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Gesto, movimento e dinâmica harmónica na música teatral de Luciano Belo - Um estudo sobre La vera storia, Un re in ascolto, e Outis

Abstract

O presente trabalho pretende ensaiar uma reflexão crítica sobre a música de Luciano Berio, focando em particular a sua ópera La vera storia, estreada em 1982 no Teatro alla Scala, em Milão. Esta reflexão crítica surge no âmbito da minha actividade de compositor, a partir de preocupações de ordem estética e ética quanto ao fazer artístico, encontrando no caso de Luciano Berio um campo oportuno para a sua consubstanciação. A música de Berio reclama ser estudada através do cruzamento de diferentes saberes, para além do isolamento dos múltiplos aspectos e traços de singularidade que a caracterizam. Porque Berio escreve a sua música, não em nome da exploração, fechada sobre si mesma, de certas possibilidades técnicas, tão pouco em nome de um determinado gosto estético, particularmente sensível na herança musical que cita ou nos poetas e escritores que inclui em algumas das suas obras. Os motivos em que radica o seu fazer musical, com as opções técnicas e estéticas que conhecemos, são determinados por preocupações de ordem ética que não devemos ignorar. Pensamos que é imperativo alargar o quadro de referências teóricas para além da análise musical no sentido mais estrito, convocando o pensamento filosófico de Gilles Deleuze e de Walter Benjamin e o pensamento estético de Italo Calvino para debater as implicações éticas da produção musical beriana. Este objectivo, no entanto, consolida significativamente o entendimento sobre a singularidade do fazer musical de Berio e a pertinência das suas propostas, integrando-se o presente estudo na reflexão já longa e prolixa dos estudos berianos. Por isso, vamos desenvolver de forma sistemática uma reflexão que cruza o aparato conceptual e estético dos nomes acima citados com os traços determinantes da estética de Berio. São eles, nomeadamente, uma nova articulação entre alturas e ritmo; a ubiquidade presente no seu discurso; os comportamentos aditivos e subtrativos que presidem ao seu fazer musical; o carácter múltiplo, e por isso em constante devir, do objecto sonoro beriano; o carácter para-funcional do seu discurso, radicado na articulação entre elementos distintos; e a direccionalidade do seu discurso, resultante da sua articulação. A fricção entre todos estes aspectos leva-nos a falar de uma singular concepção do objecto sonoro, na medida em que nos mostra de forma clara uma postura estética, e sobretudo ética, totalmente emancipada dos muitos espartilhos que tendem a ditar o fazer musical. Se nos habituámos a pensar que a música é a prova de que o uno é múltiplo, com a música de Berio somos levados a ver que o múltiplo é uno. Porque a música de Luciano Berio acolhe e reflecte a espantosa diversidade do mundo em que surge, devolvendo-lhe uma de muitas possibilidades de leitura. É essa a sua verdadeira história, é essa a força do seu atrito.

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Gesto, movimento e dinâmica harmónica na música teatral de Luciano Belo - Um estudo sobre La vera storia, Un re in ascolto, e Outis

Author: Miguel, João Lopes Madureira Silva
Year: 2017
Source: https://run.unl.pt/bitstream/10362/28733/1/TESE_JoaoMadureira.pdf
UNIVERSIDADE NOVA DE LISBOA
FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS
A FORÇA DO ATRITO
Um es udo da música de Luciano Be io, a p opósi o da sua ópe a
La e a s o ia
João Lopes Madu ei a Sil a Miguel
Ou ub o de 2016!
A FORÇA DO ATRITO
Um es udo da música de Luciano Be io, a p opósi o da sua ópe a
La e a s o ia
João Madu ei a
Tese ap esen ada pa a cump imen o dos equisi os necessá ios à
ob enção do g au de Dou o em Ciências Musicais His ó icas,
ealizada sob a o ien ação cien í ica da
P o esso a Dou o a Paula Gomes Ribei o
Apoio inancei o do Ins i u o Poli écnico de Lisboa, no âmbi o do
P og ama de Apoio à Fo mação A ançada de Docen es do Ensino Supe io
Poli écnico, PROTEC 2009.
às minhas ilhas,
Te esa e Luísa

AGRADECIMENTOS
À P o esso a Dou o a Paula Gomes Ribei o, pelo apoio incondicional em odas as ases
de elabo ação des e abalho.
A Angela Ca one, Angela Ida de Benedic is, Luca Logi, e Paul Robe s, pelos ma e iais
e in o mações p es adas no decu so da minha pesquisa.
Aos docen es meus colegas do cu so de Composição da Escola Supe io de Música de
Lisboa.
À D ª Paula Espe ança, pelo seu inigualá el humanismo e amizade.
Aos meus amigos F ancisco T o ão, Guilhe me Du schke, Je ey Sco Childs, João
Ba en o, João Pe ei a Cou inho, Manuel Ped o Fe ei a, Paulo Pi es do Vale, Paulo
Sa men o, Rui Miguel Ribei o, Tomás Maia, e Ve a San Payo de Lemos, pela sua
gene osidade e disponibilidade.
À minha amília, em pa icula os meus pais, pelo seu ânimo e con iança.
A C is iana Vasconcelos Rod igues, companhia imp escindí el na minha iagem.
RESUMO
O p esen e abalho p e ende ensaia uma e lexão c í ica sob e a música de
Luciano Be io, ocando em pa icula a sua ópe a La e a s o ia, es eada em 1982 no
Tea o alla Scala, em Milão.
Es a e lexão c í ica su ge no âmbi o da minha ac i idade de composi o , a pa i
de p eocupações de o dem es é ica e é ica quan o ao aze a ís ico, encon ando no caso
de Luciano Be io um campo opo uno pa a a sua consubs anciação.
A música de Be io eclama se es udada a a és do c uzamen o de di e en es
sabe es, pa a além do isolamen o dos múl iplos aspec os e aços de singula idade que a
ca ac e izam. Po que Be io esc e e a sua música, não em nome da explo ação, echada
sob e si mesma, de ce as possibilidades écnicas, ão pouco em nome de um
de e minado gos o es é ico, pa icula men e sensí el na he ança musical que ci a ou nos
poe as e esc i o es que inclui em algumas das suas ob as. Os mo i os em que adica o
seu aze musical, com as opções écnicas e es é icas que conhecemos, são
de e minados po p eocupações de o dem é ica que não de emos igno a .
Pensamos que é impe a i o ala ga o quad o de e e ências eó icas pa a além da
análise musical no sen ido mais es i o, con ocando o pensamen o ilosó ico de Gilles
Deleuze e de Wal e Benjamin e o pensamen o es é ico de I alo Cal ino pa a deba e as
implicações é icas da p odução musical be iana. Es e objec i o, no en an o, consolida
signi ica i amen e o en endimen o sob e a singula idade do aze musical de Be io e a
pe inência das suas p opos as, in eg ando-se o p esen e es udo na e lexão já longa e
p olixa dos es udos be ianos.
Po isso, amos desen ol e de o ma sis emá ica uma e lexão que c uza o
apa a o concep ual e es é ico dos nomes acima ci ados com os aços de e minan es da
es é ica de Be io. São eles, nomeadamen e, uma no a a iculação en e al u as e i mo; a
ubiquidade p esen e no seu discu so; os compo amen os adi i os e sub a i os que
p esidem ao seu aze musical; o ca ác e múl iplo, e po isso em cons an e de i , do
objec o sono o be iano; o ca ác e pa a- uncional do seu discu so, adicado na
a iculação en e elemen os dis in os; e a di eccionalidade do seu discu so, esul an e da
sua a iculação.
A icção en e odos es es aspec os le a-nos a ala de uma singula concepção
do objec o sono o, na medida em que nos mos a de o ma cla a uma pos u a es é ica, e
sob e udo é ica, o almen e emancipada dos mui os espa ilhos que endem a di a o
aze musical. Se nos habi uámos a pensa que a música é a p o a de que o uno é múl iplo,
com a música de Be io somos le ados a e que o múl iplo é uno. Po que a música de
Luciano Be io acolhe e e lec e a espan osa di e sidade do mundo em que su ge,
de ol endo-lhe uma de mui as possibilidades de lei u a. É essa a sua e dadei a
his ó ia, é essa a o ça do seu a i o.
PALAVRAS-CHAVE: Be io, Deleuze, Benjamin, Cal ino, pa a- uncional, ubiquidade,
ec o ialidade, ans o mação, La e a s o ia.!
de Luciano Be io ece com o mundo que a odeia, uma elação de a i o e não de
adução ou de edução. Ao conside a a música de Be io, es amos pe an e um campo
não hie á quico de mú ua in luência de di e sas e en es da acção humana, que êem
no a i o que a sua elação ge a a possibilidade da sua consubs anciação, in eg ando um
odo mu an e, e po isso não comple amen e objec i á el. Te emos ocasião de
demons a , ao longo dos capí ulos que se seguem, como La e a s o ia é um exemplo
ma icial des a elação. Com es a ap oximação, es amos em c e , sob e udo, que o nosso
con ibu o pa a os es udos be ianos se ala ga a dimensões ainda espa samen e a lo adas.
O que nos in e essa sublinha é: se é e dade que a iloso ia (e, mui o conc e amen e, o
pensamen o de Gilles Deleuze) con ém elemen os que nos pe mi em en ende o objec o
musical be iano de uma pe spec i a mais as a e não es i amen e musical, ambém é
e dade que a c iação musical de Be io se cons i ui enquan o modo de pensa
iloso icamen e o mundo. Da mesma manei a, se a c iação musical de Be io é
o emen e ma cada pelas ideias e acon ecimen os polí icos do seu empo – é conhecida
a sua es ei a ligação aos mo imen os do Maio de 68 ou ao Pa ido Comunis a I aliano ;
2
e La e a s o ia eme e, em pa e, pa a os acon ecimen os de iolência e do e o ismo
que nos anos 70 assola am I ália –, ambém cons i ui uma on e conc e a pa a se pensa
3
poli icamen e o mundo num sen ido ala gado, ou seja, no quad o de uma pos u a
pe an e a his ó ia, o empo, que p e endemos ap o unda adian e, soco endo-nos do
pensamen o de Wal e Benjamin. Não se espe e, con udo, que amos p ocede , nes a
disse ação, a uma lei u a do objec o a ís ico be iano a pa i de um apa a o concep ual
ex e io ao mesmo; o que nos in e essa é da a e como a música de Luciano Be io
dialoga de o ma ap o undada com ce os nomes de e e ência do pensamen o ilosó ico
do século XX, como acon ece com Deleuze e Benjamin. Dece o não se esgo a a es es
C . HANDER-POWERS, Jane , S a egies o Meaning: A S udy o he Aes he ic and he Musical
2
Language o Luciano Be io, Diss. Dou o amen o em Music / Music Theo y, Facul y o he G adua e
School Uni e si y o Sou he n Cali o nia, Julho de 1988, p.46.
C . BRÜDERMANN, U e, “Gewal und Te o in La e a s o ia - «specchio d'un' epoca»”, in Das
3
Musik hea e on Luciano Be io, F ank u /M., Pe e Lang 2007, pp.333-338; DI LUZIO, Claudia,
“Looking back on La e a s o ia. C i ical and Documen a y In oduc ion”, in Le Théâ e musical de
Luciano Be io, Tome1 - De «Passaggio» à «La e a s o ia», di . de Gio dano Fe a i, Pa is: L'Ha ma an,
2016, p.424-425.
!2

nomes as possibilidades des e diálogo , mas o nosso pe cu so de in es igação encon ou
4
neles a opo unidade de consubs ancia ce as ques ões que nos são pa icula men e
ca as na nossa ac i idade de composi o . Deleuze, nomeadamen e, dispõe o seu
pensamen o de o ma abe a e em cons an e p ocesso de ac ualização, sem es abelece
quaisque hie a quias en e os concei os que ge a, nem ão pouco os echa em si
mesmos, o que lhes dá uma aculdade excepcional de se adap a em aos enómenos que
en a le . De es o, não é inédi a a ap oximação do pensamen o deleuziano à e lexão
musicológica: os abalhos ecen es de Ronald Bogue, de Nick Nesbi com B ian
Hulse, de Ian Buchanan com Ma cel Swiboda e de Edwa d Campbell consolidam de
o ma g a i ican e o nosso undamen o de aze encon a o pensamen o de Gilles
Deleuze com a p á ica musical be iana . Benjamin, po seu u no, mos a uma
5
capacidade inaudi a de pensa de modo o gânico, es abelecendo elos de sen ido onde
menos espe amos, e ab indo o nosso olha a camadas de signi icado que, em boa
e dade, es ão p esen es, se bem que po des ela , nos enómenos que lê.
É undamen al cla i ica , po an o, qual a impo ância des e abalho de
in es igação pa a a nossa ac i idade de composi o , ou seja, escla ece com que pos u a
e undamen os nos ap oximamos das ques ões abalhadas nes a disse ação. É
incon o ná el a enc uzilhada em que necessa iamen e nos encon amos quando
ambicionamos le , de um pon o de is a eó ico e de o ma sis emá ica, a música de um
Po exemplo, o exe cício de análise semió ica descons ucionis a, al como o pensamen o
4
pós-es u u alis a dela deco en e, le ados a cabo po Jacques De ida (1930-2004), assim como a
he menêu ica enomenológica de Paul Ricoeu (1913-2005), com odo o seu apa a o concep ual de lei u a
que, sendo ge ado da eo ia na a i a, se e pe ei amen e a análise musical, são e e ências a nosso e
impo an es pa a se ap o unda a lei u a da música be iana de um pon o de is a es é ico e sob e udo
é ico. Não é po acaso, de es o, que Susanna Pas icci, de cujo abalho ala emos adian e nes a
ap esen ação, escolhe en e as suas lei u as de apoio alguns ex os ma iciais do pensamen o de Paul
Ricoeu (c . adian e a secção “Es a disse ação”), que Paulo Pi es do Vale apelida opo unamen e de
“es é ica he menêu ica”, desc e endo com minúcia os aços da mesma, a pa i da expe iência es é ica
que só a ob a de a e eicula, dando a e uma e dade que o discu so ilosó ico só pode en a escla ece
(VALE, Paulo Pi es do, “Pa a uma es é ica he menêu ica. No as sob e a essência e a unção da ob a de
a e em Paul Ricoeu ”. Es udos, N. S. 4 (2005), pp.311-322).
C . BOGUE, Ronald, Deleuze on Music, Pain ing and he A s, New Yo k and London: Rou ledge,
5
2003; HULSE, B ian, Nick Nesbi (ed.), Sounding he Vi ual. Gilles Deleuze and he Theo y and
Philosophy o Music, Su ey, Bu ling on: Ashga e, 2010; HULSE, B ian, “A Deleuzian Take on
Repe i ion, Di e ence, and he ‘Minimal’ in Minimalism”, acessí el em: h p://www.ope asco e.com/
iles/Repe i ion_and_Minimalism.pd [consul ado em 3 de Fe e ei o de 2010]; BUCHANAN, Ian,
Ma cel Swiboda, Deleuze and Music, Edinbu gh: Edinbu gh Uni e si y P ess, 2004; CAMPBELL,
Edwa d, Music a e Deleuze, London, New Delhi, New Yo k, Sydney: Bloomsbu y, 2013. Veja-se ainda
a ansc ição da sessão de Gilles Deleuze sob e música (3/5/1977), in eg ada nos cu sos que Gilles
Deleuze deu em Vincennes en e 1971 e 1977: h p://www.webdeleuze.com/php/ ex e.php?
cle=4&g oupe=An i%20Oedipe%20e %20Mille%20Pla eaux&langue=1
!3
composi o , ob igando-nos, com isso, a sai do habi a na u al em que nós p óp ios
i emos. Não é o caso de não ponde a mos di e sas ques ões ca as à eo ia
composicional e musicológica, simplesmen e o olha não pode deixa de se um olha a
pa i de den o, ine i a elmen e subjec i o, con aminado pela p óp ia ac i idade de
composi o , mais a mais quando emos como caso de es udo um composi o mui o
p óximo da nossa sensibilidade es é ica. Vale a pena ci a a espos a que I alo Cal ino
dá a Ma ia Co i, numa en e is a dada em 1985 (o ano da sua mo e), quando es a
apon a pa a a eliz con i ência, ou “simbiose”, en e e lexão eó ica e ac i idade
c ia i a em Cal ino:
Não me julgo po ém com uma e dadei a ocação eó ica. O di e imen o de
expe imen a um mé odo de pensamen o como um gadge que impõe eg as
exigen es e complicadas pode á coexis i com um agnos icismo e empi ismo de
undo; o pensamen o dos poe as e dos a is as, c eio que unciona quase semp e
des a manei a. […] O igo da iloso ia e da ciência, semp e o admi ei e amei
mui o; mas semp e um an o de longe.
6
Es a disse ação não ap esen a, po an o, uma análise musicológica exaus i a de
um caso pa icula da his ó ia da música e udi a do século XX, nomeadamen e den o
do campo ope á ico. De es o, no pe cu so de lei u as que iemos azendo a p opósi o
da in es igação a que nos dedicámos, depa ámos, a dada al u a, com alguns enunciados
de Luciano Be io sob e a análise musical, que o am su icien emen e signi ica i os pa a
nos in e pela na nossa a e a, ao mesmo empo que se e ela am de inido es, pela
p oximidade que deles sen imos, da pos u a que assumimos nes e abalho e com que
expomos a e lexão nes a disse ação. São enunciados que se p endem com a úl ima das
lições de Ha a d que Be io ap esen ou em 1993-94, e que es á publicada naquele que
conside amos se o seu mais denso, e mais ico, conjun o de e lexões ace ca da música
e da sua ecepção po pa e do público em ge al, mas ambém po pa e dos es udiosos
da música con empo ânea . Aí, o ensaio “Poe ics o Analysis” ece a dada al u a uma
7 8
CALVINO, I alo, “En e is a de Ma ia Co i”, in Um E emi a em Pa is. Páginas Au obiog á icas, ad.
6
de José Colaço Ba ei os, Lisboa Teo ema, p.250.
BERIO, Luciano, Remembe ing he Fu u e, Camb idge, Massachuse s, London: Ha a d Uni e si y
7
P ess, 2006.
Ibidem, pp.122-141.
8
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ideia que impo a epo a : Luciano Be io a i ma que qualque análise comple a ou
incomple a de qualque ob a é semp e, no caso dos composi o es, uma au o-análise:
[…] compose s will no be able o help p ojec ing hemsel es, hei own poe ics,
in o he analysis o he wo k. The compose e eals himsel on he couch o
someone else's wo k […] he chie analy ical ins umen a he compose 's
disposal will always and in any case be his own poe ics.
9
É, po an o, a pa i da expe iência p é ia de composi o que ecemos a e lexão
que expomos nes a disse ação. Não p e endemos, no en an o, apenas escla ece a nossa
posição ace à ob a de Luciano Be io e ao conjun o de ques ões que e idencia.
P e endemos, ambém, pensa Be io em con ex o, azendo sob essai o que a Be io
“pe ence” no labi in o que é a p odução musical da segunda me ade do século XX, da
qual somos, nós ambém, he dei os e con empo âneos. Em p imei o luga , po que
pensamos que a ecundidade das ques ões le an adas pela busca be iana apa ece na ob a
de ou os composi o es, e em segundo luga , po que pensamos que não pode emos
a alia co ec amen e a de i a da ob a de Be io se não a enquad a mos num odo mais
as o. Po isso, não hesi a emos em chama à colação a ob a de ou os composi o es
semp e que a sua posição con ibua pa a o escla ecimen o do luga da música de
Luciano Be io. Não se c eia, con udo, que ao con oca mos ou os composi o es pa a
pensa mos a música de Be io, açamos um le an amen o exaus i o do con ex o
his ó ico e cul u al em que es a su ge . Gos a íamos, em ez disso, de e e i uma ideia
10
undamen al do p óp io Luciano Be io quando pensa a poé ica da análise e a na u eza da
ob a de a e musical. Com e ei o, pa a Be io de emos semp e pensa cada ob a de
Ibidem, p.125.
9
Mesmo em abalhos bem ap o undados e sis emá icos sob e a música de Luciano Be io, como po
10
exemplo o excepcional con ibu o de U e B üde mann sob e a sua música ea al (op. ci .), es e es o ço de
sín ese e enquad amen o é uma impossibilidade. Veja-se o longo capí ulo dedicado ao pano ama da sua
p odução ea o-musical, en e ideias de p ojec os e p ojec os cump idos (“Musi hea e we ke und
-p ojek e – ein Übe blick”, op. ci ., pp.21-215), e logo pe cebemos a s di iculdades e iscos de al
emp esa. U e B üde mann cingiu-se a um abalho sus en ado na documen ação exis en e no espólio,
ese ando mui o pouco espaço pa a uma con ex ualização de odo es e pe cu so be iano no ecido da
p odução musical do seu empo. Também Pie e Boulez, num ex o que publica num olume de
homenagem a Luciano Be io di igido po Enzo Res agno e publicado em 2000, ala sin oma icamen e de
“ques ões ge acionais” ao en a ab aça o empo (his ó ico) que a sua música e a música de Be io
a a essam, num di ícil exe cício de balanço que começa po de ini como ilusó io (“Ques ioni di
Gene a ioni”, in Sequenze pe Luciano Be io, a cu a di Enzo Res agno, Milano: Rico di / Fondazione
Umbe o Micheli, 2000, pp.19-24).
!5
a e – e em especí ico a ob a de a e musical – enquan o Tex o , que não de e se
11
enca ado isoladamen e, mas sim como sendo ei o de ou os ex os:
A ex is always a plu ali y o ex s. G ea wo ks in a iably subsume an
incalculable numbe o o he ex s, no always iden i iable on he su ace – a
mul i ude o sou ces, quo a ions, and mo e o less hidden p ecu so s ha ha e
been assimila ed, no always on a conscious le el, by he au ho himsel .
12
A abe u a à ob a de ou os composi o es, que em do ac o de não pode mos
conside a as ob as de Luciano Be io senão enquan o ex os compósi os, ez-nos, po
ou o lado, pe cebe que as ques ões eó icas e ilosó icas le an adas pelo seu legado – e
sob e as quais nos p opomos e lec i de seguida – ul apassam, em mui o, o conjun o
de ob as e ec i amen e compos as po Be io. Re e imo-nos a odo o inesgo á el
uni e so de músicas que nos ci cunda, como, po exemplo, o ock, o pop e o jazz nossos
con empo âneos, mas ambém à música de adição popula e clássica eu opeia, e a odo
o uni e so de músicas pe encen es a ou os empos e espaços geog á icos que não o
cen al-eu opeu, como o o iginá io da ilha de Bali, o chinês, o indiano, o á abe, o
a o-cubano, o espaço ibé ico ou o espaço a icano. Podemos e i ica como a p odução
de Be io, apesa de ci cunsc i a a um cí culo geog á ico e his ó ico do qual ele az
necessa iamen e pa e, nos pe mi e, no en an o, enca a legi imamen e um odo mais
as o, com base no seu pensamen o musical e no ecu so ao pensamen o dos dois nomes
a que já aludimos acima: Gilles Deleuze, Wal e Benjamin. Po “pensamen o musical”
e e imo-nos à sua p á ica musical e não aos seus esc i os sob e a música, que embo a
sejam de ini i amen e ope a i os de sen ido na exposição da nossa e lexão, se pau am,
a nosso e , pelo seu ca ác e pa cimonioso, e asi o e assis emá ico .
13
Ao longo de Remembe ing he Fu u e Be io não se cansa de e e i a sua concepção da música
11
enquan o Tex o. C . BERIO, Luciano, op. ci ., pp. 3, 4, 5, 8, 14, 49, 126, 132, e 134.
Ibidem, p.126.
12
C . a ecen e edição de odos os ex os esc i os po Be io sob e a música: BERIO, Luciano, Sc i i sulla
13
musica, a cu a di Angela Ida De Benedic is, In o. di Gio gio Pes elli, Piccola Biblio eca Einaudi 608,
To ino: Giulio Einaudi Edi o e, 2013.
!6
A música de Luciano Be io
A música de Luciano Be io es á en e a conside ação de e en es que subjazem
à música de um John Cage, à música de um Pie e Boulez e à música popula ou
adicional. Pa alelamen e, a a inidade com I alo Cal ino – o lib e is a de La e a s o ia
– é e iden e. Se pensa mos nas Cosmicómicas , po exemplo, e no igo oso exe cício
14
de an opomo ização dos ela os cien í icos cosmológicos, as onómicos, geológicos e
biológicos, es amos pe an e uma mesma elação de a i o que, na música de Be io,
emos en e o popula e o e udi o, pondo em causa isões in e nas des es pos ulados.
Po seu u no, se na música de John Cage encon amos a consciência da es u u a
subjacen e ao ma e ial musical, na esc i a de I alo Cal ino es e mesmo pendo
au o e lexi o es á p esen e, nomeadamen e ao elege o con o como o ma ma icial da
sua ob a — mesmo em ob as mais ex ensas, como po exemplo Se numa noi e de
in e no um iajan e , ou As cidades in isí eis , de ec amos es a e igem pa a a
15 16
na a i a cu a, semp e ecomeçada e e-ensaiada. Finalmen e, a música de Pie e
Boulez ap oxima-se da esc i a de I alo Cal ino pelas múl iplas o mas que es e úl imo
encon a de aze p oli e a um ma e ial a pa i das suas ca ac e ís icas in e nas.
Re o nemos a Cosmicómicas pa a e i ica mos como cada pos ulado cien í ico ci ado
no início de cada con o é explo ado a é às suas úl imas consequências, a as ando-se
assim de uma an opomo ização ingénua, pa a se enca ado na sua essência. O que
dis ingue, quan o a nós, a música de Be io – al como a esc i a de Cal ino – é a
consciência simul ânea des es di e en es aspec os: à conside ação das ca ac e ís icas
in e nas de um ma e ial, ão idiomá ica num Pie e Boulez, jun a-se a capacidade de
enca a es e mesmo ma e ial num con ex o mais as o, e po an o o a de si, ão p óp ia
de um John Cage. Es a é uma ma ca global da música de Luciano Be io, cujos aços
especí icos e cujas implicações p o undas en a emos desc e e ao longo da p esen e
disse ação. Como e emos, I alo Cal ino se á o e cei o nome a jun a aos de Deleuze e
de Benjamin na nossa e lexão.
CALVINO, I alo, Cosmicómicas, ad. José Colaço Ba ei os, Lisboa: Edi o ial Teo ema, 1993. Mais
14
ecen emen e, Todas as Cosmicómicas, ad. José Colaço Ba ei os, Lisboa: Edi o ial Teo ema, 2009.
CALVINO, I alo, Se numa noi e de in e no um iajan e, ad. de Mº de Lu des Si gado Ganho e José
15
Manuel de Vasconcelos, Lisboa: Vega, 1993.
CALVINO, I alo, As cidades in isí eis, ad. José Colaço Ba ei os, Lisboa: Edi o ial Teo ema, 1996.
16
!7

