T abalho de P ojec o ap esen ado pa a cump imen o dos equisi os
necessá ios à ob enção do g au de Mes e em An opologia – Cul u as Visuais
NEM TUDO É MECÂNICO:
A cons ução de classe a a és das sociabilidades ope á ias
(Documen á io)
Filipe da Sil a Ca alho
Filipe da Sil a Ca alho
Janei o de 2017
T abalho de P ojec o
Mes ado em An opologia – Cul u as Visuais
Filipe Ca alho / NEM TUDO É
Mecânico / Janei o de 2017
T abalho de P ojec o ap esen ado pa a cump imen o dos equisi os necessá ios à
ob enção do g au de Mes e em An opologia – Cul u as Visuais ealizado sob a
o ien ação cien í ica de Paula Godinho e co-o ien ação de Sónia Fe ei a
NEM TUDO É MECÂNICO: a cons ução de classe a a és das
sociabilidades ope á ias (Documen á io)
Filipe Ca alho
RESUMO: Nem udo é mecânico, acompanha o quo idiano ope á io na Di isão de
Mecânica do A senal do Al ei e SA. A a és do con ex o labo al diá io, a pe ícia
écnica e as elações sociais, o documen á io p ocu a obse a as sociabilidades
exis en es no chão da áb ica e e le i sob e a sua impo ância na cons ução de classe.
Pa a além do ilme, a componen e esc i a disco e sob e a memó ia ope á ia naquele
es alei o e sob e o p esen e obse ado sem câma a, que con ibuem da mesma o ma
pa a a ca ac e ização daquele cole i o ope á io e pa a a sua cons ução de classe.
ABSTRACT: Nem udo é mecânico, ollows he wo ke s om Di isão de Mecânica o
A senal do Al ei e SA in hei e e yday li es. Th ough he daily-wo k con ex his
documen a y seeks o obse e he sociabili ies which exis in he shop loo in o de o
e lec abou he impo ance o hese in he making o he wo king-class, based on he
echnical expe ise and social ela ionships. Besides he ilm, he w i en pa alks
abou he wo ke s memo y and social p esen , which was obse ed wi hou came a on
ha shipya d, bu which con ibu e o he desc ip ion o his wo ke s collec i e and i s
making o wo king-class alike.
PALAVRAS-CHAVE: sociabilidades, abalho, ope á ios, indús ia, Almada, classe
ope á ia, chão da áb ica, an opologia isual, documen á io
KEYWORDS: sociabili ies, wo k, wo ke s, indus y, Almada, wo king-classe, shop
loo , isual an h opology, documen a y
Índice
In odução 5
1 – Enquad amen o eó ico do A senal do Al ei e 12
1.1 - His ó ia (alguma) do A senal do Al ei e 12
1.2 - Os A senalis as na his ó ia 16
1.3 - Ca ac e ização do A senal do Al ei e SA 21
2 - Discu sos sob e a memó ia 23
2.1 - Da noi e escu a à al o ada de Ab il 27
2.2 - A senalis as no egime democ á ico 31
2.3 - Con e são do es alei o em sociedade anónima 37
3 - Me odologia, p ocessos e di iculdades 40
3.1 - A Di isão de Mecânica (ou a ca ac e ização da o icina de mecânica) 40
3.2 - A minha chegada e a elação com os di e sos g upos o icinais 41
3.2.1 - O con olo pessoal à en ada 41
3.2.2 - p imei os con ac os, abo dagem e acolhimen o nas di e en es di isões 43
3.2.3 - a es adia sem câma a: obse ação das o inas, das in e ações 47
3.2.4 – A impo ância de es a 47
3.2.5 - As o inas (p imei a pa e) 50
3.2.6 – Almoço 52
3.2.7 – As o inas (segunda pa e) 57
3.2.8 – Os mes es ( elação com os ope á ios) 60
3.2.9 – Os neó i os 63
3.2.10 – A e amen a e o ges o 68
3.2.11 – Os hobbies 70
3.3 - A possibilidade de um ilme e as limi ações do abalho soli á io 72
3.3.1 - Su gimen o da câma a e a necessidade de uma no a eap oximação 73
3.3.2 - Relação dos ope á ios com a câma a 79
3.3.3 - O Almoço (os jogos e o e ei ó io) 81
3.3.4 - Cap a as sociabilidades dos ope á ios: in e i ou não in e i ? 84
3.3.5 - Limi ações écnicas e humanas 87
4- Da o ma ao eal 90
4.1 - O P ocesso: espos as e dú idas da mon agem 91
4.1.1 – Visionamen o das Rushes 91
4.1.2 – O p ocesso de seleção: cons ução da na a i a 93
4.1.3 - As sociabilidades implíci as na imagem e no som 99
5 - As sociabilidades, a cons ução de classe: o ilme pa a a e lexão inal 103
6 – Fon es e Bibliog a ia 109
In odução
Quando iniciei a equência no Mes ado em An opologia, na e en e de
Cul u as Visuais, na minha men e es a a escla ecido qual se ia o obje o inal de ese:
um documen á io. No momen o em que ing essei no ensino secundá io, com a in enção
de equen a um cu so de mecânica e manu enção indus ial, pensa a que se ia esse o
caminho que i ia ilha na minha ida, abalha na indús ia. Pa a além de não me
iden i ica com o ambien e labo al (os espaços ab is ob igam a uma ans o mação
iolen a do indi íduo. Es es luga es não o am idealizados pa a se em habi ados po
pessoas, a ma e ialidade do espaço, os sons, são b u almen e epulsi os), o c escen e
in e esse po ou as á eas p o issionais e a ís icas ez-me abandoná-lo. Con udo, apesa
de e bem p esen e que aquele ambien e o icinal e ab il é desumanizado, o ascínio
pela mes ia ope á ia e pela his ó ia comba i a da classe ope á ia man i e am-se
semp e p esen es na minha ida.
Nos momen os em que e le ia sob e o meu ema de pesquisa e a possibilidade
des e se ma e ializa num ilme, o ema ope á io apa ecia equen emen e. Sen ia que
es a e a a opo unidade de ealiza um ilme, in eg ado num p oje o de pesquisa e
e lexão, que pudesse se ime si o na ealidade ab il onde op asse po execu a o meu
abalho de campo. Sen ia que es a a a echa um ciclo no meu pe cu so biog á ico.
Aquela expe iência ab il, que pa a mim semp e e e uma u ilidade p á ica eduzida,
o nou-se na cha e pa a que eu conseguisse es a em ela i a anquilidade naquele
ambien e. Aquele en ou age não e a desconhecido, os sons, os chei os, os
equipamen os, udo e a amilia (mesmo endo sido semp e uma nulidade écnica,
eo icamen e conheço os equipamen os). Reg essa a um espaço indus ial, na condição
de in es igado /cineas a, e e um signi icado especial, pois es a oi, al ez, a o ma que
semp e desejei es a in eg ado num mundo ab il.
No en an o, apesa de “ope á ios” pode , po si só, cons i ui um ilme, não me
in e essa a abo da a memó ia (baseando-me em en e is as e a qui os) nem ampouco
di eciona -me no sen ido do ges o écnico. Que ia o p esen e. Obse a o p esen e
pe mi i ia dialoga com a memó ia indi e amen e, pode ia c ia o p óp io p ocesso
e lexi o en e quem ê e o obje o isual (pela memó ia cole i a em di e sas egiões
es a imp egnada de ope á ios, a busca a i a po no os dados memo abilís icos pode se
pa e desse p ocesso). De ido ao p esen e, decidi oca -me nas elações humanas no
chão da áb ica, nas sociabilidades que se azem e se des azem en e os ope á ios e que
c iam um sen imen o de pe ença a um g upo, al ez a uma classe. Quando decidi o
ema, ence ei um p ocesso de ap oximação a di e sos luga es indus iais. Decidi que
que ia ap oxima -me da indús ia pesada, me alo-mecânica. Con ac ei a Side u gia
Nacional SA e nunca ob i e espos a (mesmo após á ios ele onemas e deslocações aos
esc i ó ios da emp esa). No pa que indus ial da side u gia encon am-se ou as
emp esas que p es am se iços indus iais à Side u gia Nacional SA. Nesse sen ido, e
de ido à p olongada espe a, en ei em con ac o com a emp esa Lusoside , semp e ia e-
mail e ele onicamen e, endo o esponsá el de RH declinado o pedido alegando o
desin e esse do assun o pa a a emp esa.
Po im, endo desis ido da indús ia me alo-mecânica, udo se econ igu ou e
o nou-se, de ce a o ma, mais simples po que inha mais opções. No en an o, o
A senal do Al ei e, que semp e oi uma eal opção, con e eu-se imedia amen e na
p io idade pa a ealiza o abalho de campo. Não inha nenhuma ede de con ac os
p i ilegiada, po isso con ac ei-os de o ma egula e ins i ucional. O A senal do Al ei e,
com a sua p esença impo an e em Almada, desde semp e ez pa e da ealidade da
cidade e do concelho no imaginá io cole i o de uma la ga pe cen agem dos habi an es
de Almada. Mesmo não sabendo nada de conc e o sob e o es alei o, os ca azes que ia
expos os nas uas anunciando ei indicações e as ações de lu a que inha ou ido
ela adas, da am-me a pe ei a noção que e a um local comba i o. A espos a posi i a
do depa amen o de ecu sos humanos chegou no inal de 2015 e a é meados de janei o
de 2016 apenas de inimos qual se ia o empo da minha es adia e as limi ações que e ia
pa a a ealização do meu abalho.
As limi ações que i e de imedia o consis i am na es ição à pe manência na
Di isão de A mamen o e Comba e, pa icula men e no que conce ne à cap ação de
imagens, e a ob iga o iedade de ap esen a o ilme aos elemen os da adminis ação pa a
que possam analisa as imagens e a e igua se o con eúdo es á en ol o em algum
seg edo p o issional, podendo se em al o de espionagem indus ial. (Du an e as
odagens no es alei o, ainda i e a limi ação de acesso aos na ios da ma inha, mais uma
ez, de ido às ilmagens). Depa a -me com es a ealidade ez-me equaciona abandona
o e eno. Não conseguia concebe um abalho com limi ações de imedia o. No en an o,
se nada izesse, mesmo debaixo des as condições, como pode ia da oz e imagem
àqueles abalhado es? Essa ques ão oi impo an e pa a que eu acei asse as imposições.
Con udo, gos a ia de sublinha que não passou po uma on ade de se um agen e
emancipado daqueles ope á ios. A his ó ia daquele es alei o demons a que os
ope á ios nunca necessi a am de agen es ex e nos pa a se mobiliza em e lu a em. A ida
deles con inua ia com ou sem es e abalho de p oje o. P imei amen e, a minha on ade
e a pessoal, pela minha expe iência biog á ica, e po que o uni e so ope á io (assim
como as ques ões elacionadas com o T abalho) oi sendo elegado pa a uma
impo ância meno den o da disciplina.
O ilme desde o início oi o meu p incipal obje o. Sabia que inha de elabo a
uma abo dagem segu a ao e eno an es de começa as odagens mas udo es a a a se
encaminhado no sen ido de sa is aze as necessidades ílmicas. No en an o, como
abo da as sociabilidades den o daquele es alei o, nos momen os de abalho e de
descanso, de um pon o de is a jus o, ou seja, que ansmi isse a ealidade i ida e
con ibuísse pa a a pe ceção da c iação da consciência de classe a a és dessas
in e ações sociais? O cinema obse acional oi a única écnica isual que u ilizei e que
me pa eceu jus a pa a abo da o campo e o ema. Que ia que os pe sonagens i essem
espaço, p osseguissem as suas a i idades e a câma a (eu) espe asse o(s) momen o(s)
pa a cap a a ida a desen ola -se. Realiza um ilme num ambien e ab il, onde os
p ocessos de ab ico não são o ema cen al, é um p ocesso complicado de ido ao
des aque que esses p ocessos acabam po e na imagem. Como descob i a na a i a
ap op iada pa a o ilme?
As expec a i as que inha em o no do documen á io es a am um pouco
in lacionadas. Na minha pe spe i a, cap a as in e ações sociais se ia apenas “apon a a
câma a e espe a ” e a mon agem di -me-ia e/ou da -me-ia a na a i a. Po ém, a
complexidade de ilma essas elações no chão da áb ica de am o igem a um p ocesso
de eposicionamen o e enegociação cons an e com os ope á ios. A ges ão das
expe a i as dos abalhado es e as minhas (pensando nos possí eis espe ado es ambém)
despe a a em mim um cala io quando pensa a no géne o de imagens que que e ia
ob e . Não i e nenhuma espos a an ecipadamen e e à medida que me ape cebia da
exis ência de ope á ios com elações às a es isuais e a equência com que eco em
ao elemó el ( o nando-se p odu o es de imagem, de con eúdos isuais), sen ia que e ia
de se bas an e cla o no sen ido da na a i a pa a que não hou esse equí ocos.
O ilme que esul a des e p ocesso negocial in enso du an e as odagens e de
uma seleção de planos a enciosa, mas que po ezes se o na a desespe an e, p ocu a
demons a , den o das possibilidades limi adas que du an e a mon agem pe cebi que
inha, o encon o da câma a com os ope á ios e as suas in e ações sociais que o nam
possí el a sus en ação dos laços humanos e de classe. Esses laços, são quo idianamen e
ecidos no ambien e labo al, no chão da áb ica, con e endo-se num sen imen o ge al
que pode se pe cecionado pela la ga maio ia, mesmo quando são e idenciadas as
subje i idades elacionais e as posições disco dan es que habi am aquele cole i o
ope á io.
As ciências sociais êm dedicado alguma a enção ao abalho indus ial, com
maio incidência a pa i da década de 80, an o no con ex o ancês como no inglês. Na
e nologia ancesa, os p imei os es udos são le ados a cabo pela Mission du Pa imoine
E hnologique (Flaman & Jeudy-Ballini,2002), de o ma dispe sa, enquan o no con ex o
inglês a cole ânea Social An h opology o Wo k (Wallman,1979) dá o mo e ao no o
campo de es udo da “an opologia do abalho”. No con ex o no e-ame icano, a
an opologia indus ial inicia-se com o es udo El on Mayo na áb ica de Haw ho ne
Wo ks (Illinois, EUA) no inal dos anos 20, que se con e e num caso in e essan e
de ido aos es udos seguin es e e uados nos anos 50 e 60 po Donald Roy, Cla k Ke e
Lloyd Fishe no mesmo local. Na década de 70 Michael Bu awoy emp ega-se na mesma
Haw ho ne Wo ks po onze meses e lança o seu Manu ac u ing Consen (1979). Des a
o ma, es a in es igação é única pela sua possibilidade empo almen e compa a i a, que
pe mi e acompanha di e sas e apas do desen ol imen o capi alis a e a o ma como
in luenciou as elações sociais na p odução.
As ob as de Ma x (1844, 1845, 1865) e de Engels (1845, 1876) abo dam a
condições de abalho e ida dos abalhado es assim como dão início à o mulação
eó ica no que à o mação de classe, alo - abalho, alienação, ci culação de capi al,
en e ou os emas, diz espei o. Pa icula men e nos Manusc i os Económico-
Filosó icos (1844) Ma x eposiciona o abalho como elemen o mediado do se social,
consag ando-lhe um sen ido posi i o pa a ida em sociedade. Tendo em con a a
p incipal p eocupação eó ica des e abalho se basea na o mação e cons ução da
classe ope á ia, a a és das suas sociabilidades, os au o es E.P. Thomson, (1968),
Hogga (1957) e S ua Hall (1997), pe mi em inse i a dimensão social da cons ução
de classe o a da es e a da p odução. Nes e ema Engels deu igualmen e um con ibu o
Ab il, o iciais da Ma inha e uncioná ios ci is nomeados pelo an e io egime, são
a as ados da ges ão do A senal do Al ei e e são eadmi idos abalhado es despedidos
po oposição ao Es ado No o. A 21 de junho de 1974 assume a p esidência do Conselho
de Adminis ação o capi ão-de-ma -e-gue a Joaquim A onso. Ao longo de 1975, os
luga es de di eção do es alei o começam a se p eenchidos e uma si uação de
no malidade ai-se ins alado.
A pa i dos anos de 1980, inicia-se o p ocesso de ees u u ação do es alei o,
desacele ando o sec o da cons ução e colocando ên ase nas epa ações na ais. De ido
ao choque pe olí e o de 1979, a c ise mundial ez-se sen i nos di e sos sec o es da
indús ia, po se encon a em dependen es do pe óleo. No que espei a ao es alei o, as
necessidades mili a es o am sendo colma adas na sua quase o alidade. No en an o,
como não exis ia um p og ama de cons uções na ais, a qualidade da mão-de-ob a e a
a e ada e a pe spe i a do es alei o em desempenha essa unção ap esen a a-se ince a.
A adminis ação ocou-se em dois obje i os: man e a ope acionalidade dos na ios da
Ma inha e ape echa o es alei o de meios écnicos e pessoais pa a assis i em às no as
aga as da classe “Vasco da Gama”. No en an o, de o ma con inuada mani es ou
in e esse pela cons ução de no as emba cações po que, dessa o ma, pode ia ge a
mais conhecimen o écnico e melho a a e iciência das epa ações.
No ano de 1989, o A senal do Al ei e comemo ou 50 anos de exis ência em
Almada, le ando o município dessa cidade a jun a -se às comemo ações e, como o ma
de celeb a a e emé ide, oi inaugu ada uma a enida na eguesia do Feijó
4
. Nesse
mesmo ano, os abalhado es do A senal, exigem que o sindica o dos Es abelecimen os
Fab is das Fo ças A madas, STEFFAs, seja econhecido após 15 anos de ei indicação
desse di ei o cons i ucional. Ao longo desse ano, o am ainda cons uídas algumas
lanchas ápidas, que ajuda am a e i aliza o sec o da cons ução.
Em 1991, inicia-se o p ocesso de es udo sob e a ees u u ação do A senal do
Al ei e, en e ou os es abelecimen os ab is, le ado a cabo pela Inspeção Ge al de
Finanças e pela Lisconsul . Ao longo desse ano, deco eu o es au o da aga a D.
