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Literatura e Resistência: A palavra escrita nas reivindicações territoriais dos povos indígenas

Abstract

Após mais de 500 anos de violência colonial, os povos indígenas continuam a resistir nos seus próprios territórios, alvo dos interesses económicos do grande capital. Apesar dos despejos, dos deslocamentos e dos assassinatos, os povos originários do continente latino-americano não deixam de desenvolver estratégias de resistência frente à opressão. A partir da analise da relação entre escrita e oralidade, a presente dissertação estuda o fenómeno de apropriação da palavra escrita por parte dos povos indígenas, tipicamente orais, nas suas lutas para a reapropriação dos territórios ancestrais e para a reprodução das próprias culturas. O primeiro caso estudado é a literatura insurgente zapatista e a sua relação com a palavra oral dos antepassados maias: a importância da tradição oral na chamada oralitura indígena será o foco do nosso trabalho. De Chiapas viajamos até o Sul do subcontinente para investigarmos a poesia mapuche, herdeira da tradição dos ngenpiñ, os donos da palavra nas comunidades, concentrando a nossa análise nas teorias do oralitor Elicura Chihuailaf. O terceiro e último caso de estudo é o processo histórico e social de alfabetização do Nasa Yuwe por parte das comunidades nasas do Cauca, na Colômbia. Processo recente, a alfabetização do Nasa Yuwe, ajuda-nos a entender o potencial político que a apropriação da escrita por parte dos povos indígenas leva consigo, na tentativa de responder às perguntas que constituem a base do nosso estudo: por que, para quem e como escrevem os povos indígenas?

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Literatura e Resistência: A palavra escrita nas reivindicações territoriais dos povos indígenas

Author: Bagnoli, Andrea
Year: 2020
Source: https://run.unl.pt/bitstream/10362/93122/1/LITERATURA%20E%20RESISTENCIA.pdf
i
Li e a u a e Resis ência: a pala a esc i a nas ei indicações
e i o iais dos po os indígenas
And ea Bagnoli
No emb o de 2019
Disse ação de Mes ado em Li e a u as e Cul u as Mode nas,
á ea de especialização em Es udos Ibé icos e Ibe o-Ame icanos
And ea Bagnoli. Li e a u a e
Resis ência: a pala a esc i a nas
ei indicações e i o iais dos po os
indígenas. 2019
-
ii
Disse ação ap esen ada pa a cump imen o dos equisi os necessá ios à ob enção do g au de
Mes e em Li e a u as e Cul u as Mode nas, á ea de especialização em Es udos Ibé icos e
Ibe o-Ame icanos, ealizada sob a o ien ação cien í ica da P o esso a Dou o a Isabel A aújo
B anco.
iii
AGRADECIMENTOS
A p esen e disse ação ep esen a o caminho do au o du an e os dois úl imos anos, um
caminho pa ilhado com pessoas lindas que a cada dia coloca am um ijolo undamen al na
cons ução des e abalho. A odas elas ão os meus sen idos e como idos ag adecimen os:
À minha o ien ado a, Isabel A aujo B anco, pelas inúme as suges ões, pelas con e sas, pelo
incansá el abalho de e isão, pela paixão que conseguiu ansmi i a é nos momen os mais
di íceis.
À Alina, in a igá el ou i es do meu po uguês b u o e c u, que conseguiu ans o ma em algo
mui o mais limpo e decen e.
À minha a ó, pelas lág imas como idas que cho a cada ez que me ê, pela imensa comida que
nunca me al ou na ida, pelos ensinos que me ansmi e desde semp e, pelo eno me desejo de
i e que me ensina a cada ins an e, embo a milha es de quilóme os nos sepa em, pela
inc í el mulhe que é. Amo- e Nonnín.
Aos meus pais, Robe o e Vi o ia, pela ida, pelos sac i ícios, po cada go a de suo que
de ama am pa a que eu pudesse chega a é es e abalho, po odo o que eu enho na ida.
Ao meu i mão En ico, dis an e, mas semp e p esen e, pelos inúme os momen os elizes e po
odos os que chega ão, po se a pessoa na qual mais ac edi o nes e mundo, po se o meu
companhei o de “s ada”, semp e, desde Galway a Lisboa, desde I alia a Nepal.
A And és, Dani, Sindel e Aneley, Gus a o, A mando e odas as pessoas que habi am “La Casa de
Los Niños” em Cochabamba, a minha amília boli iana, po ensina -me a diá io que odo é
possí el e que nenhum obs áculo consegue ganha o e dadei o amo , que nenhum oceano
pode di idi almas i mãs.
Às minhas amigas e aos meus amigos, odas e odos, po o na quo idianamen e a minha ida
no caos ma a ilhoso que é, po e o nado es e abalho mais di ícil, mas imensamen e mais
le e g aças aos ossos so isos e ao osso amo . Po que sem ocês udo is o p o a elmen e
e ia sido mais ápido e mais ácil, mas mui o menos di e ido.
Aos amigos de semp e: Lollo, Ale, Nello, Regge, Wuby, Gu u, Calza, Demma, Sci, Cubo, Cha lie,
Ze a, Sicci, Ceci, Ve, Se e, po que “no odo dis ancia es ausência e no odo silencio es ol ido”.
Amo- os odas e odos.
Ao caos louco e ma a ilhoso que é a “T a essa do Mon e” e a odas as almas magni icas que o
habi am, po o na es e mundo um pouco mais lindo: Ma c, Isa, Ad i, Isa, Lau a, K-Dino,
Al a o, Sand o, Igo , Lucone, And eone, Nema, Fede, Giuggi, Zé Luís.
À Chia a, companhei a de ida, po odo o que passamos e po odo o que amos cons ui com
a cons ância do nosso amo e a o ça dos nossos sonhos.
i
Aos Zapa is as, aos Mapuches, aos Nasas, a odos os po os indígenas que há seculos esis em
quo idianamen e a es e sis ema inumano e injus o, ao po o pales ino, ao po o cu do, ao po o
equa o iano, ao po o chileno, ao po o hai iano e a odos os po os ebeldes que já se
le an a am e aos que se le an a ão con a a desigualdade capi alis a, po ansmi i -me a o ça
e a ai a das quais nasce es a disse ação: os po os unidos jamais se ão encidos!
Li e a u a e Resis ência: a pala a esc i a nas ei indicações e i o iais dos
po os indígenas
And ea Bagnoli
RESUMO
Após mais de 500 anos de iolência colonial, os po os indígenas con inuam a esis i nos
seus p óp ios e i ó ios, al o dos in e esses económicos do g ande capi al. Apesa dos
despejos, dos deslocamen os e dos assassina os, os po os o iginá ios do con inen e la ino-
ame icano não deixam de desen ol e es a égias de esis ência en e à op essão. A pa i da
analise da elação en e esc i a e o alidade, a p esen e disse ação es uda o enómeno de
ap op iação da pala a esc i a po pa e dos po os indígenas, ipicamen e o ais, nas suas lu as
pa a a eap op iação dos e i ó ios ances ais e pa a a ep odução das p óp ias cul u as. O
p imei o caso es udado é a li e a u a insu gen e zapa is a e a sua elação com a pala a o al
dos an epassados maias: a impo ância da adição o al na chamada o ali u a indígena se á o
oco do nosso abalho. De Chiapas iajamos a é o Sul do subcon inen e pa a in es iga mos a
poesia mapuche, he dei a da adição dos ngenpiñ, os donos da pala a nas comunidades,
concen ando a nossa análise nas eo ias do o ali o Elicu a Chihuaila . O e cei o e úl imo caso
de es udo é o p ocesso his ó ico e social de al abe ização do Nasa Yuwe po pa e das
comunidades nasas do Cauca, na Colômbia. P ocesso ecen e, a al abe ização do Nasa Yuwe,
ajuda-nos a en ende o po encial polí ico que a ap op iação da esc i a po pa e dos po os
indígenas le a consigo, na en a i a de esponde às pe gun as que cons i uem a base do nosso
es udo: po que, pa a quem e como esc e em os po os indígenas?
PALAVRAS-CHAVE: Po os indígenas, esc i a, o alidade, o ali u a, EZLN, Mapuche, Nasa.

i
Li e a u e and Resis ance: w i en wo d in he e i o ial claims o
indigenous peoples
And ea Bagnoli
ABSTRACT
A e mo e han 500 yea s o colonial iolence, indigenous peoples con inue o esis in
hei own e i o ies, he a ge s o he economic in e es s o big business. Despi e he
e ic ions, displacemen s and mu de s, he na i e peoples o he La in Ame ican con inen
con inue o de elop s a egies o esis ance in he ace o opp ession. Based on he analysis o
he ela ionship be ween w i ing and o ali y, his disse a ion s udies he phenomenon o
app op ia ion o he w i en wo d by indigenous peoples, ypically o al, in hei s uggles o
he e-app op ia ion o ances al e i o ies and o he ep oduc ion o hei own cul u es. The
i s case s udied will be he Zapa is a insu gen li e a u e and i s ela ionship wi h he o al
wo d o he Mayan ances o s: he impo ance o o al adi ion in he so-called indigenous
o ali u a will be he ocus o ou wo k. F om Chiapas, we will a el o he sou h o he
con inen o in es iga e he Mapuche poe y, hei o he adi ion o he Ngenpiñ, he owne s
o he wo d in he communi ies, concen a ing ou analysis on he heo ies o he o ali o
Elicu a Chihuaila . The hi d and las case s udy will be he his o ical and social p ocess o Nasa
Yuwe li e acy by he nasa Yuwe communi ies in Cauca, Colombia. As he ecen p ocess ha i
is, he li e acy o Nasa Yuwe, helps us o unde s and he poli ical po en ial ha he
app op ia ion o w i ing by indigenous peoples b ings wi h i , in an a emp o answe he
ques ions ha cons i u e he basis o ou s udy: why, o whom and how do indigenous peoples
w i e?
KEYWORDS: Indigenous people, w i ing, o ali y, o ali u a, EZNL, Mapuche, Nasa.
ii
ÍNDICE
In odução......................................................................................................1
CAPÍTULO I. Quem são os índios?...................................................................9
1.1. Quem são os indígenas?..........................................................................9
1.2. Quem são os índios?..............................................................................12
1.3. O p oblema do índio..............................................................................17
1.4. Au onomia e esis ência: pa imónio ma e ial e ima e ial....................23
CAPÍTULO II. Esc i a, o alidade e o ali u a...................................................28
2.1. Esc i a, o alidade e o ali u a.................................................................28
2.2. Anal abe ismo Indígena e al abe ização o çada...................................32
2.3. O ali u a indígena..................................................................................37
2.4. A esis ência a a és da pala a esc i a................................................42
CAPÍTULO III. A lo da pala a: a li e a u a zapa is a..................................45
3.1. Hoy decimos bas a!...............................................................................45
3.2. “Manda obedeciendo”: a e olução eó ica zapa is a.........................47
3.3. A “li e alização” do discu so polí ico……………….…………………………………52
3.4. A pala a silenciosa: a cosmo isão maia na li e a u a zapa is a...........56
CAPÍTULO IV. Azul, a co da nossa oz: a poesia mapuche...........................67
4.1. Da lu a mapuche pa a o wall mapu.......................................................67
4.2. “Se ha despe ado el a e de mi co azón” .............................................72
4.3. “He azulado un poco la poesía mapuche” ............................................78
4.4. “Mapu be”: se mapuche hoje..............................................................84
CAPÍTULO V. O po o nasa e a pala a esc i a...............................................88
5.1. O CRIC e as lu as pa a a libe ação da mãe e a..................................90
5.2. Libe a a e a, libe a o po o.............................................................93
5.2.“Caminando la palab a” .........................................................................99
CONCLUSÃO...............................................................................................105
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...................................................................114
1
INTRODUÇÃO
Dice el amigo, a quien llama é ’mi amigo’ ap o echando que es á aho a a apado en el lodo y
no puede p o es a , que las palab as de esis encia en el mundo son nume osas y suenan como llu ia
upida cayendo aho a en los echos de los indígenas zapa is as, en los echos que aho a compa en miles
de se es dignos, homb es y muje es, de odo el mundo. El amigo es uno de esos buscado es de llu ias
que hay en el mundo. Camina él, como o os caminan, jun ando go i as de la llu ia de esis encia que se
llue en en Amé ica. En Á ica, en Asia, en Oceanía, en Eu opa, hay ambién o os buscado es de llu ia,
de las his o ias de esis encia que no encuen an luga en la his o ia de ol ido que esc ibe el seco pode
de la Sobe bia. Yo c eo que odos los buscado es de llu ia que po acá han llegado, se han dado cuen a
de que odos noso os llegamos a llo e nos, que nos dimos cuen a que la llu ia puede se amable si es
he mana la palab a que nos moja. Así que podemos deci que és e es un encuen o de llo edo es, o ma
húmeda de deci que es un encuen o de he manos.
1
Subcomandan e Insu gen e Ma cos, “Du i o y una de lla es y pue as”, 2003
P imei o ie am os conquis ado es eu opeus, que “descob i am” um con inen e onde
mo a am en e 20 e 150 milhões de pessoas
2
, das quais os ês qua os no que hoje
conhecemos como Amé ica La ina e Ca ibe. Os conquis ado es consegui am execu a “o maio
massac e da his ó ia da humanidade”
3
, “o maio genocídio”
4
, conseguindo “sem câma as de gás
nem bombas elimina en e se en a e cen o e cinquen a milhões de indígenas na Amé ica
La ina”
5
.
1
Ma cos, S. (2003). Du i o y una de lla es y pue as, Desde las mon añas del Su es e Mexicano. Consul ado no dia 5 de
junho de 2019 em h ps://enlacezapa is a.ezln.o g.mx/2003/02/01/du i o-y-una-de-lla es-y-pue as/ 
2
Exis em in e p e ações di e en es mui o di e gen es nas conclusões, com o que é ex emamen e p oblemá ico aze
uma es ima i a da população do con inen e ame icano an es da chegada de Colombo. A co en e al is a, de endida
undamen almen e po alguns es udiosos no e-ame icanos como Dobbyns, Bo ah y Sulmich em meados do século XX
calcula a população ame icana p é ia da chegada de Colombo en e 90 e 150 milhões de pessoas. A co en e baixis a
de inícios do século XX assume que a população não a ingi ia 20 milhões de habi an es. De enso es de pos u as
enquad á eis nes a co en e são Ángel Rosenbla e Al ed K oebe . A co en e mais ecen e, a in e média ou
mode ada, de endida po his o iado es como Sappe , Spinden, Ri e e Dene an, ap esen a es ima i as que oscilam
en e 40 e 60 milhões de pessoas. 
3
Muñoz Tellez, J. M. (2016, janei o 27). Memo ias del holocaus o indígena en Amé ica La ina. Telesu . Consul ado no
dia 15 de ou ub o de 2019 em: h ps://www. elesu .ne /news/Memo ias-del-holocaus o-indigena-en-Ame ica-
La ina-20160122-0074.h ml
4
Viezze , M., G ondin, M. (2018). O Maio Genocídio da His ó ia da Humanidade — mais de 70 milhões de í imas
en e os po os o iginá ios das Amé icas - Resis ência e Sob e i ência. Toledo, Es ado do Pa aná: P inceps.
5
Muñoz Tellez, J. M. (2016, janei o 27). Memo ias del holocaus o indígena en Amé ica La ina. Telesu . Consul ado no
dia 15 de ou ub o de 2019 em: h ps://www. elesu .ne /news/Memo ias-del-holocaus o-indigena-en-Ame ica-
La ina-20160122-0074.h ml
2
Pos e io men e as eli es c ioullas oma am o pode , conquis ando a independência das
co oas espanhola e po uguesa, g i ando os alo es da Re olução F ancesa: libe é, égali é,
a e ni é pa a odos, exce o indígenas e a odescenden es que, apesa de e em conseguido
maio es di ei os cons i ucionais g aças a seu undamen al con ibu o nas gue as de
independência, con inua am a se disc iminados. Os ecém- o mados Es ados nacionais não
muda am a a i ude ace aos po os o iginá ios do sucon inen e, con inuando com o p oje o
genocida e a aniquilação cul u al a a és das mais e ozes polí icas de assimilação, ago a
camu ladas sob o lema da Igualdade. De ac o, a c ueldade e a cega ai a pa e nalis a o am a
linha comum en e os chamados Libe ado es, que apidamen e esquece am o papel
undamen al dos po os indígenas na lu a con a o exé ci o eal. O mesmo acon eceu mais
a de, no século XX, com as di adu as mili a es impos as pela ú ia capi alis a e depois, com os
go e nos neolibe ais que se o am a i mando nos países da egião desde a queda dos egimes
mili a es, p osseguindo com o genocídio dos po os indígenas do subcon inen e sob a majes osa
bandei a do p og esso.
A his ó ia da Amé ica La ina é um apa en emen e in e miná el ela o de iolência.
Ex e minados, o u ados, esc a izados, calados pela o ça das a mas, os du an e séculos
chamados “po os silenciosos” o am na e dade í imas do en iloquismo das mais des u i as
polí icas indigenis as, implemen adas pelos go e nos de di e en es países. Pe an e es a
si uação, os po os indígenas la ino-ame icanos con inuam as suas esis ências, g i ando:
“Amé ica debe calla , pe o no calla, no callamos, enunciamos al silencio y eclamamos la
e dad”
6
. Uma oz que b o a a pa i das sel as do sudoes e mexicano a é os bosques da
Pa agónia, das p aias a lân icas aos al iplanos andinos, de um lado ao ou o do subcon inen e,
eclamando o di ei o do qual nenhum Rousseau ou Vol ai e ala am, o mais impo an e pa a
po os ão he e ogéneos: o di ei o à di e sidade.
Os po os o iginá ios, com os quais se iden i icam hoje em dia mais de 370 milhões de
pessoas
7
pelo mundo in ei o, embo a p o ejam 80% da biodi e sidade do plane a, somen e são
econhecidos como donos legais de 11% das e as
8
que habi am e que êm habi ando há
milha es de anos. Apesa dos con énios e das decla ações sob e di ei os indígenas a i icados
pela maio ia dos go e nos nacionais (en e os quais des acamos pa a o subcon inen e la ino-
6
Ibidem
7
O ganização das Nações Unidas pa a Ag icul u a e Alimen ação. Rela ó io sob e Po os Indígenas da FAO (Food and
Ag icul u e O ganiza ion). Consul ado no dia 15 de ou ub o em h p://www. ao.o g/indigenous-peoples/es/
8
Su i al In e na ional, Rela ó io Gua dianes de la na u aleza. Sin indígenas ni na u aleza ni u u o.
Consul ado no dia 5 de junho de 2019 em h ps://www.su i al.es/gua dianes
9
Po que e pa a quem esc e em os po os indígenas?

10
CAPÍTULO I
Quem são os índios?
An es de en a mos no es udo da elação en e pala a esc i a e o alidades indígenas e,
em ge al, na abo dagem de qualque es udo indígena po men es educadas num sis ema
ociden al e que, em o no des e sis ema, sa is azem a sede de conhecimen o, é necessá ia uma
e dadei a e olução epis emológica da de inição da ca ego ia que nos p opomos analisa : a
ca ego ia do índio.
1.1. “Quem são os indígenas?”
A espos a não é ób ia como pode ia pa ece , aliás, é ácil encon a uma espos a, mas,
como acon ece equen emen e, o caminho mais ápido nem semp e é o caminho melho .
Comecemos po aze uma dis inção en e as duas pala as mais u ilizadas pa a apelida os
po os o iginá ios da Amé ica La ina e Ca ibe: “indígenas” e “índios”.
A pala a “indígena” em do la im “inde” (= de aí) e “gens” (= gen e, população)
signi icando em ge al “o iginá io de uma ce a á ea geog á ica”. O e mo u iliza-se, de ac o,
pa a denomina odos os po os o iginá ios do plane a, independen emen e da á ea geog á ica
em ques ão: indígenas são os Ayma as na egião andina, assim como os Mapuches no sul do
subcon inen e la ino-ame icano, os Inui no Canadá, os Mao ies na No a Zelândia, os beduínos
Jahalin na Pales ina, os Saami na península escandina a e os Masai na Á ica O ien al. Ao odo,
calcula-se a exis ência de mais de 370 milhões de indígenas no mundo hoje em dia.
20
O e mo “indígena” chegou a se u ilizado nos a ados in e nacionais pa a denomina
os po os o iginá ios, econhecendo, po ém, a di e sidade en e cada po o e cada cul u a, como
sublinha o Fó um Pe manen e sob e Assun os Indígenas das Nações Unidas: “Debido a la
di e sidad de pueblos indígenas, en ningún o ganismo del sis ema de las Naciones Unidas se ha
adop ado una de inición o icial de ‘indígena’. En cambio, el sis ema ha elabo ado una
in e p e ación mode na de es e é mino”
21
.
De aco do com o Fó um, os elemen os ma can es pa a a de inição de po os indígenas
são os seguin es:
20
Núme os ex aídos de “Quienes son los pueblos indígenas?”, Uni ed Na ions Pe manen Fo um on Indigenous
Issues, Indigenous People, Indigenous Voices, disponí el em www.un.o g › esa › socde › unp ii › documen s
21
Ibidem.
11
 Lib e-iden i icación como miemb o de un pueblo indígena a ni el pe sonal y acep ado po la
comunidad como miemb o suyo.
 Con inuidad his ó ica con sociedades p ecoloniales y exis en es an e de los asen amien os.
 Fue e ínculo con los e i o ios y los ecu sos na u ales ci cundan es.
 Sis emas sociales, económicos o polí icos bien de e minados.
 Idioma, cul u a y c eencias di e enciados.
 Son pa e in eg an e de g upos que no son p edominan es en la sociedad.
 Deciden conse a y ep oduci sus o mas de ida y sus sis emas ances ales po se pueblos
y comunidades dis in os
22
.
A decla ação mais acei e a ní el in e nacional é, po ém, a o necida pelo con énio 169
da O ganização In e nacional do T abalho (OIT), ealizado em Geneb a, em 1989, e a é hoje um
dos p incipais ins umen os de de esa dos di ei os dos po os indígenas. O con énio, ambém
conhecido como Con enção 169 da OIT, a i icado po 23 países (en e os quais A gen ina,
Bolí ia, B asil, Chile, Colômbia, Cos a Rica, Dominica, Equado , Gua emala, Hondu as, México,
Nica água, Pa aguai, Pe u e Venezuela) aplica-se:
a) a los pueblos ibales en países independien es, cuyas condiciones sociales, cul u ales y económicas les
dis ingan de o os sec o es de la colec i idad nacional, y que es én egidos o al o pa cialmen e po sus p opias
cos umb es o adiciones o po una legislación especial;
b) a los pueblos en países independien es, conside ados indígenas po el hecho de descende
de poblaciones que habi aban en el país o en una egión geog á ica a la que pe enece el país en la
época de la conquis a o la colonización o del es ablecimien o de las ac uales on e as es a ales y que,
cualquie a que sea su si uación ju ídica, conse an odas sus p opias ins i uciones sociales, económicas,
cul u ales y polí icas, o pa e de ellas.
23
A con enção ac escen a um c i é io undamen al e ino ado ao sublinha o seguin e: “La
conciencia de su iden idad indígena o ibal debe á conside a se un c i e io undamen al pa a
de e mina los g upos a los que se aplican las disposiciones del p esen e Con enio.”
24
O con énio e omou concei os e c i é ios do chamado “In o me Cobo”, conside ado o
p imei o es udo in e nacional sob e os di ei os humanos dos po os indígenas. Em 1970 a
22
Ibidem.
23
OIT. (1989). Con eno n° 169 da OIT sob e Po os Indígenas e T ibais, Geneb a. Disponí el em
h p://po al.iphan.go .b /uploads/ck inde /a qui os/Con encao_169_OIT.pd
24
Ibidem.
12
“Subcomissão das Nações Unidas pa a a p e enção da disc iminação e a p o eção de mino ias”
p e iu a ealização de um ela ó io comple o e ge al do p oblema da disc iminação con a os
po os indígenas. Em 1971, o equa o iano José R. Ma ínez Cobo oi nomeado ela o des e
es udo. O ela ó io, ap esen ado em di e en es pa es en e 1981 e 1984 com o í ulo “Es udo
do p oblema da disc iminação con a os po os indígenas” e conhecido ambém como “In o me
Cobo”, omou impo ância po á ias azões: em p imei o luga , oi de ac o a p imei a denúncia
das Nações Unidas sob e a disc iminação dos po os indígenas e o p imei o es udo mundial
sob e a si uação des es po os; em segundo luga , a o eceu a c iação, po pa e da ONU, do
G upo de T abalho sob e Po os Indígenas, com o apoio do G upo de T abalho sob e Di ei os
Humanos; e po úl imo, mas igualmen e impo an e, cons i uiu um a anço undamen al no
es o ço de iden i icação dos po os indígenas e de uma sé ie de assun os e omados
pos e io men e pela Con enção 169 da OIT. De aco do com o ela ó io:
Son comunidades, pueblos y naciones indígenas los que, eniendo una con inuidad his ó ica con
las sociedades an e io es a la in asión y p ecoloniales que se desa olla on en sus e i o ios, se
conside an dis in os de o os sec o es de las sociedades que aho a p e alecen en esos e i o ios o en
pa es de ellos. Cons i uyen aho a sec o es no dominan es de la sociedad y ienen la de e minación de
p ese a , desa olla y ansmi i a u u as gene aciones sus e i o ios ances ales y su iden idad é nica
como base de su exis encia con inuada como pueblo, de acue do con sus p opios pa ones cul u ales,
sus ins i uciones sociales y sus sis emas legales
25
.
Não obs an e algumas pequenas di e enças en e si, as decla ações analisadas insis em
nos mesmos c i é ios pa a a denominação de “po os indígenas”. O G upo de T abalho sob e
Po os Indígenas ado ou em 1995 qua o p incípios que esumem os con eúdos de di as
decla ações:
a) la p io idad en el iempo po lo que espec a a la ocupación y el uso de de e minado
e i o io;
b) la pe pe uación olun a ia de la dis inción cul u al, que puede inclui los aspec os del idioma,
la o ganización social, la eligión y los alo es espi i uales, los modos de p oducción, las leyes e
ins i uciones;
c) la conciencia de la p opia iden idad, así como su econocimien o po o os g upos, o po las
au o idades es a ales, como una colec i idad dis in a;
25
ONU, doc. núm. E/CN.4/Sub.2/1986/7/Add.4, pá . 379 disponí el em
www.acnu .o g/ ileadmin/Documen os/BDL/2006/4358.pd ? iew=1
13
d) una expe iencia de some imien o, ma ginación, desposeimien o, exclusión o disc iminación,
independien emen e de que es as condiciones pe sis an o no
26
.
A con inuidade his ó ica com os po os que habi a am especi icas egiões do globo an es
dos p ocessos de colonização po pa e de ou os po os, a pe pe uação olun á ia de p á icas
cul u ais, sociais, económicas e eligiosas di e en es das que impe am na sociedade dominan e,
a consciência da p óp ia di e sidade e pe ença a um ce o g upo social e a expe iência da
colonização (e udo o que es a engloba: op essão, p i ação, disc iminação, exclusão social) são
os c i é ios que azem com que um conjun o de pessoas seja econhecido como “po o
indígena” e po an o (supos amen e) u elado pelo di ei o in e nacional. A denominação de
“po os indígenas” oi an o p oblemá ica quan o impo an e no campo da de esa legal das
comunidades que se encon am em si uações di e en es umas das ou as, mas que na maio ia
dos casos pa ilham as mesmas lu as quo idianas con a a g ande máquina capi alis a.
1.2. “Quem são os índios?”
A his o ia da pala a “índio” é, pelo con á io, mais p oblemá ica. “Índio” signi ica a
“habi an e das Índias”, dado que C is ó ão Colombo ac edi a a e chegado à Índia e
inclusi amen e, o con inen e ame icano oi chamado du an e mui o empo “Índias Ociden ais”
pelos colonizado es eu opeus. O e mo “índio” oi adqui indo ao longo dos anos uma cono ação
pejo a i a, mo i o pelo qual o di ei o in e nacional p e e e u iliza a pala a “indígena” pa a
e e i -se aos po os na i os do con inen e ame icano. Assim, o Índio oi ca ego izado pela
na a i a colonial que só admi ia a dico omia colonizado -colonizado, aniquilando b u almen e
qualque aço iden i á io dos colonizados. A e ó ica colonial cons uiu a ca ego ia do índio,
es e eo ipando e uni o mizando as suas ca ac e ís icas: acabou-se não somen e po apelida da
mesma o ma um mosaico de po os com g andes di e encias en e si, sejam geog á icas,
linguís icas, eligiosas e cul u ais, mas ambém po lhe a ibui as mesmas a i udes
compo amen ais e os mesmos “ ícios”. A é es a da a o índio (conside ado amiúde como uma
en idade única) é pensado po pa e da sociedade ociden al como p eguiçoso, men i oso,
in an il e p imi i o. Bas a menciona o mi o segundo o qual a conquis a espanhola se o nou
26
ONU, doc. núm E/CN.4/Sub.2/AC.4/1996/2 disponí el em
h ps://www.acnu .o g/ ileadmin/Documen os/BDL/2006/4358.pd ? iew=1
14
ápida e ácil em ce as á eas geog á icas po que os indígenas i am nos conquis ado es uma
eenca nação de an igos deuses. O his o iado inglês Ma hew Res all analisou as lendas sob e
a elação en e conquis ado es e po os na i os em Los sie e mi os de la conquis a española. No
sex o capí ulo, in i ulado “El ex e minio de los Indios” decla a: “El mi o de los españoles como
dioses sólo cob a sen ido si se p esupone que los indígenas son ‘p imi i os’, in an iles o
imbéciles”
27
.
O académico b i ânico abo da, no capí ulo inal da ob a, o mi o da “supe io idade” dos
colonizado es, um concei o que se nu iu de es e eó ipos como es es na conceção do índio po
pa e dos eu opeus na época colonial e que pe du a a é hoje na isão do mundo indígena como
obs áculo pa a o “desen ol imen o” económico e social dos Es ados nacionais. Bas a
pensa mos que oi necessá ia uma bula papal pa a es abelece e con ence os conquis ado es
de que “os índios são e dadei amen e homens e que eles não só são capazes de comp eende
a é ca ólica, como, segundo nos in o ma am, anseiam sob emanei a ecebê-la”
28
. Tendo sido os
indígenas conside ados como animais sem alma e incapazes de comunica , a conquis a assumiu
pa a os eu opeus uma cono ação p o idencial e di ina: “Los españoles conquis a on a los
indígenas po que e an supe io es, y e an supe io es po que conquis a on a los indígenas”
29
.
O mi o da supe io idade, longe de e sido supe ado, pe sis e hoje em dia,
ep esen ando uma g a e ameaça pa a a paz, a democ acia e a libe dade: jus i ica o genocídio,
seja de judeus ou de indígenas, como algo necessá io pa a o desen ol imen o da humanidade
(ou o concei o ex emamen e in e essan e, a humanidade, apa ece nos discu sos dominan es
como uma p e ensa en idade homogénea cuja oz acaba po se , de ac o, somen e a de uma
minúscula pa e da população do globo). Pa a o ilóso o no e-ame icano Micheal S. Be line
“Wes e n ci iliza ion s ands o man a his bes ” enquan o “objec i ely supe io cul u e”
30
.
Res all sublinha os pe igos des a endência e idenciando como:
la con aposición que es ablece Be line en e una Amé ica p ecolombina indígena y bá ba a
(«poco habi ada, desap o echada, subdesa ollada», pe o a o men ada po «inacabables gue as
sanguina ias») y una Eu opa occiden al que enca naba las i udes de la ci ilización (« azón, ciencia,
27
Res all, M. (2004). Los sie e mi os de la conquis a española (M. Pino, T ad.). Ox o d Uni e si y P ess, No a Io que
Mo eno (ob a o iginalmen e publicada em 2003)
28
Sublimis Deus, bula papal emi ida po Paulo III em Roma em 29 de maio de 1537 em «"Sublimis Deus" – Sob e a
alma dos índios». O G ande Tea o do Mundo. 1 de agos o de 2015 disponí el em
h p://www. ea odomundo.com.b /sublimis-deus-ou-os-indios- em-alma/
29
Res all, M. (2004). Los sie e mi os de la conquis a española (M. Pino, T ad.). Ox o d Uni e si y P ess, No a Io que
Mo eno (ob a o iginalmen e publicada em 2003).
30
Be line S., M. (1991, Dezemb o 30) “Man’s bes came wi h Columbus”, Los Angeles Times.