De emos enca a a poé ica de Be io de uma o ma que nos le e a comp eende a
sua posição na his ó ia da música an o empo al como geog a icamen e, e assim a
dis ingui as ideias esul an es do seu legado musical ace às suas ob as em pa icula .
Pensamos que es a é a ma ca das g andes ob as: indica caminhos que as ul apassam.
Reco de-se, a es e p opósi o, as pala as de Da id Osmond-Smi h sob e a elação de
Be io com Dallapiccola:
In [Dallapiccola’s] sco es, Be io ound a s iking demons a ion o he gene a i e
impe us ha se ial ma ices can gi e o melodic in en ion. Bu he was ne e
g ea ly en h alled by he impeccable musical geome ies o he Webe nian
adi ion ... Be io ook on boa d he exigencies o se ial o hodoxy only in as
much as hey sui ed his c ea i e needs .
17
Tal como Be io iu nas pa i u as e ma e iais de Dallapiccola mais possibilidades de
exp essão do que as que e ec i amen e o am esgo adas po aquele que oi seu p o esso
em Tanglewood (USA), podemos hoje, ambém, imagina no os caminhos e
p oli e ações pa a as suas ideias. Re i a-se, a es e p opósi o, que a linguagem de
Luciano Be io esis e a uma classi icação cla a: é uma música nem onal, nem a onal.
Po que é as duas ao mesmo empo! Consequen emen e, pode p a ica o con í io de
linguagens dis in as, pode se i como pi o en e “linguagens” di e en es, como po
exemplo onais, a onais li es, dodeca ónicas, se iais e modais, ou simplesmen e
esul a da sua sob eposição. É uma música po i : uma música em de i quan o à sua
p óp ia classi icação.
Pa a além das ca ac e ís icas que acabamos de menciona , o impe a i o de
mul iplicidade que ca ac e iza as ob as de Be io em eno mes consequências no de i
musical pa a além da p odução be iana. Pode á, po exemplo, conduzi a uma
di e si icação dos p óp ios ma e iais no in e io de cada uma dessas linguagens. Uma
di e si icação de objec os, en e os quais se incluem o uído, e uma eno me gama de
dissonâncias e consonâncias, em que se incluem as oi a as, no ex emo opos o. E pa a
além dis o, à sua semelhança, a p á ica musical de hoje pode obedece àquilo que
F ançois Be na d-Mâche designa po “uni e sais da música” e, a a és desses mesmos
18
Da id Osmond-Smi h, Be io, Ox o d/ New Yo k: Ox o d Uni e si y P ess, 1991, p. 4.
17
C . MÂCHE, F ançois-Be na d, Musique au Singulie , Pa is: Édi ions Odile Jacob, 2001. Edição
18
digi al EAN: 978-2-7381-8037-7.
!8
uni e sais, e a ousadia de euni o di e so. Se em Johann Sebas ian Bach o uno ia a
sua possibilidade de exis i no seu desdob amen o em múl iplas ace as, em Luciano
Be io a i edu ibilidade do múl iplo dá a e uma essência su p eenden emen e una. Não
se a a aqui de uma me a in e são o mal de e mos. Como e emos, a mul iplicidade
em Be io em consequências mesmo na o ma como se olha o passado, dando a e o
múl iplo que habi a o que semp e pensámos como uno . Po que o ac o de Be io e
19
descobe o a possibilidade de cons i ui um odo uno a pa i de ma e iais dis in os
20
inaugu a de o ma de ini i a no os modos de enca a o enómeno musical. E po que o
ac o de o mesmo Be io e econhecido nesses ma e iais o ac o essencial da
mode nidade que eles con inham, que é o de da em co po à mul iplicação de pon os de
uga, consubs anciada po exemplo na mul iplicação de ónicas musicais, con ida à
21
conside ação dessa mesma mul iplicidade num ní el sono o mais as o. Ou ainda
po que a cons i uição de uma g amá ica de unçõess e olu i as po pa e de Be io
esul a ine i a elmen e dos seus es o ços composicionais. Uma e olução que
pode emos le a ao pon o da des uição do seu ma e ial, umo a uma simplicidade
habi ualmen e ausen e na sua ob a. Tal como pode emos es abelece a possibilidade de
um con inuum en e passado e p esen e, o popula e o e udi o; ou expe imen a o
edimensionamen o da noção de au o ; ou ensaia a diluição de ce as on ei as a pa i
da possibilidade de se a onal com escalas modais e a possibilidade de cons ução de
uma sin axe em cons ução; ou ainda de e i ica a possibilidade de consonância, de
peso ha mónico e consequen emen e de pola idade num con ex o mais as o.
A abo dagem de ais ca ac e ís icas le a, na u almen e, à ap oximação a
ques ões como a da ahis o icidade, a da icção en e linguagens, e com elas a ques ão
da exis ência de um sen ido e signi icado musicais, a ques ão da ope acionalidade de
ce os concei os ilosó icos e polí icos pa a a composição e, inalmen e, a abo dagem
daquilo que podemos designa de condições pa a a libe dade de c iação e de audição.
Be io não es á só nes e aspec o; ambém na ob a de um Gyö gy Lige i e de um Wol gang Rihm emos
19
uma mesma mundi idência.
O p óp io Luciano Be io ala des a busca em “Fo ma ions”: “I pe sonally was busy looking o
20
ha monic cohe ence be ween di e se ma e iais” (in Remembe ing he Fu u e, op. ci ., pp.17-18).
Ainda Be io: “An essen ial ac o o mode ni y has always been i s abili y o modi y pe spec i es, o
21
cancel o mul iply he anishing poin s, he " onics" ha indica e he " igh " pa h” (in Remembe ing he
Fu u e, op. ci ., p.22).
!9
Po que a eno me admi ação que sen imos ace à ob a de Luciano Be io – pensamos nas
suas Sequenze e Chemins, nas suas Folksongs, na sua Sin onia, em Co o, nas suas ob as
elec o-acús icas, em Poin s on a cu e o ind, no seu legado ope á ico, en e an os
ou os exemplos que cons i uem um as o ca álogo musical – não de e impedi -nos de
e as consequências incon o ná eis do seu pensamen o musical. São es as
consequências que nos p opomos explo a nes a disse ação, sem e , con udo, quaisque
p e ensões de se mos exaus i os. Po que, como dissemos a ás, a ma ca da g ande a e
ine i a elmen e ul apassa e se es ende mui o pa a além das ob as que lhe de am
o igem.
Es amos, pois pe an e a cons a ação da impossibilidade e da impe inência de
qualque análise baseada no isolamen o dos seus cons i uin es e no es o ço de de i ação
a pa i de cada um deles, de oda e qualque no idade sono a que os habi a. Po que essa
no idade em necessa iamen e de o a da ob a, e mais ainda, de o a do composi o ,
po que o ac o de compo é semp e um ac o de es abelecimen o de elações inaudi as
com, e en e, ex os p é-exis en es. É o p óp io Be io que nos diz, em “The Poe ics o
Analysis”:
The e a e cases in which analysis is b ough o bea on expe iences which do no
easily lend hemsel es o linea and nume ical desc ip ion. In such cases he
c ea i i y o he analys may expe ience some di icul momen s, especially when
dealing wi h some hing ha has no immedia e meaning (a sound doodle o an
acciden al and indeciphe able noise) bu which can be made o mean some hing.
22
BERIO, Luciano, Remembe ing he Fu u e, op. ci ., p.130.
22
!10
La e a s o ia: o nosso caso de es udo
Compos a en e 1977 e 1980, e es eada em Ma ço de 1982 no Tea o alla Scala,
em Milão, a ópe a La e a s o ia – po Luciano Be io denominada de “azione musicale”
– é a segunda das cinco ópe as que in eg am um conjun o as o de peças que se
conside am pa e do ecen emen e es udado “ ea o musical de Luciano Be io” . Com
23
lib e o de I alo Cal ino e de Luciano Be io, a ópe a es u u a-se em duas pa es,
cons i uindo a segunda pa e um eco da p imei a, na medida em que os seus elemen os
musicais e ex uais – dis ibuídos po di e sos momen os que, numa lei u a supe icial,
se ligam a um código ope á ico ela i amen e comum, com alusões a Ve di (a ópe a Il
T o a o e, nomeadamen e, é um modelo de e e ência), com due os, ios e a ie a
compo a na ação de uma sé ie de episódios, com pe sonagens cen ais e secundá ias
con acenando no meio da mul idão – são, na segunda pa e, como que desman elados e
dispos os num conjun o de “cenas” sem p og essão na a ológica apa en e, azendo no
en an o sob essai ou as camadas de sen ido, inaudi as, da his ó ia ou his ó ias na adas
an e io men e. Na sua no a de au o sob e La e a s o ia, sin oma icamen e in i ulada
“Ope a e no”, Be io diz, opo unamen e, que a Pa e II “pensa” a Pa e I . Claudia di
24
Luzio sublinha a p edominância do abalho musical sob e o ex o na sua segunda pa e:
The eby hey a e ansposed e lexi ely in a i ual musical-d ama u gical
o ma ion p edominan ly de e mined by music and sub e si e ela ionships o
space and ime .
25
Di íamos que La e a s o ia, a pa i do seu í ulo, mas ambém na sua
conc e ização ex ual e sob e udo musical, abalha de modo mui o pe inen e e
ap o undado o p óp io sen ido da his ó ia. En e a p imei a e a segunda pa e não há só
Falamos das seis jo nadas de es udos sob e o ea o musical de Luciano Be io, que i e am luga em
23
Pa is e Veneza en e 2010 e 2013, e cujos con ibu os o am mui o ecen emen e coligidos numa
publicação em dois olumes: Le Théâ e musical de Luciano Be io, Tome1 - De «Passaggio» à «La e a
s o ia»; Tome 2 - De «Un e in ascol o» à «C onaca del Luogo», di . de Gio dano Fe a i, Pa is:
L'Ha ma an, 2016.
BERIO, Luciano, “Ope a e no”, [no a de au o sob e La e a s o ia], in Sc i i sulla musica, op. ci ., p.
24
267.
DI LUZIO, Claudia, “Looking back on La e a s o ia. C i ical and Documen a y In oduc ion”, op. ci .,
25
p.412.
!11
cons i uição do lib e o de La e a s o ia só nos in e essa, não pa a p olonga uma
discussão já longa sob e a génese des a ópe a, mas sim pa a mos a uma a inidade
es é ica e é ica p o unda en e o pensamen o de ambos os au o es, que e á dece o
de e minado a sua colabo ação. Não é, de es o, po acaso que u iliza emos
p ecisamen e as No on Lec u es de Cal ino pa a pensa as implicações é icas da
p odução be iana, no úl imo capí ulo da p esen e disse ação. E po mui o que se
encon e uma ce a i onia e capacidade de dis anciação nas pala as de Cal ino ace à
colabo ação com Be io no lib e o de La e a s o ia (que an os apon am como
expe iência nega i a), di íamos, pelo con á io, que oi um abalho plenamen e
cump ido, sem abdica do que ealmen e é undamen al an o pa a Luciano Be io como
pa a I alo Cal ino.
T ês anos depois da mo e inespe ada de I alo Cal ino, Luciano Be io dá
es emunho do abalho de colabo ação que e e com o seu amigo em di e sos
momen os da sua p odução. É um es emunho impo an e, na medida em que ala da
musicalidade de Cal ino e do seu papel de e minan e no abalho de Luciano Be io. As
pala as que de seguida ci amos, não podendo nem que endo nega o que es á
documen ado sob e a cons i uição do lib e o de La e a s o ia, dece o con ibuem pa a
se aze à luz o que é essencial e e des a mesma ques ão — o ac o de Be io e
encon ado em Cal ino um colabo ado adequado, não só no que diz espei o à a e a
que lhe p opôs p op iamen e di a, mas, mais do que isso, o que dela se p e endia ex ai
em sen ido e em subs ância pa a a lei u a de La e a s o ia:
Sa ebbe lungo accon a e nei de agli, spesso di e en i, le di e se appe del mio
la o o con I alo. Un gio no qualcuno lo a à. Vo ei comunque ico da e che mi
sen o immensamen e debi o e con I alo non solo pe quello che mi ha da o ma
anche e p op io pe quella sua es e na non-musicali à che mi ha aiu a o a ene e i
piedi pe e a nell'espe ienza della comunicazione e bale a a e so la musica e
della comunicazione musicale a a e so la pa ola. Ma sop a u o gli sono g a o
pe la sua ope a che è, in e e i, una delle piú musicali nella le e a u a di ques o
secolo, anche in i ú di quella mol i udine, di quella poli onia di li elli esp essi i
che lui a e a di icol à a pe cepi e nell'espe ienza musicale. Il suo pe co so
c ea i o, con la mobili à di u i i suoi li elli di eal à, è in a i idealmen e
!18

pa agonabile a una a chi e u a musicale: come una cos uzione di ammen i
in e namen e pa ecipi di un p ocesso musicale in con inua as o mazione.
46
BERIO, Luciano, “La musicali à di Cal ino [1988]”, in Sc i i sulla musica, op. ci ., pp.328-331.
46
!19
Es a disse ação
O objec i o inal da p esen e disse ação é a ponde ação sob e as implicações
é icas de uma es é ica que ousa elaciona o di e so. Po que, se é consensual na
li e a u a c í ica sob e a música be iana a sua cons an e emissão pa a ou os supo es,
sejam es es musicais, li e á ios, ou cénicos; se é igualmen e consensual, na li e a u a
analí ica, que a música de Be io – e ambém em La e a s o ia – p i ilegia o encon o
com o ou o e a con i ência de múl iplas camadas díspa es num mesmo momen o
musical; al cons a ação ca ece de uma explicação sob e as consequências é icas de al
ges o ou aço es é ico. E se os es udos de eo analí ico sob e La e a s o ia, po
exemplo po , U e B üde mann, po Da id Osmond-Smi h, e po Angela Ca one , são,
47
sem dú ida, impo an es pa a a cons i uição des e abalho, ambém o es udo de
Susanna Pas icci sob e a dimensão é ica do pensamen o c ia i o de Be io é
48
undamen al pa a a consolidação dos nossos p opósi os de e lexão. Pas icci esc e e no
esumo do seu a igo:
Luciano Be io's music is anima ed by a p o ound e hical ension: a oca ion o
e hos ha is e lec ed no only in his commen s o his w i ings on musical
aes he ics, bu also in his c ea i e choices, his a is ic p ac ice and he sound
wo lds he c ea ed. Al hough i is u gen and indispensable, his ension has
no hing o he ideological s ance abou i , no is i emphasized o exhibi ed; i is
mo e an a i ude owa ds he wo ld, and i s e hical alue can be aced only in he
mos hidden olds o his hough and his way o making music.
49
Se é inegá el a cons a ação de uma dimensão é ica no aze musical de Luciano Be io, a
sua e lexão é, sem dú ida, uma a e a que u ge cump i . Se Pas icci elege as No on
Lec u es de Be io como caso de es udo pa a deba e es a ques ão, es e caminho es á, no
en an o, de algum modo incomple o, na medida em que é sob e udo na conc e ude do
seu aze musical (e não nos seus esc i os) que es a dimensão é ica se deixa desc e e
Além dos abalhos de Osmond-Smi h e de B üde mann (op. ci ., com um a u ado exe cício
47
compa a i o en e o ma e ial ex ual e musical p esen e na p imei a e segunda pa es da ópe a, pp. 360ss.
e 370ss.), ci ados a ás, eme emos pa a o es udo de CARONE, Angela, “La e a s o ia: o ganizzazione
dei ma e iali sono i”, in Le Théâ e musical de Luciano Be io, Tome1 - De «Passaggio» à «La e a
s o ia», di . de Gio dano Fe a i, Pa is: L'Ha ma an, 2016, pp.431-452.
PASTICCI, Susanna, “«In he mean ime, we'll keep ansla ing». The s eng h o he e hical dimension
48
in he c ea i e hough o Luciano Be io”, in Luciano Be io. Nuo e p ospe i e…, op. ci ., pp.459-475.
PASTICCI, Susanna, ibidem, p.459.
49
!20
em de alhe. Qualque pe cu so a ís ico é, sem dú ida, po ado de uma dimensão é ica.
E, se no caso de Luciano Be io, mui os são os es udos sob e a sua ob a que se
ap oximam de in e p e ações es é icas con ex ualizadas no ecido his ó ico-social, no
ecido polí ico, no seu pe cu so biog á ico e na elação com ou os composi o es e um
mundo imenso de a is as, al a, no en an o, sal a do campo analí ico ap o undado e
en a le de um pon o de is a ilosó ico e é ico a enomenologia da sua música. Fal a
aze encon a o es o ço analí ico que os es udos be ianos êm cul i ado sob e a sua
música com ques ões que, a nosso e , es ão in imamen e implicadas no objec o sono o
be iano, se bem que lhe sejam apa en emen e ex e io es, pelo simples ac o de
pe ence em à es e a da sua elação com o mundo.
Assim, a e lexão de ma iz his ó ico- ilosó ica e analí ica que amos de seguida
desen ol e em como in ui o apon a pa a as implicações é icas que subjazem ao aze
a ís ico de Be io. La e a s o ia se á o nosso caso de es udo, mas dadas as
ca ac e ís icas da música be iana, se á impossí el não ala da ob a an e io e pos e io a
es a ópe a. E, se po um lado ensaiamos epensa a música de Luciano Be io den o de
um enquad amen o concep ual ilosó ico, po ou o es e mesmo enquad amen o não
pode senão se de idamen e implicado na lei u a analí ica que de seguida ap esen amos.
O deba e sob e ques ões ha mónicas na música be iana se á, assim, não só um
con ibu o que dialoga com as lei u as já exis en es, mas ambém uma p opos a de
análise que se es o ça po caminha pa a o a de si mesma.
Es a é uma disse ação es u u ada em qua o capí ulos que êm como pon o de
uga a o ça do a i o que mo e a composição em Luciano Be io. Cada um dos qua o
capí ulos p i ilegia um dos seguin es aspec os: conside ações de o dem ilosó ica
(capí ulo I), p á ica musical (capí ulo II), ques ões de eo concep ual sob e a his ó ia e a
a e (capí ulo III) e p eocupações polí icas no sen ido la o (capí ulo IV).
O p imei o capí ulo da nossa disse ação, in i ulado «Pensa a Música de Be io.
Uma ponde ação ilosó ica a pa i de Gilles Deleuze», em a unção de ap esen a ,
an es de mais, o pon o de pa ida do nosso aciocínio. Ao mesmo empo que ece uma
e lexão ge al e in odu ó ia sob e a música de Luciano Be io, in oduz de o ma
sis emá ica e ope a i a um conjun o de concei os ge ados pelo pensamen o de Gilles
!21
Deleuze (em pa e ambém com Felix Gua a i) que ajudam a in oduzi uma lei u a de
eo ilosó ico sob e o aze musical de Luciano Be io.
Es e apa a o concep ual que deco e da nossa lei u a dos ex os de Gilles
Deleuze, e que nos ajudou de o ma decisi a na lei u a da p á ica musical be iana, é de
seguida e is o no con ex o da análise do objec o sono o be iano, que expomos no
segundo capí ulo, in i ulado «A p á ica musical de Luciano Be io». Nes e capí ulo, a
p opósi o de p ocede mos a uma análise ha mónica e í mica da ob a de Be io, e em
pa icula de La e a s o ia, pensamos o objec o sono o be iano ace ao campo musical
em que se inse e, sendo que en endemos po “campo musical” um co po
espacio- empo al ala gado, que ai desde a p odução musical de inais do século XIX e
a con empo aneidade. Ci cunsc e e es e campo não p e ende, con udo, de ini-lo de
o ma exaus i a ou sis emá ica, como já escla ecemos acima. A nossa e lexão nes e
capí ulo an ecipa, além do mais, o que se desen ol e de seguida, no e cei o capí ulo, na
medida em que a lo a alguns aspec os que deco em da análise écnica da música
be iana à luz das ques ões ilosó icas an e io men e abalhadas, aspec os es es que se
ligam à concepção da ob a de a e e à pe cepção da imanência a que es a pe ence.
O e cei o capí ulo, in i ulado «A consciência do acon ece e a concepção da
ob a de a e» eco e a uma sé ie de ensaios de Wal e Benjamin sob e a His ó ia e sob e
a ob a de a e na época da possibilidade da sua ep odução écnica, pedindo
emp es ado o í ulo de um desses mesmos ex os . Fazendo uma e isão da lei u a
50
ilosó ica e analí ica da música de Be io, a nossa e lexão ala ga-se a ques ões que, po
con as e ao pensamen o enomenológico de Gilles Deleuze – que p ocede a uma lei u a
imanen is a da ob a de a e –, subjazem no ecido p o undo do aze musical de Luciano
Be io e apon am pa a uma camada de lei u a de eo mais sócio-polí ico, no sen ido la o.
Nes e capí ulo en amos, po an o, pe cebe o espí i o polí ico que subjaz ao aze
musical be iano, pa a inalmen e ensaia mos, no úl imo capí ulo, uma e lexão al ez
mais des acada da p og essão en e os ês capí ulos an e io es, na medida em que echa
o nosso aciocínio e en a esponde à pe gun a que cons i ui o seu í ulo: «O que pode a
música?».
BENJAMIN, WALTER, "A ob a de a e na época da sua possibilidade de ep odução écnica", in A
50
Mode nidade, Ob as Escolhidas de Wal e Benjamin/3, ed. e ad. de João Ba en o, Lisboa: Assí io &
Al im, 2006, pp.207-241.
!22
Nes e úl imo e qua o capí ulo p ocedemos a uma e lexão inal sob e La e a
s o ia de um pon o de is a é ico, con ocando aspec os que o am sendo desen ol idos
nos capí ulos an e io es e azendo à colação o pensamen o es é ico – e é ico! – de I alo
Cal ino, a nosso e absolu amen e undamen al pa a es u u a a nossa e lexão sob e
as implicações é icas da música de Luciano Be io. Ten a emos, nes e úl imo capí ulo,
que as No on Lec u es de ambos os au o es nos ajudem a consolida es e deba e sob e
as implicações é icas da música de Be io, echando o nosso caminho no sen ido de uma
lei u a plu al sob e um enómeno ele p óp io ambém plu al, ou em cons an e de i .
Res a uma no a inal, que de algum modo e o na ao início des a ap esen ação
ge al. Se Gilles Deleuze, Wal e Benjamin e I alo Cal ino me ecem uma a enção
especial a pa i de alguns dos seus ex os pa a melho pensa mos a música de Luciano
Be io, já o deba e em ol a de alguns dos concei os e algumas das noções que se em a
nossa e lexão, azendo odo o sen ido den o da especi icidade dos es udos sob e a sua
ob a em e mos es i os, não pode e aqui um a amen o su icien emen e cabal, sob
pena de nos des ia do nosso in ui o. Se po en u a algumas das ma é ias me ecem se
ap o undadas den o do campo es i amen e ilosó ico ou eó ico em que su gem e são
ope a i as, essa não é, de ac o, a nossa a e a nes e abalho. Ac esce que, ao ala mos
de “implicações é icas” da música be iana, não nos demo amos na de inição desse
ho izon e de e lexão pa a onde a nossa exposição caminha, po que al ambém dece o
nos i ia des ia do nosso in e esse p imei o, que é o de consubs ancia mos algumas das
p eocupações que nos acompanham de o ma cons u i a e p odu i a na nossa
ac i idade de composi o .
Se pensa mos em La e a s o ia (1981) como uma consequência na u al dos
es o ços composicionais de Sin onia (1968) umo ao múl iplo e izomá ico (pensamos
no seu e cei o e quin o andamen os), e se pensa mos na Sin onia como na u almen e
esul an e de uma ap op iação con empo ânea da 9ª Sin onia de Bee ho en (1824) – ela
p óp ia esul ado de um es o ço composicional sediado na mon agem (pensamos mui o
explici amen e no seu úl imo andamen o) –, pe cebemos que a consciência do múl iplo
em Luciano Be io ex a asa o seu p óp io aze e o seu p óp io empo e ab aça
composi o es que se di iam “insuspei os” quan o a de e minados ges os ou linguagens,
!23