Fe nando II e Gló ia, a a és de um p o ocolo celeb ado en e a Ma inha e a Comissão
Nacional pa a as Comemo ações dos Descob imen os Po ugueses. A emba cação
es au ada oi en egue no ano de 1998 pa a pa icipa na Expo 98, sendo
pos e io men e es acionada em Cacilhas, con e endo-se em na io-museu. Pa a esse
4
A ualmen e designa-se União das F eguesias La anjei o - Feijó
abalho, são e e uadas pesquisas his ó icas pa a que o es au o deco esse sob p ocessos
an igos de ab icação e as peças pe manecessem semelhan es às o iginais, man endo,
dessa o ma, o espí i o da aga a. Regis a-se ainda a condeco ação em 1990, pelo
P esiden e da República, do A senal do Al ei e, com a insígnia de Memb o Hono á io
da O dem de Mé i o Ag ícola e Indus ial. Vol idos 17 anos, em 2007, a CM Almada
a ibui ao es alei o a Medalha de Ou o da Cidade de Almada.
Ao longo das úl imas duas décadas, o A senal do Al ei e oi in eg ado na
o gânica da Ma inha, acon ecimen o que não nu iu o e ei o desejado ao ní el da
mudança na o ganização, acabando po ica um pouco mais es ingida a sua
au onomia adminis a i a. No seguimen o dessa ees u u ação, em 2009 é dec e ada a
ex inção do A senal do Al ei e
5
, con e endo-o em A senal do Al ei e SA, com is a à
sua emp esa ialização. Es e momen o de iniu-se como um momen o decisi o pa a o
A senal do Al ei e, co espondendo a uma no a ase na longa ida do es alei o, que
alguns a senalis as apelidam mesmo de “no o A senal”, po que o “ elho” não e a uma
sociedade anónima mas um o ganismo i o.
1.2 - Os A senalis as na his ó ia
A capacidade ei indica i a e o ganiza i a dos a senalis as emon a aos
p imó dios da ins i uição, denominada ainda A senal da Ma inha. Essa o ganização,
apesa de pouco documen ada, me ece algum des aque em de e minados momen os de
exceção e de in e são da o dem igen e.
Segundo documen ação
6
, em 1829, du an e o pe íodo miguelis a, os
abalhado es o ganiza am uma g e e pa a ei indica os salá ios em a aso. Pa a
alcança os seus in en os, o ganiza am um des ile pelas uas de Lisboa e segui am a é ao
palácio de Queluz, endo conseguido que dois delegados ossem ecebidos po D.
Miguel. Du an e os con on os en e absolu is as e libe ais, os abalhado es do A senal
da Ma inha pa icipa am a i amen e na e ol a Se emb is a. Nessa al u a, os
a senalis as in eg a am a milícia: Ba alhão dos A í ices do A senal. Essa milícia
o mou-se de ido à o ganização sec e a que di e sos abalhado es equen a am,
5
Dec e o-Lei nº 32/2009 de 5 de Fe e ei o
6
Polica po, e Flo es (1998), A senal do Al ei e: Con ibuição pa a a His ó ia da Indús ia Na al em
Po ugal, J.F. La anjei o
denominada Falcoa ia, ap esen ando-se como um egula clube de ope á ios. Es a
milícia e a a ala mais adical do Se emb ismo e começa am a se denominados
a senalis as odos aqueles que dela e am o iundos. Mais a de, du an e o go e no de
Cos a Cab al começa am a nomea -se ana quis as os pa idá ios des a milícia. Apesa
do apelido a senalis a e o igem em meados dos anos 30 do século XIX, ainda hoje
se e como o ma de se au odenomina em odos os ope á ios que abalha am ou
abalham no A senal, enal ecendo semp e o espí i o a senalis a que po oa aquele
es alei o e in luencia cada abalhado .
Nesse empo de pe manência em Lisboa, exis iu uma coope a i a de consumo de
nome Coope a i a Fab il Na al, que oi undada ap oximadamen e em 1917, exis indo
a hipó ese de e sido an e io men e
7
. Na senda de p ese a esse espí i o a senalis a,
oco eu a ap o ação, em 1940, dos Es a u os da Associação de Soco os Mú uos do
Pessoal dos Es abelecimen os Fab is da Ma inha, sucedendo à Associação de Soco os
Mú uos Auxilia da O icina de Ca pin ei os de B anco A senal da Ma inha, de 1894
que, po sua ez, subs i uiu a an e io Caixa de Soco os da O icina de Ca pin ei os de
B anco A senal da Ma inha, undada em 1874. Es a no a Associação de Soco os
Mú uos inha a sua sede no edi ício da o icina dos ca pin ei os de b anco
8
. Es a a i ude
solidá ia disseminou-se pelas di e sas o icinas a a és das denominadas caixas
ope á ias. Como o ma de exempli ica a disseminação des e apoio mu ualis a,
o ganizado e ge ido pelos ope á ios, exis iam, en e ou as caixas, a Caixa da O icina de
Se alha ia, a Caixa dos Ope á ios das O icinas de Cons ução Na al de Fe o e
Soldadu a, a Caixa de Auxílio Mú uo das Elé icas
9
. Sendo p a icamen e impossí el
abandona o elemen o con es a á io público, a Caixa da O icina de Se alha ia Ci il
passou a denomina -se a pa i de 1960, Caixa Fo a com os Pa asi as.
De ealça a exis ência do jo nal O Eco do A senal, ó gão do Sindica o do
Pessoal do A senal da Ma inha e Co doa ia Nacional, pos e io men e pe encendo
apenas ao Sindica o do Pessoal do A senal da Ma inha, ade indo em 1923 à
In e nacional Sindical Ve melha. Nes e ó gão de comunicação, o ope á io Ben o
Gonçal es o nou-se o seu eda o p incipal em 1928, sendo elei o no ano seguin e
como p imei o sec e á io-ge al do PCP. O jo nal e e publicação a é 1933, ence ado
7
Ibidem
8
São denominados des a o ma os ca pin ei os esponsá eis pelo mobiliá io do na io. Po oposição aos
ca pin ei os de machado, que cons uíam e epa a am as emba cações em madei a
9
T ansc ição do egulamen o da Caixa de Auxílio Mú uo das Elé icas, Ibidem,161
após a ep essão policial o iginada pela ascização dos sindica os, sendo e omada a sua
publicação após o 25 de Ab il, num núme o especial.
Ul apassados os momen os con u bados iniciais, deco en es da ans e ência
pa a Almada, pa icula men e no que conce ne à admissão de abalhado es no A senal
do Al ei e, os a senalis as começa am a o ganiza -se em o no de di e sas a i idades.
Em meados do ano de 1947, exis ia uma caixa de enda de p odu os de higiene pessoal
na O icina de Cons uções Na ais de Fe o, exis indo ou a semelhan e na O icina de
Ca pin ei os de Machado. Essa caixa inha a denominação de Es ela Ve de, que se ia
de inanciamen o das a i idades do MUD Ju enil no A senal do Al ei e de o ma
clandes ina, especialmen e as lições de espe an o. Exempli icando essa a i idade ocul a,
des aca-se a manei a como ci cula am as lições semanais de espe an o, onde os
esponsá eis pela caixa anuncia am que ha ia sabone es pa a enda; no en an o, no
in e io de cada um, encon a a-se a no a lição semanal dessa língua. Con udo, em
i ude da in ensa ep essão do MUD Ju enil ao longo dos anos seguin es, oda a sua
o ganização acaba ia po sucumbi .
As biblio ecas das di e sas o icinas do A senal do Al ei e cons i uem um mo i o
de g ande o gulho dos abalhado es. Pa a que osse pe mi ida a consul a e alugue de
li os, os ope á ios inham de se associa à biblio eca da sua o icina, pagando uma
quo a mensal que se ia pa a a aquisição de no os li os. Como o ma de comp eende
a impo ância desses o ganismos, ci am-se as biblio ecas cons i uídas: Biblio eca dos
Ope á ios da Cons ução Na al e Soldadu a, Biblio eca dos Ope á ios da O icina de
Se alha ia Ci il, Biblio eca dos Ope á ios da O icina de Repa ações e Cons uções
Elé icas
10
e a Biblio eca dos Ope á ios da O icina de Se alha ia e Mon agem / O icina
de Mecânica. Pos e io men e à Re olução de 25 de Ab il de 1974, c ia am uma
biblio eca acessí el a odos os uncioná ios do A senal do Al ei e chamada Biblio eca
Ben o Gonçal es
11
. As biblio ecas e am ge idas po Comissões elei as pelos sócios,
deba endo em Assembleias Ge ais os Es a u os e demais ques ões elacionadas com o
uncionamen o. Dia iamen e, as biblio ecas unciona am, eg a ge al, no ho á io de
almoço: das 12h30 às 13h15 ou das 13h30 às 14h15. Du an e es e pe íodo, os sócios
podiam consul a li os e e e ua as equisições e de oluções, assim como algumas
e úlias, ensina a le e a esc e e , ajuda a melho a os conhecimen os dos ap endizes e
10
Ibidem,193
11
Ibidem,193
joga xad ez. Não obs an e a ixação des e ho á io, e a pe mi ido a consul a de li os
écnicos du an e o pe íodo labo al. Segundo egis os, o espólio da biblio eca da O icina
de Soldadu a, Cons ução Na al de Fe o e Sala do Risco na década de 90 onda a os
1540 í ulos, ab angendo li e a u a écnica, enciclopédias, en e ou os li os de au o es
po ugueses e es angei os. Con udo, apesa da impo ância his ó ica e social pa a os
abalhado es, as biblio ecas a pa i dos anos 80 inicia am um longo p ocesso de
declínio, culminando com o ence amen o em 2009, na ansição do A senal do Al ei e
pa a Sociedade Anónima.
His o icamen e, os abalhado es do A senal, an o da Ma inha como do Al ei e,
semp e i e am uma capacidade o ganiza i a e ei indica i a ele ada. Cons i uí am o
Sindica o do Pessoal do A senal da Ma inha, que oi dissol ido em 1933. Mesmo
du an e o pe íodo do Es ado No o, os a senalis as le a am a cabo di e sas euniões
clandes inas e ações ei indica i as. Após di e sos anos de con es ação, acei a am
pe ence à Comissão de Emp esa, elegendo os ep esen an es do Pessoal Assala iado
Fab il, que se iam indigi ados, assim como as es an es comissões, pelo adminis ado
do A senal. Essa Comissão apenas uncionou em 1973, sendo subs i uída em 1974 pela
Comissão de T abalhado es. O p ocesso elei o al al e ou-se subs ancialmen e,
ealizando-se anualmen e a eleição dos memb os da Comissão de T abalhado es do
A senal do Al ei e (CTAA), bem como das Comissões de O icinas e Se iços (COS),
que elegiam os ep esen an es de cada o icina e se iço pa a a CTAA. Em 1980, al e a-
se a o ma de cálculo dos o os e ado a-se o mé odo de Hond , su agando-se as
di e sas lis as ap esen adas a esc u ínio, que maio i a iamen e se cono a am com o
PCP, UDP e PS mas, des a o ma, ab iu-se a possibilidade das di e sas lis as e em
ep esen a i idade na CTAA. Regis a-se, em 1993, no a al e ação da cons i uição das
lis as, endo sido aco dado en e as di e sas o mações polí icas a c iação de uma lis a
que se denomina a Unidade.
Um dos di ei os alcançados com a Re olução de Ab il de 1974 oi a
possibilidade dos abalhado es se o ganiza em sindicalmen e. No en an o, no A senal
do Al ei e, os abalhado es i am-se con on ados com essa impossibilidade, pela
insis ência do pode polí ico em ad oga a incompa ibilidade de exis ência de sindica os
den o das Fo ças A madas. Somen e em 1989, após a iadas ações de lu a,
inclusi amen e a de enção de di igen es sindicais dos Es abelecimen os Fab is das
Fo ças A madas, em 1986, en e à esidência o icial do P imei o-Minis o, os di ei os
sindicais são o icialmen e econhecidos e publicados os es a u os do Sindica o dos
Es abelecimen os Fab is das Fo ças A madas.
A ida dos a senalis as não se ci cunsc e ia aos limi es do es alei o. A abe u a
do A senal do Al ei e na ma gem sul do Tejo p o ocou uma aga mig a ó ia acen uada,
an o de mili a es como de abalhado es ci is e suas amílias. Toda essa ixação de
no as pessoas p o ocou uma al e ação na ida associa i a das eguesias ci cundan es à
Base Na al, ais como: Co a da Piedade, Feijó, La anjei o, Almada, en e ou as. A
demons ação desse en ol imen o associa i o encon a-se, po exemplo, no ela ó io de
es ágio de Dulce Simões(2005)
12
, onde es á e e ido o caso da Coope a i a Piedense
que, a é à década de 40, oi di igida po ope á ios(as) co icei os(as) de inspi ação
ana co-sindicalis a mas, após o declínio da indús ia co icei a e a consequen e pe da de
ele ância social e polí ica, os ope á ios na ais, p incipalmen e os abalhado es do
A senal do Al ei e, começa am p og essi amen e a in eg a a ida di e i a e
o ganiza i a da coope a i a. Segundo os a qui os disponí eis
13
, co obo a-se a
pa icipação na ida polí ica po uguesa dos abalhado es do A senal, des acando-se,
como exemplo, o assal o ao qua el do Regimen o de In an a ia 3, em Beja, que oco eu
no ano de 1960 e oi lide ado pelo gene al Humbe o Delgado, endo pa icipado nesse
comando ci is e mili a es, en e eles di e sos a senalis as, o iginá ios de di e sas
especialidades p o issionais.
His o icamen e, os ope á ios do A senal do Al ei e, nunca se apa a am da
ealidade social e polí ica que o país oi passando. Po esse mo i o, semp e exis i am no
seio do ope a iado a senalis a agen es a i os que con ibuí am pa a a o ganização
ope á ia den o do es alei o mas ambém pa a uma pa icipação a i a na ida social que
se oi i endo em Po ugal nos séculos XIX e XX.
12
Simões, Memó ias e Iden idades da Coope a i a de Consumo Piedense,2005
13
Polica po, e Flo es (1998), A senal do Al ei e: Con ibuição pa a a His ó ia da Indús ia Na al em
Po ugal, J.F. La anjei o,178
1.3 - Ca ac e ização do A senal do Al ei e SA
O A senal do Al ei e SA iniciou a sua a i idade a 1 de Se emb o de 2009 com
um núme o o al de 683 uncioná ios
14
. No mês de Fe e ei o de 2016, o núme o o al
e a de 521 abalhado es, incluindo pessoal mili a em unções no A senal do Al ei e
SA. A es e o al, pode-se ac escen a a médica que se encon a em egime de p es ação
de se iços. No mês em que es i e a ealiza o meu abalho de campo o am
con a ados no e ope á ios que no momen o em que i e acesso aos dados ace ca da
população do A senal do Al ei e não se encon a am con abilizados pa a e ei os de
e e i o ope á io.
De seguida i ei enume a o o al de abalhado es que se encon am em cada
Di isão do A senal do Al ei e SA:
Ó gãos sociais – 3 adminis ado es
Di isão de Comunicações e Comba e (DCC) – 70
Di isão de Comunicação e Ma ke ing (DCM) – 1
Di isão de Con a ualização e Comp as (DCO)- 12
Di isão de Es u u as e Ap es amen os (DEA) – 101
Di isão de Ele icidade e Elec ónica (DEE) – 37
Di isão de Es udos e P oje os (DEP) – 12
Di isão de Ges ão Financei a (DGF) – 6
Di isão de Ges ão de Recu sos Humanos (DGH) – 22 (inclui pessoal da po a ia e
se iço de apoio ge al: pos o de saúde e limpeza)
Di isão de Ges ão de P oje os (DGP) – 12
14
Rela ó io e Con as 2009: h p://www.a senal-al ei e.p /downloads/ ile28_p .pd
Di isão de Mo imen ação e Ca enagens
15
(DMC) – 59
Di isão de Mecânica (DME) – 133
16
(Caldei a ia de ubos e mecânica)
Di isão de Planeamen o e O çamen ação (DPO) – 12
Di isão de Tecnologias de In o mação (DTI) – 7
(Di isão) Gabine e de Qualidade e Segu ança (GQS) – 6
Di eção Técnica (DT) – 2 (Di e o e écnico)
(Dependência do di e o ) Di eção de Recu sos – 7 (di e o , sec e á ia, gabine e ju ídico
e cen o de documen ação)
Di eção de P odução (Tem na dependência os labo a ó ios) – 19 (di e o - 2 /
Labo a ó io:17 SELQ)
15
Es u u as ou elemen os que se em pa a o imiza a deslocação do na io na água, o nando-o luído.
P incipal p eocupação é o o ma o hid odinâmico. h ps://p .wikipedia.o g/wiki/Ca enagem
16
Quando em Se emb o de 2016 me disponibiliza am mais dados ela i os a es a Di isão inha deco ido
um dec éscimo de abalhado es, si uando-se em 126 abalhado es.
2 - Discu sos sob e a memó ia
Inicialmen e, quando comecei a planea o abalho de campo e a e le i ace ca
da abo dagem me odológica ao meu ema e ao e eno, não inha p oje ado uma
abo dagem ele an e à memó ia indi idual e cole i a. A ap oximação que inha
planeado passa a exclusi amen e pelas con e sas in o mais com os ope á ios no
es alei o, sob uma pe spe i a explo a ó ia da memó ia indi idual e cole i a, que me
pe mi isse comp eende ligei amen e melho o chão que pisa a, ap eendendo as
di e enças sociais que o am oco endo no seio daquele cole i o ope á io e obse a e
egis a o p esen e. Con udo, abo da um es alei o como o A senal do Al ei e que em
uma longa his ó ia, eque um posicionamen o mais a en o ao abalho da memó ia.
Essa omada de consciência oco eu ao longo do pe íodo de espe a que i e de passa
pa a ecebe a au o ização de pe manência no es alei o. Nesse momen o, comecei
a i amen e a p ocu a an igos e a uais ope á ios que me pe mi issem c ia um quad o
his ó ico alice çado nessas memó ias indi iduais, auxiliado pela lei u a do único li o
exis en e sob e a his ó ia do es alei o (esc i o em colabo ação com um an igo ope á io)
“A senal do Al ei e: Con ibuição pa a a His ó ia da Indús ia Na al em Po ugal” de
An ónio Polica po e An ónio Flo es e de alguns bole ins in o ma i os da Comissão de
T abalhado es do A senal do Al ei e a que i e acesso na Casa do Pessoal do A senal do
Al ei e. Gos a ia de salien a a impo ância que a Casa do Pessoal do A senal do Al ei e
e e no acesso a an igos e a uais ope á ios e a alguma documen ação, assim como a
con iança deposi ada nes e abalho que p opo cionou uma maio ece i idade da
adminis ação e do depa amen o de ecu sos humanos a es e abalho de p oje o.
