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Dezemb o de 2021
Cenas de um luga u ís ico en e es ações:
Uma e nog a ia sob e o eléc ico 28 de Lisboa em empos pandêmicos.
Daniel Boa No a
nº 57259
Disse ação de Mes ado em An opologia
Á ea de especialização em Cul u as Visuais
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Disse ação ap esen ada pa a cump imen o dos equisi os necessá ios à ob enção do g au de
Mes e em An opologia – Cul u as Visuais, ealizada sob a o ien ação cien í ica da P o esso a
Dou o a Ma ia Ca dei a da Sil a.
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Ag adecimen os
À Fe nanda, minha companhei a, ão obse ado a quan o pa icipan e nos p ocessos e decisões
pessoais que me ize am e o na à uni e sidade, segui pelos caminhos da An opologia e
p oduzi es e es udo.
Ao meu pai, An ônio Ca los Bôa No a, que com sua as a bagagem de cien is a social oi um
in e locu o cons an e sob e p á icas de campo e de esc i a.
À p o esso a Ma ia Ca dei a da Sil a, que me p opo cionou uma expe iência de o ien ação
saudá el e cons u i a, dosando ansmissão de conhecimen o e escu a a en a em cada pon o
des e pe cu so, se man endo semp e p óxima em meio ao dis anciamen o pandêmico, e com
le eza mesmo en e a pesados con a empos.
Ao Edglê, à J., ao Paulo, ao Ma k, ao João, aos po a- ozes da Ca is. A odos que con ia am
no p opósi o cien í ico de minha abo dagem, que doa am seu empo pa a con e sa comigo, e
que, po is o, me pe mi i am ap ende mais sob e es e eco e da ealidade.
À Flo a Lahue a, à Lau a Fila di, à Sonia Mo a Ribei o, minha ede de apoio, com quem pude
desopila aquilo que me ansbo da a, em momen os de angús ia, de édio, de con en amen o,
so e ou e és.
À Ginja, nossa a ei a po uguesa, que chegou em meio a essa his ó ia pa a se o na o se não-
humano que mais amo, que me o e ece doses de e nu a odo dia há mais de ano.
Ob igado. Mui o. Mui o mesmo.
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RESUMO
Lisboa é a capi al do p ocesso de u is i icação con empo âneo po uguês, que se in ensi icou
após a p o unda c ise econômica i ida po Po ugal na passagem pa a os anos 2010. En e
ajus es iscais e omadas de emp és imo inancei o que gua dam semelhanças com as
expe iências i idas em ou as localidades, o país encon ou no incen i o à a i idade u ís ica
uma es a égia de ecupe ação económica. Nos úl imos anos, Lisboa passou a se is a como
“des ino impe dí el” po mui os iajan es, e quem eside na cidade passou a con i e com a
p esença da a i idade u ís ica em seu co idiano. Sendo um modal que az pa e do sis ema de
anspo e público local, o elé ico 28 o nou-se uma a ação ins ag amá el conco ida, pa a a
qual passou a se o inei o e ilas de u is as e co edo es in e nos cheios de gen e. Como
u en es equen es de um anspo e público u bano lidam com es a p esença em seu meio de
locomoção? Como u is as se compo am ao u iliza um se iço público de anspo e cole i o
onde es ão a aze u ismo? Que pe o mances, manei as de aze e negociações, co po ais e
e bais, se obse am nes e cená io? Es a e nog a ia oi planejada pa a abo da ais ques ões.
Po ém, endo sido ealizada em meio à pandemia de Co id-19, algumas p oblemá icas
ine en es ao con ex o o am inco po adas no es udo. Como aze pesquisa de campo em
ci cuns âncias pandêmicas? Como ap oxima -se e c ia con iança com in e locu o es em
empos de dis anciamen o social? Es a e nog a ia oi p oduzida a pa i de uma obse ação
ealizada in loco no elé ico 28, al e qual o plano de pesquisa o iginal, mas ambém
emo amen e pelas con ingências o ui as do pe íodo em que oco eu. Reco endo a concei os
com o igens disciplina es di e sas sem se a e a um co po eó ico só, o ex o ai desc e e
compo amen os na escala mic o do co po al, elacionando com o pe íodo his ó ico mac o em
que i emos, e com ans o mações u banas ecen es especí icas de Lisboa.
PALAVRAS-CHAVE
Elé ico 28; Lisboa; Tu is i icação; Con i ialidades; Mobilidades; Pandemia
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ABSTRACT
Lisbon is he capi al o Po uguese con empo a y ou is i ica ion p ocess, which in ensi ied
a e he p o ound economic c isis expe ienced by he coun y in he ansi ion o he 2010s.
Be ween iscal adjus men s and inancial loans ha bea simila i ies wi h expe iences li ed in
o he locali ies, he coun y ound a s a egy o economic eco e y in encou aging ou is
ac i i y. In ecen yea s, Lisbon u ned in o a “mus -see des ina ion” o many a ele s, and
ci y dwelle s ha e come o li e wi h he p esence o ou is ac i i y in hei daily li es. As a
modal ha is pa o he local public anspo sys em, he am 28 u ned in o a popula
a ac ion, o which queues o ou is s and inne co ido s ull o people became ou ine. How
do equen use s o u ban public anspo deal wi h his p esence in hei means o
anspo a ion? How do ou is s beha e when using a public anspo se ice whe e hey a e
doing ou ism? Wha pe o mances, ways o doing and nego ia ions, bodily and e bal, a e
obse ed in his scena io? This s udy was i s designed o add ess hese ques ions. Howe e ,
ha ing been ca ied ou in he mids o he Co id-19 pandemic, some issues inhe en o he
con ex we e inco po a ed in o i . How o do ield esea ch in pandemic ci cums ances? How
o app oach and build us wi h in e locu o s in imes o social dis ance? This e hnog aphy was
p oduced om an obse a ion ca ied ou in loco on he am 28, jus like he o iginal esea ch
plan, bu also emo ely due o he o ui ous con ingencies o he pe iod in which i occu ed.
Using concep s wi h di e en disciplina y o igins wi hou s icking o a single heo e ical body,
he ex will desc ibe beha io s on he mic o scale o he body, ela ing i o he mac o his o ical
pe iod in which we li e, and o ecen u ban ans o ma ions speci ic o Lisbon.
KEY WORDS
T am 28; Lisbon; Tou is i ica ion; Con i iali ies; Mobili ies; Pandemic
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Índice
1. In odução 7
1. 1 T anspo e público, luga u ís ico, empos pandêmicos 7
1.2 Do sujei o ao campo do sujei o 9
1.3 Uma década (ou mais) de ansição 10
2. Enquad amen o eó ico 14
2. 1 An opologia con empo ânea, um des ino u ís ico 14
2.2 Expedições e expe iências da an opologia no u ismo 17
2.3 Reg esso a um p esen e mo ediço 23
3. Conside ações me odológicas 30
3.1 Pon os de pa ida 30
3.2 “P imei a aga” 31
3.3 “Segunda aga” 34
3.4 Ques ões esc i as 35
3.5 Ques ões isuais 36
4. Uma e nog a ia do co idiano no eléc ico 28 em empos pandêmicos 39
4.1 A chegada à pa agem no Ma im Moniz 39
4.2 O eléc ico em si mesmo 53
4.3 P oxemia e manei as de iaja no 28 62
4.4 Do Ma im Moniz aos P aze es 69
4.5 O in e alo dos P aze es 116
4.6 Passagem de gua da- eios 126
4.7 Pe didos e achados no e o no 133
5. Re lexões inais 154
6. Re e ências bibliog á icas 161
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1. INTRODUÇÃO
1.1 T anspo e público, luga u ís ico, empos pandêmicos
Como u en es equen es de um anspo e público u bano lidam com a p esença
co idiana de u is as em seu meio de locomoção? Como isi an es em uma cidade se compo am
ao usu ui de um se iço público de anspo e cole i o no local onde es ão a aze u ismo?
Quais as semelhanças e di e enças nas manei as des es di e sos uns e ou os? Quais as
pe o mances e negociações, co po ais e e bais, que se obse am nes e cená io? Quais os
possí eis con li os e as possí eis a eições, que se mani es am nes as conjunções en e pessoas,
papéis e mobilidades a iadas?
Foi pa a abo da al p oblemá ica que es a pesquisa an opológica oi desen ol ida.
Tendo Lisboa no ano de 2020 como espaço- empo con ex ual, e o eléc ico 28 como luga -
obje o de es udo, nes a disse ação ou p ocu a abo da es es pon os sob uma pe spec i a
an opológica. Como é a con i ialidade co idiana en e a o es di e sos que se encon am no
eléc ico 28 de Lisboa? É a ques ão ge al de pa ida pa a a qual p e endo o e ece algumas
espos as possí eis, a a és de uma e nog a ia densa em desc ição e abe a em suas (ou melho ,
minhas) in e p e ações.
Po e sido es a uma in es igação ealizada em meio à pandemia de Co id-19, alguns
p oblemas cien í icos adicionais e ac o es condicionan es ine en es a al con ex o inédi o
o am ine i a elmen e inco po ados como p emissas. Como aze pesquisa de campo em
ci cuns âncias pandêmicas? Como ap oxima -se e c ia con iança com in e locu o es em
p incípio desconhecidos, em empos que ob igam o uso de másca a acial e ecomendam o
dis anciamen o en e pessoas? E ainda: que co idiano é es e que se es á a obse a ? Se a
in es igação e e início, meio e im condicionados ao cená io pandêmico, o co idiano
obse ado nes e pe íodo e idencia um p ocesso de up u a umo a um “no o no mal”? Foi (ou
se á) um in e lúdio e éme o após o qual se en a á ecupe a uma o a p eg essa?
A p á ica u ís ica é an e io ao su gimen o do e mo u ismo
1
. Mas, enquan o enômeno
de massa em escala global (com in e aces em campos ão di e sos quan o polí icas públicas,
1
Como ponde a Sha pley (2008, 2-1), a depende da de inição concei ual dada pa a o e mo – po exemplo, se
comp eendida apenas como iaja po mo i os de laze , educação ou busca espi i ual -, é possí el aça uma
biog a ia de milênios de ida pa a a p á ica u ís ica.
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p odução econômica, sus en abilidade socioambien al, pa imonialização cul u al, mobilidade
u bana, p essão no me cado imobiliá io, p eca ização abalhis a...), o u ismo al e qual o
en endemos é um enômeno mode no. Fo am as ino ações ecnológicas (sob e udo, nos
anspo es) e as mudanças nas condições sociais dos assala iados médios
2
que possibili a am
não somen e o c escimen o da indús ia u ís ica, mas a in e nalização de sua p á ica no
imaginá io comum. “No mundo Ociden al mode no, o u ismo in e nacional passou de um luxo
des u ado po uma mino ia p i ilegiada pa a uma a i idade de laze p a icada po uma g ande
maio ia da população e, como a i idade social, o u ismo se in e nalizou. Ou seja, o nou-se
uma pa e acei a, ou mesmo espe ada, da ida, uma necessidade em ez de um luxo, e uma
a i idade de massa“
3
, explica Sha pley (2008, 2-21).
O u ismo lique ez-se como modo de es a no mundo a é chega ao século XXI
i igando localidades em qualque pa e do mundo. Esp aiou-se de al o ma que, mesmo quem
dele é excluído ou í ima, e quem a ele se opõe, de alguma manei a elaciona-se com ele. Nos
e i ó ios onde ganha ida, a a i idade u ís ica c ia aízes e se ep oduz, inco po ando no os
amos a cada empo ada. A é que se p o e o con á io, é um ac o empí ico que não há
conhecimen o sob e luga es que, uma ez o nados u ís icos, depois se “des u is i ica am”.
Daí e algo de quixo esco em que e menosp eza ou ela i iza a pe inência de in es igá-lo
com uma a i ude cien í ica. Impo a menos da e edic os posi i os ou nega i os sob e seu
alo como campo de es udos, do que obse a seus a o es, manei as, empos e luga es, pa a
pe cebe seus quais e comos.
É com es e in ui o que ap esen o aqui uma e nog a ia p oduzida a pa i de uma
obse ação ealizada in loco, al e qual o plano de pesquisa o iginal, mas ambém emo amen e
pelas con ingências o ui as do pe íodo em que oco eu. Nes a pesquisa, ao in és de in e p e a
um de e minado eco e obse ado da ealidade segundo um co po eó ico majo i á io de minha
escolha, expe imen ei ci cula e ece amas en e eo ias e concei os di e sos, sem me
alice ça em qualque um deles. Mais do que na in e p e ação, es e ex o em sua mais- alia na
‘desc ição densa’ (Gee z 1989), chegando a examina em po meno es os ges os e manei as de
se locomo e dos co pos di e sos obse ados no eléc ico 28 – mesmo em seus aspec os
co idianos mais banais.
2
Que, em linhas bem ge ais, se o na am abalhado es u banos em sua maio ia, com maio enda e mais
disponibilidade de empo de ido à (lu a e) conquis a de di ei os sociais, como é ias emune adas e aposen ado ia.
3
T adução do au o . No o iginal, em inglês: “Wi hin he mode n, Wes e n wo ld, in e na ional ou ism has been
ans o med om a luxu y enjoyed by a p i ileged mino i y in o a leisu e ac i i y enjoyed by a la ge majo i y o
he popula ion and, as a social ac i i y, ou ism has become in e nalised. Tha is, i has become an accep ed, o
e en expec ed, pa o li e, a necessi y a he han a luxu y, and a mass ac i i y“.
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1.2 Do sujei o ao campo do sujei o
B asilei o de São Paulo, an es da mudança de país pa a cu sa es e Mes ado, como
u is a eu isi a a Lisboa em ou as qua o opo unidades. O ci y ou básico iz somen e na
p imei a des as, em 2008. Fui à P aça do Comé cio, ao Bai o Al o, ao Adamas o . Comi pas el
de na a, bebi ginjinha, conheci a To e de Belém. Também subi ao Cas elo de São Jo ge
u ilizando como meio de anspo e o eléc ico da linha 28.
Já em 2018, na minha úl ima inda a Lisboa ainda como u is a, es i e no Ma im Moniz
e me su p eendi com o amanho da ila que encon ei, debaixo de sol, na pa agem daquele
eléc ico. Minha in enção e a ol a a pegá-lo, mas acabei desis indo po não que e pe de
empo a espe a . Foi quando pe cebi que o c escimen o do u ismo em Lisboa na década que
passou desde minha p imei a isi a, impac ou minha p óp ia expe iência como isi an e da
cidade
4
. Um meio de anspo e público que an es a é podia já a ai u is as, o na a-se en ão
uma conco ida "a ação impe dí el" lisboe a. Se aquela mudança me causa a es anhamen o,
e a de se imagina como se sen i ia em elação a is o um mo ado de Lisboa, que i encia es e
p ocesso de u is i icação no seu co idiano.
Uma ez endo subs i uído o papel de u is a pelo de mo ado (e imig an e, e es udan e
in e nacional…), passei a pe cebe o u ismo em Lisboa sob ou a pe spec i a. Po ezes, com
incômodo em elação a alguns compo amen os de isi an es. Mas ambém e le indo sob e
como minha simples p esença pode se incon enien e pa a mo ado es locais quando sou eu
quem es ou no papel de u is a, em isi a ao “ou o” numa iagem de laze . Lemb o de me
sen i descon o á el quando, naquele já dis an e ano de 2008 em que conheci Lisboa, ambém
es i e em Ba celona e, pela p imei a ez, i mani es ações u ismo óbicas em g a i es na ua.
Is o em uma cidade que em na a i idade u ís ica uma impo an e on e de ecu sos
econômicos. Assim como Lisboa.
Se " odos" que em iaja a u ismo, po que "ninguém" que o u ismo do ou o po
pe o? Quando alguém que mo a em uma cidade u ís ica es á a iaja , ado a o mesmo
compo amen o que gos a ia que os u is as i essem em seu local de esidência? E, se o u ismo
é pe cebido como uma a i idade econômica es a égica pa a o desen ol imen o local, quais
4
Pa a se exa o, minha p imei a isi a a Lisboa oco eu em junho de 2008, quando p esenciei as comemo ações
dos San os Popula es na cidade (12 de junho). Es a úl ima, em 2018, oi no mês de maio. Ambas, po an o, em
épocas semelhan es do ano: às éspe as do e ão.
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essigni ica seu p opósi o e suas p opos as pa a as paisagens dos empos a uais
20
. É mesmo
um pa adoxo que, sem aquela an opologia (sis emá ica, gene alizan e, essencialis a,
e nocên ica, dico ômica…) não exis i ia es a an opologia ( elacional, con ex ualizada,
e lexi a, híb ida…), ão c í ica àquela.
Em seu p esen e modo de aze , que pe cebe o cons uc o de seu sabe não como o
ja dim au óc one de um eso exclusi íssimo, e sim como uma ho a comuni á ia policul o a,
abe a a enxe os manuseados em qualque uso ho á io, a an opologia passou a e no
enquad amen o his ó ico um de seus oncos basila es. Hoje, não se esc e e e nog a ia sem
si uá-la em ho izon es empo ais mais amplos do que o do pe íodo de ealização do es udo
21
.
T a a-se de uma e idência empí ica da p odução acadêmica con empo ânea, que, nas pala as
de Appadu ai aqui subsc i as, o na-se pa adigmá ica da an opologia pós-mode na: “(…)
nenhuma comunidade humana, po mais es á el, es á ica, limi ada ou isolada que apa en e se ,
pode se conside ada como impassí el ou à pa e da His ó ia” (Appadu ai 1996, 185)
22
. Es e
casamen o com a disciplina da His ó ia e idencia ou a p emissa da an opologia inco po ada
na passagem pa a o século XXI: a abe u a à in e disciplina idade. Se a na u eza da cul u a é
a in e secção e jus aposição de múl iplos empos, espaços e g upos de pessoas, en ão é na u al
que uma abo dagem holís ica da expe iência humana ab a ias e e ga pon es en e concei os,
eo ias e écnicas p o enien es de ambien es di e sos pa a encon a ângulos adequados a sua
análise. Sob e udo, quando se a a de in es iga o(s) enómeno(s) do(s) u ismo(s), em que os
up u as ge adas em uma zona que ocupou a po ção inal do século XX. Foi um p ocesso que e e luga num
espaço de décadas de in e conexão en e os modelos posi i is as a é en ão hegemônicos, e eo ias c í icas pós-
coloniais. Teo ias es as i madas, pionei amen e, po pensado es e pensado as com co pos não-b ancos, não-
masculinos e com bagagens cul u ais p o enien es de luga es que, ou o a, o am desc i os como “des inos
exó icos” pela p óp ia an opologia.
20
Pa adigmas clássicos que eme em aos abalhos de F anz Boas, A.R. Radcli e-B own e, p incipalmen e, à
in odução de The A gonau s o he Wes e n Paci ic (Malinowski 2002). Me e i o aqui à obse ação pa icipan e
enquan o mé odo in es iga i o (baseado na p esença p óxima e p olongada com as pessoas cujas mani es ações
cul u ais se es á a es uda ) e à e nog a ia enquan o p odu o inal. Mesmo endo ecebido camadas e lexi as
adicionais na pos e idade, es as man êm-se como bases da an opologia con empo ânea. Já os quad os
in e p e a i os daquela an opologia clássica que, sob luzes a uais, e elam-se compos os po gene alizações
a empo ais de pa icula idades con ingenciais, essencializações ca egó icas e uma “au a de e dade” na
e nog a ia, es es o na am-se peças de museu.
21
Es a cons a ação em como ac o con ínuo um ques ionamen o p elimina , cien i icamen e necessá io, de
discu sos polí icos, análises sociais e in e p e ações cul u ais que se baseiem em a gumen ações do ipo desde
semp e oi assim. Tais podem su gi em a iações de adje i os e ocados pa a cono a a anscendência de épocas
di e sas como e dade indubi á el, ais como “ adicional”, “ ípico”, “au ên ico” e “ olcló ico”. Pa a a amen os
mais p o undos sob e como es es concei os podem e es i agendas polí ico-ideológicas conc e as com e nizes
de anscul u alidade, neu alidade e a empo alidade, e Handle (1994) e Ha s ein (2007).
22
T adução do au o . No o iginal, em inglês: “(…) no human communi y, howe e appa en ly s able, s a ic,
bounded, o isola ed, can use ully be ega ded as cool o ou side his o y”.
17
signi icados (polí icos, económicos, ma e iais, ambien ais, cul u ais, iden i á ios, simbólicos,
senso iais, a e i os…) são híb idos, com impac os em escalas e campos emá icos a iados.
Na medida em que a u ismologia ambém é uma disciplina em si, que pode e
in e aces com ou os campos di e sos e não apenas nas ciências humanas, açamos en ão um
ou po algumas das ilhas pe co idas pa icula men e pela an opologia nos es udos do
u ismo.
2.2 Expedições e expe iências da an opologia no u ismo
A expansão do u ismo nas úl imas décadas em sendo acompanhada pela
mul iplicação das pesquisas an opológicas sob e o u ismo. A chamada “an opologia do
u ismo” não cons i ui um subcampo à pa e, cujo pe íme o é delimi ado po ce cas ixas.
T a a-se ão somen e de aplica os mé odos in es iga i os, modos de o mula p oblemá icas
de pesquisa e de desc e e a ealidade empí ica, que consolida am a an opologia enquan o
ciência, pa a obse a , analisa e in e p e a enómenos u ís icos. Po exp essa em uma
dinâmica p ocessual, mais do que um e i ó io au ónomo com apelido p óp io, en endo se
mais plausí el ca ac e iza al amo como “in e enções an opológicas” (Lei e & G abu n,
2009), ou “con ibuições an opológicas” (Nogués-Ped egal 2019) nos es udos do u ismo.
Como apon a Ma ia Ca dei a da Sil a, ao di eciona in es igações pa a os luga es u ís icos, a
an opologia ea i ma sua especi icidade, pois lhes "(...) pode explo a com um know how
especí ico de a ibuição de oz ao local e de enquad amen o mais as o no seu quad o de
p odução social" (Sil a 2004, 11).
En e os pionei os a examina o enômeno u ís ico segundo moldu as e concei os
an opológicos es á Dean MacCannell. Em The Tou is , MacCannell ouxe uma isão do
u ismo como análogo a um i ual eligioso mode no e que anscende on ei as, ampa ado em
um senso mo al cole i o de que ce os luga es p ecisam se isi ados. O a o de passea e
con empla (sighs eeing) é in e p e ado como uma busca po au en icidade em luga es ou os
(o país es angei o, a na u eza, o luga his ó ico, o “es ilo de ida simples" do ou o…) que não
a no malidade co idiana. Enquan o o ma ipicamen e classe média de se di e encia na
sociedade (di e encia -se em elação a quem não o az, ou em elação à o ina o diná ia do
abalho, po exemplo), o u ismo cons i ui en ão um “(…) p ocesso duplo de sac alização das
is as a endido po uma a i ude i ual co esponden e pela pa e dos u is as” (MacCannell
18
1999, 42)
23
. Cien es de que a indús ia do u ismo ab ica a ações pa a sua con emplação,
u is as en ão p osseguem sua busca po au en icidade a é alcança os bas ido es da a ação.
Assim, encon am o que MacCannell chamou de "au en icidade encenada", aquilo que pa ece
um bas ido , mas é uma no a a ação p oduzida ambém pela indús ia do u ismo. Ainda que
a pos e idade apon e uma endência à gene alização em sua cons ução eó ica, pelo au o “(…)
conside a que a busca pela au en icidade se pode aplica a odo e a qualque u is a” (Be na do,
2013, 11), o abalho de MacCannell deu undamen os e des aque a uma emá ica que e a
elegada a segundo plano nas ciências sociais, indo a inspi a uma sé ie de no as
in es igações.
Da segunda me ade da década de 1970 em dian e, es udos an opológicos di e sos sob e
o u ismo se basea am em uma di isão ca egó ica en e an i iões e isi an es, que e iam um
pon o de encon o na cole ânea de ensaios Hos and Gues s: The An h opology o Tou ism
(Smi h 1977). Edi ada po Valene Smi h, cons i uiu um e e encial eó ico pa a e lexões
di e sas sob e as pe cepções inco po adas nos encon os en e u is as e locais, incluindo os
impac os sob e as cul u as locais causados pelo desen ol imen o do u ismo de massa. Um
exemplo audio isual des a abo dagem é o ilme Cannibal Tou s (O'Rou ke, 1987), que
acompanha uma expedição de gues s eu opeus pelos meand os de um io na Papua No a Guiné,
onde encon am hos s indígenas com quem ba ganham p eços pa a comp a a e a os.
Po um lado, es e esquema in e p e a i o con ibuiu pa a uma comp eensão mais
di e si icada das mo i ações que le am u is as a iaja , indo além da busca po au en icidade.
Con udo, a dico omia ine en e à análise do enómeno u ís ico pela ó ica das di e enças en e
hos s (‘an i iões’) e gues s (‘con idados’) mos a-se insu icien e - ou mesmo, equi ocada - na
desc ição da mul iplicidade de condições, iden idades, mobilidades, discu sos e ep esen ações
que se jus apõem nas expe iências i idas em luga es u ís icos con empo âneos. Um
p op ie á io de alojamen o local que não mo a e nem nasceu no luga onde o imó el se
encon a, pode se conside ado um an i ião (hos )? Um iajan e hospedado na casa da p óp ia
amília du an e uma isi a de é ias à cidade onde c esceu, se ia conside ado con idado ou
an i ião? Hoje, há um g ande con ingen e de iagens mo i adas pela isi a a amigos e pa en es
em ou as localidades
24
. G i in e Dimanche (2017) pon uam que, con o me as cidades ab igam
23
T adução do au o . No o iginal, o echo na ín eg a em inglês: “This mi acle o consensus ha anscends
na ional bounda ies es s on an elabo a e se o ins i u ional mechanisms, a wo old p ocess o <sigh
sac aliza ion> ha is me wi h a co esponding < i ual a i ude> on he pa o ou is s”.
24
Es e p opósi o de iagem é conhecido em mui os meios pela sigla VFR (Visi ing F iends and Rela i es). A
O ganização Mundial do Tu ismo (OMT/UNWTO), po exemplo, u iliza es e indicado em seus le an amen os.
Ve : UNWTO, “In e na ional Tou ism Highligh s - 2020 Edi ion”, p. 9, publicado em janei o de 2021, ISBN:
19
cada ez mais imig an es e esiden es ansi ó ios (expa iados, es udan es in e nacionais,
nómadas digi ais
25
…) que, po sua ez, hospedam amigos e amilia es, a dis inção en e
an i iões e isi an es o na-se menos pe inen e. Hos s e gues s podem habi a os mesmos
co pos, inclusi e ao mesmo empo, e com agencialidades di e sas. São papéis con ex uais a se
obse a , e não modos de se a se de ini .
A c í ica à ipologia que ca ego iza os a o es sociais p esen es em luga es u ís icos de
o ma biná ia (em ca ego ias cole i as como hos s e gues s, mas ambém Sul e No e globais,
ou o as ei os e locais) ambém pode se ei a em de esa do p óp io obje i o cien í ico da
disciplina an opologia ao in es iga o enômeno do u ismo. É a o que, em ou os empos, a
p esença de u is as no "seu" e eno inquie ou an opólogos. Já nos anos 1960, alguns
no i ica am em ex os a in usão de u is as em seu campo de obse ação, ainda que o oco
p imá io da in es igação não osse p op iamen e o u ismo (Lei e & G abu n 2009, 38).
Segundo uma moldu a concep ual dualis a, pa a o mo ado de um luga u ís ico, o que di e i ia
o an opólogo de um u is a? Não se iam ambos o as ei os que, uma ez de ol a a seus locais
de o igem, desc e em com as p óp ias pala as aquilo que i am nos luga es que isi a am?
Sob e udo a pa i dos anos 1980, as ce ezas ca egó icas de ou o a na an opologia
passa am a con i e com as ozes alheias di e sas que ecoa am pelo mundo. A i agem
e lexi a o nou incon o ná el o pa adoxo de que es amos semp e a esc e e cul u almen e
quando nos p opomos a desc e e ou a cul u a. Es e p ocesso e e impac os ambém nos
es udos an opológicos do u ismo. Como apon am Lei e e G abu n (2009, 37-38), oi quando
começa am a su gi pesquisas em des inos u ís icos localizados em ”países icos”, en e g upos
de u is as p oceden es de ”países pob es”, e não somen e conduzidas po pesquisado es da
Eu opa e Es ados Unidos. Foi ambém quando alguns an opólogos, como C ick (1989) e
E ing on e Gewe z (1989), publica am e lexões que seguem sendo e e enciadas, sob e como
a disciplina abo da a o u ismo a é en ão, e como pode ia passa a abo da .
Na passagem pa a os anos 1990, alguns au o es passa am a dosa concei os sociológicos
e an opológicos pa a eo iza sob e os impac os no u ismo das ans o mações sociocul u ais
desencadeadas pela pós-mode nidade. En e es es, o abalho de John U y ganhou bas an e
no o iedade. Em The Tou is Gaze, U y (2002) aduziu de Foucaul o concei o de gaze pa a
978-92-844-2244-9. Disponí el em: h ps://www.e-unw o.o g/doi/book/10.18111/9789284422456 [úl ima
consul a em 24/10/2021].
25
Tido como um enómeno ecen e, que en ol e ques ões de classe, es ilo de ida, mobilidades e elação com o
abalho, o nomadismo digi al em aos poucos sendo in es igado pelas ciências sociais em Po ugal. Exemplos
dis o podem se encon ados nos abalhos académicos de Gomes (2020) e Souza (2020).
20
analisa a p á ica u ís ica como uma a i idade de laze undamen almen e isual. É a sa u ação
de imagens a aen es ao olha encon adas em luga es u ís icos, pa a os quais u is as se
deslocam e onde pe manecem po uma ex ao diná ia es adia limi ada, o que os di e encia dos
seus luga es de esidência e abalho. Assim, "O olha do u is a é di ecionado pa a aspec os da
paisagem e da cidade que os sepa am da expe iência co idiana. Tais aspec os são is os po que
são conside ados, em ce o sen ido, o a do comum" (U y 2002, 3). Um conjun o de
p o issionais do se o u ís ico se enca ega en ão de cons an emen e p oduzi (e ep oduzi )
no os obje os pa a con emplação isual dos iajan es. É uma linha de aciocínio que pode se
emp egada an o pa a in e p e a a inaugu ação de no as a ações em uma cidade (como no
chamado "E ei o Bilbao"
26
ou, em Lisboa, como na abe u a do MAAT e do Time Ou Ma ke
na década passada), quan o o edesenho de seu espaço público a a és de in e enções u banas
(como nas e o mas no La go do In enden e e na Ribei a das Naus emp eendidas ambém na
úl ima década). Ainda que emp eendimen os como es es não enham ins u ís icos anunciados
o malmen e, po ca i a em o gaze, é ine i á el que con ibuam pa a a ai no os luxos de
u is as ao e i ó io onde se localizam.
U y p oje a a que a sepa ação en e as es e as da o ina o diná ia e da expe iência
ex ao diná ia de laze u ís ico es a ia adada a se dissipa po osmose. A des-di e enciação
en e es es dois mundos
27
que a mode nidade man i e a di o ciados ende ia a se o na uma
ca ac e ís ica hegemônica da sociedade con empo ânea. O im de qualque al e idade pe cebida
no u ismo oco e ia "(...) não po exaus ão, mas po diluição, po ala gamen o do ou is gaze
a quase odas as pe o mances quo idianas" (Sil a 2004, 9). Po ângulos di e en es,
MacCannell e U y enxe ga am nos compo amen os do u is a me á o as do homem pós-
mode no. Pa a MacCannell, es e es a ia semp e em busca de uma e dade genuína em luga es
e idas que não lhes são amilia es. Pa a U y, es e se ia um consumido semp e á ido po
no as imagens. Homem, sim, e não se humano. Em seus esc i os, o u is a e a alguém sem
gêne o, de inido pela busca po au en icidade ou pela p á ica do gaze. Ambos ecebe am
c í icas, mas sob e udo U y (como em P i cha d & Mo gan 2000; ou em Jo dan & Ai chison,
2008), po não ponde a como uma mesma expe iência u ís ica é i enciada de o mas
dis in as con o me o co po nela p esen e. "O gaze do u is a é baseado em um imaginá io
26
Ve jo nal The Gua dian (2017a), "The Bilbao e ec : how F ank Ghe y's Guggenheim s a ed a global
c aze”. Disponí el em: h ps://www. hegua dian.com/a anddesign/2017/oc /01/bilbao-e ec - ank-geh y-
guggenheim-global-c aze [úl imo acesso em 24/10/2021].
27
Onde se o na ia habi ual abalha du an e as é ias e dedica -se ao laze em meio à o ina diá ia, po exemplo.
Tal des-di e enciação en e es es mundos an es an agónicos ica e iden e na a i idade p o issional de alguns
nômades digi ais (nomeadamen e, os chamados digi al in luence s). A esc e e na década de 1990 imaginando
um cená io u u o, U y pode e p ognos icado umas an as semelhanças com a ac ualidade.
21
masculino, de classe média e impe ialis a o nado pe igosamen e uni e sal", sin e izou Pons
(2003, 57). Ainda assim, o concei o de gaze pe maneceu um e e encial eó ico pa a es udos
an opológicos do u ismo. Seja em elei u as concep uais (Maoz 2006; Holloway e al 2011;
Neill, Johns on & Losekoo 2016), em sua aplicação e in e p e ação po au o as de
posicionalidades di e sas (Tan & aba baka 2016), pela sua adap ação a campos emá icos e
eco es especí icos da ealidade (Höcke e al 2018), ou pela descons ução de seu
ocula cen ismo ine en e, po au o es que apon a am pa a a mul isenso ialidade da expe iência
u ís ica (Agapi o e al 2013; e a começa pelo p óp io U y [2011], nas e isi ações que ez
em sua ob a). Es es exames e e isões e elam alguns dos caminhos ilhados pela an opologia
nas suas incu sões mais ecen es pelo u ismo.
Como diagnos icam Cohen e Cohen (2019), as i agens ilosó icas pelas quais as
ciências humanas êm na egando nas úl imas décadas co em ambém po meio dos es udos
do u ismo. Os au o es apon am alguns ópicos que êm indo à ona com maio des aque nes a
conjun u a, que po cu sos di e sos en ol em o pa adigma pós-mode no de e u a dico omias
e essencialismos como modo de in e p e a o mundo. En e es as e en es es ão os impac os
emocionais e as expe iências senso iais en ol idas no u ismo; a impo ância das coisas
ma e iais (ou a o es não-humanos) na p odução e manu enção de p á icas u ís icas; as elações
de gêne o que pe meiam pesquisas sob e o u ismo; além dos undamen os ilosó icos e
ques ões é icas que in eg am es e campo in e disciplina de es udos.