ab indo no os olha es de escu a e de lei u a sob e a sua música. É exe ci ando uma ce a
asu a nos espa ilhos que ge almen e nos guiam como lei o es da ob a de ou os
composi o es que ensaia emos le o enómeno musical de Be io, cien es, no en an o, da
di iculdade em não cai mos, nós p óp ios, em incoe ência.
!24
I PENSAR A MÚSICA DE BERIO
In he mean ine, we'll keep ansla ing.
(Be io, Remembe ing he Fu u e)
Uma ponde ação ilosó ica a pa i de Gilles Deleuze
A música de Luciano Be io a i ma-se, desde os seus p imei os abalhos, como
uma música de momen os inespe adamen e sedu o es e sensuais, aços, de es o,
abundan emen e e e idos pela c í ica em ge al . Se es e ac o é comummen e e e ido, a
1
sua aíz não é apenas o desejo de c iação de momen os apela i os, mas algo de mais
p o undo. Na e dade, ace ao compo amen o indu i o de um Pie e Boulez – que pa e
Desde logo, en e ecensões c í icas, a igos de jo nal, en adas de dicioná ios e obi uá ios, a sedução da
1
música be iana é semp e e e ida. Po exemplo, Da id Osmond-Smi h numa en ada sob e Luciano Be io:
"This ecupe a ion o ha monic g a i ica ion […] ma ks a u he e olu ion in his mos consis en and
pe ennial p eocupa ion: an in ense and deligh ed explo a ion o he sensual impac o his sound ma e ials"
(in New Make s o mode n Cul u e, ed. by Jus in Win le, ol. 1, London and New Yo k: Rou ledge, 2007,
p.137). Ou E ic Dahan, a p opósi o da éci a de Ou is em 1999, no Fes i al d'au omne: "Pa allèlemen à
ce e conscience de plus en plus aiguë du monde, la ma iè e o ches ale, l'in en ion mélodique s'a inen à
un poin de sensuali é élec isan e e apaisan e, don les dé ac eu s s igma isen le ca ac è e
o mel." («Ou is», sensuel e élec ique, Libé a ion, 17 no emb e 1999; h p://nex .libe a ion. /cul u e/
1999/11/17/con empo ain-le- es i al-d-au omne-p opose-la-c ea ion- ancaise-de-l-ope a-de-be io-ou is-
sensuel-e_289196). Ou ainda Ca he ine Laws a p opósi o da elação de música e ex o em Be io: "The
e ec is some imes pu ely musical, wi h sung ones o e en sho ph ases appea ing momen a ily, and
some imes mo e pu ely seman ic, wi h odd wo ds o syllables suddenly soken clea ly. P ima ily, hough,
hese wo ks play wi h he ela ionships and limi s o music and language, explo ing ields o semio ic
ambigui y. The lis ene is d awn in o he sensual as well as he s uc u al d ama o he g adually e ol ing
phone ic musical and seman ic ela ionships." (in Headaches Among he O e ones - Music in Becke /
Becke in Music, Ams e dam / New Yo k, 2013, p. 226). E ambém Robe Ca l, numa ecensão do disco
com música pa a piano de Be io em 2007: "Be io’s ellow coun yman, he no elis I alo Cal ino, w o e a
b illian essay on “ligh ness” in a , and hese pieces a e exempla s o ha quali y. One eels ha an
immense amoun has been said in a manne ha ’s economical, bu no aus e e. E en hough i ’s compac ,
he music emains sensual and seduc i e, and one emains hung y o mo e—bu “mo e” would p obably
be oo much, like a second se ing o an exquisi e desse ." (in h p://www.a ki music.com/classical/
Name/Talia-Lucchesini/Pe o me /151716-2 [Recensão c í ica ao CD: BERIO Sona a. 6 Enco es.
Rounds. Sequenza IV. 5 a iazioni. Touch. 1 Canzone a 1 • And ea Lucchesini (pn); Valen ina Pagni
Lucchesini (pn) 1 • AVIE 2104 (61:32)]). Re i a-se ainda as pala as de Ma k Swed num obi uá io sob e
Be io: "S ill, i is p obably he shee sensuali y o Be io's music, i s I aliana e ly icism, ha may be i s
mos memo able quali y. A la ge - han-li e pe sonali y, Be io enjoyed ine wines (he had his own Be io
label in Radicondoli), ciga s and o he luxu ious indulgences, and ha lo e o pleasu e is unmis akable in
his music." ("Luciano Be io, 77; G oundb eaking I alian Compose ", Los Angeles Times, May 28, 2003:
h p://a icles.la imes.com/2003/may/28/local/me-be io28/2). No seu a u ado es udo compa a i o en e
Be io e Lachenmann, Béa ice Ramau desc e e o con as e en e os composi o es no a amen o da
adição: “[…] l'un [Lachenamnn, com Accan o] donne à en end e une musique âp e, essen iellemen
ac ile, l'au e [Be io, com Ope a] une musique pleine qui sédui l'o eille” (“Deux mises en scène d'une
conscience de la adi ion”, Re ue de Musicologie, 79/1 (1993), p.128). E, inalmen e, Tom Se ice no
The Gua dian: "The e ec o Be io's laby in hs o lis ening is nea ly always immedia e, pleasu able, and
sensual." ("A guide o Luciano Be io's music", The Gua dian,Monday 10 Decembe 2012: h ps://
www. hegua dian.com/music/ omse iceblog/2012/dec/10/con empo a y-music-guide-luciano-be io).
!25
de um elemen o ge ado mínimo pa a a cons ução do odo – ou ao compo amen o
2
p incipalmen e dedu i o de Ka lheinz S ockhausen – que, ao con á io de Boulez, pa e
do odo pa a a cons ução dos elemen os mínimos das suas ob as –, ou ainda ace à
3
p odução de um Luigi Nono, cuja música se alice ça na mul iplicidade in e na do
objec o musical , emos su gi , com Luciano Be io, um ou o modo de pensa o de i
4
musical, que se concen a á na ideia de ans o mação. Es a ans o mação ma e ializa-
se na co-exis ência de objec os musicais dis in os, e logo no es abelecimen o de
di eccionalidades que pe mi em a inclusão de momen os di e sos. Se bem que pa ilhe
com Nono a conside ação da mul iplicidade do objec o musical, o que in e essa a Be io
são, mais do que as ca ac e ís icas do objec o que ab aça ou a essência global do objec o
que p e ende compo , as suas possibilidades de mu ação: “The eal en iching expe ience
is o be able o pe cei e p ocesses o o ma ion, ans o ma ion o changing hings -
a he han solid objec s” . É es e o pon o de pa ida da sua de i a, que lhe pe mi e a
5
eclosão dos ais momen os inespe adamen e sensuais que e e imos no início des e
pa ág a o.
En e an o, a conside ação da mul iplicidade e mu abilidade dos ma e iais
e lec e-se na es u u a subjacen e ao p ocesso c ia i o — com is o, es amos pe an e um
ou o pa adigma composicional. Conc e izamos: a a qui ec u a do ma e ial é di e en e
da p econizada po Schoenbe g, a p opósi o da sua concepção da sé ie dodeca ónica. Na
música de Be io – mas ambém na de ou os, como Gyö gy Lige i e B uno Made na,
po exemplo –, a sé ie ou sequência ou campo ha mónico o iginal pode ão se is os
como elemen o egulado da con i ência pací ica de objec os múl iplos e mu an es, e
po an o cai de ini i amen e po e a a ideia de um ma e ial que é simul aneamen e o
Po exemplo, em Le Ma eau sans Maî e (1955), Boulez cons ói a peça oda a pa i da u ilização de
2
uma só sé ie dodeca ónica. Ou em Répons (1980-1984), onde de no o emos uma sequência inicial
esponsá el pela ge ação do odo.
Po exemplo, em G uppen (1955-1957), S ockhausen pa e de uma ideia global da peça pa a a
3
cons i uição de cada uma das suas pa es. C . WÖRNER, Ka l H., S ockhausen. Li e and Wo k, in od.,
ad. e ed. de Bill Hopkins, Be keley and Los Angeles: Uni e si y o Cali o nia P ess, 1976, p.200. Mas
ambém em S immung (1968) o mesmo p ocesso pode se iden i icado.
Como se pode le no a igo de Gianma io Bo io sob e Luigi Nono, no The New G o e Dic iona y o
4
Music & Musicians (Ox o d Uni e si y P ess): "His no ion o sound as a complex e en wi h i s own
in e nal mobili y, a no ion ha eme ges explici ly in his las decade, is al eady e iden in he ea ly wo ks
which es ablished his in e na ional epu a ion."
“Luciano Be io on New Music: An In e iew wi h Da id Ro h", Musical opinion, Sep emb e 1976,
5
p. 549.
!26
elemen o egulado do desen ol imen o musical e o objec o musical p op iamen e di o .
6
Conc e izamos uma ez mais: uma sé ie, pa a Schoenbe g, é não só o ins umen o que
edi ica o con í io dos ma e iais de uma peça, mas ela p óp ia cons i ui esses mesmos
ma e iais — es e oi um dogma na cons ução da a qui ec u a ha mónica de mui a
música do século XX, nomeadamen e em composi o es da p imei a e da segunda
me ade do século XX!
Mas es a ques ão da eclosão de uma no a es u u a que, ao con á io da sé ie
dodeca ónica de Schoenbe g, se assume como es u u a mul idimensional, su ge
acompanhada de uma ou a, cuja impo ância não é demais ealça : alamos de uma
lei u a cinema og á ica do ma e ial, ou seja, a acumulação p og essi a de elemen os
numa paisagem sono a, como acon ece no início da Sag ação da P ima e a (1913) de
S a insky, ou na música de ou o dos ídolos de Luciano Be io, Gus a Mahle , de que
damos como exemplo o I Andamen o da 9ª Sin onia (1908-1909), ou ainda em P élude
à l'ap ès-midi d'un Faune (1892-1894), de Debussy. Es a endência não é, aliás, no a na
his ó ia da música; ela é expe imen ada de o ma aciden al desde o ad en o do Lied e a
aplicação de di e en es ex os a um mesmo con eúdo musical. Um dos exemplos mais
cla os daquilo que que emos dize é «Das Wande n» (do ciclo Die Schöne Mülle in,
1823), de Schube . Mas se ob iamen e es a endência acompanhou a música desde
semp e, ela é ago a po enciada em no os con ex os ha mónicos e não apenas limi ada às
suas o mas de exp essão mais adicionais. No e-se que udo is o é mui o di e en e do
que nos habi uámos a conside a quando es amos pe an e um odo musical: na e dade,
não emos o objec o, mas sim uma isão do mesmo. Tal ez sin amos, aliás, que aquilo
que julgamos se em objec os a ís icos são apenas isões de ou os objec os o iginais,
que não podemos e — adian e nes e abalho i emos e o na a es a ques ão, com a
ajuda do pensamen o de Wal e Benjamin sob e a ob a de a e.
Se a ideia de ans o mação cons i ui um pon o de pa ida inicial da p odução
be iana, e se os p ocedimen os écnicos que adian e analisamos (no capí ulo que se
segue) nos ajudam a cla i ica os modos como es a ans o mação se conc e iza, al não
Os es udos eunidos no olume o ganizado po Enzo Res agno sob e a música de Lige i são p o usos
6
nos exemplos e e en es a es a emá ica. Vd. RESTAGNO, Enzo (o g.), Au o i Va i - Lige i, To ino:
Edizioni di To ino, 1985. Quan o a Made na, o abalho de Raymond Fea n ambém nos acul a exemplos
des a ques ão: Con inui y and Change: The Music o B uno Made na, disse ação de dou o amen o
ap esen ada à Uni e si y o Keele, Ma ço de 1989 (The B i ish Lib a y Documen Supply Cen e, UK).
!27
quais não seja possí el acha uma di e ença in e na, ou undada numa
denominação in ínseca.
17
Cada uma das secções do izoma ep esen a um momen o que não pode deixa
de se is o como ex e io a odo o izoma, de al o ma se di e encia dos es an es de
modo in insecamen e di e so e inaudi o. O concei o de izoma adica na conside ação
das di e enças dos elemen os de um pon o de is a ex e io , como se olhássemos pa a
um mapa:
The hizome is al oge he di e en , a map and no a acing. Make a map, no a
acing. The o chid does no ep oduce he acing o he wasp; i o ms a map
wi h he wasp, in a hizome. Wha dis inguishes he map om he acing is ha i
is en i ely o ien ed owa d an expe imen a ion in con ac wi h he eal. The map
does no ep oduce an unconscious closed in upon i sel ; i cons uc s he
unconscious. I os e s connec ions be ween ields, he emo al o blockages on
bodies wi hou o gans, he maximum opening o bodies wi hou o gans on o a
plane o consis ency. I is i sel a pa o he hizome. The map is open and
connec able in all o i s dimensions; i is de achable, e e sible, suscep ible o
cons an modi ica ion. I can be o n, e e sed, adap ed o any kind o moun ing,
ewo ked by an indi idual, g oup, o social o ma ion. I can be d awn on a wall,
concei ed o as a wo k o a , cons uc ed as a poli ical ac ion o as a medi a ion.
Pe haps one o he mos impo an cha ac e is ics o he hizome is ha i always
has mul iple en yways; in his sense, he bu ow is an animal hizome, and
some imes main ains a clea dis inc ion be ween he line o ligh as passageway
and s o age o li ing s a a (c . he musk a ). A map has mul iple en yways, as
opposed o he acing, which always comes back “ o he same”.
18
No undo, não nos in e essa a di e ença en e um elemen o e aquele que o acompanha,
mas sim a unidade que eles cons i uem, o mapa que desenham. Mui o cla amen e, se um
mesmo elemen o musical o mudado de con ex o, muda á, ambém, de na u eza, não
de ido a quaisque azões in e nas, mas po que a sua posição ace a um odo ex e no
di e en e lhe muda á a na u eza. Mais especi icamen e, se pensa mos na eco ência de
emas em Mahle , ou de igu as e elemen os musicais em Be io, depa amos com a
me amo ose que ais elemen os en ol idos so em, no que pode íamos designa como
um i o nello de g andes dimensões. E se é possí el a ibui mos um papel ma e ial ou
LEIBNIZ, Go ied Wilhelm on, Monadologia, ad. Miguel Se as Pe ei a, Mad id: P isa Inno a S.L.
17
[Lisboa: Fim de Século], 2008, p.203.
DELEUZE, Gilles, Félix Gua a i, A Thousand Pla eaus, op. ci ., p.12.
18
!34

pu amen e exp essi o, ou ainda uma mis u a dos dois, a cada um dos elemen os do
izoma, de e emos uma ez mais enomenologicamen e conside a as suas
ca ac e ís icas em elação ao con ex o que as ci cunda ou como emancipação desse
mesmo con ex o — e a música de Be io me ece se con emplada como uma paisagem
de elemen os di e sos sem que seja necessá io es abelece elações ou he a quias en e
eles.
É decisi a, pa a a cons i uição do izoma, não a ideia de subo dinação
hie á quica dos seus elemen os – ípica de oda a es u u a a bo escen e una – e sim a
ideia de uma es u u a em que qualque elemen o pode a ec a ex e io men e os
es an es:
The e is no uni y o se e as a pi o in he objec , o o di ide in he subjec . The e
is no e en he uni y o abo in he objec o " e u n" in he subjec . A mul iplici y
has nei he subjec no objec , only de e mina ions, magni udes, and dimensions
ha canno inc ease in numbe wi hou he mul iplici y changing in na u e ( he
laws o combina ion he e o e inc ease in numbe as he mul iplici y g ows).
19
Um izoma em ambém com as es u u as clássicas a di e ença de pode se
in e ompido a qualque momen o. Es e aço liga-se ao p incípio que Deleuze e
Gua a i apelidam de “ up u a não singi ican e”:
A hizome may be b oken, sha e ed a a gi en spo , bu i will s a up again on
one o i s old lines, o on new lines. You can ne e ge id o an s because hey
o m an animal hizome ha can ebound ime and again a e mos o i has been
des oyed. E e y hizome con ains lines o segmen a i y acco ding o which i is
s a i ied, e i o ialized, o ganized, signi ied, a ibu ed, e c., as well as lines o
de e i o ializa ion down which i cons an ly lees. The e is a up u e in he
hizome whene e segmen a y lines explode in o a line o ligh , bu he line o
ligh is pa o he hizome. These lines always ie back o one ano he . Tha is
why one can ne e posi a dualism o a dicho omy, e en in he udimen a y o m
o he good and he bad.
20
Que is o dize que, no izoma, não apenas os seus pon os de conexão são imp e isí eis,
como os seus p óp ios limi es são po na u eza inespe ados. No e-se que, uma ez mais,
es a ca ac e ís ica é decisi a pa a a conside ação que o espec ado a á de cada um dos
Ibidem, p.8.
19
Ibidem, p.9.
20
!35
elemen os des a es u u a. As o mas de exis ência a iá el da ob a de a e po
composi o es como Boulez, S ockhausen, Cage, e do p óp io Be io, são uma ilus ação
imedia a des e enómeno, em que se az um apelo à exis ência izomá ica mu an e dos
seus elemen os. Que is o dize que o in é p e e é chamado a aze uma eo denação dos
elemen os cons i u i os da ob a, mas, mais do que isso, o ou in e da mesma, ace a duas
in e p e ações di e en es e po an o a duas eo denações de um mesmo ma e ial,
plasma á na sua consciência uma ideia que é, não a de qualque das in e p e ações, mas
sim a da sua possibilidade.
Es ei amen e elacionado com izoma, a p opósi o des a p á ica de junção do
di e so na música de Luciano Be io, es á a ideia de assemblage, ou, em po uguês,
mon agem, que em com o concei o de izoma uma elação pe pendicula , já que os
elemen os díspa es são simul âneos na assemblage e sucessi os no izoma:
An assemblage has nei he base no supe s uc u e, nei he deep s uc u e no
supe icial s uc u e; i la ens all o i s dimensions on o a single plane o
consis ency upon which ecip ocal p esupposi ions and mu ual inse ions play
hemsel es ou .
21
Se podemos con oca o concei o de izoma pe an e a Pa e I de La e a s o ia, Na u ale
ou Rende ing – onde encon amos a sucessão de elemen os di e sos, conduzindo a um
odo maio –, já no caso do e cei o andamen o de Sin onia ou mesmo no caso de
di e sos momen os isolados de La e a s o ia (como e emos ocasião de
analisa ) – onde con i em elemen os di e sos em simul âneo – de emos conside a o
concei o de assemblage.
O izoma, po udo o que oi di o a é aqui, es á mui o es ei amen e elacionado
com o concei o de ob a abe a, ixado po Umbe o Eco . Não é, de es o, po acaso
22
que, no abalho que Eco az de ixação des e concei o, con oca qua o nomes da
música do século XX – S ockhausen, Be io, Pousseu e Boulez – pa a desc e e
p ecisamen e a na u eza izomá ica de algumas ob as da sua p odução . De ac o, como
23
Ibidem, p.90.
21
Umbe o Eco, Ob a Abe a, ad. João Rod igo Na ciso Fu ado, Lisboa: Di el, 2009.
22
C . "A poé ica da ob a abe a", in Eco, op. ci ., pp.65-94. Sob e a elação des e concei o de Eco com a
23
ob a de Luciano Be io, c . o es udo ecen e mui o opo uno de Gian anco Vinay: “Be io: Le chan des
si ènes e la poé ique de l'œu e «ou e e» aux ésonances”, in Omaggio a Luciano Be io, di . Danielle
Cohen-Le inas, Pa is, L’Ha ma an, 2006, pp.24-34.
!36
impedi a in e p e ação múl ipla po pa e do ou in e ace a uma es u u a com as
ca ac e ís icas como as que enunciámos? E como p ocede à composição de ob as
comple as na sua incomple ude, que esul a ine i a elmen e des es pos ulados? Como
e emos adian e, esse é um dos g andes desa ios da p axis musical be iana.
!37
Di e ença e epe ição
Uma ou a ca ac e ís ica eco en e da p á ica musical be iana é a inexis ência de
p ocedimen os de jus aposição de ma e iais di e sos a a és da sua semelhança em
qualque pa âme o musical: Be io não ambiciona no malmen e jun a ma e iais
di e en es a a és das suas ca ac e ís icas in e nas comuns, mas sim pela sua i edu í el
di e ença. De igual modo, a epe ição exac a, ão ca a ao pensamen o de composi o es
do pe íodo ba oco, do pe íodo clássico, e mesmo do oman ismo, é-lhe adicalmen e
es anha. É assim que um mesmo mo i o p esen e em “La Condana”, de La e a s o ia
(Pa e I) não oco e nunca em epe ições exac as. O mesmo acon ece, aliás, se
pensa mos no segundo e qua o andamen os de Sin onia: embo a a sequência de no as
de cada um des es andamen os se epi a, ela nunca é sujei a aos mesmos alo es
í micos. No e-se que, pa adoxalmen e, es a é a única o ma de epe ição e ec i a do
pon o de is a enomenológico: se epe íssemos a mesma sequência de no as com os
mesmos alo es í micos, pe de íamos o inedi ismo da p imei a das suas eclosões. Não
es a íamos de ac o an e o mesmo e ei o musical, is o que se a a ia de uma
eco ência.
Es es aspec os que acabamos de apon a quan o à música de Be io encon am
co espondência, de no o, em dois concei os impo an es no pensamen o de Gilles
Deleuze. Falo, nomeadamen e, dos concei os de Di e ença e Repe ição. Não
p e endemos pe de o luxo da nossa e lexão sob e Be io com a desc ição minuciosa da
ponde ação deleuziana sob e es es dois e mos — de ac o, no seu li o seminal
Di é ence e Répé i ion, Deleuze deba e es es concei os com g ande p o undidade
ilosó ica, a pon o de pode mos dize que oda a his ó ia da iloso ia é aqui epensada
do pon o de is a de alguns dos seus mais salien es ilões: a iloso ia da ep esen ação, a
iloso ia da di e ença, e po aí o a. Depois, em boa e dade, é o concei o de epe ição
que so e um a amen o sis emá ico, sendo o de di e ença con ocado pa a o ilumina ,
chegando-se, no inal des a e lexão ilosó ica, a uma anulação dos sen idos mais
!38
comuns des es dois e mos, e dando-se a e a sua es ei a complemen a idade . Desde
24
logo, na no a p é ia des e li o Deleuze apon a pa a es e mesmo in ui o:
Ces deux eche ches se son spon anémen ejoin es, pa ce que ces concep s d'une
di é ence pu e e d'une épé i ion complexe semblaien en ou es occasions se
éuni e se con ond e. A la di e gence e au décen emen pe pé uels de la
di é ence, co esponden é oi emen un déplacemen e un déguisemen dans la
épé i ion.
25
An es de mais, Deleuze p e ende dis ingui aquilo a que chama di e ença em si
do concei o adicional de di e ença, que es á habi ualmen e sujei o ao que Deleuze
chama as qua o ilusões da mediação: iden idade, oposição, analogia e semelhança . A
26
di e ença só oco e, pa a Deleuze, se não hou e iden idade alguma en e os objec os,
ou seja, se o conside ada o a de uma ealidade que lhe p é-exis e, de uma
ep esen ação que a apon e como 'di e en e'. Que is o dize : se es i e mos a ala de
duas ealidades ealmen e dis in as, que não pa ecem e qualque pon o de con ac o, e
que se iam, po isso, no pensamen o comum simplesmen e incompa á eis:
Tou es les iden i és ne son que simulées, p odui es comme un «e e » op ique, pa
un jeu plus p o ond qui es celui de la di é ence e de la épé i ion. Nous oulons
pense la di é ence en elle-même, e le appo du di é en a ec le di é en ,
indépendammen des o mes de la ep ésen a ion qui les amènen au Même e les
on passe pa le néga i .
27
A adicalidade des a noção de di e ença e á, como e emos, eno mes consequências na
p odução de ou os concei os ilosó icos deleuzianos e só se comp eende in eg almen e
a a és do concei o de epe ição em si. A ideia de epe ição em si con as a com a ideia
de gene alidade, ou seja, de enómeno ísico ou de ou a o dem que se e i ique semp e
que se epi am as mesmas condições de pa ida :
28
La épé i ion n'es pas la géné ali é. La épé i ion doi ê e dis inguée de la
géné ali é, de plusieu s açons. Tou e o mule impliquan leu con usion es
âcheuse […]. Répé e , c'es se compo e , mais pa appo à quelque chose
C . DELEUZE, Gilles, "Conclusion: Di é ence e épé i ion", op. ci ., p.337ss.
24
Ibidem, p.2.
25
Ibidem, p.44-45, 48 e de no o 337ss.
26
Ibidem, pp.1-2.
27
Ibidem, p.10.
28
!39

d'unique ou de singulie , qui n'a pas de semblable ou d'équi alen . E peu -ê e
ce e épé i ion comme condui e ex e ne ai -elle écho pou son comp e à une
ib a ion plus sec è e, à une épé i ion in é ieu e e plus p o onde dans le singulie
qui l'anime. […] On peu oujou s « ep ésen e » la épé i ion comme une
essemblance ex ême ou une équi alence pa ai e. Mais, qu'on passe pa deg és
d'une chose à une au e n'empêche pas une di é ence de na u e en e les deux
choses.
29
Pa a Deleuze, a epe ição só acon ece e dadei amen e se hou e alguma
di e ença. No limi e, se o objec o o in eg almen e epe ido, no sen ido ulga , ele é
di e en e enomenologicamen e, po que deixa de e en e as suas ca ac e ís icas
p incipais a sua pe cepção p imei a. Numa e e ência mui o pessoal, pode íamos dize
que é isso exac amen e que acon ece na música minimal epe i i a de S e e Reich, que
oi, de es o, aluno de Luciano Be io: po mais que cons a emos a epe ição ma e ial de
um objec o, a sua pe cepção não cessa de muda . Po isso, a epe ição enomenológica
30
de um objec o só acon ece ealmen e se hou e , a ní el do ma e ial, alguma di e ença.
Nes e con ex o, ac escen amos pa a e ei os de cla i icação des es dois concei os, que há
quase como que uma in e são do seu signi icado em elação ao que é mais co en e no
discu so comum: uma coisa só é di e en e da que a p ecede se não i e nada a e com
es a (di íamos que não são simplesmen e compa á eis); e uma coisa só é igual (e
po an o só se epe e) quando ap esen a di e enças sensí eis ace à coisa que a p ecede:
En considé an la épé i ion dans l'obje , nous es ions en deçà des condi ions qui
enden possible une idée de épé i ion. Mais en considé an le changemen dans
le suje , nous sommes déjà au-delà, de an la o me géné ale de la di é ence.
31
Deleuze pa e des a noção o iginal de epe ição pa a es abelece ês sín eses
dis in as do empo, cuja essência, na opinião do ilóso o, es á a ela ligada. A p imei a
delas é a “sín ese passi a” e co esponde à mu ação de um objec o que associa à sua
epe ição o seu ine i á el de i :
Une succession d'ins an s ne ai pas le emps, elle le dé ai aussi bien; elle en
ma que seulemen le poin de naissance oujou s a o é. Le emps ne se cons i ue
Ibidem, pp.7-8.
29
Conside e-se, po exemplo, Music o 18 Musicians (1974-1976), onde a epe ição é li e al, e no
30
en an o, pa adoxalmen e a ecepção de uma mesma igu a não cessa de muda .
DELEUZE, Gilles, Di é ence e Répé i ion, op. ci ., p.97.
31
!40
que dans la syn hèse o iginai e qui po e su la épé i ion des ins an s. Ce e
syn hèse con ac e les uns dans les au es les ins an s successi s indépendan s. Elle
cons i ue pa là le p ésen écu, le p ésen i an . E c'es dans ce p ésen que le
emps se déploie. C'es à lui qu'appa iennen e le passé e le u u […] Le p ésen
n'a pas à so i de soi pou alle du passé au u u . Le p ésen i an a donc du
passé au u u qu'il cons i ue dans le emps, c'es -à-di e aussi bien du pa iculie au
géné al, des pa iculie s qu'il en eloppe dans la con ac ion, au géné al qu'il
dé eloppe dans le champ de son a en e […]. Ce e syn hèse doi , à ous éga ds,
ê e nommée: syn hèse passi e.
32
É is o que acon ece no segundo e qua o andamen os de Sin onia, já e e idos acima:
quando, nomeadamen e, uma mesma melodia é dis o cida i micamen e na sua
epe ição.
A segunda delas é a “sín ese ac i a”, que, em oposição à p imei a, é mais
dis anciada a ní el empo al e ep esen a uma in e e ência humana na passagem do
empo.
La p emiè e syn hèse du emps, pou ê e o iginai e, n'en es pas moins
in a empo ellc. Elle cons i ue le emps comme p ésen , mais comme p ésen qui
passe. Le emps ne so pas du p ésen , mais le p ésen ne cesse pas de se mou oi ,
pa bonds qui empiè en les uns su les au es. Tel es le pa adoxe du p ésen :
cons i ue le emps, mais passe dans ce emps cons i ué. Nous ne de ons pas
écuse la conséquence nécessai e: Il au un au e emps dans lequel s'opè e la
p emiè e syn hèse du emps. Celle-ci en oie nécessai emen à une seconde
syn hèse. […] Mais ce qui ai passe le p ésen , e qui app op ie le p ésen e
l'habi ude, doi ê e dé e miné comme ondemen du emps. Le ondemen du
emps, c'es la Mémoi e. On a u que la mémoi e, comme syn hèse ac i e dé i ée,
eposai su l'habi ude: en e e , ou epose su la onda ion. Mais ce qui cons i ue
la mémoi e n'es pas donné pa la. Au momen où elle se onde su l'habi ude, la
mémoi e doi ê e ondée pa une au e syn hèse passi e, dis inc e de l'habi ude.
[…] L'Habi ude es la syn hèse o iginai e du emps, qui cons i ue la ie du p ésen
qui passe; la Mémoi e es la syn hèse ondamen ale du emps, qui cons i ue l'ê e
du passé (ce qui ai passe le p ésen ). […] La syn hèse ac i e a donc deux
aspec s co éla i s, quoique non symé iques: ep oduc ion e é lexion,
emémo a ion e écogni ion, mémoi e e en endemen . […] Ce e syn hèse ac i e
Ibidem, p.97.
32
!41
de la mémoi e se onde su la syn hèse passi e de l'habi ude, puisque celle-ci
cons i ue ou p ésen possible en géné al.
33
Em con as e com a sín ese passi a, es a é uma in e e ência in encional no de i de um
ma e ial, e cons i ui á, po oposição à p imei a, a ideia de memó ia e não de simples
sujeição ao de i mecânico do ma e ial. No amen e, encon amos exemplos cla os de
uma p á ica musical que se pode aze co esponde com es a noção se pensa mos nas
semelhanças do inal do p imei o andamen o de Sin onia com o seu início. É ambém,
uma ez mais, o que acon ece com as di e sas “Balla e” de La e a s o ia (Pa e I).
Mais su p eenden e é, al ez, encon a mos uma co espondência na p á ica
be iana com a e cei a e mais complexa des as noções: a noção de epe ição enquan o
“sín ese es á ica do empo”, ou “ o ma azia do empo” :
34
Il n'en es e pas moins que l'Idée es comme le ondemen à pa i duquel les
p ésen s successi s s'o ganisen dans le ce cle du emps, si bien que le pu passé
qui la dé ini elle-même s'exp ime nécessai emen enco e en e mes de p ésen ,
comme un ancien p ésen my hique. Telle é ai déjà ou e l'équi oque de la
seconde syn hèse du emps, ou e l'ambiguï é de Mnémosyne. Ca celle-ci, du hau
de son passé pu , dépasse e domine le monde de la ep ésen a ion: elle es
ondemen , en-soi, noumène, Idée. Mais elle es enco e ela i e à la ep ésen a ion
qu'elle onde. Elle exhausse les p incipes de la ep ésen a ion, à sa oi l'iden i é
don elle ai le ca ac è e du modèle immémo ial, e la essemblance don elle ai
le ca ac è e de l'image p ésen e: le Même e le Semblable. Elle es i éduc ible au
p ésen , supé ieu e à la ep ésen a ion; e pou an elle ne ai que end e ci culai e
ou in ime la ep ésen a ion des p ésen s (même chez Leibniz ou chez Hegel, c'es
enco e Mnémosyne qui onde le déploiemen de la ep ésen a ion dans l'in ini).
C'es l'insu isance du ondemen , d'ê e ela i à ce qu'il onde, d'emp un e les
ca ac è es de ce qu'il onde, e de se p ou e pa eux. C'es même en ce sens qu'il
ai ce cle: il in odui le mou emen dans l'âme plu ô que le emps dans la
pensée. De même que le ondemen es en quelque so e «coudé», e doi nous
p écipi e e s un au-delà, la seconde syn hèse du emps se dépasse e s une
oisième qui dénonce l'illusion de l'en-soi comme é an enco e un co éla de la
ep ésen a ion. L'en-soi du passé e la épé i ion dans la éminiscence se aien une
so e «d'e e », comme un e e op ique, ou plu ô l'e e e o ique de la mémoi e
elle-même.
Ibidem, pp.108-110.
33
Ibidem, p.119 e 120.
34
!42
Que signi ie: o me ide du emps ou oisième syn hèse ? […] On dis ingue alo s
un passé plus ou moins long, un u u en p opo ion in e se, mais le u u e le
passé ne son pas ici des dé e mina ions empi iques e dynamiques du emps: ce
son des ca ac è es o mels e ixes qui découlen de l'o d e a p io i, comme une
syn hèse s a ique du emps. S a ique o cemen , puisque le emps n'es plus
subo donné au mou emen ; o me du changemen le plus adical, mais la o me
du changemen ne change pas.
35
Como al, a a-se de uma noção de epe ição que se o na empo almen e omnip esen e,
e em que a p óp ia noção de empo e da sua passagem não é apenas condicionada, mas é
suspensa. T a a-se de sai do empo a a és da ei e ação e mu ação de uma igu a, cujo
compo amen o oge a qualque p e isibilidade compo amen al. Po isso, Deleuze ala,
um pouco pa adoxalmen e, di íamos nós, de empo azio. É is o, jus amen e, o que
acon ece no quin o andamen o de Sin onia, em que ei e ações de andamen os an e io es
se sucedem de o ma caó ica e sem qualque p e isibilidade possí el.
Ibidem, p.119 e 120.
35
!43
géan s, comme s'ils é aien gon lés pa une ie à laquelle aucune pe cep ion écue
ne peu a eind e.
50
L'a ec ne dépasse pas moins les a ec ions que le pe cep , les pe cep ions.
L'a ec n'es pas le passage d'un é a écu à un au e, mais le de eni non humain
de l'homme.
51
Ensaiemos, en ão, a ci cunsc ição dos concei os ão bem emanados po Deleuze
e Gua a i. O pe cep o é o esul ado da o ganização de uma paisagem po pa e de um
de e minado emisso , com is a a uma possí el ecepção. O a ec o é o e ei o
de e minado po pa e de um emisso a a és da cons i uição de pe cep os com is a ao
seu p ocessamen o po pa e de um hipo é ico ecep o . Fazendo eco da ponde ação
longa po Deleuze e Gua a i, podemos a ança com os seguin es exemplos, a pa i da
pin u a de Cézanne e de Bacon e da música de Messiaen: na pin u a, as paisagens de
Cézanne são pe cep os (nós ac escen a íamos que são ambém a ec os, na medida em
que são pin adas de o ma pa icula ) e as cabeças humanas em ans o mação pa a
cabeças animais, de Bacon, são a ec os. Na música, as paisagens sono as de Messiaen
se iam pe cep os, enquan o a e olução dos can os das a es nas mesmas pa i u as se
cons i ui iam enquan o a ec os. No amen e, chamamos a a enção pa a o ac o de não
se possí el a o ganização de pe cep os, como nas paisagens sono as de Messiaen, sem
que haja emanação de a ec os, embo a na u almen e com impo âncias di e en es.
Na nossa opinião, os pe cep os e a ec os são algo de decisi o na comp eensão da
especi icidade da c iação musical de Luciano Be io. Se pensa mos nas paisagens
sono as de Messiaen aludidas po Deleuze e Gua a i, ou no can o das a es e na sua
ans o mação pos e io , emos a cons i uição de pe cep o e a ec o em es u u as
dis in as, enquan o que em Be io a cons i uição de es u u as sin ác icas simples e pa a-
uncionais (de que ala emos em de alhe no p óximo capí ulo) pe mi e a emanação
simul ânea de pe cep os (como sucessão en e dois aco des) e de a ec os (como o
núme o de no as e co es de cada um desses aco des), ao con á io da gene alidade da
música con empo ânea . A es e p opósi o, epa e-se como, na música do pe íodo
52
Ibidem, p.162.
50
Ibidem, p.163.
51
Ve emos adian e como a iden i icação dos p óp ios aco des en ol idos nes a sucessão que
52
apelida emos de pseudo-bipola não é, de modo nenhum, uma a e a simples, já que mui as ezes
en idades di e en es ep esen am a mesma ensão acús ica.
!50