De ido a essa p oximidade a que i e acesso na Casa do Pessoal do A senal do Al ei e,
consegui en a em con ac o com cinco an igos ope á ios, um ope á io que ainda se
man em no es alei o e um an igo uncioná io adminis a i o.
Pa a a ealização das en e is as com esse g upo op ei po uma o ma não
di e i a, deixando os in e enien es des aca em o que lhes pa ecia mais ele an e. No
en an o, nas es an es sessões que i emos man i e ligei amen e o o ma o mas com
maio a enção a alguns emas, deb uçando-nos mais p o undamen e sob e eles, o que
pode ia se assumido como uma en e is a semi-di e i a mas nem semp e acon eceu
dessa o ma. Des e conjun o de abalhado es, um e o mou-se há ce ca de 20 anos, dois
e o ma am-se após a passagem do es alei o a sociedade anónima, ou o ainda abalhou
ce ca de ês anos no es alei o após a passagem a SA endo-se e o mado en e an o, um
pediu ans e ência pa a ou o se iço do Es ado e, po im, um úl imo que decidiu
man e -se no es alei o, mesmo após es e p ocesso. O ex- uncioná io adminis a i o
e o mou-se igualmen e no momen o da con e são em sociedade anónima. Po se a a
de um p ocesso explo a ó io e não e acesso p i ilegiado a qualque abalhado , a
escolha po es e g upo de pessoas não incidiu em nenhuma ca ac e ís ica pa icula .
Demons a am-se apenas disponí eis em pa icipa nas con e sas (in) o mais que decidi
ealiza , com is a à minha p epa ação pa a o abalho de campo. Es e g upo acabou po
e uma pa icula idade que inicialmen e in luenciou a abo dagem aos emas sociais no
A senal do Al ei e po que odos pe ence am, em algum momen o, à Comissão de
T abalhado es e inham (alguns ainda êm) com maio ou meno g au, ele an e
a i idade polí ica. Dessa o ma, a cons ução das memó ias indi iduais es e e semp e
anco ada nesse espí i o a senalis a, comba i o e a i o, enal ecendo “o ope á io” do
A senal do Al ei e. Com os ex- abalhado es que i e a opo unidade de con e sa mais
do que uma ez, pe mi iu-me acede a ou as camadas da memó ia que cada um inha,
po que os a os he oicos e de excelência (pa icula men e no que diz espei o à
capacidade in en i a e o ganiza i a) po oa am em exclusi o as na a i as da memó ia,
c iando a ideia de um cole i o em comple a sin onia e uni icado.
Na p imei a con e sa que ealizei com cada um sepa adamen e, em alguns
momen os e a pe ce í el que hesi a am e pesa am as pala as an es de esponde em e a
na a i a que se encon a am a ( e)memo a e a ( e)cons ui seguia semp e num
sen ido posi i o. Po esse mo i o agendei no as con e sas com es es elemen os. Com
dois ex-ope á ios i e a opo unidade de ealiza ês con e sas, duas com dois ex-
ope á ios e uma única com ou os dois elemen os.
Nas es an es opo unidades que i e pa a con e sa com os in e enien es
o am-se o nando mais e iden es a “mágoa” e o descon o o que aqueles ope á ios
sen iam em elação à eduzida pa icipação de alguns abalhado es do es alei o
(segundo me ape cebi, o núme o ainda se ia ele ado) das decisões cole i as e lu as
a adas, começou a su gi . A nossa elação baseou-se semp e na mú ua con iança, o
que nos pe mi iu c ia alguma cumplicidade e luidez na con e sa, de ido, em ce a
medida, ao A senal do Al ei e se uma peça cen al na ida des es abalhado es, pelo
que se demons a am imedia amen e sensibilizados em elação a es e abalho po
p e ende es uda e ace ca -se da ealidade labo al no es alei o, suas his ó ias e seus
2.2 - A senalis as no egime democ á ico
A ansição pa a o egime democ á ico oi i ida com eu o ia no es alei o que
ambém, em alguns momen os, degene ou numa lu a polí ica in ensa en e os di e sos
g upos polí icos. O PCP e a a o ça hegemónica no A senal do Al ei e, de ido à sua
o ganização ao longo das décadas.
“O 25 de ab il eio aze uma no a ealidade. É que an es do 25 de ab il nós é amos odos an i ascis as e
depois do 25 de ab il nós não é amos odos comunis as. Po que pa a se an i ascis a não e a p eciso se
comunis a, pe cebemos o que eu que o dize ? Quando u es ás a lu a con a o ascismo as pessoas não
dizem: “sou comunis a po isso sou an i ascis a”. As pessoas e am con a o ascismo, e am lu ado es
an i ascis as. Depois do 25 de ab il, e sabes pe ei amen e bem que an es do 25 de ab il o PCP inha uma
o ça hegemónica no mo imen o ope á io, po quê? Po que os seus melho es homens lu a am pela
de esa...lu a am con a o ascismo e de am a ida, o am p esos, mas não o am só as pessoas do PCP que
o am p esas. Eu i e um io que e a ana co-sindicalis a (e) que es e e uma quan idade de anos p eso, e a
an i ascis a e não e a comunis a.”
“[como é que se aduzia no quo idiano?] T aduzia-se no quo idiano....algumas pessoas do PCP, que não
e am os di igen es do PCP, não comp eendiam po que é que não e am odos do PCP, “epá, es a mal a,
po que é que não é udo PCP?”. E am eacioná ios (quem não e a do PCP), “epá, a mal a não é do PCP
po que a mal a lu ou pa a se libe a do ascismo e ago a a mal a é do que quise . Uns são do PCP, ou os
não são. Po que a democ acia é ei a de á ias componen es” e is o da a o igem a discussões
absolu amen e desgas an es. Ainda po cima com uma endência, an o de um lado como do ou o, da
gen e que e con ence o ou o em meia ho a.”
“(…)a g ande o ça o ganizada oi semp e o Pa ido Comunis a, já es a a o ganizada an es do 25 de ab il,
supe o ganizada. Que dize , quando se dá o 25 de Ab il eles oma am con a da lu a polí ica den o do
A senal. Simples. Não e a...não oi su p esa pa a ninguém. Fo am demasiado du os, não de iam e sido.
Fo am demasiado du os. (…) Fal a am ao espei o às pessoas, não é? Naquilo que é elemen a de se
espei a numa pessoa que é: a opinião, a sua pos u a e o que que da ida. Se eu não pe ence ao pa ido
po que é que me que es ob iga a pe ence ao pa ido? Po exemplo. Po não pe ence ao pa ido po que
é que de o e menos p i ilégios do que ocês? Po exemplo. É lógico que den o duma o icina em que há
á ias pessoas que es ão nas mesmas condições p o issionais e po azões ideológicas são p ejudicadas,
não é jus o. En ão, aí começam as pessoas que es ão a se p ejudicadas a o ganiza em-se de o ma a
comba e esse li e a bí io de pessoas que não êm pode es de exe ce essas p essões mas que as
exe cem.”
“No Pós-25 de Ab il hou e um seccionamen o das pessoas. Comunis as não joga am às ca as com
socialis as, socialis as não joga am às ca as com os do PSD ou do CDS, inham de o ma g upos. E am
sepa ados. Não iam almoça jun os, não se sen a am à mesma mesa. Hou e ali uma sec a ização mui o,
mui o g ande no Pós-25 de Ab il.”
“Pa a o A senal isso oi.... oi con li o a ás de con li o. Nos plená ios en ão....epá, o endiam-se,
chama am-se nomes. Hou e um pe íodo, que eu conside o neg o, den o do A senal, p o ocado pela
polí ica, que oi ge a inimizades. Pessoas que se da am mui o bem o na am-se inimigos igadais....nem
se podiam e . Diziam mal uns dos ou os. C iou-se o “diz que diz”, coscu ilhice... oi um pe íodo mui o
mau, mas p on o...”
Ainda du an e o PREC [P ocesso Re olucioná io Em Cu so] alguns
abalhado es do A senal do Al ei e pa icipa am nas ações p omo idas pela Ma inha e
apoia am, de di e sas o mas, a Re o ma Ag á ia. No seio do A senal do Al ei e, pa a
além das ei indicações que su gi am no sen ido de inc emen a as condições de
abalho, c ia am-se es u u as dinamizadas pelos abalhado es, com pa icula des aque
pa a a secção cul u al e despo i a.
No que conce ne à c iação da secção cul u al e despo i a, um dos ex-ope á ios
e ela as a i idades que o am desen ol endo.
“O A senal inha uma coisa boa ambém, (…), ínhamos uma secção cul u al e despo i a na qual nós
p a icá amos despo o e aziam campeona os in e nos, punham o pessoal a mexe . [Em que ipo de
a i idades é que pa icipas e?] Epá, andebol, u ebol…joga a u ebol no campo el ado, que ainda exis e,
da Ma inha. Basque ebol, a le ismo, po que eles p omo iam p o as de a le ismo, no dia do A senal
p omo iam a i idades despo i as, que com mili a es, que com ci is, in eg a am udo ali. Es ou-me a
lemb a de ação à co da, po exemplo, de um lado os mili a es do ou o os ci is. A le ismo… udo,
udo.”
A pa icipação dos a senalis as não se es ingiu ao es alei o e quise em se
elemen os a i os do p ocesso de ans o mação social que es a a a oco e naquela
época do PREC. Po esse mo i o, pa icipa am na Re o ma Ag á ia, endendo p odu os
o iundos das coope a i as no Alen ejo e Riba ejo den o do es alei o. Pa a além dis o, a
Ma inha disponibilizou au oca os pa a que os ope á ios ossem abalha nessas
coope a i as ag ícolas.
“No A senal, nesse pe íodo, endiam-se p odu os que inham da e o ma ag á ia, endiam-se ali.
Volun a iamen e, abalhado es que assumiam esse abalho olun a iamen e, no inal do dia iam ende ,
ou à ho a de almoço, iam ende p odu os da e o ma ag á ia. Dinhei o que e e ia pa a a e o ma
ag á ia. Vinham camione as aze p odu os, o pessoal comp a a mais ba a o e ajudá amos lá. P on o,
ende is o num es abelecimen o ab il mili a …p on o, só mesmo naquele sí io. Ap o ei á amos as
ci cuns âncias. “
“Nós chegámos a i à Re o ma Ag á ia. E o anspo e e a cedido pela Ma inha, pa a nós i mos pa a a
Re o ma Ag á ia, naquele pe íodo do PREC. (…) Is o e a um pe íodo mui o especí ico. Tudo e a
possí el. Ou seja, digamos, que odos os sonhos e am possí eis. Aquilo e a uma coisa do ou o mundo. “
Alguns ma inhei os, ambém le a am a cabo algumas ações jun o dos ope á ios
do A senal do Al ei e. Segundo os exemplos que o am ela ados, o obje i o e a do a
as pessoas de au onomia, ou seja, desde ap o unda conhecimen os écnicos sob e
mo o es como ao manuseamen o de a mas.
“Nós ínhamos e isso e a quem quisesse….( i-se) is o são os sinais dos empos, is o hoje…con a
is o…(p ossegue) a de e minados dias da semana as secções disponibiliza am quem quisesse, a
de e minados dias da semana, não sei, não e a mui o empo, e a pouco empo, pa a aí duas ho as, pa a não
se igo oso. Íamos a bo do duma daquelas aga as, e ins ução de a mamen o, como é que se
desmancha a uma G3. Naquele aspe o ainda da e olução, ou seja, de da às pessoas conhecimen os
como é que se desmancha a uma G3. E e a ei o pelos ma inhei os.”
Quando se en a na década de oi en a, a agi ação deco ida dos empos i idos
no Pós-Re olução, começa a acalma -se e paula inamen e, o ambien e social ai
mudando. Os es an es ope á ios com quem con e sei en a am no A senal do Al ei e
sem e em uma ede de con ac os p i ilegiados. Pa a a sua admissão i e am de en ega
CV, ce i icados e p ocede a p o as de conhecimen o. Essas edes de elações
p e alece am semp e (mesmo nos dias de hoje elas exis em), mas o am pe dendo um
pouco a sua impo ância no momen o de con a ação.
A Comissão de T abalhado es do A senal do Al ei e oi um elemen o ag egado
das p eocupações e ações dos ope á ios e es an es abalhado es. O papel
desempenhado pela CTAA demons ou-se undamen al nas ações negociais com a
adminis ação do es alei o e ambém, nas ações ei indica i as le adas a cabo pelos
abalhado es. Inicialmen e, a con i ência en e as di e sas posições ideológicas não oi
es á el, es e e sujei a a alguns pe íodos de in ensas discussões e dispu as,
inclusi amen e na de inição das ações de lu a. Não obs an e essa si uação, com a
en ada na década de oi en a em dian e, as elações egula iza am-se e deu o igem a
uma coope ação conjun a, c iando-se lis as uni á ias, endo semp e como p incipal
obje i o, a de esa dos in e esses daqueles abalhado es.
“Nós ínhamos a CTAA, que e a a Comissão de T abalhado es do A senal do Al ei e, e ínhamos as COS,
que e a a Comissão de O icina ou Se iço, ínhamos a CTAA que e a o global, mas depois em cada
o icina ou se iço inha uma comissão o icinal. Ge almen e, es a COS e a esponsá el po ge i o ba , po
dis ibui comunicados. (…) De ez em quando, ha ia os plená ios CTAA e COS. E depois ha ia os
plená ios ge ais de abalhado es que e am di igidos a odos. Depois ha ia os plená ios in e médios onde
se esponsabiliza am as COS de euni com a mal a dos sec o es. Is o inha alguma impo ância po que
pe mi ia à CTAA euni com uma ou ou a COS segundo o assun o.”
“Es as COS, is o depois mais a de começa a complica -se....mais a de, nos anos 90, começa-se a
complica po quê? Po que is o en ol e mui a gen e p o issional e a mes ança começou a eclama . “Epá,
andas lá na eunião da COS e o abalho aqui pa a aze ” e a p óp ia mal a começou a e que “epá, es ou
a epa a o mo o , es ou a epa a a ál ula, enho o eio pa a e i ica . Não posso es a aqui.” E se a
mal a es a a 2 ho as passou a es a 1 ho a e is o ai pe dendo....as COS ão pe dendo o ça e ambém ão
pe dendo al a de alidade, digamos assim.”
No en an o, apesa do papel undamen al da CTAA na dinâmica ei indica i a,
de uma o ma ge al, os abalhado es coloca am o ónus da ação ei indica i a e
negocial exclusi amen e nesses abalhado es que assumi am unções na CTAA,
colocando-lhes uma excessi a esponsabilidade que nem semp e e a pa ilhada pela
maio ia dos abalhado es.
“Após o 25 de Ab il a dinâmica e a ou a. Todos os dias que não hou esse um plená io ou uma
mani es ação não e a dia. Po an o aquilo e a pe manen e. E o a do es alei o. Den o do es alei o a mal a
con inua a a abalha mas semp e numa daquela de a odo o momen o e de sai pa a a ua. É cla o que
depois, aquela mal a mais an iga con inuou a aze pa e das CT, nem odos se p edispunham a isso
po que isso é uma coisa que dá abalho e ob iga-nos a e um ou o ipo de esponsabilidade e mui os
abalhado es não es ão pa a isso. P e e em agua da à somb a do chapéu, mas isso semp e oi assim
como em qualque lado, que possam e algum p o ei o daquilo que os ou os andam a aze , is o é como
nes e caso. Uns saíam….a maio ia não saía ica am lá mas aqueles, sei lá, aqueles 500 que saiam, embo a
aquilo i esse 2000, 2000 e al naquela al u a, mas aqueles 500 que saiam nos au oca os c ia am uma
coisa…lá es á, quem isse aquilo…”es á bem mas a maio ia icou lá, não saí am” a agua da calmamen e
quais os esul ados da coisa. Nunca pe diam nada, inham semp e udo a ganha po que não saiam, não se
expunham, p on o e a só agua da em. “Epá, deu. Nós ambém amos ecebe os lou os da lu a dos
ou os”. Is o é assim, pon o inal. Is o oi semp e assim e e a assim.”
“No A senal, an o se diz mal da adminis ação como se diz mal da CT. As pessoas dizem mal do colega,
dizem mal do che e, mas quando é p eciso esol e algum p oblema, ma ca-se um plená io...são 1600
abalhado es, o p oblema a e a odos depois apa ecem 300 pessoas no plená io....um gajo ica assim:
“Calma! O que se passa aqui é algo de mui o g a e....só 300 pessoas é que es ão in e essadas em esol e
es e p oblema” e mesmo essas 300 pessoas ão ali e que em que seja a CT ou a comissão sindical a
esol e o p oblema que são 4 ou 5. Que em-nos ca ega , sob e aqueles 4 ou 5, a esponsabilidade de
esol e esse p oblema. Vi e-se um pouco esse ambien e no a senal, semp e se i eu. Ti emos plená ios
bons, pós-25 de ab il, não é? Ia oda a gen e aos plená ios...depois oi começando a diminui . Mas os
plená ios.... i emos com 500, 600 pessoas, quando o assun o e a mais g a e e ape a a mais, lá apa ecia
mais gen e não é? A gen e sabia que...na CT an o como na Comissão Sindical, ínhamos que e sangue
io e de ende a causa comum em en e à adminis ação, onde que que osse, ínhamos que nos deba e
de o ma esis en e pa a consegui mos le a os objec i os que que íamos e conseguimos mui a ez.”
“Pode á en e an o ha e algum….é que es as coisas depois as pessoas ão icando mais elhos, não ão
endo já disponibilidade nem o ça anímica nem ísica pa a de e minadas coisas, há que passa o
es emunho a gen e mais jo em. Assim eles quei am. Mas is o le a-nos depois pa a ou a dimensão que é
a agilidade com que as CT e as o ganizações sindicais se depa am po que is o, “ udo bem. Con oca
pa a uma mani es ação, udo bem a gen e ai. Epá mas a gen e p ecisa de mais meios. P ecisamos de i
mais longe”. Mas aí….”já não enho empo, já não posso”. Mas is o é mesmo assim, is o as coisas não
nos caiem do céu. E po an o, es e desin e esse ou não…mas hou e, hou e uma queb a. Tan o depois isso
e le e-se como: em consegui cons i ui uma lis a ou á ias, mas pelo menos uma lis a, pa a cons i ui
uma CT, começa a se di ícil. A pessoa não es á disponí el, não que , mui as ezes não que em não é que
não enham empo, não que em.”