Em um ex o já nem ão ecen e, Pons sin e izou boa pa e des as linhas em um quad o
concep ual condizen e com a conjun u a his ó ica globalizada em que seguimos i endo,
complexa e luída como ambém é o enómeno u ís ico. A an opologia e as ciências sociais
como um odo de em es udá-lo po que se a a de uma expe iência humana impo an e no
con ex o con empo âneo. É um componen e isi elmen e p esen e do ecido social ac ual, que
e es e luga es, sujei os e ideias que se encon am em mo imen o pelos ópicos, me idianos e
cí culos. O au o comp eende o u ismo como “(…) um modo p á ico de nos en ol e mos com
o mundo, c ia mos conhecimen o e in e agi mos com o meio ísico (…) “(Pons 2003, 47)
28
.
Sendo uma p á ica humana, o u ismo p oje a espaços e pelos espaços é moldado. Dá e ecebe
signi icados. É sujei o e obje o. “As p á icas u ís icas são semp e elacionais, in eg adas em
á ias edes di e en es e semp e em p ocesso” (ibidem, 59)
29
. O u ismo é uma manei a de
28
T adução do au o . No o iginal, o echo na ín eg a em inglês: “My claim is ha ou ism is a p ac ical way
h ough which we a e in ol ed in he wo ld, we c ea e knowledge and in e ac wi h he physical en i onmen ; in
Heidegge ian e ms, a way o being-in- he-wo ld, o dwelling in i ”.
29
T adução do au o . No o iginal, em inglês: “Tou is p ac ices a e always ela ional, in eg a ed in se e al
di e en ne wo ks and always in p ocess”.
22
habi a (dwelling) o mundo. Na p á ica, du an e o empo da es adia, iajan es es ão a esidi no
luga que isi am, e pa a Pons es a pe cepção não em uma cono ação es á ica. As necessidades
mais básicas e p á icas mais o diná ias de um sujei o (alimen a -se, do mi , ab iga -se,
elaciona -se) não são ex ao dina iamen e suspensas pa a que se i a uma ou a o ma de ida
quando calçadas as sandálias de u is a. Habi a é se en ol e de algum modo, subje i a e
cole i amen e, com expe iências con ex ualizadas e ep esen ações no imaginá io. Implica em
es a de co po senso ialmen e p esen e num e i ó io, in e agi com ou as pessoas no dia-a-
dia, cons ui e ans o ma sabe es. Embo a ambém os englobe, o u ismo não se esume a
e en os ex ao diná ios e dimensões ep esen acionais. Enquan o enómeno social, é um
conjun o di e so de p ocessos elacionais, a a és dos quais ambém a sociedade é
con inuamen e ei a, e ei a e azedo a. Logo, Pons p opõe “des-exo iciza ” os es udos do
u ismo, e ocá-los nas p á icas humanas mais i iais, o dina iamen e si uadas no espaço.
Como o co idiano de um anspo e público u bano, po exemplo, em que os encon os com o
u ismo são pa e de o ina em andamen o.
Os pa adigmas con empo âneos de uma an opologia e lexi a pedem uma pe cepção
do enómeno u ís ico não como uma en idade alienígena a um luga , que a e issa a cada no a
es ação com uma coesão p óp ia e coe ência de ini i a, mas sim como uma p esença que é
pa e da paisagem cul u al - nunca concluída, diga-se - de qualque e i ó io. Mesmo sua
ausência, como se iu no cená io pandêmico de 2020, ambém molda es a paisagem. Se “(…)
a an opologia é uma disciplina que ope a ime gindo no p ocesso da ida e acompanhando-o”
(Ingold 2019, 67), en ão ainda que possamos (e de emos) c i ica impac os socioambien ais da
a i idade u ís ica, dis ingui sua p esença de uma paisagem, “ou o izá-lo”
30
, é des ia -se de
sociabilidades ele an es, po que o inei as, expe imen adas po habi an es do século XXI. A
p opos a sob e a mesa hoje, a qual enho in enção de segui , é obse a a ida sendo i ida
con o me as con ingências se ap esen am, desc e e es es con ex os o mais densamen e
possí el, deixando anspa ece as pe spec i as ado adas, e cons uindo in e p e ações do modo
as oco ências po mim obse adas podem se in e - elaciona com sis emas e pad ões mais
amplos pe cebidos no ho izon e.
30
Aqui se emp ega es e e bo como uma li e adução do e mo o he ing, en endido como uma manei a de a a
indi íduos ou g upos especí icos como se não pe encessem à sociedade em que se encon am.
23
2.3 Reg esso a um p esen e mo ediço
No con ex o his ó ico pós-indus ial, de um sis ema mundial in e conec ado de polí ica
econômica capi alis a, enómenos sociocul u ais se ep oduzem de o ma líquida (Bauman
2000), em escapes anslocais descon ínuos (Appadu ai 1996), com uma elocidade de
ci culação, escala de alcance e po encial de ade ência ampliados pelas ecnologias digi ais de
in o mação e comunicação. Tais p ocessos não êm seus luxos ci cunsc i os às on ei as
( e i o iais, empo ais, sociais…) de g upos especí icos com que são associadas
31
, podendo
inclusi e da o igem a no as localidades, izinhanças, con ex os; no os ecipien es e
eplican es. Daí as incu sões na in e disciplina idade eó ico-analí ica, pa a p oduzi desenhos
de pesquisa mais a inados com a di e sidade de encon os en e con e âneos es anhos e
o as ei os amilia es que se obse a uma ez saindo a campo. Daí, ambém, eme ge uma
p á ica an opológica mais pe ipa é ica, que ao in és de en inchei a -se num e i ó io
de e minado e obse a ao edo de si mesma, acompanha seu obje o de es udo em caminhos
habi uais e o ui os, como o ma de ap ende o máximo sob e ele. Nes e cená io, “Segui
empi icamen e o io de um p ocesso cul u al em si impulsiona o mo imen o em di eção a uma
e nog a ia mul i-si uada” (Ma cus 1998, 80)
32
, p opos a me odológica que es e es udo p ocu a
expe imen a . O in ui o é calib a obse ações e análises ei as em um único luga “(….) com
suas implicações pa a o que acon ece em ou o local elacionado, ou ou os locais, mesmo que
os ou os locais possam não es a den o da es u u a do p oje o de pesquisa ou da e nog a ia
esul an e” (ibidem, 95)
33
. No caso, o único luga é o eléc ico 28, que, pa adoxalmen e,
ambém es á em mo imen o.
É po comp eende a ealidade con empo ânea como “mo ediça”, e po busca a es as
com al e idades acadêmicas pa a p opo in e p e ações mais pe inen es às complexas
dinâmicas da sociedade ac ual - u ismo aí incluído -, que, po im, es e es udo em ambém
31
Como obse ado em anos ecen es nas mani es ações em localidades geog á icas di e sas do MeToo, do Black
Li es Ma e , ou da G e e Climá ica Global. São exemplos no campo dos mo imen os sociais con empo âneos à
p odução des e ex o. Mas o mesmo quad o analí ico pode ia en oca ou os e enos da ida ac ual. Quando
olhamos pa a compo amen os elacionados ao consumo em massa de ecnologias de in o mação e comunicação,
emos ou os exemplos angí eis. Sejam memes inco po ados à cul u a pop após i aliza em po aplicações
mó eis, a ansmissão ao i o pela in e ne de lançamen os de ogue es pa ocinados po emp eendedo es
bilioná ios, ou o sucesso in e nacional de p oduções audio isuais sul-co eanas.
32
T adução do au o . No o iginal, em inglês: “Empi ically ollowing he h ead o cul u al p ocess i sel impels
he mo e owa d mul i-si ed e hnog aphy.”
33
T adução do au o . No o iginal, o echo na ín eg a em inglês: “Indeed, wha goes on wi hin a pa icula locale
in which esea ch is conduc ed is o en calib a ed wi h i s implica ions o wha goes on in ano he ela ed locale,
o o he locales, e en hough he o he locales may no be wi hin he ame o he esea ch design o esul ing
e hnog aphy”.
24
en e seus é ices eó icos dois concei os que não são exclusi idade da an opologia, expos os
a segui .
Embo a ideias elacionadas às mobilidades enham uma aje ó ia ex ensa na
an opologia, como apon a Noel Salaza , a “escola clássica” endeu a igno á-las, ou a á-las
como excepcionalidades em sociedades que e am in e p e adas como delimi adas po seus
e i ó ios (Salaza 2018, 156). Hoje, os es udos das mobilidades já le am com a possibilidade
de i em a se uma disciplina em si, dada a p og essi a p odução acadêmica anco ada nes e
pa adigma in e disciplina
34
. John U y, au o de The Tou is Gaze, em sua longe a e p olí ica
p odução académica, ambém se mo eu pelos es udos das mobilidades (U y 2007; Shelle &
U y 2006).
Aqui, o concei o de mobilidades é emp egado com e e ência à ob a do geóg a o
b i ânico Tim C esswell. O au o az uma dis inção en e mo imen o e mobilidade, que se á
desemb ulhada nes e pa ág a o e no p óximo, pois são componen es analí icos impo an es
des e es udo. Mo imen o é qualque o ma de deslocamen o en e um pon o A e um pon o B,
seja qual o a escala da ação e a na u eza de seus p o agonis as. C esswell não limi a o concei o
a a o es sociais humanos. T a a-se do ac o mecânico, da ação ciné ica, po ém, sem seu en o no.
A ideia de mo imen o é abs a a e descon ex ualizada. É um modelo didá ico, ca esiano,
compos o apenas po e o es empo ais-espaciais. Um mo imen o le a an o empo pa a
pe co e al espaço, ou, em al empo, pe az an o de espaço. Já o concei o de mobilidades
en ol e, pa a além de um deslocamen o ísico qualque , as pe cepções a ibuídas a es e
mo imen o po seus agen es e po ou em. Se mo imen o é somen e signi ican e, mobilidades
são signi ican e com signi icado. A depende das elações de pode em jogo no con ex o
(polí ico, econômico, ideológico, his ó ico, mediá ico, pandêmico…), assim como de
ca ac e ís icas iden i á ias dos a o es em ação, signi icados cul u ais di e sos podem se
a ibuídos a um mesmo mo imen o
35
. E, po an o, sen idos di e sos de mobilidade podem se
dep eendidos dele. Uma mesma iagem de eléc ico cujo emba que oco e na pa agem A e
34
Um exemplo p óximo ao campus onde es a in es igação es á sediada encon a-se na Associação Eu opeia de
An opólogos Sociais (EASA), que con a com um g upo de abalho ocado nas in e conexões en e an opologia
e mobilidades. Ve ANTHROMOB, em: h ps://www.easaonline.o g/ne wo ks/an h omob/ [úl ima consul a em
17/10/2021].
35
É assim que o mo imen o de um espe ma ozoide a é a ecundação de um ó ulo pode se en endido como
milag e di ino e como condenação à ulne abilidade. A a essia do Ma Medi e âneo po um ba co apinhado
de pessoas pode se pe cebida como in asão es angei a e como a o de sob e i ência. Ou, ainda, a ápida
ansmissão en e hospedei os no mundo odo de um í us ag essi o pode se en endida como pandemia, mas
ambém como ake news. Em ou a ace do mesmo polied o, o e mo “pessoas com mobilidade eduzida” ambém
pode se elusi o do concei o. A exis ência de obs áculos ao mo imen o ísico de pessoas az consigo signi icados
socialmen e di e enciados. Bas a pensa mos na di e ença do signi icado de “qualidade de ida” pa a pessoas com
e sem mobilidade eduzida.
25
desemba que na pa agem B pode signi ica um mo imen o pendula co idiano (o pe cu so ao
local de abalho, pa a busca c ianças na escola, pa a aze comp as no me cado…); pode
signi ica uma jo nada de abalho (pa a quem o conduz na posição de gua da- eios, ou pa a
um pesquisado que enha ali seu campo de obse ação…); e pode ambém signi ica um
p og ama de laze (onde o eléc ico é des ino inal, e não somen e meio de anspo e).
A ançando aqui na p ojeção de pon es in e disciplina es - en e C esswell e Tsing, no caso -,
en endo que mobilidades são p ocessos iccionais. São zonas espaço- empo ais onde
signi icados globais di e sos se encon am (com sob eposições, negociações, in e câmbios,
conce ações, con li os…) e no os compos os cul u ais podem i à luz. Es uda luxos
sociocul u ais con empo âneos como os do u ismo, e in e p e a os signi icados di e sos
associados a eles, a gumen o, con ibuem pa a mo e a an opologia “(…) do es udo de
cul u as delimi adas e en aizadas (como as sociedades ixas e delimi adas da sociologia) pa a
o es udo de o as - a manei a como iden idades são p oduzidas e pe o madas a a és da
mobilidade, ou, mais p ecisamen e, de iagens” (C esswell 2006, 44)
36
.
Sendo es a in es igação ocada nos encon os en e mobilidades de signi icados
di e sos no co idiano de Lisboa, endo o eléc ico 28 em mo imen o como campo de
obse ação, ainda assim é p eciso escla ece quais aspec os e iden es des as mobilidades se ão
aqui desc i os e in e p e ados. Pa a an o, a ob a de Michel de Ce eau, cujo ende eço
disciplina de o igem em alguma localização inexa a en e a sociologia e a iloso ia, o e ece
ângulos de análise bem posicionados. Com ce ca de meio século de ida, sua cons ução eó ica
em se p o ando esilien e en e às in empé ies de conjun u as his ó icas subsequen es, sendo
bas an e e e enciada nas e lexões despe adas pela chamada i agem pe o ma i a
37
. A ob a
de Ce eau o e eceu ainda condições a ejadas pa a a p á ica da esc i a e nog á ica que se
desdob a á logo mais à en e nes e abalho, uma ez que me depa ei com um dilema sob e
como menciona o ou o em ex o. O isco e a de cai num equí oco já bas an e amilia à
an opologia. Em que, a pa i da obse ação de um agi ou aze (um compo amen o ou
36
T adução do au o . No o iginal, o echo na ín eg a em inglês: “To hink o an h opology as abou a el and
ansla ion changes he ocus o he discipline om he s udy o bounded and oo ed cul u es (like sociology’s
ixed and bounded socie ies) o he s udy o ou es— he way in which iden i ies a e p oduced and pe o med
h ough mobili y o , mo e p ecisely, a el.”
37
Há (uma ou) á ias i agens e c ises i enciadas pelas ciências humanas na passagem do século XX à pós-
mode nidade. Re lexi a, ep esen acional, senso ial, pe o ma i a... As alcunhas podem a ia con o me a escala
de análise, a disciplina que lhe dá oupagem, a língua em que se esc e e. Mas, em se a ando especi icamen e do
e mo “ i agem pe o ma i a”, desconheço exposição mais cla a e bem undamen ada do que a ealizada po
Bu ke (2005), com especial oco pa a a disciplina da His ó ia.
32
A o ina de obse ação nes e pe íodo a anca a da pa agem do eléc ico 28 no Ma im
Moniz. Na época, eu esidia em Ca ca elos, na Á ea Me opoli ana de Lisboa, e pa a aquela
pa agem me di igia u ilizando o sis ema de anspo e público (comboio e depois me o) ou,
em algumas ezes, au omó el pa icula , que deixa a es acionado em ias públicas de bai os
adjacen es (como A oios). Vencido o deslocamen o a campo e uma ez es ando no Ma im
Moniz, no diá io eu oma a no as do meu ho á io de chegada e do núme o de pessoas p esen es
na ila da pa agem. En ão, eu en a a no inal da ila e agua da a o eléc ico chega . A cada
isi a, p ocu ei cump i duas iagens po aje o cen o-bai o e bai o-cen o
45
.
Os luga es onde me acomodei o am a iados, en e assen os indi iduais e duplos
(es es, compa ilhados e a sós), à di ei a e esque da, à en e e ao undo do eículo. Escolhido
o luga , man endo um cade no, uma cane a e elemó el pessoal ao alcance, egis ei em no as
as alas, in e ações e usos de obje os, que i e ou i ao meu edo du an e as iagens. Tan o do
ambien e in e no u bulen o do eléc ico - que, em mo imen o pelas uas de Lisboa, emula
seu co po, az uídos e po ezes em o co edo cheio de passagei os -, quan o do obse ado
po suas janelas.
Em algumas iagens, pe maneci apenas a obse a , oma no as e egis a imagens.
Hou e ezes em que ou os u en es, isi elmen e u is as, me abo da am pa a pedi
in o mações. Em ou as ocasiões, p o-a i amen e p ocu ei inicia con e sas com alguns u en es
e, em poucos segundos, explica meu p opósi o. Foi assim que no espaço in e no do eléc ico
i e ês con e sas in o mais mais longas com u is as es angei os. Não o am g a adas: i ei
no as no diá io enquan o con e sá amos. Dada a possí el pe manência cu a de qualque
passagei o, os uídos do eléc ico, o uso de másca as e a ecomendação de dis anciamen o,
ambém ado ei nes es casos a á ica imp o isada de pedi um e-mail de con a o pa a “não oma
seu empo”, e en a en e is as po e-mail em ou o momen o. Algumas consen i am, ano ando
de p óp io punho seu con a o em meu cade no. De se e pessoas ( ês u is as, ês esiden es de
Lisboa, uma gua da- eio) que me concede am seus e-mails, apenas duas (um esiden e e a
gua da- eio) acaba am po me da en e is as emo as pos e io men e.
Ci ações de e cei os inco po adas nes e ex o, quando não êm como on e as con e sas
in o mais em que ui pa e, as en e is as a mim consen idas pa a ins des e p oje o, ou
con eúdos acessí eis a qualque pessoa na in e ne , o am exp essas “em público”, de o ma
audí el a ou os u en es do eléc ico. Se não o am di ecionadas a mim, pode iam se
45
Do Ma im Moniz a é os P aze es; dos P aze es a é o Ma im Moniz; e, depois, mais uma epe ição des es dois
echos. O pe cu so comple o da ca ei a 28E, com 34 pa agens, es á disponí el no sí io ins i ucional da Ca is,
em: h ps://www.ca is.p / iaje/ca ei as/28e-ma im-moniz-p aze es / [úl imo acesso em 31/10/2021].
33
pe cebidas po qualque pessoa ali p esen e, en e as quais me encon a a quando as egis ei.
Nes es casos, seus au o es só são desc i os em e mos pe o ma i os, e não de o ma a expo
suas iden idades. Man endo a mesma di e iz, de não expo iden idades pessoais ou con e sas
p i adas alheias, iz o os e ídeos pa a egis a isualmen e compo amen os e dinâmicas
isí eis a qualque u en e. E, po ezes, ambém, me pe cebi sendo egis ado em o os e ídeos
ei os po ou os passagei os do eléc ico; sob e udo, u is as.
A “p imei a aga” de minha pesquisa comp eendeu um pe íodo de qua o meses, en e
julho e no emb o de 2020, em que o am ealizadas 20 incu sões a campo. No o al, o am
3143 minu os in loco, pouco mais de 52 ho as, medidas con o me os ho á ios de início e
ence amen o das isi as ano ados em diá io.
Em meados de no emb o de 2020, po ém, suspendi o abalho de campo. Foi uma
decisão pessoal omada em i ude da si uação pandêmica em Po ugal, que naquele momen o
se ag a a a em núme os e medidas es i i as de ci culação
46
. Me i dian e de um dilema é ico
en e a con inua a in es igação seguindo os mesmos p ocedimen os em campo. Con o me
ela ei po e-mail na ocasião a minha o ien ado a, o eceio e a menos de con ai o í us
(embo a sim, ambém, em pa e), e mais po eme con ibui de alguma o ma pa a p opagá-
lo. Não es á amos ainda em lockdown comple o, como i ia a oco e nos p imei os meses de
2021, e não e a exa amen e ilegal sai à ua. Mas, endo em is a o meu caso, man e os mesmos
p ocedimen os me pa ecia i con a a “é ica do cuidado” com o ou o.
Sendo o dis anciamen o ísico demandado pelas au o idades como es o ço indi idual
pa a con ibui com o bem comum da saúde pública, busca ap oximação e in e ação com
ou as pessoas no espaço público pa a p oduzi um ela o e nog á ico não se ia mesquinho de
minha pa e? P ossegui com o mesmo plano (pa icula , meu) de in es igação em meio àquelas
equisi adas mudanças nas sociabilidades, não ans e i ia a base cien í ica de meu es udo pa a
um ambien e ansg esso , jus amen e, dos compo amen os ecomendados pelas au o idades
cien í icas? Minha obse ação es a ia sendo pa icipan e no negacionismo que an os p ejuízos
êm causando à ciência? Se aqueles que obse ei no eléc ico 28 a aze u ismo na conjun u a
de 2020 já pode iam se conside ados “ u is as esis en es a c ises” (Hajibaba e al 2015),
quando no inal do ano Po ugal en ou em um momen o c í ico da pandemia e a ci culação no
espaço público passou a se ecomendada somen e pa a quem não a pudesse e i a , as
(supos as) pessoas que obse asse a aze u ismo se iam esis en es ou negacionis as da c ise?
46
A p óp ia Uni e sidade No a de Lisboa, onde es e p og ama de mes ado é cu sado, e e seus campuses
echados à isi a, e se iços de a endimen o (como já inha oco endo com os le i os), o e ecidos somen e de
o ma emo a pela in e ne .
34
E ha ia ainda um ques ionamen o epis emológico: a manu enção da mesma o ina de
obse ações de campo p oduzi ia um es udo sob e a con i ialidade en e as mobilidades
di e sas que no eléc ico se encon am... ou sob e a possí el impossibilidade de “ ica em casa”
de quem eu obse asse?
Foi sem e sanado es as dú idas que deixei de aze incu sões à ca ei a, e passei a
segui meu obje o de es udo po ou os aje os.
3.3 “Segunda aga”
A pa i do momen o em que deixei de i a campo (e, de modo ge al, po meses não sai
de casa), as ecnologias digi ais passa am a se o e eno cen al po onde es a pesquisa
caminhou. P incipalmen e, no sen ido de es abelece con a o com possí eis in e locu o es.
Ainda em no emb o de 2020, me candida ei no canal de ec u amen o do sí io da Ca is
a abalha como gua da- eio na emp esa. Não oi com a expec a i a de se con ocado pa a
num p ocesso sele i o e, quem sabe, muda de ca ei a, mas de en a ob e um pon o de con a o
qualque com o pe cu so de quem lá abalha. Nunca ecebi e o no.
Foi ao longo des e pe íodo, comp eendido en e no emb o de 2020 e junho de 2021,
que as en e is as no âmbi o des a pesquisa o am ealizadas. Todas elas o am concedidas
gen ilmen e pelos en e is ados, e de alguma o ma enham con ibuído pa a que eu ap endesse
mais sob e meu obje o de es udo. Nem odas, con udo, êm aspas ci adas nes e ex o inal. O
que não exclui a necessidade de e e i-las nes e capí ulo, além da possibilidade de i em a se
inco po adas em possí eis desdob amen os des a e nog a ia.
No o al, o am ei as se e en e is as não-di ec i as, em momen os dis in os des e
in e alo, com a o es sociais di e sos no que diz espei o a suas elações com o eléc ico. Em
no emb o de 2020, a a és de mensagens de áudio ocadas em uma aplicação de elemó el,
en e is ei um dos passagei os que ha ia abo dado no p óp io eléc ico du an e minha
“p imei a onda”. Com a gua da- eio que ambém ha ia acei ado se en e is ada após eu
abo dá-la em campo, a en e is a oco eu a a és de ocas de e-mails di e sos, sendo concluída
somen e em maio de 2021. Em dezemb o de 2020, pelo o mulá io de con a o no sí io
ins i ucional da Ca is, pedi uma en e is a com um po a- oz da emp esa, que acabou po
oco e , ia elecon e ência, em janei o de 2021. Seguindo es e mesmo passo a passo, em
e e ei o, en e is ei uma po a- oz do Tu ismo de Lisboa, e, em ab il, o c iado do canal de
con eúdo sob e iagens Wol e s Wo ld.
35
Pouco an es de minha pesquisa passa da “p imei a onda” pa a a “segunda”, eu ha ia
en iado uma solici ação pa a en a em um g upo do Facebook compos o po en usias as dos
eléc icos lisboe as
47
. Após se acei o, man i e uma o ina de isualiza odo con eúdo no o
que ali osse publicado. Nenhuma publicação des as oi aqui examinada, mas a a és delas
iden i iquei po enciais in e locu o es, com quem en ei em con a o po mensagens di e as
ese adas. Dois de seus memb os, pa a quem expliquei o eo de minha pesquisa, acei a am
se en e is ados. Ambas en e is as oco e am em maio. Com João me encon ei
p esencialmen e, e con e samos po ce ca de duas ho as na egião da G aça, numa pas ela ia
em en e à ca ei a do 28. Com Paulo a con e sa acon eceu po ele one, du an e ce ca de 30
minu os, em meio a uma pausa no expedien e do es au an e do qual é dono, localizado na
Baixa.
Pesquisando pela in e ne , cheguei ao blog Diá io do T ipulan e
48
, dedicado a c ônicas,
causos e dicas sob e o co idiano dos eléc icos e au oca os em Lisboa. Ra ael, seu c iado e
esponsá el, abalha como gua da- eio da Ca is. En ei em con a o com po e-mail e, em
maio, ambém po e-mail, ele espondeu a uma sé ie de pe gun as que lhe en iei. Em si, as
publicações do blog não o am aqui analisadas, mas ize am pa e das lei u as ealizadas.
Po im, pa alelamen e es as inicia i as “ emo as”, em janei o de 2021, ambém iz uma
isi a ao Museu da Ca is, localizado em Lisboa. Naquele momen o, es a a em igo o Es ado
de Eme gência em Po ugal, com exceções pon uais a alguns p og amas sociais (como es e).
Fui o único isi an e do museu o empo odo que lá passei. Foi ambém em meio à “segunda
onda”, e pa alelamen e, que dei início ao a amen o das in o mações ge adas em minhas
obse ações de campo, e início da esc i a e nog á ica.
3.4 Ques ões esc i as
Em meus cade nos, as no as de campo segui am o dem c onológica. Em odas, p ocu ei
inco po a a localização do sucedido, nomeadamen e em elação às pa agens da ca ei a 28.
Manusc i os o am pos e io men e digi alizados e, jun o com os egis os audio isuais,
compilados con o me o núme o sequencial da isi a e a da a em que oco eu.
47
In i ulado “Lisboa e os seus eléc icos”, o g upo exis e desde 2018 e hoje con a mais de ês mil memb os. Sua
o ina p incipal é compos a pelo compa ilhamen o de imagens, a uais ou his ó icas, dos eléc icos lisboe as. O
g upo pode se acedido po qualque pessoa, a a és do:
h ps://www. acebook.com/g oups/188991515168528 [úl imo acesso em 31/10/2021].
48
O blog pode se acedido em: h p://www.dia iodo ipulan e.p / [úl imo acesso em 31/10/2021].
36
As ano ações do diá io o am en ão eag upadas con o me sua localização na ca ei a
e o sen ido do mo imen o em que o eléc ico se encon a a, da seguin e o ma: 1-) No as da
pa agem Ma im Moniz; 2-) No as do aje o de ida; 3-) No as da pa agem P aze es; 4-) No as
do aje o de ol a. Os capí ulos e nog á icos que começam a segui de ce a o ma espelham
es as linhas di isó ias açadas de pa ida. Os dois g upos de no as co esponden es aos aje os
de ida e ol a o am ambém subdi ididos, de aco do com as pa agens espec i as em que cada
obse ação oco eu. Após es a eo ganização, pa a cada pa agem da ca ei a, ha ia um
conjun o de egis os elencado.
Foi a análise des e ma e ial, egis ado e a ado po mim, que se iu de base pa a a
desc ição e nog á ica ap esen ada nos p óximos capí ulos, que en eco ei com depoimen os
cole ados nas en e is as (e depois ansc i os), e, po im, cos u ei com con eúdos p oduzidos
po ou em, cole ados em sí ios ins i ucionais o iciais, ma é ias na imp ensa e publicações
abe as em edes sociais. Ao esc e e , p ocu ei de algum modo inco po a na o ma o obje o
eó ico das mobilidades. O in en o des e e nóg a o oi aze a e nog a ia se desloca pela
ca ei a 28, assim como se mo imen a o eléc ico, con o me es emunhei enquan o ali es i e
no papel de passagei o-obse ado .
Como sín ese des e p ocesso, a esc i a e nog á ica que p oponho em um pendo
con essional (Madden 2010, 163), em p imei a pessoa, e não p e ende ocul a meus ieses
subje i os. Mui o pelo con á io. Ac edi o, sim, é que inco po ando as obliquidades de quem
ela a no ela o da expe iência de pesquisa, ainda que po ezes co a o isco de soa i ônico,
ap esen o uma desc ição de uma paisagem cul u al com a qual po enciais lei o es, não somen e
académicos, possam se iden i ica . É ambém com o p opósi o de legibilidade pa a além dos
domínios acadêmicos que em algumas passagens a linguagem ex ual encon ada em blogs de
iagens oi emp egada como a i ício. Exemplos dis o são os usos do e mo “des ino” pa a
e e i um luga , “a ação impe dí el” pa a ca ac e iza um pon o u ís ico, ou “like a local”
pa a suge i a possibilidade de uma expe iência emic.
3.5 Ques ões isuais
Ac edi o que expo inicia i as que não se mos a am u í e as no cu so des a pesquisa
é ambém uma o ma de anspa ece posicionalidades. E, na melho das hipó eses, de alguma
o ma con ibui pa a que an opólogas e an opólogas inician es como eu, que po en u a
37
leiam is o no u u o, possam imp o isa melho es soluções con o me as e eme idades que
encon em.
Uma ez que, den o do p og ama de Mes ado em An opologia, meu pe cu so seguiu
uma á ea de especialização em Cul u as Visuais, desde o desenho des e p oje o ha ia uma
p eocupação em egis a e ap esen a isualmen e seu p ocesso. Du an e o pe íodo le i o des e
p og ama de Mes ado, po exemplo, no p imei o semes e de 2020 cheguei a ealiza um
ensaio audio isual explo a ó io de minha emá ica
49
.
Já em meu p oje o inal de pesquisa, o plano e a e , pa a além do diá io e nog á ico
ísico, uma e são isual dele publicada na in e ne . Pa a an o, se iado c iado um pe il no
Ins ag am especi icamen e pa a publica as obse ações de campo (em o os e ídeos), esc e e
e lexões, e compa ilha publicações de ou os a o es que ossem ele an es aos obje i os
des e p oje o. Po meio des e canal, eu ambém inha a expec a i a de possi elmen e in e agi
com ou os in e locu o es que o e ecessem pe spec i as dis in as pa a minha in es igação.
O pe il no Ins ag am oi c iado e, du an e o pe íodo aqui a ado como “p imei a aga”,
pa a cada isi a de campo, oi ei a no mínimo uma publicação nele
50
. Cos uma a azê-las no
p óp io dia da isi a, enquan o es a a em meu aje o de e o no do campo pa a casa. As o os
e legendas de cada publicação e am baseadas nos egis os ei os no p óp io dia, pelo elemó el
e cade no de no as. E, po es e exa o mo i o, quando suspendi o abalho de campo e dei início
à “segunda aga” de minha in es igação, pa a mim o abas ecimen o des e diá io isual online
pe deu seu p opósi o. Se po mim aquele diá io isual e a en endido como meio de ap o unda
minha obse ação in loco, e a pau a das publicações e am minhas isi as de campo que
deixa am de acon ece , en ão a p emissa muda a. To na -se ia um ”diá io de ou os empos
além do p esen e”, com memó ias e p ojeções de cená ios u u os? To na -se ia um “diá io do
con inamen o pandêmico”? Es as ideias iniciais de e o ma que i e pa eciam des ia -se de
minha p opos a de pesquisa, e não e a do meu in e esse ees u u a aquele amo de meu p oje o
como um p oje o em si, com oncos pa alelos. Foi quando passei a ê-lo como um caminho
obs uído, que deixei de oma du an e minha es adia nes a pesquisa. No começo de 2021, o
diá io isual de minha pesquisa no Ins ag am oi in e ompido.
49
In i ulado “Cu o-ci cui o”, es e ensaio isual pode se acedido e assis ido na in e ne , com a essal a de se
um ma e ial des inado única e exclusi amen e ao âmbi o acadêmico. Não é au o izada sua ep odução pa a ins
come ciais. Disponí el em: h ps://www.you ube.com/wa ch? =K3sHo0D7z1E [úl imo acesso em 31/10/2021].
50
No Ins ag am, é o @dia io isualelec ico, que pode se acedido em:
h ps://www.ins ag am.com/dia io isualelec ico/ [úl imo acesso em 31/10/2021].
38
Ainda assim, en endo que es a e en e isual da pesquisa, ao não se o na po o a
p odu o, é um e és momen âneo. Tenho um ace o de imagens em o o e ídeos egis adas
em campo e a qui adas con o me o a amen o de dados p opos o pa a es a e nog a ia.
Algumas inco po ei a es e ex o, assim como con eúdos isuais p oduzidos po e cei os (como,
po exemplo, mapas do Google Maps), mas pa a ins ilus a i os. En endo que, concluído a
e apa da disse ação, oxalá, seja possí el me deb uça sob e es e ma e ial e cons ui
desdob amen os des a pesquisa pa a ou as linguagens e meios. De p e e ência, algo que seja
disponibilizado ia in e ne pa a ins de di ulgação cien í ica.
39
4. UMA ETNOGRAFIA DO COTIDIANO NO ELÉCTRICO 28
EM TEMPOS PANDÊMICOS
4.1 A chegada à pa agem no Ma im Moniz
O nome do luga onde se encon a a pa agem inicial do eléc ico 28 é P aça Ma im
Moniz. No en an o, nunca ou i um mo ado ou mo ado a de Lisboa se e e i e balmen e ao
local sem se de ou a o ma que não “o” Ma im Moniz.
Séculos de his ó ia empilhados azem com que a cidade ap esen e legados de empos
di e sos coabi ando sua paisagem u bana con empo ânea. Ruínas omanas (como as gale ias
da Rua da P a a) e uelas medie ais (como nos bai os da Mou a ia, Al ama e Cas elo) são
izinhas de monumen os ba ocos (como o Aquedu o das Águas Li es) e edi icações
iluminis as (como o p oje o odo da Baixa Pombalina), além de bai os mode nis as (como
Al alade e A co do Cego) e sis emas de anspo e do pe íodo indus ial (como a ede de
ca ei as do eléc ico). A is o somam-se as inicia i as de emodelação u banís ica e
essigni icações uncionais pós-mode nas, com oda so e de decalques, enxe os e colagens.
Enquan o des ino u ís ico u bano, Lisboa é um show oom de es ilos es é icos e escolas de
ideias que ci cula am po es a egião da Eu opa ao longo do empo. Tudo is o sob condições
me eo ológicas medi e ânicas, p eços acessí eis, dis âncias caminhá eis e uma gas onomia
amis osa a palada es di e sos
51
.