ba oco, do pe íodo clássico e mesmo do oman ismo, os p ecep os são as cadências e
ases mais comuns amplamen e epe idas e o a ec o é a in e são pa icula de cada
aco de, a no a da melodia, e ambém a elação en e ases. Se pensa mos numa ob a
como Ri uel (1974-1975), de Pie e Boulez, o pe cep o é o e ão, pouco a pouco
des endado, e o a ec o é a sua glosa. Dé i e 1 (1984), po seu u no, ep esen a um caso
pa icula na ob a des e composi o , na medida em que consegue, al como na p odução
de Luciano Be io, a simul aneidade na ge ação de pe cep o e a ec o. No e-se, ainda, que
em mui a música mode na, e pa icula men e em g ande pa e da música dodeca ónica,
a p odução de pe cep os pe manece enigmá ica, enquan o que a p odução de a ec os é
indesmen í el. O que acabamos de a i ma é, sem dú ida, ex emamen e pa adoxal,
po que embo a os composi o es da Segunda Escola de Viena não cessem de p oduzi
pe cep os acilmen e isolá eis pelo analis a, quando o ou in e é pos o pe an e os
mesmos depa a á com a ec os, e é nes a sua condição que a sensação em luga . Uma
si uação pa adoxal, ace à qual os composi o es da ge ação de Luciano Be io e ão de
pensa a sua a e, os seus undamen os e as suas consequências mais p o undas.
!51
Des e i o ialização e Re e i o ialização
Os concei os de que emos indo a ala – mul iplicidade, izoma, di e ença e
epe ição, egime de signos, e sensação – ca ac e izam en idades que, na sua elação
en e si, obedecem a uma dinâmica de Des e i o ialização e Re e i o ialização,
concei os ixados po Deleuze e Gua a i em L'An i-Œdipe (1972) . Es a ques ão é,
53
mais uma ez, basila pa a o en endimen o da p odução be iana e liga-se es ei amen e à
necessidade da mul iplicidade como pon o de pa ida pa a a cons i uição da sua ob a de
a e musical. Po que, pa a Be io, na música dodeca ónica de um Webe n ou de um
Schoenbe g, a exis ência de um único elemen o de desen ol imen o do ma e ial oi
semp e uma das ques ões mais di íceis de esol e :
L'idéologie de l'indus ie cul u elle end à ige l'expé ience dans des schèmes e
des maniè es: la o ma ion de ien la Fo me, un ins umen : un Gadge ; une idée
sociale: un Pa i; les poé iques de Schönbe g e Webe n: le Sys ème
Dodécaphonique. Pou moi, pa con e, il es essen iel que le composi eu soi
capable de p ou e la na u e ela i e des p ocessus musicaux: leu s modèles
s uc u aux, basés su l'expé ience du passé, engend en non seulemen des ègles,
mais aussi la ans o ma ion e la des uc ion de ces mêmes ègles.
54
No e-se, a es e espei o, como ambém pa a B uno Made na um ma e ial inicial da
composição é cons i uído po mais do que uma sequência de sons, e é o ajec o en e
es as di e en es en idades que cons i ui o seu p ocesso c ia i o .
55
DELEUZE, Gilles, Félix Gua a i, L'An i-Œdipe. Capi alisme e schizoph énie, Pa is: Les Édi ions de
53
Minui , 1972. T a a-se do p imei o olume de dois, que esul am da colabo ação de Deleuze e Gua a i,
dedicados ao ema "capi alismo e esquizo enia", sendo o segundo Mille Pla eaux. Se á, de es o, a pa i
do uso des es concei o em Mille Pla eaux que a emos a cla i icação dos mesmos no con ex o da nossa
e lexão sob e a música de Be io, dado que em L'An i-Œdipe eles são e is os à luz de um deba e que não
se nos a igu a pe inen e aqui. Es es concei os, de es o, ie am a se adop ados e ans o mados nou os
campos, como o da an opologia, e lec indo, de es o, o p óp io espí i o deleuziano na endência pa a se
a as a de um uso igo oso das de inições que ixa, p i ilegiando, como dissémos a ás, a cla i icação do
objec o sob e o qual e lec e e sac i icando, se necessá io, uma de inição p imei a dos concei os que usa
pa a esse e ei o.
BERIO, Luciano, “Médi a ion su un che al de douze sons”, Con echamps nº 1, Sép emb e 1983, p.
54
47. Tex o esc i o em 1965 e ap esen ado pela p imei a ez na Juillia d School o Music em No a Io que
(«Medi a ion on a wel e- one ho se»). Edi ado em 1980 e coligido, na e são em i aliano, no ecen e
olume sob e os esc i os de Be io («Medi azione su un ca allo a dondolo dodeca onico», pp.37-41),
olume es e que ainda ap esen a uma e são de 1968 do mesmo ex o ( d. pp.434-439): BERIO, Luciano,
Sc i i sulla musica, a cu a di Angela Ida De Benedic is, In o. di Gio gio Pes elli, Piccola Biblio eca
Einaudi 608, To ino: Giulio Einaudi Edi o e, 2013.
C . FEARN, Raymond, op. ci .
55
!52
Quando alamos de des e i o ialização e e e i o ialização, alamos de dois
e mos de um mesmo p ocesso: des e i o ializa é o p imei o passo pa a cons ui um
no o e i ó io, aqui en endido como um conjun o de elações que, a a és de
enómenos como o i o nello (de que alamos adian e), é o nado habi á el pelo co po.
T a a-se de um p ocesso p og essi o que pode signi ica a mudança de um de e minado
es ado a bo escen e ou izomá ico pa a ou o es ado ambém a bo escen e ou
izomá ico, mas com di e en es ca ac e ís icas:
How could mo emen s o de e i o ializa ion and p ocesses o e e i o ializa ion
no be ela i e, always connec ed, caugh up in one ano he ? The o chid
de e i o ializes by o ming an image, a acing o a wasp; bu he wasp
e e i o ializes on ha image. The wasp is ne e heless de e i o ialized,
becoming a piece in he o chid's ep oduc i e appa a us. Bu i e e i o ializes he
o chid by anspo ing i s pollen. Wasp and o chid, as he e ogeneous elemen s,
o m a hizome.
56
Há que no a , no en an o, que es e p ocesso pode se epe ido ad ae e num: o
e i ó io cons uído a pa i da des uição de um ou o se á, depois, sujei o a no a
des uição, e assim po dian e. Aliás, o ca ác e eco en e des e ges o impede,
logicamen e, que se possa ala de e i o ialização de o ma de ini i a. Es e é semp e
um ges o com duas alências, simul âneo ou sucessi o, de des- e de e- e i o ialização.
O ca ác e de pe cepção global de um de e minado mo imen o de la ga escala é o que
mais imp essiona aqui:
De e i o ializa ion mus be hough o as a pe ec ly posi i e powe ha has
deg ees and h esholds (epis a a), is always ela i e, and has e e i o ializa ion as
i s lipside o complemen . An o ganism ha is de e i o ialized in ela ion o he
ex e io necessa ily e e i o ializes on i s in e io milieus. A gi en p esumed
agmen o emb yo is de e i o ialized when i changes h esholds o g adien s,
bu is assigned a new ole by he new su oundings. Local mo emen s a e
al e a ions. Cellula mig a ion, s e ching, in agina ion, olding a e examples o
his. E e y oyage is in ensi e, and occu s in ela ion o h esholds o in ensi y
be ween which i e ol es o ha i c osses. One a els by in ensi y;
displacemen s and spa ial igu es depend on in ensi e h esholds o nomadic
de e i o ializa ion (and hus on di e en ial ela ions) ha simul aneously de ine
complemen a y, seden a y e e i o ializa ions. E e y s a um ope a es his way:
DELEUZE, Gilles, Félix Gua a i, A Thousand Pla eaus, op. ci ., p.10.
56
!53
by g asping in i s pince s a maximum numbe o in ensi ies o in ensi e pa icles
o e which i sp eads i s o ms and subs ances, cons i u ing de e mina e g adien s
and h esholds o esonance (de e i o ializa ion on a s a um always occu s in
ela ion o a complemen a y e e i o ializa ion).
57
E quando Be io ala, no seu li o Remembe ing he Fu u e, de que há milhões de
o mas de esquece a música, e de que es á in e essado nos modos ac i os des e
esquece , Be io es á simul aneamen e a ala da cons ução de um odo no o . Mesmo
58
que, po exemplo, esse odo no o seja a música do silêncio ou do pseudo-silêncio de
John Cage – cuidadosamen e cons uída a a és da des uição do ecido musical a que
ínhamos assis ido –, é, no en an o, a a i mação de um ou o som que não nos de e
passa despe cebida . Mas podemos con inua : al ez de êssemos pe cebe nes e
59
silêncio a p epa ação pa a aquilo que pensamos se um ou o e en o isolado. Po que
não há e en os isolados, mas apenas a exis ência de um mons uoso i o nello que não
cessa á de nos ab aça .
A Pa e II de La e a s o ia ap esen a no e cenas dis in as, que aduzem de
o ma mui o cla a es e ímpe o de des e i o ialização e e e i o ialização, de que emos
indo a ala . E, ao mesmo empo que cada um des es momen os ep esen a es e es o ço
composicional, o conjun o cons i uído po es es di e en es momen os é ambém um
exemplo, a uma escala empo al maio , do mesmo enómeno de cons an e
ans o mação de um objec o inicial, cujo inal é, na u almen e, deixado em suspenso,
po que o p ocesso que inicia é algo que pode e mina apenas p o iso iamen e:
The plane o o ganiza ion is cons an ly wo king away a he plane o consis ency,
always ying o plug he lines o ligh , s op o in e up he mo emen s o
de e i o ializa ion, weigh hem down, es a i y hem, econs i u e o ms and
subjec s in a dimension o dep h. Con e sely, he plane o consis ency is
cons an ly ex ica ing i sel om he plane o o ganiza ion, causing pa icles o
spin o he s a a, sc ambling o ms by din o speed o slowness, b eaking down
unc ions by means o assemblages o mic oassemblages. Bu once again, so
Ibidem, p.54.
57
BERIO, Luciano, Remembe ing he u u e, op. ci ., pp.61-62.
58
Não é demais aze mos e e ência à an ologia dos esc i os de John Cage sob e o silêncio, em Silence,
59
Lec u es and W i ings by John Cage, New England, Hano e : Wesleyan Uni e si y P ess, 1973 [1961].
Ac esce a es a e e ência o es udo undamen al de James P i che sob e a música de John Cage: The
Music o John Cage, Camb idge: Camb idge Uni e si y P ess, 1996 (1993).
!54
much cau ion is needed o p e en he plane o consis ency om becoming a pu e
plane o aboli ion o dea h, o p e en he in olu ion om u ning in o a
eg ession o he undi e en ia ed.
60
Es e p ocesso de ans o mação, sub il e complexo, é acompanhado pelo e o no
ei e ado do que pode íamos designa como e ão, ou i o nello, cuja designação Gilles
Deleuze e Félix Gua a i, não po acaso, esga am do âmbi o musical. O que is o
signi ica, an es de mais, é que a desc ição de um pa adigma men al humano se az de
o ma mais cla a a a és de um p ocesso musical. Is o aca e a, po an o, duas
consequências: po um lado, a ex ema adequação des e concei o ilosó ico à p á ica
musical ( al ez não exclusi amen e de Luciano Be io, e al ez não exclusi amen e
con empo ânea), po ou o lado, a ex ema adequação de um modo de pensa musical à
e lexão ilosó ica. O e ão, ou i o nello, su ge abalhado po Deleuze e Gua a i em
Mille Pla eaux , e em mais a de a se ambém ecupe ado, a p opósi o de “Ópe a”,
61
em L’Abécédai e de Gilles Deleuze, a sé ie ele isi a p oduzida po Pie e-And é
Bou ang, com um conjun o de con e sas de Deleuze com Clai e Pa ne en e 1988 e
1989 .
62
O e ão é um ins umen o a a és do qual se habi a o caos, con aminando-o, e
se de ine, p o iso iamen e que seja, um e i ó io:
I. A child in he da k, g ipped wi h ea , com o s himsel by singing unde his
b ea h. He walks and hal s o his song. Los , he akes shel e , o o ien s himsel
wi h his li le song as bes he can. The song is like a ough ske ch o a calming
and s abilizing, calm and s able, cen e in he hea o chaos. Pe haps he child
skips as he sings, has ens o slows his pace. Bu he song i sel is al eady a skip: i
jumps om chaos o he beginnings o o de in chaos and is in dange o b eaking
apa a any momen . […] Some imes chaos is an immense black hole in which
one endea o s o ix a agile poin as a cen e . Some imes one o ganizes a ound
ha poin a calm and s able "pace" ( a he han a o m): he black hole has
become a home. […] We always come back o his "momen ": he becoming-
exp essi e o hy hm, he eme gence o exp essi e p ope quali ies, he o ma ion
o ma e s o exp ession ha de elop in o mo i s and coun e poin s. We he e o e
DELEUZE, Gilles, Félix Gua a i, A Thousand Pla eaus, op. ci ., p.270.
60
Ibidem, pp.310-350.
61
L'abécédai e de Gilles Deleuze, di igido po Pie e-And é Bou ang e Michel Pama , com Gilles
62
Deleuze e Clai e Pa ne , DVD, ASIN: B0001JZP3C, 1996 (7h30m).
!55

need a no ion, e en an appa en ly nega i e one, ha can g asp his ic ional o aw
momen . The essen ial hing is he disjunc ion no iceable be ween he code and
he e i o y. The e i o y a ises in a ee ma gin o he code, one ha is no
inde e mina e bu a he is de e mined di e en ly.
63
Sublinhe-se que a esis ência de Deleuze e Gua a i a desc e e es e e mo de
o ma pu amen e ilosó ica é mani es a — es amos com ce eza, pe an e algo de
ex ema impo ância na condição humana. Po que, como o ma de habi a o
desconhecido, é na u al no homem o es o ço de epe ição de um mesmo luga . Um luga
em que quem es á é ele mesmo. Em que quem é, é ele. O e ão é mui o mais do que
algo apenas musical. É uma necessidade humana. Po isso, na Pa e II de La e a s o ia
depa amos com uma melodia que é epe ida, um seu segmen o, ou apenas uma das suas
no as. Ou al ez um i mo. Um aco de. Ou qualque elemen o que se econheça como
amilia . Po que, ace ao cons an e de i e à inde e minação que ele causa, assis imos à
epe ição de um mesmo e ão. Podemos i mais longe e mais undo, e dize que a Pa e
II de La e a s o ia desa ia a nossa pe cepção sob e o que es á ealmen e em causa na
ópe a, ou melho , sob e que his ó ia se es á de ac o a con a — es á-se a con a a nossa
his ó ia; de odos e de cada um de nós. O lib e o como que es ilhaça os ex os e os
episódios na ados na Pa e I, c uzando-os e ecendo-os pa a o ma cenas segundo
c i é ios que se a as am adicalmen e dos que impe am na cons ução da Pa e I. Na
Pa e II, a pa i da eo denação dos mesmos ma e iais, ou da mesma ma é ia que nos é
ap esen ada na Pa e I, apon a-se pa a um enunciado-ou o que subjaz ao ex o e que
chama a nossa a enção pa a ques ões in insecamen e humanas, mui o pa a além dos
episódios inicialmen e na ados; ou melho , dando a e o que neles há de mais undo e
lhes é comum, o que os une. Nes e con ex o, na Pa e II de La e a s o ia, o e ão, seja
es e cons i uído em cada uma das suas cenas, seja epe ido en e cenas, seja a a és da
ci ação de ou a ob a do mesmo composi o (Sequenza IXa pe Cla ine o [1980]),
en ol e e dá pe spec i a às ques ões undamen ais deba idas nes a ópe a, que são,
a inal, as ques ões undamen ais da condição humana.
DELEUZE, Gilles, Félix Gua a i, A Thousand Pla eaus, op. ci ., pp.311-322.
63
!56
Se pensa mos numa ou a dimensão, e i icamos, aliás, que apenas uma no a é,
no undo, e ocação de odos os múl iplos con ex os em que ela já su giu. Pe cebemos,
assim, melho , quando Lo enzo A uga diz de Be io:
L'idea di Be io, in ece, è che nella musica ci sia semp e la memo ia del suono, al
pun o che se un musicis a pe esempio a suona e una campana non può non
e oca e u e le campane che abbiamo sen i o, né esclude ne il signi ica o che i
abbiamo con e i o: na u almen e la s essa a i azione a iene nei p ocessi più
complessi .
64
Ou quando o p óp io Be io, a p opósi o de Schube e Schoenbe g, a i ma nas suas
lições de Ha a d:
A melody by Schube o a musical con igu a ion by Schoenbe g a e no he
pieces o a musical chessboa d; hey ca y wi hin hemsel es he expe ience o
o he melodies and o he con igu a ions, and hei ans o ma ions a e insc ibed,
so o speak, in hei gene ic code.
65
Finalmen e, es es p ocessos – a des e i o ialização / e e i o ialização e o e ão
– podem a ec a -se mu uamen e: eu posso e a epe ição de um mesmo p ocesso de
des e i o ialização / e e i o ialização, que se o na, assim, num eno me e ão – os
inícios da qua a e sex a cenas da Pa e II de La e a s o ia são pa icula men e
ilus a i os des e enómeno. Ou posso e a epe ição de um e ão, que p imei o é
sen ido como momen o excepcional num p ocesso de des e i o ialização, pa a depois,
pela sua epe ição g adualmen e obsessi a, o na -se, ele p óp io, au ónomo em elação
ao e i ó io, que assim se ab e ao p ocesso de ans o mação – a quin a cena da Pa e II
de La e a s o ia é pa icula men e ilus a i a des e enómeno. A a qui ec u a musical
be iana ege á a sob eposição des es concei os, a sua ansição e a sua abe u a ao
uni e so.
"Pe ascol a e Be io", in Be io, a cu a di Enzo Res agno, To ino, Edizioni di To ino, 1995, p.33
64
(31-50). Te emos ocasião de desen ol e no p óximo capí ulo a ques ão do e ão, a p opósi o da p axis
musical be iana.
BERIO, Luciano, Remembe ing he u u e, op. ci ., p.11.
65
!57
Ciência meno
É mui o impo an e pensa num pa ama empo al e espacial pe pendicula
àquele que es á en ol ido na conside ação da des e i o ialização / e e i o ialização e
do e ão / i o nello, e cons a a mos que a música de Be io cons i ui, sem dú ida, um
ensejo pa icula men e opo uno pa a e mos, como diz B ian Hulse, a eo ia musical
como uma “ciência meno ” , azendo apelo às noções de posição maio i á ia e
66
mino i á ia, al como de inidas po Deleuze e Gua a i em Mille Pla eaux . Es e
67
concei o de Ciência meno , eco dêmo-lo, é o iundo do li o des es dois au o es sob e
F anz Ka ka, onde alam de uma “li e a u a meno ”:
Le p oblème de l'exp ession n'es pas posé pa Ka ka d'une maniè e abs ai e
uni e selle, mais en appo a ec les li é a u es di es mineu es — pa exemple la
li é a u e jui e à Va so ie ou à P ague. Une li é a u e mineu e n'es pas celle
d'une langue mineu e, plu ô celle qu'une mino i é ai dans une langue majeu e.
Mais le p emie ca ac è e es de ou e açon que la langue y es a ec ée d'un o
coe icien de dé e i o ialisa ion. […] Le second ca ac è e des li é a u es
mineu es, c'es que ou y es poli ique. Dans les «g andes» li é a u es au
con ai e, l'a ai e indi iduelle ( amiliale, conjugale, e c.) end à ejoind e d'au es
a ai es non moins indi iduelles, le milieu social se an d'en i onnemen e
d'a iè e- ond; si bien qu'aucune de ces a ai es œdipiennes n'es indispensable en
pa iculie , n'es absolumen nécessai e, mais que ou es « on bloc» dans un la ge
espace. La li é a u e mineu e es ou à ai di é en e: son espace exigu ai que
chaque a ai e indi iduelle es immédia emen b anchée su la poli ique. L'a ai e
indi iduelle de ien donc d'au an plus nécessai e, indispensable, g ossie au
mic oscope, qu'une ou au e his oi e s'agi e en elle.
68
A ideia de uma ciência meno , ou de uma p á ica musical meno , não em nada
de pejo a i o. Pelo con á io, e e e-se a odos os es o ços de e olução le ados a cabo
po di e sos c iado es, sem dú ida decisi os no de i da a e. Signi ica, mui o
conc e amen e, o es o ço de uma de e minada posição es é ica, que se cons i ui
HULSE, B ian, "Thinking musical di e ence: music heo y as a mino science", in Sounding he
66
Vi ual…, op. ci ., pp.23-50.
DELEUZE, Gilles, Félix Gua a i, A Thousand Pla eaus, op. ci ., pp.105-106.
67
DELEUZE, Gilles Félix Gua a i, Ka ka. Pou une Li e a u e Mineu e, Pa is: Les Édi ions de Minui ,
68
1975, pp.29-30.
!58
alojando-se nos quad os ope a i os de ou a en idade. Es e p ocesso de
des e i o ialização de um quad o p é-exis en e que é is o como maio i á io, é, como
dissemos acima a p opósi o des e concei o, ambém um p ocesso de e e i o ialização.
Temos, assim, que a posição p imei amen e mino i á ia pode chega a cons i ui -se
enquan o posição maio i á ia.
Nes e con ex o, B uce Quaglia ala de Be io de o ma exempla , ao le na sua
p á ica de ans o mação do ma e ial uma p á ica mino i á ia:
[…] conside ing Be io’s own p ac ice o ansc ip ion and ans o ma ion in music
[…] Be io's posi ion ha music is always con igu ed as a ne wo k o ela ionships
be ween ex s may now be ecas in o e ms ha speci ically a oid ecou se o
sign sys ems and hei co esponding egimes. […] Be io o ge s he pas by
ans o ming he blocks o sensa ion ha a e ex ac ed om i . He akes he
language o he pas and makes i s u e by using i in an in ensi e and
asigni ying manne . He is no sen imen al abou he musical pas , bu ins ead his
ela ionship o i is bo h open and p agma ically dynamic.
69
I íamos mais longe, pa a dize que es a dinâmica de e e i o ialização – que é,
pa a Deleuze, ine en e a qualque p ocesso de des e i o ialização – pa ece se
sis ema icamen e ecusada po Luciano Be io. De ac o, a cons i uição de uma p á ica
maio i á ia se ia, po na u eza, incompa í el com a es é ica e é ica be ianas, como
e emos ocasião de ap o unda adian e nes a disse ação. E is o no a-se em oda a sua
p odução, mas mui o cla amen e em p ocessos c ia i os como aqueles que são
co po eizados pelas suas Folk Songs (1964), pelas suas adap ações dos Bea les, pela sua
incu são no campo da música ligei a com «Au os ada» e «O e mi alzo», in eg adas em
Allez Hop (1959), ou pelas ci ações do e cei o andamen o da sua Sin onia. Po que,
acima de udo, Be io p e ende ecusa a exis ência de uma in e p e ação uní oca e, num
con ex o mais ala gado, de um domínio cul u al e polí ico de uns – os
maio i á ios – sob e ou os – os mino i á ios. O p ocesso não pode á, pois, se echado,
mas de e á ica em suspenso, e lec indo o eno me caldei ão cul u al dos nossos dias.
É mui o in e essan e, a es e p opósi o, pensa mos nas pala as de B ian Hulse em
Sounding he Vi ual:
QUAGLIA, B uce, "T ans o ma ion and Becoming o he in he Music and Poe ics o Luciano Be io",
69
in op.ci ., pp.244-245.
!59
anscending na ional and empo al bounda ies: I alian music o 1720, i is
claimed, is qui e simila o he Ge man music o he 1880s, and bo h s yles a e
qui e di e en om any o he music composed p io o 1700 and subsequen o
1900.
10
Tymoczko a i ma ainda com oda a pe inência, a p opósi o do início do século XX:
A nold Schoenbe g and Wal e Pis on bo h obse ed ha hei s was an age
ma ked by he p oli e a ion o s yles. Like many o hei con empo a ies, hey
despai ed o ying o syn hesize hese di e se ends in o a cohe en body o
knowledge, explaining ha hey we e oo close o he de elopmen s hey
su eyed. […] Ins ead, bo h p ophesied ha he e would come a ime in which he
a ious de elopmen s o he ea ly wen ie h cen u y would be cla i ied, coalescing
in o a cohe en musical language. I ind i ma elous o e lec ha hese
p ognos ica ions we e essen ially co ec .
11
Mas se es a adical não p e isibilidade de um ma e ial a usa numa peça de
música es e e p esen e desde o início do século, depois dos anos 50 ela exp essa-se de
o ma mui o mais explíci a, po que o pa âme o do i mo ganha uma no a impo ância,
azendo dis ingui a música se ial da música dodeca ónica clássica e dando o igem a
peças de eno me complexidade como as Kla ie s ücke (en e 1954-55 e 1961), de
Ka lheinz S ockhausen ou as ês Sona as pa a piano (en e 1946 e 1963), de Pie e
Boulez. Jun e-se a is o uma no a impo ância dada ao pa âme o da dinâmica e do
imb e e acilmen e chega emos à conclusão de que a complexidade des as ob as ace às
do início do século é eno me. E chegamos a es e con a-senso: o ma e ial, na sua
cons i uição, nega a sua p óp ia exis ência pa a melho se i os seus axiomas de base .
12
Ac escen e-se que, nes a época, Boulez e S ockhausen são os nomes maio es da música
na Eu opa, mime izando, cu iosamen e, o eixo anco-alemão que di a á a paz do
pós-gue a . No e-se que ambos são he dei os da adição ge mânica da Segunda
13
Escola de Viena e que es a he ança em, di íamos, con aminada pelo ensino de Oli ie
TYMOCZKO, Dmi i, A Geome y o Music. Ha mony and Coun e poin in he Ex ended Common
10
P ac ice, Ox o d: Os o d Uni e si y P ess, 2011, p.224.
Ibidem, pp.387-388.
11
Veja-se, a es e p opósi o, o es udo c í ico sob e o Se ialismo adicional pelo composi o alemão Yo k
12
Hölle : Fo sch i ode Sackgasse? K i ische Be ach ungen zum ühen Se ialismus, Saa b ücken:
PFAU, 1994.
ROSS, Alex, “B a e New Wo ld - The Cold Wa and he A an -Ga de o he Fi ies”, in The es is
13
noise. Lis ening o he wen ie h cen u y, New Yo k: Picado , 2007, pp.386-446.
!66