15
independencia, indi idualismo, ambición, log o p oduc i o») es una e sión del opo que u iliza on los
eu opeos du an e siglos pa a jus i ica la explo ación de los ame icanos indígenas y la escla i ud de los
a icanos occiden ales
31
.
Da mesma e ó ica êm as endências pa e nalis as que es ão na base dos deba es sob e
“assun os indígenas”, das polí icas de assimilação das epúblicas la ino-ame icanas e dos
discu sos indigenis as em que o índio oi conside ado semp e em elação aos in e esses do
sis ema dominan e. O e nólogo e an opólogo mexicano Guille mo Bon il Ba alla, um dos
maio es pa idá ios da causa indígena, analisa a ca ego ia do Ííndio na sua ob a U opía y
Re olución: El Pensamien o Polí ico Con empo áneo de Los Indios en Amé ica La ina,
undamen al pa a o es udo da ealidade indígena la ino-ame icana. De aco do com Bon il
Ba alla:
En an o los apa a os de la sociedad dominan e no conduzcan alguna acción que di ec a o
indi ec amen e a ec e al indio, és e pe manece á idén ico, igual a sí mismo. La ue za dinámica es
siemp e ex e na y se gene a únicamen e en el mundo no indio. Nunca se econoce acción a pa i del
indio, sólo eacción, espues a. No se le concede inicia i a alguna. En an o “o o” y ajeno, el indio i e
(ac úa) sólo en la medida en que su mo imien o incide en el uni e so del dominado […] La ine cia del
pueblo indio es un pos ulado implíci o o explíci o del discu so o icial (el indigenismo), ecu en e en las
imágenes popula es y come cialmen e manipuladas (el indio esignado, pé eo, inmó el, e e no e
inmu able) […] Pa a la sociedad dominan e, el indio es sólo una a iable dependien e; siemp e obje o,
nunca suje o de la his o ia. Po que pa a la men alidad colonizado a hay una única his o ia: la suya —
aunque sea una his o ia e leja, anclada en el con ex o me opoli ano
32
.
O índio, conco de às eo ias do an opólogo mexicano, oi semp e conside ado um
obje o pela sociedade dominan e: passi o, es á ico, incapaz de qualque ação que não se
ap esen e como uma eação aos acon ecimen os do mundo ociden alizado. Desde os empos
da in asão, o subcon inen e la ino-ame icano en ou no imaginá io eu opeu como um luga
exó ico, di e en e, “ou o”, mas ao mesmo empo ap o pa a os in aso es p oje a em as suas
ca ego ias epis emológicas. Tes emunha des a endência é o Diá io de C is ó ão Colombo,
eple o de compa ações en e a na u eza encon ada nas e as ame icanas e a eu opeia
31
Res all, M. (2004). Los sie e mi os de la conquis a española (M. Pino, T ad.). Ox o d Uni e si y P ess, No a Io que
Mo eno (ob a o iginalmen e publicada em 2003).
32
Bon il Ba alla, G. (1981). U opía y e olución. El pensamien o polí ico con empo áneo de los Indios en Amé ica
La ina. pp. 23 e 24. México: Nue a Imagen.
16
amilia ao almi an e: bas a pensa mos ao nome dado em cas elhano ao ananás, desconhecido
na Eu opa nos empos do Almi an e, chamado “piña” po que pa ecido com a pinha, o u o do
pinhei o. Acon eceu o mesmo com a auna au óc one, inclusi amen e com aqueles po os
conside ados “animais sem alma” po eu opeus.
O pensamen o colonial in en a a ex e io idade a pa i da p óp ia in e io idade,
o nando udo o que o o “ou o” em algo passi o e dependen e do colonizado : assim oi
in en ado o índio pelos eu opeus. Ac escen a Bon il Ba alla:
El indio su ge con el es ablecimien o del o den colonial eu opeo en Amé ica; an es no hay
indios, sino pueblos di e sos con sus iden idades p opias. Al indio lo c ea el eu opeo, po que oda
si uación colonial exige la de inición global del colonizado como di e en e e in e io (desde una
pe spec i a global: acial, cul u al, in elec ual, eligiosa, e c.; en base a esa ca ego ización de indio, el
colonizado acionaliza y jus i ica la dominación y suposición de p i ilegio (la conquis a se ans o ma,
ideológicamen e, en emp esa eden o a y ci ilizado a).
33

An es dos colonizado es e em chegado à Amé ica não exis iam índios, mas milhões de
pessoas di ididas em milha es de ci ilizações e e nias di e en es. O sis ema colonial in en ou o
índio po que só pode subsis i se exis i em os dois e mos opos os e con á ios: colonizado e
colonizado. O colonizado passa a se colonizado de ido à aniquilação da sua cul u a,
conside ada in e io pelo colonizado . Essa aniquilação, sem a qual não a ia sen ido exis i o
sis ema colonial, é necessá ia pa a os colonizado es, po ado es da “cul u a supe io ”. A
conquis a do con inen e ame icano apa ece assim não somen e indispensá el, mas bené ica
pa a a humanidade, um concei o ex emamen e eu ocên ico (en endendo po Eu opa o
ociden e económico e mundial e não somen e o con inen e eu opeu geog á ico). O
pensamen o colonial con inua ão o e e de e minan e na cul u a ociden al ao pon o de mui os
olumes de His ó ia es udados no “P imei o Mundo” ensina em que a in asão não oi in asão
mas sim descobe a, que a colonização oi uma oca de alo es da qual odos i a am p o ei o
e que o dia 12 de Ou ub o, dia da chegada dos espanhóis ao con inen e ame icano, da a
his ó ica que de ac o ma cou o começo do maio genocídio da His ó ia, se uma da a pa a se
celeb ada po oda a humanidade. A colonialidad do pode esc e eu a his ó ia unila e al da
descobe a da Amé ica: in en ou os a o es, os igu an es e a linha na a i a. É p ecisamen e
es a a azão pela qual o sis ema colonial (e o capi alismo que dele su giu e que de ido a ele é
33
Ibidem, p. 20.
17
possí el) não pode se conside ado um sis ema sus en á el: po que é unila e al e, po an o, não
na u al.
Mais uma ez nos soco e Bon il Ba alla: “La ag esión a los pueblos indios, su
some imien o a un sis ema de dominio y explo ación colonial, no es un enómeno na u al ni
ineludible. No se a a de un momen o necesa io den o de un p oceso de e olución
uni e sal”
34
.
A e dadei a conquis a do pode colonial oi a in enção da ca ego ia do índio, uma
in enção a pa i de cima e de o a, uma in asão epis emológica e cul u al. Wal e Mignolo
decla ou, numa en e is a sob e pensamen o on ei iço:
El bá ba o y el p imi i o, desde Las Casas a La i au, es in ención del sis ema ca ego ial y de los
agen es occiden ales. De modo que acep a el se bá ba o no es acep a me on ológicamen e como
bá ba o, sino acep a que desde las ca ego ías é icas y polí icas impe iales me han clasi icado como
bá ba o. Faus o Reinaga, pensado adical ayma a, decía: “No soy Indio, ca ajo. Soy Ayma a. Pe o me
han hecho Indio y como Indio oy a pelea .”
35
A ca ego ia do índio é uma ca ego ia sup aé nica, po que não econhece as di e enças
en e as di e en es e nias, colocadas odas no mesmo g upo: o de colonizadas e, po an o,
in e io es. Mais uma ez ac escen a Bon il Ba alla:
Se maya, o ayma a, o mapuche, iene signi icados conc e os di e en es, po que implica
pa icipa de comunidades dis in as, con lengua, cosmo isión, his o ia y p ác icas sociales di e sas; pe o
se maya, ayma a o mapuche signi ica ambién compa i plenamen e una condición común: la de
indios, es deci , colonizados.
36
34
Ibidem.
35
Iñigo Cla o, M., Sánchez-Ma eos Paniagua, R. (2007) “Sob e pensamien o on e izo y ep esen ación - En e is a a
Wal e Mignolo”, 3W. bilboque .es, consul ado no dia 2-5-2019.
36
Bon il Ba alla, G. (1981). U opía y e olución. El pensamien o polí ico con empo áneo de los Indios en Amé ica La ina.
pp. 23 e 24. México: Nue a Imagen.
18
1.3. O p oblema do índio
“Indio es nues o nomb e de cua o siglos. Colón nos llamó indios, y somos eso: INDIOS. Sí, sí
que nos llamó así po e o , igno ancia, o mala e; pe o uimos bau izados con ese nomb e y con ese
nomb e hemos i ido cua o siglos.”
37
Reinaga, F., La e olución India
Assim como as colónias in en a am o índio, os Es ados su gidos após as gue as de
independência p opuse am como obje i o o desapa ecimen o do índio e, consequen emen e, a
sua ans o mação em cidadão. Tal obje i o, numa p imei a e supe icial análise, pode ia
pa ece pa ilhado po pensado es como Bon il Ba alla, que colocam no desapa ecimen o do
índio o esul ado inal da lu a indianis a. A e lexão do an opólogo mexicano sob e o ema é
ão sub il e pe spicaz que eque um impo an e es o ço in elec ual pa a pe cebe a essência da
sua eo ia e, apesa de pa ece deseja o mesmo obje i o, coloca-se nos an ípodas das polí icas
de assimilação do índio dos Es ados independen es. De aco do com o an opólogo:
Es e es el undamen o del p oyec o his ó ico de la indianidad, que, dialéc icamen e, se cumpli á
con la desapa ición del indio. La desapa ición del indio en an o colonizado se á el esul ado de la
sup esión de la si uación colonial, pe o no implica la desapa ición de las e nias; po el con a io, la
mue e del indio como ca ego ía colonial es condición pa a el esu gimien o de odas y cada una de las
e nias some idas
38
.
O p odu o inal do p oje o da lu a indígena é, pa a Bon il Ba alla, o desapa ecimen o do
índio enquan o ca ego ia colonial pelo esul ado da sup essão des e sis ema, única o ma de
libe ação de odas as e nias subjugadas. Os indígenas êm de mo e enquan o índios, pa a
ol a a se o que e am an es da colonização: e nias e cul u as di e en es. Pa a o sis ema
colonial, a pa i do qual nasce am os Es ados independen es, e que ainda cons i ui a base das
epúblicas con empo âneas la ino-ame icanas, o esul ado desejá el é igualmen e o
desapa ecimen o do índio, mas numa pe spe i a opos a à do an opólogo mexicano. O índio
mo e á e nasce á mais um cidadão do país, ou seja, mo e um mapuche e nasce um chileno,
mo e um zapo eco e nasce um mexicano e assim po dian e. Se, po um lado, o obje i o é a
37
Reinaga, F. (2010). La e olución India. p.143, (4° ed.) La Paz, Boli ia: Minka.
38
Bon il Ba alla, G. (1981). U opía y e olución. El pensamien o polí ico con empo áneo de los Indios en Amé ica
La ina. p. 21. México: Nue a Imagen.
25
conhecimen os ances ais, p á icas sociais, línguas e lendas que o am ansmi idos ge ação
após ge ação, a é chega aos nossos dias. Cada po o em o seu pa imónio dis in o do dos
ou os, como se osse um diá io da memó ia cole i a. O e i ó io ances al pode se
conside ado como pa imónio (nes e caso ma e ial ou angí el) de uma e nia, assim como odo
o conjun o de conhecimen os que isam man e o equilíb io en e Homem e na u eza (nes e
caso ala-se de pa imónio ima e ial ou in angí el). Mas pa a ala de pa imónio é p eciso ala
p imei o de cul u a, ou melho , do que se en ende ao u iliza o e mo.
A pala a “cul u a” é ge almen e usada nas academias ociden ais pa a “designa a un
conjun o más o menos limi ado de conocimien os, habilidades y o mas de sensibilidad que les
pe mi en a cie os indi iduos ap ecia , en ende y (o) p oduci una clase pa icula de bienes,
que se ag upan p incipalmen e en las llamadas bellas a es y en algunas o as ac i idades
in elec uales”
48
. Bon il Ba alla ac escen a, especi icando que o acesso à di a p odução cul u al é
limi ado a de e minadas classes sociais, ou seja, nem odos êm as mesmas possibilidades de
acesso a uma p odução de inida como cul u a. Daqui em a dis inção, al amen e p oblemá ica,
en e po os “cul os” e “incul os” que es á na base do pensamen o colonial. O mi o da
supe io idade e a ap esen ação da op essão como emp esa eden o a e ci ilizado a esul a
des a dis inção e ical en e po os conside ados po ado es de cul u a e, po an o, supe io es
e po os sem cul u a e, po an o, in e io es.
A an e io ca ego ização deixa de aze sen ido se nos a as amos da pe spe i a colonial
eu ocen is a. O mundo da an opologia, de ac o, conco da unanimemen e que “ odos los
pueblos, odas las sociedades y odos los g upos humanos ienen cul u a [...]. A pa i de es a
concepción de cul u a, deja de ene sen ido habla de pueblos o indi iduos ‘cul os’ e ‘incul os’:
odos enemos cul u a, nues a p opia y pa icula cul u a.”
49
É a pa i do concei o de cul u a como algo p esen e em odos os g upos humanos que
o mula ei as minhas disse ações. A cul u a não apenas es á p esen e em odos os conjun os
de pessoas que compõem uma sociedade, mas ambém se ap esen a em cons an e mo imen o:
ão-se ans o mando e c iando obje os cul u ais em qualque momen o. Tal como a sociedade
muda, assim acon ece com a cul u a. Escla ecido que odos os po os são po ado es da sua
p óp ia cul u a, podemos ol a ao concei o de “pa imónio”, en endido como conjun o de
48
Bon il Ba alla, G. (2003). “Nues o pa imonio cul u al: Un labe in o de signi icados” p.69, in Pa imonio Cul u al y
Tu ismo. Cuade nos. Pensamien os ace ca del pa imonio cul u al: an ología de ex os. México, DF: Coo dinación de
Pa imonio Cul u al y Tu ismo del Consejo Nacional pa a la Cul u a y las A es, consul ado em da a 6 de junho de 2019.
49
Ibidem