No en an o a CTAA nunca desis iu de cump i a sua unção de de esa dos
in e esses dos abalhado es e oi con inuando o seu abalho jun o dos di e sos
o ganismos que u ela am, di e a e indi e amen e, o A senal do Al ei e. Con udo, pa a
exe ce a p essão necessá ia à esolução do di e endo, necessi a am cons an emen e de
negocia an o com os abalhado es, incen i ando-os a pa icipa em a i amen e, como
com os agen es deciso es o iciais.
“En ão nes es úl imos….90…96 -2006/2007. O ambien e e a bom. A é po que se cons i uiu en e as
á ias endências ou sensibilidades que podia ha e , cons i uiu-se uma en e de abalho boa. E uma
en e de abalho onde o p incipal obje i o e a cump i aquilo que nos p opusemos a aze e que
ouxe…essas mani es ações são sinónimo disso e que nos ouxe mais- alias mas, de ac o, o ambien e
e a bom. Tínhamos um bom g upo de abalho. Um bom g upo de cama adas. O único in e esse ali e a
de ende os abalhado es e nós, oi um p ocesso complicado….Po que essa ques ão do A senal es a
nes a si uação (passagem a SA) e a uma ques ão que nos ul apassa a.”
“No ou o aspe o que nós conseguimos mais- alias oi no quê? Uma e alo ização das ca ei as que
pe mi iu ali algum sal o em e mos de encimen o. (…) Mas isso oi uma coisa mui o pe sis en e, á ias
mani es ações, le a o pessoal à ua, mani es ações de sai mos aqui pelo La anjei o e i mos aqui pela
a enida di e os a Almada, à Câma a Municipal, sem e a isado a polícia, nem e mos a isado ninguém
(…). Tudo is o oi meios que a gen e encon ou de p essiona e nes e caso em pa icula , aze o A senal
pa a a ua, po que qualque uma des as mani es ações, na al u a izemos mui as, a comunicação social
nunca deu g ande ele o a isso, epá se osse numa ou a emp esa qualque ….não sei…se calha po
es a mos a ala de mili a es e não se que e melind a os mili a es, mas nunca se deu mui o ele o a essas
mani es ações. Nós omos achando manei as de con o na a si uação. O ce o é que conseguimos,
conseguimos os nossos obje i os, usámos das á ias es a égias possí eis e imaginá ias sem, digamos,
a on a ninguém, se osse o caso e ia de se mas não oi o caso. Mas conseguimos.”
Pa a além da c iação das lis as uni á ias como o ma de ameniza e soluciona
con li os, ambém a o ma de a aliação da p omoção dos abalhado es se al e ou,
ge ando um melho ambien e en e os abalhado es.
“En ão, se eles es ão...pa a ha e uma p omoção, exis e um conselho de p omoções, são pessoas
nomeadas, não é bem nomeadas... ai a o os...são o adas e aquela pessoa, aquela, aquela, icam no
conselho de p omoções. Se a maio ia o ou neles aqueles elemen os êm pode es de quando chega em ao
conselho de p omoções, a alia em A, B,C, D. Mas, odo a gen e sabe que numa a aliação, se pode joga
com a o ma de analisa . (…) E, ali, acon ecia e depois ia-se pe ei amen e que puxa a mais pa a os
elemen os da sua co ideológica do que pa a os ou os. Os ou os e am mais p ejudicados e isso az c ia
uma co en e con a esse ipo de a i ude, não é? E há choques...há choques nos se iços po que depois as
pessoas começam a con es a , e balmen e, po esc i o, en im. E ge am-se con li os, ag essi idades. Mas
p on o, isso ez pa e da e olução na u al do a senalis a. Ap ende a con i e em democ acia, não sei se a
pala a é co e a. Mas ap ende a i e em comunidade que an es não sabiam po que não lhes e a
pe mi ido mas depois e a-lhes pe mi ido mas não sabiam. Hou e uma ap endizagem e a coisa oi
e oluindo. Ao pon o de os conselhos de p omoções já se em ei os de ou a manei a, as decisões já e am
omadas mais em bases écnicas do que p op iamen e em psicológicas, apesa de ambém e o seu ac o
(…).”
Os abalhado es elei os pa a ep esen a a CTAA inham igualmen e de sabe
ge i as ei indicações dos abalhado es que não pode iam se a endidas como al,
sendo ambém um papel negocial impo an e que desempenha am.
“(…) Mui as das ezes as pessoas sen iam-se e ol adas e ansmi iam ao cama ada do lado e às an as
c ia a-se ali um sen imen o de e ol a po uma condição de abalho, basicamen e só pode ia se po isso,
e no malmen e iam ansmi i à CTAA onde dizia, “epá, oda-se. Aqueles gajos es ão a aze is o”. Tudo
coisas em que se podia pega , ha ia ou as que não ha ia ol a a da . Apa ecia lá mui a gen e
que...apa ecia mui a gen e não, mas apa eciam lá casos em que iam pa a lá ei indica coisas que não
inha ei indicação nenhuma, “Epá, mas u não ens que aze aquilo? O que é que que es, pá? Não ens
de aze aquilo? Tens de aze aquilo!”, “epá o che e is o, o che e aquilo”, “epá, não e ponhas a
in en a !” ( isos) Cla o! Po que ali a gen e ambém inha de e alguma consciência (…)”
.
2.3 - Con e são do es alei o em sociedade anónima
No dia 1 de Se emb o de 2009, o A senal do Al ei e é con e ido em Sociedade
Anónima. O seu capi al social é compos o exclusi amen e po capi ais do Es ado
Po uguês, o que signi ica que é uma emp esa SA de ida pelo Es ado. Os anos an e io es
a es a con e são em SA o am in ensos do pon o de is a da lu a dos abalhado es
en ando a a es e p ocesso. Na opinião dos abalhado es com quem con e sei, ab iu-
se a po a a uma p i a ização o al da emp esa e os di ei os adqui idos ao longo dos
anos, i iam se pe didos assim como os despedimen os ine i a elmen e se iam uma
ealidade. Nenhum dos abalhado es com quem con e sei se mos ou con encido com
es a al e ação e odos, com dis in as dimensões, se opõem a ela. A lu a dos
abalhado es pe mi iu que aqueles que op a am po pe manece em unções no A senal
do Al ei e SA, man i essem o mesmo ínculo de abalhado em unções públicas,
sendo, nes e caso, cedido pelo Es ado ao A senal do Al ei e SA. Os no os abalhado es
con a ualizados, não são ab angidos po essa cláusula e êm um con a o indi idual de
abalho.
“Po isso é que eu digo mui as ezes, e dizem ou os, aquilo que ize am no A senal oi um c ime de lesa
pá ia a mui os ní eis. Se calha como ize am nou as emp esas, como é e iden e, ago a nós emos que
nos epo a àquilo que conhecemos. Nós nunca i emos o hábi o mesmo quando azíamos... oda a
a i idade que nós izemos, ela i amen e à CTAA, ei indica i a ou osse aquilo que osse, nós nunca
i emos in enção de nos po mos num pedes al e dize mos que é amos melho es que os ou os. Nós nunca
dizíamos que o A senal melho que os ou os, não. O A senal e a di e en e. Não e a melho , e a di e en e.
Po que o p óp io A senal e a di e en e, e a especí ico. Não ha ia mais ninguém que abalhasse pa a a
Ma inha como nós abalhá amos. O al espí i o de in e ligação, o espí i o de missão po que nos da am
um na io e diziam: “epá, es e na io em de es a p on o no dia 15 po que a gen e no dia 16 amos pa a
uma missão ep esen a Po ugal aqui ou ali” (bem ou mal isso não in e essa), e nós dizíamos “epá, ok.
Não é po nós, não é pelos a senalis as nem pelo A senal do Al ei e que o na io não es á p on o no dia 15
pa a ocês no dia 16 za pa em pa a i ep esen a Po ugal nis o ou naquilo.” Nes es casos e em odos os
casos....e a di e en e. E a o espí i o de missão.”
“E oi mui as ezes ale ado an es de 2009 o p óp io pode polí ico e a p óp ia Ma inha, p ecisamen e
nes a si uação: imaginem o que é es a aquilo, não é o caso ainda po que não é p i ado, mas es a
passagem a SA é um caminho...ab e as po as pa a a p i a ização comple a ou pa cial, mas as po as es ão
abe as, an es es a am echadas e ago a es ão abe as e is o, a gen e sabe que às ezes es as
mo imen ações e es as ideias eles p óp ios sabem que is o é pa a e men a , pa a i le ando algum empo
não é no imedia o, que as pessoas depois ão-se esquece (…). Nós ale á amos mui as ezes, imaginem
o que é o A senal do Al ei e es a abe o ao p i ado e um a mado qualque em lá um na io na doca
seca...e às an as, po uma si uação qualque , há necessidade de uma in e enção de u gência, quan os e
quan as ezes não o am necessá ias, pa a in e i num na io da ma inha e não podia, es á lá um. “há mas
ocês i am de lá esse e põe lá o ou o”, e depois quan o é que pagam ao a mado , que
dize ....indeminização po p olonga no empo, não é? É p og amado pa a es a p on o em al da a, po
cada dia que aquilo não es á p on o são acionados os segu os e as indeminizações. Mui as ezes o am
ale ados pa a isso....eles dizem que a gen e es a a a an asia .”
“Mas p on o, depois de 2009, o A senal, quan o a mim icou a e ado po que pe deu uma camada de
abalhado es mui o an igos na emp esa, inham....é como u pe de es os i mãos mais elhos e a coisa
ica....depois le a o seu empo a é se ecompo . É e iden e, (…), ica am lá ou os cama adas mais
an igos que podem e aqui um papel de passagem de es emunho mas con on am-se com p oblemas
no os que não ínhamos an es. Aliás, mui o since amen e, o p ocesso do AA, em pa e, acon eceu pa a
co a a espinha da o ganização dos abalhado es e não se impo a am de manda o bebé com a água e
udo. Mas eles ali, aliás oi no go e no de maio ia absolu a de José Sóc a es, eles que em lá sabe , manda
água, manda o bebé o a que a gen e que é acaba com esses plená ios, com essas mani es ações e depois
logo se ê, logo se azem ou os bebés. E a p eciso des ui aqui e des uí am.”
“E a p oibido, isi a ou e isi a o es alei o que em a impo ância que em na ida de uma pessoa, como
se osse um es anho, como se osse ou o isi an e qualque . Acho isso lamen á el mas isso diz bem da
qualidade de quem es a a den o do es alei o, de quem adminis a a o es alei o e ou os que não sendo
adminis ado es pode iam e alguma in luência nis o mas o ce o é que o ize am. Mas p on o, as coisas
são como são. As pessoas esponsá eis po isso já lá nem es ão no es alei o (…). As pessoas de iam e
sido a adas com ou o espei o e já não es ou a ala do acesso, da isi a, es ou no p óp io p ocesso de
des inculação do A senal. Se há pessoas na mobilidade, uma agilidade emenda, pessoas já com uma
quan idade eno me de anos de abalho, e a mobilidade signi ica que ele es a a à espe a de se chamado
pa a ou a a i idade den o do Es ado, mas podia não se e a pa i de de e minada al u a e a
ex emamen e penalizado no encimen o.”
“Não hou e cuidado. Is o oi mesmo a co a e a elimina pessoas, pon o inal. Como se de núme os se
a asse, pon o inal (…). O A senal oi um pouco is o, as pessoas o am desca adas. Deixa mágoa, deixa
ma ca. Es as coisas….as pessoas que i e am is o, e que i e am oda uma ida, quem diz ali den o diz
nou os lados, e diz a é nas emp esas não do amo mili a , nem do Es ado, i e am es e ipo de a uação da
pa e de quem e a esponsá el, deixa semp e ma ca. E cla o, quem como eu passou uma ida in ei a ali, é
penoso. Mas p on o, as pessoas o am como o am, são como são, es ão como es ão.”
3 - Me odologia, p ocessos e di iculdades
3.1 - A Di isão de Mecânica (ou a ca ac e ização da o icina de mecânica)
A Di isão de Mecânica é a di isão (comumen e os abalhado es chamam
“o icina”) com maio núme o de abalhado es. No momen o do meu abalho de
campo, a Di isão con a a com 133 pessoas. No en an o, quando em Se emb o de 2016
me o nece am os dados ela i os a es a di isão, alguns abalhado es já inham saído
do A senal do Al ei e, si uando-se a população da Di isão de Mecânica em 126
abalhado es.
Gos a ia de aze uma ca ac e ização mais de alhada des a di isão, pa a que se
islumb e de o ma mais escla ecedo a a ealidade social daquela o icina. O núme o
o al de ope á ios ali p esen es encon a a-se nos oi en a e se e elemen os, incluindo os
no e ecém-con a ados. Os mes es ixa am-se nas dezasse e pessoas. A ca ego ia de
écnico especialis a ab angia quinze elemen os. Pa a a ca ego ia de écnico supe io
con abiliza am-se ês abalhado es. Na ca ego ia de enca egado exis e um elemen o
assim como um che e de di isão. Apesa de se uma o icina de mecânica, exis em ainda
dois assis en es adminis a i os, en e os quais, uma mulhe (a única de oda a Di isão
de Mecânica).
Quan o ao ní el de habili ações, ce ca de ês qua os dos abalhado es da
Di isão de Mecânica êm o ensino secundá io e o 3º ciclo do ensino básico, o que
demons a que em sido dada alguma impo ância à melho ia das habili ações, e os
p óp ios abalhado es p ocu am adqui i mais conhecimen os. Dessa o ma, exis em
se e elemen os com o 1º ciclo do ensino básico, in e e dois abalhado es com o 2º
ciclo do ensino básico e cinquen a e se e com o 3º ciclo do ensino básico. Rela i amen e
ao ensino secundá io, o núme o de abalhado es ixa a-se nos in a e seis. Aqueles que
e am po ado es do g au de licenciado e am somen e qua o. Gos a ia de deixa uma
no a ace ca dos abalhado es ecém-con a ados ela i amen e à o mação: odos êm o
ensino secundá io, sendo que dois equen a am um cu so p o issional de écnico de
mecânica na al, qua o equen a am o ensino egula e ou o ob e e o diploma a a és
de unidades capi alizá eis. Exis em ainda dois abalhado es que êm um cu so de
3.2.3 - A es adia sem câma a: obse ação das o inas, das in e ações (impo ância
de es a )
A minha es adia no A senal do Al ei e SA deco eu du an e o mês de e e ei o
de 2016. Ao longo das duas p imei as semanas, agueei pelas o icinas com o in ui o de
man e uma elação mú ua com os ope á ios dos di e sos sec o es, comp eende de
o ma simples os p ocessos da cadeia ope a ó ia e obse a as in e ações sociais no
espaço da o icina. Esse pe íodo e es iu-se de g ande impo ância pa a consegui
pene a naquela ealidade e pode explica odos os meus in en os. A ausência da
câma a e e um papel impo an e na p oximidade que consegui man e ao longo de odo
esse empo. Quando comecei a usá-la, i e necessidade de um no o pe íodo de
adap ação àquele obje o, uma es anheza que não oi possí el ul apassa , seja nos
momen os de ensão seja nos momen os de dis ensão, de ido à hípe -noção da
ep esen ação que, gene icamen e, es á p esen e na sociedade, a a és da al íssima
exposição à imagem, u o da ele isão mas, p incipalmen e, das edes sociais. Essa
consciência ep esen a i a pode-se ambém encon a en e aquele cole i o ope á io e a
o ma como se ap esen am pe an e o “ou o”, especi icamen e a câma a, ou seja, a
consciência ace ca das o mas de au o- ep esen ação do eu (Go man,1956), es a a
e idenciada e disseminada en e a g ande maio ia dos abalhado es.
3.2.4 - A impo ância de es a
Deambula pelas o icinas e “me e con e sa” com algum ope á io ou g upo de
ope á ios oi de e minan e po á ios a o es: pe mi iu ob e uma ampla noção da ida
social e p o issional no A senal do Al ei e a a és de algumas his ó ias de ida
pa ilhadas nesses in e s ícios abalho-pausa- abalho, escu ando igualmen e alguns
acon ecimen os cole i os dos quais esses ope á ios ize am pa e; oma conhecimen o
dos di e en es hobbies que os ope á ios inham; man e con e sas in o mais ace ca das
pe ceções indi iduais que eles inham do momen o a ual e, consequen emen e, do u u o
do A senal do Al ei e SA, e sob e emas gené icos da ida pessoal, social, cul u al e
polí ica. Ge almen e, nenhum ope á io se inibia de ala comigo, de pa ilha os
conhecimen os sob e a sua p o issão e o seu olha sob e o mundo (p incipalmen e
usando como linhas mes as as ealidades indi iduais, ais como: o abalho, o local de
esidência e a amília e/ou amigos), que algumas ezes me espan a a pela hones idade e
p ecisão.
A p esença no chão da áb ica é sem dú ida, a de adei a expe iência pa a
analisa em p imei a mão a ede de sociabilidades en e ope á ios, analisando enquan o
o ganismo o al, mas especialmen e, as mic o sociabilidades que cons i uem cada g upo
ope á io, pa icula men e no caso do A senal do Al ei e SA, imp egnados de
subje i idades a a és das p á icas sociais quo idianas em cada o icina e o a do
es alei o, pois “a consciência de classe e e e-se sob e udo a conjun os de consciência
indi iduais que, po ia da sua pa ilha comum de condições de ida ma cadas pelo
mesmo ipo de mecanismos de classe, endem a a o ece a eme gência de ce as
subjec i idades, p á icas sociais e es a égias de acção.” (Es anque,2000,285).