Messiaen, que cons i ui á a ma iz de odo o pensamen o musical do pós-gue a na
Eu opa, jun ando a música de Debussy à música da Segunda Escola de Viena.
14
Só depois ganha especial des aque a música de Luciano Be io e do seu
con empo âneo húnga o Gyö gy Lige i, ma cada pela adopção de ma e iais mais
simples do que aqueles p a icados po Boulez e S ockhausen, e ca ac e izada po uma
maio economia de ma e ial, pela sua pa a- uncionalidade , pela inclusão da
15
consonância ( ão e u ada pelos composi o es do eixo anco-alemão ), e,
16
consequen emen e, po uma ainda maio impo ância dos pa âme os í mico, dinâmico
e ímb ico na cons i uição do objec o sono o — po que o pa âme o das al u as, po se
mais simples, deixa de se conside á el isoladamen e, pa a se moldá el pelo seu
con í io com ou os pa âme os musicais, com especial ele o pa a o i mo. De al
modo, que passa a aze mais sen ido ala de “objec o musical” e enca a es es
pa âme os globalmen e, embo a com especial impo ância dos pa âme os das al u as e
das du ações.
A is o jun a-se a adopção de écnicas isoladas po Wal e Benjamin a p opósi o
do cinema no seu ensaio «A ob a de a e na época da sua possibilidade de ep odução
écnica» . Es as écnicas, do pon o de is a es i amen e musical, es ão elacionadas
17
com o ac o de um objec o musical pode se enca ado de o ma pa cela . E se no
cinema es e axioma de base se e lec e no ac o da câma a ilma pa cela men e ce o
Messiaen a i ma a sabe de co a ópe a de Debussy Pelléas e Mélisande, enómeno do qual se e ia
14
ape cebido du an e a sua p isão no campo de concen ação de S alag VIII A, em Gö li z (Silésia).
MESSIAEN, Oli ie , T ai é de Ry hme, de couleu , e d’o ni hologie (1949-1992), Tome VI, Pa is:
Edi ions Musicales Alphonse Leduc, 2001.
Sob e o ca ác e pa a- uncional da música de Be io dedicamos uma secção no p esen e capí ulo.
15
Diga-se, a es e p opósi o, que a es a dis ância empo al e endo i ido há uns anos a ás na cidade
16
alemã de Colónia e me ape cebido da des uição de 90% des a cidade pelos bomba deamen os dos aliados
nos anos 40, sabendo que S ockhausen oi en e mei o de gue a, sabendo a misé ia da ida do cidadão
comum ancês du an e os anos da gue a e no pós-gue a, não espan a, pois, o espa anismo cul i ado de
o ma ão explíci a po es es composi o es. Espa anismo que es a á adicalmen e ausen e da música de
Be io e de Lige i. Po que en e an o, nes a Eu opa quase in eg almen e des ei a e dilace ada pela Segunda
Gue a Mundial, i e-se um baby-boom cul u al p epa ado um pouco po oda a pa e, mesmo nos
e i ó ios que es i e am em gue a. E, cu iosamen e, nos seus anos mais ama gos. De es o, a exposição
que se ap esen a nes e início de capí ulo p e ende ão-somen e apon a pa a alguns dos aspec os que
conside amos cha e pa a o en endimen o da p á ica musical be iana, e não edesenha a his ó ia da
música do século XX, de que Be io se á um expoen e na Eu opa. Em boa e dade, a música do século
XX não se bas a a 4 ou 5 nomes, e bas a ia ala mos de um Giacin o Scelsi (1905-1988), ele p óp io
o mado pelo dodeca onismo de que se a as ou (e cuja música, de es o, só oi descobe a al como a
conhecemos hoje nos anos 80), pa a sublinha mos que se a a, aqui, de um exe cício de con ex ualização
p é ia de algumas ques ões analí icas que nos são ca as pa a a análise que se segue.
In A Mode nidade, Ob as Escolhidas de Wal e Benjamin/3, op. ci ., pp.207-241.
17
!67
ac o ou paisagem, na música o mesmo axioma e lec e-se na p esença de objec os
musicais de o ma pa cela , como a a és de sé ies de ec i as (pensamos em
Kamme konze , de Lige i [1969-70]) ou de aco des incomple os (pensamos em
Sin onia, de Be io [1968]). Es es composi o es, nos p imei os anos da sua p odução, à
semelhança de Boulez e de S ockhausen, e elam um eno me ascínio pelas no as
o mas de o ganiza o de i musical, sob e udo a a és da he ança ge mânica de
Schoenbe g, Be g e Webe n (pensamos, po exemplo, em ob as como Due Pezzi pe
iolino e piano o e [1951] e Ci cles [1960], de Be io, ou em „Ch oma ische
Phan asie“ [1956], de Lige i). Mas logo depois o ascínio pela pe o mance, pelo som e
pela co , in adi á a Eu opa (pensamos em ob as como S eichqua e N . 2 [1968],
18
Rami ica ions [1968–69], de Lige i, ou em ob as como Labo in us II [1965], e
Sequenza III pe oce emminile [1966], de Be io). E su ge uma no a e olução: po um
lado, emos o minimalismo ame icano e o seu impe a i o de cla eza, po ou o emos,
na Eu opa, a espos a a es a co en e, que em aços ge ais se ca ac e iza ambém po
uma maio cla eza e con enção de meios. É assim que su gem ob as como Melodien
(1971), Clocks and Clouds (1973), Monumen , Selbs po ä , Bewegung (1976), e a
ópe a Le g and macab e (1978), de Lige i, ou Reci al I ( o Ca hy) (1972), Sequenza
VIII pe iolino (1975), Co o (1976), e "poin s on he cu e o ind..." (1974), de
Be io . Podemos dize que, com es as ob as, chegou a o ça da sedução à música
19
con empo ânea na Eu opa. Tudo is o se e ela á de o ma mais acen uada ainda nos
anos 80, em que a isca íamos a dize que a Eu opa az as pazes com o seu passado
ecen e. É nes a al u a que su ge La e a s o ia (1981), com lib e o de I alo Cal ino e
do p óp io Be io. Com es a ópe a consolida-se uma no a p á ica melódica, ha mónica e
í mica na música de Luciano Be io, ca ac e izada pela sua ecusa de um o al c omá ico
a a ingi , que de ol e uma anspa ência inaudi a aos p ocessos musicais cons an es
Uma b e e no a de e e ência ao abalho excepcional de Flo ence de Mè edieu me ece se aqui ei a,
18
no sen ido em que a a e do século XX, não só a musical, se enche des e mesmo ascínio pelo aze
a ís ico plu al que a a essa odo o século XX de modo especialmen e epidé mico: His oi e ma é ielle e
imma é ielle de l’a mode ne & con empo ain, Pa is: La ousse, 2008.
En e a as íssima bibliog a ia sob e a música ociden al do século XX, aço especial e e ência aos
19
seguin es í ulos: DELIÈGE, Celes in, Cinquan e ans de Mode ni é Musicale. De Da ms ad a l’IRCAM.
Con ibu ion his o iog aphique à une musicologie c i ique, Haye: Pie e Ma daga édi eu , 2003.
TARUSKIN, Richa d, The Ox o d His o y o Wes e n Music, ol.s 4 e 5: Music in he ea ly Twen ie h
Cen u y, Music in he La e Twen ie h Cen u y, Ox o d Uni e si y P ess, 2010. ROSS, Alex, The Res is
Noise. Lis ening o he wen ie h Cen u y, New Yo k. Picado , 2008. FOUSNAQUER, J-E, C. Glayman,
C. Leblé, Musiciens de no e emps depuis 1945, Pa is: Édi ions Plume e SACEM, 1992.
!68
nes a ob a, embo a não se abdique do axioma o iginal da imp e isibilidade da p á ica
musical do início do século XX.
Es e pe manece um ema em abe o nes e início do século XXI em que i emos,
po que se a a do c uzamen o de á ias dimensões e da impossibilidade de
descodi icação de uma só p á ica, mesmo que sin amos uma maio p oximidade com
ela. Po isso, a eno me complexidade das ques ões ela i as ao objec o sono o
en ol idas na música de Be io em sido esol ida pela li e a u a c í ica de duas o mas
p incipais que são, quan o a nós, embo a não e adas, no o iamen e incomple as: ou se
igno a a ha monia e se concen a a análise no ges o, ou se p ocede a uma análise
me amen e desc i i a dos ma e iais em ques ão. Is o no a-se de o ma pa icula men e
g i an e no núme o da e is a Con echamps sob e Be io , pa a da um exemplo,
20
sabendo nós que se a a aqui de um ma co pa icula men e impo an e nos es udos
be ianos. Mas no a-se ambém nos á ios abalhos de uma e e ência incon o ná el
sob e a música de Luciano Be io, Da id Osmond-Smi h . A ex ema sensibilidade das
21
ques ões que es amos a abo da , a minúcia que elas eque em, e o pensamen o, caso a
caso, que elas exigem, le am um composi o como Luciano Be io, de indiscu í eis
do es ha mónicos, í micos e melódicos, a ecusa qualque pos ulado p é io sob e o
p ocesso c ia i o. Po que apenas em “ al si uação”, e com uma sé ie de in indá eis
condições, “ al coisa” pode acon ece ... Mui as ezes chegamos, pois, ao pa adoxo do
“só se eu ou i é que sei como é que é!”, dada a sub ileza das ques ões écnicas
en ol idas . É nossa con icção, no en an o, de que é possí el desenha os caminhos da
22
AA.VV., Luciano Be io - Con echamps, nº 1, Sep emb e 1983, Édi ion L’Âge d’Homme, Pa is.
20
Fazemos aqui menção a alguns dos no á eis abalhos de Osmond-Smi h sob e Be io: Playing on
21
Wo ds: a Guide o Luciano Be io's ‘Sin onia’, London: Royal Musical Associa ion, 1985.; “›Nella es a
u o‹? S uc u e and D ama u gy in Luciano Be io's La e a s o ia”, Camb idge Ope a Jou nal, Vol. 9,
No. 3, 1997, pp.281–94; ‘Be io and he A o Commen a y’, The Musical Times, Vol. 116, N0.1592 (Oc .
1975), pp.871–2; ‘La mesu e de la dis ance: “Rende ing” de Be io’, InHa moniques, no.7, 1991,
pp.147-52; Be io, Ox o d: Ox o d Uni e si y P ess, 1991; "'He e Comes Nobody': A D ama u gical
Explo a ion o Luciano Be io's Ou is", Camb idge Ope a Jou nal, Vol. 12, No. 2 (Jul., 2000),
pp.163-178; ‘F om My h o Music: Lé i-S auss's “My hologiques” and Be io's “Sin onia”’, The Musical
Qua e ly, Vol. 67, No. 2 (Ap ., 1981), pp. 230-260; "Be io, Luciano" G o e Musics Online, 1999.
Diga-se, de es o, que nas en e is as que deu, nos ex os que publicou sob e música, ou nas no as de
22
au o a p opósi o das es eias às suas ob as, Luciano Be io se mos a pa icula men e a esso à en a i a de
ixação da sua música. C . Luciano Be io. En e iens a ec Rossana Dalmon e, ad. Ma in Kal nenecke ,
Pa is: Édi ions Jean-Claude La ès, 1983. Veja-se ainda os esc i os coligidos sob e a sua p óp ia música
em "II. «Fa e»", in BERIO, Luciano, Sc i i sulla musica, a cu a di Angela Ida De Benedic is, In o. di
Gio gio Pes elli, Piccola Biblio eca Einaudi 608, To ino: Giulio Einaudi Edi o e, 2013, pp.173-307.
Conside e-se, ambém, a e is a Con echamps, nº 1, Sep emb e 1983.
!69
a en u a ha mónica e í mica da música de Luciano Be io. É es a a a e a que nos
p opomos aze de seguida: desc e e o objec o sono o be iano – um objec o o gânico,
em que os di e sos pa âme os ap esen am um g ande ní el de elabo ação e de
in e acção –, sem que esse p ocedimen o o enha a des i ua .
Pa a a e lexão que de seguida ap esen amos oi undamen al a de inição da
hie a quia de pa âme os en ol ida no aze musical de Be io. Pese embo a a eno me
impo ância do aspec o ímb ico, espacial e dinâmico, es a não esconde que os
elemen os mais impo an es da sua música são as al u as e as du ações, po que, de ac o,
a pe cepção que emos da hie a quia ha mónica em Be io se de e mui o ao i mo, que
ganha na sua p odução uma impo ância que nunca e e nas músicas onal, a onal e
se ial dos anos 50. Po isso, decidimos p i ilegia uma e lexão sob e es es dois úl imos
aspec os quan o a La e a s o ia; na u almen e que es e es udo ecai ambém sob e a
p odução an e io e pos e io a es a ópe a, que conside amos undamen al pa a a sua
comp eensão cabal . Pese embo a o igo e a minúcia que p e endemos almeja com a
23
análise que se segue no p esen e capí ulo, es amos em c e , con udo, que a mesma
ganha consolidação com ecu so à e lexão de eo mais ilosó ico que expusémos no
capí ulo an e io . Assim, a pa da análise ha mónica e í mica da música de Luciano
Be io i emos aze a a iculação com os se e concei os deleuzianos isolados no capí ulo
an e io : mul iplicidade como unidade, izoma, di e ença e epe ição, egime de signos,
sensação, des e i o ialização e e e i o ialização, e ciência meno .
Não é po acaso que o composi o Giulio Cas agnoli elege a ha monia e o empo como pa âme os
23
undamen ais na p á ica musical be iana, e e indo-se em conc e o à sua esc i a, a pa i dos esboços
gua dados na Paul Sache S i ung, em Basileia (“Be io, il empo e l’a monia”, in Sequenze pe Luciano
Be io, a cu a di Enzo Res agno, Milano: Rico di / Fondazione Umbe o Micheli, 2000, pp.105-116).
!70
La e a s o ia
A ópe a La e a s o ia (1981), de Luciano Be io, ep esen a um dos momen os
culminan es da sua p á ica musical, pois aí emos aduzidas as p eocupações maio es
que o no ea am du an e oda a ida. Mais, La e a s o ia ap esen a um conjun o de
ma e iais e de p ocessos musicais que pe azem simul aneamen e uma súmula da sua
ob a an e io e o inaugu a de um no o olha sob e os modos do de i musical, que i á
ma ca a sua p odução pos e io . Po isso, ep esen a um momen o p i ilegiado pa a a
elabo ação de um in en á io das suas écnicas de esc i a. Como Da id Osmond-Smi h
a i ma:
Pa I o La e a s o ia could almos be aken as an encyclopaedia o Be io's
melodic echniques. Leono a's a ia, Il Tempo s a s om a highly di e en ia ed
ixed ield, wi h ypical gaps a ound which he oice mus jump (Ex. VII.6a), and
p og essi ely ills hem un il he ull ch oma ic gamu is a ailable. The due Il
G ido o Leono a and Ada is cons uc ed wi h exempla y pa simony by explo ing
he possible in e ac ions be ween wo cons an ly epea ed wa e- o m sequences
sha ing ou common pi ches (Ex. VII.6b). And Il Rico do, wi h which Ada
concludes bo h Pa s, is an eloquen example o Be io's ew i ing o
p e-es ablished melodic lines .
24
O mesmo Da id Osmond-Smi h a i ma ainda, num ou o abalho sob e La e a
s o ia:
[…] he b ings o bea he ull gamu o echniques o melodic elabo a ion o be
ound in his wo k o he six ies and se en ies – slowly e ol ing pi ch ields ('Il
Tempo'), ixed ields ('Il G ido'), he g a i a ional use o ixed pi ches ('La
P igione'), he ewo king o p e-es ablished pi ch lines by a ying con ou and
hy hm ('Il Rico do') – so ha each numbe has i s own in e nal consis ency on a
echnical le el.
25
A nosso e , con udo, pa a além de uma enciclopédia das écnicas melódicas de
Be io, La e a s o ia pode ambém se conside ada uma enciclopédia das suas écnicas
ha mónicas, como enume amos de seguida, dando exemplos e i ados da Pa e I da
OSMOND-SMITH, Da id , Be io, op. ci ., pp.106-107.
24
OSMOND-SMITH, Da id , “'Nella es a u o'? S uc u e and D ama u gy in Luciano Be io's La e a
25
s o ia”, op. ci ., p.286.
!71

ópe a: (i) cons i uição de chaconnes de aco des, como em “Seconda es a” ou “Qua a
es a” (Pa e I), (ii) ans o mação de um campo ha mónico po ansposição de oi a a
dos seus cons i uin es, como se pode obse a em “P ima es a” (Pa e I), (iii) c iação de
es u u as pa a- uncionais, como em “La condanna” (Pa e I), (i ) c iação de ha monias
cen ípe as capazes de ag ega o odo ha mónico em que se inse em, como em “Il
duello” (Pa e I), ( ) c iação de um ma e ial ha mónico consis en e, mas em cons an e
mu ação como em “Il a o” (Pa e I), ( i) c iação de no as a ac i as ou de supo e,
como em “Il empo” (Pa e I). As écnicas que acabo de enume a con ibuem, como
e emos, pa a a cons i uição de ecidos ha mónicos apa en emen e complexos, mas que
possuem ao mesmo empo uma ex ema simplicidade no que aos seus undamen os diz
espei o. No amen e ci amos as pala as de Osmond-Smi h:
Fo all i s ich su ace de ail, Be io's music ends o oo i sel in p ocesses ha a e
ela i ely simple, and can hus o e access o he newcome wi hou s a ing he
expe ienced lis ene o esh disco e ies. The s uden o his sco es will soon
disco e ha e en his di e si y o su ace de ail is o en achie ed by such
long-es ablished co ne s ones o musical c a smanship as he ans o ma ion o
p e-es ablished ma e ials, o he pe mu a ion o limi ed esou ces. Be io's music
owes much o i s impac o his abili y o engage he in e es o all so s and
condi ions o musician.
26
Pa a além disso, se La e a s o ia cons i ui uma excelen e opo unidade pa a
es uda os ma e iais de supo e ha mónico do discu so be iano – de ido à maio
simplicidade que a música pa a ea o lí ico pede ao seu composi o , em con as e com a
música ins umen al de g ande pa e da sua p odução –, es a ópe a cons i ui ainda uma
enciclopédia de écnicas í micas, como (i) a concepção de ní eis í micos
in e dependen es numa mesma camada e a consequen e c iação de hie a quias í micas
o a do con ex o onal (“Il a o”, Pa e I), (ii) a u ilização de a qué ipos í micos,
p é ios à in enção í mica, e a sua in eg ação num discu so dila ado (como na “Scena
V”, Pa e II), (iii) a sob eposição de camadas (“Il g ido”, Pa e I), (i ) a inse ção de
mo i os e a consequen e conside ação de alo es í micos undamen ais e de alo es
í micos ag egados num ní el empo al mais ala gado (“Il duello”, Pa e I), e ( ) a
a iculação cla a en e segmen os í micos acilmen e iden i icá eis, com empos o es
OSMOND-SMITH, Da id , Be io, op. ci ., p.1.
26
!72
e acos, embo a i egula es (“La ende a”, Pa e I), ou a oposição en e alo es
egula es e i egula es (“P ima es a”, Pa e I) ma cando decisi amen e o discu so
í mico be iano e dis inguindo-o de o ma cla a ace ao dos seus con empo âneos.
No e-se que se man êm as ca ac e ís icas básicas do i mo be iano, que especi ica emos
adian e nes e capí ulo e que lhe pe mi i ão, aliás, a con ibuição pa a o complexo
melódico- í mico a que azemos alusão ambém adian e nes e capí ulo.
Conside amos que a écnica musical de La e a s o ia só pode se es udada se se
obedece a uma me odologia que e lic a a in e acção de di e en es é ices
composicionais p esen es simul aneamen e no seu pensamen o musical. Assim, que
pa a o es udo da ha monia, que pa a o es udo do i mo em La e a s o ia,
deb uça -nos-emos sob e alguns é ices undamen ais da concepção musical de
Luciano Be io. Es es é ices são, nomeadamen e:
1) O ca ác e uno de um discu so musical baseado em objec os mul idimensionais,
esul an e da consciência de que uma mesma en idade pode se is a de á ias
pe spec i as, sem pe de a sua unidade. Pode es a explici amen e p esen e ou apenas
implici amen e, e pode se ou não um ma e ial o denado. Se pensa mos num cubo e
nas á ias pe spec i as com que o podemos olha , chegamos acilmen e à conclusão
de que a mul iplicidade de isões que podemos e des e objec o é esul ado das suas
ca ac e ís icas e não põe em causa, de o ma nenhuma, a unidade des e sólido. Como
e emos, es e aspec o liga-se de o ma pe inen e com os concei os deleuzianos de
mul iplicidade como unidade e, a um ní el mais dila ado, de izoma.
2) O ca ác e múl iplo do discu so, con endo elemen os musicais di e sos (unos e
múl iplos), esul an e da consciência de que en idades dis in as podem e ela -se
compa í eis quan o a ace as das suas ca ac e ís icas em de e minados con ex os.
No amen e, se pensa mos num conjun o de sólidos de o mas cla amen e dis in as,
como o são o cubo, a pi âmide e o pa alelipípedo, e os enca a mos semp e com o seu
lado quad angula ol ado pa a nós, acilmen e pe cebemos o que p e endemos dize :
ealidades di e en es são, sob de e minadas pe spec i as, o almen e semelhan es .
27
Diga-se, a p opósi o: es e pensamen o, que não em apenas em conside ação a na u eza do objec o, mas
27
ac escen a-lhe a pe spec i a sob a qual ele é olhado, az-nos, imedia amen e, pensa em Sigmund F eud,
ou, se quise mos, num pa âme o mais a ís ico, em M. C. Esche ou no cubismo de Pablo Picasso.
!73
Es e aspec o, como e emos, ep esen a uma segunda conclusão dos concei os
deleuzianos de mul iplicidade como unidade e de izoma.
3) O ca ác e lexí el e mu an e, po que sensí el à pola idade al como a de iniu
Pousseu e logo passí el de mudança dos seus elemen os musicais, e lec indo-se
numa cons an e ans o mação, ou de i , que é da na u eza do p óp io objec o – al
como a mul iplicidade de á ios objec os não é, de modo nenhum, a con es ação da
sua unidade . Es a é uma e cei a conc e ização dos concei os deleuzianos de
28
mul iplicidade como unidade e de izoma.
4) O ca ác e pa a- uncional e mu an e do de i musical, baseado no es abelecimen o de
oposições, sequências, expec a i as, e oluções, e na des uição de ma e iais como
o ma da sua in e polação com ma e iais dis in os. Es as na a i as podem se mais
ou menos complexas, podendo cons i ui -se a a és da sob eposição de á ias
elocidades do de i musical. Ganha aqui especial ele ância a adopção de objec os
impu os, baseados na sob eposição de ca ac e ís icas unas e múl iplas,
con apondo-se ao uso de objec os c is alizados, que ca ac e izou g ande pa e da
música do século XX, nomeadamen e a música dodeca ónica adicional e o
se ialismo dos anos 50. Re emos aqui os concei os deleuzianos de di e ença e
epe ição, de egime de signos (quan o à o ganização in e na), de sensação, e de
des e i o ialização e e e i o ialização (em elação à sua mu abilidade ex e na).
5) O ca ác e suspenso e não cen ado do objec o musical be iano nas suas
possibilidades de con í io com ou os de di e en es ca ac e ís icas in e nas. Es e
é ice como que esul a da análise dos é ices enume ados acima, gua dando-se
uma ce a dis ância dos aspec os ha mónicos e í micos, pa a se olha de um pon o de
is a ex e io a p á ica musical be iana. Liga-se de o ma pa icula ao concei o
To na-se ex emamen e di ícil pensa nes a ideia sem nos eco da mos imedia amen e das de inições,
28
po Espinosa, de Subs ância e A ibu o: "Po subs ância en endo o que exis e em si e po si é concebido,
is o é, aquilo cujo concei o não ca ece do concei o de ou a coisa, do qual de a se o mado. / Po a ibu o
en endo o que o in elec o pe cebe da subs ância como cons i uindo a essência dela." (É ica, I, De . III e
IV; in ESPINOSA, Ben o de, É ica, ad. Joaquim de Ca alho, Joaquim Fe ei a Gomes, An ónio
Simões, Lisboa: Relógio d’Água Edi o es, 1992, p.100). Ac ecen amos nós que há de e minadas
mudanças em aco des – pensemos na di e ença en e um ulga aco de de dominan e e um aco de de
dominan e com sé ima – que, embo a impliquem a mudança de a ibu o, não implicam, de o ma
nenhuma, a mudança da subs ância – em e mos musicais, o aco de é e con inua á a se semp e um aco de
de dominan e. Como e emos, casos equi alen es se passam a ní el í mico; bas a pensa nos di e en es
ex os aplicados a uma mesma melodia nas canções de Schube .
!74
deleuziano de ciência meno , po que é na sua incomple ude que o objec o e ela as
suas ca ac e ís icas de expansão con ex ualizada num odo maio e mais di e so.
Es as cinco e en es aqui enume adas não são sucessi as no p ocesso c ia i o,
nem p e endem se exaus i as ou es anques, mas complemen a es. Cons i uem uma
es u u a composicional onde a mú ua in luência – ou a ecção, pedindo a pala a
emp es ada a Espinosa – é cons an e. Apenas po azões de maio cla eza analí ica os
abo damos aseadamen e. Da mesma manei a, a escolha de alguns dos concei os de
Deleuze (e Gua a i) pa a cla i ica alguns des es é ices, em de imen o de ou os, não
signi ica que ou os concei os não sejam ambém opo unos. Po exemplo, os p imei os
dois é ices – o uno e o múl iplo – podem se pensados ambém a a és dos concei os
deleuzianos de egime de signos e de di e ença e epe ição. Do mesmo modo, o úl imo
é ice – o ca ác e suspenso e não cen ado – pode se lido à luz do concei o de
sensação. A disciplina que um exe cício de análise e consequen e exposição exige não
se compadece com as múl iplas ligações que se pode ão es abelece en e um ilóso o
izomá ico, como é o caso de Deleuze, e um composi o o gânico, como é o caso de
Be io. Espe amos, ainda assim, consegui a ingi o objec i o que no eia a nossa
análise: con ibui pa a uma melho comp eensão da p á ica musical be iana.
!75
en ando que nada ponha o seu econhecimen o em causa – e daí a obcessão com o seu
uso canónico, as sime ias, en e ou os aspec os – Be io ê nela um pon o de pa ida,
como que a dinami e que lhe pe mi e explodi os limi es e en ualmen e impos os pelo
ma e ial, pe mi indo-lhe expandi in ini amen e o seu objec o. Be io olha pa a a sé ie de
Schoenbe g, Webe n, e Alban Be g, e ê na sé ie, pa a além de um luga de unidade, um
luga de mul iplicidade. A ubiquidade do objec o ha mónico cons i uído é, ambém,
opo unidade da inclusão do i mo como pa e in eg an e ab ini io do objec o sono o.
De es o, es e olha di e en e pe an e a sé ie dodeca ónica oi ecen emen e
es udado po Nicholas Ju kowski, no con ex o da p odução be iana dos anos 50, e
nomeadamen e do pe íodo di ec amen e elacionado com as aulas de Dallapiccola.
Supo ando-se nas conside ações pe inen es de Osmond-Smi h sob e a u ilização não
canónica da sé ie po pa e de Be io, e concluindo que es e compo amen o des iado se
explica em nome de uma isão a ís ica p óp ia, Ju kowski o e ece-nos uma lei u a, que,
baseando-se na escolha de um co pus de análise ão es i o, não consegue esponde
cabalmen e à pe gun a que coloca na conclusão do seu es udo:
One la ge ques ion emains, howe e . Why did Be io use such a loose adap a ion
o se ial echniques, pa icula ly when Dallapiccola, his model o wel e- one
echnique a he ime, used a b and o se ialism ha elied a mo e hea ily on
unal e ed ow o ms? Gi en ha one o he p ima y ad an ages o wel e- one
echnique ( he g an ing o in e nal s uc u e o a onal music) is unde mined when
he echnique is used so loosely, one mus wonde why Be io chose o use he
wel e- one echnique a all.
37
Na nossa opinião, não é su icien e explica es e ges o somen e a pa i da cons a ação de
uma isão poé ica di e en e – como o en a aze Ju kowski quan o às peças dos anos
50, sus en ando es a ese na ecepção de Be io ace à esc i a de James Joyce. Também
não é su icien e dize , como Osmond-Smi h, que Be io usa o legado que he da em
unção da suas necessidades c ia i as:
Indeed, Dallapiccola's pe asi e use o canon was a ea u e ha Be io ound
posi i ely aliena ing. The e o e in hose wo ks p oduced be ween 1951 and 1954
JURKOWSKI , Nicholas, Be io’s ea ly use o se ial echniques: An analysis o «Chambe Music»,
37
disse . Mes ado, G adua e College o Bowling G een S a e Uni e si y, Dezemb o de 2009, p.62. [URL:
h ps://e d.ohiolink.edu/!e d.send_ ile?accession=bgsu1251044362&disposi ion=inline; acedido em
No emb o de 2012]
!82