26
elemen os cul u ais que os memb os do mesmo g upo humano econhecem como pa e
undamen al da sua cul u a:
Cuando hablamos del pa imonio cul u al de un pueblo, a lo que nos es amos e i iendo es,
p ecisamen e, a ese ace o de elemen os cul u ales – angibles unos, in angibles los o os– que una
sociedad de e minada conside a suyos y de los que echa mano pa a en en a sus p oblemas (cualquie
ipo de p oblemas, desde las g andes c isis has a los apa en emen e nimios de la ida co idiana); pa a
o mula e in en a ealiza sus aspi aciones y sus p oyec os; pa a imagina , goza y exp esa se.
50
Aos concei os de “pa imónio ma e ial” e “pa imónio ima e ial” adicionamos ago a
mais dois e mos: “au onomia” e “ esis ência”. De inimos o pa imónio como o conjun o de
elemen os cul u ais conside ados p óp ios po pa e de uma sociedade e u ilizados po ela pa a
enca a os p oblemas, pa a cump i aspi ações e p oje os e pa a se exp essa . Desde já o na-se
e iden e a necessidade de um espaço pa a a exp essão de ais obje os cul u ais. Nes es e mos
in oduzimos o concei o de au onomia: a au onomia, seja do pa imónio ma e ial (o exemplo
mais imedia o é a au onomia e i o ial), seja do pa imónio ima e ial (cosmo isão e língua,
en e ou os) é imp escindí el pa a a plena libe dade de exp essão de um g upo social:
Un p ime paso se ía decla a la exis encia de e i o ios indígenas au ónomos en los que el
Es ado no pueda concesiona p oyec os ex ac i os que a en en con a la salud y la calidad de ida de las
pe sonas, como sucede con la mine ía a cielo abie o. La au onomía sob e el e i o io unciona como
base pa a desa olla la ida en común y la ges ión de o os asun os sociales. Sin la posibilidad de
ges iona de mane a au ónoma sus p opios e i o ios, los pueblos indígenas no pod án desa olla de
mane a adecuada o as acciones necesa ias.
51
Somen e den o de um espaço au ónomo, com leis, eg as e p á icas au ónomas é
possí el a exis ência: quando al não se e i ica, a al e na i a é a esis ência. A esis ência
esul a do ins in o de sob e i ência dos colonizados pe an e a aniquilação do pa imónio
cul u al po pa e do g upo dominan e. A sup essão do di ei o à exis ência aduz-se em
esis ência. De aco do com Bon il Ba alla:
50
Ibidem
51
Aguila Gil, Y. E. (2018). “Noso os sin México: naciones indígenas y au onomía” in Beck, H., Lemus, R. (Eds.). El u u o
es hoy. Ideas adicales pa a México. México: Biblio eca Nue a.
27
En la condición de dominados, la conciencia de una época an e io de libe ad le asigna a la
dominación un ca ác e necesa iamen e ansi o io, un in ineludible, una empo alidad meno ,
o almen e inco po able en la la ga ayec o ia his ó ica del g upo. Al mismo iempo, la con inuidad del
g upo é nico esul a en una len a pe o incesan e acumulación de “capi al in angible”: conocimien os
adicionales, es a egias de lucha y esis encia, expe iencias, ac i udes p obadas; odo un a senal
di ícilmen e exp opiable, una base c ecien e dé elemen os dis in i os que posibili an y undamen an la
iden idad.
52
A his ó ia de cada po o é uma incessan e acumulação de um pa imónio cul u al,
ma e ial e ima e ial, g aças ao qual o po o le a po dian e a sua exis ência. No caso de po os
que sejam colonizados po ou as cul u as, es e pa imónio p e ê ambém a inclusão de
es a égias de lu a e esis ência pela p óp ia iden idade:
Los pueblos indios poseen una iden idad p opia que se basa en una p ác ica social p i a i a y
excluyen e; los espacios pa a eje ce esa p ác ica han a iado en el de eni his ó ico, desde sociedades
comple as y lib es has a los ámbi os es echos de la ida co idiana; aún es os educ os han demos ado
cons i ui undamen o su icien e pa a ga an iza la con inuidad del g upo y la ep oducción de la
di e encia; el idioma, la conciencia his ó ica, el “capi al in angible acumulado” que cons i uye la cul u a,
y un sis ema de elaciones y alo es que con o man un peculia modo de consumo dialéc icamen e
elacionado con los modos de p odución y dis ibución, pa ecen se los elemen os más impo an es en
los que se sus en a la ideología é nica; la dominación asedia a los g upos op imidos, los aniquila en
ocasiones, pe o los equie e como condición de su exis encia y, en consecuencia, la acción de sus
mecanismos p oduce simul áneamen e el e o zamien o de las iden idades é nicas; la his o ia de los
pueblos indios a pa i de la in asión eu opea es la his o ia de su lucha con a la dominación, con inua,
incesan e, con momen os de esis encia y momen os de ebelión; en es e sen ido los pueblos indios y
sus cul u as son, an e odo, hechos 'polí icos.
53
Se índio é um incessan e exe cício polí ico de esis ência en e ao domínio de ou os
g upos é nicos. O pa imónio cul u al que cada po o gua da e ansmi e de ge ação em ge ação
é ambém o p odu o de séculos de acumulação de es a égias pa a sob e i e ace à
explo ação. Den o de al pa imónio cul u al podem se incluídas p á icas que êm de o a, de
ou as cul u as, a é da cul u a dominan e, como no nosso caso de es udo. Nes e caso a
assimilação, a ap op iação (conscien e e não impos a) po pa e do g upo dominado de
52
Bon il Ba alla, G. (1981). U opía y e olución. El pensamien o polí ico con empo áneo de los Indios en Amé ica
La ina. pp. 23 e 24. México: Nue a Imagen.
53
Ibidem.
28
elemen os cul u ais ípicos do g upo dominan e o na-se uma iqueza na lu a de esis ência: é o
caso da esc i a.
Fe amen a his ó ica dos colonizado es e dos e angelizado es, a esc i a ep esen ou a é
aos nossos dias uma das g andes ino ações que jus i ica am o massac e dos po os na i os. A
e ó ica colonial é pe ei amen e ep esen ada na elação en e a o alidade ípica dos po os
indígenas e a esc i a que le a am consigo os in aso es: nunca o am pensadas pela sociedade
ociden al como duas manei as dis in as de comunica , sendo a p imei a conside ada in e io à
segunda, alimen ando mais uma ez o mi o da supe io idade. Sendo os eu opeus al abe izados,
inham a ob igação espi i ual e mo al de le a a pala a esc i a aos bá ba os anal abe os que
habi a am o con inen e ame icano an es da in asão.
Hoje em dia a mesma pala a esc i a acaba po se ans o ma na “no a a ma” pa a os
po os indígenas nos p ocessos de eap op iação e i o ial, ( e)a i mação da p óp ia iden idade
e ansmissão da memó ia cole i a às no as ge ações. Rep esen ando, con o me as in o mações
que emos, a quase o alidade dos po os indígenas do subcon inen e la ino-ame icano cul u as
adicionalmen e ag a as, nos p óximos capí ulos es uda emos os p ocessos de ap op iação da
pala a esc i a e cons ução de uma li e a u a indígena esc i a, a chamada o ali u a po Elicu a
Chihuaila , signi icando “nues a palab a ya esc ibiendose, pe o al lado de la o alidad”
54
. O
es udo da pala a esc i a como e amen a de esis ência é o núcleo da nossa in es igação na
qual ac escen amos mais ês pala as-cha es – esc i a, o alidade e o ali u a – na en a i a de
esponde às seguin es pe gun as: po que, pa a quem e como esc e em os po os indígenas?
54
Ci ado em Rocha, M. (2012). Palab as mayo es, palab as i as. T adiciones mí ico-li e a ias y esc i o es indígenas en
Colombia. Bogo á: Tau us.
29
CAPÍTULO II
Esc i a, o alidade e o ali u a
2.1. Esc i a, o alidade e o ali u a
He oído con a , pues, que en Nauc a is de Egip o i ió uno de los an iguos dioses de allá, aquel
cuya a e sag ada es la que llaman ibis, y que el nomb e del dios mismo e a Theu h. Es e ue el p ime o
que in en ó los núme os y el cálculo, la geome ía y la as onomía, a más del juego de damas y los
dados, y ambién los ca ac e es de la esc i u a. E a en onces ey de odo el Egip o Thamus, cuya co e
es aba en la g an ciudad de la egión al a que los g iegos llaman Tebas de Egip o, y cuyo dios es Ammón,
y Theu h ino al ey y le mos ó sus a es, a i mando que debían comunica se a los demás egipcios.
Thamus en onces le p egun ó qué u ilidad enía cada una, y a medida que su in en o las explicaba,
según le pa ecía que lo que decía es aba bien o mal, lo censu aba o lo elogiaba. Así ue on muchas,
según se dice, las obse aciones que, en ambos sen idos, hizo Thamus a Theu h sob e cada una de las
a es, y se ía muy la go expone las. Pe o cuando llegó a los ca ac e es de la esc i u a: «Es e
conocimien o, ¡oh ey!- dijo Theu h -, ha á más sabios a los egipcios y igo iza á su memo ia: es el elixi
de la memo ia y de la sabidu ía lo que con él se ha descubie o.» Pe o el ey espondió: «¡Oh
ingeniosísimo Theu h! Una cosa es se capaz de engend a un a e y o a se capaz de comp ende qué
daño o p o echo encie a pa a los que de ella han de se i se, y así ú, que e es el pad e de los
ca ac e es de la esc i u a, po bene olencia hacia ellos, les has a ibuido acul ades con a ias a las que
poseen. Es o, en e ec o, p oduci á en el alma de los que lo ap enden el ol ido po el descuido de la
memo ia, ya que iándose a la esc i u a, eco da án de un modo ex e no, aliéndose de ca ac e es
ajenos; no desde su p opio in e io y de po sí. No es, pues, el elixi de la memo ia, sino el de la
ememo ación, lo que has encon ado. Es la apa iencia de la sabidu ía, no su e dad, lo que p ocu as a
us alumnos; po que, una ez que hayas hecho de ellos e udi os sin e dade a ins ucción, pa ece án
jueces en endidos en muchas cosas no en endiendo nada en la mayo ía de los casos, y su compañía se á
di ícil de sopo a , po que se hab án con e ido en sabios en su p opia opinión, en luga de sabios.
55
Pla ón [Pla ão], Ob as comple as
O sis ema educa i o de cada país do mundo, se po um lado di e e dos ou os, po ou o
lado pa ilha aços e a i udes com a manei a de pensa o ensino de ou os Es ados. A educação
es á sem dú ida alguma ex emamen e ligada à cul u a. Se pensamos nos países do chamado
Ociden e mundial, que coincide com o ambém chamado P imei o Mundo (de inição que
de e íamos empenha mos em elimina do nosso ocabulá io po quan o disc iminan e e
hie a quizan e), odos pa ilham algumas no mas, noções e pa adigmas. Au oma icamen e o
55
Pla ón (1977). Ob as comple as. Aguila : Mad id.
30
cé eb o de qualque “ ilho do Ociden e” associa a ideia de educação ao ins umen o li o,
pala a esc i a imp essa no papel, po exemplo. O pensamen o ociden al ensina, desde os
p imei os anos de idade, uma eo ia como se osse uma e dade absolu a: a p é-his ó ia acaba
com o apa ecimen o da esc i a. A his ó ia do homem só começa no momen o em que o homo
sapiens começa a g a a símbolos e códigos, ou seja, a deixa ma cas angí eis da sua
linguagem: udo o que acon eceu an es é conside ado p é-his ó ico. A his ó ia de cada po o
da a o momen o em que se em p o as esc i as da exis ência desse mesmo po o.
Segundo es e sis ema de ideias, ausência de esc i a signi ica, po an o, ausência de
his ó ia: os po os sem esc i a, são, po an o, po os p é-his ó icos. No nosso ocabulá io
quo idiano de ini algo como p é-his ó ico ende, mui as ezes, a es azia o obje o das nossas
pala as, endo o e mo adqui ido um signi icado quase dep ecia i o. O “p é-his ó ico” é
p imi i o, in e io : logo, quem não i e esc i a é in e io . Pelo que sabemos, e só conhecemos a
pon a do icebe g do que oi o alcance ecnológico da Amé ica p é-colombiana, a maio ia dos
po os o iginá ios do con inen e ep esen am cul u as que desconhece am ou simplesmen e
não u iliza am sis emas de esc i a e são, po an o, conside adas in e io es pelo mundo
ociden al. Es as conclusões, às quais es amos a chega seguindo o caminho da lógica, mesmo
que possam pa ece adicais, es i e am na base do discu so colonial, da e angelização o çada
dos po os o iginá ios e do mi o da supe io idade que jus i ica o genocídio indígena. Os po os
indígenas inham de se colonizados, educados e e angelizados enquan o p imi i os, sem
cul u a, sem esc i a e sem eligião.
Aqui si ua-se a ensão en e pala a esc i a e pala a o al: na p e ensão de
supe io idade da p imei a ace à segunda. Esc i a e o alidade são simplesmen e o mas dis in as
de comunica , sem que uma enha de se conside ada melho do que a ou a. No momen o em
que ma camos a passagem en e p é-his ó ia e his ó ia com a in enção da esc i a, es amos
au oma icamen e, conscien es ou não, a cons ui um desní el hie á quico en e cul u as com
esc i a e cul u as sem esc i a. No pensamen o ociden al a esc i a é conside ada, sem dú ida,
como o p incipal eículo de cul u a. Bas a pensa mos na impo ância dada à in enção da
imp ensa mó el po pa e de Johannes Gu enbe g no século XV. Qualque sis ema escolás ico
se baseia no es udo de li os, pala as esc i as imp essas em olhas de papel. Como acon ece
com mui as noções, a esc i a es á ão en aizada no nosso sis ema de ep esen a o mundo que
nem pensamos que possam exis i po os que cons uí am a p óp ia his ó ia sem ela.

31
Poucas são as exceções que ques iona am o pode magné ico da esc i a. Embo a o
pensamen o ociden al con empo âneo associe indissolu elmen e a esc i a à sabedo ia e à
cul u a, um dos pais da iloso ia ociden al ecusou a u ilização da pala a esc i a ao longo da sua
ida e, ao mesmo empo, a o alidade desen ol eu um papel p imá io na ida social e polí ica da
An iga G écia, conside ada o be ço das a es e das ciências pa a o con inen e eu opeu. O ela o
que inaugu a es e capí ulo sob e esc i a, o alidade e o ali u a em da boca do pai da iloso ia
g ega, Sóc a es, e oi ansc i o pelo seu discípulo, Pla ão. Sóc a es, a a és do dialogo en e o
deus egípcio Theu h – in en o da ma emá ica, da as onomia, da geome ia e, inalmen e, da
esc i a – e o ei do Egip o Thamus. Ap esen ando a sua in enção ao ei, o deus ilus a os
bene ícios que a pala a esc i a o e ece ia aos homens, en e os quais o o alecimen o da
memó ia. Mas o que Theu h chama de “elixi da memó ia e da sabedo ia”, Thamus conside a
“apa ência de sabedo ia” e como danoso pa a a memó ia, po o e ece a possibilidade de
lemb a , com um auxílio ex e no e, po an o, não ine en e à men e dos homens, que se
o na iam assim apenas sábios e não e dadei amen e sábios. Assim, os pe igos e as alhas da
esc i a o am o uscados pelas suas an agens assim, al como acon eceu com o po encial da
pala a o al. De aco do com o an opólogo a gen ino Adol o Colomb es:
La en usias a acep ación de las en ajas de la esc i u a impidió, has a épocas ecien es,
comp ende la magni ud desus limi aciones, y p odujo una des alo ización ap esu ada y ac í ica de la
o alidad, cuyas su ilezas écnicas ecién es án siendo es udiadas en odasu complejidad, especialmen e
en Á ica. Pe o el ehículo undamen al de la cul u a no es la esc i u a, sino la lengua. Ella, de po sí, ha
sido capaz de pe mi i la asmisión cul u al du an e siglos y milenios. El lenguaje es un enómeno
p incipalmen e o al, pues de los miles de lenguas que se habla on a lo la go de la his o ia de la
humanidad, solo cien oseis se plasma on po esc i o en un g ado su icien e pa a p oduci una li e a u a
de es e ipo, y la mayo ía de ellas no llegó a la esc i u a. De las es mil lenguas que hoy exis en, nos dice
Wal e Ong, solo se en a y ocho poseen una li e a u a esc i a
56
.
Assim como a pala a o al inha um papel cen al na ida comuni á ia da polis g ega,
pa a mui os po os es a impo ância da o alidade pe sis e hoje em dia. Sob e udo em Á ica e na
Amé ica La ina, mui as cul u as econhecem na comunicação e bal um papel undamen al nas
elações in e pessoais que egem a ida em comunidade. Embo a a sociedade ociden al es eja
quase in ei amen e cons uída a pa i de uma base esc i a (bas a pensa mos nas leis, nos
56
Colomb es, A. (1997). “O alidad y li e a u a o al” in Celeb ación del lenguaje. Buenos Ai es: Ediciones del Sol.
32
jo nais, nos co eios ele ónicos ou nas mensagens de ex o que en iamos odos os dias), pa a
mui os po os a esc i a desempenha um papel menos cen al na ida social e pa a alguns
ep esen a a é um abu. Pa a indi íduos adicionalmen e habi uados à comunicação di e a
in e pessoal, pode a é pa ece um absu do ac edi a em pala as que p o eem de um au o
não p esen e no momen o da lei u a. A o ça ilocu ó ia de um enunciado, ou seja, o seu
con eúdo acional que pe mi e ao alocu á io (quem es á a ou i ou le ) de pe cebe o que o
locu o (quem es á a ala ou esc e e ) que dize , é mui o mais explíci a e cla a num a o de ala
o al do que num ex o esc i o, no qual em mui os casos o lei o em de ele á ias ezes o ex o
an es de pe cebe as in enções do au o . A dis ância en e quem enuncia e quem ecebe o
enunciado é cla amen e maio na comunicação esc i a, p o ocando maio con usão e maio
possibilidade de mal en endimen o e mal in e p e ação, amiúde causas de p oblemas maio es.
Ou o ac o é o ca ác e cole i o da o alidade ace ao ca á e mais indi idualis a da
esc i a. Embo a exis am a os de esc i a e lei u a cole i as, a esc i a, sob e udo no nosso caso de
es udo, o li e á io, não deixa de se um ac o maio i a iamen e indi idual, em que o au o não
p ecisa do lei o no momen o. Ou o a o é a o alidade, que p ecisa de uma cole i idade:
conside amos o almen e no mal que alguém esc e a ou leia sozinho num pa que, po
exemplo, enquan o pa ece es anho alguém ala sozinho. Tendo mui as des as cul u as um
ca á e ípica e ma cadamen e comuni á io, a pala a o al con inua a ep esen a hoje em dia a
o ma p incipal de comunicação em âmbi os não somen e in o mais, como ambém acon ece
na sociedade ociden al, mas ambém o mais, em es e as da sociedade como a eligião, a
jus iça, a polí ica e a adminis ação dos espaços comuns. Além dos mo i os es u u ais, são
undamen ais as azões his ó icas: a esc i a ep esen ou pa a mui as cul u as a e amen a dos
colonizado es e da e angelização o çada ope ada pelos missioná ios e, po an o, uma e í el
a ma de aniquilação cul u al. Des as e de mui as ou as azões p o ém o ecuso da esc i a que
mui os po os do plane a ainda u ilizam.
A esc i a, po ém, não oi uma ino ação dos colonizado es eu opeus: pensemos nos
dis in os sis emas de esc i a documen ados na zona mesoame icana e nos quipus dos inca no
Tawan insuyu: as cul u as mesoame icanas, en e as quais a maia, a mexica, a ñuiñe, a mix eca,
a epi-olmeca, a olmeca e a zapo eca, desen ol e am di e en es sis emas de gli os e códigos
impu á eis ao nosso concei o de pala a esc i a. Os quipus – egis os que se con inuam a
encon a inclusi e em zonas que não pe enciam ao Impé io Incaico – e da ados de épocas
an e io es ao nascimen o da cul u a inca, po mui o empo conside ados me os códigos
33
numé icos, es ão a e ela -se e dadei os sis emas de esc i a a a és dos quais os po os da
egião andina comunica am, não obs an e as imensas dis âncias. No subcon inen e la ino-
ame icano encon amos, po an o, um mosaico de cul u as a iado: de po os que já conheciam
e u iliza am a esc i a a po os que a é hoje em dia a ecusam. E é nes e mosaico de ecnologias,
ciências e cosmo isões que encon amos o núcleo des a disse ação: po os que o na am a
pala a esc i a uma e amen a de esis ência con a o genocídio indígena, acolhendo a ese de
I ma Pineda, segundo a qual “la li e a u a esc i a ampoco es á peleada con la o alidad pues o
que son dos he manas que caminan jun as, cada una nu e a la o a”
57
.
2.2. Anal abe ismo indígena e al abe ização o çada
“Anal abe as
¿A quién llaman anal abe as,
a los que no saben lee
los lib os o la na u aleza?
Unos y o os
algo y mucho saben.
Du an e el día
a mi abuelo le en ega on
un lib o:
le dije on que no sabía nada.
Po las noches
se sen aba jun o al ogón,
en sus manos
gi aba una hoja de coca
y sus labios iban diciendo
lo que en ella mi aba
(Hugo Jamioy, Bínybe Oboyejuayeng – Danzan es del ien o, 2010 )”
58
O p e enso anal abe ismo dos po os o iginá ios cons i uiu a base do mi o da
supe io idade e do discu so colonial que p e ê a aniquilação cul u al do índio enquan o
57
Pineda, I. (2014). “O alidad y li e a u a de los Binnizá” in Ma ía Lepe Li a Luz. (2014). O alidad y esc i u a:
expe iencias desde la li e a u a indígena. México, D.F.: P og ama pa a el Desa ollo In eg al de las Cul u as de los
Pueblos y Comunidades Indígenas (PRODICI).
58
Jamioy, H. (2005). Bínybe Oboyejuayeng – Danzan es del ien o. Bogo á: Minis e o de Cul u a.
34
anal abe o, igno an e, in e io ace ao eu opeu le ado, po ado da cul u a ociden al,
conside ada supe io . Assim, a al abe ização do índio é mais um p ocesso de in eg ação na
sociedade “b anca”, que o pode colonial ambiciona pa a os po os o iginá ios: o índio em de
se al abe izado pa a se libe ado da sua igno ância e acede inalmen e à sociedade. Num
p imei o momen o os missioná ios, e mais a de os go e nos c iollos, oca am os seus es o ços
na al abe ização o çada dos po os indígenas do con inen e: os p imei os pa a ansmi i a
“pala a do Senho ” e assim edimi os índios “impu os”, e os segundos pa a o ná-los cidadãos
do Es ado.
Embo a es a obsessão de al abe iza os po os o iginá ios possa pa ece bene olen e, a
ealidade e ela uma his ó ia o almen e di e en e. An es de mais, a al abe ização não deixa de
se uma e amen a da o dem colonial, que encon a a sua base no desní el hie á quico en e
colonizado e colonizado, no qual a p e ensão de supe io idade do colonizado legi ima a
subs i uição da cul u a indígena pela cul u a “b anca”. Pensemos mais uma ez nas pala as de
Be line , quando a i ma que a ci ilização ociden al ep esen a o homem na sua o ma melho
enquan o po ado a de uma cul u a obje i amen e supe io
59
. A cul u a do po o colonizado
não é acei e pelo pode colonial, po que é conside ada in e io e p imi i a e, po an o, danosa
pa a o desen ol imen o in elec ual, espi i ual e social do indi íduo. Quando alamos de cul u a,
emos de e p esen e o conjun o que engloba o concei o: cosmo isão, p á icas sociais,
conhecimen o ances al, língua e ca ego ias de pensamen o. A p á ica colonial p e ê a
dominação de uma cul u a, en endida como a única o ma de in e p e a o mundo, sob e a
ou a. O que o pensamen o colonial az é subs i ui as ca ego ias epis emológicas da cul u a
dominada pelas da cul u a dominan e.
A p óp ia in e p e ação das axas de al abe ismo como indicado es da “saúde” de uma
sociedade é uma in enção ociden al. O anal abe ismo em si é uma in enção do pensamen o
ociden al que conside a a esc i a mais desen ol ida do que a o alidade e não um p oblema
social de po os que nunca u iliza am a pala a esc i a. O Índice de Desen ol imen o Humano
(IDH), com o qual compa amos o ní el de desen ol imen o dos países, como se a aliasse a
“saúde de um país”, baseia-se em c i é ios maio i a iamen e ociden ais e a bi á ios. O IDH é
calculado a pa i de dados da espe ança média de ida ao nasce , do ní el de escola idade e
P odu o In e no B u o pe capi a (PIB, PPC). Excluindo a espe ança média de ida ao nasce , os
ou os dois c i é ios não podem se indicado es uni e sais da saúde dos po os que habi am o
59
Be line S., M. (1991, Dezemb o 30) “Man’s bes came wi h Columbus”, Los Angeles Times.
41
Embo a possamos a i ma que o México, o Chile e a Colômbia (não po acaso escolhidos
como casos de es udo na p esen e disse ação) o am os ocos des a no a o ali u a indígena,
g aças a igu as como o maia Jo ge Cocom Pech, o mapuche Elicu a Chihuaila e o quechua
yanakuna Wiñay Mallki/F edy Chikangana, o p oje o dos o ali o es ab ange oda a á ea do
subcon inen e, onde dia iamen e jo ens indígenas de di e en es e nias se e guem como po a-
ozes da pala a dos seus an epassados. A o ali u a e os o ali o es assumem-se como pon es
en e a esc i a e a o alidade, o can o ances al e a ealidade con empo ânea, en e p esen e e
passado, en e po os indígenas e sociedade ociden al:
La o ali u a iene a se esa o a his o ia no con ada en el país, aquella his o ia que no es á en
las enciclopedias, pe o que ela a los hechos, las luchas, la pe manencia de conocimien os, isiones,
o mas de en ende el mundo y la ida. En ese sen ido la o ali u a es un camino que une lo o al y lo
esc i o, que pe mi e c ea un puen e en e la palab a de nues as sociedades abo ígenes y la cul u a
esc i a que bien pueda se leída po sociedades que no han enido como adición lo o al […] En la
palab a chaka- una, que quie e deci «puen e y gen e», se de ine la elación que es amos señalando: se
puen e en e la ie a y el cosmos, se puen e en e lo o al y lo esc i o, se puen e en e nues as
sociedades con palab a ansmi ida po gene aciones y la sociedad nacional, puen e en e nues as
lenguas y el español. Se chaka es sabe se puen e pa a el una, humanidad
72
A igu a do chaka- una, homem-pon e na cul u a quechua, ajuda a comp eende o papel
do o ali o na sociedade, como uma pon e en e á ios mundos que comunicam. O o ali o ,
enquan o in e mediá io en e cul u as, in e p e a a p óp ia posição de au o ace à p óp ia ob a
não de uma o ma indi idual, mas como um po a- oz de uma pala a cole i a, silenciada e
op imida du an e séculos: “en el mundo occiden al el au o es uno y hay un econocimien o de
ipo indi idual; en cambio en las cul u as indígenas lo o al es colec i o, la c eación en el a e y la
belleza de la palab a es un ac o que solo puede en ende se desde lo colec i o”
73
. O o ali o
ep esen a es e encon o de dois mundos, duas línguas, duas cul u as que se ep oduzem
simul aneamen e. A escolha linguís ica es á in insecamen e elacionada com es a manei a de
in e p e a a poesia e a p odução a ís ica. O o ali o enca na a pala a an iga e a no a, a língua
dos ances ais e a língua que lhe oi impos a pelos colonizado es, mas, ao mesmo empo,
72
Chikangana, F. (2017). Indígenas y o ali u a como esis encia an e el ol ido. Re is a ERRATA. N°18 “Los de echos de
los i ien es”, Bogo á.
73
Chikangana, F. (2014) “O ali u a indígena como un iaje a la memo ia” in Ma ía Lepe Li a Luz. (2014). O alidad y
esc i u a: expe iencias desde la li e a u a indígena. México, D.F.: P og ama pa a el Desa ollo In eg al de las Cul u as
de los Pueblos y Comunidades Indígenas (PRODICI).

