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Cenas de um lugar turístico entre estações: uma etnografia sobre o eléctrico 28 de Lisboa em tempos pandêmicos

Abstract

Lisboa é a capital do processo de turistificação contemporâneo português, que se intensificou após a profunda crise econômica vivida por Portugal na passagem para os anos 2010. Entre ajustes fiscais e tomadas de empréstimo financeiro que guardam semelhanças com as experiências vividas em outras localidades, o país encontrou no incentivo à atividade turística uma estratégia de recuperação económica. Nos últimos anos, Lisboa passou a ser vista como “destino imperdível” por muitos viajantes, e quem reside na cidade passou a conviver com a presença da atividade turística em seu cotidiano. Sendo um modal que faz parte do sistema de transporte público local, o elétrico 28 tornou-se uma atração instagramável concorrida, para a qual passou a ser rotineiro ter filas de turistas e corredores internos cheios de gente. Como utentes frequentes de um transporte público urbano lidam com esta presença em seu meio de locomoção? Como turistas se comportam ao utilizar um serviço público de transporte coletivo onde estão a fazer turismo? Que performances, maneiras de fazer e negociações, corporais e verbais, se observam neste cenário? Esta etnografia foi planejada para abordar tais questões. Porém, tendo sido realizada em meio à pandemia de Covid-19, algumas problemáticas inerentes ao contexto foram incorporadas no estudo. Como fazer pesquisa de campo em circunstâncias pandêmicas? Como aproximar-se e criar confiança com interlocutores em tempos de distanciamento social? Esta etnografia foi produzida a partir de uma observação realizada in loco no elétrico 28, tal e qual o plano de pesquisa original, mas também remotamente pelas contingências fortuitas do período em que ocorreu. Recorrendo a conceitos com origens disciplinares diversas sem se ater a um corpo teórico só, o texto vai descrever comportamentos na escala micro do corporal, relacionando com o período histórico macro em que vivemos, e com transformações urbanas recentes específicas de Lisboa.

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Cenas de um lugar turístico entre estações: uma etnografia sobre o eléctrico 28 de Lisboa em tempos pandêmicos

Author: Nova, Daniel Boa
Year: 2021
Source: https://run.unl.pt/bitstream/10362/138219/1/DanielBoaNova_Mestrado_CenasLugarTuristico_VFinal.pdf
1
Dezemb o de 2021
Cenas de um luga u ís ico en e es ações:
Uma e nog a ia sob e o eléc ico 28 de Lisboa em empos pandêmicos.
Daniel Boa No a
nº 57259
Disse ação de Mes ado em An opologia
Á ea de especialização em Cul u as Visuais
2
Disse ação ap esen ada pa a cump imen o dos equisi os necessá ios à ob enção do g au de
Mes e em An opologia – Cul u as Visuais, ealizada sob a o ien ação cien í ica da P o esso a
Dou o a Ma ia Ca dei a da Sil a.
3
Ag adecimen os
À Fe nanda, minha companhei a, ão obse ado a quan o pa icipan e nos p ocessos e decisões
pessoais que me ize am e o na à uni e sidade, segui pelos caminhos da An opologia e
p oduzi es e es udo.
Ao meu pai, An ônio Ca los Bôa No a, que com sua as a bagagem de cien is a social oi um
in e locu o cons an e sob e p á icas de campo e de esc i a.
À p o esso a Ma ia Ca dei a da Sil a, que me p opo cionou uma expe iência de o ien ação
saudá el e cons u i a, dosando ansmissão de conhecimen o e escu a a en a em cada pon o
des e pe cu so, se man endo semp e p óxima em meio ao dis anciamen o pandêmico, e com
le eza mesmo en e a pesados con a empos.
Ao Edglê, à J., ao Paulo, ao Ma k, ao João, aos po a- ozes da Ca is. A odos que con ia am
no p opósi o cien í ico de minha abo dagem, que doa am seu empo pa a con e sa comigo, e
que, po is o, me pe mi i am ap ende mais sob e es e eco e da ealidade.
À Flo a Lahue a, à Lau a Fila di, à Sonia Mo a Ribei o, minha ede de apoio, com quem pude
desopila aquilo que me ansbo da a, em momen os de angús ia, de édio, de con en amen o,
so e ou e és.
À Ginja, nossa a ei a po uguesa, que chegou em meio a essa his ó ia pa a se o na o se não-
humano que mais amo, que me o e ece doses de e nu a odo dia há mais de ano.
Ob igado. Mui o. Mui o mesmo.
4
RESUMO
Lisboa é a capi al do p ocesso de u is i icação con empo âneo po uguês, que se in ensi icou
após a p o unda c ise econômica i ida po Po ugal na passagem pa a os anos 2010. En e
ajus es iscais e omadas de emp és imo inancei o que gua dam semelhanças com as
expe iências i idas em ou as localidades, o país encon ou no incen i o à a i idade u ís ica
uma es a égia de ecupe ação económica. Nos úl imos anos, Lisboa passou a se is a como
“des ino impe dí el” po mui os iajan es, e quem eside na cidade passou a con i e com a
p esença da a i idade u ís ica em seu co idiano. Sendo um modal que az pa e do sis ema de
anspo e público local, o elé ico 28 o nou-se uma a ação ins ag amá el conco ida, pa a a
qual passou a se o inei o e ilas de u is as e co edo es in e nos cheios de gen e. Como
u en es equen es de um anspo e público u bano lidam com es a p esença em seu meio de
locomoção? Como u is as se compo am ao u iliza um se iço público de anspo e cole i o
onde es ão a aze u ismo? Que pe o mances, manei as de aze e negociações, co po ais e
e bais, se obse am nes e cená io? Es a e nog a ia oi planejada pa a abo da ais ques ões.
Po ém, endo sido ealizada em meio à pandemia de Co id-19, algumas p oblemá icas
ine en es ao con ex o o am inco po adas no es udo. Como aze pesquisa de campo em
ci cuns âncias pandêmicas? Como ap oxima -se e c ia con iança com in e locu o es em
empos de dis anciamen o social? Es a e nog a ia oi p oduzida a pa i de uma obse ação
ealizada in loco no elé ico 28, al e qual o plano de pesquisa o iginal, mas ambém
emo amen e pelas con ingências o ui as do pe íodo em que oco eu. Reco endo a concei os
com o igens disciplina es di e sas sem se a e a um co po eó ico só, o ex o ai desc e e
compo amen os na escala mic o do co po al, elacionando com o pe íodo his ó ico mac o em
que i emos, e com ans o mações u banas ecen es especí icas de Lisboa.
PALAVRAS-CHAVE
Elé ico 28; Lisboa; Tu is i icação; Con i ialidades; Mobilidades; Pandemia
5
ABSTRACT
Lisbon is he capi al o Po uguese con empo a y ou is i ica ion p ocess, which in ensi ied
a e he p o ound economic c isis expe ienced by he coun y in he ansi ion o he 2010s.
Be ween iscal adjus men s and inancial loans ha bea simila i ies wi h expe iences li ed in
o he locali ies, he coun y ound a s a egy o economic eco e y in encou aging ou is
ac i i y. In ecen yea s, Lisbon u ned in o a “mus -see des ina ion” o many a ele s, and
ci y dwelle s ha e come o li e wi h he p esence o ou is ac i i y in hei daily li es. As a
modal ha is pa o he local public anspo sys em, he am 28 u ned in o a popula
a ac ion, o which queues o ou is s and inne co ido s ull o people became ou ine. How
do equen use s o u ban public anspo deal wi h his p esence in hei means o
anspo a ion? How do ou is s beha e when using a public anspo se ice whe e hey a e
doing ou ism? Wha pe o mances, ways o doing and nego ia ions, bodily and e bal, a e
obse ed in his scena io? This s udy was i s designed o add ess hese ques ions. Howe e ,
ha ing been ca ied ou in he mids o he Co id-19 pandemic, some issues inhe en o he
con ex we e inco po a ed in o i . How o do ield esea ch in pandemic ci cums ances? How
o app oach and build us wi h in e locu o s in imes o social dis ance? This e hnog aphy was
p oduced om an obse a ion ca ied ou in loco on he am 28, jus like he o iginal esea ch
plan, bu also emo ely due o he o ui ous con ingencies o he pe iod in which i occu ed.
Using concep s wi h di e en disciplina y o igins wi hou s icking o a single heo e ical body,
he ex will desc ibe beha io s on he mic o scale o he body, ela ing i o he mac o his o ical
pe iod in which we li e, and o ecen u ban ans o ma ions speci ic o Lisbon.
KEY WORDS
T am 28; Lisbon; Tou is i ica ion; Con i iali ies; Mobili ies; Pandemic

6
Índice
1. In odução 7
1. 1 T anspo e público, luga u ís ico, empos pandêmicos 7
1.2 Do sujei o ao campo do sujei o 9
1.3 Uma década (ou mais) de ansição 10
2. Enquad amen o eó ico 14
2. 1 An opologia con empo ânea, um des ino u ís ico 14
2.2 Expedições e expe iências da an opologia no u ismo 17
2.3 Reg esso a um p esen e mo ediço 23
3. Conside ações me odológicas 30
3.1 Pon os de pa ida 30
3.2 “P imei a aga” 31
3.3 “Segunda aga” 34
3.4 Ques ões esc i as 35
3.5 Ques ões isuais 36
4. Uma e nog a ia do co idiano no eléc ico 28 em empos pandêmicos 39
4.1 A chegada à pa agem no Ma im Moniz 39
4.2 O eléc ico em si mesmo 53
4.3 P oxemia e manei as de iaja no 28 62
4.4 Do Ma im Moniz aos P aze es 69
4.5 O in e alo dos P aze es 116
4.6 Passagem de gua da- eios 126
4.7 Pe didos e achados no e o no 133
5. Re lexões inais 154
6. Re e ências bibliog á icas 161
7
1. INTRODUÇÃO
1.1 T anspo e público, luga u ís ico, empos pandêmicos
Como u en es equen es de um anspo e público u bano lidam com a p esença
co idiana de u is as em seu meio de locomoção? Como isi an es em uma cidade se compo am
ao usu ui de um se iço público de anspo e cole i o no local onde es ão a aze u ismo?
Quais as semelhanças e di e enças nas manei as des es di e sos uns e ou os? Quais as
pe o mances e negociações, co po ais e e bais, que se obse am nes e cená io? Quais os
possí eis con li os e as possí eis a eições, que se mani es am nes as conjunções en e pessoas,
papéis e mobilidades a iadas?
Foi pa a abo da al p oblemá ica que es a pesquisa an opológica oi desen ol ida.
Tendo Lisboa no ano de 2020 como espaço- empo con ex ual, e o eléc ico 28 como luga -
obje o de es udo, nes a disse ação ou p ocu a abo da es es pon os sob uma pe spec i a
an opológica. Como é a con i ialidade co idiana en e a o es di e sos que se encon am no
eléc ico 28 de Lisboa? É a ques ão ge al de pa ida pa a a qual p e endo o e ece algumas
espos as possí eis, a a és de uma e nog a ia densa em desc ição e abe a em suas (ou melho ,
minhas) in e p e ações.
Po e sido es a uma in es igação ealizada em meio à pandemia de Co id-19, alguns
p oblemas cien í icos adicionais e ac o es condicionan es ine en es a al con ex o inédi o
o am ine i a elmen e inco po ados como p emissas. Como aze pesquisa de campo em
ci cuns âncias pandêmicas? Como ap oxima -se e c ia con iança com in e locu o es em
p incípio desconhecidos, em empos que ob igam o uso de másca a acial e ecomendam o
dis anciamen o en e pessoas? E ainda: que co idiano é es e que se es á a obse a ? Se a
in es igação e e início, meio e im condicionados ao cená io pandêmico, o co idiano
obse ado nes e pe íodo e idencia um p ocesso de up u a umo a um “no o no mal”? Foi (ou
se á) um in e lúdio e éme o após o qual se en a á ecupe a uma o a p eg essa?
A p á ica u ís ica é an e io ao su gimen o do e mo u ismo
1
. Mas, enquan o enômeno
de massa em escala global (com in e aces em campos ão di e sos quan o polí icas públicas,
1
Como ponde a Sha pley (2008, 2-1), a depende da de inição concei ual dada pa a o e mo – po exemplo, se
comp eendida apenas como iaja po mo i os de laze , educação ou busca espi i ual -, é possí el aça uma
biog a ia de milênios de ida pa a a p á ica u ís ica.
8
p odução econômica, sus en abilidade socioambien al, pa imonialização cul u al, mobilidade
u bana, p essão no me cado imobiliá io, p eca ização abalhis a...), o u ismo al e qual o
en endemos é um enômeno mode no. Fo am as ino ações ecnológicas (sob e udo, nos
anspo es) e as mudanças nas condições sociais dos assala iados médios
2
que possibili a am
não somen e o c escimen o da indús ia u ís ica, mas a in e nalização de sua p á ica no
imaginá io comum. “No mundo Ociden al mode no, o u ismo in e nacional passou de um luxo
des u ado po uma mino ia p i ilegiada pa a uma a i idade de laze p a icada po uma g ande
maio ia da população e, como a i idade social, o u ismo se in e nalizou. Ou seja, o nou-se
uma pa e acei a, ou mesmo espe ada, da ida, uma necessidade em ez de um luxo, e uma
a i idade de massa“
3
, explica Sha pley (2008, 2-21).
O u ismo lique ez-se como modo de es a no mundo a é chega ao século XXI
i igando localidades em qualque pa e do mundo. Esp aiou-se de al o ma que, mesmo quem
dele é excluído ou í ima, e quem a ele se opõe, de alguma manei a elaciona-se com ele. Nos
e i ó ios onde ganha ida, a a i idade u ís ica c ia aízes e se ep oduz, inco po ando no os
amos a cada empo ada. A é que se p o e o con á io, é um ac o empí ico que não há
conhecimen o sob e luga es que, uma ez o nados u ís icos, depois se “des u is i ica am”.
Daí e algo de quixo esco em que e menosp eza ou ela i iza a pe inência de in es igá-lo
com uma a i ude cien í ica. Impo a menos da e edic os posi i os ou nega i os sob e seu
alo como campo de es udos, do que obse a seus a o es, manei as, empos e luga es, pa a
pe cebe seus quais e comos.
É com es e in ui o que ap esen o aqui uma e nog a ia p oduzida a pa i de uma
obse ação ealizada in loco, al e qual o plano de pesquisa o iginal, mas ambém emo amen e
pelas con ingências o ui as do pe íodo em que oco eu. Nes a pesquisa, ao in és de in e p e a
um de e minado eco e obse ado da ealidade segundo um co po eó ico majo i á io de minha
escolha, expe imen ei ci cula e ece amas en e eo ias e concei os di e sos, sem me
alice ça em qualque um deles. Mais do que na in e p e ação, es e ex o em sua mais- alia na
‘desc ição densa’ (Gee z 1989), chegando a examina em po meno es os ges os e manei as de
se locomo e dos co pos di e sos obse ados no eléc ico 28 – mesmo em seus aspec os
co idianos mais banais.
2
Que, em linhas bem ge ais, se o na am abalhado es u banos em sua maio ia, com maio enda e mais
disponibilidade de empo de ido à (lu a e) conquis a de di ei os sociais, como é ias emune adas e aposen ado ia.
3
T adução do au o . No o iginal, em inglês: “Wi hin he mode n, Wes e n wo ld, in e na ional ou ism has been
ans o med om a luxu y enjoyed by a p i ileged mino i y in o a leisu e ac i i y enjoyed by a la ge majo i y o
he popula ion and, as a social ac i i y, ou ism has become in e nalised. Tha is, i has become an accep ed, o
e en expec ed, pa o li e, a necessi y a he han a luxu y, and a mass ac i i y“.
9
1.2 Do sujei o ao campo do sujei o
B asilei o de São Paulo, an es da mudança de país pa a cu sa es e Mes ado, como
u is a eu isi a a Lisboa em ou as qua o opo unidades. O ci y ou básico iz somen e na
p imei a des as, em 2008. Fui à P aça do Comé cio, ao Bai o Al o, ao Adamas o . Comi pas el
de na a, bebi ginjinha, conheci a To e de Belém. Também subi ao Cas elo de São Jo ge
u ilizando como meio de anspo e o eléc ico da linha 28.
Já em 2018, na minha úl ima inda a Lisboa ainda como u is a, es i e no Ma im Moniz
e me su p eendi com o amanho da ila que encon ei, debaixo de sol, na pa agem daquele
eléc ico. Minha in enção e a ol a a pegá-lo, mas acabei desis indo po não que e pe de
empo a espe a . Foi quando pe cebi que o c escimen o do u ismo em Lisboa na década que
passou desde minha p imei a isi a, impac ou minha p óp ia expe iência como isi an e da
cidade
4
. Um meio de anspo e público que an es a é podia já a ai u is as, o na a-se en ão
uma conco ida "a ação impe dí el" lisboe a. Se aquela mudança me causa a es anhamen o,
e a de se imagina como se sen i ia em elação a is o um mo ado de Lisboa, que i encia es e
p ocesso de u is i icação no seu co idiano.
Uma ez endo subs i uído o papel de u is a pelo de mo ado (e imig an e, e es udan e
in e nacional…), passei a pe cebe o u ismo em Lisboa sob ou a pe spec i a. Po ezes, com
incômodo em elação a alguns compo amen os de isi an es. Mas ambém e le indo sob e
como minha simples p esença pode se incon enien e pa a mo ado es locais quando sou eu
quem es ou no papel de u is a, em isi a ao “ou o” numa iagem de laze . Lemb o de me
sen i descon o á el quando, naquele já dis an e ano de 2008 em que conheci Lisboa, ambém
es i e em Ba celona e, pela p imei a ez, i mani es ações u ismo óbicas em g a i es na ua.
Is o em uma cidade que em na a i idade u ís ica uma impo an e on e de ecu sos
econômicos. Assim como Lisboa.
Se " odos" que em iaja a u ismo, po que "ninguém" que o u ismo do ou o po
pe o? Quando alguém que mo a em uma cidade u ís ica es á a iaja , ado a o mesmo
compo amen o que gos a ia que os u is as i essem em seu local de esidência? E, se o u ismo
é pe cebido como uma a i idade econômica es a égica pa a o desen ol imen o local, quais
4
Pa a se exa o, minha p imei a isi a a Lisboa oco eu em junho de 2008, quando p esenciei as comemo ações
dos San os Popula es na cidade (12 de junho). Es a úl ima, em 2018, oi no mês de maio. Ambas, po an o, em
épocas semelhan es do ano: às éspe as do e ão.
16
essigni ica seu p opósi o e suas p opos as pa a as paisagens dos empos a uais
20
. É mesmo
um pa adoxo que, sem aquela an opologia (sis emá ica, gene alizan e, essencialis a,
e nocên ica, dico ômica…) não exis i ia es a an opologia ( elacional, con ex ualizada,
e lexi a, híb ida…), ão c í ica àquela.
Em seu p esen e modo de aze , que pe cebe o cons uc o de seu sabe não como o
ja dim au óc one de um eso exclusi íssimo, e sim como uma ho a comuni á ia policul o a,
abe a a enxe os manuseados em qualque uso ho á io, a an opologia passou a e no
enquad amen o his ó ico um de seus oncos basila es. Hoje, não se esc e e e nog a ia sem
si uá-la em ho izon es empo ais mais amplos do que o do pe íodo de ealização do es udo
21
.
T a a-se de uma e idência empí ica da p odução acadêmica con empo ânea, que, nas pala as
de Appadu ai aqui subsc i as, o na-se pa adigmá ica da an opologia pós-mode na: “(…)
nenhuma comunidade humana, po mais es á el, es á ica, limi ada ou isolada que apa en e se ,
pode se conside ada como impassí el ou à pa e da His ó ia” (Appadu ai 1996, 185)
22
. Es e
casamen o com a disciplina da His ó ia e idencia ou a p emissa da an opologia inco po ada
na passagem pa a o século XXI: a abe u a à in e disciplina idade. Se a na u eza da cul u a é
a in e secção e jus aposição de múl iplos empos, espaços e g upos de pessoas, en ão é na u al
que uma abo dagem holís ica da expe iência humana ab a ias e e ga pon es en e concei os,
eo ias e écnicas p o enien es de ambien es di e sos pa a encon a ângulos adequados a sua
análise. Sob e udo, quando se a a de in es iga o(s) enómeno(s) do(s) u ismo(s), em que os
up u as ge adas em uma zona que ocupou a po ção inal do século XX. Foi um p ocesso que e e luga num
espaço de décadas de in e conexão en e os modelos posi i is as a é en ão hegemônicos, e eo ias c í icas pós-
coloniais. Teo ias es as i madas, pionei amen e, po pensado es e pensado as com co pos não-b ancos, não-
masculinos e com bagagens cul u ais p o enien es de luga es que, ou o a, o am desc i os como “des inos
exó icos” pela p óp ia an opologia.
20
Pa adigmas clássicos que eme em aos abalhos de F anz Boas, A.R. Radcli e-B own e, p incipalmen e, à
in odução de The A gonau s o he Wes e n Paci ic (Malinowski 2002). Me e i o aqui à obse ação pa icipan e
enquan o mé odo in es iga i o (baseado na p esença p óxima e p olongada com as pessoas cujas mani es ações
cul u ais se es á a es uda ) e à e nog a ia enquan o p odu o inal. Mesmo endo ecebido camadas e lexi as
adicionais na pos e idade, es as man êm-se como bases da an opologia con empo ânea. Já os quad os
in e p e a i os daquela an opologia clássica que, sob luzes a uais, e elam-se compos os po gene alizações
a empo ais de pa icula idades con ingenciais, essencializações ca egó icas e uma “au a de e dade” na
e nog a ia, es es o na am-se peças de museu.
21
Es a cons a ação em como ac o con ínuo um ques ionamen o p elimina , cien i icamen e necessá io, de
discu sos polí icos, análises sociais e in e p e ações cul u ais que se baseiem em a gumen ações do ipo desde
semp e oi assim. Tais podem su gi em a iações de adje i os e ocados pa a cono a a anscendência de épocas
di e sas como e dade indubi á el, ais como “ adicional”, “ ípico”, “au ên ico” e “ olcló ico”. Pa a a amen os
mais p o undos sob e como es es concei os podem e es i agendas polí ico-ideológicas conc e as com e nizes
de anscul u alidade, neu alidade e a empo alidade, e Handle (1994) e Ha s ein (2007).
22
T adução do au o . No o iginal, em inglês: “(…) no human communi y, howe e appa en ly s able, s a ic,
bounded, o isola ed, can use ully be ega ded as cool o ou side his o y”.

17
signi icados (polí icos, económicos, ma e iais, ambien ais, cul u ais, iden i á ios, simbólicos,
senso iais, a e i os…) são híb idos, com impac os em escalas e campos emá icos a iados.
Na medida em que a u ismologia ambém é uma disciplina em si, que pode e
in e aces com ou os campos di e sos e não apenas nas ciências humanas, açamos en ão um
ou po algumas das ilhas pe co idas pa icula men e pela an opologia nos es udos do
u ismo.
2.2 Expedições e expe iências da an opologia no u ismo
A expansão do u ismo nas úl imas décadas em sendo acompanhada pela
mul iplicação das pesquisas an opológicas sob e o u ismo. A chamada “an opologia do
u ismo” não cons i ui um subcampo à pa e, cujo pe íme o é delimi ado po ce cas ixas.
T a a-se ão somen e de aplica os mé odos in es iga i os, modos de o mula p oblemá icas
de pesquisa e de desc e e a ealidade empí ica, que consolida am a an opologia enquan o
ciência, pa a obse a , analisa e in e p e a enómenos u ís icos. Po exp essa em uma
dinâmica p ocessual, mais do que um e i ó io au ónomo com apelido p óp io, en endo se
mais plausí el ca ac e iza al amo como “in e enções an opológicas” (Lei e & G abu n,
2009), ou “con ibuições an opológicas” (Nogués-Ped egal 2019) nos es udos do u ismo.
Como apon a Ma ia Ca dei a da Sil a, ao di eciona in es igações pa a os luga es u ís icos, a
an opologia ea i ma sua especi icidade, pois lhes "(...) pode explo a com um know how
especí ico de a ibuição de oz ao local e de enquad amen o mais as o no seu quad o de
p odução social" (Sil a 2004, 11).
En e os pionei os a examina o enômeno u ís ico segundo moldu as e concei os
an opológicos es á Dean MacCannell. Em The Tou is , MacCannell ouxe uma isão do
u ismo como análogo a um i ual eligioso mode no e que anscende on ei as, ampa ado em
um senso mo al cole i o de que ce os luga es p ecisam se isi ados. O a o de passea e
con empla (sighs eeing) é in e p e ado como uma busca po au en icidade em luga es ou os
(o país es angei o, a na u eza, o luga his ó ico, o “es ilo de ida simples" do ou o…) que não
a no malidade co idiana. Enquan o o ma ipicamen e classe média de se di e encia na
sociedade (di e encia -se em elação a quem não o az, ou em elação à o ina o diná ia do
abalho, po exemplo), o u ismo cons i ui en ão um “(…) p ocesso duplo de sac alização das
is as a endido po uma a i ude i ual co esponden e pela pa e dos u is as” (MacCannell
18
1999, 42)
23
. Cien es de que a indús ia do u ismo ab ica a ações pa a sua con emplação,
u is as en ão p osseguem sua busca po au en icidade a é alcança os bas ido es da a ação.
Assim, encon am o que MacCannell chamou de "au en icidade encenada", aquilo que pa ece
um bas ido , mas é uma no a a ação p oduzida ambém pela indús ia do u ismo. Ainda que
a pos e idade apon e uma endência à gene alização em sua cons ução eó ica, pelo au o “(…)
conside a que a busca pela au en icidade se pode aplica a odo e a qualque u is a” (Be na do,
2013, 11), o abalho de MacCannell deu undamen os e des aque a uma emá ica que e a
elegada a segundo plano nas ciências sociais, indo a inspi a uma sé ie de no as
in es igações.
Da segunda me ade da década de 1970 em dian e, es udos an opológicos di e sos sob e
o u ismo se basea am em uma di isão ca egó ica en e an i iões e isi an es, que e iam um
pon o de encon o na cole ânea de ensaios Hos and Gues s: The An h opology o Tou ism
(Smi h 1977). Edi ada po Valene Smi h, cons i uiu um e e encial eó ico pa a e lexões
di e sas sob e as pe cepções inco po adas nos encon os en e u is as e locais, incluindo os
impac os sob e as cul u as locais causados pelo desen ol imen o do u ismo de massa. Um
exemplo audio isual des a abo dagem é o ilme Cannibal Tou s (O'Rou ke, 1987), que
acompanha uma expedição de gues s eu opeus pelos meand os de um io na Papua No a Guiné,
onde encon am hos s indígenas com quem ba ganham p eços pa a comp a a e a os.
Po um lado, es e esquema in e p e a i o con ibuiu pa a uma comp eensão mais
di e si icada das mo i ações que le am u is as a iaja , indo além da busca po au en icidade.
Con udo, a dico omia ine en e à análise do enómeno u ís ico pela ó ica das di e enças en e
hos s (‘an i iões’) e gues s (‘con idados’) mos a-se insu icien e - ou mesmo, equi ocada - na
desc ição da mul iplicidade de condições, iden idades, mobilidades, discu sos e ep esen ações
que se jus apõem nas expe iências i idas em luga es u ís icos con empo âneos. Um
p op ie á io de alojamen o local que não mo a e nem nasceu no luga onde o imó el se
encon a, pode se conside ado um an i ião (hos )? Um iajan e hospedado na casa da p óp ia
amília du an e uma isi a de é ias à cidade onde c esceu, se ia conside ado con idado ou
an i ião? Hoje, há um g ande con ingen e de iagens mo i adas pela isi a a amigos e pa en es
em ou as localidades
24
. G i in e Dimanche (2017) pon uam que, con o me as cidades ab igam
23
T adução do au o . No o iginal, o echo na ín eg a em inglês: “This mi acle o consensus ha anscends
na ional bounda ies es s on an elabo a e se o ins i u ional mechanisms, a wo old p ocess o <sigh
sac aliza ion> ha is me wi h a co esponding < i ual a i ude> on he pa o ou is s”.
24
Es e p opósi o de iagem é conhecido em mui os meios pela sigla VFR (Visi ing F iends and Rela i es). A
O ganização Mundial do Tu ismo (OMT/UNWTO), po exemplo, u iliza es e indicado em seus le an amen os.
Ve : UNWTO, “In e na ional Tou ism Highligh s - 2020 Edi ion”, p. 9, publicado em janei o de 2021, ISBN:
19
cada ez mais imig an es e esiden es ansi ó ios (expa iados, es udan es in e nacionais,
nómadas digi ais
25
…) que, po sua ez, hospedam amigos e amilia es, a dis inção en e
an i iões e isi an es o na-se menos pe inen e. Hos s e gues s podem habi a os mesmos
co pos, inclusi e ao mesmo empo, e com agencialidades di e sas. São papéis con ex uais a se
obse a , e não modos de se a se de ini .
A c í ica à ipologia que ca ego iza os a o es sociais p esen es em luga es u ís icos de
o ma biná ia (em ca ego ias cole i as como hos s e gues s, mas ambém Sul e No e globais,
ou o as ei os e locais) ambém pode se ei a em de esa do p óp io obje i o cien í ico da
disciplina an opologia ao in es iga o enômeno do u ismo. É a o que, em ou os empos, a
p esença de u is as no "seu" e eno inquie ou an opólogos. Já nos anos 1960, alguns
no i ica am em ex os a in usão de u is as em seu campo de obse ação, ainda que o oco
p imá io da in es igação não osse p op iamen e o u ismo (Lei e & G abu n 2009, 38).
Segundo uma moldu a concep ual dualis a, pa a o mo ado de um luga u ís ico, o que di e i ia
o an opólogo de um u is a? Não se iam ambos o as ei os que, uma ez de ol a a seus locais
de o igem, desc e em com as p óp ias pala as aquilo que i am nos luga es que isi a am?
Sob e udo a pa i dos anos 1980, as ce ezas ca egó icas de ou o a na an opologia
passa am a con i e com as ozes alheias di e sas que ecoa am pelo mundo. A i agem
e lexi a o nou incon o ná el o pa adoxo de que es amos semp e a esc e e cul u almen e
quando nos p opomos a desc e e ou a cul u a. Es e p ocesso e e impac os ambém nos
es udos an opológicos do u ismo. Como apon am Lei e e G abu n (2009, 37-38), oi quando
começa am a su gi pesquisas em des inos u ís icos localizados em ”países icos”, en e g upos
de u is as p oceden es de ”países pob es”, e não somen e conduzidas po pesquisado es da
Eu opa e Es ados Unidos. Foi ambém quando alguns an opólogos, como C ick (1989) e
E ing on e Gewe z (1989), publica am e lexões que seguem sendo e e enciadas, sob e como
a disciplina abo da a o u ismo a é en ão, e como pode ia passa a abo da .
Na passagem pa a os anos 1990, alguns au o es passa am a dosa concei os sociológicos
e an opológicos pa a eo iza sob e os impac os no u ismo das ans o mações sociocul u ais
desencadeadas pela pós-mode nidade. En e es es, o abalho de John U y ganhou bas an e
no o iedade. Em The Tou is Gaze, U y (2002) aduziu de Foucaul o concei o de gaze pa a
978-92-844-2244-9. Disponí el em: h ps://www.e-unw o.o g/doi/book/10.18111/9789284422456 [úl ima
consul a em 24/10/2021].
25
Tido como um enómeno ecen e, que en ol e ques ões de classe, es ilo de ida, mobilidades e elação com o
abalho, o nomadismo digi al em aos poucos sendo in es igado pelas ciências sociais em Po ugal. Exemplos
dis o podem se encon ados nos abalhos académicos de Gomes (2020) e Souza (2020).
20
analisa a p á ica u ís ica como uma a i idade de laze undamen almen e isual. É a sa u ação
de imagens a aen es ao olha encon adas em luga es u ís icos, pa a os quais u is as se
deslocam e onde pe manecem po uma ex ao diná ia es adia limi ada, o que os di e encia dos
seus luga es de esidência e abalho. Assim, "O olha do u is a é di ecionado pa a aspec os da
paisagem e da cidade que os sepa am da expe iência co idiana. Tais aspec os são is os po que
são conside ados, em ce o sen ido, o a do comum" (U y 2002, 3). Um conjun o de
p o issionais do se o u ís ico se enca ega en ão de cons an emen e p oduzi (e ep oduzi )
no os obje os pa a con emplação isual dos iajan es. É uma linha de aciocínio que pode se
emp egada an o pa a in e p e a a inaugu ação de no as a ações em uma cidade (como no
chamado "E ei o Bilbao"
26
ou, em Lisboa, como na abe u a do MAAT e do Time Ou Ma ke
na década passada), quan o o edesenho de seu espaço público a a és de in e enções u banas
(como nas e o mas no La go do In enden e e na Ribei a das Naus emp eendidas ambém na
úl ima década). Ainda que emp eendimen os como es es não enham ins u ís icos anunciados
o malmen e, po ca i a em o gaze, é ine i á el que con ibuam pa a a ai no os luxos de
u is as ao e i ó io onde se localizam.
U y p oje a a que a sepa ação en e as es e as da o ina o diná ia e da expe iência
ex ao diná ia de laze u ís ico es a ia adada a se dissipa po osmose. A des-di e enciação
en e es es dois mundos
27
que a mode nidade man i e a di o ciados ende ia a se o na uma
ca ac e ís ica hegemônica da sociedade con empo ânea. O im de qualque al e idade pe cebida
no u ismo oco e ia "(...) não po exaus ão, mas po diluição, po ala gamen o do ou is gaze
a quase odas as pe o mances quo idianas" (Sil a 2004, 9). Po ângulos di e en es,
MacCannell e U y enxe ga am nos compo amen os do u is a me á o as do homem pós-
mode no. Pa a MacCannell, es e es a ia semp e em busca de uma e dade genuína em luga es
e idas que não lhes são amilia es. Pa a U y, es e se ia um consumido semp e á ido po
no as imagens. Homem, sim, e não se humano. Em seus esc i os, o u is a e a alguém sem
gêne o, de inido pela busca po au en icidade ou pela p á ica do gaze. Ambos ecebe am
c í icas, mas sob e udo U y (como em P i cha d & Mo gan 2000; ou em Jo dan & Ai chison,
2008), po não ponde a como uma mesma expe iência u ís ica é i enciada de o mas
dis in as con o me o co po nela p esen e. "O gaze do u is a é baseado em um imaginá io
26
Ve jo nal The Gua dian (2017a), "The Bilbao e ec : how F ank Ghe y's Guggenheim s a ed a global
c aze”. Disponí el em: h ps://www. hegua dian.com/a anddesign/2017/oc /01/bilbao-e ec - ank-geh y-
guggenheim-global-c aze [úl imo acesso em 24/10/2021].
27
Onde se o na ia habi ual abalha du an e as é ias e dedica -se ao laze em meio à o ina diá ia, po exemplo.
Tal des-di e enciação en e es es mundos an es an agónicos ica e iden e na a i idade p o issional de alguns
nômades digi ais (nomeadamen e, os chamados digi al in luence s). A esc e e na década de 1990 imaginando
um cená io u u o, U y pode e p ognos icado umas an as semelhanças com a ac ualidade.
21
masculino, de classe média e impe ialis a o nado pe igosamen e uni e sal", sin e izou Pons
(2003, 57). Ainda assim, o concei o de gaze pe maneceu um e e encial eó ico pa a es udos
an opológicos do u ismo. Seja em elei u as concep uais (Maoz 2006; Holloway e al 2011;
Neill, Johns on & Losekoo 2016), em sua aplicação e in e p e ação po au o as de
posicionalidades di e sas (Tan & aba baka 2016), pela sua adap ação a campos emá icos e
eco es especí icos da ealidade (Höcke e al 2018), ou pela descons ução de seu
ocula cen ismo ine en e, po au o es que apon a am pa a a mul isenso ialidade da expe iência
u ís ica (Agapi o e al 2013; e a começa pelo p óp io U y [2011], nas e isi ações que ez
em sua ob a). Es es exames e e isões e elam alguns dos caminhos ilhados pela an opologia
nas suas incu sões mais ecen es pelo u ismo.
Como diagnos icam Cohen e Cohen (2019), as i agens ilosó icas pelas quais as
ciências humanas êm na egando nas úl imas décadas co em ambém po meio dos es udos
do u ismo. Os au o es apon am alguns ópicos que êm indo à ona com maio des aque nes a
conjun u a, que po cu sos di e sos en ol em o pa adigma pós-mode no de e u a dico omias
e essencialismos como modo de in e p e a o mundo. En e es as e en es es ão os impac os
emocionais e as expe iências senso iais en ol idas no u ismo; a impo ância das coisas
ma e iais (ou a o es não-humanos) na p odução e manu enção de p á icas u ís icas; as elações
de gêne o que pe meiam pesquisas sob e o u ismo; além dos undamen os ilosó icos e
ques ões é icas que in eg am es e campo in e disciplina de es udos.
Em um ex o já nem ão ecen e, Pons sin e izou boa pa e des as linhas em um quad o
concep ual condizen e com a conjun u a his ó ica globalizada em que seguimos i endo,
complexa e luída como ambém é o enómeno u ís ico. A an opologia e as ciências sociais
como um odo de em es udá-lo po que se a a de uma expe iência humana impo an e no
con ex o con empo âneo. É um componen e isi elmen e p esen e do ecido social ac ual, que
e es e luga es, sujei os e ideias que se encon am em mo imen o pelos ópicos, me idianos e
cí culos. O au o comp eende o u ismo como “(…) um modo p á ico de nos en ol e mos com
o mundo, c ia mos conhecimen o e in e agi mos com o meio ísico (…) “(Pons 2003, 47)
28
.
Sendo uma p á ica humana, o u ismo p oje a espaços e pelos espaços é moldado. Dá e ecebe
signi icados. É sujei o e obje o. “As p á icas u ís icas são semp e elacionais, in eg adas em
á ias edes di e en es e semp e em p ocesso” (ibidem, 59)
29
. O u ismo é uma manei a de
28
T adução do au o . No o iginal, o echo na ín eg a em inglês: “My claim is ha ou ism is a p ac ical way
h ough which we a e in ol ed in he wo ld, we c ea e knowledge and in e ac wi h he physical en i onmen ; in
Heidegge ian e ms, a way o being-in- he-wo ld, o dwelling in i ”.
29
T adução do au o . No o iginal, em inglês: “Tou is p ac ices a e always ela ional, in eg a ed in se e al
di e en ne wo ks and always in p ocess”.