in which Dallapiccola's melodic in luence was mos s ongly el , Be io ook on
boa d he exigencies o se ial o hodoxy only in as much as hey sui ed his
c ea i e needs.
38
Se é consensual, na c í ica, que exis e um idioma ismo p óp io na linguagem musical de
Luciano Be io, al não é su icien e pa a explica os mui os des ios conhecidos na
u ilização da sé ie dodeca ónica. Nes e sen ido, o nosso es o ço de explicação ilha
dois caminhos que se encon am: um p imei o, que en a uma comp eensão mais
ab angen e des es ges os a pa i de um quad o de e lexão polí ica (la o sensu) que os
con ex ualize (es o ço es e que ence ámos no capí ulo I des e abalho, mas que
p e endemos con inua nos capí ulos subsequen es); e um segundo, que, a pa i da
análise da p óp ia ma é ia p ima do aze musical be iano, consiga dize que não se a a
de “des io”, ou de “desobediência”, mas da ex acção das consequências mais
p o undas do ma e ial, en ando ab i um pouco a malha da classi icação. Es a malha só
pode á se abe a pela admissão da impu eza do p óp io ma e ial — a a-se, em Be io,
de da a e a impu eza que a sé ie dodeca ónica semp e gua dou, e que in elizmen e
an as ezes é pe u bada po um ensino académico inconsequen e, po que não le a a é
ao im a e lexão a que se p opõe . Be io semp e oi um inimigo de qualque ipo de
39
o odoxia, e podemos a isca dize que ele e ia a p esença des a o odoxia no modo de
e as sé ies dodeca ónicas oc a onicizan es po pa e de Dallapiccola. Po que se a a,
pa a Be io, de uma ques ão polí ica, da esponsabilidade do composi o , como ele mui o
bem de ende no que conside amos se um dos es emunhos mais signi ica i os da sua
pos u a como composi o , pe an e a música e o homem, Medi azione su un ca allo a
dondolo dodeca onico (esc i o 1965, e is o em 1968, e publicado em 1980 ). Na sua
40
adução pa a ancês, edi ada em 1983, lemos que o composi o :
In Be io, op. ci ., p.6.
38
Em “Be io, son sé ialisme e son s yle”, Jacopo Baboni-Schilingi, ela a um episódio e elado passado
39
em No emb o de 2002: pe gun ando Be io ao seu in e locu o Baboni-Schilingi o que pensa am os
jo ens composi o es da sua ge ação sob e a música be iana, ou e es a espos a: “Maes o, ils son
con aincus que ous ê es un composi eu de eche che de nou elles expé iences musicales e pas un
composi eu sé iel”, ao que esponde, a óni o, Luciano Be io: “Quoi? Moi, je suis un composi eu
sé iel.” (in COHEN-LEVINAS, Danielle (ed.), Omaggio a Luciano Be io, Pa is, L’Ha ma an, 2006, p.
175).
Os esc i os de Luciano Be io o am ecen emen e coligidos e edi ados em BERIO, Luciano, Sc i i
40
sulla musica, op. ci .. Es e ex o, em pa icula , su ge nas pp.37-41 [1965] e 434-439 [1968].
!83
…es enu de ésis e à la capi ula ion ace aux p éjugés de la Théo ie, e de se
p épa e à a on e les ca ac è es mul iples de l'expé ience. Il doi ou e des
schèmes concep uels su isammen ou e s pou lui pe me e de sélec ionne , de
ai e , de combine les nomb eux aspec s de la éali é, en ga dan oujou s à
l'esp i le ai que ou e idée musicale signi ica i e n'es pas le ésul a d'une
p océdu e néo-posi i is e mais un sys ème d'in e - ela ions en mou emen .
41
O uso de ma e iais não linea es es á p esen e em ma e iais não dodeca ónicos,
mas se iais, ou simila es, de Luciano Be io. Es es ma e iais, não o denados e po an o
cla amen e mais li es do que os ma e iais es udados nos pa ág a os an e io es,
e lec em, no en an o, mui o cla amen e, as mesmas p eocupações de unidade do odo
que as sé ies es udadas acima. E essa unidade é maio i a iamen e conseguida a a és da
manu ac u a des es campos ha mónicos a pa i de ma e iais o iginá ios de modos
simé icos ou de es u u as deles esul an es.
Es e uso de es u u as ha mónicas dis in as – não linea es – pa a, a pa i delas,
a ingi o o al c omá ico ou a ubiquidade ha mónica é mui o cla o na Pa e I de La e a
s o ia, “Seconda Fes a”:
Ex. 8: aco des de base de “Seconda Fes a” (isolados po Da id Osmond-Smi h ).
42
!
Obse ando o exemplo acima, uma ez mais, cons a amos o p opósi o de
p ese a a ubiquidade ha mónica esul an e do uso da escala oc a ónica [DO-DO#-
RE#-MI-FA#-SOL-LA-SIb]. Acon ece que es a p eocupação de ubiquidade, p esen e no
p imei o e no e cei o aco des, é a opo unidade pa a o su gimen o do aco de cen al,
que é um aco de dia ónico, nomeadamen e um aco de esga ado da escala de MIm.
No amen e, que emos ealça como Be io, impo ando o oc a onicismo de oda a sua
BERIO, Luciano, “Médi a ion su un che al de douze sons”, Con echamps nº 1, Sép emb e 1983,
41
pp.49-50.
OSMOND-SMITH, Da id , Be io, op. ci ., p.105.
42
!84
p á ica musical an e io , o ap o ei a pa a inse i um aco de es anho a es a lógica
ubíqua.
Es a p eocupação de ubiquidade, embo a acompanhada da p eocupação em usa
o o al c omá ico, es á, de no o, mui o p esen e em ob as an e io es de Luciano Be io.
O p imei o andamen o de Sin onia (1968), po exemplo, con ém na sua base ma e iais
oc a ónicos. Assim, e embo a não seja possí el des enda qualque sé ie ou sequência
no início do p imei o andamen o, a o ganização hexaco dal oc a ónica, ca ac e ís ica
das sé ies dodeca ónicas be ianas, ma ca p esença na concepção de cada um dos dois
aco des p esen es. O p imei o aco de con ém no seu egis o cen al as no as [RE-LA-
DO-MIb-FA#-SIb-DO#-MI], que pe encem, com excepção do [RE], à escala
oc a ónica [DO#-RE#-MI-FA#-SOL-LA-SIb-DO], e são os p imei os elemen os do
aco de a se em ap esen ados. A es es jun am-se, nos ex emos in e io e supe io do
egis o, as no as [SOL-FA-SOL#-SI] que comple am o o al c omá ico e pe encem
in eg almen e à escala oc a ónica [RE-MI-FA-SOL-SOL#-LA#-SI-DO#].
Ex. 9: Sin onia (1968), 1º aco de.
!
O segundo aco de con ém no seu egis o cen al as no as [DO-MIb-SOL-SI], que
pe encem, com excepção de [SOL], à escala oc a ónica [DO-RE-MIb-FA-FA#-SOL#-
LA-SI], e às quais se jun a am mais a de [SOL#-LA] e [RE], pe encen es à mesma
escala oc a ónica. Só en ão, com es a úl ima no a, se jun am no ex emo supe io do
egis o as no as [DO#-MI-FA-SOLb], que comple am o o al c omá ico e pe encem
com excepção do [FA] à escala oc a ónica [DO#-RE#-MI-FA#-SOL-LA-SIb-DO].
Ex. 10: Sin onia (1968), 2º aco de.
!
!85
Na u almen e, na cons i uição des es dois g upos ha mónicos de 12 no as,
desempenha um papel c ucial a p egnância do ma e ial oc a ónico (que emos e e i -nos
à sua capacidade de abso ção de no as que lhe são es anhas, ein e p e ando-as como
pa ciais dos seus cons i uin es), o seu ca ác e cên ico (capacidade de man e a sua
pola idade inal e ada na p esença de no as es anhas), e a po enciação des as
ca ac e ís icas a a és da sua colocação no egis o cen al. No amen e, embo a a
desc ição, po Osmond-Smi h, seja de uma eno me exac idão e pe inência, ela não
cons i ui, quan o a nós, uma e dadei a análise do enómeno em ques ão, já que se
limi a a desc e e a pa i u a de o ma sumá ia:
Such a ha monic simplici y allows o a ich play o ex u es. They a e o no such
g ea complexi y, o he cons an supe posi ions all de i e am qua e s and
iple qua e s; bu again hey p o ide simple examples o de ices ha will
cons an ly ecu .
43
No e-se que, de modo nenhum pomos em causa as pala as de Osmond-Smi h. Apenas
achamos que são insu icien es pa a uma análise cabal do passo em ques ão.
A concepção de espaços ha mónicos cla amen e di e enciados, espaços não
o denados se ialmen e, sendo nes e caso um des inado à melodia e ou o ao undo
ha mónico, e pe azendo em conjun o o o al c omá ico, es á ambém p esen e em O
King (1968). E, al como no p imei o andamen o de Sin onia (1968), a di isão do o al
c omá ico nesses dois espaços é ei a a a és da cons i uição de dois g upos oc a ónicos
incomple os complemen a es. Nes e caso, po ém, o segundo des es hexaco des
(des inado à melodia ep oduzida mais abaixo) impo a o [La] do p imei o segmen o.
Ex. 11: O King (1968), di isão do o al c omá ico e sequência melódica de base !
a) di isão do o al c omá ico em dois segmen os oc a ónicos complemen a es.
!
b) impo ação do [La] do p imei o pa a o segundo segmen o.
!
OSMOND-SMITH, Da id , Playing on Wo ds…, op. ci ., p.16.
43
!86
c) sequência melódica de base.
!
Sob e a sequência melódica de base em O King esc e e Osmond-Smi h:
The pi ch se consis s o se en pi ches, [FA - LAb - LA - SIb - SI - DO# - RE],
each used h ee imes. I is di ided in h ee sec ions, by he consis en coupling o
[FA] and [LA].
44
No amen e, embo a Da id Osmond-Smi h desc e a com in ulga pe inência as
p op iedades do pi ch se de O King, gos a íamos que i esse ido mais longe.
Nomeadamen e, gos a íamos que i esse explicado o su gimen o da sequência melódica
de base que isola, po que pensamos que é es e p ocesso que ga an e o ca ác e
cen ípe o do ma e ial, ão desejado pelo composi o .
A Sequenza VII pe Oboe (1969) ap esen a uma sucessão de campos ha mónicos
– ou a e olução len a de um único campo ha mónico – em que a unidade do odo
c omá ico é conseguida a a és de uma sé ie dodeca ónica que, embo a nunca es eja
e ec i amen e p esen e, egula a en ada de cada uma das al u as a aze pa e do campo
ha mónico usado. E é es a p eocupação de unidade do odo que de e mina que a
Sequenza es eja baseada numa sé ie que esul a da oca en e duas no as de uma sé ie
em udo semelhan e às sé ies que analisámos acima, explo ando o o al c omá ico com
base numa sé ie p elimina ap esen ando a sucessão de dois blocos oc a ónicos
incomple os.
Ex. 12: Sequenza VII pe Oboe solo (1969), sé ie de base e sé ie p elimina .
!
Ibidem, p.22ss.
44
!87

A desc ição, po Phillippe Albè a, do compo amen o ma e ial nes a Sequenza é
magní ica . Mas é comple amen e omissa quan o à sua génese. E po isso c emos nós, é
45
ambém omissa quan o às azões desse compo amen o. Diz Albè a:
Les hau eu s nous appa aissen donc dis ibuées en onc ion de ce Si cen al, selon
les ois egis es du hau bois: g a e, médium, aigu. A l'excep ion du Si cen al,
o alemen ixe, les au es sons jouen su deux ou ois ni eaux de la essi u e.
Cependan , chaque son à une essi u e p i ilégiée, p incipale, à pa i de laquelle
se cons ui p og essi emen l'espace sono e de la pièce.
46
Ac escen amos nós que es e compo amen o de deslocação dos sons pela essi u a do
ins umen o se de em ao oc a onicismo que p eside à elabo ação do seu ma e ial de
base. In elizmen e, Albè a é comple amen e omisso em elação a es e enómeno. O a, o
oc a onicismo p o oca que a simples deslocação de oi a a de um elemen o soe de uma
o ma comple amen e di e en e, do que se essa deslocação de oi a a o e ec uada com
ma e ial de ca ac e ís icas di e sas. Conco damos que, ao longo des a Sequenza aquilo a
que assis imos é ao desmemb a de uma sé ie de base, como podemos in e i da análise
de Albè a. Mas ac escen amos que, simul aneamen e, é es a sé ie, enca ada ago a como
en idade não de ini i amen e o denada – ou seja, como cons elação –, que p omo e a
unidade do odo a a és da p egnância e do ca ác e cên ico da jus aposição de escalas
oc a ónicas, cuja mul iplicidade é uma das ca ac e ís icas p incipais. Nes e sen ido, não
admi a ia que Be io se conside asse um composi o se ial . A ques ão se ia o que ele
47
en ende ia po al designação.
E se, no caso da Sequenza VII, é uma linha melódica – uma sé ie – que egula a
e elação de um campo ha mónico, em Fo mazioni (1987), na melodia da secção 3,
assis imos ao desen ol e de uma linha com base na sua di isão em duas en idades
ha mónicas complemen a es, a iculadas po uma e cei a en idade ha mónica que é a
escala oc a ónica (indicada a acejado):
ALBÈRA, Philippe, “In oduc ion aux neu Sequenzas”, op. ci .. Sob e a Sequenza VII, nomeadamen e,
45
c . pp.109-112.
ALBÈRA, idem, pp.109-110.
46
C . no a de odapé 38, a ás nes e capí ulo.
47
!88
Ex. 13: Fo mazioni (1987), melodia da secção 3. Exemplo po nós isolado, a pa i da
análise de Pascal Dec oupe .
48
!
O pensamen o ha mónico de Be io pa ilha com o pensamen o se ial a busca de
unidade na explo ação do odo c omá ico ou da ubiquidade ha mónica. Mas essa
unidade es á ma cada pela mul ipola idade ine en e aos modos simé icos,
conc e amen e a escala oc a ónica e a escala de ons in ei os. Es a busca em como aiz
a explo ação das possibilidades de a iculação des es modos, a a és da localização no
egis o dos seus componen es (Sin onia), da sua localização empo al (Sequenza VII), ou
da sua p og essi a e elação ao se iço do desen ol imen o de uma linha, cuja
exis ência se dá em unção das ca ac e ís icas ha mónicas que p o oca (Fo mazioni).
Mas a mul ipola idade ha mónica do objec o sono o p o oca o ac o de não se possí el
a conside ação ha mónica do objec o sem e em con a as ca ac e ís icas í micas des e
mesmo objec o.
Todas es as di e en es soluções êm, no en an o, em comum a possibilidade de
um pensamen o e ical uno no con ex o da u ilização do o al c omá ico ou da
ubiquidade ha mónica. Tal ez esida aqui uma das maio es iquezas do pensamen o
musical be iano, que ma ca de o ma indelé el o seu discu so. No e-se, a es e p opósi o,
que a u ilização do o al c omá ico implica, na p á ica musical dallapiccoliana e be iana,
a ubiquidade ha mónica. No en an o, a conside ação da ubiquidade ha mónica não
implica de o ma nenhuma a u ilização do o al c omá ico. É p ecisamen e a consciência
DECROUPET, Pascal, “Fo mazioni: A Ske ch S udy and Specula i e In e p e a ion o Be io’s
48
Composi ional S a egies”, in Luciano Be io. Nuo e P ospe i e. New Pe spec i es, a cu a di Angela Ida
De Benedic is, Fi enze: Leo S. Olschki, 2012, pp.133-162.
!89
des e ac o e das suas consequências que con e em um cunho especial a La e a s o ia,
no con ex o da p odução be iana. É, en ão, a explo ação de ma e iais escala es e quase
adicionais que ma ca á pa e da p odução de La e a s o ia, ab indo caminhos ainda
pouco explo ados no diálogo com música de o igem adicional .
49
In e essa ala ainda da ec o ialidade do i mo na música de Be io como o aço
undamen al que con e e coe ência e unidade às suas ob as, den o da e iden e
mul iplicidade e i egula idade que as cunham . Es a ques ão é de eno me impo ância,
50
pese embo a o ac o de, nos es udos be ianos, não se abalhada como o é a
mul iplicidade í mica. O a, pa a melho en ende mos es a úl ima, há que e e i como é
que a ec o ialidade acon ece. T a a-se da u ilização de a qué ipos í micos,
esponsá eis (i) pela c iação de p e isibilidades e expec a i as musicais, (ii) pela
eme gência de um discu so dila ado no empo, e (iii) pela conc e ização do loa ing
hy hm be iano, he dado da p á ica musical de Luigi Dallapiccola . Mui o
51
conc e amen e, alamos do accele ando e do i a dando esc i os, eco en es na sua
p á ica musical. Assim, po mui o que se quei a da pouca impo ância à análise de
de alhe í mica, a e dade é que es a nos ajuda a en ende como se ealiza e conc e iza o
acon ecimen o musical de cada ob a be iana. Daí se undamen al, quan o a nós, a
ixação de odos es es aspec os, mesmo os que são menos ób ios.
A ideia de p og essão, conc e izada o a num con ínuo de alo es g adualmen e
meno es, esul ando num accele ando esc i o, o a num con ínuo de alo es
g adualmen e maio es, esul ando num i a dando esc i o, ou a é mesmo na sucessão
dos dois con ínuos, su ge de o ma pa icula men e cla a em Six Enco es pe piano o e
(1990):
Sob e o diálogo de Luciano Be io com o epo ó io adicional leia-se o ecen e con ibu o de Gio gio
49
Pes elli: “Luciano Be io. A che ipi cancella i e a en u a c ea i a”, in Luciano Be io. Nuo e P ospe i e.
New Pe spec i es, op. ci ., pp.17-33.
S e e Reich (1936) e I an Fedele (1953) são composi o es que usam es es mesmos p ocessos na sua
50
música.
C . ALEGANT, B., The Twel e-Tone Music o Luigi Dallapiccola, op. ci .
51
!90
Ex. 14: Six Enco es pe piano o e: “Lea ”, início .
52
!
Ex. 15: Six Enco es pe piano o e: “B in”, inal .
53
!
O mesmo enómeno acon ece um pouco po oda a sua ob a, como po exemplo
na Sequenza VII pe oboe, ou em O King, ou na p imei a ase da Sequenza IV pe
piano o e (1965), ou ainda em Conce o pe due piano o i e o ches a (1973) e em
Linea pe 2 piano o i, ma imba e ib a ono (1973). A análise desc i i a igo osa de
Da id Osmond-Smi h sob e o i mo e a mé ica de O King na Sin onia não apon a,
54
con udo, pa a es e aspec o quan o a nós undamen al na i egula idade be iana, ou seja,
o ac o de o i mo se ec o ial.
“Le mul iple es l'a i ma ion de l'un, le de eni , l'a i ma ion de l'ê e” . É
55
cu ioso pensa como es a a i mação de ca ác e ilosó ico p o undo é ão acilmen e
comp eensí el ace a um modo simé ico de Debussy ou de S a insky. Um modo
oc a ónico ou de ons in ei os des es composi o es só o é, e só é uno, g aças à
mul iplicidade de ónicas possí eis que ap esen a. A indesmen í el p oximidade do
concei o ilosó ico de Gilles Deleuze com a ealidade musical do início do século XX é
desa man e. Tal e á pensado Luciano Be io. Se lhe jun a mos os mui os modos de
Messiaen e se não i e mos apenas uma mul iplicidade, mas um conjun o de
mul iplicidades, e se cada mul iplicidade o abe a ao de i , po con aminação com as
es an es mul iplicidades, e emos aba cada iloso icamen e a ealidade musical de
Luciano Be io. E en e an o não há que esquece que La e a s o ia como que
BERIO, Luciano, 6 enco es o piano - “Lea ”, Wien: Uni e sal Edi ion (ue 19918), 1990, p.4.
52
BERIO, Luciano, 6 enco es o piano - “B in”, op. ci ., p.3.
53
C . Playing on Wo ds, op. ci ., pp.26ss.
54
DELEUZE, Gilles, Nie zsche e la philosophie, op. ci ., p.27.
55
!91
Ex. 16: Labo in us II.
!
O con as e do e cei o andamen o da Sin onia (1968) de Luciano Be io (“In
uhig liessende Bewegung”) com Labo in us II é g i an e. Podemos a é dize que o
caso do e cei o andamen o de Sin onia cons i ui um segundo pa ama na conside ação
do múl iplo na ob a be iana. De ac o, aqui, em ez de se conside a a acumulação de
ma e iais mul ipola es, ensaia-se a sob eposição des es ma e iais a um ma e ial unipola ,
po que onal, que unciona como base da sua elabo ação. Conc e izando: sob e o
sche zo da 2ª Sin onia de Mahle se ão encas ados di e sos ma e iais o iundos de
Schoenbe g, Boulez, Debussy, Be lioz, Ra el, Mahle , S auß, Bee ho en, S ockhausen,
B ahms, S a insky, Hindemi h, Be g, Bach, en e ou os, incluindo ma e iais do
!98