42
o e ece a possibilidade de comunica com ou os mundos: a sociedade dominan e e ou as
cul u as indígenas, po exemplo. O o ali o Kamën sa Hugo Jamioy Juagibioy ala de pala a
an iga e pala a no a:
La an igua palab a: aíz de las cul u as, se ex iende has a y desde las p o undidades de los
iempos an iguos, nu e el onco y el lo ece de las ac uales gene aciones, es semilla po siemp e.
En e la aíz, el onco, las lo es y la semilla se encuen an los gua dado es de la palab a; la palab a,
como hilo que comunica las pa es del á bol exis encial es de odos; el don de la palab a como sa ia
espi i ual se anida en la cue a sec e a de los gua dado es de la palab a; madu a en el co azón y se
siemb a en el co azón.
La nue a palab a: sueño pa a u u os sueños. T onco i o de las aíces an iguas, onco i o
pa a que el á bol lo ezca. T onco débil, onco ue e, si que emos. La nue a palab a, u o de la an igua
palab a, semilla de la u u a palab a, encuen a su iempo y su espacio pa a hace eal el sueño an iguo
en nues a exis encia ac ual, pa a soña el p esen e de nues os hijos y los hijos de los o os
74
.
Na o ali u a undem-se as duas pala as, a dos ances ais e a das no as ge ações que se
o nam gua diãs dos sonhos do p óp io po o e ela am es es sonhos. A o ali u a é sonho pa a
u u os sonhos, sonhos p esen es e passados que se mis u am num empo sem im em que o
o ali o se enche da oz da cole i idade da sua cul u a e can a as suas memó ias, os seus
e i ó ios como se ossem al abe os i os, a elação com a na u eza e os mi os da c iação do
mundo que um dia os seus ances ais lhe ela a am. A posição de pon e en e mundos coloca o
o ali o num papel ex emamen e impo an e pa a a sua comunidade, um papel polí ico e
a ís ico ao mesmo empo, enquan o ele, a esão da pala a, desempenha duas unções
undamen ais:
[…] es a p esen es pa a ayuda a o alece su p opia cul u a pe o igualmen e se puen es con
la sociedad occiden al pa a que sus lenguas, sus sonidos y su sis ema de pensamien o engan cabida en
la cons ucción de alo es pa a la sociedad mes iza y pa a ayuda a una eal in eg ación de los pueblos y
cul u as en La inoamé ica
75
.
Tendo um papel polí ico e cul u al, o p oje o da o ali u a ap esen a-se ambém como
undamen al pa a a sob e i ência das línguas indígenas gua dadas na pala a do o ali o .
74
Jamioy Juagibioy, H. (2009) P oyec o de O ali u a Camën sá. Ap esen ado ao Minis e io de Cul u a como pa e da sua
beca ganhado a da in es igação em o ali u a indígena.
75
Ibidem.
43
Embo a as cosmo isões e a memó ia ances al de mui os po os o iginá ios enham conseguido,
g aças a imensos es o ços de esis ência e esiliência du an e mais de cinco séculos, chega a é
os nossos dias, as línguas indígenas es ão numa posição de maio isco. P ecisamen e po isso o
papel do o ali o ganha maio impo ância na e i alização de línguas e manei as de ep esen a
o mundo que a cul u a dominan e en a aniquila dia após dia. A o ali u a ep esen a, sem
dú ida, uma ino ação undamen al pa a as cul u as indígenas e uma impo an íssima
opo unidade de esis ência pe an e o esquecimen o. Nas pala as dos seus o ali o es, os po os
o iginá ios podem con inua a a i ma a p óp ia au onomia cul u al acompanhados pelas ozes
dos seus an epassados e dos sons dos seus ios, bosques e e i ó ios sag ados, ão p esen es
nas p oduções a ís icas indígenas, num cí culo in ini o de sonhos p esen es, passados e
u u os. Pa a aseando o o ali o wayuu Vi o Apüshana, o jayeechimajachi, o can o -na ado
adicional wayuu, chegou pa a celeb a na sua língua a his ó ia do seu po o, pa a com ela
sus en a a sua manei a de e a ida: o o ali o , di e samen e, esc e e pa a os alijunas
(es angei os) que não conhecem o po o wayuu pa a, com eles, con abandea sonhos.
“Ta ash, el jayechimajachi de Wanulumana, ha llegado
pa a can a a los que lo conocen...
su lengua nos es eja nues a p opia his o ia,
su lengua sos iene nues a mane a de e la ida.
Yo, en cambio, esc ibo nues as oces
pa a aquellos que no nos conocen,
pa a isi an es que buscan nues o espe o
Con abandeo sueños con alijunas ce canos”
76
2.4. A esis ência a a és da pala a esc i a
A esc i a, como analisámos, ep esen a pa a mui os po os indígenas uma e amen a
his ó ica do pode colonial, uma assus ado a e amen a de aniquilação cul u al. A al abe ização
o çada, a imposição da língua do colonizado , que o cas elhano, que o po uguês, as
con ínuas disc iminações dos alan es de línguas indígenas, c ia am uma ensão en e esc i a e
o alidade. O pensamen o colonial, ao impo o es udo da esc i a enquan o símbolo da
76
Apüshana, V. (1992). Con abandeo sueños con alijunas ce canos. Woummainpa. Riohacha: Sec e a ía de Asun os
Indígenas, Uni e sidad de la Guaji a.
44
supe io idade da cul u a dominan e ace às cul u as dominadas, c iou um desní el hie á quico
en e duas o mas de comunica di e en es. O pode magné ico da esc i a o uscou que os
de ei os des a, que as imensas po encialidades da o alidade, desen ol ida em mui as cul u as
a icanas e ame icanas. Como imos, a pala a esc i a oi impos a p imei o pelos missioná ios e
depois pelos go e nos c iollos pa a des ui as cul u as indígenas e o na os Índios c is ãos e
cidadãos da sociedade ociden al. A al abe ização na língua do dominado ep esen a, po an o,
mais uma e amen a do pode colonial na pe pe uação do genocídio indígena.
Quando alamos de conquis a, po ém, esquecemo-nos de um pequeno de alhe: os
po os indígenas esis em e con inuam a exis i e esis i . Pe an e cada iolência, que ísica,
que cul u al, os Índios con inuam a ei indica os seus di ei os e as suas au onomias. En e as
inúme as écnicas e es a égias de esis ência e esiliência, a pala a esc i a, não desconhecida
de odos os po os o iginá ios (mui as ci ilizações p é-colombianas já inham desen ol ido
sis emas de esc i a) o nou-se numa a ma cul u al que mui os po os decidi am u iliza na lu a
pela paz. Como imos, su giu assim o que se chama de o ali u a indígena, uma o ma a ís ica
que consis e na mis u a en e esc i a e adição o al dos po os indígenas. A igu a do o ali o
indígena, como Elicu a Chihuaila , F edy Chikangana e Jo ge Cocom Pech en e ou os, omou
assim uma múl ipla impo ância: polí ica e cul u al. Apelando-se à igu a quechua do chaka-
una, os o ali o es ap esen am-se como pon e en e dois mundos, duas cul u as e dois sis emas
de pensamen o. He dei os da pala a ances al dos an epassados, gua diãs das línguas
indígenas, os o ali o es p ese am nas suas ob as, bilingues ou monolingues, uma manei a
di e en e de ep esen a o mundo e, consequen emen e, de en ende a esc i a. Assim como a
pala a o al, o ex o do o ali o é ecido na cole i idade das memó ias dos po os, nos e i ó ios
que habi am há milénios, nos ios, nos bosques, no can o dos animais que luem em ha monia
com os ela os dos an epassados.
Inúme as ques ões se colocam em elação ao p oje o de o ali u a indígena: se á a
pala a esc i a uma e amen a ú il na lu a de sob e i ência das línguas indígenas, cada dia em
maio isco? Consegui ão os o ali o es, no complexo papel de pon e en e mundos com um
passado comum ão iolen o, que aliás pa ece não que e abandona o p esen e (pensamos nas
inúme as iolências ísicas e cul u ais quo idianas con a os po os o iginá ios em odo o plane a
odo)? Recebe ão as u u as ge ações o apelo des es esc i o es indígenas de não sac i ica a
p óp ia cul u a e de con inua a esis i ? Finalmen e, qual o u u o dos o ali o es indígenas?
45
Na en a i a de da uma espos a a es as e ou as pe gun as, in oduzimos a análise de
ês casos especí icos e he e ogéneos de li e a u as indígenas que decidi am u iliza a pala a
esc i a na lu a de esis ência cul u al.
O p imei o caso, o da li e a u a zapa is a, apa ece c onologicamen e como uma das
p imei as en a i as de jun a adição o al indígena e pala a esc i a. Sendo o zapa ismo um
mo imen o polí ico em que a componen e indígena se unde com igu as não indígenas, como
o po a- oz Subcomandan e Insu gen e Ma cos, a análise da elação en e o alidade e esc i a
assume nuances de no á el in e esse de ido ambém ao meio p i ilegiado pela comunicação
zapa is a. O discu so polí ico, de ac o, ap esen a-se po si só como uma usão en e os ecu sos
es ilís icos da esc i a e os ons mu á eis da o alidade que, jun ando a he ança da cosmo isão
maia, consegui am alcança uma i alidade que pe mi e ao zapa ismo sob e i e a é hoje não
obs an e os con ínuos a aques dos di e en es go e nos mexicanos e dos g upos pa amili a es.
Em segundo luga , analisa ei a li e a u a comuni á ia mapuche, des acando a p odução
de Elicu a Chihuaila de ido à sua posição undamen al no p oje o de o ali u a indígena.
Viajando po en e os bosques de pala as da iquíssima poesia mapuche, p ocu a ei as
semen es de esis ência espalhada po á ios au o es e au o as, das egiões do sul do Chile a é
à capi al, San iago, onde uma pa e impo an e da população mapuche chilena eside, de ido às
injus iças com as quais i am as suas e as oubadas pelo Es ado e doadas às g andes
emp esas. Sendo a li e a u a zapa is a maio i a iamen e em cas elhano, a poesia mapuche
assume impo ância na disse ação enquan o exemplo de p odução maio i a iamen e bilingue
em cas elhano e mapudungun.
O úl imo caso de es udo se á o da cul u a nasa do Cauca, um po o que esis e dia após
dia à b u al iolência do e i ó io colombiano e dos seus g upos pa amili a es que pe pe uam,
com a coni ência do go e no colombiano, o genocídio indígena, pa a explo a as e as
habi adas há milénios pelos po os o iginá ios. O po o nasa al abe izou a p óp ia língua, o Nasa
Yuwe, pa a ansmi i-la às u u as ge ações, eclama os p óp ios di ei os, c ia p o esso es e
o alece a p óp ia cul u a sob a ameaça quo idiana da iolência pa amili a . No caso do po o
nasa a análise se á menos ocada na ques ão li e á ia e mais na ques ão social e cul u al da
au o-al abe ização de uma língua indígena na lu a de esis ência pela sob e i ência cole i a
semeando e colhendo a pala a e con abandeando sonhos.
46
CAPÍTULO III
A lo da pala a: a li e a u a zapa is a
3.1. Hoy decimos ¡bas a!
Al pueblo de México:He manos mexicanos:Somos p oduc o de 500 años de luchas: p ime o
con a la escla i ud, en la gue a de Independencia con a España encabezada po los insu gen es,
después po e i a se abso bidos po el expansionismo no eame icano, luego po p omulga nues a
Cons i ución y expulsa al Impe io F ancés de nues o suelo, después la dic adu a po i is a nos negó la
aplicación jus a de leyes de Re o ma y el pueblo se ebeló o mando sus p opios líde es, su gie on Villa y
Zapa a, homb es pob es como noso os a los que se nos ha negado la p epa ación más elemen al pa a
así pode u iliza nos como ca ne de cañón y saquea las iquezas de nues a pa ia sin impo a les que
es emos mu iendo de hamb e y en e medades cu ables, sin inmo ales que no engamos nada,
absolu amen e nada, ni un echo digno, ni ie a, ni abajo, ni salud, ni alimen ación, ni educación, sin
ene de echo a elegi lib e y democ á icamen e a nues as au o idades, sin independencia de los
ex anje os, sin paz ni jus icia pa a noso os y nues os hijos
(EZLN Eje ci o Zapa is a de Libe acion Nacional, “P imei a decla ación de la Sel a Lacandona”, 1
de janei o de 1994)
77
Es e oi o g i o que se le an ou na Sel a Lacandona, egião do es ado mexicano de
Chiapas, habi ado po á ias e nias indígenas maias (en e as quais a ch’ol, a zo zil, a ojolabal
e a zel al) no dia 1 de janei o de 1994, dia da en ada em igo do T a ado de Lib e Come cio de
Amé ica del No e (TLCAN), No h Ame ican F ee T ade Ag eemen (NAFTA) em inglês, Acco d
de lib e-échange no d-amé icain (ALÉNA) em ancês. O aco do inha o decla ado obje i o de
inse i o México no mundo dos países desen ol idos, en egando o gigan esco país
mesoame icano à ú ia do capi alismo neolibe al, de ma iz no e-ame icana. A p imei a
decla ação da Sel a Lacandona, acompanhada pela ocupação mili a de se e câma as
municipais no es ado sudoes e de Chiapas, um dos es ados mexicanos com maio po oação
indígena (quase 30 % da população o al
78
), de e minou o início do con li o en e o Ejé ci o
Zapa is a de Libe ación Nacional (EZLN), signa á io do documen o, e o go e no mexicano.
Di igindo-se ao po o mexicano, o EZLN ei indica a o seu le an amen o, após quinhen os anos
77
EZLN (1994). P imei a decla ación de la Sel a Lacandona. Consul ada no dia 18 de se emb o de 2019 em
h ps://enlacezapa is a.ezln.o g.mx/1994/01/01/p ime a-decla acion-de-la-sel a-lacandona/
78
INEE, lndicado es del sis ema educa i o nacional. Consul ado no dia 18 de se emb o de 2019 em
h p://www.inee.edu.mx/bie/mapa_indica/2005/Pano amaEduca i oDeMexico/CS/CS04/2005_CS 04__.pd

47
de pe seguições e abusos impos os ao longo da sua His ó ia pelos colonizado es eu opeus e
no e-ame icano, pela di adu a de Po i io Díaz e pelos go e nos neolibe ais. O a ado de li e
comé cio oi, pa a os zapa is as, a go a de água que ez ansbo da o copo, um copo de milhões
de idas condenadas à ome e à misé ia pelos an igos e no os conquis ado es.
Nascido do encon o en e um g upo de jo ens in elec uais ma xis as-leninis as,
chegados às mon anhas chiapanecas em 1983, e as comunidades indígenas com as quais
ap ende am a comunica , o EZLN e oluiu a é se o na numa o ça compos a maio i a iamen e
po indígenas que le a am a an e o lema da e olução zapa is a: "la ie a es de quien la
abaja". Pa indo da ques ão da e a, o discu so polí ico zapa is a saiu das on ei as nacionais
e mudou o seu ca á e pa a se o na num discu so abe o a odos os ma ginalizados do mundo
na lu a con a a desigualdade e a op essão. Desde os p imó dios, o EZLN dis inguiu-se não só
pela na u eza do seu discu so, não a ibuí el às ideologias “ adicionais” dos mo imen os de
gue ilha, mas sob e udo pela sua manei a de comunica com o mundo e expo os seus
p óp ios pedidos. Hoje em dia, de ac o, con am-se milha es e milha es de páginas publicadas
em pe iódicos nacionais e in e nacionais, e is as mundiais e sí ios de in e ne assinadas pelo
EZLN e, na g ande maio ia, pelo seu po a- oz his ó ico: o Subcomandan e Insu gen e Ma cos.
O SUP, como gos a de se chamado, chegou à ama mundial não só po se um dos lide es
mili a es des e exé ci o de indígenas sem os o, mas ambém pela pa icula idade dos seus
comunicados, em que Ma cos unde o es ilo ípico da comunicação polí ica com um es ilo
li e á io ex emamen e he e ogéneo, que se alimen a da li e a u a mundial a pa i da adição
o al indígena mesoame icana.
São mul íplices as peculia idades do EZLN, a pa i da au o-de inição de exé ci o de
soldados que lu am pa a que não exis am mais soldados:
É e dade, somos p o issionais. Mas nossa p o issão é a espe ança. Um belo dia, decidimos i a
soldados pa a que nou o dia os soldados não sejam mais necessá ios. Ou seja, escolhemos uma
p o issão suicida po que é uma p o issão cujo obje i o é desapa ece : soldados que não são soldados,
po que um dia ninguém mais se á soldado. Es á cla o, não é?
79
A lu a zapa is a assume con o nos nunca an es imaginados, po que é uma e olução
polí ica, eó ica e poé ica, que não em como obje i o o pode , mas a c iação de um “mundo
79
Ma cos, S. (2004). Tex os aduzidos 1994-2004. (E. Genna i, ad.), pp. 47-48 [S.l.: s.n.].
48
donde quepan o os mundos”
80
, onde haja “ abajo, ie a, echo, alimen ación, salud,
educación, independencia, libe ad, democ acia, jus icia y paz”
81
pa a odos. A gue a “jus a”
dos zapa is as é uma gue a con a o esquecimen o ao qual os po os indígenas es ão
condenados, é o g i o dos úl imos silenciados pelo sis ema dominan e, é a e olução Índia que
Faus o Reinaga auspicia a: são os Índios que deixam de se obje os e se o nam sujei os. Como
a i ma epe idas ezes o Subcomandan e Ma cos, o EZLN ans o mou-se à medida que a
cosmo isão indígena en ou na sua manei a de en ende a ealidade e, consequen emen e, de
sonha ou o mundo possí el. É a ex ao diná ia o ça c ia i a do zapa ismo, - ex emamen e
ino ado a pa a um mo imen o a mado, o ça his o icamen e des u i a, ao mesmo empo - a
sua maio a ma de esis ência e a maio on e de in e esse pa a o meu caso de es udo. O
eno me uni e so li e á io zapa is a, usão da cosmo isão maia e da li e a u a mundial,
sob essal a como es emunha do que o zapa ismo oi e con inua sendo: uma eno me e olução
polí ica, eó ica e poé ica.
3.2. “Manda obedeciendo”: a e olução eó ica zapa is a
O choque cul u al que se p oduz nas mon anhas do Sudoes e mexicano, esul ado do
encon o en e os jo ens in elec uais u banos e as comunidades indígenas que habi am aqueles
e i ó ios, não se ci cunsc e e à lu a em Chiapas, acabando po p o oca uma e olução na
p óp ia manei a de pensa as e oluções, endo e ei os globais.
Sil ia Ri e a Cusicanqui desen ol eu o concei o de dupla elação en e sujei os pa a
explica as po encialidades da adição o al indígena, a andina no seu caso de es udo. A his ó ia
o al, de aco do com a in es igado a:
es un eje cicio colec i o de desalienación, an o pa a el in es igado como pa a su in e locu o . Si en es e
p oceso se conjugan es ue zos de in e acción conscien e en e dis in os sec o es, y si la base del eje cicio
es el mu uo econocimien o y la hones idad en cuan o al luga que se ocupa en la “cadena colonial”, los
esul ados se án an o más icos [...] Po ello, al ecupe a el es a u o cognosci i o de la expe iencia
humana, el p oceso de sis ema ización asume la o ma de una sín esis dialéc ica en e dos (o más) polos
80
EZLN (1996). Cua a decla ación de la Sel a Lacandona. Consul ada no dia 18 de se emb o de 2019 em
h p://enlacezapa is a.ezln.o g.mx/1996/01/01/cua a-decla acion-de-la-sel a-lacandona/
81
EZLN (1994). P imei a decla ación de la Sel a Lacandona. Consul ada no dia 18 de se emb o de 2019 em
h ps://enlacezapa is a.ezln.o g.mx/1994/01/01/p ime a-decla acion-de-la-sel a-lacandona/
49
ac i os de e lexión y concep ualización, ya no en e un “ego cognoscen e” y un “o o pasi o”, sino en e
dos suje os que e lexionan jun os sob e su expe iencia y sob e la isión que cada uno iene del o o
82
.
A análise de Cusicanqui da dupla elação que se c ia en e o in es igado e o seu
in e locu o é jus amen e o que p ecisamos pa a en ende a g andeza da o ça ino ado a do
zapa ismo. Podemos indi idualiza um momen o de e minan e na his ó ia do EZLN, um
momen o que escapa às c ónicas mili a es e aos a igos dos jo nais, emon ando ao empo dos
deuses: é a “His o ia de las p egun as”, uma con e sa en e o Viejo An onio, o eículo de
adução da cul u a indígena pa a os mes iços u banos, e o SUP. Es a con e sa ma ca o p incípio
do zapa ismo que conhecemos hoje em dia. O Subcomandan e Ma cos começa a ala ao elho
indígena sob e a his ó ia do México da sua pe spe i a de in elec ual ma xis a-leninis a a é à
igu a do he ói da e olução, Emiliano Zapa a, e é in e ompido pelo Velho An onio, que
mani es a a sua disco dância sob e o ema. O indígena começa en ão a ela a a sua his ó ia,
ma cando o momen o undado da e olução neo-zapa is a: o momen o em que o subal e no
começa a ala e expo a sua isão do mundo. O ela o que sai da boca umegan e do ancião
indígena é uma su eal usão de e dades his ó icas e lendas maias em que o limi e en e
ealidade e sonho deixa de e impo ância. Emiliano Zapa a assume cono ações di inas na
conjunção en e a biog a ia do he ói e o mi o dos deuses Vo án e Ik’al, noi e e dia do mundo
maia, que se uni icam na igu a do líde da e olução mexicana. Assis imos à uni icação en e os
dois sujei os nos e mos de Cusicanqui, uma uni icação que oge de qualque desní el
hie á quico pa a ab ange a hones a acei ação do Ou o e, consequen emen e, o
desapa ecimen o do subal e no enquan o ca ego ia. O zapa ismo nasce assim no mi o
undado do seu homem-deus que uni ica os opos os (dia/noi e, luz/somb a, b anco/p e o) e se
ans o ma na sua sín ese, p oduzindo uma e i a ol a:
Algo se ha pues o en mo imien o y es mé i o de Ma cos no habe dejado pasa ese momen o,
habe comp endido que, en ese momen o, se p oducía un uelco, en el sen ido p eciso en que
Pachacu i, como eo ía del uelco, enía y iene en el pensamien o ayma a. Es o es, un uelco
concep ual, una e olución eó ica. Ese es el momen o en que Ma cos comp ende las limi aciones del
ma xismo-leninismo y el hecho de que los in elec uales indígenas ienen, po así deci lo, su p opio Ma x
y Lenin. A pa i de ese momen o Ma cos comienza a acla a que el zapa ismo no es y es ma xismo
leninismo; pe o ampoco es pensamien o indígena undamen alis a y milena is a; ni que ampoco es
82
Cusicanqui, S. R. (1987). El po encial epis emológico y eó ico de la his o ia o al: de la lógica ins umen al a la
descolonización de la his o ia. Re is a Temas Sociales. N.° 11, pp. 49-64. La Paz: IDIS/UMSA.
50
esis encia indígena, sino como di á Rigobe a Menchú, en o o con ex o, es una e apa más allá de la
esis encia
83
.
O espon âneo e na u al abandono do ma xismo-leninismo po pa e dos in elec uais
mes iços e o seu enascimen o na sua sín ese com a cosmo isão maia e a esis ência secula dos
po os indígenas cons i uem a e olução eó ica do zapa ismo que deixa assim de “pensa
eo ías que nos ayuden a comp ende la ealidad” pa a passa a “encon a la eo ía en la
ealidad”
84
. Nas pala as de Ma cos encon amos a in e são dos e mos dialé icos que pe dem
o seu desní el hie á quico na sín ese das duas cul u as:
No les es ábamos enseñando a nadie a esis i . Nos es ábamos con i iendo en alumnos de esa
escuela de esis encia de alguien que lle aba cinco siglos haciéndolo […] Los que enían a sal a a las
comunidades indígenas ue on sal ados po ellas. Y encon amos umbo, des ino... elocidad pa a
nues o paso. Lo que llamamos “la elocidad de nues o sueño” [...] A la ho a que se empieza a cons ui
el puen e del lenguaje, y empezamos a modi ica nues a o ma de habla , modi icamos nues a o ma
de pensa nos a noso os mismos y de pensa el luga que eníamos en un p oceso: se i
85
.
Fo ma-se nes a na a i a o lema zapa is a de pensa o mundo “desde abajo” e não de
cima pa a baixo, in e endo a o dem de ep esen ação da ealidade e de cons i uição de
es a égia pa a a gue a, pa a a paz e pa a a ida:
Noso os nos habíamos dado cuen a —y en el noso os ya an incluidas las comunidades, no
sólo el p ime g upo— que las soluciones, como odo en es e mundo, se cons uyen desde abajo hacia
a iba. Y nues a p opues a an e io , y oda la p opues a de la izquie da o odoxa has a en onces, e a al
e és: desde a iba se solucionan las cosas pa a abajo
86
.
O zapa ismo, nascido des a iluminação, despe-se da sua o odoxia, conscien e da sua
incapacidade de aduzi de o ma exaus i a o mundo onde oi habi a , encon ando, pelo
con á io, a e icácia da dou ina inse ida nas p á icas de esis ência secula das comunidades.
Ma cos econhece à componen e indígena do EZLN, os adu o es dos quais o Velho An onio é o
83
Mignolo, W. (1997). La e olución eó ica del Zapa ismo: Sus consecuencias his ó icas, é icas y polí icas. O bis
Te ius. N.° 5, ol. 2, pp. 63-81. Buenos Ai es: Cen o de Es udios de Teo ía y C í ica Li e a ia.
84
Ibidem
85
Le Bo , Y., Ma cos, S. (1997). El sueño zapa is a. pp. 130-135. Ba celona: Anag ama.
86
Ma cos, S. (2008). Mensajes di igidas a la Ca a ana nacional e in e nacional de obse ación y solida idad con las
comunidades zapa is as, de la O a Campaña y la Zez a In e nacional. Oja asca, N.° 193. México: La Jo nada.
57
A his ó ia não passa de abiscos esc i os po homens e mulhe es no solo do empo. O pode
aça o seu abisco, elogia-o como esc i a sublime e o ado a como se osse a única e dade. O medíoc e
limi a-se a le os abiscos. O lu ado passa o empo odo p eenchendo páginas. Os excluídos não sabem
esc e e ... ainda
101
.
3.4. A pala a silenciosa: a cosmo isão maia na li e a u a zapa is a
La his o ia de la medida de la memo ia
Cuen an los iejos más iejos de los nues os, que los más p ime os dioses, los que nacie on el
mundo, epa ie on la memo ia en e los homb es y muje es que caminaban el mundo. “Buena es la
memo ia -dije on y se dije on los más g andes dioses- po que ella es el espejo que ayuda a en ende el
p esen e y que p ome e el u u o.”
Con una jíca a hicie on los más p ime os dioses la medida pa a epa i la memo ia y ue on
pasando odos los homb es y muje es a ecibi su medida de memo ia. Pe o esul a que unos homb es y
muje es e an más g andes que o os y en onces la medida de memo ia no se eía igual en odos. Los
más pequeños la b illaban más plena y en los más g andes se opacaba. Po eso dicen que dicen que la
memo ia es más g ande y ue e en los pequeños y es más di ícil de encon a en los pode osos.
Po eso dicen ambién que los homb es y muje es se an haciendo cada ez más pequeños
cuando en ejecen. Dicen que es pa a que más b ille la memo ia. Dicen que ese es el abajo de los más
iejos de los iejos: hace g ande la memo ia.
Y dicen ambién que la dignidad no es más que la memo ia que i e. Dicen.Vale. Salud y que la
memo ia cumpla su come ido, es deci , haga jus icia
102
.
Con am os elhos mais elhos que os p imei os deuses epa i am a memó ia de o ma
igual a odos os homens e mulhe es que habi a am o mundo. Como exis iam pessoas de
di e en es al u as e amanhos, e a memó ia oi dis ibuída de o ma igual, acabou po bene icia
mais, em p opo ção, aqueles de meno es dimensões. Po isso, os pode osos não êm memó ia
e as pessoas ão icando cada ez meno es quando en elhecem: po que ganham memó ia. Po
isso os elhos são pequenos isicamen e, mas cheios de memó ia e sabedo ia pa a con a . Os
anciãos gua dam, na pequenez do co po e na magni ude da alma, a memó ia que os ou os
esquece am. A ideia dos mais elhos como po ado es de sabedo ia é uma isão pa ilhada po
101
Ma cos, S. (1998). A e oluo in encí el – ca as e comunicados. São Paulo: Boi empo.
102
Ma cos, S. Los O os Cuen os. Vol. 2. Buenos Ai es: Red de solida iedad con Chiapas. Disponí el em
www. edchiapas.o g

