scieee Science in your language
[po] (orig)

Reversibilidade da imago Dei em Santo Agostinho

Abstract

Este estudo enquadra-se no terreno das antropologias que situam a determinação essencial do humano na relação com qualquer coisa absoluta (superlativa, insuperável) e vêem cada ser humano como essencialmente o projecto de qualquer coisa dessa natureza. Considera-se em particular a doutrina augustiana da imago Dei e procura-se identificar a) as suas múltiplas ‘fontes’, b) a sua estrutura formal, c) as suas componentes e a forma como se articulam entre si – muito em especial, a ligação entre imago Dei, capacitas Dei e notitia Dei, e ainda d) o complexo de fenómenos invocados por Santo Agostinho para sustentar a sua tese sobre a imago Dei como determinação essencial do humano. Também se procura mostrar como a doutrina da imago Dei é tanto uma tese ‘teológica’ quanto uma tese puramente ‘imanente’ sobre a forma como cada ser humano está marcado por uma relação constitutiva e permanente com a projecção formal de um superlativo absoluto. Na sequência desta análise preliminar, presta-se especial atenção a dois pontos. Por um lado, estuda-se a relação entre a doutrina da imago Dei e a análise augustiniana do fenómeno do saber não declarado – que permite que a notitia Dei possa parecer tudo menos uma notícia que sempre temos e que sempre está decisivamente a moldar a forma como somos. Por outro lado, foca-se a reversibilidade da imago Dei, em virtude da qual esta assume duas formas: a) a de uma tensão autocentrada para a superlativação de cada ser humano – em que o superlativo está ao serviço de quem o procura – e b) a de uma secundarização de cada ser humano relativamente ao superlativo que procura – quando o descobrimento deste último assume um carácter tal que inviabiliza a sua redução a um meio ou instrumento de quem o procura e transforma radicalmente a sua própria autocompreensão.

Read accessible full text

Reversibilidade da imago Dei em Santo Agostinho

Author: Fontes, Duarte Sarmento de Sousa Machado
Year: 2017
Source: https://run.unl.pt/bitstream/10362/25465/1/TESE%20-%20Vers%c3%a3o%20final%20%28p%c3%b3s%20coment%c3%a1rios%20do%20j%c3%bari%29.pdf
Re e sibilidade da imago Dei em San o Agos inho
Dua e Sa men o de Sousa Machado Fon es
No emb o de 2017
Disse ação de Mes ado em Filoso ia Ge al
Disse ação ap esen ada pa a cump imen o dos equisi os necessá ios à ob enção do g au
de Mes e em Filoso ia Ge al, ealizada sob a o ien ação cien í ica do P o esso Dou o
Má io Jo ge de Ca alho, P o esso Associado com Ag egação do Depa amen o de
Filoso ia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
i
“So y abou my mom, Jack. She’s lookin’ o lo e in all he w ong places.”
Jack. Di . F ancis Fo d Coppola. Pe . Robin
Williams. 1996. Wal Disney S udios HE, 2001.
ii
Ag adecimen os
À minha a ó Isabel e ao meu a ô An ónio, po an as ezes me e em disponibilizado o
qua o lá de cima pa a eu abalha nes a ese.
Ao pad e Isid o Lamelas, pelas e e ências de li os que me deu.
Ao pad e Sil é io Rebelo, po e dinamizado um g upo de es udo de San o Agos inho.
Ao Diogo Mo ais Ba bosa, pela simpa ia com que me acolheu e pa ilhou os seus li os.
Ao Jo ge Romão e ao João Paulo Sil a, po me e em deixado aze in es igação em ísica
com eles du an e os meus es udos de iloso ia.
Ao Vasco Co do il Ca doso, po me e desa iado a assis i a aulas de iloso ia na FCSH e
po me e enco ajado a não as abandona . E po udo o es o.
Ao Ca los Ma ia Bobone, pelos li os de iloso ia que me a anjou.
Ao João Figuei edo, po me e ecebido em sua casa du an e os a aiais de San o An ónio.
Ao pad e Miguel Almeida, po me e encaminhado pa a a impo ância da incondicionali-
dade do amo de Deus.
Ao Hen ique Lei ão, po me e con agiado a sua paixão pelo es udo.
A odos aqueles que se o e ece am pa a me e e a ese. Ag adeço especialmen e à Joana
Allen, à Ma a Magalhães da Sil a e ao D . João Paulo Palha, que acaba am po ma e e .
À minha mãe, aos meus i mãos e cunhados, po odo o apoio que me de am.
A odos aqueles que acei a am com na u alidade o ac o de eu não alinha em encon os
po ica a abalha nes a ese.
A odos aqueles que não se opuse am às minhas exposições sob e es a ese. Ag adeço em
especial ao An ónio Ramalho, à So ia e ao Tomás C uz, à Ma ilde Lobão e ao Luís Al im.
Ao P o esso Nuno Fe o. Pelo cu so de iloso ia medie al, e po odos os ou os cu sos. Pelas
discussões sob e a in e acção en e a libe dade e g aça, e po odas as ou as discussões.
Pelos e-mails sob e libe dade e signi icado, e po odos os ou os e-mails. E, sob e udo, pela
eno me paciência e ainda maio disponibilidade.
Ao P o esso Má io Jo ge.
iii
Resumo
Es e es udo enquad a-se no e eno das an opologias que si uam a de e minação essencial
do humano na elação com qualque coisa absolu a (supe la i a, insupe á el) e êem cada
se humano como essencialmen e o p ojec o de qualque coisa dessa na u eza.
Conside a-se em pa icula a dou ina augus iana da imago Dei e p ocu a-se iden i ica
a) as suas múl iplas ‘ on es’, b) a sua es u u a o mal, c) as suas componen es e a o ma
como se a iculam en e si – mui o em especial, a ligação en e imago Dei,capaci as Dei
eno i ia Dei, e ainda d) o complexo de enómenos in ocados po San o Agos inho pa a
sus en a a sua ese sob e a imago Dei como de e minação essencial do humano. Também
se p ocu a mos a como a dou ina da imago Dei é an o uma ese ‘ eológica’ quan o uma
ese pu amen e ‘imanen e’ sob e a o ma como cada se humano es á ma cado po uma
elação cons i u i a e pe manen e com a p ojecção o mal de um supe la i o absolu o.
Na sequência des a análise p elimina , p es a-se especial a enção a dois pon os. Po um
lado, es uda-se a elação en e a dou ina da imago Dei e a análise augus iniana do enómeno
do sabe não decla ado – que pe mi e que a no i ia Dei possa pa ece udo menos uma no ícia
que semp e emos e que semp e es á decisi amen e a molda a o ma como somos. Po ou o
lado, oca-se a e e sibilidade da imago Dei, em i ude da qual es a assume duas o mas:
a) a de uma ensão au ocen ada pa a a supe la i ação de cada se humano – em que o
supe la i o es á ao se iço de quem o p ocu a – e b) a de uma secunda ização de cada se
humano ela i amen e ao supe la i o que p ocu a – quando o descob imen o des e úl imo
assume um ca ác e al que in iabiliza a sua edução a um meio ou ins umen o de quem o
p ocu a e ans o ma adicalmen e a sua p óp ia au ocomp eensão.
Pala as-cha e: imago Dei,no i ia Dei, con usão, e e sibilidade
i

Abs ac
This s udy lies wi hin he ield o he an h opologies which si ua e he human being’s es-
sen ial de e mina ion in he ela ion wi h some hing absolu e (supe la i e, insu moun able)
and unde s and each human being essen ially as he p ojec o some hing o ha na u e.
We conside in pa icula he augus inian doc ine o he imago Dei and y o iden i y a)
i s mul iple ‘sou ces’, b) i s o mal s uc u e, c) i s componen s and he way hey a icula e
– especially, he connec ion be ween imago Dei,capaci as Dei and no i ia Dei, and d) he
complex o phenomena in oked by Augus ine o hold his hesis abou he imago Dei as he
essen ial de e mina ion o he human. We also y o show how he doc ine o he imago
Dei is a ‘ heological’ hesis as much as a pu ely ‘immanen ’ hesis abou he way each human
being is coined by a cons i u i e and pe manen ela ion wi h he o mal p ojec ion o an
absolu e supe la i e.
In he sequence o such a p elimina y analysis, we pay special a en ion o wo poin s.
On he one hand, we s udy he ela ion be ween he doc ine o he imago Dei and he
augus inian analysis o he phenomenon o he undecla ed knowledge – which allows he
no i ia Dei o look like e e y hing excep an idea we always ha e and which is c ucially
coining he way we a e. On he o he hand, we ocus he e e sibili y o he imago Dei, as a
esul o which i assumes wo o ms: a) one o a sel -cen e ed ension o he maximiza ion o
each human being – in which case he supe la i e is a ool in he se ice o he one who seeks
i – and b) one o a subo dina ion o each human being o he supe la i e he seeks – when
he disco e y o he la e assumes such a cha ac e ha p e en s i s educ ion o a means
o ins umen o he one who seeks i and adically ans o ms his own sel -unde s anding.
Keywo ds: imago Dei;no i ia Dei, con usion, e e sibili y
Ab e ia u as dos í ulos das ob as de San o Agos inho
Anno a iones in Job Anno . in Job
Con essionum Con .
Con a Academicos Con . Acad.
Con a Iulianum hae esis Pelagianae de enso em Con . Iu.
De Bea a Vi a De Bea.
De Ci i a e Dei con a Paganos De Ci .
De Co ep ione e G a ia De Co .
De Di e sis Quaes iones Oc agin a T ibus De Di . Quaes .
De Doc ina Ch is iana De Doc.
De Genesi ad Li e am De Gen. ad Li .
De Genesi ad Li e am Impe ec us Libe De Gen. Imp.
De Genesi Con a Manichaeos De Gen. Man.
De G a ia Ch is i e de Pecca o O iginali De G a . Ch is.
De G a ia e Libe o A bi io De G a . e Lib.
De Libe o A bi io De Lib.
De Magis o De Mag.
De Mo ibus Ecclesiae Ca holicae e De Mo ibus Manichaeo um De Mo .
De Na u a e G a ia De Na .
De O dine De O d.
De Quan i a e Animae De Quan .
De Spi i u e Li e a De Spi.
De T ini a e De T in.
De Ve a Religione De Ve . Rel.
Enna a iones in Psalmos In Ps.
In Epis olam Ioannis ad Pa hos In Epis . Io.
In E angelium Ioannis In E ang. Io.
Quaes ionum in hep a euchum Ques . Hep.
Re ac a ionum Re ac .
Se mones Se mo.
Soliloquio um Solil.
i
Índice
Ag adecimen os iii
Resumo i
Abs ac
Ab e ia u as dos í ulos das ob as de San o Agos inho i
In odução 1
1 Dou ina augus iniana da imago Dei 7
1.1 Quad o eológico .................................. 7
1.1.1 Cons ução da noção o mal de imagem de Deus ............. 7
1.1.2 Consequências na iden idade do homem .................. 25
1.2 Quad o es i amen e imanen e .......................... 32
1.2.1 Rele ância de um quad o imanen e .................... 32
1.2.2 Consequências na iden idade do homem .................. 36
2 Con usão em elação à imago Dei 41
2.1 P ocu a de mais – o pe cu so de Con issões X.................. 41
2.1.1 A capacidade de mais ............................ 41
2.1.2 A ampli ude da memó ia .......................... 45
2.1.3 O enómeno da con usão .......................... 53
2.2 No ícia de supe la i o ............................... 60
2.2.1 Von ade de elicidade ............................ 61
2.2.2 Mul iplicidade de supe la i os ....................... 72
2.2.3 Unicidade dos supe la i os ......................... 75
2.2.4 Co espondência ............................... 78
2.2.5 A in luência da no ícia ........................... 82
2.3 O obscu ecimen o da no ícia ............................ 90
2.3.1 O ac o do obscu ecimen o ......................... 90
ii
2.3.2 Con usão em elação à p óp ia iden idade ................. 92
2.3.3 Fenómeno do mundo ............................100
2.3.4 Equações ...................................109
3 Re e sibilidade da imago Dei 113
3.1 A noção de e e sibilidade .............................114
3.2 A cha e pa a a e e sibilidade ...........................125
3.2.1 Ap esen ação .................................126
3.2.2 P op iedades .................................135
3.2.3 Consequências ................................140
4 Re o ma da imago Dei 147
4.1 Ainda a con usão ..................................147
4.2 O p ocesso da e o ma ...............................149
Bibliog a ia 168
iii
Capí ulo 1
Dou ina augus iniana da imago Dei
Nes e capí ulo, ap esen amos os aspec os essenciais da dou ina augus iniana da imagem
de Deus. Es a dou ina em em g ande pa e uma aiz eológica: en e os seus enunciados,
encon am-se elemen os undamen ados numa e elação di ina. Po isso, numa p imei a
secção, pa a ap esen a mos a dou ina de o ma in eg al, assumimos um quad o eológico.
Is o que dize que, al como San o Agos inho, acei amos a alidade do c is ianismo. Des a
o ma, enunciados ais como o de que Deus exis e ou o de que Deus se e elou aos homens
em Jesus C is o ão se p essupos os na p imei a secção.
Numa segunda secção, a e iguamos se a dou ina da imagem de Deus e á ele ância
pa a um pon o de is a que se abs aia dos elemen os eológicos. Is o é, explo amos a
possibilidade de a dou ina e e ida e pe inência mesmo se se suspende em os seus aços
especi icamen e c is ãos.
1.1 Quad o eológico
1.1.1 Cons ução da noção o mal de imagem de Deus
Nes a subsecção, analisamos a o ma como es á cons uída a noção o mal da imagem de
Deus em San o Agos inho. Uma al cons ução é ei a po Agos inho a a és de sucessi os
passos de enquad amen o. Ou seja, a noção de imagem de Deus é es abelecida po um
es ei amen o de uma egião de base. Assim, começa po se ixada a egião mais ge al;
depois dis o, a egião ai sendo sujei a a sucessi as con acções. Ou, pa a usa ou os
e mos, uma po uma, ão sendo ac escen adas de e minações que eduzem a á ea ocupada
den o dessa egião mais as a. Des a manei a, aquilo que es á em causa ai icando mais e
mais ci cunsc i o, i.e., mais e mais de inido.
A egião ge al de que se pa e pa a p ocede ao enquad amen o desc i o co esponde à
noção de imagem em sen ido la o. Es a noção, po an o, não diz especi icamen e espei o à
imagem de Deus, mas sim a uma qualque imagem. Os p imei os passos do enquad amen o
7

p ocu am ci cunsc e e es a noção de imagem em sen ido la o. Fei o is o, há uma sé ie
de passos adicionais pa a es abelece a noção de imagem de Deus. Assim, es a úl ima é
es abelecida a a és de passos de con acção omados den o da egião da noção de imagem
em sen ido la o. Podemos en ão dize que o enquad amen o global do p ocesso em como
que duas pa es: uma p imei a, em que se p ocu a ci cunsc e e a noção de imagem em
sen ido la o; e uma segunda, em que, den o da egião assim ci cunsc i a, se p ocu a, po
sua ez, ci cunsc e e a noção de imagem de Deus.
Os passos de con acção usados no enquad amen o global êm po base duas on es:
uma on e ilosó ica e uma on e eológica. Da p imei a esul a uma ixação p elimina das
de e minações essenciais de uma imagem – is o é, daquilo que az uma qualque imagem
enquan o al. A on e eológica, em con as e, pe mi e es abelece elemen os de con acção
a pa i de uma de e minada comp eensão da iden idade de Deus. Es a comp eensão, em
San o Agos inho, an o pode es a assen e num pa imónio de con icções dogmá icas, como
pode basea -se di ec amen e nas Sag adas Esc i u as.
Pelo que oi expos o, pode ia pa ece que a ci cunsc ição da noção de imagem em sen ido
la o em uma base exclusi amen e ilosó ica, enquan o a ci cunsc ição da noção de imagem
de Deus em exclusi amen e da on e eológica. Con udo, não é is o que acon ece. Na
e dade, qualque uma das noções é moldada po elemen os que p o êm de ambas as on es.
Assim, não só o enquad amen o da noção de imagem em sen ido la o ambém eco e à on e
eológica,3como o enquad amen o da noção de imagem de Deus ambém eco e à on e
ilosó ica. T a a-se, po an o, de um enquad amen o global duplamen e complexo: po um
lado, en ol e duas noções dis in as; po ou o lado, cada uma delas es á baseada em duas
on es he e ogéneas.
Indicámos que o enquad amen o é ei o a a és de uma sucessão de passos de con acção
de egião global. Em pa icula , a sucessão de passos seguida na cons ução da noção de
imagem de Deus é ei a den o da egião – en e an o já con aída – da noção de imagem em
sen ido la o. Toda ia, nes a ci cunsc ição p og essi a, a noção de imagem de Deus nunca
ica comple amen e ci cunsc i a. Di o de ou o modo, em ez de acon ece que a noção
é es ei ada de al manei a que acaba eduzida a um pon o pe ei amen e de e minado e
uní oco, acon ece pelo con á io que con inua semp e a ocupa uma ce a á ea. Is o sig-
ni ica que a noção de imagem de Deus nunca ica o almen e de inida: man ém semp e uma
ma gem de subsis ência de inde inição.
3Is o e i ica-se de al o ma que es e enquad amen o p ocu a e igi uma noção global de imagem in ei amen e
compa í el com os enunciados da esc i u a e da e lexão eológica.
8
Ao ca ac e iza mos a cons ução da noção de imagem de Deus, emos eco ido à ideia de
uma edução de uma egião, i.e., de uma á ea. Es a ideia, con udo, não desc e e cabalmen e
o que es á em causa nessa cons ução. Is o de e-se ao ac o de que a ideia de uma á ea
ci cunsc i a é compa í el com a possibilidade de a de e minação que a de ine se conhecida e
delimi ada. De aco do com essa ca ac e ização, po an o, as sucessi as ases do p ocesso de
enquad amen o pode iam co esponde a de e minações pe ei amen e comp eendidas (de
al modo que a inde e minação e ia apenas que e com a localização mais p ecisa den o
da á ea já ci cunsc i a).
Pelo con á io, o p ocesso em causa no i ine á io augus iniano de ixação da imagem de
Deus ca ac e iza-se pela ci cuns ância de cada uma das suas ases se aduzi em qualque
coisa como uma incógni a. Que dize , cada uma das ases do enquad amen o global é al
que, em úl ima análise, não se sabe bem a que é que ela co esponde. Ou, mais p ecisamen e,
ica o almen e po encon a a de e minação conc e a pa a que cada uma dessas ases
eme e. Is o implica, po an o, que cada uma das ases equi ale a uma de e minação o mal.
Em cada con acção, dá-se uma des o malização da noção o mal an e io . Po ou as
pala as, cada um dos passos de con acção diminui o ca ác e incógni o do que es a a em
causa na ase an e io .
A cons ução da noção de imagem de Deus consis e, po an o, numa sequência de des-
o malizações. Começa-se po uma noção mui o o mal e, a a és de sucessi os ac éscimos
de de e minações, ob êm-se noções cada ez menos o mais. Nes e p ocesso, po ém, nunca
se chega a uma noção comple amen e não o mal. Is o é, nunca se ob ém um enunciado al
que pe mi a comp eende exac amen e e em plena conc e ude que é que es á em causa. Di o
ainda de ou a manei a, ica semp e po de e mina a que é que co esponde o enunciado
ob ido. Assim, embo a á so endo sucessi as des o malizações, a noção de imagem de Deus
nunca deixa de se o mal. É po is o que se pode ala na cons ução da noção o mal da
imagem de Deus.
Comecemos, en ão, o p ocesso de cons ução.4Conside emos a noção mais ge al de ima-
gem em sen ido la o. Segundo Agos inho, a ideia de imagem implica a ideia de semelhança,
i.e., de pa ecença. O que is o que dize é que se há imagem, há necessa iamen e semelhança.
Agos inho discu e es e assun o no capí ulo XVI do De Genesi ad Li e am Impe ec us Libe ,
onde a i ma:
4Quando alamos do p ocesso de cons ução, es amos a ala de um conjun o de elemen os e e idos aqui e ali no
co pus augus iniano, cujo nexo es amos a en a econs i ui . Em úl ima análise, não há um único ex o de San o
Agos inho em que a sequência aqui em causa seja ap esen ada do p incípio ao im. T a a-se aqui de en a mon a
al sequência – ou a o ma como encaixam en e si as di e en es peças que nela desempenham um papel signi ica i o.
9
“Omnis imago similis es ei cuius imago es ”.5
Assim, se um B é imagem de um A, necessa iamen e A e B são semelhan es.6
Imagem, po an o, en ol e necessa iamen e semelhança. Con udo, semelhança não en-
ol e necessa iamen e imagem. Se é semp e e dade que, no caso de B se imagem de
A, há uma semelhança en e A e B, nem semp e é e dade que, no caso de A e B se em
semelhan es, há uma elação de imagem en e os dois:
“(...) nec amen omne quod simile es alicui, e iam imago es eius”.7
Po conseguin e, não bas a que haja semelhança pa a ha e imagem: a noção de imagem
em qualque coisa mais que a noção de semelhança.
Na e dade, pa a ha e imagem, é p eciso que haja uma semelhança de i ada. Se A e
B são semelhan es, B só é imagem de A se a semelhança en e eles esul a do ac o de B
de i a de A.8Nesse caso, é po que B de i a de A que exis e semelhança en e A e B. Pa a
além disso, se B é imagem de A – is o é, se B de i a de A, de al manei a que A e B são
semelhan es –, en ão B exp ime A:
“Imago enim unc es , cum de aliquo exp imi u .”9
Agos inho ap esen a como exemplo de imagem a elação que se e i ica en e um homem
e o seu ilho:
“Filius hominis habe imaginem pa is sui (...)”.10
Is o pe mi e-nos conclui que um B é imagem de um A quando se e i ica, po um lado, uma
dependência en e A e B – mais p ecisamen e, a dependência em i ude da qual B só é a
pa i de A – e, po ou o lado, a ci cuns ância de essa dependência se acompanhada po
uma semelhança en e o B que on ologicamen e depende de A e o A de que on ologicamen e
depende.
Conside emos o que se passa en e o c iado e as c ia u as. Deus, c iado , c iou odas
as c ia u as. Po isso, odas as c ia u as de i am do c iado . Es a de i ação é al que
5De Gen. Imp. XVI, 57. C . ambém De Di . Quaes . 74, Quaes . hep. V, 4.
6A noção de semelhança não indica a exis ência de p imazia de nenhum dos e mos a que se aplica: quando se
a i ma que A é semelhan e a B, es á a dize -se exac amen e o mesmo que quando se a i ma que B é semelhan e a A.
Assim, as p oposições ‘A é semelhan e a B’, ‘B é semelhan e a A’ e ‘A e B são semelhan es’ são odas equi alen es.
7De Gen. Imp. XVI, 57. C . no amen e De Di . Quaes . 74, Quaes . hep. V, 4.
8A noção de imagem, po an o, ao con á io da noção de semelhança, indica a exis ência de p imazia de um dos
e mos em elação ao ou o. Com e ei o, se B é imagem de A, A em p imazia sob e B. A é o iginal, p imá io,
enquan o B é de i ado, secundá io. Des a o ma, ao con á io do que acon ecia com a noção de semelhança, não é
equi alen e a i ma que A é imagem de B e a i ma que B é imagem de A.
9De Gen. Imp. XVI, 57. C . ainda GILSON, É ienne, In oduc ion à l’É ude de Sain Augus in, 2.aed., V in,
Pa is, 1943, p. 277, SULLIVAN, John Edwa d, The Image o God – The Doc ine o S . Augus ine and i s In luence,
The P io y P ess, Dubuque (Iowa), 1963, pp. 15 e 16.
10Se mo. 9, no9.
10
en ol e semelhança. Po ou as pala as, as c ia u as, pelo ac o de de i a em de Deus,
são semelhan es a Deus.11 O que is o que dize , po an o, é que exis e uma semelhança
de i ada en e Deus, po um lado, e as c ia u as, po ou o. Mas nem po isso se conclui que
odas as c ia u as são imagem de Deus. Realmen e, não bas a ha e semelhança de i ada
pa a ha e imagem: a noção de imagem em qualque coisa mais que a noção de semelhança
de i ada.
Que elemen o adicional é esse? Pa a ha e imagem, é p eciso que a semelhança esul an e
de de i ação seja supe la i a. Ou seja, é p eciso que a semelhança seja a maio possí el. É
is o que Agos inho põe em e idência no seguin e echo do De T ini a e:
“Non sane omne quod in c ea u is aliquo modo simile es Deo, e iam eius imago dicenda es ; sed
illa sola qua supe io ipse solus es . Ea quippe de illo p o sus exp imi u , in e quam e ipsum
nulla in e iec a na u a es .”12
As exp essões decisi as aqui são aquelas que êm que e com a ideia de uma supe la i i-
dade absolu a. Uma delas é p o sus exp imi u . Com is o, Agos inho es á a indica que
só é imagem aquela semelhança que exp ime absolu amen e o p o ó ipo. Duas ou as ex-
p essões decisi as são qua supe io ipse solus ein e quam e ipsum nulla in e iec a na u a
es .13 A a és delas, Agos inho de ende que só é imagem a ealidade que se ca ac e iza pela
p op iedade de se , en e odas as ealidades, a mais semelhan e ao p o ó ipo.
O echo ci ado conside a especi icamen e o caso em que o p o ó ipo é Deus. Fica cla o
que, embo a odas as c ia u as sejam semelhan es a Deus – po que de i adas de Deus –, há
c ia u as que são mais semelhan es a Deus do que ou as. Di o de ou o modo, nem odas
as c ia u as êm o mesmo g au de semelhança a Deus. En e os á ios g aus de semelhança,
só o g au máximo – a semelhança absolu amen e inul apassá el – c ia condições pa a que
uma c ia u a seja conside ada imagem de Deus. Na e dade, de aco do com o echo, a
posse do g au máximo de semelhança é uma condição necessá ia e su icien e pa a que uma
c ia u a seja imagem de Deus. Po an o, uma c ia u a é imagem de Deus se e só se, en e
odas as c ia u as, o a mais semelhan e a Deus.
Os pa ág a os an e io es pe mi em-nos de ini o malmen e a imagem em sen ido la o da
seguin e o ma: a imagem consis e numa semelhança que, po um lado, esul a de de i ação
e, po ou o lado, é maximamen e semelhan e.14 Ou seja, é imagem de um A a ealidade
11Veja-se GILSON, É ienne, In oduc ion à l’É ude de Sain Augus in, p. 275.
12De T in., XI, V, 8.
13A noção de na u eza (na u a) se á explo ada mais adian e.
14O echo ci ado é, assim, um exemplo de um caso em que um con eúdo eológico con ibui pa a a ci cunsc ição da
noção de imagem em sen ido la o. Com e ei o, po um lado, a a-se de um echo que se p onuncia explici amen e
sob e Deus. Po ou o lado, o echo é gene alizá el pa a as imagens em ge al. Que dize , embo a o echo
11
dis in a de A que é supe la i amen e p óxima de A po de i ação. Di o ainda po ou as
pala as, o que es á em causa na noção o mal de imagem é uma al e idade, ela i amen e a
uma qualque de e minação A, al que a de e minação di e en e de A p o ém, po um lado,
de A e en ol e, po ou o lado, o máximo de igualdade possí el em elação a A.15
Mas is o não é udo. Ainda a p opósi o da noção de imagem em sen ido la o, há um ou o
ac o , não menos decisi o, que de e se omado em con a, já que desempenha um papel
c ucial nas análises de San o Agos inho. Es e ac o em que e com o seguin e: a noção
de imagem aba ca dois ipos di e en es. Assim, em ez de acon ece que a noção de imagem
em sen ido la o diga espei o a uma única modalidade de imagem, acon ece que diz espei o
a duas modalidades dis in as.16 Agos inho dis ingue e classi ica as duas modalidades no
Se mão IX:
“Filius hominis habe imaginem pa is sui, e hoc es quod pa e eius, quia homo es sicu pa e
eius. In speculo au em imago ua non hoc es quod u. Ali e es enim imago ua in ilio, ali e
in speculo. In ilio es imago ua secundum aequali a em subs an iae, in speculo au em quan um
longe es a subs an ia! E amen es quaedam imago ua, quam is non alis qualis in ilio uo
secundum subs an iam.”17
Nes a passagem, discu e-se a di e ença en e a imagem de um homem que há num ilho seu
e a imagem do mesmo homem que há num espelho. Dois pa es de exp essões de em se
sublinhados: o p imei o é compos o po hoc es quod esecundum aequali a em subs an iae;
o segundo é compos o po non hoc es quod elonge a subs an ia. Cada um dos pa es es á
associado a uma modalidade de imagem.
A p imei a modalidade es á ma cada po igualdade em elação à o igem (hoc es quod).
Es a igualdade, con udo, não em que e com uma igualdade global, mas especi icamen e
com uma igualdade quan o à subs ância (secundum aequali a em subs an iae). Di o de ou a
manei a, a imagem de p imei a modalidade ca ac e iza-se pela p op iedade de possui , al
como o p o ó ipo, uma subs ância. O ilho de um homem é, em elação a es e úl imo,
conside e o caso especí ico de imagem que em Deus como p o ó ipo, es á com isso a ap esen a uma p op iedade
de uma qualque imagem. Na e dade, como ica á cla o, a de inição de imagem como semelhança supe la i a es á
undamen almen e assen e numa aiz eológica.
15De emos sublinha que es a é uma noção o mal. O A que es á em causa pode se des o malizado num qualque
objec o – e, po isso, não necessa iamen e no objec o co esponden e a Deus. Embo a Agos inho não ap esen e a
noção de imagem nes es moldes o mais – já que, em ez de a de ini pa a um A o mal, a aplica di ec amen e a um
A des o malizado em Deus –, é es a a noção o mal que Agos inho es á a usa quando desc e e a imagem de Deus.
Po ou o lado, a noção de imagem de Deus que assim ganha con o nos é o mal po que, ao de e mina que essa
imagem em as ca ac e ís icas que p ocu ámos inca , deixa o almen e po ixa que é que co esponde a isso.
16Es e no o ac o é quali a i amen e di e en e dos ac o es conside ados a é aqui. A é es e momen o, odos os ac-
o es in oduzidos co espondiam a con acções da noção de imagem. O ac o ago a conside ado, pelo con á io, em
ez de ci cunsc e e a p óp ia noção de imagem, in oduz uma di e enciação de duas modalidades di e en es den o
do acon ecimen o da imagem. T a a-se, po an o, de um elemen o de subdi isão da imagem, e não de con acção.
17Se mo. 9, no9. Sob e a di e ença en e as duas modalidades, eja-se ainda ibi. LII, VI, 17 e Ques . hep. V, 4.
12