O Ma im Moniz ica no cen o his ó ico da cidade, numa zona de ale en e a Colina
do Cas elo e a Colina de San ana. Sua ace sul ma geia a Baixa Pombalina e apon a pa a o
Tejo. De sua ace no e sai a Rua da Palma, que se conec a à a enida Almi an e Reis no aje o
pelo qual o eléc ico 28 pa e da p aça e e o na a ela. Es ima-se que a ocupação humana do
51
Segundo le an amen o ealizado pelo Obse a ó io Tu ismo de Lisboa, em 2019, os ês obje i os mais ci ados
po es angei os pa a sua isi a à capi al po uguesa o am, nomeadamen e, "Sabo ea a gas onomia e inhos"
(93,3% dos inqui idos); "Visi a monumen os e museus" (92,4% dos inqui idos) e "Conhece a cul u a
po uguesa" (86,8% dos inqui idos)". O sex o obje i o mais ci ado oi "Ap ecia a a mos e a ou paisagem"
(55,6% dos inqui idos). Em: Obse a ó io Tu ismo de Lisboa, Inqué i o Mo i acional 2019, p.5.
40
que hoje é o Ma im Moniz emon a a 8 mil anos a ás
52
. Começou an es mesmo do su gimen o
de Lisboa, mas oi a pa i da Idade Média que ali se a ixou.
Con udo, a não se pela pa agem do eléc ico 28 localizada ali, o Ma im Moniz não
cos uma se anunciado como a ação u ís ica “impe dí el” nas epo agens jo nalís icas,
anúncios publici á ios e publicações em edes sociais que suge em dicas do que aze quando
isi a a cidade. Num dia qualque en e as p imei as décadas do século XXI, ao encon a um
u is a no Ma im Moniz, é possí el que ali es eja de passagem en e uma ou a a ação u ís ica
que icam na ó bi a do cen o his ó ico (o Cas elo, o Mi adou o da G aça, o Rossio…). Ou, que
es eja ali pa a oma o eléc ico 28.
Na pla a o ma de dicas de iagem Spo ed by Locals, cuja p opos a é que os p óp ios
mo ado es de uma cidade ecomendem a ações pa a quem deseja isi á-la, o Ma im Moniz é
ap esen ado como uma "Mul icul u al Lisbon"
53
. A di e sidade de o igens nacionais e é nicas
dos equen ado es que ali se c uzam, inclusi e, já mo i ou es udos an opológicos (Menezes
2009; Map il 2010). A es as mobilidades se somam os luxos u ís icos, que êm na pa agem
inicial do eléc ico 28 um pon o de e e ência. Minhas isi as de campo a anca am odas dali,
pa a onde eu me di igia na maio pa e das ezes de comboio e me o
54
, descendo na sua es ação
homônima. Alguns deslocamen os a é o campo, po ém, ealizei po meio de au omó el
pa icula , que es aciona a nas uas da eguesia de A oios p óximas ao Me cado Fo no do
Tijolo. Nes es casos, dali a é a pa agem do eléc ico, caminha a a pé pela Rua do Ben o moso.
A Rua do Ben o moso pode se conside ada um eco e lisboe a de supe di e sidade
(Ve o ec 2007; Wessendo 2013). Há ali me cados chineses, alhos Halal, es au an es
indianos e bengalis. Co idianamen e, obse am-se mulhe es a es i éu e sen e-se a oma de
ca il po ali. Embo a seja abe a ao ânsi o de, sob e seu alca ão é mais equen e c uza com
peões, mo as e ca inhas de en ega. Caminhando ia abaixo, ela e mina ao se co ada pela
Rua Fe nandes da Fonseca. Nes e c uzamen o de múl iplas esquinas, cheguei a p esencia o
consumo de d ogas e a o e a de se iços de p os i uição à luz do dia
55
, numa apa en e
52
As in o mações his ó icas do Ma im Moniz con idas nes e capí ulo se baseiam no con eúdo da exposição i ual
“P aça Ma im Moniz - Da memó ia ao u u o”, disponí el em h ps://lisboapa icipa.p /ma immoniz/exposicao
(úl imo acesso em 27/10/2021). Es e mesmo con eúdo es e e expos o isicamen e ao público no p óp io Ma im
Moniz, en e dezemb o de 2020 e janei o de 2021.
53
Ve Spo ed by Locals, "Ma im Moniz", em: h ps://www.spo edbylocals.com/lisbon/ma im-moniz/ (úl imo
acesso em 27/10/2021).
54
Na ocasião das isi as de campo de 1 a 20 eu esidia em Ca ca elos, na Á ea Me opoli ana de Lisboa. O
pe cu so, po an o, en ol ia emba ca no comboio à es ação Ca ca elos e desce na es ação Cais do Sod é, onde
azia a conexão pa a a linha e de do me ô a é a es ação Ma im Moniz.
55
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 3 (20/8/2020).
41
ep odução ac ual de p á icas que ize am aquela zona se comumen e associada a um
es e eó ipo de ma ginalidade
56
.
Nos acessos a campo ealizados po me o, ao chega na es ação Ma im Moniz ambém
obse a a pessoas de e nias di e sas. A es ação, po sinal, dá acesso di e o aos anda es
sub e âneos do Cen o Come cial Mou a ia
57
, cuja en ada p incipal é de en e pa a a p aça.
Ainda no subsolo dela, é ambém p o á el c uza com pessoas a aze u ismo. De mochilão
ou mala de odinhas, po ando ou não câme as semip o issionais, em g upos de amigos,
amília, em casal ou sozinhos, p ocu ando alida po con a p óp ia o bilhe e nas máquinas ou
pedindo in o mações pa a quem passa
58
.
A es ação con a com duas saídas que dão acesso po escadas à supe ície do Ma im
Moniz. Uma ez o a dela, es ando ainda na calçada da p aça, é p eciso a a essa a ua e
pe co e uma cu a dis ância de 170 me os a é chega à pa agem do eléc ico
59
. Há uma
passadei a pa a peões quase em en e ao Cen o Come cial Mou a ia. Após c uzá-la, pode se
p eciso des ia de algum caixo e ou ca inho de mão. Nos dias (da semana) e ho á ios
(come ciais) em que lá es i e, nes e echo oi comum a is a caminhões, con en o es e
abalhado es b açais a desca ega me cado ias pa a abas ece o cen o come cial. A escala
des e edi ício pa ece desp opo cional ao olha . Tan o em con as e com a mo ologia das
cons uções do bai o da Mou a ia às suas cos as, quan o em elação à g ande á ea abe a do
Ma im Moniz à sua en e. Como assinala Ma luci Menezes, a edi icação da p aça é esul ado
de um conjun o con o e so de polí icas sociais e in e enções u banís icas ao longo do século
XX (Menezes 2009), e no os capí ulos des a mesma his ó ia seguem sendo esc i os
60
.
56
Ve , po exemplo, a igo de Be na do Mendonça no jo nal Exp esso, "Ma im Moniz, um bai o que é uma
g ande iagem", de 14/11/2015, em h ps://exp esso.p /sociedade/2015-11-14-Ma im-Moniz-um-bai o-que-e-
uma-g ande- iagem-. [úl imo acesso em 27/10/2021].
57
José Map il (2010) desc e e em de alhes quais e como são os negócios desen ol idos po imig an es de o igens
di e sas (no caso, com oco maio nas pessoas o iundas do Bangladesh) que come cializam me cado ias de pa es
á ias do mundo no Ma im Moniz e suas zonas en ol en es, incluído aí o Cen o Come cial Mou a ia.
58
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 9 (9/10/2020).
59
Con o me aje o calculado u ilizando o Google Maps, com imagens de 2021. Disponí el em:
h ps://goo.gl/maps/yc4u4i RMD6BHpVF8 [úl imo acesso em 28/10/2021].
60
Em 2018, oi no iciado na imp ensa po uguesa que a Câma a Municipal de Lisboa es a a po coloca em cu so
um no o p oje o pa a emodelação da p aça. Nomeado “Ma im Moniz Ma ke ”, basea a-se na ins alação de
con en o es e concessão deles à inicia i a p i ada pa a explo ação come cial. Dadas as eações con á ias
mani es adas po ozes di e sas da sociedade ci il (mo ado es, come cian es, jo nalis as, in elec uais,
associações, pa idos polí icos, jun a de eguesia…), em 2019 o p oje o oi suspenso. E, em 2020, deu-se início
a um no o p ocesso, no adamen e com maio consul a popula , que ainda segue em cu so. Uma c onologia des es
e en os, segundo no iciado pela imp ensa, encon a-se eunida no sí io desen ol ido po um dos g upos engajados
nes e p ocesso, o mo imen o Ja dim Ma im Moniz. Disponí el em: h ps://www.ja dima imoniz.p /c onologia/
[úl imo acesso em 27/10/2021].
48
u is as no banco asei o
79
. Em pon os que coincidem com a ca ei a do eléc ico 28, como a
Baixa Pombalina, o Chiado e o La go Po as do Sol, ha ia semp e uk- uks es acionados com
os mo o is as a agua da os p óximos (e ce os) clien es. Com a pandemia da Co id-19 em
2020 e as medidas de es ição à ci culação que ep esa am luxos u ís icos, uk- uks em
mo imen o deixa am de aze pa e da paisagem co idiana lisboe a, impac ando sensi elmen e
seus agen es
80
.
Ten a i as de u a a ila o am obse adas epe idas ezes. Em uma só isi a
es emunhei ês, odas p o agonizadas po u is as. É de uma lógica elemen a que não ha e ia
como u a ila se não hou esse ilas. Naquela pa agem, co idianamen e, uma g ande
quan idade de pessoas se eúne pa a agua da pelo eléc ico. G ande pa e es á ali em busca de
um p og ama de laze cuja du ação pode esul a mais longa do que o p e is o de ido ao empo
de espe a. A p esença nume osa de u is as na ila, que azem do eléc ico 28 um ou is ap
pa a alguns
81
, es a ia en e os a o es que o nam a aen e a ou os u is as u a em a ila?
Ha e ia alguma aga conexão en e a p á ica discu si a de iajan es que desaconselham
p og amas u ís icos a ou os po enciais iajan es, com a p á ica co po almen e ansg esso a
de u is as que u am uma ila cheia de ou os u is as em um pon o u ís ico?
A o imização do empo em cada a i idade planejada pa a um dia, pa a uma diá ia, pode
se mo i o de p eocupação na p á ica u ís ica. Sob e udo, nas es adias de cu a du ação, que
são o que oco e, po exemplo, em iagens ealizadas du an e inais de semana ou e iados - os
chamados ci y b eaks
82
. Segundo o Inqué i o Mo i acional 2019 do Obse a ó io Tu ismo de
Lisboa, 89,28% dos es angei os inqui idos naquele ano se conside a am a ealiza um "ci y &
sho b eak" na cidade
83
. Na ca ego ização des e modo especí ico de aze u ismo, Lisboa
inha sendo elei a “melho des ino do mundo” há qua o anos consecu i os
84
. É ambém es e
79
Sob e es e p ocesso, e ma é ia do canal Al Jazee a, "Po ugal eases ou o economic c isis”, de 17/5/2014.
Disponí el em: h ps://you u.be/wBHM qcPxxA [úl imo acesso em 28/10/2021].
80
Es e p ocesso de queb a do mo imen o em 2020 e a expec a i a pelo seu ees abelecimen o o am ilus ados
em ma é ia do jo nal Diá io de No ícias (2021a), “Tuk- uks e u ismo em Lisboa e omam a passo de a a uga”,
de 27/5/2021. Disponí el em: h ps://www.dn.p /dinhei o/ uk- uks-e- u ismo-em-lisboa- e omam-a-passo-de-
a a uga-13773263.h ml [úl imo acesso em 10/12/2021].
81
Con o me ap esen ado pelo canal Raising Voyage s em seu ídeo sob e Lisboa publicado no YouTube, como
imos há pouco nes e ex o.
82
Ve “Ci y b eak” no MacmillanDic iona y.com. Disponí el em:
h ps://www.macmillandic iona y.com/dic iona y/b i ish/ci y-b eak [úl imo acesso em 29/10/2021].
83
Os en e is ados o am u is as (es angei os, no caso des e índice, num o al de 7.656 pessoas) hospedados em
unidades ho elei as da egião de Lisboa ao longo de 2019. Ve Obse a ó io Tu ismo de Lisboa, Inqué i o
Mo i acional 2019, p. 4.
84
De aco do com a p emiação da o ganização Wo ld T a el Awa ds. Lisboa oi elei a melho des ino do mundo
pa a ci y b eaks em 2017, 2018, 2019 e, inclusi e, 2020.Ve Wo ld T a el Awa ds, “Wo ld's Leading Ci y B eak
Des ina ion 2020”, em h ps://www.wo ld a elawa ds.com/awa d-wo lds-leading-ci y-b eak-des ina ion-2020
49
o caso pa a quem desemba ca de c uzei os pa a passa algumas ho as na cidade.
A é 2020, na ios de passagei os inham azendo cada ez mais escalas em Lisboa
85
. Em
en e is a ealizada po ideocon e ência
86
, o Di e o de Ope ações da Ca is pa a os modos
Au oca o e Eléc ico ela ou ha e conexões en e o u ismo de c uzei o e as longas ilas pa a
o eléc ico 28 que se iam no Ma im Moniz a é a pandemia:
“O que c ia a picos de p ocu a e a a ques ão dos ba cos de
c uzei o. Os ba cos de c uzei o no malmen e chega am a Lisboa, na
maio pa e das ezes chega am no inal do dia ou en ão de manhã
bas an e cedo. As pessoas saem e êm um dia, ou pa e de um dia pa a
pode isi a a cidade. E aí o que é que acon ecia? A é po indicação
dos p óp ios ope ado es u ís icos, mui a gen e ao sai dos na ios de
c uzei o di igia-se ao Ma im Moniz, que é o início da ca ei a, e aí
ha ia um g ande pico de p ocu a em de e minadas ho as, e coincidia
mais ou menos com as ho as dos c uzei os.”
87
Como pa e das medidas de con enção à pandemia, em maio de 2020 o desemba que
de na ios de c uzei o oi suspenso em po os po ugueses. Es a in e dição legal oi eno ada
consecu i amen e a cada é mino de seu p azo de alidade, endo en ado no ano de 2021 ainda
em igo
88
. Logo, se a é 2019 u is as luíam do e minal de c uzei os de Lisboa pa a a pa agem
no Ma im Moniz, não e am es es os que se encon a am p esen es em minhas isi as. Como
e idenciado pelos ídeos do YouTube e pelas pala as do uncioná io da Ca is ci ados nes e
capí ulo, embo a enxe gasse uma ila conside á el a agua da pelo eléc ico 28, se não osse
[úl ima consul a em 28/10/2021]. Ressal e-se que cada p emiação des a ecebeu cobe u a na imp ensa po uguesa,
o que con ibui pa a e o ça es e econhecimen o público.
85
Desde que Lisboa inaugu ou um no o e minal de c uzei os, em 2017, o aumen o no luxo des a modalidade de
u ismo eio sendo epo ado na imp ensa po uguesa. Ve amos as em: jo nal Diá io de No ícias (2016b), “Mais
na ios e mais u is as: c uzei os em Lisboa sobem 60%”. Disponí el em h ps://www.dn.p /dinhei o/mais-na ios-
e-mais- u is as-c uzei os-em-lisboa-sobem-60-5371259.h ml; jo nal Público (2018b), “Passagei os de c uzei os
aumen a am 15% ...”, disponí el em h ps://www.publico.p /2018/07/09/local/no icia/passagei os-de-c uzei os-
aumen a am-15-no-p imei o-semes e-1837351; e canal TVI24 (2018), “Mais de 100 mil passagei os de c uzei o
em Lisboa”, disponí el em h ps:// i24.iol.p /economia/c uzei os/mais-de-100-mil-passagei os-de-c uzei o-em-
lisboa [úl imos acessos em 28/10/2021].
86
Realizada já no ano de 2021, em 21 de janei o, após solici ação minha pelo canal de con a o disponí el no sí io
ins i ucional da Ca is. Além do en e is ado ci ado, ambém pa icipou des e encon o o Di e o Come cial e
Ma ke ing, ambos na qualidade de po a- ozes da emp esa.
87
En e is a com po a- ozes da Ca is, ealizada 21/1/2021, aos 13’23 de g a ação.
88
Ve jo nal Público (2021a), “Co id-19: in e dição de c uzei os p olongada a é 16 de Ma ço”. Disponí el em
h ps://www.publico.p /2021/03/01/ ugas/no icia/co id19-in e dicao-c uzei os-p olongada-a e-16-ma co-
1952617 [úl imo acesso em 29/10/2021]
50
pelo con ex o incomum de 2020, dece o eu e ia encon ado ilas maio es. Po o a, posso
apenas especula se e ia obse ado ambém uma equência maio nas en a i as de u á-las.
Mas nem só de compo amen os que a asam o andamen o da ila ou en am sub e e
sua o dem é ei a a pa agem do 28 no Ma im Moniz. Fo am obse adas ambém in e ações
amis osas, mesmo en e u is as e u en es que ali es a am pa a u iliza o anspo e público da
cidade. Ce a ez, obse ei duas u is as g egas a i a in o mações, em inglês, com uma mulhe
po uguesa
89
. As ês de iam es a em aixa e á ia semelhan e, que es ima ia en e os 50 e 60
anos. A po uguesa pe cep i elmen e inha conhecimen os limi ados do idioma es angei o,
mas se mos ou bas an e solíci a: con i mou in o mações com o gua da- eio do eléc ico
quando es e chegou e, mesmo depois, já du an e a iagem, ela ol ou a escla ece no as dú idas
das u is as. Eu ou a ocasião ui eu quem p es ei escla ecimen os a um es angei o, quando um
senho se ap oximou de mim e pe gun ou: “Disculpe, el ein iocho es aquí?”
90
. Respondi que
sim. Ele i ou-se pa a sua companhei a de iagem e epassou a in o mação que lhe dei, em
espanhol. Es e ipo de in e ação amis osa, en e u is as e ou os u en es do eléc ico, com os
p imei os a pedi in o mações e os in e locu o es a a ende -lhes de o ma p es a i a, eu e ia
oco e ambém no in e io do eículo, em meio à ca ei a.
O passa do empo du an e as obse ações oi acompanhado po mudanças na paisagem
daquele espaço. Hou e uma edução g adual e isí el de pessoas a agua da o eléc ico 28 na
sua pa agem inicial. Em meados de ou ub o, eu já no a a e ano a a is o no diá io
91
. Naquele
momen o, o mo imen o u ís ico no Ma im Moniz pa ecia mais uma p esença ex ao diná ia
no co idiano do que uma o ma de dwelling (Pons 2003) obse á el em Lisboa. Fosse em
qualque ou o dos anos ecen es, pode íamos in e i simples associações en e es a
modi icação no elenco de a o es sociais p esen es no cená io e a ap oximação do in e no, ulgo
baixa empo ada. Sem que se exclua es e a o , ac o é que, a pa i de no emb o de 2020
92
, em
89
Não alo g ego. Descob i a nacionalidade des as duas mulhe es quando, na mesma isi a e já na pa agem dos
P aze es, elas me pedi am in o mações em inglês. Con e samos apidamen e e expliquei a elas sob e meu p oje o,
pedindo os dados de con a o das duas pa a uma en e is a pos e io . Embo a enham me passado seus e-mails,
nunca esponde am a minhas mensagens. Já a nacionalidade da po uguesa deduzi ao ou i-la cump imen a o
gua da- eio do eléc ico pouco depois. Con o me egis os em diá io de campo (Visi a 8, 7/10/2020, às 9h31).
90
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 11 (16/10/2020, às 10h24).
91
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 10 (14/10/2020).
92
Em 7 de no emb o de 2020, as au o idades nacionais dec e a am o início de um no o es ado de eme gência em
Po ugal. Com du ação inicial de 15 dias, a medida oi eno ada seguidas ezes a cada é mino de seu p azo. Ve :
Comunicado do Conselho de Minis os ex ao diná io de 7 de no emb o de 2020,
h ps://www.po ugal.go .p /p /gc22/go e no/comunicado-de-conselho-de-minis os?i=380 [úl imo acesso em
29/10/2021].
51
i ude do c escimen o da chamada “segunda aga da pandemia”
93
, hou e um no o
endu ecimen o das es ições legais à ci culação de pessoas no e i ó io po uguês. “No o”
po que, an es que es e abalho de campo i esse começado, medidas semelhan es já ha iam
sido implemen adas. Em ma ço, quando do p imei o su o da Co id-19 em Po ugal, as
au o idades nacionais dec e a am o es ado de eme gência. A pa i de maio, po ém, oi pos o
em p á ica um plano de descon inamen o, passando o país do es ado de eme gência pa a o de
calamidade. “Com os meses de e ão, as p aias e os ja dins ol a am a se equen ados, mas
ba es e disco ecas man i e am-se echados. Mui os dos p incipais e en os cul u ais, como os
es i ais de música, cuja escala depende da deslocação de públicos in e nacionais, não i e am
luga ”, apon am Sampaio, Vidal e Lou enço (2021). Foi nes a limina idade do e ão, en e
julho e agos o de 2020, que minhas isi as ao campo a anca am, e pude obse a a ila longa
pa a mim e cu a pa a o se ido da Ca is.
An es que a segunda aga izesse subme gi a a i idade u ís ica em Lisboa, meu
caminho e o de um u is a esidual se c uza am na pa agem do Ma im Moniz
94
. E a uma sex a-
ei a à a de, pe o do inal de ou ub o, quando já azia ce ca de ês meses desde minha p imei a
incu são ao campo. O e ão ica a pa a ás. Além de mim, somen e seis pessoas a agua da o
eléc ico, sendo ês u is as. Um deles, pelos aços eno ípicos, supus e nacionalidade de
algum país do sul da Ásia (Índia ou Bangladesh, al ez…). É ele quem me abo da e pe gun a:
- The wen y-eigh ?
- Yes, espondo.
Ele ag adece e ica po ali, agua dando ambém, mas pouco depois ol a a me abo da .
Com um mapa ísico nas mãos, pede pa a que eu apon e onde es amos. O mapa é es ilizado e
o a de escala, mais esquemá ico do que p eciso. Imagino que enha sido pego no ae opo o,
ou no luga onde es á hospedado. Mos o-lhe o Ma im Moniz e ele pe gun a se o eléc ico
passa na P aça do Comé cio. Digo que sim, apon o pa a a Rua da Conceição no mapa, e digo
que posso a isá-lo quando es i e mos ali po pe o. Ele ag adece. O eléc ico chega. Eu
emba co na en e e alido meu ca ão de anspo e na máquina au omá ica. Ele le a um pouco
mais de empo enquan o con a moedas pa a paga .
Sen amo-nos um após o ou o nos assen os indi iduais à di ei a do 28. An es que o
eículo inicie seu uidoso mo imen o, ap o ei o pa a me ap esen a e con a ao apaz sob e
93
Ve canal RTP No ícias (2021), “As ês agas da Pandemia em Po ugal”, em:
h ps://www. p.p /no icias/pais/as- es- agas-da-pandemia-em-po ugal_ 1301383 [úl imo acesso em
29/10/2021].
94
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 12 (23/10/2020).
52
minha pesquisa. Pe gun o se ele opa ia con e sa mais sob e a expe iência, em um momen o
pos e io , po e-mail. Ele acei a. Me diz comp eende o que es ou azendo ali, num sen ido que
in e p e o como de “da alo à ciência, à pesquisa”. Es endo-lhe meu cade no e cane a. É o
p óp io quem ano a seu ende eço de con a o pela in e ne , depois se assegu ando de que en endi
a sole ação. O e eço álcool em gel e ele ecusa educadamen e.
P., 34 anos, é indiano do Rajas ão, mas há 10 anos mo a na Alemanha. Inicialmen e,
o a lá pa a es uda , mas hoje abalha na á ea de Tecnologia da In o mação, em S u ga . É
sua p imei a ez em Lisboa. Chega a na éspe a, quin a à noi e, quando nada ez além de come
algo. Fica ia a é segunda- ei a, quando i ia a é o Po o pa a passa mais alguns dias. Pe gun o
se oi uma iagem planejada há empos, e ele diz que não; oi uma decisão de úl ima ho a.
Es a a de é ias e no meio delas encaixou es a iagem, como já ize a em ou as ocasiões desde
que mudou pa a a Eu opa.
Naquela manhã, P. já isi a a o Cas elo, e à noi e p e endia i à Rua Rosa como
in eg an e de uma excu são em g upo o mado pelo p óp io hos el onde es a a hospedado. Pa a
o dia seguin e, já inha adqui ido bilhe e pa a um ci y ou . Não icou cla o pa a mim se se ia
de au oca o, uk- uk ou pa icula , mas ele deu a en ende que e a algo mais “o ganizado”, e
não um ace o que ez in o malmen e.
Quando nos ap oximamos da Rua da Conceição, a iso a ele sob e a descida. E pe gun o
se ele opa ia que eu lhe acompanhasse em seu passeio. P. não se impo a. Me pa ece es a no
“modo gaze”: iajando sozinho, se pe mi indo o encon o com o desconhecido, sob e udo
expe iências like a local.
Saímos caminhando pela Rua Augus a e ele se admi a com o A co do T iun o. Não i a
mui as o os, no en an o, apenas uma ou ou a a í ulo de egis o. Tampouco ica id ado no
elemó el: pa ece engajado na a e a de lana . Ele me pe gun a sob e ques ões de segu ança
pública em Lisboa e em São Paulo. Digo a ele que não acho mui o compa á el. Ele az um
pa alelo com a di e ença en e sua Rajas ão na al e a S u ga onde i e. Conco damos que,
seja na Índia ou no B asil, mesmo com p oblemas sociais g a es, as pessoas i em, azem suas
coisas co idianas.
P. me pe gun a sob e como oi pa a ob e o is o em Po ugal. Se, po se b asilei o, eu
enho algum di ei o. Explico pa a ele as nuances elacionadas à cidadania e que, no meu caso,
enho au o ização de esidência po se es udan e. Ele me con a que ambém oi assim com ele,
e que depois ele subs i uiu pelo is o de abalho. Da P aça do Comé cio, caminhamos pela
Ribei a das Naus. P. pe cebe o C is o Rei e me pe gun a, como que que endo con i ma , se no
53
B asil ambém em um des es. Olhando pa a a Ma gem Sul, alo pa a ele que, se i e empo,
possi elmen e no domingo, se ia in e essan e pega um ba co pa a o ou o lado do io, e de lá
e o pô -do-sol, assim como o skyline de Lisboa. Ele não dá mui a bola pa a isso.
Con o me passamos em en e a uma esplanada, pe gun o se P. bebe álcool. Minha
in enção e a lhe paga uma impe ial. Ele diz que não mui o, apenas mode adamen e. Pe gun o
en ão se ele gos a ia de come algo. P. ainda não almoçou, mas az a essal a de que não
consome ca ne. Sugi o en ão i mos ao Me cado da Ribei a. No ano passado, hospedei amigos
di e sos em casa, e odos gos a am mui o do luga . Um a o sob e o Time Ou Ma ke é que é
amigá el a u is as cujo pode aquisi i o pe mi a consumi algo ali. Pode pa ece mais amilia
a um es anho qualque e a ende bem a demandas he e ogêneas. Se uma pessoa não come ca ne
e a ou a só que oma um ca é, as duas podem di idi mesa.
Caminhamos a é lá e P. acaba escolhendo um p a o de comida ailandesa. Pedimos uma
caneca de ce eja pa a cada um, e ele não me deixa paga . P. exp essa se sen i descon o á el
com o a o de só ele come , e eu não. Digo (e é e dade) que inha acabado de almoça quando
nos encon amos no Ma im Moniz. Ele comen a sob e a i onia de, sendo um indiano em isi a
a Po ugal, come comida asiá ica.
Acabamos a ce eja e nos despedimos. P. ol a á andando. Eu ico pelo Cais do Sod é,
de onde pego o comboio pa a casa. Onde ou a pensa que, olhando de o a, al ez pelo olha
dele, eu pode ia não es a azendo pesquisa alguma. Pode ia se apenas um maland o que
ci cula pelo eléc ico em busca de opo unidades. Alguém que, em oca de comes e bebes, ou
a é ocados, o e ece eelances de cice one.
Na sex a- ei a seguin e, uma semana depois, en iei um e-mail a P. solici ando uma
en e is a mais ap o undada. Também encon ei seu pe il pessoal no Facebook e lhe en iei
uma solici ação de amizade. P. nunca espondeu a nenhum dos dois pedidos. Aquele encon o,
egis ado nes e echo, icou pa a ás na ca ei a do eléc ico 28.
4.2 O eléc ico em si mesmo
A p imei a ca ei a de eléc icos em Lisboa oi inaugu ada em 1901. En ão, o meio de
anspo e público cole i o u ilizado na cidade e am os chamados “ame icanos”, eículos que
ambém ci cula am po ca is, po ém puxados po ca alos. Na p imei a me ade do século XX,
o eléc ico se o na ia o p incipal modal da mobilidade u bana lisboe a. Na segunda década do
54
século XXI, es e luga oi ocupado pelo au omó el pa icula
95
. Em 2017, mais de 58% das
deslocações na Á ea Me opoli ana de Lisboa u iliza am es e modal (Ins i u o Nacional de
Es a ís ica 2017, 9).
Ligando o Cais do Sod é a Algés sem pe de o Tejo de is a, aquela ca ei a pionei a
inaugu ada há mais de século i ia a se o na a ac ual linha 15E, que ago a pa e da P aça da
Figuei a. Os eículos que a pe co em hoje, no en an o, êm eições dis in as da imagem do
eléc ico in age que cos uma ilus a imagens de Lisboa e, em especial, as ep esen ações do
u ismo na cidade
96
. Embo a ambém de co ama ela, o eléc ico da linha 15E é de um modelo
a iculado, semelhan e ao que se obse a em ou as cidades eu opeias, como Munique ou
Lond es. É mais comp ido - e, po an o, compo a mais pessoas -, mais eloz, mais silencioso
e o e ece maio acessibilidade em suas po as e co edo es do que seu colega de abalho mais
amoso e pi o esco. Ao con á io do modelo que ci cula na ca ei a 28, em a -condicionado, e
painéis ele ônicos que in o mam as pa agens do pe cu so aos passagei os. Uma ez que a linha
15E conec a o cen o his ó ico de Lisboa a algumas das a ações u ís icas mais p ocu adas na
cidade (o Mos ei o dos Je ônimos, o pas el e a To e de Belém…), é ambém bas an e
equen ada po u is as. Con udo, es a linha segue undamen almen e desempenhando sua
unção o iginal, de se ão-somen e meio de anspo e. Não se o nou uma a ação u ís ica em
si, cuja isi a pa a ins de laze u ís ico é ecomendada e p ocu ada - como oco e com a
ca ei a 28. Ainda que a comunicação social e a demanda u ís ica em o no do 28 não se
baseiem unicamen e na imagem in age do eículo
97
, ambém não é p eciso se engenhei o de
anspo es pa a es ima que aquele modelo maio e mais mode no da linha 15 E não se ia
ap op iado pa a as uelas em decli e dos bai os his ó icos pe co idos pelo 28.
95
Segundo es udo da Deloi e, “Deloi e Ci y Mobili y Index 2020”, disponí el em:
h ps://www2.deloi e.com/con en /dam/insigh s/us/a icles/4331_Deloi e-Ci y-Mobili y-
Index/Lisbon_GlobalCi yMobili y_WEB.pd [úl imo acesso em 31/10/2021].
96
Ponde emos que nem odas as ep esen ações isuais de uma localidade que colabo am pa a sua di ulgação a
po enciais u is as são necessa iamen e planeadas po a o es di e amen e in e essados em ob e ganhos come ciais
com a a i idade u ís ica. Sob e udo, se obse amos o alcance das mídias sociais que, com suas dinâmicas de ede
pa icula es, podem con ibui pa a ans o ma a a a i idade de de e minado des ino u ís ico. Uma ede ho elei a
mul inacional pode eicula uma campanha publici á ia ilus ada com a imagem do eléc ico isando a ai no os
hóspedes pa a suas suí es em Lisboa. E um iajan e qualque de mochila nas cos as pode publica no Ins ag am
uma o o sua, geolocalizada em Lisboa, endo o eléc ico como cená io. Ainda que com inalidades, alcances de
público e escalas de in es imen o dis in os, ambos exemplos (hipo é icos, po ém e ossimilhan es) ep oduzem
ep esen ações da cidade com a imagem do eléc ico que, em úl ima ins ância, expõem a cidade pa a ou os
po enciais isi an es.
97
Ou o a a i o e iden e são as paisagens u banas lisboe as, que o 28 pe mi e con empla de suas janelas, ao
cus o de um bilhe e de anspo e público. Qualque ci y ou p i ado cus a ia mais ca o, diga-se.
55
Imagem 03:
98
O eículo ame icano, que
u iliza a ação animal e p ecedeu o
eléc ico no anspo e público lisboe a
sob e ca is.
Imagem 04:
99
O modelo a iculado de
eléc ico, emp egado na linha 15E que liga a
P aça da Figuei a a Algés.
O sí io ins i ucional da Ca is ap esen a in o mações sob e cada modelo de eléc ico
u ilizado em seu sis ema
100
. A página az uma di isão ca egó ica en e modelos A iculados
(que são como os da linha 15E, ilus ado acima), His ó icos e Clássicos. Ao clica em cada um,
são o necidas especi icações écnicas que incluem os núme os de o a e ano de ab ico. Na
ocasião da consul a que ealizei, a seção não in o ma a quais as ca ei as que cada modelo
98
Câma a Municipal de Lisboa. A qui o Fo og á ico - P o as O iginais 1858-1910. Lisboa: Guide A es
G á icas, 1993. p.31. Disponí el em: h ps://a qui omunicipal3.cm-lisboa.p /X-
a qWEB/Resul .aspx?id=1156225& ype=PCD [úl imo acesso em 1/12/2021].
99
Fo o de di ulgação publicada no sí io ins i ucional da Câma a Municipal de Lisboa, "F o a da Ca is
e o çada com 15 elé icos a iculados...", em 21/4/2021. Disponí el em:
h ps://www.lisboa.p /a ualidade/no icias/de alhe/ o a-da-ca is- e o cada-com-15-ele icos-a iculados-e-30-
au oca os-ele icos [úl imo acesso em 1/12/2021].
100
Disponí eis em: h ps://www.ca is.p /descub a/ o a/ele icos/ [úl imo acesso em 31/10/2021].