58
mui as cul u as do plane a, mas alguns po os econhecem aos anciãos uma e dadei a
au o idade não somen e espi i ual, mas ambém poé ica e polí ica. Pa a os maias, po exemplo,
os anciãos são os sábios gua diões da pala a dos an epassados, ansmi ida de ge ação em
ge ação, a chamada adição o al, p odu o de séculos de abalho cole i o de “siemb a y
cosecha de la palab a”. Os elhos enca egados da ansmissão da adição o al e am os
chamados “seño es p incipales”, que se aduz li e almen e do nahua l “hábeis em dize ”, assim
apelidados po já e em ocupado odos os ca gos na comunidade.
Pa ilhando, na o ma e ca ac e ís icas, a o alidade ípica de mui as e nias a icanas e
de mui as cul u as abo ígenes espalhadas pelo mundo, os po os indígenas do sudes e do
México econhecem à pala a o al um papel undamen al na comunidade. Sendo a o alidade a
memó ia cole i a do po o, o seu ínculo com o seu passado e a exp essão da espon aneidade
quo idiana das p á icas sociais e espi i uais, p ecisa de e dadei os p o issionais pa a se
ansmi ida: daqui a igu a dos “seño es p incipales”, gua diões da cosmo isão. No caso do
EZLN, o “seño p incipal”, o po a- oz da pala a dos an epassados, é o Velho An onio, uma
pe sonagem que lu ua en e sonho e ealidade inundando com o umo da memó ia os
comunicados zapa is as. Indígena espei ado na comunidade, mes e do Subcomandan e
Ma cos, An onio des ia ela os sob e a c iação do mundo e dos homens po pa e dos deuses
p imei os, e ocando, no lui das suas his ó ias, a isão da o alidade como um ece de pala as
indissolu elmen e ligado à a e êx il indígena, o ma de c iação e ep odução cul u al.
[…] apa ece ese aduc o ; el iejo An onio. A la ho a en que las comunidades en an en
con ac o con noso os, su ge alguien que pa ece un pe sonaje li e a io, pe o que ue eal, exis ió. Ese
iejo se con ie e en el enlace con las comunidades, con su mundo y con la pa e más indígena. El
Ejé ci o Zapa is a de Libe ación Nacional, a a és de él, a a és de esos líde es polí icos y de los je es de
comunidades, empieza a en ende su his o ia de undación polí ica, su conciencia, su conciencia
his ó ica […] Eso p o oca que el EZLN, en el que no quedan sino dos o es ladinos, econozca que no
iene nada que hace y asuma, conscien e o inconscien emen e, el papel de alumnos en e a los
maes os. Y ahí es donde el iejo An onio, los je es de las comunidades y los gue ille os indígenas se
con ie en en maes os de esa o ganización polí ico-mili a que, aunque quedá amos es o cua o
ladinos, es oda ía una o ganización polí ico-mili a […] Es el iejo An onio el que da los elemen os
indígenas que iene el lenguaje zapa is a cuando se di ige hacia ue a
103
.
103
Le Bo , Y., Ma cos, S. (1997). El sueño zapa is a. pp. 130-135. Ba celona: Anag ama.
59
O Velho An onio su ge assim como adu o , alguém que e e, is o é, ans e e uma
cul u a pa a ou a. O ancião é o po a- oz da cul u a maia, o que le a o mundo indígena aos
jo ens in elec uais na igu a de Ma cos, que passa de subcomandan e a aluno. An onio/Ma cos
é como o o ali o , o chak a- una, a pon e en e passado e p esen e, en e indígenas e ladinos,
en e a cosmo isão maia e a ealidade sociopolí ica do Es ado mexicano. A impo ância do
Velho An onio oge às lógicas his o iog á icas e às en a i as de a ibui uma biog a ia às
pe sonagens do uni e so zapa is a, ep esen ando a união indissolú el en e o cosmos indígena
e a ealidade dos gue ilhei os mes iços. A a és dele, ou g aças a ele, o Subcomandan e
Ma cos plasma, jun amen e com os lide es indígenas, o uni e so zapa is a, sín ese do encon o
en e mundos di e en es que con e e a plu alidade undado a do zapa ismo.
Nelson González O ega es udou a elação en e a li e a u a zapa is a e a pala a
indígena do Popol Vuh, o li o sag ado dos maias, uma ecompilação de lendas e mi os k’iche.
In es igando a he ança que o zapa ismo de e às o mas polí icas, poé icas e sociais indígenas,
O ega analisou a igu a do Velho An onio como símbolo da sabedo ia maia que en a no
discu so e nas p á icas polí icas quo idianas do EZLN, econhecendo a ex ao diná ia habilidade
li e á ia do Subcomandan e Ma cos no seu p opósi o de “indianiza -se”.
Tal eseman ización polí ica de las p ác icas cul u ales indígenas, e elan la olun ad de Ma cos
de “indianiza se” o imp egna se de la sabidu ía popula del mundo maya a iculada en el Popol Vuh y en
la adición o al de los mayas, pa a pode aduci en sus esc i os el conocimien o cul u al indio y “hace
una especie de e lexión desde den o” de las injus icias su idas po los indígenas en “500 años de
luchas” con a sus op eso es […] la “mayización” o simbiosis de Ma cos con el mundo maya se
mani ies a de una o ma ex ual y con ex ual. En el plano li e a io se mani ies a en la c eación
in e ex ual de “el iejo An onio”, como su “al e ego” na a i o, que unciona como un pe sonaje
aduc o del mundo cul u al indio. Asimismo, en el plano his ó ico y polí ico, se mani ies a en la
capacidad del au o mexicano de ela a – desde su p oyec ada posición de in elec ual, e oluciona io e
indígena – los mi os y los sueños de jus icia social de los mayas y, en el p oceso, ecupe a la palab a
indígena con la in ención ideológica explici a de econs ui poé ica y polí icamen e la his o ia de siglos
de esis encia de las comunidades indias de Mesoamé ica
104
.
A impo ância do adu o , da igu a do Velho An onio, é, po an o, polí ica além de
poé ica. O “al e ego” do Subcomandan e Ma cos esponde às exigências do p oje o zapa is a
104
O ega, N. G. (2006). Rela os mágicos en cues ión: la cues ión de la palab a indígena, la esc i u a impe ial y las
na a i as o alizado as y disiden es de Hispanoamé ica. Pp. 236-237. Mad id: Ibe oame icana.
60
de ecupe ação da pala a esquecida e silenciada na eesc i a de uma his ó ia an i-hegemónica.
Na igu a do po a- oz indígena pe soni icam-se os es o ços de esga e e e alo ização de odos
os conhecimen os ances ais, as p á icas sociais, as lendas e as c enças que cons i uem o
uni e so maia que en a nos ex os zapa is as com a decla ada in enção de in adi não somen e
o campo li e á io, mas ambém o campo polí ico. An onio, símbolo de odos os esquecidos,
anscende, po an o, o me o campo li e á io pa a en a no campo polí ico e his ó ico. A
al e na i a an i-hegemónica p ocu ada pelos jo ens in elec uais ma xis as-leninis as encon a a
sua ealização no mundo dos excluídos pela his ó ia e pela polí ica o icial: o mundo maia,
o e ecendo-se como al e na i a ao sis ema dominan e, é po si só uma e olução.
Re olucioná ia é a li e a u a zapa is a, que nasce do encon o en e o Velho An onio e
o Subcomandan e Ma cos, uma li e a u a que aba e as on ei as o mais da li e a u a polí ica e
a i ma que um e olucioná io pode se ambém um poe a e um índio pode se e olucioná io e
poe a. O uni e so que se desencadeia do choque cul u al en e o mundo maia e a
apa en emen e inesgo á el o ça c ia i a do SUP é uma sábia coleção de mi os e lendas maias
adap adas aos obje i os insu gen es do EZLN, em que a linguagem do le ado encon a a
na a i a indígena e a sua o ma de pensa a ealidade e o sonho. A dimensão oní ica e
anscenden al assume uma impo ância p imá ia na c iação de paisagens e a mos e as su eais
que a o ecem a usão en e elemen os p o enien es de mundos di e en es den o do mesmo
plane a, mas odos com um p eciso alo poé ico e polí ico. Tomemos como exemplo os
ca acóis com que se pode ia desenha a p og essi idade do empo cíclico maia, que omam
o ma nos ela os do Velho An onio, inspi ados pelas hélices das umaças do ancião gua dião da
pala a:
Dicen aquí que los más an iguos dicen que o os más an e io es dije on que los más p ime os
de es as ie as enían ap ecio po la igu a del ca acol. Dicen que dicen que decían que el ca acol
ep esen a el en a se al co azón, que así le decían los más p ime os al conocimien o. Y dicen que dicen
que decían que el ca acol ambién ep esen a el sali del co azón pa a anda el mundo, que así llama on
los p ime os a la ida. Y no sólo, dicen que dicen que decían que con el ca acol se llamaba al colec i o
pa a que la palab a ue a de uno a o o y nacie a el acue do. Y ambién dicen que dicen que decían que
el ca acol e a ayuda pa a que el oído escucha a incluso la palab a más lejana. Eso dicen que dicen que
decían.
105
105
Ma cos, S. (2003, julho 24). Los zapa is as no se inden ni claudican: Ma cos. La Jo nada.
61
De aco do com O ega, os ca acóis desempenham múl iplas unções poé icas nes a
passagem:
- el desplazamien o (pa adigmá ico) de la palab a hacia el pasado;
- la imagen del ca acol como espi al que se en osca hacia aden o, lo cual simboliza el
conocimien o in e no, el sabe p o undo; y se desen osca hacia a ue a lo cual simboliza, po con as e, la
ida ex e na, el mundo;
- la comunicación del sabe cul u al de llama a consejo o asamblea a los miemb os de la
comunidad indígena con el in de ob ene “el acue do” colec i o;
- el ecogimien o (la ecupe ación) desde el pasado has a el p esen e de “la palab a más lejana”
de la memo ia cul u al de los mayas
106
.
Na análise de O ega emos como os ca acóis, não po acaso escolhidos pelo EZLN como
símbolos das egiões adminis a i as dos seus e i ó ios, desenham uma aje ó ia do campo
poé ico ao polí ico. Rep esen ando a ecupe ação da pala a dos an epassados, o mo imen o
en e o sabe in e no e o mundo ex e no, o a o do apelo ao colec i o pa a oma decisões,
ep esen ado pelas o mas e bais que desen oscam a espi al e ocando passados semp e mais
dis an es, os ca acóis desempenham di e en es unções poé icas e polí icas. Da unção poé ica
que êm pa a os an epassados, ans e e-se o oco pa a a unção polí ica, isada pelo
zapa ismo: des a o ma a dimensão li e á ia se e de base às ei indicações polí icas do EZLN.
A igu a do ca acol desc e e a es u u a dos con os do Velho An onio, que pa ilham
emas, o mas e a mos e as eco en es. O passado p imo dial é a paisagem da maio ia das
lendas nas quais encon amos as p imei as in enções dos deuses em c ia o mundo. Pa a
ep esen a a hélices do empo cíclico maia que se desen osca do p esen e na di eção de um
on em semp e mais longe, o na ado Ma cos/An onio u iliza o mas e bais no passado pa a
inicia os seus con os e le a o lei o in medias es à dimensão o iginá ia: “Hubo un iempo en el
que no había iempo. E a el iempo del inicio. E a como la mad ugada. No e a noche ni e a día”;
“Cuen an los iejos más iejos de los nues os, que los más p ime os dioses, los que nacie on el
mundo”; “En los iejos más iejos hablan los g andes dioses, noso os escuchamos”; “Muy al
p incipio de los mundos que luego camina on nues os más g andes abuelos”; “Cuando e an
106
O ega, N. G. (2006). Rela os mágicos en cues ión: la cues ión de la palab a indígena, la esc i u a impe ial y las
na a i as o alizado as y disiden es de Hispanoamé ica. Pp. 236-237. Mad id: Ibe oame icana.
62
muy mayo es los mayo es y los iejos del hoy”
107
.
A génese da na u eza é con ada como um p ocesso c ia i o cole i o em que as deidades,
humanizadas nos seus de ei os e ícios, en en am in e miná eis assembleias pa a decidi em
comunidade como esol e os p oblemas que se ão o mando, consag ando assim o i o do
“acue do”, base da democ acia maia. Sendo a c iação do mundo desc i a como um es o ço
a esanal, le ado à en e pelo conjun o dos deuses, an epassados dos homens e, po an o,
pa ecidos em mui os aspe os com os se es humanos, es a ap esen a á ias di iculdades écnicas
e eó icas que as di indades esol em com o os e decisões cole i as.
Encon amos assim epe idas ezes as pala as “aco do” e “assembleia”, u ilizadas pa a
legi ima as p á icas sociais e polí icas dos po os maias, c iando um pa alelo com o mundo
di ino: “saca on acue do que pa a mo e se p ime o se mue e el uno y luego se mue e el
o o...”; “Y en onces los dioses saca on acue do de pone se a soña jun os y llegó en el acue do
de su co azón de soña la luz y la ie a soña ”; “Cuando el mundo do mía y no se que ía
despe a , los g andes dioses hicie on su asamblea pa a oma los acue dos de los abajos y
en onces oma on acue do de hace el mundo...”
108
. A eco ência do ema da assembleia e do
a o de aze aco dos em cole i o anscende da dimensão mí ica pa a a legi imação do p oje o
polí ico insu gen e baseado na isão maia (e ojolabal em pa icula ) de democ acia como
“ín e subje i idad de lajan lajan ‘ay ik” exp essão ojolabal aduzí el com “Somos iguales;
odos somos suje os; se necesi a la oz de cada uno pa a que se log e el consenso álido”
109
.
A ausência da o dem c onológica nas na a i as e oca a dimensão mnemónica e oní ica,
na qual os acon ecimen os se sucedem de uma o ma apa en emen e con usa. O sonho adqui e
uma unção e elado a de p imá ia impo ância no p oje o poé ico e polí ico do au o . O a o de
sonha ans o ma-se num es o ço e olucioná io, num mundo em que a acionalidade domina
a ealidade. A o ça c ia i a do sonho é exal ada nas his ó ias do Velho An onio, es emunha da
impo ância que os po os maias a ibuem à dimensão oní ica, conside ada pa e in eg an e e
de e minan e da e dade: “Po los sueños nos hablan y enseñan los dioses p ime os. El homb e
que no se sabe soña muy solo se queda y esconde su igno ancia en el miedo”; “en el mundo de
los diosesp ime os, los que o ma on elmundo, odo es sueño”. Na cosmo isão maia os
sonhos são o pon o de con ac o en e as deidades e os se es humanos, as mensagens que os
107
Ma cos, S. Los O os Cuen os. Vol. 2. Buenos Ai es: Red de solida iedad con Chiapas. Disponí el em
www. edchiapas.o g
108
Ibidem.
109
Lenke sdo , C. (1996). Los homb es e dade os. Voces y es imonios ojolabales. México: Siglo XXI, UNAM.

63
deuses en iam aos homens pa a e ela a ealidade. A ausência é, po an o, is a como uma
alha, uma igno ância pelos indígenas, como es emunha o diálogo en e An onio e Ma cos em
que o Subcomandan e a i ma não e sonhado nada e o indígena esponde, con a iado:
Malo en onces —dice el iejo— Soñando se sueña y se conoce. Soñando se sabe (...) La his o ia
que e oy a con a no me la con ó nadie. Bueno me la con ó mi abuelo pe o él me ad i ió que sólo la
en ende ía cuando la soña a. Así que e cuen o la his o ia que soñé y no la que me con ó mi abuelo
110
.
Fon es de conhecimen o e sabedo ia, os sonhos assumem uma p imá ia unção polí ica.
Inspi ado no concei o de u opia, Ma cos aça um pa alelo en e o a o de sonha e a dimensão
insu gen e. Sonha é lu a , é um a o e olucioná io que pe mi e imagina e cons ui no os
mundos, ecupe a o elo com os an epassados e ou i a pala a silenciada pela iolência da
explo ação colonial: en im, sonha é esis i . As e e ências ao mondo oní ico ap esen am-se
ambém como um apelo ao po o mexicano pa a despe a do ado mecimen o a que es á
sujei o. Na passagem “Sueña An onio”, po exemplo, o sonho é ap esen ado como b uxa ia
índia, a a és da qual os desejos de igualdade e e a dos indígenas pe seguem os sonos do
ice- ei. O ex o acaba com um p o é ico e isioná io: “En es e país odos sueñan. Ya llega la
ho a de despe a …”
111
O p oje o insu gen e de Ma cos oma o ma nas pala as e nos sonhos
u ópicos de An onio. De aco do com O ega:
Po medio de la denuncia de la explo ación de los indios que p o oca el g i o de An onio pa a
“despe a el pueblo”, Ma cos anuncia su u opía polí ica: el nacimien o del “homb e nue o” maya. Y po
el hecho mismo de p oclama su u opía de homb e-nue o, como un ac o polí ico y poé ico, de denuncia-
anuncio, Ma cos log a en el siglo XXI da un nue o signi icado polí ico ( eseman iza ) la an igua p o ecía
anunciada en el Popol Vuh: “ha llegado el iempo del amanece , de que se e mine la ob a y que
apa ezcan los que nos han de sus en a y nu i , los hijos escla ecidos, los asallos ci ilizados; que
apa ezca el homb e, la humanidad sob e la supe icie de la ie a.
112
O uni e so na a i o zapa is a é, po an o, um mundo de deuses, sonhos, memó ias e
aco dos cole i os, em que a cosmo isão maia é p o agonis a. A a és da igu a do An onio, o
110
Ma cos, S. (1998). Rela os del Viejo An onio. p. 77. México: Cen o de In o mación y Análisis de Chiapas.
111
Ma cos, S. Los O os Cuen os. Vol. 2. Buenos Ai es: Red de solida iedad con Chiapas. Disponí el em
www. edchiapas.o g
112
O ega, N. G. (2006). Rela os mágicos en cues ión: la cues ión de la palab a indígena, la esc i u a impe ial y las
na a i as o alizado as y disiden es de Hispanoamé ica. P. 231. Mad id: Ibe oame icana.
64
adu o , po a- oz da memó ia cole i a dos po os indígenas, Ma cos ecupe a a pala a dos
an epassados, a ibuindo uma no a dimensão às isões e a mos e as do cosmos maia: a
dimensão insu gen e. A o ça poé ica dos símbolos maias é ans o mada pelo au o em
ino ação polí ica e ap esen ada como al e na i a à hegemonia da na a i a dominan e,
o nando a ecupe ação da pala a an iga no oco cen al do le an amen o zapa is a. Na sín ese
de esc i a e o alidade, de es a égias e olucioná ias e lendas e iológicas, Ma cos cons ói a sua
na a i a com o sábio p ocedimen o de composição desc i o po O ega:
Ma cos (in e mediá io le ado esponsable de la esc i u a de la adición o al), delega en el
iejo An onio (pe sonaje- na ado ) la selección y na ación de los an iguos mi os de c eación del mundo
y del homb e a iculados en el Popol Vuh ( ex o esc i o) y en la adición cul u al ( ex o o al) de las
comunidades mayas; el iejo An onio, po su pa e, en iquece los ela os con la expe iencia de su ida
co idiana de indio, campesino y gue ille o ( ex o social) y los inco po a como in e ex os en los
comunicados de Ma cos, donde eapa ecen (se eseman izan) en o ma de exempla e oluciona ia
113
.
A igu a de Ma cos/An onio apa ece, assim, como o o ali o que joga com as on ei as
o mais da esc i a e da o alidade, jun ando elemen os p o enien es de mundos di e en es, o
“sábio ancião con ado de his ó ias que, en e o i ual de en ola o umo e da agadas no
abaco, e ela nas nu ens da umaça os ensinamen os ances ais com a magia da oz e da
pala a, esga ando o elo en e o passado – desde os empos da c iação do mundo e de odas
as coisas – e o p esen e”
114
. A a és do An onio, “na ado li e a iamen e e osímil y
con incen e”, Ma cos:
inco po a ex ualmen e, en o ma de na ación enma cada, mi os de o igen y an iguas p ac icas
sociocul u ales mayas [...] y ealiza una es ilización na a i a del habla de los mayas de aye y de hoy con
el in de do a el discu so indígena de una calidad li e a ia y de una dimensión insu gen e
115
.
An onio é a conexão en e o EZLN e o seu passado indígena, anulado pela iloso ia
ociden al o alizado a, cuja ecupe ação es á na base do p ocesso e olucioná io. O Popol Vuh,
li o sag ado dos maya k'iche' (maia quiche), exp essão da cosmo isão maia, o na-se a a ma
simbólica dos sem os o, dos úl imos, dos subal e nos, os esquecidos pela his ó ia o icial, que
113
Ibidem, p. 235
114
Hilsenbeck Filho, A. (2013). Li e a u a e Resis ência: a pala a a mada zapa is a. Re is a Communica e, Vol. 13, n.°2,
p. 85.
115
O ega, N. G. (2006). Rela os mágicos en cues ión: la cues ión de la palab a indígena, la esc i u a impe ial y las
na a i as o alizado as y disiden es de Hispanoamé ica. P. 237. Mad id: Ibe oame icana.
65
pe mi e a Ma cos:
eseman iza en sus in o mes insu gen es y na aciones iccionales las nue as y an iguas adiciones
indígenas, españolas e hispanoame icanas, ansponiendo así a sus esc i os la in ención ideológica de
ansmi i al in elec ual occiden al, al indígena de Hispanoamé ica y al gue ille o de Chiapas su polí ica
de democ acia, libe ad y jus icia, su poé ica inspi ado a de lo mul icul u al y su u opía libe ado a de
igualdad social con “el o o”
116
.
As a mos e as, as pe sonagens, a cosmo isão maia em ge al e a sua manei a de
ep esen a a elação en e homem e na u eza undam a poé ica insu gen e do
Subcomandan e, que ece engenhosamen e a ela do seu discu so e olucioná io indianizado. A
ecupe ação da emo a pala a dos an epassados esul a, nes e sen ido, numa escolha não
somen e poé ica, mas sob e udo polí ica, enquan o p opos a an i-hegemónica. G aças ao
sapien e abalho li e á io de e alo ização da na a i a o al indígena e de usão de elemen os
es ilís icos e e ó icos do mundo mesoame icano, da his ó ia da li e a u a mundial e do discu so
insu gen e das gue ilhas, Ma cos/An onio, ao mesmo empo gue ilhei o, indígena e
in elec ual, conseguiu do a o zapa ismo da linguagem plu al e dinâmica que lhe pe mi iu a ai
o in e esse in e nacional, ao qual o EZLN de e pa e da sua esis ência. Embo a o cas elhano
seja a língua escolhida pelos zapa is as po a iadas azões, quase impos as, en e as quais a
abe u a ao mundo que pe mi e quando compa ado com as línguas indígenas de Chiapas e a
maio acilidade de diálogo com o go e no des ina á io dos pedidos do EZLN, a linguagem
zapa is a esul a numa das maio es in enções do mo imen o e numa das suas maio es a mas,
jun ando os indígenas chiapanecos aos ou os po os o iginá ios do subcon inen e la ino-
ame icano e à sociedade ci il do mundo in ei o. O p óp io Ma cos econhece à linguagem uma
impo ância undamen al na lu a insu gen e zapa is a:
Y en buena pa e el u u o del zapa ismo es á en el lenguaje. No quie o deci que el zapa ismo
a a desapa ece , pe o su u u o y su quehace ienen que e mucho con el quehace de su lenguaje.
Según sea el u u o de su palab a, se á el u u o del EZLN. No, no el EZLN, del zapa ismo, que hoy es
mucho más amplio
117
.
Ap o ei ando a língua dos colonizado es e a pala a esc i a, os po os maia do sudes e
116
Ibidem, p. 239.
117
Gelman, J. (2011). En e is a do subcomandan e Ma cos. In J. Gelman, Ch oniques de Chiapas (p. 7). L’a inoi .
66
mexicano consegui am ans o ma o le an amen o “ inissecula ” de 1994 numa das maio es
e oluções mode nas sob á ios pon os de is a. O zapa ismo, que como a i ma o
Subcomandan e é mui o mais amplo do que o me o EZLN, ep esen a pa a o mundo uma
e olução eó ica, poé ica e polí ica po que mudou os pa adigmas das e oluções, ompendo
com o passado dos mo imen os gue ilhei os da esque da la ino-ame icana. G aças à
componen e indígena, que se oi e igo ando nos úl imos anos, o discu so do EZLN oi
abso endo ine i a elmen e a cul u a indígena e a cosmo isão maia que unda a sua isão do
mundo e a sua a i ude pe an e a ida. O “Ya bas a” assumiu uma impo ância inespe ada po
mui os po que oi capaz de ge a uma o ça dinâmica e c ia i a, que pa a os gue ilhei os já
es a a p esen e, mas que se e elou à sociedade ci il só apenas na mad ugada de 1 de janei o
de 1994.
A as ando-se da o odoxia ma xis a-leninis a ociden al e encon ando a sua ealização
na sín ese en e as suas á ias componen es e e en es, o zapa ismo ep esen a uma oz
undamen al pa a as subal e nidades do mundo in ei o, um mo imen o em comunicação com
odos os excluídos e que encon a uma das suas maio es ino ações na a i ude pe an e os
p oblemas, ap esen ando-se como pe gun a e não como espos a. Não peca pela alsa
humildade ou me a e ó ica quando a i ma que de ás dos seus passa-mon anhas es ão odos
os esquecidos pela his ó ia, po que é p ecisamen e es e o seu g ande mé i o: e dado a oz aos
úl imos. A ecupe ação da pala a indígena, silenciada pelo aniquilamen o cul u al do sis ema
colonial, é a solução polí ica pa a a c iação do mundo plu al das co es, o mundo “donde quepan
muchos mundos”, al e na i a an i-hegemónica a es e mundo onde o neolibe alismo des ói e
anula odas as di e sidades, ans o mando-nos a odos em me os consumido es, pu os
núme os nos es udos económicos.
Le an ados em a mas po necessidade e po dignidade, soldados que lu am pa a que
não exis am mais soldados, masca ando o os o pa a se em is os, g i ando pa a se inalmen e
ou idos, apos ando o p esen e pa a e u u o, os indígenas chiapanecos consegui am jun a as
esis ências secula es de odos os que pa ilham as mesmas básicas e p ima ias exigências,
negadas pelo sis ema dominan e: abajo, ie a, echo, alimen ación, salud, educación,
independencia, libe ad, democ acia, jus icia e paz. Não podemos p e e o que acon ece á aos
indígenas de Chiapas e mui o menos aos esquecidos do mundo in ei o, mas o zapa ismo
alcançou um esul ado impo an íssimo, pa a mui os inespe ado e pa a mui os emido, ou seja,
plan a e espalha pelo plane a semen es de esis ência das quais con inua á a lo esce uma
73
4.2. “Se ha despe ado el a e de mi co azón”
128
Nascidos en e os anos 1950 e os anos 1970, a p imei a ge ação de poe as e poe isas
mapuches, ez a sua apa ição a pa i da publicação da p imei a ob a de Elicu a Chihuaila El
in ie no y su imagen” em 1977. Elicu a não oi o p imei o a esc e e poemas bilingues em
mapudungún e cas elhano: au o es como Sebas ián Quepul, José San os Lincomán Inaicheo e
Anselmo Raguileo Lincopil já inham compos o as suas ob as quando Chihuaila começou a
publica li os, mas é a ge ação de Elicu a que se dedica com maio cons ância à c iação da
poesia mapuche con empo ânea. Os úl imos anos da década de oi en a e odas as décadas
sucessi as êem a publicação de um c escen e núme o de ob as e an ologias de poesia
mapuche a a és dos que pode íamos chama de c iado es da o ali u a mapuche, jun amen e
com Elicu a Chihuaila : Leonel Lienla , G aciela Huinao, Ma ia Te esa Panchillo, Ad iana Pa edes
Pinda, Jaime Huenún e Be na do Colípan, en e ou os.
Embo a Chihuaila enha publicado li os já a pa i de 1977, al ez 1989 seja o ano mais
impo an e pa a a li e a u a mapuche con empo ânea. Nes e ano apa ece o p imei o poema de
G aciela Huinao “la Loika”, ex emamen e ep esen a i o do sen i dos au o es mapuches:
¿Po qué can a la loika?
Si le han co ado el á bol
donde solía can a .
Tend á que busca uno nue o,
can ando se a.
¿Po qué can a la loika?
Si le han obado la ie a
donde iba a anida .
Tend á que busca ie as nue as,
can ando se a.
¿Po qué can a la loika
Si no le dejan migajas
pa a come ,
po que el u o de sus bosques
se los oba on en un amanece ,
la loika can a po no come .
¿Loika po qué can as,
128
Lienla , L. (1989). Se ha despe ado el a e de mi co azón: poema io bilingüe. San iago: Edi o ial Uni e si a ia.