Apesa de não me deb uça sob e as sociabilidades o a da unidade ab il,
deixa ei adian e uma no a ace ca dos hobbies que consegui egis a e que azem pa e da
ida dos ope á ios, an o indi idual como cole i amen e. Es as edes de elações que
ansbo dam o espaço do es alei o, con e em o sen imen o subje i o de pe ença àquele
cole i o em algo obje i o, palpá el, e que ai além das elações labo ais, consolidando
os laços que se ecem no es alei o. Resga ando a ideia de Mon ei o, as sociabilidades,
den o e o a da unidade ab il, ão-se c a ando no co po e no imaginá io ope á io, “ao
longo da ajec ó ia biog á ica i edu i elmen e singula dos ope á ios, ai-se g a ando
como que um cunho social, indelé el, esul an e da i ência pessoal de expe iências de
cons angimen o e inci ação que, na e dade, são comuns, comensu á eis, a odos os
indi íduos ci cun izinhos de um mesmo local ísico no e i ó io e de um mesmo luga
de classe. É es a inclusão ma e ial e social que explica a consonância en e as
disposições a se , pensa e aze dos ope á ios.” (Mon ei o,2014,25).
As elações naquele espaço, o almen e masculinizado, ca ac e izam-se po isso
mesmo: a i ilidade é a ca ac e ís ica p incipal e é a a és dela que as elações são
cons uídas e man idas. Especi icamen e no A senal do Al ei e SA, o cole i o ope á io é
compos o exclusi amen e po homens, o que p opo ciona uma aglu inação de um
capi al gue ei o (Mon ei o,2014) aduzido nas p á icas sociais e labo ais quo idianas e
de esis ência, ou, como Elísio Es anque essal a, “a o ça ísica, a co agem, a
capacidade de en en a a du eza da ida, o mos a que se “ em oma es”, cons i uem
ing edien es que azem pa e do discu so e do imaginá io masculinos, na base da lógica
que simboliza a posição dominan e do homem an o pe an e o abalho como pe an e a
mulhe ” (Es anque,2000,346). Pa a além de Es anque, B uno Mon ei o sin e iza es e
espí i o i il de o ma bas an e cla a, “os homens associam-se a coisas “quen es” e
“du as” po que são elas as coisas i uosas e ap op iadas. É o caso das bebidas
alcoólicas, do abalho es o çado e do sexo. Es es são au ên icas p ó eses e signos da
masculinidade. Po isso, p oibi a sua exibição é ealiza uma ampu ação; abdica de as
usa é ealiza uma quase-mu ilação. Is o dis ingue os homens, sepa ando-os dos
“cachopos”, dos “panelei os” e das mulhe es.” (Mon ei o,2014,67). Em ce os
momen os, oi bas an e complicado comp eende os códigos subjacen es às in e ações
exis en es e as azões que le a am àquela a uação. Es es compo amen os con e em-se
em “símbolos”, que se o nam pa e de uma axionomia das elações den o da o icina,
delineando e delimi ando as on ei as en e cada ope á io na sua exposição ao g upo
o icinal a que pe ence e ao cole i o de a senalis as, po que “as b incadei as são um
ca alisado social, in ensi icando as ocas en e os agen es sociais e ap oximando-os
pela cons i uição de um pa imónio sociabili á io em comum. Longe de cons i uí em
in an ilidades, es as b incadei as, apelidos, anedo as e “pegas” ajudam a ma iza a
mono onia do abalho e a descomp imi ensões acumuladas (…). Ensinam, além disso,
de o ma descon aída, não o mal e sob e udo não di ec amen e con li ual, o luga de
cada um no espaço da áb ica, indicando o luga e o “ espei o” que me ece e que de e
usa com os ou os.” (Mon ei o,2014,70-71).
Reco do-me de uma con e sa que man i e com um ex- uncioná io do A senal
do Al ei e, que apenas inha unções adminis a i as, onde ele me con idencia a que
gos a a mais quando inha de en a em con ac o com os ope á ios po que e am mais
“ on ais” na elação que man inham com as ou as pessoas, não en ando em jogos
di usos sob e aquilo que e dadei amen e pensa am. Es a é uma ealidade que se
encon a com equência nas elações ope á ias, di e sas ezes essa on alidade
ap esen a-se de o ma iolen a e c ua, azendo pa e de um compo amen o o almen e
di undido en e aquele cole i o ope á io, assim como nou os ambien es ab is, onde as
“b incadei as”, a “ iso a”, as “alcunhas”, “assumem equen emen e o mas g o escas e
isce ais de in enções i ónicas e simbolicamen e sub e si as, que se se em de duplos
sen idos e da con a acção do cânone pa onal.” (Mon ei o,2014,72).
No en an o, e apesa de uma ce a glo i icação desse capi al gue ei o, i e a
opo unidade de man e con e sas semi-ín imas com di e sos ope á ios, sob e elações
de amizade e amo osas inclusi amen e, que se me e ela am uma ace a mui as ezes
opos a àquela que habi ualmen e se ap esen a a publicamen e. Dessa o ma, oi-me
possí el assis i a um conjun o de desaba os que os ope á ios es a am a pa ilha com
um g upo es i o de pessoas, e idenciando-se es a elação dico ómica en e a i ilidade
pública e a sensibilidade na semi-in imidade, não endo icado com a sensação de que a
sua achada es i esse a se expos a publicamen e, mas an es, nesses momen os,
acon ecia uma econ igu ação dessa au o- ep esen ação, ou como Pialoux no ou, “la
p oclama ion publique d'un «goû » ou d'un «dégoû » pe me seule, en ce aines
ci cons ances, e , no ammen dans la si ua ion de bande, de sau e la ace. Elle es la
seule a ionalisa ion disponible ( ela i emen cohé en e e d'un maniemen ela i emen
acile) lo squ'on se ou e dans la nécessi é de de oi end e aison de an les au es
d'un échec don l'é idence es pou an c ian e aux yeux de ous.” (Pialoux,1979,30),
con ibuindo pa a adensa a ligação en e os ope á ios. Nesses momen os, essas
pa ilhas semi-ín imas, possi elmen e na minha ausência se iam mesmo ín imas,
e ela am-se igualmen e impo an es pa a a cons ução de um sen imen o de pe ença
àquele g upo, de alguém que pa ilha o mesmo local de abalho, mas igualmen e, as
mesmas elicidades e us ações, em suma, os mesmos d amas pessoais e sociais,
o alecendo essa consciência em elação à p óp ia classe.
3.2.5 - As o inas (p imei a pa e)
A o ina no meio indus ial é ex emamen e es i a e ma cada ao i mo dos
pon ei os do elógio, ao segundo, que se o nam audí eis a a és das si enes que
ma cam os di e sos momen os de dia de abalho: en ada, almoço, saída. Poucos locais
de abalho de e ão impo es e géne o de coação na con agem do empo como os
espaços ab is. A p esença sono a das si enes unciona como um chamamen o que
impõe uma cadência p óp ia que se imp egna no co po e na men e dos ope á ios. O
hábi o que se adqui e a a és das o inas, maio i a iamen e labo ais, ao longo dos anos,
di icilmen e abandona o seu po ado e ambém ali, no A senal do Al ei e SA, os
ope á ios es ão, eg a ge al, comple amen e moldados àquele egime empo al ígido.
O ho á io de início do abalho é às 8 ho as da manhã, signi icando po isso, que
a maio ia dos ope á ios se encon a no es alei o alguns minu os an es pa a es i em a
sua oupa de abalho nos balneá ios. Após esse momen o, os ope á ios di igem-se pa a
as espe i as o icinas onde omam o ca é da manhã, ocam os p imei os “dedos de
con e sa”, umam os p imei os ciga os do dia e “dei am o olho” ao jo nal. Das di e sas
ezes que assis i a es e momen o, assemelhou-se semp e ao despe a de um co po.
Cada cole i o ope á io, na sua o icina, agia como se de um único co po se a asse,
ainda emb iagado pela sonolência, não ole ando sons agudos, mo imen os acele ados.
À segunda- ei a pode conside a -se que exis i á um pequeno des io des a o ina, pois os
abalhado es ap o ei a am pa a pa ilha algum acon ecimen o especial do im-de-
semana.
Após o oque da si ene, os abalhado es assumem os seus pos os de abalho,
den o ou o a da o icina, pois di e sas ezes êm de i a bo do de um na io ou já se
encon a am a abalha lá. Habi ualmen e, se não i e em alguma “ob a”, como
designam as di e sas a e as em mãos, que enham icado inacabadas do dia an e io , os
ope á ios ecebem as “ olhas de ob a” dos mes es logo ao início do dia. Há uma
es ima i a do empo que de e á se despendido na execução de cada a e a e,
equen emen e, quando e minam no mesmo dia, o mes e do sec o co esponden e
en ega-lhes ou a ob a, que pode á não se e minada nesse mesmo dia. As di e sas
a e as eque em um g au de exigência ele ado, o que signi ica que os abalhado es
êm de se empenha na ealização da a e a po um empo mais p olongado.
Não exis e o icialmen e uma pausa “a meio da manhã”, a si ene só ol a a oca
quando chega o meio-dia, chamando os abalhado es pa a o e ei ó io. Aos poucos,
ão pousando as e amen as e desligando as máquinas, di igem-se pa a as casas de
banho, la am as suas mãos e ão come uma peça de u a, uma sandes e bebe um ca é,
um sumo ou um iogu e. Ha e á ce amen e ope á ios com ou os hábi os alimen a es,
mas não i e opo unidade de obse á-los. Vão espaçadamen e, pa a que não pa em
odos em simul âneo, dando a ideia de um e dadei o in e alo que não exis e na
p á ica. Apesa de se um hábi o gene alizado, há ambém ope á ios que não comem “a
bucha”. Têm ou os hábi os, que podem se apenas oma um ca é, um sumo, uma um
ciga o e descansa poucos minu os. De ido a não se uma pausa ge al, pode-se
obse a uma dinâmica pa icula na o mação de pequenos g upos em o no da
máquina de enda au omá ica de ca é e snacks ou jun o às bancadas de abalho, que são
os espaços onde cada ope á io gua da as e amen as e alguns pe ences, naqueles cu os
minu os de pausa. Con udo, mesmo sendo po pouco empo, es es momen os de
dis ensão o nam possí eis algumas in e ações mais descon aídas. Da mesma o ma
que há pequenos g upos, ambém se obse am ope á ios a come em os seus lanches
sozinhos, mas são, con udo, uma exceção. O eg esso ao abalho acon ece e es a ce ca
de uma ho a e meia a é no a pausa pa a o almoço.
3.2.6 - Almoço
Nos minu os que an ecedem o oque da si ene, podemos começa a e a
mo imen ação dos ope á ios, a umando as e amen as e desligando as máquinas.
Seguidamen e, ancam os a má ios e as caixas de e amen as. A Di isão de Mecânica
e o Se iço de Se alha ia Ci il, o am os locais onde i e a opo unidade de obse a
es e momen o do dia mais ezes, em compa ação com as ou as di isões. As o icinas
encon am-se ao lado uma da ou a. Após os i uais de limpeza e o ganização da
bancada ou do espaço de abalho, alguns ope á ios pega am nas bicicle as e pedala am
em di eção ao e ei ó io. A la ga maio ia caminha a a é lá. Como hou e poucos dias de
chu a, oi in e essan e obse a como os ope á ios se desloca am anquilamen e a
con e sa a é ao e ei ó io. Segundo ela os dos a uais ope á ios e dos en e is ados,
an igamen e (semp e um espaço empo al inde inido, mas com oda a ce eza emon a
ao pe íodo an e io à passagem pa a SA) se ia possí el obse a mos co e ias,
encon ões e ou as o mas de di icul a o pa cei o a alcança um luga mais à en e na
semp e ex ensa ila de almoço, à época sobejamen e maio .
Sob e es e momen o impo an e de descanso diá io e de ap o undamen o das
in e ações, explici a ei di e sas ações que deco em du an e esse pe íodo. Tendo em
con a o con ex o em que es e abalho se desen ol eu, algumas in e ações que
oco e am du an e o pe íodo de almoço se ão delibe adamen e omi idas des e meu
ela o. Con udo, uma ez mais, as mesmas e es em-se de g ande impo ância nas
elações en e os ope á ios e a sua cons ução de classe. E. P. Thompson (Thompson,
2004) ale a-nos pa a as expe iências pa ilhadas no quo idiano se em o mo o , o
p ocesso, de o mação das classes sociais como base ma e ial de supo e de um
imaginá io cole i o. Ou seja, es as in e ações pa a além das esis ências quo idianas e
da mic opolí ica êm um alo conc e o na cons ução de classe pela pa ilha comum
desses momen os de in e são da o dem social simbólica einan e. P incipalmen e, nes e
momen o de pausa de almoço onde os ope á ios podem dispo do seu empo e a o icina
adqui e no as o mas de sociabilização.
À medida que os abalhado es do A senal do Al ei e SA ão chegando ao
e ei ó io, a ila ai eng ossando cada ez mais, es endendo-se pa a lá da po a de
en ada. Essa ila des ina-se às pessoas que desejam come aquilo que designam de
p a o do dia, que pode se de ca ne, peixe ou die a, e con empla sopa, p a o, sob emesa,
bebida e ca é. Nes e local apenas abalham mulhe es. Exa amen e ao lado do local onde
os uncioná ios são se idos pelas emp egadas do e ei ó io, encon a-se ou o pon o de
en ega da e eição, mas apenas e e en e ao minip a o, que em as mesmas opções que
o p a o no mal, mas a ila é semp e meno e podem ambém escolhe sandes, salgados,
en e ou os. Nes e pe íodo em que espe am, os abalhado es con e sam habi ualmen e
en e os pa es. Pa i am jun os da o icina, caminha am jun os, es ão na ila jun os e,
p o a elmen e, almoça ão jun os. Du an e a espe a, há di e sas in e ações en e
abalhado es de ou as o icinas. Não eco do de assis i a alguma elação momen ânea
com uncioná ios dos esc i ó ios ou depa amen o de in o má ica, pa a ci a sec o es que
não pe encem à p odução, exceção apenas pa a um uncioná io adminis a i o que em
um excelen e elacionamen o com di e sos ope á ios.
As con e sas c uzadas que su gem na ila do almoço são isso mesmo, me as
in e ações de “gozo”, “anedo as”, “b incadei as”, “con e sa de ci cuns ância”, a
impo ância que êm pa a as elações in e pessoais apa en emen e são diminu as, e
assumo que o sejam naquele ins an e, mas no deco e dos p ocessos de p odução,
du an e o abalho, o na-se impo an e conhece os es an es ope á ios do es alei o
po que pode ão e de abalha em equipa. No en an o, é igualmen e possí el e
an igos cama adas, du an e o almoço, a con e sa em sob e os mais a iados assun os,
da ida pessoal, do es alei o, de Po ugal. Nos p imei os dias, sem que eu p óp io
planeasse, acabei po passa o meu empo na ila com os mesmos abalhado es, de
posições hie á quicas di e en es, do sec o da Gal anoplas ia. As nossas con e sas
gi a am semp e em o no da ealidade do A senal do Al ei e SA e do Es ado (es e ema
de e-se ao ac o de se em uncioná ios do Es ado em egime de cedência ao A senal do
Al ei e SA). Du an e esses dias acabei po almoça jun o deles, sem que as con e sas se
desen ol essem mui o pa a além dos emas supe iciais do es alei o, elacionados
semp e com a necessidade de undos pa a eno a o pa que de máquinas e pode em
desen ol e uma a i idade p odu i a e ino ado a e aumen a a ca ei a de clien es pa a
além da Ma inha po uguesa. Na e dade, as con e sas e am semp e inconclusi as,
po que não pa ilha am comigo al e na i as ao a ual modelo de ges ão do es alei o,
des acando apenas pon os posi i os e nega i os, po exemplo.
No deco e dos dias do meu abalho de campo, o meu empo passado na ila
começou a se mais di e si icado, al e ando-se con o me a o icina onde me encon asse.
Seguia com eles a é ao e ei ó io e oma a a ila do mini-p a o, que e a semp e mais
cu a, acabando po encon a os mesmos ope á ios na ila, com os quais acaba a po
con e sa um pouco, maio i a iamen e sob e o meu abalho e se es a a a gos a da
expe iência. Também, em alguns momen os, p incipalmen e en e ope á ios mais
elhos, inicia am a pa ilha de algumas das suas i ências e a eco da am expe iências
cole i as de empos passados. É e dade que se desen ol ia pouco a con e sa, mas a
ila inha esse e ei o posi i o, de man e alguma p oximidade com os abalhado es
po que somos “ o çados” a es a ali. Con udo, as con e sas e am de “ci cuns ância”, o
e eno pa a se desen ol e em e a nas o icinas, mas es as ligações i iais, ambém
alimen am as ou as, mais du adou as e ap o undadas.
O e ei ó io é compos o po duas salas. A p imei a, al como desc e i
an e io men e, é o local onde se em as e eições, os ca és e os snacks. Nela exis e
ambém uma bancada com saladas e uma es an e com os alhe es, p a os, abulei os e
pão, pa a as pessoas que op em pelo mini-p a o. Dian e da po a de en ada, es á
dispos o um conjun o de mesas e cadei as onde os abalhado es se podem sen a a
oma ca é após o almoço, p olongando as con e sas e lendo um pouco o jo nal. A sala
con ígua é a de e eições, compos a po mesas comp idas lado a lado, pa a que caibam
odos os uncioná ios. Nas pa edes es ão pendu adas algumas o og a ias i adas pelo
o óg a o que acompanhou a ida do A senal do Al ei e du an e seis anos.
No e ei ó io, sal o aqueles dias iniciais, que, segundo o meu diá io de campo,
o am dois, em que almocei com os dois abalhado es da Gal anoplas ia, ui-me
semp e di idindo, sem se em igual pa e, pelos ope á ios da Di isão de Mecânica e os
neó i os. Es es almoça am odos jun os, apesa de es a em di ididos po di e sos
sec o es, na úl ima ila do e ei ó io do lado di ei o, pe o de dois uncioná ios
adminis a i os, que ambém almoça am ali. A minha escolha po almoça com os
“ajudan es” oi p emedi ada po que me pe mi ia es a com ope á ios de di e sos
sec o es ao mesmo empo. Habi ualmen e, e como se ia expec á el, acaba am po
o ma di e sos g upos à mesa, o iundos das di e en es o icinas. Apenas
excecionalmen e, um ou ou o neó i o op a a po comp a a senha de e eição.
