. Somen e a ilha de Moçambique su giu, nes e campo, como
um oásis, o eencon o com a pá ia desejada e mi i icada, odeada po um cená io de caos
e e o . Além disso, o iajan e desilude-se com o ac o de a cul u a po uguesa se pa e do
passado de Goa e de Macau, e idenciando assim o acasso de um impé io. Po seu u no,
a cul u a ancesa, do mesmo modo que Pa is, é desmi i icada, ep esen ada a a és da
14 Diá io VI, ed. ci ., p. 631.
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