74
sólo po ina ?
- Can o po mi á bol, migajas, ie as,
po lo que ue mío aye .
- Can o po la pena de pe de lo...
Y po que loika... un día,
un día se pe de án
129
A loika é uma a e ípico do Cone Sul e especialmen e dos bosques do Chile, econhecí el
po uma g ande mancha e melha no pei o e pelo seu can o ha monioso. À loika, o iginá ia das
imensas lo es as das egiões cen o-me idionais de Chile, o am oubadas as á o es, as e as,
a comida, deixando-a somen e com o seu can o. Iden i icando-se no pássa o, a poe isa,
espoliada da sua cul u a e das suas e as, on e de ida e sus en o, pe gun a-se pa a quê
can a . Po que can a a loika se já não em a sua á o e e o seu mundo ha monioso? Po que
de e ia can a o mapuche se já não em se não o seu passado ances al? A espos a es á na
memó ia: can a a a e, lemb ando do que oi, can a o mapuche encon ando na memó ia o seu
elo com os an epassados. A poe isa, a e que az das suas penas o ins umen o pa a o seu can o,
indi idualiza na memó ia a es a égia con a o esquecimen o da sua cul u a: can a pa a não
pe de . O poema de Huinao em odos os elemen os que se ão cen ais na poesia mapuche
con empo ânea: o can o como encon o en e o alidade e a esc i a, ep esen ação do
casamen o en e a pala a ances al e a no a pala a dos o ali o es, a sob eposição en e se
humano e a na u eza na igu a da loika, a ei indicação da p óp ia cul u a silenciada e das
p óp ias e as usu padas e o ema da memó ia como es a égia de esis ência.
De ido à impo ância p ima ia que o ül, o can o, desen ol e na cul u a mapuche, as a es
passam a se os animais p edile os pa a os poe as se iden i ica em. Como o pássa o, o poe a
can a as suas penas p esen es e as suas aleg ias passadas. Tes emunha des a união en e o
mundo o ni ológico e o sen i dos au o es mapuches é a ob a de Leonel Lienla Se ha
despe ado el a e de mi co azón, publicada no mesmo ano do poema de Huinao, 1989, ano
cha e pela p odução poé ica mapuche. Poemá io bilingue, o abalho de Lienla con ém
poemas que ei e am os elemen os es ilís icos e poé icos da o ali u a mapuche. O can o é a
o ma com a qual o poe a en a em con ac o com o seu passado ances al e com a na u eza, na
qual o homem se ans o ma me a ó ica e isicamen e, como acon ece no poema
“T ans o mación”. A o ali u a é o caminho in e médio en e o ül, a pala a dos an epassados e a
129
Huinao, G. (1989). La loika. Consul ado no dia 2 de ou ub o de 2019 em
h ps://chileanga den.blogspo .com/2016/02/la-loika-g aciela-huinao.h ml
75
esc i a impos a pelos colonizado es, mas da qual os o ali o es se ap op iam. O can o é o meio
que ab e a po a ao mundo oní ico da memó ia, dimensão da pleni ude do se mapuche; o
encon o com o p óp io passado é consolação ace às injus iças do empo p esen e. A pa i da
o ali u a, Lienla cons ói uma c í ica à imposição da esc i a, que encon a a sua ealização na
u opia do ex o o al, concebido como um ex o-kul un. O ex o lui ao i mo do kul un, o
ambo ce imonial mapuche, ans o mando os poemas em i os, ngilla un (a ce imonia ípica
mapuche) e, consequen emen e, o poe a em xamã, que e oca o complexo uni e so mapuche
nas suas pala as:
Se ha despe ado el a e de mi co azón
Ex endió sus alas
y se lle ó mis sueños pa a ab aza
la ie a
130
.
A a e do co ação é o espí i o que une a alma do au o ao uni e so, e es a união le a os
peuma, os sonhos do poe a- xamã, a é à sua e a e ao seu po o, onde ele encon a á a
ealização des a iagem en e di e en es ní eis de exis ência, anscendendo o mundo eal e
ele ando-se ao cosmos mapuche. Os sonhos, elemen os cen ais na poé ica mapuche,
ep esen am, assim como a memó ia, a junção do se p esen e com o seu passado ances al e a
ealização das u opias do po o mapuche, a econs ução da época p é-colonial, empo em que
os mapuches es a am li es de odas as oposições dos winkas, os não mapuches. Esc e e
Ca asco Muñoz:
Lo que el poe a quisie a es exac amen e econs i ui ese mundo a pa i de sus p incipios
ideales, en oposición abie a y es ic a al mundo winka de hoy con odas sus impe ecciones. Y uno de
los é minos cla es de es a oposición es la dico omía esc i u a/o alidad. El mundo winka es á ma cado
po la esc i u a, que signi ica y simboliza lo a i icial, lo inadecuado, lo ajeno, mien as que el mundo
mapuche de los ances os, ma cado a su ez po el é mino o al, se co esponde con los p incipios
con a ios a aquéllos
131
.
Rep esen ando o mundo winka odas as impe eições do p esen e, a cons ução da
u opia mapuche exal a odos os elemen os con á ios à cul u a dominan e. Se a esc i a, impos a
130
Lienla , L. (1989). Se ha despe ado el a e de mi co azón: poema io bilingüe. San iago: Edi o ial Uni e si a ia.
131
Ca asco Muñoz, H. (2002). Rasgos iden ida ios de la poesía mapuche ac ual. Re is a Chilena de li e a u a. N.° 61.
San iago: Facul ad de Filoso ía y Humanidades, Depa amen o de Li e a u a, Uni e sidad de Chile.
76
pelo mundo ociden al, ep esen a o a i icial, alheio à cul u a mapuche, a eap op iação poé ica
e polí ica do e i ó io li e á io e ísico ances al não pode passa pela alo ização da o alidade e
pela ecusa da pala a esc i a. É p ecisamen e dis o que a a o poema “Rebelión”, no qual o
au o ala da a i icialidade do a o da esc i a em si:
Mis manos no quisie on esc ibi
las palab as
de un p o eso iejo.
Mi mano se negó a esc ibi
aquello que no me pe enecía.
Me dijo:
“debes se el silencio que nace”
Mi mano
me dijo que el mundo
no se podía esc ibi
132
.
As mãos do a is a que se negam a esc e e as pala as do p o esso ep esen am o
espí i o mapuche, que se nega a acei a a a i icialidade impos a pela cul u a winka. A esc i a é
o símbolo do pode colonial en ando aniquila a cul u a mapuche: o au o , po an o, c ia um
pa adoxo u ilizando a pala a esc i a, mas a ibuindo-lhe um no o signi icado que oge às
lógicas winkas. O mundo ideal mapuche de silêncio e con i ência ha moniosa com a na u eza,
con ado na o alidade, é con apos o ao mundo ociden al, a i icial, uidoso, caó ico e azio que
a esc i a le a consigo.
Lienla não é o único a insis i na dico omia esc i a/o alidade pa a ep esen a o
con as e en e a cul u a indígena e a ociden al. Jaime Luis Huenún, ou o g ande exponen e da
“escola” de poesia con empo ânea mapuche, cons ói um diálogo en e o seu eu e o li o:
de palab as que no saben oda ía ni
siquie a balbucea .
Sólo puedo lee al lado de O o,
sólo jun o a los conjun os o os de u
mad e,
sólo soli a io pe o nunca solo,
132
Lienla , L. (1989). Rebelión. In L. Lienla , Se ha despe ado el a e de mi co azón: poema io bilingüe. San iago:
Edi o ial Uni e si a ia.
77
mal lad ón de la blancu a de las Páginas.
Sólo puedo lee e jun ando las le as
al pie de un í ulo de un poema de Tu Fu.
Sólo puedo u aíz alsa, huenún
jaime luis, homb e
o duende po iado o malo de la cabeza,
sólo puedo lee la mi ad
del ai e que e hace iejo,
la o a mi ad la ganas
con el sudo de us ojos
y aquellono iene explicación en mi
al abe o
133
.
Pa a o au o o li o é limi an e, não podendo exp essa a pleni ude do poe a mapuche.
O poema es á eple o de pala as o es que e ocam uma ce a do , um sen ido de não
adequação, um quase as idioso exis encial pe an e o ins umen o li o, capaz de da oz
somen e a uma me ade do au o , a pa e “con aminada” pela sociedade winka. É somen e ao
lado do “Ou o” que o li o pode se deci ado, somen e g aças à do da mãe do poe a o li o se
e ela ao au o . O signi icado é mui o mais p o undo do que pode ia pa ece : somen e a cus o
da imensa do que a colonização p o oca nos colonizados, eles conseguem acede ao li o,
símbolo da pala a esc i a. A esc i a, po an o, incapaz de aduzi plenamen e o sen i do
au o , mas nem po isso inú il pa a as in enções do mesmo, le a consigo as iolências e as do es
que a e a, mãe do poe a, so eu. O desdob amen o do au o , ap esen ado no poema em duas
me ades, ep esen a cla amen e o duplo sen i linguís ico do mesmo, pon e en e duas
cul u as, simbolizado pela página dos poemá ios mapuches, di idida em duas colunas com o
ex o espe i amen e em mapudungún e em cas elhano. P ecisamen e como a página, o poe a
es á di idido en e dois mundos, duas línguas, das quais, po ém, só uma iden i ica plenamen e
o au o , como es emunha o e so que echa o poema: “no iene explicación en mi al abe o”.
A iolência da imposição da esc i a é abo dada ambém po ou a g ande poe isa
mapuche, Ad iana Pa edes Pinda na sua ob a Üi, publicada em 2005. No poema “Memo ia”,
Pa edes Pinda e oca as paisagens das suas e as, chamando a oz dos an epassados que os
mapuches ac edi am p esen es na na u eza. A e lexão inal e oma a ques ão da pala a
133
Huenún, J. L. (2011). Lib o. In Anonimo, Selección de ex os de poesia mapuche - pano ama de la li e a u a hispano-
ame icana (p. 7). Chile: ILLI 260.
78
esc i a:
La piel
del mapuche iene la esc i u a.
Me ue on dadas las palab as
como olcán que a de y sang a. Memo ia
de al abe os no ap endidos.
Deso a on los pezones del iempo,
é iles ue on las ie as has a el amanece
cuando supe
que no e a mi mano la esc i u a
134
.
O empo passado dos e bos emon a a uma dimensão ances al in ocada g aças à o ça
da memó ia, mais uma ez celeb ada pela poé ica mapuche pelo seu pode de le a o au o ao
mundo ideal da ances alidade. A esc i a ompe o edílico in ocado pela memó ia: as pala as
são ep esen adas como chamas que saem do ulcão sem que a poe isa consiga e i á-las. Como
as ca ás o es na u ais, a esc i a oi uma imposição que não deixou escolha ao po o mapuche,
imposição con a a qual os poe as lu am, “memo ia de al abe os no ap endidos”. Mais uma ez
encon amos a ep esen ação da esc i a como algo a i icial pa a os mapuches. As pala as
dadas, ou seja, impos as, ou seja, a esc i a, não são pa a Pa edes Pinda senão chamas que
a dem na pele a é o momen o de a poe isa pe cebe que a pala a esc i a não é a sua mão, ou
seja, a sua manei a de se exp essa . Depois de oma consciência da p óp ia iden idade o al as
chamas ans o mam-se em cinza que e ilizam a e a: a esc i a, quando não impos a, mas
escolhida e abalhada den o da p óp ia cul u a, ans o ma-se numa pode osa a ma pa a a
ida.
É a ejeição da esc i a enquan o imposição eu opeia e a alo ização da o alidade, cen al
na cul u a mapuche, a base do p oje o de o ali u a que Chihuaila eo iza e que de ce a o ma
odos os au o es mapuches espei am. A o ali u a é o único meio que pe mi e aos poe as
mapuches exp essa em o seu p óp io sen i , li emen e e em pleni ude, po que é na o ali u a
que se undem elemen os da pala a o al dos an epassados, como a memó ia como eículo
poé ico, a linguagem da na u eza, o mundo dos sonhos que as dig essões do discu so o al
podem e oca e as ca a e ís icas da esc i a que pe mi em in adi o campo li e á io. A
134
Pa edes Pinda, A. (2011). Memo ia. In Anonimo, Selección de ex os de poesia mapuche - pano ama de la li e a u a
hispano-ame icana (p. 13). Chile: ILLI 260.

79
ap op iação da esc i a e a sua aplicação aos elemen os ípicos da cul u a mapuche cons i uem a
e olução poé ica do p oje o dos o ali o es, e lexo das ei indicações polí icas que
acompanham as ob as dos au o es. Como no caso zapa is a, a o ça poé ica da pala a dos
an epassados é o p imei o ijolo do p oje o de ea i mação cul u al e eap op iação e i o ial:
eesc e e a his ó ia, ecupe ando o passado silenciado, pa a esc e e um u u o.
4.3. “He azulado un poco la poesía mapuche”
135
Filho da A aucanía, Elicu a Chihuaila é sem du ida um dos mais impo an es au o es
mapuches, em pa e ambém de ido ao seu incansá el abalho de di usão do mapudungún e
da cul u a mapuche, como es emunham os á ios encon os de poe as mapuches e indígenas
que o ganizou e as inúme as en e is as que concedeu pa a ala do seu con ex o cul u al.
Elicu a é o eo izado do concei o de o ali u a, e abalhou jun amen e com ou os au o es
mapuches e de ou as e nias indígenas espalhadas pelo subcon inen e la ino-ame icano como
F edy Chikangana e Jo ge Cocom Pech. Como imos, Chihuaila publicou o seu p imei o li o, El
in ie no y su imagen, em 1977, p ecedendo os abalhos de Huinao, Lienla e Huenún. A
consag ação do poe a, po ém, chegou com a sua qua a ob a, De sueños azules y con asueños,
p emiada em 1994 pelo Consejo Nacional del Lib o y la lec u a e publicada em 1995. Es e
abalho é conside ado po mui os a ob a-p ima do poe a e ep esen a uma das ob as mais
in luen es da li e a u a mapuche. Nela podemos encon a e sos com odas as eo ias e as
suges ões que o poe a explica nas en e is as, bem como odas as a mos e as e elemen os
es é icos e poé icos ípicos da p odução mapuche. Chihuaila é o au o mapuche que se dedicou
com mais cons ância e empenho à de inição do p oje o poé ico de o ali u a, enquan o
in e mediá io en e os au o es indígenas e a esc i a, como pon e en e o mundo o al indígena e
o mundo ociden al “le ado”. O pon o de is a do o ali o ganha impo ância ambém g aças à
dupla pe spe i a de que dispõe e que lhe pe mi e ap oxima as duas cul u as.
En la his o ia uni e sal odo comenzó en la o alidad, se ol ida que la amosa Ilíada y Odisea
ue on ex os o ales. Aquí debo abo da el hecho de cómo pa e pa a mí el concep o de li e a u a y es en
el momen o en que omo conciencia de es o y mi o hacia a ás, cuando asumo la aho a llamada po mí,
«o ali u a»,
135
Chihuaila , E. (1999). Los chilenos son como niños mal c iados. In Y. González, Hé oes ci iles & San os laicos. Palab a
y pe i e ia: ece en e is as a esc i o es del Su de Chile (pp.65-89). Valdi ia: Ediciones Ba ba de Palo.
80
Y uel o mi mi ada hacia la in ancia, ya que cons i uye el núcleo undamen al de mi esc i u a,
de mi memo ia, en de ini i a. Es o basado en el hecho de que, pa a mí, las mayo es in luencias pa a
cons ui es a «o ali u a», las eje cen aquellos c eado es que e an pa e de mi amilia, íos y conocidos
con los cuales compa imos en el ogón
136
.
A o ali u a, nas pala as de Elicu a, não é uma c iação do au o , mas uma a i ude ace à
esc i a que, de ac o, odos os po os já i e am, mas que em alguns casos oi pe dida. Mais do
que um p oje o, a o ali u a, ap esen a-se como uma o ma ine i á el de se ap oxima de um
meio alheio, a esc i a, a pa i de uma base cul u al o al, uma o ma de c iação a ís ica
independen e do a is a po que inse ida no con ex o cul u al do mesmo:
Es una o ma de abo da la c eación, que es á de e minada po –y siendo a la ez- una e apa
his ó ica en la que se encuen a la esc i u a en el mundo indígena en gene al y mapuche en pa icula .
Es e p oceso se ha dado de igual mane a en odas las cul u as: o alidad, o ali u a y esc i u a (li e a u a).
Y es el ayec o indi idual pe manen e y co idiano en oda cul u a hoy. La o ali u a es esc ibi a o illas de
la o alidad, a o illas del pensamien o de nues os mayo es y, a a és de ellos, de nues os an epasados.
Se habla/esc ibe en p ime a pe sona. Así lo i í/escuché, así lo es oy i iendo/escuchando: me digo, me
dicen, me es án diciendo, me di án, me dije on. Todo ello b o ando desde una concepción de iempo
ci cula : somos p esen e po que somos pasado ( enemos memo ia) y po eso somos u u o. La o alidad
sin exclusión, la in eg idad sin agmen ación de la ida y de odo lo i ien e.Las c eaciones de los
o ali o es son como sueños cuyos signi icado y musicalidad se an desci ando y co obo ando sin p isa
an e nues os o os/o as, a modo de con e sación, como una o ma de ida de la que no nos podemos
exclui . Po eso, una ez que pasan a la esc i u a, siemp e son ex os no concluidos
137
.
A o ali u a, explica Chihuaila , é uma o ma de abo da a c iação comum ao mundo
indígena, po que ep esen a a esc i a ao lado da o alidade ípica da pala a dos an epassados,
elemen o undamen al da cosmo isão da maio ia dos po os indígenas. Da impo ância p imá ia
da pala a o al como o ma de ansmissão de cul u a pa a os po os o iginá ios nasce uma
manei a de esc e e que não pode senão se di e en e da esc i a ociden al, na qual o génio do
a is a é o único p o agonis a do p ocesso c ia i o. O o ali o é sim c iado , mas sob e udo
adu o da pala a da comunidade, dos ela os mí icos, do passado que o ma o p esen e pa a
a icula em jun os o u u o. A e lexão sob e o alidade e esc i a é um dos maio es con ibu os
136
Ibidem, p.66.
137
Oso io, J. Los mapuche con inuamos con nues os sueños – en e is a a Elicu a Chihuaila . Consul ada no dia 2 de
ou ub o de 2019 em h p://www.mapuche.in o/news/siglo030812.h ml
81
que Elicu a o e eceu aos es udiosos da p odução li e á ia indígena, não se limi ando à ealidade
mapuche:
La «o ali u a» la conside o undamen almen e pa a desc ibi el eje cicio c ea i o de los dis in os
segmen os que exis en en la li e a u a mapuche e indígena, pe o undamen almen e los segmen os que
es án en la uen e y aquellos que han es ado en la uen e y luego han ido a la ciudad y an y ienen
en e esos mundos. El «o ali o » a con un mundo que apa en emen e, pa a muchos, puede pa ece
occiden al, pe o habla de un mundo absolu amen e mapuche, po que la in ancia es
undamen al en cualquie cul u a, es lo que de ine u mane a de mi a el mundo. Es como un
chileno
que nace o i e en el exilio. Noso os ambién su imos una o ma de exilio, ya que salimos de
nues a comunidad y uimos a la ciudad, au oexiliados o exiliados en nues o p opio e i o io, que es la
pa adoja
138
.
Embo a o a o da esc i a possa pa ece liga , indissolu elmen e, o esc i o indígena ao
mundo ociden al, a análise é mui o mais p o unda: o o ali o ala a pa i da pe spe i a da sua
memó ia indi idual, onde en a a biog a ia do au o , mas ambém a pa i da memó ia cole i a
da comunidade. No caso de Elicu a a memó ia indi idual ala de uma in ância ansco ida
den o da comunidade, odeado da pala a dos an epassados que de e minou a sua isão do
mundo. A indi idualidade sucede à cole i idade pa a o ma os meios de o poe a en ende a
ealidade. A sín ese dos dois mundos p esen es den o da alma e da memó ia do poe a não
p e ê a anulação de um dos dois, is o é, a in eg ação de elemen os ociden ais, como a esc i a,
não o na Elicu a “menos mapuche”, an es e igo a a sua ob a, em que o mundo desc i o é o
seu cosmos de isões e lemb anças con adas pelos seus amilia es:
Pe o es á explíci o en cómo ú omas las memo ias de los an epasados pa a si ua las en u
expe iencia de ida pa a p oyec a el u u o, con odos los cambios que eso implica. Aquí ambién en a
el sen ido de «mode nización», cuyo mejo ejemplo es á en Lau a o. El hecho de ap opia se de los
elemen os que nos pueden se i y da les el ono que iene que e con nues o p opio espí i u, ese
diálogo que iene que e con el espí i u y el co azón, es el lenguaje de la cul u a
139
.
O poe a é como Lau a o, que se ap op ia das a mas dos colonizado es pa a ol a às
138
Chihuaila , E. (1999). Los chilenos son como niños mal c iados. In Y. González, Hé oes ci iles & San os laicos. Palab a
y pe i e ia: ece en e is as a esc i o es del Su de Chile (pp.65-89). Valdi ia: Ediciones Ba ba de Palo.
139
Ibidem, p.68.
82
suas e as e o e ecê-las ao seu po o na lu a con a os in aso es. A esc i a, imposição dos
eu opeus, o e ece an agens que os esc i o es indígenas ap ende am sabiamen e a ap o ei a ,
sem esquece a on e da sua c iação poé ica: a pala a o al da comunidade. A o ali u a di e e
da esc i a po que não se a a somen e da a i ude ace à pala a esc i a, mas le a consigo a
quo idianidade das p á icas sociais mapuches em pa icula , e indígenas em ge al:
Es o es en pa e la "o ali u a", lo que nos nu e, es e i y eni en e el campo y la ciudad, la
memo ia, no solamen e en el sen ido de la esc i u a sino como o ma de ida y como o ma de palab a.
El que es á en la uen e, an es de exp esa su can o, iene que ae agua, co a leña, iene que e la
o illa de escoldo, si la cocina a leña es á lis a y sólo ecibi el ag adecimien o. No es alguien "o ali o "
po ene una ac i ud en e a la esc i u a. No es una búsqueda de la lumina ia, sino de esponde a u
p opio abajo de esc i u a, en el sen ido que uno nace con una pied a b u a que es el espí i u y en ese
diálogo con el co azón se a puliendo
140
.
A impo ância do es emunho dos anciãos é uma componen e undamen al na p odução
de Elicu a e na li e a u a mapuche em ge al. A o ali u a assume a o ma das pala as dos a ós
do au o , a on e da qual nasce a emá ica dos seus poemas, das noi es passadas ao pé do ogão
a olha as es elas e a ap ende da cosmo isão mapuche:
Kal úl me decía mi abuelo
y me o ece su oz y su ompe
Kall u me decía mi abuela
y me ae lo es de manzanos
Azul me dicen mis pad es
Kal ul les digo a mis hijas
Azul en el Azul es el que ige
el alma de mi pueblo
141
As pala as dos anciãos e ocam a a mos e a ín ima e amilia des e poema, que mui o
nos explica a ida do au o e a cosmo isão do seu po o. Elicu a ala a em mapudungún com os
seus a ós e em cas elhano com os seus pais, ansiosos que os ilhos ap endessem a língua que
lhe pe mi isse e i a as do es às quais as ge ações an e io es o am condenadas. “Kal ul”
a i mam os a ós, “Azul” a i mam os pais, “Kal ul” ensina o au o às suas ilhas. Nes es e sos
140
Ibidem, p. 73.
141
Ibidem, p. 72.
89