22
habi a (dwelling) o mundo. Na p á ica, du an e o empo da es adia, iajan es es ão a esidi no
luga que isi am, e pa a Pons es a pe cepção não em uma cono ação es á ica. As necessidades
mais básicas e p á icas mais o diná ias de um sujei o (alimen a -se, do mi , ab iga -se,
elaciona -se) não são ex ao dina iamen e suspensas pa a que se i a uma ou a o ma de ida
quando calçadas as sandálias de u is a. Habi a é se en ol e de algum modo, subje i a e
cole i amen e, com expe iências con ex ualizadas e ep esen ações no imaginá io. Implica em
es a de co po senso ialmen e p esen e num e i ó io, in e agi com ou as pessoas no dia-a-
dia, cons ui e ans o ma sabe es. Embo a ambém os englobe, o u ismo não se esume a
e en os ex ao diná ios e dimensões ep esen acionais. Enquan o enómeno social, é um
conjun o di e so de p ocessos elacionais, a a és dos quais ambém a sociedade é
con inuamen e ei a, e ei a e azedo a. Logo, Pons p opõe “des-exo iciza ” os es udos do
u ismo, e ocá-los nas p á icas humanas mais i iais, o dina iamen e si uadas no espaço.
Como o co idiano de um anspo e público u bano, po exemplo, em que os encon os com o
u ismo são pa e de o ina em andamen o.
Os pa adigmas con empo âneos de uma an opologia e lexi a pedem uma pe cepção
do enómeno u ís ico não como uma en idade alienígena a um luga , que a e issa a cada no a
es ação com uma coesão p óp ia e coe ência de ini i a, mas sim como uma p esença que é
pa e da paisagem cul u al - nunca concluída, diga-se - de qualque e i ó io. Mesmo sua
ausência, como se iu no cená io pandêmico de 2020, ambém molda es a paisagem. Se “(…)
a an opologia é uma disciplina que ope a ime gindo no p ocesso da ida e acompanhando-o”
(Ingold 2019, 67), en ão ainda que possamos (e de emos) c i ica impac os socioambien ais da
a i idade u ís ica, dis ingui sua p esença de uma paisagem, “ou o izá-lo”
30
, é des ia -se de
sociabilidades ele an es, po que o inei as, expe imen adas po habi an es do século XXI. A
p opos a sob e a mesa hoje, a qual enho in enção de segui , é obse a a ida sendo i ida
con o me as con ingências se ap esen am, desc e e es es con ex os o mais densamen e
possí el, deixando anspa ece as pe spec i as ado adas, e cons uindo in e p e ações do modo
as oco ências po mim obse adas podem se in e - elaciona com sis emas e pad ões mais
amplos pe cebidos no ho izon e.
30
Aqui se emp ega es e e bo como uma li e adução do e mo o he ing, en endido como uma manei a de a a
indi íduos ou g upos especí icos como se não pe encessem à sociedade em que se encon am.
23
2.3 Reg esso a um p esen e mo ediço
No con ex o his ó ico pós-indus ial, de um sis ema mundial in e conec ado de polí ica
econômica capi alis a, enómenos sociocul u ais se ep oduzem de o ma líquida (Bauman
2000), em escapes anslocais descon ínuos (Appadu ai 1996), com uma elocidade de
ci culação, escala de alcance e po encial de ade ência ampliados pelas ecnologias digi ais de
in o mação e comunicação. Tais p ocessos não êm seus luxos ci cunsc i os às on ei as
( e i o iais, empo ais, sociais…) de g upos especí icos com que são associadas
31
, podendo
inclusi e da o igem a no as localidades, izinhanças, con ex os; no os ecipien es e
eplican es. Daí as incu sões na in e disciplina idade eó ico-analí ica, pa a p oduzi desenhos
de pesquisa mais a inados com a di e sidade de encon os en e con e âneos es anhos e
o as ei os amilia es que se obse a uma ez saindo a campo. Daí, ambém, eme ge uma
p á ica an opológica mais pe ipa é ica, que ao in és de en inchei a -se num e i ó io
de e minado e obse a ao edo de si mesma, acompanha seu obje o de es udo em caminhos
habi uais e o ui os, como o ma de ap ende o máximo sob e ele. Nes e cená io, “Segui
empi icamen e o io de um p ocesso cul u al em si impulsiona o mo imen o em di eção a uma
e nog a ia mul i-si uada” (Ma cus 1998, 80)
32
, p opos a me odológica que es e es udo p ocu a
expe imen a . O in ui o é calib a obse ações e análises ei as em um único luga “(….) com
suas implicações pa a o que acon ece em ou o local elacionado, ou ou os locais, mesmo que
os ou os locais possam não es a den o da es u u a do p oje o de pesquisa ou da e nog a ia
esul an e” (ibidem, 95)
33
. No caso, o único luga é o eléc ico 28, que, pa adoxalmen e,
ambém es á em mo imen o.
É po comp eende a ealidade con empo ânea como “mo ediça”, e po busca a es as
com al e idades acadêmicas pa a p opo in e p e ações mais pe inen es às complexas
dinâmicas da sociedade ac ual - u ismo aí incluído -, que, po im, es e es udo em ambém
31
Como obse ado em anos ecen es nas mani es ações em localidades geog á icas di e sas do MeToo, do Black
Li es Ma e , ou da G e e Climá ica Global. São exemplos no campo dos mo imen os sociais con empo âneos à
p odução des e ex o. Mas o mesmo quad o analí ico pode ia en oca ou os e enos da ida ac ual. Quando
olhamos pa a compo amen os elacionados ao consumo em massa de ecnologias de in o mação e comunicação,
emos ou os exemplos angí eis. Sejam memes inco po ados à cul u a pop após i aliza em po aplicações
mó eis, a ansmissão ao i o pela in e ne de lançamen os de ogue es pa ocinados po emp eendedo es
bilioná ios, ou o sucesso in e nacional de p oduções audio isuais sul-co eanas.
32
T adução do au o . No o iginal, em inglês: “Empi ically ollowing he h ead o cul u al p ocess i sel impels
he mo e owa d mul i-si ed e hnog aphy.”
33
T adução do au o . No o iginal, o echo na ín eg a em inglês: “Indeed, wha goes on wi hin a pa icula locale
in which esea ch is conduc ed is o en calib a ed wi h i s implica ions o wha goes on in ano he ela ed locale,
o o he locales, e en hough he o he locales may no be wi hin he ame o he esea ch design o esul ing
e hnog aphy”.
24
en e seus é ices eó icos dois concei os que não são exclusi idade da an opologia, expos os
a segui .
Embo a ideias elacionadas às mobilidades enham uma aje ó ia ex ensa na
an opologia, como apon a Noel Salaza , a “escola clássica” endeu a igno á-las, ou a á-las
como excepcionalidades em sociedades que e am in e p e adas como delimi adas po seus
e i ó ios (Salaza 2018, 156). Hoje, os es udos das mobilidades já le am com a possibilidade
de i em a se uma disciplina em si, dada a p og essi a p odução acadêmica anco ada nes e
pa adigma in e disciplina
34
. John U y, au o de The Tou is Gaze, em sua longe a e p olí ica
p odução académica, ambém se mo eu pelos es udos das mobilidades (U y 2007; Shelle &
U y 2006).
Aqui, o concei o de mobilidades é emp egado com e e ência à ob a do geóg a o
b i ânico Tim C esswell. O au o az uma dis inção en e mo imen o e mobilidade, que se á
desemb ulhada nes e pa ág a o e no p óximo, pois são componen es analí icos impo an es
des e es udo. Mo imen o é qualque o ma de deslocamen o en e um pon o A e um pon o B,
seja qual o a escala da ação e a na u eza de seus p o agonis as. C esswell não limi a o concei o
a a o es sociais humanos. T a a-se do ac o mecânico, da ação ciné ica, po ém, sem seu en o no.
A ideia de mo imen o é abs a a e descon ex ualizada. É um modelo didá ico, ca esiano,
compos o apenas po e o es empo ais-espaciais. Um mo imen o le a an o empo pa a
pe co e al espaço, ou, em al empo, pe az an o de espaço. Já o concei o de mobilidades
en ol e, pa a além de um deslocamen o ísico qualque , as pe cepções a ibuídas a es e
mo imen o po seus agen es e po ou em. Se mo imen o é somen e signi ican e, mobilidades
são signi ican e com signi icado. A depende das elações de pode em jogo no con ex o
(polí ico, econômico, ideológico, his ó ico, mediá ico, pandêmico…), assim como de
ca ac e ís icas iden i á ias dos a o es em ação, signi icados cul u ais di e sos podem se
a ibuídos a um mesmo mo imen o
35
. E, po an o, sen idos di e sos de mobilidade podem se
dep eendidos dele. Uma mesma iagem de eléc ico cujo emba que oco e na pa agem A e
34
Um exemplo p óximo ao campus onde es a in es igação es á sediada encon a-se na Associação Eu opeia de
An opólogos Sociais (EASA), que con a com um g upo de abalho ocado nas in e conexões en e an opologia
e mobilidades. Ve ANTHROMOB, em: h ps://www.easaonline.o g/ne wo ks/an h omob/ [úl ima consul a em
17/10/2021].
35
É assim que o mo imen o de um espe ma ozoide a é a ecundação de um ó ulo pode se en endido como
milag e di ino e como condenação à ulne abilidade. A a essia do Ma Medi e âneo po um ba co apinhado
de pessoas pode se pe cebida como in asão es angei a e como a o de sob e i ência. Ou, ainda, a ápida
ansmissão en e hospedei os no mundo odo de um í us ag essi o pode se en endida como pandemia, mas
ambém como ake news. Em ou a ace do mesmo polied o, o e mo “pessoas com mobilidade eduzida” ambém
pode se elusi o do concei o. A exis ência de obs áculos ao mo imen o ísico de pessoas az consigo signi icados
socialmen e di e enciados. Bas a pensa mos na di e ença do signi icado de “qualidade de ida” pa a pessoas com
e sem mobilidade eduzida.
25
desemba que na pa agem B pode signi ica um mo imen o pendula co idiano (o pe cu so ao
local de abalho, pa a busca c ianças na escola, pa a aze comp as no me cado…); pode
signi ica uma jo nada de abalho (pa a quem o conduz na posição de gua da- eios, ou pa a
um pesquisado que enha ali seu campo de obse ação…); e pode ambém signi ica um
p og ama de laze (onde o eléc ico é des ino inal, e não somen e meio de anspo e).
A ançando aqui na p ojeção de pon es in e disciplina es - en e C esswell e Tsing, no caso -,
en endo que mobilidades são p ocessos iccionais. São zonas espaço- empo ais onde
signi icados globais di e sos se encon am (com sob eposições, negociações, in e câmbios,
conce ações, con li os…) e no os compos os cul u ais podem i à luz. Es uda luxos
sociocul u ais con empo âneos como os do u ismo, e in e p e a os signi icados di e sos
associados a eles, a gumen o, con ibuem pa a mo e a an opologia “(…) do es udo de
cul u as delimi adas e en aizadas (como as sociedades ixas e delimi adas da sociologia) pa a
o es udo de o as - a manei a como iden idades são p oduzidas e pe o madas a a és da
mobilidade, ou, mais p ecisamen e, de iagens” (C esswell 2006, 44)
36
.
Sendo es a in es igação ocada nos encon os en e mobilidades de signi icados
di e sos no co idiano de Lisboa, endo o eléc ico 28 em mo imen o como campo de
obse ação, ainda assim é p eciso escla ece quais aspec os e iden es des as mobilidades se ão
aqui desc i os e in e p e ados. Pa a an o, a ob a de Michel de Ce eau, cujo ende eço
disciplina de o igem em alguma localização inexa a en e a sociologia e a iloso ia, o e ece
ângulos de análise bem posicionados. Com ce ca de meio século de ida, sua cons ução eó ica
em se p o ando esilien e en e às in empé ies de conjun u as his ó icas subsequen es, sendo
bas an e e e enciada nas e lexões despe adas pela chamada i agem pe o ma i a
37
. A ob a
de Ce eau o e eceu ainda condições a ejadas pa a a p á ica da esc i a e nog á ica que se
desdob a á logo mais à en e nes e abalho, uma ez que me depa ei com um dilema sob e
como menciona o ou o em ex o. O isco e a de cai num equí oco já bas an e amilia à
an opologia. Em que, a pa i da obse ação de um agi ou aze (um compo amen o ou
36
T adução do au o . No o iginal, o echo na ín eg a em inglês: “To hink o an h opology as abou a el and
ansla ion changes he ocus o he discipline om he s udy o bounded and oo ed cul u es (like sociology’s
ixed and bounded socie ies) o he s udy o ou es— he way in which iden i ies a e p oduced and pe o med
h ough mobili y o , mo e p ecisely, a el.”
37
Há (uma ou) á ias i agens e c ises i enciadas pelas ciências humanas na passagem do século XX à pós-
mode nidade. Re lexi a, ep esen acional, senso ial, pe o ma i a... As alcunhas podem a ia con o me a escala
de análise, a disciplina que lhe dá oupagem, a língua em que se esc e e. Mas, em se a ando especi icamen e do
e mo “ i agem pe o ma i a”, desconheço exposição mais cla a e bem undamen ada do que a ealizada po
Bu ke (2005), com especial oco pa a a disciplina da His ó ia.
32
A o ina de obse ação nes e pe íodo a anca a da pa agem do eléc ico 28 no Ma im
Moniz. Na época, eu esidia em Ca ca elos, na Á ea Me opoli ana de Lisboa, e pa a aquela
pa agem me di igia u ilizando o sis ema de anspo e público (comboio e depois me o) ou,
em algumas ezes, au omó el pa icula , que deixa a es acionado em ias públicas de bai os
adjacen es (como A oios). Vencido o deslocamen o a campo e uma ez es ando no Ma im
Moniz, no diá io eu oma a no as do meu ho á io de chegada e do núme o de pessoas p esen es
na ila da pa agem. En ão, eu en a a no inal da ila e agua da a o eléc ico chega . A cada
isi a, p ocu ei cump i duas iagens po aje o cen o-bai o e bai o-cen o
45
.
Os luga es onde me acomodei o am a iados, en e assen os indi iduais e duplos
(es es, compa ilhados e a sós), à di ei a e esque da, à en e e ao undo do eículo. Escolhido
o luga , man endo um cade no, uma cane a e elemó el pessoal ao alcance, egis ei em no as
as alas, in e ações e usos de obje os, que i e ou i ao meu edo du an e as iagens. Tan o do
ambien e in e no u bulen o do eléc ico - que, em mo imen o pelas uas de Lisboa, emula
seu co po, az uídos e po ezes em o co edo cheio de passagei os -, quan o do obse ado
po suas janelas.
Em algumas iagens, pe maneci apenas a obse a , oma no as e egis a imagens.
Hou e ezes em que ou os u en es, isi elmen e u is as, me abo da am pa a pedi
in o mações. Em ou as ocasiões, p o-a i amen e p ocu ei inicia con e sas com alguns u en es
e, em poucos segundos, explica meu p opósi o. Foi assim que no espaço in e no do eléc ico
i e ês con e sas in o mais mais longas com u is as es angei os. Não o am g a adas: i ei
no as no diá io enquan o con e sá amos. Dada a possí el pe manência cu a de qualque
passagei o, os uídos do eléc ico, o uso de másca as e a ecomendação de dis anciamen o,
ambém ado ei nes es casos a á ica imp o isada de pedi um e-mail de con a o pa a “não oma
seu empo”, e en a en e is as po e-mail em ou o momen o. Algumas consen i am, ano ando
de p óp io punho seu con a o em meu cade no. De se e pessoas ( ês u is as, ês esiden es de
Lisboa, uma gua da- eio) que me concede am seus e-mails, apenas duas (um esiden e e a
gua da- eio) acaba am po me da en e is as emo as pos e io men e.
Ci ações de e cei os inco po adas nes e ex o, quando não êm como on e as con e sas
in o mais em que ui pa e, as en e is as a mim consen idas pa a ins des e p oje o, ou
con eúdos acessí eis a qualque pessoa na in e ne , o am exp essas “em público”, de o ma
audí el a ou os u en es do eléc ico. Se não o am di ecionadas a mim, pode iam se
45
Do Ma im Moniz a é os P aze es; dos P aze es a é o Ma im Moniz; e, depois, mais uma epe ição des es dois
echos. O pe cu so comple o da ca ei a 28E, com 34 pa agens, es á disponí el no sí io ins i ucional da Ca is,
em: h ps://www.ca is.p / iaje/ca ei as/28e-ma im-moniz-p aze es / [úl imo acesso em 31/10/2021].

33
pe cebidas po qualque pessoa ali p esen e, en e as quais me encon a a quando as egis ei.
Nes es casos, seus au o es só são desc i os em e mos pe o ma i os, e não de o ma a expo
suas iden idades. Man endo a mesma di e iz, de não expo iden idades pessoais ou con e sas
p i adas alheias, iz o os e ídeos pa a egis a isualmen e compo amen os e dinâmicas
isí eis a qualque u en e. E, po ezes, ambém, me pe cebi sendo egis ado em o os e ídeos
ei os po ou os passagei os do eléc ico; sob e udo, u is as.
A “p imei a aga” de minha pesquisa comp eendeu um pe íodo de qua o meses, en e
julho e no emb o de 2020, em que o am ealizadas 20 incu sões a campo. No o al, o am
3143 minu os in loco, pouco mais de 52 ho as, medidas con o me os ho á ios de início e
ence amen o das isi as ano ados em diá io.
Em meados de no emb o de 2020, po ém, suspendi o abalho de campo. Foi uma
decisão pessoal omada em i ude da si uação pandêmica em Po ugal, que naquele momen o
se ag a a a em núme os e medidas es i i as de ci culação
46
. Me i dian e de um dilema é ico
en e a con inua a in es igação seguindo os mesmos p ocedimen os em campo. Con o me
ela ei po e-mail na ocasião a minha o ien ado a, o eceio e a menos de con ai o í us
(embo a sim, ambém, em pa e), e mais po eme con ibui de alguma o ma pa a p opagá-
lo. Não es á amos ainda em lockdown comple o, como i ia a oco e nos p imei os meses de
2021, e não e a exa amen e ilegal sai à ua. Mas, endo em is a o meu caso, man e os mesmos
p ocedimen os me pa ecia i con a a “é ica do cuidado” com o ou o.
Sendo o dis anciamen o ísico demandado pelas au o idades como es o ço indi idual
pa a con ibui com o bem comum da saúde pública, busca ap oximação e in e ação com
ou as pessoas no espaço público pa a p oduzi um ela o e nog á ico não se ia mesquinho de
minha pa e? P ossegui com o mesmo plano (pa icula , meu) de in es igação em meio àquelas
equisi adas mudanças nas sociabilidades, não ans e i ia a base cien í ica de meu es udo pa a
um ambien e ansg esso , jus amen e, dos compo amen os ecomendados pelas au o idades
cien í icas? Minha obse ação es a ia sendo pa icipan e no negacionismo que an os p ejuízos
êm causando à ciência? Se aqueles que obse ei no eléc ico 28 a aze u ismo na conjun u a
de 2020 já pode iam se conside ados “ u is as esis en es a c ises” (Hajibaba e al 2015),
quando no inal do ano Po ugal en ou em um momen o c í ico da pandemia e a ci culação no
espaço público passou a se ecomendada somen e pa a quem não a pudesse e i a , as
(supos as) pessoas que obse asse a aze u ismo se iam esis en es ou negacionis as da c ise?
46
A p óp ia Uni e sidade No a de Lisboa, onde es e p og ama de mes ado é cu sado, e e seus campuses
echados à isi a, e se iços de a endimen o (como já inha oco endo com os le i os), o e ecidos somen e de
o ma emo a pela in e ne .
34
E ha ia ainda um ques ionamen o epis emológico: a manu enção da mesma o ina de
obse ações de campo p oduzi ia um es udo sob e a con i ialidade en e as mobilidades
di e sas que no eléc ico se encon am... ou sob e a possí el impossibilidade de “ ica em casa”
de quem eu obse asse?
Foi sem e sanado es as dú idas que deixei de aze incu sões à ca ei a, e passei a
segui meu obje o de es udo po ou os aje os.
3.3 “Segunda aga”
A pa i do momen o em que deixei de i a campo (e, de modo ge al, po meses não sai
de casa), as ecnologias digi ais passa am a se o e eno cen al po onde es a pesquisa
caminhou. P incipalmen e, no sen ido de es abelece con a o com possí eis in e locu o es.
Ainda em no emb o de 2020, me candida ei no canal de ec u amen o do sí io da Ca is
a abalha como gua da- eio na emp esa. Não oi com a expec a i a de se con ocado pa a
num p ocesso sele i o e, quem sabe, muda de ca ei a, mas de en a ob e um pon o de con a o
qualque com o pe cu so de quem lá abalha. Nunca ecebi e o no.
Foi ao longo des e pe íodo, comp eendido en e no emb o de 2020 e junho de 2021,
que as en e is as no âmbi o des a pesquisa o am ealizadas. Todas elas o am concedidas
gen ilmen e pelos en e is ados, e de alguma o ma enham con ibuído pa a que eu ap endesse
mais sob e meu obje o de es udo. Nem odas, con udo, êm aspas ci adas nes e ex o inal. O
que não exclui a necessidade de e e i-las nes e capí ulo, além da possibilidade de i em a se
inco po adas em possí eis desdob amen os des a e nog a ia.
No o al, o am ei as se e en e is as não-di ec i as, em momen os dis in os des e
in e alo, com a o es sociais di e sos no que diz espei o a suas elações com o eléc ico. Em
no emb o de 2020, a a és de mensagens de áudio ocadas em uma aplicação de elemó el,
en e is ei um dos passagei os que ha ia abo dado no p óp io eléc ico du an e minha
“p imei a onda”. Com a gua da- eio que ambém ha ia acei ado se en e is ada após eu
abo dá-la em campo, a en e is a oco eu a a és de ocas de e-mails di e sos, sendo concluída
somen e em maio de 2021. Em dezemb o de 2020, pelo o mulá io de con a o no sí io
ins i ucional da Ca is, pedi uma en e is a com um po a- oz da emp esa, que acabou po
oco e , ia elecon e ência, em janei o de 2021. Seguindo es e mesmo passo a passo, em
e e ei o, en e is ei uma po a- oz do Tu ismo de Lisboa, e, em ab il, o c iado do canal de
con eúdo sob e iagens Wol e s Wo ld.
35
Pouco an es de minha pesquisa passa da “p imei a onda” pa a a “segunda”, eu ha ia
en iado uma solici ação pa a en a em um g upo do Facebook compos o po en usias as dos
eléc icos lisboe as
47
. Após se acei o, man i e uma o ina de isualiza odo con eúdo no o
que ali osse publicado. Nenhuma publicação des as oi aqui examinada, mas a a és delas
iden i iquei po enciais in e locu o es, com quem en ei em con a o po mensagens di e as
ese adas. Dois de seus memb os, pa a quem expliquei o eo de minha pesquisa, acei a am
se en e is ados. Ambas en e is as oco e am em maio. Com João me encon ei
p esencialmen e, e con e samos po ce ca de duas ho as na egião da G aça, numa pas ela ia
em en e à ca ei a do 28. Com Paulo a con e sa acon eceu po ele one, du an e ce ca de 30
minu os, em meio a uma pausa no expedien e do es au an e do qual é dono, localizado na
Baixa.
Pesquisando pela in e ne , cheguei ao blog Diá io do T ipulan e
48
, dedicado a c ônicas,
causos e dicas sob e o co idiano dos eléc icos e au oca os em Lisboa. Ra ael, seu c iado e
esponsá el, abalha como gua da- eio da Ca is. En ei em con a o com po e-mail e, em
maio, ambém po e-mail, ele espondeu a uma sé ie de pe gun as que lhe en iei. Em si, as
publicações do blog não o am aqui analisadas, mas ize am pa e das lei u as ealizadas.
Po im, pa alelamen e es as inicia i as “ emo as”, em janei o de 2021, ambém iz uma
isi a ao Museu da Ca is, localizado em Lisboa. Naquele momen o, es a a em igo o Es ado
de Eme gência em Po ugal, com exceções pon uais a alguns p og amas sociais (como es e).
Fui o único isi an e do museu o empo odo que lá passei. Foi ambém em meio à “segunda
onda”, e pa alelamen e, que dei início ao a amen o das in o mações ge adas em minhas
obse ações de campo, e início da esc i a e nog á ica.
3.4 Ques ões esc i as
Em meus cade nos, as no as de campo segui am o dem c onológica. Em odas, p ocu ei
inco po a a localização do sucedido, nomeadamen e em elação às pa agens da ca ei a 28.
Manusc i os o am pos e io men e digi alizados e, jun o com os egis os audio isuais,
compilados con o me o núme o sequencial da isi a e a da a em que oco eu.
47
In i ulado “Lisboa e os seus eléc icos”, o g upo exis e desde 2018 e hoje con a mais de ês mil memb os. Sua
o ina p incipal é compos a pelo compa ilhamen o de imagens, a uais ou his ó icas, dos eléc icos lisboe as. O
g upo pode se acedido po qualque pessoa, a a és do:
h ps://www. acebook.com/g oups/188991515168528 [úl imo acesso em 31/10/2021].
48
O blog pode se acedido em: h p://www.dia iodo ipulan e.p / [úl imo acesso em 31/10/2021].
36
As ano ações do diá io o am en ão eag upadas con o me sua localização na ca ei a
e o sen ido do mo imen o em que o eléc ico se encon a a, da seguin e o ma: 1-) No as da
pa agem Ma im Moniz; 2-) No as do aje o de ida; 3-) No as da pa agem P aze es; 4-) No as
do aje o de ol a. Os capí ulos e nog á icos que começam a segui de ce a o ma espelham
es as linhas di isó ias açadas de pa ida. Os dois g upos de no as co esponden es aos aje os
de ida e ol a o am ambém subdi ididos, de aco do com as pa agens espec i as em que cada
obse ação oco eu. Após es a eo ganização, pa a cada pa agem da ca ei a, ha ia um
conjun o de egis os elencado.
Foi a análise des e ma e ial, egis ado e a ado po mim, que se iu de base pa a a
desc ição e nog á ica ap esen ada nos p óximos capí ulos, que en eco ei com depoimen os
cole ados nas en e is as (e depois ansc i os), e, po im, cos u ei com con eúdos p oduzidos
po ou em, cole ados em sí ios ins i ucionais o iciais, ma é ias na imp ensa e publicações
abe as em edes sociais. Ao esc e e , p ocu ei de algum modo inco po a na o ma o obje o
eó ico das mobilidades. O in en o des e e nóg a o oi aze a e nog a ia se desloca pela
ca ei a 28, assim como se mo imen a o eléc ico, con o me es emunhei enquan o ali es i e
no papel de passagei o-obse ado .
Como sín ese des e p ocesso, a esc i a e nog á ica que p oponho em um pendo
con essional (Madden 2010, 163), em p imei a pessoa, e não p e ende ocul a meus ieses
subje i os. Mui o pelo con á io. Ac edi o, sim, é que inco po ando as obliquidades de quem
ela a no ela o da expe iência de pesquisa, ainda que po ezes co a o isco de soa i ônico,
ap esen o uma desc ição de uma paisagem cul u al com a qual po enciais lei o es, não somen e
académicos, possam se iden i ica . É ambém com o p opósi o de legibilidade pa a além dos
domínios acadêmicos que em algumas passagens a linguagem ex ual encon ada em blogs de
iagens oi emp egada como a i ício. Exemplos dis o são os usos do e mo “des ino” pa a
e e i um luga , “a ação impe dí el” pa a ca ac e iza um pon o u ís ico, ou “like a local”
pa a suge i a possibilidade de uma expe iência emic.
3.5 Ques ões isuais
Ac edi o que expo inicia i as que não se mos a am u í e as no cu so des a pesquisa
é ambém uma o ma de anspa ece posicionalidades. E, na melho das hipó eses, de alguma
o ma con ibui pa a que an opólogas e an opólogas inician es como eu, que po en u a
37
leiam is o no u u o, possam imp o isa melho es soluções con o me as e eme idades que
encon em.
Uma ez que, den o do p og ama de Mes ado em An opologia, meu pe cu so seguiu
uma á ea de especialização em Cul u as Visuais, desde o desenho des e p oje o ha ia uma
p eocupação em egis a e ap esen a isualmen e seu p ocesso. Du an e o pe íodo le i o des e
p og ama de Mes ado, po exemplo, no p imei o semes e de 2020 cheguei a ealiza um
ensaio audio isual explo a ó io de minha emá ica
49
.
Já em meu p oje o inal de pesquisa, o plano e a e , pa a além do diá io e nog á ico
ísico, uma e são isual dele publicada na in e ne . Pa a an o, se iado c iado um pe il no
Ins ag am especi icamen e pa a publica as obse ações de campo (em o os e ídeos), esc e e
e lexões, e compa ilha publicações de ou os a o es que ossem ele an es aos obje i os
des e p oje o. Po meio des e canal, eu ambém inha a expec a i a de possi elmen e in e agi
com ou os in e locu o es que o e ecessem pe spec i as dis in as pa a minha in es igação.
O pe il no Ins ag am oi c iado e, du an e o pe íodo aqui a ado como “p imei a aga”,
pa a cada isi a de campo, oi ei a no mínimo uma publicação nele
50
. Cos uma a azê-las no
p óp io dia da isi a, enquan o es a a em meu aje o de e o no do campo pa a casa. As o os
e legendas de cada publicação e am baseadas nos egis os ei os no p óp io dia, pelo elemó el
e cade no de no as. E, po es e exa o mo i o, quando suspendi o abalho de campo e dei início
à “segunda aga” de minha in es igação, pa a mim o abas ecimen o des e diá io isual online
pe deu seu p opósi o. Se po mim aquele diá io isual e a en endido como meio de ap o unda
minha obse ação in loco, e a pau a das publicações e am minhas isi as de campo que
deixa am de acon ece , en ão a p emissa muda a. To na -se ia um ”diá io de ou os empos
além do p esen e”, com memó ias e p ojeções de cená ios u u os? To na -se ia um “diá io do
con inamen o pandêmico”? Es as ideias iniciais de e o ma que i e pa eciam des ia -se de
minha p opos a de pesquisa, e não e a do meu in e esse ees u u a aquele amo de meu p oje o
como um p oje o em si, com oncos pa alelos. Foi quando passei a ê-lo como um caminho
obs uído, que deixei de oma du an e minha es adia nes a pesquisa. No começo de 2021, o
diá io isual de minha pesquisa no Ins ag am oi in e ompido.
49
In i ulado “Cu o-ci cui o”, es e ensaio isual pode se acedido e assis ido na in e ne , com a essal a de se
um ma e ial des inado única e exclusi amen e ao âmbi o acadêmico. Não é au o izada sua ep odução pa a ins
come ciais. Disponí el em: h ps://www.you ube.com/wa ch? =K3sHo0D7z1E [úl imo acesso em 31/10/2021].
50
No Ins ag am, é o @dia io isualelec ico, que pode se acedido em:
h ps://www.ins ag am.com/dia io isualelec ico/ [úl imo acesso em 31/10/2021].