imagem de p imei a modalidade. Nes e exemplo, de ac o, pode ala -se em igualdade
quan o à subs ância: não po que o pai e o ilho sejam idên icos – que não são –, mas po que
êm ambos uma subs ância. E ec i amen e, são ambos se es humanos.
A segunda modalidade de imagem es á ma cada po di e ença em elação à o igem (non
hoc es quod). Tal como na p imei a modalidade, a di e ença aqui em que e com a
subs ância. Ou seja, a imagem de segunda modalidade es á longe da subs ância (longe a
subs an ia) do p o ó ipo. Na e dade, não em nada da subs ância do p o ó ipo. É o caso da
imagem de um homem no espelho. Nes e caso, ealmen e, não há igualdade de subs ância:
o homem é uma subs ância – um se humano –, enquan o a igu a no espelho não é nada
disso.
Toda ia, segundo o echo, a imagem de segunda modalidade não é só di e en e quan o à
subs ância do p o ó ipo: é, em pa icula , in e io a essa subs ância – no sen ido em que não
é subs ância nenhuma. No exemplo dado, es a in e io idade conc e iza-se na dis ância en e
a ausência de subs ância da igu a no espelho e a subs ância do homem. No im do echo,
Agos inho no a que a imagem da segunda modalidade, embo a seja in e io ao p o ó ipo,
não deixa de se imagem ( amen es quaedam imago). Des e modo, apesa de não se da
mesma subs ância que o p o ó ipo – pelo que não é al e qual ( alis qualis) a imagem de
p imei a modalidade –, é, ainda assim, imagem desse p o ó ipo.18
Conside emos ago a o caso em que o p o ó ipo da imagem é Deus. Es e caso, po se
uma pa icula ização do caso ge al, admi e, al como es e úl imo, duas modalidades de
imagem.19 Agos inho baseia-se nas esc i u as pa a ap esen a a iden idade de cada uma
das modalidades em causa. A p imei a das modalidades de imagem de Deus equi ale ao
Ve bo de Deus, enca nado em Jesus C is o.20 C is o é, po an o, imagem de Deus igual a
18Es a bipa ição de modalidades de imagem le an a uma di iculdade apa en e. Vimos que a imagem en ol e
a noção de supe la i idade. Di o de ou a o ma, uma de e minação é imagem de um p o ó ipo se e só se o a
de e minação mais semelhan e a ele po de i ação. O a, a exis ência da bipa ição de modalidades e e ida pa ece
opo -se a es a de inição. De ac o, como pode a segunda modalidade de imagem espei a a de inição ap esen ada,
se a imagem de p imei a modalidade, sendo subs ancialmen e igual ao p o ó ipo, é necessa iamen e mais semelhan e
a ele do que aquela? A espos a em que e com uma dico omização dos domínios. Ao p opo duas modalidades
de imagem, Agos inho es á com isso a c ia dois domínios: um domínio das ealidades subs ancialmen e iguais ao
p o ó ipo e um domínio das ealidades subs ancialmen e di e en es do p o ó ipo. A imagem de segunda modalidade
não iola o c i é io de supe la i idade, uma ez que es e c i é io se aplica exclusi amen e ao domínio em causa.
Is o que dize que as semelhanças den o do domínio das ealidades subs ancialmen e di e en es do p o ó ipo não
êm de se compa adas com as semelhanças den o do domínio das ealidades subs ancialmen e iguais ao p o ó ipo.
Assim, uma ealidade subs ancialmen e di e en e do p o ó ipo se á imagem de segunda modalidade se (e só se), nesse
domínio, o a ealidade mais semelhan e ao p o ó ipo po de i ação.
19Com a di e ença de que aqui o aspec o decisi o não em que e com o con as e en e se e não se uma
subs ância. T a a-se, pelo con á io, da di e ença en e a subs ância ini a e a o ma sup ema de se que es á em
causa no concei o eológico de Deus.
20Como exemplos de undamen ação esc i u ís ica pa a C is o como imagem de Deus, con am-se, pelo menos: Heb
1, 3; 2 Co , 4, 4; Col 1, 15.
13
Deus. Segundo Agos inho, podemos a i ma que C is o é imagem e semelhança do Pai.21
Em p imei o luga , é imagem po que, po um lado, oi ge ado pelo Pai e, po ou o lado, é
igual ao Pai.22 Em segundo luga , C is o é semelhança: não apenas a semelhança já ine en e
à noção de imagem, mas ele é a p óp ia Semelhança. Que dize , é po ele que odas as
ealidades semelhan es a Deus são semelhan es a Deus.23
A segunda modalidade da imagem de Deus e e ida po Agos inho é o homem.24 Es a
modalidade, como indicámos, en ol e uma diminuição em elação à on e. Logo, o homem
é imagem de Deus, mas de al manei a que é in e io a ele, es á à dis ância dele. Assim,
enquan o C is o é imagem de Deus igual a Deus, o homem é uma imagem desigual (impa
imago).25
Segundo Agos inho, é com o in ui o de dis ingui as duas modalidades de imagem que a
esc i u a e e e que o homem oi ei o à imagem e semelhança de Deus.
“Sed quia non omnimodo aequalis ieba illa imago Dei, amquam non ab illo na a, sed ab eo c ea a,
huius ei signi icandae causa i a imago es u ad imaginem si , id es non aequa u pa ili a e, sed
quadam simili udine accedi . (...) p op e impa em u diximus simili udinem dic us es homo ad
imaginem”.26
Di o po ou os e mos, Agos inho sus en a que o objec i o da exp essão esc i u ís ica ad
21C ., po exemplo, De Ve . Rel. XLIII, 81.
22C ., po exemplo, De Di . Quaes . 74.
23Sob e es e assun o, eja-se De Gen. Imp. XVI, 57. De emos no a que es e a ibu o – a Semelhança – só
acon ece no caso de Jesus C is o, e não acon ece em ge al nas imagens de p imei a modalidade.
24Além de Gen. 1, 26, á ios são os passos da esc i u a em que Agos inho se baseia pa a a a o homem como
imagem de Deus: Salmo XXXVIII, 7 (c . De T in. XIV, IV, 6, In Ps. 38), Salmo XLVIII, 13 (c . De Ci . XII, 24,
De Gen. ad Li . VI, 12, 21 ss., De T in. XII, XI, 16, In Ps. 48), Col. 3, 9-10 (c . De Gen. ad Li . III, XX, 30, De
T in. VII, VI, 12, ibi. XI, I, 1, ibi. XII, VII, 12, XIV, XVI, 22 ss.) e 1 Co 11, 7 (c . De Gen. ad Li . III, XVII, 34,
De T in. VII, VI, 12, ibi. XII, VII, 9).
25C . De T in. IX, II, 2, ibi. X, XII, 19. A igualdade en e Deus Pai e Jesus C is o é adicalmen e di e en e da
igualdade en e um se humano e o seu ilho. Nes e úl imo caso, a única igualdade que há é a de subs ância (são
ambos se es humanos); em pa icula , não há uma iden idade en e ambos. Em cons as e, na elação en e Deus
Pai e Jesus C is o, há jus amen e uma iden idade en e ambos.
Es e pon o é impo an e po que, de ce a o ma, edesenha o que imos a é aqui – e is o po duas azões. Em
p imei o luga , como no ámos, os ex os de Agos inho suge em co espondência en e, po um lado, as duas moda-
lidades da imagem (aquela que en ol e e aquela que não en ol e igualdade quan o à subs ância) e, po ou o lado,
a ci cuns ância de an o C is o como o homem se em imagem. Mas o que acabamos de e sob e a peculia medida
em que C is o é imagem modi ica essa co espondência. Pois embo a C is o seja imagem secundum aequali a em
subs an iae, não é uma ou a subs ância pa a lá da do Pai (e, nesse sen ido, não é imagem da mesma o ma que um
ilho de um homem é imagem do seu pai). Com e ei o, C is o é imagem secundum aequali a em subs an iae, mas de
al o ma que é ambém ele Deus. Resul a daqui que, embo a o homem dis e de Deus a um pon o al que é, em
elação a ele, o que uma imagem num espelho é em elação a uma subs ância, aquilo que az essa dis ância não é o
ac o de o homem não se uma subs ância, mas sim a ex ao diná ia di e ença de na u eza en e a subs ância de um
homem e a subs ância de Deus.
Em segundo luga , o que expusemos nas páginas an e io es pode ia e suge ido que, dado que C is o es á mais
p óximo do Pai do que o se humano, es e úl imo ocupa ia o e cei o luga na hie a quia on ológica. Que dize :
em p imei o luga es a ia Deus Pai, em segundo luga es a ia a imagem com igualdade de subs ância (C is o) e,
inalmen e, em e cei o luga es a ia a imagem sem igualdade de subs ância (o se humano). Acon ece no caso de
Deus que a imagem com igualdade de subs ância é idên ica à de e minação o iginal. Isso az que o p imei o e o
segundo luga es e e idos sejam um só (o luga de Deus), o que que dize que o se humano ocupa o e dadei o
segundo luga – is o é, o luga imedia amen e a segui a Deus.
26De T in. VII, VI, 12. C . ainda Ques . hep. V, 4 e Se mo. 52, VI, no17.
14
imaginem e simili udinem Dei é sublinha que a imagem de Deus co esponden e ao homem
é uma imagem desigual.
Tal como acon ecia no caso ge al, con udo, a imagem de segunda modalidade, embo a
não seja igual ao p o ó ipo, é, ainda assim, imagem:
“Sun enim qui i a dis inguun u Imaginem elin esse Filium, hominem e o non imaginem sed
ad imaginem. Re elli au em eos Apos olus dicens: Vi quidem non debe ela e capu cum si
imago e glo ia Dei. Non dixi : ‘Ad imaginem’, sed imago.”27
Des a o ma, não acon ece que o homem seja simplesmen e ‘à imagem’, como se o se
‘imagem’ es i esse ese ado a C is o. Pelo con á io, segundo Agos inho, acon ece que o
homem, embo a imagem desigual – e po isso diminuída, dis an e, con aída –, não deixa de
se imagem (impa imago, a amen imago).28 Assim, e uma ez que oda a imagem en ol e
semelhança, o homem, sendo imagem, é ambém ele semelhança.29
O homem, po an o, é imagem e semelhança de Deus. Toda ia, é uma imagem e uma
semelhança diminuídas em elação à imagem e semelhança que ca ac e izam Jesus C is o.
A exp essão ‘ad imaginem e simili udinem’ sublinha es a diminuição: uma diminuição em
elação àquele que, sendo ambém imagem e semelhança, não é ad imaginem e simili u-
dinem. Com e ei o, C is o é só imagem: não é à imagem ( an ummodo imago es , non ad
imaginem).30 O homem, po con as e, é imagem à imagem (imago ad imaginem).31 Po
conseguin e, a noção de imago, sem mais, exp ime uma imagem de p imei a modalidade –
i.e., uma imagem subs ancialmen e igual ao p o ó ipo –, enquan o a noção imago ad imagi-
nem exp ime uma imagem de segunda modalidade – i.e., uma imagem que não é o mesmo
que aquilo de que é imagem, uma imagem longe a subs an ia.32
Tendo em con a o que imos, podemos conclui que o homem es á simul aneamen e
27De T in. VII, VI, 12, aludindo a 1 Co , 11, 7. C . ainda De Gen. Imp. XVI, 61.
28C . De T in. IX, II, 2.
29Com e ei o, Agos inho não é da opinião de que a semelhança en e o homem e Deus seja qualque coisa que
p ecise de se alcançada:
“E simili udinem, cum supe ius dic um esse : Faciamus hominem ad imaginem e simili udinem nos am;
quibusdam isum es simili udinem aliquid amplius esse quam imaginem, quod homini e o mando pe Ch-
is i g a iam pos ea se a e u . Mi o au em si non p op e ea pos ea imaginem solam olui commemo a e,
quia ubi imago, con inuo e simili udo es .” (Quaes . heb. V, 4).
Pa a Agos inho, po an o, o homem é semp e já semelhança, e is o pelo ac o de se imagem. Sob e es e assun o,
eja-se ainda De Gen. Imp. XVI, 57.
30Re ac . I, 26.
31De Gen. Imp. XVI, 61.
32Jesus C is o é a Simili ude à qual (ad quam) oi ei o o homem (Ibidem). Assim, quando se a i ma que o homem
éimago ad imaginem, o que se es á a a i ma é que o homem é imagem de Deus a a és de (ou em, ou po ) C is o.
Des a o ma, no caso do p o ó ipo Deus, a segunda modalidade de imagem es á apoiada na p imei a – que, po sua
ez, não es á apoiada senão no p o ó ipo. Sob e a di e ença en e, po um lado, C is o como imagem e, po ou o,
o homem como imagem, eja-se, além de De Gen. Imp. XVI, 61, ambém De T in. VII, VI, 12, ibi. IX, II, 2, ibi.
IX, XI, 16, De Di . Quaes . 51, no4, Re ac . I, 26, Se mo. 9, no9, ibi. LII, VI, 17.
15
a as ado e p óximo em elação a Deus. O homem es á a as ado po que o ma uma imagem
desigual. Es a desigualdade, como imos, aduz-se numa in e io idade, numa dis ância,
num se ad imaginem e simili udinem. Assim, enquan o é à imagem, o homem es á ma cado
po dissimili ude. Po ou o lado, apesa do a as amen o, não deixa de se imagem. Po
isso, es á ine en emen e p óximo de Deus. Que dize , enquan o é imagem, es á ma cado
não apenas po simili ude, mas po um g au supe la i o de simili ude.33 Em esumo, sendo
imagem à imagem, o homem an o es á a as ado como es á p óximo de Deus.
Segundo es a desc ição eológica, o homem ocupa um luga de des aque en e odas
as c ia u as da na u eza. Is o de e-se à ci cuns ância de ele se a c ia u a que é mais
semelhan e a Deus. Po ou as pala as, no e i ó io das c ia u as, o homem dis ingue-se
pela semelhança que em em elação a Deus. Se é e dade que odas as es an es c ia u as –
que me os co pos sem ida, que plan as, que animais – são semelhan es a Deus, o homem
cons i ui, no uni e so do c iado, aquela que é mais semelhan e.34
Vol emos ago a a conside a a noção o mal de imagem em sen ido la o. Como imos, es a
noção aduz a ideia de uma semelhança máxima esul an e de de i ação. Como ambém
imos, es a semelhança máxima admi e duas des o malizações: uma p imei a ma cada po
igualdade em elação ao p o ó ipo e uma segunda ma cada po desigualdade. Foquemos a
segunda des o malização – que exp essa, po an o, a ideia de uma imagem desigual (impa
imago, a amen imago). Po que é desigual, es a imagem es á ob igada a se menos que o
p o ó ipo. Con udo, po que é imagem – de al manei a que em semelhança máxima –, es á
ob igada a se o máximo den o do e i ó io do ‘menos’. Des a o ma, a imagem desigual
aduz-se na máxima semelhança aquém da iden idade. Ou ainda, a imagem desigual aduz-
-se no máximo de igualdade no e i ó io da desigualdade. Em úl ima análise, é es a a noção
o mal de imagem que subjaz ao concei o augus iniano de imago Dei.
Pa indo des a conclusão, emos que, se o p o ó ipo o Deus, a noção de imagem desigual
se des o maliza numa noção de nada menos do que condição segunda. E ec i amen e, sendo
Deus a en idade sup ema na hie a quia on ológica, en ão o homem, se é imagem de Deus
(i.e., do se pe ei o, in ini o, e c.), co esponde à en idade imedia amen e abaixo desse modo
de se sup emo. Não se a a, po an o, de se simplesmen e a semelhança máxima longe
a subs an ia em elação a um qualque p o ó ipo: a a-se de se a semelhança máxima
longe a subs an ia em elação à ealidade sup ema. Assim, o homem é a o ma de exis ência
33T a a-se daquele supe la i o g au de semelhança que é compa í el com a ci cuns ância de não se o mesmo que
Deus no sen ido e e ido: is o é, no sen ido de uma supe la i a semelhança longe a subs an ia.
34Abundam, na ob a da Agos inho, as desc ições da supe io idade da imagem de Deus ela i amen e às es an es
c ia u as. Veja-se, po exemplo, De Ci . Dei XI, 2, ibi. XI, 26, De T in. XIV, VIII, 11, ibi. XIV, XIV, 20, In Ps.
54, no3, Se mo. 20A, nos 2 e 3, De Di . Quaes . 51, no2, ibi. 54.
16
Deus e a não pode ugi a uma elação com ele (seja essa elação a de o nega , a de não
que e sabe disso, e c.). Em esumo, a no i ia Dei exp ime es a p op iedade do se humano
que é inclui em si uma elação cons i u i a, indespedí el, incon o ná el, inapagá el com o
con eúdo ‘Deus’.
Vis o is o, ica cla o que a o ma de semelhança en ol ida na noção de no i ia Dei se acha
aquém da o ma de semelhança en ol ida na noção de pa icipação. Ou seja, a p imei a
cons i ui uma o ma de semelhança menos pe ei a que a segunda. No en an o, a ese
de Agos inho é que, sendo assim, nem po isso deixa de acon ece que a no i ia Dei é,
em p imei o luga , uma condição de possibilidade da pa icipação em Deus e, em segundo
luga , o ac o cons i uin e da capaci as Dei. Des a o ma, po um lado, se Deus em uma
na u eza al que possui como p op iedade essencial o modo de se do e no i ia, en ão não é
possí el a) supe la i a semelhança a ele e b) e ec i a pa icipação no se dele sem a p óp ia
componen e de no i ia. Po ou o lado, ha endo a dissemelhança esul an e do con as e
en e o se in ini o do c iado e a ini ude da c ia u a, a no i ia (que dize aqui, a no i ia
Dei: a no i ia do c iado ) é um modo p i ilegiado de cons i uição de semelhança apesa
da dissemelhança. Com e ei o, a a-se da o ma ex ao diná ia de simili ude que az que a
c ia u a seja capaz do c iado (no sen ido de chega , pela no i ia, a é ele).50
A conside ação des es aspec os põe-nos na pis a daquilo que é essencial. Segundo Agos-
inho, a capaci as Dei – a o ma mínima de habili ação à pa icipação em Deus – eside
na no i ia Dei. Ou, pa a usa ou a o mulação, a no i ia Dei é o elemen o da na u eza
aduz no conhecimen o de Deus (c . Jo 17, 3). Agos inho comen a es a passagem de João, indicando: “si cogni io
Dei es i a ae e na, an o magis i e e endimus, quan o magis in hac cogni ione p o icimus” (In E ang. Io. .
105, no3). Assim, conhecimen o de Deus e pa icipação em Deus, passí eis de c escimen o, c escem em pa alelo.
Ac escen a ainda Agos inho: “Dei cogni io pe ec a e i , quando nulla mo s e i ” (ibidem). Ou seja, o conhecimen o
cabal de Deus da -se-á quando se de a pa icipação cabal em Deus. Ou ainda, uma ez pa icipan e em Deus,
o homem ai conhece Deus. Des a o ma, a pa icipação implica o conhecimen o. O p oblema de se sabe se o
conhecimen o implica a pa icipação não pode se con enien emen e discu ido aqui.
De e ica cla o, con udo, que a no i ia co esponde semp e a um quan um mínimo de elação com Deus. Es a
elação, uma ez que aquilo que es á em causa é uma no i ia, co esponde semp e a uma elação cogni i a. Assim,
o homem, pelo ac o de e no i ia Dei, em semp e pelo menos um g au mínimo de elação cogni i a com Deus.
Es e quan um acompanha oda a ida do homem. Ou seja, o g au mínimo de cogni io Dei é uma cons an e ao longo
da ida do homem. Es a cons an e, como suge imos, em um ca ác e incoa i o. Po ou as pala as, a no i ia é
o começo da possibilidade do conhecimen o de Deus. Assim, odo o conhecimen o de Deus consis e num ac éscimo
em elação ao g au mínimo de cogni io Dei. Em pa icula , o conhecimen o cabal de Deus – que se e i ica na
pa icipação – co esponde a um al ac éscimo. Des a o ma, a pa icipação em Deus não é senão uma comple ação
– pedida pelo ca ác e incoa i o – da cogni io mínima cons an e.
50Vejamos melho es e aspec o. Deus ca ac e iza-se pela p op iedade essencial de se um en e com in elec o (o que
é o mesmo que a i ma que a na u eza de Deus equi ale a uma na u eza judica i a). O a, uma semelhança máxima a
uma ealidade não pode deixa de implica uma posse do elemen o essencial dessa ealidade. Logo, a o ma máxima
de semelhança a Deus implica necessa iamen e a posse de in elec o. Di o po ou os e mos, uma ealidade não pode
se maximamen e semelhan e a Deus se não es i e na posse de ideias. Na e dade, a semelhança se á maio se essa
ealidade es i e na posse da ideia do p óp io Deus. Des e modo, o máximo de semelhança a Deus co esponde a e
no ícia do p óp io Deus. Segundo Agos inho, é jus amen e is o que acon ece com o homem. Assim, embo a seja de
uma na u eza in e io à na u eza de Deus, em es a in e io idade compensada pela ci cuns ância de e no ícia de
Deus. A no i ia Dei, po an o, é uma o ma máxima de semelhança a Deus na não igualdade de subs ância.
23

humana que o na o homem capax Dei – capaz de i a pa icipa nele. Que dize que a
no i ia, icando mui o aquém da pa icipação em Deus, c ia condições pa a ela. Is o de e-se
ao ac o, de emos sublinha , de a no i ia Dei o na incon o ná el uma elação com Deus
al que ab e caminho à possibilidade de o homem i a pa icipa nele.
A pa i dos pa ág a os an e io es, pe cebemos que, segundo Agos inho, na aiz de udo
es á a no i ia Dei, de al modo que é ela que az a di e ença e cons i ui a capaci as Dei.
Toda ia, al como Agos inho a concebe, a no i ia Dei não signi ica apenas que, en e mui os
ou os con eúdos cogni i os, há ambém o concei o de Deus. Na e dade, que dize mui o
mais do que isso. Que dize que, independen emen e de o homem e consciência disso,
udo na na u eza humana es á ocado e como que me amo oseado po essa no i ia – is o é,
em o cunho da no i ia Dei. Em especial, odo o desejo que pe passa a na u eza humana é
um desejo ocado ou me amo oseado pela no i ia Dei, e de al modo que, em úl ima análise,
não é ou a coisa senão um desejo de se como Deus. Po ou as pala as, quando Agos inho
ala na no i ia Dei, aquilo a que se e e e aba ca a es u u a global da ida humana, em
odas as suas componen es, e exp essa a ideia de que odas elas êm como que o selo dessa
no i ia. Em úl ima análise, a ida humana não é, de aiz, apenas um acon ecimen o de
o dem cogni i a, mas ambém um acon ecimen o de o dem deside a i a (um p ojec o).51
Is o acon ece de al manei a que an o o acon ecimen o cogni i o como o acon ecimen o
deside a i o es ão pola izados pela no i ia Dei: oda a no i ia es á moldada pela no i ia
Dei e odo o desejo é um desejo ela i o a Deus – um desejo de se como Deus.
Uma ez conside ados es es aspec os, ol emos a oca o pe cu so de des o malização da
noção de imagem de Deus. Como e e imos, a no i ia Dei é a noção menos o mal que dele
esul a. Como ambém indicámos, o pe cu so em causa não pe mi e elimina po comple o
o ca ác e o mal dessa úl ima noção. Assim, apesa de odas as des o malizações ei as, a
noção de imago Dei – conc e izada, em úl ima análise, na noção de no i ia Dei –, con inua
a se o mal. Pa a além disso, ambém con inua po de e mina como é que a no i ia Dei,
que em si mesma ica mui o aquém da pa icipação, ab e caminho pa a es a úl ima – de
al modo que, como Agos inho sus en a, é ela a componen e da na u eza humana em que
adica a imago Dei. Em suma, mesmo que se a i me que a imago Dei se aduz na no i ia
Dei, ica ainda po de e mina a que é que isso co esponde em conc e o.
Foquemos ago a a elação que se es abelece en e a no i ia Dei e a pa icipação. Na
óp ica de Agos inho, a no i ia cons i ui a imagem de Deus (a capaci as Dei, que dize ,
51Todo o acon ecimen o em nós de uma no i ia, no sen ido es i amen e cogni i o, é ambém um acon ecimen o
de desejo ou de p ojec o.
24
a possibilidade de pa icipação) po duas azões: em p imei o luga , po que, ao ab i a
possibilidade da elação com Deus, ab e ambém a possibilidade de uma con o mação com
ele (que dize , de um aumen o de semelhança a ele);52 em segundo luga , po que esse
aumen o da semelhança na elação com Deus (que dize , esse c escimen o in e no da p óp ia
imagem) ab e, po sua ez, caminho pa a aquilo que é, em udo is o, o passo decisi o: a
pa icipação po ia da adopção.
A es e p opósi o, de emos assinala que não podemos aqui de e -nos em nada que se
pa eça com uma análise da con inuidade e da descon inuidade en ol idas na elação en e
no i ia Dei e pa icipação. De emos apenas assinala um aspec o essencial. Tal como
Agos inho a desc e e, a imago Dei é uma possibilidade e ec i a: se no i ia Dei c ia a
possibilidade eal de desen ol imen os que acabam po le a ao cump imen o pleno da
p óp ia imagem na pa icipação em Deus. Nesse sen ido, a imago Dei – que em, de aiz,
a na u eza de uma c iação de possibilidade – es á ligada a qualque coisa como um des ino
absolu o de p eenchimen o in eg al daquilo que p ocu a qualque se humano.
1.1.2 Consequências na iden idade do homem
Uma ez concluído (pelo menos numa p imei a ap oximação) o pe cu so de des o maliza-
ção, in e essa-nos ago a salien a as suas consequências na iden idade do homem. Po ou as
pala as, in e essa-nos discu i de que manei a é que a dou ina ap esen ada na subsecção
an e io pe mi e comp eende aquilo que se passa com o se humano. De e ica cla o, ape-
sa de udo, que es a discussão con inua a es a inse ida num quad o eológico. Pa a dize
de ou o modo, não acon ece que, pelo ac o de es a mos a aplica uma dou ina eológica
ao homem, suspendamos o ca ác e p op iamen e eológico da dou ina, ap o ei ando dela
unicamen e os aspec os an opologicamen e ele an es. Pelo con á io, a alidade do c is ia-
nismo con inua a se p essupos a. Assim, embo a se deb ucem especi icamen e sob e aquilo
que se passa com o homem, as consequências a e i a p essupõem os enunciados eológicos
p óp ios do c is ianismo.
Vejamos ago a que consequências são essas. Em p imei o luga , de emos cla i ica que,
de um pon o de is a eológico, a iden idade do homem es á de inida po se imagem de
Deus. Di o po ou os e mos, segundo Agos inho, imagem de Deus é aquilo que, pa a uma
52Nes e sen ido, a imagem em um ca ác e in insecamen e incoa i o. Mais: é imagem enquan o em um ca ác e
incoa i o e asga em si a possibilidade de ainda mais semelhança em elação a Deus. Ou, como ambém se pode ia
dize , o que cons i ui a imagem, enquan o na u eza, é a ci cuns ância de ela se a semelhança de base que habili a
àquele c escimen o da p óp ia semelhança que pode acaba po le a a nada menos do que a semelhança sup ema
da pa icipação.
25
pe spec i a eológica, o homem essencialmen e é. Assim, embo a haja á ios enunciados
que podem se ap esen ados a espei o do homem, aquele que o desc e e como imago Dei é
o que eologicamen e cap a o humano na sua essência.
O a, como imos, a imago Dei conc e iza-se, em úl ima ins ância, na no i ia Dei. Assim,
no cen o da iden idade do homem encon a-se a no i ia Dei. A noção de no i ia Dei, po
sua ez, e como no ámos, es á indissocia elmen e ligada à noção de p ojec o. Que dize ,
a ci cuns ância de o homem e no i ia Dei signi ica que a sua ida é indespedi elmen e
um p ojec o de que e se como Deus. Dado o ca ác e cen al da no i ia, concluímos que
a ida como p ojec o de se como Deus é um elemen o que ambém ele es á no cen o da
iden idade do homem.
A a i mação an e io pe mi e-nos in e i que a iden idade do homem co esponde a uma
possibilidade. Com e ei o, o que es á em jogo no p ojec o de que e se Deus é a possibilidade
de o se . Mas con ém ica cla o que es a possibilidade não é apenas um a ibu o da
iden idade do homem. Pelo con á io, es á no cen o de quem o homem é. Ou seja, a
pe gun a “que ou quem é o homem?” em como espos a “o homem é possibilidade de
ou a coisa”. Is o implica que aquilo que o homem undamen almen e é es á de inido po
aquilo que ele pode se . Des a o ma, a iden idade do homem não ica echada em si mesma:
eme e pa a qualque coisa di e en e de si mesma.
Em segundo luga , o di e en e de si pa a que a iden idade do homem eme e aduz-se
num ac éscimo em elação a essa iden idade. O que is o que dize é que a iden idade do
homem não eme e só pa a o di e en e de si mesma: eme e especi icamen e pa a mais que
si mesma. T a a-se, po an o, de uma iden idade que pode se mais do que inicialmen e é.
Em e cei o luga , a possibilidade de se mais é qualque coisa de ine en e ao homem.
Di o de ou a manei a, o homem, pelo simples ac o de se homem, pode se mais do que é.
Essa possibilidade, po an o, não esul a de nenhum es o ço ou mé i o, al como não se aplica
exclusi amen e a um de e minado conjun o de homens. Acon ece an es que es á insc i a na
p óp ia cons i uição do homem.53 Es e ca ác e cons i u i o em duas implicações. Po um
lado, odo e qualque homem nasce com a possibilidade de adqui i uma iden idade ac escida
em elação à sua iden idade inicial. Po ou o lado, essa possibilidade é indespedí el. O
que is o signi ica é que o homem, enquan o o homem, é semp e capaz de mais do que já
é. Ou seja, qualque que seja o momen o da sua ida, o homem em, nesse momen o, a
possibilidade de uma iden idade supe io em elação à iden idade que em nesse momen o.54
53C . SULLIVAN, John Edwa d, The Image o God – The Doc ine o S . Augus ine and i s In luence, p. 53.
54O ca ác e cons i u i o se á ap o undado no capí ulo 2.
26
Em qua o luga , o ca ác e inanulá el da possibilidade em causa implica que o homem
es eja numa elação pe manen e com o mais-do-que-si-mesmo. Assim, o homem es á semp e
já na p esença desse mais. Ou, pa a usa ou as pala as, acha-se pe manen emen e dian e
desse mais, con on ado com esse mais. Po conseguin e, que quei a que não, encon a-se
semp e em elação com o mais-do-que-si-mesmo.
Em quin o luga , o ac éscimo em causa nes e mais é absolu amen e desp opo cionado.
Com e ei o, não se a a simplesmen e da possibilidade de mais: a a-se da possibilidade
de nada menos do que o inul apassá el. Is o é, a a-se da possibilidade daquilo acima do
qual não há nada. O homem es á, assim, habili ado àquilo que é o almen e desmesu ado
em elação a si mesmo, de al o ma que a sua na u eza o a i a comple amen e pa a lá de
si.
Em sex o luga , o inul apassá el pa a que a iden idade do homem semp e já eme e
equi ale ao p óp io Deus c iado . Is o em duas implicações. Po um lado, o inul apassá el
em causa não é uma en idade abs ac a, impessoal. Acon ece an es que esse inul apassá el
co esponde a alguém. Ou seja, a a-se de um ou o. Assim, o homem es á pe manen e-
men e na p esença de um ou o. Po ou o lado, o que es á em causa no inul apassá el não
é um in ini o sem mais: é a pleni ude absolu a, a omnipo ência insupe á el.
Is o indica que o homem es á cons an emen e na p esença de um ou o absolu o. Con-
udo, não deixando de se a a do ou o absolu o, é ambém como que uma e são me-
lho ada (e a é mesmo in ini amen e melho ada) de si. Que dize , o ou o absolu o em
causa não é senão um si mesmo supe la i ado. Não acon ece, po an o, que o ou o seja
comple amen e es anho em elação ao si mesmo; acon ece an es que é semp e um si mesmo
p omo ido.
Em sé imo luga , a imagem de Deus, cons i uída como possibilidade da pa icipação
di ina, em como im essa pa icipação. O que is o que dize é que, na pe spec i a augus-
iniana, o homem es á ei o pa a pa icipa em Deus:
“(...) quia ecis i nos ad e e inquie um es co nos um, donec equiesca in e.”55
Assim, não acon ece que a possibilidade aqui em ques ão não enha nada que e com a
inalidade úl ima do p óp io homem. Acon ece pelo con á io que essa possibilidade oi
pos a pa a que o homem a execu asse. A imagem de Deus, po an o, es á de aiz o ien ada
pa a a pa icipação di ina.
Em oi a o luga , a possibilidade da pa icipação em Deus em a o ma de um ipo especial
55Con . I, I, 1.
27
de possibilidade: um chamamen o. Po ou as pala as, a a-se de uma ocação, de um
con i e. Assim, odo e qualque homem é chamado (ou con idado) a pa icipa em Deus.56
Is o az que a possibilidade em causa enha ês ca ac e ís icas singula es. Uma p imei a
ca ac e ís ica em que e com o nexo en e ocação e iden idade. A ocação é uma o ma
peculia de cons ução de iden idade, segundo a qual a iden idade p esen e é incoa i a –
que dize , é como uma semen e. O que is o signi ica é que a iden idade p esen e inclui em
si mesma como que um ac éscimo de iden idade: a iden idade a ha e . Ou seja, a iden idade
p esen e cons i ui a condição de possibilidade pa a um ac escen o de iden idade. Di o ainda
de ou a manei a, a iden idade p esen e é a possibilidade de mais iden idade.
Uma segunda ca ac e ís ica da possibilidade em causa é o ac o de e um ou o na sua
o igem: aquele que chama, que con ida.57 Is o é, hou e (e há) um ou o que oi (e é)
esponsá el po que o homem pudesse pa icipa da na u eza di ina. A e cei a ca ac e ís-
ica é que há uma on ade desse ou o em elação ao homem. Não acon ece que o ou o
enha abe o uma possibilidade, mas de al manei a que es eja indi e en e em elação a
ela. Acon ece, pelo con á io, que se encon a in e essado em que o homem execu e essa
possibilidade. O que is o que dize , po an o, é que há um ou o que que que o homem
pa icipe da na u eza di ina.
Esse ou o que es á na o igem da possibilidade não é senão Deus.58 É o c iado quem
chama o homem pa a que pa icipe daquilo que ele mesmo é. T a a-se, po an o, de um
c iado que oma a inicia i a de ab i a sua pleni ude às c ia u as. Is o acon ece de al ma-
nei a que o c iado que es á in e essado em que as c i u as pa icipem na sua na u eza. É,
assim, um c iado que se ol a pa a as c ia u as, de al manei a que elas icam ol adas
pa a ele.
En e an o, imos que a possibilidade de pa icipação di ina co esponde a um con i e.
O a, es e con i e aplica-se a cada momen o. O que is o que dize é que o homem es á
semp e já a se con idado a pa icipa em Deus. Pa a além disso, o con i e em ques ão em
a pa icula idade de aze coincidi ês momen os em ge al dis in os: o momen o p esen e,
o momen o em que o con i e é ecebido e o momen o a que o con eúdo do con i e se di ige.
Es a coincidência ipla implica que o con i e ou é acei e ou é ejei ado. Realmen e, se o
momen o em que um homem ecebe o con i e e o momen o a que o con eúdo do con i e se
di ige coincidem, en ão esse homem não em a possibilidade de p oc as ina a sua decisão.
56C ., po exemplo, In Ps. 32, en. II, s. II, no16, ibi. 61, no6.
57Se acima ínhamos pe cebido que a imagem de Deus en ol e um ou o po causa da sua inalidade, es amos
ago a a salien a a ci cuns ância de en ol e um ou o po causa do seu ca ác e con ida i o. Assim, es amos ago a
a chama a a enção pa a o ac o de ha e um ou o não só no im da imagem, como ambém na sua o igem.
58C ., po exemplo, In Ps. 50, no1.
28

Assim, em cada momen o, ou o homem se encaminha pa a a pa icipação em Deus ou se
a as a dessa pa icipação. Di o de ou o modo, em cada momen o, ou se o na mais imagem
ou se o na menos imagem. Mas o ac o decisi o é que, qualque que seja o ins an e da sua
ida, o homem não em um es ado neu o.59
A inexis ência de es ado neu o em udo que e com a iden idade do p óp io homem.
De ac o, e como emos assinalado, a iden idade do homem consis e na imagem de Deus. Is o
é, consis e na possibilidade de pa icipação di ina. O a, se es a possibilidade não admi e
es ado neu o, assim ambém não o admi e a iden idade do homem. Com e ei o, ou o
homem execu a a possibilidade implicada na sua iden idade – caso em que se o na mais ele
mesmo po que se o na mais imagem –, ou não a execu a – caso em que se o na menos ele
mesmo po que se o na menos imagem. Não acon ece, po an o, que a disjunção en ol ida
na acei ação ou ejeição do con i e à pa icipação di ina enha só agamen e que e com
quem o homem é. Pelo con á io, essa disjunção é absolu amen e cen al pa a a iden idade
humana.
Assinalámos acima que es a iden idade eme e pa a um mais-do-que-si. O que es amos
ago a a descob i é que se essa emissão, num de e minado momen o, não o seguida, en ão
o homem, nesse momen o, o na-se menos. Is o signi ica que o homem não es á cons i uído
simplesmen e de al manei a que em possibilidade de mais: es á ambém cons i uído com
a possibilidade de menos. Des a manei a, assim como a possibilidade de se o na mais é
ine en e ao homem, assim ambém a possibilidade de se o na menos o é. Po isso, odo e
qualque homem em, em cada momen o, uma disjunção indespedí el: ou se o na mais ou
se o na menos.
A na u eza humana, po que não pe mi e que, em qualque momen o, haja um es ado
in e médio en e o o na -se mais e o o na -se menos, implica semp e uma condição in in-
secamen e ins á el. O homem es á semp e – e não pode não es a – desequilib ado. Is o
e i ica-se de al manei a que nunca es á ixo: ou ende pa a a pa icipação ou se a as a
dela.
Pa a pe cebe mos melho o que es á em causa, de emos cla i ica a di e ença en e na-
u eza e es ado. Vimos acima que, hie a quicamen e, o homem é a na u eza segunda. Po
ou as pala as, o homem é a na u eza imedia amen e abaixo da na u eza di ina. A azão
59De e ica cla o que os di e en es momen os são independen es. Is o é, o ac o de o homem se o na mais imagem
ou menos imagem aplica-se a um de e minado momen o, mas de al manei a que esse momen o é independen e do
momen o an e io e do momen o seguin e. Po conseguin e, mesmo se um homem se o na menos imagem num
de e minado momen o, isso não impede que se o ne mais imagem no momen o seguin e. Des a o ma, a espos a
dada ao con i e num de e minado momen o não condiciona a espos a dada nou os momen os.
29
po que assim é, como assinalámos, em que e com a capaci as Dei: pela manei a como
es á cons i uído, pode pa icipa em Deus. É es a sua na u eza (ou cons i uição) capaz de
Deus que az que ele enha a posição sup ema no conjun o das c ia u as.
O a, como no ámos en e an o, a capacidade de Deus en ol e uma ins abilidade. Es a
ins abilidade é al que o homem an o pode o na -se mais, como pode o na -se menos. Só
que es a mu abilidade não al e a o ac o de o homem e uma posição sup ema logo abaixo
da posição di ina. É que essa posição sup ema do homem em que e com a sua na u eza
– e não com o seu es ado (aumen ado ou diminuído). Assim, que se o ne mais imagem de
Deus ou menos imagem de Deus – em i ude de agi con o memen e ou con a iamen e à
sua na u eza capaz de Deus –, o homem es á inanula elmen e numa posição sup ema (logo
abaixo da posição di ina), em i ude da sua na u eza (i.e., da na u eza que o capaci a pa a
a pa icipação).
A na u eza humana, de emos insis i , é imagem de Deus. Des e modo, a na u eza humana
é possibilidade. O a, a possibilidade não é ela mesma passí el de al e ação: é o que é, de al
manei a que é in a iá el. O que é a iá el é o g au de p eenchimen o dessa possibilidade.
Assim, podemos a i ma que o homem, enquan o na u eza – is o é, enquan o é capaz da
pa icipação em Deus –, é pe manen e e in a iá el. Já o homem, enquan o es ado – is o é,
enquan o acei a ou ejei a o con i e à pa icipação em Deus60 –, é semp e ins á el e a iá el.
A ci cuns ância de a na u eza humana se in a iá el que dize que a imagem de Deus é
indelé el. Realmen e, se a na u eza é imagem e se a na u eza nunca deixa de se o que é,
en ão o homem nunca deixa de se imagem. Assim, enquan o o homem é homem, é ambém
imagem. Ou, po ou as pala as, a imagem pe manece semp e.61 É essa a iden idade do
homem, e nunca deixa de se . Des a o ma, po mais que aja con a iamen e à possibilidade
que es á insc i a na sua na u eza – de al manei a que se o na menos imagem –, nunca
deixa de se imagem. O o na -se menos ou mais imagem em que e com o seu es ado,
enquan o o pe manece semp e imagem em que e com a sua na u eza.
Como emos is o, o homem, enquan o es ado, é pe manen emen e ins á el: ou se o na
mais ele mesmo (po que se o na mais imagem) ou se o na menos ele mesmo (po que se
o na menos imagem). Is o que dize que a imagem de Deus – enquan o es ado – em de se
gua dada; caso con á io, é pe dida. Assim, a única o ma de a imagem (enquan o es ado)
se man ida é se obse ada – caso em que não só não é pe dida, como ainda c esce.
O ac o de o homem se imagem de Deus implica, como assinalámos, que es á pe ma-
60Ou ainda, enquan o a ia o g au de semelhança de que ele p óp io é capaz.
61C . De T in. XIV, IV, 6.
30
nen emen e em elação com Deus, i.e., na p esença de Deus. Po ou o lado, como ambém
imos, a imagem de Deus en ol e necessa iamen e um con i e pa a mais. Is o implica que
a elação com Deus se ca ac e iza pela p op iedade de pedi semp e mais elação. Ou, o
que é o mesmo, em ez de acon ece que a elação com Deus en ol ida no se -se imagem
de Deus seja qualque coisa que bas e ao homem, acon ece an es que (ela, elação) eque
semp e uma ap oximação de Deus. Assim, em ez de se um pon o de chegada, a elação
com Deus é um pon o de pa ida pa a mais elação, i.e., pa a uma elação cada ez mais
p óxima. Em suma, o se -se imagem de Deus az consigo o eque imen o de um caminho
a se pe co ido.
Um al caminho é in e miná el. Realmen e, o ac o de se se imagem de Deus, enquan o
na u eza, implica semp e a possibilidade de se se mais imagem, enquan o es ado. Assim,
na sua ida sob e a Te a, o homem é semp e chamado a se mais imagem. Ou, como
ambém se pode ia dize , não há ins an e da sua ida em que o homem não es eja aquém
da sua pleni ude, i.e., da pa icipação em Deus. A iden idade humana, po an o, nunca es á
consumada: o homem con inua semp e o ien ado pa a um es ado supe io .
Es e pon o le a-nos a um ou o aspec o, a que depois ol a emos, mas que não pode
deixa de se ido em conside ação desde já: em que e com a de lexio imaginis.62 Tal
como Agos inho a concebe, a imagem não só pode es a , como e ec i amen e es á sujei a a
um enómeno de obscu ecimen o, em i ude do qual pe de ni idez. Que dize , a no i ia Dei
es á obscu ecida. Es e ca ác e obscu ecido em que e com uma componen e dogmá ica
– a ese sob e a queda, o pecado o iginal –, que não cabe es uda nes e con ex o. O pon o
c ucial que aqui nos in e essa é que es a ese – sob e o obscu ecimen o da imagem – inca ao
mesmo empo duas coisas: po um lado, que a no i ia Dei pe de o ça e ni idez; po ou o
lado, que a sua p esença e que o papel decisi o que desempenha na cons i uição da na u eza
humana ambém pe dem ni idez. Is o e i ica-se ao pon o de a é pode pa ece que não há
no i ia Dei alguma ou que não há como qualque coisa ine en e, cons i u i o, pe manen e,
que molda udo, e c. Não obs an e, a ese sus en ada po Agos inho – que dize , a ese
p op iamen e eológica – é que esse obscu ecimen o não é su icien e pa a anula a imagem
nem pa a diminui e ec i amen e o papel cons i uin e e decisi o que desempenha.
Em esumo, pode dize -se que a ese eológica não é apenas a de que o homem é imago Dei,
mas sim a de que é uma o ma obscu ecida de imago Dei.63 Os dois aspec os são igualmen e
decisi os, a al pon o que, pa a se pe cebe a ese an opológica (de an opologia eológica)
62Es e assun o se á explo ado no capí ulo 2.
63Pa a usa uma o mulação pa alela ao impa imago, a amen imago, pode íamos dize obscu a imago, a amen
imago (c . De T in. XIV, IV, 6).
31
p óp ia de Agos inho, há que e em con a simul aneamen e os dois aspec os. Na e dade, é
p eciso conside a que, po um lado, o obscu ecimen o pode o na – e e ec i amen e o na
– menos ób io que o homem é imagem de Deus, mas de al manei a que, po ou o lado,
não al e a o es ado de coisas undamen al que a o mulação homo es imago Dei p ocu a
desc e e .
1.2 Quad o es i amen e imanen e
1.2.1 Rele ância de um quad o imanen e
A i mámos acima que, de um pon o de is a eológico, o homem é imagem de Deus. Toda ia,
e como es á cla o, es e não é o único enunciado que pode se di o a espei o do homem.
Realmen e, há mui as ou as p op iedades que ca ac e izam o homem. Pa a além disso,
há ou as o mas de de ini e comp eende o homem sem se pela a i mação de que ele é
imagem de Deus. Apesa de udo, pa a Agos inho, na óp ica eológica, homo es imago Dei
é o enunciado que melho ca ac e iza o homem. De ac o, pa a um pon o de is a eológico,
de ine-se uma ealidade pela sua e e ência a Deus. O a, a o ma especí ica de e e ência a
Deus que é p óp ia do se humano passa po aquilo que se exp ime no concei o de imagem
de Deus.
Mas aqui o na-se ele an e a seguin e pe gun a: pode á ha e ou a pe spec i a pa a
a qual a melho o ma de ca ac e iza o homem se exp ima a a és da sua elação com o
inul apassá el – e, especi icamen e, po udo aquilo que, como imos, es á em causa na
noção de imago Dei? Que dize , a ese undamen al de Agos inho segundo a qual o homem
é imagem de Deus pode alguma ez aze sen ido o a do con ex o eológico? Pa a usa
ainda uma ou a o mulação, pode alguma ez acon ece que ambém o a desse con ex o o
homem apa eça como imagem de Deus, e seja es e o enunciado – ou, de odo o modo, aquilo
que ele se des ina a exp imi – que melho de ine um se humano?
O que ago a nos in e essa en a mos a é que a espos a a es as pe gun as é posi i a.
Não é só num quad o eológico que o enunciado e e ido em cabimen o. Com e ei o, aquilo
que es á em causa no concei o de imago Dei ambém pode aze sen ido – e, mais do que
isso, se pe cebido como de e minação undamen al do humano – o a do con ex o eológico
e independen emen e de quaisque p essupos os dogmá icos do c is ianismo.
Aliás, endo bem, o p óp io pensamen o de San o Agos inho (e especi icamen e aquilo
a que se pode chama a sua componen e an opológica) não é, de manei a nenhuma, es-
32
o ‘palco’ onde se desempenha esse p ojec o. Di o de ou a manei a, a ida é como que o
e eno onde, po um lado, um homem lida com essa possibilidade de i a pa icipa no
supe la i o pa a que ende e, po ou o lado, se ai de inindo a pouco e pouco o que é ei o
de al possibilidade ou de al p ojec o. Assim, a ida em pe manen emen e a o ma de
um cump imen o ou incump imen o da possibilidade (i.e., do p ojec o) de pa icipação no
supe la i o.
Como úl imo aspec o, in e essa-nos salien a que, ambém no plano imanen e, a no i ia
que emos indo a desc e e es á ma cada po uma de lexio. Is o que dize que es á
en ol ida em escondimen o, e de al manei a que es e ca ác e escondido co esponde a
uma componen e in ínseca à p óp ia no i ia do supe la i o. Nes e con ex o imanen e, a
de lexio que dize essencialmen e duas coisas. Em p imei o luga , a iden idade do con eúdo
da no i ia ica po de e mina . Po ou os e mos, o homem não consegue iden i ica que
é que p op iamen e co esponde a esse inul apassá el de que em no i ia e a que, po ia
da no i ia, se acha cons i u i amen e di igido. Em segundo luga , a p óp ia no i ia que o
in luencia es á ma cada po um ca ác e di uso. Is o e i ica-se de al manei a que uma
pessoa não consegue econhece a p esença da no i ia de uma o ma ób ia. Ou seja, há
uma espécie de ‘ne oei o’ a olda a pe cepção que ela em dessa p esença. Es e ne oei o
az que a no i ia possa – e a é mesmo enda a – a) pa ece ausen e, b) não apa ece como
pe manen e e c) não apa ece como de e minação cen al que molda udo o que apa ece.73
Uma ez conside ados es es aspec os, açamos como que um balanço das duas pe spec i as
– eológica e imanen e. A desc ição que acabamos de ap esen a é, como suge imos na no a
68, mui o semelhan e àquela que esboçámos na subsecção 1.1.2. O que de emos assinala
ago a é que is o não su p eende e, em ce o sen ido, é o que de ia acon ece . Que dize , as
ca ac e ís icas da e são eológica da imago Dei de iam con i ma -se no plano es i amen e
imanen e. Com e ei o, a dou ina eológica p opõe-se desc e e aquilo que se passa no se
humano. Po isso, se não se encon asse no plano pu amen e imanen e qualque coisa de
equi alen e à imago Dei eológica, isso po ia adicalmen e em causa a dou ina eológica.
Is o é a al pon o assim que a p óp ia e são eológica da imago Dei cons i ui como que
uma explicação e uma comp eensão eológica que, se despojada dos elemen os es i amen e
eológicos, esul a em qualque coisa como uma desc ição da cons i uição imanen e (e ima-
Pa a além disso, a e são imanen e sublinha que o p óp io se humano é que é, po assim dize , o pa io dessa
chama que é a ensão pa a o supe la i o. Ou seja, é o p óp io que em a no i ia de supe la i o, de al manei a que
a ensão pa a o supe la i o pa e de si mesmo, i.e., dessa no i ia que em em si.
73De e ica cla o que a exis ência de ne oei o, pelo ac o de aze que a no i ia a) pa eça ausen e, b) não apa eça
como pe manen e e c) não apa eça como de e minação cen al que molda udo o que apa ece não impede que ela
a) es eja e ec i amen e p esen e, b) a sua p esença seja, de ac o, pe manen e e c) ela seja mesmo a de e minação
cen al.
39