p óp io Be io . E é cu ioso no a que os ma e iais que não êm ca ac e ís icas
66
mul ipola es, num con ex o em que os ma e iais mul ipola es ma cam o
desen ol imen o musical, ganham uma no a iden idade. De ac o, compo am-se como
se ossem me os agen es de um odo mul ipola . Quan o ao sche zo, embo a de o ma
ensa, passa-se o mesmo enómeno: de en idade indiscu i elmen e pola passa a
en idade mul ipola . Podemos, assim, dize que a sua na u eza onal é ansmu ada numa
no a na u eza, po que passa a se um agen e de um odo, que não obedece às suas
eg as in e nas. No e-se que es a possibilidade de junção de ma e iais dis in os em
elação ao seu ca ác e a onal ou onal-modal, a possibilidade de um odo cons i uído
po elemen os di e sos, é conseguida a a és da c iação de um undo coe en e, sob e o
qual são encas ados esses ma e iais de na u eza dis in a, em ob as menos conhecidas
como Ques o uol di e che… (1968).
Ex. 17: Schoenbe g, Mahle e Debussy, a pa i da análise de Pe e Al mann .
67
!
Ex. 18: Sche zo da 2ª Sin onia de Mahle , a pa i da análise de Pe e Al mann .
68
!
Gos a íamos de des aca as pala as de Pe e Al mann na análise minuciosa que
az ao e cei o andamen o de Sin onia. Des aque-se, nomeadamen e a enume ação de
Sob e es e andamen o de Sin onia azemos e e ência a alguns abalhos, en e a já as a bibliog a ia
66
disponí el: OSMOND-SMITH, Da id, Playing on Wo ds, op. ci .; HEAP, Ma hew, “Keep Going”.
Na a i e con inui y in Luciano Be io’s ‘Sin onia’ and Dillinge :?An Ame ican O a o io’, disse .
dou o amen o, Royal College o Music, 2005; Michael HICKS, "Tex , Music, and Meaning in he Thi d
Mo emen o Luciano Be io's «Sin onia»", Pe spec i es o New Music, Vol. 20, No. 1/2 (Au umn, 1981 -
Summe , 1982), pp. 199- 224.
ALTMANN, Pe e , «Sin onia» on Luciano Be io. Eine analy ische S udie, Uni e sal Edi ion 26225,
67
Wien: Uni e sal Edi ion, 1977, p.27.
Ibidem, p.19.
68
!99
ci ações dos composi o es acima e e idos, e a sua a u ada e igo osa localização na
ob a. Apesa de econhece mos odos os mé i os de al exe cício, não podemos es a em
maio desaco do com Al mann quando es e indaga sob e os mo i os des e andamen o
se ão amoso, ques ionando se se de e a ibui a sua ama à colagem p op iamen e di a
ou à amilia idade que inspi am os emas ci ados jun o do ou in e:
Mi seine Collage ha Be io dem Fischp edig -Thema neue, zei bezogene Aspek e
e liehen. Soll e das Geheimnis de Au üh ungse olge (die hunde s e
Au üh ung is inzwischen längs übe sch i en — ein wohl einmalige E olg
eines “expe imen ellen” Musikwe kes!) bloß einem gewissen Bildungs-Appeal
des Hö e s zu e danken sein, wie Geo g K iege und Wol gang Ma in S oh in
ih em Au sa z “P obleme de Collage in de Musik” (Musik und Bildung 6/1971)
andeu en? (“Das Au inden on Zi a en… gib dem ‘Kenne ’ die gleiche A
auße musikalische Be iedigung, die einem Wagne iane beim Wiede e kennen
de Lei mo i e gewäh wi d.”) .
69
De igual modo, ambém não podemos es a de aco do com Al mann quando es e
conclui sob e o pessimismo ine en e à ans o mação dos emas ci ados:
Dagegen sp ich wohl die bewuß e Ve schleie ung de einzelnen Mo i e, ode , wie
Be io e klä , das “Nich olls ändig-Hö ba e” möge als wesen lich ü das We k
selbs be ach e we den. Die also anges eb e Unbes imm hei und Unsiche hei
wi k eine gedanklichen Demon age en gegen, weshalb die Fo manalyse auch
nich zum eigen lichen Ke n de Komposi ion o d ingen, sonde n lediglich die
Kuns e igkei de Ma e ial-Kombina ionen egis ie en kann. Die Isola ion de
einzelnen Zi a e aus ih e gewohn en Umgebung bewi k im Hö e unbewuß
einen neuen, meis meh schich igen Sinnzusammenhang, de ö e ins Wanken
komm , wenn die Ma e ialien de o mie we den. Dami ge ä abe auch die
his o isch bes imm e Rela ion on Ma e ial und Ve a bei ung du cheinande , um
sich zu eine neuen Wi klichkei zu o mie en. Daß diese Wi klichkei Be ios on
ie em Pessimismus gekennzeichne is , s eh in me kwü digem Kon as zu de
ehe humo igen “Ve packung” dieses Sa zes .
70
Na e dade, o que pensamos é que Al mann igno a odas as ques ões ha mónicas
que le an ámos an e io men e, nomeadamen e quando ealçámos o ac o de a na u eza
des es exce os onais se , ol amos a esc e ê-lo, ansmu ada numa ou a na u eza,
po que passa a se um agen e de um odo, que não obedece às suas eg as in e nas. O a,
Ibidem, p.46.
69
Ibidem, p.46.
70
!100
é jus amen e es a ans o mação do ma e ial ci ado, p ecisamen e a cópia de u pada do
ma e ial o iginal me odicamen e desc i a po Al mann – e que o le a a jus i ica uma
análise o mal que não pode i além de um egis o a u ado de odas as oco ências des a
colagem, ou mon agem –, o que nos mo i a a, pelo con á io, que e indaga sob e as
azões p o undas des e mesmo compo amen o. Não nos admi a, pois, que o p óp io
Be io diga, na no a de au o sob e Sin onia, que o seu e cei o andamen o é al ez a
música mais expe imen al que esc e eu:
The hi d sec ion o Sin onia equi es a mo e de ailed commen because i is
pe haps he mos “expe imen al” music I ha e e e w i en. I is a ibu e o
Gus a Mahle (whose wo k seems o bea he weigh o he en i e his o y o
music o he las wo cen u ies) and in pa icula o he hi d mo emen - he
Sche zo - o his Second Symphony (Resu ec ion). Mahle is o he o ali y o he
music o he hi d pa o my Sin onia as Becke is o he o ali y o he ex . The
esul is a kind o oyage o Cy he a made on boa d he Sche zo o Mahle ’s
Second Symphony. The Mahle mo emen is ea ed like a gene a o - and also as
a con aine - wi hin whose amewo k a la ge numbe o musical cha ac e s and
e e ences is p oli e a ed; hey go om Bach o Schoenbe g, om B ahms o
S auss, om Bee ho en o S a insky, om Be g o Webe n, o Boulez, o
Pousseu , o mysel and o he s. The di e en musical cha ac e s a e always
in eg a ed in o he lowing ha monic s uc u e o Mahle ’s Sche zo. They in e ac
and ans o m hemsel es - as i happens wi h hose amilia objec s o aces ha ,
placed in a di e en ligh o in a new con ex , suddenly acqui e a di e en
meaning. The combining and he uni ying o di e en and o en un ela ed musical
cha ac e s may be he main mo i a ion o he hi d pa o Sin onia, o his
medi a ion on a Mahle ian obje ou é.
71
Di íamos ainda mais do que o p óp io Luciano Be io: se é e dade que podemos
e o andamen o de Mahle como ge ado de odas as ou as ci ações, que so em
al e ações quando pos as em elação com ele, podemos, ambém, pensa que a na u eza
do sche zo mahle iano se al e a, po que passa a se is a sob a égide das ci ações que
susci a. Passa a se is a de o ma no a, po que su ge econ ex ualizada. Na e dade um
olha a en o desco ina á uma e ec i a e indesmen í el mudança no p óp io sch ezo
Exce o da No a de Au o esc i a po Luciano Be io aquando da es eia absolu a de Sin onia, acessí el
71
em: h p://www.lucianobe io.o g/node/1494?1683069894=1 [acedido em Se emb o de 2014]
!101
mahle iano, como se es e “encon o inespe ado do di e so” (Ma ia Gab iela Llansol )
72
ob igasse a uma necessá ia ans o mação dos seus á ios elemen os. Pa a isso
con ibui, sem dú ida, o ac o de Be io muda ambém o ex o o iginal de Mahle , como
es á bem ano ado po Ca he ine Losada :
73
!
Ca he ine Losada ealça o equin e dos disposi i os usados nes e p ocesso de
modulação, que são, aliás, comuns a ou as peças de Luciano Be io, que não êm
qualque ci ação de ma e iais ex e io es. Po que es e encon o do múl iplo se dá
p ima iamen e de ido a azões musicais, como as da di eccionalidade e da sua
p og essi idade:
O e all, hese a ious illus a ions may be unde s ood o con i m he ways in
which he echniques o o e lap, ch oma ic inse ion and hy hmic plas ici y a e
capable o ashioning con incing links be ween dispa a e sou ce ma e ials.
Indeed, hese echniques in e ac o a e se he space be ween con as ing
musical languages, c ea ing ela ionships which a e akin o he sophis ica ed ypes
o modula o y echniques ha ope a e in onal music on bo h local and la ge-scale
le els.
74
Ac escen a íamos que es e equin e é decisi o pa a o p ocesso de ans igu ação
a que aludimos acima. Es amos, assim, pe an e uma mul iplicidade de ma e iais que
podem es a em sucessão, e em que a unidade de uma peça pode se o esul ado de um
Exp essão emp es ada de um dos í ulos des a esc i o a: Lisboaleipzig 1: o encon o inespe ado do
72
di e so (Rolim, 1994; Assí io & Al im, 2014).
LOSADA, Ca he ine, “The P ocess o Modula ion in Musical Collage”, Music Analysis, 27/ii-iii
73
(2008), pp.295-336.
Ibidem, p.324.
74
!102
p ocesso que aça um ajec o en e ealidades musicais dis in as. Ou uma
mul iplicidade de ma e iais ha mónicos que coexis em simul aneamen e e que, al como
o discu so musical das suas Sequenze, esul a da sob eposição de di e en es camadas
musicais, cons i uindo-se como discu so plu idimensional. Es es ma e iais podem se
semelhan es ou dis in os em elação ao seu ca ác e a onal ou onal-modal, em elação à
sua mo ologia, ou simplesmen e em elação à sua o ganização in e na, e es a
coexis ência de ma e iais di e sos pode ma e ializa -se de di e sas o mas: na sucessão,
a a és da (1) plu alidade de ma e iais a onais idên icos, da (2) inse ção de ma e iais de
na u eza dis in a num mesmo undo coe en e, da (3) inclusão de ma e iais mul ipola es
e plu ais num discu so he e ogéneo; e na simul aneidade, a a és da (4) sob eposição de
ma e ais mul ipola es, e da (5) sob eposição de ma e iais dis in os em elação ao seu
ca ác e a onal ou onal-modal.
As p imei as se e Sequenze de Be io (esc i as en e 1958 e 1969) são ob as que,
po se em esc i as pa a ins umen os solo, azem da mul iplicidade do seu ges o a única
possibilidade de se em poli ónicas. Po isso, é ce ei a a ideia de que es ando em busca
de uma poli onia implíci a, Be io chegou à conc e ização do ges o múl iplo.
Rep oduzimos abaixo um exce o da Sequenza III:
Ex. 19: P imei a página de Sequenza III pe oce emminile (1966) .
75
!
Uni e sal Edi ion, n .3723 mi, 1968.
75
!103

Como podemos e no exemplo acima, os á ios desenhos que a oz az, e que o am
p imei amen e pensados pa a unciona como ês linhas melódicas, acabam po
cons i ui uma só linha múl ipla.
As duas expe iências de mul iplicidade a que aludimos – Labo in us II e o
e cei o andamen o de Sin onia – são acompanhadas de mui as ou as expe iências de
mul iplicidade. Po exemplo, as p imei as se e Sequenze (c . acima o exemplo 19),
pa ilham com Labo in us II as ca ac e ís icas da mul iplicidade que es e con ém; de
igual modo, o núme o inal de Sin onia, que no malmen e não é ci ado a p opósi o do
di e so, na ealidade em p esen e as mesmas ca ac e ís icas que o seu andamen o
cen al, se bem que com ma e iais o iginais dos ou os andamen os de Sin onia:
Ex. 20: Sin onia (V), início. A lau a em elemen os do p imei o andamen o; o piano
eco da momen os do p imei o andamen o; a oz eco da momen os do qua o andamen o .
76
!
O p imei o andamen o é, pelo con á io, um momen o impo an íssimo de
acumulação do múl iplo nas suas o mas mais simples, mas ainda assim mais con ido.
Quan o aos núme os II e IV des a ob a, eles ambém são momen os de mul iplicidade,
embo a es a seja aí mais disc e a, como se es i esse con ida à espe a dos andamen os
que lhes sucedem – são momen os de epouso expec an e e não de pu a s asis. Vejamos
a p imei a página do qua o andamen o:
BERIO, Luciano, Sin onia, London: Uni e sal Edi ion UE 13783, 1972, p.103.
76
!104
Ex. 21: Sin onia (IV), p imei a página. O ca ác e expec an e des e andamen o
e lec e-se nas igu as epe idas que acompanham as ozes .
77
!
Na e dade, podemos dize que qualque dos momen os da p odução de Be io
que possamos isola con ém es a p esença mais ou menos disc e a do múl iplo, semp e
associado, po ém, à ques ão da pe spec i a; ou seja, associado à exis ência de elemen os
que, pelo seu ca ác e ou pela sua dinâmica, ou ainda pela especi icidade da audição do
ou in e, su gem em p imei o plano, em con as e com elemen os que su gem em planos
Ibidem, p.97.
77
!105
secundá ios. Mui o depende á da “compe ência” de escu a do ou in e. Relacionado com
es a ques ão da pe spec i a na audição musical – que, epe imos, pe mi e a eclosão do
múl iplo –, emos ou o enómeno, que é o da in odução de elocidades múl iplas
simul âneas. A esse espei o, nada é mais cla o do que o qua o andamen o de Sin onia,
(c . acima o exemplo 21). A ques ão da elocidade es á semp e p esen e, mesmo em
andamen os em que a exube ância e p o usão das igu as seja, po momen os,
impedi i a do seu econhecimen o. Relemos as nossas pala as e pe cebemos como a
ma é ia de que alamos se ap oxima adicalmen e da a e cinema og á ica, não só ao
ní el da sua ecepção, jun o do espec ado , mas sob e udo ao ní el da p odução, onde a
mon agem, a pe spec i a e a elocidade são ques ões decisi as no seu aze . Uma a e
que an o imp essionou Wal e Benjamin e que oi, como se sabe, ambém sobejamen e
pensada po Gilles Deleuze .
78
A es a enume ação de duas componen es essenciais do múl iplo – pe spec i a e
elocidade – não que emos deixa de jun a ês a iá eis, que se c uzam de o ma
pe pendicula com es as ques ões e que pensamos se em cons an es na ob a de Be io,
o e ecendo semp e esul ados di e sos. São elas a ques ão do undo (que pode se
homogéneo, he e ogéneo, ausen e, e c…), a ques ão da p esença, ou não, da
simul aneidade, e a ques ão da simili ude de ma e iais, p esen es ou não – pensamos, a
es e p opósi o, nos a iadíssimos c i é ios que podem dec e a es a simili ude.
La e a s o ia é, sem dú ida, o exemplo maio de mul iplicidade na ob a de
Be io, embo a a maio simplicidade dos ma e iais que a compõem o ne esse ac o
menos explíci o. Desde logo, eencon amos os aços da mul iplicidade já desc i a an es
nes e capí ulo, a pa i dos exemplos de Labo in us II. Conside emos o due o “Il
G ido” (Pa e I), de La e a s o ia:
DELEUZE, Gilles, A Imagem-Mo imen o. Cinema 1, ad. de Sousa Dias, Lisboa: Assí io & Al im,
78
2004; DELEUZE, Gilles, A Imagem-Tempo. Cinema 2, Lisboa: Documen a, 2015.
!106
Ex. 22: La e a s o ia, “Il G ido” (Pa e I), ocal sco e .
79
!
Ex. 23: sequências de base de La e a s o ia, “Il G ido” (Pa e I).
!
Como se pode obse a , os ma e iais de em ao seu ca ác e múl iplo o ac o de
pode em em conjun o cons i ui um odo coe en e. Um dos exemplos p eceden es a La
e a s o ia mais cla os des e enómeno acon ece no Conce o pe due piano o i e
o ches a (1973), em que é jus amen e o ac o de cada pianis a aze aco des
mul ipola es o que pe mi e a cons i uição de um odo coe en e.
Luciano Be io, La e a s o ia - Azione musicale in due pa i (Pa e I), es o di I alo Cal ino, iduzione
79
pe can o e piano o e (a cu a di Ludo ico Einaudi e Luca F ancesconi), Vienna, London, New Yo k:
Uni e sal Edi ion UE 16818, 1981, p.185.
!107
mul iplicidade ha mónica a acon ece no empo. Uma mani es ação ão calma como
inelu á el — pensemos no começo de Sin onia, ou em Requies (1983-85), po exemplo.
Ou as ezes, o i mo nasce da sob eposição de ges os (pensamos em Sequenza VII pe
oboe), e aí é galopan e. Num e nou o caso, o seu aspec o múl iplo es á p esen e po que
a apa en e dimensão única de Requies é um es ampa p og essi o de algo que, na
memó ia, se á is o como simul âneo. Tal como o galope ené ico de i mos em peças
como a Sequenza VII, é a adução empo al de um es ado de alma que não é desc i í el
de ou a o ma. O mesmo acon ece, aliás, com a sua Sequenza III pe oce emminile
(c . acima o exemplo 19), ou com a sua Sequenza I pe lau o, po que o i mo em Be io
é no malmen e uma consequência do ges o, e as implicações humanas que isso em são
mui o mais p o undas do que comummen e nos a e emos a pensa : “Some hing
meaningless doesn' make any sense, bu some hing ha doesn' make any sense can be
meaning ul” .
87
Es a e olução da sob eposição e da possibilidade do múl iplo dá-se em elação
à he ança webe niana e às p á icas mais académicas do se ialismo in eg al: o i mo
deixa, com Luciano Be io, de se en endido como um con o no de du ações, pa a se
pe cebido como o esul ado da icção en e os seus di e en es ní eis. Um exemplo
mui o cla o des a icção, que esul a da sob eposição de di e sas camadas í micas,
é-nos o e ecido pela “Scena II” da Pa e II de La e a s o ia, ou pelo e cei o
andamen o de Sin onia.
Ex. 31 : La e a s o ia, Pa e II “Scena II” .
88
! !
BERIO, Luciano, Remembe ing he Fu u e, op. ci ., p.71. Nes e passo, Be io ala a p opósi o de
87
Sequenza III.
BERIO, Luciano, La e a s o ia - Ope a in due pa i (Pa e II), op. ci ., pp.10-11.
88
!114

Ex. 32: Sin onia, III: “In uhig liessende Bewegung” .
89
!
No e-se que, em ambos os casos, Be io a inge a ubiquidade í mica que deseja
pela acumulação de in o mação e nunca pela sua al a. Se em La e a s o ia se sob epõe
o i mo da solis a ao i mo das es an es ozes, em Sin onia sob epõe-se o i mo do
BERIO, Luciano, Sin onia, op. ci ., p.34s.
89
!115
sche zo de Mahle ao i mo das suas ci ações. Es a p á ica, es á, aliás, p esen e, embo a
de o ma menos explíci a, em mui os ou os momen os da sua ob a.
Ou o aspec o múl iplo do i mo be iano é a inclusão de empos o es e acos,
banida na música se ial mais académica, e que essu ge em ob as de Luciano Be io
como O King. Ela es á ambém mui o p esen e na “Scena V” (Pa e II) de La e a
s o ia. Tan o na ópe a (c . adian e exemplo 36) como em O King (c . ilus ação abaixo),
es amos na p esença de empos o es e acos. Es a p á ica, banida da música se ial
adicional, é epescada num con ex o em que, que a mé ica, que as du ações
e ec i as, são i egula es, man endo po isso o seu ca ác e cla amen e dis in o do da
música onal adicional.
Ex. 33: O King, início .
90
!
A e olução da sob eposição de di e sas camadas como o ma de a ingi a
ubiquidade é, sem dú ida, um aço impo an íssimo da música de Luciano Be io. Mas a
pa i de Sequenza VIII pe iolino (1975) e da Sequenza IX pe cla ine o (1980) ganha
co po uma segunda e olução be iana, e olução es a em que o i mo é in e io à
pulsação, con as ando o emen e com a an e io p á ica de sob eposição de di e sos
ní eis como o ma de ga an i a ubiquidade desejada pelo composi o .
Es a segunda e olução es á pa icula men e cla a nas “Scena VII”, “Scena VIII”
e “Scena IX” da Pa e II de La e a s o ia (c . adian e o exemplo 44). Desc e endo em
de alhe, Be io he da a es u u a í mica do onalismo e do modalismo – uma es u u a
BERIO, Luciano, O King, London: Uni e sal Edi ion UE 13781, 1970, p.1.
90
!116
em que es ão p esen es os ní eis da hipe mé ica (co espondendo à du ação de ases e
pe íodos), da mé ica (co espondendo ao ipo de compassos), da pulsação ( i mo
implíci o), e das du ações (co espondendo ao i mo e ec i amen e esc i o) –,
es abelecendo, no en an o, no as elações en e es es elemen os, g aças à i egula idade
de cada um deles. Na segunda e olução, as du ações o nam-se dependen es da
pulsação, que aqui assume uma egula idade inédi a.
Conside ando o esquema abaixo, e i icamos que na p imei a e olução í mica
Be io he da a não submissão webe niana en e os di e en es ní eis í micos. Ou seja, em
ez de e adica ní eis de conside ação í mica, Be io o na-os simul aneamen e
ope an es, seguindo uma lógica de acumulação. Po seu u no, na segunda e olução
í mica, pulsação e du ações o nam-se dependen es en e si, man endo o impe a i o de
ubiquidade í mica que ma ca a p odução musical be iana, mas simpli icando-o ao aze
co esponde dois ní eis í micos.
Dando um exemplo de como es a mul iplicidade é conseguida, com base nos
ins umen os o necidos pela segunda e olução be iana, conside emos a “Scena VII”,
da Pa e II de La e a s o ia, baseada na Sequenza IX pe cla ine o, onde o i mo se
o ganiza da seguin e o ma: a hipe mé ica é i egula e co esponde a cada le a de
ensaio; a mé ica é i egula e co esponde a cada uma das ases; as du ações esc i as
são nes e caso, ao con á io de odos os exemplos an e io es, meno es do que a pulsação
que implicam; a pulsação, inalmen e, é comple amen e egula , embo a seja o nada
ligei amen e ins á el pela in e p e ação que o composi o pede e po momen os de
ocasional inse ção de no as de me ade do seu alo .
Tonalismo
He ança
webe niana
P imei a e olução
be iana
Segunda e olução
be iana
hipe mé ica: egula
hipe mé ica: egula
ou i egula
hipe mé ica:
i egula
hipe mé ica:
i egula
mé ica: egula
mé ica: inexis en e
mé ica: i egula
mé ica: i egula
pulsação: egula
pulsação:
endencialmen e
inexis en e
pulsação:
endencialmen e
inexis en e ou
i egula
pulsação: egula
du ações: obedecendo
à pulsação e à mé ica
du ações: i egula es
du ações: i egula es
du ações: obedecendo
à pulsação
!117
Ex. 34: Sequenza IXb pe sasso ono con al o (1980), início .
91
!
É a combinação des es dois ní eis (pulsação e du ações) que pe mi e que um
de e minado i mo possa se simul aneamen e quali a i o (como um i mo onal ou
modal adicional) e quan i a i o (como um i mo a onal adicional). A eno me
dila ação do empo a onal ope ada po Be io e a conside ação do objec o musical em
p o undidade esul an e da inc us ação de mo i os, conside ados habi ualmen e apenas
do pon o de is a me amen e ea al, é ou a das ca ac e ís icas undamen ais do
pensamen o í mico be iano. Mais uma ez, o conjun o das Sequenze dá-nos á ios
exemplos des es mo i os, cuja epe ição é semp e a iada mas de o ma a que sejam
econhecí eis na sua essência. São ges os í micos solú eis (no exemplo acima em
apoja u a) – po que nem semp e ap esen ados com a mesma dimensão –, mas
especialmen e p egnan es e, assim, essenciais na a iculação do discu so.
Na Sequenza VII pe oboe (1969), a unção des es mo i os é ma ca os pe íodos
i egula es do de i í mico – e não os “compassos” da sua o ganização –, ga an indo
assim a plu alidade de empos de o ganização do ma e ial musical: a hipe mé ica de
21,6'' é cons an e ao longo de 13 epe ições , apenas com des ios pon uais, esul an es
92
de suspensões; a mé ica é i egula , cons i uída pela sucessão de 13 compassos
iden i icados pelos segundos de du ação como 3'' - 2,7'' - 2'' - 2'' - 2'' - 2'' - 1,8'' - 1,5'' -
BERIO, Luciano, Sequenza IXb pe sasso ono con al o, Milano, Wien: Uni e sal Edi ion, 1980, p.1.
91
C . o es udo de ALESSANDRINI, Pa icia, “A D ess o a S aighjacke ? Facing P oblems o S uc u e
92
and Pe iodici y Posed by he No a ion o Be io’s Sequenza VII o Oboe”, in Be io’s ‘Sequenzas’. Essays
on Pe o mance, Composi ion and Analysis, ed. by Jane K. Hal ya d, op. ci ., pp.67-81. Nes e es udo
alude-se igualmen e à mul iplicidade ine en e a compassos e igu as inc us adas, salien ando-se ainda a
hipe mé ica egula .
!118
1,3'' - 1,3'' - 1'' - 1'' - 1''; as du ações esc i as são i egula es e não obedecem à mé ica;
inalmen e, a pulsação não es á ex ualmen e p esen e.
Ex. 35: Sequenza VII pe Oboe, início das linhas 1 a 4 .
93
!
A impo ância da inc us ação de mo i os na c iação de hie a quias que p e inem
a complexidade de um só ní el é um dos ac os mais ca ac e izan es das Sequenze de
Be io, mas não se limi a, na u almen e, a es as ob as; em Sin onia, po exemplo, o ex o
alado em a mesma unção, na cons i uição de um odo que se assume, ele p óp io,
como a pa e angí el de um o al maio .
Tal ez como consequência da expe iência da música ocal, com música
elec o-acús ica ou com meios adicionais, em ob as como Thema (Omaggio a Joyce)
(1958), Visage (1961), Passaggio (1963) e Labo in us II (1965), a ideia de objec o
í mico múl iplo é undamen al em Be io. Mas pa a além da plu alidade de empos,
esul an e da sob eposição de á ias ozes, podemos assis i a es e enómeno
“ ansc i o” pa a uma só oz. É is o que acon ece na Sequenza VII pe oboe, em que a
sob eposição de ês ní eis – compassos, o seu p eenchimen o po empos acos
egula es ou i egula es e, inalmen e, a sob eposição de uma camada não coinciden e
assinalada po mo i os – é ei a pa a cons i ui um objec o í mico múl iplo. No e-se
que a i egula idade de odas pa es é undamen al pa a que es e objec i o seja
conseguido.
BERIO, Luciano, Sequenza VII pe Oboe solo, London: Uni e sal Edi ion (UE 13754), 1971, página
93
única.
!119