38
Ainda assim, en endo que es a e en e isual da pesquisa, ao não se o na po o a
p odu o, é um e és momen âneo. Tenho um ace o de imagens em o o e ídeos egis adas
em campo e a qui adas con o me o a amen o de dados p opos o pa a es a e nog a ia.
Algumas inco po ei a es e ex o, assim como con eúdos isuais p oduzidos po e cei os (como,
po exemplo, mapas do Google Maps), mas pa a ins ilus a i os. En endo que, concluído a
e apa da disse ação, oxalá, seja possí el me deb uça sob e es e ma e ial e cons ui
desdob amen os des a pesquisa pa a ou as linguagens e meios. De p e e ência, algo que seja
disponibilizado ia in e ne pa a ins de di ulgação cien í ica.
39
4. UMA ETNOGRAFIA DO COTIDIANO NO ELÉCTRICO 28
EM TEMPOS PANDÊMICOS
4.1 A chegada à pa agem no Ma im Moniz
O nome do luga onde se encon a a pa agem inicial do eléc ico 28 é P aça Ma im
Moniz. No en an o, nunca ou i um mo ado ou mo ado a de Lisboa se e e i e balmen e ao
local sem se de ou a o ma que não “o” Ma im Moniz.
Séculos de his ó ia empilhados azem com que a cidade ap esen e legados de empos
di e sos coabi ando sua paisagem u bana con empo ânea. Ruínas omanas (como as gale ias
da Rua da P a a) e uelas medie ais (como nos bai os da Mou a ia, Al ama e Cas elo) são
izinhas de monumen os ba ocos (como o Aquedu o das Águas Li es) e edi icações
iluminis as (como o p oje o odo da Baixa Pombalina), além de bai os mode nis as (como
Al alade e A co do Cego) e sis emas de anspo e do pe íodo indus ial (como a ede de
ca ei as do eléc ico). A is o somam-se as inicia i as de emodelação u banís ica e
essigni icações uncionais pós-mode nas, com oda so e de decalques, enxe os e colagens.
Enquan o des ino u ís ico u bano, Lisboa é um show oom de es ilos es é icos e escolas de
ideias que ci cula am po es a egião da Eu opa ao longo do empo. Tudo is o sob condições
me eo ológicas medi e ânicas, p eços acessí eis, dis âncias caminhá eis e uma gas onomia
amis osa a palada es di e sos
51
.
O Ma im Moniz ica no cen o his ó ico da cidade, numa zona de ale en e a Colina
do Cas elo e a Colina de San ana. Sua ace sul ma geia a Baixa Pombalina e apon a pa a o
Tejo. De sua ace no e sai a Rua da Palma, que se conec a à a enida Almi an e Reis no aje o
pelo qual o eléc ico 28 pa e da p aça e e o na a ela. Es ima-se que a ocupação humana do
51
Segundo le an amen o ealizado pelo Obse a ó io Tu ismo de Lisboa, em 2019, os ês obje i os mais ci ados
po es angei os pa a sua isi a à capi al po uguesa o am, nomeadamen e, "Sabo ea a gas onomia e inhos"
(93,3% dos inqui idos); "Visi a monumen os e museus" (92,4% dos inqui idos) e "Conhece a cul u a
po uguesa" (86,8% dos inqui idos)". O sex o obje i o mais ci ado oi "Ap ecia a a mos e a ou paisagem"
(55,6% dos inqui idos). Em: Obse a ó io Tu ismo de Lisboa, Inqué i o Mo i acional 2019, p.5.
40
que hoje é o Ma im Moniz emon a a 8 mil anos a ás
52
. Começou an es mesmo do su gimen o
de Lisboa, mas oi a pa i da Idade Média que ali se a ixou.
Con udo, a não se pela pa agem do eléc ico 28 localizada ali, o Ma im Moniz não
cos uma se anunciado como a ação u ís ica “impe dí el” nas epo agens jo nalís icas,
anúncios publici á ios e publicações em edes sociais que suge em dicas do que aze quando
isi a a cidade. Num dia qualque en e as p imei as décadas do século XXI, ao encon a um
u is a no Ma im Moniz, é possí el que ali es eja de passagem en e uma ou a a ação u ís ica
que icam na ó bi a do cen o his ó ico (o Cas elo, o Mi adou o da G aça, o Rossio…). Ou, que
es eja ali pa a oma o eléc ico 28.
Na pla a o ma de dicas de iagem Spo ed by Locals, cuja p opos a é que os p óp ios
mo ado es de uma cidade ecomendem a ações pa a quem deseja isi á-la, o Ma im Moniz é
ap esen ado como uma "Mul icul u al Lisbon"
53
. A di e sidade de o igens nacionais e é nicas
dos equen ado es que ali se c uzam, inclusi e, já mo i ou es udos an opológicos (Menezes
2009; Map il 2010). A es as mobilidades se somam os luxos u ís icos, que êm na pa agem
inicial do eléc ico 28 um pon o de e e ência. Minhas isi as de campo a anca am odas dali,
pa a onde eu me di igia na maio pa e das ezes de comboio e me o
54
, descendo na sua es ação
homônima. Alguns deslocamen os a é o campo, po ém, ealizei po meio de au omó el
pa icula , que es aciona a nas uas da eguesia de A oios p óximas ao Me cado Fo no do
Tijolo. Nes es casos, dali a é a pa agem do eléc ico, caminha a a pé pela Rua do Ben o moso.
A Rua do Ben o moso pode se conside ada um eco e lisboe a de supe di e sidade
(Ve o ec 2007; Wessendo 2013). Há ali me cados chineses, alhos Halal, es au an es
indianos e bengalis. Co idianamen e, obse am-se mulhe es a es i éu e sen e-se a oma de
ca il po ali. Embo a seja abe a ao ânsi o de, sob e seu alca ão é mais equen e c uza com
peões, mo as e ca inhas de en ega. Caminhando ia abaixo, ela e mina ao se co ada pela
Rua Fe nandes da Fonseca. Nes e c uzamen o de múl iplas esquinas, cheguei a p esencia o
consumo de d ogas e a o e a de se iços de p os i uição à luz do dia
55
, numa apa en e
52
As in o mações his ó icas do Ma im Moniz con idas nes e capí ulo se baseiam no con eúdo da exposição i ual
“P aça Ma im Moniz - Da memó ia ao u u o”, disponí el em h ps://lisboapa icipa.p /ma immoniz/exposicao
(úl imo acesso em 27/10/2021). Es e mesmo con eúdo es e e expos o isicamen e ao público no p óp io Ma im
Moniz, en e dezemb o de 2020 e janei o de 2021.
53
Ve Spo ed by Locals, "Ma im Moniz", em: h ps://www.spo edbylocals.com/lisbon/ma im-moniz/ (úl imo
acesso em 27/10/2021).
54
Na ocasião das isi as de campo de 1 a 20 eu esidia em Ca ca elos, na Á ea Me opoli ana de Lisboa. O
pe cu so, po an o, en ol ia emba ca no comboio à es ação Ca ca elos e desce na es ação Cais do Sod é, onde
azia a conexão pa a a linha e de do me ô a é a es ação Ma im Moniz.
55
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 3 (20/8/2020).
41
ep odução ac ual de p á icas que ize am aquela zona se comumen e associada a um
es e eó ipo de ma ginalidade
56
.
Nos acessos a campo ealizados po me o, ao chega na es ação Ma im Moniz ambém
obse a a pessoas de e nias di e sas. A es ação, po sinal, dá acesso di e o aos anda es
sub e âneos do Cen o Come cial Mou a ia
57
, cuja en ada p incipal é de en e pa a a p aça.
Ainda no subsolo dela, é ambém p o á el c uza com pessoas a aze u ismo. De mochilão
ou mala de odinhas, po ando ou não câme as semip o issionais, em g upos de amigos,
amília, em casal ou sozinhos, p ocu ando alida po con a p óp ia o bilhe e nas máquinas ou
pedindo in o mações pa a quem passa
58
.
A es ação con a com duas saídas que dão acesso po escadas à supe ície do Ma im
Moniz. Uma ez o a dela, es ando ainda na calçada da p aça, é p eciso a a essa a ua e
pe co e uma cu a dis ância de 170 me os a é chega à pa agem do eléc ico
59
. Há uma
passadei a pa a peões quase em en e ao Cen o Come cial Mou a ia. Após c uzá-la, pode se
p eciso des ia de algum caixo e ou ca inho de mão. Nos dias (da semana) e ho á ios
(come ciais) em que lá es i e, nes e echo oi comum a is a caminhões, con en o es e
abalhado es b açais a desca ega me cado ias pa a abas ece o cen o come cial. A escala
des e edi ício pa ece desp opo cional ao olha . Tan o em con as e com a mo ologia das
cons uções do bai o da Mou a ia às suas cos as, quan o em elação à g ande á ea abe a do
Ma im Moniz à sua en e. Como assinala Ma luci Menezes, a edi icação da p aça é esul ado
de um conjun o con o e so de polí icas sociais e in e enções u banís icas ao longo do século
XX (Menezes 2009), e no os capí ulos des a mesma his ó ia seguem sendo esc i os
60
.
56
Ve , po exemplo, a igo de Be na do Mendonça no jo nal Exp esso, "Ma im Moniz, um bai o que é uma
g ande iagem", de 14/11/2015, em h ps://exp esso.p /sociedade/2015-11-14-Ma im-Moniz-um-bai o-que-e-
uma-g ande- iagem-. [úl imo acesso em 27/10/2021].
57
José Map il (2010) desc e e em de alhes quais e como são os negócios desen ol idos po imig an es de o igens
di e sas (no caso, com oco maio nas pessoas o iundas do Bangladesh) que come cializam me cado ias de pa es
á ias do mundo no Ma im Moniz e suas zonas en ol en es, incluído aí o Cen o Come cial Mou a ia.
58
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 9 (9/10/2020).
59
Con o me aje o calculado u ilizando o Google Maps, com imagens de 2021. Disponí el em:
h ps://goo.gl/maps/yc4u4i RMD6BHpVF8 [úl imo acesso em 28/10/2021].
60
Em 2018, oi no iciado na imp ensa po uguesa que a Câma a Municipal de Lisboa es a a po coloca em cu so
um no o p oje o pa a emodelação da p aça. Nomeado “Ma im Moniz Ma ke ”, basea a-se na ins alação de
con en o es e concessão deles à inicia i a p i ada pa a explo ação come cial. Dadas as eações con á ias
mani es adas po ozes di e sas da sociedade ci il (mo ado es, come cian es, jo nalis as, in elec uais,
associações, pa idos polí icos, jun a de eguesia…), em 2019 o p oje o oi suspenso. E, em 2020, deu-se início
a um no o p ocesso, no adamen e com maio consul a popula , que ainda segue em cu so. Uma c onologia des es
e en os, segundo no iciado pela imp ensa, encon a-se eunida no sí io desen ol ido po um dos g upos engajados
nes e p ocesso, o mo imen o Ja dim Ma im Moniz. Disponí el em: h ps://www.ja dima imoniz.p /c onologia/
[úl imo acesso em 27/10/2021].
48
u is as no banco asei o
79
. Em pon os que coincidem com a ca ei a do eléc ico 28, como a
Baixa Pombalina, o Chiado e o La go Po as do Sol, ha ia semp e uk- uks es acionados com
os mo o is as a agua da os p óximos (e ce os) clien es. Com a pandemia da Co id-19 em
2020 e as medidas de es ição à ci culação que ep esa am luxos u ís icos, uk- uks em
mo imen o deixa am de aze pa e da paisagem co idiana lisboe a, impac ando sensi elmen e
seus agen es
80
.
Ten a i as de u a a ila o am obse adas epe idas ezes. Em uma só isi a
es emunhei ês, odas p o agonizadas po u is as. É de uma lógica elemen a que não ha e ia
como u a ila se não hou esse ilas. Naquela pa agem, co idianamen e, uma g ande
quan idade de pessoas se eúne pa a agua da pelo eléc ico. G ande pa e es á ali em busca de
um p og ama de laze cuja du ação pode esul a mais longa do que o p e is o de ido ao empo
de espe a. A p esença nume osa de u is as na ila, que azem do eléc ico 28 um ou is ap
pa a alguns
81
, es a ia en e os a o es que o nam a aen e a ou os u is as u a em a ila?
Ha e ia alguma aga conexão en e a p á ica discu si a de iajan es que desaconselham
p og amas u ís icos a ou os po enciais iajan es, com a p á ica co po almen e ansg esso a
de u is as que u am uma ila cheia de ou os u is as em um pon o u ís ico?
A o imização do empo em cada a i idade planejada pa a um dia, pa a uma diá ia, pode
se mo i o de p eocupação na p á ica u ís ica. Sob e udo, nas es adias de cu a du ação, que
são o que oco e, po exemplo, em iagens ealizadas du an e inais de semana ou e iados - os
chamados ci y b eaks
82
. Segundo o Inqué i o Mo i acional 2019 do Obse a ó io Tu ismo de
Lisboa, 89,28% dos es angei os inqui idos naquele ano se conside a am a ealiza um "ci y &
sho b eak" na cidade
83
. Na ca ego ização des e modo especí ico de aze u ismo, Lisboa
inha sendo elei a “melho des ino do mundo” há qua o anos consecu i os
84
. É ambém es e
79
Sob e es e p ocesso, e ma é ia do canal Al Jazee a, "Po ugal eases ou o economic c isis”, de 17/5/2014.
Disponí el em: h ps://you u.be/wBHM qcPxxA [úl imo acesso em 28/10/2021].
80
Es e p ocesso de queb a do mo imen o em 2020 e a expec a i a pelo seu ees abelecimen o o am ilus ados
em ma é ia do jo nal Diá io de No ícias (2021a), “Tuk- uks e u ismo em Lisboa e omam a passo de a a uga”,
de 27/5/2021. Disponí el em: h ps://www.dn.p /dinhei o/ uk- uks-e- u ismo-em-lisboa- e omam-a-passo-de-
a a uga-13773263.h ml [úl imo acesso em 10/12/2021].
81
Con o me ap esen ado pelo canal Raising Voyage s em seu ídeo sob e Lisboa publicado no YouTube, como
imos há pouco nes e ex o.
82
Ve “Ci y b eak” no MacmillanDic iona y.com. Disponí el em:
h ps://www.macmillandic iona y.com/dic iona y/b i ish/ci y-b eak [úl imo acesso em 29/10/2021].
83
Os en e is ados o am u is as (es angei os, no caso des e índice, num o al de 7.656 pessoas) hospedados em
unidades ho elei as da egião de Lisboa ao longo de 2019. Ve Obse a ó io Tu ismo de Lisboa, Inqué i o
Mo i acional 2019, p. 4.
84
De aco do com a p emiação da o ganização Wo ld T a el Awa ds. Lisboa oi elei a melho des ino do mundo
pa a ci y b eaks em 2017, 2018, 2019 e, inclusi e, 2020.Ve Wo ld T a el Awa ds, “Wo ld's Leading Ci y B eak
Des ina ion 2020”, em h ps://www.wo ld a elawa ds.com/awa d-wo lds-leading-ci y-b eak-des ina ion-2020

49
o caso pa a quem desemba ca de c uzei os pa a passa algumas ho as na cidade.
A é 2020, na ios de passagei os inham azendo cada ez mais escalas em Lisboa
85
. Em
en e is a ealizada po ideocon e ência
86
, o Di e o de Ope ações da Ca is pa a os modos
Au oca o e Eléc ico ela ou ha e conexões en e o u ismo de c uzei o e as longas ilas pa a
o eléc ico 28 que se iam no Ma im Moniz a é a pandemia:
“O que c ia a picos de p ocu a e a a ques ão dos ba cos de
c uzei o. Os ba cos de c uzei o no malmen e chega am a Lisboa, na
maio pa e das ezes chega am no inal do dia ou en ão de manhã
bas an e cedo. As pessoas saem e êm um dia, ou pa e de um dia pa a
pode isi a a cidade. E aí o que é que acon ecia? A é po indicação
dos p óp ios ope ado es u ís icos, mui a gen e ao sai dos na ios de
c uzei o di igia-se ao Ma im Moniz, que é o início da ca ei a, e aí
ha ia um g ande pico de p ocu a em de e minadas ho as, e coincidia
mais ou menos com as ho as dos c uzei os.”
87
Como pa e das medidas de con enção à pandemia, em maio de 2020 o desemba que
de na ios de c uzei o oi suspenso em po os po ugueses. Es a in e dição legal oi eno ada
consecu i amen e a cada é mino de seu p azo de alidade, endo en ado no ano de 2021 ainda
em igo
88
. Logo, se a é 2019 u is as luíam do e minal de c uzei os de Lisboa pa a a pa agem
no Ma im Moniz, não e am es es os que se encon a am p esen es em minhas isi as. Como
e idenciado pelos ídeos do YouTube e pelas pala as do uncioná io da Ca is ci ados nes e
capí ulo, embo a enxe gasse uma ila conside á el a agua da pelo eléc ico 28, se não osse
[úl ima consul a em 28/10/2021]. Ressal e-se que cada p emiação des a ecebeu cobe u a na imp ensa po uguesa,
o que con ibui pa a e o ça es e econhecimen o público.
85
Desde que Lisboa inaugu ou um no o e minal de c uzei os, em 2017, o aumen o no luxo des a modalidade de
u ismo eio sendo epo ado na imp ensa po uguesa. Ve amos as em: jo nal Diá io de No ícias (2016b), “Mais
na ios e mais u is as: c uzei os em Lisboa sobem 60%”. Disponí el em h ps://www.dn.p /dinhei o/mais-na ios-
e-mais- u is as-c uzei os-em-lisboa-sobem-60-5371259.h ml; jo nal Público (2018b), “Passagei os de c uzei os
aumen a am 15% ...”, disponí el em h ps://www.publico.p /2018/07/09/local/no icia/passagei os-de-c uzei os-
aumen a am-15-no-p imei o-semes e-1837351; e canal TVI24 (2018), “Mais de 100 mil passagei os de c uzei o
em Lisboa”, disponí el em h ps:// i24.iol.p /economia/c uzei os/mais-de-100-mil-passagei os-de-c uzei o-em-
lisboa [úl imos acessos em 28/10/2021].
86
Realizada já no ano de 2021, em 21 de janei o, após solici ação minha pelo canal de con a o disponí el no sí io
ins i ucional da Ca is. Além do en e is ado ci ado, ambém pa icipou des e encon o o Di e o Come cial e
Ma ke ing, ambos na qualidade de po a- ozes da emp esa.
87
En e is a com po a- ozes da Ca is, ealizada 21/1/2021, aos 13’23 de g a ação.
88
Ve jo nal Público (2021a), “Co id-19: in e dição de c uzei os p olongada a é 16 de Ma ço”. Disponí el em
h ps://www.publico.p /2021/03/01/ ugas/no icia/co id19-in e dicao-c uzei os-p olongada-a e-16-ma co-
1952617 [úl imo acesso em 29/10/2021]
50
pelo con ex o incomum de 2020, dece o eu e ia encon ado ilas maio es. Po o a, posso
apenas especula se e ia obse ado ambém uma equência maio nas en a i as de u á-las.
Mas nem só de compo amen os que a asam o andamen o da ila ou en am sub e e
sua o dem é ei a a pa agem do 28 no Ma im Moniz. Fo am obse adas ambém in e ações
amis osas, mesmo en e u is as e u en es que ali es a am pa a u iliza o anspo e público da
cidade. Ce a ez, obse ei duas u is as g egas a i a in o mações, em inglês, com uma mulhe
po uguesa
89
. As ês de iam es a em aixa e á ia semelhan e, que es ima ia en e os 50 e 60
anos. A po uguesa pe cep i elmen e inha conhecimen os limi ados do idioma es angei o,
mas se mos ou bas an e solíci a: con i mou in o mações com o gua da- eio do eléc ico
quando es e chegou e, mesmo depois, já du an e a iagem, ela ol ou a escla ece no as dú idas
das u is as. Eu ou a ocasião ui eu quem p es ei escla ecimen os a um es angei o, quando um
senho se ap oximou de mim e pe gun ou: “Disculpe, el ein iocho es aquí?”
90
. Respondi que
sim. Ele i ou-se pa a sua companhei a de iagem e epassou a in o mação que lhe dei, em
espanhol. Es e ipo de in e ação amis osa, en e u is as e ou os u en es do eléc ico, com os
p imei os a pedi in o mações e os in e locu o es a a ende -lhes de o ma p es a i a, eu e ia
oco e ambém no in e io do eículo, em meio à ca ei a.
O passa do empo du an e as obse ações oi acompanhado po mudanças na paisagem
daquele espaço. Hou e uma edução g adual e isí el de pessoas a agua da o eléc ico 28 na
sua pa agem inicial. Em meados de ou ub o, eu já no a a e ano a a is o no diá io
91
. Naquele
momen o, o mo imen o u ís ico no Ma im Moniz pa ecia mais uma p esença ex ao diná ia
no co idiano do que uma o ma de dwelling (Pons 2003) obse á el em Lisboa. Fosse em
qualque ou o dos anos ecen es, pode íamos in e i simples associações en e es a
modi icação no elenco de a o es sociais p esen es no cená io e a ap oximação do in e no, ulgo
baixa empo ada. Sem que se exclua es e a o , ac o é que, a pa i de no emb o de 2020
92
, em
89
Não alo g ego. Descob i a nacionalidade des as duas mulhe es quando, na mesma isi a e já na pa agem dos
P aze es, elas me pedi am in o mações em inglês. Con e samos apidamen e e expliquei a elas sob e meu p oje o,
pedindo os dados de con a o das duas pa a uma en e is a pos e io . Embo a enham me passado seus e-mails,
nunca esponde am a minhas mensagens. Já a nacionalidade da po uguesa deduzi ao ou i-la cump imen a o
gua da- eio do eléc ico pouco depois. Con o me egis os em diá io de campo (Visi a 8, 7/10/2020, às 9h31).
90
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 11 (16/10/2020, às 10h24).
91
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 10 (14/10/2020).
92
Em 7 de no emb o de 2020, as au o idades nacionais dec e a am o início de um no o es ado de eme gência em
Po ugal. Com du ação inicial de 15 dias, a medida oi eno ada seguidas ezes a cada é mino de seu p azo. Ve :
Comunicado do Conselho de Minis os ex ao diná io de 7 de no emb o de 2020,
h ps://www.po ugal.go .p /p /gc22/go e no/comunicado-de-conselho-de-minis os?i=380 [úl imo acesso em
29/10/2021].
51
i ude do c escimen o da chamada “segunda aga da pandemia”
93
, hou e um no o
endu ecimen o das es ições legais à ci culação de pessoas no e i ó io po uguês. “No o”
po que, an es que es e abalho de campo i esse começado, medidas semelhan es já ha iam
sido implemen adas. Em ma ço, quando do p imei o su o da Co id-19 em Po ugal, as
au o idades nacionais dec e a am o es ado de eme gência. A pa i de maio, po ém, oi pos o
em p á ica um plano de descon inamen o, passando o país do es ado de eme gência pa a o de
calamidade. “Com os meses de e ão, as p aias e os ja dins ol a am a se equen ados, mas
ba es e disco ecas man i e am-se echados. Mui os dos p incipais e en os cul u ais, como os
es i ais de música, cuja escala depende da deslocação de públicos in e nacionais, não i e am
luga ”, apon am Sampaio, Vidal e Lou enço (2021). Foi nes a limina idade do e ão, en e
julho e agos o de 2020, que minhas isi as ao campo a anca am, e pude obse a a ila longa
pa a mim e cu a pa a o se ido da Ca is.
An es que a segunda aga izesse subme gi a a i idade u ís ica em Lisboa, meu
caminho e o de um u is a esidual se c uza am na pa agem do Ma im Moniz
94
. E a uma sex a-
ei a à a de, pe o do inal de ou ub o, quando já azia ce ca de ês meses desde minha p imei a
incu são ao campo. O e ão ica a pa a ás. Além de mim, somen e seis pessoas a agua da o
eléc ico, sendo ês u is as. Um deles, pelos aços eno ípicos, supus e nacionalidade de
algum país do sul da Ásia (Índia ou Bangladesh, al ez…). É ele quem me abo da e pe gun a:
- The wen y-eigh ?
- Yes, espondo.
Ele ag adece e ica po ali, agua dando ambém, mas pouco depois ol a a me abo da .
Com um mapa ísico nas mãos, pede pa a que eu apon e onde es amos. O mapa é es ilizado e
o a de escala, mais esquemá ico do que p eciso. Imagino que enha sido pego no ae opo o,
ou no luga onde es á hospedado. Mos o-lhe o Ma im Moniz e ele pe gun a se o eléc ico
passa na P aça do Comé cio. Digo que sim, apon o pa a a Rua da Conceição no mapa, e digo
que posso a isá-lo quando es i e mos ali po pe o. Ele ag adece. O eléc ico chega. Eu
emba co na en e e alido meu ca ão de anspo e na máquina au omá ica. Ele le a um pouco
mais de empo enquan o con a moedas pa a paga .
Sen amo-nos um após o ou o nos assen os indi iduais à di ei a do 28. An es que o
eículo inicie seu uidoso mo imen o, ap o ei o pa a me ap esen a e con a ao apaz sob e
93
Ve canal RTP No ícias (2021), “As ês agas da Pandemia em Po ugal”, em:
h ps://www. p.p /no icias/pais/as- es- agas-da-pandemia-em-po ugal_ 1301383 [úl imo acesso em
29/10/2021].
94
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 12 (23/10/2020).
52
minha pesquisa. Pe gun o se ele opa ia con e sa mais sob e a expe iência, em um momen o
pos e io , po e-mail. Ele acei a. Me diz comp eende o que es ou azendo ali, num sen ido que
in e p e o como de “da alo à ciência, à pesquisa”. Es endo-lhe meu cade no e cane a. É o
p óp io quem ano a seu ende eço de con a o pela in e ne , depois se assegu ando de que en endi
a sole ação. O e eço álcool em gel e ele ecusa educadamen e.
P., 34 anos, é indiano do Rajas ão, mas há 10 anos mo a na Alemanha. Inicialmen e,
o a lá pa a es uda , mas hoje abalha na á ea de Tecnologia da In o mação, em S u ga . É
sua p imei a ez em Lisboa. Chega a na éspe a, quin a à noi e, quando nada ez além de come
algo. Fica ia a é segunda- ei a, quando i ia a é o Po o pa a passa mais alguns dias. Pe gun o
se oi uma iagem planejada há empos, e ele diz que não; oi uma decisão de úl ima ho a.
Es a a de é ias e no meio delas encaixou es a iagem, como já ize a em ou as ocasiões desde
que mudou pa a a Eu opa.
Naquela manhã, P. já isi a a o Cas elo, e à noi e p e endia i à Rua Rosa como
in eg an e de uma excu são em g upo o mado pelo p óp io hos el onde es a a hospedado. Pa a
o dia seguin e, já inha adqui ido bilhe e pa a um ci y ou . Não icou cla o pa a mim se se ia
de au oca o, uk- uk ou pa icula , mas ele deu a en ende que e a algo mais “o ganizado”, e
não um ace o que ez in o malmen e.
Quando nos ap oximamos da Rua da Conceição, a iso a ele sob e a descida. E pe gun o
se ele opa ia que eu lhe acompanhasse em seu passeio. P. não se impo a. Me pa ece es a no
“modo gaze”: iajando sozinho, se pe mi indo o encon o com o desconhecido, sob e udo
expe iências like a local.
Saímos caminhando pela Rua Augus a e ele se admi a com o A co do T iun o. Não i a
mui as o os, no en an o, apenas uma ou ou a a í ulo de egis o. Tampouco ica id ado no
elemó el: pa ece engajado na a e a de lana . Ele me pe gun a sob e ques ões de segu ança
pública em Lisboa e em São Paulo. Digo a ele que não acho mui o compa á el. Ele az um
pa alelo com a di e ença en e sua Rajas ão na al e a S u ga onde i e. Conco damos que,
seja na Índia ou no B asil, mesmo com p oblemas sociais g a es, as pessoas i em, azem suas
coisas co idianas.
P. me pe gun a sob e como oi pa a ob e o is o em Po ugal. Se, po se b asilei o, eu
enho algum di ei o. Explico pa a ele as nuances elacionadas à cidadania e que, no meu caso,
enho au o ização de esidência po se es udan e. Ele me con a que ambém oi assim com ele,
e que depois ele subs i uiu pelo is o de abalho. Da P aça do Comé cio, caminhamos pela
Ribei a das Naus. P. pe cebe o C is o Rei e me pe gun a, como que que endo con i ma , se no
53
B asil ambém em um des es. Olhando pa a a Ma gem Sul, alo pa a ele que, se i e empo,
possi elmen e no domingo, se ia in e essan e pega um ba co pa a o ou o lado do io, e de lá
e o pô -do-sol, assim como o skyline de Lisboa. Ele não dá mui a bola pa a isso.
Con o me passamos em en e a uma esplanada, pe gun o se P. bebe álcool. Minha
in enção e a lhe paga uma impe ial. Ele diz que não mui o, apenas mode adamen e. Pe gun o
en ão se ele gos a ia de come algo. P. ainda não almoçou, mas az a essal a de que não
consome ca ne. Sugi o en ão i mos ao Me cado da Ribei a. No ano passado, hospedei amigos
di e sos em casa, e odos gos a am mui o do luga . Um a o sob e o Time Ou Ma ke é que é
amigá el a u is as cujo pode aquisi i o pe mi a consumi algo ali. Pode pa ece mais amilia
a um es anho qualque e a ende bem a demandas he e ogêneas. Se uma pessoa não come ca ne
e a ou a só que oma um ca é, as duas podem di idi mesa.
Caminhamos a é lá e P. acaba escolhendo um p a o de comida ailandesa. Pedimos uma
caneca de ce eja pa a cada um, e ele não me deixa paga . P. exp essa se sen i descon o á el
com o a o de só ele come , e eu não. Digo (e é e dade) que inha acabado de almoça quando
nos encon amos no Ma im Moniz. Ele comen a sob e a i onia de, sendo um indiano em isi a
a Po ugal, come comida asiá ica.
Acabamos a ce eja e nos despedimos. P. ol a á andando. Eu ico pelo Cais do Sod é,
de onde pego o comboio pa a casa. Onde ou a pensa que, olhando de o a, al ez pelo olha
dele, eu pode ia não es a azendo pesquisa alguma. Pode ia se apenas um maland o que
ci cula pelo eléc ico em busca de opo unidades. Alguém que, em oca de comes e bebes, ou
a é ocados, o e ece eelances de cice one.
Na sex a- ei a seguin e, uma semana depois, en iei um e-mail a P. solici ando uma
en e is a mais ap o undada. Também encon ei seu pe il pessoal no Facebook e lhe en iei
uma solici ação de amizade. P. nunca espondeu a nenhum dos dois pedidos. Aquele encon o,
egis ado nes e echo, icou pa a ás na ca ei a do eléc ico 28.
4.2 O eléc ico em si mesmo
A p imei a ca ei a de eléc icos em Lisboa oi inaugu ada em 1901. En ão, o meio de
anspo e público cole i o u ilizado na cidade e am os chamados “ame icanos”, eículos que
ambém ci cula am po ca is, po ém puxados po ca alos. Na p imei a me ade do século XX,
o eléc ico se o na ia o p incipal modal da mobilidade u bana lisboe a. Na segunda década do