56
pe co e. Mas, sim, que os eléc icos da ca ego ia His ó icos êm capacidade pa a a é 58
pessoas
101
, e nos da ca ego ia Clássicos cabem 42 pessoas
102
. Assim, oi possí el con as a
es es dados com o os egis adas em minhas isi as de obse ação. Segundo o in o me imp esso
na p óp ia pa ede de madei a in e na do eículo, o eléc ico 28 que obse ei em campo
compo a 20 pessoas sen adas e 38 de pé
103
. Ou seja, con o me a ca ego ização encon ada na
página da Ca is, o modelo His ó ico ci cula na ca ei a 28. E, po an o, com base nes as duas
on es, deduz-se que seu ano de ab ico é 1995-1996
104
.
Se há quem con emple o modelo His ó ico do eléc ico 28 imaginando es a em en e
a um elo pe dido en e passado e p esen e, MacCannell apon a que, "(...) uma ez que um ipo
de p odução cul u al enha mo ido, ele pode se e i ido a a és de uma cópia in eligen e que
dizem se uma econs ução de um 'clássico'
105
" (MacCannell 1999, 26). Pa ece se o caso an o
nas nomencla u as emp egadas lisboe as no sí io ins i ucional da emp esa que ge e os
eléc icos, quan o pela coleção de an igas ia u as que se pode e de pe o no museu da mesma
companhia.
Inaugu ado em 1999, o Museu da Ca is con a a his ó ia da emp esa a a és de
documen os e obje os, com des aque pa a os di e sos modelos de eículo emp egados desde
que os elé icos começa am a se mo imen a pelas uas de Lisboa. Ali se cons a a como eles
nem semp e ap esen a am a mesma isionomia, endo sido a apa ência a ual do eléc ico 28 um
p oje o de emodelagem de um passado ecen e, e não uma his ó ia secula de p ese ação
in ac a. É um exemplo em exposição de como "O passado é um país es angei o emodelado
pelo hoje, sua es anheza domes icada po nossos p óp ios modos de cuida de seus
101
Os modelos His ó icos compo am 20 pessoas sen adas e 38 de pé, con o me in o mações do i em
“Ca ac e ís icas”, disponí eis em: h ps://www.ca is.p /descub a/ o a/ele icos-his o icos/ [úl imo acesso em
31/10/2021].
102
Os modelos Clássicos compo am 24 pessoas sen adas e 18 de pé, con o me in o mações do i em
“Ca ac e ís icas”, disponí eis em: h ps://www.ca is.p /descub a/ o a/ele icos-classicos/ [úl imo acesso em
31/10/2021].
103
Cheguei a aze uma publicação sob e is o no Diá io isual do eléc ico que c iei no Ins ag am (sob e is o,
e capí ulo 3.5, “Ques ões isuais”), onde é possí el e em o o es e a iso imp esso na pa ede in e na do
eículo. Disponí el em: h ps://www.ins ag am.com/p/CHdExx0AAdw/?u m_medium=copy_link [úl imo
acesso em 20/11/2021].
104
A í ulo de cla eza ex ual, a pa i daqui se ão ac escidas es as mesmas nomencla u as (His ó ico e A iculado)
se e quando es e ex o ol a a a a , especi icamen e, das ca ac e ís icas es é ico- uncionais que di e enciam es es
dois modelos.
105
T adução do au o . No o iginal, em inglês: "(...) once a ype o cul u al p oduc ion has died ou , i can be
e i ed by a cle e copy which is said o be a emake o a 'classic'."
57
es ígios"
106
(Lowen hal 2015, 4). Inclusi e, a c onologia ac ual na ada pelo museu não
pa ece despe a a ação como as ep esen ações em médias a iados suge indo se o eléc ico
28 um obje o “his ó ico”
107
. Ou, emp es ando pala as de Lowen hal, um es ígio de um empo
es anho ao ago a. Tan o exó ico quan o domes icado, e, po isso udo mesmo, ins ag amá el.
A ponde a que o isi ei com o Es ado de Eme gência po uguês em igo (pa a con e a
segunda onda da Co id-19), e com o in e no a man e baixas empe a u as, quando es i e no
Museu da Ca is, ui o único isi an e du an e o empo que lá passei. É de se conjec u a se al
museu não enha apelo somen e jun o a es udan es (como eu), en usias as dos sis emas de
anspo e, e pessoas que enham alguma elação a e i a com a Ca is (como ex- uncioná ios,
po exemplo). Segundo a na a i a his ó ica “de econhecimen o público” dos modelos do
eléc ico, seu i em mais céleb e (ainda que não o mais an igo...) encon a-se i o, em
mo imen o pelas uas lisboe as, e não em um museu. É o eléc ico 28, cujo bilhe e de ing esso,
inclusi e, cus a mais ba a o do que uma isi a ao ace o da Ca is
108
. Além disso, enquan o
p og ama de laze u ís ico, passea no eléc ico de Lisboa é con emplá-lo em seu "habi a
u bano na u al", e não como i em de exposição. Enquan o passeio u ís ico, es e meio de
anspo e público lisboe a pa ece ep esen a um p og ama de laze mais a a i o a
consumido es em busca de en e enimen o do que uma isi a ao Museu da Ca is. É uma
expe iência que se i encia de múl iplas o mas senso iais (é isual, sono o, ác il, ciné ico...);
que pode se gua dada na memó ia (em o os e ídeos “ eais”, ei os in loco) onde a p óp ia
pessoa é p o agonis a, e não espec ado a; e que a es a um gos o u ís ico “dis in i o” (Bou dieu
2006) quando es es egis os são compa ilhados em edes sociais.
Imagem 05: No Museu da Ca is, di e en es modelos de eículo
expos os e elam como o signi icado do e mo "his ó ico"
a ibuído ao eléc ico 28 a ual diz menos espei o a ac os
c onológicos do que a ep esen ações cul u ais. Regis ada pelo
au o em 13/1/2021.
106
T adução do au o . No o iginal, em inglês: "The pas is a o eign coun y eshaped by oday, i s s angeness
domes ica ed by ou own modes o ca ing o i s es iges".
107
Rep esen ações isuais p incipalmen e, mas ambém ex uais, como is o nas ca ac e ís icas de cada modelo
in o madas pelo sí io ins i ucional da Ca is.
108
Quando es i e no Museu da Ca is, em janei o de 2021, o p eço indi idual do ing esso pa a adul os cus a a €
4,50. Uma iagem de eléc ico 28 cus a no máximo € 3,00.
64
ese ado a pessoas com necessidades especiais é cedido a quem em p io idade sob e ele. O
eléc ico chega à pa agem inal e nem odos saem, con o me equisi ado pelo a iso em ama elo
is o na imagem acima. E há quem se deb uce nas janelas, sendo ep eendido, ou não, a
depende do caso. Na p á ica, como úl ima e po ezes única ins ância, são os gua da- eios
que a uam na egulação de compo amen os e si uações em ge al que con a iam o “guia de
bo do” esc i o nas pa edes. A imp o isação, como apon am Ingold e Hallam, é um undamen o
essencial da ida social e cul u al. A odo momen o e em qualque luga , pessoas cons oem e
ans o mam modos de i e con o me as ci cuns âncias da ida se ap esen am. "Pessoas eais,
como o ganismos i os que são, con inuamen e c iam a si mesmas e umas às ou as, o jando
suas his ó ias e adições na medida em que a ançam"
122
(Ingold & Hallam 2007, 6), analisam.
Na ausência de um guião, o imp o iso é semp e uma e amen a de abalho pa a da espos as
às con ingências. Vale pa a o abalho de um gua da- eio naquele mic o-espaço onde
al e idades di e sas se c uzam. Vale pa a as manei as de esc e e uma e nog a ia.
Embo a a pa ede in e na in o me ha e capacidade pa a a é 58 pessoas, em nenhuma
isi a que iz o eléc ico pa iu de sua pa agem inicial com mais do que 20 (além do gua da-
eio), o núme o máximo de passagei os sen ados. Is o, mesmo com pessoas ainda a agua da
na ila. Es a iam a agua da po um luga sen ado, de p e e ência na janela? Nas p imei as
isi as de campo, quando ainda se iam mais u is as no 28, em alguns echos da ca ei a
cheguei a e os co edo es in e nos se enche em de gen e, mas em momen os pon uais. Po
oda a minha obse ação e se dado no con ex o pandêmico, enquan o a ealiza a não me oi
possí el a es a se, ex ao dina iamen e, ha ia uma egulação adicional da lo ação máxima pa a
e i a aglome ações. Ou se é uma no ma pe ene, endo em is a a conco ência u ís ica da
linha, de o ma a man e alguma ese a de assen os pa a as pa agens seguin es ao longo da
cidade. Es a úl ima hipó ese, de aco do com o que ap esen a am alguns de meus in e locu o es,
não p ocede. Em en e is a ei a po e-mail, o gua da- eio Ra ael San os desc e eu como a
edução de u en es, associada à in e upção dos luxos u ís icos, oi uma mudança ge al
pe cebida da empo ada an e io pa a a de 2020:
“O 28 oi al ez a ca ei a onde se no ou mais os e ei os da
pandemia. Os eléc icos comple amen e cheios a é cus a echa a
po a, de am luga a ca os azios onde a é se pode escolhe o luga
pa a se sen a à janela”
123
.
122
T adução do au o . No o iginal, em inglês: "Real people, as he li ing o ganisms hey a e, con inually c ea e
hemsel es and one ano he , o ging hei his o ies and adi ions as hey go along".
123
En e is a ealizada po e-mail com Ra ael, gua da- eio da Ca is, em 17/5/2021.
65
Já a gua da- eio J., ambém en e is ada po e-mail em 2021, desc e eu como, mesmo
nas éspe as do ano pandêmico de 2020, e a comum obse a u is as, po agencialidade
p óp ia, p e e i em agua da mais na ila do que aba o a o eléc ico 28:
"(...) lemb o-me das in e miná eis ilas de u is as no Ma im
Moniz e lemb o-me de acha mui o es anho espe a em imenso empo pa a
en a no elé ico mas depois só ocupa em os luga es sen ados, e
nenhum luga em pé (daí ha e an a ila de espe a). No elé ico são
22 luga es sen ados e 38 em pé… é na u al que haja longas ilas uma
ez que é u ilizada menos de me ade da capacidade de cada ia u a”
124
.
Jun os, es es depoimen os indicam que, se po um lado, hou e edução da p esença
u ís ica no eléc ico 28 em i ude da pandemia, po ou o ha ia, ao menos no Ma im Moniz,
uma egulação do núme o de pessoas a emba ca . Tan o da pa e da adminis ação do sis ema,
a a és da limi ação a “menos de me ade da capacidade de cada ia u a”, quan o pela au o-
mode ação dos p óp ios u is as na ila, em unção de consegui em iaja sen ados. É azoá el
pensa que is o impac e no amanho das ilas e empo de espe a naquela pa agem inicial.
De ac o, nas isi as que iz, oi cons an e a possibilidade de escolhe um luga pa a me
sen a após emba ca no Ma im Moniz. Mesmo no início do abalho de campo, quando ainda
me depa a a com ilas à espe a do 28, uma ez den o do eículo ha ia no mínimo um assen o
po passagei o. Is o, embo a um ou ou o op assem po iaja de pé. Vi an o homens quan o
mulhe es, de idades e e nias di e sas, escolhe em es a opção – inclusi e, u is as
125
. Não é po
ha e um assen o à disposição que um passagei o iaja sen ado, es eja ele no eléc ico a laze
ou po ou as azões. E is o inclui o assen o ese ado a pessoas com mobilidade eduzida. Em
ocasiões di e sas, pude obse a u en es que e iam a p e e ência pa a ocupá-lo não usu uí em
des e di ei o. Op a am po sen a -se em ou o luga , mesmo com aquele es ando li e
126
. Tal
compo amen o oi obse ado em a o es sociais di e sos. Idosos de bengala, u is as com bebé
124
En e is a ealizada po e-mail com J., gua da- eio da Ca is, em 29/5/2021.
125
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 8 (7/10/2020); Visi a 11 (16/10/2020).
126
Vale des aca que os assen os ese ados êm uma posição um pouco dis in a dos demais. Além de es a em
localizados logo na en ada do elé ico, exigindo meno deslocação pelo in e io do eículo em mo imen o, sua
disposição é de en e pa a o co edo (de cos as pa a a janela), o que o e ece maio espaço pa a acomoda as
pe nas.
66
de colo, senho eng a a ado a se apoia em mule as; em comum, o ac o de eu ê-los is o
abdica do assen o que lhes dá p e e ência de uso po di ei o
127
.
Po inicia i a p óp ia, sem se median e qualque p o es o ou negociação, i ambém
pessoas cedendo o assen o ese ado a ou as. Se ia algo a é o diná io e p e isí el que is o
oco esse num anspo e público, con udo o dado in e essan e pa a meu luga de obse ação é
e is o u is as a cede em luga pa a ou os u en es. Ressal e-se que a p e e ência dada ao uso
daqueles assen os não é exclusi idade de quem eside na cidade, e sim de quem se encon a no
elé ico, seja pa a qualque inalidade - incluindo laze . E is o não exclui que ambém enha
p esenciado jo ens u is as sen ados no assen o ese ado não o o e ece em pe an e o
emba que de uma pessoa idosa. Con udo, naquele elé ico sem a lo ação máxima de empos
p é-pandémico, oi mais equen e obse a passagei os cedendo al assen o, assim como
pessoas com di ei o a ele desp eocupadas em ei indicá-lo.
Imagem 09: Com sua co e melha, o assen o ese ado
à disposição pa a se ocupado. Regis ada pelo au o em
11/11/2020.
Um compo amen o que ambém i com eco ência oi o de pessoas emba ca em
jun as e iaja em em luga es sepa ados. Du an e o empo em que pe manece am no eléc ico,
ou seja, enquan o desempenha am papéis de passagei os, pa es de conhecidos man i e am um
127
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 11 (16/10/2020); Visi a 13 (26/10/2020); Visi a 19
(12/11/2020).
67
dis anciamen o ísico en e si. Is o oi obse ado ao longo de odo o abalho de campo
128
, em
echos di e sos da ca ei a, a se p a icado po pessoas com nacionalidade, aixa e á ia, gêne o
e mo i ações di e sas pa a ali es a : casais de idosos e de u is as, alan es de alemão e de
espanhol, es udan es. Tal manei a dispe sa de ocupa o elé ico não é uma di e ença en e quem
o u iliza pa a laze u ís ico e quem o u iliza pa a mobilidade u bana apenas. É um modo de
es a consoan e à ci cuns ância, e não um modo iden i á io de se . Tudo bem que passagei os
se espalha em quando o eículo es á mais azio possa pa ece uma cons a ação elemen a , algo
desc i í el a é pelas leis da ísica. Já as mo i ações que le am pessoas que emba ca am jun as
a i em cada qual pa a um lado quando a iagem começa não é ão simples de desc e e somen e
pela obse ação
129
. Não deixa de se algo pa adoxal (ou, no mínimo, i ônico) que is o enha
sido obse ado no mesmo luga onde, a é o ano p é-pandêmico an e io , a o es sociais di e sos
se esp emiam isicamen e em qualque ho a do dia.
Imagem 10: Os assen os ese ados, cada um de um lado do co edo , ocupados sepa adamen e po um casal de u is as que
emba cou jun o no eléc ico 28. Regis ada pelo in es igado em 16/9/2020.
128
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 6 (16/9/2020); Visi a 10 (14/10/2020), Visi a 12 (23/10/2020),
Visi a 18 (11/11/2020), Visi a 20 (13/11/2020).
129
Eu não me a isca ia a en a azê-lo sem eco e ao auxílio de conhecimen os (que não possuo) do campo
da psicologia.
68
Po im, ou o compo amen o equen e a examina , e que se in e sec a com os ou os
dois des acados an e io men e, é uma espécie de ”dança das cadei as” que oco e no in e io
do elé ico en e uma pa agem e ou a. A co eog a ia chega a inco po a cadeias de mo imen os
e en ol endo a o es sociais di e sos, que en am em cena em luga es di e en es de Lisboa,
cada um a seu empo, pa a se euni no ambien e in e no do elé ico 28. Assis i a es a
pe o mance em momen os do abalho de campo que me pa ece am alea ó ios.
Ce a ez, uma mulhe sen ada ao meu lado no banco duplo “no mal” con e sa a (em
po uguês b asilei o) com uma amiga que, de pé, a acompanha a
130
. Ao e um idoso emba ca ,
minha izinha de banco le an ou-se pa a lhe cede o luga . Enquan o isso, nenhuma das pessoas
na aixa dos 20 a 30 anos que ocupa am os assen os p e e enciais cede am luga . O idoso
iajou ao meu lado du an e apenas uma pa agem, e desceu. O luga ol ou a ica ago, mas a
mulhe que o ocupa a o iginalmen e pe maneceu em pé. Pouco depois, o assen o p e e encial
icou ago. En ão, a mulhe e sua amiga se sen a am ali.
Em ou a ocasião, duas jo ens iaja am sozinhas, cada uma em um assen o ese ado
sem ninguém a seu lado. Em uma pa agem, subi am duas mulhe es idosas. Sem que hou esse
qualque comunicação e bal en e as mulhe es de aixas e á ias dis in as, as duas jo ens se
le an a am pa a cede luga . E nenhuma das idosas se sen ou. As jo ens ol a am en ão aos
assen os ese ados. Mas o eléc ico seguiu caminho e a mesma cena ol ou a se epe i . As
no as duas idosas que a segui en a am no eléc ico se sen a am nos luga es cedidos. Cada
uma em um assen o ese ado, sem ninguém a seu lado - al e qual as jo ens es a am. Não
hou e, no amen e, qualque comunicação en e as mulhe es. Embo a coubessem as qua o nos
dois assen os duplos, as jo ens pe manece am em pé. O eléc ico e omou seu mo imen o e,
após e uma das idosas desce , uma das jo ens em pé ol ou a sen a lá. Po ém, na mesma
pa agem em que es e mo imen o oco eu, subiu uma mãe com ilho pequeno, isi elmen e
u is as. A jo em en ão ol ou a cede seu luga , ago a pa a uma dupla de no os pe sonagens.
E, na pa agem seguin e, emba cou ou a senho a idosa. Des a ez, a mãe e o ilho u is as lhe
cede am o assen o, e passa am aos undos do elé ico. Po ém, a idosa op ou po se sen a no
assen o ese ado do lado opos o do co edo . Aquela jo em que acompanhamos desde o início
seguiu de pé po mais uma pa agem, enquan o o assen o que a imos cede po ês ezes (pa a
duas idosas em duas pa agens dis in as e depois pa a a mãe com ilho pequeno) p osseguiu
li e. A úl ima idosa que acompanhamos subi no elé ico, pe maneceu sen ada du an e o
in e alo de uma pa agem apenas, e se le an ou. Foi só quando is o oco eu que a jo em em
130
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 6 (16/9/2020).
69
pé ol ou a se sen a no seu luga de o igem, que seguia ago. Lá pe maneceu po apenas mais
uma pa agem, e en ão desceu.
Es a sequência de dádi as e ocas de luga es oco eu no espaço- empo de poucas
pa agens, com o elé ico a segui ca ei a a o a. De o ma silenciosa, sem qualque pala a
ocada en e suas p o agonis as, somen e a a és de mo imen os co po ais - sen a -se e
le an a -se, basicamen e. En ol eu aixas e á ias dis in as, e an o u is as quan o esiden es a
se in e cala compa ilhando compo amen os semelhan es. Des a espécie de i ual obse ada
no elé ico 28, passagei os pa icipam de aco do com as ci cuns âncias e com suas mo i ações
subje i as. Não é um compo amen o a ibuí el pela obse ação a um g upo, e não a ou o.
Do pon o de is a da con i ialidade em um meio de anspo e público que é ambém
luga u ís ico, es e mic o episódio é ep esen a i o da di e sidade de a o es sociais que ali se
encon am. Há a idosa, a imig an e, a u is a. E é uma amos a de como não apenas o elé ico
se mo imen a pelas uas de Lisboa, uma cidade que na úl ima década em passando po
ans o mações u banas di e sas elacionadas à in ensi icação dos luxos u ís icos em seu
e i ó io. Mas, ambém, de como u en es di e sos do 28, com mo i ações di e sas pa a ali
es a em, se mo imen am em seu espaço in e no du an e es e pe cu so. Enquan o o elé ico se
locomo e, seus passagei os ambém se mo em.
Nes e caso, examinado em de alhes, obse a am-se mais analogias do que con as es
nes es mo imen os co po ais. Fo am obse ados modos de es a naquele ambien e bas an e
semelhan es ealizados po indi íduos que, sob pe spec i as analí icas dico ômicas, se iam
ca ego izados em g upos sociais dis in os. Mas há di e sidade nos modos de se compo a .
Assim como há di e enças nas paisagens lisboe as que passam pelas janelas con o me o echo
da ca ei a.
4.4 Do Ma im Moniz aos P aze es
Incluindo as pa agens inicial e inal, no Ma im Moniz e em en e ao Cemi é io dos
P aze es, o aje o cen o-bai o do eléc ico 28 possui 35 pa agens
131
, em um açado que
131
Pa a se p eciso: há uma pa agem (Es ela) que só é con emplada no ho á io no u no. En ão, embo a o o al de
pa agens seja 35, po e sido concen ado no ho á io come cial, es e abalho de campo só obse ou o eléc ico
passa po 34.
70
esul a de ampliações e usões de ou as linhas an e io men e exis en es
132
. Em média, es e
pe cu so le a ap oximadamen e 50 minu os pa a se pe co ido. Os in e alos p e is os en e
uma e ou a iagem a iam con o me a época do ano, o dia da semana e a ho a do dia
133
. De
segunda a sex a- ei a, le am em média 15 minu os nas p imei as ho as da manhã; 20 minu os
nas úl imas da noi e; e oi o minu os du an e o ho á io come cial. Com um expedien e que ai
das 5h40 às 00h10 nos dias ú eis, du an e a semana a ca ei a cump e mais de 100 iagens
diá ias em cada sen ido
134
.
Ao mesmo empo em que há es a p og amação acional e obje i a pa a que o 28 es eja
pon ualmen e em de e minado espaço de seu pe cu so, du an e as isi as de campo oi possí el
obse a como os imp e is os são ambém pa e da p og amação co idiana, cujas soluções
imp o isadas são, na p á ica, de e dos gua da- eios. Algumas des as si uações, ainda que não
enham ho á io ce o pa a oco e , eme gem com al equência que chegam a cons i ui , assim,
pa adoxais “imp e is os p e is os”. Fo nece in o mações sob e a cidade pa a u is as, po
exemplo, é uma a e a in o mal a mais no expedien e dos gua da- eios, que pode su gi em
qualque ho a ou pa agem. Mui as ezes, a si uação demanda o uso de idiomas es angei os
pa a os quais não necessa iamen e ecebe am capaci ação especí ica. Ou o “imp e is o
p e is o” é o des io da ca ei a pa a oma a alhos, e assim compensa a asos que es ejam a
oco e na linha como um odo. Não pe cebi um pad ão sis emá ico nis o, mas obse ei a
si uação epe i -se em isi as alea ó ias, o que suge e alguma equência co idiana. Vejamos.
Com os passagei os a bo do, o 28 inicia seu mo imen o con o nando o Ma im Moniz.
Logo em en e ao Cen o Come cial Mou a ia, o mo imen o do eléc ico po ezes é
momen aneamen e in e ompido, pa a agua da o luxo de uma ou a o ma de mobilidade; a
dos abalhado es a desca ega caminhões e con en o es pa a abas ece os comé cios que ali
se concen am. Ao alcança a ace no e da p aça, o 28 acede à Rua da Palma, e deixa o Ma im
Moniz pa a ás. Is o, semp e que segue a p og amação "o icial". Hou e pelo menos duas
ocasiões em que, ao in és de segui a no e pela Rua da Palma, como é o aje o egula da
132
Em sua disse ação de mes ado, Ri a Va ela Gomes desc e e como se deu es e p ocesso de o mação da a ual
ca ei a 28, ei a de ou as linhas mais an igas e, hoje, "inexis en es", além de ambém analisa a elação en e a
opog a ia lisboe a e pe cepção senso ial de um passagei o do elé ico (Gomes 2016).
133
De ma ço a ou ub o, a p og amação de ho á ios é uma. De no emb o a e e ei o, é ou a. Em dias ú eis é uma,
aos sábados é ou a e, em domingos e e iados, é mais uma ou a. Pa a conhece em de alhes odas as pa agens e
a iações ho á ias da ca ei a 28, consul a documen o em PDF “Ma im Moniz - P aze es - 28E”, cuja en ada
em igo se deu em 1/6/2021. Disponí el pa a isualização e desca egamen o em:
h ps://www.ca is.p / iaje/ca ei as/28e-ma im-moniz-p aze es/ [úl imo acesso em 5/11/2021].
134
Con o me dados compilados a pa i do mesmo documen o ci ado na no a de odapé an e io . [úl imo acesso
em 5/11/2021].
71
ca ei a, o elé ico i ou an es à di ei a, na Rua Fe nandes da Fonseca
135
. Is o o ez co a um
bom oço de seu pe cu so, pa a só depois eencon á-lo mais à en e, já nos a edo es do La go
das Po as do Sol. Nas ezes em que p esenciei is o, a mudança no plano de iagem não oi
anunciada pelo gua da- eio ao público p esen e. Tampouco pe cebi eações e p o es os da
pa e dos passagei os, ou qualque es anhamen o pe cep í el seque . O que obse ei nes as
ci cuns âncias o am u en es di e sos a pa ilha uma semelhan e indi e ença. Dada a epe ição
da oco ência, e ambém da o ma impassí el com que oi ecebida, al ez es e des io de
i ine á io seja uma “excepcionalidade cons an emen e p a icada” no dia-a-dia da ca ei a. Em
um des as ocasiões, quando o elé ico chegou à pa agem inal, abo dei o gua da- eio que o
conduzi a a é ali e pe gun ei a espei o. De o ma amis osa, oi ele quem me ensinou que es a
al e ação na o a é ado ada quando a ca ei a 28 começa a e a asos em sucessão. Pa a
ecupe a o empo e e oma a p og amação, oma-se es e a alho. É um imp o iso coo denado,
po an o; a a-se de um expedien e p e is o pa a quando oco em a asos no pe cu so. Meu
in e locu o me mos ou inclusi e uma planilha imp essa onde gua da- eios omam no as das
escalas e ho á ios de cada iagem. Naquele dia, e a pa a e mos saído da pa agem inicial às
12h50, mas já e am 13h00 quando deixamos o Ma im Moniz, e daí a decisão pelo a alho
136
.
Pa a quem u iliza o 28 no co idiano, as azões pa a es a indi e ença en e à sub e são
de seu aje o egula podem se imaginadas com acilidade. O elé ico é, se mui o, o meio pa a
chega a ou o luga - o abalho, a escola, o la - ou dele e o na , em mo imen o pendula .
Quem ali iaja com egula idade cons an e pode já e p esenciado es a mudança de pe cu so
em ou as ocasiões, e ê-la em con a apenas como pa e cons i uin e da o ina. Enquan o o 28
segue a cump i sua inalidade “o icial” de anspo e u bano, quem se encon a nele mo i ado
po es e im não em seu in e esse con on ado. Enquan o o 28 segue em mo imen o, ainda que
a lui po ias al e na i as imp o isadas, aquilo que lhe é o diná io não saiu do luga
137
. O
elé ico e seu mo imen o in e ompido (po aciden e, g e e, decisão polí ica…) é que se ia
um e en o excepcional mais digno de alguma eação obse á el. Mas e quem ali se encon a
pon ualmen e, pa a ins de laze u ís ico, endo no eléc ico 28 seu luga de des ino no
momen o, e não somen e um meio de locomoção? Seguindo a é o im des e pa ág a o no li e
e eno imagina i o das hipó eses monologicamen e cons uídas, conjec u o que alguma
al e ação pon ual no aje o ambém não é pe cebida po es es como des io des a inalidade,
135
Is o oco eu na Visi a 2 (18/8/2020) e na Visi a 6 (16/9/2020).
136
Nomeadamen e, no dia da Visi a 2 (18/8/2020).
137
No que suge e um e lexo lisboe a no século XXI da indi e ença e a i ude blasé eo izadas po Simmel (1903);
es a agemas co idianos necessá ios ao se u bano mode no pa a ei ica a caó ica ida social me opoli ana.
72
po que a “expe iência eléc ico” não deixa de se en egue. Daí a eação indi e en e ao oco ido.
Me pa ece que o e en o ão ecomendado pa a quem isi a Lisboa, e pa a o qual se pagou
ing esso, não co esponde ao cump imen o igo oso da ca ei a, pa agem po pa agem. O 28
enquan o p og ama de laze é compos o pela p esença co po al no elé ico e o egis o isual
dis o. Pa e da expe iência é emba ca isicamen e naquele mic o espaço e, com os p óp ios
olhos, assis i às paisagens lisboe as ansmi idas po suas janelas. E ou a pa e essencial é
pode a es a (ou se ia os en a ?) es e ei o ao exibi-lo, em imagens e em empo eal, nas suas
edes sociais digi ais. Enquan o o 28 segue a possibili a is o e, assim, cump i sua inalidade
de pon o u ís ico, não az g ande di e ença, pa a quem ali se encon a com es a mo i ação, se
a ca ei a es á ou não a se seguida ielmen e. O eléc ico pa a de se mo imen a (ou o
elemó el pa a de unciona …) é que se ia um obs áculo imp e is o, um e en o excepcional
mais digno de eações obse á eis.
Imagens 11 e 12: Duas amos as de como uma busca pela geolocalização do elé ico 28 ap esen a nume osos
esul ados em edes sociais. Na imagem à esque da, a busca oi po "T am 28 Lisbon". Na da di ei a, po "Eléc ico
28". Ambas ealizadas no Ins ag am, acedido pelo pe il pessoal do au o em 29/7/2021.
“Ai, meu Deus do céu!”, exclama a gua da- eio já na Rua da Palma, ao se ob igada a
aciona os a ões do eléc ico pa a agua da uma ca inha que en a, com bas an e di iculdade,
73
es aciona jun o à calçada
138
. Logo que mudei pa a Lisboa, em 2018, mo ei po alguns meses
na eguesia de A oios, que es amos ago a a aden a
139
, a Rua da Palma azia pa e de meus
pe cu sos habi uais. Po ém, le ei algum empo a é conhecê-la pelo nome. Um isi an e ou
esiden e neó i o da cidade (como eu e a) pode acilmen e enxe gá-la apenas como con inuação
da A enida Almi an e Reis
140
. Pois, ao alcança o In enden e, sem que se pe ceba uma mudança
de ua, a ua muda de nome e ganha s a us de a enida.
O inal da Rua da Palma e o começo da A enida Almi an e Reis êm como pon o de
encon o o La go do In enden e. Nos anos 2010, en e as múl iplas inicia i as (ju ídico-legais,
polí ico-econômicas, sócio u banís icas, publici á ias…) encabeçadas po agen es di e sos que
con ibuí am pa a a in ensi icação da a i idade u ís ica em Lisboa, a in e enção u bana
ealizada nes a p aça oi bas an e simbólica. Quem a conhece pela janela do elé ico 28 ou po
um punhado de ho as passadas em suas esplanadas pode não e em con a como a paisagem
cul u al ali e a ou a a é empos bem ecen es. “A P aça do In enden e oi du an e mui as
décadas uma das á eas mais no o iamen e ma ginais da cidade, o local p e e ido pa a a
p os i uição de ua e as d ogas pesadas”, con ex ualizam Male Cal o e Ramos, des acando
como a essigni icação daquele espaço (com a sua con e são em ia pedonal, a ins alação de
no o mobiliá io, a e o ma do edi icado ci cundan e e a ans e ência de epa ições
go e namen ais pa a ali) oco eu em pouco empo. “Demo ou apenas alguns anos pa a
ans o ma o almen e a P aça do In enden e; na e dade, es a ans o mação oi ão in ensa
que os lisboe as êm di iculdade em ac edi a que es a p aça, um dos locais mais es igma izados
e pe igosos da Baixa de Lisboa a é seis anos a ás, seja ago a uma á ea in e nacionalmen e
cobiçada e habi ada po a is as es angei os e hips e s eganos, que albe ga alguns dos ca és e
ba es mais badalados da cidade” (Male Cal o & Ramos 2018, 63-64)
141
. Embo a a meu e
138
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 17 (10/11/2020).
139
A é en ão, nas p oximidades do Ma im Moniz, nos encon á amos na eguesia de San a Ri a Maio .
140
Ao analisa os di e en es p oje os u banís icos que edesenha am e essigni ica am a Rua da Palma a é seu
açado a ual, que da a de 1860, o his o iado Tiago Bo ges Lou enço explica que a in isibilidade des a ua é algo
comum ambém en e os nascidos e c iados na egião: “Assim, se á em Lisboa o único exemplo de um a uamen o
que, con ando com mais de qua o séculos de exis ência, um quilôme o de comp imen o e uma impo ância ulc al
na malha u bana, se encon a (quase o almen e) ausen e do imaginá io dos lisboe as” (Lou enço 2018, 28). Pa a
além da exclamação da gua da- eio apon ada no início des e pa ág a o, a ia es e e ausen e ambém no meu
diá io de campo. Não hou e ou as obse ações egis adas naquele echo da ca ei a du an e as isi as.
141
T adução do au o . No o iginal, em inglês: “P aça do In enden e was o many decades one o he mos
no o iously ma ginal a eas o he ci y, he p e e ed place o s ee p os i u ion and ha d d ugs. (…) I only ook
a ew yea s o o ally ans o m he P aça do In enden e; in ac , his ans o ma ion was so in ense ha Lisbone s
ind i ha d o belie e ha his squa e, one o he mos s igma ized and dange ous spo s o Down own Lisbon un il
six yea s ago, is now an in e na ionally co e ed a e popula ed by o eign a is s and egan hips e s which
ha bou s some o he ci y’s mos endy ca és and ba s (…)”.
80
Imagem 14: Pela pe spec i a da janela do elé ico, di e en es mobilidades se c uzam no espaço público.
Regis ada pelo au o em 16/10/2020.
Ao aden a o século XXI na qualidade de “cidade em ansição” (Rod igues 2010),
Lisboa encon ou-se na condição de “(…) uma cidade mul i ace ada em e mos sociais e
u banís icos, o que ep esen a ala gado leque de cons angimen os e opo unidades. A cidade
possui uma his ó ia longa insc i a no e i ó io, o que aca e a algumas di iculdades à
ci ilização do au omó el (desde as ca ac e ís icas opog á icas do sí io às malhas com uas
ape adas, passando pela an iguidade de mui os conjun os edi icados), mas con ibui ambém
pa a a iden idade u bana e pa a sua iqueza pa imonial, sendo assim manancial de
opo unidades a explo a em e mos de u ismo” (Salguei o 2002, 20-21). A opog a ia
aciden ada e o desenho u bano in incado de Lisboa, que con ibuem pa a dispu as e
negociações de in e esses iá ios en e modais, moldam de modo agudo o pe cu so do 28 no
echo a segui . São es as mesmas ca ac e ís icas ma can es que con ibuem pa a a a a i idade
u ís ica da linha, ao o e ece em paisagens pi o escas po onde o eléc ico sacoleja em cu as
e ladei as, semelhan e a um agão de mon anha- ussa. Con o me ap endi com João,
in e locu o que em na ap eciação dos eléc icos um hobby e a é já publicou li o sob e a
81
his ó ia deles em Lisboa
160
, são es as mesmas ca ac e ís icas que azem es e se o modal de
anspo e cole i o mais adequado pa a pe co e egiões da cidade como a que ago a começa:
”Não há hipó ese de pô nada aqui sem se o 28. Au oca o?