nen emen e e i icá el) dos se es humanos. Se essa desc ição da cons i uição imanen e não
o con i mada pelo que se encon a na es e a imanen e, a lei u a eológica ica p ejudicada
como qualque coisa que pu a e simplesmen e não em nada que e connosco.
Mas is o põe-nos na pis a de um ou o aspec o que é indispensá el a aca – aquele que
em que e com a inapa ência da no i ia Dei (is o é, com a inapa ência da no i ia de
supe la i o). Uma peça undamen al da an opologia da imago Dei é aquela que em que
e com o con li o en e a ese de uma p esença pe manen e da no i ia Dei e a e idência que
pa ece desmen i-la: a e idência de que o homem não encon a em si nada de co esponden e a
essa no i ia (ou não encon a nada de co esponden e a essa no i ia como no ícia pe manen e,
indespedí el, que molda udo o que apa ece, e c.). É pa a es e p oblema que nos ol amos
ago a.
40
Capí ulo 2
Con usão em elação à imago Dei
2.1 P ocu a de mais – o pe cu so de Con issões X
Pa a ap o unda mos o p oblema e e ido (e pa a pe cebe mos como se desenha no pensa-
men o de San o Agos inho), conside amos uma explo ação augus iniana do e i ó io do que
nos apa ece. Agos inho analisa aquilo que uma pessoa de cada ez em ap esen ado. Con-
udo, a sua análise não se p opõe enume a os objec os que apa ecem de o ma inequí oca,
mani es a. Acon ece an es que p ocu a a e igua se po en u a há mais do que os objec os
mani es os. Ou seja, na sua explo ação do campo de apa ecimen o em que damos connosco,
Agos inho desb a a o e i ó io do ap esen ado, mas de al manei a que p ocu a pe cebe se
nele ha e á mais do que aquilo que é imedia amen e dado a e . A ha e mais, in e essa á
sabe , po um lado, que é que compõe esse mais e, po ou o, que elação há en e esse mais
e aquilo que es á mani es amen e ap esen ado.
A explo ação esumida acima encon a-se desen ol ida no li o X das Con issões, espe-
ci icamen e en e os capí ulos VIII e XVII. Nes a secção 2.1, analisamos o pe cu so seguido
po Agos inho ao longo des es capí ulos. O a, é bem sabido que, p ecisamen e a pa i do
capí ulo VIII do li o X, Agos inho se dedica a es uda a memó ia. Não se a a de uma
coincidência. Realmen e, e como e emos, a memó ia desempenha um papel cen al na
explo ação do e i ó io do que apa ece.
2.1.1 A capacidade de mais
Pa a pe cebe mos o pe cu so ei o po Agos inho, de emos ealça um aspec o que ele se
limi a a p essupo : é que o homem é um se lúcido. A sua lucidez é al que az que ele
seja in adido po um apa ecimen o mani es o. Que dize , pelo ac o de e lucidez, ele es á
pe manen emen e a depa a -se com objec os que lhe apa ecem de o ma mani es a. Pa a
além disso, a lucidez é al que es e apa ecimen o é indespedí el, inanulá el. Des e modo, o
homem es á incon o na elmen e na p esença de objec os decla ados, mani es os.
41
Embo a Agos inho não lhe a ibua um nome especí ico, e e e-se cons an emen e ao domí-
nio onde se dá o apa ecimen o indespedí el. Esse domínio, po an o, é como que um ‘palco’
onde es ão pe manen emen e a apa ece objec os decla ados. Po uma ques ão de economia,
designa emos es e palco como ‘ oco da consciência’ – ou, simplesmen e, como ‘ oco’. O oco,
po an o, inclui odos os objec os que de cada ez apa ecem de o ma mani es a, os ensi a,
e iden e. Ou seja, o oco de uma de e minada pessoa con ém udo aquilo com que ela em
uma consciência inequí oca de es a em elação. Assim, po exemplo, con ém a pe cepção
isual que ela es á a e nesse momen o, uma ideia em que es eja a pensa , um sen imen o
que es eja a expe imen a , e c.
É a desc ição de oco ap esen ada no pa ág a o an e io que es á p essupos a no começo
da análise da memó ia do li o X. Po oposição, a memó ia é desde logo in oduzida como
co espondendo a um pa imónio de sabe não conscien e. O que is o que dize é que a
memó ia enquan o al inclui o conjun o de odos os con eúdos cognosci i os que o homem,
de alguma manei a, já possui, mas que não es ão a se ocados pela sua consciência. Segundo
es a desc ição, po an o, a memó ia é pe cebida como uma egião pa a lá do oco. Com e ei o,
o oco é essencialmen e um domínio de consciência, enquan o a memó ia, po con as e, é
essencialmen e um domínio de não consciência. Em suma, a memó ia equi ale a um domínio
ex e io ao oco.74
Acon ece, en e an o, que o pon o mais essencial em udo o que Agos inho conside a
a p opósi o da elação en e o oco e a memó ia em que e com o enómeno das ocas
(ou, se assim se pode dize , do comé cio que se es abelece en e o oco e a memó ia). Em
especial, em que e com aquelas ocas median e as quais se dá um ol imen o do oco
pa a a memó ia.
Expliquemo-nos melho . Pode ia acon ece que hou esse oco e memó ia, mas sem ne-
nhuma espécie de oca en e ambos; nesse caso, cada um desses domínios se ia comple a-
men e es anque em elação ao ou o. Também pode ia acon ece que não ossem es anques
unicamen e no sen ido em que os con eúdos que sucessi amen e ão passando pelo oco
74A noção de memó ia é equí oca: an o pode exp imi um domínio que se ca ac e iza undamen almen e pela
ci cuns ância de a pessoa não es a a e consciência dele (que é o sen ido que es á aqui a se ap esen ado), como
pode exp imi um domínio que co esponde essencialmen e ao conjun o das lemb anças. Se se op a po in e p e a
a noção nes e segundo sen ido, não há a incompa ibilidade en e memó ia e oco que se e i ica se se oma a noção
no p imei o sen ido. Realmen e, se a memó ia co esponde ao conjun o das lemb anças, en ão, uma ez que uma
pessoa pode es a a e consciência de uma lemb ança (ao oca a sua a enção sob e ela), o oco – is o é, o palco da
consciência – inclui em si um con eúdo da memó ia. O a, no p imei o sen ido da noção, is o nunca acon ece. Po
ou as pala as, nesse sen ido, oco e memó ia são domínios em cla a oposição. De ac o, e como assinalámos, o
p imei o é um domínio de consciência, enquan o o segundo é um domínio de não consciência. Assim, se um con eúdo
es á no oco – de al manei a que es á a se al o da consciência –, en ão não es á na memó ia, já que es a úl ima
consis e p ecisamen e num sabe não conscien e.
42
ansi assem pa a a memó ia; nesse caso, o ânsi o oco e ia num só sen ido (do oco pa a
a memó ia). Em qualque des es dois casos, ha e ia oco e memó ia, mas o oco não e ia
ele p óp io nenhuma elação com a memó ia (e po -se-ia a é o p oblema de sabe se pode ia
e alguma ez no ícia dela).
O a, acon ece que o oco em no ícia da memó ia – ou seja, em no ícia do pa a lá de si.
Is o acon ece de al manei a que o oco ê esse pa a lá de si como uma o ma de pa imónio
que o ul apassa comple amen e. Di o de ou o modo, o oco comp eende a memó ia como
um domínio que não pe ence ao oco – i.e., não igu a nele – e que, po isso, do pon o
de is a do oco, não é conhecido. É cla o que há con eúdos de memó ia que êm ao oco
e que, pelo menos enquan o es ão lá, in eg am o seu pa imónio. Mas não é esse o pon o
decisi o. O pon o decisi o é que, além de e uma elação com os con eúdos da memó ia
que lhe ad êm, o oco ambém em uma elação com o es o: com a memó ia que se si ua
pa a lá de si, com esse domínio de posse cogni i a que lhe é es anho.
Mas mais. Aquilo pa a que Agos inho apon a – e que em pa icula impo ância na sua
análise – é a o ma como o oco se pode di igi à memó ia. Não se a a de se di igi à
memó ia em ge al, mas sim di igi -se em especial a es es e àqueles con eúdos dela, quando
es es e aqueles con eúdos ainda es ão na memó ia – is o é, ainda não es ão no p óp io oco
da consciência. Assim, não acon ece que o oco es eja de cos as ol adas pa a o que se
si ua na es e a da memó ia – enquan o a memó ia é um domínio pa a lá do oco –, e não
enha ou a no ícia da memó ia que não seja a no ícia ge al de ha e qualque coisa desse
géne o – caso em que não acompanha ia quaisque con eúdos especí icos dela. Ve i ica-se,
pelo con á io, que do p óp io e i ó io do oco pa em inicia i as de elação com es es e
aqueles objec os da memó ia enquan o ainda não es ão no oco. Is o que dize que no oco
(i.e., na p óp ia es e a do oco), há como que ‘pon as de ios’ que le am ao e i ó io da
memó ia. Essas pon as de ios já es ão, po an o, em elação com o e i ó io da memó ia,
mesmo que es a elação não passe nem po e já e iden es os objec os em causa, nem po
e e iden es essas pon as dos ios que le am a eles.75
O que es amos a a i ma pode se exp esso da seguin e manei a: o enómeno cen al
aqui em análise não é a memó ia no sen ido em que uma pessoa dá consigo a lemb a -se
de qualque coisa; nesse caso, a pessoa en a numa elação conscien e com um con eúdo de
memó ia76 de o ma mui o pa ecida com aquela po que en a em elação com um con eúdo
pe cep i o, uma ez que dá com aquele já p esen e no oco. Não: o enómeno cen al é
75As pon as de ios aqui e e idas são, assim, os pon os de pa ida da p óp ia lemb ança dos objec os em ques ão,
quando essa lemb ança oma a o ma de uma inicia i a de e ocação.
76N.B.: no segundo sen ido.
43
mui o di e en e disso. T a a-se aqui do enómeno em i ude do qual a pessoa pa e do
oco em di ecção a um con eúdo de memó ia, pa a o i busca à memó ia e aze ao oco.
E o aspec o que especialmen e in e essa é o pon o de pa ida des e enómeno: an es de o
enómeno oco e , já es á e em de es a no oco qualque coisa (uma pon a de io) des e
e daquele con eúdo de inido da memó ia, pa a pode acon ece que, do oco, se á busca
esses elemen os.
Ainda po ou as pala as: o aspec o mais undamen al não são as p óp ias ocas –
is o é, o comé cio que az con eúdos da memó ia pa a o oco. O aspec o undamen al é a
condição de possibilidade das ocas p oduzidas a pa i do oco; uma al condição em a
o ma de uma inicia i a de busca, desde logo di igida a um con eúdo de inido. Es e modo
peculia de oca mos a que, an es de a inicia i a e e ida se con e e na passagem de um
con eúdo da memó ia pa a o oco, já há no oco um quan um de elação com o con eúdo em
causa, sem o qual (quan um) não se pode ia pa i em busca desse con eúdo. Em suma: a
análise de Agos inho põe na pis a de ha e qualque coisa como uma o ma de p esença da
p óp ia memó ia (de con eúdos da memó ia) na es e a do oco; uma al o ma de p esença
não passa pela inclusão e iden e desses con eúdos (a qual a ia deles con eúdos do oco como
quaisque ou os), mas, po ou o lado, ambém não é igual a ze o.
Vis o is o, pe cebemos que não acon ece que o oco es eja po si mesmo comple amen e
echado a – e cego pa a – os con eúdos que se encon am na es e a da memó ia (a es e a do
pa imónio de sabe inconscien e, subme so, ainda indisponí el). Acon ece, pelo con á io,
que es á, de alguma o ma, abe o pa a esses con eúdos (ou, pelo menos, pa a alguns desses
con eúdos), e já na posse de um mínimo de elação com eles. Ou seja, es á já a se a ec ado
ou ocado pelos con eúdos em causa, mesmo an es de eles passa em a in eg a a sua es e a.
O enómeno que emos indo a desc e e é co obo ado po um segundo, que Agos inho
ambém põe especialmen e em ele o. Es e segundo enómeno em que e com o seguin e:
quando um con eúdo da memó ia passou ecen emen e pelo oco e acabou po sai dele –
de al manei a que ol ou a cai na es e a do pa imónio de sabe inconscien e (que não
é conhecida, jus amen e po que não igu a no oco) –, mui as ezes dá-se o caso de esse
con eúdo ica , po assim dize , numa es e a de p oximidade ao oco; nesse caso, a sua
ecupe ação (de ol a pa a o oco) encon a-se acili ada.
De emos sublinha que o que se passa nes e segundo enómeno não é apenas – nem
p op iamen e – que os con eúdos e e idos ocupam um luga da memó ia mais p óximo do
oco. Pa a e ei os daquilo de que se a a, essa me á o a de dis ância que dize que se
44

man ém uma elação mais es ei a en e o oco e os con eúdos mnésicos em causa. Is o
e i ica-se de al manei a que, mesmo que ambém eles enham saído do oco (e não igu em
nele, e c.), a sua ecen e passagem po ele deixa subsis i uma ligação a eles que não passa po
es a em explici amen e e e idos. Assim, há uma ce a o ma de p esença desses con eúdos,
mas sem que eles es ejam explici amen e con idos na es e a do oco.
2.1.2 A ampli ude da memó ia
Uma ez es abelecidos (de o ma sumá ia) alguns aspec os que ca ac e izam a elação en e o
oco e a memó ia, de emos ago a ol a -nos pa a o desen ol imen o do concei o de memó ia,
al como Agos inho o ap esen a a pa i do capí ulo VIII do li o X. Tal desen ol imen o
equi ale à passagem de um p imei o concei o (ou concepção) de memó ia pa a um concei o
ala gado. Po ou as pala as, o desen ol imen o e e ido co esponde a um ala gamen o
do concei o de memó ia.
An es de en a mos p op iamen e nesse i ine á io, de emos deixa cla o que, po memó ia,
es amos a exp imi ao mesmo empo duas coisas: po um lado, o pa imónio inconscien e
ou subme so de sabe que, em cada momen o, es á pa a lá do oco da consciência; po ou o
lado, o conjun o das pon as de ios que, como insis imos acima, já se encon am no oco e
que eme em pa a con eúdos especí icos desse pa imónio de sabe subme so.
Conside ado es e pon o, acompanhemos o pe cu so seguido po San o Agos inho. No
capí ulo VIII, Agos inho pa e de um concei o espon âneo de memó ia, que co esponde ao
conjun o das pe cepções sensi i as passadas.
“(...) enio in campos e la a p ae o ia memo iae, ubi sun hesau i innume abilium imaginum
de cuiuscemodi ebus sensis in ec a um.”77
Segundo es e concei o, po an o, a memó ia inclui como con eúdos os elemen os que ou o a
apa ece am no oco a a és dos sen idos do co po. Assim, inclui as pe cepções isuais que
já passa am pelo oco, bem como as pe cepções audi i as, as pe cepções ol ac i as, e c. A
insc ição des as pe cepções na es e a da memó ia deu-se a a és de uma eduplicação: as
pe cepções sensi i as, quando es a am no oco, o am sujei as a uma ‘cópia’, de al modo que
os duplicados dessas pe cepções passa am a cons a na memó ia como con eúdos dela. Em
suma, segundo essa concepção espon ânea, a memó ia esgo a-se nas éplicas das pe cepções
sensi i as que alguma ez passa am no oco.
Toda ia, no mesmo capí ulo VIII, Agos inho indica que a memó ia não se cinge a uma
77Con . X, VIII, 12.
45
al concepção espon ânea; is o é, exis e um ou o conjun o de con eúdos que ambém es ão
incluídos na memó ia: os esul ados de modi icações ei as sob e essas pe cepções.
“Ibi econdi um es , quidquid e iam cogi amus, el augendo el minuendo el u cumque a iando
ea quae sensus a ige i (...)”.78
Segundo Agos inho, de ac o, uma pessoa em a capacidade de aze pa a o oco con eúdos
da es e a da memó ia e, depois disso, subme ê-los a ans o mações. Is o acon ece de al
manei a que os esul ados dessas ans o mações são ambém eles eduplicados e gua dados
na memó ia. Assim, no im do capí ulo VIII, o concei o de memó ia inclui não só as
pe cepções sensi i as do passado, como ambém os esul ados de ope ações ei as sob e
elas.
De seguida, já no capí ulo IX, Agos inho ol a a assinala a inclusão de um no o conjun o
de elemen os na memó ia: os con eúdos in eligí eis.
“Sed non ea sola ges a immensa is a capaci as memo iae meae. Hic sun e illa omnia, quae
de doc inis libe alibus pe cep a nondum excide un (...). Nam quid si li e a u a, quid pe i ia
dispu andi, quo gene a quaes ionum, quidquid ho um scio (...)”.79
Ou seja, Agos inho pe cebe que as ideias de odo o géne o ( aciocínios, disciplinas, en idades
ma emá icas, e c.) ambém es ão con idas na memó ia. Es e ipo de con eúdos dis ingue-se
pela p op iedade de, em ez de dize espei o ao mundo sensí el (i.e., em ez de se a a de
con eúdos sensí eis), dize espei o ao pensamen o, i.e., ao in elec o. Pa a além disso, e al
como Agos inho sublinha, há uma ou a di e ença signi ica i a em elação aos ou os ipos de
con eúdo conside ados: é que enquan o es es úl imos en ol iam a posse de um eduplicado
de uma de e minação, os con eúdos in eligí eis en ol em a posse da de e minação o iginal.
“(...) nec eo um imagines, sed es ipsas ge o.”80
Po ou as pala as, no caso dos con eúdos in eligí eis, o con eúdo gua dado na memó ia
co esponde à p óp ia de e minação, e não me amen e a uma imagem dela.
No capí ulo XIII, Agos inho ol a a ala ga o concei o de memó ia, ao mos a que es a
con ém, além dos ou os ipos de con eúdos e e idos, ambém lemb anças de lemb anças.
“E go e meminisse me memini, sicu pos ea, quod haec eminisci nunc po ui, si eco dabo , u ique
pe im memo iae eco dabo .”81
Is o é, a memó ia em um ca ác e e lexi o, em i ude do qual se lemb a dos ac os pelos
quais se lemb ou. Di o de ou o modo, quando o oco impo a um con eúdo da es e a da
78Ibidem.
79Ibi. X, IX, 16.
80Ibidem.
81Ibi. X, XIII, 20.
46
memó ia, es a impo ação ica egis ada nessa es e a como lemb ança de lemb ança. Assim,
segundo es a no a comp eensão do concei o de memó ia, a memó ia não só se elaciona com
con eúdos di e en es de si (pe cepções, con eúdos in eligí eis, e c.), como, pa a além disso,
elaciona-se com os p óp ios con eúdos da memó ia.
Depois dis o, no capí ulo XIV, Agos inho descob e mais um ipo de con eúdos da memó-
ia: os con eúdos a ec i os.
“A ec iones quoque animi mei eadem memo ia con ine (...)”.82
Que dize , as lemb anças con idas na memó ia não se eduzem às pe cepções sensi i as
passadas, mas es endem-se ambém aos sen imen os passados. Finalmen e, no capí ulo 16o,
Agos inho ape cebe-se de que a memó ia inclui, pa a além de odos os ou os ipos de
con eúdos enume ados, ambém o p óp io esquecimen o.
“Quid, cum obli ionem nomino a que i idem agnosco quod nomino, unde agnosce em, nisi memi-
nissem?”.83
Ou seja, a memó ia é capaz de inclui a de e minação con á ia a si mesma.
Pe cebemos ago a que o pe cu so que acabámos de aze se aduz, po assim dize , no
le an amen o do ‘in en á io’ dos con eúdos incluídos na memó ia. Is o é, ao longo dos ca-
pí ulos, Agos inho oi descob indo di e en es di ecções den o da memó ia, cada uma das
quais inclui um ipo di e en e de con eúdos; com is o, ala gou sucessi amen e o concei o de
memó ia. Es e ala gamen o e e como esul ado que, no im do capí ulo XVI, a memó ia
e a comp eendida como incluindo não só pe cepções sensi i as passadas, mas ambém esul-
ados de ans o mações ei as sob e elas, con eúdos in eligí eis, lemb anças de lemb anças,
con eúdos a ec i os e, inalmen e, o p óp io esquecimen o.
Uma ez ap esen ado es e in en á io, de emos chama a a enção pa a alguns aspec os
que ca ac e izam o ala gamen o do concei o de memó ia que acabamos de esumi . Em
p imei o luga , esse ala gamen o en ol e uma explosão dimensional. Ou seja, a análise
ei a po Agos inho co esponde a uma sucessão de inc emen os, em i ude das quais se
descob e na memó ia no os maciços de con eúdos. Di o ainda de ou a manei a, o pe cu so
desenhado acima aduz-se numa mul iplicação das componen es que azem pa e da es e a
da memó ia. Assim, não acon ece que o ala gamen o dessa es e a se aduza na inclusão de
uns poucos con eúdos; acon ece an es que se aduz num aumen o incomensu á el das suas
dimensões.
Em segundo luga , a ampliação do concei o de memó ia oi ei a pela conside ação de
82Ibi. X, XIV, 21.
83Ibi. X, XVI, 24.
47
planos de de e minações. Po ou as pala as, a expansão não se deu con eúdo a con eúdo,
mas sim a a és da inclusão de sucessi os conjun os (i.e., aglome ados, blocos) de con eúdos.
De ac o, o concei o in ui i o de memó ia começou po so e um ala gamen o em i ude da
conside ação do conjun o dos esul ados das modi icações das pe cepções sensi i as passadas;
depois dis o, conside ou-se o conjun o dos con eúdos in eligí eis; depois, o conjun o das
lemb anças das lemb anças, e assim sucessi amen e. Des a o ma, o p og esso oi ei o
conjun o a conjun o, is o é, plano a plano.
Em e cei o luga , os con eúdos de um de e minado plano são quali a i amen e di e en es
dos con eúdos dos ou os planos. O que is o que dize é que os con eúdos sucessi amen e
conside ados no ala gamen o do concei o de memó ia não são simplesmen e elemen os adi-
cionais: são, pa a além disso, elemen os quali a i amen e di e en es dos elemen os a é en ão
conside ados. Is o é, consis em em elemen os de di e en es ipos, de di e en es na u ezas.
Assim, po exemplo, os con eúdos in eligí eis êm uma na u eza di e en e da na u eza das
lemb anças das pe cepções sensi i as passadas, já que aqueles não esul am de uma edu-
plicação. Da mesma manei a, as lemb anças de lemb anças são quali a i amen e di e en es
que dos con eúdos in eligí eis, que das lemb anças de pe cepções, uma ez que, como
imos, en ol em um mo imen o e lexi o da memó ia. Assim, o ala gamen o do concei o
de memó ia en ol e uma he e ogeneidade quali a i a: os di e en es planos são he e ogéneos
uns em elação aos ou os. Ou ainda, a a-se de um ala gamen o quali a i o do concei o
de memó ia.
Em qua o luga , o ala gamen o do concei o de memó ia e ela uma memó ia ca ac e i-
zada po uma ex ao diná ia capacidade quali a i a e quan i a i a. Po um lado, ao inclui
em si mesma uma a iedade de ipos he e ogéneos de con eúdos, a memó ia e ela uma
lexibilidade quali a i a espan osa. Que dize , inclui múl iplas di ecções he e ogéneas em
simul âneo. Po ou o lado, não acon ece apenas que haja di e en es ipos de con eúdos;
acon ece que há incon á eis con eúdos de di e en es ipos. Assim, po exemplo, uma pes-
soa não se limi a a e pe cepções sensi i as passadas: em, mais do que isso, inume á eis
pe cepções dessas. Des a o ma, a memó ia co esponde a um domínio quan i a i amen e
as íssimo.
A es e p opósi o, de emos no a que um ac o decisi o pa a o imenso ca dinal da me-
mó ia é o empo. Com e ei o, em cada no o ins an e, o oco ans e e uma éplica do seu
con eúdo pa a a es e a da memó ia. Des a manei a, o ca dinal do in en á io da memó ia
c esce ini e up amen e, de al o ma que as dimensões da memó ia aumen am em egime
48
O segundo aspec o en ol ido na con usão em que e com uma peculia o ma de p e-
sença: a p esença ocul a. Em ez de acon ece que a ede c iada pelo en e ecimen o de
de e minações seja e iden e (i.e., apa eça decla ada ou mani es a no p óp io oco), acon ece,
pelo con á io, que ende a passa despe cebida. Po ou as pala as, embo a as de e mi-
nações que se encon am no oco es ejam c uzadas com ou as de e minações, quem ê as
de e minações p esen es no oco (no caso, o lenço) ende a não se ape cebe des es c u-
zamen os. Assim, quando a pessoa em causa conside a uma ce a de e minação, não se
ape cebe de que ela eme e pa a ou as de e minações, depende delas, e c. O que is o az
é que es as úl imas iquem escondidas. Ou seja, po que a pessoa não se ape cebe de que a
de e minação conside ada eme e pa a ou as de e minações, es as úl imas icam ocul as.
Des e modo, embo a as de e minações em causa es ejam p esen es – já que a de e mina-
ção mani es a (com que se em con ac o) es á en aizada nelas –, es ão p esen es de o ma
ocul a.87
To nemos a conside a o exemplo do lenço. Se é e dade que odas as p op iedades e e i-
das acima ( esi ência, subsis ência no empo, e c.) es ão en ol idas na manei a como eu ejo
o lenço, é igualmen e e dade que eu não me ape cebo desse en ol imen o. Is o é, quando
eu ejo o lenço, não me ape cebo de que o modo como eu o ejo es á a se decisi amen e
in luenciado po essas p op iedades.88 Po isso, es as p op iedades icam escondidas. Assim,
embo a a de e minação ‘lenço’ eme a pa a ou as de e minações (‘ esis ência’, ‘subsis ência
no empo’, e c.), es as de e minações icam ocul as.
É decisi o pe cebe mos que, mesmo es ando ocul as (e mesmo es ando o a dele), as
87Podemos imagina um espec áculo de ci co. Supunhamos que um a is a es á a aze habilidades no a . Os
espec ado es icam espan ados com o ac o de ele consegui execu a amanhas p oezas sozinho. O que se passa,
con udo, é que o a is a es á p eso po uns ios a dois ajudan es. Es es ajudan es puxam os ios nos momen os
em que o a is a es á a execu a as habilidades mais di íceis. Simplesmen e, os ios são demasiado inos pa a se em
is os. Po isso, os espec ado es julgam que o a is a es á sozinho. Ou seja, po que os espec ado es não se ape cebem
dos ios que ligam o a is a aos seus ajudan es, julgam que aquele es á sozinho. Des a o ma, os ajudan es icam
escondidos, ocul os. Em esumo, embo a o a is a es eja a se ajudado – de al manei a que os espec ado es só o
êem aze aquelas habilidades po que ele em ajuda –, acon ece que, uma ez que os ios que o ligam aos ajudan es
passam despe cebidos, es es úl imos icam ocul os.
Es e exemplo põe, de ce a o ma, na pis a daquilo de que se a a. Mas, po ou o lado, claudica – e de al
manei a que é a sua insu iciência que le a ao pon o decisi o. Na ilus ação a que acabamos de eco e , aquilo que
apa ece no palco es á mo ido po ac o es não decla ados nele e que são, po assim dize , eliminados: icam o a
de is a. Toda ia, o que acon ece no caso da isão do lenço é mui o di e en e. Com e ei o, nes e caso, aquilo que
co esponde aos ios in isí eis e aos ajudan es em de es a , de algum modo, a se is o. Is o é, a p óp ia ‘posse’ do
lenço como con eúdo mani es o (p esen e no oco, econhecí el e econhecido nele) implica que o p óp io olha que
es á a e o lenço enha consigo – e enha consigo no e -o-lenço – odas as de e minações que es ão implicadas na
ixação do eo com que o lenço imedia amen e lhe apa ece. Assim, esse olha em consigo, de alguma manei a, a
esis ência, a subsi ência no empo, a ausência de ac i idade p óp ia, a exis ência pública, e c., sem as quais o lenço
apa ece ia com um aspec o mui o di e en e. Que dize , se o espec ado do ci co não isse os ios e os ajudan es,
ambém não pode ia e o p óp io a is a. Po isso, o ulc o do enómeno da con usão é nem mais nem menos
do que o acon ecimen o de o e -o-que-se- ê não acompanha a sua p óp ia composição (deixa o a de is a uma
signi ica i a pa e do que es á a e : do que em de es a a e pa a e o que ê).
88É ce o que, depois de e lec i sob e elas, consigo ape cebe -me de que as associo ao lenço. Con udo, o que
ende a acon ece é que eu ejo o lenço pu a e simplesmen e sem epa a nelas.
55