No malmen e, inham conhecimen o da emen a pa a a semana e equen emen e, odos
le a am comida de casa que aqueciam nos mic o-ondas exis en es, adqui indo apenas a
bebida e/ou a sob emesa no e ei ó io. De o ma a não pe u ba aquele momen o, op ei
semp e po ou i mais do que ala po que se osse di igida uma pe gun a a qualque
um naquele con ex o a espos a i ia se al o de ap o ação ou censu a e pode ia
signi ica a assunção de uma posição pública a p io i, que não osse e dadei amen e
coinciden e com a sua. Po esse mo i o, escu a a as con e sas, ia-me e con a a
algumas “piadas” no seguimen o daquilo que es a a a dize . Esses momen os ao almoço
pe mi i am-me oma consciência do p ocesso de ap endizagem da écnica e assimilação
da condu a social na o icina e no es alei o. Du an e esses momen os, pa ilha am em
om de b incadei a as “piçadas” que ou iam dos mes es e/ou dos ope á ios, numa
comple a e apia de g upo.
Reco do-me de ce a ez, um neó i o e pa ilhado a chamada de a enção que
so eu de ido a uma o nei a que não es a a bem echada. Todos daquela o icina
conco da am que o mes e se excede a, que po uma o nei a mal echada não azia
sen ido aquele compo amen o. O in a o /so edo e e um sen imen o de alí io, a
ap o ação dos seus pa es. Alguns dias mais a de, cu iosamen e com o mesmo ap endiz,
os seus colegas de o icina começa am a “goza ” com ele dizendo-lhe que ele assim que
ia um dos mes es a encaminha -se na sua di eção, p ocu a a algo pa a aze no lado
opos o. Esse neó i o iu-se e con i mou que anda a a e i á-lo. Todos se i am e i e am
uma a i ude inicialmen e condescenden e, mas de seguida de incen i o a lida com a
si uação, a enca á-lo e a dize com educação aquilo que pensa a, as suas di iculdades
em elação ao abalho e disco dâncias. Aquilo que me oi pe mi ido obse a , pelo
ac o de almoça com eles, oi a c iação de um g upo com di e sas subje i idades, mas
que de ido à sua condição de en ada se a mesma, o sen imen o de pe ença en e eles
ainda e a mais o e do que em elação aos seus pa es nas o icinas.
Os ope á ios ecém-chegados almoça am com alguma apidez, sem se
exage ada, pa a depois pode em descon ai a es an e ho a de almoço pa a as suas
espe i as o icinas ou, quando o dia con ida a a um passeio, iam caminha jun o ao io.
Algumas ezes i e a opo unidade de es a com eles na o icina a bebe ca é e a
con e sa sob e di e sos emas. Es es momen os de pa ilha deco e am semp e com os
ajudan es da O icina de Se alha ia e na maio ia das ezes, den o dessa o icina. Nes as
ocasiões, i emos a opo unidade de ala sob e as expe iências an e io es de abalho
que i e am, da o ma como eem a sociedade po uguesa e a azão de es a em ali, que
não é nenhuma em pa icula , pode iam es a nou o lado qualque , se lhes o e ecessem
um melho salá io ou condições sociais mais an ajosas, pa ilha am comigo po ezes.
Nessas con e sas, maio i a iamen e ala a-se da al a de opo unidades em Po ugal,
dos baixos salá ios em ge al, da on ade de emig a , da p ocu a, inclusi amen e, po
ou a p o issão que não aquela, po azões sala iais quase semp e. Pa ece am-me as
angús ias no mais dos jo ens nos dias de hoje, a ince eza quan o ao u u o, a on ade
de pa i e de ica , a p o issão e ada, a his ó ia dico ómica semp e p esen e. No
sub ópico dedicado aos neó i os, disco e ei de o ma mais ap o undada sob e o
p ocesso de inco po ação e ap eensão das écnicas e do habi us social do es alei o.
No es an e empo de almoço, em que não me encon a a com os no a os,
cos uma a isi a os ope á ios de di e sas o icinas, que dispu a am as suas pa idas de
ca as e de dominó, em di e en es o icinas, como o ma de “passa o empo” daquela
ho a de pausa. As disposições dos g upos e am bas an e he e ogéneas, ou seja, dos dois
g upos que obse ei a joga às ca as, um deles e a semp e compos o pelos mesmos
qua o elemen os, necessá ios a uma pa ida de sueca, e o ou o inha á ios elemen os
que iam ocando à medida que uma dupla pe dia, odando com equência. No jogo do
dominó, ha ia igualmen e um conjun o de ope á ios que habi ualmen e joga a,
pa ece am-me ce ca de cinco, o que ob iga a algum empo de espe a, pa a que osse
alcançada a pon uação que ga an ia a i ó ia. Foi in e essan e comp eende que as
dinâmicas den o de cada g upo e am dis in as, e idenciando as cumplicidades, as
di e gências e a sin onia que po oa aqueles g upos.
Os ope á ios ex e io iza am dis in os sen imen os du an e o jogo, pois e a
possí el obse a a cumplicidade en e dois pa cei os de sueca, onde nunca ha ia uma
si uação de exposição exage ada da achada do ou o elemen o, ou nou a dupla onde a
con enda eme gia imedia amen e após uma jogada alhada do pa cei o. No ou o g upo
de sueca, como e am di e sos elemen os, não ha ia espaço pa a c ia uma g ande
in imidade que pe mi isse in e io iza os ges os e as jogadas do pa cei o, po isso, as
discussões eme giam após uma escolha g i an e do pa cei o mas semp e no om de
“gozo”, que e a o elemen o p incipal daquele g upo, mesmo quando algum elemen o
ica a e dadei amen e cha eado pela alha do pa cei o, não inha uma ia la ga pa a
expandi o seu descon en amen o. Os colegas que não es a am em jogo ica am em
seus mé odos o na am-se uma pe o mance um an o exage ada, pois ges icula a
ene icamen e e ala a de o ma al issonan e. Reco do-me ce a ez, com o in ui o de
explica como de e iam e mina de ealiza a cu a u a de um pedaço de alumínio,
aga ou b uscamen e o ma elo da mão de um ope á io e começou a “malha ” iolen a e
es iden emen e. Po ém, ninguém inha qualque eceio de se di igi a ele, pelo
con á io, apenas sabiam desde logo que pode iam so e um no o emba aço.
A unção de Mes e naquele es alei o, com a in odução des a no a o ma de
ascende ao pos o, começa a se olhada com alguma elu ância pelos ope á ios, pois
mesmo eles, não con iam plenamen e nos no os mes es, ou seja, aqueles que ainda êm
15 a 20 anos “de casa” e que pe an e aquele cole i o ope á io, o indi íduo ainda não
alcançou um g au de conhecimen o compa í el com a unção. Essa desc edibilização
pode á c ia uma p o unda e o ma na manei a de olha o pos o e a pessoa que o exe ce,
ha endo a possibilidade de desencadea uma u u a da es u u a social no es alei o,
e e endo a o dem simbólica e hie á quica. A descon iança que al mé odo c ia, ende á
a in luencia a p ocu a de no os mes es, de ido a essa descon iança e
indisponibilidade. Os mes es mais elhos, que op a am po pe manece no es alei o
após a passagem a SA, es o çam-se pa a que o conhecimen o seja ansmi ido, mas o
pa co incen i o pa a acei a a unção e a e e são da es u u a social e simbólica,
pode ão p o oca algumas di iculdades na p ocu a dos no os mes es.
3.2.9 - Os neó i os
Po eliz coincidência, i e a opo unidade de acompanha um pouco alguns
elemen os do g upo de ajudan es que ing essa am no A senal do Al ei e SA, du an e o
pe íodo em que desen ol i o meu abalho de campo. O g upo epa iu-se po di e sas
o icinas e em alguns pe íodos da a de equen a am aulas eó icas na an iga escola de
o mação do A senal do Al ei e, lecionadas po um o mado . Es es no os ope á ios
o am colocados na Di isão de Mecânica, Di isão de Es u u as e Ap es amen o,
Di isão de Sis emas de Comba e e Comunicações, Di isão de Ele o écnica e Ele ónica
Ge al. Desse modo, pe an e a impossibilidade de acompanha a in eg ação nas di e sas
di isões, e endo-me impossibili ado de acede à Di isão de Sis emas de Comba e e
Comunicações (uma es ição impos a desde o início, po mo i os de sigilo mili a ),
decidi ap oxima -me mais da Di isão de Mecânica e da Di isão de Es u u as e
Ap es amen o, nomeadamen e, do Se iço de Mecânica e do Se iço de Se alha ia
Ci il, pa a que eu pudesse acompanha com alguma p oximidade a sua adap ação
àquele meio social e p o issional. Ao longo das con e sas in o mais que ui man endo
com di e sos elemen os, concede am-me a opo unidade de comp eende que nem
odos inham o mação indus ial e/ou na al e que a maio ia deles é a p imei a ez que
abalham naquele con ex o ab il. Segundo dados que consegui ecolhe sob e os
neó i os da secção de mecânica, oi possí el a e i que a o mação dos elemen os
ab ange o ensino secundá io, cu so p o issional de écnico de mecânica na al, cu so de
especialização ecnológica – ecnologia na al, cu so de especialização ecnológica –
ecnologia mecânica e o ensino secundá io eco en e po módulos capi alizá eis. Os
no os ope á ios encon am-se ligei amen e dispe sos geog a icamen e, sendo o iundos
dos concelhos de Almada, Seixal, Azei ão e Sin a. Não pa ilham i ências comuns
di e amen e mas, ainda assim, o espec o de in e esses em comum é semelhan e,
especialmen e, no que conce ne aos p incipais emas discu idos en e eles.
Relaciona am-se na sua maio ia com os ca os, as di e sões no u nas, as mulhe es, a
ealidade ab il, as ansiedades ela i amen e ao u u o e a busca po melho es condições
inancei as, no sen ido de alcança ou o pa ama de consumo e des aque social, ou seja,
“pa a es es ope á ios no a os, o abalho ab il pe manece uma in e posição
undamen al no acesso a pad ões de apa ência pessoal e a es e as de sociabilidade
pública” (Mon ei o,2010,168).
A adap ação dos neó i os, que ing essa am no Se iço de Mecânica, começou
po se ei a a a és do mé odo equen emen e u ilizado nes es momen os: enca egam-
se de a e as simples pa a sen i em a ma é ia e adqui i em des eza, “ganha em mão”,
como habi ualmen e nomeiam es e momen o do p ocesso de aquisição écnica. Desde o
início que es es ope á ios iam execu ando di e sas a e as, pa a que pudessem e
con ac o com o maio núme o de a i idades possí el, no sen ido de se ap oxima em de
a e as de alguma complexidade écnica e indi e enciadas simul aneamen e,
demons ando a impo ância de odas as unções e as suas especi icidades ine en es. Do
mesmo modo, o con ac o com as a e as mais básicas e aquelas de g au écnico ele ado
se iam igualmen e pa a p ese a a hie a quia social e p o issional igen e na o icina,
me gulhando os ecém-chegados ope á ios no quo idiano da o icina. Du an e as minhas
di e sas es adias jun o dos g upos de no os ope á ios que abalha am na secção de
mecânica, i e opo unidade de obse a um conjun o de a i idades di e sas, ais como:
limpeza de di e sas peças mecânicas, mon agem e desmon agem de mo o es ou
eng enagens, pequenas epa ações, idas a bo do, en e ou as. Es as a e as in luíam
di e amen e na aquisição écnica des es no os ope á ios, mas, ambém, nas
sociabilidades pe mi idas pela unção, ou seja, cada a e a que êm de desempenha
con ém em si mesma uma ma gem especí ica de ges ão empo al, co po al e social. No
deco e des e p ocesso de con ac o com as di e sas a e as, essa capacidade ges ioná ia
é igualmen e p a icada e adqui ida g adualmen e e con e ida, numa e apa mais a dia
da ap endizagem, em senso p á ico do ope á io, do ando-o de uma capacidade de ges ão
mais conscien e do p óp io abalho.
Naquela secção, os dois mes es man inham com os neó i os longas con e sas
explana ó ias sob e os di e sos p ocessos de abalho, os ma e iais e equipamen os. Os
ope á ios despendiam igualmen e bas an e empo a explica as écnicas elacionadas
com cada á ea. Ao longo das ho as que pe maneci na o icina, i e a opo unidade de
p esencia a o ma dedicada como cada ope á io da secção, no deco e de cada e apa da
a e a que es i essem a desempenha em conjun o, explica a de alhadamen e o que
es a am a aze e qual a azão. Habi ualmen e, os no os-ope á ios não ica am
ag adados com a ideia de e em de limpa peças com gasóleo, julgo que e a apenas com
isso que la a am, ou mesmo quando inham de usa uma pequena máquina que polia e
e i a a as sujidades com umas esco as gi a ó ias em malha de aço. No en an o, assis i
com equência aos ope á ios a elogia em o abalho e a ag adece em o empenho dos
no a os. O comp omisso áci o assumido po odos no sen ido de assegu a em a
con inuidade do conhecimen o e da mes ia ope á ia, pe mi e que não haja ocul ação do
conhecimen o, pa icula men e en e as ge ações mais no as, abaixo dos 40 anos,
con a iamen e aos di e sos ela os que ecolhi das expe iências biog á icas que esses
ope á ios i e am na ju en ude quando en ados no A senal do Al ei e.
Inicialmen e, na secção de se alha ia ci il, e am en egues abalhos de baixa
necessidade écnica aos p incipian es, como acon ecia na secção de mecânica. A
di e ença nes e g upo ecém-en ado encon a a-se no ac o de a maio ia deles e
alguma expe iência ab il. Po esse mo i o, com o deco e dos dias, os neó i os com
expe iência p o issional ence a am algumas discussões sob e a di iculdade em p o a
pela p á ica os seus conhecimen os écnicos, sen indo que os ope á ios ap esen a am
alguma descon iança em elação a eles. Es e mé odo de acolhimen o e espe i a
in odução na ealidade o icinal emon a à expe iência cole i a das di e sas ge ações
que se encon am ali p esen es, ou seja, a sua en ada no es alei o deco eu no inal da
adolescência, pa a a la ga maio ia. Tinham, po isso, um pe íodo incomensu a elmen e
mais longo de ap endizagem do que os no os ope á ios, p o ando que “ac ualmen e, a
socialização assen e no con ex o imedia o de abalho e nas o mas colec i as de
ansmissão e sanção do sabe o icinal oco e num momen o mais a dio da ajec ó ia
biog á ica e passa a exigi um pe íodo de ap endizagem mais cu o em elação ao
“ap ende len amen e” que implica a an es “ap ende a a e”, em que se podia
pe manece como ap endiz ao longo de oda a adolescência.” (Mon ei o,2010,96).
O uso des e mé odo jun o de elemen os do ope a iado com expe iência
p o issional e senso p á ico adqui ido, a quem apenas al a a componen e social daquela
ealidade conc e a, nu e nos ecém-chegados ope á ios um sen imen o de ansiedade,
associado a uma impossibilidade de p o a que se é po ado da “a e”. Apenas um dos
ope á ios ala a cla amen e com os mes es e ope á ios ace ca dessa ques ão. Os
es an es, acei a am a sua condição de no a os publicamen e. Con udo, nas con e sas
man idas en e eles, e na minha p esença, demons a am algum descon o o po se
sen i em desquali icados écnica e cogni i amen e. Num momen o em que esse ema oi
abo dado po um ope á io no a o, jun amen e com a pe spe i a sala ial que não e a
demasiado a a i a no longo p azo pa a aze ace às suas despesas, pois a sua
companhei a es a a desemp egada e inham ês ilhos ainda c ianças, o ope á io
con e sou com ele de o ma amis osa, buscando p oduzi uma isão posi i a da
opo unidade de e ing essado no A senal do Al ei e SA. A elação que os neó i os
man inham com os ope á ios e mes es e a bas an e p óxima. Com as de idas essal as,
po que a o ma de comunica dos mes es da Secção de Mecânica e da Secção de
Se alha ia Ci il e a bas an e dis in a, os no a os não deixa am de con e sa com eles
de o ma pelo menos apa en e, descon aída. A única cla a exceção de que pude oma
conhecimen o oi a de um neó i o que, a qualque opo unidade, e i a a um dos
mes es, de ido a uma expe iência não mui o posi i a com ele, nomeadamen e e
apanhado uma piçada.
Os no a os, como se ia expec á el, c ia am uma elação um pouco endógena,
que se aduzia na o ma como se elaciona am com os seus colegas di e os de abalho
nas di e sas secções, e com o g upo de ecém-chegados du an e o pe íodo de almoço,
quando inham opo unidade. Como mencionei an e io men e, habi ualmen e eles
almoça am na mesma ila de mesas, enchendo-a comple amen e. Nesse momen o,
oca am di e sas opiniões sob e o abalho e acon ecimen os daquela manhã ou do dia
ansa o. Após a e eição, eles dispe sa am-se no amen e pelos seus locais de abalho
ou no es alei o. Paula inamen e, esse g ande g upo inicial pe dia a sua dimensão mas
con inua a a se um elemen o in eg an e da dinâmica daquele conjun o de indi íduos.
Du an e as con e sas que es abeleci, acilmen e se o nou comp eensí el que a
disposição daquele g upo de ope á ios no a os não e a semelhan e à dos es an es
ope á ios, que ep esen am igualmen e di e sas ge ações.
Rela i amen e a es e g upo de no a os, a elação ao mundo ope á io é
inexis en e, apenas a noção écnica do abalho ab il, indus ial. Con udo, não pode ei
a i ma que assim con inua á a se po que, “ o na -se abalhado ab il signi ica
ap op ia -se, po imp egnação p og essi a, isce almen e, da memó ia colec i a da
o icina. A assimilação é ealizada a a és de uma disciplina (…). A exposição cons an e
às impu ações banais da p óp ia ma e ialidade do luga , ao ba ulho das máquinas, à
ugosidade p óp ia dos objec os, aos i mos e aos empos habi uais, esse en ol imen o
anódino na áb ica signi ica uma “mundanização” especí ica do ap endiz, ab indo um
modo de elacionamen o pa icula com o que su ge como ele an e”
(Mon ei o,2010,133). Me gulha naquela ealidade que é “ex emamen e iolen a e
hos il pa a odos os neó i os, susci a e ins ila imedia amen e, pelo condicionamen o
ísico, isiológico, senso ial e empo al dos abalhado es, uma manei a de es a , sen i e
aze que cons i ui uma epos a adap a i a e uma exp essão sin omá ica da expe iência
ab il” (Mon ei o,2010,30), p o oca necessa iamen e uma mudança no co po e men e
do ope á io, pa icula men e no A senal do Al ei e, onde his o icamen e a unidade
daquele cole i o ope á io oi semp e impo an e.