Nes e con ex o, em que pa ece ha e uma diluição do i mo pa a se consegui a
mul iplicidade do discu so, ale a pena eco da as pala as de Be io numa in e enção
de 1985, in i ulada, com o humo que lhe é p óp io, de Che empo a:
Non mi semb a cosí impo an e, nella musica di oggi, il i e imen o a una
o ganizzazione i mica e me ica del empo. È ce amen e piú signi ica i o,
in ece, il deside io e la possibili à di con olla e dimensioni di empo mol o
di e si ica e e non omogenee a lo o. In ece di ce ca e di sin e izza e e
sempli ica e la na u a di ques o deside io — die o il quale si nasconce e p eme la
s o ia della musica nella sua o ali à — mi semb a piú oppo uno ico da e che la
elazione del composi o e con la dimensione e le unzioni del empo ha compiu o
una ans o mazione impo an e a a e so le p ime espe ienze di musica
ele onica .
94
Es ando comple amen e de aco do com es a posição, não podemos, no en an o,
deixa de aze no a alguns aspec os eco en es na sua p á ica, que lhe pe mi em, aliás,
a eclosão do múl iplo, po que, se es amos pe an e a eclosão de algo que não
conseguimos con ola , emos que lhe da condições pa a que ele acon eça, na ob a de
a e. O i mo essu ge a á ias escalas empo ais, à manei a da alea da música
medie al. Mas o seu su gimen o dá-se num quad o onde a medida humana ainda o pode
pensa .
“[…] l'a i ma ion du mul iple es elle-même l'un, l'a i ma ion mul iple es la
maniè e don l'un s'a i me. «L'un, c'es le mul iple.»” . É indispensá el, pa a uma
95
co ec a ecepção das ino ações de Luciano Be io ace às al u as e ace ao i mo, a
pe cepção de que é es e ca ác e múl iplo em simul âneo que ga an e, a mais das ezes,
a sua e ec i a exis ência e coe ência. Conc e izamos: uma insis ência em apenas um
ca ác e le a ia o ou in e a apidamen e o desmon a em duas ealidades e, assim, a
o ná-lo naquilo que pode íamos classi ica de poli onal. O a, o que se passa com Be io
é adicalmen e di e en e, po que, ao es abelece mais do que um ní el de lei u a
simul ânea, o que es á a aze é con on a o ou in e com a sua p óp ia capacidade de
ecepção. Embo a pensemos nis o sob e udo endo em con a as al u as, o mesmo se
pode passa com as du ações, e é ce ei a a obse ação de que há uma e olução í mica
In “Che empo a”, in Sc i i sulla musica, op. ci ., pp.71-72.
94
DELEUZE, Gilles, Nie zsche e la philosophie, op. ci ., p.27.
95
!120
em Be io, mui as ezes igno ada em a o de ou os ac o es mais e iden es. O a, nas
camadas de escu a menos isí eis ou ób ias eside uma impo an e cha e de deci ação
e de lei u a. Po que é me gulhando nas ca ac e ís icas in e nas do objec o que melho o
podemos comp eende ex e io men e, numa pos u a de análise que não p e ende
es abelece hie a quias en e os seus pa âme os, ap oximando-se do seu objec o de
análise como ace a um izoma. A impo ância do que acabamos de dize , do pon o de
is a polí ico, não pode se mais sublinhada: a ealidade é múl ipla, é poli icamen e
di e sa, e não de emos p i ilegia um dos pa âme os sob o impe a i o de coe ência.
Cada pa âme o ou cada ní el do discu so de e se coe en e consigo mesmo, cada
pessoa de e se hones a consigo p óp ia, mas adicalmen e independen e ace às demais
— “The e is no uni y o se e as a pi o in he objec , o o di ide in he subjec .”
96
Mas podemos e de emos i mais longe. De emos acei a que se es abeleçam
alianças imp o á eis en e elemen os que não abdicam da sua i edu í el singula idade.
Admi i o múl iplo é ambém, ou al ez seja sob e udo, admi i a mul iplicidade de
elações e de possibilidades. Po isso, não hesi amos em classi ica de izomá ica a
p á ica musical de Be io; como bem diz Deleuze, “[…] he laws o combina ion
he e o e inc ease in numbe as he mul iplici y g ows” . E o papel do composi o
97
muda adicalmen e, po que es e passa a se o papel de alguém que p e ê a coexis ência
do conjun o e não o de alguém que subme e esse conjun o a uma qualque lógica.
DELEUZE, Gilles, Félix Gua a i, A Thousand Pla eaus, op. ci ., p.8.
96
Ibidem.
97
!121
Flexí el e Mu an e
Ex. 36: La e a s o ia, Pa e II, “Scena V” .
98
!
No exemplo acima emos o início da “Scena V”, que é, al ez, o exemplo mais
cla o de mu ação em La e a s o ia. Com e ei o, depois des e início, em que podemos
obse a um a aque s acca issimo do co o, jun amen e com a epe ição de uma no a, a
que se jun a uma melodia acompanhada pela sua ansc ição po pa e da lau a,
e emos desen ola -se um p ocesso em que, pa a além da junção de mais uma oz,
aquele que e a um a aque isolado do co o se i á o na o elemen o mais ma can e da
BERIO, Luciano, La e a s o ia - Ope a in due pa i (Pa e II), op. ci ., p.54.
98
!122
cena, após um p ocesso de con ínua acele ação. Ao mesmo empo, es e a aque sem
no as i á o na -se um odo ha mónico, que condiciona á oda a segunda pa e des a
cena.
O ca ác e lexí el e mu an e do i mo, po que simul aneamen e ec o ial (uno) e
sob epos o (múl iplo), é mais uma das ma cas de singula idade da música de Luciano
Be io. A capacidade de ans o mação de um co po es á ligada umbilicalmen e aos
ca ac e es uno e múl iplo desc i os nas secções an e io es. Conside ando ainda o
exemplo da "Scena V" (Pa e II) dado acima, es e ca ác e de mu ação cons an e
e lec e-se na assumpção do enómeno de ansc ição e na adap ação pa icula da
iso i mia medie al, que pe mi e a cons an e e olução í mica – como em O King – ou a
sua eo denação e eap esen ação – como em Sequenza VII pe oboe e Sequenza IX.
Finalmen e, a eclosão de um i mo a iculado, ma cado po uma supe ície musical
passí el de se di idida pelo ou in e numa sequência de e en os dis in os , é um dos
99
enómenos mais p esen es em La e a s o ia ( eja-se o exemplo abaixo), mas ambém
em ob as como Il i o no degli Sno idenia pe ioloncello e piccola o ches a (1977):
Ex. 37: La e a s o ia, Pa e I, a ia “Il Ra o”, compassos iniciais .
100
!
C . LERDAHL, F ed, “Cogni i e Cons ain s on Composi ional Sys ems”, Con empo a y Music
99
Re iew, Vol. 6, Pa 2, 1992, pp.97-121.
BERIO, Luciano, La e a s o ia - Ope a in due pa i (Pa e I), op. ci ., p.66.
100
!123
!
Na ilus ação acima, e i ada de Lu kla ie (1985), a p oximidade com Voiles, de
Debussy, pese embo a odas as di e enças en e es as duas peças pa a piano, essal a de
o ma pa icula men e e iden e.
A ecusa do ca ác e es á ico dos seus g upos ha mónicos, que acabamos de
e i ica em elação à p esença ou omissão de no as al u as, e i ica-se ambém com a
sua ansposição, e pa icula men e em elação à mudança de oi a a das suas no as. É
is o que acon ece com o momen o inicial de La e a s o ia, no qual o ag egado inicial é
explo ado a a és da deslocação de oi a a de alguns dos seus elemen os:
Ex. 47: La e a s o ia, “P ima Fes a” (Pa e I). Conjun o de no as ci ado po Da id
Osmond-Smi h .
112
!
Ex. 48: La e a s o ia, “P ima Fes a” (Pa e I). Deslocação po oi a a de no as.
!
Es a simples deslocação de oi a a al e a eno memen e as elações de pola idade en e as
suas no as: do p imei o pa a o segundo aco de, o aco de pa ece e sido anspos o po
í ono descenden e: [DO-MI-SOL-SI] com as no as ag egadas [DO#-FA#-LA-LA#] é
anspos o pa a o aco de [FA#-LA#-DO#-MI-SOL] com as no as ag egadas [DO-LA-
SI]:
OSMOND-SMITH, D., Be io, op. ci ., p.104.
112
!130

Ex. 49: La e a s o ia,“P ima Fes a” (Pa e I). P imei os dois aco des.!
!
O mesmo enómeno se passa com os aco des inais de O King (1968), que podem se
in e p e ados como aco des de di e en es undamen ais ou ca ac e ís icas – pensamos
em [DO, FA#, DO e DOm]:
Ex. 50: O King, aco des inais.
!
Es a pola idade mu an e esul a da p oximidade que ambas as es u u as ha mónicas
pan en eiam em elação à escala oc a ónica – cuja mul ipola idade esul a do ac o de
epe i uma mesma sequência de in e alos a pa i de di e en es no as.
Ex. 51: escala oc a ónica.
!
Mas nada ob iga a que seja exclusi amen e a a és de um dos mé odos que
acabamos de e e i , ou a a és de um modo simé ico como a escala oc a ónica, que o
cons an e de i do ma e ial em luga . Se enca a mos a expansão melódica con ida
numa ob a como a Sequenza I pe lau o (1958), pe cebemos que aquilo que,
hipo e icamen e, se ia uma linha c omá ica descenden e, é simul aneamen e
ans o mado po inse ção, omisssão e ansposição de no as:
!131
Ex. 52: Sequenza I pe lau o, início .
113
!
O esul ado da sob eposição des as ans o mações é um momen o de onde são banidas
quaisque sequências que o nem o mo imen o melódico p e isí el e que impeçam
qualque lei u a des e mo imen o melódico limi ada aos modos adicionais – maio e
meno – ou aos modos mode nos – como os de Messiaen. Es e mesmo exemplo pode
se is o como esul ado da o namen ação de segmen os oc a ónicos [LA-SOL#-FA#]
[SOL-FA-MI-DO#] [RE#-RE-DO-SI] [LA-MIb-FA] segundo os c i é ios de pola idade
mencionados acima. Mas ambém pode se is o como a o namen ação de uma linha
pe encen e à escala de ons in ei os:
Ex. 53: Sequenza I pe lau o - escala de ons in ei os deduzida da sequência inicial.
!
Es a si uação, em que qualque uma das hipó eses acima indicada – c oma ismo,
escala de ons in ei os e escala oc a ónica – é igualmen e álida, explica a ex ema
mobilidade do objec o esul an e e a sua eno me e icácia. Ela explica, ambém, o
ca ác e imp o isa ó io des a peça, que esul a da ecusa be iana em acei a os in e di os
do dodeca onismo clássico de Schoenbe g, mas ambém da concepção be iana do
ma e ial enquan o ede dinâmica de o ças. Reco demos as pala as de Be io em
en e is a com Da id Ro h: “The eal en iching expe ience is o be able o pe cei e
p ocesses o o ma ion, ans o ma ion – o changing hings – a he han solid
objec s” . Po es e mo i o, não podemos acompanha o caminho açado po I na
114
BERIO, Luciano, Sequenza pe lau o solo, Milano: Edizioni Su ini Ze boni, 1958, p.1.
113
In “Luciano Be io on New Music: An In e iew wi h Da id Ro h”, Musical opinion, sep emb e 1976,
114
p. 549.
!132
P io e num ecen e es udo que az sob e es a Sequenza , en an o descob i nela aços
115
do se ialismo dodeca ónico, quando o que in e essa é sabe a elação que as á ias
negações do dodeca onismo p esen es na ob a es abelecem en e si. Se ia, pelo
con á io, in e essan e pega nos concei os de Di e ença e Repe ição, al como Deleuze
os pensa, e e de que o ma eles se e lec em nes a Sequenza, numa mesma linha de
ap oximação que B uce Quaglia az num abalho pe inen e em que a ança pa a
ques ões poé icas na música de Be io a pa i de concei os deleuzianos .
116
Nes e sen ido, ale a pena en a um opo uno exe cício de c uzamen o com os
concei os deleuzianos expos os no capí ulo an e io , podemos dize que a mul iplicidade
é a condição da mu abilidade de que o objec o sono o be iano é capaz. Po que ela
cons i ui o sin oma mais epidé mico de que a inal não é o objec o em si que p ende a
a enção do ou in e, mas a sua ans o mação. Comp eendemos, assim, as pala as de
Deleuze e Gua a i quando a i mam:
A mul iplici y has nei he subjec no objec , only de e mina ions, magni udes,
and dimensions ha canno inc ease in numbe wi hou he mul iplici y changing
in na u e.
117
E podemos dize : o objec o, que não em começo nem im, não em en idade enquan o
odo que não seja a a i mação das suas possibilidades de de i a a és da negação do
ca ác e de ini i o de cada um dos seus cons i uin es. Tudo é mu an e; o p óp io odo
esul an e des a mu ação o é ambém:
The e is a up u e in he hizome whene e segmen a y lines explode in o a line o
ligh , bu he line o ligh is pa o he hizome. These lines always ie back o
C . “Ves iges o Twel e-Tone P ac ice as Composi ional P ocess in Be io’s Sequenza I o Solo Flu e”,
115
in Be io’s ‘Sequenzas’. Essays on Pe o mance, Composi ion and Analysis, op. ci ., pp.191-208.
C . “T ans o ma ion and Becoming O he in he Music and Poe ics o Luciano Be io”, in Sounding he
116
Vi ual. Gilles Deleuze and he Theo y and Philosophy o Music, ed. by B ian Hulse and Nick Nesbi ,
Su ey, Bu ling on: Ashga e, 2010, pp.227-248. A p opósi o da elação de Deleuze e Be io, ale a pena
ansc e e a pequena ca a que Deleuze esc e eu ao composi o depois de se encon a em em Pa is, um
inédi o publicado nes e mesmo es udo de Quaglia, deposi ado na Fundação Paul Sache , onde o espólio
do composi o se encon a:
Dea Be io,
Once again I mus ell you o my admi a ion. I was a joy o ha e hea d you, and I do belie e ha I owe
much hanks o you. Rega ding his subjec , I ha e wo ked a small pa o he nigh as you ha e made
some hing new possible o me. You a e pe haps he only musician who has ound a means o main ain he
joy. Some hing u gen : can you please ell Clémen Rosse i you composi ion “Visage” is a ailable on disc
and i he e is also a ex o you p esen a ion. I you ha e ime on he 16 h, call me o else I can call you a
IRCAM.
You dea iend, Gilles Deleuze
DELEUZE, Gilles, Félix Gua a i, A Thousand Pla eaus, op. ci ., p.8.
117
!133
one ano he . Tha is why one can ne e posi a dualism o a dicho omy, e en in
he udimen a y o m o he good and he bad.
118
Ibidem, p.9.
118
!134
Pa a- uncional e Mu an e
Pa a além da eno me coesão ga an ida pela simplicidade do seu ma e ial,
desc i a na secção sob e o Uno, pa a além da di e sidade que exibe e que desc e emos
na secção dedicada ao Múl iplo, e pa a além da eno me quan idade de
desen ol imen os pa icula es que mos ámos na secção sob e o ca ác e Flexí el e
Mu an e, a música de Be io assen a numa o ganização sin ác ica dos seus ma e iais, que
lhe pe mi e uma eno me asse i idade — es a asse i idade sin ác ica liga-se ao ca ác e
pa a- uncional e mu an e da sua música. É necessá io explica o que que emos dize
com es e e mo: uma música que se ege pela al e nância en e pon os de epouso e de
ensão, no malmen e usando no as que não êm uma unção de inida e cujos aspec os
í micos ogem da p e isibilidade a que aludem, e, po isso, uma música que
ca ac e izamos como pa a- uncional. No e-se que não a ca ac e izamos como
quasi- uncional, como acon ece com mui a música medie al e enascen is a , ão
119
pouco a ca ac e izamos como uncional, como acon ece nos pe íodos Ba oco, no
Clássico e Român ico, não a ca ac e izamos como pós- uncional, como acon ece com
an a música dodeca ónica ou se ial, mas ca ac e izamo-la como pa a- uncional, ao não
almeja a cons i uição de unções c is alizadas, sem no en an o se demi i de aludi a
uma qualque o ma de a iculação de sen ido. Res a-nos dize que es a ca ac e ís ica
es á es ei amen e ligada com o ca ác e lexí el e mu an e que es udámos na secção
an e io .
A p eocupação com a sin axe é um dos aços mais dis in i os da poé ica
be iana, pe mi indo-lhe aba ca meios mui o di e en es de p odução musical, com
ma e iais sono os mui íssimo dis in os — da música elec oacús ica à música co al, ou
da música de al u as inde inidas (como no início de Labo in us II) à música o ques al
de Sin onia. Ac esce que es a sin axe é ilha do seu empo e que ejei a qualque
exclusi idade de lógicas biná ias: como diz Umbe o Eco, no seu ex o «Poé ica da
o ma abe a», “a lógica biná ia do e dadei o/ also, ou da coisa e do seu con á io,
Richa d Ta uskin ecupe a es e e mo no seu es udo sob e S a insky, in S a insky and he Russian
119
T adi ions: A Biog aphy o he Wo ks Th ough Ma a, ol. 2, Be keley, Los Angeles: Uni e si y o
Cali o nia P ess, 1996, p.1601.
!135

deixou de se o único ins umen o pa a o conhecimen o” . É assim que emos a
120
cons i uição de es u u as singula es, biná ias, ci cula es, sequenciais e plu ais
con i e em num odo que não cessa de su p eende pela sua eno me e sa ilidade.
P e ende-se, de seguida, es uda de o ma pa icula cada uma des as o mas de
a iculação do discu so musical, a sua sob eposição, e, inalmen e, a sua in e acção.
Como e emos abaixo, a impo ância des as a iculações não se limi a à a iculação
ha mónica, mas é decisi a no con í io en e di e en es exp essões musicais p a icado
po Be io. Mais, ela pe mi e a exis ência de modos de exp essão comuns en e
linguagens dis in as, como o onalismo, o modalismo ou o a onalismo. Ac esce que
es es modos cons i uem um quad o as o, que inclui compo amen os ha mónicos mais
oscilan es, lógicas in olu i as, ou ealidades ha monicamen e es á icas.
Es e aspec o do es abelecimen o de es u u as de a iculação do discu so musical
não é, cu iosamen e, al o de ealce po pa e da li e a u a c í ica. Embo a Da id
Osmond-Smi h acabe po lhe aze e e ência no seu li o Playing on Wo ds…, não lhe
dá qualque ipo de impo ância na o ganização ma e ial be iana:
The delibe a ely pa simonious musical ma e ials deployed du ing he ocal pa s
o he mo emen s simply unde line his ipa i e di ision. They also es ablish a
ha monic language ha is o pe mea e much o he sco e, a language based upon
accumula ions o hi ds .
121
Gos a íamos de pa ilha a nossa di e gência com Osmond-Smi h, pelo ac o de es e
ca ac e iza a linguagem de Luciano Be io apenas no ipo de objec os, que são, diz ele
com mui a azão, objec os baseados na acumulação de e cei as. Não em, po ém
qualque pala a em elação ao ac o de ele usa apenas dois aco des, e po an o uma
es u u a ha mónica biná ia.
Mas se pensa mos, aliás, na análise musical de ob as desde o início do século
XX , ou mesmo em ob as an e io es, e i icamos o mesmo ipo de enómeno: apesa
122
de ha e uma desc ição minuciosa do objec o a ís ico, nada é di o sob e a sin axe das
ob as analisadas. E no en an o, se pensa mos na Sin onia op. 21 de An on Webe n
ECO, Umbe o, Ob a Abe a, ad. João R. N. Fu ado, Lisboa: Di el, 1989, p.15 (ed. i aliana: 1962).
120
OSMOND-SMITH, Da id , Playing on Wo ds…, op. ci ., p.15.
121
C ., a es e p opósi o, BAILEY, Ka h yn, The Twel e-No e Music o An on Webe n: Old Fo ms in a
122
New Language, Camb idge Uni e si y P ess, 1991.
!136
(1927/28) e emos como a p eocupação com a a iculação sin ác ica é algo que pa ece
e no eado a p odução des e composi o .
Ex. 54: An on Webe n, Sin onia op. 21, início .
123
!
No exemplo acima, podemos obse a que o [LA] inicial da T ompa II (cc 1) é sucedido
po uma no a di e en e (cc 2) e de seguida é ei e ado (cc 3), an es de ol a a se
sucedido po ou a no a di e en e (cc 4). De igual modo, o [SI] da T ompa I (cc 5) é
sucedido po um conjun o de no as di e en es (cc 6), pa a se ou a ez ei e ado pelo
Cla ine e (cc 7), an es de se sucedido po ou o conjun o de no as di e en es no
compasso seguin e. Es a es u u a no o al dá, po an o:
A - B - A - C D - E - D - F
O que emos cla amen e quando obse amos es e exemplo é que exis e semp e uma
al e nância en e o [A] e qualque coisa que não conhecemos, que é, mais a de,
seguida, po uma al e nânica en e o [D], cujo eg esso econhecemos, empa elhados
po no as que desconhecemos. Es a es u u a é, aliás, sublinhada i micamen e. Cla o
que Webe n pensa a sob e udo num canon ao uníssono po mo imen o con á io, mas
WEBERN, An on, Symphonie, op.21, o chambe ensemble, Uni e sal Edi ion, s.d., p.1.
123
!137
al não anula a pe inência das obse ações que acabamos de aze do pon o de is a
sin ác ico. Es amos, assim, pe an e uma es u u a biná ia .
124
Também Alban Be g na segunda cena da sua ópe a Wozzeck (1914-22) az
sucede dois aco des pa a lhes da uma a iculação biná ia.
Ex. 55: Alban Be g, Wozzeck, início do Ac o I, Cena 2 .
125
!
Como se pode obse a no exemplo acima, nos compassos 1, 2, e 3 apenas es ão
p esen es dois aco des em sucessão. Mais uma ez es amos pe an e a lógica biná ia da
elabo ação do discu so musical.
Com Igo S a insky, se pensa mos no segundo núme o da Sag ação da
P ima e a (1913), passa-se exac amen e o mesmo enómeno:
Não esis imos a con a que oi depois de ou i em es a ob a de Webe n em No a Io que, 1950, e de
124
decidi em sai do conce o (que i ia con inua com uma peça de Rachmanino ), que John Cage e Mo on
Feldman se conhece am. C . REVILL, Da id, The Roa ing Silence: John Cage – a Li e, A cade
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BERG, Alban, Wozzeck, op.7, Kla ie auszug on F i z Hein ich Klein, s. edi o , s.d., p.9.
125
!138
Ex. 56: Igo S a insky, A Sag ação da P ima e a, início do segundo núme o da
P imei a Pa e .
126
!
!
Como se pode obse a pelo exemplo acima, ambém é a sucessão biná ia en e um
aco de epe ido e o seu a pejo que é on e de emanação de sen ido.
Béla Ba ók em ambém em mui as das suas ob as es a a iculação. No exemplo
abaixo, eja-se a sucessão cla a en e momen os como os dos compassos 1 a 6, que
ol am nos compassos 12 a 16, e momen os como os dos compassos 6 a 11, que são
ei e ados nos compassos 16 a 21:
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126
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LISTA DE ILUSTRAÇÕES
A lis a que se segue e e e-se às ilus ações ap esen adas no capí ulo “A p á ica
musical de Luciano Be io”, an ecedidas pela página onde se encon am.
77 Ex. 1: La e a s o ia, Pa e I, campo ha mónico.
77 Ex. 2: escala oc a ónica 1 - 2 em Dó.
79 Ex. 3: Sin onia IV, sé ie.
79 Ex. 4: «Poin s on he cu e o ind…». Sé ie p elimina e sé ie inal.
80 Ex. 5: Sequenza IXa pe Cla ine o (1980). Sé ie p elimina e sé ie inal.
80 Ex. 6: Nones (1954). Sé ie p elimina e sé ie inal.
81 Ex. 7: sé ies dodeca ónicas de Dallapiccola.
84 Ex. 8: aco des de base de “Seconda Fes a”.
85 Ex. 9: Sin onia (1968), 1º aco de.
85 Ex. 10: Sin onia (1968), 2º aco de.
86s. Ex. 11: O King (1968), di isão do o al c omá ico e sequência melódica de base.
87 Ex. 12: Sequenza VII pe Oboe solo (1969), sé ie de base e sé ie p elimina .
89 Ex. 13: Fo mazioni (1987), melodia da secção 3.
91 Ex. 14: Six Enco es pe piano o e: “Lea ”, início.
91 Ex. 15: Six Enco es pe piano o e: “B in”, inal.
98 Ex. 16: Labo in us II.
99 Ex. 17: Schoenbe g, Mahle e Debussy, a pa i da análise de Pe e Al man.
99 Ex. 18: Sche zo da 2ª Sin onia de Mahle , a pa i da análise de Pe e Al man.
103 Ex. 19: P imei a página de Sequenza III pe oce eminile (1966)
104 Ex. 20: Sin onia (V), início.
105 Ex. 21: Sin onia (IV), p imei a página.
107 Ex. 22: La e a s o ia, “Il G ido” (Pa e I), ocal sco e
107 Ex. 23: sequências de base de La e a s o ia, “Il G ido” (Pa e I).
108 Ex. 24: Conce o pe due piano o e e o ches a (1973), página inicial.
109 Ex. 25: Co ale pe iolino, due co ni e a chi.
109s. Ex. 26: La e a s o ia, “Scena IV” (Pa e II), exce os.
!263

111 Ex. 27: Chaconne da segunda Pa i a pa a iolino de Bach, início.
111 Ex. 28: Sequenza VIII pe iolino de Be io, início.
112 Ex. 29: La e a s o ia,“Balla a V - Che il can o accia” (Pa e I)
112 Ex. 30: Co o pe oci e s umen i, I “Indiano (Sioux)”
114 Ex. 31 : La e a s o ia, Pa e II “Scena II”
115 Ex. 32: Sin onia, III: “In uhig liessende Bewegung”
116 Ex. 33: O King, início.
118 Ex. 34: Sequenza IXb pe sasso ono con al o (1980), início.
119 Ex. 35: Sequenza VII pe Oboe, início das linhas 1 a 4.
121 Ex. 36: La e a s o ia, Pa e II, “Scena V”.
123 Ex. 37: La e a s o ia, Pa e I, a ia “Il Ra o”, compassos iniciais.
124 Ex. 38: T ansc ição í mica de Il i o no degli Sno idenia, po Angela Ca one.
125 Ex. 39: Claude Debussy, “Voiles” (início), P éludes, P emie Li e.
126 Ex. 40: Ou is, esquisso melódico da au o ia do composi o .
126 Ex. 41: Fo mazioni, secção 3, melodia dos me ais.
127 Ex. 42: Tabela de pola idade de Hen i Pousseu .
128 Ex. 43: Sequenza VII, p imei as seis no as da sé ie.
128 Ex. 44: Sequenza VII, úl imas seis no as da sé ie.
129 Ex. 45: La e a s o ia,“Scena VII” (Pa e II).
129s. Ex. 46: Lu kla ie , início e exce o da 2ª página.
130 Ex. 47: La e a s o ia, “P ima Fes a” (Pa e I).
130 Ex. 48: La e a s o ia, “P ima Fes a” (Pa e I). Deslocação po oi a a de no as.
131 Ex. 49: La e a s o ia,“P ima Fes a” (Pa e I). P imei os dois aco des.
131 Ex. 50: O King, aco des inais.
131 Ex. 51: escala oc a ónica.
132 Ex. 52: Sequenza I pe lau o, início.
132 Ex. 53: Sequenza I pe lau o - escala de ons in ei os deduzida da sequência
inicial.
137 Ex. 54: An on Webe n, Sin onia op. 21, início.
138 Ex. 55: Alban Be g, Wozzeck, início do Ac o I, Cena 2.
139 Ex. 56: Igo S a insky, A Sag ação da P ima e a, início do segundo núme o da
P imei a Pa e.
140 Ex. 57: Béla Ba ók, Conce o pa a O ques a (1943), início.
141 Ex. 58: Pie e Boulez, Ri uel in memo iam B uno Made na, início.
!264
144s. Ex. 59: “Scena I” (Pa e I) de La e a s o ia, início.
145 Ex. 60: “Scena VII” (Pa e II). de La e a s o ia, baseada na Sequenza IX pe
cla ine o.
146 Ex. 61: Sin onia, I, aco des.
146 Ex. 62: La e a s o ia, Pa e II “Scena VI”
147 Ex. 63: Sin onia, I.
147 Ex. 64: Sin onia, I.
148 Ex. 65: La e a s o ia, “P ima Fes a” (Pa e I)
149 Ex. 66: Sequenza VIII pe Violino.
149 Ex. 67: Sequenza III pe oce eminile.
150 Ex. 68: Sequenza VIII pe iolino.
151 Ex. 69: O King, ês echos melódicos em o ação.
151 Ex. 70: Due i pe due iolini, “Fiamma (Nicolodi)”.
152 Ex. 71: La e a s o ia, “Qua a Fes a” (Pa e II).
152 Ex. 72: Sequenza VI pe iola (1967), início.
154 Ex. 73: dois echos de Na u ale.
155 Ex. 74: La e a s o ia, “Il empo” (Pa e I).
156 Ex. 75: Ou is, edução pa a piano, página inicial.
159 Ex. 76: La e a s o ia, Pa e I “La no e”
161 Ex. 77: Sin onia, I, segundo sis ema.
163 Ex. 78: Sequenza V pe ombone.
163 Ex. 79: La e a s o ia, “La Vende a” (Pa e I).
!265
ANEXOS
Anexo 1
Co espondência elec ónica com Paul Robe s, assis en e musical de Luciano Be io
en e Ou ub o de 1989 e Maio de 2003, pa a a Uni e sal Edi ion de Viena, Áus ia.
Uma cu a oca de emails, em que Paul Robe s esponde a algumas pe gun as, no
con ex o da in es igação pa a elabo ação des a disse ação. O anexo em duas páginas: a
página onde se podem le as nossas pe gun as e a página com a espos a de Paul
Robe s.
!266
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