Nenhum. Não há hipó ese. Po causa das cu as, dos al os e
baixos… não há hipó ese.”
161
Con e sei com João
162
em uma pas ela ia localizada na Rua da G aça, a mesma ia po
onde ago a o 28 segue caminho, a se pen ea
163
. Após e galgado o echo an e io , en e as
eguesias de A oios e Penha de F ança, es amos a aden a a eguesia de São Vicen e
164
. Na
Rua da G aça, ascas e pas ela ias como a que es i e com João passam, uma após a ou a, pelas
janelas dos dois lados do eléc ico. Assim como lojas de a igos pa a o la , de ele odomés icos,
e aquelas que de udo endem pelo p eço de um eu o. É no a elmen e uma ua come cial, e
is o se e le e en e os u en es do 28 que emba cam na pa agem homônima à ua (R. G aça) e
na seguin e (G aça), es a já bem p óxima ao mi adou o e à ig eja de mesmo nome. Foi algo
eco en e nes as pa agens, no sen ido Ma im Moniz-P aze es, obse a passagei os a
emba ca com sacolas de comp as
165
. Sob e udo, idosos que apa en a am se esiden es da
cidade, mas não somen e es es. Es e uso do 28 pa a aze comp as na G aça oi ambém
obse ado em ou os a o es sociais, como podemos e nes as duas no as:
Sobem dois jo ens es angei os com caixas de ce eja nas
mãos e sacolas de comp as. Assim como idosos que já i nes a
pa agem, de em e ei o comp as no mesmo local na G aça. Um se
sen a no undo do eléc ico, o ou o no assen o ese ado. Des a
160
Aze edo, João de. 1998. Lisboa: 125 Anos Sob e Ca is. Roma Edi o a, Lisboa. ISBN: 972-8490-01-1.
161
En e is a ealizada p esencialmen e com João de Aze edo em 23/5/2021, aos 1”04”21 de g a ação.
162
Conheci João em um g upo echado do Facebook, in i ulado “Lisboa e os seus eléc icos”, cuja o ina de
publicações es i e a obse a . Con o me ela ado no capí ulo 3.3 (“Segunda
aga”), oi a a és dele que en ei em con a o com João e nos encon amos pa a uma en e is a ao i o.
163
Nes a mesma ua de mão dupla, mo imen ada e es ei a, i enciei, na Visi a 5 (31/8/2020, às 17h45), uma
colisão en e o elé ico onde es a a, um ca o e uma mo a. Foi uma en a i a de ul apassagem do elé ico po
pa e de algum dos ou os condu o es, de modo semelhan e ao desc i o há poucos pa ág a os. O 28 es a a cheio
no momen o, com gen e em pé no co edo , mas elizmen e o aciden e não deixou í imas. Enquan o o gua da-
eio con e sa a na ua com os ou os en ol idos no choque, um passagei o pe gun ou a ele pela janela, numa
língua po uguesa ca egada de acen o es angei o: “O senho p ecisa de ajuda?”.
164
Nes e ín e im passamos ainda po uma pa agem mais, de nome Sapado es, que ica numa zona de íplice
on ei a en e eguesias (A oios, Penha de F ança e São Vicen e). Ao analisa meu diá io de campo, po ém, não
encon ei egis os localizados naquela pa agem a se des aca nes a in es igação. Daí o ex o a ança di e o, sem
pa a nela.
165
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 9 (9/10/2020); Visi a 14 (28/10/2020); e Visi a 20
(13/11/2020).
82
dis ância chegam a oca algumas pala as, pelo co edo , numa
língua que suponho se alemão. Eles acabam descendo na mesma
pa agem onde já i idosos desce em com suas sacolas de comp as;
na Rua Escolas Ge ais.
166
Na G aça sobe um casal que de e e no máximo 30 anos.
Falam ancês en e si, e ele le a nas mãos uma caixa de o os.
Pode iam se mo ado es es angei os, expa iados, nômades
digi ais, “classes c ia i as”. Podem se u is as que gos am de
i e a expe iência “like a local”
167
.
Regis adas em dias dis in os, es as no as exempli icam como, segundo minha
obse ação, pessoas de aixas e á ias di e en es e alando idiomas di e sos - o que po si suge e
não e em a mesma nacionalidade - podem u iliza o elé ico 28 de manei as análogas.
Semelhan es no mo i o pa a ali es a ( anspo a comp as), nos obje os que le am consigo
(me cado ias), nos luga es da cidade onde emba cam (G aça) e desemba cam (R. Escolas
Ge ais), no in e alo de empo que passam ali den o.
166
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 12 (23/10/2020).
167
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 15 (4/11/2020).
83
Imagens 15, 16 e 17: A o es sociais di e sos, modos de aze semelhan es: idosos e jo ens, po ugueses e es angei os
azem comp as na G aça e as anspo am no elé ico 28. Regis adas pelo au o em 9/10/2020 (Img 15); 16/10/2020
(Img 16); e 23/10/2020 (Img 17).
“O sí io ideal pa a jun a duas coisas que em mesmo de aze em Lisboa: apanha o
elé ico 28 pa a a G aça e sen a -se no mi adou o da G aça e ap ecia a is a”, suge e a página
ins i ucional do Tu ismo de Lisboa
168
. Com uma esplanada de en e pa a uma is a pano âmica
do cen o his ó ico, o Mi adou o da G aça em a ibu os u ís icos p óp ios, que azem dele um
cená io a aen e pa a quem que i a o os. Sendo ão acilmen e acessí el a a és da já ão
ecomendada e p ocu ada ca ei a 28, o luxo de u is as a subi e desce do eléc ico é equen e
168
Visi Lisboa, “Mi adou o da G aça”, h ps://www. isi lisboa.com/p -p /locais/mi adou o-da-g aca , com
e sões disponí eis em ou os cinco idiomas. [úl imo acesso em 2/11/2021].
84
naquela pa agem. Em uma ocasião
169
obse ei desemba ca em ali se e pessoas de um mesmo
g upo. Embo a enham iajado espalhadas pelos di e en es assen os, chega am e saí am jun as
do elé ico. C ianças, adul os e idosos, alan es de ancês. Aquele que imaginei se o a ô da
amília acomodou-se logo à minha en e, em um assen o indi idual. Sen ado de cos as pa a o
que as janelas do 28 mos a am da cidade, concen ado no que o ec ã de seu elemó el
emoldu a a, enquan o es e e den o do eículo ocupou-se exclusi amen e em i a o os dos
seus acompanhan es. Compo amen o semelhan e o a is o dois dias an es
170
, em um g upo
de cinco pessoas, ambém alan es de ancês, que emba ca a na pa agem inicial no Ma im
Moniz. Enquan o qua o deles iaja am sen ados, o quin o in eg an e pe maneceu em pé, no
co edo do elé ico. Pendu ada em seu pescoço, uma câme a o og á ica so is icada,
apa en emen e p o issional, com a qual ele egis ou, ins an e a ins an e, sua expe iência no
elé ico 28. A é desce na pa agem G aça onde, imagino, egis a ia mais e mais o os.
Ao deixa a G aça pa a ás, o elé ico 28 começa um echo em decli e pela Rua da
Voz do Ope á io. Na al u a da pa agem homônima a es a ua, como já acon ece a em echos
an e io es, oi equen e o elé ico in e ompe seu mo imen o pa a agua da os luxos de
ou os au omó eis azendo en egas a comé cios locais. Is o oco eu logo em minha p imei a
incu são ao campo, quando isi elmen e ha ia um núme o maio de u is as p esen es. Na
ocasião, uma ila de pessoas espe a a o 28 na pa agem an e io , jun o ao Mi adou o da G aça,
de onde o eléc ico pa iu com in e passagei os, qua o des es em pé. Sem a ança mui o, já
na Rua Voz do Ope á io a gua da- eio oi ob igada a aciona os a ões do eículo, po con a
de um caminhão de me cado ias que bloquea a a ca ei a. “Com o eléc ico pa ado, um u is a
(de chapéu panamá) saca uma câme a apa en emen e p o issional e i a o os da ig eja. Ao
mesmo empo, um u is a que caminha na calçada i a o os do eléc ico com seu elemó el”,
ano ei
171
. Pa a quem em no egis o o og á ico uma mo i ação em especial pa a comunga
des a expe iência no eléc ico, obs uções da ca ei a podem se es a égicas na busca pelos
melho es ângulos. E is o não se obse ou somen e em quem pagou a a i a do anspo e, mas
ambém em quem es a a a lana pelos passeios da cidade e a is ou o eléc ico a se ap oxima .
Sejam espe adas ou imp e is as, as pa adas do eléc ico 28 podem se poses bem- indas pa a
o os. Tan o de quem en a emoldu a paisagens da cidade em suas janelas o og a ando de
169
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 14 (28/10/2020).
170
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 13 (26/10/2020).
171
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 1 (15/7/2020). A ig eja ci ada nes a no a é a de São Vicen e
de Fo a, que ica bem p óxima à pa agem Voz Ope á io.
85
den o pa a o a, quan o de quem en a emoldu a o eléc ico nas paisagens da cidade,
o og a ando de o a pa a den o.
Mas nem só pa a ap eciação do ou is gaze (U y 2002) es as pa adas inespe adas
ep esen am opo unidades súbi as. Também na Rua Voz do Ope á io, obse ei que es as
in e upções e mic o a asos na ca ei a podem, na p á ica, ajuda u en es de o mas a iadas.
Foi já num momen o com meno p esença de u is as, no inal de ou ub o, que uma ca inha
iden i icada com a logoma ca da Jun a de F eguesia de São Vicen e es acionou sob e a ca ei a
pa a ealiza alguma en ega ou e i ada
172
. Sem comunica nada aos passagei os ou aciona a
campainha pa a chama a a enção do ou o condu o , o gua da- eio se pôs a espe a pela
libe ação da ia. Es a in e upção no mo imen o pe mi iu a um passagei o se ap oxima
co endo do elé ico, e nele emba ca . Em ou a ocasião, i um senho idoso emba ca na G aça
e, an es de chega à pa agem seguin e, pedi à gua da- eio pa a desce
173
. A gua da- eio
pe mi iu e ab iu a po a. Em se a ando de uma pessoa idosa, al ez es a concessão subje i a
imp o isada pela gua da- eio pudesse acon ece de qualque o ma. Con udo, ac o é que,
ambém naquela ocasião, calhou de um caminhão de en egas es acionou na ua e ob igou o
eléc ico a pa a . Fo a da pa agem, no caso, o que naquele con ex o eio a calha . Uma
obs ução da ca ei a a e a qualque u en e, não di e enciando quem ali se encon a po laze
ou de e . Mas es a mesma in e upção do mo imen o do elé ico pode signi ica a aso pa a
uns e adian amen o pa a ou os.
Ainda na pa agem Voz Ope á io, em ocasiões dis in as obse ei u en es po ugueses
sendo p oa i os pa a p es a ajuda a u is as. Em uma delas, um senho subi a na pa agem
an e io , e sen a a-se à minha en e
174
. Não sem an es ab i po con a p óp ia a janela jun o a
seu assen o. Ao chega mos na pa agem Voz Ope á io, um casal de es angei os desceu do 28
pa ecendo pe dido sob e qual di eção segui . A é pedi am in o mação ao gua da- eio, mas sua
espos a monossilábica não pa eceu escla ece a dú ida. Es ando sen ado bem p óximo a eles,
o senho imedia amen e colocou o b aço pa a o a da janela e, apon ando com a mão pa a a
di eção da G aça, explicou em po uguês: ”Vá a pé a é o inal!”.
Na ou a ocasião, a u en e po uguesa que p es ou auxílio ha ia emba cado não mui o
an es, na pa agem Sapado es e, ao en a , e baliza a sua insa is ação com a demo a do elé ico:
172
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 13 (26/10/2020).
173
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 9 (9/10/2020).
174
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 7 (1/10/2020).
86
“Es á mal! E em cheio!”
175
. Ela en ão se pos ou em pé, bem p óxima ao gua da- eio, e seguiu
iagem ali, alando com ele, a é pelo menos a pa agem da Voz Ope á io. En ão, um homem
calçando sandálias espo i as, segu ando uma câme a o og á ica so is icada e com um li e o
no bolso de ás da calça em cuja capa pude le o í ulo Lisbon Sigh seeing, eio do undo do
co edo do elé ico pa a pe gun a algo ao gua da- eio. “Cas elo? Eu lhe a iso!”, espondeu
a u en e que es a a bem ali. E, de ac o, ao chega na pa agem La go Po as do Sol, a mais
p óxima ao u ís ico Cas elo de São Jo ge, a mulhe g i ou e acenou com as mãos: “Pa a o
cas elo desças aqui, senho !”. Embo a enha exp essado seu incômodo pela demo a do elé ico
em passa e po encon á-lo mais cheio, ela não se u ou a se p es a i a com um u is a que,
como os mui os que azem ila no Ma im Moniz, con ibuem pa a que o 28 seja um anspo e
mais demo ado e cheio. Inclusi e, não apenas o passagei o que pedi a in o mação, mas ou os
- e, mui o p o a elmen e, u is as ambém - desce am na mesma pa agem do Cas elo após a
o ien ação dela.
A pa i da pa agem Cç. S. Vicen e começa um echo em ziguezagues po uas
es ei as, de desenho u banís ico medie al, sob e as quais o edi icado de bai os an igos como
Cas elo e Al ama se deb uça, com oupas a seca nos es endais. Da janela do elé ico às po as
das esidências e comé cios, o espaço pode se ão ape ado que os peões nos passeios p ecisam
se encos a às achadas quando o eículo passa. “O 28 le a ocê po algumas uas p incipais,
mas ambém po uazinhas pequenas… Que o dize , minúsculas! Mal há espaço pa a o elé ico
passa . Você pode pô a mão pa a o a da janela e oca nos p édios. É quase como um passeio
da Disney, onde ocê passa po dio amas: aqui é o ba bei o, aqui é a delica éssen, aqui é a
ca e e ia, aqui é a gale ia de a e, aqui é a pada ia”. Em episódio p oduzido no ano de 2018, oi
assim que o ap esen ado do se iado ele isi o Somebody Feed Phil desc e eu sua expe iência
ao anda no elé ico 28 de Lisboa
176
. Nes e echo, na esquina ce ada da Calçada de São
Vicen e com a Rua Escolas Ge ais, ambas de mão dupla e cuja p oximidade dos p édios não
pe mi e isualiza quem em do ou o lado, um semá o o coo dena de manei a al e nada o
á ego nos dois sen idos. Es ando no 28, ao aze a cu a é bas an e comum e ou o 28 pa ado
na di eção con á ia, a agua da a luz e melha i a e de.
175
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 3 (20/8/2020).
176
Foi no qua o episódio da p imei a empo ada, aos 36’22. C iado e ap esen ado po Phil Rosen hal, o p og ama
mos a a ações u ís icas e gas onômicas de luga es no mundo odo. Em Po ugal, ambém é conhecido pelo
nome “Alguém Dê de Come ao Phil”. O p og ama es á disponí el pa a audiências de di e sos países pela
pla a o ma de s eaming Ne lix, em: h ps://www.ne lix.com/ i le/80146601 [úl imo acesso em 20/11/2021].
87
Imagem 18:
177
O semá o o à di ei a, que coo dena al e nadamen e os dois sen idos en e a Calçada de São Vicen e e
a Rua Escolas Ge ais.
Em 2018, as jun as de eguesia de São Vicen e, San a Ma ia Maio e Mise icó dia
publica am um es udo que encomenda am em conjun o, in i ulado “No as dinâmicas u banas
no cen o his ó ico de Lisboa”
178
. Tendo iden i icado nos anos an e io es alguns p ocessos que
sinaliza am ans o mações do que e am suas ca ac e ís icas demog á icas e e i o iais a é
en ão conhecidas, o obje i o conjun o e a jus amen e diagnos ica quais e como e am ais no as
dinâmicas, pa a pode baliza ações polí icas nes as zonas cen ais. En e os enômenos que as
au o idades locais p ocu a am comp eende es a am a in ensa eabili ação do edi icado, a
p esença de no os u en es da cidade, e, al ez a mais sensí el delas, a p essão in lacioná ia no
me cado imobiliá io
179
.
177
Google Maps, No /2020, disponí el em h ps://goo.gl/maps/XDn4pD j58n9ALKU6 [consul ado em 20/10/2021].
178
Assembleia Municipal de Lisboa. (2018a). No as dinâmicas u banas no cen o his ó ico de Lisboa.
Disponí el em: h ps://www.am-lisboa.p /452000/1/,000516/index.h m [úl imo acesso em 20/11/2021].
179
A associação en e u is i icação e p essão imobiliá ia nos a edo es do cen o his ó ico de Lisboa o nou-se
um ema sensí el em anos ecen es, ge ando a igos cien í icos, publicações na imp ensa, deba es polí icos e
medidas ju ídicas. Não osse pelo escopo emá ico mais delimi ado que ca ac e iza uma disse ação de mes ado,
se ia bas an e bem- indo inco po a al ques ão nes a in es igação. Apenas pa a exempli ica : na época des e
abalho de campo, eu mo a a em Ca ca elos, na á ea me opoli ana de Lisboa, e ce o dia me chamou a a enção
e , na i ine de uma imobiliá ia em minha izinhança, um anúncio de apa amen o à enda na G aça, em Lisboa
– uma localização um an o dis an e dali. Especi icamen e, me chamou a enção o ac o do ca az anuncia como
mais- alia a p oximidade do elé ico 28. Dizia o ex o: “Si uado num dos mais emblemá icos bai os an igos de
Lisboa com acesso ácil ao mi adou o de S a Luzia, Sé, Pan eão en e ou as e e ências do pa imónio da cidade
de Lisboa. T anspo es públicos acessí eis, nomeadamen e o amoso elé ico 28”. Ti ei uma o o pa a egis a
is o. Mas, dada a complexidade de cada uma des as en es emá icas (habi ação mobilidade u bana, u ismo e
sociabilidades no cen o his ó ico de Lisboa), al ez inco po a ainda ou o campo osse uma ideia mais ap op iada
88
Ao chega na Rua Escolas Ge ais, além do a o de e obse ado ali compo amen os
semelhan es p a icados po a o es sociais di e sos - como oi o caso, is o há poucos
pa ág a os, de an o “idosos locais” quan o “jo ens es angei os” desemba ca em nes a mesma
pa agem após e em ei o comp as na egião da G aça -, ambém o cená io onde os obse ei é
sin omá ico des as izinhanças en e empos, mobilidades e es ilos de ida a iados. Logo em
en e à pa agem, empa edada naquela ia es ei a e an iga po onde passa o eléc ico, encon a-
se uma unidade do Copenhagen Co ee Lab. Fundado na Dinama ca, em 2013, a a-se de “(...)
uma mic o- o e ação de ca é com 31 ca e e ias em oda a Eu opa e uma loja i ual pa a a
nossa comunidade eu opeia”
180
, que con a com unidades na Alemanha, F ança e Po ugal.
Se uma cadeia com dezenas de unidades sem dú ida con adiz a a i mação de se
“mic o”, mas al ez um con as e mais sensí el ao olha do que o do p óp io discu so da
emp esa seja o ac o de uma de suas iliais lisboe as
181
se encon a na Rua Escolas Ge ais, ão
es ei a e pouco acessí el a au omó eis. Sua p esença naquele local exempli ica, com uma
e são ambien ada em Al ama, a “domes icação pelo cappuccino” concei uada po Sha on
Zukin, onde as elações de pode sob e o espaço u bano não se dão somen e em e mos
inancei os, mas ambém cul u ais. “No os gos os deslocam aqueles dos esiden es de longa
da a, po que e o çam as imagens da e ó ica polí ica do c escimen o, o nando a cidade uma
zona de en e enimen o 24 ho as po dia, 7 dias po semana, com espaço segu o, limpo e
p e isí el, e bai os mode nos e so is icados” (Zukin 2010, 4)
182
. Ao ap o unda a análise,
Zukin en a iza que os gos os e es ilos que en ol em es es no os espaços de consumo podem,
g adualmen e, p oduzi comunidades cul u ais di e en es, com ipos di e en es de
sociabilidade. A au o a elaciona es a dinâmica com o ma ke ing e i o ial (que con ibui pa a
a a ação de luxos u ís icos) e o enca ecimen o do p eço da e a: “No as lojas e no as pessoas
p oduzem no os e oi s u banos, localidades com um p odu o e ca á e cul u al especí icos
a um escopo de p oje o de maio ôlego. Fica en ão, nes a no a, a suges ão em abe o, caso algum ou alguma
colega na pos e idade se in e esse em explo a es as in e conexões, nes e eco e da cidade, en e mobilidade
u bana, mo imen o u ís ico, sociabilidades e p essão in lacioná ia.
180
Assim a ede se ap esen a em sua página ins i ucional no Facebook T adução do au o . No o iginal, o echo
na ín eg a em inglês: “Copenhagen Co ee Lab is a co ee mic o oas e y wi h 31 co eeshops a ound Eu ope and
a web shop o ou eu opean communi y. Cu en ly do we ha e co eeshops and bake ies in Ge many, F ance
and Po ugal”. Disponí el em: h ps://www. acebook.com/cphco eelab/abou [úl imo acesso em: 20/11/2021].
181
Sim, po que há ou as seis na cidade. Segundo o sí io da emp esa (h ps://copenhagenco eelab.com ; úl imo
acesso em 20/11/2021], em Lisboa, o Copenhagen Co ee Lab em unidades na Baixa, na Es ela, em Alcân a a,
no Cais do Sod é, nos a edo es do P íncipe Real e duas unidades em Al ama. Se ia coincidência es es bai os
odos em em comum o a o de se em bas an e p ocu ados po u is as?
182
T adução do au o . No o iginal, em inglês: “New as es displace hose o long ime esiden s because hey
ein o ce he images in poli icians’ he o ic o g ow h, making he ci y a 24/7 en e ainmen zone wi h sa e, clean,
p edic able space and mode n, upscale neighbo hoods”.
89
que podem se come cializados em odo o mundo, a aindo u is as e in es ido es e o nando a
cidade segu a, embo a não ba a a, pa a a classe média” (ibidem). Não se ia es e o caso do
Copenhagen Co ee Lab, uma “no a loja” que ica logo em en e à pa agem R. Escolas Ge ais,
onde obse ei an o “no as” quan o "an igas" pessoas a anspo a suas comp as co idianas?
Pa agem es a po onde passa o eléc ico 28, ao aden a zonas his ó icas da cidade (Al ama,
Cas elo…), paisagens que ilus am an as ep esen ações de Lisboa is as no ma ke ing
e i o ial da cidade?
Ao mesmo empo em que pode se p ecoce já sen encia es a o mação de um “no o
e oi u bano” na Rua Escolas Ge ais e em Al ama como p ocesso i e e si elmen e
concluído - a é po que o pe íodo pandêmico a e eceu algumas o ças econômicas e
elocidades de ans o mação -, ambém se ia ingênuo assumi es a inse ção de “no os”
negócios (mic o ansnacionais) em luga es “an igos” como me a coincidência. É ac o, po
o a, que es e cená io híb ido onde o “ adicional-local” e o “mode no-global” con i em no
co idiano, o ma um odo a aen e ao olha u ís ico.
Imagem 19:
183
Com mais de 14 mil seguido es no Ins ag am [consul ado em 20/11/2021], o pe il O
Al acinha Viajan e dedica suas publicações a egis os de iagens, com des aque pa a paisagens e luga es em
Lisboa. Em maio de 2020, o pe il publicou es a o o, i ada de den o do Copenhagen Co ee Lab, em que o
elé ico 28 apa ece a passa .
183
Ins ag am (2020). O Al acinha Viajan e. Disponí el em: h ps://www.ins ag am.com/p/CAsS0i-nKXM/
[úl imo acesso em 20/11/2021].
96
Em 2015, oi inaugu ado o Ele ado de San a Luzia, conec ando ao mi adou o a pa e
baixa de Al ama, que ica no ní el do Tejo. “Um equipamen o que pe mi i á a mobilidade dos
mo ado es mais idosos, mas ambém o usu u o po pa e dos u is as, numa eguesia de
colinas”, comunica a na ocasião a au o idade local de Lisboa, anspa ecendo uma en a i a de
concilia in e esses de a o es sociais di e sos
194
. É inegá el que o equipamen o con ibui pa a
a mobilidade - sob e udo, e ical - de esiden es, ajudando a ence uma encos a íng eme que
pode se um aje o co idiano penoso pa a quem mo a na pa e al a ou baixa do bai o. Fac o
ambém é que, pa a quem desemba ca de um na io no Te minal de C uzei os de Lisboa, são
apenas 10 minu os de caminhada a é o local de emba que no ele ado , na Rua No be o de
A aújo
195
. Es e o ei o ecebeu um nome emblemá ico: “Pe cu so dos C uzei os aos
C uzados”
196
. Pa a quem a aca em Lisboa de manhã bem cedo ou no inal da a de e em ce ca
de um dia (ou somen e poucas ho as) pa a explo á-la, é um p og ama suges i o. Inclui
caminha po um bai o his ó ico, i a o os pano âmicas, e azulejos, o cas elo e,
possi elmen e, a é emba ca no 28.
Na pa agem Mi adou o de San a Luzia i o elé ico se enche de gen e, u is as em
especial, com o co edo a ica aglome ado de pessoas em pé
197
. Is o, mesmo ha endo um ou
ou o assen o li e, o que pa a mim suge e se em u en es que pe manece iam po poucas
pa agens. Cheguei a obse a uma jo em alan e de ancês, em pé, com uma mão a segu a na
ba a de apoio do elé ico, e com a ou a a segu a um pas el, que ia comendo. Mas, se a
associação com o u ismo de massa dos c uzei os e um ce o “modo as - ood” de consumi
a ações da cidade me chamou a enção ali, o mesmo oco eu ambém com in e ações amis osas
em meio a si uações co idianas de um anspo e público. Como quando uma amília de qua o
pessoas (pai, mãe, ilhos adolescen es), odos de másca a e o pai com um mapa nas mãos,
chamou o elé ico nes a pa agem
198
. No ins an e em que o eículo encos ou, um idoso que se
ap oxima a pelo passeio ez menção de subi an es deles. Ao pe cebe que es a a p es es a
194
Câma a Municipal de Lisboa, “Te aços do Ca mo e Ele ado de San a Luzia inaugu ados”, publicado em
10/6/2015. Disponí el em: h ps://www.lisboa.p /a ualidade/no icias/de alhe/ e acos-do-ca mo-e-ele ado -de-
san a-luzia-inaugu ados [úl imo acesso em 20/11/2021].
195
Con o me o a a pé açada no Google Maps, disponí el em: h ps://goo.gl/maps/ x4MR5sBCWCyPwV7
[úl imo acesso em 18/11/2021].
196
Câma a Municipal de Lisboa, “No as acessibilidades à Colina do Cas elo”, disponí el em:
h ps://www.lisboa.p /cidade/u banismo/espaco-publico/no as-acessibilidades-a-colina-do-cas elo [úl imo
acesso em 20/11/2021].
197
Es e pa ág a o oi baseado nos egis os em diá io ealizados na Visi a 4 (26/8/2020), Visi a 11 (16/10/2020)
e Visi a 14 (28/10/2020).
198
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 4 (26/8/2020).
97
u a a ila, o idoso pediu desculpas, em po uguês. O pai da amília espondeu na mesma
língua: “Podes passa , emos que paga ”. O idoso não passou: pe maneceu a agua da o
emba que da amília. E complemen ou, bem-humo ado: “Es á udo bem. Eu não pago!”, ao
que se segui am isos.
O 28 con inua a desce a colina
199
. Tendo em is a o mo imen o de u is as a lana
pelo passeio es ei o à di ei a, que po ezes dão passos inespe ados no alca ão, o gua da- eio
oca a campainha epe idamen e pa a chama -lhes a a enção
200
. É uma o ma de poluição
sono a com a inalidade de e i a aciden es, à qual se ac escen a o uído es iden e dos a ões
quando acionados, passí eis de audição bem an es que se isualize o eléc ico su gi na ua.
Embo a se obse em u is as no elé ico e pelas janelas, seu luxo de emba que e
desemba que oi menos equen e na pa agem seguin e, Limoei o. Hou e ocasiões em que o
elé ico seque pa ou ali, e is o acabou po se e le i em poucos egis os apon ando es a
localização em meu diá io. Em mais uma in e ação amis osa en e desconhecidos, semelhan e
a ou as que já es emunha a, obse ei quando, seguindo a o ien ação de uma senho a
po uguesa, um g upo de ês senho as alan es de inglês desceu nes a pa agem. Não sem an es
despedi em-se, ag adecidas. No con ex o des es encon os, a in o mação de um “na i o” sob e
a cidade é uma dádi a ao “ o as ei o”. Nes a pa agem i ambém emba ca em duas mulhe es,
que p esumi mãe e ilha, com uma mala de iagem cada uma. Sen a am jun as num banco
duplo, e deposi a am as malas no chão do co edo , bem p óximas a si. Da a pa a pe cebe a
p eocupação das duas em não obs ui (po ém já obs uindo em pa e) a passagem. Ponde e-se
ambém que o espaço ocupado po seus pe ences não e a supe io ao espaço ocupado pelas
sacolas de comp a que me acos umei a e emba ca em na G aça.
“É impossí el não se c uza com a Sé na sua es adia em Lisboa: que suba ao Cas elo,
que apanhe o 28, que a a esse o io ou con emple a cidade a pa i dos á ios mi adou os
i ados a es e (…)”, dec e a o Tu ismo de Lisboa
201
. Não obs an e a ig eja his ó ica se ci ada
como um dos cinco monumen os mais isi ados na cidade po u is as (Obse a ó io Tu ismo
de Lisboa 2019, 3-4 e 23), du an e meu abalho de campo, assim como no Limoei o, nes a
pa agem não hou e um luxo ma can e de passagei os no elé ico. Conjec u o se não é um
pon o mais isi ado a pé, uma ez que a caminhada é um meio de locomoção e a i idade de
199
Es e pa ág a o e o p óximo o am baseados nos egis os em diá io ealizados na Visi a 5 (31/8/2020), Visi a
9 (9/10/2020) e Visi a 13 (26/10/2020).
200
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 5 (31/8/2020).
201
Visi Lisboa, “Sé Ca ed al”, disponí el em: h ps://www. isi lisboa.com/p -p /locais/se-ca ed al [úl imo
acesso em 20/11/2021].
98
laze ambém bas an e p a icada po u is as na cidade (Ibidem, 18). Ou pelo meio de
locomoção o e ecido po um ope ado u ís ico con a ado, como po exemplo os uk- uks que
cos umam se is os ci culando ou es acionados em en e à Sé.
Toda ia, oi an es de alcança a pa agem Sé, ambém em en e à ig eja, que
es emunhei um episódio en ol endo alguma ensão associada ao con ex o pandêmico
202
. O
gua da- eio pa ou o elé ico, desligou o mo o e, sem abandona seu pos o, gi ou o p óp io
co po no sen ido dos passagei os. I i ado, anunciou pa a odos que a másca a é de uso
ob iga ó io no elé ico, e que é p oibido se deb uça nas janelas do eículo. Es e inha sendo,
p ecisamen e, o compo amen o de uma jo em u is a sen ada logo à minha en e. Se
inicialmen e di igia-se ao cole i o de passagei os, o gua da- eio en ão apon a pa a ela. A
ga o a en ende, o a ende, e na mesma ho a coloca sua másca a de ol a. A é seu desemba que,
na Baixa, não a ejo mais se deb uça na janela. Pe cebo que ela ala em ancês com seu
acompanhan e, o que me le a a c e que, mesmo se não comp eendeu as pala as exa as da
ep eensão que ecebeu, ela sabia no quê es a a e ada. O apaz apa en a a mesma idade que
ela, mas seu compo amen o no 28 não e a igual ao dela, passí el de p o es o; assemelha a-se
mais ao dos demais u en es. Quando eliga o mo o , o gua da- eio exclama um desaba o inal
que, a mim, soou na i is a: “Que es mo e ?! Vais mo e no eu país! Não no meu!”.
Ao c uza o La go Madalena, o elé ico 28 deixa pa a ás as ladei as, cu as e ielas
medie ais que ca ac e izam os bai os po onde Lisboa começou a se cons ui , e aden a o
açado iluminis a de a qui e u a es anda dizada da Baixa Pombalina, epicen o da econs ução
da cidade após o e amo o que, no século XVIII, di idiu sua his ó ia en e an es e depois. Se
as linhas do desenho u bano condicionam o mo imen o do eículo e, consequen emen e, a
expe iência senso ial de iaja em seu in e io , du an e as oi o quad as des e echo os
sola ancos e uídos são amenizados.
Seguindo e o pela Rua Conceição, as janelas à di ei a e à esque da expõem mon as
em sé ie de comé cios ao ní el do és-do-chão. Há lojas abe as em ou os empos que
pe manece am a é o p esen e (ga a ei a, ba bei o, queija ia, ou i esa ia e, p incipalmen e,
e osa ias
203
), e há lojas abe as em anos ecen es que p ocu am emula empos passados
204
.
202
Es e pa ág a o oi baseado nos egis os em diá io ealizados na Visi a 3 (20/8/2020).
203
Somen e no in e alo de qua o qua ei ões en e a Rua da P a a e a Rua Áu ea, há cinco e osa ias
con empladas no p oje o Lojas com His ó ia, que busca p omo e es abelecimen os a aliados como pa imónio
cul u al pelo g upo de abalho esponsá el. Ve mais em: h p://lojascomhis o ia.p / [úl imo acesso em
22/11/2021].
204
Como os dois comé cios de conse as po uguesas que icam en e a en e, um de cada lado da ua, na
esquina com a Rua da P a a. E guidas pa a a ai o ou is gaze (U y 2002), há polêmica em o no de lojas assim
que, em ma é ia na imp ensa, o am chamadas de “ alsos comé cios an igos”. Ve jo nal Diá io de No ícias
99
Há agências bancá ias de odas as bandei as, e um ou ou o es au an e e ho el. Há ambém
minime cados e, em maio núme o, lojas de sou eni . Nes as, in a ia elmen e, é possí el e
expos as nas mon as éplicas do elé ico 28 em escalas di e sas. João, en usias a dos elé icos
com quem con e sei, me chamou a a enção pa a o ac o de que nem odas es as “lemb anças
de Lisboa” à enda no cen o his ó ico ep oduzem o elé ico 28 que pe co e as uas da cidade.