de e minações ocul as es ão p esen es no p óp io oco. Realmen e, se não es i essem p e-
sen es, eu nunca e ia um lenço como esis en e, nem como incapaz de se mo e po si
mesmo, nem como ealidade que pe du a, e c. O a, acon ece que eu o ejo des a manei a.
Is o é, ejo-o como esis en e, como incapaz de se mo e po si mesmo, e c. Assim, as
de e minações ‘ esis ência’, ‘incapacidade de mo imen o p óp io’, e c. es ão p esen es no
oco; o que acon ece é que es ão escondidas. Em suma, essas de e minações es ão p esen es
de o ma ocul a, silenciosa, subme sa.
Indicámos acima que a es u u a da implicação do sen ido em que e com a ci cuns ân-
cia de as de e minações que es ão no oco eme e em, pela manei a como são comp eendidas,
pa a ou as de e minações. O que es amos ago a a pe cebe é que es as úl imas ambém es-
ão, de alguma manei a, p esen es no oco, embo a se man enham ocul as ou subme sas (não
mani es as nele). Assim, as de e minações mani es amen e p esen es no oco eme em, pelo
seu sen ido, pa a de e minações só ocul amen e p esen es (e que, nesse sen ido, não igu am
nele). Po an o, como suge imos, os dois aspec os en ol idos na con usão – implicação do
sen ido e p esença ocul a – es ão in imamen e elacionados um com o ou o.89
Uma ez desc i os os dois elemen os da con usão, podemos pe cebe melho em que
consis e uma ep esen ação con usa e uma de e minação con usa. Uma ep esen ação é
con usa quando es á ca ac e izada pelos dois elemen os da con usão. Da mesma o ma, uma
de e minação de uma ep esen ação é con usa quando es á ca ac e izada po esses mesmos
elemen os. Que dize , uma ep esen ação ou de e minação é con usa quando, po um lado,
p essupõe ou as de e minações, e quando, po ou o, es as úl imas es ão ocul as – de al
manei a que a p imei a em um ca ác e mani es o e é econhecida, enquan o as úl imas
passam despe cebidas, sem que se enha ideia delas. É po is o que uma de e minação
con usa é aquela que não es á a se cabalmen e acompanhada pela a enção de quem a em:
é que há de e minações que es ão p essupos as nela e que se man êm como que clandes inas.
Re omemos o exemplo do lenço. A de e minação ‘lenço’ p essupõe ou as de e minações –
‘ esis ência’, ‘incapacidade de mo imen o p óp io’, e c. – que es ão ocul as. Uma ez que
89A implicação de sen ido não e ia de en ol e necessa iamen e uma p esença ocul a, embo a es a úl ima i esse
de en ol e necessa iamen e a implicação de sen ido. Conside emos a p imei a des as duas a i mações. Conseguimos
concebe uma implicação de sen ido que não en ol esse p esença ocul a: bas a ia que odas as de e minações pa a
que ou as de e minações eme em es i essem mani es as. Conside emos ago a a segunda a i mação. Se há uma
p esença ocul a, é po que há de e minações sec e amen e implicadas na manei a como se ê. Ou seja, no ulc o das
de e minações mani es as, há de e minações ocul as que es ão e ec i amen e p esen es. Mas is o que o çosamen e
dize que as de e minações mani es as es ão apoiadas nas – ou a p essupo as – de e minações ocul as. Is o é, as
de e minações ocul as es ão a in luencia a o ma como as de e minações mani es as são pe cebidas – e an o que
dize que es ão a in luencia o p óp io olha que não se consegue ape cebe delas. Com e ei o, se assim não osse
– i.e., se as de e minações ocul as não i essem qualque in luência nas de e minações mani es as –, não ha e ia
nenhuma azão pa a se a i ma que as de e minações ocul as es ão p esen es. Po isso, se há p esença ocul a, há
necessa iamen e implicação de sen ido.
56
es as de e minações es ão ocul as, a a enção não consegue acompanhá-las. Assim, a a enção
não consegue acompanha udo o que es á en ol ido na de e minação ‘lenço’. Po isso, a
de e minação ‘lenço’ é uma de e minação con usa.
Não podemos segui aqui odos os p oblemas que se põem em o no do enómeno da
con usão. Limi amo-nos a e e i alguns, que são mais impo an es pa a aquilo que aqui se
acha em causa. Em p imei o luga , o enómeno da con usão le an a um p oblema de in eli-
gibilidade; es e p oblema em que e com a simul ânea p esença e ausência dos con eúdos
‘clandes inos’. Que dize , como pode acon ece que, po uma pa e, esses con eúdos se
man enham o a de is a – de al modo que passam comple amen e despe cebidos –, mas,
po ou a pa e, enham de es a de alguma o ma a se is os – já que, se assim não osse,
não se pode ia es a a e o que se ê?
Um segundo p oblema em que e com a ques ão de sabe que é que, naquilo que nos
apa ece (is o é, naquilo que nos apa ece de o ma mani es a), em ‘passagei os clandes inos’
como os e e idos. Po ou as pala as, uma segunda ques ão undamen al que se põe é
a de sabe que é que, den o do p óp io oco (den o dos con eúdos que habi ualmen e
nos apa ecem nele), possui um ca ác e con uso no sen ido indicado. A é que pon o ai
a con usão den o do oco? Que é que, nos con eúdos mani es os que nos apa ecem, es á
ma cado po es e ipo de ‘de ei o’ – e que é que, se é que há alguma coisa, não o es á?
Is o le a-nos, inalmen e, a uma e cei a ques ão undamen al: se o p óp io oco es á
ocupado po con eúdos con usos, a é onde ai a ede de implicações de que os elemen os
disponí eis no oco cons i uem o pon o de pa ida? Di o de ou a manei a, se aquilo que
nos apa ece decla ado no oco é a pon a de um icebe g que se man ém subme so, que icebe g
é esse – qual é a sua ex ensão, que é que o compõe, e c.?
Es e ápido bosquejo pe mi e pe cebe a a inidade que há en e o enómeno da con usão
e a ques ão da memó ia – al como es a se encon a desenhada no li o X das Con issões.
Mas, po ou o lado, ambém nos o nece como que o meio de con as e pa a comp eende -
mos melho a especi icidade da o ma como o enómeno da con usão es á, po uma pa e,
comp eendido po Agos inho nas Con issões e cons i ui, po ou a, uma peça undamen al
da an opologia augus iniana da imago Dei.
No que diz espei o à a inidade, ambém se e i ica que, no li o X das Con issões, o que
es á em causa é o ac o de aquilo a que chamámos o oco es a em ligação com qualque coisa
como um sabe subme so (um maciço de sabe subme so) com a ampli ude e a composição
que, po um lado, Agos inho p ocu a pô em e idência e, po ou o, en ámos esumi acima.
57
Na e dade, ambém pa a Agos inho não acon ece que haja só o oco do que p op iamen e
se em de o ma decla ada – e que se pe cebe mui o bem que se em –, de al manei a que
o pa imónio de sabe que de cada ez possuímos se esgo e nisso. Acon ece an es que esse
oco, que é con apos o à memó ia, cons i ui apenas uma pequena pa e do nosso pa imónio
de sabe . Com e ei o, há odo um maciço de sabe subme so co esponden e àquilo a que,
pelas azões indicadas, Agos inho chama memó ia.
Pa a além disso, ambém pa a Agos inho, não acon ece que as duas componen es opos as
do nosso pa imónio de sabe – o oco e a memó ia – es ejam comple amen e sepa adas
uma da ou a, es anques uma em elação à ou a. Ve i ica-se, pelo con á io, que aquilo a
que chamámos o oco (o oco da ap esen ação mani es a) es á sec e amen e ol ado pa a a
memó ia, so e in e e ência po pa e da memó ia, é is o à luz da memó ia, e c. Assim,
aquilo que nós emos (o que que dize , em pa icula , aquilo que nós emos no p óp io
oco) se decide em g ande medida nesse sabe pa adoxal em ângulo cego pa a que a noção
augus iniana de memó ia eme e.
No que diz espei o ao con as e (ou di e ença) en e aquilo sob e que Agos inho se
deb uça e a ques ão da con usão, não é es e o luga pa a examina al pon o em odos os
seus aspec os. Limi amo-nos a indica aqueles que são mais decisi os. É cla o que, in e,
Agos inho se deba e com a ques ão da con usão. Mas é igualmen e cla o que a a a de
o ma mui o pa icula .
Po um lado, a sua análise do p oblema da con usão em como io condu o a ques ão da
memó ia: uma a e iguação que a) pa e do concei o de memó ia e b) a pouco e pouco (como
imos) ai modi icando esse concei o (mas sem nunca deixa de o e como io condu o ).
Po ou o lado, Agos inho não se p eocupa em aze um le an amen o de udo quan o
po en u a ha e á de con uso na p óp ia es e a do oco (do oco que é con apos o à memó-
ia), nem se p eocupa em pa i disso pa a aze um le an amen o de a é onde le am os ios
(ou as edes de implicações) de que se encon am pon os de pa ida na p óp ia es e a dos
con eúdos decla ados. Na e dade, pa ece mui o mais in e essado em medi a ampli ude –
e aze como que um ecenseamen o global – do campo da memó ia (is o é, do sabe sub-
me so). Realmen e, po um lado, põe a ónica na ma cação da ex ao diná ia capacidade
da memó ia (is o é, na ma cação das o alidades de o alidades, do c escendo de o alida-
des cada ez mais admi á eis que se descob em no campo da memó ia); e, po ou o lado,
ambém põe a ónica na ma cação da ex ao diná ia he e ogeneidade da memó ia (que a
he e ogeneidade de modos de se que sepa a as o alidades e e idas umas das ou as, que a
58
he e ogeneidade que sepa a algumas delas de nós mesmos).90 Finalmen e, é udo is o (essa
ex ao diná ia ampli ude, quan i a i a e quali a i a) que acaba po se descobe a como
on e sec e a de in e e ência na p óp ia es e a do oco. Ou seja, é isso que é descobe o
como aquilo com que o oco do sabe mani es o (do opos o da memó ia) es á de al modo
em ligação que é à luz disso que nós emos os p óp ios con eúdos mani es os.
São á ias as azões po que é assim (que dize , po que as análises de San o Agos inho
omam es e umo), e nada do que dissemos p e ende pô em causa a legi imidade de se
segui al umo, ou de se e a p io idade que Agos inho pa ece e . Mas, mesmo que não
caiba analisa nada dis o com mais a enção, há um pon o que de emos e p esen e. Esse
pon o em jus amen e que e com o i ine á io que as análises do li o X das Con issões
omam a pa i daqui. Como se sabe, odo o le an amen o de que en ámos da uma ideia
nos pa ág a os an e io es so e uma in lexão, em i ude da qual Agos inho passa a pouco
e pouco a conside a aquilo que podemos desc e e como a inclusão do p óp io Deus no
e i ó io da memó ia (is o é, no e i ó io do sabe subme so que o concei o augus iniano
de memó ia, al como es á ap esen ado nas Con issões, acaba po con igu a ).
Já amos e como é assim. O que ago a impo a ealça é que as ónicas pos as po
Agos inho (quando, sem a designa assim, se deba e com a ques ão da con usão) êm que
e p ecisamen e com is o. Como dissemos, em úl ima análise, o que mais p eocupa San o
Agos inho é inca a ex ao diná ia capacidade (po assim dize , quan i a i a e quali a i a)
dos palácios da memó ia. Pa a além disso, e como ambém no ámos, Agos inho á-lo a a és
de dois pon os. Po um lado, insis e na ideia de ampli ude – is o é, em como, po uma
pa e, apesa de oda a nossa ini ude,91 emos e dadei amen e ‘mundos e undos’ na es e a
da memó ia e, po ou a pa e, es a úl ima se ca ac e iza po se diame almen e opos a
à exiguidade do oco. Po ou o lado, insis e na ideia de he e ogeneidade (de dis ância
quali a i a, das dis âncias de modos de se que são galgadas pela memó ia) – que dize ,
insis e na o ma como a memó ia é capaz de alcança não só modos de se comple amen e
he e ogéneos en e si, mas ambém comple amen e he e ogéneos ao nosso.
O a, o que es á a se p epa ado no pe cu so que an o insis e nes es dois pon os não
é senão o descob imen o da possibilidade de que ambém o p óp io Deus es á, de ce a
o ma, incluído na memó ia. Que dize , a a-se do descob imen o da possibilidade de que
90O que is o que dize é que a memó ia acaba po inclui modos de se comple amen e desp opo cionados em
elação ao nosso p óp io modo se se . Assim, pa a da dois exemplos, a memó ia, ao inclui as ideias, inclui a ideia de
e e nidade – comple amen e despo po cionada em elação à nossa condição mo al –, assim como a ideia da e dade
absolu a – ambém ela comple amen e desp opo cionada em elação à nossa condição ini a.
91E da p óp ia ini ude que, de ce a o ma, nos echa na es e a do oco, e nos impede de e conhecimen o da
memó ia (is o é, o nosso sabe subme so).
59
a memó ia em capacidade pa a nada menos do que Deus. Di o ainda de ou a manei a, o
que se desenha é a ex ao diná ia capacidade de se encida a mais absolu a das dis âncias:
aquela que sepa a a c ia u a do c iado .
A ques ão es á em sabe como – is o é, como é que Agos inho dá esse passo, como é que
sus en a que pode se assim, e c. É pa a essa ques ão que nos ol amos ago a.
2.2 No ícia de supe la i o
An es do mais, de emos chama a a enção pa a um pon o decisi o. A o ma como San o
Agos inho ge a a in lexão e e ida acima (segundo a qual se ol a pa a a inclusão de Deus na
memó ia) oma, de ce a manei a, um umo su p eenden e. De ac o, em ez de se di igi a
con eúdos que es abeleçam uma elação ób ia com Deus (ou com aquilo em que, de odo o
modo, endemos a pensa quando se in oduz o concei o de Deus), Agos inho oca elemen os
que êm mui o mais que e com a nossa elação connosco p óp ios. Is o p ende-se com um
en endimen o mui o pa icula que Agos inho az da no i ia Dei. Es e en endimen o é al
que Agos inho não si ua a no i ia Dei onde es a íamos à espe a. Com e ei o, em p imei o
luga , Agos inho localiza-a na es e a da memó ia (e não no oco, onde se ia e iden e); em
segundo luga , az-lhe co esponde um con eúdo comple amen e inespe ado; em e cei o
luga , e em i ude dos pon os an e io es, a ibui-lhe unções mui o di e en es daquelas que,
à pa ida, se iam an ecipá eis.
Is o pe mi e-nos conclui que a an opologia augus iniana da imago Dei não se limi a a
aze uso de um concei o p é io de Deus (e da no i ia Dei) e a en a mos a que Deus es á
p esen e onde não julgá amos. Na e dade, passa po mui o mais do que isso: passa po uma
modi icação an o da noção de no i ia Dei como da p óp ia noção de Deus. Realmen e, Deus
é edescobe o na an opologia da imagem: não só no que em que e com a ci cuns ância
de es a in in e io e homine,92 mas ambém no que em que e com o seu p óp io eo .
Que dize , o Deus que se descob e a a és da an opologia da imagem – o Deus ‘in e io ’,
i.e., o Deus da memó ia, o Deus que habi a in in e io e homine – não é bem o mesmo que
o Deus que é concebido sem que essa concepção en ol a a dimensão ‘in e io ’ a que aqui
nos e e imos. Is o implica que, ao con á io do que pode pa ece , a ‘ e são es i amen e
imanen e’ da an opologia da imago Dei não em me amen e unções auxilia es de e i icação
ou co obo ação em elação à e são eológica dessa an opologia. Na e dade, ambém pode
desempenha um papel decisi o como on e de cla i icação, co ecção e ap o undamen o do
92De Ve . Rel. XXXIX, 72.
60

p óp io concei o de Deus com que a pe spec i a eológica ope a.
2.2.1 Von ade de elicidade
Segundo Agos inho, en e os objec os que não são dados a e imedia amen e, há um que
se des aca. T a a-se de uma no ícia de supe la i o, is o é, de uma no ícia de qualque
coisa como uma ealidade insupe á el. Pa a pe cebe mos melho o que es á em causa, con-
side emos a seguin e passagem do li o XIII do De T ini a e:
“(...) quoniam e um es quod omnes homines esse bea i elin , idque unum a den issimo amo e
appe an , e p op e hoc ce e a quaecumque appe un ; nec quisquam po es ama e quod omnino
quid el quale si nesci , nec po es nesci e quid si quod elle se sci ; sequi u u omnes bea am
i am scian . Omnes au em bea i haben quod olun (...)”93
Es e echo ap esen a uma ca ac e ização sumá ia da on ade da elicidade (bea a i a).
Como en a emos mos a , a elicidade é p ecisamen e a ealidade insupe á el de que o
homem em no ícia. Baseados no exce o ci ado, sublinhamos á ios aspec os.
A a i mação cen al des a passagem é a de que odos os homens que em se elizes (omnes
homines esse bea i elin ). Pa a pe cebe mos con enien emen e es a a i mação, de emos
começa po conside a dois pon os p elimina es. Em p imei o luga , de aco do com o
echo, a elicidade equi ale a um es ado de uma pessoa – po assim dize , a um es ado de
si, a um es ado p óp io. É is o que Agos inho que dize quando ala em se eliz (bea us
esse). Felicidade, po an o, não é uma de e minada ealidade ex e io à pessoa que em
no ícia dela: é sim um es ado dessa pessoa. Po conseguin e, quando alguém que se eliz,
o que se passa é que que e -se a si mesmo nou o es ado. Em pa icula , que e -se a si
mesmo no es ado ‘ elicidade’.
Em segundo luga , o echo aqui em análise indica que a elicidade não equi ale sim-
plesmen e a um es ado pessoal sem mais, mas sim ao es ado pessoal supe la i o (omnes
au em bea i haben quod olun ). Ou seja, uma ez a ingido o es ado elicidade, nada mais é
pedido. Nesse es ado, po an o, a pessoa es á comple amen e p eenchida: não há nada que
lhe aça al a, e não há nada que enha ac escen a o que que que seja à si uação em que
ela se encon a. Assim, a elicidade co esponde ao es ado de pleni ude absolu a. Ou ainda,
co esponde ao es ado sup emo de si, um es ado o almen e insupe á el.
Vis os is o, podemos analisa a a i mação cen al do echo em discussão: odas as pessoas
que em se elizes (ou, o que é o mesmo, odas as pessoas êm on ade da bea a i a).94 Sob e
93De T in. XIII, V, 8.
94Es a a i mação encon a-se abundan emen e no co pus augus iniano. Veja-se, po exemplo, Con . X, XX, 29,
Con . Acad. I, II, 5, De Bea. II, 10, De Ci . X, 1, De Lib. A b. I, XIV, 30, ibi., II, IX, 26, ibi. III, VII, 21, De Mag.
61
es a a i mação, há á ios aspec os a pô em e idência.
Um p imei o aspec o em que e com o es a u o da a i mação em causa. Es a a i mação
co esponde como que a uma gene alização daquilo que Agos inho e i ica que se passa
consigo mesmo. Expliquemo-nos melho . Ao e lec i sob e si mesmo, Agos inho descob e
que a sua on ade es á inculada à elicidade. Que dize , ao deba e -se com o p oblema,
pe cebe que não pode que e ou a coisa que não a elicidade, já que, em udo aquilo que
que , que incon o na elmen e se eliz. Es a e i icação le a-o a pe gun a -se se pode á
ha e alguma on ade humana que uja a es e pad ão. Po ou as pala as, ao pe cebe que
não pode deixa de que e se eliz, pe gun a-se se se á concebí el que algum homem alguma
ez o possa. Acaba po esponde nega i amen e a es a pe gun a – e é isso que o le a a
decla a que odos os homens que em se elizes. Assim, a a i mação cen al do echo aqui
em análise es á assen e, po um lado, naquilo que Agos inho e i ica que se passa consigo e,
po ou o, numa análise – que em um ca ác e como que de expe imen ação – sob e aquilo
que ele concebe que se passa com os ou os homens.95
Um segundo aspec o em que e com a não indi e ença ao melho pa a si. Como come-
çámos po e , a elicidade aduz-se no es ado supe la i o de si. É p ecisamen e is o que
Agos inho es á a de ende quando enuncia que odos os homens êm uma on ade incon-
o ná el de elicidade: odos os homens que em – e não podem deixa de que e – o es ado
supe la i o de si. Segundo Agos inho, po an o, cada homem não só não é indi e en e ao que
se passa consigo, como, mais especi icamen e, es á inaliena elmen e in e essado em alcança
a pleni ude de si – um es ado de si mesmo igual ao supe la i o.96
Um e cei o aspec o passa pela no ícia. Uma qualque on ade es á adicada numa
no ícia, i.e., num conhecimen o, numa ideia. Di o de ou a manei a, só há on ade de um
objec o se hou e no ícia dele. É is o que se dep eende da exp essão “nec quisquam po es
ama e quod omnino quid el quale si nesci ”.97 Assim, po de ás da on ade de elicidade,
XIV, 46, De Mo . I, III, 4, De Na . e G a . XLVI, 54, ibi. XLIX, 57, De O d. I, VIII, 24 De T in. XI, VI, 10, ibi.
XIII, III, 6 a XIII, VIII, 11, ibi. XIII, XX, 25, ibi. XIV, XV, 21, In Ps. 32, en. II, s. II, no15, Re ac. I, 14.
95É ce o que es e mo imen o (de um Agos inho que se deba e consigo, que o mula exp essamen e a pe gun a
de sabe se se pode concebe um pon o de is a humano que não es eja moldado po um desejo de elicidade, e c.)
não es á exp esso, an o quan o sabemos, em nenhum ex o de Agos inho. Apesa disso, é um al mo imen o que
se acha na aiz da a i mação aqui em análise. Vale a pena no a , en e an o, que, pa a Agos inho, a conclusão de
que não se pode concebe uma on ade não inculada à elicidade é ão e iden e pa a qualque pessoa que a é os
Académicos, pa a quem udo é dúbio, a acei am (c . De T in. XIII, IV, 7).
96Con ém al ez cla i ica es e aspec o. Quando dizemos que o homem es á semp e in e essado no supe la i o de
si, o que es amos a dize pode se pos o da seguin e manei a: se ele pude escolhe en e e cinco objec os e e
se e, escolhe á e se e; se pude escolhe en e se e e dez, escolhe á dez; se pude escolhe en e dez e cem, escolhe á
cem. Is o signi ica que se acha dominado po uma lógica aumen a i a – que em jus amen e como pon o de uga o
supe la i o, o insupe á el.
97Sob e a ese de que o amo de um objec o eque o conhecimen o desse objec o, eja-se De T in. X, I, 1 a 3.
Pa a o caso especí ico em que esse objec o co esponde à elicidade, eja-se Con . X, XX, 29.
62
há uma no ícia dessa elicidade.
O qua o aspec o diz espei o ao ca ác e cons i u i o da on ade de bea a i a. Segundo
Agos inho, a on ade de elicidade do se humano não co esponde a qualque coisa de
ad en ício. Pelo con á io, a a-se de uma ealidade cons i u i a.98 Ou seja, o homem es á
cons i uído com on ade de bea a i a, de al manei a que essa on ade é qualque coisa de
in ínseco à sua iden idade.
Es e ca ác e cons i u i o ou in ínseco da on ade de elicidade em á ias implicações.
Em p imei o luga , se a on ade é cons i u i a, que dize que é uni e sal. Is o é, diz
espei o a odo e qualque homem. Em segundo luga , sendo cons i u i a, é necessa iamen e
pe manen e. Ou seja, equi ale a uma on ade que acompanha odos os momen os da ida
humana. Assim, qualque que seja o momen o da sua ida, um homem, nesse momen o, que
se eliz. Em e cei o luga , a on ade de elicidade é ambém necessa iamen e indespedí el,
inanulá el. Realmen e, se ela es á insc i a na cons i uição do homem, a única manei a de ele
a anula se ia deixa de se homem. Po isso, enquan o o i o, ai es a necessa iamen e
ol ado pa a a bea a i a, in e essado nela, e de al o ma que não pode deixa de o es a .
Em qua o luga , a on ade aqui em causa é imu á el. Não se a a apenas de se inanulá el;
acon ece ambém que o homem não a pode edi ecciona . Assim, o al o des a on ade é
semp e o mesmo: a bea a i a.
Um quin o aspec o en ol ido na a i mação cen al é que a bea a i a éinalcançá el no
empo.99 Po um lado, como suge imos, a a essia da ida es á ma cada po uma elação
pe manen e e indespedí el com a bea a i a. Po ou o lado, es á iguamen e ma cada po
uma ausência do que que que seja que co esponda a isso. E ec i amen e, mesmo quando o
es ado de si so e uma melho ia, esse no o es ado ica ainda o almen e aquém da pleni ude
absolu a en ol ida na ideia de bea a i a. Is o signi ica que a ida se acha con inuamen e
e e ida a uma de e minação que nunca se e i ica. Ou seja, a ida ca ac e iza-se pela
insóli a p op iedade de a on ade humana es a como que p isionei a de uma ealidade que
nunca se e i ica.
Mas is o não é udo. Segundo Agos inho, não acon ece simplesmen e que, du an e a
ida, uma pessoa nunca chegue à elicidade. Pa a além disso, a ida em a o ma de uma
negação da elicidade. Pode ia da -se o caso de a ida não inclui em si a elicidade, mas
de al manei a que admi isse es ados semelhan es ou p óximos a ela. O a, não é nada disso
que se passa. Realmen e, pa a Agos inho, a ida não só não admi e a elicidade, como, pa a
98Es a ideia encon a-se exp essamen e incada, po exemplo, em De Lib. II, IX, 26, onde Agos inho a i ma que,
na base de uma on ade de elicidade, es á imp essa em nós uma no io bea i udinis.
99C . De T in. XIII, VII, 10.
63
além disso, é diame almen e opos a a ela.
Pa a pe cebe mos melho o que es amos a a i ma , conside emos o seguin e pon o: se
uma pessoa em on ade de elicidade, e se a elicidade co esponde a qualque coisa de
ex ao diná io, en ão a pessoa em ques ão em odo o in e esse em que ela se p olongue
no empo. Is o é, ica ia o almen e desapon ada se a bea a i a que an o almeja não se
p olongasse inde inidamen e. Assim, en ol ida com a sua on ade de bea a i a, a pessoa
em causa em necessa iamen e uma on ade de e e nidade, i.e., uma on ade de ausência
de limi e empo al.100 Sucede que a pessoa es á pe manen emen e pe an e a possibilidade
da mo e: pode mo e a cada ins an e. Po isso, a sua pe ição de e e nidade es á a se
de ubada a cada ins an e. Des e modo, não se a a simplesmen e de não alcança a
elicidade: a a-se de se encon a semp e na iminência de a pe de .
Agos inho exp ime es a oposição d ás ica en e a ida humana e a elicidade a a és da
noção de emp a io.101 Uma al noção exp essa, po an o, a negação sis emá ica do que é
pedido pela on ade de supe la i o. Ou seja, exp essa uma negação acabada, pe manen e e
comple a dessa on ade. Di o ainda de ou a o ma, a a-se de o homem se encon a , po
assim dize , nos an ípodas daquilo que a sua cons i uição pede. Baseados em alguns passos
do li o X das Con issões, de emo-mos ago a em alguns aspec os en ol idos na noção de
emp a io. Aludindo ao li o de Job, Agos inho pe gun a:
“Numquid non emp a io es i a humana supe e am?”102
A noção de emp a io equi ale à noção de p o ação, que en ol e qua o ideias. Em p imei o
luga , en ol e a ideia de ince eza: o sucesso an o pode se bom como mau.103 Que dize ,
o homem não sabe qual ai se o des echo do seu desempenho i al. Em segundo luga ,
p o ação en ol e a ideia de uma ausência de descanso:
“Quis in e haec medius locus, ubi non si humana i a emp a io?”.104
Po ou as pala as, a ida sob e a e a é desc i a como o con á io do descanso absolu o,
is o é, como o con á io da comple ude. Assim, mesmo quando há aleg ias, há a possibilidade
de is ezas u u as:
“P ospe a in ad e sis deside o, ad e sa in p ospe is imeo.”105
100Agos inho ap esen a exp essamen e es a associação em De T in. XIII, VII, 10.
101C . Anno . in Job 7, Con . X, XXVIII, 39.
102Con . X, XXVIII, 39. C . Job 7, 1.
103Es a ideia es á exp essa no comen á io de Agos inho ao li o de Job: “Ten a ionem e o dici amquam s adium
ce aminis, ubi inci homo, el inci u ” (c . Anno . in Job, 7).
104Con . X, XXVIII, 39.
105Con . X, XXVIII, 39.
64
esul ado de uma sequência de de i ações em elação ao in e esse o iginal – o in e esse pela
i a bea a. Ou, po ou as pala as, o in e esse pela ida mili a é o esul ado de sucessi as
des o malizações da i a bea a. Em suma, o in e esse pela ida mili a é um in e esse pela
i a bea a des o malizado.
O que acabamos de desc e e não ale só pa a o in e esse pela ida mili a : ale pa a
qualque ou o desejo. Qualque que seja o desejo que uma pessoa enha – come um
chocola e, aze despo o, e uma exposição, i a um cu so supe io , emig a , se mili a ,
não se mili a , ajuda um amigo, ganha o p émio Nobel, e mui os ilhos, engana ou a
pessoa, e paz, se p eguiçoso, se pon ual, e c. –, esse desejo é o iginalmen e um desejo
de i a bea a, de al manei a que co esponde a um desejo de i a bea a des o malizado.118
Assim, o in e esse po um qualque objec o nunca é di ec o – ou, o que é o mesmo, um
desejo apa en emen e a ulso nunca é apenas um desejo a ulso.119
Uma ez conside ada (em jei o de ap oximação) a es u u a de des o malização da eli-
cidade, impo a chama a a enção pa a a absolu a he e ogeneidade que sepa a es a úl ima
da ida humana. Vimos que a bea a i a co esponde a qualque coisa de desp opo cional
em elação à ida humana – e is o po duas azões. Po um lado, en ol e equisi os ( ais
como o p eenchimen o pleno e e e nidade) que os con eúdos da ida humana não conseguem
cump i ; po ou o lado, em uma iden idade em úl ima análise desconhecida, is o é, uma
iden idade que es á pa a além daquilo que o homem consegue concebe .
Mas há ainda dois ou os ac o es que es ão na base do ca ác e desp opo cional ou
he e ogéneo. Um p imei o em que e com a o al es anheza em elação àquilo a que
chamámos o oco da consciência. A bea a i a é ão pouco um con eúdo do oco que, mesmo
quando es á a se conside ada exp essamen e, não apa ece no oco. Que dize , mesmo
quando uma pessoa pensa explici amen e sob e ela, con inua sem a e – jus amen e po
causa do seu ca ác e o mal, inde inido. Is o signi ica que ela se encon a na es e a do
pa a-lá-do- oco – is o é, na memó ia.
Es e pon o le a-nos ao segundo ac o . Pode íamos julga que, po que a bea a i a se
encon a na memó ia, o homem já e e, no passado, algum con ac o com ela. Agos inho,
po ém, de ende o con á io dis o: o homem não em nem de pe o nem de longe nenhuma
lemb ança de nada que enha que e com a bea a i a.120 Di o de ou a manei a, o ho-
118Di o de ou o modo: é po que eu que o se eliz e po que, po isso, p ocu o o melho possí el e po que, dadas
as ci cuns âncias, um de e minado objec o me su ge como um candida o ao melho possí el de um de e minado
pe íodo – é po udo is o que esse objec o me su ge como desejá el.
119Sob e es e assun o, c . De T in. XIII, V, 8.
120Agos inho ejei a, assim, o modelo anamnésico e ospec i o. Sob e es e modelo, eja-se, po exemplo, De T in.
XII, XV, 24, ibi. XIV, XV, 21, Re ac . I, IV, 4, ibi. I, VIII (VII), 2. Veja-se ambém CILLERAI, Bea ice, La
71

mem nunca adqui iu nada da elicidade. Assim, a elicidade não só é qualque coisa que o
ul apassa comple amen e – pelo que a) ele não encon a nada que a sa is aça, b) não sabe
em que é que ela se aduz e c) ela não apa ece no oco – como, pa a além disso, não é um
con eúdo com que ele alguma ez enha es ado em con ac o.
Tudo is o nos pe mi e conclui que a bea a i a é qualque coisa que anscende absolu-
amen e o homem. Po ou as pala as, a a-se de uma de e minação que lhe é o almen e
es anha, uma ealidade com que ele não em nada que e . Pa adoxalmen e, é a es e ab-
solu amen e es anho que a on ade humana es á pe manen emen e inculada. Ou seja,
num se que es á nos an ípodas disso, há uma ideia de elicidade – que não só es á p esen e,
como ainda pe passa udo aquilo que lhe apa ece. Em esumo, o homem ca ac e iza-se
pela p op iedade mui o peculia de es a pe manen emen e o ien ado pa a um no e que se
encon a o almen e pa a lá de si.
2.2.2 Mul iplicidade de supe la i os
Na subsecção an e io , mos ámos que o homem es á cons i uído com uma no ícia de supe -
la i o. E como concluímos ago a mesmo, isso signi ica que se acha em pe manen e elação
com um objec o que o ul apassa comple amen e. O a, segundo a desc ição que izemos,
esse objec o não é senão a bea a i a. O que que emos mos a ago a é que a bea a i a não
se aduz na única de e minação supe la i a de que o homem em no ícia. De ac o, em
ez de se da o caso de, insc i a na cons i uição do se humano, se acha a no ícia de uma
única ins ância insupe á el, acon ece que es ão insc i as no ícias de á ias ins âncias insu-
pe á eis. Po conseguin e, o homem não se limi a a e uma única di ecção ou ia pela qual
se elaciona com a anscendência; pelo con á io, con ém em si mesmo uma mul iplicidade
de di ecções de anscendência.
Não podemos de manei a nenhuma aze aqui um le an amen o exaus i o dessa mul i-
plicidade.121 Limi amo-nos a ap esen a uma explo ação em egime p o isó io de alguns
dos elemen os que a compõem. De qualque modo, endo em con a a globalidade des e
abalho, o que acima de udo impo a aze aqui é uma ap esen ação de não mais do que
alguns aspec os – jus amen e aqueles que pe mi em pô em e idência que a anscendência
Memo ia comme Capaci as Dei secondo Agos ino –Uni à e Complessi à, ETS, Milão, 2008, pp. 72 e 79.
121Um al le an amen o se ia ei o se hou esse condições pa a isso. Não ha endo, podemos, ainda assim, indica
e e ências pa a ex os do co pus augus iniano que conside em ou os supe la i os pa a além daqueles que aqui ão
se conside ados exp essamen e. Sob e o supe la i o equi alen e ao bem, eja-se De T in. VIII, III, 4; sob e o
supe la i o equi alen e à paz, eja-se De Ci ., XIX, 12 a 14; sob e o supe la i o equi alen e à sabedo ia, eja-se De
Lib. A b., II, IX, 25 e 26; sob e o supe la i o equi alen e à jus iça, eja-se De T in. VIII, VI, 9; inalmen e, sob e o
supe la i o equi alen e à p opo ção, eja-se De Ve . Rel. XLIII, 80.
72
não es á, no acon ecimen o do humano, eduzida a um único eio, an es se esp aia po uma
mul iplicidade de di ecções.
Baseados em passagens do co pus augus iniano, conside amos apenas duas dessas di ec-
ções. Uma p imei a co esponde à ideia de e dade.
“Nam quae o ab omnibus, u um malin de e i a e quam de alsi a e gaude e; am non dubi an
dice e de e i a e se malle, quam non dubi an dice e bea os esse se elle.”122
Nes e echo, Agos inho desc e e a on ade de e dade como qualque coisa de ão incon-
o ná el quan o a on ade de elicidade. Com is o, Agos inho es á a ap esen a a e dade
como uma de e minação que se encon a em nada menos do que no mesmo ní el que a
bea a i a (o que ica á mais cla o adian e). Po ago a, in e essa-nos chama a a enção pa a
a ci cuns ância de Agos inho aze uma desc ição análoga no caso da imo alidade – que
cons i ui p ecisamen e a segunda di ecção e e ida.
“Cum e go bea i esse omnes homines olun , si e um olun , p o ec o e esse immo ales olun :
ali e enim bea i esse non possun . Denique e de immo ali a e in e oga i, sicu e de bea i udine,
omnes eam se elle esponden .”123
Em pa alelo com o que imos no echo an e io , Agos inho equipa a o desejo de imo alidade
ao desejo de bea a i a.
Pa a pe cebe mos melho es as equipa ações, há que assinala alguns aspec os que os
dois objec os que acabamos de in oduzi – e dade e imo alidade – pa ilham com a bea a
i a. An es de mais, ambém nes es casos há uma inclusão. Que dize , al como acon ecia
no caso da bea a i a, ambém no caso da e dade e da imo alidade se e i ica que es as
ideias es ão, de alguma o ma, incluídas no homem, con idas nele. Mais ainda, al como na
bea a i a, a inclusão nes es casos acon ece po ia de uma no ícia disso. Ou seja, a o ma
peculia a a és da qual o se humano inclui em si mesmo, de ce o modo, a e dade e a
imo alidade passa pela ci cuns ância de ele e no ícia des as ideias.
Po ou o lado, es a inclusão po ia da no ícia su ge como p o undamen e pa adoxal no
momen o em que conside amos o con eúdo das ideias mencionadas. De ac o, os con eúdos
aqui em ques ão – a e dade e a imo alidade – co espondem a supe la i os. Is o é, co es-
pondem a ins âncias absolu as, máximas, inul apassá eis, comple as, pe ei as. O a, é de
nada menos do que isso que o se humano – um en e ini o, limi ado e incomple o – inclui
em si. Po ou as pala as, o homem con ém em si mesmo os supe la i os co esponden es
à e dade e à imo alidade, apesa do lag an e cons as e de modos de se en e es as e
122Con . X, XXIII, 33.
123De T in. XIII, VIII, 11.
73
aquele. Des a o ma, em no ícia de de e minações que o anscendem absolu amen e. Di o
de ou a manei a, es á em elação com ins âncias que se encon am in ini amen e a as adas
dele, e de al modo que se man êm ao longe.
Toda ia, po mais a as adas que se man enham, nem po isso ele deixa de e já um g au
mínimo de elação com elas. Que dize , apesa do absolu o con as e em jogo, o homem
em um g au di e en e de ze o da posse delas. T a a-se, po an o, de ha e um quan um
i edu í el dessas ideias de supe la i o – e, mais especi icamen e, um quan um delas po
no i ia delas. Assim, o homem dá consigo numa si uação a a essada: po um lado, não
possui p op iamen e os supe la i os e e idos (não é imo al, não domina a e dade, e c); po
ou o lado, só sabe que não os possui po que possui já uma ce a elação com eles. Mesmo
que ele seja – po assim dize – uma e são nega i a da e dade, da imo alidade, e c. (o
que signi ica que se encon a o almen e aquém da p imei a, da segunda, e c.), pe cebe-se
a si mesmo como al pela ci cuns ância de e no ícia delas.
Impo a ago a inca algumas ca ac e ís icas undamen ais das no ícias aqui em causa,
ainda em pa alelo com o que acon ecia no caso da bea a i a. Em p imei o luga , a a-se
de con éudos que nunca o am adqui idos.124 Não hou e um momen o da sua ida em que o
homem enha passado a e ideia da e dade e da imo alidade. Pelo con á io, ele semp e
deu consigo em elação com elas. Is o implica, po an o, que esses con eúdos semp e já
es i e am p esen es no homem.
Em segundo luga , a o ma de p esença desse con eúdos não en ol e uma posse de imagens
deles, mas sim uma posse dos p óp ios con eúdos.125 Não se a a me amen e de éplicas
da e dade e da imo alidade, mas sim da e dade e da imo alidade elas mesmas. Des e
modo, ainda que elas se encon em longe e a escapa , o homem es á já em elação com isso
mesmo que se encon a longe e a escapa .
Em e cei o luga , al como na bea a i a, ambém nos supe la i os aqui em discussão não
acon ece que as espec i as no ícias sejam apenas con eúdos in eligí eis en e ou os; pelo
con á io, elas a ec am odos os ou os con eúdos, i.e., ocam-nos, in luenciam-nos. Di o de
ou a o ma, as no ícias de e dade e de imo alidade pola izam odos os ou os con eúdos.
Is o e i ica-se de al manei a que não há nenhum con eúdo que seja comp eendido indepen-
den emen e deles. Não há nenhum X que apa eça simplesmen e como X; odo o X é semp e
já is o à luz dessas no ícias, i.e., com base nelas – a ec ado, moldado, ans igu ado po
elas.
124Is o em i ude de as no i iae co esponde em a con eúdos in eligí eis – c . Con . X, IX, 16.
125No amen e, c . Ibidem.
74
2.2.3 Unicidade dos supe la i os
Uma ez conside ados alguns aspec os essenciais que a e dade e a imo alidade pa ilham
com a elicidade, cabe ago a chama a a enção pa a a exis ência de uma a iculação en e
es es di e en es supe la i os. Se a é aqui desenhámos a isomo ia (is o é, o pa alelismo, a
a inidade) en e, po um lado, a elicidade e, po ou o, os es an es supe la i os de que o
homem em no ícia, in e essa-nos ago a sublinha a conjunção que se es abelece en e odos
eles.
Como ica á cla o no que se segue, a e dade, a imo alidade, a elicidade, e c. não se
encon am unidas simplesmen e pela ci cuns ância de pa ilha em en e si algumas p op i-
edades singula es. Se assim osse, pode ia da -se o caso de elas cons i ui em, apesa da
pa ilha e e ida, como que ec o es independen es uns dos ou os. Is o é, e dade, imo -
alidade, e c. pode iam se di ecções de anscendência ca ac e izadas pelas p op iedades
desc i as na subsecção an e io (ca ác e não adqui ido, posse do con eúdo o iginal, e c.),
mas de al manei a que não ha e ia nenhuma conexão ou a iculação en e as di e en es
di ecções.
O a, não é isso que se passa: os supe la i os es ão jus amen e ligados en e si, i.e., en-
elaçados uns com os ou os, a iculados em conjunção. Uma al conjunção (que não é,
de o ma nenhuma, menos impo an e que a isomo ia desc i a acima) signi ica que os su-
pe la i os es ão unidos – no sen ido em que in e e em uns com ou os, em que se a ec am
mu uamen e. Assim, em ez de uma pessoa se elaciona independen emen e (is o é, pa ale-
lamen e, sepa adamen e) com os di e en es absolu os, elaciona-se conjun amen e com uma
unidade que cong ega a e dade ea imo alidade ea elicidade ea jus iça ea sabedo ia,
e c. Is o que dize que uma pessoa não consegue, po exemplo, elaciona -se simplesmen e
com a e dade: nessa elação, es á já a elaciona -se com odas as ou as de e minações
supe la i as.
O que emos es ado a desenha não é já uma mul iplicidade de di ecções a ulsas, mas uma
ins ância única. Po ou as pala as, há, po assim dize , um único pon o de uga, pa a onde
con e gem odas as di ecções de supe la i o. Pelo que emos suge ido, pe cebemos que um
al pon o de uga se aduz numa ins ância mui o pa icula : o supe la i o dos supe la i os,
is o é, o máximo dos máximos. Ou ainda, a a-se de uma supe la i a acumulação de
supe la i os.
Es e pon o de uga admi e, em San o Agos inho, duas comp eensões he e ogéneas, e de
al manei a que as duas co em, de ce o modo, em pa alelo nos seus ex os. A p imei a
75
co esponde a uma desc ição inse ida no plano eológico. Nes e plano, o pon o de uga não
é ou o senão o p óp io Deus. Is o signi ica que, segundo es a p imei a comp eensão, os
di e en es supe la i os co espondem como que a e acções desse pon o de uga. Ou seja,
e dade, jus iça, bem, paz, imo alidade, e c. não são senão di e en es ace as de uma única
pe sonagem. Di o ainda de ou a manei a: na óp ica eológica, há um única on e pa a as
di e sas no i iae de supe la i o.126
A segunda o ma de comp eende a conjunção e e ida co esponde a uma desc ição
es i amen e imanen e. É es a a desc ição que aqui undamen almen e nos in e essa e em
elação à qual de emos assinala alguns aspec os decisi os.
Em p imei o luga , de um pon o de is a imanen e, e i ica-se que o homem es á ca ac e-
izado po uma mul iplicidade de ul apassagens isomó icas (e, em pa icula , que pa ilham
a p op iedade de o anscende em absolu amen e) a oco e em em simul âneo. Di o de ou o
modo, o homem encon a-se simul aneamen e pe an e á ias di ecções de anscendência:
e dade, elicidade, imo alidade, jus iça, e c. Aliás, a a-se de di ecções que se e i icam
pe manen emen e, o que implica que o se humano se acha inin e up amen e dian e de uma
sé ie de di ecções que pa ilham a p op idade de o anscende em.
Em segundo luga , is o sucede de al manei a que aquilo que es á sob a p essão de um
supe la i o ambém es á sob a p essão do ou o. Realmen e, como imos na subsecção an-
e io , os di e sos supe la i os ca ac e izam-se pela p op iedade comum de a ec a em odos
os ou os con eúdos – o que implica que um de e minado con eúdo es á simul aneamen e
a ec ado pelos á ios supe la i os. Po exemplo, se eu es ou a e um elógio, o elógio
apa ece-me como es ando inse ido não só no quad o de uma ensão pa a a elicidade, como
no quad o de uma ensão pa a a e dade, como no quad o de uma ensão pa a a imo a-
lidade, e c. E al como o elógio, assim ambém qualque ou o objec o es á desde logo
comp eendido como desempenhando uma unção ( a o á el, con á ia, neu a, e c.) nas
di e en es di ecções de supe la i o.
Em e cei o luga , há como que uma solida iedade in e na en e os á ios supe la i os.
Is o é, exis e um nexo in e no – uma ligação in ínseca – en e eles. Pa a conside a uma
dessas ligações: elicidade e e dade encon am-se in insecamen e elacionadas. Com e ei o,
uma pessoa, ao que e se eliz, não es á (nesse seu que e a elicidade) indi e en e à e dade.
126Es a in e p e ação pe mi e explica a isomo ia en e os di e en es supe la i os. Po um lado, odos eles e-
sul am de um mesmo supe la i o. Po ou o lado, es e supe la i o único apa ece ao homem jus amen e com as
p op iedades que ele iden i ica nos di e en es supe la i os; de ac o, segundo a comp eensão em causa, a no ícia do
‘supe la i o- on e’ em um con eúdo anscenden e, não adqui ido, pe manen e, indespedí el, e c. E é p ecisamen e
a ci cuns ância de esse supe la i o- on e e es as p op iedades que az que odos os ou os supe la i os (que não
são senão e acções daquele) se ca ac e izem po essas mesmas p op iedades – e sejam, assim, isomó icos.
76