54
século XXI, es e luga oi ocupado pelo au omó el pa icula
95
. Em 2017, mais de 58% das
deslocações na Á ea Me opoli ana de Lisboa u iliza am es e modal (Ins i u o Nacional de
Es a ís ica 2017, 9).
Ligando o Cais do Sod é a Algés sem pe de o Tejo de is a, aquela ca ei a pionei a
inaugu ada há mais de século i ia a se o na a ac ual linha 15E, que ago a pa e da P aça da
Figuei a. Os eículos que a pe co em hoje, no en an o, êm eições dis in as da imagem do
eléc ico in age que cos uma ilus a imagens de Lisboa e, em especial, as ep esen ações do
u ismo na cidade
96
. Embo a ambém de co ama ela, o eléc ico da linha 15E é de um modelo
a iculado, semelhan e ao que se obse a em ou as cidades eu opeias, como Munique ou
Lond es. É mais comp ido - e, po an o, compo a mais pessoas -, mais eloz, mais silencioso
e o e ece maio acessibilidade em suas po as e co edo es do que seu colega de abalho mais
amoso e pi o esco. Ao con á io do modelo que ci cula na ca ei a 28, em a -condicionado, e
painéis ele ônicos que in o mam as pa agens do pe cu so aos passagei os. Uma ez que a linha
15E conec a o cen o his ó ico de Lisboa a algumas das a ações u ís icas mais p ocu adas na
cidade (o Mos ei o dos Je ônimos, o pas el e a To e de Belém…), é ambém bas an e
equen ada po u is as. Con udo, es a linha segue undamen almen e desempenhando sua
unção o iginal, de se ão-somen e meio de anspo e. Não se o nou uma a ação u ís ica em
si, cuja isi a pa a ins de laze u ís ico é ecomendada e p ocu ada - como oco e com a
ca ei a 28. Ainda que a comunicação social e a demanda u ís ica em o no do 28 não se
baseiem unicamen e na imagem in age do eículo
97
, ambém não é p eciso se engenhei o de
anspo es pa a es ima que aquele modelo maio e mais mode no da linha 15 E não se ia
ap op iado pa a as uelas em decli e dos bai os his ó icos pe co idos pelo 28.
95
Segundo es udo da Deloi e, “Deloi e Ci y Mobili y Index 2020”, disponí el em:
h ps://www2.deloi e.com/con en /dam/insigh s/us/a icles/4331_Deloi e-Ci y-Mobili y-
Index/Lisbon_GlobalCi yMobili y_WEB.pd [úl imo acesso em 31/10/2021].
96
Ponde emos que nem odas as ep esen ações isuais de uma localidade que colabo am pa a sua di ulgação a
po enciais u is as são necessa iamen e planeadas po a o es di e amen e in e essados em ob e ganhos come ciais
com a a i idade u ís ica. Sob e udo, se obse amos o alcance das mídias sociais que, com suas dinâmicas de ede
pa icula es, podem con ibui pa a ans o ma a a a i idade de de e minado des ino u ís ico. Uma ede ho elei a
mul inacional pode eicula uma campanha publici á ia ilus ada com a imagem do eléc ico isando a ai no os
hóspedes pa a suas suí es em Lisboa. E um iajan e qualque de mochila nas cos as pode publica no Ins ag am
uma o o sua, geolocalizada em Lisboa, endo o eléc ico como cená io. Ainda que com inalidades, alcances de
público e escalas de in es imen o dis in os, ambos exemplos (hipo é icos, po ém e ossimilhan es) ep oduzem
ep esen ações da cidade com a imagem do eléc ico que, em úl ima ins ância, expõem a cidade pa a ou os
po enciais isi an es.
97
Ou o a a i o e iden e são as paisagens u banas lisboe as, que o 28 pe mi e con empla de suas janelas, ao
cus o de um bilhe e de anspo e público. Qualque ci y ou p i ado cus a ia mais ca o, diga-se.
55
Imagem 03:
98
O eículo ame icano, que
u iliza a ação animal e p ecedeu o
eléc ico no anspo e público lisboe a
sob e ca is.
Imagem 04:
99
O modelo a iculado de
eléc ico, emp egado na linha 15E que liga a
P aça da Figuei a a Algés.
O sí io ins i ucional da Ca is ap esen a in o mações sob e cada modelo de eléc ico
u ilizado em seu sis ema
100
. A página az uma di isão ca egó ica en e modelos A iculados
(que são como os da linha 15E, ilus ado acima), His ó icos e Clássicos. Ao clica em cada um,
são o necidas especi icações écnicas que incluem os núme os de o a e ano de ab ico. Na
ocasião da consul a que ealizei, a seção não in o ma a quais as ca ei as que cada modelo
98
Câma a Municipal de Lisboa. A qui o Fo og á ico - P o as O iginais 1858-1910. Lisboa: Guide A es
G á icas, 1993. p.31. Disponí el em: h ps://a qui omunicipal3.cm-lisboa.p /X-
a qWEB/Resul .aspx?id=1156225& ype=PCD [úl imo acesso em 1/12/2021].
99
Fo o de di ulgação publicada no sí io ins i ucional da Câma a Municipal de Lisboa, "F o a da Ca is
e o çada com 15 elé icos a iculados...", em 21/4/2021. Disponí el em:
h ps://www.lisboa.p /a ualidade/no icias/de alhe/ o a-da-ca is- e o cada-com-15-ele icos-a iculados-e-30-
au oca os-ele icos [úl imo acesso em 1/12/2021].
100
Disponí eis em: h ps://www.ca is.p /descub a/ o a/ele icos/ [úl imo acesso em 31/10/2021].
56
pe co e. Mas, sim, que os eléc icos da ca ego ia His ó icos êm capacidade pa a a é 58
pessoas
101
, e nos da ca ego ia Clássicos cabem 42 pessoas
102
. Assim, oi possí el con as a
es es dados com o os egis adas em minhas isi as de obse ação. Segundo o in o me imp esso
na p óp ia pa ede de madei a in e na do eículo, o eléc ico 28 que obse ei em campo
compo a 20 pessoas sen adas e 38 de pé
103
. Ou seja, con o me a ca ego ização encon ada na
página da Ca is, o modelo His ó ico ci cula na ca ei a 28. E, po an o, com base nes as duas
on es, deduz-se que seu ano de ab ico é 1995-1996
104
.
Se há quem con emple o modelo His ó ico do eléc ico 28 imaginando es a em en e
a um elo pe dido en e passado e p esen e, MacCannell apon a que, "(...) uma ez que um ipo
de p odução cul u al enha mo ido, ele pode se e i ido a a és de uma cópia in eligen e que
dizem se uma econs ução de um 'clássico'
105
" (MacCannell 1999, 26). Pa ece se o caso an o
nas nomencla u as emp egadas lisboe as no sí io ins i ucional da emp esa que ge e os
eléc icos, quan o pela coleção de an igas ia u as que se pode e de pe o no museu da mesma
companhia.
Inaugu ado em 1999, o Museu da Ca is con a a his ó ia da emp esa a a és de
documen os e obje os, com des aque pa a os di e sos modelos de eículo emp egados desde
que os elé icos começa am a se mo imen a pelas uas de Lisboa. Ali se cons a a como eles
nem semp e ap esen a am a mesma isionomia, endo sido a apa ência a ual do eléc ico 28 um
p oje o de emodelagem de um passado ecen e, e não uma his ó ia secula de p ese ação
in ac a. É um exemplo em exposição de como "O passado é um país es angei o emodelado
pelo hoje, sua es anheza domes icada po nossos p óp ios modos de cuida de seus
101
Os modelos His ó icos compo am 20 pessoas sen adas e 38 de pé, con o me in o mações do i em
“Ca ac e ís icas”, disponí eis em: h ps://www.ca is.p /descub a/ o a/ele icos-his o icos/ [úl imo acesso em
31/10/2021].
102
Os modelos Clássicos compo am 24 pessoas sen adas e 18 de pé, con o me in o mações do i em
“Ca ac e ís icas”, disponí eis em: h ps://www.ca is.p /descub a/ o a/ele icos-classicos/ [úl imo acesso em
31/10/2021].
103
Cheguei a aze uma publicação sob e is o no Diá io isual do eléc ico que c iei no Ins ag am (sob e is o,
e capí ulo 3.5, “Ques ões isuais”), onde é possí el e em o o es e a iso imp esso na pa ede in e na do
eículo. Disponí el em: h ps://www.ins ag am.com/p/CHdExx0AAdw/?u m_medium=copy_link [úl imo
acesso em 20/11/2021].
104
A í ulo de cla eza ex ual, a pa i daqui se ão ac escidas es as mesmas nomencla u as (His ó ico e A iculado)
se e quando es e ex o ol a a a a , especi icamen e, das ca ac e ís icas es é ico- uncionais que di e enciam es es
dois modelos.
105
T adução do au o . No o iginal, em inglês: "(...) once a ype o cul u al p oduc ion has died ou , i can be
e i ed by a cle e copy which is said o be a emake o a 'classic'."
57
es ígios"
106
(Lowen hal 2015, 4). Inclusi e, a c onologia ac ual na ada pelo museu não
pa ece despe a a ação como as ep esen ações em médias a iados suge indo se o eléc ico
28 um obje o “his ó ico”
107
. Ou, emp es ando pala as de Lowen hal, um es ígio de um empo
es anho ao ago a. Tan o exó ico quan o domes icado, e, po isso udo mesmo, ins ag amá el.
A ponde a que o isi ei com o Es ado de Eme gência po uguês em igo (pa a con e a
segunda onda da Co id-19), e com o in e no a man e baixas empe a u as, quando es i e no
Museu da Ca is, ui o único isi an e du an e o empo que lá passei. É de se conjec u a se al
museu não enha apelo somen e jun o a es udan es (como eu), en usias as dos sis emas de
anspo e, e pessoas que enham alguma elação a e i a com a Ca is (como ex- uncioná ios,
po exemplo). Segundo a na a i a his ó ica “de econhecimen o público” dos modelos do
eléc ico, seu i em mais céleb e (ainda que não o mais an igo...) encon a-se i o, em
mo imen o pelas uas lisboe as, e não em um museu. É o eléc ico 28, cujo bilhe e de ing esso,
inclusi e, cus a mais ba a o do que uma isi a ao ace o da Ca is
108
. Além disso, enquan o
p og ama de laze u ís ico, passea no eléc ico de Lisboa é con emplá-lo em seu "habi a
u bano na u al", e não como i em de exposição. Enquan o passeio u ís ico, es e meio de
anspo e público lisboe a pa ece ep esen a um p og ama de laze mais a a i o a
consumido es em busca de en e enimen o do que uma isi a ao Museu da Ca is. É uma
expe iência que se i encia de múl iplas o mas senso iais (é isual, sono o, ác il, ciné ico...);
que pode se gua dada na memó ia (em o os e ídeos “ eais”, ei os in loco) onde a p óp ia
pessoa é p o agonis a, e não espec ado a; e que a es a um gos o u ís ico “dis in i o” (Bou dieu
2006) quando es es egis os são compa ilhados em edes sociais.
Imagem 05: No Museu da Ca is, di e en es modelos de eículo
expos os e elam como o signi icado do e mo "his ó ico"
a ibuído ao eléc ico 28 a ual diz menos espei o a ac os
c onológicos do que a ep esen ações cul u ais. Regis ada pelo
au o em 13/1/2021.
106
T adução do au o . No o iginal, em inglês: "The pas is a o eign coun y eshaped by oday, i s s angeness
domes ica ed by ou own modes o ca ing o i s es iges".
107
Rep esen ações isuais p incipalmen e, mas ambém ex uais, como is o nas ca ac e ís icas de cada modelo
in o madas pelo sí io ins i ucional da Ca is.
108
Quando es i e no Museu da Ca is, em janei o de 2021, o p eço indi idual do ing esso pa a adul os cus a a €
4,50. Uma iagem de eléc ico 28 cus a no máximo € 3,00.
64
ese ado a pessoas com necessidades especiais é cedido a quem em p io idade sob e ele. O
eléc ico chega à pa agem inal e nem odos saem, con o me equisi ado pelo a iso em ama elo
is o na imagem acima. E há quem se deb uce nas janelas, sendo ep eendido, ou não, a
depende do caso. Na p á ica, como úl ima e po ezes única ins ância, são os gua da- eios
que a uam na egulação de compo amen os e si uações em ge al que con a iam o “guia de
bo do” esc i o nas pa edes. A imp o isação, como apon am Ingold e Hallam, é um undamen o
essencial da ida social e cul u al. A odo momen o e em qualque luga , pessoas cons oem e
ans o mam modos de i e con o me as ci cuns âncias da ida se ap esen am. "Pessoas eais,
como o ganismos i os que são, con inuamen e c iam a si mesmas e umas às ou as, o jando
suas his ó ias e adições na medida em que a ançam"
122
(Ingold & Hallam 2007, 6), analisam.
Na ausência de um guião, o imp o iso é semp e uma e amen a de abalho pa a da espos as
às con ingências. Vale pa a o abalho de um gua da- eio naquele mic o-espaço onde
al e idades di e sas se c uzam. Vale pa a as manei as de esc e e uma e nog a ia.
Embo a a pa ede in e na in o me ha e capacidade pa a a é 58 pessoas, em nenhuma
isi a que iz o eléc ico pa iu de sua pa agem inicial com mais do que 20 (além do gua da-
eio), o núme o máximo de passagei os sen ados. Is o, mesmo com pessoas ainda a agua da
na ila. Es a iam a agua da po um luga sen ado, de p e e ência na janela? Nas p imei as
isi as de campo, quando ainda se iam mais u is as no 28, em alguns echos da ca ei a
cheguei a e os co edo es in e nos se enche em de gen e, mas em momen os pon uais. Po
oda a minha obse ação e se dado no con ex o pandêmico, enquan o a ealiza a não me oi
possí el a es a se, ex ao dina iamen e, ha ia uma egulação adicional da lo ação máxima pa a
e i a aglome ações. Ou se é uma no ma pe ene, endo em is a a conco ência u ís ica da
linha, de o ma a man e alguma ese a de assen os pa a as pa agens seguin es ao longo da
cidade. Es a úl ima hipó ese, de aco do com o que ap esen a am alguns de meus in e locu o es,
não p ocede. Em en e is a ei a po e-mail, o gua da- eio Ra ael San os desc e eu como a
edução de u en es, associada à in e upção dos luxos u ís icos, oi uma mudança ge al
pe cebida da empo ada an e io pa a a de 2020:
“O 28 oi al ez a ca ei a onde se no ou mais os e ei os da
pandemia. Os eléc icos comple amen e cheios a é cus a echa a
po a, de am luga a ca os azios onde a é se pode escolhe o luga
pa a se sen a à janela”
123
.
122
T adução do au o . No o iginal, em inglês: "Real people, as he li ing o ganisms hey a e, con inually c ea e
hemsel es and one ano he , o ging hei his o ies and adi ions as hey go along".
123
En e is a ealizada po e-mail com Ra ael, gua da- eio da Ca is, em 17/5/2021.

65
Já a gua da- eio J., ambém en e is ada po e-mail em 2021, desc e eu como, mesmo
nas éspe as do ano pandêmico de 2020, e a comum obse a u is as, po agencialidade
p óp ia, p e e i em agua da mais na ila do que aba o a o eléc ico 28:
"(...) lemb o-me das in e miná eis ilas de u is as no Ma im
Moniz e lemb o-me de acha mui o es anho espe a em imenso empo pa a
en a no elé ico mas depois só ocupa em os luga es sen ados, e
nenhum luga em pé (daí ha e an a ila de espe a). No elé ico são
22 luga es sen ados e 38 em pé… é na u al que haja longas ilas uma
ez que é u ilizada menos de me ade da capacidade de cada ia u a”
124
.
Jun os, es es depoimen os indicam que, se po um lado, hou e edução da p esença
u ís ica no eléc ico 28 em i ude da pandemia, po ou o ha ia, ao menos no Ma im Moniz,
uma egulação do núme o de pessoas a emba ca . Tan o da pa e da adminis ação do sis ema,
a a és da limi ação a “menos de me ade da capacidade de cada ia u a”, quan o pela au o-
mode ação dos p óp ios u is as na ila, em unção de consegui em iaja sen ados. É azoá el
pensa que is o impac e no amanho das ilas e empo de espe a naquela pa agem inicial.
De ac o, nas isi as que iz, oi cons an e a possibilidade de escolhe um luga pa a me
sen a após emba ca no Ma im Moniz. Mesmo no início do abalho de campo, quando ainda
me depa a a com ilas à espe a do 28, uma ez den o do eículo ha ia no mínimo um assen o
po passagei o. Is o, embo a um ou ou o op assem po iaja de pé. Vi an o homens quan o
mulhe es, de idades e e nias di e sas, escolhe em es a opção – inclusi e, u is as
125
. Não é po
ha e um assen o à disposição que um passagei o iaja sen ado, es eja ele no eléc ico a laze
ou po ou as azões. E is o inclui o assen o ese ado a pessoas com mobilidade eduzida. Em
ocasiões di e sas, pude obse a u en es que e iam a p e e ência pa a ocupá-lo não usu uí em
des e di ei o. Op a am po sen a -se em ou o luga , mesmo com aquele es ando li e
126
. Tal
compo amen o oi obse ado em a o es sociais di e sos. Idosos de bengala, u is as com bebé
124
En e is a ealizada po e-mail com J., gua da- eio da Ca is, em 29/5/2021.
125
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 8 (7/10/2020); Visi a 11 (16/10/2020).
126
Vale des aca que os assen os ese ados êm uma posição um pouco dis in a dos demais. Além de es a em
localizados logo na en ada do elé ico, exigindo meno deslocação pelo in e io do eículo em mo imen o, sua
disposição é de en e pa a o co edo (de cos as pa a a janela), o que o e ece maio espaço pa a acomoda as
pe nas.
66
de colo, senho eng a a ado a se apoia em mule as; em comum, o ac o de eu ê-los is o
abdica do assen o que lhes dá p e e ência de uso po di ei o
127
.
Po inicia i a p óp ia, sem se median e qualque p o es o ou negociação, i ambém
pessoas cedendo o assen o ese ado a ou as. Se ia algo a é o diná io e p e isí el que is o
oco esse num anspo e público, con udo o dado in e essan e pa a meu luga de obse ação é
e is o u is as a cede em luga pa a ou os u en es. Ressal e-se que a p e e ência dada ao uso
daqueles assen os não é exclusi idade de quem eside na cidade, e sim de quem se encon a no
elé ico, seja pa a qualque inalidade - incluindo laze . E is o não exclui que ambém enha
p esenciado jo ens u is as sen ados no assen o ese ado não o o e ece em pe an e o
emba que de uma pessoa idosa. Con udo, naquele elé ico sem a lo ação máxima de empos
p é-pandémico, oi mais equen e obse a passagei os cedendo al assen o, assim como
pessoas com di ei o a ele desp eocupadas em ei indicá-lo.
Imagem 09: Com sua co e melha, o assen o ese ado
à disposição pa a se ocupado. Regis ada pelo au o em
11/11/2020.
Um compo amen o que ambém i com eco ência oi o de pessoas emba ca em
jun as e iaja em em luga es sepa ados. Du an e o empo em que pe manece am no eléc ico,
ou seja, enquan o desempenha am papéis de passagei os, pa es de conhecidos man i e am um
127
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 11 (16/10/2020); Visi a 13 (26/10/2020); Visi a 19
(12/11/2020).
67
dis anciamen o ísico en e si. Is o oi obse ado ao longo de odo o abalho de campo
128
, em
echos di e sos da ca ei a, a se p a icado po pessoas com nacionalidade, aixa e á ia, gêne o
e mo i ações di e sas pa a ali es a : casais de idosos e de u is as, alan es de alemão e de
espanhol, es udan es. Tal manei a dispe sa de ocupa o elé ico não é uma di e ença en e quem
o u iliza pa a laze u ís ico e quem o u iliza pa a mobilidade u bana apenas. É um modo de
es a consoan e à ci cuns ância, e não um modo iden i á io de se . Tudo bem que passagei os
se espalha em quando o eículo es á mais azio possa pa ece uma cons a ação elemen a , algo
desc i í el a é pelas leis da ísica. Já as mo i ações que le am pessoas que emba ca am jun as
a i em cada qual pa a um lado quando a iagem começa não é ão simples de desc e e somen e
pela obse ação
129
. Não deixa de se algo pa adoxal (ou, no mínimo, i ônico) que is o enha
sido obse ado no mesmo luga onde, a é o ano p é-pandêmico an e io , a o es sociais di e sos
se esp emiam isicamen e em qualque ho a do dia.
Imagem 10: Os assen os ese ados, cada um de um lado do co edo , ocupados sepa adamen e po um casal de u is as que
emba cou jun o no eléc ico 28. Regis ada pelo in es igado em 16/9/2020.
128
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 6 (16/9/2020); Visi a 10 (14/10/2020), Visi a 12 (23/10/2020),
Visi a 18 (11/11/2020), Visi a 20 (13/11/2020).
129
Eu não me a isca ia a en a azê-lo sem eco e ao auxílio de conhecimen os (que não possuo) do campo
da psicologia.
68
Po im, ou o compo amen o equen e a examina , e que se in e sec a com os ou os
dois des acados an e io men e, é uma espécie de ”dança das cadei as” que oco e no in e io
do elé ico en e uma pa agem e ou a. A co eog a ia chega a inco po a cadeias de mo imen os
e en ol endo a o es sociais di e sos, que en am em cena em luga es di e en es de Lisboa,
cada um a seu empo, pa a se euni no ambien e in e no do elé ico 28. Assis i a es a
pe o mance em momen os do abalho de campo que me pa ece am alea ó ios.
Ce a ez, uma mulhe sen ada ao meu lado no banco duplo “no mal” con e sa a (em
po uguês b asilei o) com uma amiga que, de pé, a acompanha a
130
. Ao e um idoso emba ca ,
minha izinha de banco le an ou-se pa a lhe cede o luga . Enquan o isso, nenhuma das pessoas
na aixa dos 20 a 30 anos que ocupa am os assen os p e e enciais cede am luga . O idoso
iajou ao meu lado du an e apenas uma pa agem, e desceu. O luga ol ou a ica ago, mas a
mulhe que o ocupa a o iginalmen e pe maneceu em pé. Pouco depois, o assen o p e e encial
icou ago. En ão, a mulhe e sua amiga se sen a am ali.
Em ou a ocasião, duas jo ens iaja am sozinhas, cada uma em um assen o ese ado
sem ninguém a seu lado. Em uma pa agem, subi am duas mulhe es idosas. Sem que hou esse
qualque comunicação e bal en e as mulhe es de aixas e á ias dis in as, as duas jo ens se
le an a am pa a cede luga . E nenhuma das idosas se sen ou. As jo ens ol a am en ão aos
assen os ese ados. Mas o eléc ico seguiu caminho e a mesma cena ol ou a se epe i . As
no as duas idosas que a segui en a am no eléc ico se sen a am nos luga es cedidos. Cada
uma em um assen o ese ado, sem ninguém a seu lado - al e qual as jo ens es a am. Não
hou e, no amen e, qualque comunicação en e as mulhe es. Embo a coubessem as qua o nos
dois assen os duplos, as jo ens pe manece am em pé. O eléc ico e omou seu mo imen o e,
após e uma das idosas desce , uma das jo ens em pé ol ou a sen a lá. Po ém, na mesma
pa agem em que es e mo imen o oco eu, subiu uma mãe com ilho pequeno, isi elmen e
u is as. A jo em en ão ol ou a cede seu luga , ago a pa a uma dupla de no os pe sonagens.
E, na pa agem seguin e, emba cou ou a senho a idosa. Des a ez, a mãe e o ilho u is as lhe
cede am o assen o, e passa am aos undos do elé ico. Po ém, a idosa op ou po se sen a no
assen o ese ado do lado opos o do co edo . Aquela jo em que acompanhamos desde o início
seguiu de pé po mais uma pa agem, enquan o o assen o que a imos cede po ês ezes (pa a
duas idosas em duas pa agens dis in as e depois pa a a mãe com ilho pequeno) p osseguiu
li e. A úl ima idosa que acompanhamos subi no elé ico, pe maneceu sen ada du an e o
in e alo de uma pa agem apenas, e se le an ou. Foi só quando is o oco eu que a jo em em
130
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 6 (16/9/2020).
69
pé ol ou a se sen a no seu luga de o igem, que seguia ago. Lá pe maneceu po apenas mais
uma pa agem, e en ão desceu.
Es a sequência de dádi as e ocas de luga es oco eu no espaço- empo de poucas
pa agens, com o elé ico a segui ca ei a a o a. De o ma silenciosa, sem qualque pala a
ocada en e suas p o agonis as, somen e a a és de mo imen os co po ais - sen a -se e
le an a -se, basicamen e. En ol eu aixas e á ias dis in as, e an o u is as quan o esiden es a
se in e cala compa ilhando compo amen os semelhan es. Des a espécie de i ual obse ada
no elé ico 28, passagei os pa icipam de aco do com as ci cuns âncias e com suas mo i ações
subje i as. Não é um compo amen o a ibuí el pela obse ação a um g upo, e não a ou o.
Do pon o de is a da con i ialidade em um meio de anspo e público que é ambém
luga u ís ico, es e mic o episódio é ep esen a i o da di e sidade de a o es sociais que ali se
encon am. Há a idosa, a imig an e, a u is a. E é uma amos a de como não apenas o elé ico
se mo imen a pelas uas de Lisboa, uma cidade que na úl ima década em passando po
ans o mações u banas di e sas elacionadas à in ensi icação dos luxos u ís icos em seu
e i ó io. Mas, ambém, de como u en es di e sos do 28, com mo i ações di e sas pa a ali
es a em, se mo imen am em seu espaço in e no du an e es e pe cu so. Enquan o o elé ico se
locomo e, seus passagei os ambém se mo em.
Nes e caso, examinado em de alhes, obse a am-se mais analogias do que con as es
nes es mo imen os co po ais. Fo am obse ados modos de es a naquele ambien e bas an e
semelhan es ealizados po indi íduos que, sob pe spec i as analí icas dico ômicas, se iam
ca ego izados em g upos sociais dis in os. Mas há di e sidade nos modos de se compo a .
Assim como há di e enças nas paisagens lisboe as que passam pelas janelas con o me o echo
da ca ei a.
4.4 Do Ma im Moniz aos P aze es
Incluindo as pa agens inicial e inal, no Ma im Moniz e em en e ao Cemi é io dos
P aze es, o aje o cen o-bai o do eléc ico 28 possui 35 pa agens
131
, em um açado que
131
Pa a se p eciso: há uma pa agem (Es ela) que só é con emplada no ho á io no u no. En ão, embo a o o al de
pa agens seja 35, po e sido concen ado no ho á io come cial, es e abalho de campo só obse ou o eléc ico
passa po 34.

70
esul a de ampliações e usões de ou as linhas an e io men e exis en es
132
. Em média, es e
pe cu so le a ap oximadamen e 50 minu os pa a se pe co ido. Os in e alos p e is os en e
uma e ou a iagem a iam con o me a época do ano, o dia da semana e a ho a do dia
133
. De
segunda a sex a- ei a, le am em média 15 minu os nas p imei as ho as da manhã; 20 minu os
nas úl imas da noi e; e oi o minu os du an e o ho á io come cial. Com um expedien e que ai
das 5h40 às 00h10 nos dias ú eis, du an e a semana a ca ei a cump e mais de 100 iagens
diá ias em cada sen ido
134
.
Ao mesmo empo em que há es a p og amação acional e obje i a pa a que o 28 es eja
pon ualmen e em de e minado espaço de seu pe cu so, du an e as isi as de campo oi possí el
obse a como os imp e is os são ambém pa e da p og amação co idiana, cujas soluções
imp o isadas são, na p á ica, de e dos gua da- eios. Algumas des as si uações, ainda que não
enham ho á io ce o pa a oco e , eme gem com al equência que chegam a cons i ui , assim,
pa adoxais “imp e is os p e is os”. Fo nece in o mações sob e a cidade pa a u is as, po
exemplo, é uma a e a in o mal a mais no expedien e dos gua da- eios, que pode su gi em
qualque ho a ou pa agem. Mui as ezes, a si uação demanda o uso de idiomas es angei os
pa a os quais não necessa iamen e ecebe am capaci ação especí ica. Ou o “imp e is o
p e is o” é o des io da ca ei a pa a oma a alhos, e assim compensa a asos que es ejam a
oco e na linha como um odo. Não pe cebi um pad ão sis emá ico nis o, mas obse ei a
si uação epe i -se em isi as alea ó ias, o que suge e alguma equência co idiana. Vejamos.
Com os passagei os a bo do, o 28 inicia seu mo imen o con o nando o Ma im Moniz.
Logo em en e ao Cen o Come cial Mou a ia, o mo imen o do eléc ico po ezes é
momen aneamen e in e ompido, pa a agua da o luxo de uma ou a o ma de mobilidade; a
dos abalhado es a desca ega caminhões e con en o es pa a abas ece os comé cios que ali
se concen am. Ao alcança a ace no e da p aça, o 28 acede à Rua da Palma, e deixa o Ma im
Moniz pa a ás. Is o, semp e que segue a p og amação "o icial". Hou e pelo menos duas
ocasiões em que, ao in és de segui a no e pela Rua da Palma, como é o aje o egula da
132
Em sua disse ação de mes ado, Ri a Va ela Gomes desc e e como se deu es e p ocesso de o mação da a ual
ca ei a 28, ei a de ou as linhas mais an igas e, hoje, "inexis en es", além de ambém analisa a elação en e a
opog a ia lisboe a e pe cepção senso ial de um passagei o do elé ico (Gomes 2016).
133
De ma ço a ou ub o, a p og amação de ho á ios é uma. De no emb o a e e ei o, é ou a. Em dias ú eis é uma,
aos sábados é ou a e, em domingos e e iados, é mais uma ou a. Pa a conhece em de alhes odas as pa agens e
a iações ho á ias da ca ei a 28, consul a documen o em PDF “Ma im Moniz - P aze es - 28E”, cuja en ada
em igo se deu em 1/6/2021. Disponí el pa a isualização e desca egamen o em:
h ps://www.ca is.p / iaje/ca ei as/28e-ma im-moniz-p aze es/ [úl imo acesso em 5/11/2021].
134
Con o me dados compilados a pa i do mesmo documen o ci ado na no a de odapé an e io . [úl imo acesso
em 5/11/2021].
71
ca ei a, o elé ico i ou an es à di ei a, na Rua Fe nandes da Fonseca
135
. Is o o ez co a um
bom oço de seu pe cu so, pa a só depois eencon á-lo mais à en e, já nos a edo es do La go
das Po as do Sol. Nas ezes em que p esenciei is o, a mudança no plano de iagem não oi
anunciada pelo gua da- eio ao público p esen e. Tampouco pe cebi eações e p o es os da
pa e dos passagei os, ou qualque es anhamen o pe cep í el seque . O que obse ei nes as
ci cuns âncias o am u en es di e sos a pa ilha uma semelhan e indi e ença. Dada a epe ição
da oco ência, e ambém da o ma impassí el com que oi ecebida, al ez es e des io de
i ine á io seja uma “excepcionalidade cons an emen e p a icada” no dia-a-dia da ca ei a. Em
um des as ocasiões, quando o elé ico chegou à pa agem inal, abo dei o gua da- eio que o
conduzi a a é ali e pe gun ei a espei o. De o ma amis osa, oi ele quem me ensinou que es a
al e ação na o a é ado ada quando a ca ei a 28 começa a e a asos em sucessão. Pa a
ecupe a o empo e e oma a p og amação, oma-se es e a alho. É um imp o iso coo denado,
po an o; a a-se de um expedien e p e is o pa a quando oco em a asos no pe cu so. Meu
in e locu o me mos ou inclusi e uma planilha imp essa onde gua da- eios omam no as das
escalas e ho á ios de cada iagem. Naquele dia, e a pa a e mos saído da pa agem inicial às
12h50, mas já e am 13h00 quando deixamos o Ma im Moniz, e daí a decisão pelo a alho
136
.
Pa a quem u iliza o 28 no co idiano, as azões pa a es a indi e ença en e à sub e são
de seu aje o egula podem se imaginadas com acilidade. O elé ico é, se mui o, o meio pa a
chega a ou o luga - o abalho, a escola, o la - ou dele e o na , em mo imen o pendula .
Quem ali iaja com egula idade cons an e pode já e p esenciado es a mudança de pe cu so
em ou as ocasiões, e ê-la em con a apenas como pa e cons i uin e da o ina. Enquan o o 28
segue a cump i sua inalidade “o icial” de anspo e u bano, quem se encon a nele mo i ado
po es e im não em seu in e esse con on ado. Enquan o o 28 segue em mo imen o, ainda que
a lui po ias al e na i as imp o isadas, aquilo que lhe é o diná io não saiu do luga
137
. O
elé ico e seu mo imen o in e ompido (po aciden e, g e e, decisão polí ica…) é que se ia
um e en o excepcional mais digno de alguma eação obse á el. Mas e quem ali se encon a
pon ualmen e, pa a ins de laze u ís ico, endo no eléc ico 28 seu luga de des ino no
momen o, e não somen e um meio de locomoção? Seguindo a é o im des e pa ág a o no li e
e eno imagina i o das hipó eses monologicamen e cons uídas, conjec u o que alguma
al e ação pon ual no aje o ambém não é pe cebida po es es como des io des a inalidade,
135
Is o oco eu na Visi a 2 (18/8/2020) e na Visi a 6 (16/9/2020).
136
Nomeadamen e, no dia da Visi a 2 (18/8/2020).
137
No que suge e um e lexo lisboe a no século XXI da indi e ença e a i ude blasé eo izadas po Simmel (1903);
es a agemas co idianos necessá ios ao se u bano mode no pa a ei ica a caó ica ida social me opoli ana.
72
po que a “expe iência eléc ico” não deixa de se en egue. Daí a eação indi e en e ao oco ido.
Me pa ece que o e en o ão ecomendado pa a quem isi a Lisboa, e pa a o qual se pagou
ing esso, não co esponde ao cump imen o igo oso da ca ei a, pa agem po pa agem. O 28
enquan o p og ama de laze é compos o pela p esença co po al no elé ico e o egis o isual
dis o. Pa e da expe iência é emba ca isicamen e naquele mic o espaço e, com os p óp ios
olhos, assis i às paisagens lisboe as ansmi idas po suas janelas. E ou a pa e essencial é
pode a es a (ou se ia os en a ?) es e ei o ao exibi-lo, em imagens e em empo eal, nas suas
edes sociais digi ais. Enquan o o 28 segue a possibili a is o e, assim, cump i sua inalidade
de pon o u ís ico, não az g ande di e ença, pa a quem ali se encon a com es a mo i ação, se
a ca ei a es á ou não a se seguida ielmen e. O eléc ico pa a de se mo imen a (ou o
elemó el pa a de unciona …) é que se ia um obs áculo imp e is o, um e en o excepcional
mais digno de eações obse á eis.
Imagens 11 e 12: Duas amos as de como uma busca pela geolocalização do elé ico 28 ap esen a nume osos
esul ados em edes sociais. Na imagem à esque da, a busca oi po "T am 28 Lisbon". Na da di ei a, po "Eléc ico
28". Ambas ealizadas no Ins ag am, acedido pelo pe il pessoal do au o em 29/7/2021.
“Ai, meu Deus do céu!”, exclama a gua da- eio já na Rua da Palma, ao se ob igada a
aciona os a ões do eléc ico pa a agua da uma ca inha que en a, com bas an e di iculdade,
73
es aciona jun o à calçada
138
. Logo que mudei pa a Lisboa, em 2018, mo ei po alguns meses
na eguesia de A oios, que es amos ago a a aden a
139
, a Rua da Palma azia pa e de meus
pe cu sos habi uais. Po ém, le ei algum empo a é conhecê-la pelo nome. Um isi an e ou
esiden e neó i o da cidade (como eu e a) pode acilmen e enxe gá-la apenas como con inuação
da A enida Almi an e Reis
140
. Pois, ao alcança o In enden e, sem que se pe ceba uma mudança
de ua, a ua muda de nome e ganha s a us de a enida.
O inal da Rua da Palma e o começo da A enida Almi an e Reis êm como pon o de
encon o o La go do In enden e. Nos anos 2010, en e as múl iplas inicia i as (ju ídico-legais,
polí ico-econômicas, sócio u banís icas, publici á ias…) encabeçadas po agen es di e sos que
con ibuí am pa a a in ensi icação da a i idade u ís ica em Lisboa, a in e enção u bana
ealizada nes a p aça oi bas an e simbólica. Quem a conhece pela janela do elé ico 28 ou po
um punhado de ho as passadas em suas esplanadas pode não e em con a como a paisagem
cul u al ali e a ou a a é empos bem ecen es. “A P aça do In enden e oi du an e mui as
décadas uma das á eas mais no o iamen e ma ginais da cidade, o local p e e ido pa a a
p os i uição de ua e as d ogas pesadas”, con ex ualizam Male Cal o e Ramos, des acando
como a essigni icação daquele espaço (com a sua con e são em ia pedonal, a ins alação de
no o mobiliá io, a e o ma do edi icado ci cundan e e a ans e ência de epa ições
go e namen ais pa a ali) oco eu em pouco empo. “Demo ou apenas alguns anos pa a
ans o ma o almen e a P aça do In enden e; na e dade, es a ans o mação oi ão in ensa
que os lisboe as êm di iculdade em ac edi a que es a p aça, um dos locais mais es igma izados
e pe igosos da Baixa de Lisboa a é seis anos a ás, seja ago a uma á ea in e nacionalmen e
cobiçada e habi ada po a is as es angei os e hips e s eganos, que albe ga alguns dos ca és e
ba es mais badalados da cidade” (Male Cal o & Ramos 2018, 63-64)
141
. Embo a a meu e
138
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 17 (10/11/2020).
139
A é en ão, nas p oximidades do Ma im Moniz, nos encon á amos na eguesia de San a Ri a Maio .
140
Ao analisa os di e en es p oje os u banís icos que edesenha am e essigni ica am a Rua da Palma a é seu
açado a ual, que da a de 1860, o his o iado Tiago Bo ges Lou enço explica que a in isibilidade des a ua é algo
comum ambém en e os nascidos e c iados na egião: “Assim, se á em Lisboa o único exemplo de um a uamen o
que, con ando com mais de qua o séculos de exis ência, um quilôme o de comp imen o e uma impo ância ulc al
na malha u bana, se encon a (quase o almen e) ausen e do imaginá io dos lisboe as” (Lou enço 2018, 28). Pa a
além da exclamação da gua da- eio apon ada no início des e pa ág a o, a ia es e e ausen e ambém no meu
diá io de campo. Não hou e ou as obse ações egis adas naquele echo da ca ei a du an e as isi as.
141
T adução do au o . No o iginal, em inglês: “P aça do In enden e was o many decades one o he mos
no o iously ma ginal a eas o he ci y, he p e e ed place o s ee p os i u ion and ha d d ugs. (…) I only ook
a ew yea s o o ally ans o m he P aça do In enden e; in ac , his ans o ma ion was so in ense ha Lisbone s
ind i ha d o belie e ha his squa e, one o he mos s igma ized and dange ous spo s o Down own Lisbon un il
six yea s ago, is now an in e na ionally co e ed a e popula ed by o eign a is s and egan hips e s which
ha bou s some o he ci y’s mos endy ca és and ba s (…)”.
80
Imagem 14: Pela pe spec i a da janela do elé ico, di e en es mobilidades se c uzam no espaço público.
Regis ada pelo au o em 16/10/2020.
Ao aden a o século XXI na qualidade de “cidade em ansição” (Rod igues 2010),
Lisboa encon ou-se na condição de “(…) uma cidade mul i ace ada em e mos sociais e
u banís icos, o que ep esen a ala gado leque de cons angimen os e opo unidades. A cidade
possui uma his ó ia longa insc i a no e i ó io, o que aca e a algumas di iculdades à
ci ilização do au omó el (desde as ca ac e ís icas opog á icas do sí io às malhas com uas
ape adas, passando pela an iguidade de mui os conjun os edi icados), mas con ibui ambém
pa a a iden idade u bana e pa a sua iqueza pa imonial, sendo assim manancial de
opo unidades a explo a em e mos de u ismo” (Salguei o 2002, 20-21). A opog a ia
aciden ada e o desenho u bano in incado de Lisboa, que con ibuem pa a dispu as e
negociações de in e esses iá ios en e modais, moldam de modo agudo o pe cu so do 28 no
echo a segui . São es as mesmas ca ac e ís icas ma can es que con ibuem pa a a a a i idade
u ís ica da linha, ao o e ece em paisagens pi o escas po onde o eléc ico sacoleja em cu as
e ladei as, semelhan e a um agão de mon anha- ussa. Con o me ap endi com João,
in e locu o que em na ap eciação dos eléc icos um hobby e a é já publicou li o sob e a