“Ou o dia, há pouco empo, nas lojas de sou eni , es ás a e ? No meio inha um modelo….
Faz de con a que e a o nosso. E eu disse ao endedo , o dono e a um indiano. ‘Olha, es e
elé ico não é o nosso. É mui o boni o, mas não é!’
205
. Po im, na Rua Conceição há ambém
es abelecimen os de olu os ou cobe os po apumes. Do pe íodo em que ealizei o abalho de
campo a é es e momen o em que edijo a disse ação, a imp ensa po uguesa cob iu em ma é ias
a iadas os impac os da pandemia no comé cio da Baixa, bas an e dependen e da demanda que
os luxos u ís icos p opo cionam. Es ima-se que passa de uma cen ena o núme o de
es abelecimen os ence ados só naquela zona du an e o pe íodo pandêmico
206
.
A pa agem R. Conceição é ce amen e uma das mais mo imen adas da ca ei a no luxo
de emba que e desemba que de passagei os
207
. Mui os u is as en e eles, que, dada a
localização p óxima a ho éis, à Rua Augus a e ao Te ei o do Paço, é de se imagina que desçam
ali em con inuação ou ence amen o de seu o ei o pa a o dia. Já en e os que emba cam nes a
pa agem, é possí el que subam ali como pa e de sua p og amação u ís ica - ou a é de o ma
mais imp o isada, po opo unidade. Assim como a pa agem Mi adou o San a Luzia, es a
ambém ica a uma dis ância caminhá el desde o Te minal de C uzei os de Lisboa, o que
ambém pode con ibui pa a que haja conexões en e os emba ques e desemba ques em um e
no ou o
208
.
Tan o as lojas come ciais da p óp ia ia - sob e udo, as de conse as po uguesas -
quan o seu c uzamen o com a Rua Augus a exe cem um e ei o magné ico sob e as câme as dos
passagei os, que chegam a se mo imen a no in e io do eículo pa a consegui os melho es
(2016a), Depois dos pas éis, ago a uma ilegalidade com as enguias. Disponí el em:
h ps://www.dn.p /sociedade/depois-dos-pas eis-ago a-uma-ilegalidade-com-as-enguias-5087226.h ml [úl imo
acesso em 20/11/2021].
205
En e is a ealizada p esencialmen e com João de Aze edo em 23/5/2021, aos 59’50 de g a ação.
206
Con o me ma é ia do canal SIC No ícias (2021b), “En e as lojas que echa am pa a semp e e as que
esis em…”, disponí el em: h ps://sicno icias.p /especiais/co ona i us/2021-07-23-En e-as-lojas-que-
echa am-pa a-semp e-e-as-que- esis em-o- e a o-da-baixa-pombalina-0a597043 [úl imo acesso em
3/11/2021].
207
Es e pa ág a o e os dois seguin es o am baseados nos egis os em diá io ealizados na Visi a 4 (26/8/2020),
Visi a 9 (9/10/2020), Visi a 12 (23/10/2020), Visi a 13 (26/10/2020) e Visi a 14 (28/10/2020).
208
Pouco mais de um quilôme o, que podem se pe co idos em ce ca de 15 minu os. Con o me o a a pé açada
no Google Maps, disponí el em: h ps://goo.gl/maps/wMSSJKVbypkp b7dA [úl imo acesso em 1/12/2021].
100
cliques. Os dois sen idos da ca ei a 28 pe co em pa alelos es a ua, em linha e a e plana, e
oi possí el obse a o elé ico passa bem p óximo no sen ido con á io, ambém com á ios
u is as a con empla o que iam pelas janelas. De cá, egis os o og á icos do elé ico de lá, e
ice- e sa. En e os que ali emba cam, há igualmen e uma p eocupação especial em egis a o
passeio em imagens, sem pe de uma cena, desde o momen o em que se acomodam. Em uma
mesma ocasião, obse ei dois casais de u is as que subi am na pa agem R. Conceição. O
p imei o es imei e na aixa dos 50 anos; ala am ancês. O homem azia um guia u ís ico
en iado no bolso de ás da calça, e já subiu com uma câme a na mão. Sen ou-se sozinho em
um banco duplo à esque da, sepa ado da mulhe com quem chegou, e não i ou mais olhos e
len es da janela, a é o momen o de desemba ca . O segundo e a alan e de espanhol e de ia e
no máximo 30 anos. Ambos se acomoda am no assen o ese ado, po ém sepa ados: o homem
no assen o à esque da, a mulhe no assen o à di ei a. Os dois o am ilmando com seus
elemó eis o pe cu so in ei o pelo empo que lá pe manece am, a a és da janela dian ei a do
elé ico - es a am nos assen os mais p óximos do gua da- eio. Me pa ece am e subido ali
com es e exa o plano.
Em ou a ocasião, naquela pa agem i emba ca um io de amigas na aixa dos 20 anos,
alan es de ancês. Enquan o es i e am no elé ico, seu compo amen o em nada se sob essaiu
daquilo que obse ei como o inei o no elé ico - seja da pa e de u is as, ou mesmo de
“locais”. O que o nou sua p esença chama i a (ao menos, pa a mim) oi que, a a és de seus
pe ences e ado nos, ainda que i e le idamen e, elas os en a am um pode de enda dis in o ao
e elado pelos obje os de ou os u en es. Uma, duas, ou as ês exala am um pe ume o e,
que se alcançou meu ol a o na dis ância em que eu es a a, ce amen e ambém se ez no a po
ou os passagei os. Além de maquiagens, acessó ios dou ados e co es de cabelo semelhan es,
as ês calça am ênis b ancos, cada pa de uma di e en e ma ca in e nacionalmen e
conhecida
209
. As ês ca ega am bolsas que me pa ece am ca as. Como eu desconhecia as
ma cas es ampadas nelas, omei no a de uma, pa a depois busca in o mações a espei o na
in e ne - e descob i se de uma g i e i aliana p es igiada, cujos p eços podem a ia en e
cen enas e milha es de dóla es po bolsa
210
. Is o no mesmo modal do anspo e público lisboe a
em cuja pa ede in e na há um a iso a ixado, dizendo em língua po uguesa, inglesa e ancesa
pa a e “Cuidado com os ca ei is as”. Tem algo de pa adoxal em os en a pe ences cujo
209
Nomeadamen e, das ma cas Puma, Adidas e Fila.
210
A igno ância de pa ida e a oda minha, pois mui o possi elmen e quem lê is o ago a conheça há empos a
ma ca, e enha noção dos p eços de seus p odu os. Chama-se Moschino, e conside emos que se a a a de p odu os
“o iciais” - e não con a ei os. Os p eços encon ei no comé cio ele ônico da emp esa, disponí el em:
h ps://www.moschino.com/us_en/moschino/women/bags/handbags.h ml [acesso em 25/7/2021].
101
consumo é inacessí el pa a mui os num luga público onde a p eocupação com u os é
explici ada a é na comunicação ins i ucional.
Passada a Rua da Conceição, a ca ei a segue po ou o echo de encos a: a colina do
Chiado. Embo a es ejam ainda em meio à zona cen al, onde há mui a ci culação de u is as, as
duas pa agens nes e in e alo íng eme (uma é a Lg. Academia Nacional Belas A es; a ou a é
a R. Vi o Co don / R. Se pa Pin o) não i e am mo imen os e compo amen os egis ados em
diá io
211
. Obse ei poucos emba ques e desemba ques po ali, de pessoas a u ismo ou não.
Vencida a subida, o elé ico encon a a pa agem Chiado logo que en a no la go de
mesmo nome
212
. De on e a ela ica a escada ia de en ada pa a a es ação de me o Baixa-
Chiado, a ás da qual se espalham esplanadas. Alguns a is as de ua, co idianamen e is os
nes e pedaço, di ecionam suas ap esen ações pa a quem po en u a ocupe es as esplanadas; um
papel que de modo habi ual é desempenhado po u is as, que ap o ei am pa a i a uma o o
com a es á ua de Fe nando Pessoa localizada ali ambém. T a a-se um dos luga es mais
u ís icos de Lisboa, con e ido po quase 100% das pessoas que isi am a capi al po uguesa
(Obse a ó io Tu ismo de Lisboa 2019b, 23). Já a pa agem seguin e, homônima e em en e à
P aça Luís de Camões, em a especi icidade de se um pon o de encon o pa a excu sões
u ís icas ealizadas a pé. Ao passa po ali, pude obse a g upos a se o ma em, cada um em
o no de uma pessoa com um gua da-chu a colo ido - seu p o á el guia na ocasião
213
.
A obse a pela janela do elé ico, o mo imen o de u is as nos en o nos da pa agem
Chiado e da pa agem Pç. Luís Camões me pa eceu um só, con íguo. A dis ância en e uma e
ou a se pe co e a pé, em dois minu os
214
, e pelos passeios públicos des e in e alo iam-se
g upos maio es ou meno es de u is as a i e i , caminhando quase que aglome ados. Dado o
desenho in incado da malha u bana nes e e alho, ambém o ânsi o de eículos di e sos
p o oca aglome ações, e ob iga seus agen es a imp o isa negociações sob e o espaço. Como
211
Pelo menos, não no sen ido da ca ei a em que po o a es amos. No capí ulo 4.7 (“Pe didos e achados no
e o no”), passa emos po algumas obse ações egis adas nes e echo especí ico.
212
Es e pa ág a o e os ês seguin es o am baseados nos egis os em diá io ealizados na Visi a 4 (26/8/2020),
Visi a 9 (9/10/2020), Visi a 10 (14/10/2020), Visi a 11 (16/10/2020), Visi a 13 (26/10/2020) e Visi a 14
(28/10/2020).
213
Algumas in es igações acadêmicas ealizadas na úl ima década em Lisboa examinam de modo ap o undado
como a cidade é ap esen ada a u is as a a és do abalho des es p o issionais. Ca a ina F ei e Leal acompanhou
dois guias de u ismo “al e na i o” em passeios pelo cen o his ó ico de Lisboa, obse ando an o sua manei a
“o icial” de in o ma sob e a cidade, quan o suas opiniões e c í icas pa icula es nos bas ido es (Leal 2014). Já
Gab iela Le y Dinkhuysen explo ou os undamen os do concei o de “desen ol imen o sus en á el” pa a an o
a alia os impac os das p á icas de guias con empo âneos, quan o en a p opo no as o mas de a uação nes e
sen ido (Dinkhuysen 2017).
214
Con o me o a a pé açada no Google Maps. Disponí el em: h ps://goo.gl/maps/8WH9hSSH k1yeNQR8
[úl imo acesso em 20/11/2021].
102
quando, na esquina em que o La go do Chiado encon a a Rua da Mise icó dia, dois ca os
a ança am en e ao semá o o que ica a e melho, e assim obs uí am os ca is do eléc ico.
O gua da- eio pôs-se en ão a soa a campainha, sem cessa , a é que saíssem do caminho.
Alguns a o es e modos de a ua obse ados no in e io do elé ico e já analisados ao
longo des e ex o ambém se epe i am aqui, como o de pessoas que emba cam jun as e iajam
sepa adas. Após subi na pa agem Pç. Luís Camões, i quando uma amília de alan es de
ancês (pai, mãe e duas ilhas adolescen es) ep oduziu es e compo amen o. O pai ocupou
sozinho o assen o ese ado duplo à di ei a. A ilha mais no a ocupou sozinha o assen o
ese ado à esque da. A mãe e a ou a ilha ica am jun as, em um dos assen os duplos
egula es, mais ao undo do elé ico. Foi nes a mesma al u a onde obse ei dois passagei os
adul os que, pelos aços eno ípicos, p esumi se em nascidos (ou descenden es de nascidos)
em algum país sul-asiá ico, como Índia ou Bangladesh. Ao mesmo empo em que não le a am
obje os que indicassem se em u is as (como sandálias espo i as, mochilas, chapéu, óculos
escu os, câme as em punho, guias de bolso, mapas…), e sim que e am esiden es em uma
si uação co idiana de uso do anspo e público, um apon a a pa a o ou o e as cenas que
passa am pela janela. Na p á ica, es a am a aze u ismo, con emplando as paisagens da
cidade e eladas pelo mo imen o do elé ico. Mas, al ez, es i essem a azê-lo sendo
mo ado es, e não isi an es de Lisboa, o que e o ça no amen e a pe spec i a do u ismo como
o ma de dwelling (Pons 2003).
En e o Chiado e o Camões, nos en o nos das suas pa agens, a apa ição do 28 a ai o
olha e aciona o egis o o og á ico dos anseun es de o ma quase au omá ica. De den o do
eículo, é pe cep í el como as a enções à ol a se i am pa a nós, passagei os, in a ia elmen e
acompanhadas po len es o og á icas de elemó eis. Como se o elé ico osse uma espécie de
espe áculo g a ui o, encenado no espaço público em ho á ios egula es, pa a con emplação de
espec ado es que se encon am em luga es u ís icos ao edo de sua ca ei a
215
. Qualque
u en e do elé ico, u is as aí incluídos, ao emba ca no 28 pa a se locomo e de um pon o a
ou o de Lisboa (po laze , de e ou pelo mo i o que i e ), ine i a elmen e é inco po ado
como igu an e des e espe áculo. Em ca az, aquela ep esen ação isual da cidade de que
mui os oma am conhecimen o an es de isi á-la co po almen e, (a a és de uma publicação de
digi al in luence , ma é ia no jo nal, p og ama de TV, anúncio publici á io, ela os de
amigos…) ago a ap esen ada em uma pe o mance ao i o. Além de seus signi icados de
anspo e público e de luga u ís ico pa a quem nele emba ca, o elé ico 28 é ambém
215
Como no ca é A B asilei a, no Chiado, ou na esplanada na P aça Luís de Camões, po exemplo.
103
en e enimen o isual pa a quem o con empla de o a. Ao mesmo empo em que, ao aze
u ismo em Lisboa, alguém pode consumi o elé ico 28 (passea nele; comp a um sou eni
que o eplica em minia u a; aze uma e eição em um es abelecimen o odo deco ado com o
ema dele…), ao egis á-lo isualmen e e compa ilha es a imagem com ou os po enciais
isi an es, es e u is a con ibui pa a a ep odução da a a i idade u ís ica de Lisboa.
Sendo o oço en e as pa agens Chiado e Pç. Luís Camões um eco e da cidade no ó io
po a ai e concen a luxos de u is as, é comp eensí el que es a sensação, de se pe cebe
como “obje o cênico” de ep esen ações isuais p oduzidas po ou os, enha se mani es ado
de manei a mais pe cep í el po ali. No en an o, ao longo da ca ei a como um odo, a si uação
oi um pad ão eco en e. Vi is o oco e no Chiado, mas ambém na Rua Escolas Ge ais, no
La go Po as do Sol, na descida da Sé, na esquina da Rua Augus a
216
, e em ou os echos po
onde ainda passa emos. A cada esquina lisboe a c uzada pelo elé ico, pode ia su gi uma
câme a apon ada pa a nós. Mui as, po opo unidade, de manei a imp o isada. Ou as com um
pouco mais de delibe ação. Po ezes, oi possí el pe cebe a pessoa p e iamen e na ua, com
a câme a ou elemó el apon ado pa a um enquad amen o especí ico da paisagem, agua dando
o elé ico (onde eu me encon a a) passa pa a se encaixa no ângulo imaginado. Hou e
ambém quem agisse em dupla: uma pessoa ica a esponsá el po es e enquad amen o écnico,
e a ou a agua da a em cena a en ada do elé ico pa a com ele con acena no egis o isual.
Du an e es es p epa a i os, em que a cena já es á mon ada e al a apenas o elé ico en a em
sua posição, consegui algumas ezes egis a a si uação. Es as ocasiões, em que as len es de lá
e de cá con e giam no meio e di e gi am no im, me pa ecem sin e iza , com uma imagem
e ossímil, a di e ença no campo en e an opólogo e u is a. Pelo menos, no con ex o da minha
in es igação. Um u is a emba ca no elé ico e i a o os da cidade, ou ci cula pela cidade a
i a o os do elé ico. Es e an opólogo i ou o os do u is a a i a o os, no e do elé ico.
216
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 1 (15/7/2020), Visi a 3 (20/8/2020), Visi a 4 (26/8/2020), Visi a
11 (16/10/2020, Visi a 13 (26/10/2020) e Visi a 17 (10/11/2020), Visi a 18 (11/11/2020).
104
Imagens 23, 24 e 25: Qualque passagei o do elé ico em qualque momen o e em qualque pon o da
ca ei a 28 pode i a se o og a ado. Regis adas pelo au o em 15/7/2020 (Img 23); 9/10/2020 (Img
24) e 14/10/2020 (Img 25).
105
Imagem 26: E qualque pessoa p óxima a qualque pon o da ca ei a 28 em qualque momen o pode i a se o og a ada
po um passagei o qualque do elé ico. Regis ada pelo au o em 16/10/2020.
Mesmo du an e minhas úl imas isi as de campo, com uma ausência isí el de u is as
no elé ico e na cidade, po ezes ainda pude obse a pessoas posicionadas com suas câme as,
em esquinas es a égicas, pa a egis a o 28 em de e minado cená io. O que me le a a in e i
que es e compo amen o a é em bas an e sine gia com a a i idade u ís ica, mas não depende
dela. É um compo amen o que pe ence mais ao elé ico do que ao u ismo, sendo ambos
aspec os co idianos de Lisboa nes e início de século XXI. Se uma das imagens de Lisboa mais
acilmen e econhecí eis (e “expo adas”) é a do elé ico ambien ado nos bai os his ó icos
pe co idos pela ca ei a 28, en ão quaisque ep esen ações isuais que se p oduza de Lisboa
(em o ma os jo nalís icos, publici á ios, pa a en e enimen o….) podem i a con e algum
egis o do elé ico 28. Is o pode inclui , po exemplo, a g a ação de uma epo agem, uma
eleno ela, um ensaio edi o ial de moda, ou a p odução de um po ólio p o issional de
o óg a o. Em no emb o de 2020, omei no a da p esença no Mi adou o de San a Luzia de uma
equipe de ilmagem a mon a seu se de g a ação
217
. E am equipamen os p o issionais e uma
equipe nume osa. Não e a um indi íduo a aze ik- oks, s o ies e sel ies com seu elemó el
217
Es e pa ág a o oi baseado nos egis os em diá io ealizados na Visi a 16 (9/11/2020) e Visi a 19 (12/11/2020).
112
sido es e ambém um caso de “solução p e is a pa a si uações imp e is as”, uma espos a
p og amada pa a ci cuns âncias ex ao diná ias que se mos am equen es? Como algum
p oblema mecânico, algum a aso nas escalas de ho á io, ou alguma ques ão p i ada da gua da-
eio que p osseguiu sem passagei os? Fac o é que, sendo o 28 an o meio de anspo e público
quan o luga u ís ico, os e en os inespe ados da o ina do anspo e público impac am a
expe iência u ís ica, assim como os imp e is os co idianos de um luga u ís ico podem
in e e i no i ine á io do anspo e público.
O echo em acli e e mina quando chegamos à P aça da Es ela, onde à esque da e gue-
se em escala monumen al a Basílica da Es ela e, à di ei a, de en e pa a ela, se encon a o
e de Ja dim da Es ela. En e uma e ou o ica a pa agem, que ambém le a es e mesmo nome.
Ao desemba ca nela, logo ao lado do po ão do ja dim, um quiosque cuja es é ica mime iza o
elé ico come cializa insumos. “A Basílica da Es ela é um pon o de pa agem ob iga ó io em
Lisboa. É ainda li e almen e um pon o de pa agem do elé ico 28, que ambém é ob iga ó io na
sua isi a a Lisboa”, dec e a o Tu ismo de Lisboa, com opção de lei u a em ou os cinco
idiomas
231
. Es e é, po an o, um luga u ís ico “o icialmen e” ecomendado na cidade. E
du an e es a in es igação oi possí el cons a a que ha ia, sim, quem pegasse o elé ico 28 a
passeio com a in enção de desce aqui, azendo an o do im quan o do meio pa a lá chega um
p og ama u ís ico in eg ado.
No início de minha obse ação, e a comum ha e ocas nes a pa agem, en e u is as a
iaja den o e u is as a agua da o a do elé ico
232
. Em mais de uma ocasião, obse ei
passagei os es angei os a en a se in o ma sob e qual a pa agem ce a a desce pa a isi a
“a Es ela”. Ce a ez, es á amos na pa agem Rua da G aça quando emba cou uma amília de
u is as. Em língua po uguesa, mas com uma p onúncia bem ca egada de acen o es angei o,
o ilho adolescen e (que es a a jun o com aquelas que imaginei se em sua mãe e i mã caçula)
pe gun ou ao gua da- eio: “Bai o Es ela?”. O gua da- eio espondeu com um aceno
de cabeça a i ma i o, po ém silencioso. Ao nos ap oxima mos dali, le an ei-me do meu
assen o, e dei alguns passos a é o banco onde a amília es a a pa a p o-a i amen e lhes a isa
da pa agem. Ainda que enha sido abo dado em inglês, a p imei a eação do adolescen e oi
e u a minha in e ação: “No, no, no!”. Tal ez enha p esumido que eu es a a a pedi ou
231
Visi Lisboa, “Basílica da Es ela”, disponí el em: h ps://www. isi lisboa.com/p -p /locais/basilica-da-
es ela [úl imo acesso em 20/11/2021].
232
Es e pa ág a o oi baseado nos egis os em diá io ealizados na Visi a 1 (15/7/2020), Visi a 7 (1/10/2020) e
Visi a 8 (7/10/2020).
113
o e ece algo
233
? Insis i: “You wan ed o go o Es ela, igh ?”. “Yes!”, ele po im en endeu.
“I ’s he e”, indiquei. Ele não me ag adeceu, mas pude e que a amília desceu naquela
pa agem - e eu ol ei pa a o assen o onde an es es a a. Em ou a ei a, ainda no Ma im Moniz,
com o elé ico pa ado an es de pa i , obse ei uma mulhe sono amen e po uguesa pe gun a
ao gua da- eio: “Bom dia! Vai pa a a Es ela, não ai?”. Após a espos a a i ma i a, ela en ão
epassou es a con i mação, alando em inglês, pa a ou as duas mulhe es.
Nes a pa agem, em pelo menos qua o isi as dis in as, obse ei uma oca de u nos
en e gua da- eios
234
. Ou seja, em meio a uma iagem da ca ei a, ao encos a na pa agem
Es ela, um gua da- eio saiu e ou o di e en e en ou, con inuando a conduzi o elé ico a pa i
dali. Me pa eceu inusi ado quando, na p imei a ez, i o gua da- eio desliga o mo o na
pa agem, pega sua mala de mão e numa banana, e sai do eículo sem dize qualque coisa.
Não demo ou pa a que ou o gua da- eio, ajando uni o me idên ico, assumisse seu pos o,
ambém sem se comunica com os passagei os. Na ez seguin e, o abalhado que ence ou
seu u no alou algo sob e os a ões, mas pa a o subs i u o, e en ão se despediu dele: “Vou-me
embo a. Bom se iço!”. Dada a epe ição, ano ei: “(…) há en ão algum ipo de pad ão; é no mal
acon ece em es as ocas du an e o aje o”. Na qua a ez, o gua da- eio que conduzia o
elé ico, ao se ap oxima da pa agem, ocou a campainha de manei a ené ica e epe i i a. Já
es á amos na “segunda onda” de minha obse ação e oi na penúl ima incu são ao campo que
ealizei. Somen e nes a ocasião, e em i ude des e ala ido, pe cebi ha e , bem ao lado da
Basílica, uma gua i a onde se encon a am ou os uncioná ios uni o mizados da Ca is. Eles
acena am de ol a pa a seu colega, que acaba a de chega ao que, en ão en endi, é um pos o de
abalho (e, po que não, pon o de encon o?) do es a e. De lá, um deles eio caminhando,
azendo sua mochila. O gua da- eio desligou o mo o , pegou seus pe ences pessoais e
desemba cou. No passeio da pa agem, ainda ocou algumas pala as com seu subs i u o, e
ambos se despedi am, com o úl imo a assumi o expedien e
235
.
233
Não nego que, indi e amen e, eu inha, sim, segundas in enções. Àquela al u a do abalho de campo eu ainda
não consegui a es abelece diálogos com ou os u en es do elé ico. O e ece ajuda a u is as oi uma das á icas
que imaginei pode em se uma po a de en ada pa a in e ações mais consis en es. Assim, eu es a a a imp o isa
nes e momen o, mas não, não oi e icien e. Nenhuma das con e sas e en e is as com “o ou o” que i e nes a
in es igação começa am com um o e ecimen o de ajuda da minha pa e. Nes e caso especí ico, acabei po ajuda
alguém que não me pediu ajuda – e que pa eceu es anha es a abo dagem. Re le indo sob e is o, en endi que es a
não e a uma boa e amen a pa a meus obje i os, e logo a abandonei.
234
Es e pa ág a o e o p óximo o am baseados nos egis os em diá io ealizados na Visi a 4 (26/8/2020), Visi a
5 (31/8/2020), Visi a 18 (11/11/2020) e Visi a 19 (12/11/2020).
235
No deco e des as isi as, es e luga se e elou um bom sí io pa a abalho de campo. Fazia pa e dos meus
planos ealiza algumas isi as especí icas pa a obse ação somen e dali. Não ossem as ques ões que me le a am
a suspendê-las (con o me desc i o no capí ulo 3.2 – “P imei a aga”).
114
Ressal e-se que, assim como em nenhuma des as oco ências hou e qualque
comunicação o icial pa a os u en es, ampouco obse ei ques ionamen os ou eclamações po
pa e des es, no que pa a mim acabou po cons i ui uma e são di e en e daquilo que já oi
aqui chamado de “imp e is o p e is o”. Di e en e po que, pa a a equipa dos gua da- eios,
nada pa eceu imp e is o, dado que subs i uídos e subs i u os já es a am engajados nis o. Já
pa a os passagei os (ao menos, aqueles que pe cebe am), sim. Po ou o lado, ainda que seja
inusi ado obse a o gua da- eio deixa a condução do elé ico pa a ás em meio à ca ei a,
não hou e demo a em e oma o mo imen o, des io do pe cu so ou oca de eículo. Ainda
que pudesse pa ece uma si uação inespe ada, a “solução” já es a a p e is a.
Imagem 28:
236
O ja dim, a pa agem, a basílica e, à esque da, a gua i a ama ela do s a e da Ca is; o cená io ao chega na Es ela.
Quando a Es ela ica pa a ás, al a pouco pela en e a é a pa agem inal. Em no o
echo de (nes e caso, le e) subida, saímos da egião mais cen al de Lisboa pa a en a na
a bo izada eguesia de Campo de Ou ique. Onde as uas são la gas, assim como os passeios,
e as cu as não são b uscas como nos bai os mais an igos da cidade, po onde já passamos.
236
Google Maps, no /2020. Disponí el em: h ps://goo.gl/maps/dKb8bBYYnD1ak ya7 [úl imo acesso em
20/11/2021].
115
Na Rua Domingos Sequei a há uma pa agem com es e mesmo nome
237
. Hou e uma
ez em que, já endo passado po ela, o mo imen o do elé ico oi in e ompido pa a agua da
um caminhão da Câma a Municipal de Lisboa que, à nossa en e, ecolhia mó eis e obje os
de po e desca ados na ua. Fo am quase dez minu os de espe a, du an e os quais o elé ico oi
ul apassado po ca os e mo as, que pa a an o in adiam a con amão. Alguns passagei os
começa am a se inquie a . “Eu podia desce aqui?! Ob igado!”, um apaz pediu - e oi a endido
mesmo o a da pa agem. Ou os en ão o segui am. Quando o caminhão po im libe ou a ua,
ao passa mos po ele pude obse a uma banhei a e uma máquina de la a oupa em sua
caçamba. Na “segunda onda” de minha obse ação, egis ei uma ocasião em que os p imei os
u is as “ isí eis” que obse ei no elé ico emba ca am nes a pa agem. E a um casal que, ao
en a , cump imen ou o gua da- eio com um “Olá!”. A semelhança pode e sido me a
coincidência, mas oi na mesma época do abalho de campo em que, con o me analisado
alguns pa ág a os a ás nes e ex o, egis ei em diá io a sensação de que es a a a obse a uma
equência maio de in e ações mais co diais en e u en es e gua da- eios.
O elé ico chega ao im des a subida menos íng eme quando i a à esque da na Rua
Sa ai a de Ca alho. Nes a ua plana e ampla há ês pa agens, incluindo a pa agem inal, com
apenas duas quad as de in e alo en e cada uma delas e a sua seguin e. A p imei a se encon a
logo ao en a na ua, e em o nome igual a ela. Mesmo já pe o do im da linha, obse ei aqui
pessoas a emba ca em no elé ico
238
. Sob e udo, pessoas idosas, que podem e nes e emba que
uma ajuda p eciosa pa a sua locomoção - ainda que, como já ap endemos, não usu uam de seu
di ei o ao assen o ese ado. Embo a em meno núme o do que no echo que ai do Cas elo e
Al ama a é o Chiado, alguns u is as ainda e am is os no elé ico po aqui, a é a pa agem inal,
Em e mos de compo amen os sociais, exp essões co po ais, in e ações e bais e
obje os po ados, acabei egis ando poucas no as em diá io espec i as ao en o no da pa agem
R. Sa ai a Ca alho e da p óxima, Ig eja S o. Condes á el. Nes a, a penúl ima, e já na
penúl ima isi a que iz an es de suspende meu abalho de campo, hou e um senho que, ao
desemba ca , g i ou ao gua da- eio: “Olhe, em aqui uma bisnaga de qualque coisa!”
239
. Em
seguida, desceu. O gua da- eio nada espondeu, mas i pelo espelho e o iso do elé ico que
ele es a a a p ocu a do que se a a a. Só sob a a a mim de passagei o naquele echo de duas
quad as an es do im da linha. Me le an ei, ui a é o úl imo banco e encon ei ali uma la a de
237
Es e pa ág a o oi baseado nos egis os em diá io ealizados na Visi a 16 (9/11/2020) e Visi a 20
(13/11/2020).
238
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 10 (14/10/2020).
239
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 19 (12/11/2020).
116
sp ay, al ez osse um desodo an e. Caminhei de ol a pelo co edo , enquan o o elé ico
pe co ia es as duas úl imas quad as, e ap esen ei o obje o ao espelho e o iso , po onde o
gua da- eio obse a a o in e io do eículo. Sem dize nada e sem se i a pa a ás, ele i ou
uma das mãos da di eção e a e gueu, como se ossemos dois co edo es a passa o bas ão numa
p o a de e ezamen o. En eguei a la a pa a o gua da- eio, que ag adeceu. Ins an es depois,
ambém ag adeci a ele quando desemba quei. O elé ico 28 acaba de chega a sua pa agem
inal, P aze es.
4.5 O in e alo dos P aze es
Quando o elé ico 28 se ap oxima da pa agem inal em en e ao Cemi é io dos
P aze es, dois compo amen os dis in os se des acam en e os passagei os ainda p esen es. Há
aqueles que se adian am ao cessa do mo o , posicionando-se pe o da po a de saída an es
mesmo que o eículo pa e de se mo imen a . E há aqueles que pe manecem em seus luga es,
sen ados, como se i essem chegado a só mais uma pa agem como ou as an as ul apassadas
no caminho a é ali. Es a oi a dinâmica enquan o ainda ha ia uma p esença mais nume osa de
passagei os no 28, mui os deles a u ismo, no pe íodo de meu abalho de campo que nes e
ex o já oi an es chamado de “p imei a onda”.
Mesmo es acionado e com o mo o já desligado, nas p imei as isi as oi algo o inei o
obse a o gua da- eio anuncia , em inglês, a necessidade de desemba ca ali
240
. “Las s op!”,
anunciou um ce a ez. “Finish!”, a isou ou a em no a ocasião. “E e yone mus lea e!”
dec e ou mais um. De modo semelhan e ao obse ado na pa agem Lgo. Po as Sol, es e
comunicado em ou o idioma inha como público-al o u en es es angei os - u is as,
sob e udo. Mais do que um expedien e p é-p og amado e p a icado sis ema icamen e, a mim
pa eceu um imp o iso inco po ado à o ina, endo em is a o conhecimen o adqui ido pela
epe ição equen e daquele compo amen o. No elé ico 28, é habi ual iaja em pessoas a
u ismo que, quando chegam na pa agem inal dos P aze es, cos umam pe manece no in e io
do eículo. En ão, é habi ual ao gua da- eio enca egado da ez usa idiomas dis in os da
língua po uguesa pa a o ien á-los a desemba ca . Po ezes, endo em is a que os ou in es
240
Es e pa ág a o e o p óximo (após a ci ação do diá io) i e am como base os egis os em diá io ealizados na
Visi a 2 (18/2/2020), Visi a 4 (26/8/2020), Visi a 6 (16/9/2020), Visi a 7 (1/10/2020), Visi a 8 (7/10/2020),
Visi a 11 (16/10/2020), Visi a 13 (26/10/2020) e Visi a 14 (28/10/2020).
117
não esboça am eação, o comunicado e a epe ido ao público usando as mesmas pala as,
po ém com maio in ensidade na oz:
“Final! Finish! FINISH!”, anuncia o condu o , em om c escen e
con o me passagei os ( u is as) pe manecem imó eis.
“Ob igado”, esponde em língua po uguesa com o e so aque
es angei o uma das passagei as alan es de ancês.
241
Es a pe manência p o ogada no in e io do elé ico quando ele chega aos P aze es não
apa en ou se uma en a i a maliciosa de u is as se isen a em, an o de uma no a a i a quan o
de uma possí el no a ila, equisi os pa a emba ca no aje o de ol a. A meu e , al
compo amen o exp essa a um desconce o en e a ep esen ação do elé ico 28 como uma
a ação análoga às da Disney, e a expe iência eal de u iliza um se iço cuja inalidade
p incipal é a mobilidade u bana, não o en e enimen o de seus u en es. Se há quem i encia e
di ulga o passeio na linha 28 como algo semelhan e ao que se encon a na Disney
242
, é azoá el
p esumi que ou os indi íduos imaginem uma expe iência como al nes e modal do anspo e
público lisboe a. E, como um enzinho a que ípico de pa que emá ico em semp e sua
pa agem inal no mesmo pon o de pa ida, é comp eensí el que alguns passagei os, ao se e em
conduzidos pa a o desemba que na pa agem inal, julguem não e ainda chegado ao inal do
passeio. “Es a es la pa ada inal? Y después pa a la uel a?!”, ques iona um casal em
espanhol. “Wha ime is he nex ?”, pe gun a uma u is a g ega ao gua da- eio
243
. Dú idas
des a o dem não são exclusi idade de quem não ala o idioma local, endo sido ambém
obse adas em língua po uguesa: “E ago a, dá a ol a no amen e? E emos que paga
no amen e?”, in e ogou um passagei o.