Segundo Agos inho, na e dade, elicidade e e dade são insepa á eis:
“Bea a quippe i a es gaudium de e i a e.”127
Des a o ma, po deseja a elicidade, uma pessoa es á já, com isso, a deseja a e dade.
Conside ando um ou o exemplo de ligação, a elicidade es á in isecamen e ligada à imo -
alidade, de al manei a que o desejo de elicidade não ica echado em si mesmo, mas inclui
incon o na elmen e um desejo de imo alidade.128 Pa a da ainda um e cei o exemplo,
e dade e imo alidade es ão ambém elas in insecamen e elacionadas. Realmen e, pa a
Agos inho, a e dade não es á sujei a a mo e:
“(...) cum in e i aliquid quod e um es , non in e i e i as.”129
Es as ligações in e nas en e os di e en es supe la i os põem em e idência a unicidade que
e e imos mais acima. De um pon o de is a es i amen e imanen e, po an o, as di e en es
di ecções de supe la i o in e e em de al manei a que não podem se sepa adas umas das
ou as. Em suma, acham-se uni icadas num só supe la i o de supe la i os – o pon o de uga
único pa a que a no i ia de supe la i o, em úl ima análise, apon a.
Finalmen e, em qua o luga , pa a uma pe spec i a es i amen e imanen e, esse pon o de
uga único in luencia decisi amen e a comp eensão do si mesmo. Especi icamen e, o homem
ê-se como uma e são alhada dele. Ou seja, o homem comp eende o pon o de uga como
aquilo que ele de e ia se mas não é, como o es ado onde ele se p ojec a a es a mas onde
não es á, como a ealidade que ele exige mas que não em, como o objec o que ele eclama
mas cujo pedido ê inde e ido. Is o signi ica que se comp eende a si mesmo como uma peça
incomple a, como uma e são impe ei a do pon o de uga – ou ainda, como um p op ie á io
que de ém apenas uma pa e desse odo que ele já iden i ica como seu mas em cuja posse
não se encon a.
A desc ição imanen e que emos ap esen ado em na con inuação do que oma a o ma
na explo ação p é ia da es e a da memó ia. Como insis imos, a explo ação augus iniana
ealça dois aspec os: a capacidade quan i a i a e a capacidade quali a i a da memó ia. O a,
o que ago a emos indo a desc e e co esponde como que a uma supe la i ização desses
dois aspec os. De ac o, po um lado, a p esença do pon o de uga equi ale à p esença da
quan i ade máxima, inul apassá el; po ou o, equi ale à posse de uma mul iplicidade de
di ecções he e ogéneas ( e dade, elicidade, jus iça, bem, e c.), em egime de acumulação
supe la i a de supe la i os.
127Con . X, XXIII, 33.
128C . a ci ação de De T in. XIII, VIII, 11 ei a na ap esen ação do supe la i o co esponden e à imo alidade.
129Solil. I, XV, 28. Quando se a i ma que a e dade não es á sujei a a mo e, es á a que e dize -se que co esponde
a qualque coisa de e e no, i.e., de não sujei o ao empo.
77
Is o pe mi e-nos conclui que é p ecisamen e esse o esul ado global do le an amen o da
memó ia ei o po Agos inho no li o X das Con issões. Que dize , aquilo que undamen-
almen e se conclui dessa explo ação é que a pe sonagem cen al que eside escondida na
es e a da memó ia é o pon o de uga de que es amos a ala . Di o ainda po ou as pala as,
a conclusão pa a que oda a análise da memó ia se encaminha é a de que exis e um con eúdo
– o pon o de uga – que pola iza odos os ou os, o que implica que udo es á ma cado po
ele. E de al manei a que é ambém esse con eúdo que co esponde à pe sonagem cen al
na in e e ência da memó ia no oco. Tudo aquilo que se ê, po an o, é em úl ima análise
is o à luz desse pon o de uga – que jus amen e não se ê bem.
2.2.4 Co espondência
Como dissemos, Agos inho sus en a que as á ias di ecções de supe la i o con e gem num
único pon o de uga – o supe la i o dos supe la i os. Assim, segundo Agos inho, o homem
em no ícia do pon o de uga, e de al manei a que se acha pe manen emen e em elação
com ele. Acon ece que es a elação em a o ma de um p ojec o: o homem comp eende a
sua ida como um encaminhamen o pa a esse supe la i o absolu o. O a, um p ojec o nunca
é indi e en e à sua p óp ia ealização – que dize , não é indi e en e a que aquilo a que ele é
ela i o seja encon á el. Is o signi ica que a no ícia do pon o de uga, uma ez que ge a um
p ojec o que o em como im, não é – nem pode se – indi e en e em elação à sua exis ência
e ec i a. Sendo assim, o homem es á indespedi elmen e in e essado em que o pon o de uga
pa a que se encon a a ende co esponda a uma de e minação eal – e não me amen e a
uma de e minação possí el.
Con ém sublinha que es e in e esse igo a num plano es i amen e imanen e. Po ou as
pala as, a ‘ e são imanen e’ da imago Dei, pelo simples ac o de en ol e um p ojec o
do supe la i o dos supe la i os, ei indica desde logo (e independen emen e de quaisque
c enças eológicas) a exis ência do im desse p ojec o. Insis e-se: incluído den o da p óp ia
imagem imanen e, há um eque imen o da exis ência e ec i a do seu objec o.
Toda ia, o eque imen o aqui em ques ão é o mal – o que que dize que pode se
cump ido de di e sas o mas. Expliquemo-nos melho . Como acabámos de mos a , a
imago con ém em si mesma uma ei indicação da exis ência do pon o de uga. Con udo,
uma al ei indicação é neu a em elação à o ma como essa exis ência se dá. Na e dade, a
única coisa que eclama é que a mul iplicidade de supe la i os exis a em simul âneo – e não
o çosamen e que co esponda a uma única ealidade. Assim, a imo alidade pode e uma
78
de e minada p o eniência, a elicidade uma ou a, a e dade uma e cei a, e c. Em suma,
o eque imen o in ínseco à imago não se p onuncia sob e a unicidade de um co ela o eal
do pon o de uga, mas simplesmen e sob e a exis ência de um al co ela o.130
Sob e es e assun o, há alguns aspec os a ealça . Um p imei o passa pelo ac o de ha e
uma di e ença quali a i a en e, po um lado, a pe ição da exis ência de um co ela o eal
e, po ou o, a exis ência desse co ela o. É que a pe ição de exis ência de um co ela o não
ga an e a exis ência desse co ela o. Com e ei o, al como a ci cuns ância de se e ideia
de um objec o não ga an e que esse objec o exis a, assim ambém a ci cuns ância de se e
pe ição de um objec o não ga an e que ele exis a. De emos, po isso, dis ingui duas eses
di e en es. Uma p imei a limi a-se a a i ma que a cons i uição in ínseca dos se es humanos
eque a exis ência de um co ela o eal do pon o de uga. Uma segunda ese, independen e
da p imei a, sus en a que exis e al co ela o.
O segundo aspec o a ealça em que e com a ca ac e ização do co ela o em causa. Se a
segunda ese que acabamos de ap esen a o e dadei a, en ão o co ela o não consis i á em
qualque coisa agamen e elacionada com o homem. Pelo con á io, a exis i , esse co ela o
i á da espos a ao mais ín imo do homem. Ou seja, co esponde á jus amen e ao pon o
de uga que pola iza udo o que apa ece ao homem. Em pa icula , e á as p op iedades que
ca ac e izam esse pon o de uga (supe la i idade, imu alibilidade, e c.), englobando odos
os supe la i os de que o homem em no ícia – bem, jus iça, elicidade, e dade, e c.131
O e cei o aspec o passa pela impo ância da exis ência de um co ela o. Qualque que
seja o seu alo de e dade, a segunda ese (segundo a qual o co ela o exis e e ec i amen e)
é ulc al pa a a p imei a (segundo a qual a cons i uição humana pede um co ela o eal) – e,
po consequência, pa a o homem. De ac o, se não exis e um co ela o eal co esponden e
ao pon o de uga, en ão a no ícia em que es á apoiada a cons i uição do homem não passa de
uma mi agem. Nesse caso, po an o, a e dade não passa de uma mi agem, o bem não passa
de uma mi agem, a elicidade não passa de uma mi agem – e assim de modo equi alen e
pa a odos os ou os supe la i os. Po isso, se a segunda ese o alsa, a ida do homem
acaba po se o almen e desp o ida de sen ido. Se, pelo con á io, o e dadei a, en ão
130A ese eológica – segundo a qual o pon o de uga co esponde a Deus – não só sa is az es e eque imen o
imanen e da imago como, pa a além disso, o az de uma o ma, po assim dize , ‘económica’: associa ao pon o
de uga uma única ealidade. É ce o que a ese eológica comp eende es e eque imen o de um ou o ângulo: o
eque imen o ‘imanen e’ é já ele mesmo esul ado de uma p esença o iginal de Deus no in e io do homem. De
qualque manei a, o que de e ica cla o aqui é que es a unicidade de uma de e minação eal que co esponda ao
pon o de uga não é ei indicada pela pe ição imanen e.
131No amen e no amos que o co ela o aqui em jogo não e ia de co esponde a uma ealidade única, que engloba
na mesmidade de si os di e en es supe la i os. Pode mui o bem acon ece que o co ela o se aduza numa mul ipli-
cidade de ealidades de p o eniências di e en es. De qualque o ma, mesmo se assim o , o co ela o engloba essa
mul iplicidade.
79
a ida humana e á sen ido.132 E ec i amen e, nes e caso, há uma co espondência en e
aquilo que é pedido pela p óp ia cons i uição humana e uma de e minada ealidade.133
O qua o aspec o em que e com a na u eza da segunda ese. É que es a ese é adi-
calmen e di e en e daquelas que êm indo a se ap esen adas nes e capí ulo 2. Realmen e,
as eses des e capí ulo – ais como ‘há mais do que é imedia amen e dado a e ’ ou ‘o se
humano deseja incon o na elmen e a elicidade’ – êm que e com aquilo que se e i ica
no acon ecimen o de lucidez do homem. Is o signi ica que, em p incípio, um homem pode
a e igua a sua alidade a a és de uma análise daquilo que se passa consigo. Pelo con á io,
a ese ela i a à exis ência e ec i a de um supe la i o ex a asa o acon ecimen o do homem.
Po isso, o homem não es á em condições de a e igua a sua alidade me amen e e lec indo
sob e si mesmo.
O quin o aspec o passa pela ci cuns ância de a adopção da segunda ese pode se ei a
de um modo de icien e. Ao sus en a que exis e um co ela o eal pa a o supe la i o dos
supe la i os, um homem pode não pe cebe que esse co ela o consis e jus amen e no objec o
que é pedido pela sua p óp ia cons i uição. Is o é, pode de ende a exis ência da ealidade
supe la i a, mas de al manei a que não comp eende que essa ealidade es á in imamen e
ligada com a sua p óp ia iden idade. Nesse caso, não pe cebe ia a impo ância c ucial que
essa ealidade em pa a si mesmo.134
Conside ados es es aspec os, impo a-nos pô em e idência a posição de Agos inho a
p opósi o da segunda ese – aquela, lemb amos, que de ende a exis ência de um co ela o
eal pa a o pon o de uga. Pa a Agos inho, es e co ela o exis e e ec i amen e. Além disso,
Agos inho sus en a uma ou a ese: uma al ealidade conc e iza-se no Deus e elado em
Jesus C is o. Segundo Agos inho, po an o, o pon o de uga de que o homem em no ícia
encon a co espondência eal em Deus. Ou seja, a no ícia do supe la i o dos supe la i os
não é senão, de aco do com Agos inho, uma no ícia de Deus.
Sob e a úl ima a i mação, sublinhamos á ios pon os. An es de mais, e como insis imos, a
no ícia daquilo a que chamámos o pon o de uga é uma no ícia cons i u i a. O a, acei ando
132A acei ação da e acidade da segunda ese deixa ainda comple amen e po sabe qual é o con eúdo desse co ela o
que, de aco do com a ese, equi ale ao pon o de uga pedido pela cons i uição do homem.
133A segunda ese ou é e dadei a ou é alsa. Assim, ou exis e uma ealidade (ou conjun o de ealidades) com as
ca ac e ís icas implicadas no supe la i o de supe la i os de que o homem em no ícia, ou não exis e. Is o é, ou a
ida do homem em algum sen ido, ou não passa, em úl ima análise, de uma ilusão. Qualque das al e na i as é
d ama icamen e impo an e pa a o homem. Po isso, se uma pessoa não dá g ande impo ância ao alo de e dade
da segunda ese, ambém não dá g ande impo ância à sua p óp ia ida.
134Na e dade, exis e a possibilidade de a de iciência de adopção da segunda ese se pe manen e. Explicando
melho , pode da -se o caso de o homem nunca consigui comp eende cabalmen e aquilo que é pedido pela sua
p óp ia cons i uição. Se assim o , ele encon a-se pe manen emen e aquém da impo ância imensa que a ealidade
pedida pela sua cons i uição em pa a a sua ida.
80
elação. Es a escada começa com a memó ia de um objec o – o g au mínimo de elação
com ele. Is o é, sem memó ia do objec o, não há seque elação com ele.151 Pelo con-
á io, ha endo memó ia, há au oma icamen e elação. Con udo, a memó ia co esponde
apenas ao g au menos in enso dessa elação; exis e ainda um g au in e médio equi alen e
ao conhecimen o do objec o, e um g au inal equi alen e ao amo do objec o.152
A complexidade da no i ia pa a que que emos chama a a enção começa po ad i da
ci cuns ância de a indade e e ida exis i na p óp ia es e a da memó ia (no sen ido de um
pa imónio de sabe subme so). Ou seja, em ez de a escada e e ida – memó ia (no sen ido
de não dissipação), conhecimen o, amo – e unicamen e que e com uma in ensi icação de
elação de objec os p esen es no oco, diz igualmen e espei o a objec os que se encon am
na es e a do pa imónio não ocado. San o Agos inho sublinha es e aspec o no li o XIV
do De T ini a e:
“Dua um e go el plu ium disciplina um pe i us, quando unam cogi a , aliam el alias e iam si
non cogi a , no i amen. Sed numquid ec e possumus dice e, Is e musicus no i quidem musicam,
sed nunc eam non in ellegi , quia eam non cogi a ; in ellegi au em nunc geome icam, hanc enim
nunc cogi a ? Absu da es , quan um appa e , is a sen en ia. Quid e iam illa, si dicamus, Is e
musicus no i quidem musicam, sed nunc eam non ama , quando eam non cogi a ; ama au em
nunc geome icam, quoniam nunc ipsam cogi a : nonne simili e absu da es ? Rec issime e o
dicimus: Is e quem pe spicis de geome ica dispu an em, e iam pe ec us es musicus; nam e
memini disciplinae eius, e in ellegi eam e diligi : sed quam is eam no e i e ame , nunc illam
non cogi a , quoniam geome icam de qua dispu a , cogi a .”153
Nes e exemplo, Agos inho conside a um homem que, sendo músico e geóme a, es á a oca
a geome ia – e não es á, po isso mesmo, a oca a música. Nesse momen o, po an o, a
geome ia encon a-se no oco, enquan o a música se acha o a dele. O que Agos inho põe
em e idência é que nem po isso acon ece que o homem em causa, nesse momen o, deixe de
conhece e a ama a música. Pa a dize de ou a manei a, mesmo não es ando a se ocada,
a música é po ele conhecida e amada.
Es e echo e o mula a comp eensão que endemos a e a p opósi o dos con eúdos da
memó ia. Tendemos a julga que es es con eúdos, po que se acham con idos num pa i-
mónio de sabe subme so (i.e., escondido, inconscien e), não podem se al o senão de uma
151Ou ha e ia uma elação ins an ânea, o almen e di e en e dos ipos de elação que conhecemos.
152Como em qualque escada, os deg aus são ais que não pode ha e um deg au sem que o an e io es eja pos o.
Assim, não pode ia ha e conhecimen o sem ha e memó ia (pelo que expusemos na no a 150), nem pode ia ha e
amo sem ha e conhecimen o (c . De T in. X, I, 1 a 3). Pa a além disso, em cada deg au, há uma con i mação e
um p eenchimen o do deg au an e io . Assim, o conhecimen o con i ma e p eenche a memó ia, e o amo con i ma e
p eenche o conhecimen o.
153De T in. XIV, VII, 9.
87

elação di usa, com pouca ca ga de de e minações. Agos inho es á a de ende jus amen e
o con á io: a ci cuns ância de um con eúdo es a na memó ia não in alida que, mesmo
quando ele se encon a na p óp ia memó ia, se possa e com ele uma elação ca ac e izada
po uma in ensidade ele ada. E ec i amen e, esse con eúdo pode se conhecido e amado
mesmo na memó ia.154
Is o pe mi e-nos ganha a pis a pa a a a iabilidade que e e íamos acima. Embo a a
no i ia Dei seja in a iá el no sen ido em que nunca deixa de se um con eúdo da es e a do
pa imónio de sabe subme so (is o é, no sen ido em que se em semp e um quan um mínimo
de elação com o pon o de uga), es á sujei a a uma in ensi icação de elação. Que dize ,
o ac o de ha e um g au mínimo indespedí el e in a iá el de elação com o supe la i o
de supe la i os ( ac o em que es á anco ada a in a iabilidade da no i ia) não impede que,
nessa elação, se possa i pa a lá desse g au mínimo. De ac o, um homem pode aumen a
que o seu conhecimen o do supe la i o dos supe la i os, que o seu amo a ele.
Mas mais: nada impede que, uma ez in ensi icada a elação com ele, essa elação enha
a so e um e ocesso – que po ia de uma diminuição do amo , que po ia de uma
diminuição do conhecimen o. Des a manei a, enquan o con eúdo da es e a da memó ia
(is o é, enquan o con eúdo do pa imónio de sabe não ocado), a no i ia Dei en ol e uma
a iabilidade in ínseca, na medida em que pode ha e a iações ( an o de ac éscimo como
de diminuição) de in ensidade da elação com o seu con eúdo.
Mas is o ainda não é udo. A complexidade aqui em análise é ac escida pela ci cuns ância
de a no ícia pode se ocada. É que a exis ência de uma escada de elação na es e a da
memó ia cons i ui o pon o de pa ida da possibilidade de um aumen o de in ensi icação po
in ocação pa a o oco. Uma ez impo ada pa a o oco, e al como acon ece quando es á na
memó ia, a no i ia pode se subme ida a uma a iação (po c escimen o ou diminuição) do
g au de elação – que po a iação do conhecimen o, que po a iação do amo .155
Com is o, somos conduzidos a um ou o aspec o (que não podemos conside a de ida-
men e, mas que ambém não podemos deixa de e e i nes e con ex o): aquele que em que
154Na e dade, segundo Agos inho, a elação com um con eúdo da memó ia en ol e semp e um quan um mínimo
que de conhecimen o dele, que de amo dele. Ou seja, não acon ece que o g au mínimo de elação com um con eúdo
passe unicamen e po e memó ia dele, como se o conhecimen o e o amo equi alessem a g aus ac escen ados sob e
esse mínimo. Pelo con á io, há desde logo um g au mínimo an o de conhecimen o como de amo , o que que
dize que odo o conhecimen o adicional e odo o amo adicional co espondem a ac éscimos ei os sob e esses g aus
mínimos. A exis ência de um g au mínimo de conhecimen o e de um g au mínimo de amo esul a do ac o já is o
de odos os con eúdos desempenha em um unção ( a o á el, con á ia, neu a, e c.) que num campo de e dade,
que num campo de desejo.
155Re e imo-nos a um conhecimen o e um amo explíci os, p óp ios do oco – em con as e com um conhecimen o e
um amo implíci os, p óp ios da memó ia (is o é, do pa imónio de sabe não ocado). A acção a que aqui chamámos
oca – a acção em i ude da qual um con eúdo é impo ado pa a o oco – é aquela a que Agos inho chama cogi a e,
e que não cabe es uda aqui. Sob e es e assun o, eja-se De T in. XIV, VI, 8.
88
e com o nexo en e a no i ia Dei e as noções de egio eges a is e egio dissimili udinis. Pa a
pe cebe mos como su gem ais noções, comecemos po no a que o que esul a da imago Dei,
al como acabámos de desc e e , é que udo no se humano se acha cons an emen e e e ido
a qualque coisa que nada do que ele encon a es á em condições de sa is aze . Is o implica
que aquilo que, pa a ou os se es (como os animais), pode co esponde a um domínio de
pleni ude (uma ez que, pa a esses se es, não exis e nenhum pad ão desp opo cionado ou
excessi o, de al modo que não êem o que êm como pouco), pa a o se humano co esponde
a um domínio de escassez – p ecisamen e po que há um pad ão desp opo cionado ge ado
pela no i ia de supe la i o.
Uma al conclusão le a Agos inho a ca ac e iza a ida humana como egio eges a is – ou
egio dissimili udinis.156 Es as noções exp essam jus amen e a ese de que a ida humana
co esponde a um p ojec o desajus ado – no sen ido em que não o e ece aquilo que é pedido.
Ou seja, udo é is o como que sin onizado pelo supe la i o, mas de al manei a que udo isso
é econhecido como es ando aquém dele. Na e dade, como imos, o homem comp eende o
supe la i o como qualque coisa que lhe pe ence, que lhe é de ida; isso le a-o a sen i -se
à dis ância dessa sua pá ia (pa ia), dessa sua casa (domus).157 Assim, a sua ida é um
domínio de ca ência, de não co espondência.158 Is o é, consis e numa misé ia (eges as).159
De e ica cla o que a ida como egio eges a is é qualque coisa in ínseca à noção de
imagem de Deus. Ou seja, se há imagem de Deus, en ão necessa iamen e a ida humana
é uma egião de indigência.160 Is o que dize que o ca ác e mise á el da ida humana é
156Sob e a noção de egio eges a is, c . Con . II, X, 18. Sob e a noção de egio dissimili udinis, c . Con . VII, X, 16.
A p imei a az alusão à pa ábola do ilho p ódigo (c . Lc 15, 13), enquan o a segunda p o ém do Polí ico, de Pla ão
(273D6). Exp essões semelhan es encon am-se po oda a ob a de Agos inho; po exemplo, “Is am agili a em
ca nis, hoc o men um dolo um, hanc domum paupe a is, hoc inculum mo is, e laqueos en a ionum: po amus
omnia is a in ca ne hac” (In Ps. 84, no7). Sob e a in e dependência das noções de imago Dei e egio eges a is,
eja-se BARBOSA, Diogo Mo ais, Imagem de Deus e egião de indigência – a anscendência e a al a como dimensões
cons i u i as do Homem segundo Agos inho, disse ação de dou o amen o ap esen ada à Uni e sidade de Coimb a,
Coimb a, 2016.
157Sob e pa ia, c ., po exemplo, In Ps. 15, no3, ibi. 29, en. II, no9, ibi. 30, en. I, no14, ibi. 31, en. II, no21,
ibi. 32, en. II, s. II, no6, ibi. 33, en. II, no17, ibi. 37, no15, ibi. 38, nos 8, 21 e 22, ibi. 40, no5, ibi. 49, no22, ibi.
55, nos 6 e 9, ibi. 57, nos 1, 5 e 22, ibi. 60, no4, ibi. 61, no7, ibi. 62, nos 6 e 14, ibi. 64, nos 2 e 7. Sob e domus, c .,
po exemplo, ibi. 10, no1, ibi. 26, en. II, no6, ibi. 30, en. II, s. III, no8, ibi. 35, no5, ibi. 38, nos 21 e 22, ibi. 40,
no5., ibi. 42, no4.
158Como suge imos, es a não co espondência pe mi e explica a dispa idade en e a ida animal e a ida humana.
Tan o os animais como os homens se encon am na mesma ealidade. O a, o animal não i e inquie o. Já o homem,
pelo con á io, es á pe manen emen e inquie o (“inquie um es co nos um”, Con . I, I, 1). Segundo Agos inho, a
azão pa a es a di e ença aduz-se na ci cuns ância de o homem e uma no ícia de mais que não é cump ida. O
animal, não endo no ícia, não es á desequilib ado. Po oposição, o homem, endo uma no ícia de uma ealidade
que não alcança, es á semp e desequilib ado, inquie o.
159C ., po exemplo, Con . XII, I, 1, ibi. XIII, VIII, 9, De T in. XIII, VII, 10, ibi. XIII, XVI, 20, In Ps. 18, en.
II, no3, ibi. 30, en. II, s. II, no5, ibi. 84, no7, ibi. 101, s. I, no2, ibi. 123, no9, ibi. 124, no1., ibi. 134, no11,
ibi. 138, no5, Se mo. 33A, no4, ibi. 36, no11, ibi. 45, no10.
160Po is o, analisa a noção augus iniana da imagem de Deus sem e e i a componen e de exiguidade – componen e
es a que, po causa dessa mesma imagem, ca ac e iza necessa iamen e a ida humana – se ia pe de um aço
undamen al da si uação humana. Sob e es e assun o, eja-se BARBOSA,Imagem de Deus e Região de Indigência.
89
indespedí el. Po ou as pala as, a ida humana é – e não pode deixa de se – um domínio
de incomple ude, de ‘ainda não’ (nondum).161 Assim, simplesmen e po se imago Dei, o
homem es á incomple o, desequilib ado, necessi ado, pob e.162 Nes e sen ido, a ida equi ale
a uma a essia sem epouso – ou, numa pala a, a uma pe eg inação (pe eg ina io).163
2.3 O obscu ecimen o da no ícia
2.3.1 O ac o do obscu ecimen o
Em udo is o, al a ainda conside a uma componen e que, como dissemos, em pa a Agos-
inho uma impo ância decisi a: aquela que se p ende com o obscu ecimen o da no i ia Dei.
Tal como em udo o es o, ambém aqui há duas aces: po um lado, uma e são eológica
e, po ou o, o espec i o co esponden e na an opologia es i amen e imanen e. No que se
segue, conside amos ambas as pe spec i as.
Comecemos pelo pon o de is a eológico. Nes e caso, o obscu ecimen o que dize que
a imagem do c iado pe de ni idez.164 Com is o, es ão a se a i madas á ias coisas. Em
p imei o luga , há uma pe da de ni idez em elação a cada uma das ace as do c iado :
e dade, bem, elicidade, imo alidade, e c. Is o é, não se em uma pe cepção dis in a de
cada um des es supe la i os. Em segundo luga , há ambém pe da de ni idez em elação
ao ac o de eles não se em senão e acções do p óp io Deus. Em e cei o luga , a pe da de
ni idez diz ambém espei o ao papel que udo isso pe manen emen e desempenha. Que
dize , o se humano não pe cebe que é em udo um p ojec o que em Deus como e minus.
Finalmen e, a p óp ia imagem de Deus não apa ece. Ou seja, não pa ece ha e uma no ícia
161C ., po exemplo, In Ps. 5, nos 4 e 10, ibi. 36, s. 1, nos 6 e 8, ibi. 36, s. III, no14, ibi. 37, nos 5 e 15, ibi. 38,
nos 6, 14, 15 e 21, ibi. 39, no12, ibi. 40, no14, ibi 41, nos 1, 10 e 11, ibi. 42, no2, ibi. 45, no13, ibi. 48, s. I, no5,
ibi. 48, s. II, nos 3, 4 e 5, ibi. 49, no22, ibi. 50, no19, ibi. 54, no3, ibi. 55, no1, ibi. 61, no13, ibi. 69, no8.
162É pe inen e salien a que o c en e não oge a es a incomple ude. Is o é, não acon ece que o homem que ac edi a
em Deus – de al manei a que ac edi a não só que Deus exis e, como ainda que Deus é a ealidade que em da
espos a àquilo que ele mesmo é – alcança a co espondência que é pedida pela sua cons i uição. A egio eges a is
e i ica-se simplesmen e po que o se humano pede um supe la i o que a ida não cump e.
163Abundam as e e ências à noção de pe eg ina io, assim como a noções semelhan es; eja-se BARBOSA, Diogo
Mo ais, «A Vida Como Dese o nas Ena a iones in Psalmos de Agos inho», Re is a Filosó ica de Coimb a, 42
(2012), pp. 403 e 404.
164Segundo a dou ina c is ã, o obscu ecimen o da imagem e e o igem no pecado o iginal. Vá ios são os e mos
usados po Agos inho pa a ca ac e iza a acção que o pecado o iginal e e sob e a imagem de Deus: ami e e (In
Ps. 70, s. II, no6, Se mo. 229/V, no2), a e e e (Se mo. 90, no10), con e e e (In Ps. 57, no1, Se mo. 113A, no
7), con incia i (In Ps. 96, no12), co umpe e (In Ps. 4, no8, Se mo. 9, no15), decolo a e (In Ps. 32, en. II, s.
II, no16), de o ma e (Se mo. 43, no4), de e e e (In Epis . Io. T . 8, no6, In Ps. 29, en. II, no2, ibi. 129, no1),
ex e mina e (In Ps. 75, no3), ica i ad e am (Se mo. 90, no10), minue e (Se mo. 221, no3), neglege e (Se mo.
8, no8), obsole ace e (In Ps. 29, en. II, no2, Se mo. 90, no10), obsole a e (Se mo. 113A, no7), op e e e (Se mo.
229/V, no2), pe de e (Se mo. 113A, no7), pe ime e (In Ps. 29, en. II, no2), pe u ba e (In Ps. 75, no3), edige e
ad nihilum (In Ps. 147, no7), e i e enis cupidi a ibus (Se mo. 110, no10), iola e (Se mo. 9, no15). A es e
p opósi o, eja-se ainda In Ps. 86, no6, De T in. XIV, IV, 6, ibi. XIV, VIII, 11, ibi. XIV, XIV, 18.
90
cons i u i a de Deus (e mui o menos pa ece que udo no pon o de is a humano eme e pa a
isso). Assim, o obscu ecimen o az que se enha uma comp eensão da ealidade em que não
igu a Deus algum – is o é, az que se enha um econhecimen o ‘a eu’ da ealidade.165
Ainda no plano eológico, impo a no a que o homem como imagem obscu ecida es á
comp eendido en e dois limi es. Pa a pe cebe mos o que is o que dize , conside emos um
passo do li o XIV do De T ini a e:
“Denique de o mi a em digni a is eius mise ans di ina Sc ip u a: Quamquam, inqui , in imagine
ambula homo, amen ane con u ba u : hesau iza , e nesci cui cong egabi ea. Non i aque
ani a em imagini Dei ibue e , nisi de o mem ce ne e ac am. Nec an um ale e illam de o -
mi a em, u au e a quod imago es , sa is os endi , dicendo: Quamquam in imagine ambula homo.
Quap op e ex u aque pa e e aci e p onun ia i po es is a sen en ia, u quemadmodum dic um
es : Quamquam in imagine ambula homo, amen ane con u ba u ; i a dica u , Quamquam ane
con u ba u homo, amen in imagine ambula .”166
Es a passagem põe em e idência os dois limi es e e idos. O p imei o exp ime que o homem,
ainda que seja imagem, é uma imagem obscu ecida (Quamquam in imagine ambula homo,
amen ane con u ba u ). Is o signi ica que o limi e aqui em jogo é supe io : o homem é
imagem, mas não ao pon o de se encon a li e de obscu ecimen o. Em con as e, o segundo
limi e exp ime que, ainda que obscu ecida, a imagem não deixa de se imagem (Quamquam
ane con u ba u homo, amen in imagine ambula ). Des e modo, o limi e aqui em causa é
in e io : há obscu ecimen o, mas não an o que deixe de ha e imagem.167
Conside emos ago a o pon o is a pu amen e imanen e. Também nes e caso, a exis ência
de obscu ecimen o en ol e á ios aspec os. Em p imei o luga , a elação com cada um dos
supe la i os ( e dade, bem, jus iça, e c.) o na-se di usa, des ocada – ao pon o de pa ece
que não há uma al elação. Em segundo luga , os supe la i os apa ecem como o mais,
de al manei a que se em di iculdade em pe cebe a que é que eles podem co esponde .
Em e cei o luga , não se acompanha a p esença pe manen e dos supe la i os. Em úl ima
análise, não se pe cebe que cada objec o que apa ece es á já sin onizado que po um
quad o de econhecimen o, que po um quad o de desejo. Em qua o luga , pe de-se
ni idez em elação à conjunção en e os á ios supe la i os. O que is o que dize é que não
se acompanha o ac o de os supe la i os in e e i em de al modo uns com os ou os que
o mam um único supe la i o de supe la i os. Finalmen e, e em pa alelo com o acon ece
na pe spec i a eológica, a no i ia não apa ece. Is o é, pa ece não ha e qualque no ícia de
165Es e assun o se á desen ol ido na secção 2.3.3.
166De T in. XIV, IV, 6, em e e ência a Salmo 38, 7.
167O que se acha aqui desenhado, po an o, é uma dupla elação ad e sa i a: ainda que A, em-se B, e ainda que
B, em-se A.
91
supe la i o de supe la i os (e mui o menos pa ece que ela molda odo o acon ecimen o de
lucidez humano). Des a manei a, e pa adoxalmen e, um en e que se acha cons i u i amen e
o mado po uma no ícia de supe la i o acaba po não es a sin onizado po ela.
Toda ia, e al como na pe spec i a eológica, o obscu ecimen o em um limi e in e io
– is o é, não le a à dissolução da imagem. Que dize , não há uma dissolução da no i ia.
Assim, al como no caso eológico, a pe da de ni idez não anula a p esença de um quan um
mínimo pe manen e de no i ia –no i ia es a que, po um lado, se acha ‘pe dida’ na es e a
da memó ia e, po um lado, desempenha a pa i dela as unções an es desc i as.168
Po úl imo, chamamos a a enção pa a um aspec o comum a ambas as pe spec i as: a
ci cuns ância de o obscu ecimen o da no ícia aze que es a não seja senão um ac o de
inquie ação. É que, po um lado, a no i ia não apa ece; po ou o lado, ge a uma ensão pa a
o seu con eúdo. Assim, o homem ica, de ce o modo, mais inquie o (ou mais deso ien ado
na sua inquie ação): ende pa a um objec o que não acompanha.169
2.3.2 Con usão em elação à p óp ia iden idade
Nes a subsecção, in e essa-nos explo a as consequências que o obscu ecimen o da no i ia
em na iden idade do homem. Como de cos ume, a amos sepa adamen e a pe spec i a
es i amen e imanen e e a pe spec i a eológica.
Comecemos pela p imei a. De um pon o de is a imanen e, a consequência cen al do
obscu ecimen o – em que se concen am as ou as – pode se pos a da seguin e manei a:
o obscu ecimen o az que cada um não se pe ceba como imagem. Es a a i mação pode se
sepa ada em duas. Em p imei o luga , um homem não pe cebe que é imagem. Ou seja, não
pe cebe que a sua iden idade se acha em pe manen e e e ência a um pon o de uga. Em
segundo luga , não se pe cebe a si mesmo. Com e ei o, se ele é imagem, mas não pe cebe
que o é, não pe cebe isso mesmo que ele é. Po ou as pala as, não acompanha a sua
p óp ia iden idade.
Toda ia, o ac o de não acompanha a sua iden idade não que dize que não enha
qualque ideia conscien e sob e ela. Assim, po exemplo, sabe que que se eliz. Sabe, pa a
além disso, que nunca es á comple o, i.e., nunca a inge essa elicidade pa a que ende. O a,
an o o ca ác e deside a i o como o ca ác e inalcançá el cons i uem aços da no i ia –
e, po isso, da iden idade humana. Po an o, o homem em uma ideia conscien e de alguns
168No amen e a dupla elação ad e sa i a: po mais obscu ecida que seja, ainda assim é no i ia; po mais que a
no i ia molde udo o que apa ece, á-lo clandes inamen e.
169À semelhança do que izemos na no a 162, de emos salien a que o c en e não oge a es a si uação.
92