81
his ó ia deles em Lisboa
160
, são es as mesmas ca ac e ís icas que azem es e se o modal de
anspo e cole i o mais adequado pa a pe co e egiões da cidade como a que ago a começa:
”Não há hipó ese de pô nada aqui sem se o 28. Au oca o?
Nenhum. Não há hipó ese. Po causa das cu as, dos al os e
baixos… não há hipó ese.”
161
Con e sei com João
162
em uma pas ela ia localizada na Rua da G aça, a mesma ia po
onde ago a o 28 segue caminho, a se pen ea
163
. Após e galgado o echo an e io , en e as
eguesias de A oios e Penha de F ança, es amos a aden a a eguesia de São Vicen e
164
. Na
Rua da G aça, ascas e pas ela ias como a que es i e com João passam, uma após a ou a, pelas
janelas dos dois lados do eléc ico. Assim como lojas de a igos pa a o la , de ele odomés icos,
e aquelas que de udo endem pelo p eço de um eu o. É no a elmen e uma ua come cial, e
is o se e le e en e os u en es do 28 que emba cam na pa agem homônima à ua (R. G aça) e
na seguin e (G aça), es a já bem p óxima ao mi adou o e à ig eja de mesmo nome. Foi algo
eco en e nes as pa agens, no sen ido Ma im Moniz-P aze es, obse a passagei os a
emba ca com sacolas de comp as
165
. Sob e udo, idosos que apa en a am se esiden es da
cidade, mas não somen e es es. Es e uso do 28 pa a aze comp as na G aça oi ambém
obse ado em ou os a o es sociais, como podemos e nes as duas no as:
Sobem dois jo ens es angei os com caixas de ce eja nas
mãos e sacolas de comp as. Assim como idosos que já i nes a
pa agem, de em e ei o comp as no mesmo local na G aça. Um se
sen a no undo do eléc ico, o ou o no assen o ese ado. Des a
160
Aze edo, João de. 1998. Lisboa: 125 Anos Sob e Ca is. Roma Edi o a, Lisboa. ISBN: 972-8490-01-1.
161
En e is a ealizada p esencialmen e com João de Aze edo em 23/5/2021, aos 1”04”21 de g a ação.
162
Conheci João em um g upo echado do Facebook, in i ulado “Lisboa e os seus eléc icos”, cuja o ina de
publicações es i e a obse a . Con o me ela ado no capí ulo 3.3 (“Segunda
aga”), oi a a és dele que en ei em con a o com João e nos encon amos pa a uma en e is a ao i o.
163
Nes a mesma ua de mão dupla, mo imen ada e es ei a, i enciei, na Visi a 5 (31/8/2020, às 17h45), uma
colisão en e o elé ico onde es a a, um ca o e uma mo a. Foi uma en a i a de ul apassagem do elé ico po
pa e de algum dos ou os condu o es, de modo semelhan e ao desc i o há poucos pa ág a os. O 28 es a a cheio
no momen o, com gen e em pé no co edo , mas elizmen e o aciden e não deixou í imas. Enquan o o gua da-
eio con e sa a na ua com os ou os en ol idos no choque, um passagei o pe gun ou a ele pela janela, numa
língua po uguesa ca egada de acen o es angei o: “O senho p ecisa de ajuda?”.
164
Nes e ín e im passamos ainda po uma pa agem mais, de nome Sapado es, que ica numa zona de íplice
on ei a en e eguesias (A oios, Penha de F ança e São Vicen e). Ao analisa meu diá io de campo, po ém, não
encon ei egis os localizados naquela pa agem a se des aca nes a in es igação. Daí o ex o a ança di e o, sem
pa a nela.
165
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 9 (9/10/2020); Visi a 14 (28/10/2020); e Visi a 20
(13/11/2020).
82
dis ância chegam a oca algumas pala as, pelo co edo , numa
língua que suponho se alemão. Eles acabam descendo na mesma
pa agem onde já i idosos desce em com suas sacolas de comp as;
na Rua Escolas Ge ais.
166
Na G aça sobe um casal que de e e no máximo 30 anos.
Falam ancês en e si, e ele le a nas mãos uma caixa de o os.
Pode iam se mo ado es es angei os, expa iados, nômades
digi ais, “classes c ia i as”. Podem se u is as que gos am de
i e a expe iência “like a local”
167
.
Regis adas em dias dis in os, es as no as exempli icam como, segundo minha
obse ação, pessoas de aixas e á ias di e en es e alando idiomas di e sos - o que po si suge e
não e em a mesma nacionalidade - podem u iliza o elé ico 28 de manei as análogas.
Semelhan es no mo i o pa a ali es a ( anspo a comp as), nos obje os que le am consigo
(me cado ias), nos luga es da cidade onde emba cam (G aça) e desemba cam (R. Escolas
Ge ais), no in e alo de empo que passam ali den o.
166
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 12 (23/10/2020).
167
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 15 (4/11/2020).
83
Imagens 15, 16 e 17: A o es sociais di e sos, modos de aze semelhan es: idosos e jo ens, po ugueses e es angei os
azem comp as na G aça e as anspo am no elé ico 28. Regis adas pelo au o em 9/10/2020 (Img 15); 16/10/2020
(Img 16); e 23/10/2020 (Img 17).
“O sí io ideal pa a jun a duas coisas que em mesmo de aze em Lisboa: apanha o
elé ico 28 pa a a G aça e sen a -se no mi adou o da G aça e ap ecia a is a”, suge e a página
ins i ucional do Tu ismo de Lisboa
168
. Com uma esplanada de en e pa a uma is a pano âmica
do cen o his ó ico, o Mi adou o da G aça em a ibu os u ís icos p óp ios, que azem dele um
cená io a aen e pa a quem que i a o os. Sendo ão acilmen e acessí el a a és da já ão
ecomendada e p ocu ada ca ei a 28, o luxo de u is as a subi e desce do eléc ico é equen e
168
Visi Lisboa, “Mi adou o da G aça”, h ps://www. isi lisboa.com/p -p /locais/mi adou o-da-g aca , com
e sões disponí eis em ou os cinco idiomas. [úl imo acesso em 2/11/2021].
84
naquela pa agem. Em uma ocasião
169
obse ei desemba ca em ali se e pessoas de um mesmo
g upo. Embo a enham iajado espalhadas pelos di e en es assen os, chega am e saí am jun as
do elé ico. C ianças, adul os e idosos, alan es de ancês. Aquele que imaginei se o a ô da
amília acomodou-se logo à minha en e, em um assen o indi idual. Sen ado de cos as pa a o
que as janelas do 28 mos a am da cidade, concen ado no que o ec ã de seu elemó el
emoldu a a, enquan o es e e den o do eículo ocupou-se exclusi amen e em i a o os dos
seus acompanhan es. Compo amen o semelhan e o a is o dois dias an es
170
, em um g upo
de cinco pessoas, ambém alan es de ancês, que emba ca a na pa agem inicial no Ma im
Moniz. Enquan o qua o deles iaja am sen ados, o quin o in eg an e pe maneceu em pé, no
co edo do elé ico. Pendu ada em seu pescoço, uma câme a o og á ica so is icada,
apa en emen e p o issional, com a qual ele egis ou, ins an e a ins an e, sua expe iência no
elé ico 28. A é desce na pa agem G aça onde, imagino, egis a ia mais e mais o os.
Ao deixa a G aça pa a ás, o elé ico 28 começa um echo em decli e pela Rua da
Voz do Ope á io. Na al u a da pa agem homônima a es a ua, como já acon ece a em echos
an e io es, oi equen e o elé ico in e ompe seu mo imen o pa a agua da os luxos de
ou os au omó eis azendo en egas a comé cios locais. Is o oco eu logo em minha p imei a
incu são ao campo, quando isi elmen e ha ia um núme o maio de u is as p esen es. Na
ocasião, uma ila de pessoas espe a a o 28 na pa agem an e io , jun o ao Mi adou o da G aça,
de onde o eléc ico pa iu com in e passagei os, qua o des es em pé. Sem a ança mui o, já
na Rua Voz do Ope á io a gua da- eio oi ob igada a aciona os a ões do eículo, po con a
de um caminhão de me cado ias que bloquea a a ca ei a. “Com o eléc ico pa ado, um u is a
(de chapéu panamá) saca uma câme a apa en emen e p o issional e i a o os da ig eja. Ao
mesmo empo, um u is a que caminha na calçada i a o os do eléc ico com seu elemó el”,
ano ei
171
. Pa a quem em no egis o o og á ico uma mo i ação em especial pa a comunga
des a expe iência no eléc ico, obs uções da ca ei a podem se es a égicas na busca pelos
melho es ângulos. E is o não se obse ou somen e em quem pagou a a i a do anspo e, mas
ambém em quem es a a a lana pelos passeios da cidade e a is ou o eléc ico a se ap oxima .
Sejam espe adas ou imp e is as, as pa adas do eléc ico 28 podem se poses bem- indas pa a
o os. Tan o de quem en a emoldu a paisagens da cidade em suas janelas o og a ando de
169
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 14 (28/10/2020).
170
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 13 (26/10/2020).
171
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 1 (15/7/2020). A ig eja ci ada nes a no a é a de São Vicen e
de Fo a, que ica bem p óxima à pa agem Voz Ope á io.
85
den o pa a o a, quan o de quem en a emoldu a o eléc ico nas paisagens da cidade,
o og a ando de o a pa a den o.
Mas nem só pa a ap eciação do ou is gaze (U y 2002) es as pa adas inespe adas
ep esen am opo unidades súbi as. Também na Rua Voz do Ope á io, obse ei que es as
in e upções e mic o a asos na ca ei a podem, na p á ica, ajuda u en es de o mas a iadas.
Foi já num momen o com meno p esença de u is as, no inal de ou ub o, que uma ca inha
iden i icada com a logoma ca da Jun a de F eguesia de São Vicen e es acionou sob e a ca ei a
pa a ealiza alguma en ega ou e i ada
172
. Sem comunica nada aos passagei os ou aciona a
campainha pa a chama a a enção do ou o condu o , o gua da- eio se pôs a espe a pela
libe ação da ia. Es a in e upção no mo imen o pe mi iu a um passagei o se ap oxima
co endo do elé ico, e nele emba ca . Em ou a ocasião, i um senho idoso emba ca na G aça
e, an es de chega à pa agem seguin e, pedi à gua da- eio pa a desce
173
. A gua da- eio
pe mi iu e ab iu a po a. Em se a ando de uma pessoa idosa, al ez es a concessão subje i a
imp o isada pela gua da- eio pudesse acon ece de qualque o ma. Con udo, ac o é que,
ambém naquela ocasião, calhou de um caminhão de en egas es acionou na ua e ob igou o
eléc ico a pa a . Fo a da pa agem, no caso, o que naquele con ex o eio a calha . Uma
obs ução da ca ei a a e a qualque u en e, não di e enciando quem ali se encon a po laze
ou de e . Mas es a mesma in e upção do mo imen o do elé ico pode signi ica a aso pa a
uns e adian amen o pa a ou os.
Ainda na pa agem Voz Ope á io, em ocasiões dis in as obse ei u en es po ugueses
sendo p oa i os pa a p es a ajuda a u is as. Em uma delas, um senho subi a na pa agem
an e io , e sen a a-se à minha en e
174
. Não sem an es ab i po con a p óp ia a janela jun o a
seu assen o. Ao chega mos na pa agem Voz Ope á io, um casal de es angei os desceu do 28
pa ecendo pe dido sob e qual di eção segui . A é pedi am in o mação ao gua da- eio, mas sua
espos a monossilábica não pa eceu escla ece a dú ida. Es ando sen ado bem p óximo a eles,
o senho imedia amen e colocou o b aço pa a o a da janela e, apon ando com a mão pa a a
di eção da G aça, explicou em po uguês: ”Vá a pé a é o inal!”.
Na ou a ocasião, a u en e po uguesa que p es ou auxílio ha ia emba cado não mui o
an es, na pa agem Sapado es e, ao en a , e baliza a sua insa is ação com a demo a do elé ico:
172
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 13 (26/10/2020).
173
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 9 (9/10/2020).
174
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 7 (1/10/2020).

86
“Es á mal! E em cheio!”
175
. Ela en ão se pos ou em pé, bem p óxima ao gua da- eio, e seguiu
iagem ali, alando com ele, a é pelo menos a pa agem da Voz Ope á io. En ão, um homem
calçando sandálias espo i as, segu ando uma câme a o og á ica so is icada e com um li e o
no bolso de ás da calça em cuja capa pude le o í ulo Lisbon Sigh seeing, eio do undo do
co edo do elé ico pa a pe gun a algo ao gua da- eio. “Cas elo? Eu lhe a iso!”, espondeu
a u en e que es a a bem ali. E, de ac o, ao chega na pa agem La go Po as do Sol, a mais
p óxima ao u ís ico Cas elo de São Jo ge, a mulhe g i ou e acenou com as mãos: “Pa a o
cas elo desças aqui, senho !”. Embo a enha exp essado seu incômodo pela demo a do elé ico
em passa e po encon á-lo mais cheio, ela não se u ou a se p es a i a com um u is a que,
como os mui os que azem ila no Ma im Moniz, con ibuem pa a que o 28 seja um anspo e
mais demo ado e cheio. Inclusi e, não apenas o passagei o que pedi a in o mação, mas ou os
- e, mui o p o a elmen e, u is as ambém - desce am na mesma pa agem do Cas elo após a
o ien ação dela.
A pa i da pa agem Cç. S. Vicen e começa um echo em ziguezagues po uas
es ei as, de desenho u banís ico medie al, sob e as quais o edi icado de bai os an igos como
Cas elo e Al ama se deb uça, com oupas a seca nos es endais. Da janela do elé ico às po as
das esidências e comé cios, o espaço pode se ão ape ado que os peões nos passeios p ecisam
se encos a às achadas quando o eículo passa. “O 28 le a ocê po algumas uas p incipais,
mas ambém po uazinhas pequenas… Que o dize , minúsculas! Mal há espaço pa a o elé ico
passa . Você pode pô a mão pa a o a da janela e oca nos p édios. É quase como um passeio
da Disney, onde ocê passa po dio amas: aqui é o ba bei o, aqui é a delica éssen, aqui é a
ca e e ia, aqui é a gale ia de a e, aqui é a pada ia”. Em episódio p oduzido no ano de 2018, oi
assim que o ap esen ado do se iado ele isi o Somebody Feed Phil desc e eu sua expe iência
ao anda no elé ico 28 de Lisboa
176
. Nes e echo, na esquina ce ada da Calçada de São
Vicen e com a Rua Escolas Ge ais, ambas de mão dupla e cuja p oximidade dos p édios não
pe mi e isualiza quem em do ou o lado, um semá o o coo dena de manei a al e nada o
á ego nos dois sen idos. Es ando no 28, ao aze a cu a é bas an e comum e ou o 28 pa ado
na di eção con á ia, a agua da a luz e melha i a e de.
175
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 3 (20/8/2020).
176
Foi no qua o episódio da p imei a empo ada, aos 36’22. C iado e ap esen ado po Phil Rosen hal, o p og ama
mos a a ações u ís icas e gas onômicas de luga es no mundo odo. Em Po ugal, ambém é conhecido pelo
nome “Alguém Dê de Come ao Phil”. O p og ama es á disponí el pa a audiências de di e sos países pela
pla a o ma de s eaming Ne lix, em: h ps://www.ne lix.com/ i le/80146601 [úl imo acesso em 20/11/2021].
87
Imagem 18:
177
O semá o o à di ei a, que coo dena al e nadamen e os dois sen idos en e a Calçada de São Vicen e e
a Rua Escolas Ge ais.
Em 2018, as jun as de eguesia de São Vicen e, San a Ma ia Maio e Mise icó dia
publica am um es udo que encomenda am em conjun o, in i ulado “No as dinâmicas u banas
no cen o his ó ico de Lisboa”
178
. Tendo iden i icado nos anos an e io es alguns p ocessos que
sinaliza am ans o mações do que e am suas ca ac e ís icas demog á icas e e i o iais a é
en ão conhecidas, o obje i o conjun o e a jus amen e diagnos ica quais e como e am ais no as
dinâmicas, pa a pode baliza ações polí icas nes as zonas cen ais. En e os enômenos que as
au o idades locais p ocu a am comp eende es a am a in ensa eabili ação do edi icado, a
p esença de no os u en es da cidade, e, al ez a mais sensí el delas, a p essão in lacioná ia no
me cado imobiliá io
179
.
177
Google Maps, No /2020, disponí el em h ps://goo.gl/maps/XDn4pD j58n9ALKU6 [consul ado em 20/10/2021].
178
Assembleia Municipal de Lisboa. (2018a). No as dinâmicas u banas no cen o his ó ico de Lisboa.
Disponí el em: h ps://www.am-lisboa.p /452000/1/,000516/index.h m [úl imo acesso em 20/11/2021].
179
A associação en e u is i icação e p essão imobiliá ia nos a edo es do cen o his ó ico de Lisboa o nou-se
um ema sensí el em anos ecen es, ge ando a igos cien í icos, publicações na imp ensa, deba es polí icos e
medidas ju ídicas. Não osse pelo escopo emá ico mais delimi ado que ca ac e iza uma disse ação de mes ado,
se ia bas an e bem- indo inco po a al ques ão nes a in es igação. Apenas pa a exempli ica : na época des e
abalho de campo, eu mo a a em Ca ca elos, na á ea me opoli ana de Lisboa, e ce o dia me chamou a a enção
e , na i ine de uma imobiliá ia em minha izinhança, um anúncio de apa amen o à enda na G aça, em Lisboa
– uma localização um an o dis an e dali. Especi icamen e, me chamou a enção o ac o do ca az anuncia como
mais- alia a p oximidade do elé ico 28. Dizia o ex o: “Si uado num dos mais emblemá icos bai os an igos de
Lisboa com acesso ácil ao mi adou o de S a Luzia, Sé, Pan eão en e ou as e e ências do pa imónio da cidade
de Lisboa. T anspo es públicos acessí eis, nomeadamen e o amoso elé ico 28”. Ti ei uma o o pa a egis a
is o. Mas, dada a complexidade de cada uma des as en es emá icas (habi ação mobilidade u bana, u ismo e
sociabilidades no cen o his ó ico de Lisboa), al ez inco po a ainda ou o campo osse uma ideia mais ap op iada
88
Ao chega na Rua Escolas Ge ais, além do a o de e obse ado ali compo amen os
semelhan es p a icados po a o es sociais di e sos - como oi o caso, is o há poucos
pa ág a os, de an o “idosos locais” quan o “jo ens es angei os” desemba ca em nes a mesma
pa agem após e em ei o comp as na egião da G aça -, ambém o cená io onde os obse ei é
sin omá ico des as izinhanças en e empos, mobilidades e es ilos de ida a iados. Logo em
en e à pa agem, empa edada naquela ia es ei a e an iga po onde passa o eléc ico, encon a-
se uma unidade do Copenhagen Co ee Lab. Fundado na Dinama ca, em 2013, a a-se de “(...)
uma mic o- o e ação de ca é com 31 ca e e ias em oda a Eu opa e uma loja i ual pa a a
nossa comunidade eu opeia”
180
, que con a com unidades na Alemanha, F ança e Po ugal.
Se uma cadeia com dezenas de unidades sem dú ida con adiz a a i mação de se
“mic o”, mas al ez um con as e mais sensí el ao olha do que o do p óp io discu so da
emp esa seja o ac o de uma de suas iliais lisboe as
181
se encon a na Rua Escolas Ge ais, ão
es ei a e pouco acessí el a au omó eis. Sua p esença naquele local exempli ica, com uma
e são ambien ada em Al ama, a “domes icação pelo cappuccino” concei uada po Sha on
Zukin, onde as elações de pode sob e o espaço u bano não se dão somen e em e mos
inancei os, mas ambém cul u ais. “No os gos os deslocam aqueles dos esiden es de longa
da a, po que e o çam as imagens da e ó ica polí ica do c escimen o, o nando a cidade uma
zona de en e enimen o 24 ho as po dia, 7 dias po semana, com espaço segu o, limpo e
p e isí el, e bai os mode nos e so is icados” (Zukin 2010, 4)
182
. Ao ap o unda a análise,
Zukin en a iza que os gos os e es ilos que en ol em es es no os espaços de consumo podem,
g adualmen e, p oduzi comunidades cul u ais di e en es, com ipos di e en es de
sociabilidade. A au o a elaciona es a dinâmica com o ma ke ing e i o ial (que con ibui pa a
a a ação de luxos u ís icos) e o enca ecimen o do p eço da e a: “No as lojas e no as pessoas
p oduzem no os e oi s u banos, localidades com um p odu o e ca á e cul u al especí icos
a um escopo de p oje o de maio ôlego. Fica en ão, nes a no a, a suges ão em abe o, caso algum ou alguma
colega na pos e idade se in e esse em explo a es as in e conexões, nes e eco e da cidade, en e mobilidade
u bana, mo imen o u ís ico, sociabilidades e p essão in lacioná ia.
180
Assim a ede se ap esen a em sua página ins i ucional no Facebook T adução do au o . No o iginal, o echo
na ín eg a em inglês: “Copenhagen Co ee Lab is a co ee mic o oas e y wi h 31 co eeshops a ound Eu ope and
a web shop o ou eu opean communi y. Cu en ly do we ha e co eeshops and bake ies in Ge many, F ance
and Po ugal”. Disponí el em: h ps://www. acebook.com/cphco eelab/abou [úl imo acesso em: 20/11/2021].
181
Sim, po que há ou as seis na cidade. Segundo o sí io da emp esa (h ps://copenhagenco eelab.com ; úl imo
acesso em 20/11/2021], em Lisboa, o Copenhagen Co ee Lab em unidades na Baixa, na Es ela, em Alcân a a,
no Cais do Sod é, nos a edo es do P íncipe Real e duas unidades em Al ama. Se ia coincidência es es bai os
odos em em comum o a o de se em bas an e p ocu ados po u is as?
182
T adução do au o . No o iginal, em inglês: “New as es displace hose o long ime esiden s because hey
ein o ce he images in poli icians’ he o ic o g ow h, making he ci y a 24/7 en e ainmen zone wi h sa e, clean,
p edic able space and mode n, upscale neighbo hoods”.
89
que podem se come cializados em odo o mundo, a aindo u is as e in es ido es e o nando a
cidade segu a, embo a não ba a a, pa a a classe média” (ibidem). Não se ia es e o caso do
Copenhagen Co ee Lab, uma “no a loja” que ica logo em en e à pa agem R. Escolas Ge ais,
onde obse ei an o “no as” quan o "an igas" pessoas a anspo a suas comp as co idianas?
Pa agem es a po onde passa o eléc ico 28, ao aden a zonas his ó icas da cidade (Al ama,
Cas elo…), paisagens que ilus am an as ep esen ações de Lisboa is as no ma ke ing
e i o ial da cidade?
Ao mesmo empo em que pode se p ecoce já sen encia es a o mação de um “no o
e oi u bano” na Rua Escolas Ge ais e em Al ama como p ocesso i e e si elmen e
concluído - a é po que o pe íodo pandêmico a e eceu algumas o ças econômicas e
elocidades de ans o mação -, ambém se ia ingênuo assumi es a inse ção de “no os”
negócios (mic o ansnacionais) em luga es “an igos” como me a coincidência. É ac o, po
o a, que es e cená io híb ido onde o “ adicional-local” e o “mode no-global” con i em no
co idiano, o ma um odo a aen e ao olha u ís ico.
Imagem 19:
183
Com mais de 14 mil seguido es no Ins ag am [consul ado em 20/11/2021], o pe il O
Al acinha Viajan e dedica suas publicações a egis os de iagens, com des aque pa a paisagens e luga es em
Lisboa. Em maio de 2020, o pe il publicou es a o o, i ada de den o do Copenhagen Co ee Lab, em que o
elé ico 28 apa ece a passa .
183
Ins ag am (2020). O Al acinha Viajan e. Disponí el em: h ps://www.ins ag am.com/p/CAsS0i-nKXM/
[úl imo acesso em 20/11/2021].
96
Em 2015, oi inaugu ado o Ele ado de San a Luzia, conec ando ao mi adou o a pa e
baixa de Al ama, que ica no ní el do Tejo. “Um equipamen o que pe mi i á a mobilidade dos
mo ado es mais idosos, mas ambém o usu u o po pa e dos u is as, numa eguesia de
colinas”, comunica a na ocasião a au o idade local de Lisboa, anspa ecendo uma en a i a de
concilia in e esses de a o es sociais di e sos
194
. É inegá el que o equipamen o con ibui pa a
a mobilidade - sob e udo, e ical - de esiden es, ajudando a ence uma encos a íng eme que
pode se um aje o co idiano penoso pa a quem mo a na pa e al a ou baixa do bai o. Fac o
ambém é que, pa a quem desemba ca de um na io no Te minal de C uzei os de Lisboa, são
apenas 10 minu os de caminhada a é o local de emba que no ele ado , na Rua No be o de
A aújo
195
. Es e o ei o ecebeu um nome emblemá ico: “Pe cu so dos C uzei os aos
C uzados”
196
. Pa a quem a aca em Lisboa de manhã bem cedo ou no inal da a de e em ce ca
de um dia (ou somen e poucas ho as) pa a explo á-la, é um p og ama suges i o. Inclui
caminha po um bai o his ó ico, i a o os pano âmicas, e azulejos, o cas elo e,
possi elmen e, a é emba ca no 28.
Na pa agem Mi adou o de San a Luzia i o elé ico se enche de gen e, u is as em
especial, com o co edo a ica aglome ado de pessoas em pé
197
. Is o, mesmo ha endo um ou
ou o assen o li e, o que pa a mim suge e se em u en es que pe manece iam po poucas
pa agens. Cheguei a obse a uma jo em alan e de ancês, em pé, com uma mão a segu a na
ba a de apoio do elé ico, e com a ou a a segu a um pas el, que ia comendo. Mas, se a
associação com o u ismo de massa dos c uzei os e um ce o “modo as - ood” de consumi
a ações da cidade me chamou a enção ali, o mesmo oco eu ambém com in e ações amis osas
em meio a si uações co idianas de um anspo e público. Como quando uma amília de qua o
pessoas (pai, mãe, ilhos adolescen es), odos de másca a e o pai com um mapa nas mãos,
chamou o elé ico nes a pa agem
198
. No ins an e em que o eículo encos ou, um idoso que se
ap oxima a pelo passeio ez menção de subi an es deles. Ao pe cebe que es a a p es es a
194
Câma a Municipal de Lisboa, “Te aços do Ca mo e Ele ado de San a Luzia inaugu ados”, publicado em
10/6/2015. Disponí el em: h ps://www.lisboa.p /a ualidade/no icias/de alhe/ e acos-do-ca mo-e-ele ado -de-
san a-luzia-inaugu ados [úl imo acesso em 20/11/2021].
195
Con o me o a a pé açada no Google Maps, disponí el em: h ps://goo.gl/maps/ x4MR5sBCWCyPwV7
[úl imo acesso em 18/11/2021].
196
Câma a Municipal de Lisboa, “No as acessibilidades à Colina do Cas elo”, disponí el em:
h ps://www.lisboa.p /cidade/u banismo/espaco-publico/no as-acessibilidades-a-colina-do-cas elo [úl imo
acesso em 20/11/2021].
197
Es e pa ág a o oi baseado nos egis os em diá io ealizados na Visi a 4 (26/8/2020), Visi a 11 (16/10/2020)
e Visi a 14 (28/10/2020).
198
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 4 (26/8/2020).