O es anhamen o pe an e a ob igação de desemba ca ali, a gumen o, e idencia um
desdob amen o con empo âneo da “disneylandização” (B yman 1999; B unel 2009) em
Lisboa. Como analisa MacCannell, “Quando lemos guias u ís icos, especialmen e aqueles
esc i os num es ilo con empo âneo descolado, é e iden e que os p óp ios obje os de cu iosidade
u ís ica, não apenas suas imagens em b ochu as e ca azes de iagens, e mesmo aqueles o a
241
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 14 (28/10/2020).
242
E i emos um exemplo dis o no capí ulo 4.4 (“Do Ma im Moniz aos P aze es”), quando desc i o o modo
como o p og ama ele isi o Somebody Feed Phil ap esen ou a ca ei a 28 em seu episódio sob e Lisboa.
243
Es a pe sonagem já apa ece a no capí ulo 4.1 (“A chegada à pa agem no Ma im Moniz”). Como escla ecido
lá, ambém em no a de odapé, eu não alo a língua g ega. Descob i a nacionalidade dela quando, nes a isi a e na
pa agem dos P aze es, ela e sua acompanhan e me pedi am in o mações em inglês. Ainda nes e capí ulo, mais à
en e a con e sa que i e com elas se á desc i a. Chega emos lá.
118
da bolha u ís ica, es ão de a o começando a se is os como a iações da Disneylândia; is o
é, como se i essem sido c iados em p imei o luga pa a en e e u is as. Na e dade, bem
poucas coisas que u is as con emplam o am ei as pa a unciona como obje os de desejo do
u is a. A maio ia das a ações oi ei a pa a se i a ou os ins, ou nenhum im no caso das
a ações na u ais” (MacCannell 2001, 27)
244
. Não se ia es e o caso do elé ico 28? Fei o pa a
se i a ou o im, o anspo e cole i o u bano, o nou-se ambém obje o de con emplação e
en e enimen o u ís ico? Elé ico 28 cuja cu iosidade em o no de si é em g ande pa e
despe ada po meios de comunicação que o desc e em como uma a ação impe dí el da
cidade? An es, a a és de b ochu as e guias imp essos; hoje, p incipalmen e, em ídeos no
YouTube, o os no Ins ag am, publicações em blogs de iagem e ou as médias sociais
digi ais?
245
Pa a quem po en u a - e ainda que de modo inconscien e e silencioso - mime ize
na ca ei a 28 um passeio de mon anha- ussa, quando alcança a pa agem P aze es o elé ico se
e ela um modal do anspo e público u bano lisboe a que chegou ao im da linha.
244
T adução ealizada pelo au o . No o iginal, em inglês: “When we ead guidebooks, especially hose w i en in
he con empo a y s yle o hip de achmen , i is e iden ha he objec s o ou is ic cu iosi y hemsel es, no jus
hei images on a el b ochu es and pos e s, e en hose ou side he ou is bubble, a e in ac beginning o be
iewed as a ia ions on Disneyland, ha is, as i hey we e c ea ed in he i s place o en e ain ou is s. In ac ,
e y ew o he hings ou is s gaze upon we e made in he i s place o unc ion as objec s o ou is desi e. Mos
a ac ions we e made o se e o he ends, o no ends a all in he case o na u al a ac ions.”
245
Vale ponde a que, se em b ochu as e guias imp essos os ex os e o os e am (e ainda são) as p incipais
linguagens isuais u ilizadas pa a di ulgação u ís ica, na in e ne con empo ânea os o ma os audio isuais
ganha am p imazia. E, com a acilidade de acesso ambém ia in e ne a e amen as digi ais de edição de imagens,
as possibilidades de o ma o pa a ap esen ação de um luga u ís ico se mul iplicam. Incluindo aí o uso de e ei os
de mon agem, animações g á icas, ilha sono a, igu ino, maquiagem, inse ções de me chandising… Além dis o,
se médias imp essas em um passado cada ez menos ecen e dependiam de sua dis ibuição ísica pa a impac a
um po encial no o u is a, hoje indi íduos podem conquis a na in e ne audiência pessoal supe io às de g andes
g upos edi o iais.
119
Imagem 29:
246
O en o no da pa agem Campo Ou ique (P aze es), pon o inal do elé ico 28 no sen ido cen o - bai o.
Em en e ao Cemi é io dos P aze es ica a P aça São João Bosco, e é numa o unda em
meio a ela que es á a pa agem Campo Ou ique (P aze es), es e sim seu nome comple o.
Naquele pon o exa o es á delimi ada a on ei a
247
en e as á eas adminis a i as das jun as de
eguesia de Campo de Ou ique e da Es ela, mas, apesa da alcunha, a exa a localização da
pa agem encon a-se sob ju isdição da úl ima. Na p aça há pa que in an il, pa que canino, casa
de banho pública, caixa au omá ica e, bem p óximo à pa agem, um es au an e as ood ocupa
a es u u a e o mada de um con en o , com suas mesas espalhadas ao edo . Em o no de boa
pa e da p aça, a paisagem é o mada po edi ícios com mais pisos do que as cons uções
obse adas no miolo do cen o his ó ico. Mas, assim como se obse a na zona mais cen al da
cidade, os espaços no és-do-chão aqui ambém ab igam pequenos comé cios: um
minime cado, uma clínica e e iná ia, uma loja de a igos escola es e pa a o la . Logo ali,
izinha ambém, ica a Escola Salesiana de Lisboa, o ien ada pela cong egação ca ólica cujo
246
Google Maps, 2021. Disponí el em: h ps://goo.gl/maps/JKDPwQNFHnkUS p38 [consul ado em
19/8/2021].
247
Con o me mapa a ual das eguesias de Lisboa disponí el em: h ps://www.lisboa.p /municipio/ eguesias
[úl imo acesso em 1/12/2021].
120
undado oi o mesmo que dá nome à p aça
248
. Com um núme o de es udan es na casa dos
milha es
249
, me acos umei a ê-los se mo imen ando pelos a edo es
250
. De uni o me e em
ho á ios p óximos ao almoço, aglome ados no passeio em en e ao po ão, ocupando a
esplanada do con en o - es au an e, e, po ezes, emba cando ambém no elé ico.
Em uma egião da cidade que não é a endida pela ede me o iá ia, sendo seu acesso
ia anspo e público ealizado exclusi amen e po au oca os ou elé icos, o passagei o que
desce do 28 naquela pa agem inal encon a-se numa zona esidencial com bas an e p esença
come cial. Quando o ou ono subs i uiu o in e no du an e meu abalho de campo, ou o a o
social do comé cio passou a se obse ado po ali, com uma o e a de me cado ia sazonal que
apela an o à demanda local quan o global
251
. T a a-se do endedo de cas anhas, abalhado
in o mal que isi elmen e em nos u en es do elé ico seu público-al o p e e encial, mas não
exclusi o, de consumido es
252
. Foi a pa i de ou ub o que comecei a obse á-lo com
equência po ali. A igo , a obse ação oi mais de seu ca inho, in a ia elmen e es acionado
jun o à es u u a da pa agem P aze es. Regis ei no diá io como ele execu a sua es a égia de
ma ke ing ol a i o (ao meu a eja , e icien e), baseada no cozimen o do p odu o a céu abe o:
“Ele deixa o ca inho com o ogo aceso, e agua da no con en o -esplanada que há po ali.
Quando ê alguém se ap oxima - sob e udo, quando o 28 chega, mas ambém pode se gen e
que chega a caminha pelo bai o -, ele ol a pa a lá e az sua enda”.
248
Há ainda uma es á ua em homenagem a São João Bosco no meio da o unda onde ica a pa agem. O elé ico
dá a ol a ao edo dela quando pa e dali no aje o de ol a.
249
Con o me ex o de ap esen ação da escola em seu sí io ins i ucional, em o no de dois mil alunos do ensino
básico e secundá io equen am o Salesianos de Lisboa. Disponí el em:
www.lisboa.salesianos.p /escola/ap esen ação [úl imo acesso em 1/12/2021].
250
Con o me egis os em diá io ealizados na Visi a 1 (15/7/2020), Visi a 10 (14/10/2020), Visi a 11
(16/10/2020), Visi a 14 (28/10/2020), Visi a 16 (9/11/2020) e Visi a 17 (10/11/2020).
251
Con o me egis os em diá io ealizados na Visi a 7 (1/10/2020) e Visi a 15 (4/11/2020).
252
Em 2017, po an o an es da pandemia e em pleno hype u ís ico lisboe a, uma ma é ia no jo nal b i ânico The
Gua dian ecomenda a “as dez melho es cidades eu opeias pa a aze u ismo de comp as na alinas”. Lisboa
ocupa a a p imei a posição, com uma desc ição que des aca a, en e ou as a ações, o “a oma de cas anhas no
a ”. O elé ico 28 pai a como sujei o ocul o da ma é ia. Não é ci ado, mas um passeio po ele pe mi i ia ica quase
odas as dicas lis adas. Como a Ce eja ia Rami o, o La go do In enden e, algumas lojas na Baixa de Lisboa, uma
di e sidade de ig ejas e, po im, a é o a oma de cas anhas. Ve jo nal The Gua dian (2017b), “10 o he bes
Ch is mas shopping ci ies in Eu ope”, disponí el em:
h ps://www. hegua dian.com/ a el/2017/no /18/10-bes -ch is mas-shopping-ci ies-eu ope- ienna-lille-lisbon
[úl imo acesso em 1/12/2021].
121
Imagens 30 e 31: Ao desemba ca na pa agem Campo Ou ique (P aze es), o passagei o do eléc ico 28 encon a o con en o -
esplanada e, se es i e na época, pode encon a o ca inho das cas anhas. Regis adas pelo au o em 1/10/2020.
En e os que chegam de 28 à pa agem inal guiados po uma cu iosidade con empla i a,
endo como laze momen âneo o lana po um no o luga sem necessa iamen e um des ino
ce o, há an o os que pa em pa a explo a as ce canias, quan o os que descem ali e dão apenas
meia- ol a
253
. Em comum, uns e ou os ap o ei am o momen o opo uno do desemba que pa a
i a o os com o eículo, quando po ezes os elé icos es acionados a é o mam ila. Fac o é
que um simples ba e de olhos ao edo não e ela na paisagem local no os con i es os ensi os
pa a p ossegui a in es igação u ís ica.
254
Não há ali, po exemplo, uk- uks a agua da clien es,
ou bicicle as pa a a enda . Sem sai da ó bi a da pa agem, ampouco se isualiza dali
253
Es e pa ág a o (e es a no a) i e am como base os egis os em diá io ealizados na Visi a 7 (1/10/2020), Visi a
11 (16/10/2020), Visi a 12 (23/10/2020), Visi a 14 (28/10/2020), e Visi a 20 (13/11/2020). Ac escen e-se que, em
uma ocasião, obse ei um meio- e mo en e a explo ação do bai o e a pe manência na pa agem. E a um casal
com ilhos pequenos, alan es de uma língua que não consegui pe cebe (possi elmen e, alemão). Após
pe co e em a ca ei a 28 de pon a a pon a, ao desemba ca em nos P aze es passa am a explo a os a a i os da
P aça São João Bosco. Imagino eu que o pa que in an il que há ali su giu como um opo uno passa empo pa a as
c ianças, que pode iam já es a cansadas ou en ediadas. A amília ainda es a a po lá quando emba quei no 28 da
ol a pa a con inua minha obse ação. É de se essal a que is o oco eu na úl ima incu são ealizada, quase no
ence amen o da “p imei a aga” ( e capí ulo 3.2) de minha in es igação, quando ha ia bem menos u is as
p esen es no campo. Se ia al ez uma amília de es angei os, que mo am na cidade, mas que naquele momen o
es a am no 28 po laze u ís ico? É possí el.
254
Po ezes, cemi é ios o nam-se pon os de a ação u ís ica de ido às celeb idades ali sepul adas. Como o
Cemi é io Pè e Lachaise, em Pa is, onde oi en e ado o can o Jim Mo ison, e o Cemi é io da Recole a, em
Buenos Ai es, onde jaz a múmia de E i a Pé on. Po ém, es e não pa ece se o caso do Cemi é io dos P aze es. Em
Lisboa, é azoá el supo que al cu iosidade conduza ao lado opos o da cidade, mais p ecisamen e ao Pan eão
Nacional, monumen o onde descansam celeb idades po uguesas de econhecimen o in e nacional - como a
adis a Amália Rod igues e o jogado de u ebol Eusébio. Ressal e-se que é possí el, sim, aze es e passeio
u ilizando o elé ico 28 como meio de anspo e. Se ia necessá io desemba ca nas pa agens Voz Ope á io ou Cç.
S. Vicen e, há mais de in e pa agens de dis ância de onde ago a es amos, e caminha alguns minu os mais a é o
Pan eão. Pa a mais in o mações sob e quem ali oi sepul ado e/ou é homenageado, e sí io do Pan eão Nacional,
disponí el em: h p://www.pan eaonacional.go .p /
128
du ação
267
. É e iden e que nem semp e o gua da- eio que acaba de chega à pa agem P aze es
se á o mesmo a conduzi o p óximo elé ico que dali pa i á pa a pe co e o aje o de ol a da
linha
268
. Con udo, i is o oco e em á ias ocasiões
269
. Nes es casos, nos minu os en e a
chegada e uma no a pa ida, o gua da- eio em ques ão seque saía de sua cabine no eículo.
Nas ezes em que obse ei-os desemba ca nos P aze es, e a comum es a em ocupados e
demons a em u gência em suas exp essões co po ais e modos de aze :
A gua da- eio ence a a iagem, ano a o ho á io na planilha,
pega sua bolsa e za pa dali. Logo depois chega mais um elé ico, cuja
gua da- eio se ê ob igada a aze epa os mecânicos. Ela o manob a
pa a o a da ila de eículos na pa agem, e o conse a naquela o unda
em en e ao cemi é io.
270
O condu o desce ap essado e ai a um WC que há ali na p aça.
271
Em um momen o inicial de minha in es igação, imaginei que a pa agem P aze es
pode ia se opo una pa a en a inicia algum diálogo com es es p o issionais, que sem dú ida
são os “obse ado es mais pa icipan es” no co idiano do elé ico. No en an o, e com
equência seu compo amen o ao chega ali me le ou a abdica des a ideia. Qualque
abo dagem du an e aqueles poucos minu os se ia um es o o. Aquele in e alo é uma janela
no expedien e que os gua da- eios êm pa a cuida de suas necessidades e demandas
subje i as; i à casa de banho, alimen a -se, hid a a -se, comunica -se com amilia es. Po
ezes, es e mesmo in e alo inclui a ibuições do abalho, como is o na p imei a no a
des acada acima, em que a segunda gua da- eio obse ada p ecisou ealiza ajus es no eículo.
Ou, como is o em ou a ocasião
272
, inclui a a e a de ajuda com in o mações o u is a que
267
Is o conside ando a p og amação pa a os dias ú eis no pe íodo en e ma ço e ou ub o. Como imos no capí ulo
4.4 (“Do Ma im Moniz aos P aze es”, no a 178), os ho á ios de saída do elé ico 28 a iam con o me a época do
ano, o dia da semana e a ho a do dia. Há ambém uma ligei a di e ença nas escalas de empo pa a as pa idas da
pa agem Ma im Moniz (de oi o em oi o minu os) e P aze es (de 10 em 10 minu os). Pa a conhece em de alhes
odas as a iações ho á ias do eléc ico 28, e a qui o em PDF “Ma im Moniz - P aze es - 28E”, disponí el
pa a desca egamen o em: h ps://www.ca is.p / iaje/ca ei as/28e-ma im-moniz-p aze es/ [úl imo acesso em
1/12/2021].
268
A é pelos escla ecimen os que ambos gua da- eios en e is ados de am sob e as nuances de suas escalas de
abalho, em que é possí el um p o issional oca de ca ei a em meio a seu u no.
269
Regis ei is o em diá io na Visi a 1 (15/7/2020), Visi a 2 (18/8/2020), Visi a 6 (16/9/2020), Visi a 7 (1/10/2020),
Visi a 10 (14/10/2020), Visi a 11 (16/10/2020), Visi a 12 (23/10/2020) e Visi a 15 (4/11/2020).
270
Con o me egis os em diá io ealizados na Visi a 9 (9/10/2020).
271
Con o me egis os em diá io ealizados na Visi a 16 (9/11/2020).
272
Con o me egis os em diá io ealizados na Visi a 3 (20/8/2020).
129
lhes abo da naquele momen o
273
. Aí, no caso des a o ma de in e ação em especí ico, e a de se
pe gun a se gua da- eios a êm como enca go de sua unção ou uma gen ileza ci cuns ancial.
Que dize , pa a um se ido do anspo e público lisboe a cujo local de abalho é ambém
um conco ido luga u ís ico, lida com as demandas de u is as é a o ou de e ? São ossos
do o ício ou concessões casuais? Lamen a elmen e, es a oi uma pe gun a que só cons uí num
momen o pos e io à in es igação, em que já es a a a edigi es e ex o. Quando con e sei com
gua da- eios do elé ico, a pe gun a que iz oi mais ex ensi a: como ocê ê o u ismo no
elé ico 28?
“O u ismo em um g ande impac o no dia-a-dia, po que embo a
seja in e essan e abalha com u is as e embo a seja bené ico pa a
a economia, acaba po e um impac o cansa i o no quo idiano, dada a
quan idade de pe gun as e endas a bo do.”
274
Ra ael, que abalha exclusi amen e na linha 28, enca a de manei a pa adoxal es a
p esença de u is as com suas demandas especí icas. Pa a ele, ao mesmo empo em que es as
in e ações, na p á ica, aumen am a ca ga do seu abalho, é ambém uma cu iosidade co idiana,
e, em escala mais ampla, uma mais- alia económica pa a a sociedade. Já J., que abalha não
somen e nes a ca ei a como em ou as ambém, embo a não negue a di e ença de
compo amen os en e u is as e demais u en es, enca a es es pedidos de in o mação com
desa e ação e ce a empa ia:
“O u ismo no elé ico 28 é uma cons an e e é a sua essência (…)
Na u almen e que exis e uma g ande di e ença en e os u is as e
demais passagei os, já que os p imei os azem bas an es mais pe gun as
e êm um compo amen o mais descon aído, uma ez que es ão de é ias
e a passea . A maio ia dos ou os passagei os (…) es ão habi uados a
udo, sabem de co os ho á ios e pe cu sos, e êm uma elação mais
p óxima com os gua da- eios.”
275
273
Ti esse eu insis ido na ideia de en a in e agi com gua da- eios nes e momen o de pausa, aqui ha e ia mais
uma semelhança a apon a en e an opólogos e u is as. A de abo da in e locu o es em causa p óp ia, em
qualque si uação, sem maio es hesi ações. Sem e le i demasiado em elação ao impac o que es a inicia i a pode
causa no ou o. Sem exp essa e balmen e uma p eocupação em in e ompe algo que no con ex o do ou o pode
se mais u gen e.
274
En e is a com Ra ael, gua da- eio da Ca is, ealizada em 17/5/2021.
275
En e is a com J., gua da- eio da Ca is, ealizada em 29/5/2021.
130
Minha in e p e ação é de que o modo de agi pe an e as demandas especí icas de u is as
si ua-se num e eno en e a gen ileza e a ob igação, cujas on ei as são delimi adas de modo
subje i o po cada gua da- eio. A é po que, de um pon o de is a ins i ucional, embo a não
igno e o c escimen o da equência de u is as na ca ei a em anos ecen es, e a dimensão
simbólica que o elé ico em em Lisboa, a Ca is apa en emen e conside a qualque passagei o
como mais um u en e - e qualque ca ei a como uma en e ou as semelhan es. Quando
con e sei com di e o es da emp esa, pe gun ei se ha ia alguma especi icidade no a amen o
dado ao público e à ges ão do elé ico 28, endo em is a jus amen e es a maio p ocu a u ís ica
da linha. Um dos po a- ozes da Ca is me explicou que “(…) a ca ei a 28 é uma ca ei a
como ou a qualque e, po an o, unciona ao público no malmen e, com os a i á ios no mais,
com ho á ios da mesma o ma, com u ilização exa amen e como acon ece em oda a nossa ede
de anspo es. Po an o, as pessoas são a adas da mesma o ma. O u is a que u iliza a ca ei a
28 acaba po se a ado como ou o u ilizado qualque ”. E oi complemen ado pelo ou o
di e o da emp esa, que pa icipa a da mesma con e sa: “Exis e uma emp esa da Ca is, que
é a Ca is u , que é ocada em se iços u ís icos. Tem au oca os pano âmicos, em elé icos
que azem passeios u ís icos com guias, ou com audioguias a explica os á ios pe cu sos. E,
po an o, aí sim é ocado no me cado u ís ico e no passeio u ís ico. No elé ico 28 não. O
eléc ico 28 é um anspo e público no mal que é u ilizado po passagei os independen emen e
da sua mo i ação de iagem”
276
.
Hou e ambém ezes em que obse ei gua da- eios usu uí em do in e alo na
pa agem P aze es como se osse um empo li e de laze
277
. Ni idamen e, is o passou a oco e
com maio ên ase nas isi as inais de meu abalho de campo. Gua dando alguma semelhança
com o que cons a a a du an e es e mesmo pe íodo nos a edo es do Cas elo e de Al ama, a
p esença menos nume osa de passagei os em ge al (e de u is as em especial) oco eu de o ma
simul ânea à obse ação de algumas in e ações mais a e uosas e a á eis en e gua da- eios e
ou os a o es que ali se encon a am. Nes e caso, o a o mais amigá el não se deu somen e
com u en es do elé ico, mas com in e locu o es di e sos obse ados: passagei os, colegas de
abalho e abalhado es dos a edo es. Em mais de uma ocasião, p esenciei gua da- eios
con e sando amis osamen e en e si. Ce a ei a, o assun o e a se iados de ele isão e dicas de
ilmes. Em ou a, obse ei um gua da- eio, depois de oma um ca é, con inua a con e sa
276
En e is a com po a- ozes da Ca is, ealizada 21/1/2021, aos 9’27 de g a ação.
277
Es e pa ág a o e e como base os egis os em diá io ealizados na Visi a 14 (28/10/2020), Visi a 15
(4/11/2020), Visi a 16 (9/11/2020), Visi a 19 (12/11/2020).
131
calmamen e com a a enden e do con en o -esplanada, pe gun ando de alhes sob e i ens
di e sos da emen a do luga .
Pelos con as es que obse ei ambém na pa agem P aze es en e as p imei as e as
úl imas isi as de campo, e pelo que me explica am os gua da- eios com quem con e sei, o
co idiano de quem abalha na ca ei a 28 é bas an e di e en e na p esença e na ausência de
u is as. Apa en emen e, há uma elação di e amen e p opo cional en e es es luxos de
isi an es na cidade (e, po conseguin e, no elé ico 28) e as a ibuições que um gua da- eio
em no seu expedien e de abalho. Pa a além da condução do eículo, cob ança de passagens
pagas em espécie e, em empos pandêmicos, iscalização de no mas sani á ias no espaço
in e no do elé ico, as a e as co idianas que um gua da- eio acumula, na p á ica, incluem a
p es ação de in o mações u ís icas (com a endimen o em múl iplos idiomas). E, como e emos
em si uações desc i as mais de alhadamen e no p óximo capí ulo, ambém a i idades de o icina
mecânica em meio à ca ei a. Quan os des es enca gos já es a am p e is os em seu escopo de
abalho? Quais des as a i idades são de e es con idos na desc ição do ca go, e quais são
“imp e is os p e is os”? Imp o isações inco po adas à o ina que, po sua quan idade,
di e sidade e equência, podem se sin omá icas de um p ocesso de p eca ização da p o issão?
Logo após suspende minhas incu sões ao campo, em 16 de no emb o de 2020, en ei
me candida a ao pos o de gua da- eio na Ca is. No canal de ec u amen o do sí io
ins i ucional, o ex o in odu ó io ap esen a a a isão da emp esa sob e seus colabo ado es e
colabo ado as: “(…) somos exigen es nos c i é ios de ec u amen o. Fo mamos,
acompanhamos e desen ol emos os nossos colabo ado es omen ando a e olução das suas
compe ências, com is a a uma melho ia con ínua. (…) Pa a que udo is o seja possí el,
necessi amos de abalha com os melho es, os mais mo i ados, os mais dinâmicos, os mais
cu iosos, mas ambém os mais ambiciosos”
278
. Na mesma página do sí io, são elencados os
equisi os básicos que candida os de em ap esen a : idade supe io a 23 anos; pelo menos
1,60m de al u a; no mínimo e cu sado a é o 9º ano de escola idade; possui ca a de condução
(“Ca ego ia B, C e p e e encialmen e D”); esidi na Á ea Me opoli ana de Lisboa. No meu
modo de e , com exceção da ca a de condução de ca ego ias especí icas, es es equisi os não
são “exigen es” como o ex o in odu ó io a i ma se em os c i é ios de ec u amen o da
emp esa. São ão somen e um il o inicial de exigências mínimas pa a elimina ec u as
exceden es. O mesmo deco e das ca ac e ís icas de pe il p ocu adas em candida os, que,
lis adas na mesma página do sí io, ambém pa ecem o mínimo demandado a qualque emp ego
278
Ca is, sí io ins i ucional, á ea “Rec u amen o”, disponí el em: h ps://www.ca is.p /a-ca is/ ec u amen o/
[úl imo acesso em 1/12/2021].
132
con empo âneo: “boa ap esen ação”, “pon ualidade”, “assiduidade”, “ esponsabilidade”. Já o
uso de hipé boles (“os melho es”, “os mais” …). pa a ca ac e iza quem se adequa ao abalho
na emp esa é indicado de uma ges ão me i oc á ica de seus ecu sos humanos, onde quem
demons a desempenho supe io em de e minadas compe ências ecebe maio econhecimen o.
No en an o, os p edicados des as hipé boles con idos no mesmo ex o (“os mais mo i ados”,
“os mais ambiciosos” …) suge em que es as compe ências são de a aliação mais subje i a do
que écnico-cien í ica. Como um gua da- eio pode ia se a aliado como “o mais dinâmico”?
Possi elmen e, po se alguém esilien e e maleá el, que inco po a em sua o ina
imp o isações, imp e is os e a e as adicionais – como as que imos sendo cump idas po
gua da- eios di e sos ao longo da iagem -, e aze is o sem ei indica con apa idas ou
compensações? Ou, ainda que publicado no canal de ec u amen o do sí io ins i ucional da
Ca is, o ex o de e ia se comp eendido como apenas um compilado de igu as e ó icas?
Te ia sido in e essan e obse a , na p á ica, como se dá o p ocesso de ec u amen o,
seleção e capaci ação pa a gua da- eios do elé ico. Po ém, a é o momen o em que esc e o
es as linhas, não ui con ocado pa a conco e a uma opo unidade - e nem desclassi icado, po
exemplo, de ido a não ap esen a odos os equisi os e ca ac e ís icas de pe il demandados
279
.
Seque ecebi uma mensagem au omá ica da emp esa con i mando o ecebimen o de minha
candida u a. Na p á ica, é como se nunca i esse me candida ado. Quando con e sei po e-mail
com dois gua da- eios do elé ico, in elizmen e, não o mulei pe gun as ão especí icas sob e
sua expe iência du an e o p ocesso de ec u amen o. Mas pe gun ei se eles ecebe am
einamen o e o ien ações da Ca is pa a lida especi icamen e com u is as no elé ico. “A
Ca is dá-nos o mação de odos os ipos, écnica, compo amen al, in e pessoal… es amos
e e i amen e p epa ados pa a acolhe os nossos clien es da melho o ma, incluindo a é ao ní el
de se mos luen es em línguas es angei as”, me explicou a gua da- eio J
280
. “A nossa
o mação é bas an e as a e ob iamen e emos um módulo di eccionado ao a endimen o ao
passagei o”, con ou Ra ael
281
.
Em um u u o pós-pandêmico, que se espe a p óximo, se á in e essan e examina
up u as, pe manências e ans o mações nas dinâmicas co idianas elacionadas ao abalho dos
279
Es e echo em especí ico es á a se e isado em 17/12/2021. Minha candida u a a gua da- eio oi en iada
pelo sí io da Ca is no dia 16/11/2020.
280
En e is a com J., gua da- eio da Ca is, ealizada em 29/5/2021.
281
En e is a com Ra ael, gua da- eio da Ca is, ealizada em 17/5/2021.
133
gua da- eios
282
. Po o a, ap o ei emos a acilidade momen ânea pa a consegui um bom luga
no elé ico, pe o da janela. E comple emos o ci cui o azendo o caminho de ol a.
4.7 Pe didos e achados no e o no ao pon o de pa ida
Se no sen ido Cen o-Bai o pelo qual iemos a ca ei a 28 possui 35 pa agens, no
sen ido Bai o-Cen o pelo qual amos ago a es e o al é de 38 pa agens
283
. Com exceção de
um ou ou o pon o em que os ca is dos dois sen idos se bi u cam, de manei a ge al, ambos
cump em o mesmo i ine á io, mudando apenas o e o do mo imen o. Não há zonas em
pa icula da cidade con empladas po um sen ido e não pelo ou o. Há, se mui o, echos de
uas especí icas em que somen e um deles passa
284
. O empo es imado de pe cu so é semlhan e
ambém: 48 minu os pa a i do Ma im Moniz aos P aze es, e 51 minu os pa a ol a .
O mesmo desenho u bano an igo e in incado que con ibui pa a a a a i idade u ís ica
des a ca ei a é o que impossibili a em algumas uas o á ego simul âneo nos dois sen idos. E
is o não somen e em ias de mão única. Como imos no capí ulo 4.4 (“Do Ma im Moniz aos
P aze es”), quando passamos na inda pela esquina da calçada de São Vicen e com a ua das
Escolas Ge ais, ambas de mão dupla, ali há um semá o o a in e cala o á ego dos dois
sen idos. Ou os como aquele espalhados pela ca ei a ce amen e impac a iam na mobilidade
do 28 pa a u en es di e sos. Tan o na sua e iciência como anspo e público lisboe a, sendo
es e o único modal a passa em alguns echos da cidade, quan o na sua pe cepção de “a ação
u ís ica impe dí el” pa a quem isi a Lisboa. Quando con e sei com Ma k Wol e s, c iado
do canal de iagens Wol e s Wo ld
285
, pe gun ei sua opinião sob e o s a us de “impe dí el” e
“mus see” que alguns luga es u ís icos adqui em, em g ande pa e u o do endosso de quem
282
E se ia in e essan íssimo le uma e nog a ia undamen ada em obse ação pa icipan e ei a pela pe spec i a
emic dos gua da- eios. Faze o abalho que eles azem não me pa ece nada ácil, e só o azendo se ia possí el
ap ende com mais p o undidade suas pe cepções.
283
Pa a conhece em de alhes odas as pa agens em cada sen ido da ca ei a, e no a 262.
284
Vimos um exemplo dis o no capí ulo 4.4 (“Do Ma im Moniz aos P aze es”) quando a ançamos pela ua
Poiais de São Ben o enquan o a o sen ido con á io inha pela ua Poço dos Neg os.
285
Como desc i o no capí ulo 4.1 (“A chegada à pa agem no Ma im Moniz) o canal con a com pe is no
YouTube, Facebook, Ins ag am e Twi e , e milha es de seguido es em cada pla a o ma. Ma k, seu au o , mo ou
em Lisboa de 2006 a 2011, ou seja, bem no pe íodo em que Po ugal me gulhou em uma p o unda c ise econômica.
Na época, e a comum pa a ele pega o elé ico 28 pa a se desloca a é seu abalho. Quando con e samos po
ideocon e ência, Ma k me con ou sob e suas di e en es expe iências em Lisboa a cada no a isi a que ez nes a
úl ima década.
134
os ecomenda. “Algumas a madilhas pa a u is as alem a pena aze . Ou as, não. O elé ico
28, se não hou e ninguém lá e ocê pude , en e. Faça isso. Mas, que o dize , eu não ou
espe a uma ho a, ou meia ho a. Não é TÃO legal.”
286
, ele me explicou. Se as ilas de emba que
demo adas e as aglome ações nos co edo es do eículo já são um ac o co en e, como se ia a
expe iência se o 28 pa asse mais ezes pela ca ei a a o a?
Pos o que os aje os de ida e ol a, apesa de des ios pon uais, pe co em eixos espaço-
empo ais bas an e semelhan es, a p opos a pa a es e capí ulo di e e daquilo que se iu no
capí ulo 4.4 (“Do Ma im Moniz aos P aze es”). Vamos e o na ao pon o de pa ida, sim,
emba cando no elé ico 28, obse ando u en es di e sos que ali se encon am, e olhando pa a
as dinâmicas locais da cidade a a és de suas janelas. Buscando semelhanças, sim, en e
mo imen os, p á icas e compo amen os de pessoas, em p incípio, cul u almen e di e en es, e
e le indo sob e possí eis in e - elações dis o com ou os empos, espaços e bibliog a ias. Mas
não amos, no sen ido con á io, ol a a pica e con ex ualiza cada pa agem de um caminho
que ago a já conhecemos. Não é pela ca ei a 28 de en e pa a ás p a icamen e espelha o
pe cu so de ás pa a en e que sua desc ição nes e ex o ep oduzi á es e mesmo i ine á io.
Ao in és de pe aze o ci cui o, o ex o ago a a á baldeações
287
. Vamos p ocu a aze
conexões en e o que oi examinado du an e a inda e, de modo semelhan e, ambém oi achado
na ol a. Quando necessá io, a emos escalas naquilo que só se obse ou no aje o de ol a, e
que, se não osse le an ado ago a, ica ia pe dido em meu diá io. Daí o í ulo dado a es e
capí ulo. Dig essão ei a, ecob emos a di eção.
Pa indo dos P aze es, na p imei a pa agem, Ig eja S o. Condes á el, emba cam no
elé ico 28 duas jo ens na aixa de 20 anos a con e sa en e si em ancês, além de uma
idosa
288
. “Is o não sei se é seu”, diz a senho a em po uguês, ao encon a uma moeda no chão
enquan o sobe. “Não, não é”, esponde o gua da- eio. “Ah, ambém não é meu”, ela conclui.
E com a moeda na mão caminha a é o undo do eículo, onde iaja de pé posicionada bem
p óxima da po a. Foi ambém ao subi nes a mesma pa agem que ou a senho a idosa
encon ou já den o do elé ico um conhecido seu, ambém idoso, que es a a ali desde a
pa agem inicial (e logo an e io ) nos P aze es. Nenhum dos dois ocupa o assen o ese ado.