elemen os da sua iden idade.
Is o susci a a seguin e pe gun a: se ele conhece elemen os da sua iden idade, qual é
en ão o papel do obscu ecimen o da no ícia? T a a-se de um papel duplo. Em p imei o
luga , o obscu ecimen o az que ele não consiga acompanha a o alidade dos elemen os
da p óp ia iden idade. Assim, embo a seja e dade que conhece alguns dos seus aspec os,
é ambém e dade que não os conhece a odos. Em segundo luga , o obscu ecimen o az
que a elação conscien e que ele es abelece com os aspec os que conhece seja des ocada.
Des e modo, em ez de acon ece que os elemen os de que em ideia – al como a on ade
de elicidade – sejam dis in amen e comp eendidos, acon ece an es que nem mesmo esses
são bem acompanhados. Assim, a elação conscien e e e ida es á ela mesma ma cada po
indis inção, i.e., po ausência de consciência.
A comp eensão que um homem em da sua iden idade acha-se ainda cunhada po ou o
aspec o decisi o: a ci cuns ância de ele se e a si mesmo como o cen o da ealidade. O
homem dá consigo a comp eende o odo da ealidade de al o ma que se ê a si mesmo a
ocupa a posição cen al. Assim, in e p e a udo o mais como subo dinado a si. Que dize ,
udo é is o à luz do seu in e esse po si; udo é a aliado na medida em que con ibui pa a
si, na medida em que lhe pode se ú il. Em úl ima análise, po an o, udo é is o como
se o de si, como ins umen o pa a si. Em suma, o homem comp eende-se, po assim dize ,
como o ‘p esiden e’ da ealidade.170
O ac o de ele se e como p esiden e não que dize que se julgue insupe á el. Di o
de ou a manei a, embo a se eja no cen o da ealidade, nem po isso acha que a ingiu
o pa ama máximo daquilo que ele mesmo pode se . Na e dade, con inua inculado ao
supe la i o de supe la i os – ao pon o de uga de que em no i ia –, e de al manei a que
ainda se ê aquém dele. Simplesmen e, comp eende esse supe la i o como qualque coisa que
lhe pe ence: o es ado em que ele, man endo-se p esiden e, se encon a á (ou encon a ia)
plenamen e p eenchido. Ou seja, ê o supe la i o como o es ado insupe á el de si, o es ado
au ocen ado pleno. Des e modo, o p óp io supe la i o é po ele is o como qualque coisa
que exis e pa a si, que es á ao seu se iço.
Es a conclusão pe mi e-nos pe cebe o alcance da comp eensão au ocen ada que emos
indo a desc e e . Po um lado, como imos na secção 2.2.3, a o alidade daquilo com que
cada pessoa se elaciona es á pola izada pelo pon o de uga. Assim, uma cane a, um jan a ,
um amigo, uma lemb ança, e c. são desde logo comp eendidos como desempenhando um
170O que emos desc i o não é senão aquilo a que Agos inho chama o amo excellen iae p op iae (c . De Gen. Li .
XI, XIV, 18). Es a exp essão equi ale à noção de sobe ba (c . ibidem), que se á analisada adian e. Sob e a exp essão
amo sui, equi alen e a ambas, eja-se De Ci . XIV, 28, De Gen. Li . XI, XV, 19.
93
papel ( a o á el, neu o, e c.) no seu p ojec o de encaminhamen o pa a o pon o de uga.
Po ou o lado, como acabámos de e , o p óp io pon o de uga é comp eendido como
ins umen o de si, como um es ado em que o p óp io é p esiden e. Is o implica que a
o alidade do que lhe apa ece es á, em úl ima análise, o ien ada pa a si. Que dize , uma
cane a, um jan a , um amigo, e c. são in e p e ados à luz do seu in e esse po si; os p óp ios
supe la i os en ol idos no pon o de uga – e dade, elicidade, jus iça, e c. – são ambém
eles omados, em úl ima análise, como en idades ins umen ais em elação a si. En im, não
há nada daquilo com que ele se elaciona que escape a uma emissão úl ima pa a si mesmo.
Acon ece, pa a além disso, que uma al emissão é incon o ná el.171 Uma pessoa dá
consigo a comp eende -se no cen o da ealidade, e de al o ma que não consegue libe a -
-se dessa comp eensão. Assim, po mais que en e e as coisas de ou a manei a, po mais
que se con ença de que não es á cen ada em si mesma, po mais que a i me que não é
assim, acaba semp e po se man e a p esidi . Po ou as pala as, encon a-se como que
p isionei a da p esidência de si.
Finalmen e, udo is o pode acon ece inconscien emen e. Ou seja, oda es a o ganização
au ocen ada da ealidade pode – e, na e dade, ende a – es a a igo a sem que o p óp io
se ape ceba. Assim, um homem ende a elaciona-se com um jan a e com um amigo sem
cai na con a de que o que es á no undo dessas elações é um in e esse po si mesmo.172
Conside emos ago a o mesmo assun o a pa i de um plano eológico. An es de mais,
segundo a pe spec i a eológica, o que es á no cen o de oda a discussão é a seguin e pe -
gun a: qual é a elação com o supe la i o? Es a pe gun a não é decisi a no plano imanen e.
Com e ei o, nessa desc ição, o supe la i o não desempenha uma unção essencialmen e di-
e en e da dos ou os objec os – no sen ido em que udo é comp eendido como ins umen o
de si. Di o de ou o modo, na desc ição imanen e, o homem encon a-se na posição cen al
– dá consigo assim – e não há nenhuma azão po que o supe la i o (ou qualque ou o
objec o) enha con es a esse es ado de coisas.
No plano eológico, a si uação é o almen e di e en e. É que, nesse plano, o supe la i o
co esponde ao p óp io Deus c iado . Assim sendo, a elação que cada um es abelece com o
supe la i o (is o é, com Deus) de e se al que quem ocupa a posição cen al éo supe la i o,
e não o p óp io. Explicando melho , no plano eológico, a iden idade do supe la i o é al
171Pelo menos pa a odo aquele que, dando consigo no cen o de si, se es o ça po elimina essa emissão a si.
Embo a es e assun o não possa se desen ol ido aqui, não que emos deixa de e e i que o que es á em causa é um
aspec o pa icula men e ele an e de um pon o de is a eológico, na medida em que e ela que o homem é incapaz
de sai po si mesmo da si uação de pecado em que se encon a.
172De e ica cla o que o ac o de ele não se ape cebe explici amen e de nenhuma p esidência – e chega a a i ma ,
po isso, que ela não exis e – não que dize que ela não exis a.
94
que o supe la i o não de e ia es a subo dinado ao homem; pelo con á io, o homem é que
de e ia es a subo dinado ao supe la i o.
Is o que ambém dize que, no plano eológico, a p esidência de e es a alocada ao
supe la i o, e não ao p óp io. Ou seja, na sua comp eensão do odo da ealidade, quem
de e assumi as unções de p esiden e p o quo omnia não é o p óp io, mas sim o supe la i o.
Pe cebemos ago a melho a ele ância da pe gun a e e ida (que elação se es abelece com
o supe la i o?); a mul iplicidade de possibilidades en ol idas nessa elação es á con ida
den o de duas al e na i as essenciais. Numa p imei a, o supe la i o é iden i icado com
aquilo que ele e dadei amen e é – o Deus c iado –, pelo que lhe é a ibuído o cen o, i.e.,
a p esidência. Numa segunda al e na i a, pelo con á io, em-se uma isão de ei uosa em
elação à iden idade do supe la i o, de al manei a que o cen o é ocupado pelo p óp io.
Assim, pa a a pe spec i a eológica, o essencial da elação com o supe la i o em que e
com uma con aposição en e duas p esidências possí eis: a p esidência do p óp io, ou a
p esidência do supe la i o.173
Sucede que os e mos des a disjunção não são igualmen e álidos. De ac o, no plano
eológico, a si uação em que o homem se oma como p esiden e co esponde a uma de u -
pação da si uação de ida – aquela em que o p esiden e é Deus. Uma al de u pação, como
suge imos, es á assen e numa má comp eensão do supe la i o. Que dize , de um pon o de
is a eológico, o se humano só se oma como p esiden e po que em uma isão des ocada,
ene oada, obscu ecida do supe la i o. Assim, a p esidência do si é uma consequência do
obscu ecimen o da no ícia de Deus – de al modo que, se não hou esse obscu ecimen o, não
ha e ia uma al p esidência.174
É c ucial que ique cla o que a ci cuns ância de o p óp io se p esiden e não implica que
Deus deixe de se uma de e minação com que ele es á numa elação conscien e. Po ou as
pala as, quando a i mamos que um homem só se oma como p esiden e po e uma isão
des ocada de Deus, não es amos a indica que Deus co esponde a uma de e minação que ele
pu a e simplesmen e não oca. Na e dade, ele pode pensa em Deus, ala sob e Deus, eza
a Deus, e pode a é lou a a Deus, p es a -lhe cul o e anunciá-lo, mas sem nunca abandona
a p esidência de si. Com e ei o, o ac o de ele oca a de e minação ‘Deus’ não ga an e
que se elacione com ela de um modo não obscu ecido. Em esumo: po um lado, só há
p esidência de si se hou e obscu ecimen o em elação à iden idade de Deus; po ou o lado,
173De um pon o de is a imanen e, es e p oblema não se le an a. Realmen e, nesse caso, o si mesmo é p esiden e,
pelo que nem seque se ende a conside a a possibilidade de o supe la i o pode assumi as unções de p esiden e.
174Enquan o se e i ica que, no plano imanen e, a comp eensão egocên ica da ealidade equi alia simplesmen e
a uma comp eensão sem mais, e i ica-se no plano eológico que essa comp eensão equi ale a um es ado de coisas
esul an e de uma iden i icação dis o cida do supe la i o. Es e assun o se á ap o undado mais adian e.
95
o ac o de se conside a explici amen e Deus não ga an e que um al obscu ecimen o não
exis a.
É es e obscu ecimen o – e a espec i a p esidência do si mesmo – que a noção de a e sio
a Deo exp ime. A e sio a Deo, po an o, não en ol e necessa iamen e uma ejeição do con-
cei o de Deus; pelo con á io, e como acabámos de mos a , é pe ei amen e compossí el
com uma conside ação exp essa de Deus. Des e modo, uma pessoa pode e a sua ida oda
ocupada com Deus – alando sob e ele, ensinando sob e ele, p es ando-lhe cul o, e c. – e,
ainda assim, es a em a e sio a Deo.
Pelo que emos desc i o, ica cla o que a al e na i a de p esidências aqui em discussão
co esponde a uma di e ença na iden i icação do supe la i o. No caso em que a p esidência
es á a ibuída ao supe la i o, es e é iden i icado não só como um ou o, como, pa a além
disso, com um ou o absolu amen e desp opo cional. Em con as e, no caso em que o p óp io
é o p esiden e, o supe la i o é po ele is o como um auxilia de si – is o é, como um meio
pa a si –, de al o ma que se acha comp eendido à sua medida.175
Impo a ago a conside a a elação que se es abelece no plano eológico en e a iden idade
do supe la i o e a iden idade do p óp io homem. Pa a isso, ecapi ulemos alguns pon os
conside ados no capí ulo 1. De aco do com a dou ina da imago Dei, a iden idade do
homem es á de inida pelo seu se imagem de Deus. O a, como imos, a imagem conc e iza-
-se na possibilidade da pa icipação di ina, e de al o ma que o homem es á ei o pa a pa -
icipa em Deus. Di o po ou as pala as, na óp ica eológica, aquilo que o se humano
ealmen e p ocu a – e que em p eenche a sua pe ição cons i u i a – não é ou a coisa
senão a pa icipação em Deus.
An es de p ossegui mos, de emos des aze um equí oco que pode esul a do que aca-
bamos de expo . É que a p óp ia noção de pa icipação pode se comp eendida de o ma
comple amen e egocên ica. De ac o, um indi íduo, ao deseja a pa icipação di ina, não
es á o çosamen e a o na -se mais ele mesmo. Na e dade, ele pode deseja pa icipa em
Deus, mas de al o ma que a sua comp eensão dessa pa icipação se encon e, em úl ima
análise, cen ada em si mesmo. Nesse caso, ê a pa icipação como aquilo que mais lhe
con ém – o que que dize que quem ocupa o luga de p esiden e con inua a se o p óp io.
Assim, um desejo de pa icipação em Deus pode es a ão co ompido como um desejo de
175Como suge imos, es e ca ác e ins umen al do supe la i o pode mui o bem acon ece numa si uação em que ele
(is o é, o supe la i o, Deus) seja conside ado de o ma exp essa. Nesse caso, o p óp io elaciona-se explici amen e
com o supe la i o, mas a sua comp eensão dele es á des ocada ao pon o de se oma a si mesmo como de e minação
cen al. Assim, ele ala sob e Deus, p es a-lhe cul o, anuncia-o, e c., mas de al manei a que, em úl ima análise, o
oma como ins umen o de si.
96
no echo já ci ado da ca a de São João, iden i ica ês des o malizações e esboça a ese
do íplice desejo ou das ês concupiscen iae: a concupiscência da ca ne (concupiscen ia
ca nis), a concupiscência dos olhos (concupiscen ia oculo um) e a ambição de pode (ambi io
saeculi).189
Não podemos ala ga -nos numa análise do complexo de eses que se condensam em al
desc ição. Temos de nos limi a a inca duas coisas. Em p imei o luga , San o Agos inho
não es á simplesmen e a iden i ica ês géne os de desejo em que são subsumí eis odos os
desejos que emos; es á a iden i ica como que ês inculações undamen ais de não indi e-
ença humana, quando es a se acha o ien ada pa a o mundo. Is o de al manei a que odos
os nossos desejos mundanos descendem dessas ês inculações o iginais, adicam nelas e
êm jus amen e a o ma des e ou daquele eio undamen al de concupiscen ia des o mali-
zado pela ligação a es es ou àqueles modos mais conc e os de lhes da azão. Em segundo
luga , mesmo que Agos inho es eja só a ala de ês di ecções de concupiscen ia, o pon o
decisi o é que essas ês di ecções se acham in imamen e ligadas a qualque coisa de uno
que se canaliza nelas. E is o de al modo que esse elemen o uno (a ensão cen al e única
que se canaliza nelas) es á, de aiz, di igido a um supe la i o. Assim, globalmen e, as ês
concupiscen iae desempenham o papel de o mas o iginais de des o malização mundana pa a
o supe la i o.
Toda ia, embo a cons i uam des o malizações, as ês concupiscen iae co espondem
ainda a ideias o mais: cada uma delas em uma iden idade de al manei a des ocada que
o homem não é capaz de se elaciona di ec amen e com ela. Mas ambém elas admi em
des o malizações. Is o é, cada uma das componen es do íplice desejo pode se conc e i-
zada em de e minações mais de inidas. Es as de e minações êm que e com o conjun o
das coisas c iadas – ou, o que é o mesmo, com o conjun o das c ia u as.
189C . Con . X, XXX, 41. Uma análise do íplice desejo é ei a po Agos inho en e os capí ulos XXX, 41 e XXXIX,
64 do li o X das Con issões. Re e ências ao íplice desejo encon am-se espalhadas pelo co pus augus iniano. C .,
po exemplo, De Mo . I, XX, 37, ibi. I, XXI, 38, De Lib. A b. II, XIX, 53, De Ve . Rel., XXXVIII, 69-71, In
Epis . Io. . 2, 11-14, In Ps. 8, no13. Mui as ezes, Agos inho usa exp essões equi alen es às ap esen adas
acima. Assim, em ez de concupiscen ia ca nis, usa ambém concupiscen ia ca nalis (De Gen. Man. I, XXIII, 40),
deside ium ca nis (In Epis . Io. . 2, 11), illeceb ae (De Mo . I, XX, 37), libido (De Ve . Rel., XXXVIII, 70),
olup as (De Ve . Rel., XXXVIII, 69), olup as ca nis (In Ps. 8, no13). Em ez de concupiscen ia oculo um, usa
ambém cu iosi as (De Gen. Man. I, XXIII, 40, De Mo . I, XXI, 38, De Ve . Rel., XXXVIII, 70, In Epis . Io. .
2, 13, In Ps. 8, no13), deside ium oculo um (In Epis . Io. . 2, 11), spec aculum (De Ve . Rel., XXXVIII, 69).
Em ez de ambi io saeculi, usa ambém excellen ia (De Ve . Rel., XXXVIII, 69), glo ia popula is (De Mo . I, XXI,
38), po en ia ana (De Ve . Rel., XXXVIII, 69), supe bia (De Gen. Man. I, XXIII, 40, De Ve . Rel., XXXVIII, 70,
In Epis . Io. . 2, 13, In Ps. 8, no13). Sob e es e assun o, eja-se ainda O’CONNELL, Robe J., S . Augus ine’s
Ea ly Theo y o Man, A.D. 386-391, Belknap P ess, Camb idge, 1968, p. 175 e HOLTE, Ragna , Béa i ude e sagesse
– Sain Augus in e le p oblème de la in de l’homme dans la philosophie ancienne, É udes Augus iniennes, Pa is,
1962, p. 298.
103

A úl ima a i mação pe mi e-nos pe cebe melho o papel da c ia u a no enómeno do
mundo. Segundo os pa ág a os an e io es, o in e esse pela c ia u a é o esul ado de uma
es u u a de des o malização complexa. O iginalmen e, o homem es á in e essado no su-
pe la i o de que em no ícia. Não endo uma ideia cla a do con eúdo desse supe la i o,
associa-o ao es ado au ocen ado pleno. Assim, o in e esse pelo supe la i o o iginou um
in e esse po esse es ado. Es e in e esse, po sua ez, ge a um in e esse pelo íplice desejo.
Es e úl imo, po sua ez, ge a um in e esse po uma de e minada ealidade c iada. Des a
o ma, em ez de o homem se in e essa di ec amen e pelas c ia u as, acon ece an es que
exis em á ios ní eis de des o malização en e a o igem do seu in e esse e aquelas.190
A es u u a de des o malização aqui em discussão mos a que o in e esse po uma de e mi-
nada ealidade c iada só exis e po uma combinação de ês azões. P imei o, essa ealidade
apa ece como con ibuindo pa a uma das componen es do íplice desejo. Segundo, o íplice
desejo apa ece como a o ma de o homem chega (ou diminui a sua dis ância em elação)
ao es ado au ocen ado pleno. Te cei o, um al es ado apa ece-lhe (e é adop ado) como co -
espondendo ao (como sendo o que menos dis a do) supe la i o que ele p ocu a. Assim, é só
po que odas es as azões es ão simul aneamen e a igo a que uma ealidade c iada susci a
in e esse. Se alguma dessas azões se pe desse, deixa ia de ha e ligação en e o in e esse
o iginal e a ealidade em causa. Nesse caso, po an o, a c ia u a deixa ia de apa ece como
in e essan e.191
Tal como acon ecia no caso da bea a i a, ambém aqui os in e esses pelas des o maliza-
ções são in e esses de i ados. Que dize , o in e esse po uma de e minada des o malização
é al que a inculação do homem con inua a se ao in e esse o iginal. Des a o ma, po exem-
plo, aquilo que ele ealmen e p ocu a no es ado au ocen ado pleno não é p op iamen e esse
es ado, mas sim esse es ado como o supe la i o a que se acha cons i u i amen e di igido. É
po que – e só po que – um al es ado lhe apa ece como a o ma de ob e o supe la i o que
se in e essa po ele.
Po ou as pala as, a inculação ao in e esse o iginal (o in e esse pelo supe la i o)
man ém-se ao longo dos á ios ní eis de des o malização. O que is o signi ica é que o
in e esse pela c ia u a é, na sua aiz, um in e esse pelo supe la i o. Com e ei o, a) o in e-
190A ap esen ação que acabamos de aze pode suge i que as camadas desc i as equi alem a si uações insuladas
que se sucedem umas às ou as. O a, não é de nada disso que se a a. T a a-se de camadas de ixação que es ão
p essupos as na cons i uição ín ima no esul ado em que cada um de nós dá consigo – sem e nenhuma consciência
de que a pe spec i a em que dá consigo esul a desse i ine á io de sucessi as des o malizações.
191De emos assinala que a noção de c ia u a em indo a se usada al como ela es á comp eendida na exp essão
a c ea o e ad c ea u am. Is o é, a noção de c ia u a em indo a signi ica aquilo com que o homem se elaciona
quando não em a a enção pos a no c iado . Assim, não se es á de manei a nenhuma a dize que odo o in e esse
pelas coisas c iadas em po de ás um desejo do es ado au ocen ado pleno.
104
esse pela c ia u a não é p op iamen e um in e esse pela c ia u a, mas pelo íplice desejo,
b) es e in e esse, po sua ez, não é p op iamen e um in e esse pelo íplice desejo, mas an es
pelo es ado au ocen ado insupe á el, c) o in e esse po um al es ado é undamen almen e
um in e esse pelo supe la i o. Assim, como que íamos mos a , aquilo que es á no cen o
da p eocupação que o homem em pela c ia u a não é a c ia u a, mas sim o supe la i o.
Acon ece, en e an o, que udo is o es á in imamen e elacionado com um enómeno de
obscu ecimen o, de pe da de acuidade e ni idez. E is o é assim an o na lei u a eológica da
imago Dei, quan o no plano imanen e. Vejamos es e pon o mais de pe o.
Em p imei o luga , de um pon o de is a eológico, se não i esse al a de acuidade,
o homem e ia que o con eúdo do supe la i o não equi ale ao es ado au ocen ado pleno,
mas sim a uma pa icipação em Deus. Assim, sem es e obscu ecimen o ou es a al a de
acuidade, nunca ejei a ia Deus. Em segundo luga , no plano es i amen e imanen e, sem a
al a de acuidade, não ha e ia a es u u a de des o malização que acabamos de en a pô
em ele o. Ve íamos com oda a anspa ência os di e en es ní eis de des o malização, a
a iculação en e eles, o que há de p oblemá ico nas di e en es des o malizações, e c.192
Com is o, somos econduzidos ao plano eológico e à ese segundo a qual, se não hou esse
obscu ecimen o, pe da de ni idez, e c. da imago Dei, não ha e ia desejos con á ios a Deus.
Como no ámos na secção 2.2.5, odo o acon ecimen o de lucidez humana eme e pa a o
pon o de uga da no i ia Dei. No plano eológico a cuja luz emos conside ado o enómeno
do mundo, isso implica que udo o que se passa na lucidez humana eme e pa a Deus. Em
pa icula , odo o desejo eme e semp e pa a Deus. Ou seja, odo o desejo é necessa iamen e
um desejo de Deus.
Es a úl ima a i mação pa ece suge i que não é possí el um desejo con á io a Deus.
E ec i amen e, é is o que acon ece de aiz e, se assim se pode dize , aquilo que acon ece na
essência de cada desejo humano. Di o de ou a manei a, na sua essência, um desejo nunca
deixa de se um desejo de Deus. Sucede que, ha endo obscu ecimen o, pode acon ece que
um desejo de Deus não seja pe cebido como al – e p ocu e aquilo que de aiz p ocu a, mas
em egime de a e sio a Deo. Nesse caso, o desejo em ques ão, não deixando de se um
desejo de Deus, pode se con usamen e iden i icado com o desejo de uma ealidade con á ia
a Deus.193
192Tal como as coisas são, odo o complexo de nexos que ligam cada coisa que desejamos à es u u a ixa e in a iá el
do nosso desejo (enquan o desejo cons i u i amen e inculado ao supe la i o) é eclipsado. Todo esse sis ema de o ças
apaga o seu as o na cons i uição da espec i a esul an e: es es e aqueles desejos conc e os que sen imos (e que não
sen i íamos se não hou esse o e e ido sis ema).
193O p oblema de pe cebe como su ge um desejo con á io a Deus não pode se explo ado nes e ex o. Apesa
de udo, podem se dadas algumas indicações sob e a o ma como Agos inho a a es e assun o. A i mámos que
um desejo con á io a Deus só é possí el em i ude do obscu ecimen o. Toda ia, is o de manei a nenhuma explica
105
O ac o de ha e desejos de ealidades con á ias a Deus e ela dois pon os impo an es:
em p imei o luga , que, apesa de ha e obscu ecimen o, ainda há imagem. De ac o, se é
e dade que um desejo con á io a Deus é um desejo obscu ecido, ambém é e dade que
é um desejo; o a, segundo a dou ina da imagem, enquan o desejo, é necessa iamen e um
desejo de Deus. É es a a pa adoxal ambiguidade da imagem obscu ecida:
“(...) quia e ipsa obscu a, imago Dei es .”194
Em segundo luga , o ac o e e ido e ela que oda a a e sio a Deo ( odo o en a e, odo
o des io, oda a pe da de o ça da imago Dei) só se dá no quad o da p óp ia imago Dei –
is o é, da no i ia Dei e do es a cons i u i amen e ol ado pa a Deus. Realmen e, se odo
o desejo con á io a Deus é desejo, e se odo o desejo é desejo de Deus, en ão odo o desejo
con á io a Deus é ainda um desejo de Deus. Ou seja, oda a a e sio a Deo é ei a de al
manei a que ela mesma p essupõe Deus. Assim, em ez de acon ece que haja uma absolu a
emancipação em elação a Deus, acon ece an es que, como insis imos na secção 2.2.5, udo
se e i ica semp e só no quad o da no i ia Dei e como ans o mação dela.195
No que diz espei o à imago Dei imanen e, a ci cuns ância de o homem es a ma cado
po obscu ecimen o az que ambém não se ape ceba de que aquilo com que iden i ica o
supe la i o é um es ado au ocen ado pleno. Como imos, a al a de acuidade pe mi e que
ele associe – a a és de á ios ní eis de des o malização – o supe la i o a uma de e minada
c ia u a. Pa a além disso, essa mesma al a de acuidade az que os ní eis de des o malização
iquem escondidos. Em pa icula , cada um de nós ende á a não epa a que um dos ní eis
de des o malização é o es ado au ocen ado pleno. Assim, julga á que aquilo que o az eliz é
uma de e minada c ia u a, sem se ape cebe de que essa c ia u a não é senão um meio pa a
ele chega a si mesmo (mais p óximo do es ado de supe la i ação de si que semp e almeja).
Des e modo, a p eocupação que sen e pela c ia u a esconde a p eocupação undamen al que
igo a na aiz do seu in e esse po ela e que é uma p eocupação po si mesmo. Em esumo,
embo a a iden i icação que o homem az do supe la i o seja a de um es ado au ocen ado
pleno, em i ude da con usão (da al a de acuidade, do ‘ne oei o’ em que se pe de a sua
p óp ia cons i uição in e na), ele acaba po julga que em in e esse di ec o e au ónomo po
o su gimen o de um al desejo. Realmen e, po um lado, o ac o de ha e obscu ecimen o não ga an e, po si só,
uma iden i icação en e um desejo de Deus e um desejo de uma ealidade con á ia a Deus. Po ou o lado, mesmo
que ga an isse, punha-se o p oblema de sabe qual a o igem do obscu ecimen o. Agos inho, ao longo da sua ob a,
deba e-se epe idas ezes com o p oblema do su gimen o de um desejo con á io a Deus – is o é, com o p oblema da
o igem da má on ade. Chega in a ia elmen e à conclusão de que não há uma causa pa a a má on ade (c ., po
exemplo, De Ci . XII, 6 e 7, ibi. XIV, 13, De Lib. II, XX, 54, ibi. III, XVII, 47 e 48). Acaba mesmo po de ende
mesmo que uma on ade – boa ou má –, sendo li e, não em causa: c . De Lib. III, XVII, 49.
194De T in. XV, VIII, 14. C . ainda ibi. XIV, VIII, 11, De Spi. XXVIII, 48 e 49.
195Sob e o ac o de o obscu ecimen o da imagem se da no quad o dela, c . De Na . XXX, 34, De T in. XIV, XV,
21.
106
uma dada c ia u a.
Fica ago a cla o qual é o sen ido da exp essão a c ea o e ad c ea u am. Es a exp essão
indica as duas al e na i as com que o homem pode iden i ica o supe la i o. Na e dade,
como imos, aquilo que jaz no cen o da p eocupação que o homem em pela c ia u a é ele
mesmo, e não a c ia u a. Po isso, endo bem, a ansição em jogo não é an o uma ansição
a c ea o e ad c ea u am, quan o uma ansição a c ea o e ad se ipsum. Po ou as pala as,
os dois objec os em que o homem pode es a cen ado não são o c iado e a c ia u a, mas
sim o c iado e ele mesmo (que dize , es a c ia u a que é ele mesmo). Simplesmen e, a
con usão em que se acha en ol ido é al que ele iden i ica o supe la i o não consigo mesmo,
mas com a c ia u a. En im, a exp essão a c ea o e ad c ea u am não exp ime p op iamen e
as duas ealidades que podem es a no cen o da p eocupação do homem, mas sim as duas
ealidades com que ele acaba po iden i ica o supe la i o a que semp e se acha di igido.
A exp essão a c ea o e ad c ea u am, con udo, pode suge i que a ensão pa a o c iado e a
ensão pa a a c ia u a sejam duas ensões independen es. O que se passa, na e dade, é que
as duas ensões são o iginalmen e uma mesma ensão: a ensão pa a o supe la i o. Sucede
que, enquan o num caso o supe la i o é iden i icado com uma pa icipação no c iado , no
ou o é iden i icado con usamen e com a c ia u a.196 Assim, em ez de se da o caso de a
o ien ação pa a o c iado e a o ien ação pa a a c ia u a se em dois ec o es di e en es da
cons i uição do homem, co espondem an es a duas esoluções ou in e p e ações di e en es
de uma única p essão o iginal.197
Mas is o ainda não é udo. Na óp ica eológica, não acon ece só que a ensão pa a a
c ia u a e a ensão pa a o c iado sejam in e p e ações di e en es de uma única ensão.
Acon ece, pa a além disso, que uma dessas in e p e ações equi ale àquilo que é pedido pela
cons i uição humana, enquan o a ou a equi ale a um des io ela i amen e a esse pedido e
a uma us ação dele. Como imos na secção 2.3.2, aquilo que o homem ealmen e p ocu a
quando p ocu a o es ado au ocen ado pleno não é esse es ado, mas sim a pa icipação em
Deus. Da mesma manei a, aquilo que o homem p ocu a na c ia u a é, na e dade, o c iado .
Simplesmen e, po que não em uma isão dis in a, con unde a c ia u a com o c iado :
196De al modo que, no undo do desejo da c ia u a, es á um desejo au ocen ado de si mesmo supe la i ado.
197Segundo Agos inho, o eio o iginal, po que é o iginal, é bom. Realmen e, pa a Agos inho, udo o que é o iginal
é bom. Que dize , oda a na u eza é boa (c ., po exemplo, De Ci . XI, 17, ibi., XII, 1, 3, 4 e 5, ibi. XIX, 13,
De Lib. II, XX, 54, ibi. III, VII, 21, ibi. III, XIII, 36, De T in. XIII, XII, 16). Assim, Agos inho opõe-se a uma
ese maniqueís a, segundo a qual exis e uma o ça o iginal co esponden e ao mal (sob e a ese maniqueís a, c ., po
exemplo, De Mo . II, III, 5, De Ve . Rel. IX, 16). Des a o ma, de aco do com Agos inho, o mal equi ale semp e a
uma co upção do bem. Di o de ou a manei a: o ício é semp e con a a na u eza (c ., po exemplo, De Ci . XI,
17, ibi. XII, 1 e 3, De Lib. III, XIII, 36 e 38, De Mo . II, II, 2 a II, VI, 8, De Spi. XXVII, 47, De Ve . Rel. XX, 29).
107
“Con undun illi, male disce nendo, c ea u am cum C ea o e.”198
Sendo assim, nada dis o impede uma ou a componen e do se humano como imago Dei
de que Agos inho ambém p ocu a da con a. Essa componen e é a seguin e: a in e p e ação
mundana do supe la i o é, das duas in e p e ações possí eis, a mais imedia a. Ou seja, o
supe la i o a que o homem se acha cons i u i amen e di igido e com que es á numa elação
con usa é mais imedia amen e po ele associado a um es ado au ocen ado pleno do que a
uma pa icipação em Deus. Is o de e-se ao ac o (discu ido na secção 2.3.1) de que, em
i ude do obscu ecimen o, a sua elação com o supe la i o ende a desen ol e -se sob o
e ei o de uma a e sio a Deo. Assim, ele em um econhecimen o imedia o da ealidade
que é, endo bem, p op iamen e a eu.199 Nesse caso, aquilo que assume con usamen e a
iden idade de supe la i o é o e e ido es ado de supe la i ação de si.
Pos o is o, ecapi ulemos o que imos a p opósi o do concei o de mundo – is o é, do
complexo de enómenos que es e concei o designa. O enómeno do mundo, pelo que emos
expos o, co esponde a uma o ganização da ealidade (que dize , da elação de cada um
consigo mesmo e com a ealidade no meio da qual se encon a). Em úl ima análise, o mundo
consis e numa de e minada es u u a de sen ido, i.e., numa de e minada comp eensão da
o alidade das coisas. O que ca ac e iza al es u u a de sen ido é a) o echamen o no plano
da c ia u a (a a e sio a Deo) e b) a cons i uição da c ia u a ‘si mesmo’ como a ins ância que
p eside a udo o mais – e de al modo que udo o mais é incluído no se iço da supe la i ação
dessa c ia u a.
O a, é a imagem de Deus que possibili a es e p ojec o. Com e ei o, é a imagem de Deus
que ge a pe ição de um es ado supe la i o. Des a o ma, é po que há imago Dei que pode
ha e o peculia p ojec o de eng andecimen o de si em causa. Assim, pa adoxalmen e, é a
p óp ia imago Dei que possibili a o ‘mundo’ enquan o econhecimen o undamen almen e
a eu da ealidade, já que es e econhecimen o em a o ma de um p ojec o de ele ação de si
198In Ps. 32, en. II, s. II, no5. Sob e o mesmo assun o, c . ambém De Ve . XXXVI, 67. A ci ação aqui
ap esen ada – de In Ps. 32 – é um dos poucos casos que encon ámos – a pa com Con . Iu. V, IX, 37, De T in.
X, VIII, 11 e In Ps. 64, no2 – em que San o Agos inho emp ega o e mo con usio pa a exp imi uma oca de
de e minações esul an e de uma isão des ocada. No ge al, o e mo é po ele usado pa a exp imi o es ado de quem
p ocu a alcança alguma coisa, mas de al manei a que essa p ocu a não le a a Deus: c ., po exemplo, Con . V,
XX, 31, ibi. IX, VII, 18, De Spi. VI, 9, Ep. 27, no2, In Ps. 6, no13, ibi. 29, en. II, nos 6 e 11, ibi. 30, en. II, s.
1, no5, ibi. 56, no9, ibi. 59, no9, ibi. 68, s. 2, no4, ibi. 69, no3, ibi. 125, no3. Tomado nes e sen ido, o e mo
su ge á ias ezes associado a Babilónia: c ., po exemplo, ibi. 54, no12, ibi. 64, no2, ibi. 125, no3, ibi. 136, no
1. Assim, Agos inho usa o e mo con usio pa a exp essa as ideias de pe u bação, de o a, us ação, emba aço,
culpa. Deus equi ale, po an o, àquele pa a quem não há con usão (“nulla con usio”, Solil. I, I, 4). Nes e sen ido, a
con usão (con usio) an o pode o igina pecado como g aça: c . Ep. 93, XIII, 52. O e mo con usio é ainda usado
pa a exp imi uma mis u a indis in a; c ., po exemplo, Con . XIII, XVII, 25 e 26, ibi. XIII, XX, 29.
199No a bene, ‘a eu’ não no sen ido de sus en a a ese da inexis ência de Deus, mas no sen ido de ha e a e sio a
Deo e, po an o, de Deus pu a e simplesmen e não igu a (ou se apenas uma ‘quan idade negligenciá el’) no modo
como nos elacionamos connosco mesmos e com as coisas.
108