3.2.10 - A e amen a e o ges o
Recupe ando o des aque que oi dado an e io men e ao a o de gua da e man e
as e amen as segu as, pa ece-me impo an e dedica algum espaço de e lexão ao
compo amen o dos ope á ios em elação à e amen a, ao ges o, à sua pe ícia. O a o
o inei o de gua da e man e sob e igilância as e amen as, em um simbolismo
impo an e pa a os ope á ios, pelo simples mo i o de que di e sas e amen as que eles
êm, o am os p óp ios a cons ui e/ou a adap a às suas necessidades ísicas, ou seja, a
o ná-las e gonómicas.
No caso especí ico do A senal do Al ei e, es e aspe o da pe ícia, da “a e”,
semp e oi bas an e impo an e, pois a p imei a a e a dos ap endizes e a cons ui a sua
p óp ia e amen a, a qual i iam man e pa a o es o da sua ida no es alei o. Se ia
igualmen e como o ma de a alia os ap endizes desde que chega am, esc u inando ao
longo da sua biog a ia, quais es a am a p og edi e quais pode iam e mais habilidade,
compa ando com o momen o de en ada no es alei o. A e amen a inha um alo
incomensu á el pa a os ope á ios, podendo mesmo a i ma -se que a sua pe da, se ia
uma ampu ação simbólica do seu co po. Hoje em dia, o simbolismo da e amen a, a sua
pe ença, em duas dimensões opos as, mas que são impo an es: p imei amen e, a
necessidade de equisi a e decla a a e amen a an e io como pe dida ou pa ida,
impele o abalhado a “pe de empo” com esses p ocessos bu oc á icos, p omo endo
algum sen imen o de pe ença em elação a ela. Po ou o lado, é comum ainda
encon a e amen a ei a pelos p óp ios ope á ios e, mais simples de encon a ,
e amen as com al e ações ealizadas po eles no sen ido de cump i melho a sua
unção, adap ando-as ao co po do ope á io que a u iliza.
Sendo o A senal do Al ei e um es alei o com uma longa his ó ia, con ém
di e sos conhecimen os ali deposi ados, seja de o ma ma e ial, a a és de e amen as,
máquinas e li os, seja a a és da ima e ialidade das his ó ias o ais, passadas ao longo
dos anos, sob e a ida social no es alei o e os p ocessos de abalho. Esses
conhecimen os ou o gam aos ope á ios uma impo ância que habi ualmen e já não êm
em di e sas áb icas. Con udo, segundo aquilo que me oi possí el obse a , há uma
dupla azão pa a que os ope á ios con inuem a demons a o seu sen ido p á ico e a sua
a e: o p imei o, o o gulho ope á io em mos a os seus conhecimen os, o domínio da
écnica, do co po, do ges o, que p omo e e man ém es e sen imen o i o. O ou o
mo i o, que se con e e num elemen o de ex ema impo ância, é o en elhecimen o
ge al do pa que de máquinas do A senal do Al ei e. Há necessidade de os ope á ios
cump i em di e sas a e as manuais, e o manuseamen o de algumas máquinas ainda
eque uma in e enção do ope ado ao ní el mecânico, não exis indo componen e
ele ónica, o que c ia uma necessidade de in e i cons an e da pa e do ope á io. No
en an o, começam a chega alguns equipamen os mode nos, pois, paula inamen e, su ge
a necessidade de e o mula o pa que de máquinas, pe an e o desen ol imen o da
ecnologia e a al e ação dos modos de p odução.
Obse a os ope á ios a abalha é ambém oma consciência do p ocesso
co po al que oco eu indi idualmen e em cada ope á io. O co po o na-se imbuído de
no as capacidades ísicas e men ais, o que signi ica, ob e um domínio co po al mais
segu o sob e a écnica, a ma é ia e a máquina. Esse con ac o com os ma e iais e com a
p óp ia iolência, ísica e psicológica, do abalho, de e mina uma ce a conceção e
o ganização do mundo, que é ei a à medida das p óp ias elações imp egnadas na
áb ica. O ges o dos ope á ios e es e-se de p ecisão e, simul aneamen e, le eza,
anspo ando consigo a ce eza de que não há luga pa a dis ações naquele abalho.
Es as pode ão aduzi -se numa mazela. Po ou o lado, a censu a do g upo ope á io é
imedia a, pa icula men e du an e o p ocesso de ap eensão do(s) ges o(s), da “passagem
de es emunho”, po se a a de um duplo mé odo de ap endizagem, ou seja, mimé ico e
explana i o. De ido à ime são naquele g upo social e p o issional, assim como ao
con ac o com a ma é ia, os ope á ios o nam-se do ados de uma economia de ges os. O
seu sa oi - ai e adqui e um au oma ismo men al e ísico, al como indica And é Le oi-
Gou han, a a és daquilo que designou como cadeias ope a ó ias maquinais e que são
o ní el seguin e ao ins in o nas capacidades ce eb ais (Le oi-Gouh an,1965). O mesmo
au o auxilia igualmen e a comp eende a impo ância des e encon o, ope á io-ma é ia,
a a és da seguin e o ma, “l’ou ie mis en p ésence de la ma iè e compose a ec les
quali és e les dé au s pa iculie s qu’elle p ésen e, combine su ses connaissances
adi ionnelles le dé oulemen possible des chaînes de ges es, condui sa ab ica ion,
co ige, abou i au p odui don il es l’au eu dans une dépense équilib ée de
mou emen s musculai es e d’idées.” (Le oi-Gou han,1965,60).
Em suma, a elação (ou pode ei mesmo dize a con on ação) en e co po e
abalho, e sua con adição in ínseca, ap esen a-se sin e izada po B uno Mon ei o da
seguin e o ma: “Capi al co po al e abalho co po al es ão unidos po uma elação
ecu si a e con adi ó ia na áb ica. Adqui i uma alo ização num o ício
undamen almen e co po al, que exige uma pa icipação isicamen e in ensa e um sabe -
aze complexo, ob iga a uma dedicação p ecoce e p olongada ao abalho; al
in es imen o conduz, no en an o, a um desgas e de o ças ísicas e espi i uais.”
(Mon ei o,2010,46).
3.2.11 - Os hobbies
Desde semp e o A senal do Al ei e albe gou ope á ios que es i e am polí ica e
socialmen e en ol idos em lu as de con es ação do sa us quo einan e em cada
momen o. Esse en ol imen o e a o esul ado de uma e olução pa a ou o es ágio
psicológico, que despe a a não só essa consciência polí ica, a a és do i ido, das
lei u as ei as e da pa ilha humana, mas ambém um in e esse pela exp essão a ís ica,
con e endo-a numa e amen a de adução do mundo conc e o, dando ida aos seus
pensamen os e sen imen os.
Quando cheguei ao A senal do Al ei e, a minha espec a i a em elação aos
hobbies dos ope á ios e a bas an e eduzida. Pensei que de e ia incidi sob e a i idades
de ec eio e não an o sob e a i idades a ís icas. Tal ez osse p econcei o e
subes imação daqueles indi íduos. Ao im de alguns dias de pe manência, i e a
opo unidade conhece um ope á io que se in e essa a pela o og a ia e po uma écnica
de pin u a a sp ay que ele usa a em di e sas supe ícies. Rapidamen e, a a és desse
ope á io, conheci mais ês colegas que se dedica am à o og a ia amado a e
p o issional. Um dos ope á ios, com ce ca de in a anos de se iço no A senal do
Al ei e, cos uma a dedica -se à o og a ia de e en os de o ma p o issional, apesa de a
empo pa cial. Esse ope á io e a enca ado como um géne o de men o dos es an es
p a ican es de o og a ia. Habi ualmen e, os ope á ios o ganiza am passeios
o og á icos po di e sos locais, como po exemplo, Lisboa e Se a da A ábida. Após a
minha saída do es alei o, de ac o á ios meses mais a de, i e a opo unidade de e
algumas o og a ias publicadas nas edes sociais, onde dois ope á ios ize am uma
sessão o og á ica de es údio e um nu in eg al na o icina de mecânica, demons ando a
sua eno me abe u a e inclusi amen e, dos seus colegas. Con inuando no ema da
o og a ia, con e sei com ou os dois ope á ios que ambém inham in e esses
o og á icos, ligei amen e di e en es des e g upo, que se dedica maio i a iamen e à
o og a ia social, de na u eza e de es údio. Es es ope á ios- o óg a os, dedicam-se
maio i a iamen e à o og a ia de a qui e u a e de a es. Esse abalhado é um aman e de
a es, po isso, casou essas duas paixões, ac escen ando ainda o ac o de es e ope á io
se igualmen e p o esso de a es ma ciais.
Não obs an e a o og a ia se a a e mais p a icada, os ope á ios do A senal do
Al ei e SA não se es ingem somen e a ela e é possí el encon a ou as o mas
a ís icas den o daquele es alei o. Não descu ando o legado exis en e en e aquele
cole i o ope á io, um dos ope á ios oi du an e á ios anos mes e de xad ez, endo sido
einado de jogado es in isuais ede ados du an e alguns anos, ep esen ando Po ugal
em di e sos campeona os. No A senal do Al ei e, a adição de joga xad ez semp e
exis iu en e ope á ios, não azendo, p esen emen e, pa e das a i idades. Ou o
ope á io, com o qual man i e uma elação ela i amen e p óxima, mos ou-me as suas
pin u as de na ios da ma inha, em es ilo nai , que é o seu p edile o. Es e ope á io
es udou escul u a numa escola de a es, e equen emen e eunia-se com amigos da sua
á ea de esidência pa a i em a museus e discu i em ob as de a e e a is as. Além des as
á eas a ís icas, acilmen e me depa ei com mais ês ope á ios que aziam escul u a,
pa icula men e um deles que c ia a ob as em madei a. Os es an es aziam éplicas de
peças em me al ou em madei a, ais como: gui a as, peças de xad ez, cinzei os. A
música ambém ma ca p esença naquela ealidade. Um ope á io inha g upos de baile,
nos quais can a a e oca a gui a a, e ou o abalhado oca a e leciona a ca aquinho.
Finalizando as di e sas capacidades a ís icas exis en es no es alei o, gos a ia de
des aca um ope á io que e a pin o , desenhado e ca ica u is a, endo inclusi amen e
ealizado uma ca ica u a minha em “dois minu os” cap ando o momen o como se osse
uma máquina o og á ica.
Es a dimensão a ís ica que o A senal do Al ei e ag ega con ibui igualmen e
pa a as múl iplas e densas ealidades que coexis em naquele cole i o ope á io, que se
cons ói alice çando-se na obje i idade da p odução e na subje i idade social e cul u al.
As pa ilhas p opo cionadas po es es in e esses a ís icos, no local de abalho e no
ex e io , con ibuem de o ma p opo cional, di e a e indi e amen e, pa a a ag egação dos
di e sos g upos ope á ios p esen es naquele es alei o. Es e a o de compa ilha os
in e esses a ís icos de cada um pe mi e melho a os conhecimen os in elec uais e
analí icos dos ope á ios, ap endendo uns com os ou os. Con igu a ambém a
possibilidade de c ia laços ap o undados ace ca da cons ução de uma (no a)
iden idade ope á ia naquele local, baseando-se mais na conc e ização subje i a de
classe, nos in e esses e d amas pessoais, do que apenas no alo conc e o e p agmá ico,
nas ei indicações exclusi amen e ma e iais sob e as condições de abalho, ou seja, na
es u u ação da consciência de classe apenas na p odução.
3.3 - A possibilidade de um ilme e as limi ações do abalho soli á io
Du an e o abalho de campo, decidi dedica as duas p imei as semanas,
sensi elmen e, a es a p esen e nas o icinas, con ac a com os ope á ios e não
anspo a comigo o equipamen o audio isual. Ao longo desse pe íodo, deambulei
pelas o icinas, con e sando com di e en es elemen os do cole i o ope á io, apenas
obse ando e p ocu ando comp eende a cadeia ope a ó ia de cada local de abalho. Ao
cabo desse empo, decidi aze -me acompanha pela câma a de ilma e inicia a ase de
cap ação das imagens pa a o documen á io que me p opus ealiza nes e abalho de
p oje o. O p ocesso de en ada não oi ão simples quan o imaginei, endo em con a que
me encon a a há alguns dias no es alei o. Ti e de p eenche um mani es o, onde
decla a a udo aquilo que inha den o da mochila, ab indo-a de seguida pa a que um
dos polícias da base e/ou o segu ança da emp esa p i ada con a ada pelo A senal do
Al ei e SA, con i masse o equipamen o que anspo a a comigo. Na e dade, esse
p ocesso du ou apenas alguns dias e após esse empo udo se o nou mais agilizado, pois
deixei de e a necessidade de se sujei o a um con olo minucioso. Apenas no inal da
minha es adia con i ma am a saída do meu equipamen o e a espe i a anexação do
mani es o ao p ocesso, dando con a da sua inu ilização u u a.
3.3.1 - Su gimen o da câma a e a necessidade de uma no a eap oximação
“The Sel is no mo e in iolable han he O he is inalienable. Fa om i , in ac : Sel
and O he , agmen a y and pa ial as hey a e, a e mu ually cons i u i e, coexis ing in a
sha ed, i shi ing, ield o consciousness.(…) To he con a y, as MacDougall
emphasizes, indi idual expe ience p esupposes a plu ali y o subjec i i ies, in ou sel es
and o he s, and hese do no de ac om ou sel hood so much as hey ac i ely
con ibu e o i . In ilm as in li e, ou concep ion o ou sel es as well as o he wo ld is
in ica ely ela ed o ou concep ion o o he s. O he people’s subjec i i ies a e hei
own, o be su e, bu hey also inhabi he same wo ld as we do, and his cohabi a ion is a
sou ce o commonali ies – be ween indi iduals and by ex ension, says MacDougall,
be ween g oups – as much as i is o di e ences” (Macdougall,1998,13).
essa ep esen ação isual (no caso especí ico, pe an e a Adminis ação, po exemplo)
aumen a e az e gue em-se demasiadas ba ei as que e ão de se de ubadas a a és do
empo e da negociação cons an e pa a a ingi uma con iança mú ua que pe mi a acede a
no as camadas. No en an o, e o çando a ideia de Macdougall, a a és dessa in e ação e
eco endo aos mecanismos audio isuais ou cou , sem ambiciona a alidação
an opológica baseada na conceção esc i a da disciplina, no as opo unidades pode ão
su gi se a an opologia isual consegui po encia aquilo que ainda em es ado a se
(pelo menos pa a mim oi) uma des an agem e uma di iculdade eal: a al e ação de
compo amen os dian e da câma a (encenação posi i a e nega i a) con a iamen e ao
pon o em que nenhuma ou a o ma é mais “ eal” po que conse a a ma e ialidade da
imagem cap ada (a sua ep odução mecânica do eal).
3.3.2 - Relação dos ope á ios com a câma a
Es e capí ulo em incidido sob e a al e ação de compo amen o dos ope á ios no
momen o em que apa eci com o equipamen o audio isual, exce o aqueles que inham
in e esse pela o og a ia, que quise am obse a a câma a e con e sa um pouco sob e
imagem. No seguimen o dessa emá ica, i ei ap o unda um pouco mais a elação que os
abalhado es o am man endo com a câma a ao longo dos dias de odagem, a
encenação do Eu dian e dela, a ges ão espacial e empo al que i e de e e ua pa a que
não causasse ( an o) descon o o a minha p esença, assim como as minhas escolhas no
a o de ilma (o que posso ou não mos a , o que in e essa ou não pa a o ilme).
Como e e i no ópico an e io , ap esen a -me acompanhado pela câma a de
ilma nas o icinas p o ocou um descon o o inicial ge al nos abalhado es e ob igou-
me a eposiciona -me no chão da o icina. Op ei po começa a ealiza a cap ação de
imagens, al como mencionado, na Di isão de Mecânica, pelo simples ac o da minha
elação com aquele g upo ope á io e omado uma p oximidade que nunca alcancei nos
ou os locais. O descon o o inicial apenas es e e p esen e du an e as p imei as omadas
de imagens. Após deambula pela o icina, con e sando e es udando o espaço pa a
inicia as ilmagens, os ope á ios ( e)inicia am a in e ação comigo sem um g ande
descon o o apa en e. As con e sas en e colegas con e e am-se um pouco e as piadas
pa a “a câma a” o am-se desen olando à mesma elocidade. Subi amen e, comecei a
se solici ado pa a ilma (os ope á ios di e sas ezes e e iam-se ao a o de ilma como
o og a a ) um de e minado p ocesso de abalho ou pa a “ i a uma o o” a dois ou mais
ope á ios que se encon a am a abalha em equipa. O momen o ca ica o, posso
chama -lhe dessa o ma, oco eu du an e a in e ação de dois ope á ios, um bas an e
mais no o do que ou o, em que o mais no o iniciou uma pe o mance de exposição
pública da achada do colega (Go man, 1956), ou seja, i onizando ace ca da o ma
como o mais elho lhe es a a a ensina a manusea um equipamen o e ambém
i onizando (ou mesmo ca ica u ando) a sua i ilidade. Nesse momen o, pe mi i que udo
se desen olasse sem in e e i , endo em con a que ou os es a am igualmen e a
obse a e pode iam julga que eu i ia in e i nos momen os u u os. Nessa ocasião
pe cebi que i ia e essa di iculdade naquele local, ou seja, pe an e a pe o mance
delibe adamen e exage ada em ace da câma a, não e ia capacidade de ge i de ou a
o ma a não se es a: deixa a pe o mance p ossegui como cada um e odos
en endessem.
A in e ação que os ope á ios dessa di isão man inham comigo enquan o ilma a
e a absolu amen e di e en e das es an es di isões. Naquele local, a in e ação comigo
e a eco en e e mesmo quando me encon a a p óximo deles a ilma , não sen i que a
sua mudança compo amen al osse b usca. Nas es an es secções, embo a i esse boas
elações e di e en es ní eis de p oximidade, nunca me sen i “em casa”, pa icula men e
quando es a a acompanhado pela câma a (em algumas o icinas apenas acon ecia
quando inha a câma a comigo). As in e ações en e ope á io-ope á io (na minha
p esença) e en e câma a-ope á io i e am di e sas in ensidades nas di e en es o icinas.