286
En e is a com Ma k Wol e s, ealizada em 22/4/2021, aos 13’47. T adução do au o . No o iginal, ansc i o
em inglês:“Some ou is aps a e wo h doing. Some a e no . And am 28, hey, i he e’s nobody he e and you
can hop on, do i . Bu , I mean, I’m no gonna wai an hou , o hal hou … i ’s no THAT cool.”
287
E, sendo um ecém-chegado na an opologia, en endo como um exe cício bem- indo es a expe imen ação
ex ual com dis in as o mas de cos u a e bo dado do que o campo me ap esen ou.
288
Es e pa ág a o e e como base os egis os em diá io ealizados na Visi a 11 (16/10/2020), Visi a 12
(23/10/2020) e Visi a 13 (26/10/2020).
135
“Ago a que es á a chega em casa?”, ele pe gun a. “Olha, ainda ou pa a o ou o lado!”, ela
esponde. E seguem ocando algumas pala as, en e as quais o senho e ela e 95 anos de
idade. “Pa ecem <colegas de elé ico>”, ano ei no diá io. Ao meu modo de e , o
econhecimen o isual das eições do ou o sem a menção a seu nome p óp io, e a con e sação
em om amis oso, mas sem in imidade no eo , suge ia que aquela amizade pe encia ao
con ex o do elé ico. Possi elmen e, dada a p á ica comum e equen e de u iliza aquele
mesmo meio de anspo e, em p oximidade de pa agens na escala da ca ei a e de assen os na
escala do elé ico, desen ol e am aquela elação co dial. Em ou a ocasião, ninguém
agua da a nes a pa agem e o elé ico passou di e o po ela, anspo ando no assen o ese ado
a pessoas com es ições de mobilidade um casal de alan es de espanhol. Tal ez, po já e em
con emplado as paisagens pelas janelas no pe cu so de ida, ago a seus olhos iaja am ixos no
mapa imp esso de Lisboa, que le a am abe o nas mãos.
Na segunda pa agem, R. Sa ai a Ca alho, emba ca uma mulhe com uma c iança de
colo
289
. Ela logo consegue um luga no assen o ese ado, compa ilhando o banco duplo com
um u is a que já es a a an es ali - omb o de um encos ado no do ou o. Já no pe íodo com
menos luxos de u is as, nes a mesma pa agem sobem duas mulhe es, ambém com duas
c ianças pequenas. Rep oduzindo um compo amen o de ou os passagei os, u is as ou não, já
examinado an es nes e ex o, elas emba cam jun as e iajam sepa adas. Uma ai bem pe o de
mim, a ou a em um banco mais ao undo. Pelo co edo , as mulhe es con e sam en e si em
língua po uguesa e, pelos so aques, pe cebo que uma é po uguesa e a ou a é b asilei a.
Quando se di igem às c ianças, po ém, elas alam em inglês. Se iam mães dos miúdos, cujos
pais podem se es angei os, e amigas pessoais? Visi elmen e, cada uma e a esponsá el po
cuida de uma das c ianças. En ão, al ez es i essem ali como pa e de um expedien e de babá,
e, po an o, se iam colegas de abalho? Po ou o lado, só uma das mulhe es, a b asilei a,
ca ega a consigo uma po ção de obje os apa en emen e des inados ao cuidado dos pequenos:
mala de passeio, blusas, ga a a d’água. Embo a naquele con ex o ambas es i essem no mesmo
papel de u en es do elé ico, a elação en e uma e ou a pode ia se en ão desigual em e mos
de pode . Se ia uma pa oa e a ou a emp egada? Fac o é que adul os com c ianças, a u ismo
e sem se pa a es e im, equen am o 28. E adul os, sob e udo, mulhe es.
Vejo subi um casal na pa agem Es ela (Basílica) que, além de um ilho pequeno, le a
ambém uma alco a pa a bebé
290
. Vejo que alam ancês en e si. Em seguida, sobe ou o casal
289
Es e pa ág a o e e como base os egis os em diá io ealizados na Visi a 2 (18/8/2020) e Visi a 18
(11/11/2020).
290
Es e pa ág a o e e como base os egis os em diá io ealizados na Visi a 7 (1/10/2020).
136
que se di ide: a mulhe a ança pelo co edo com um mapa ísico nas mãos. O homem,
enquan o isso, a a das passagens. Com uma p onúncia da le a R que e ela não se na i o do
idioma local, ele pe gun a ao gua da- eio: “Ma im Moniz?”. O gua da- eio az um ges o
a i ma i o com a cabeça. Enquan o isso, a mulhe escaneia o in e io do elé ico com o olha ,
em uma exp essão de ascínio. Ao ocupa em jun os um banco duplo, o homem se põe a i a
o os com seu elemó el. De em odos e ido ao Ja dim da Es ela, imagino. Como is o na
inda, há u is as que emba cam no elé ico 28 com a in enção de desce naquela pa agem,
azendo an o do des ino quan o do meio pa a lá chega , passeios u ís icos
291
. Foi obse ado
que, no início de meu abalho de campo, e a comum ha e ocas de u is as nes a pa agem,
en e os que inham no eículo e os que es a am a agua dá-lo. Tendo oco ido ambém du an e
al pe íodo, es es emba ques obse ados ago a no aje o de ol a pa ecem exemplos de pon os
de con a o com aquele mesmo modo de usa o elé ico. Pa ecem pessoas a aze aquele mesmo
passeio, mas em o dem in e sa: p imei o o Ja dim da Es ela, depois o 28. Pode ha e ambém
quem, depois de e ido a é ali u ilizando o elé ico, aça o mesmo ago a pa a e o na à egião
onde o iginalmen e emba cou.
”Es á despachado?”, pe gun a o gua da- eio p es es a ence a o expedien e
292
. “Vá,
um ab aço. Bom descanso!”, esponde o colega que assume seu pos o. Ele en ão pendu a sua
jaque a e capace e de mo a no cabidei o à esque da da cabine, e eliga o mo o do elé ico.
No amen e, e ago a no sen ido bai o-cen o, em isi as dis in as o am obse adas ocas de
u no en e es es p o issionais na pa agem Es ela (Basílica). Assim como nas iagens de inda,
nada é comunicado aos passagei os a espei o, e es es ampouco esboçam p eocupação ou, ao
menos, cu iosidade po is o
293
. O eículo encos a na pa agem, quem o di igia desce, ou a
pessoa sobe em seu luga , e o mo imen o é e omado. Como desc i o no capí ulo 4.4 (“Do
Ma im Moniz aos P aze es”, 113), após e es as ocas de u no oco e em com equência
nes a pa agem em especí ico, cons a ei a exis ência, bem ao lado da Basílica, de uma gua i a
onde uncioná ios da Ca is se eúnem. Dada es a p esença ísica, somada ao ac o de as ocas
291
Inclusi e, is o é algo ecomendado pelo Tu ismo de Lisboa em seu sí io ins i ucional, como is o no capí ulo
4.4 (“Do Ma im Moniz aos P aze es”, p.112).
292
Es e pa ág a o e e como base os egis os em diá io ealizados na Visi a 10 (14/10/2020), Visi a 11
(16/10/2020) e Visi a 14 (28/10/2020).
293
Re le indo sob e es e compo amen o de indi e ença, ano ei em meu diá io que pa ece mani es a a
obje i icação da pessoa que se e po quem es á a se se ido. Na medida em que an o az quem di ige o elé ico
(ou mesmo se alguém o di ige), desde que o eículo siga em mo imen o. Pa a quem pe cebe no gua da- eio não
aquela pessoa que ali es á, mas uma pessoa qualque , a unção que ele desempenha assemelha-se à do mo o e dos
a ões. Uma ideia in e essan e se ia, ao inal de uma iagem em que is o oco e, pe gun a a um u en e que es a a
já p esen e du an e a oca, se ele se eco da dela e oco ido. Po ou o lado, se só eu ali obse a a o a o com
algum es anhamen o, al ez en ão osse o único “ o as ei o” pe an e aquela dinâmica…
137
de u no em meio à ca ei a só oco e em naquele local especí ico, minha pe cepção oi de que
aquela pa agem se e como uma epa ição da emp esa em meio à ca ei a 28
294
. E, no aje o
de ol a, a obse ação de ou o cos ume dos gua da- eios pa eceu con e gi pa a es a
pe cepção, pois ambém se concen ou naquele pon o.
Em pelo menos seis isi as di e en es, egis ei em diá io que o esponsá el pela
condução do elé ico, na p oximidade da pa agem Es ela (Basílica), ambém se e ela a
esponsá el po egula peças mecânicas do eículo e aze epa os pon uais na es u u a da
ca ei a
295
. Ou seja, se aquele pedaço pode se en endido como uma secção da Ca is de ido
ao ac o de se ali onde gua da- eios ocam de u no, a obse ação da manu enção écnica
sendo ei a po eles ali ambém apon a pa a es a comp eensão. “Em en e ao Ja dim da Es ela,
a gua da- eio e e que desce do eículo pa a aze algum ajus e nos ca is”. “Logo passando
o Ja dim da Es ela, o gua da- eio ap o ei a um semá o o echado pa a desce com o que
pa ece se um pé-de-cab a, e ajus a algo no elé ico pelo lado de o a”. Ce a ez, logo após a
oca de u nos, o “no o” gua da- eio já e e como p imei a a e a do dia aze um ajus e nos
ca is, u ilizando a mesma e amen a (o p o á el pé-de-cab a) pa a an o. Em uma de minhas
incu sões, iz po duas ezes o aje o bai o-cen o do elé ico 28, e nas duas obse ei is o
oco e . Is o oi egis o an o nas isi as iniciais quan o inais de meu abalho de campo
296
.
Ab indo um pa ên ese no ex o e sal ando pa a um echo mais à en e do aje o em
que es amos, é p eciso ponde a que es es ápidos desemba ques pa a aze epa os
ins an âneos não o am obse ados de modo equen e apenas na pa agem Es ela.
Especi icamen e na pa agem Pç. Luís Camões, logo ao ul apassá-la e enquan o se con o na a
p aça que lhe é homônima, is o ambém oi is o epe idas ezes
297
. Em pelo menos cinco
isi as di e en es - e, numa des as, em duas iagens dis in as -, obse ei gua da- eios a desce
294
Há mais um dado a soma nes e en endimen o. Em dias e ho á ios da semana que não o am obse ados nes a
in es igação - nomeadamen e, no pe íodo no u no e aos sábados -, o elé ico 28 ence a o seu aje o cen o-bai o
na pa agem Es ela, e não nos P aze es. Faz sen ido, po an o, que haja nes e local uma es u u a de abalho da
Ca is como a de uma pa agem inal. Pa a conhece em de alhes odas as pa agens em cada sen ido (e dia, e
ho á io) da ca ei a, e no a 262.
295
Es e pa ág a o e e como base os egis os em diá io ealizados na Visi a 3 (20/8/2020), Visi a 9 (9/10/2020),
Visi a 13 (26/10/2020), Visi a 14 (28/10/2020), Visi a 16 (9/11/2020) e Visi a 17 (10/11/2020).
296
Po con a dis o, não en endo ha e qualque elação en e es a a e a dos gua da- eios e a maio ou meno
p esença de u is as no elé ico. Independen emen e de ha e ali u is as, os gua da- eios cump em es e mesmo
expedien e, no que pode se in e p e ado como mais uma semelhança en e u is as e u en es quaisque . En endo
eu que, cada ez que pe cebemos e pon uamos semelhanças assim, a ançamos um pouco mais em o as de
abo dagem dis in as daquelas que essencializam a o es sociais, ou que analisam es es pe sonagens sob uma
pe spec i a dico ômica, excluden e, e a é con on acional.
297
Es e pa ág a o e e como base os egis os em diá ios ealizados na Visi a 7 (1/10/2020), Visi a 10
(14/10/2020), Visi a 12 (23/10/2020), Visi a 13 (26/10/2020) e Visi a 14 (28/10/2020).
144
ele aciona a campainha do elé ico, o mo o is a da ca inha en im apa ece, pedindo imensas
desculpas, e e i a o eículo. “Thanks, ma e!”, ainda digo pela janela a um dos “ u is as
manob is as”. “We ied!”, ele esponde bem-humo ado. Se, pa a aquele g upo, pode ia ha e
algo de laze no episódio, pa a os passagei os do elé ico aquelas pessoas es a am sendo
al uís as. Ou seja, um g upo de u is as que se p on i icou a ajuda na ci culação do anspo e
público cole i o local, em ez de apenas se a e a suas p á icas de laze pa icula es na cidade
isi ada
314
.
Imagem 35: Um g upo de u is as es angei os passando na ua en a (sem sucesso) desobs ui a ca ei a. Regis adas
pelo au o em 18/8/2020.
Assim como no pe cu so de inda, ambém no aje o P aze es - Ma im Moniz oi
habi ual du an e meu abalho de campo que a simples apa ição do elé ico 28 a aísse o olha
e, em seguida, o egis o o og á ico de anseun es nas uas. De modo análogo ao que imos
314
Em uma cu iosa semelhança en e empos, espaços da cidade e a o es sociais dis in os, uma ma é ia publicada
na imp ensa po uguesa em 2021 con a sob e um episódio bas an e pa ecido, em que coube a o iciais da Polícia
de Segu ança Pública (PSP) eboca com as p óp ias mãos um ca o que obs uía a ca ei a do 28 na egião da
G aça. A ma é ia ci a a equência com que is o oco e naquele echo, e ap esen a alguns dados cu iosos sob e a
quan idade de ho as po ano que es e modal do anspo e público ica pa ado de ido a obs uções como es as.
Ve jo nal Público (2021b), “Um ca o le an ado à mão ês eléc icos libe ados e u is as eu ó icos”, disponí el
em: h ps://www.publico.p /2021/08/16/local/no icia/ca o-le an ado-mao- es-elec icos-libe ados- u is as-
eu o icos-1974284 [úl imo acesso em 1/12/2021].
145
naquele sen ido da ca ei a, is o oco eu com maio equência nos a edo es de luga es com
maio p esença de u is as, mas em qualque momen o de meu abalho de campo e em qualque
pon o da ca ei a is o podia acon ece . Sal emos po alguns pon os pa a obse a is o.
Ainda na esquina da ua Sa ai a de Ca alho com a ua Fe ei a Bo ges, pouco depois
de e mos ul apassado a segunda pa agem e sem e mos alcançado ainda o “cen o do cen o
his ó ico”, ejo que duas mulhe es agua dam a passagem do 28 com seus elemó eis apon ados
pa a cá
315
. Mais de dois meses an es e em ou a esquina, na Baixa de Lisboa, no encon o do
Te ei o do Paço com a ua da P a a, dois apazes es indo sandálias, óculos escu os e
be mudas p o agonizam cena quase idên ica. Oco ências semelhan es ambém são egis adas
enquan o galgamos a subida pa a a pa agem Sé e, em duas isi as di e en es, de en e pa a o
Mi adou o de San a Luzia. En e um luga e ou o nes a mesma zona mais u ís ica, nos
a edo es da pa agem Limoei o, ejo quando um u is a o og a a seu amigo a i a o os do 28
em que es ou. Ou seja, enquan o o elé ico passa, não somen e o os dele são i adas, como
ambém “ o os das o os dele”, num p ocesso in loco de ep esen a a ep esen ação.
Desen olando um pouco mais a análise an es ap esen ada no capí ulo 4.4 (“Do Ma im Moniz
aos P aze es”, ao passa pelo Chiado), de que um dos signi icados pe cebidos no elé ico
lisboe a é o de en e enimen o pa a u is as em p aça pública, nes e caso especí ico emos uma
elei u a me alinguís ica, ime si a e não-dico ômica do mesmo espe áculo, na qual os p óp ios
espec ado es o nam-se ambém pe sonagens da ep esen ação.
Imagem 36: Também no aje o de e o no ao cen o, passagei os do 28 em qualque momen o podem
sai na o o. Regis ada pelo au o em 28/10/2020.
315
Es e pa ág a o em como base egis os em diá io ealizados na Visi a 5 (31/8/2020), Visi a 6 (16/9/2020),
Visi a 7 (1/10/2020), Visi a 14 (28/10/2020), Visi a 15 (4/11/2020) e Visi a 20 (13/11/2020).
146
Imagem 37: Sequência de o os do eléc ico a se o og a ado. Regis adas pelo au o em 31/8/2020.
Na pa agem inal dos P aze es, alguns compo amen os obse ados, sob e udo em
u is as, o am aqui in e p e ados como o mas de exp essão do p ocesso de
“disneylandização” que se obse a em luga es u is i icados - como Lisboa nes e começo de
século XXI. Quando se adqui e s a us de “des ino u ís ico” (seja uma me ópole ou aldeia, ilha
opical ou mon anha ne ada), qualque luga pode se pe cebido po alguns como obje o de
consumo pa a u is as. Como numa emulação, no caso em Lisboa, de uma iagem pa a
O lando, na Fló ida, em que um meio de anspo e público é u ilizado como enzinho de
mon anha- ussa, e os pon os u ís icos ecomendados na cidade, como a emen a de um pa que
de di e sões. Nes e p ocesso, as ep esen ações do des ino u ís ico que ci culam (de modo
planejado ou desin e essado) em escala global a a és de ecnologias de in o mação e
comunicação dão impo an es con ibuições como mediado es.
Pois, há um echo especí ico da ca ei a 28 em que a disneylandização de Lisboa
ambém se az e iden e, e com maio des aque no aje o bai o-cen o. Pela minha obse ação,
a Calçada de São F ancisco es á lado a lado com as uas de Al ama como um dos pon os que
mais a aem egis os em imagens de quem emba ca no elé ico a u ismo
316
. Com ce ca de 150
me os de comp imen o
317
, é uma ladei a em cu a e sem c uzamen os, pa imen ada com
316
Es e pa ág a o em como base egis os em diá io ealizados na Visi a 7 (1/10/2020) e Visi a 16 (9/11/2020).
317
Con o me es ima i a do Google Maps, disponí el em: h ps://goo.gl/maps/U5G GQ GMiwisL 38 [úl imo
acesso em 1/12/2021].
147
pa alelepípedos, po onde os dois sen idos da ca ei a 28 passam pa alelamen e a aze
ziguezagues pa icula es. Seu p óp io desenho pode se pe cebido como me á o a de uma
mon anha- ussa
318
e, apa en emen e po is o mesmo, alguns compo amen os ec ea i os são
obse ados ali. Como na ez em que o elé ico p ecisou pa a no meio da ladei a, pa a espe a
a ila de au omó eis que se o ma a em i ude do semá o o echado ao inal dela.
Ap o ei ando es a pose do 28, uma u is a que inha a caminha pela ua decide i a uma o o
com ele. Ela “ab aça” o elé ico, apoiando-se aga ada nele, no meio da ua, enquan o sua
amiga no passeio i a a o o. O ânsi o começa a lui enquan o a cena ainda acon ece. O
gua da- eio oca a campainha pa a chama a a enção da dupla. Os passagei os do elé ico,
incluindo aí u is as, ol am-se odos pa a as janelas daquele lado, e cons a am boquiabe os o
que es á a a asa o elé ico - com exp essões que julgo en e acha g aça e acha absu do, en e
o assomb o e a indignação. Rindo, a mulhe en ão se a as a e segue a galga caminhando a
Calçada de São F ancisco, não apa en ando qualque emba aço po e p o ocado al si uação.
Uma a i mação cunhada po MacCannell de ine bem es a dinâmica em que um único u is a
em seu que e indi idual obs ui o mo imen o de uma ia pública, a asa um meio de anspo e
cole i o, e in e e e no laze u ís ico de ou os isi an es da cidade: “Há leis e no mas que se
aplicam apenas a u is as e ou as que os u is as es ão au o izados a desobedece ”
319
(MacCannell 1999, 176-177).
318
Quan o ao nome des a ia eme e a uma cidade nos Es ados Unidos, San F ancisco, que é ambém um des ino
bas an e isi ado po u is as, e cujos pon os de a ação incluem um sis ema de elé icos, como Lisboa, a mim
pa ece ão somen e uma inusi ada coincidência.
319
T adução ealizada pelo au o . No o iginal, em inglês: “The e a e laws and no ms ha apply only o ou is
and o he s which ou is s a e pe mi ed o disobey”.
148
Imagem 38: A calçada de São F ancisco is a de cima pa a baixo. Regis ada pelo au o em 9/11/2020.
Imagem 39:
320
A calçada de São F ancisco is a de baixo pa a cima.
320
Google Maps. (No /2020). Disponí el em: h ps://goo.gl/maps/9SbqpY7Tq 9GQ h18 [consul ado em
21/8/2021].
149
Nas pa agens en e a Baixa e as uas de Al ama, assim como no aje o de inda, du an e
minhas p imei as isi as oi algo habi ual e u is as emba cando e desemba cando do elé ico
28. E es a simul aneidade, po ezes, é e elado a das nuances de compo amen o exis en es
en e indi íduos que pode iam em p incípio se pe cebidos como memb os de um g upo. Na
pa agem R. Conceição, enquan o o gua da- eio lida com uma ila g ande de pessoas que endo
subi no eléc ico, duas u is as alan es de i aliano (que imagino mãe e ilha) pe cebem em
cima da ho a se ali o local onde que em desce
321
. A obadas, elas ão a é a po a dian ei a do
eículo, jus amen e no caminho po onde as ce ca de 10 pessoas es ão a en a en a .
Cons a ado seu equí oco, as duas en ão co em a é a po a asei a, de saída, e nem bem a
alcançam, começam a demanda em om impacien e que o gua da- eio a ab a: “Excuse me!
Please! Can you open he doo ?!”. Pela minha obse ação, são poucos aqueles que se di igem
gua da- eios assim, como se ossem seus subo dinados.
Ao passa mos pela pa agem Mi adou o S a. Luzia, pela janela do 28 é possí el e um
bom núme o de u is as a se espalha em sua es u u a
322
. Dois deles, inclusi e, emba cam no
elé ico. Já quando alcançamos a pa agem Lgo. Po as Sol, ambém no aje o de ol a
p esencio o gua da- eios da ez anuncia , al e qual um guia de excu são, a ão p ocu ada
a ação u ís ica lisboe a que ica p óxima dali: “Cas elo de São Jo ge! Cas elo de São Jo ge!”.
Como ninguém desemba ca des a ez, não enho dú idas de que ce os gua da- eios
inco po a am es a a e a pela sua p óp ia expe iência adqui ida na lida co idiana com u is as,
e não necessa iamen e po que algum passagei o lhes pediu pa a a isa quando ali chegasse.
Tendo passado Al ama pa a en a na egião da G aça, nos encon amos na egião da
Calçada de São Vicen e. Es amos no inal de ou ub o de 2020 e o elé ico ai cheio, com
algumas pessoas em pé no co edo , enquan o es ou sen ado ao lado da janela em um banco
duplo
323
. O luga ao meu lado aga, e o apaz mais p óximo em pé, em ez de ocupá-lo, o e ece-
o educadamen e pa a ou o passagei o, que po sua ez o ecusa. Po en eou i es a ápida
negociação alheia, pe cebo que o apaz, que acaba po se sen a ao meu lado, é b asilei o.
En ão, o abo do e pe gun o exa amen e is o. Ele me con i ma que sim, e esponde
a i ma i amen e quando pe gun o se ele cos uma u iliza o elé ico 28 no seu co idiano. Foi a
janela de en ada que se ab iu pa a explica apidamen e sob e minha pesquisa, e pe gun a se
321
Es e pa ág a o em como base egis os em diá io ealizados na Visi a 2 (18/8/2020).
322
Es e pa ág a o em como base egis os em diá io ealizados na Visi a 7 (1/10/2020) e Visi a 11
(16/10/2020).
323
Es e pa ág a o em como base egis os em diá io ealizados na Visi a 14 (28/10/2020).
150
ele opa ia con e sa sob e is o em ou o momen o. Edglê conco da, mas po es a ap essado,
já que desemba ca ia pouco depois, ele diz pa a eu en a em con a o a a és do seu pe il no
Ins ag am. Ano o o ende eço. Na b e e con e sa inicial que emos ali, Edglê me diz e nascido
na cidade de C a o, no in e io do es ado b asilei o do Cea á. Rapidamen e, me mos a uma
a uagem que em em homenagem a sua e a-na al, um mapa es ilizado dos con o nos da
cidade. Con a que di ide apa amen o com ou os b asilei os e mais um i aliano. Que abalha
em dois luga es di e en es, sendo sua p o issão a de a e-educado . E que, depois de e mo ado
po um pe íodo na Alemanha, es á em Lisboa, como eu, a cu sa um mes ado. Pouco depois,
nos despedimos e ele desce.
T ês dias se passa am quando en o em con a o com Edglê a a és do Ins ag am. Dali,
passamos pa a o Wha sApp. É po mensagens de áudio nes a ou a aplicação que con e samos,
en im, ce ca de um mês depois. Naquela al u a, o ag a amen o da si uação pandêmica em
Po ugal já le a a as au o idades nacionais a dec e a es ado de eme gência no país - e eu
acaba a suspendendo minhas incu sões de campo em i ude dis o. Nes e meio- empo en e
encon á-lo e con e sa mos, Edglê acaba a e o nando pa a o B asil. É de memó ia, po an o,
embo a uma memó ia de empos bas an e ecen es, que ele me con a sob e sua expe iência com
o elé ico 28, que pega a odos os dias, de segunda a sex a- ei a.
“Pega a semp e na pa agem da Calçada do Comb o, e descia p óximo
à G aça. Ge almen e, às ês ho as da a de, e pega a de ol a às
seis. Mo a a mui o p óximo a uma pa agem. Inclusi e, onde eu mo a a,
ali na Rua Poiais de São Ben o, (…) o anspo e mais p óximo da minha
casa e a es e.”
324
Depois de con ex ualiza sua elação com aquele meio de anspo e, u ilizado
p incipalmen e em mo imen os pendula es e, como explica, de ido ambém à ausência de
al e na i as onde mo a a, aço pe gun as mais especí icas sob e a p esença de u is as no
elé ico. Ponde ando que o ambien e mudou com a pandemia, Edglê me explica suas
pe cepções.
“O elé ico é um anspo e ex emamen e u ís ico, e isso é
mui o uim. Po que uma coisa é ocê se u is a. Ou a é ocê usa
324
En e is a com Edglê, ealizada em 18/11/2020.
151
ele como anspo e público. (…) Às ezes ocê só que chega no seu
abalho e es á lo ado de u is as”.
325
Es e impac o nega i o da p esença de u is as no elé ico 28 pa a quem que u ilizá-lo
apenas como meio, e não como des ino, ol ou a se mencionado em ou as en e is as. Ma k,
c iado do canal Wol e s Wo ld, quando mo ou em Lisboa há ce ca de uma década, pega a-o
equen emen e pa a i de sua casa, no Campo de Ou ique, a é o abalho, nos a edo es da
pa agem Cç. Es ela. “E a eng açado, po que lá em cima eu subia e ha ia alguns u is as. Mas
à medida que descia, e não é mui o longe (…), ia icando lo ado, lo ado, lo ado. En ão eu sabia
que, uma ez que en asse, e ia que ica pe o da po a. Caso con á io, eu não consegui ia
sai depois”
326
. Ma k con a que, dada es a si uação, com o passa dos anos ele deixou de u iliza
aquele meio de anspo e, p e e indo caminha a é o abalho. “Pa a mim, icou u ís ico em
excesso”
327
, ele esume. João, com quem con e sei em uma pas ela ia na egião da G aça,
alou ambém nes e sen ido: “As pessoas nes es bai os…. G aça, Al ama, São Vicen e, e
Bai o Al o do ou o lado… As pessoas êm azão. Po que às ezes o elé ico em ão cheio
que não podem en a . E as pessoas não êm o que aze , né?”
328
.
Tan o no aje o de ida quan o no de ol a, e sob e udo du an e minhas p imei as isi as,
obse ei si uações semelhan es às ela adas po es es in e locu o es. Indo pa a os P aze es,
ce a ez eu es emunha a se e pessoas agua dando o 28 na pa agem R. G aça
329
. As duas
úl imas da ila e am idosas com sacolas de comp as. “Es á mui o cheio!”, uma comen a com a
ou a, e eu ouço pela janela. Elas não emba ca am. Na pa agem Chiado, i quando uma amília
ez sinal pa a o elé ico, mas desis iu de subi logo que ele pa ou. E am duas mulhe es adul as
que pa eciam a ó e mãe do menino pequeno jun o com elas, e mais um ca inho de bebé. Ainda
que pudessem demanda seu di ei o ao assen o ese ado, desis i am po on ade p óp ia logo
que i am a lo ação in e na. Já no aje o de ol a, ejo o elé ico encos a na pa agem Calha iz
325
Ibidem.
326
En e is a com Ma k Wol e s, ealizada em 22/4/2021, aos 7’15 de g a ação. T adução li e ealizada pelo
au o . No o iginal, ansc i o em inglês: “I was unny cause a he op, I would ge on and he e would be a ew
ou is s. Bu as i wen down, and i ’s no e y a (…), i would jus ge like packed, packed, packed, packed,
packed. So I knew once I go in, I had o go and s and by he doo . O he wise, I couldn’ ge ou la e .”
327
Ibidem, aos 7’57 de g a ação. T adução li e ealizada pelo au o . No o iginal, ansc i o em inglês: “I go
o me o e ou is y”.
328
En e is a com João Rocha de Aze edo, ealizada em 23/5/2021, aos 51’20 de g a ação.
329
Es e pa ág a o em como base egis os em diá io ealizados na Visi a 2 (18/8/2020), Visi a 11 (16/10/2020) e
Visi a 13 (26/10/2020).
152
(Bica) pa a a ende a um g upo de jo ens que lhe chama. Todos com elemó el na mão e
alando espanhol en e si, desis em, no en an o, de emba ca , mas pe manecem na pa agem.
Tal ez enham decidido agua da o p óximo, pa a en a um luga à janela onde possam i a
boas o os? Nem só mo ado es da cidade a caminho do abalho ou e o nando do supe me cado
encon am no elé ico cheio de u is as um obs áculo à sua mobilidade; ambém u is as podem
e seu p og ama obs uído e a asado po ou os u is as. É o que ejo acon ece ambém na
pa agem Ig eja S a. Ma ia Madalena, ao sai da Baixa de Lisboa pa a começa a subida da Sé.
Pela janela do elé ico, ejo uma amília (pai, mãe, ilho pequeno, ilho de colo e ca inho de
bebé), alan e de ancês, desis i de emba ca no elé ico, que es á cheio, após ê-lo chamado.
Con inuando a con e sa com Edglê, ele me explica que, po ou o lado, ambém gos a
de conhece pessoas de luga es di e sos e in e agi com elas. Pa a ele, o elé ico 28 se ão
p ocu ado po u is as não é um p oblema quali a i o, e sim quan i a i o: o p oblema es á no
excesso. “Acho que pode ia e a e mais elé icos”, escla ece. Pe gun o en ão se ele já en en ou
algum ou o p oblema em seu co idiano no elé ico. Edglê ci a dois que ambém o am
obse ados nes e abalho de campo: os p oblemas mecânicos do eículo, que cabem ao
gua da- eio soluciona ; e as obs uções da ca ei a po ou os au omó eis da cidade:
“O que eu acho mais louco ambém é a elação dos ou os
mo o is as com o elé ico. Po que eles sabem o aje o do elé ico,
odo mundo sabe, po que es á lá os ilhos. E, às ezes, a gale a
es aciona ca o na en e, pá a… não ajudam.”
330
O empo odo de minha obse ação, pessoas em idade a ançada o am obse adas no
co idiano do elé ico 28. Ao nos ap oxima mos da a enida Almi an e Reis, chama minha
a enção e com alguma equência idosos a emba ca no elé ico 28 já ão pe o do inal da
ca ei a
331
. Na pa agem Ig eja Anjos, duas an es da inal, em duas ocasiões ejo dois senho es
di e en es emba ca em. Em ou a ez, é na pa agem R. Palma, a úl ima an es do im, que ejo
ou o senho idoso emba ca . Há quem pegue o elé ico de pon a a pon a e depois e o ne. Há
quem o u ilize po apenas uma pa agem.
330
En e is a com Edglê, ealizada em 18/11/2020.
331
Es e pa ág a o em como base egis os em diá io ealizados na Visi a 9 (9/10/2020), Visi a 11 (16/10/2020) e
Visi a 14 (28/10/2020).
153
An es de chega ao Ma im Moniz, é já na a enida Almi an e Reis que abo do um casal
alan es de ancês
332
. Só es amos nós ês ago a, mas eu epa a a quando eles emba ca am nos
a edo es da Assembleia da República. Os dois al e nam o olha en e os ec ãs de seus
elemó eis e as paisagens a passa pelas janelas, possi elmen e en ando se localiza . Em
inglês, peço licença e pe gun o se alam es a língua. Mais p óximo do co edo e de mim, o
homem nega com um ges o de cabeça, e apon a pa a a mulhe . Educada, ela se olun a ia pa a
me esponde , apoiando-se sob e o colo do companhei o. É ine i á el pa a mim epa a que,
po seu modo de se es i - um ino ailleu no caso dela, e um elógio chama i o no dele -,
eles pa ecem e uma condição econômica con o á el. Em meio aos uídos do elé ico, explico
em duas sen enças minha pesquisa, e pe gun o se acei a iam ala sob e sua expe iência. “Yes”,
ela esponde. Depois de me con i ma em se anceses, dizem que são da cidade de Lyon. É
sua p imei a ez em Lisboa, onde ica am po dois dias, e es ão indo embo a hoje mesmo. E o
que acha am des a expe iência no 28? “É ípico ... É di e ido ... É legal que ele ainda ci cula
pela cidade ... Na F ança, nós não emos mais is o.”
333
, ela cons ói a espos a enquan o
esponde. “Au e oi , bon oyage!”, lhes desejo. Eles ag adecem e se despedem.
Es amos de ol a ao cen o his ó ico de Lisboa. No Ma im Moniz, a pa agem inal
onde o elé ico 28 ence a seu pe cu so nes e sen ido da ca ei a. Den o de alguns minu os,
ou o elé ico 28 pa i á do Ma im Moniz, umo aos P aze es, pa a uma ez lá, depois de
alguns minu os e o na . Não sem an es subi e desce ladei as, aze cu as es ei as, e ela
po suas janelas as paisagens que Lisboa o e ece ao olha . Nes e caminho do cen o ao bai o
e ice- e sa, da Baixa ao al o das colinas e ice- e sa, es a mesma mobilidade pode e
signi icados di e sos. A depende do agen e, u en e, se ido , izinho. Ao meu olha , é a
di e sidade de luga es, pessoas e signi icados o que, na Lisboa con empo ânea, pode se
apon ada como algo “ ípico”.
332
Baseado em egis os em diá io ealizados na Visi a 11.
333
T adução li e ealizada pelo au o . No o iginal, egis ado em inglês no diá io: “I ’s ypical… I ’s un… I ’s
cool ha i goes a ound he ci y… In F ance, we don’ ha e his no mo e.”