ao supe la i o.200
2.3.4 Equações
Pa a pe cebe mos melho a a qui ec u a do enómeno do mundo, ap esen amos ago a, em
aços mui o ge ais, uma análise sucin a daquilo a que podemos chama as equações que
compõem uma al a qui ec u a. Conside emos o quad o eológico.201 Aqui, a desc ição oma
o seguin e discu so: po que há uma indis inção do e dadei o con eúdo de Deus, esse con-
eúdo o na-se o mal.202 Assim, em ez de apa ece como o Deus que ealmen e é, apa ece
an es como um pon o de uga ene oado. Nesse caso, o espaço de iden i icação do con eúdo
conc e o que lhe co esponde – que dize , o espaço de des o malização – não é senão o
espaço da c ia u a.203 Ou seja, é num plano em que não igu a Deus (is o é, o con eúdo que
p op iamen e co esponde a Deus) que o se humano pode encon a des o malizações pa a
a de e minação o mal com cuja no i ia es á em pe manen e elação.
Tudo is o signi ica que, no cen o da ida humana, há um p oblema de des o malização:
o homem em de se elaciona – e an o que dize que em de se elaciona conc e amen e –
com um con eúdo que lhe apa ece como uma incógni a; po isso, associa-lhe um de e minado
con eúdo ma e ial (is o é, não o mal). Po ou as pala as, o p oblema de des o malização
ica esol ido de um de e minado modo conc e o – o que, do pon o de is a eológico, não
que dize senão o modo iden i icado com o maio p eenchimen o de si mesmo.
A associação en e o supe la i o e o con eúdo ma e ial que o des o maliza dá-se a a és
de equações – is o é, de igualdades. Num p imei o momen o, o supe la i o é pos o em equa-
ção com um dos ês canais equi alen es às ês concupiscências e e idas po Agos inho.204
Di o de ou a o ma, es abelece-se uma equação que en e o supe la i o e a concupiscen ia
ca nis, que en e o supe la i o e a concupiscen ia oculo um, que ainda en e o supe la i o
e a ambi io saeculi. Po sua ez, cada um desses ês canais, po se em eles mesmos objec os
o mais, le an am no os p oblemas de des o malização – que o nam a se esol idos po
equações. Supunhamos, po exemplo, que o supe la i o oi iden i icado com a concupiscen-
ia ca nis; nesse caso, es a úl ima pode á se des o malizada na concupiscência ela i a à
200Em ez de ‘a eu’ no sen ido mais comum do e mo, es á aqui a ala -se de oda a elação de u pada com Deus
– que dize , de oda a o ma de idola ia –, o que co esponde a uma modalidade mais ge al de a eísmo.
201Nes a subsecção, não seguimos o p ocedimen o habi ual de sepa a a e são imanen e da e são eológica, já
que, como se espe a que ique cla o, as duas componen es coincidem no undamen al.
202Como no ámos, não pode se explo ado o p oblema de sabe po que é que uma al indis inção exis e.
203Is o não que dize que es eja excluída a possibilidade de Deus igu a , já que o pode aze como ídolo, i.e., como
qualque coisa di e en e do Deus que e ec i amen e é.
204Na e dade, nada exclui a possibilidade de o supe la i o es a simul aneamen e iden i icado com mais do que
uma concupiscência. Es e assun o não pode se con enien emen e explo ado aqui.
109
audição.
O que es amos a su p eende é a exis ência não simplesmen e de uma equação a ulsa,
mas de uma cadeia de equações. No exemplo que acabamos de da , o supe la i o é pos o
em equação com a concupiscen ia ca nis, que, po sua ez, é pos a em equação com a
concupiscen ia ela i a à audição. Na e dade, o sis ema de equações es ende-se a é aos
objec os conc e os. Assim, e e omando o mesmo exemplo, a concupiscen ia ela i a à
audição, co espondendo ainda a uma noção o mal, se á pos a em equação com um objec o
audi i o conc e o.
Pelo que emos is o, a equação desempenha um papel decisi o na des o malização do
supe la i o. Na e dade, a equação não é senão o modo de uncionamen o do supe la i o. O
que is o signi ica é que a imagem de Deus unciona po equação. Que dize , um se humano
lida com o p ojec o ge ado pela no ícia de supe la i o a a és do es abelecimen o de uma
cadeia de equações de des o malização.
Con udo, um al es abelecimen o acha-se ca ac e izado po aquilo que pode se desc i o
como o ca ác e clandes ino ou áci o da equação. Re e imo-nos a duas componen es. Uma
p imei a em que e com o p óp io enómeno da con usão – is o é, com a ci cuns ância de
a equação não se p oduzi no oco, mas sim o a dele. A segunda componen e em que e
com a e icácia da p óp ia equação. Explicando melho , quando se es abelece uma equação
en e dois e mos, acon ece que, se ela unciona con enien emen e, ela apaga o seu p óp io
as o. Ou seja, p oduz-se uma sín ese em i ude da qual o esul ado da equação apa ece
como uma de e minação o iginal. Des a manei a, a equação desapa ece: embo a es eja a
igo a , não igu a. Is o e i ica-se de al modo que não se acompanha, po um lado, o as o
da di e ença en e os seus e mos e, po ou o, a p esença de qualque p og ama o mal.
Assim, a ida oma o aspec o ilusó io de es a conduzida po um p og ama ma e ial.
Resumamos o que conside ámos a é aqui. Po um lado, há uma cadeia de equações.
Is o é, o supe la i o en ol ido na imago Dei é des o malizado po um encadeamen o de
sucessi as equipa ações. Po ou o lado, há uma cadeia de apagamen os: não só em i ude
de es a em na memó ia (que dize , na es e a do pa imónio de sabe inconscien e), mas
pelo seu p óp io uncionamen o.
Fei o es e sumá io, podemos ago a epa a que o p oblema é ainda mais complicado. Is o
de e-se ao ac o de que o que emos conside ado a é aqui não é senão aquilo a que podemos
chama um sis ema de equações em sen ido es i o (A=B=C=...). Acon ece que não
há apenas equações em sen ido es i o – is o é, não há apenas igualdades –, mas pelo menos
110
duas ou as ó mulas de es abelecimen o de equações.
Uma p imei a ó mula co esponde, po assim dize , a uma equação de meio ou ins u-
men o. O que é p óp io des e ipo de equação é a ci cuns ância de um dos e mos se is o
simul aneamen e como meio pa a o ou o e equi alen e a es e ou o. Pa a pe cebe mos
melho o que is o que dize , supunhamos que se es abelece uma equação de meio ou ins u-
men o en e uma es a de anos e o supe la i o. Nesse caso, a p imei a é comp eendida de al
o ma que, po um lado, con ibui pa a o segundo, e po ou o, é ela mesma o segundo. Que
dize , a es a de anos é omada pelo p óp io supe la i o (num egime de ‘ga o po leb e’).
Assim, o supe la i o como que ‘con amina’ a es a de anos, o que signi ica que aquilo que é
is o como ab indo caminho pa a ele é ao mesmo empo is o como igual a ele.
Um segunda ó mula é aquela que en ol e uma componen e esigna i a. Aqui, o sujei o
em ques ão econhece que aquilo que ele p op iamen e deseja não lhe é possí el – o que o
le a a escolhe , den o das al e na i as disponí eis, aquela que lhe pa ece se a melho en e
elas. Nes a si uação, po an o, a a-se de escolhe o supe la i o possí el.205 Na e dade,
pode da -se o caso de ha e um apagamen o da cláusula de esignação, de al o ma que o
supe la i o possí el deixa de se pe cebido como al, e é omado como supe la i o absolu o.
Finalmen e, de emos deixa cla o que Agos inho não ala exp essamen e em equações. De
qualque modo, o que en ámos aze aqui oi uma explici ação do mecanismo undamen al
de equipa ação que, se não es amos a e mal, se acha no cen o da concepção augus iniana
da imago Dei – e ambém daquilo que lhe co esponde como an opologia imanen e da imago
Dei. Assim, mesmo que Agos inho não aça nenhuma menção exp essa de um al mecanismo,
e i icamos que, se analisa mos, po exemplo, os passos do li o X das Con issões em que
Agos inho analisa a ligação pe manen e com a bea a i a, o que encon amos põe jus amen e
na pis a da es u u a aqui ap esen ada.206 Realmen e, nesses passos, Agos inho es á nem
mais nem menos do que a segui o io das equações de des o malização do supe la i o.
O que se joga num al sis ema é a possibilidade de ha e um desacompanhamen o no
âmbi o do p óp io uncionamen o da imagem de Deus – is o é, no âmbi o em que se man ém
em unções a imago Dei, a elação com o supe la i o, e c. O desacompanhamen o em causa
ab ange á ias componen es: pe de-se de is a que há um supe la i o, que ele se encon a
pe manen emen e em unções, e qual é o imb icado io de sen ido (o complexo de equações)
que de cada ez es á a esol e (po um lado) e a apaga a esolução (po ou o) do p oblema
205É o caso do exemplo da ida mili a , analisado an e io men e. A escolha do supe la i o possí el esul a de
um diagnós ico complexo (quais são as possibilidades eais, quais são as excluídas, qual é o alo de cada uma das
possibilidades eais, e c.), que não cabe analisa aqui.
206C . Con . X, XXI, 31.
111
de des o malização que o se imago Dei (no sen ido imanen e do e mo) semp e põe.
112
O a, segundo Agos inho, é possí el passa -se de uma si uação da e e sibilidade da ima-
gem pa a a ou a.214 Agos inho conside a não só o mo imen o de passagem de R2pa a
R1, como o mo imen o de R1pa a R2. Es as duas possibilidades são conside adas numa
óp ica eológica; mas ambém êm ele ância do pon o de is a imanen e, pois é ele an e
pa a cada um sabe se há ou não, po um lado, a possibilidade de se da uma comple a
ans o mação do seu p óp io modo de se (aquela que es á en ol ida na passagem de R1
pa a R2); e, po ou o lado, a possibilidade de R1se o esul ado de uma de o mação de R2.
Vejamos melho os dois mo imen os e e idos. O mo imen o de R2pa a R1en ol e um
a as amen o de Deus e um enal ecimen o de si mesmo:
“Tan o magis i aque inhae e u Deo, quan o minus diligi u p op ium. Cupidi a e e o expe iendae
po es a is suae, quodam nu u suo ad se ipsum amquam ad medium p o ui .”215
Em con as e, o mo imen o de R1pa a R2en ol e um anulamen o de si mesmo e um
cen amen o em Deus:
“Egenus e paupe ego sum e melio in occul o gemi u displicens mihi e quae ens mise ico -
diam uam, donec e icia u de ec us meus e pe icia u usque in pacem, quam nesci a ogan is
oculus.”216
Na pe spec i a de Agos inho, não acon ece que as al e na i as R1eR2sejam igualmen e
álidas. Pa a pe cebe mos que assim é, comecemos po lemb a que, na óp ica da concepção
eológica da imago Dei, o supe la i o de que o homem em no ícia co esponde a Deus (ao
Deus que não é suscep í el de se eduzido a um meio de mim e que já se acha des igu ado
se o comp eendido como meio de mim). Nesse caso, uma iden i icação do supe la i o com
Deus (insis imos: ao Deus que não é suscep í el de se eduzido a um meio de mim e que já
se acha des igu ado se o comp eendido como meio de mim) equi ale a uma iden i icação
adequada de si mesmo. Ou seja, o homem que iden i ica o supe la i o de que em no ícia
com Deus é um homem que em uma comp eensão adequada de si mesmo. De ac o, como
oposição ge al en e ol a -se pa a Deus e man e -se echado em si mesmo, c . De Mo . II, VI, 8, De Na . XXXI,
35, De T in. VIII, III, 4, ibi. VIII, VIII, 12, ibi. XII, XI, 16, ibi. XIV, XV, 21, In Ps. 75, no3.
214Es e assun o se á desen ol ido na secção 3.2.
215De T in. XII, XI, 16. Sob e o mo imen o da passagem de R2pa a R1, c . ainda De Di . Quaes . 30, De Gen.
Man. II, XVI, 24, De Lib. III, XXIV, 72, De Spi. VII, 11, De T in. XII, XIII, 21, In Ps. 70, s. II, no6. Sob e a
noção de a e sio como exp imindo um a as amen o de Deus, c . ibi. 5, no6, ibi. 6, no5, ibi. 10, no3, ibi. 25, en.
II, no11, ibi. 30, en. II, s. III, no10, ibi. 32, en. II, s. II, nos 5 e 16, ibi. 39, no7, ibi. 57, no21, ibi. 63, no11, ibi.
65, no13, ibi. 75, no5, ibi. 79, no4. Especi icamen e sob e a elação en e a a e sio e o bonum sibi, c . De Lib. III,
XXIV, 72. Nes e sen ido da pala a a e sio, Agos inho usa o e mo con e sio pa a exp imi uma con e são pa a o
mundo: c . In Ps. 35, no13, ibi. 53, no3, ibi. 59, no2, ibi. 91, no7, ibi. 102, no17, ibi. 104, no17, ibi. 118, s. V,
no3, ibi. 121, no3, ibi. 136, no13, Se mo. 4, no31, ibi. 23/A, no1.
216Con . X, XXXVIII, 63. Sob e o mo imen o da passagem de R1pa a R2, c . De Ve . XII, 24, In Epis . Io. .
1, 4 e 5, ibi. . 4, 3, In Ps. 6, no5, ibi. 65, no21, ibi. 75, no3. O e mo a e sio é ambém aplicado ao mundo,
pa a exp imi um cen amen o em Deus: c . In Ps. 9, no10, ibi. 30, en. II, s. III, no11, ibi. 35, no10, ibi. 65,
no22. Es a a e são em elação ao mundo en ol e, como a passagem aqui ci ada suge e, um so imen o. Sob e es e
assun o, eja-se ambém In Ps. 6, no5.
119

a i ma Agos inho, conhece -se a si mesmo é sabe -se imago Dei:
“Deus (...) Qui ecis i hominem ad imaginem e simili udinem uam, quod qui se ipse no i
agnosci .”217
Is o signi ica que a si uação R2não é só uma das al e na i as da e e sibilidade da imagem
de Deus: é, especi icamen e, a al e na i a co ec a. Ou seja, na pe spec i a eológica, a
iden i icação do supe la i o com Deus é a in e p e ação pedida e p ocu ada pela cons i uição
humana.
Como emos obse ado, o homem encon a-se cons i uído com um desejo inanulá el de
supe la i o. O que es amos ago a a pe cebe é que, no undo, esse desejo consis e num desejo
de que Deus es eja no cen o de si mesmo. O a, como mos ámos acima, o cen amen o em
Deus implica uma secunda ização de si. Is o que dize , po an o, que o desejo inanulá el
de supe la i o se aduz num desejo de uma al secunda ização. Assim, pa adoxalmen e, a
secunda ização de si mesmo é pedida pela cons i uição do homem. Ou seja, a ejeição da
p esidência de si é aquilo que e dadei amen e em p eenche a cons i uição humana.
De emos insis i no ca ác e pa adoxal do que es á aqui a se discu ido. Como imos no
capí ulo 1, o ac o de o homem se imagem de Deus az consigo um con i e pa a que ele se
o ne mais imagem. Pelo que emos discu ido, o homem o na-se mais imagem quando em
Deus no cen o de si mesmo; com e ei o, é esse cen amen o em Deus que es á pedido pelo
seu se imagem. O a, po um lado, uma ez que o homem é imagem, o na -se mais imagem
é equi alen e a o na -se mais ele mesmo. Po ou o lado, e Deus no cen o en ol e um
anulamen o da p esidência de si. O que es á implicado em udo is o é que o homem se o na
mais ele mesmo quando se secunda iza a si mesmo. Ou seja, o homem o na-se mais ele
mesmo quando se e i a do cen o de si e pe mi e que Deus ocupe essa posição.
Se a si uação R2co esponde à si uação co ec a da e e sibilidade, a si uação R1co -
esponde à si uação dis o cida. Is o é, a si uação R1 esul a de um mau econhecimen o do
con eúdo e ec i o do supe la i o de si. Não se a a apenas de um apagamen o ou dis o ção
da iden idade do supe la i o, mas da p óp ia comp eensão da elação en e o si mesmo e o
supe la i o (aquilo a que chamámos o núcleo).
A es e p opósi o, de emos chama a a enção pa a uma passagem c ucial do De Ve a
Religione, onde Agos inho a i ma:
“(...) subs an ia non es malum. (...) sed supe s i io malum es , qua c ea u ae po ius quam
C ea o i se i u ; quod malum omnino nullum e i , cum anima ecogni o C ea o e, ipsi uni se
217Solil. I, I, 4.
120
subiece i , e ce e a pe eum subiec a sibi esse pe sense i .”218
Não podemos aqui explo a de idamen e os á ios aspec os en ol idos no p oblema do mal,
al como es e p oblema oi analisado po San o Agos inho. Con udo, dada a sua impo ância
na e e sibilidade da imagem, emo-nos compelidos a conside á-lo, ainda que b e emen e.
Nes e úl imo echo, Agos inho começa po a i ma que o mal não é uma subs ância (subs-
an ia). Assim, como já emos no ado, o mal não equi ale a uma o ça o iginal; equi ale
sim, como Agos inho indica de seguida, a uma supe s ição (supe s i io), pela qual se se e
a c ia u a e não o c iado (qua c ea u ae po ius quam C ea o i se i u ). O que is o indica
é que o mal não é senão o cen amen o em si. Ou, po ou as pala as, o mal não é senão
a si uação R1da e e sibilidade.219
No mesmo echo, Agos inho a i ma que, no momen o em que o homem econhece o
c iado ( ecogni o c ea o e), não ica á mais cen ado em si mesmo e passa á a cen a -se
em Deus (subieci ipsi uni). Nesse momen o, deixa á absolu amen e de ha e mal (malum
omnino nullum e i ). Is o le a-nos a conclui que a noção cen al do passo do De Ve a
Religione ci ado acima é a noção de econhecimen o ( ecogni io). Há ês aspec os que
de emos pô em e idência a p opósi o des a noção.
Um p imei o em que e com uma p esença an e io . Só se ala em econhecimen o a
p opósi o de uma de e minação que já es a a p esen e an es de se da o econhecimen o.
Com e ei o, se a de e minação em causa não es i esse p esen e, não se ala ia em econhe-
cimen o, mas simplesmen e em descob imen o, encon o, e c. A noção de econhecimen o,
po an o, indica exp essamen e que o objec o econhecido já es a a em igo .
Um segundo aspec o em que e com um desacompanhamen o an e io . Não acon ece
só que a de e minação en e an o econhecida es a a an e io men e p esen e. Acon ece,
pa a além disso, que essa de e minação es a a an e io men e desacompanhada. Is o é,
embo a a de e minação es i esse p esen e, ha ia um dé ice na o ma como a sua p esença
e a pe cebida. Assim, apesa de es a p esen e, a de e minação es a a escondida, ocul a,
silenciosa.
O e cei o aspec o ol a a e que e com um desacompanhamen o, mas especi icamen e
em elação ao eo da de e minação em causa. An es de ha e econhecimen o, não só não
se acompanha a a sua p esença, como ambém não se acompanha a o seu eo . Assim, com
o econhecimen o, pa a além do ganho sob e a sua p esença, hou e ambém um ganho sob e
218De Ve . XX, 39.
219Agos inho exp ime es a ideia ainda de ou a manei a, quando a i ma que odo o pecado é sobe ba: eja-se De
Na . e G a . XXIX, 33.
121
o seu eo . Is o de al modo que, se só se i esse e i icado o p imei o desses ganhos, não se
p oduzi ia econhecimen o. Que dize , se uma pessoa passasse a ape cebe -se da p esença
da de e minação, mas não osse capaz de dis ingui a sua iden idade, não a econhece ia.
Em suma: se uma de e minação é econhecida, há não só um aumen o de dis inção em
elação à sua p esença, como ambém em elação ao seu con eúdo.
To nemos a conside a o echo ci ado. Agos inho conside a o econhecimen o do c iado
( ecogni o c ea o e). Pelo que acabamos de dize , is o sign ica que, segundo Agos inho, o
c iado já es a a p esen e an es de o homem o econhece ; simplesmen e, es e úl imo não se
ape cebia dele – e an o que dize que não se ape cebia nem da sua p esença, nem do seu
eo . Ou seja, embo a o c iado já es i esse p esen e, o homem não inha uma isão dis in a
dele. De aco do com Agos inho, uma ez que econhece o c iado – is o é, uma ez que
passa a e uma isão dis in a do c iado que já es a a p esen e –, deixa de es a cen ado
em si mesmo e cen a-se nele.
Com is o, Agos inho pa ece es a a de ende a seguin e ese: o mal é essencialmen e con-
usão. E ec i amen e, o mal – o cen amen o em si, R1– só exis e po causa de um dé ice de
acuidade em elação ao supe la i o. Di o de ou a manei a, um homem só subsis e na si u-
ação R1po que em uma comp eensão con usa do supe la i o que o cons i ui. Realmen e,
se i esse uma comp eensão dis in a desse supe la i o, ape cebe -se-ia, segundo Agos inho,
de que ele não é senão o c iado . Nesse caso, não ica ia cen ado em si, mas cen a -se-ia
em Deus. En ão, deixa ia de ha e mal.
O a, é jus amen e a ape cepção e e ida que se e i ica no econhecimen o do c iado .
Assim, se o mal acaba no momen o em que se dá o econhecimen o do c iado , e se es e
econhecimen o não é senão o ac o pelo qual se passa a e uma isão dis in a do supe la i o,
en ão o mal em essencialmen e que e com o ac o de não se e uma isão dis in a do
supe la i o. Ou seja, o mal é, na sua essência, uma con usão em elação ao supe la i o.
Es a con usão pode se exp imida a a és de uma oca. Com e ei o, R1ca ac e iza-se
po en ol e uma oca en e aquilo que de e se uido ( uendus) e aquilo que de e se
usado (u endus). Agos inho dis ingue os dois e bos – ui eu i – da seguin e o ma:
“F ui e go dicimu ea e de qua capimus olup a em; u imu ea quam e e imus ad id unde capienda
olup as es .”220
Con o me es a dis inção, ui-se uma de e minação xquando ela cons i ui aquilo que se
que ; em con as e, usa-se uma de e minação yquando ela é ela i a à de e minação que se
que . Is o signi ica, po an o, que o xque é uido es á no cen o de quem o ui, enquan o
220De Di . Quaes . 30.
122
oyque é usado es á numa posição ins umen al em elação ao x uido. O a, como imos
acima, o mal não é senão o cen amen o em si – is o é, R1. Po ou o lado, de aco do com a
dou ina da imagem, aquilo que de e es a no cen o do homem é Deus, de al manei a que
o p óp io si de e se ins umen al em elação a Deus. Assim, o mal (pe e sio, i ium) não é
senão um cen amen o na – is o é, uma uição da – de e minação que de e se ins umen al:
“Omnis i aque humana pe e sio es , quod e iam i ium oca u , uendis u i elle a que u endis
ui”.221
Pelo que em sido expos o, pode ia ica -se com a ideia de que, ao conside a Deus, uma
pessoa já se encon a em R2. Mas nada pode ia es a mais longe da e dade. E ec i amen e,
nem oda a associação en e supe la i o e Deus se aduz na si uação R2. Is o de e-se ao
ac o de que essa associação p essupõe uma de e minada comp eensão de Deus; mas uma
al comp eensão pode es a dis o cida. Com e ei o, mesmo no caso em que a pessoa p o essa
a exis ência de Deus, a sua ideia de Deus pode co esponde a um equí oco.222 Nesse caso,
a comp eensão que em de Deus pode não se incompa í el com uma p esidência de si. Is o
é, pode e -se uma ideia de Deus que não implique um anulamen o da p esidência de si.
Con udo, se não se dá um al anulamen o, é po que o si es á necessa iamen e no cen o.
Di o de ou o modo, se não se ab aça a secunda ização de si, é po que não se em Deus no
cen o. Realmen e, como Agos inho a i ma, só é possí el e -se Deus no cen o se o mundo
o ejei ado:
“(...) non enim con e i u anima ad Deum, nisi dum ab hoc saeculo a e i u ”.223
A ejeição do mundo, pelo que emos suge ido, não é senão a ejeição da p esidência de
si. Ou seja, a ejeição do mundo equi ale à ejeição da sobe ba. E de ac o, pa a Agos inho,
a sobe ba é o ulc o da passagem de R2pa a R1:
“Vi am e iam suam ad id e e , u ua u Deo; i a enim bea a es . E go e se ipsa u i u . Quae
p o ec o inchoa mise iam pe supe biam, si ad se ipsam, non ad Deum e e a u .”224
221Ibidem. Sob e uma boa elação u i- ui, c . De T in. XII, VIII, 21. De e ica cla o que a e e sibilidade da
imagem em sob e udo que e com a ques ão de ha e ou não ha e uma au o- e e ência úl ima. Um homem pode
julga que ui Deus, mas de al manei a que essa apa en e uição em uma au o- e e ência úl ima. E semp e que
semelhan e e e ência exis e, que dize que não se saiu da si uação R1da e e sibilidade.
222Agos inho conside a explici amen e es e caso numa passagem do li o De Spi i u e Li e a:
“Sed adhuc es aliquid disce nendum, quoniam e illi qui sub lege sun e imo e poenae ius i iam suam
ace e conan u e ideo non aciun Dei ius i iam, quia ca i as eam aci , quam non libe nisi quod lice ,
non imo , qui cogi u in ope e habe e quod lice , cum aliud habea in olun a e qua malle , si ie i posse ,
lice e quod non lice . E illi e go c edun Deo; nam si omnino non c ede en , nec poenam legis u ique
o mida en . Sed non hanc idem commenda Apos olus, qui dici : Non enim accepis is spi i um se i u is
i e um in imo em, sed accepis is spi i um adop ionis ilio um, in quo clamamus: Abba pa e ” (De Spi.
XXXII, 56, aludindo a Rom 8, 15).
Sob e es e assun o, c . ambém De Lib. III, XXI, 59.
223In Ps. 9, no10.
224De Di . Quaes . 30.
123
Assim, pa a se passa a (ou pe manece em) R2, é p eciso ex i pa a sobe ba. Com e ei o,
se a sobe ba pe manece, o eu con inua no cen o. Ou seja, se o mundo não é ejei ado, Deus
não es á no cen o. Nesse caso, po an o, não se es á na si uação R2, mas sim na si uação
R1– o que implica que se em uma comp eensão equí oca de Deus: uma comp eensão cega
pa a a ob iga o iedade do anulamen o da p esidência de si, uma comp eensão em que o si
con inua cen ado em si mesmo. Assim, há uma co elação en e o descen amen o de si e
a exis ência de uma no i ia Dei não des iada de Deus.
A comp eensão equí oca de Deus implica que, conscien e ou inconscien emen e, Deus seja
omado como ins umen o de si. Pois, como imos no capí ulo an e io , o au ocen amen o
le a a que udo seja omado como meio pa a si.225 É jus amen e uma ins umen alização
de Deus que es á a igo a naquele que, pe an e as di iculdades, ep o a Deus:
“Si au em cu us ue is, laudas Deum quando ibi bene es , blasphemas quando ibi male es
(...)”.226
Segundo a comp eensão que a pessoa cu a (cu a) em de Deus, es e úl imo de e con ibui
pa a que ele mesmo enha uma ida plena. O que is o que dize é que, pa a ela, Deus de e
es a a agi em p ol da p esidência de si. Assim, na sua pe spec i a, Deus não passa, em
úl ima análise, de um meio pa a a p esidência de si.
Como emos no ado, a si uação R1– o mal – co esponde a uma de u pação da si uação
R2– o bem. O que de emos salien a ago a é que essa de u pação não é o al. Agos inho
deb uça-se sob e es e assun o no li o VIII do De T ini a e:
“Quo se au em con e i u ia bonus animus, nisi ad bonum, cum hoc ama e appe i e adipis-
ci u ? Unde se si u sus a e a , ia que non bonus, hoc ipso quod se a e i a bono, nisi manea
in se illud bonum unde se a e i , non es quo se i e um, si olue i emenda e, con e a .”.227
Es e echo conside a p ecisamen e a de u pação equi alen e à passagem de R2pa a R1. Ou
seja, a a-se do a as amen o (a e sio) da si uação em que a alma es á na condição de se
boa (bonus animus) pa a a si uação em que a alma es á na condição de se má (non bonus).
Pa a Agos inho, se, quando a alma se a as a do bem, não icasse (mane e) nela nada do
bem de onde se a as ou, não e ia pa a onde se ol a (con e e e), se quisesse emenda o
seu e o.
Em elação a es e echo, de emos des aca dois pon os. Em p imei o luga , es á a se
de endido que há alguma coisa de bem que pe manece na si uação R1. Ou seja, em ez de
225Is o de manei a nenhuma que dize que a pessoa se ape cebe do ca ác e ins umen al de Deus.
226In Ps. 32, en. II, s. I, no3. A noção de cu a u a pode se encon ada equen emen e nas Ena a iones in
Psalmos. C ., po exemplo, ibi. 35, no16, ibi. 35, s. I, no12, ibi. 37, no10, ibi. 38, no1, ibi. 44, no17, ibi. 50, nos
15 e 17, ibi. 65, no16, ibi. 68, s. II, no8, ibi. 96, no18, ibi. 113, s. II, no6, ibi. 124, no2. C . ainda ibi. 50, no15.
227De T in. VIII, III, 4.
124

acon ece que, na passagem de R2pa a R1, se pe ca odo o bem, acon ece an es que há
um es ígio de bem que pe manece. Is o é, há um quan um de R2que sob e i e ime so em
R1.228
Em segundo luga , Agos inho decla a explici amen e que a alma em a possibilidade de
passa da si uação R1pa a a si uação R2. A ese de Agos inho é que es a possibibilidade se
de e jus amen e à ci cuns ância de que, na si uação R1, a alma man ém pa e de R2. Ou
seja, é po que R1já pa icipa em R2que se pode e i ica a passagem da p imei a pa a a
segunda. Com is o, Agos inho es á a de ende que o se humano em semp e a possibilidade
de se cen a em Deus.229 Is o é, qualque que enha sido o seu g au de a as amen o de Deus,
es á semp e em condições de se ol a pa a ele.230 Des a o ma, a co upção da imagem não
é i e e sí el. Pelo con á io, há jus amen e uma e e sibilidade da imagem.
3.2 A cha e pa a a e e sibilidade
Concen emo-nos ago a numa ques ão que pe ence à es e a p op iamen e eológica (embo a
ambém enha o seu ele o na an opologia imanen e da imago Dei).231 Na secção an e io ,
mos ámos que, segundo Agos inho, a imagem de Deus pode se i ida de duas o mas
opos as: R1eR2. Como imos, Agos inho admi e a possibilidade de ha e uma passagem
de uma delas pa a a ou a. O a, an o a passagem de R2pa a R1como a passagem in e sa
o am ap esen adas po meio da sobe ba. Com e ei o, segundo a desc ição que izemos,
a p imei a co esponde jus amen e à sobe ba; po ou o lado, a passagem de um au o-
cen amen o pa a um cen amen o em Deus oi desc i a como en ol endo uma eliminação
da sobe ba.
Toda ia, pa ece-nos que, do pon o de is a de Agos inho, o elemen o que mais p op ia-
228Es a ese es á de aco do com a con icção conside ada acima segundo a qual o mal não co esponde a uma
subs ância. De ac o, ao a i ma que há um es ígio de bem em R1, Agos inho es á a sus en a que R1 esul a de
uma de i ação de R2– e, mais especi icamen e, a uma diminuição em elação a R2. Assim, R1não co esponde a
uma si uação au ónoma em elação a R2. Enquan o diminuição que é, R1 em de man e algum g au de bem. De
ac o, se não i esse bem nenhum, en ol e ia uma diminuição o al em elação a R2. O a, uma diminuição o al
aduzi -se-ia na inexis ência, i.e., no nada. Assim, na medida em que uma ealidade exis e, equi ale a qualque
coisa de bom. Po isso, uma ez que R1exis e, conse a algum g au de bem. Sob e es e assun o, c . De Ci . XII, 1
a 3, De Lib. III, 13, 36 e ibi. III, XV, 42.
229O que não que de manei a nenhuma dize que es a possibilidade dependa só do se humano.
230Sob e a noção de a as amen o e sob e a desc ição de que não se a a de um a as amen o espacial, c . In Ps. 99,
5.
231Como ica á cla o no que se segue, a ques ão e e ida em que e com a possibilidade de se sai de R1. O a, se
se é uma imagem de Deus imanen e, é ele an e a ques ão de sabe se o sê-lo es á ou não condenado uma us ação
inelu á el – que é jus amen e o des ino que uma imagem au ocen ada semp e em, po nunca encon a nada que a
cump a. Pa a além disso, é ele an e sabe se há a possibilidade de a imagem de Deus, mais do que não se us ada
(o que pode ia e en ualmen e se conseguido po meio de qualque coisa como uma e asão), pode se e ec i amen e
cump ida.
125
men e desc e e a passagem de R1pa a R2não é a sobe ba, mas an es o seu e e so, se
assim se pode dize . Que dize , há um elemen o que o ma como que o posi i o do nega i o
equi alen e à sobe ba, e cons i ui o ulc o da passagem e e ida. É pa a esse elemen o que
nos ol amos ago a.
3.2.1 Ap esen ação
No capí ulo XIII do p imei o li o do De Mo ibus Ecclesiae Ca holicae e De Mo ibus
Manichaeo um, Agos inho desc e e alguns aspec os que ca ac e izam o bem- i e .232 Depois
disso, elaciona-os com Deus. En ão, a i ma:
“Huic [Deo] hae emus pe sanc i ica ionem. Sanc i ica i enim plena e in eg a ca i a e lag amus,
qua sola e ici u u a Deo non a e amu eique po ius quam huic mundo con o memu .”233
Es e echo é c ucial, po duas azões. Em p imei o luga , Agos inho indica qual é a
de e minação que az que os homens, po um lado, não se a as em de Deus e, po ou o, se
man enham con o mados po ele e não pelo mundo (a Deo non a e amu eique po ius quam
huic mundo con o memu ). A de e minação em causa é, po an o, desc i a como condição
da pe manência em R2– e da concomi an e ejeição de R1. Em segundo luga , Agos inho
de ende que essa de e minação é única (sola). Ou seja, há um único elemen o que es á na
o igem do impedimen o da passagem de R2pa a R1.
Es a úl ima a i mação que ambém dize que há um único elemen o na passagem de R1
pa a R2.234 Assim, segundo Agos inho, não acon ece que a passagem da si uação mais ime-
dia a da e e sibilidade da imagem (R1) pa a uma si uação que lhe é o almen e he e ogénea
(R2) en ol a uma mul iplicidade de equisi os. Di o de ou a manei a, não acon ece que
exis a uma combinação complexa de ac o es pa a que se deixe de comp eende a ealidade
232C . De Mo . I, XIII, 22: “Si e go quae imus quid si bene i e e, (...)”.
233Ibidem.
234Conside emos de idamen e es a in e ência. No echo ci ado, Agos inho usa o e bo a e i aplicado a Deus (a
Deo non a e amu ). Is o indica que o pon o de pa ida é o de um homem que já es á cen ado em Deus. Ou seja, o
quad o que Agos inho es á a oca é o de um homem que, es ando em R2, em a possibilidade de se a as a (a e i)
de R2e ansi a , com isso, pa a R1. Des a o ma, pode íamos se le ados a conclui que o elemen o pa a que
Agos inho es á a chama a a enção se ci cunsc e e a esse quad o. Ou seja, pode íamos julga que a ci cuns ância de
Agos inho es a a oca o papel que esse elemen o desempenha em elação à pe manência em R2não nos pe mi e
i a conclusões sob e o papel que desempenha nou as ci cuns âncias. Em pa icula , pode íamos julga que o
enunciado aqui em análise nada pe mi e conclui sob e a ele ância desse elemen o na ansição de R1pa a R2.
Toda ia, há undamen o pa a conclui que um p onunciamen o sob e es a úl ima ansição é legí imo. Como imos
na secção an e io , Agos inho admi e a possibilidade de se e i ica uma passagem de R1pa a R2. Assim, quando
se dá uma al passagem, exis e um elemen o (ou uma mul iplicidade de elemen os) que a de e minam. O a, po um
lado, udo o que imos pa ece indica que há sime ia en e as duas passagens – ou que uma é como que o a esso da
ou a; assim, o ac o de comu ação se á, nos dois casos, exac amen e o mesmo. Po ou o lado, Agos inho indica
exp essamen e que o elemen o que az que o homem não se a as e de R2pa a R1é único. Des a o ma, podemos
i a uma conclusão dupla: a) o elemen o que le a a que não se passe de R2pa a R1é jus amen e o mesmo que le a
a que se passe de R1pa a R2, e b) esse elemen o é único.
126
de o ma egocên ica e se passe a comp eendê-la de uma o ma comple amen e di e en e.
Acon ece an es que há um único ac o pa a que essa mudança se dê.
Esse ac o não é senão o amo (ca i as).235 Conc e amen e, a a-se de um amo pleno
e ín eg o (plena e in eg a ca i as). Do echo ci ado, con udo, não esul a imedi amen e
cla o quem é o sujei o do amo em ques ão. De ac o, Agos inho não especi ica se se a a do
amo que o homem em po Deus, ou do amo que Deus em pelo homem. Nos pa ág a os
que se seguem, en a emos mos a qual nos pa ece se a in e p e ação co ec a. O nosso
in ui o, de e ica cla o, consis e em pe cebe que é que, segundo Agos inho, o iginalmen e
az que o homem ansi e de R1pa a R2.
Vá ios são os elemen os que indicam que o amo en ol ido nessa ansição é o iginalmen e
o amo que Deus em pelo homem – e não o amo que es e em po Deus. Em p imei o
luga , segundo Agos inho, odo o amo que o homem em po Deus esul a do amo que
Deus em pelo homem. Es a é, na e dade, uma a i mação de São João, que Agos inho
apenas e o ça:
“Nemo e go os alla , a es mei: quia nos non dilige emus Deum, nisi nos p io ipse dilige e .
Idem Ioannes ape issime hoc os endi , e dici : Nos diligamus, quia ipse p io dilexi nos.”236
Assim, mesmo que o amo pleno e ín eg o e e ido acima dissesse espei o ao amo do homem
po Deus, esse amo se ia apenas consequência do amo que Deus em pelo homem. Po
isso, en e os dois amo es, é o amo de Deus pelo homem que é o iginal. Des e modo, o
ac o que de e mina a manu enção em R2, que de e mina a passagem de R1pa a R2, e cuja
al a de e mina o eg esso de R2pa a R1co esponde a um amo de Deus pelo homem.
Em segundo luga , pa a Agos inho, não acon ece só que odo o amo do homem po
Deus esul e do amo de Deus pelo homem. Acon ece, pa a além disso, que odo o amo do
homem – em ge al – esul a do amo de Deus po ele:
235T ês são os e mos la inos que podem se aduzidos pelo e mo po uguês ‘amo ’: ca i as,amo edilec io. No
capí ulo sé imo do li o XIV da De Ci i a e Dei, Agos inho de ende que os ês e mos são odos equi alen es:
“Hoc p op e ea commemo andum pu a i, quia nonnulli a bi an u aliud esse dilec ionem, si e ca i a em,
aliud amo em. (...) Sc ip u as eligionis nos ae, qua um auc o i a em ce e is omnibus li e is an epo-
nimus, non aliud dice e amo em, aliud dilec ionem el ca i a em, insinuandum ui .” (De Ci ., XIV,
7).
Nes e capí ulo, Agos inho mos a que as Esc i u as an o usam amo como dilec io no bom e no mau sen ido (“e
in bono e in malo”) (c . ibidem). Po ou o lado, como Agos inho no a nou o ex o, o e mo dilec io ende a se
usado no bom sen ido, enquan o amo cos uma se aplicada às ealidades ca nais:
“Omnis dilec io, si e quae ca nalis dici u , quae non dilec io, sed magis amo dici sole (dilec ionis enim
nomen magis sole in melio ibus ebus dici, in melio ibus accipi)” (In Epis Io., . 8, 5. C ambém In
E . Io. . 123, 5).
236De G a . e Lib. XVIII, 38, aludindo a 1 Jo 4, 19. São João e e e o mesmo em 1 Jo 4, 10. Sob e es a ese,
eja-se ambém De G a . Ch is. I, XXVI, 27, In Epis . Io., . 7, 7 e 9, ibi. . 9, 9.
127
“Coepis i dilige e? Coepi in e Deus habi a e”.237
Assim, é po que Deus começa a habi a (habi a e) no homem que es e começa a ama .238
An es de p ossegui mos a in e p e ação da noção de amo do echo ci ado do li o De
Mo ibus, de emos discu i o sen ido do e bo habi a e do echo ci ado acima. Nes e úl imo
echo, Agos inho não es á de manei a nenhuma a a i ma que Deus só ama o homem quando
es e esol e ama . De ac o, segundo Agos inho, o amo de Deus ca ac e iza-se po duas
p op iedades cen ais. Uma p imei a em que e com a uni e salidade: Deus ama odo e
qualque homem. Es e aço do amo de Deus é pa en e em echos como o seguin e:
“P io ama i nos; nec sic nos amamus. (...) Dilec io Pa is unde p oba a es in nos? Quia
Filium suum unicum misi mo i p o nobis”.239
A exp essão p o nobis e e e-se à humanidade in ei a. Realmen e, Agos inho não es á a
aludi a um g upo es i o de homens, mas sim à o alidade deles. Assim, não há ninguém
que não es eja incluído na dilec io Pa is p o nobis. Is o é, odos os homens são amados po
Deus.
Pa a en ende mos bem a sua na u eza, de emos ealça o ca ác e indi idualizan e da
uni e salidade em causa. Quando se a i ma que Deus ama odos os homens, não se es á
a de ende que Deus ama os homens em ge al, mas sim que o seu amo po odos que
dize um amo po cada um (aquele que se exp ime no ca ác e indi idualmen e di igido do
sac i ício da c uz). Des a o ma, o amo de Deus é simul aneamen e uni e sal e indi idual: é
uni e sal pelo ac o de se es ende a odos os homens, e é indi idual pelo ac o de se aplica
a cada um dos homens indi idualmen e.
Uma segunda p op iedade cen al do amo de Deus é a sua incondicionalidade. Deus não
ama simplesmen e cada um dos homens; mais do que isso, ama-os incondicionalmen e. O
que is o que dize é que não há nada que possa diminui o amo que Deus em po cada um.
Po ou as pala as, o amo com que Deus ama cada pessoa não depende de coisa alguma.
Em pa icula , não depende de uma ecip ocidade. Is o é, Deus não deixa de ama um
homem pelo ac o de es e não o ama . Es a independência em elação a uma ecip ocidade
é de al manei a i me que Deus ama mesmo quem o de es a:
“(...) pe ec a dilec io, es inimici dilec io (...)”.240
Assim, e em esumo, Deus ama cada um, e ama semp e – independen emen e de udo o
mais.
237In Epis . Io., . 8, 12. C . ambém ibi. . 6, 10 e De G a . Ch is., I, XXVI, 27.
238Es e pon o se á desen ol ido na subsecção 3.2.3.
239In Epis . Io., . 7, 7. Sob e es e assun o, c . ambém ibi., . 7, 5, De T in. VIII, V, 7.
240In Epis . Io., . 8, 10.
128
lidade. O a, de aco do com a possibilidade aqui de endida, a cha e aduz-se na con icção
de se se amado po Deus. Is o implica que um homem passa de R1pa a R2– e em a
possibilidade de se man e em R2– se e só se es i e con ic o de que Deus o ama.
3.2.2 P op iedades
Pa a o na mais dis in a a conclusão a que chegámos, p ecisamos de oca aquilo a que
chamámos a con icção de que se é amado po Deus. An es do mais, de emos sublinha
ês pon os p elimina es. Um p imei o em que e com o seguin e: a ideia de que se é
amado po Deus é uma ideia o mal. Is o implica que não pode em si mesma se usada pa a
de ini R2. Com e ei o, R2equi ale a uma si uação bem de inida, com as ca ac e ís icas
que p ocu ámos desenha acima; em cons as e, se amado po Deus é qualque coisa de
incógni o. Po isso, a con icção de se se amado po Deus não de e se is a senão como
uma ap oximação ainda inde e minada daquilo que pode desempenha as unções de uma
cha e pa a a ixação em R2.
Um segundo pon o em que e com quem é o sujei o do amo . O sujei o não é ou-
o senão o p óp io supe la i o como al – que dize , esse mesmo supe la i o pa a que
odo o apa ecimen o humano eme e. Na e dade, o que mais essencialmen e ca ac e iza a
con icção aqui em discussão é isso mesmo: o ac o de o de en o de uma al con icção se
julga amado pelo p óp io supe la i o. Po ou as pala as, a con icção de que se é supe -
la i amen e amado equi ale à con icção de que se é amado pelo supe la i o. Embo a es e
enunciado seja ambém o mal – já que ica ainda comple amen e po de e mina que é que
que dize se amado pelo supe la i o –, é ele que p op iamen e ixa á em R2o de en o
daquela con icção. Po isso, oda a desc ição que se possa ap esen a de uma al con icção
cai pa a R1se se pe de de is a que o sujei o do amo nela en ol ido é o supe la i o.249
O e cei o pon o p elimina passa pela cen alidade do amo na iden idade do supe la-
i o. Segundo a pe spec i a c is ã, a ci cuns ância de Deus ama não é uma p op iedade
secundá ia de Deus, mas o cen o de quem Deus é. São João a i ma-o exp essamen e: Deus
ca i as es .250 Ou seja, no c is ianismo, há uma co espondência absolu a en e o supe -
la i o e o amo . Mais ainda: não se a a apenas de um supe la i o que ama, mas que
ama o si mesmo que com ele se elaciona. Di o de uma o ma mais simples: no ulc o da
iden idade do supe la i o es á não só o ac o de ama , mas pa icula men e o ac o de me
249Is o que dize que há um aspec o undamen al na di e ença en e o concei o de amo que pe ence a R1e o
concei o de amo que pe ence a R2: é que o p imei o comp eende o supe la i o sem o iden i ica com o amo do
supe la i o (no sen ido do geni i o subjec i o).
2501 Jo 4, 8.
135