90
CAPÍTULO V
O po o nasa e a pala a esc i a
O po o nasa, como se au o-denomina o g upo é nico conhecido pela an opologia e pela
sociedade mes iça como Páez, habi a desde an es do século XVI a á ea conhecida como
Tie aden o, si uada en e o Cauca e Huila, no sudoes e da Colômbia. Segundo o Censo do
Depa amen o Adminis a i o Nacional de Es adís ica en la República de Colombia (DANE) de
2005, 186.178 pessoas iden i icam-se como pe encen es ao po o nasa, en e as quais 51% são
homens (94.971 pe sonas) e 49% são mulhe es (91.207 pe sonas), ep esen ando 13,4% da
população indígena da Colômbia, ou seja, o segundo maio po o o iginá io do país depois do
po o wayuu de La Guajii a. O Consejo Regional Indígena del Cauca (CRIC) egis ou um o al de
180.572 pessoas pe encen es ao po o nasa, eunidas em 38.230 amílias de língua nasa yuwe.
De ido aos con li os e i o iais que se sucede am ao longo dos séculos, os nasas desloca am-se
as ou as egiões do Cauca e a ou os locais como o Valle del Cauca, Tolima, Pu umayo, Caque á
e Me a. O censo DANE ambém in o ma que 19.2 % da população nasa não sabe le nem
esc e e em cas elhano.
O po o nasa dis inguiu-se ao longo dos anos de ido ao seu ca á e independen e e
belige an e pe an e as in asões es angei as. Quando os espanhóis chega am ao Cauca,
encon a am assen amen os mul icul u ais, habi ando aqueles e i ó ios não somen e os
nasas, mas ambém ou os g upos é nicos como os guanacas e os pijaos. A esis ência dos
po os que habi am a egião começou em 1535 quando a cacique Gai ana lide ou um exe ci o
de indígenas de di e en es e nias con a os in aso es eu opeus. A igu a da cacique é uma das
igu as he óicas que compõem o imaginá io mí ico dos po os indígenas da zona. A pe sonagem
mais impo an e da his ó ia do po o nasa é, po ém, sem dú ida o cacique Don Juan Tama de la
Es ella, ou Sa  Tama (“Sa’ ” pode ia se aduzido em cas elhano como “cacique”, igu a que
de aco do com a cosmo isão nasa nasce das águas e, po an o, dispõe de pode es mágicos). À
igu a de Don Juan Tama, onde his ó ia e lenda se con undem, es á ligada ao mi o de o igem do
po o nasa. O cacique Don Juan Tama oi uma e dadei a pe sonagem his ó ica que não
somen e lide ou as lu as con a os in aso es, consolidando a nação páez, mas ob e e o
econhecimen o dos e i ó ios indígenas po pa e da co oa espanhola, em que o mou os
cinco po oações nasas: Jambaló, Vi oncó, San Lo enzo de Caldono, Quichaya e Pi ayó. O cacique
conseguiu es es í ulos g aças à pala a esc i a e ao es udo da lei colonial.
91
A lenda, di e en e de uma comunidade pa a ou a, con a que o cacique e a o ilho da
es ela e da lagoa. Um dia, a es ela apaixonou-se pela lagoa e caiu nela. Diz-se que o io que
desceu da lagoa icou es agnado com mui os amos e lama e os anciãos da época subi am pa a
e o que es a a a acon ece e ou i am uma c iança cho a . En ão, euni am-se e esga a am a
c iança e, ainda que es a pa ecesse um e me b anco e o al, endo só olhos e boca, decidi am
esga á-la e c iá-la. P imei o, de am-na a uma mãe lac an e, que mo eu ês dias depois,
po que oi abso ida po esse se à medida que ele oi c escendo. En e as comunidades
a odescenden es do No e do Cauca, con a-se que Juan Tama oi amamen ado po uma mulhe
neg a. Os mais elhos, endo que o se muda a à medida que o alimen a am, decidi am aze
mais mulhe es lac an es pa a lhe da lei e. Cada mulhe mo eu ao e cei o dia e se e mulhe es
o am sac i icadas, mas no inal, a c iança pa ecia um se humano no mal: inha pés, mãos e
os o. A pa i daí, ele oi alimen ado de o ma no mal e ans o mou-se no mais impo an e
cacique pa a o po o nasa. Embo a exis am di e en es e sões da lenda, odas conco dam no
ac o de que Juan Tama apa eceu da lagoa com um li o que con inha os í ulos sob e as e as
indígenas ou o gados pela co oa espanhola: daí a ideia de Juan Tama como undado da nação
nasa.
O mi o de Juan Tama é ex emamen e impo an e po que e idencia, na cosmo isão
nasa, um elemen o mui o pa icula no con ex o indígenas: a p esença da esc i a na o igem de
um po o. A elação dos nasas com a esc i a é, de ac o, ex emamen e peculia no âmbi o
colonial la ino-ame icano, sendo a esc i a uma p esença o e e cons an e na lu a de esis ência
nasa já a pa i do século XVII. Tes emunha es a endência o ac o de Don Juam Tama não e
sido o único líde nasa que se ap op iou da pala a esc i a pa a o alece a lu a de esis ência
do seu po o: en e o século XIX e XX essal a ambém a igu a de Manuel Quin ín Lame.
Manuel Quin ín Lame nasceu em 1880 na azenda San Isid o, pe o de Popayán. O seu
a ô Jacobo inha saído do esgua do de Lame, Tie aden o, pa a es abelece -se em Sil ia, onde
ecebeu o apelido Lame po causa do seu luga de o igem. Ma iano, pai de Manuel Quin ín,
nasceu em Sil ia e emig ou pa a a azenda Polinda a na qualidade de e aje o. Os e aje os
e am os que paga am e aje, uma elação de ipo eudal que du ou a é os anos se en a do
século XX, que p e ia o abalho g a ui o po pa e de indígenas numa azenda a oco do
di ei o de i e e usu ui de um pequeno lo e de e eno si uado nas e as que o la i undiá io
inha oubado aos p óp ios indígenas. Manuel Quin ín Lame nasceu e oi c iado, po an o,
numa des as azendas, abalhando desde c iança como e aje o. Ao longo dos anos o jo em
92
Quin ín Lame oi omando consciência da sua condição de subal e no explo ado e en ou
comp a o seu lo e de e eno, encon ando ob iamen e a ejeição do la i undiá io.
Quando começou a “Gue a de los mil días” (de 17 de ou ub o de 1899 a 21 de
no emb o de 1902, opondo libe ais e conse ado es colombianos), o jo em indígena oi
ec u ado pa a as opas do Exé ci o do Cauca, chegando a se pajem do gene al Ca los Albán,
que o le ou ao Panamá, onde Quin ín Lame icou imp essionado com a lu a gue ilhei a de
Vic o iano Lo enzo, um indígena guaymí que lide ou as opas libe ais na i ó ia con a os
conse ado es. A igu a de Lo enzo oi impo an e na o mação polí ica de Quin ín Lame, assim
como o oi o con ac o com os es udos dos ad ogados em Popayán em que o jo em nasa, de
eg esso da gue a, es udou as leis e cons uiu uma o mação le ada. A pa i daquele
momen o, Manuel Quin ín Lame dedicou a sua ida à lu a pela eap op iação das e as po
pa e do seu po o. P ocu ando, num p imei o momen o, a solução nas leis e pos e io men e na
libe ação das e as po pa e dos mesmos indígenas, o oco de Quin ín Lame oi semp e na
educação do seu po o, ac edi ando o emen e no pode da pala a esc i a. Assim como os
nasas nasce am, segundo a lenda de Don Juan Tama, com a esc i a, Quin ín Lame apos a a nela
o caminho a segui , pa a abandona em a condição de explo ados, à qual o seu po o e a
condenado.
5.1. O CRIC e as lu as pa a a libe ação da mãe e a
As lu as que Quin ín Lame lide ou não acaba am com a sua mo e em 1967 e seus
es o ços não o am em ão. Em 1971, de ac o, se e cabildos (a o ganização polí ica dos nasas) e
ou os an os esgua dos o ma am o Consejo Regional Indígena del Cauca (CRIC), uma
o ganização que se p opõe conc e iza os ensinamen os de líde es his ó icos como os caciques
Gai ana, Don Juan Tama e Manuel Quin ín Lame pa a o ganiza a esis ência do po o nasa.
Quase 50 anos depois da sua o mação, o CRIC desempenha um papel undamen al pa a as
comunidades, ap esen ando dis in os p oje os comuni á ios e a iculando inúme as es a égias
de lu a ao longo dos anos. Em 1982 oi c iada a O ganización Nacional Indígena de Colombia
(ONIC), que o CRIC in eg ou, insis indo nas ei indicações de unidade, e i ó io, cul u a e
au onomia.
Em 1981 o CRIC eo ganizou os g upos de au ode esa, dos quais nasceu em 1984 o
Mo imien o A mado Quin ín Lame (MAQL), uma gue ilha “muy di e en e a o as gue illas
93
colombianas y la inoame icanas y (que) sólo iene semejanzas con el EZLN de Chiapas”
156
, que
deixou as a mas em Maio de 1991, após uma negociação com o Es ado colombiano.
Nas décadas seguin es, as comunidades ie am ocupa as azendas das e as planas,
como acon eceu no dia 25 de janei o de 1984, quando comunidades nasa de Co in o e Calo o
ocupa am a azenda López Aden o. A ação oi ep imida pelas o ças públicas, que ma a am 5
indígenas, en e os quais uma c iança de 7 anos, e e iu ou os 17, chegando a Polícia e o
Exé ci o a queima casas e cul i os das comunidades
157
nos meses a segui . O nasa Al a o Ulcué
Chocué, p imei o sace do e indígena da Colômbia e oz de g ande impo ância na esis ência
nasa, denunciou a ação go e namen al com as seguin es pala as: “El gobie no siemp e se pone
de pa e de los pode osos de endiendo sus in e eses, pe o los in e eses de los pob es los iene
que de ende la p opia comunidad o ganizada”
158
. Foi mo o a i o no dia seguin e.
A ocupação po pa e dos nasas da azenda El Nilo, no município de Calo o, ep esen ou,
segundo Héc o Mond agón, especialis a sob e o mo imen o indígena colombiano, o ní el
máximo do con li o pa a as e as planas: “El 16 de diciemb e de 1991, en El Nilo, 20 comune os
indígenas, pe enecien es a los di e en es Cabildos de la zona no e del Depa amen o del
Cauca, ue on b u almen e asesinados po sica ios a sueldo y miemb os de la policía nacional,
pagados po na co a ican es de la egión”
159
.
A ep essão policial, po ém, não pa ou nem após os aco dos que se segui am ao
massac e, com os quais o Es ado colombiano, econhecendo as suas esponsabilidades, se
comp ome eu em de ol e lo es de e eno às comunidades. Mais dois massac es execu ados
pelo Exé ci o en e ab il e ou ub o de 2001, o “del Naya” onde o am assassinados mais de 100
en e indígenas e camponeses, e o “del Gualanday” com 13 mo os, jun amen e com a não
ealização dos aco dos po pa e do Es ado, le a am os indígenas a ocupa em no emblemá ico
dia 12 de Ou ub o de 2005, 14 anos depois do massac e do Nilo, a azenda “La Empe a iz”,
esis indo à ep essão policial e ma cando um esul ado his ó ico na lu a con a o pode do
la i úndio, inaugu ando o p ocesso de “Libe ação da Mãe Te a”.
A pa i de No emb o de 2007 começa am os chamados “Ri uales de Libe ación de la
156
Zibechi, R. (2007, dezemb o 5). Colombia: Los Nie os de Quin ín Lame. La Biodi e sidad. Consul ado no dia 9 de
ou ub o de 2019 em h p://www.biodi e sidadla.o g/Documen os/Colombia-Los-Nie os-de-Quin in-Lame
157
Mond agón, H. (2008). A dila Lülle e sus pueblo Nasa - La caña de azúca en el no e del Cauca. In J.C. Hough on
(Ed.), La ie a con a la mue e (pp. 405-420). T adução minha. Bogo á: CECOIN.
158
Bel án Peña, F., Mejía Salaza , L. (1989). La U opía mue e Mon añas: Al a o Ulcué Chocué. Bogo á: Edi o ial Nue a
Amé ica.
159
Mond agón, H. (2008). A dila Lülle e sus pueblo Nasa - La caña de azúca en el no e del Cauca. In J.C. Hough on
(Ed.), La ie a con a la mue e (pp. 405-420). T adução minha. Bogo á: CECOIN.
94
Mad e Tie a”, a a és dos quais os nasas isa am libe a a e a e e e e a lógica de
explo ação das e as pa a a p odução de ag o-combus í eis como o e anol, subs i uindo a
monocul u a de cana-de-açúca po cul u as de di e en es ipos de alimen os e semen es
ances ais, pa a es abelece na u almen e os ecossis emas da lo es a opical e do bosque
andino. A Libe ação da Mãe Te a, impulsionada pelo CRIC e pela ACIN Asociación de Cabildos
Indígenas del no e del Cauca - CXAB WALA KIWE (Te i o io del G an Pueblo), c iada em 1994,
não se limi a à pu a ecupe ação da e a pa a semea comida:
[…] es da le un uso di e en e al del p oyec o de mue e. Desa olla modelos económicos y
Planes de Vida que engan como obje i o inal la de ensa y p omoción de la ida. Hay que ap ende a
i i con la ie a y no solamen e de ella pa a acaba la. Nos libe amos con la ie a pa a con i i . Es e es
nues o llamado y comp omiso. Es o signi ica no solo libe a la ie a y empode a se de la lucha, sino
ambién libe a el pensamien o, el co azón, las olun ades, la iden idad, la aleg ía, la conciencia y la
espe anza
160
.
As comunidades con inuam hoje em dia com a ecupe ação da Mãe Te a pa a aze
en e à escassez de e as cul i á eis, que lhes o am a ibuídas pelo Es ado colombiano. Longe
de se limi a ao campo ag á io, o p ocesso de libe ação da Mãe Te a ep esen a a libe ação
dos po os o iginá ios e da população a o-descenden e e camponesa ace à aliança “c iminal
en e na co a ican es, e a enien es, polí icos y pa amili a es, que han log ado a ia
adicalmen e el mapa de la enencia de la ie a en el país”
161
. Libe a a e a é a p imei a pa e
de um p ocesso de cons ução de e i ó ios li es da di adu a do capi al e do ag o-negócio, e
da iolência dos pa amili a es, pe mi indo que as comunidades nasa possam consolida a
p óp ia cul u a e imagina um u u o de paz pa a as ge ações indou as. Os con li os que se
c ia am após as eap op iações de e as po pa e dos indígenas e le em um choque en e
duas manei as de en ende a e a: o modelo capi alis a de explo ação de ecu sos e
me can ilização de pessoas po um lado, e a cosmo isão indígena que ê na e a a g ande casa
onde odos os se es i os êm o di ei o de i e em ha monia com a na u eza, po ou o lado. A
libe ação da Mãe Te a le ada a cabo pelas comunidades nasa a cus o da exposição à iolência
b u al do apa elho ep essi o do Es ado é um p ocesso ideológico de esis ência e consolidação
160
CRIC. (2007). Nos mo ilizamos pa a de ende y libe a nues a exis encia y pa a suma nos a la lucha de odos los
pueblos. Consul ado no dia 9 de ou ub o de 2019 em
h ps://www.mo imien os.o g/es/enlacei/show_ ex .php3%3Fkey%3D11310
161
Ibidem

95
da p óp ia cul u a pe an e as en a i as de aniquilação ísica e cul u al pe pe uadas pelo pode
económico com a cumplicidade do pode es a al: é, en im, a lu a pela ida ace à condenação à
mo e.
5.2. Libe a a e a, libe a o po o
O p ocesso de libe ação da Mãe Te a é, po an o, en endido den o de um p oje o que
ai mui o além da ques ão ag á ia, aba cando odos os se o es decisi os pa a a ep odução
cul u al. A eap op iação de e as isa a sobe ania alimen a , p imei o passo do pe cu so de
au onomia das comunidades, cuja oz se e le e nas p opos as do CRIC:
1. Recupe a las ie as de los esgua dos.
2. Amplia los esgua dos.
3. Fo alece los cabildos Indígenas.
4. No paga e aje.
5. Hace conoce las leyes sob e indígenas y exigi su jus a aplicación.
6. De ende la His o ia, la lengua y las cos umb es indígenas.
7. Fo ma p o eso es indígenas…”
8. Fo alece las emp esas económicas y comuni a ias.
9. De ende los Recu sos na u ales y ambien ales de los e i o ios indígenas
162
.
As ei indicações que o CRIC coloca es emunham a on ade das comunidades nasa de
cons uí em jun as um u u o comum, u o da lu a cole i a e de es a égias comuni á ias pa a a
libe ação dos laços de subo dinação pa a com a sociedade dominan e e o o alecimen o da
cul u a nasa. A ecupe ação das e as é o p incípio de uma sé ie de p ocessos a longo p azo
que as comunidades econhecem se em o caminho pa a o melho amen o da sua condição.
Embo a conside e undamen ais odos os no e pon os apon ados pelo CRIC e ac edi e na
complemen a idade dos mesmos pa a a consecução dos obje i os p epos os, ou a ança com
a análise de dois pon os, ou melho , dos ocos que os pon os 6 e 7 ab angem. A de esa da
His ó ia, da língua e dos cos umes indígenas e a o mação de p o esso es indígenas êm em
comum a mesma ó ica de ep odução cul u al enquan o o alecimen o da iden idade ace à
desag egação que a ança à medida que o mundo se globaliza cada ez mais. O p oje o
162
CRIC. (2004). Pla a o ma de lucha. Consul ado no dia 9 de ou ub o de 2019 em
h ps://www.c ic-colombia.o g/po al/pla a o ma-de-lucha-5/
96
educa i o é cen al no p oje o polí ico do CRIC: “En muchos casos, la educación apa ece como
apéndice a los ejes cen ales de los mo imien os sociales, es la cenicien a que nunca se le
econoce como una pa e undamen al de las luchas. En el CRIC, en cambio, hace educación es
hace polí ica y hace polí ica es hace educación.”
163
Pa indo da ideia de que “la educación es un p oceso de cons ucción de pensamien o
pa a analiza los p oblemas, pa a descub i nues as aíces cul u ales y pa a o alece nues a
iden idad”
164
, oi c iado no seio do CRIC o P og ama de educación bilingüe (PEB) em 1978. O
PEB nasceu como en idade enca egue do se o educa i o das comunidades pa a o alece o
desen ol imen o e a cons ução de escolas comuni á ias e acili a a o mação de p o esso es
bilingues que pudessem o e ece uma educação bilingue, alo iza ando os aspe os da cul u a
nasa, o es udo da língua nasa yuwe e da sua his ó ia e o necendo aos alunos as e amen as
cul u ais pa a e igo a a ansmissão de odas as es e as do conhecimen o indígena,
disc iminado e anulado nas escolas es a ais:
A los pueblos indígenas no se les ha pe mi ido la ansmisión de su cul u a a a és de la
educación o mal. Todo lo con a io, es a a és de és a que se e ec úa una up u a en su con inuum
cul u al. Los jó enes indígenas, al ecuen a la escuela que ep oduce el modelo educa i o
p edominan e del Es ado, se an alejando de su sociedad y i en en una ambigüedad cul u al di ícil de
maneja . O as eces el mime ismo cul u al es comple o, llegando, incluso a echaza oda mani es ación
cul u al indígena. El pode de la educación es e iden e. Po ello, la educación ue el ins umen o más
e icaz de los colonizado es
165
.
A educação é um dos emas mais delicados e impo an es pa a a cons ução do u u o
dos po os indígenas. É de p imá ia impo ância uma educação bilingue e que inclua os
elemen os cul u ais da ida das comunidades pa a e i a a mo e das línguas indígenas e das
cul u as o iginá ias. O modelo escola es a al uni icado não econhece o di ei o à di e sidade e
não ab e a caminhos al e na i os de ensino: endo o obje i o de c ia cidadãos, as escolas
es a ais silenciam as cul u as mino i á ias, isando a assimilação des as à ida social e
económica do país. Pa a o alece as cul u as indígenas é necessá io in es i nas suas
ep oduções, ou seja, na ansmissão das cosmo isões dos di e en es po os. Os es o ços do
163
PEBI. (2004). ¿Qué pasa ía si la escuela...? 30 años de cons ucción de una educación p opia. Bogo á: PEBI, CRIC &
Te e des Hommes.
164
CRIC. (2005). In o me del P og ama de educación Bilingüe e in e cul u al al XII Cong eso del CRIC.
165
Galeano Lozano, M.d.C. (2006). Resis encia indígena en el Cauca: lab ando o o mundo. Cali: Imp eso a Fe i a.
97
CRIC ão p ecisamen e nes a di eção. A educação é pa e in eg an e do p ocesso polí ico de
libe ação, como a i ma um dos pais da lu a de esis ência nasa: “Que el niño analice, que no
ague odo. Enséñeles a lee y no a i ma su p opia sue e. Ap ende a lee , a e e se a pensa ,
es empeza a lucha . Sólo es lib e el que sabe a dónde a”
166
.
As pala as iluminadas do sace do e Ál a o Ulcue Chocue es emunham a impo ância
que o po o nasa econhece à educação, lemb ança das lu as de Manuel Quin ín Lame, que
sac i icou a sua ida pa a se educa e educa o seu po o, con encido do pode que o
conhecimen o das leis e da esc i a inham na lu a de esis ência. P imei o a econhece o
po encial da ap op iação da língua cas elhana e da pala a esc i a, Quin ín Lame, o índio que se
educou nas sel as, a i ma a já em 1939: “si la pluma del Doc o Guille mo Valencia si e pa a
esc ibi Ana cos, la pluma del indio Manuel Quin ín Lame se i á pa a de ende a Colombia”
167
.
Quin ín Lame assumiu o papel de ansmisso de conhecimen o pa a as u u as ge ações nasa
a a és da esc i a. Desde o mi o de o igem do undado da cul u a nasa, Don Juan Tama,
encon ado na lagoa com os li os com os í ulos de p op iedade das e as, a é os apelos à
cons ução da educação comuni á ia de Ál a o Ulcue Chocue, passando pela lu a do índio
le ado Manuel Quin ín Lame, é e iden e a elação amilia que o po o nasa em his o icamen e
com a esc i a, ep esen ando uma excecionalidade no mosaico de cul u as indígenas do
subcon inen e la ino-ame icano, que na maio ia dos casos ecusa am a esc i a a é aos dias mais
ecen es. Desde a sua undação mí ica como po o, os nasas econhecem na esc i a uma aliada
impo an e, endo es a sido ou o gada pela p óp ia na u eza e não pelos in aso es eu opeus.
Mesmo que se ale da esc i a na língua dos colonizado es, es a ep esen a uma e amen a de
esis ência pe an e o Es ado colombiano:
A a és de la ap opiación de la lengua nacional podemos iden i ica elemen os de las o as
cul u as – an o nacional o in e nacional, como de o os pueblos indígenas – pa a analiza cómo pueden
se ú iles pa a nues o p oyec o (...) En el campo de la educación, se en endía que e a necesa io
es ablece un diálogo en e las dos lenguas, la indígena y la nacional (...) ap eciaba la impo ancia del
cas ellano como un ehículo pa a gana nues os de echos (...) sin el cas ellano e a imposible o ja
alianzas con o os sec o es popula es. El bilingüismo que se buscaba no e a ansicional, sino un
p oyec o de desa ollo p o undo en los dos idiomas, o aleciendo la cul u a nasa y pa alelamen e, las
166
Nasa Pal Ál a o Ulcue Chocue consul ado no dia 9 de ou ub o de 2019 em: h ps://nasaacin.o g/nasa-pal-al a o-
ulcue-chocue-su-palab a- i e/
167
Quin ín Lame, M. (2004). Los pensamien os del indio que se educó den o de las sel as colombianas. Cali: Edi o ial
Uni e sidad del Cauca.
98
elaciones polí icas con sec o es popula es no indígena
168
.
A ap op iação da língua dos colonizado es e da pala a esc i a não ep esen a pa a os
nasas um en aquecimen o das suas p opos as cul u ais, mas uma iqueza pa a a alo ização
das p óp ias ei indicações e pa a a ansmissão da sua cul u a. Os ecen es p oje os
comuni á ios do po o nasa, po ém, não se limi am à al abe ização em cas elhano:
econhecendo o po encial da esc i a no p oje o cul u al e, isando a alo ização e e i alização
da sua p óp ia língua, su giu das comunidades a exigência de al abe iza o nasa yuwe, como
es a égia polí ica e cul u al:
Al desa olla la esc i u a en las lenguas e náculas es amos ab iendo un espacio que
adicionalmen e ha sido es ingido pa a el uso de la sociedad nacional y pa a la colonización. Con el
desa ollo de nues os idiomas encon amos he amien as pa a da un sen ido p opio a concep os
ex e nos en el ma co de nues o p oyec o polí ico
169
.
Começou assim um p ocesso, udo menos simples, pa a al abe iza o nasa yuwe,
p ocesso cul u al e social que se ap esen ou desde o p incípio como um caminha comuni á io
pa a encon a nas di e en es p opos as um comp omisso que pe mi a que es a g ande
ino ação pe mi a desen ol e :
(...) la lengua nasa como uno de los elemen os cul u ales, he amien a undamen al que
pe mi e aduci y esc ibi el conocimien o adqui ido desde lo ex e no hacia el in e io del pensamien o,
log ando man ene no solo la lengua ma e na sino odo un conjun o de usos, p ác icas y sabidu ía
comuni a ia que le ha pe mi ido pe i i po más de cinco cen u ias. Luego en onces, o alece la
lengua ma e na po medio de una codi icación esc i a, es en el momen o una g an opo unidad po que
le pe mi e di e encia se como lengua, man eniendo no solo el ace o lingüís ico sino el p oceso u u o
del desa ollo sociolingüís ico de la lengua nasa en e a o a como es la lengua nacional. Así mismo, es e
p oceso pe mi i á una mejo ap opiación y o alecimien o de la iden idad, a aigo a su e i o io, a sus
o mas de p oducción, con ibuyendo pa a que adul os, jó enes y niños no abandonen el e i o io que
los io nace , a sus au o idades, a su medio ambien e y a sus o mas de in e p e a al mundo que los
odea con el in de segui haciendo pa e impo an e en man ene un equilib io social a a és de la
168
PEBI. (2004). ¿Qué pasa ía si la escuela...? 30 años de cons ucción de una educación p opia. Bogo á: PEBI, CRIC &
Te e des Hommes.
169
Ibidem
105
Los gobie nos poco saben
del lenguaje de la ie a
que sabe el pueblo NASA.
A los he manos indígenas NASA-Páez del Cauca Colombia
Caminando la palab a
los he manos andan.
Vienen desde siemp e
con sus huellas
ejidas po el iempo,
po alles, pampas,
íos y mon añas;
con sus pies de co dille a
y sus manos de lab anza
an semb ando la Paz
sob e la Pa ia.
Caminando la palab a
los he manos andan,
lle ando la semilla de la Vida
cus odiada po la gua dia,
y con sus bas ones de a co i is
se en en an a las a mas
sin mas a mas
que la sabidu ía de la palab a.
Caminando la palab a
los he manos andan.
Los gobie nos
es án de espaldas a los NASA,
no en ienden
sus sueños de paloma,
ni los oli os que su espí i u na i o
siemb a en el ien e de Colombia.
Los gobie nos poco saben
del lenguaje de la ie a
que sabe el pueblo NASA.
Los gobie nos no escuchan
el llan o de los bosques,
la as ixia del ai e,
la ad e encia de los ien os
y la agonía del agua.