97
u a a ila, o idoso pediu desculpas, em po uguês. O pai da amília espondeu na mesma
língua: “Podes passa , emos que paga ”. O idoso não passou: pe maneceu a agua da o
emba que da amília. E complemen ou, bem-humo ado: “Es á udo bem. Eu não pago!”, ao
que se segui am isos.
O 28 con inua a desce a colina
199
. Tendo em is a o mo imen o de u is as a lana
pelo passeio es ei o à di ei a, que po ezes dão passos inespe ados no alca ão, o gua da- eio
oca a campainha epe idamen e pa a chama -lhes a a enção
200
. É uma o ma de poluição
sono a com a inalidade de e i a aciden es, à qual se ac escen a o uído es iden e dos a ões
quando acionados, passí eis de audição bem an es que se isualize o eléc ico su gi na ua.
Embo a se obse em u is as no elé ico e pelas janelas, seu luxo de emba que e
desemba que oi menos equen e na pa agem seguin e, Limoei o. Hou e ocasiões em que o
elé ico seque pa ou ali, e is o acabou po se e le i em poucos egis os apon ando es a
localização em meu diá io. Em mais uma in e ação amis osa en e desconhecidos, semelhan e
a ou as que já es emunha a, obse ei quando, seguindo a o ien ação de uma senho a
po uguesa, um g upo de ês senho as alan es de inglês desceu nes a pa agem. Não sem an es
despedi em-se, ag adecidas. No con ex o des es encon os, a in o mação de um “na i o” sob e
a cidade é uma dádi a ao “ o as ei o”. Nes a pa agem i ambém emba ca em duas mulhe es,
que p esumi mãe e ilha, com uma mala de iagem cada uma. Sen a am jun as num banco
duplo, e deposi a am as malas no chão do co edo , bem p óximas a si. Da a pa a pe cebe a
p eocupação das duas em não obs ui (po ém já obs uindo em pa e) a passagem. Ponde e-se
ambém que o espaço ocupado po seus pe ences não e a supe io ao espaço ocupado pelas
sacolas de comp a que me acos umei a e emba ca em na G aça.
“É impossí el não se c uza com a Sé na sua es adia em Lisboa: que suba ao Cas elo,
que apanhe o 28, que a a esse o io ou con emple a cidade a pa i dos á ios mi adou os
i ados a es e (…)”, dec e a o Tu ismo de Lisboa
201
. Não obs an e a ig eja his ó ica se ci ada
como um dos cinco monumen os mais isi ados na cidade po u is as (Obse a ó io Tu ismo
de Lisboa 2019, 3-4 e 23), du an e meu abalho de campo, assim como no Limoei o, nes a
pa agem não hou e um luxo ma can e de passagei os no elé ico. Conjec u o se não é um
pon o mais isi ado a pé, uma ez que a caminhada é um meio de locomoção e a i idade de
199
Es e pa ág a o e o p óximo o am baseados nos egis os em diá io ealizados na Visi a 5 (31/8/2020), Visi a
9 (9/10/2020) e Visi a 13 (26/10/2020).
200
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 5 (31/8/2020).
201
Visi Lisboa, “Sé Ca ed al”, disponí el em: h ps://www. isi lisboa.com/p -p /locais/se-ca ed al [úl imo
acesso em 20/11/2021].
98
laze ambém bas an e p a icada po u is as na cidade (Ibidem, 18). Ou pelo meio de
locomoção o e ecido po um ope ado u ís ico con a ado, como po exemplo os uk- uks que
cos umam se is os ci culando ou es acionados em en e à Sé.
Toda ia, oi an es de alcança a pa agem Sé, ambém em en e à ig eja, que
es emunhei um episódio en ol endo alguma ensão associada ao con ex o pandêmico
202
. O
gua da- eio pa ou o elé ico, desligou o mo o e, sem abandona seu pos o, gi ou o p óp io
co po no sen ido dos passagei os. I i ado, anunciou pa a odos que a másca a é de uso
ob iga ó io no elé ico, e que é p oibido se deb uça nas janelas do eículo. Es e inha sendo,
p ecisamen e, o compo amen o de uma jo em u is a sen ada logo à minha en e. Se
inicialmen e di igia-se ao cole i o de passagei os, o gua da- eio en ão apon a pa a ela. A
ga o a en ende, o a ende, e na mesma ho a coloca sua másca a de ol a. A é seu desemba que,
na Baixa, não a ejo mais se deb uça na janela. Pe cebo que ela ala em ancês com seu
acompanhan e, o que me le a a c e que, mesmo se não comp eendeu as pala as exa as da
ep eensão que ecebeu, ela sabia no quê es a a e ada. O apaz apa en a a mesma idade que
ela, mas seu compo amen o no 28 não e a igual ao dela, passí el de p o es o; assemelha a-se
mais ao dos demais u en es. Quando eliga o mo o , o gua da- eio exclama um desaba o inal
que, a mim, soou na i is a: “Que es mo e ?! Vais mo e no eu país! Não no meu!”.
Ao c uza o La go Madalena, o elé ico 28 deixa pa a ás as ladei as, cu as e ielas
medie ais que ca ac e izam os bai os po onde Lisboa começou a se cons ui , e aden a o
açado iluminis a de a qui e u a es anda dizada da Baixa Pombalina, epicen o da econs ução
da cidade após o e amo o que, no século XVIII, di idiu sua his ó ia en e an es e depois. Se
as linhas do desenho u bano condicionam o mo imen o do eículo e, consequen emen e, a
expe iência senso ial de iaja em seu in e io , du an e as oi o quad as des e echo os
sola ancos e uídos são amenizados.
Seguindo e o pela Rua Conceição, as janelas à di ei a e à esque da expõem mon as
em sé ie de comé cios ao ní el do és-do-chão. Há lojas abe as em ou os empos que
pe manece am a é o p esen e (ga a ei a, ba bei o, queija ia, ou i esa ia e, p incipalmen e,
e osa ias
203
), e há lojas abe as em anos ecen es que p ocu am emula empos passados
204
.
202
Es e pa ág a o oi baseado nos egis os em diá io ealizados na Visi a 3 (20/8/2020).
203
Somen e no in e alo de qua o qua ei ões en e a Rua da P a a e a Rua Áu ea, há cinco e osa ias
con empladas no p oje o Lojas com His ó ia, que busca p omo e es abelecimen os a aliados como pa imónio
cul u al pelo g upo de abalho esponsá el. Ve mais em: h p://lojascomhis o ia.p / [úl imo acesso em
22/11/2021].
204
Como os dois comé cios de conse as po uguesas que icam en e a en e, um de cada lado da ua, na
esquina com a Rua da P a a. E guidas pa a a ai o ou is gaze (U y 2002), há polêmica em o no de lojas assim
que, em ma é ia na imp ensa, o am chamadas de “ alsos comé cios an igos”. Ve jo nal Diá io de No ícias
99
Há agências bancá ias de odas as bandei as, e um ou ou o es au an e e ho el. Há ambém
minime cados e, em maio núme o, lojas de sou eni . Nes as, in a ia elmen e, é possí el e
expos as nas mon as éplicas do elé ico 28 em escalas di e sas. João, en usias a dos elé icos
com quem con e sei, me chamou a a enção pa a o ac o de que nem odas es as “lemb anças
de Lisboa” à enda no cen o his ó ico ep oduzem o elé ico 28 que pe co e as uas da cidade.
“Ou o dia, há pouco empo, nas lojas de sou eni , es ás a e ? No meio inha um modelo….
Faz de con a que e a o nosso. E eu disse ao endedo , o dono e a um indiano. ‘Olha, es e
elé ico não é o nosso. É mui o boni o, mas não é!’
205
. Po im, na Rua Conceição há ambém
es abelecimen os de olu os ou cobe os po apumes. Do pe íodo em que ealizei o abalho de
campo a é es e momen o em que edijo a disse ação, a imp ensa po uguesa cob iu em ma é ias
a iadas os impac os da pandemia no comé cio da Baixa, bas an e dependen e da demanda que
os luxos u ís icos p opo cionam. Es ima-se que passa de uma cen ena o núme o de
es abelecimen os ence ados só naquela zona du an e o pe íodo pandêmico
206
.
A pa agem R. Conceição é ce amen e uma das mais mo imen adas da ca ei a no luxo
de emba que e desemba que de passagei os
207
. Mui os u is as en e eles, que, dada a
localização p óxima a ho éis, à Rua Augus a e ao Te ei o do Paço, é de se imagina que desçam
ali em con inuação ou ence amen o de seu o ei o pa a o dia. Já en e os que emba cam nes a
pa agem, é possí el que subam ali como pa e de sua p og amação u ís ica - ou a é de o ma
mais imp o isada, po opo unidade. Assim como a pa agem Mi adou o San a Luzia, es a
ambém ica a uma dis ância caminhá el desde o Te minal de C uzei os de Lisboa, o que
ambém pode con ibui pa a que haja conexões en e os emba ques e desemba ques em um e
no ou o
208
.
Tan o as lojas come ciais da p óp ia ia - sob e udo, as de conse as po uguesas -
quan o seu c uzamen o com a Rua Augus a exe cem um e ei o magné ico sob e as câme as dos
passagei os, que chegam a se mo imen a no in e io do eículo pa a consegui os melho es
(2016a), Depois dos pas éis, ago a uma ilegalidade com as enguias. Disponí el em:
h ps://www.dn.p /sociedade/depois-dos-pas eis-ago a-uma-ilegalidade-com-as-enguias-5087226.h ml [úl imo
acesso em 20/11/2021].
205
En e is a ealizada p esencialmen e com João de Aze edo em 23/5/2021, aos 59’50 de g a ação.
206
Con o me ma é ia do canal SIC No ícias (2021b), “En e as lojas que echa am pa a semp e e as que
esis em…”, disponí el em: h ps://sicno icias.p /especiais/co ona i us/2021-07-23-En e-as-lojas-que-
echa am-pa a-semp e-e-as-que- esis em-o- e a o-da-baixa-pombalina-0a597043 [úl imo acesso em
3/11/2021].
207
Es e pa ág a o e os dois seguin es o am baseados nos egis os em diá io ealizados na Visi a 4 (26/8/2020),
Visi a 9 (9/10/2020), Visi a 12 (23/10/2020), Visi a 13 (26/10/2020) e Visi a 14 (28/10/2020).
208
Pouco mais de um quilôme o, que podem se pe co idos em ce ca de 15 minu os. Con o me o a a pé açada
no Google Maps, disponí el em: h ps://goo.gl/maps/wMSSJKVbypkp b7dA [úl imo acesso em 1/12/2021].
100
cliques. Os dois sen idos da ca ei a 28 pe co em pa alelos es a ua, em linha e a e plana, e
oi possí el obse a o elé ico passa bem p óximo no sen ido con á io, ambém com á ios
u is as a con empla o que iam pelas janelas. De cá, egis os o og á icos do elé ico de lá, e
ice- e sa. En e os que ali emba cam, há igualmen e uma p eocupação especial em egis a o
passeio em imagens, sem pe de uma cena, desde o momen o em que se acomodam. Em uma
mesma ocasião, obse ei dois casais de u is as que subi am na pa agem R. Conceição. O
p imei o es imei e na aixa dos 50 anos; ala am ancês. O homem azia um guia u ís ico
en iado no bolso de ás da calça, e já subiu com uma câme a na mão. Sen ou-se sozinho em
um banco duplo à esque da, sepa ado da mulhe com quem chegou, e não i ou mais olhos e
len es da janela, a é o momen o de desemba ca . O segundo e a alan e de espanhol e de ia e
no máximo 30 anos. Ambos se acomoda am no assen o ese ado, po ém sepa ados: o homem
no assen o à esque da, a mulhe no assen o à di ei a. Os dois o am ilmando com seus
elemó eis o pe cu so in ei o pelo empo que lá pe manece am, a a és da janela dian ei a do
elé ico - es a am nos assen os mais p óximos do gua da- eio. Me pa ece am e subido ali
com es e exa o plano.
Em ou a ocasião, naquela pa agem i emba ca um io de amigas na aixa dos 20 anos,
alan es de ancês. Enquan o es i e am no elé ico, seu compo amen o em nada se sob essaiu
daquilo que obse ei como o inei o no elé ico - seja da pa e de u is as, ou mesmo de
“locais”. O que o nou sua p esença chama i a (ao menos, pa a mim) oi que, a a és de seus
pe ences e ado nos, ainda que i e le idamen e, elas os en a am um pode de enda dis in o ao
e elado pelos obje os de ou os u en es. Uma, duas, ou as ês exala am um pe ume o e,
que se alcançou meu ol a o na dis ância em que eu es a a, ce amen e ambém se ez no a po
ou os passagei os. Além de maquiagens, acessó ios dou ados e co es de cabelo semelhan es,
as ês calça am ênis b ancos, cada pa de uma di e en e ma ca in e nacionalmen e
conhecida
209
. As ês ca ega am bolsas que me pa ece am ca as. Como eu desconhecia as
ma cas es ampadas nelas, omei no a de uma, pa a depois busca in o mações a espei o na
in e ne - e descob i se de uma g i e i aliana p es igiada, cujos p eços podem a ia en e
cen enas e milha es de dóla es po bolsa
210
. Is o no mesmo modal do anspo e público lisboe a
em cuja pa ede in e na há um a iso a ixado, dizendo em língua po uguesa, inglesa e ancesa
pa a e “Cuidado com os ca ei is as”. Tem algo de pa adoxal em os en a pe ences cujo
209
Nomeadamen e, das ma cas Puma, Adidas e Fila.
210
A igno ância de pa ida e a oda minha, pois mui o possi elmen e quem lê is o ago a conheça há empos a
ma ca, e enha noção dos p eços de seus p odu os. Chama-se Moschino, e conside emos que se a a a de p odu os
“o iciais” - e não con a ei os. Os p eços encon ei no comé cio ele ônico da emp esa, disponí el em:
h ps://www.moschino.com/us_en/moschino/women/bags/handbags.h ml [acesso em 25/7/2021].
101
consumo é inacessí el pa a mui os num luga público onde a p eocupação com u os é
explici ada a é na comunicação ins i ucional.
Passada a Rua da Conceição, a ca ei a segue po ou o echo de encos a: a colina do
Chiado. Embo a es ejam ainda em meio à zona cen al, onde há mui a ci culação de u is as, as
duas pa agens nes e in e alo íng eme (uma é a Lg. Academia Nacional Belas A es; a ou a é
a R. Vi o Co don / R. Se pa Pin o) não i e am mo imen os e compo amen os egis ados em
diá io
211
. Obse ei poucos emba ques e desemba ques po ali, de pessoas a u ismo ou não.
Vencida a subida, o elé ico encon a a pa agem Chiado logo que en a no la go de
mesmo nome
212
. De on e a ela ica a escada ia de en ada pa a a es ação de me o Baixa-
Chiado, a ás da qual se espalham esplanadas. Alguns a is as de ua, co idianamen e is os
nes e pedaço, di ecionam suas ap esen ações pa a quem po en u a ocupe es as esplanadas; um
papel que de modo habi ual é desempenhado po u is as, que ap o ei am pa a i a uma o o
com a es á ua de Fe nando Pessoa localizada ali ambém. T a a-se um dos luga es mais
u ís icos de Lisboa, con e ido po quase 100% das pessoas que isi am a capi al po uguesa
(Obse a ó io Tu ismo de Lisboa 2019b, 23). Já a pa agem seguin e, homônima e em en e à
P aça Luís de Camões, em a especi icidade de se um pon o de encon o pa a excu sões
u ís icas ealizadas a pé. Ao passa po ali, pude obse a g upos a se o ma em, cada um em
o no de uma pessoa com um gua da-chu a colo ido - seu p o á el guia na ocasião
213
.
A obse a pela janela do elé ico, o mo imen o de u is as nos en o nos da pa agem
Chiado e da pa agem Pç. Luís Camões me pa eceu um só, con íguo. A dis ância en e uma e
ou a se pe co e a pé, em dois minu os
214
, e pelos passeios públicos des e in e alo iam-se
g upos maio es ou meno es de u is as a i e i , caminhando quase que aglome ados. Dado o
desenho in incado da malha u bana nes e e alho, ambém o ânsi o de eículos di e sos
p o oca aglome ações, e ob iga seus agen es a imp o isa negociações sob e o espaço. Como
211
Pelo menos, não no sen ido da ca ei a em que po o a es amos. No capí ulo 4.7 (“Pe didos e achados no
e o no”), passa emos po algumas obse ações egis adas nes e echo especí ico.
212
Es e pa ág a o e os ês seguin es o am baseados nos egis os em diá io ealizados na Visi a 4 (26/8/2020),
Visi a 9 (9/10/2020), Visi a 10 (14/10/2020), Visi a 11 (16/10/2020), Visi a 13 (26/10/2020) e Visi a 14
(28/10/2020).
213
Algumas in es igações acadêmicas ealizadas na úl ima década em Lisboa examinam de modo ap o undado
como a cidade é ap esen ada a u is as a a és do abalho des es p o issionais. Ca a ina F ei e Leal acompanhou
dois guias de u ismo “al e na i o” em passeios pelo cen o his ó ico de Lisboa, obse ando an o sua manei a
“o icial” de in o ma sob e a cidade, quan o suas opiniões e c í icas pa icula es nos bas ido es (Leal 2014). Já
Gab iela Le y Dinkhuysen explo ou os undamen os do concei o de “desen ol imen o sus en á el” pa a an o
a alia os impac os das p á icas de guias con empo âneos, quan o en a p opo no as o mas de a uação nes e
sen ido (Dinkhuysen 2017).
214
Con o me o a a pé açada no Google Maps. Disponí el em: h ps://goo.gl/maps/8WH9hSSH k1yeNQR8
[úl imo acesso em 20/11/2021].

102
quando, na esquina em que o La go do Chiado encon a a Rua da Mise icó dia, dois ca os
a ança am en e ao semá o o que ica a e melho, e assim obs uí am os ca is do eléc ico.
O gua da- eio pôs-se en ão a soa a campainha, sem cessa , a é que saíssem do caminho.
Alguns a o es e modos de a ua obse ados no in e io do elé ico e já analisados ao
longo des e ex o ambém se epe i am aqui, como o de pessoas que emba cam jun as e iajam
sepa adas. Após subi na pa agem Pç. Luís Camões, i quando uma amília de alan es de
ancês (pai, mãe e duas ilhas adolescen es) ep oduziu es e compo amen o. O pai ocupou
sozinho o assen o ese ado duplo à di ei a. A ilha mais no a ocupou sozinha o assen o
ese ado à esque da. A mãe e a ou a ilha ica am jun as, em um dos assen os duplos
egula es, mais ao undo do elé ico. Foi nes a mesma al u a onde obse ei dois passagei os
adul os que, pelos aços eno ípicos, p esumi se em nascidos (ou descenden es de nascidos)
em algum país sul-asiá ico, como Índia ou Bangladesh. Ao mesmo empo em que não le a am
obje os que indicassem se em u is as (como sandálias espo i as, mochilas, chapéu, óculos
escu os, câme as em punho, guias de bolso, mapas…), e sim que e am esiden es em uma
si uação co idiana de uso do anspo e público, um apon a a pa a o ou o e as cenas que
passa am pela janela. Na p á ica, es a am a aze u ismo, con emplando as paisagens da
cidade e eladas pelo mo imen o do elé ico. Mas, al ez, es i essem a azê-lo sendo
mo ado es, e não isi an es de Lisboa, o que e o ça no amen e a pe spec i a do u ismo como
o ma de dwelling (Pons 2003).
En e o Chiado e o Camões, nos en o nos das suas pa agens, a apa ição do 28 a ai o
olha e aciona o egis o o og á ico dos anseun es de o ma quase au omá ica. De den o do
eículo, é pe cep í el como as a enções à ol a se i am pa a nós, passagei os, in a ia elmen e
acompanhadas po len es o og á icas de elemó eis. Como se o elé ico osse uma espécie de
espe áculo g a ui o, encenado no espaço público em ho á ios egula es, pa a con emplação de
espec ado es que se encon am em luga es u ís icos ao edo de sua ca ei a
215
. Qualque
u en e do elé ico, u is as aí incluídos, ao emba ca no 28 pa a se locomo e de um pon o a
ou o de Lisboa (po laze , de e ou pelo mo i o que i e ), ine i a elmen e é inco po ado
como igu an e des e espe áculo. Em ca az, aquela ep esen ação isual da cidade de que
mui os oma am conhecimen o an es de isi á-la co po almen e, (a a és de uma publicação de
digi al in luence , ma é ia no jo nal, p og ama de TV, anúncio publici á io, ela os de
amigos…) ago a ap esen ada em uma pe o mance ao i o. Além de seus signi icados de
anspo e público e de luga u ís ico pa a quem nele emba ca, o elé ico 28 é ambém
215
Como no ca é A B asilei a, no Chiado, ou na esplanada na P aça Luís de Camões, po exemplo.
103
en e enimen o isual pa a quem o con empla de o a. Ao mesmo empo em que, ao aze
u ismo em Lisboa, alguém pode consumi o elé ico 28 (passea nele; comp a um sou eni
que o eplica em minia u a; aze uma e eição em um es abelecimen o odo deco ado com o
ema dele…), ao egis á-lo isualmen e e compa ilha es a imagem com ou os po enciais
isi an es, es e u is a con ibui pa a a ep odução da a a i idade u ís ica de Lisboa.
Sendo o oço en e as pa agens Chiado e Pç. Luís Camões um eco e da cidade no ó io
po a ai e concen a luxos de u is as, é comp eensí el que es a sensação, de se pe cebe
como “obje o cênico” de ep esen ações isuais p oduzidas po ou os, enha se mani es ado
de manei a mais pe cep í el po ali. No en an o, ao longo da ca ei a como um odo, a si uação
oi um pad ão eco en e. Vi is o oco e no Chiado, mas ambém na Rua Escolas Ge ais, no
La go Po as do Sol, na descida da Sé, na esquina da Rua Augus a
216
, e em ou os echos po
onde ainda passa emos. A cada esquina lisboe a c uzada pelo elé ico, pode ia su gi uma
câme a apon ada pa a nós. Mui as, po opo unidade, de manei a imp o isada. Ou as com um
pouco mais de delibe ação. Po ezes, oi possí el pe cebe a pessoa p e iamen e na ua, com
a câme a ou elemó el apon ado pa a um enquad amen o especí ico da paisagem, agua dando
o elé ico (onde eu me encon a a) passa pa a se encaixa no ângulo imaginado. Hou e
ambém quem agisse em dupla: uma pessoa ica a esponsá el po es e enquad amen o écnico,
e a ou a agua da a em cena a en ada do elé ico pa a com ele con acena no egis o isual.
Du an e es es p epa a i os, em que a cena já es á mon ada e al a apenas o elé ico en a em
sua posição, consegui algumas ezes egis a a si uação. Es as ocasiões, em que as len es de lá
e de cá con e giam no meio e di e gi am no im, me pa ecem sin e iza , com uma imagem
e ossímil, a di e ença no campo en e an opólogo e u is a. Pelo menos, no con ex o da minha
in es igação. Um u is a emba ca no elé ico e i a o os da cidade, ou ci cula pela cidade a
i a o os do elé ico. Es e an opólogo i ou o os do u is a a i a o os, no e do elé ico.
216
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 1 (15/7/2020), Visi a 3 (20/8/2020), Visi a 4 (26/8/2020), Visi a
11 (16/10/2020, Visi a 13 (26/10/2020) e Visi a 17 (10/11/2020), Visi a 18 (11/11/2020).
104
Imagens 23, 24 e 25: Qualque passagei o do elé ico em qualque momen o e em qualque pon o da
ca ei a 28 pode i a se o og a ado. Regis adas pelo au o em 15/7/2020 (Img 23); 9/10/2020 (Img
24) e 14/10/2020 (Img 25).
105
Imagem 26: E qualque pessoa p óxima a qualque pon o da ca ei a 28 em qualque momen o pode i a se o og a ada
po um passagei o qualque do elé ico. Regis ada pelo au o em 16/10/2020.
Mesmo du an e minhas úl imas isi as de campo, com uma ausência isí el de u is as
no elé ico e na cidade, po ezes ainda pude obse a pessoas posicionadas com suas câme as,
em esquinas es a égicas, pa a egis a o 28 em de e minado cená io. O que me le a a in e i
que es e compo amen o a é em bas an e sine gia com a a i idade u ís ica, mas não depende
dela. É um compo amen o que pe ence mais ao elé ico do que ao u ismo, sendo ambos
aspec os co idianos de Lisboa nes e início de século XXI. Se uma das imagens de Lisboa mais
acilmen e econhecí eis (e “expo adas”) é a do elé ico ambien ado nos bai os his ó icos
pe co idos pela ca ei a 28, en ão quaisque ep esen ações isuais que se p oduza de Lisboa
(em o ma os jo nalís icos, publici á ios, pa a en e enimen o….) podem i a con e algum
egis o do elé ico 28. Is o pode inclui , po exemplo, a g a ação de uma epo agem, uma
eleno ela, um ensaio edi o ial de moda, ou a p odução de um po ólio p o issional de
o óg a o. Em no emb o de 2020, omei no a da p esença no Mi adou o de San a Luzia de uma
equipe de ilmagem a mon a seu se de g a ação
217
. E am equipamen os p o issionais e uma
equipe nume osa. Não e a um indi íduo a aze ik- oks, s o ies e sel ies com seu elemó el
217
Es e pa ág a o oi baseado nos egis os em diá io ealizados na Visi a 16 (9/11/2020) e Visi a 19 (12/11/2020).
112
sido es e ambém um caso de “solução p e is a pa a si uações imp e is as”, uma espos a
p og amada pa a ci cuns âncias ex ao diná ias que se mos am equen es? Como algum
p oblema mecânico, algum a aso nas escalas de ho á io, ou alguma ques ão p i ada da gua da-
eio que p osseguiu sem passagei os? Fac o é que, sendo o 28 an o meio de anspo e público
quan o luga u ís ico, os e en os inespe ados da o ina do anspo e público impac am a
expe iência u ís ica, assim como os imp e is os co idianos de um luga u ís ico podem
in e e i no i ine á io do anspo e público.
O echo em acli e e mina quando chegamos à P aça da Es ela, onde à esque da e gue-
se em escala monumen al a Basílica da Es ela e, à di ei a, de en e pa a ela, se encon a o
e de Ja dim da Es ela. En e uma e ou o ica a pa agem, que ambém le a es e mesmo nome.
Ao desemba ca nela, logo ao lado do po ão do ja dim, um quiosque cuja es é ica mime iza o
elé ico come cializa insumos. “A Basílica da Es ela é um pon o de pa agem ob iga ó io em
Lisboa. É ainda li e almen e um pon o de pa agem do elé ico 28, que ambém é ob iga ó io na
sua isi a a Lisboa”, dec e a o Tu ismo de Lisboa, com opção de lei u a em ou os cinco
idiomas
231
. Es e é, po an o, um luga u ís ico “o icialmen e” ecomendado na cidade. E
du an e es a in es igação oi possí el cons a a que ha ia, sim, quem pegasse o elé ico 28 a
passeio com a in enção de desce aqui, azendo an o do im quan o do meio pa a lá chega um
p og ama u ís ico in eg ado.
No início de minha obse ação, e a comum ha e ocas nes a pa agem, en e u is as a
iaja den o e u is as a agua da o a do elé ico
232
. Em mais de uma ocasião, obse ei
passagei os es angei os a en a se in o ma sob e qual a pa agem ce a a desce pa a isi a
“a Es ela”. Ce a ez, es á amos na pa agem Rua da G aça quando emba cou uma amília de
u is as. Em língua po uguesa, mas com uma p onúncia bem ca egada de acen o es angei o,
o ilho adolescen e (que es a a jun o com aquelas que imaginei se em sua mãe e i mã caçula)
pe gun ou ao gua da- eio: “Bai o Es ela?”. O gua da- eio espondeu com um aceno
de cabeça a i ma i o, po ém silencioso. Ao nos ap oxima mos dali, le an ei-me do meu
assen o, e dei alguns passos a é o banco onde a amília es a a pa a p o-a i amen e lhes a isa
da pa agem. Ainda que enha sido abo dado em inglês, a p imei a eação do adolescen e oi
e u a minha in e ação: “No, no, no!”. Tal ez enha p esumido que eu es a a a pedi ou
231
Visi Lisboa, “Basílica da Es ela”, disponí el em: h ps://www. isi lisboa.com/p -p /locais/basilica-da-
es ela [úl imo acesso em 20/11/2021].
232
Es e pa ág a o oi baseado nos egis os em diá io ealizados na Visi a 1 (15/7/2020), Visi a 7 (1/10/2020) e
Visi a 8 (7/10/2020).

113
o e ece algo
233
? Insis i: “You wan ed o go o Es ela, igh ?”. “Yes!”, ele po im en endeu.
“I ’s he e”, indiquei. Ele não me ag adeceu, mas pude e que a amília desceu naquela
pa agem - e eu ol ei pa a o assen o onde an es es a a. Em ou a ei a, ainda no Ma im Moniz,
com o elé ico pa ado an es de pa i , obse ei uma mulhe sono amen e po uguesa pe gun a
ao gua da- eio: “Bom dia! Vai pa a a Es ela, não ai?”. Após a espos a a i ma i a, ela en ão
epassou es a con i mação, alando em inglês, pa a ou as duas mulhe es.
Nes a pa agem, em pelo menos qua o isi as dis in as, obse ei uma oca de u nos
en e gua da- eios
234
. Ou seja, em meio a uma iagem da ca ei a, ao encos a na pa agem
Es ela, um gua da- eio saiu e ou o di e en e en ou, con inuando a conduzi o elé ico a pa i
dali. Me pa eceu inusi ado quando, na p imei a ez, i o gua da- eio desliga o mo o na
pa agem, pega sua mala de mão e numa banana, e sai do eículo sem dize qualque coisa.
Não demo ou pa a que ou o gua da- eio, ajando uni o me idên ico, assumisse seu pos o,
ambém sem se comunica com os passagei os. Na ez seguin e, o abalhado que ence ou
seu u no alou algo sob e os a ões, mas pa a o subs i u o, e en ão se despediu dele: “Vou-me
embo a. Bom se iço!”. Dada a epe ição, ano ei: “(…) há en ão algum ipo de pad ão; é no mal
acon ece em es as ocas du an e o aje o”. Na qua a ez, o gua da- eio que conduzia o
elé ico, ao se ap oxima da pa agem, ocou a campainha de manei a ené ica e epe i i a. Já
es á amos na “segunda onda” de minha obse ação e oi na penúl ima incu são ao campo que
ealizei. Somen e nes a ocasião, e em i ude des e ala ido, pe cebi ha e , bem ao lado da
Basílica, uma gua i a onde se encon a am ou os uncioná ios uni o mizados da Ca is. Eles
acena am de ol a pa a seu colega, que acaba a de chega ao que, en ão en endi, é um pos o de
abalho (e, po que não, pon o de encon o?) do es a e. De lá, um deles eio caminhando,
azendo sua mochila. O gua da- eio desligou o mo o , pegou seus pe ences pessoais e
desemba cou. No passeio da pa agem, ainda ocou algumas pala as com seu subs i u o, e
ambos se despedi am, com o úl imo a assumi o expedien e
235
.
233
Não nego que, indi e amen e, eu inha, sim, segundas in enções. Àquela al u a do abalho de campo eu ainda
não consegui a es abelece diálogos com ou os u en es do elé ico. O e ece ajuda a u is as oi uma das á icas
que imaginei pode em se uma po a de en ada pa a in e ações mais consis en es. Assim, eu es a a a imp o isa
nes e momen o, mas não, não oi e icien e. Nenhuma das con e sas e en e is as com “o ou o” que i e nes a
in es igação começa am com um o e ecimen o de ajuda da minha pa e. Nes e caso especí ico, acabei po ajuda
alguém que não me pediu ajuda – e que pa eceu es anha es a abo dagem. Re le indo sob e is o, en endi que es a
não e a uma boa e amen a pa a meus obje i os, e logo a abandonei.
234
Es e pa ág a o e o p óximo o am baseados nos egis os em diá io ealizados na Visi a 4 (26/8/2020), Visi a
5 (31/8/2020), Visi a 18 (11/11/2020) e Visi a 19 (12/11/2020).
235
No deco e des as isi as, es e luga se e elou um bom sí io pa a abalho de campo. Fazia pa e dos meus
planos ealiza algumas isi as especí icas pa a obse ação somen e dali. Não ossem as ques ões que me le a am
a suspendê-las (con o me desc i o no capí ulo 3.2 – “P imei a aga”).
114
Ressal e-se que, assim como em nenhuma des as oco ências hou e qualque
comunicação o icial pa a os u en es, ampouco obse ei ques ionamen os ou eclamações po
pa e des es, no que pa a mim acabou po cons i ui uma e são di e en e daquilo que já oi
aqui chamado de “imp e is o p e is o”. Di e en e po que, pa a a equipa dos gua da- eios,
nada pa eceu imp e is o, dado que subs i uídos e subs i u os já es a am engajados nis o. Já
pa a os passagei os (ao menos, aqueles que pe cebe am), sim. Po ou o lado, ainda que seja
inusi ado obse a o gua da- eio deixa a condução do elé ico pa a ás em meio à ca ei a,
não hou e demo a em e oma o mo imen o, des io do pe cu so ou oca de eículo. Ainda
que pudesse pa ece uma si uação inespe ada, a “solução” já es a a p e is a.
Imagem 28:
236
O ja dim, a pa agem, a basílica e, à esque da, a gua i a ama ela do s a e da Ca is; o cená io ao chega na Es ela.
Quando a Es ela ica pa a ás, al a pouco pela en e a é a pa agem inal. Em no o
echo de (nes e caso, le e) subida, saímos da egião mais cen al de Lisboa pa a en a na
a bo izada eguesia de Campo de Ou ique. Onde as uas são la gas, assim como os passeios,
e as cu as não são b uscas como nos bai os mais an igos da cidade, po onde já passamos.
236
Google Maps, no /2020. Disponí el em: h ps://goo.gl/maps/dKb8bBYYnD1ak ya7 [úl imo acesso em
20/11/2021].
115
Na Rua Domingos Sequei a há uma pa agem com es e mesmo nome
237
. Hou e uma
ez em que, já endo passado po ela, o mo imen o do elé ico oi in e ompido pa a agua da
um caminhão da Câma a Municipal de Lisboa que, à nossa en e, ecolhia mó eis e obje os
de po e desca ados na ua. Fo am quase dez minu os de espe a, du an e os quais o elé ico oi
ul apassado po ca os e mo as, que pa a an o in adiam a con amão. Alguns passagei os
começa am a se inquie a . “Eu podia desce aqui?! Ob igado!”, um apaz pediu - e oi a endido
mesmo o a da pa agem. Ou os en ão o segui am. Quando o caminhão po im libe ou a ua,
ao passa mos po ele pude obse a uma banhei a e uma máquina de la a oupa em sua
caçamba. Na “segunda onda” de minha obse ação, egis ei uma ocasião em que os p imei os
u is as “ isí eis” que obse ei no elé ico emba ca am nes a pa agem. E a um casal que, ao
en a , cump imen ou o gua da- eio com um “Olá!”. A semelhança pode e sido me a
coincidência, mas oi na mesma época do abalho de campo em que, con o me analisado
alguns pa ág a os a ás nes e ex o, egis ei em diá io a sensação de que es a a a obse a uma
equência maio de in e ações mais co diais en e u en es e gua da- eios.
O elé ico chega ao im des a subida menos íng eme quando i a à esque da na Rua
Sa ai a de Ca alho. Nes a ua plana e ampla há ês pa agens, incluindo a pa agem inal, com
apenas duas quad as de in e alo en e cada uma delas e a sua seguin e. A p imei a se encon a
logo ao en a na ua, e em o nome igual a ela. Mesmo já pe o do im da linha, obse ei aqui
pessoas a emba ca em no elé ico
238
. Sob e udo, pessoas idosas, que podem e nes e emba que
uma ajuda p eciosa pa a sua locomoção - ainda que, como já ap endemos, não usu uam de seu
di ei o ao assen o ese ado. Embo a em meno núme o do que no echo que ai do Cas elo e
Al ama a é o Chiado, alguns u is as ainda e am is os no elé ico po aqui, a é a pa agem inal,
Em e mos de compo amen os sociais, exp essões co po ais, in e ações e bais e
obje os po ados, acabei egis ando poucas no as em diá io espec i as ao en o no da pa agem
R. Sa ai a Ca alho e da p óxima, Ig eja S o. Condes á el. Nes a, a penúl ima, e já na
penúl ima isi a que iz an es de suspende meu abalho de campo, hou e um senho que, ao
desemba ca , g i ou ao gua da- eio: “Olhe, em aqui uma bisnaga de qualque coisa!”
239
. Em
seguida, desceu. O gua da- eio nada espondeu, mas i pelo espelho e o iso do elé ico que
ele es a a a p ocu a do que se a a a. Só sob a a a mim de passagei o naquele echo de duas
quad as an es do im da linha. Me le an ei, ui a é o úl imo banco e encon ei ali uma la a de
237
Es e pa ág a o oi baseado nos egis os em diá io ealizados na Visi a 16 (9/11/2020) e Visi a 20
(13/11/2020).
238
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 10 (14/10/2020).
239
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 19 (12/11/2020).
116
sp ay, al ez osse um desodo an e. Caminhei de ol a pelo co edo , enquan o o elé ico
pe co ia es as duas úl imas quad as, e ap esen ei o obje o ao espelho e o iso , po onde o
gua da- eio obse a a o in e io do eículo. Sem dize nada e sem se i a pa a ás, ele i ou
uma das mãos da di eção e a e gueu, como se ossemos dois co edo es a passa o bas ão numa
p o a de e ezamen o. En eguei a la a pa a o gua da- eio, que ag adeceu. Ins an es depois,
ambém ag adeci a ele quando desemba quei. O elé ico 28 acaba de chega a sua pa agem
inal, P aze es.
4.5 O in e alo dos P aze es
Quando o elé ico 28 se ap oxima da pa agem inal em en e ao Cemi é io dos
P aze es, dois compo amen os dis in os se des acam en e os passagei os ainda p esen es. Há
aqueles que se adian am ao cessa do mo o , posicionando-se pe o da po a de saída an es
mesmo que o eículo pa e de se mo imen a . E há aqueles que pe manecem em seus luga es,
sen ados, como se i essem chegado a só mais uma pa agem como ou as an as ul apassadas
no caminho a é ali. Es a oi a dinâmica enquan o ainda ha ia uma p esença mais nume osa de
passagei os no 28, mui os deles a u ismo, no pe íodo de meu abalho de campo que nes e
ex o já oi an es chamado de “p imei a onda”.
Mesmo es acionado e com o mo o já desligado, nas p imei as isi as oi algo o inei o
obse a o gua da- eio anuncia , em inglês, a necessidade de desemba ca ali
240
. “Las s op!”,
anunciou um ce a ez. “Finish!”, a isou ou a em no a ocasião. “E e yone mus lea e!”
dec e ou mais um. De modo semelhan e ao obse ado na pa agem Lgo. Po as Sol, es e
comunicado em ou o idioma inha como público-al o u en es es angei os - u is as,
sob e udo. Mais do que um expedien e p é-p og amado e p a icado sis ema icamen e, a mim
pa eceu um imp o iso inco po ado à o ina, endo em is a o conhecimen o adqui ido pela
epe ição equen e daquele compo amen o. No elé ico 28, é habi ual iaja em pessoas a
u ismo que, quando chegam na pa agem inal dos P aze es, cos umam pe manece no in e io
do eículo. En ão, é habi ual ao gua da- eio enca egado da ez usa idiomas dis in os da
língua po uguesa pa a o ien á-los a desemba ca . Po ezes, endo em is a que os ou in es
240
Es e pa ág a o e o p óximo (após a ci ação do diá io) i e am como base os egis os em diá io ealizados na
Visi a 2 (18/2/2020), Visi a 4 (26/8/2020), Visi a 6 (16/9/2020), Visi a 7 (1/10/2020), Visi a 8 (7/10/2020),
Visi a 11 (16/10/2020), Visi a 13 (26/10/2020) e Visi a 14 (28/10/2020).
117
não esboça am eação, o comunicado e a epe ido ao público usando as mesmas pala as,
po ém com maio in ensidade na oz:
“Final! Finish! FINISH!”, anuncia o condu o , em om c escen e
con o me passagei os ( u is as) pe manecem imó eis.
“Ob igado”, esponde em língua po uguesa com o e so aque
es angei o uma das passagei as alan es de ancês.
241
Es a pe manência p o ogada no in e io do elé ico quando ele chega aos P aze es não
apa en ou se uma en a i a maliciosa de u is as se isen a em, an o de uma no a a i a quan o
de uma possí el no a ila, equisi os pa a emba ca no aje o de ol a. A meu e , al
compo amen o exp essa a um desconce o en e a ep esen ação do elé ico 28 como uma
a ação análoga às da Disney, e a expe iência eal de u iliza um se iço cuja inalidade
p incipal é a mobilidade u bana, não o en e enimen o de seus u en es. Se há quem i encia e
di ulga o passeio na linha 28 como algo semelhan e ao que se encon a na Disney
242
, é azoá el
p esumi que ou os indi íduos imaginem uma expe iência como al nes e modal do anspo e
público lisboe a. E, como um enzinho a que ípico de pa que emá ico em semp e sua
pa agem inal no mesmo pon o de pa ida, é comp eensí el que alguns passagei os, ao se e em
conduzidos pa a o desemba que na pa agem inal, julguem não e ainda chegado ao inal do
passeio. “Es a es la pa ada inal? Y después pa a la uel a?!”, ques iona um casal em
espanhol. “Wha ime is he nex ?”, pe gun a uma u is a g ega ao gua da- eio
243
. Dú idas
des a o dem não são exclusi idade de quem não ala o idioma local, endo sido ambém
obse adas em língua po uguesa: “E ago a, dá a ol a no amen e? E emos que paga
no amen e?”, in e ogou um passagei o.
O es anhamen o pe an e a ob igação de desemba ca ali, a gumen o, e idencia um
desdob amen o con empo âneo da “disneylandização” (B yman 1999; B unel 2009) em
Lisboa. Como analisa MacCannell, “Quando lemos guias u ís icos, especialmen e aqueles
esc i os num es ilo con empo âneo descolado, é e iden e que os p óp ios obje os de cu iosidade
u ís ica, não apenas suas imagens em b ochu as e ca azes de iagens, e mesmo aqueles o a
241
Con o me egis os em diá io de campo: Visi a 14 (28/10/2020).
242
E i emos um exemplo dis o no capí ulo 4.4 (“Do Ma im Moniz aos P aze es”), quando desc i o o modo
como o p og ama ele isi o Somebody Feed Phil ap esen ou a ca ei a 28 em seu episódio sob e Lisboa.
243
Es a pe sonagem já apa ece a no capí ulo 4.1 (“A chegada à pa agem no Ma im Moniz”). Como escla ecido
lá, ambém em no a de odapé, eu não alo a língua g ega. Descob i a nacionalidade dela quando, nes a isi a e na
pa agem dos P aze es, ela e sua acompanhan e me pedi am in o mações em inglês. Ainda nes e capí ulo, mais à
en e a con e sa que i e com elas se á desc i a. Chega emos lá.