ama . Assim, exis e como que uma equação en e o supe la i o, a ci cuns ância de ele ama ,
e a ci cuns ância de ele me ama .
Vis o is o, concen emo-nos no amo en ol ido na con icção em análise. Se, como acaba-
mos de e , o sujei o desse amo co esponde ao supe la i o, en ão um al amo é ele mesmo
supe la i o. De emos chama a a enção pa a alguns aspec os aqui en ol idos. Um p imei o
em que e com a ideia de imensidão. O homem que es á con ic o de que é amado pelo
supe la i o (is o é, po Deus) ê esse amo como um amo imenso, e não como qualque
coisa de mediano. Ou seja, comp eende-se como imensamen e amado.
O segundo aspec o passa pela ideia de pe manência. O amo de Deus, al como o comp e-
ende a concepção eológica exp essa em Agos inho, aduz-se num amo incondicional. Po
isso, se o se humano é amado po Deus, en ão, independen emen e do que ize , é semp e
amado. Des a o ma, ao es a con ic o de que Deus o ama, um homem i e con ic o de que
é pe manen emen e amado. Pa a ele, po an o, não se a a de se amado com um amo
momen âneo, empo á io, a p azo, mas sim com um amo pe ene.
Um e cei o aspec o es á adicado numa desp opo ção. O ac o de o amo de Deus,
segundo a ese c is ã, se incondicional az que aquele que ade e a ela i a con encido de que
é amado em desp opo ção. Que dize , esse homem pe cebe que o amo com que é amado não
lhe é de ido. Ou ainda, julga que esse amo não é me ecido, não é jus i icado. Realmen e,
não encon a á em si mesmo elemen os que me eçam o ac o de se incondicionalmen e
amado. Pelo con á io, encon a á elemen os que o o nam mui o mais me ecedo de não
se amado (e de não se amado po Deus). Assim, a con icção de que se é amado en ol e
ine i a elmen e um espan o posi i o com o ime ecimen o em causa.
O qua o aspec o em que e com o seguin e: a con icção de que se é amado en ol e
a con icção de que esse amo é g a ui o. De ac o, se o amo de Deus é incondicional, é
necessa iamen e g a ui o. O que is o que dize é que uma pessoa con ic a de que é amada
es á con ic a de que não e e – nem em – de aze nada pa a isso. Es á con encida de
que o amo de Deus não esul a de uma de e minada acção sua, mas an ecede odas as suas
acções.
O quin o aspec o é que essa pessoa, embo a julgue que é semp e amada, ende á a nem
semp e se ape cebe de um al amo . Ou seja, embo a es eja con ic a de que Deus a ama em
odos os momen os, ende á a expe imen a momen os em que não se ape cebe desse amo .
Na e dade, pode á ha e momen os em que a é julga ape cebe -se do con á io disso: pode
expe imen a uma solidão p o unda. Es a solidão, con udo, é compossí el com a con icção
136
de que é amada. Realmen e, pode con inua con ic a de que é incondicionalmen e amada,
mesmo que não o expe imen e. Assim, a con icção aqui em discussão pode en ol e um
desencon o em elação àquilo que ela expe imen a.
Um sex o aspec o é que ela não i e com a p eocupação de pode i a deixa de se
amada. Pelo con á io, i e com a con iança de que é incondicionalmen e amada. É ce o
que, como no ámos acima, pode á expe imen a si uações em que udo indica que não é
amada. Ainda assim, e como ambém assinalámos, essas si uações são compossí eis com a
con icção de que éamada. Des a o ma, apesa das ibulações, essa pessoa i e anquila.
Um sé imo aspec o é que ela i e com a con icção de que o amo de Deus cons i ui aquilo
que em da espos a ao seu desejo mais p o undo. Pa a pe cebe mos po quê, comecemos,
an es de mais, po opo o plano do que e ec i amen e se passa ao plano do en endimen o
que se em. Segundo a ese c is ã, odo e qualque homem é amado po Deus. Assim, num
plano e ec i o, e de aco do com essa ese, odo o homem é amado po Deus. Con udo, nem
odo o homem es á con encido disso. Ou seja, nem odos se en endem amados po Deus.
Des a o ma, no plano do en endimen o, nem odo o homem é amado po Deus.
Pos o is o, comecemos po elaciona o desejo humano em ge al com os dois planos
e e idos. O desejo consis e semp e na pe ição de uma de e minada si uação. O a, se es a
si uação já se i e e ec i amen e e i icado, mas a pessoa in e essada não o soube , o seu
desejo pe manece: udo se passa como se a si uação p e endida ainda es i esse po ealiza .
Supunhamos que um homem que ganha a lo a ia. Supunhamos ambém que já se deu o
so eio, mas sem que o p óp io se enha ape cebido disso. Mesmo que o encedo do so eio
enha sido ele mesmo, o seu desejo de ganha a lo a ia man ém-se. Com e ei o, ele não
sabe que o objec o do seu desejo já es á e ec i amen e cump ido. Assim, o seu desejo só é
sa is ei o quando ele o in o mado do esul ado do so eio.
O a, is o pe mi e pe cebe duas coisas. Po um lado, o desejo de uma pessoa só é saciado
quando ela p óp ia se ape cebe de que a si uação p e endida es á e ec i amen e em igo ; po
ou o lado, o desejo é ealmen e saciado nessa ci cuns ância. Des a o ma, o en endimen o
(a con icção que se em) a espei o da si uação desejada – a con icção de que ela se acha
e ec i amen e alcançada – é equi alen e à sa is ação do desejo. De e ica cla o, con udo,
que, apesa des a equi alência, aquilo que a pessoa deseja é a p óp ia si uação enquan o
al – e não p op iamen e a sua con icção sob e ela. Assim, no exemplo acima, o desejo do
homem é ganha a lo a ia – e não p op iamen e se in o mado (ou e a con icção) de que
a ganhou. Na e minologia a que an es eco emos, is o que dize que o objec o do desejo
137
é o con eúdo do plano e ec i o, e não o con eúdo do plano do en endimen o.
Podemos ago a es abelece uma elação en e o desejo cons i u i o do homem e a ci -
cuns ância de se amado. Como mos ámos na secção 3.1, na lei u a eológica do inquie um
co , o objec o do desejo cons i u i o do homem é o supe la i o descobe o de al o ma que
udo ica cen ado nele e não no sujei o que o descob e. O a, como p opusemos en e an o,
es a cen ado em Deus equi ale a es a con ic o de que se é amado po Deus. A conclusão,
po an o, pa ece se que, haja ou não haja consciência disso, o objec o do desejo cons i u-
i o é a con icção de se se amado po Deus (e a ex ao diná ia ans o mação de si que
isso signi ica). Con udo, pelo que imos no pa ag á o an e io , es a se ia uma conclusão
alaciosa, já que o objec o de desejo é semp e o con eúdo daquilo a que chamámos o plano
e ec i o. Assim, o que se conclui é que aquilo que o se humano deseja cons i u i amen e é
se amado po Deus.
Es a p oposição co esponde a uma e olução na nossa comp eensão do humano. Na
e dade, al e olução não é senão um no o (mas decisi o) passo num pe cu so de des o -
malização do cons i u i o desejo de supe la i o que ca ac e iza a na u eza humana. Es e
pe cu so oi iniciado no capí ulo 1, quando a i mámos que o homem em um desejo cons i u-
i o do supe la i o. Con udo, um al desejo co esponde a uma de e minação aga, o mal.
Nesse mesmo capí ulo, demos um p imei o passo de des o malização ao especi ica mos que
o desejo cons i u i o não em me amen e como objec o o supe la i o, mas mais especi ica-
men e a pa icipação no supe la i o. Ou seja, aquilo que o homem deseja po cons i uição
é pa icipa no supe la i o. Toda ia, es e desejo é ele mesmo o mal. Na secção 3.1, de-
mos mais um passo no pe cu so de des o malização ao a i ma mos que o objec o do desejo
cons i u i o é o cen amen o no supe la i o. Assim, o desejo de pa icipação no supe la-
i o des o maliza-se num desejo de cen amen o nele. Simplesmen e, es e úl imo enunciado,
embo a menos o mal que o an e io , é ainda o mal.
O que es amos ago a a a i ma é que o desejo de cen amen o no supe la i o se des-
o maliza num desejo de se supe la i amen e amado. Ou seja, aquilo que o homem mais
conc e amen e deseja não é cen a -se no supe la i o, mas sim se supe la i amen e amado
(pois é isso que o supe la i o p op iamen e é). Não se a a, de emos no a , de se apenas
amado: a a-se especi icamen e de o se pelo p óp io supe la i o – e an o que dize se
amado de modo supe la i o. Assim, na aiz de odo o desejo humano, es á uma pe ição de
se amado de um modo supe la i o.251
251Es a ese le an a um p oblema. Se o desejo cons i u i o do homem equi ale a um desejo de se supe la i amen e
amado, e se o homem, de aco do com a ese c is ã aqui em discussão, já é supe la i amen e amado po Deus, como se
138
Sob e es a conclusão, de emos sublinha dois pon os. Em p imei o luga , al como se
obse ou em elação à con icção de se se amado, ambém nes e caso se e i ica que a ese
em discussão, an o quan o sabemos, não é conside ada de modo exp esso po Agos inho.
Simplesmen e, é uma possibilidade que esul a da ese segundo a qual a cha e pa a a e e -
sibilidade passa pela con icção de se se amado. Em segundo luga , e al como acon eceu
com odo o pe cu so de des o malização an e io men e conside ado, ambém es e esul ado
é ainda o mal. Ou seja, em ez de o pe cu so de des o malização le a uma de e minação
bem de inida e já in ei amen e conc e a, le a an es a uma de e minação ela mesma o mal.
Assim, o desejo de se se supe la i amen e amado em um ca ác e equí oco.252 Que dize ,
ica ainda po de e mina a que é que ele co esponde conc e amen e.
A conclusão de que o que es á na o igem do desejo cons i u i o humano é uma on ade de
se supe la i amen e amado pe mi e-nos e oma o sé imo aspec o e e ido acima: o homem
que i e como amado po Deus comp eende esse amo como absolu amen e cen al pa a si
mesmo.253 Não acon ece, po an o, que i a esse amo como qualque coisa que, embo a
con ibua pa a o que ele mais deseja, ainda es á aquém disso. Pelo con á io, e á esse amo
como co espondendo p ecisamen e àquilo que é pedido pela sua cons i uição. Des a o ma,
não es á à p ocu a do objec o do seu desejo cons i u i o, uma ez que es á con ic o de que
já o encon ou.254
Um oi a o aspec o, elacionado com o an e io , em que e com a noção de iden idade.
O homem que i e como amado po Deus julga que esse amo es á in insecamen e elacio-
nado com a sua p óp ia iden idade. A iden idade humana es á ca ac e izada po um desejo
inanulá el. Is o implica que o homem se acha ma cado po uma ca ência, po uma incom-
ple ude. Ao pe cebe que o amo de Deus é o objec o do seu desejo cons i u i o (do desejo
que ele p óp io expe imen a, sem sabe bem que é que o pode ia sa is aze ), comp eende
que esse amo cons i ui aquilo que em comple a a sua iden idade. Ou seja, en ende que
se o na an o mais ele mesmo quan o mais i e como amado po Deus. Assim, em ez
de acon ece que o amo de Deus é qualque coisa de indi e en e em elação àquilo que ele
mesmo é, acon ece que co esponde ao elemen o cen al da sua iden idade.
O nono aspec o es á elacionado com uma co espondência en e o con eúdo dos dois
explica que não es eja já num es ado de pleni ude? Embo a es e p oblema não possa se adequadamen e desen ol ido
aqui, a espos a e á que e em con a o seguin e: a pleni ude do se amado en ol e um econhecimen o desobs uído
de que se o é. Es e assun o ica á al ez mais cla o na secção 4.2.
252Na e dade, es e desejo em um ca ác e ão equí oco que pode se en endido no con ex o de R1.
253De emos lemb a que a con icção de se se amado po Deus pode se comple amen e enganosa – e, como imos,
po duas azões. Po um lado, po que pode se en endida nos e mos de R1; po ou o lado, po que, mesmo que não
o seja, pode não co esponde a nada de eal.
254A noção de p ocu a se á desen ol ida no capí ulo 4.
139
planos e e idos acima. Num de e minado momen o, quando passa a es a con encido de
que é amado po Deus, um homem não julga que es e amo só é e ec i o a pa i desse
momen o. Na e dade, ele comp eende o ac o de se amado po Deus como uma si uação
que já es a a e ec i amen e a igo a , mas de al manei a que an es não se ape cebia dela.
Que dize , comp eende que, ao passa a es a con ic o de que é amado, passou simplesmen e
a ape cebe -se de uma si uação que semp e inha sido a sua. Assim, passou a e no plano
do seu p óp io en endimen o aquela si uação em que, sem o sabe , semp e se acha a no
plano e ec i o.
3.2.3 Consequências
Na subsecção an e io , chegámos a duas conclusões decisi as. A p imei a é que um homem
se encon a em R2se e só se es i e con ic o de que é amado po Deus. A segunda é que
o desejo inanulá el que acompanha pe manen emen e o homem é um desejo de se amado
po Deus. Nes a subsecção, que emos pô em e idência algumas consequências des as duas
conclusões.
An es disso, con udo, de emos chama a a enção pa a um pon o c ucial. Ao examina -se a
lei u a eológica da imago Dei, pe cebe-se que ela explici a um aspec o da imagem imanen e
que pode passa despe cebido: é que mesmo que não haja uma consciência dis in a disso, o
supe la i o na p óp ia imagem imanen e con ém uma componen e de se se amado.255 Is o
é, de um pon o de is a es i amen e imanen e, a elação de uma pessoa com o supe la i o
inclui como componen e decisi a um desejo (po pa e dessa pessoa) de se amada po ele.256
Mais ainda: o desejo em causa não é simplesmen e um desejo de se se amado, mas o p óp io
desejo de se se supe la i amen e amado. Acon ece que es a inclusão é al que a ideia desse
amo , po um lado, e o sujei o dele, po ou o, es ão comple amen e ene oados. Na e dade,
a é mesmo a p óp ia on ade de se se amado pode á não es a p esen e com e idência.
Vis o es e pon o, conside emos o caso do homem que não es á con ic o de que é supe -
la i amen e amado. Es e homem, pelo que imos na subsecção an e io , es á cen ado em
si mesmo. De emos lemb a que es e egocen ismo – is o é, R1– só exis e po que ele não
em uma comp eensão dis in a daquilo que ele mesmo que .257 Pe cebemos ago a que isso
255Es e aspec o ica cla o, po exemplo, no enómeno da paixão.
256É ce o que, em abs ac o, is o pode ia não se assim. Que dize , a ideia o mal de supe la i o dos supe la i os
não inclui o çosamen e uma componen e de se amado. Mas o que se e i ica é que o in e esse do se humano é
al que, na elação que es abelece com esse supe la i o, que se amado po ele. E is o de al manei a que, se essa
componen e al a , o supe la i o não ica cump ido.
257Es a conclusão oi já ap esen ada na secção 3.1. Toda a lei u a eológica da imagem imanen e em no seu ulc o
a ese de que o au ocen amen o só é possí el po um obscu ecimen o da imagem enquan o imagem de Deus. Que
dize , a imagem de Deus au ocen ada só é possí el po que pe de de is a o con eúdo do seu geni i o objec i o.
140

que ele que não é senão um amo supe la i o. O a, es e amo , segundo a ese c is ã, já
igo a nele. De ac o, como imos, odo o homem já é e ec i amen e amado de o ma supe -
la i a. Con udo, o homem que se encon a em R1, po que em uma comp eensão indis in a
de si mesmo, não se ape cebe disso. Nesse caso, i e con usamen e – i.e., sem o pe cebe
dis in amen e – à p ocu a de se amado, como se ainda não o osse.
Na sua p ocu a de se amado, ol a-se con usamen e pa a o mundo.258 Po ou as pala-
as, julga con usamen e que pode ob e nas coisas do mundo o amo que a sua cons i uição
eclama.259 É is o, po an o, que jaz no cen o do enómeno do mundo: uma on ade mal
comp eendida de se amado. Ou seja, po que em um desejo indespedí el de se supe la-
i amen e amado, e po que não comp eende que já o é, p ocu a se amado nas coisas do
mundo. O desejo de um es ado au ocen ado insupe á el ( e e ido na secção 2.3.2) não é
senão is o: uma on ade de se sumamen e amado a a és do mundo.260
Sendo assim, a passagem pa a R2co esponde a uma imensa su p esa, em i ude da
qual o supe la i o que apa ece é comple amen e di e en e daquele que e a an ecipá el. Há
duas azões pa a uma al di e ença. Em p imei o luga , o g au ex ao diná io com que o
supe la i o (Deus) apa ece é mui o maio que aquele que e a concebí el. Em segundo luga ,
az pa e desse g au ex ao diná io a ci cuns ância de o seu po ado , pa a cúmulo, me
ama .261 É e dade que a an opologia imanen e da imagem, como indicámos acima, inclui
já, na o ma como o supe la i o é comp eendido, uma pe ição de se se amado po ele. Mas
o que acon ece na passagem pa a R2é um hia o: aquela pe ição é cump ida de um modo
comple amen e imp e isí el.262
258De emos lemb a que, po ‘mundo’, en endemos semp e duas cláusulas: po um lado, um echamen o no en-
quad amen o c ia u al (po oposição a um enquad amen o que inclua o p óp io Deus enquan o al); po ou o, um
egime de au ocen amen o. Is o de al modo que, quando alamos em mundo, es amos a comp eende as coisas (is o
é, as coisas que exis em no mundo, independen emen e de qualque cen amen o) como meio ou in umen o pa a
o p óp io. De e ica cla o es a comp eensão ambém é aplicá el ao c iado . Ou seja, as duas cláusulas e e idas
admi em a possibilidade de se inclui o c iado , mas de al o ma que es e é pe cebido como se ido de si (e não
como Deus enquan o al). Po isso, quando a i mamos que o homem se ol a pa a o mundo, não es amos a de ende
que ele deixa de conside a exp essamen e Deus; o que se passa é que, mesmo que o aça, á-lo com uma in e p e ação
au ocen ada.
259Não podemos explo a aqui o p oblema que consis e em sabe po que é que o homem associa a on ade de amo
supe la i o às coisas do mundo. A ci cuns ância de ha e um desacompanhamen o de si não ga an e po si só que
aquela associação se dê.
260Na e dade, o homem em R1o ganiza con usamen e a ealidade à luz de uma on ade de se amado. Os
di e en es objec os, os di e en es p ojec os, as di e en es pessoas, e c: udo is o é po ele con usamen e a aliado na
medida em que con ibui pa a o supe la i o – do qual cons i ui uma componen e essencial a pe ição de se amado.
261São es as duas componen es que, po assim dize , in e põem uma ba ei a con a a abso ção do supe la i o
ao se iço de mim. O simples descob imen o de um supe la i o mui o mais pode oso do que e a espe ado não é
su icien e pa a impedi uma al abso ção. Que dize , se se isse o supe la i o como omnipo en e, mas não como
amo , esse se omnipo en e es a ia comp eendido, em úl imo análise, como meio ou ins umen o pa a si mesmo. O
c is ianismo, ao p opo um supe la i o que não é senão amo , de ende uma e e são adical des e au ocen amen o.
262É jus amen e a is o que Goe he se e e e no seguin e passo do He mann und Do o hea (em alusão à epís ola de
São Tiago, c . Tg 1, 17):
“Seid nich scheu und e wunde , daß nun au einmal e scheine ,
141
A saída de R1pa a R2, não deixando de se uma su p esa, é ambém uma con i mação.
Realmen e, embo a seja e dade que nada a izesse p e e , é ambém e dade que, uma ez
em R2, uma pessoa consegue pe cebe e ospec i amen e que aquilo que es a a pedido pela
no i ia e a R2. Consegue olha pa a ás e pe cebe que o seu desejo do mundo não passa a
de uma comp eensão de icien e daquilo que já es a a a se pedido pela sua cons i uição.
Assim, apesa da di e ença adical en e R1eR2, i e R2como uma con i mação e um
cump imen o daquilo que e a já ei indicado em R1.263
Mas podemos se ainda mais p ecisos. Não acon ece só que a pessoa ê R2como uma
con i mação: acon ece ambém que a ê como uma si uação melho ada em compa ação com
R1. E ec i amen e, ao en ende R2como a con i mação do que es a a já p esen e em R1,
uma pessoa pe cebe que R1co espondia a uma o ma inadequada de i e a imagem. Po
oposição, pe cebe R2como a o ma adequada. Des e modo, pa a quem passou de R1pa a
R2, es a úl ima si uação em um alo ac escen ado em elação à p imei a.
Desc e emos acima aquilo que se passa em R1. Conside emos ago a, em con as e, o que
se passa em R2. Um homem em R2, como imos, i e com a con icção de que é sumamen e
amado pelo supe la i o. Is o que dize , po an o, que não es á à p ocu a de se amado
pelo mundo. Com e ei o, o mundo enquan o enómeno só su ge como sucedâneo con uso
pa a o homem que não se ape cebe de que é amado pelo supe la i o. Assim, aquele que
es á con ic o de que o é não p ecisa de p ocu a se amado a a és do mundo: já i e como
incondicionalmen e amado.264
Was Ih so lange gewünsch . Es ha die E scheinung ü wah nich
Je z die Ges al des Wunsches, so wie Ih ihn e wa gehege .
Denn die Wünsche e hüllen uns selbs das Gewünsch e; die Gaben
Kommen on oben he ab, in ih en eignen Ges al en”
(GOETHE,He mann und Do o hea, BUCHHEIM, C. (ed.), Cla endon P ess, Ox o d, 1901, p. 36).
Ou, numa adução inglesa:
“Be no ala m’d no amaz’d ha wha you so long ha e desi ’d
All a once should appea ; no doub he ac ual issue
Comes no qui e in he o m in which you ancy pou ay’d i .
We ou sel es in wishing lose sigh o wha we ha e wish’d o .
Blessings come in he shape in which Hea en chooses o send hem.”
(GOETHE,He mann and Do o hea, TEESDALE, M. ( ad.), Williams & No ga e, Edinbu gh, 1875, 2aed.,
p. 34.)
263A ideia de uma con i mação es á in insecamen e ligada à ideia de um conhecimen o na u al de Deus. Em úl ima
análise, segundo San o Agos inho, o conhecimen o na u al de Deus não é senão a p óp ia imago Dei. Ou seja, um
al conhecimen o diz espei o à o ma como na memó ia (is o é, o a daquilo a que chamámos o oco) o se humano
é como que uma ‘se a’ pa a Deus ( eja-se, de no o, Con . I, I, 1: quia ecis i nos ad e e inquie um es co nos um,
donec equiesca in e). Em suma: pa a Agos inho, o conhecimen o na u al de Deus equi ale ao inquie um co , não
econhecido como elação com Deus. Po isso, al conhecimen o exis e em R1. Simplesmen e, em R1, a imagem
não é adequadamen e pe cebida; é a ansição pa a R2que pe mi e descob i a e dadei a iden idade da imagem
e con i ma , assim, aquilo que já es a a pedido pelo conhecimen o na u al. Sob e es e assun o, eja-se HOLTE,
Ragna , Béa i ude e sagesse – Sain Augus in e le p oblème de la in de l’homme dans la philosophie ancienne,
É udes Augus iniennes, Pa is, 1962, p. 358.
264O enómeno do mundo, como imos, não é senão a sobe ba. Ou seja, no cen o de uma p eocupação com o
142
Apesa de não cai no enómeno do mundo, o homem em R2não deixa de es a no mundo.
Que dize , não deixa de es a numa elação pe manen e com as coisas do mundo.265 Nesse
caso, e uma ez que não es á à p ocu a de se amado a a és delas, é legí imo pe gun a -se de
que modo se elaciona com elas. A espos a é que essa elação se dá à luz do amo supe la i o
com que é amado. Ou seja, o homem comp eende a ealidade a pa i da con icção de que
é amado pelo supe la i o. Is o que dize , po an o, que comp eende as coisas do mundo
como mani es ações desse amo .266 Di o de ou o modo: ê as coisas do mundo como dons.
San o Agos inho decla a is o mesmo no echo já ci ado do comen á io à Epís ola de São
João:
“Animalia, a bo es, ola ilia. Is a sun in mundo, Deus illa eci . Qua e e go non amem quod
Deus eci ? (...) E go dedi ibi Deus omnia is a”.267
Assim, o homem em R2 i e no mundo de aco do com uma lógica de g a idão. As coisas do
mundo não são meios pa a ele se mais amado, mas sim o mas de ele i e o ac o de já se
incondicionalmen e amado. Ou seja, as coisas são ins anciações da g a idão que sen e pela
ci cuns ância de se sumamen e amado pelo supe la i o.268
Is o le a-nos a um ou o aspec o essencial, que passa pela espos a do homem a esse amo .
Como en a emos pô em e idência, uma al espos a en ol e ês pe sonagens di e en es:
Deus, o p óximo e o p óp io. Qualque que seja a pe sonagem, a espos a é a mesma: o
homem que i e amado ama. Is o é, o homem em R2 elaciona-se com Deus amando-o,
elaciona-se com o p óximo amando-o, e elaciona-se consigo mesmo amando-se. Todos
es es amo es esul am do amo com que o homem es á con ic o de que é amado. Ou seja,
é po que es á con ic o de que é amado que ele ama Deus, ama o p óximo e se ama a si
mesmo.
Con udo, em abs ac o, não é ób io que o homem em R2, pelo ac o de se julga amado,
ambém ame. Que dize , não é imedia o que a con icção de que é amado o le e a se uma
on e de amo . Pode ia acon ece , em p incípio, que ele se limi asse a i e maximamen e
mundo es á uma p eocupação consigo mesmo. O a, se o homem que es á con ic o de que é sumamen e amado não
cai no enómeno do mundo – que é a sobe ba –, en ão, a con icção de que se é amado ex i pa a sobe ba. Po ou a
pa e, se não i e a con icção de que é amado, uma pessoa cai na sobe ba. Des a o ma, exis e uma disjunção o al
en e a sobe ba e a con icção de que se é amado. Sob e es e pon o, c . De T in. VIII, VIII, 12, In Epis . Io. . 2,
9, ibi. . 2, 14.
265Aqui omadas num sen ido neu o em elação a um au ocen amen o. Que dize , nes e caso, ‘coisas do mundo’
que simplesmen e dize as c ia u as, e não R1.
266Fica ago a mais cla o o que oi a i mado no p incípio da secção 3.1: há uma ans igu ação comple a do odo da
ealidade na passagem de R1pa a R2. Na p imei a si uação, a ealidade é o ganizada em unção de uma p ocu a
de uma p esidência de si. Na segunda, é o ganizada em unção do ac o de o p óp io se incondicionalmen e amado.
267In Epis . Io., . 2, 11.
268Po ou as pala as, não há elações (no plu al), mas uma única elação: a elação de g a idão pa a com o
supe la i o. As elações (no plu al) co espondem a momen os dessa elação única.
143
amado ou cou , sem e ibui esse amo . Agos inho p onuncia-se sob e es e assun o no
capí ulo VIII do li o VIII do De T ini a e. Começa po a i ma :
“Quan o igi u sanio es sumus a umo e supe biae, an o sumus dilec ione plenio es.”269
Assim, há uma elação de p opo cionalidade in e sa: quan o mais nos encon amos cu ados
da sobe ba, an o mais es amos cheios de amo . O que es a elação suge e é que os seus
e mos são p ecisamen e R1eR2. Que dize , Agos inho pa ece iden i ica R1com o ‘ umo
da sobe ba’ e R2com es a ‘cheio de amo ’.
Segundo es a in e p e ação, o homem em R2não es á só con ic o de que é sumamen e
amado; pa a além disso, encon a-se cheio de amo . Pa a elimina odas as dú idas de que
o amo com que o homem es á cheio é o amo de Deus, Agos inho decla a:
“E qui nisi Deo plenus es , qui plenus es dilec ione?”.270
Po an o, o homem em R2es á pleno do amo de Deus. A ideia de pleni ude suge e que esse
homem i e de al manei a inundado pelo amo de Deus que escoa ele mesmo esse amo
pa a udo o mais. Se assim o , é po que es á a ansbo da do amo de Deus que o homem
em R2ama.
Es a ese é co obo ada pela seguin e passagem do mesmo capí ulo:
“Qui enim non diligi a em, non es in dilec ione”.271
Agos inho a i ma que o homem que não ama o p óximo não es á no amo (in dilec ione).
O a, que é es a no amo senão i e como amado – i.e., senão es a con ic o de que se
é amado po Deus? Como obse ámos, aquele que es á con ic o de se amado po Deus
encon a-se cheio do amo de Deus. Assim, quem es á no amo não é senão aquele que
es á cheio do amo de Deus. Po ou o lado, Agos inho a i ma nes e úl imo echo que o
homem que não ama o p óximo não es á no amo – o que que dize que quem es á no amo
necessa iamen e ama o p óximo. Mas o homem que es á no amo não é senão aquele que
es á cheio do amo de Deus – que, po sua ez, não é senão aquele que es á con ic o de que
é amado po Deus. Em conclusão, o homem que es á con ic o de que é amado po Deus –
is o é, aquele que se encon a em R2–ama necessa iamen e o p óximo.
Na e dade, Agos inho não admi i ia que assim não osse. O pon o em que e com a
noção de con icção. Pa a Agos inho, uma con icção, se é eal, aduz-se numa acção. Ou
seja, não há con icções e ec i as que se limi em ao plano da pala a, sem en ol e em ac os
( ac a):
269De T in. VIII, VIII, 12. Sob e a noção de umo supe biae, c . ambém ibi. VIII, V, 7.
270Ibi. VIII, VIII, 12.
271Ibidem.
144