106
Los gobie nos igno an
sus legados ances ales...
los NASA, son un pueblo milena io
de códigos uni e sales.
Caminando la palab a
los he manos andan.
Son he manos de Juan Tama,
son cien os de miles
sin usiles;
semb ado es de u u o
semille os de palab as.
Con su piel de miel madu a
y sus ojos que despie an
con el alba,
ma chan jun os a la minga
con sus pies de huella i me
dispues os a la ma cha.
Caminando la palab a
los he manos andan.
Andan po el Mundo,
po Colombia, po el Cauca,
ejiendo la he mandad
que la gue a desba a a;
andan en medio de las balas
con sus b azos a mados de espe anza,
luchando po la Paz
caminando la palab a.
Caminando la palab a
los he manos andan…
179
(poema esc i o desde el exilio, con el alma)
179
González, M. (2008). Caminando la palab a. Consul ado no dia 10 de ou ub o de 2019 em:
h ps://mo imien os.o g/p -b /node/13458
107
CONCLUSÃO
Nas úl imas ês décadas assis imos à in ensi icação da mobilização social dos po os
indígenas la ino-ame icanos. A década de 1990 – com acon ecimen os como a e ol a dos
indígenas equa o ianos (In i Raymi) em 1990, as mani es ações no âmbi o dos 500 anos da
chegada dos eu opeus ao subcon inen e em 1992 e o le an amen o zapa is a de janei o de
1994 – ma cou o início da que pa ece se uma no a e a na his ó ia social des as populações. A
libe alização descon olada dos me cados, ep esen ada pelos a ados de li e comé cio,
en egou o con inen e ao capi alismo mais es i o, ag a ando p oblemas já exis en es na
Amé ica La ina, como a desigualdade social e a co upção. Conside ados ex e io men e,
du an e séculos, obje os incapazes de oma a inicia i a, os po os o iginá ios lide a am as
e ol as an i-impe ialis as que se segui am no con inen e, an o em países com al a
componen e indígena (Bolí ia, México, Gua emala, Equado e Pe u), como em países em que os
po os indígenas ep esen am uma mino ia mais ou menos signi ica i a (B asil, Venezuela,
Colômbia, Panamá, Nica água, Chile e A gen ina).
A oz dos po os que os pode osos conside a am silenciosos começou a b o a dos
Andes à lo es a amazónica, da Pa agónia aos dese os mesoame icanos, pa a exigi os seus
di ei os após séculos de despejos, explo ação, iolência e injus iças. Longe de e acabado, a
lu a de esis ência dos po os o iginá ios – ace ao genocídio que o p og esso planeou pa a
quem conside a cons i ui um obs áculo ao c escimen o económico con inen al – con inua
g aças aos ne os dos ne os dos he óis que lide a am as e ol as indígenas con a o sis ema
colonial. E guendo-se em de esa das p óp ias cul u as, dos p óp ios e i ó ios e exigindo os
seus di ei os negados, os po os indígenas desen ol e am di e en es es a égias que de
o alecimen o e ep odução cul u al, que de lu a legal, social e polí ica pa a denuncia a sua
si uação de explo ação e abandono. Gua diões das suas e as ances ais, lide a am e
con inuam a lide a os p o es os sociais e a oposição aos g andes p oje os ex a i os e
ene gé icos que, com a coni ência dos go e nos es a ais, cobiçam o espólio das imensas
iquezas das e as la ino-ame icanas, des uindo os e i ó ios que os po os o iginá ios
habi am há milha es de anos.
Rep oduzindo cul u as maio i a iamen e o ais, uma das es a égias de lu a mais
ino ado a e su p eenden e oi a aliança que alguns po os indígenas es ipula am com a pala a
esc i a. Rep esen ando his o icamen e uma das e amen as dos colonizado es pa a jus i ica a
108
in asão e o saque cul u al em nome da supe io idade dos eu opeus le ados ace aos
“bá ba os” anal abe os, a esc i a apa ece no imaginá io dos po os o iginá ios como o
ins umen o que os in aso es u iliza am pa a a e angelização o çada e a imposição da língua.
Símbolo da iolência colonial, a esc i a enca na a imposição da cul u a eu opeia e a aniquilação
das cul u as e das línguas o iginá ias, o pa imónio ima e ial dos po os indígenas. A a és da
pala a esc i a, os eu opeus impuse am a sua eligião, as suas leis e as suas es u u as sociais,
económicas e polí icas, ge ando com a iolência uma sociedade mes iça em que os po os
o iginá ios e as suas mani es ações cul u ais são disc iminadas e pe seguidas e p o ocando o
eceio des es po os em elação à esc i a. A ap op iação po pa e dos po os indígenas da
esc i a ap esen a-se, po an o, como uma queb a do desní el hie á quico en e o alidade e
esc i a que o sis ema colonial inha c iado e, consequen emen e, como uma en a i a de
ompe com o pode colonial que ainda di a lei no con inen e la ino-ame icano, omando posse
de uma das a mas mais pode osa dos in aso es.
Em 1616 chegou ao ei espanhol Felipe III uma ob a de mais de mil páginas, inda do
ice- eino de Pe u, com o í ulo P ime nue a co ónica y buen gobie no, uma c ónica da ida na
egião andina nos empos da colónia. A ob a, que de ac o pe maneceu na somb a du an e
á ios séculos, causou uma g ande su p esa após a sua edescobe a de ido a um de alhe que
cons i ui um elemen o de ex ao diná ia impo ância pa a os es udos coloniais: o seu au o ,
Felipe Waman Poma de Ayala, e a um inca que inha ap endido a esc e e em cas elhano. Po
que mencionamos es e c onis a andino do século XVII? Nas úl imas décadas, pa alelamen e ao
desen ol imen o dos g andes mo imen os sociais indígenas, um g upo de in elec uais, en e os
quais Anibal Quijano, Wal e Mignolo, Boa en u a de Sousa San os e Ca he ine Walsh, ocou os
seus es udos na análise do concei o de mode nidade, chegando à conclusão que mode nidade
e colonialidade são as duas ca as da mesma moeda, ep esen ando a segunda a ca a ocul a da
p imei a. En endendo como mode nidade o pe íodo que começou no século XVI com a
expansão eu opeia e a a i mação da cul u a ociden al po ou as la i udes do globo, es es
au o es iden i ica am ês componen es da colonialidade: se , sabe e pode .
Wal e Mignolo iden i ica o século XVI como p incípio da mode nidade: o mundo e a,
naquela cul u a, policên ico e plu al, exis indo á ias ci ilizações que ep esen a am múl iplas
iloso ias e manei as de in e p e a a ealidade. A his o iado a Ka en A ms ong, ci ada po
109
Mignolo
180
, apon a dois campos undamen ais des a mudança de pa adigma eu opeu: a
economia e a epis emologia. O século XVI assis iu à p og essi a a i mação do me can ilismo,
um conjun o de eo ias económicas o almen e di e en es das que domina am na Idade Média.
Na base do me can ilismo es á a acumulação de capi al po pa e do Es ado-nação pa a
aumen a a sua po ência polí ica, a a és do con olo dos me cados in e nos e ex e nos, da
explo ação dos ecu sos na u ais (p incipalmen e os me ais p eciosos), da in e enção es a al
no campo económico, en e ou os. A “descobe a” das imensas iquezas na u ais dos
con inen es la ino-ame icano e a icano ize am com que o me can ilismo se ans o masse no
sis ema económico dominan e no con inen e eu opeu. A p og essi amen e maio elação en e
polí ica e economia de e minou a necessidade de os einos eu opeus se apode a em
poli icamen e das e as que isa am explo a .
O segundo campo p o undamen e modi icado a pa i do século XVI oi o
epis emológico, endo i ido a Eu opa naquela época a e olução cien í ica, al e ando o
pa adigma do pensamen o e p o ocando al e ações es u u ais undamen ais nas sociedades
eu opeias, endo implan ado a ideia de que as ino ações cien í icas conseguidas g aças à
e olução o nassem a ci ilização eu opeia supe io às ou as. A pa i do século XVI, o
pensamen o eu opeu oi expo ado pelo mundo de ido à sua p e ensão de uni e salidade,
le ando consigo os pa adigmas económicos e polí icos que se iam desen ol endo naqueles
empos. Enquan o po ado es da “ci ilização supe io ”, os einos eu opeus a oga am-se o
di ei o de coloniza ou os con inen es e implan a o seu sis ema de pe spec i a o mundo: eis
a colonialidade do se , do sabe e do pode . A colonialidade do sabe é a ace da colonialidade
que mais nos in e essa, ep esen ando a imposição epis émica da manei a eu opeia de pensa
o mundo. Se à colonialidade do pode co esponde o genocídio, a eliminação ísica dos
indígenas la ino-ame icanos e a esc a idão dos a icanos, à colonialidade do se co esponde o
e nocídio, a eliminação ma e ial da p odução cul u al de uma di a e nia, e à colonialidade do
sabe o epis emicídio, “a des uição de conhecimen os, de sabe es, e de cul u as não
assimiladas pela cul u a b anca/ociden al. É um subp odu o do colonialismo ins au ado pelo
a anço impe ialis a eu opeu sob e os po os da Ásia, da Á ica e das Amé icas”
181
.
180
Mignolo, W. (2010). La colonialidad:la ca a ocul a de la mode nidad (p. 41). In W. Mignolo, Desobediencia
epis émica. Re ó ica de la mode nidad, lógica de la colonialidad y g amá ica de la descolonialidad. Buenos Ai es:
Ediciones del Signo.
181
De Sousa San os, B. (1997). Pela Mo de Alice - O Social e o Polí ico na Pós-mode nidade. São Paulo: Co ez.
110
Na base do epis emicídio pos ulado po Boa en u a de Sousa San os es á o acismo
epis émico, ou seja, a disc iminação do sabe que in alida qualque ipo de conhecimen o que
não p o enha do sujei o dominan e, o eu opeu “b anco” e c is ão nes e caso. Ao “ou o”, o
di e en e do sujei o dominan e da e ó ica colonial, não é econhecido o di ei o de c ia sabe :
qualque conhecimen o e p odução a ís ica po ele c iado não se á acei e pela sociedade
dominan e, a que esc e e a his ó ia uni e sal. Como o acismo anula o di ei o de se , o acismo
epis émico anula o di ei o do ou o de p oduzi epis eme. O que Mignolo chama “ acismo
epis émico de la mode nidad”
182
co esponde a uma ace da colonialidade que elimina o
conjun o de sabe es p oduzido ao longo do empo pelo colonizado, em nome da p e ensa
supe io idade do conhecimen o do qual o colonizado é po a- oz.
Genocídio, e nocídio e epis emicídio ap esen am-se como as ês es a égias da
colonialidade pa a se apode a do pode , do se e do sabe dos colonizados, ep esen ando as
ês indissolú eis exp essões do sis ema colonial. Da mesma o ma, en ão, o p ocesso de
descolonização em de passa pelas ês descolonizações, ou seja, pa a descoloniza o se e o
pode é p eciso descoloniza ambém o sabe : nes e pon o eg essamos a Waman Poma.
Descoloniza o sabe signi ica c ia o que Mignolo chama “pa adigma o o”, o “pensamien o
c í ico y u opís ico que se a icula en odos aquellos luga es en los cuales la expansión
impe ial/colonial le negó la posibilidad de azón, de pensamien o y de pensa el u u o […]
pensa a pa i y desde la di e encia colonial”
183
. Es e “pa adigma ou o”, na e dade, não
p ecisa de se c iado, mas sim edescobe o, e alo izado. Wamam Poma é um dos p imei os
au o es a esc e e a pa i da “di e encia colonial epis émica, in isible pa a los cas ellanos,
isible como una g an mu alla pa a Waman Poma”
184
. A p odução de Wamam Poma ep esen a
uma peça undamen al na genealogia do pa adigma ou o, ab indo as po as do pensamen o
ou o que desa ia o uni e salismo epis émico colonial.
“Can he subal e n speak?”
185
é a g ande pe gun a que coloca Gaya i Chak a o y
Spi ak e le indo sob e o acismo epis émico a pe i de uma pe spe i a de sujei o subal e no,
colonizado. Wamam Poma esc e e p ecisamen e enquan o indígena e, po an o, subal e no,
desmon ando a imensa ba ei a que a colonialidade coloca en e colonizados e colonizado es.
182
Mignolo, W. (2003). P e acio a la edición cas ellana e In oducción. In W. Mignolo, His o ias locales/diseños
globales. Colonialidad, conocimien os subal e nos y pensamien o on e izo (pp. 19-110). Mad id: Akal.
183
Ibidem.
184
Mignolo, W. (2007). El pensamien o decolonial: desp endimien o y ape u a Un mani ies o. In S. Cas o-Gómez, &
R. G os oguel. El gi o decolonial: e lexiones pa a una di e sidad epis émica más allá del capi alismo global (pp. 25-46).
Bogo á, D.C.: Siglo del Homb e Edi o es.
185
Spi ak, G. C. (1988). Can he subal e n speak?. Basings oke, Macmillan.

111
O c onis a inca denuncia as injus iças so idas pelos indígenas de ido à iolência dos espanhóis,
ma cando o começo do “casamen o” en e po os indígenas e esc i a. A ap op iação da esc i a
po pa e dos g upos subal e nos, como po os indígenas e, em ge al, sujei os que esc e em a
pa i da di e ença colonial, ou seja, a pa i da posição do “ou o” colonizado, cons i ui um
elemen o ex emadamen e impo an e no p ocesso que os es udiosos da
mode nidade/colonialidade classi icam como “gi o decolonial”
186
. A cons ução do “pa adigma
o o”, do “pensamen o decolonial”
187
, da qual a ap op iação da esc i a, símbolo da epis eme
eu opeia uni e sal e supe io , ep esen a uma es a égia, insc e e-se no mais amplo p oje o de
descolonização do pode e do se . Tendo sido o pensamen o ociden al impos o pelos
colonizado es o único admi ido pelo pode colonial, a c iação de a e e conhecimen o po pa e
do sujei o colonizado ep esen a uma ex ao diná ia e necessá ia es a égia de esis ência e
( e)a i mação cul u al. Pensamen os al e na i os, “pa adigmas o os”, como o pensamen o
indígena e o pensamen o a o-ca ibenho na Amé ica La ina, ab em o caminho à
“plu i e sidad”
188
que desa ia a uni e salidade que unda o pensamen o colonial.
Os zapa is as de Chiapas, os mapuches no sul do con inen e, os nasas na Colômbia,
u ilizando a pala a esc i a pa a denuncia a p óp ia inacei á el si uação, pa a c ia a e e
conhecimen o a pa i da p óp ia posição de indígenas subal e nizados pela sociedade
dominan e, desa iam o acismo epis émico ac escen ando a genealogia do “pa adigma o o”, o
pensamen o ou o que di e e do que pode ia se um “ou o pensamen o”, na medida em que
se cons i ui a pa i das di e en es di e enças coloniais em dialogo en e si, isando não a
dominação como o pensamen o colonial, mas a libe ação do p oje o “decolonial”, ambém
a a és da ecupe ação das na a i as silenciadas pela colonialidade e a eesc i a da his ó ia
plu al po pa e dos g upos excluídos da his ó ia o icial que os colonizado es esc e e am. O
“pa adigma o o” inclui as ozes al e na i as ao pensamen o único impos o pelo pode
colonial:
186
Cas o-Gómez, S., & G os oguel, R. (2007). El gi o decolonial: e lexiones pa a una di e sidad epis émica más allá
del capi alismo global. Bogo á, D.C.: Siglo del Homb e Edi o es.
187
Mignolo, W. (2007). El pensamien o decolonial: desp endimien o y ape u a Un mani ies o. In S. Cas o-Gómez, &
R. G os oguel. El gi o decolonial: e lexiones pa a una di e sidad epis émica más allá del capi alismo global (pp. 25-46).
Bogo á, D.C.: Siglo del Homb e Edi o es.
188
Walsh, C. (2007). In e cul u alidad y colonialidad del pode : Un pensamien o y posicionamien o “o o” desdela
di e encia colonial. In In S. Cas o-Gómez, & R. G os oguel. El gi o decolonial: e lexiones pa a una di e sidad
epis émica más allá del capi alismo global (pp. 47-62). Bogo á, D.C.: Siglo del Homb e Edi o es.
112
Maha ma Gandhi, W. E. B. Dubois, Juan Ca los Ma iá egui, Amílca Cab al, Aimé Césai e, F an z
Fanon, Faus o Reinaga, Vine Delo ia J ., Rigobe a Menchú, Glo ia Anzaldúa, el mo imien o Sin Tie as
en B asil, los zapa is as en Chiapas, los mo imien os indígenas y a os en Boli ia, Ecuado y Colombia, el
Fo o Social Mundial y el Fo o Social de las Amé icas. La genealogía del pensamien o decolonial es
plane a ia y no se limi a a indi iduos, sino que se inco po a en mo imien os sociales (lo cual nos emi e
a mo imien os sociales indígenas y a os: Taki Onkoy pa a los p ime os, cima onaje pa a los segundos)
y en la c eación de ins i uciones, como los o os que se acaban de menciona .
189
Cen al no p oje o de descolonização é, po an o, o econhecimen o da alidade des es
pensamen os ou os aos quais oi negada a legi imidade e a consequen e ea i mação e
e alo ização epis émica dos g upos subal e nos. A descolonização epis émica, on ológica e
polí ica passa pela ecupe ação das línguas silenciadas e apelidadas como diale os, das p á icas
cul u ais es aziadas na de inição de olclo e, das eligiões e iloso ias classi icadas como
c enças. Todos es es elemen os cul u ais – que o pode colonial p ocu ou silencia e
des alo iza – nunca o am de ini i amen e abandonados pelos po os indígenas que, em ní el
dis in os de uma comunidade pa a ou a, p ocu a am man e , desen ol endo es a égias de
esis ência e esiliência. A e alo ização das cul u as colonizadas e do conjun o de p á icas,
línguas e sabe es po elas p oduzido e po elas p ese ado no seio da adição o al das
comunidades cons i ui um elemen o básico do p ocesso de descolonização e libe ação dos
po os indígenas. Nes e sen ido, sublinhamos a impo ância do abandono das dou inas
polí icas ociden ais po pa e dos in elec uais mexicanos após o con a o com as comunidades
indígenas de Chiapas, assim como a con ínua e incansá el alo ização da pala a dos
an epassados po pa e dos zapa is as, dos o ali o es mapuches e dos nasas no seu caminho de
libe ação.
Todos es es g upos esc e em a pa i da e ida colonial, do “pensamien o on e izo”
190
,
ou “del umo de los deshe edados de la mode nidad; aquellos pa a quienes sus expe iencias y
sus memo ias co esponden a la o a mi ad de la mode nidad, es o es, a la colonialidad”
191
,
es e “pa adigma o o” que econhece a sua genealogia, a sua undação, não nos A is o eles,
nos Pla ões, nos Hegels e nos Ma xs, mas nos que, como eles, a pa i da di e ença colonial,
p oduzi am o conhecimen o que o pode colonial en ou silencia , como Wamam Poma, Aimé
189
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191
Ibidem
113
Césai e, F an z Fanon, Faus o Reinaga e Thomas Sanka a, ozes e oluciona ias po que
desa iam a na a i a única e uni e sal que o sis ema colonial impõe. O pensamen o on ei iço,
exp essão do pa adigma ou o — no qual o discu so zapa is a, a poesia mapuche e o p ocesso
nasa de cons ução comuni á ia do al abe o do nasa yuwe e da educação na p óp ia língua se
insc e em — ab e as po as à libe ação dos sabe es das cul u as silenciadas e subal e nizadas,
desencadeando um eno me po encial epis émico, a li e a u a indianis a que Faus o Reinaga
auspica a:
Cuando comience a p oduci el ce eb o indio en su medio, en su libe ad y en su lengua, nos
da á ob as supe io es y mejo es a la "Di ina Comedia", "Don Quijo e", "La Comedia Humana", "Los
Mise ables", "Los He manos Ka amazo ", "Ana Ka enina", "La Mad e"... Los músicos indios supe a án a
Bee ho en, y los pin o es sob epasa án a Miguel Ángel. Sólo los indios pond án en el lienzo, y en su
magni ud, in ensidad y g andeza sin pa alelo, la epopeya de los Ama u y los Ka a i en el G an Pe ú. Y
sólo los indios inkas pond án en el pen ag ama la a monía cósmica, ni ea e ígnea, que ib a y uena en
la sang e y espí i u de la aza milena ia de los Andes. La li e a u a indianis a egala á a la humanidad
genios de mayo alla que Só ocles y Fidias, Home o y Shakespea e, Sóc a es y Ma x, Dan e y Ce an es,
Tago e y Shaw.
192
O casamen o da esc i a (e as possibilidades que ela o e ece) e da adição o al de cada
po o ( ansmisso a de sabe es, cosmo isões e p á icas sociais) ap esen a-se, po an o, como
uma p eciosíssima e amen a de ep odução cul u al ace a p oblemas como a agmen ação
das cul u as indígenas nas ge ações mais no as e as con ínuas en a i as de aniquilação cul u al
e assimilação po pa e da sociedade dominan e. A p odução a ís ica indígena em ge al – e,
em pa icula , a li e á ia no nosso caso de es udo – é ão impo an e quan o as lu as legais e
polí icas. A au oconsciência do seu p óp io alo a ís ico e cien í ico po pa e dos g upos
subal e nos é um elemen o undamen al na lu a de libe ação e igualdade des es g upos,
po que queb a o desní el hie á quico que a colonialidad ap esen a como jus o e necessá io e
coloca as bases pa a uma sociedade mais equi a i a e igual, em que de conhecimen os
igualmen e álidos de i am iguais di ei os e iguais opo unidades. Fundamen al é o di ei o de
os po os indígenas de se in e p e a em sem in e e ências e imposições alheias, pa a
imagina em e cons uí em o p óp io u u o. A au onomia cul u al cons i ui uma ace
imp escindí el da au onomia e i o ial e polí ica que os po os indígenas eclamam em oz al a:
a libe ação dos e i ó ios ances ais e a libe ação da pala a o al dos an epassados a a és
192
Reinaga, F. (2010). La e olución India. p.139, (4° ed.) La Paz, Boli ia: Minka.
114
da esc i a caminham na mesma di eção, a da libe ação dos colonizados do sis ema colonial
que os op ime.
Embo a enha ep esen ado um símbolo da iolência colonial, a esc i a le a consigo
inúme as possibilidades que se o nam ex emamen e ú eis nas lu as indígenas, en e as quais
a abe u a ao diálogo com ou os g upos que se ia di ícil alcança sem o auxílio da p odução e
di usão esc i a (ou os po os indígenas, sociedade ci il, ou os g upos subal e nos e
ma ginalizados), a maio acilidade de ansmissão cul u al em si uações de a as amen o de
alguns memb os da comunidade do e i ó io o iginal (a c escen e mig ação, sob e udo das
ge ações mais no as, às cidades que aumen a o isco de abandono da p óp ia cul u a) e a
ocupação de campos an es edados aos g upos subal e nos, como as uni e sidades, onde se
p oduz conhecimen o e elações de pode . A mesma língua do colonizado , impos a pela o ça
ao longo dos anos, disc iminando e c iminalizando as línguas locais, ap esen a-se como auxílio
no diálogo e na cons ução comuni á ia de es a égias de lu a com os g upos an es ci ados,
si uando-se como língua anca. Mais impo an e ainda é a al abe ização das línguas indígenas,
que pe mi e sal á-las do isco semp e maio da ex inção p og amada pela colonialidade.
As expe iências analisadas nes a disse ação mos am o pa alelismo en e os p ocessos
polí icos e os p ocessos epis émicos e poé icos de e alo ização dos conhecimen os dos
an epassados po pa e dos po os indígenas. A p esença cons an e da cosmo isão maia,
mapuche e nasa na p odução esc i a e no desen ol imen o de es a égias polí icas es emunha
a necessidade de descoloniza o sabe e o se pa a descoloniza o pode e p ocu a cons ui
um u u o p óspe o pa a as p óximas ge ações, um u u o em que a plu alidade possa se is a
e ap eciada pelo que ealmen e é, uma eno me iqueza, em ez de se disc iminada e
c iminalizada. Face às con ínuas ameaças à paz e à se enidade dos po os indígenas, a p odução
a ís ica ep esen a uma espe ança e uma e amen a de p imá ia impo ância pa a que es es
po os possam se o que que em se e não o que os ou os p e endem que sejam. A lu a pela
de esa dos di ei os e das libe dades dos po os indígenas é a lu a pa a um mundo melho , onde
“caibam muchos mundos”, um mundo onde odos os se es i os possam i e em ha monia e
em paz, no “bien i i ” cole i o.
“Po que, pa a quem e como esc e em os po os indígenas?” é a pe gun a que mo i ou
es a disse ação. Os po os indígenas esc e em pa a esis i , pa a exis i , pa a jun a as
possibilidades que a esc i a p opo ciona com as adições o ais g aças às quais consegui am
ep oduzi as p óp ias cul u as a é os nossos dias, não obs an e o genocídio, o e nocídio e o
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