118
da bolha u ís ica, es ão de a o começando a se is os como a iações da Disneylândia; is o
é, como se i essem sido c iados em p imei o luga pa a en e e u is as. Na e dade, bem
poucas coisas que u is as con emplam o am ei as pa a unciona como obje os de desejo do
u is a. A maio ia das a ações oi ei a pa a se i a ou os ins, ou nenhum im no caso das
a ações na u ais” (MacCannell 2001, 27)
244
. Não se ia es e o caso do elé ico 28? Fei o pa a
se i a ou o im, o anspo e cole i o u bano, o nou-se ambém obje o de con emplação e
en e enimen o u ís ico? Elé ico 28 cuja cu iosidade em o no de si é em g ande pa e
despe ada po meios de comunicação que o desc e em como uma a ação impe dí el da
cidade? An es, a a és de b ochu as e guias imp essos; hoje, p incipalmen e, em ídeos no
YouTube, o os no Ins ag am, publicações em blogs de iagem e ou as médias sociais
digi ais?
245
Pa a quem po en u a - e ainda que de modo inconscien e e silencioso - mime ize
na ca ei a 28 um passeio de mon anha- ussa, quando alcança a pa agem P aze es o elé ico se
e ela um modal do anspo e público u bano lisboe a que chegou ao im da linha.
244
T adução ealizada pelo au o . No o iginal, em inglês: “When we ead guidebooks, especially hose w i en in
he con empo a y s yle o hip de achmen , i is e iden ha he objec s o ou is ic cu iosi y hemsel es, no jus
hei images on a el b ochu es and pos e s, e en hose ou side he ou is bubble, a e in ac beginning o be
iewed as a ia ions on Disneyland, ha is, as i hey we e c ea ed in he i s place o en e ain ou is s. In ac ,
e y ew o he hings ou is s gaze upon we e made in he i s place o unc ion as objec s o ou is desi e. Mos
a ac ions we e made o se e o he ends, o no ends a all in he case o na u al a ac ions.”
245
Vale ponde a que, se em b ochu as e guias imp essos os ex os e o os e am (e ainda são) as p incipais
linguagens isuais u ilizadas pa a di ulgação u ís ica, na in e ne con empo ânea os o ma os audio isuais
ganha am p imazia. E, com a acilidade de acesso ambém ia in e ne a e amen as digi ais de edição de imagens,
as possibilidades de o ma o pa a ap esen ação de um luga u ís ico se mul iplicam. Incluindo aí o uso de e ei os
de mon agem, animações g á icas, ilha sono a, igu ino, maquiagem, inse ções de me chandising… Além dis o,
se médias imp essas em um passado cada ez menos ecen e dependiam de sua dis ibuição ísica pa a impac a
um po encial no o u is a, hoje indi íduos podem conquis a na in e ne audiência pessoal supe io às de g andes
g upos edi o iais.
119
Imagem 29:
246
O en o no da pa agem Campo Ou ique (P aze es), pon o inal do elé ico 28 no sen ido cen o - bai o.
Em en e ao Cemi é io dos P aze es ica a P aça São João Bosco, e é numa o unda em
meio a ela que es á a pa agem Campo Ou ique (P aze es), es e sim seu nome comple o.
Naquele pon o exa o es á delimi ada a on ei a
247
en e as á eas adminis a i as das jun as de
eguesia de Campo de Ou ique e da Es ela, mas, apesa da alcunha, a exa a localização da
pa agem encon a-se sob ju isdição da úl ima. Na p aça há pa que in an il, pa que canino, casa
de banho pública, caixa au omá ica e, bem p óximo à pa agem, um es au an e as ood ocupa
a es u u a e o mada de um con en o , com suas mesas espalhadas ao edo . Em o no de boa
pa e da p aça, a paisagem é o mada po edi ícios com mais pisos do que as cons uções
obse adas no miolo do cen o his ó ico. Mas, assim como se obse a na zona mais cen al da
cidade, os espaços no és-do-chão aqui ambém ab igam pequenos comé cios: um
minime cado, uma clínica e e iná ia, uma loja de a igos escola es e pa a o la . Logo ali,
izinha ambém, ica a Escola Salesiana de Lisboa, o ien ada pela cong egação ca ólica cujo
246
Google Maps, 2021. Disponí el em: h ps://goo.gl/maps/JKDPwQNFHnkUS p38 [consul ado em
19/8/2021].
247
Con o me mapa a ual das eguesias de Lisboa disponí el em: h ps://www.lisboa.p /municipio/ eguesias
[úl imo acesso em 1/12/2021].
120
undado oi o mesmo que dá nome à p aça
248
. Com um núme o de es udan es na casa dos
milha es
249
, me acos umei a ê-los se mo imen ando pelos a edo es
250
. De uni o me e em
ho á ios p óximos ao almoço, aglome ados no passeio em en e ao po ão, ocupando a
esplanada do con en o - es au an e, e, po ezes, emba cando ambém no elé ico.
Em uma egião da cidade que não é a endida pela ede me o iá ia, sendo seu acesso
ia anspo e público ealizado exclusi amen e po au oca os ou elé icos, o passagei o que
desce do 28 naquela pa agem inal encon a-se numa zona esidencial com bas an e p esença
come cial. Quando o ou ono subs i uiu o in e no du an e meu abalho de campo, ou o a o
social do comé cio passou a se obse ado po ali, com uma o e a de me cado ia sazonal que
apela an o à demanda local quan o global
251
. T a a-se do endedo de cas anhas, abalhado
in o mal que isi elmen e em nos u en es do elé ico seu público-al o p e e encial, mas não
exclusi o, de consumido es
252
. Foi a pa i de ou ub o que comecei a obse á-lo com
equência po ali. A igo , a obse ação oi mais de seu ca inho, in a ia elmen e es acionado
jun o à es u u a da pa agem P aze es. Regis ei no diá io como ele execu a sua es a égia de
ma ke ing ol a i o (ao meu a eja , e icien e), baseada no cozimen o do p odu o a céu abe o:
“Ele deixa o ca inho com o ogo aceso, e agua da no con en o -esplanada que há po ali.
Quando ê alguém se ap oxima - sob e udo, quando o 28 chega, mas ambém pode se gen e
que chega a caminha pelo bai o -, ele ol a pa a lá e az sua enda”.
248
Há ainda uma es á ua em homenagem a São João Bosco no meio da o unda onde ica a pa agem. O elé ico
dá a ol a ao edo dela quando pa e dali no aje o de ol a.
249
Con o me ex o de ap esen ação da escola em seu sí io ins i ucional, em o no de dois mil alunos do ensino
básico e secundá io equen am o Salesianos de Lisboa. Disponí el em:
www.lisboa.salesianos.p /escola/ap esen ação [úl imo acesso em 1/12/2021].
250
Con o me egis os em diá io ealizados na Visi a 1 (15/7/2020), Visi a 10 (14/10/2020), Visi a 11
(16/10/2020), Visi a 14 (28/10/2020), Visi a 16 (9/11/2020) e Visi a 17 (10/11/2020).
251
Con o me egis os em diá io ealizados na Visi a 7 (1/10/2020) e Visi a 15 (4/11/2020).
252
Em 2017, po an o an es da pandemia e em pleno hype u ís ico lisboe a, uma ma é ia no jo nal b i ânico The
Gua dian ecomenda a “as dez melho es cidades eu opeias pa a aze u ismo de comp as na alinas”. Lisboa
ocupa a a p imei a posição, com uma desc ição que des aca a, en e ou as a ações, o “a oma de cas anhas no
a ”. O elé ico 28 pai a como sujei o ocul o da ma é ia. Não é ci ado, mas um passeio po ele pe mi i ia ica quase
odas as dicas lis adas. Como a Ce eja ia Rami o, o La go do In enden e, algumas lojas na Baixa de Lisboa, uma
di e sidade de ig ejas e, po im, a é o a oma de cas anhas. Ve jo nal The Gua dian (2017b), “10 o he bes
Ch is mas shopping ci ies in Eu ope”, disponí el em:
h ps://www. hegua dian.com/ a el/2017/no /18/10-bes -ch is mas-shopping-ci ies-eu ope- ienna-lille-lisbon
[úl imo acesso em 1/12/2021].
121
Imagens 30 e 31: Ao desemba ca na pa agem Campo Ou ique (P aze es), o passagei o do eléc ico 28 encon a o con en o -
esplanada e, se es i e na época, pode encon a o ca inho das cas anhas. Regis adas pelo au o em 1/10/2020.
En e os que chegam de 28 à pa agem inal guiados po uma cu iosidade con empla i a,
endo como laze momen âneo o lana po um no o luga sem necessa iamen e um des ino
ce o, há an o os que pa em pa a explo a as ce canias, quan o os que descem ali e dão apenas
meia- ol a
253
. Em comum, uns e ou os ap o ei am o momen o opo uno do desemba que pa a
i a o os com o eículo, quando po ezes os elé icos es acionados a é o mam ila. Fac o é
que um simples ba e de olhos ao edo não e ela na paisagem local no os con i es os ensi os
pa a p ossegui a in es igação u ís ica.
254
Não há ali, po exemplo, uk- uks a agua da clien es,
ou bicicle as pa a a enda . Sem sai da ó bi a da pa agem, ampouco se isualiza dali
253
Es e pa ág a o (e es a no a) i e am como base os egis os em diá io ealizados na Visi a 7 (1/10/2020), Visi a
11 (16/10/2020), Visi a 12 (23/10/2020), Visi a 14 (28/10/2020), e Visi a 20 (13/11/2020). Ac escen e-se que, em
uma ocasião, obse ei um meio- e mo en e a explo ação do bai o e a pe manência na pa agem. E a um casal
com ilhos pequenos, alan es de uma língua que não consegui pe cebe (possi elmen e, alemão). Após
pe co e em a ca ei a 28 de pon a a pon a, ao desemba ca em nos P aze es passa am a explo a os a a i os da
P aça São João Bosco. Imagino eu que o pa que in an il que há ali su giu como um opo uno passa empo pa a as
c ianças, que pode iam já es a cansadas ou en ediadas. A amília ainda es a a po lá quando emba quei no 28 da
ol a pa a con inua minha obse ação. É de se essal a que is o oco eu na úl ima incu são ealizada, quase no
ence amen o da “p imei a aga” ( e capí ulo 3.2) de minha in es igação, quando ha ia bem menos u is as
p esen es no campo. Se ia al ez uma amília de es angei os, que mo am na cidade, mas que naquele momen o
es a am no 28 po laze u ís ico? É possí el.
254
Po ezes, cemi é ios o nam-se pon os de a ação u ís ica de ido às celeb idades ali sepul adas. Como o
Cemi é io Pè e Lachaise, em Pa is, onde oi en e ado o can o Jim Mo ison, e o Cemi é io da Recole a, em
Buenos Ai es, onde jaz a múmia de E i a Pé on. Po ém, es e não pa ece se o caso do Cemi é io dos P aze es. Em
Lisboa, é azoá el supo que al cu iosidade conduza ao lado opos o da cidade, mais p ecisamen e ao Pan eão
Nacional, monumen o onde descansam celeb idades po uguesas de econhecimen o in e nacional - como a
adis a Amália Rod igues e o jogado de u ebol Eusébio. Ressal e-se que é possí el, sim, aze es e passeio
u ilizando o elé ico 28 como meio de anspo e. Se ia necessá io desemba ca nas pa agens Voz Ope á io ou Cç.
S. Vicen e, há mais de in e pa agens de dis ância de onde ago a es amos, e caminha alguns minu os mais a é o
Pan eão. Pa a mais in o mações sob e quem ali oi sepul ado e/ou é homenageado, e sí io do Pan eão Nacional,
disponí el em: h p://www.pan eaonacional.go .p /
128
du ação
267
. É e iden e que nem semp e o gua da- eio que acaba de chega à pa agem P aze es
se á o mesmo a conduzi o p óximo elé ico que dali pa i á pa a pe co e o aje o de ol a da
linha
268
. Con udo, i is o oco e em á ias ocasiões
269
. Nes es casos, nos minu os en e a
chegada e uma no a pa ida, o gua da- eio em ques ão seque saía de sua cabine no eículo.
Nas ezes em que obse ei-os desemba ca nos P aze es, e a comum es a em ocupados e
demons a em u gência em suas exp essões co po ais e modos de aze :
A gua da- eio ence a a iagem, ano a o ho á io na planilha,
pega sua bolsa e za pa dali. Logo depois chega mais um elé ico, cuja
gua da- eio se ê ob igada a aze epa os mecânicos. Ela o manob a
pa a o a da ila de eículos na pa agem, e o conse a naquela o unda
em en e ao cemi é io.
270
O condu o desce ap essado e ai a um WC que há ali na p aça.
271
Em um momen o inicial de minha in es igação, imaginei que a pa agem P aze es
pode ia se opo una pa a en a inicia algum diálogo com es es p o issionais, que sem dú ida
são os “obse ado es mais pa icipan es” no co idiano do elé ico. No en an o, e com
equência seu compo amen o ao chega ali me le ou a abdica des a ideia. Qualque
abo dagem du an e aqueles poucos minu os se ia um es o o. Aquele in e alo é uma janela
no expedien e que os gua da- eios êm pa a cuida de suas necessidades e demandas
subje i as; i à casa de banho, alimen a -se, hid a a -se, comunica -se com amilia es. Po
ezes, es e mesmo in e alo inclui a ibuições do abalho, como is o na p imei a no a
des acada acima, em que a segunda gua da- eio obse ada p ecisou ealiza ajus es no eículo.
Ou, como is o em ou a ocasião
272
, inclui a a e a de ajuda com in o mações o u is a que
267
Is o conside ando a p og amação pa a os dias ú eis no pe íodo en e ma ço e ou ub o. Como imos no capí ulo
4.4 (“Do Ma im Moniz aos P aze es”, no a 178), os ho á ios de saída do elé ico 28 a iam con o me a época do
ano, o dia da semana e a ho a do dia. Há ambém uma ligei a di e ença nas escalas de empo pa a as pa idas da
pa agem Ma im Moniz (de oi o em oi o minu os) e P aze es (de 10 em 10 minu os). Pa a conhece em de alhes
odas as a iações ho á ias do eléc ico 28, e a qui o em PDF “Ma im Moniz - P aze es - 28E”, disponí el
pa a desca egamen o em: h ps://www.ca is.p / iaje/ca ei as/28e-ma im-moniz-p aze es/ [úl imo acesso em
1/12/2021].
268
A é pelos escla ecimen os que ambos gua da- eios en e is ados de am sob e as nuances de suas escalas de
abalho, em que é possí el um p o issional oca de ca ei a em meio a seu u no.
269
Regis ei is o em diá io na Visi a 1 (15/7/2020), Visi a 2 (18/8/2020), Visi a 6 (16/9/2020), Visi a 7 (1/10/2020),
Visi a 10 (14/10/2020), Visi a 11 (16/10/2020), Visi a 12 (23/10/2020) e Visi a 15 (4/11/2020).
270
Con o me egis os em diá io ealizados na Visi a 9 (9/10/2020).
271
Con o me egis os em diá io ealizados na Visi a 16 (9/11/2020).
272
Con o me egis os em diá io ealizados na Visi a 3 (20/8/2020).

129
lhes abo da naquele momen o
273
. Aí, no caso des a o ma de in e ação em especí ico, e a de se
pe gun a se gua da- eios a êm como enca go de sua unção ou uma gen ileza ci cuns ancial.
Que dize , pa a um se ido do anspo e público lisboe a cujo local de abalho é ambém
um conco ido luga u ís ico, lida com as demandas de u is as é a o ou de e ? São ossos
do o ício ou concessões casuais? Lamen a elmen e, es a oi uma pe gun a que só cons uí num
momen o pos e io à in es igação, em que já es a a a edigi es e ex o. Quando con e sei com
gua da- eios do elé ico, a pe gun a que iz oi mais ex ensi a: como ocê ê o u ismo no
elé ico 28?
“O u ismo em um g ande impac o no dia-a-dia, po que embo a
seja in e essan e abalha com u is as e embo a seja bené ico pa a
a economia, acaba po e um impac o cansa i o no quo idiano, dada a
quan idade de pe gun as e endas a bo do.”
274
Ra ael, que abalha exclusi amen e na linha 28, enca a de manei a pa adoxal es a
p esença de u is as com suas demandas especí icas. Pa a ele, ao mesmo empo em que es as
in e ações, na p á ica, aumen am a ca ga do seu abalho, é ambém uma cu iosidade co idiana,
e, em escala mais ampla, uma mais- alia económica pa a a sociedade. Já J., que abalha não
somen e nes a ca ei a como em ou as ambém, embo a não negue a di e ença de
compo amen os en e u is as e demais u en es, enca a es es pedidos de in o mação com
desa e ação e ce a empa ia:
“O u ismo no elé ico 28 é uma cons an e e é a sua essência (…)
Na u almen e que exis e uma g ande di e ença en e os u is as e
demais passagei os, já que os p imei os azem bas an es mais pe gun as
e êm um compo amen o mais descon aído, uma ez que es ão de é ias
e a passea . A maio ia dos ou os passagei os (…) es ão habi uados a
udo, sabem de co os ho á ios e pe cu sos, e êm uma elação mais
p óxima com os gua da- eios.”
275
273
Ti esse eu insis ido na ideia de en a in e agi com gua da- eios nes e momen o de pausa, aqui ha e ia mais
uma semelhança a apon a en e an opólogos e u is as. A de abo da in e locu o es em causa p óp ia, em
qualque si uação, sem maio es hesi ações. Sem e le i demasiado em elação ao impac o que es a inicia i a pode
causa no ou o. Sem exp essa e balmen e uma p eocupação em in e ompe algo que no con ex o do ou o pode
se mais u gen e.
274
En e is a com Ra ael, gua da- eio da Ca is, ealizada em 17/5/2021.
275
En e is a com J., gua da- eio da Ca is, ealizada em 29/5/2021.
130
Minha in e p e ação é de que o modo de agi pe an e as demandas especí icas de u is as
si ua-se num e eno en e a gen ileza e a ob igação, cujas on ei as são delimi adas de modo
subje i o po cada gua da- eio. A é po que, de um pon o de is a ins i ucional, embo a não
igno e o c escimen o da equência de u is as na ca ei a em anos ecen es, e a dimensão
simbólica que o elé ico em em Lisboa, a Ca is apa en emen e conside a qualque passagei o
como mais um u en e - e qualque ca ei a como uma en e ou as semelhan es. Quando
con e sei com di e o es da emp esa, pe gun ei se ha ia alguma especi icidade no a amen o
dado ao público e à ges ão do elé ico 28, endo em is a jus amen e es a maio p ocu a u ís ica
da linha. Um dos po a- ozes da Ca is me explicou que “(…) a ca ei a 28 é uma ca ei a
como ou a qualque e, po an o, unciona ao público no malmen e, com os a i á ios no mais,
com ho á ios da mesma o ma, com u ilização exa amen e como acon ece em oda a nossa ede
de anspo es. Po an o, as pessoas são a adas da mesma o ma. O u is a que u iliza a ca ei a
28 acaba po se a ado como ou o u ilizado qualque ”. E oi complemen ado pelo ou o
di e o da emp esa, que pa icipa a da mesma con e sa: “Exis e uma emp esa da Ca is, que
é a Ca is u , que é ocada em se iços u ís icos. Tem au oca os pano âmicos, em elé icos
que azem passeios u ís icos com guias, ou com audioguias a explica os á ios pe cu sos. E,
po an o, aí sim é ocado no me cado u ís ico e no passeio u ís ico. No elé ico 28 não. O
eléc ico 28 é um anspo e público no mal que é u ilizado po passagei os independen emen e
da sua mo i ação de iagem”
276
.
Hou e ambém ezes em que obse ei gua da- eios usu uí em do in e alo na
pa agem P aze es como se osse um empo li e de laze
277
. Ni idamen e, is o passou a oco e
com maio ên ase nas isi as inais de meu abalho de campo. Gua dando alguma semelhança
com o que cons a a a du an e es e mesmo pe íodo nos a edo es do Cas elo e de Al ama, a
p esença menos nume osa de passagei os em ge al (e de u is as em especial) oco eu de o ma
simul ânea à obse ação de algumas in e ações mais a e uosas e a á eis en e gua da- eios e
ou os a o es que ali se encon a am. Nes e caso, o a o mais amigá el não se deu somen e
com u en es do elé ico, mas com in e locu o es di e sos obse ados: passagei os, colegas de
abalho e abalhado es dos a edo es. Em mais de uma ocasião, p esenciei gua da- eios
con e sando amis osamen e en e si. Ce a ei a, o assun o e a se iados de ele isão e dicas de
ilmes. Em ou a, obse ei um gua da- eio, depois de oma um ca é, con inua a con e sa
276
En e is a com po a- ozes da Ca is, ealizada 21/1/2021, aos 9’27 de g a ação.
277
Es e pa ág a o e e como base os egis os em diá io ealizados na Visi a 14 (28/10/2020), Visi a 15
(4/11/2020), Visi a 16 (9/11/2020), Visi a 19 (12/11/2020).
131
calmamen e com a a enden e do con en o -esplanada, pe gun ando de alhes sob e i ens
di e sos da emen a do luga .
Pelos con as es que obse ei ambém na pa agem P aze es en e as p imei as e as
úl imas isi as de campo, e pelo que me explica am os gua da- eios com quem con e sei, o
co idiano de quem abalha na ca ei a 28 é bas an e di e en e na p esença e na ausência de
u is as. Apa en emen e, há uma elação di e amen e p opo cional en e es es luxos de
isi an es na cidade (e, po conseguin e, no elé ico 28) e as a ibuições que um gua da- eio
em no seu expedien e de abalho. Pa a além da condução do eículo, cob ança de passagens
pagas em espécie e, em empos pandêmicos, iscalização de no mas sani á ias no espaço
in e no do elé ico, as a e as co idianas que um gua da- eio acumula, na p á ica, incluem a
p es ação de in o mações u ís icas (com a endimen o em múl iplos idiomas). E, como e emos
em si uações desc i as mais de alhadamen e no p óximo capí ulo, ambém a i idades de o icina
mecânica em meio à ca ei a. Quan os des es enca gos já es a am p e is os em seu escopo de
abalho? Quais des as a i idades são de e es con idos na desc ição do ca go, e quais são
“imp e is os p e is os”? Imp o isações inco po adas à o ina que, po sua quan idade,
di e sidade e equência, podem se sin omá icas de um p ocesso de p eca ização da p o issão?
Logo após suspende minhas incu sões ao campo, em 16 de no emb o de 2020, en ei
me candida a ao pos o de gua da- eio na Ca is. No canal de ec u amen o do sí io
ins i ucional, o ex o in odu ó io ap esen a a a isão da emp esa sob e seus colabo ado es e
colabo ado as: “(…) somos exigen es nos c i é ios de ec u amen o. Fo mamos,
acompanhamos e desen ol emos os nossos colabo ado es omen ando a e olução das suas
compe ências, com is a a uma melho ia con ínua. (…) Pa a que udo is o seja possí el,
necessi amos de abalha com os melho es, os mais mo i ados, os mais dinâmicos, os mais
cu iosos, mas ambém os mais ambiciosos”
278
. Na mesma página do sí io, são elencados os
equisi os básicos que candida os de em ap esen a : idade supe io a 23 anos; pelo menos
1,60m de al u a; no mínimo e cu sado a é o 9º ano de escola idade; possui ca a de condução
(“Ca ego ia B, C e p e e encialmen e D”); esidi na Á ea Me opoli ana de Lisboa. No meu
modo de e , com exceção da ca a de condução de ca ego ias especí icas, es es equisi os não
são “exigen es” como o ex o in odu ó io a i ma se em os c i é ios de ec u amen o da
emp esa. São ão somen e um il o inicial de exigências mínimas pa a elimina ec u as
exceden es. O mesmo deco e das ca ac e ís icas de pe il p ocu adas em candida os, que,
lis adas na mesma página do sí io, ambém pa ecem o mínimo demandado a qualque emp ego
278
Ca is, sí io ins i ucional, á ea “Rec u amen o”, disponí el em: h ps://www.ca is.p /a-ca is/ ec u amen o/
[úl imo acesso em 1/12/2021].
132
con empo âneo: “boa ap esen ação”, “pon ualidade”, “assiduidade”, “ esponsabilidade”. Já o
uso de hipé boles (“os melho es”, “os mais” …). pa a ca ac e iza quem se adequa ao abalho
na emp esa é indicado de uma ges ão me i oc á ica de seus ecu sos humanos, onde quem
demons a desempenho supe io em de e minadas compe ências ecebe maio econhecimen o.
No en an o, os p edicados des as hipé boles con idos no mesmo ex o (“os mais mo i ados”,
“os mais ambiciosos” …) suge em que es as compe ências são de a aliação mais subje i a do
que écnico-cien í ica. Como um gua da- eio pode ia se a aliado como “o mais dinâmico”?
Possi elmen e, po se alguém esilien e e maleá el, que inco po a em sua o ina
imp o isações, imp e is os e a e as adicionais – como as que imos sendo cump idas po
gua da- eios di e sos ao longo da iagem -, e aze is o sem ei indica con apa idas ou
compensações? Ou, ainda que publicado no canal de ec u amen o do sí io ins i ucional da
Ca is, o ex o de e ia se comp eendido como apenas um compilado de igu as e ó icas?
Te ia sido in e essan e obse a , na p á ica, como se dá o p ocesso de ec u amen o,
seleção e capaci ação pa a gua da- eios do elé ico. Po ém, a é o momen o em que esc e o
es as linhas, não ui con ocado pa a conco e a uma opo unidade - e nem desclassi icado, po
exemplo, de ido a não ap esen a odos os equisi os e ca ac e ís icas de pe il demandados
279
.
Seque ecebi uma mensagem au omá ica da emp esa con i mando o ecebimen o de minha
candida u a. Na p á ica, é como se nunca i esse me candida ado. Quando con e sei po e-mail
com dois gua da- eios do elé ico, in elizmen e, não o mulei pe gun as ão especí icas sob e
sua expe iência du an e o p ocesso de ec u amen o. Mas pe gun ei se eles ecebe am
einamen o e o ien ações da Ca is pa a lida especi icamen e com u is as no elé ico. “A
Ca is dá-nos o mação de odos os ipos, écnica, compo amen al, in e pessoal… es amos
e e i amen e p epa ados pa a acolhe os nossos clien es da melho o ma, incluindo a é ao ní el
de se mos luen es em línguas es angei as”, me explicou a gua da- eio J
280
. “A nossa
o mação é bas an e as a e ob iamen e emos um módulo di eccionado ao a endimen o ao
passagei o”, con ou Ra ael
281
.
Em um u u o pós-pandêmico, que se espe a p óximo, se á in e essan e examina
up u as, pe manências e ans o mações nas dinâmicas co idianas elacionadas ao abalho dos
279
Es e echo em especí ico es á a se e isado em 17/12/2021. Minha candida u a a gua da- eio oi en iada
pelo sí io da Ca is no dia 16/11/2020.
280
En e is a com J., gua da- eio da Ca is, ealizada em 29/5/2021.
281
En e is a com Ra ael, gua da- eio da Ca is, ealizada em 17/5/2021.
133
gua da- eios
282
. Po o a, ap o ei emos a acilidade momen ânea pa a consegui um bom luga
no elé ico, pe o da janela. E comple emos o ci cui o azendo o caminho de ol a.
4.7 Pe didos e achados no e o no ao pon o de pa ida
Se no sen ido Cen o-Bai o pelo qual iemos a ca ei a 28 possui 35 pa agens, no
sen ido Bai o-Cen o pelo qual amos ago a es e o al é de 38 pa agens
283
. Com exceção de
um ou ou o pon o em que os ca is dos dois sen idos se bi u cam, de manei a ge al, ambos
cump em o mesmo i ine á io, mudando apenas o e o do mo imen o. Não há zonas em
pa icula da cidade con empladas po um sen ido e não pelo ou o. Há, se mui o, echos de
uas especí icas em que somen e um deles passa
284
. O empo es imado de pe cu so é semlhan e
ambém: 48 minu os pa a i do Ma im Moniz aos P aze es, e 51 minu os pa a ol a .
O mesmo desenho u bano an igo e in incado que con ibui pa a a a a i idade u ís ica
des a ca ei a é o que impossibili a em algumas uas o á ego simul âneo nos dois sen idos. E
is o não somen e em ias de mão única. Como imos no capí ulo 4.4 (“Do Ma im Moniz aos
P aze es”), quando passamos na inda pela esquina da calçada de São Vicen e com a ua das
Escolas Ge ais, ambas de mão dupla, ali há um semá o o a in e cala o á ego dos dois
sen idos. Ou os como aquele espalhados pela ca ei a ce amen e impac a iam na mobilidade
do 28 pa a u en es di e sos. Tan o na sua e iciência como anspo e público lisboe a, sendo
es e o único modal a passa em alguns echos da cidade, quan o na sua pe cepção de “a ação
u ís ica impe dí el” pa a quem isi a Lisboa. Quando con e sei com Ma k Wol e s, c iado
do canal de iagens Wol e s Wo ld
285
, pe gun ei sua opinião sob e o s a us de “impe dí el” e
“mus see” que alguns luga es u ís icos adqui em, em g ande pa e u o do endosso de quem
282
E se ia in e essan íssimo le uma e nog a ia undamen ada em obse ação pa icipan e ei a pela pe spec i a
emic dos gua da- eios. Faze o abalho que eles azem não me pa ece nada ácil, e só o azendo se ia possí el
ap ende com mais p o undidade suas pe cepções.
283
Pa a conhece em de alhes odas as pa agens em cada sen ido da ca ei a, e no a 262.
284
Vimos um exemplo dis o no capí ulo 4.4 (“Do Ma im Moniz aos P aze es”) quando a ançamos pela ua
Poiais de São Ben o enquan o a o sen ido con á io inha pela ua Poço dos Neg os.
285
Como desc i o no capí ulo 4.1 (“A chegada à pa agem no Ma im Moniz) o canal con a com pe is no
YouTube, Facebook, Ins ag am e Twi e , e milha es de seguido es em cada pla a o ma. Ma k, seu au o , mo ou
em Lisboa de 2006 a 2011, ou seja, bem no pe íodo em que Po ugal me gulhou em uma p o unda c ise econômica.
Na época, e a comum pa a ele pega o elé ico 28 pa a se desloca a é seu abalho. Quando con e samos po
ideocon e ência, Ma k me con ou sob e suas di e en es expe iências em Lisboa a cada no a isi a que ez nes a
úl ima década.

134
os ecomenda. “Algumas a madilhas pa a u is as alem a pena aze . Ou as, não. O elé ico
28, se não hou e ninguém lá e ocê pude , en e. Faça isso. Mas, que o dize , eu não ou
espe a uma ho a, ou meia ho a. Não é TÃO legal.”
286
, ele me explicou. Se as ilas de emba que
demo adas e as aglome ações nos co edo es do eículo já são um ac o co en e, como se ia a
expe iência se o 28 pa asse mais ezes pela ca ei a a o a?
Pos o que os aje os de ida e ol a, apesa de des ios pon uais, pe co em eixos espaço-
empo ais bas an e semelhan es, a p opos a pa a es e capí ulo di e e daquilo que se iu no
capí ulo 4.4 (“Do Ma im Moniz aos P aze es”). Vamos e o na ao pon o de pa ida, sim,
emba cando no elé ico 28, obse ando u en es di e sos que ali se encon am, e olhando pa a
as dinâmicas locais da cidade a a és de suas janelas. Buscando semelhanças, sim, en e
mo imen os, p á icas e compo amen os de pessoas, em p incípio, cul u almen e di e en es, e
e le indo sob e possí eis in e - elações dis o com ou os empos, espaços e bibliog a ias. Mas
não amos, no sen ido con á io, ol a a pica e con ex ualiza cada pa agem de um caminho
que ago a já conhecemos. Não é pela ca ei a 28 de en e pa a ás p a icamen e espelha o
pe cu so de ás pa a en e que sua desc ição nes e ex o ep oduzi á es e mesmo i ine á io.
Ao in és de pe aze o ci cui o, o ex o ago a a á baldeações
287
. Vamos p ocu a aze
conexões en e o que oi examinado du an e a inda e, de modo semelhan e, ambém oi achado
na ol a. Quando necessá io, a emos escalas naquilo que só se obse ou no aje o de ol a, e
que, se não osse le an ado ago a, ica ia pe dido em meu diá io. Daí o í ulo dado a es e
capí ulo. Dig essão ei a, ecob emos a di eção.
Pa indo dos P aze es, na p imei a pa agem, Ig eja S o. Condes á el, emba cam no
elé ico 28 duas jo ens na aixa de 20 anos a con e sa en e si em ancês, além de uma
idosa
288
. “Is o não sei se é seu”, diz a senho a em po uguês, ao encon a uma moeda no chão
enquan o sobe. “Não, não é”, esponde o gua da- eio. “Ah, ambém não é meu”, ela conclui.
E com a moeda na mão caminha a é o undo do eículo, onde iaja de pé posicionada bem
p óxima da po a. Foi ambém ao subi nes a mesma pa agem que ou a senho a idosa
encon ou já den o do elé ico um conhecido seu, ambém idoso, que es a a ali desde a
pa agem inicial (e logo an e io ) nos P aze es. Nenhum dos dois ocupa o assen o ese ado.
286
En e is a com Ma k Wol e s, ealizada em 22/4/2021, aos 13’47. T adução do au o . No o iginal, ansc i o
em inglês:“Some ou is aps a e wo h doing. Some a e no . And am 28, hey, i he e’s nobody he e and you
can hop on, do i . Bu , I mean, I’m no gonna wai an hou , o hal hou … i ’s no THAT cool.”
287
E, sendo um ecém-chegado na an opologia, en endo como um exe cício bem- indo es a expe imen ação
ex ual com dis in as o mas de cos u a e bo dado do que o campo me ap esen ou.
288
Es e pa ág a o e e como base os egis os em diá io ealizados na Visi a 11 (16/10/2020), Visi a 12
(23/10/2020) e Visi a 13 (26/10/2020).
135
“Ago a que es á a chega em casa?”, ele pe gun a. “Olha, ainda ou pa a o ou o lado!”, ela
esponde. E seguem ocando algumas pala as, en e as quais o senho e ela e 95 anos de
idade. “Pa ecem <colegas de elé ico>”, ano ei no diá io. Ao meu modo de e , o
econhecimen o isual das eições do ou o sem a menção a seu nome p óp io, e a con e sação
em om amis oso, mas sem in imidade no eo , suge ia que aquela amizade pe encia ao
con ex o do elé ico. Possi elmen e, dada a p á ica comum e equen e de u iliza aquele
mesmo meio de anspo e, em p oximidade de pa agens na escala da ca ei a e de assen os na
escala do elé ico, desen ol e am aquela elação co dial. Em ou a ocasião, ninguém
agua da a nes a pa agem e o elé ico passou di e o po ela, anspo ando no assen o ese ado
a pessoas com es ições de mobilidade um casal de alan es de espanhol. Tal ez, po já e em
con emplado as paisagens pelas janelas no pe cu so de ida, ago a seus olhos iaja am ixos no
mapa imp esso de Lisboa, que le a am abe o nas mãos.
Na segunda pa agem, R. Sa ai a Ca alho, emba ca uma mulhe com uma c iança de
colo
289
. Ela logo consegue um luga no assen o ese ado, compa ilhando o banco duplo com
um u is a que já es a a an es ali - omb o de um encos ado no do ou o. Já no pe íodo com
menos luxos de u is as, nes a mesma pa agem sobem duas mulhe es, ambém com duas
c ianças pequenas. Rep oduzindo um compo amen o de ou os passagei os, u is as ou não, já
examinado an es nes e ex o, elas emba cam jun as e iajam sepa adas. Uma ai bem pe o de
mim, a ou a em um banco mais ao undo. Pelo co edo , as mulhe es con e sam en e si em
língua po uguesa e, pelos so aques, pe cebo que uma é po uguesa e a ou a é b asilei a.
Quando se di igem às c ianças, po ém, elas alam em inglês. Se iam mães dos miúdos, cujos
pais podem se es angei os, e amigas pessoais? Visi elmen e, cada uma e a esponsá el po
cuida de uma das c ianças. En ão, al ez es i essem ali como pa e de um expedien e de babá,
e, po an o, se iam colegas de abalho? Po ou o lado, só uma das mulhe es, a b asilei a,
ca ega a consigo uma po ção de obje os apa en emen e des inados ao cuidado dos pequenos:
mala de passeio, blusas, ga a a d’água. Embo a naquele con ex o ambas es i essem no mesmo
papel de u en es do elé ico, a elação en e uma e ou a pode ia se en ão desigual em e mos
de pode . Se ia uma pa oa e a ou a emp egada? Fac o é que adul os com c ianças, a u ismo
e sem se pa a es e im, equen am o 28. E adul os, sob e udo, mulhe es.
Vejo subi um casal na pa agem Es ela (Basílica) que, além de um ilho pequeno, le a
ambém uma alco a pa a bebé
290
. Vejo que alam ancês en e si. Em seguida, sobe ou o casal
289
Es e pa ág a o e e como base os egis os em diá io ealizados na Visi a 2 (18/8/2020) e Visi a 18
(11/11/2020).
290
Es e pa ág a o e e como base os egis os em diá io ealizados na Visi a 7 (1/10/2020).
136
que se di ide: a mulhe a ança pelo co edo com um mapa ísico nas mãos. O homem,
enquan o isso, a a das passagens. Com uma p onúncia da le a R que e ela não se na i o do
idioma local, ele pe gun a ao gua da- eio: “Ma im Moniz?”. O gua da- eio az um ges o
a i ma i o com a cabeça. Enquan o isso, a mulhe escaneia o in e io do elé ico com o olha ,
em uma exp essão de ascínio. Ao ocupa em jun os um banco duplo, o homem se põe a i a
o os com seu elemó el. De em odos e ido ao Ja dim da Es ela, imagino. Como is o na
inda, há u is as que emba cam no elé ico 28 com a in enção de desce naquela pa agem,
azendo an o do des ino quan o do meio pa a lá chega , passeios u ís icos
291
. Foi obse ado
que, no início de meu abalho de campo, e a comum ha e ocas de u is as nes a pa agem,
en e os que inham no eículo e os que es a am a agua dá-lo. Tendo oco ido ambém du an e
al pe íodo, es es emba ques obse ados ago a no aje o de ol a pa ecem exemplos de pon os
de con a o com aquele mesmo modo de usa o elé ico. Pa ecem pessoas a aze aquele mesmo
passeio, mas em o dem in e sa: p imei o o Ja dim da Es ela, depois o 28. Pode ha e ambém
quem, depois de e ido a é ali u ilizando o elé ico, aça o mesmo ago a pa a e o na à egião
onde o iginalmen e emba cou.
”Es á despachado?”, pe gun a o gua da- eio p es es a ence a o expedien e
292
. “Vá,
um ab aço. Bom descanso!”, esponde o colega que assume seu pos o. Ele en ão pendu a sua
jaque a e capace e de mo a no cabidei o à esque da da cabine, e eliga o mo o do elé ico.
No amen e, e ago a no sen ido bai o-cen o, em isi as dis in as o am obse adas ocas de
u no en e es es p o issionais na pa agem Es ela (Basílica). Assim como nas iagens de inda,
nada é comunicado aos passagei os a espei o, e es es ampouco esboçam p eocupação ou, ao
menos, cu iosidade po is o
293
. O eículo encos a na pa agem, quem o di igia desce, ou a
pessoa sobe em seu luga , e o mo imen o é e omado. Como desc i o no capí ulo 4.4 (“Do
Ma im Moniz aos P aze es”, 113), após e es as ocas de u no oco e em com equência
nes a pa agem em especí ico, cons a ei a exis ência, bem ao lado da Basílica, de uma gua i a
onde uncioná ios da Ca is se eúnem. Dada es a p esença ísica, somada ao ac o de as ocas
291
Inclusi e, is o é algo ecomendado pelo Tu ismo de Lisboa em seu sí io ins i ucional, como is o no capí ulo
4.4 (“Do Ma im Moniz aos P aze es”, p.112).
292
Es e pa ág a o e e como base os egis os em diá io ealizados na Visi a 10 (14/10/2020), Visi a 11
(16/10/2020) e Visi a 14 (28/10/2020).
293
Re le indo sob e es e compo amen o de indi e ença, ano ei em meu diá io que pa ece mani es a a
obje i icação da pessoa que se e po quem es á a se se ido. Na medida em que an o az quem di ige o elé ico
(ou mesmo se alguém o di ige), desde que o eículo siga em mo imen o. Pa a quem pe cebe no gua da- eio não
aquela pessoa que ali es á, mas uma pessoa qualque , a unção que ele desempenha assemelha-se à do mo o e dos
a ões. Uma ideia in e essan e se ia, ao inal de uma iagem em que is o oco e, pe gun a a um u en e que es a a
já p esen e du an e a oca, se ele se eco da dela e oco ido. Po ou o lado, se só eu ali obse a a o a o com
algum es anhamen o, al ez en ão osse o único “ o as ei o” pe an e aquela dinâmica…
137
de u no em meio à ca ei a só oco e em naquele local especí ico, minha pe cepção oi de que
aquela pa agem se e como uma epa ição da emp esa em meio à ca ei a 28
294
. E, no aje o
de ol a, a obse ação de ou o cos ume dos gua da- eios pa eceu con e gi pa a es a
pe cepção, pois ambém se concen ou naquele pon o.
Em pelo menos seis isi as di e en es, egis ei em diá io que o esponsá el pela
condução do elé ico, na p oximidade da pa agem Es ela (Basílica), ambém se e ela a
esponsá el po egula peças mecânicas do eículo e aze epa os pon uais na es u u a da
ca ei a
295
. Ou seja, se aquele pedaço pode se en endido como uma secção da Ca is de ido
ao ac o de se ali onde gua da- eios ocam de u no, a obse ação da manu enção écnica
sendo ei a po eles ali ambém apon a pa a es a comp eensão. “Em en e ao Ja dim da Es ela,
a gua da- eio e e que desce do eículo pa a aze algum ajus e nos ca is”. “Logo passando
o Ja dim da Es ela, o gua da- eio ap o ei a um semá o o echado pa a desce com o que
pa ece se um pé-de-cab a, e ajus a algo no elé ico pelo lado de o a”. Ce a ez, logo após a
oca de u nos, o “no o” gua da- eio já e e como p imei a a e a do dia aze um ajus e nos
ca is, u ilizando a mesma e amen a (o p o á el pé-de-cab a) pa a an o. Em uma de minhas
incu sões, iz po duas ezes o aje o bai o-cen o do elé ico 28, e nas duas obse ei is o
oco e . Is o oi egis o an o nas isi as iniciais quan o inais de meu abalho de campo
296
.
Ab indo um pa ên ese no ex o e sal ando pa a um echo mais à en e do aje o em
que es amos, é p eciso ponde a que es es ápidos desemba ques pa a aze epa os
ins an âneos não o am obse ados de modo equen e apenas na pa agem Es ela.
Especi icamen e na pa agem Pç. Luís Camões, logo ao ul apassá-la e enquan o se con o na a
p aça que lhe é homônima, is o ambém oi is o epe idas ezes
297
. Em pelo menos cinco
isi as di e en es - e, numa des as, em duas iagens dis in as -, obse ei gua da- eios a desce
294
Há mais um dado a soma nes e en endimen o. Em dias e ho á ios da semana que não o am obse ados nes a
in es igação - nomeadamen e, no pe íodo no u no e aos sábados -, o elé ico 28 ence a o seu aje o cen o-bai o
na pa agem Es ela, e não nos P aze es. Faz sen ido, po an o, que haja nes e local uma es u u a de abalho da
Ca is como a de uma pa agem inal. Pa a conhece em de alhes odas as pa agens em cada sen ido (e dia, e
ho á io) da ca ei a, e no a 262.
295
Es e pa ág a o e e como base os egis os em diá io ealizados na Visi a 3 (20/8/2020), Visi a 9 (9/10/2020),
Visi a 13 (26/10/2020), Visi a 14 (28/10/2020), Visi a 16 (9/11/2020) e Visi a 17 (10/11/2020).
296
Po con a dis o, não en endo ha e qualque elação en e es a a e a dos gua da- eios e a maio ou meno
p esença de u is as no elé ico. Independen emen e de ha e ali u is as, os gua da- eios cump em es e mesmo
expedien e, no que pode se in e p e ado como mais uma semelhança en e u is as e u en es quaisque . En endo
eu que, cada ez que pe cebemos e pon uamos semelhanças assim, a ançamos um pouco mais em o as de
abo dagem dis in as daquelas que essencializam a o es sociais, ou que analisam es es pe sonagens sob uma
pe spec i a dico ômica, excluden e, e a é con on acional.
297
Es e pa ág a o e e como base os egis os em diá ios ealizados na Visi a 7 (1/10/2020), Visi a 10
(14/10/2020), Visi a 12 (23/10/2020), Visi a 13 (26/10/2020) e Visi a 14 (28/10/2020).
144
ele aciona a campainha do elé ico, o mo o is a da ca inha en im apa ece, pedindo imensas
desculpas, e e i a o eículo. “Thanks, ma e!”, ainda digo pela janela a um dos “ u is as
manob is as”. “We ied!”, ele esponde bem-humo ado. Se, pa a aquele g upo, pode ia ha e
algo de laze no episódio, pa a os passagei os do elé ico aquelas pessoas es a am sendo
al uís as. Ou seja, um g upo de u is as que se p on i icou a ajuda na ci culação do anspo e
público cole i o local, em ez de apenas se a e a suas p á icas de laze pa icula es na cidade
isi ada
314
.
Imagem 35: Um g upo de u is as es angei os passando na ua en a (sem sucesso) desobs ui a ca ei a. Regis adas
pelo au o em 18/8/2020.
Assim como no pe cu so de inda, ambém no aje o P aze es - Ma im Moniz oi
habi ual du an e meu abalho de campo que a simples apa ição do elé ico 28 a aísse o olha
e, em seguida, o egis o o og á ico de anseun es nas uas. De modo análogo ao que imos
314
Em uma cu iosa semelhança en e empos, espaços da cidade e a o es sociais dis in os, uma ma é ia publicada
na imp ensa po uguesa em 2021 con a sob e um episódio bas an e pa ecido, em que coube a o iciais da Polícia
de Segu ança Pública (PSP) eboca com as p óp ias mãos um ca o que obs uía a ca ei a do 28 na egião da
G aça. A ma é ia ci a a equência com que is o oco e naquele echo, e ap esen a alguns dados cu iosos sob e a
quan idade de ho as po ano que es e modal do anspo e público ica pa ado de ido a obs uções como es as.
Ve jo nal Público (2021b), “Um ca o le an ado à mão ês eléc icos libe ados e u is as eu ó icos”, disponí el
em: h ps://www.publico.p /2021/08/16/local/no icia/ca o-le an ado-mao- es-elec icos-libe ados- u is as-
eu o icos-1974284 [úl imo acesso em 1/12/2021].

145
naquele sen ido da ca ei a, is o oco eu com maio equência nos a edo es de luga es com
maio p esença de u is as, mas em qualque momen o de meu abalho de campo e em qualque
pon o da ca ei a is o podia acon ece . Sal emos po alguns pon os pa a obse a is o.
Ainda na esquina da ua Sa ai a de Ca alho com a ua Fe ei a Bo ges, pouco depois
de e mos ul apassado a segunda pa agem e sem e mos alcançado ainda o “cen o do cen o
his ó ico”, ejo que duas mulhe es agua dam a passagem do 28 com seus elemó eis apon ados
pa a cá
315
. Mais de dois meses an es e em ou a esquina, na Baixa de Lisboa, no encon o do
Te ei o do Paço com a ua da P a a, dois apazes es indo sandálias, óculos escu os e
be mudas p o agonizam cena quase idên ica. Oco ências semelhan es ambém são egis adas
enquan o galgamos a subida pa a a pa agem Sé e, em duas isi as di e en es, de en e pa a o
Mi adou o de San a Luzia. En e um luga e ou o nes a mesma zona mais u ís ica, nos
a edo es da pa agem Limoei o, ejo quando um u is a o og a a seu amigo a i a o os do 28
em que es ou. Ou seja, enquan o o elé ico passa, não somen e o os dele são i adas, como
ambém “ o os das o os dele”, num p ocesso in loco de ep esen a a ep esen ação.
Desen olando um pouco mais a análise an es ap esen ada no capí ulo 4.4 (“Do Ma im Moniz
aos P aze es”, ao passa pelo Chiado), de que um dos signi icados pe cebidos no elé ico
lisboe a é o de en e enimen o pa a u is as em p aça pública, nes e caso especí ico emos uma
elei u a me alinguís ica, ime si a e não-dico ômica do mesmo espe áculo, na qual os p óp ios
espec ado es o nam-se ambém pe sonagens da ep esen ação.
Imagem 36: Também no aje o de e o no ao cen o, passagei os do 28 em qualque momen o podem
sai na o o. Regis ada pelo au o em 28/10/2020.
315
Es e pa ág a o em como base egis os em diá io ealizados na Visi a 5 (31/8/2020), Visi a 6 (16/9/2020),
Visi a 7 (1/10/2020), Visi a 14 (28/10/2020), Visi a 15 (4/11/2020) e Visi a 20 (13/11/2020).
146
Imagem 37: Sequência de o os do eléc ico a se o og a ado. Regis adas pelo au o em 31/8/2020.
Na pa agem inal dos P aze es, alguns compo amen os obse ados, sob e udo em
u is as, o am aqui in e p e ados como o mas de exp essão do p ocesso de
“disneylandização” que se obse a em luga es u is i icados - como Lisboa nes e começo de
século XXI. Quando se adqui e s a us de “des ino u ís ico” (seja uma me ópole ou aldeia, ilha
opical ou mon anha ne ada), qualque luga pode se pe cebido po alguns como obje o de
consumo pa a u is as. Como numa emulação, no caso em Lisboa, de uma iagem pa a
O lando, na Fló ida, em que um meio de anspo e público é u ilizado como enzinho de
mon anha- ussa, e os pon os u ís icos ecomendados na cidade, como a emen a de um pa que
de di e sões. Nes e p ocesso, as ep esen ações do des ino u ís ico que ci culam (de modo
planejado ou desin e essado) em escala global a a és de ecnologias de in o mação e
comunicação dão impo an es con ibuições como mediado es.
Pois, há um echo especí ico da ca ei a 28 em que a disneylandização de Lisboa
ambém se az e iden e, e com maio des aque no aje o bai o-cen o. Pela minha obse ação,
a Calçada de São F ancisco es á lado a lado com as uas de Al ama como um dos pon os que
mais a aem egis os em imagens de quem emba ca no elé ico a u ismo
316
. Com ce ca de 150
me os de comp imen o
317
, é uma ladei a em cu a e sem c uzamen os, pa imen ada com
316
Es e pa ág a o em como base egis os em diá io ealizados na Visi a 7 (1/10/2020) e Visi a 16 (9/11/2020).
317
Con o me es ima i a do Google Maps, disponí el em: h ps://goo.gl/maps/U5G GQ GMiwisL 38 [úl imo
acesso em 1/12/2021].
147
pa alelepípedos, po onde os dois sen idos da ca ei a 28 passam pa alelamen e a aze
ziguezagues pa icula es. Seu p óp io desenho pode se pe cebido como me á o a de uma
mon anha- ussa
318
e, apa en emen e po is o mesmo, alguns compo amen os ec ea i os são
obse ados ali. Como na ez em que o elé ico p ecisou pa a no meio da ladei a, pa a espe a
a ila de au omó eis que se o ma a em i ude do semá o o echado ao inal dela.
Ap o ei ando es a pose do 28, uma u is a que inha a caminha pela ua decide i a uma o o
com ele. Ela “ab aça” o elé ico, apoiando-se aga ada nele, no meio da ua, enquan o sua
amiga no passeio i a a o o. O ânsi o começa a lui enquan o a cena ainda acon ece. O
gua da- eio oca a campainha pa a chama a a enção da dupla. Os passagei os do elé ico,
incluindo aí u is as, ol am-se odos pa a as janelas daquele lado, e cons a am boquiabe os o
que es á a a asa o elé ico - com exp essões que julgo en e acha g aça e acha absu do, en e
o assomb o e a indignação. Rindo, a mulhe en ão se a as a e segue a galga caminhando a
Calçada de São F ancisco, não apa en ando qualque emba aço po e p o ocado al si uação.
Uma a i mação cunhada po MacCannell de ine bem es a dinâmica em que um único u is a
em seu que e indi idual obs ui o mo imen o de uma ia pública, a asa um meio de anspo e
cole i o, e in e e e no laze u ís ico de ou os isi an es da cidade: “Há leis e no mas que se
aplicam apenas a u is as e ou as que os u is as es ão au o izados a desobedece ”
319
(MacCannell 1999, 176-177).
318
Quan o ao nome des a ia eme e a uma cidade nos Es ados Unidos, San F ancisco, que é ambém um des ino
bas an e isi ado po u is as, e cujos pon os de a ação incluem um sis ema de elé icos, como Lisboa, a mim
pa ece ão somen e uma inusi ada coincidência.
319
T adução ealizada pelo au o . No o iginal, em inglês: “The e a e laws and no ms ha apply only o ou is
and o he s which ou is s a e pe mi ed o disobey”.
148
Imagem 38: A calçada de São F ancisco is a de cima pa a baixo. Regis ada pelo au o em 9/11/2020.
Imagem 39:
320
A calçada de São F ancisco is a de baixo pa a cima.
320
Google Maps. (No /2020). Disponí el em: h ps://goo.gl/maps/9SbqpY7Tq 9GQ h18 [consul ado em
21/8/2021].
149
Nas pa agens en e a Baixa e as uas de Al ama, assim como no aje o de inda, du an e
minhas p imei as isi as oi algo habi ual e u is as emba cando e desemba cando do elé ico
28. E es a simul aneidade, po ezes, é e elado a das nuances de compo amen o exis en es
en e indi íduos que pode iam em p incípio se pe cebidos como memb os de um g upo. Na
pa agem R. Conceição, enquan o o gua da- eio lida com uma ila g ande de pessoas que endo
subi no eléc ico, duas u is as alan es de i aliano (que imagino mãe e ilha) pe cebem em
cima da ho a se ali o local onde que em desce
321
. A obadas, elas ão a é a po a dian ei a do
eículo, jus amen e no caminho po onde as ce ca de 10 pessoas es ão a en a en a .
Cons a ado seu equí oco, as duas en ão co em a é a po a asei a, de saída, e nem bem a
alcançam, começam a demanda em om impacien e que o gua da- eio a ab a: “Excuse me!
Please! Can you open he doo ?!”. Pela minha obse ação, são poucos aqueles que se di igem
gua da- eios assim, como se ossem seus subo dinados.
Ao passa mos pela pa agem Mi adou o S a. Luzia, pela janela do 28 é possí el e um
bom núme o de u is as a se espalha em sua es u u a
322
. Dois deles, inclusi e, emba cam no
elé ico. Já quando alcançamos a pa agem Lgo. Po as Sol, ambém no aje o de ol a
p esencio o gua da- eios da ez anuncia , al e qual um guia de excu são, a ão p ocu ada
a ação u ís ica lisboe a que ica p óxima dali: “Cas elo de São Jo ge! Cas elo de São Jo ge!”.
Como ninguém desemba ca des a ez, não enho dú idas de que ce os gua da- eios
inco po a am es a a e a pela sua p óp ia expe iência adqui ida na lida co idiana com u is as,
e não necessa iamen e po que algum passagei o lhes pediu pa a a isa quando ali chegasse.
Tendo passado Al ama pa a en a na egião da G aça, nos encon amos na egião da
Calçada de São Vicen e. Es amos no inal de ou ub o de 2020 e o elé ico ai cheio, com
algumas pessoas em pé no co edo , enquan o es ou sen ado ao lado da janela em um banco
duplo
323
. O luga ao meu lado aga, e o apaz mais p óximo em pé, em ez de ocupá-lo, o e ece-
o educadamen e pa a ou o passagei o, que po sua ez o ecusa. Po en eou i es a ápida
negociação alheia, pe cebo que o apaz, que acaba po se sen a ao meu lado, é b asilei o.
En ão, o abo do e pe gun o exa amen e is o. Ele me con i ma que sim, e esponde
a i ma i amen e quando pe gun o se ele cos uma u iliza o elé ico 28 no seu co idiano. Foi a
janela de en ada que se ab iu pa a explica apidamen e sob e minha pesquisa, e pe gun a se
321
Es e pa ág a o em como base egis os em diá io ealizados na Visi a 2 (18/8/2020).
322
Es e pa ág a o em como base egis os em diá io ealizados na Visi a 7 (1/10/2020) e Visi a 11
(16/10/2020).
323
Es e pa ág a o em como base egis os em diá io ealizados na Visi a 14 (28/10/2020).

150
ele opa ia con e sa sob e is o em ou o momen o. Edglê conco da, mas po es a ap essado,
já que desemba ca ia pouco depois, ele diz pa a eu en a em con a o a a és do seu pe il no
Ins ag am. Ano o o ende eço. Na b e e con e sa inicial que emos ali, Edglê me diz e nascido
na cidade de C a o, no in e io do es ado b asilei o do Cea á. Rapidamen e, me mos a uma
a uagem que em em homenagem a sua e a-na al, um mapa es ilizado dos con o nos da
cidade. Con a que di ide apa amen o com ou os b asilei os e mais um i aliano. Que abalha
em dois luga es di e en es, sendo sua p o issão a de a e-educado . E que, depois de e mo ado
po um pe íodo na Alemanha, es á em Lisboa, como eu, a cu sa um mes ado. Pouco depois,
nos despedimos e ele desce.
T ês dias se passa am quando en o em con a o com Edglê a a és do Ins ag am. Dali,
passamos pa a o Wha sApp. É po mensagens de áudio nes a ou a aplicação que con e samos,
en im, ce ca de um mês depois. Naquela al u a, o ag a amen o da si uação pandêmica em
Po ugal já le a a as au o idades nacionais a dec e a es ado de eme gência no país - e eu
acaba a suspendendo minhas incu sões de campo em i ude dis o. Nes e meio- empo en e
encon á-lo e con e sa mos, Edglê acaba a e o nando pa a o B asil. É de memó ia, po an o,
embo a uma memó ia de empos bas an e ecen es, que ele me con a sob e sua expe iência com
o elé ico 28, que pega a odos os dias, de segunda a sex a- ei a.
“Pega a semp e na pa agem da Calçada do Comb o, e descia p óximo
à G aça. Ge almen e, às ês ho as da a de, e pega a de ol a às
seis. Mo a a mui o p óximo a uma pa agem. Inclusi e, onde eu mo a a,
ali na Rua Poiais de São Ben o, (…) o anspo e mais p óximo da minha
casa e a es e.”
324
Depois de con ex ualiza sua elação com aquele meio de anspo e, u ilizado
p incipalmen e em mo imen os pendula es e, como explica, de ido ambém à ausência de
al e na i as onde mo a a, aço pe gun as mais especí icas sob e a p esença de u is as no
elé ico. Ponde ando que o ambien e mudou com a pandemia, Edglê me explica suas
pe cepções.
“O elé ico é um anspo e ex emamen e u ís ico, e isso é
mui o uim. Po que uma coisa é ocê se u is a. Ou a é ocê usa
324
En e is a com Edglê, ealizada em 18/11/2020.
151
ele como anspo e público. (…) Às ezes ocê só que chega no seu
abalho e es á lo ado de u is as”.
325
Es e impac o nega i o da p esença de u is as no elé ico 28 pa a quem que u ilizá-lo
apenas como meio, e não como des ino, ol ou a se mencionado em ou as en e is as. Ma k,
c iado do canal Wol e s Wo ld, quando mo ou em Lisboa há ce ca de uma década, pega a-o
equen emen e pa a i de sua casa, no Campo de Ou ique, a é o abalho, nos a edo es da
pa agem Cç. Es ela. “E a eng açado, po que lá em cima eu subia e ha ia alguns u is as. Mas
à medida que descia, e não é mui o longe (…), ia icando lo ado, lo ado, lo ado. En ão eu sabia
que, uma ez que en asse, e ia que ica pe o da po a. Caso con á io, eu não consegui ia
sai depois”
326
. Ma k con a que, dada es a si uação, com o passa dos anos ele deixou de u iliza
aquele meio de anspo e, p e e indo caminha a é o abalho. “Pa a mim, icou u ís ico em
excesso”
327
, ele esume. João, com quem con e sei em uma pas ela ia na egião da G aça,
alou ambém nes e sen ido: “As pessoas nes es bai os…. G aça, Al ama, São Vicen e, e
Bai o Al o do ou o lado… As pessoas êm azão. Po que às ezes o elé ico em ão cheio
que não podem en a . E as pessoas não êm o que aze , né?”
328
.
Tan o no aje o de ida quan o no de ol a, e sob e udo du an e minhas p imei as isi as,
obse ei si uações semelhan es às ela adas po es es in e locu o es. Indo pa a os P aze es,
ce a ez eu es emunha a se e pessoas agua dando o 28 na pa agem R. G aça
329
. As duas
úl imas da ila e am idosas com sacolas de comp as. “Es á mui o cheio!”, uma comen a com a
ou a, e eu ouço pela janela. Elas não emba ca am. Na pa agem Chiado, i quando uma amília
ez sinal pa a o elé ico, mas desis iu de subi logo que ele pa ou. E am duas mulhe es adul as
que pa eciam a ó e mãe do menino pequeno jun o com elas, e mais um ca inho de bebé. Ainda
que pudessem demanda seu di ei o ao assen o ese ado, desis i am po on ade p óp ia logo
que i am a lo ação in e na. Já no aje o de ol a, ejo o elé ico encos a na pa agem Calha iz
325
Ibidem.
326
En e is a com Ma k Wol e s, ealizada em 22/4/2021, aos 7’15 de g a ação. T adução li e ealizada pelo
au o . No o iginal, ansc i o em inglês: “I was unny cause a he op, I would ge on and he e would be a ew
ou is s. Bu as i wen down, and i ’s no e y a (…), i would jus ge like packed, packed, packed, packed,
packed. So I knew once I go in, I had o go and s and by he doo . O he wise, I couldn’ ge ou la e .”
327
Ibidem, aos 7’57 de g a ação. T adução li e ealizada pelo au o . No o iginal, ansc i o em inglês: “I go
o me o e ou is y”.
328
En e is a com João Rocha de Aze edo, ealizada em 23/5/2021, aos 51’20 de g a ação.
329
Es e pa ág a o em como base egis os em diá io ealizados na Visi a 2 (18/8/2020), Visi a 11 (16/10/2020) e
Visi a 13 (26/10/2020).
152
(Bica) pa a a ende a um g upo de jo ens que lhe chama. Todos com elemó el na mão e
alando espanhol en e si, desis em, no en an o, de emba ca , mas pe manecem na pa agem.
Tal ez enham decidido agua da o p óximo, pa a en a um luga à janela onde possam i a
boas o os? Nem só mo ado es da cidade a caminho do abalho ou e o nando do supe me cado
encon am no elé ico cheio de u is as um obs áculo à sua mobilidade; ambém u is as podem
e seu p og ama obs uído e a asado po ou os u is as. É o que ejo acon ece ambém na
pa agem Ig eja S a. Ma ia Madalena, ao sai da Baixa de Lisboa pa a começa a subida da Sé.
Pela janela do elé ico, ejo uma amília (pai, mãe, ilho pequeno, ilho de colo e ca inho de
bebé), alan e de ancês, desis i de emba ca no elé ico, que es á cheio, após ê-lo chamado.
Con inuando a con e sa com Edglê, ele me explica que, po ou o lado, ambém gos a
de conhece pessoas de luga es di e sos e in e agi com elas. Pa a ele, o elé ico 28 se ão
p ocu ado po u is as não é um p oblema quali a i o, e sim quan i a i o: o p oblema es á no
excesso. “Acho que pode ia e a e mais elé icos”, escla ece. Pe gun o en ão se ele já en en ou
algum ou o p oblema em seu co idiano no elé ico. Edglê ci a dois que ambém o am
obse ados nes e abalho de campo: os p oblemas mecânicos do eículo, que cabem ao
gua da- eio soluciona ; e as obs uções da ca ei a po ou os au omó eis da cidade:
“O que eu acho mais louco ambém é a elação dos ou os
mo o is as com o elé ico. Po que eles sabem o aje o do elé ico,
odo mundo sabe, po que es á lá os ilhos. E, às ezes, a gale a
es aciona ca o na en e, pá a… não ajudam.”
330
O empo odo de minha obse ação, pessoas em idade a ançada o am obse adas no
co idiano do elé ico 28. Ao nos ap oxima mos da a enida Almi an e Reis, chama minha
a enção e com alguma equência idosos a emba ca no elé ico 28 já ão pe o do inal da
ca ei a
331
. Na pa agem Ig eja Anjos, duas an es da inal, em duas ocasiões ejo dois senho es
di e en es emba ca em. Em ou a ez, é na pa agem R. Palma, a úl ima an es do im, que ejo
ou o senho idoso emba ca . Há quem pegue o elé ico de pon a a pon a e depois e o ne. Há
quem o u ilize po apenas uma pa agem.
330
En e is a com Edglê, ealizada em 18/11/2020.
331
Es e pa ág a o em como base egis os em diá io ealizados na Visi a 9 (9/10/2020), Visi a 11 (16/10/2020) e
Visi a 14 (28/10/2020).
153
An es de chega ao Ma im Moniz, é já na a enida Almi an e Reis que abo do um casal
alan es de ancês
332
. Só es amos nós ês ago a, mas eu epa a a quando eles emba ca am nos
a edo es da Assembleia da República. Os dois al e nam o olha en e os ec ãs de seus
elemó eis e as paisagens a passa pelas janelas, possi elmen e en ando se localiza . Em
inglês, peço licença e pe gun o se alam es a língua. Mais p óximo do co edo e de mim, o
homem nega com um ges o de cabeça, e apon a pa a a mulhe . Educada, ela se olun a ia pa a
me esponde , apoiando-se sob e o colo do companhei o. É ine i á el pa a mim epa a que,
po seu modo de se es i - um ino ailleu no caso dela, e um elógio chama i o no dele -,
eles pa ecem e uma condição econômica con o á el. Em meio aos uídos do elé ico, explico
em duas sen enças minha pesquisa, e pe gun o se acei a iam ala sob e sua expe iência. “Yes”,
ela esponde. Depois de me con i ma em se anceses, dizem que são da cidade de Lyon. É
sua p imei a ez em Lisboa, onde ica am po dois dias, e es ão indo embo a hoje mesmo. E o
que acha am des a expe iência no 28? “É ípico ... É di e ido ... É legal que ele ainda ci cula
pela cidade ... Na F ança, nós não emos mais is o.”
333
, ela cons ói a espos a enquan o
esponde. “Au e oi , bon oyage!”, lhes desejo. Eles ag adecem e se despedem.
Es amos de ol a ao cen o his ó ico de Lisboa. No Ma im Moniz, a pa agem inal
onde o elé ico 28 ence a seu pe cu so nes e sen ido da ca ei a. Den o de alguns minu os,
ou o elé ico 28 pa i á do Ma im Moniz, umo aos P aze es, pa a uma ez lá, depois de
alguns minu os e o na . Não sem an es subi e desce ladei as, aze cu as es ei as, e ela
po suas janelas as paisagens que Lisboa o e ece ao olha . Nes e caminho do cen o ao bai o
e ice- e sa, da Baixa ao al o das colinas e ice- e sa, es a mesma mobilidade pode e
signi icados di e sos. A depende do agen e, u en e, se ido , izinho. Ao meu olha , é a
di e sidade de luga es, pessoas e signi icados o que, na Lisboa con empo ânea, pode se
apon ada como algo “ ípico”.
332
Baseado em egis os em diá io ealizados na Visi a 11.
333
T adução li e ealizada pelo au o . No o iginal, egis ado em inglês no diá io: “I ’s ypical… I ’s un… I ’s
cool ha i goes a ound he ci y… In F ance, we don’ ha e his no mo e.”