Como já e e i, na Di isão de Mecânica encon a a-me pa icula men e con o á el,
exceção pa a o se iço de caldei a ia de ubos onde gene icamen e não encon a a
cons angimen os a ilma mas inha pe ei a noção de que alguns abalhado es não se
sen iam descon aídos na minha p esença. Nos es an es locais, a elação que man i e
e a co dial com a massa ge al dos abalhado es e bas an e p óxima com um eduzido
g upo de cada sec o . A maio di iculdade que encon ei acabou po se a de c uza essa
ba ei a que inde iniu a nossa elação do pon o de is a da u ilização das imagens.
Di e sos ope á ios não inham uma ligação posi i a com aquilo que a imagem
ep esen a: a sua p óp ia ep esen ação e a u ilização que pode ia aze disso. A minha
decisão de não in e i i mou-se mais na busca pela não exis ência de mais obs áculos à
minha p esença. Po isso cap ei as imagens semp e man endo essa jus a dis ância que
encon ei, al como e e i an e io men e, dando passos de ap oximação em momen os
cha e dos abalhos. Reco do-me do conjun o de planos que iz de um ope á io a co a
chapa desgas ada de uma es u u a de um na io na o icina de cons uções na ais
(Se iço de Caldei a ia Na al) com o maça ico de oxiace ileno, em que u ilizei câma a
mó el e me ap oximei o mais possí el dele, em i ude do abalho que es a a a ealiza
mas ambém po que esse abalho ob iga a-o a deposi a bas an e concen ação nele,
azendo com que não se incomodasse pelo a o de me encon a ( ela i amen e)
p óximo dele. Te minei po me oca nes es momen os de abs ação ou ela i o con o o
em elação à minha p esença, de ido à a e a que se encon assem a ealiza , pa a segui
ilmando as écnicas, in e ações sociais e ma e iais nas o icinas po que me auxilia a
esse momen o em que igno a am um pouco mais a minha p esença na o icina.
3.3.3 - O Almoço (os jogos e o e ei ó io)
O pe íodo de almoço e a um momen o de g ande impo ância na jo nada labo al
dos abalhado es. Pa a além da pausa que ep esen a a, e a nesse momen o que os
papéis sociop o issionais em igo se in e iam, embo a nunca os despissem den o do
es alei o. A possibilidade de escolha (pode esquece o abalho e escolhe como ocupa
o empo du an e essa ho a) que e es ia aquele pe íodo o na a-o um momen o sensí el
pa a mim. Ques iona a-me com equência se de e ia ilma os di e sos momen os que
compunham aquele pe íodo ou se de e ia abs e -me pa a libe a os ope á ios da
p essão de me e em po pe o a ilma . A e lexão a que me p es ei encaminhou-me na
di eção de abdica do egis o isual desses momen os, po aquilo que ep esen a am
pa a os abalhado es (o seu momen o), e po que se o nou p emen e a possibilidade de
con e sa com eles e ap oxima -me sem a limi ação impos a pela a e a que es i essem
a desempenha . Dessa o ma, o único egis o que decidi e e ua ela i amen e ao
pe íodo da e eição oi com os ope á ios a di igi em-se pa a o e ei ó io e na ila a
agua da . O ou o momen o oi a cap u a dos jogos de ca as e de damas que acon eciam
dia iamen e en e alguns g upos de ope á ios du an e esse pe íodo.
A p emissa de que o cinema obse acional é baseado em escolhas, al como
Macdougall e e e no seu li o T anscul u al Cinema, con e eu-se numa ideia bas an e
conc e a nes es momen os pa icula es
25
po que, “ he ilmmake is limi ed o ha which
occu s na u ally and spon aneously in on o he came a. The ichness o human
beha io and he p opensi y o people o alk abou hei a ai s, pas and p esen , a e
wha allow his me hod o inqui y o succeed” (Macdougall,2006,132-133). A
in omissão excessi a que ep esen a a a cap u a de imagens no e ei ó io assim como a
possibilidade de incomp eensão pelos abalhado es do p opósi o daquelas imagens
( endo em con a que o ambien e ideal é a o icina, não o e ei ó io) di ou que
abandonasse essa ideia. No pe íodo imedia amen e após e mina a e eição, com
equência eg essa a pa a uma o icina (quase semp e a de Mecânica ou a da
Se alha ia Ci il). No en an o, algumas ezes di igi-me a ou as o icinas onde encon ei
alguns ope á ios ocupando o empo com jogos de ca as e damas. Inicia a cap ação de
imagens do jogo de ca as oi um p ocesso de negociação que se es endeu um pouco no
empo, ce ca de ês sessões, po que eu que ia pe cebe a abe u a dos ope á ios a se em
ilmados, qual o habi ual desen ola do jogo, como se compo am, como se o mam as
equipas e in e agem du an e o jogo pa a comp eende que planos cinema og á icos
pode iam se ealizados e qual se ia a melho o ma de abo dá-los com essa in enção:
ilmá-los. Ao cabo de duas ezes a obse á-los, no inal daquelas ondas de pa idas de
sueca decidi ansmi i a minha in enção de ilmá-los no dia seguin e ou nou o. Fica am
um ins an e em silêncio e indiquei-lhes que i ia apenas ilma as suas mãos com as
ca as e g a a o som, ob iamen e. Nesse momen o a ensão que se ge ou dissipou-se e
consen i am que ilmasse o jogo de ca as seguin e. A ecolha isual que e e uei jun o
do ou o g upo de ope á ios que cos umam joga às damas, oi de e as mais simples de
ealiza pois a minha p esença no momen o em que coloca am o pano e de, o abulei o
e as peças pe mi iu-me pe manece p óximo deles a obse a o jogo e no momen o em
que comp eendi as in e ações, as eg as do jogo e as ocasiões em que ano a am os
pon os conquis ados, decidi pedi pa a ilmá-los, den o do mesmo egis o de apenas
cap u a os mo imen os das mãos e as in e ações pe manece em apenas no domínio do
áudio.
A minha opção pelos planos ap oximados apenas das mãos de eu-se, em
p imei o luga , a uma necessidade de ga an i alguma no malidade (den o do possí el)
en e os abalhado es ao longo de ambos os jogos, pe mi indo que eles con inuassem a
in e agi de o ma mais ou menos espon ânea po que sabiam que não i iam se ilmadas
25
Que em elação ao con ex o labo al pe si, são especiais de ido à possibilidade de ges ão das on ades
pessoais, mesmo que ence adas num limi e de e minado.
as suas ca as. Em segundo luga , as mãos são o elemen o co po al que “ba e” as ca as e
mo e as peças das damas, ou seja, a sua ação des aca duas ca ac e ís icas impo an es: a
ação/ges o (que é de e minan e no jogo) e a ca ga d amá ica con ida no ges o
26
. A
câma a mó el seguiu um c i é io de mobilidade, de possibilidade de eenquad amen o
consoan e as jogadas e os di ames do momen o po que no cinema obse acional é
necessá io an ecipa os momen os. Aliás, é nessa ma é ia empo al que o
documen a is a abalha cons an emen e: o momen o p esen e da ação que deco e em
en e à câma a (analisando a ação que es á a ilma , enquad ando da melho o ma a
ga an i o melho egis o possí el) e a an ecipação do momen o pos e io pa a da
seguimen o a uma na a i a cinema og á ica desejada. A a és do egis o apenas áudio
das in e ações sociais no deco e do jogo, p ocu ei não desca ac e iza aquele
momen o, pelo ac o de não e cap ado nenhuma imagem dos abalhado es, e concede
uma dimensão social àquele a o. Dessa o ma p e endi ep esen a implici amen e as
o mas como os ope á ios socializam, nomeadamen e quando es ão nes e momen o de
pausa, no som egis ado.
Uma ou a ques ão com a qual me deba i naquele momen o em que es a a a
analisa as pa idas oi ace ca da melho abo dagem àquele g upo, de o ma a não
coloca a sua ep esen ação social e p o issional em causa pe an e os supe io es
hie á quicos. Apesa de não se um a o p oibido, os iscos ine en es à ansmissão de
uma imagem dis o cida daquele cole i o ope á io es ão semp e p esen es. Po esse
mo i o decidi p ese a (um pouco mais) as suas iden idades e as o icinas onde
abalham. Es a linha sensí el de elacionamen o ob igou-me a e semp e uma a enção
edob ada ela i amen e à exposição dos ope á ios, pa icula men e du an e o p ocesso
de edição do documen á io. Pa a além das ques ões é icas da elação que os
an opólogos man êm com as pessoas que po oam os seus e enos de abalho, quando
se incluem imagens pa a u iliza num ilme é necessá io es a mui o conscien e das
implicações que elas pode ão e na ep esen ação dos in e enien es. No meu con ex o
especí ico aduz-se igualmen e na capacidade de comp eende as dinâmicas
hie á quicas, a o que se e es e de g ande impo ância po que es á num domínio
ocul o que ob iga o an opólogo a “esca a ” um pouco mais undo pa a as comp eende
com maio cla eza. Pessoalmen e, es a ques ão demo ou-me um pouco de empo a
26
A in ensidade ou ausência dela com que os joga es “ba em” as ca as e as peças de damas é exemplo
disso. Esses ges os os ensi os demons am con iança naquela “mão” e nas suas capacidades, sendo
mui as ezes um me o blu , mas que em em si mesmo essa ca ga he oica do gue ei o que ai “a jogo”
independen emen e da sua condição.
comp eende , po que apesa de um ce o descon en amen o ge al que e a pa ilhado
comigo de o ma cla a, as azões não e am acilmen e expos as, endo sido necessá io
a en a em alguns comen á ios dep ecia i os ou pa ilhas en e colegas de
compo amen os po eles condená eis.
3.3.4 - Cap a as sociabilidades ope á ias: in e i ou não in e i ?
“Ou ilm expe ience elies upon ou assuming he exis ence o a pa allel senso y
expe ience in o he s. I ou a ac ion o he “quick” can be said o ha e a des ina ion, i
is he consciousness o o he s ( he sense hey ha e o being hemsel es). I is h ough
his ha ou own sense o sel is de ined and con i med. The link be ween he known
body ( he ilmmake , he iewe ) and a b oade sense o sel – he sense ha o he s ( he
ilm subjec s) ha e o hemsel es (and o he s) – is hus implici in documen a y’s
p eoccupa ion wi h he eal. Sigh and ouch a e linked o consciousness, in he b oades
sense. To ouch he quick in o he s is o ouch i in ou sel es. We ea i m ou iden i y
no only h ough o he ’s esponses o us, no me ely by seeing ou sel es as o he s (…),
bu in he ligh o o he s equi alen consciousness” (Maccdougall,1998,52).
A minha expe iência enquan o documen a is a o nou possí el um domínio
ela i o dos equipamen os. Con udo, assumo que in luenciou nega i amen e a minha
pe spe i a ace ca da abo dagem obse acional is o que me conse ei demasiado
e icen e ao longo do p ocesso em in e agi com os sujei os que me encon a a a ilma .
A cada momen o que os ope á ios in e agiam di e amen e comigo (pa icula men e,
como en a izei, na Di isão de Mecânica), e le ia semp e se de e ia p ossegui nessa
con e sa, co endo o isco de al e a o umo da sua ação e limi a a sua in e ação com os
es an es colegas. De ez em quando, azia algum géne o de obse ação às a i mações
ou ques ões que os ope á ios me coloca am, o que me pe mi ia, naquele momen o,
man e alguma p oximidade com o sujei o e, de ce o modo, azê-lo elaxa dian e da
câma a. Não obs an e e comp eendido isso a pa i da expe iência i ida, assumi
semp e um papel um an o con á io po e in e io izado essa on ade em in luencia
di e amen e o menos possí el, es ando conscien e de que es a ali in luencia a numa
dimensão indi e a aquela ealidade conc e a.
A comp eensão que ui adqui indo ao longo da odagem do documen á io
possibili ou-me g anjea essa dimensão e lexi a do eal que Macdougall des aca
(Macdougall, 2006). Con udo, coloca a-me eco en emen e a ques ão ace ca dos
limi es da minha in e ação com os ope á ios, pa icula men e se de e ia ou não in e i .
In elizmen e, assumindo desde já que pode ia e ence ado uma o ma mais explo a ó ia
nesse domínio, man i e-me bas an e ese ado, não eagindo às suas in e ações ão
equen emen e quan o pode ia ê-lo ei o. In imamen e, ambiciona a esse obje i o da
ly on he wall quando, na e dade, pode ia e sido uma ly in he soup, assumindo uma
abo dagem mais p o ocado a, de alguém que in e ém na ação e comunica com os
sujei os ilmados (Bill Nichols, 2005). Apesa de e comp eendido a necessidade de em
de e minados momen os assumi esse papel in e a i o como algo impo an e, a é do
pon o de is a elacional com os sujei os da ação, qual o limi e a é onde de e i o
an opólogo, sob pena de in luencia demasiado a ealidade em que se inse e? Jean
Rouch dizia, “ ha some u hs can only be accessed h ough ic ion. Mo e han a simple
obse e , he came a is a p o oke ” (ci in Ca é, e Hikiji,2012,331), mas pa a o cinema
de obse ação, onde a ação espon ânea é a cen alidade e não a ação pa a a câma a,
o na-se uma elação ligei amen e complexa.
Pa indo da minha expe iência no A senal do Al ei e SA, pe maneço insegu o
sob e a o ma como o an opólogo de e ou não in e i . A espos a a es a dú ida apenas
pode á se encon ada na i ência conc e a de cada ambien e. Se á essa a ideia
p incipal. Não obs an e esse a o , no deco e dos meus dias de ilmagem, as ealidades
ambi alen es com que me con on a a, indo desde uma pe o mance exage ada
(pedindo pa a i a o og a ias, dizendo “piadas” pa a a câma a, alando al o pa a os
colegas, idicula izando-os) a é uma pe o mance que lhe chama ei nega i a (pois a
in e ação e a nula e o compo amen o mecânico, epe indo apenas os ges os da a e a
em silêncio e a um i mo mais b ando) e idencia a-se. Dessa o ma, e endo em con a a
minha expe iência sem câma a, pode ei assumi que em de e minados momen os,
pa icula men e naqueles em que a pe o mance e a nega i a, pode ia e ensaiado uma
abo dagem mais in e a i a, de con ac o di e o, p o ocando o in e enien e a ala e a
pa ilha algum géne o de in o mação pa a que assim osse possí el disco e sob e o
compo amen o dessa pessoa (se e a mesmo ese ada ou se sen ia descon o á el
dian e da câma a). Em elação à pe o mance exage ada pode ia e in e indo mais em
dois aspe os, con o me o momen o: de uma o ma que p o ocasse um ce o se ena dos
ânimos e po ou o lado, uma ação que uncionasse como elemen o quase ca á ico de
ag egação cole i a, que pe mi isse in e e um pouco da o dem einan e den o da
o icina, podendo e i a ou o ipo de in o mação sob e esses momen os de maio ensão
ou a é mesmo de ação cole i a.
Po im, não consigo a i ma pe en o iamen e se a in e ação (de qualque
géne o) e i a a e acidade das sociabilidades de de e minado g upo ou se lhe coloca
en âse (ao po enciá-las ou acalmando-as). No en an o, pa ece-me e iden emen e que se
de e p es a uma a enção especial a esse domínio in e a i o enquan o se ilma alguém
ou um g upo de pessoas, po que a ca ga d amá ica aí con ida pode despole a momen os
que não se espe a am e cla i ica algumas ques ões que pode iam es a subjacen es à
pesquisa e que não es a am “à is a”. Tal como Macdougall e e e, “A i s bes ,
e hnog aphic ilm gi es equal on ological weigh o he isible and he in isible. In he
an h opology o he isual, on he o he hand, i is he scope o he signi ied ha is
cons i u i ely isual – a cu iously sel -de ea ing delimi a ion, in iew o he ac ha he
isual and he non isual a e each sa u a ed wi h he o he ” (Macdougall,1998,17).
3.3.5 - Limi ações écnicas e humanas
Nes e ópico gos a ia apenas de egis a algumas i udes e limi ações da
expe iência soli á ia de ilma um documen á io e nog á ico. O es alei o não oi um
local de ilmagem exage adamen e complicado, possi elmen e em i ude da
expe iência que aquele cole i o ope á io em quan o a ecebe o óg a os e equipas de
ilmagem. Também o ac o de exis i no seio ope á io alguns elemen os com
conhecimen os de o og a ia con ibuiu pa a que não osse uma expe iência
excessi amen e complicada. No en an o, as di iculdades conc e as que me o am
su gindo, ao ní el do con ac o di e o com os ope á ios ao ilmá-los (p incipalmen e ao
ní el da pe o mance exage ada e da nega i idade pe o má ica) p o oca am uma
necessidade negocial implíci a cons an e, conduzindo-me a um eposicionamen o na
abo dagem e na ges ão empo al e espacial.
Apesa de não e di iculdades em manusea o equipamen o, an o a câma a de
ilma como o equipamen o de som (mic o one e g a ado po á il) a expe iência de
ilma e g a a som sínc ono com a imagem sozinho eque semp e alguma des eza.
Po ezes, ealiza ambas as a e as, o igina alhas écnicas, mais ou menos g ossei as,
que não são pe cecionadas a empadamen e (no local de ilmagem) e ob iga o
documen a is a/an opólogo a assumi que o ma e ial de ilmagem cap ado nesse dia se
encon a inu ilizado, seja a imagem, o som ou ambos. Nesse sen ido, a minha
expe iência não oi a exceção da eg a mas an es a assunção dela. No inal do p imei o
dia de ilmagens, no momen o em que azia a isualização das ushes
27
ape cebi-me de
que o som e a apenas uído, o que impossibili a a a sua u ilização na mon agem.
Ve i iquei que o p oblema es a a no cabo que liga a o mic o one à câma a de ilma
mas ol ei a insis i no mesmo e o, julgando se somen e um mau con ac o ge ado em
i ude da má colocação do cabo. Ao longo do segundo dia (nesse dia po di e sas
ezes e i iquei se o som es a a com a qualidade desejada) comp eendi que o p oblema
se encon a a no cabo e, uma ez mais, cap ei uído em á ias omadas de is as.
Somen e no e cei o dia decidi muda de cabo e o uído desapa eceu. Es e oi “apenas”
o maio p oblema écnico que i e ao longo da odagem do documen á io.
Rela i amen e à imagem, as di iculdades que i e consis i am na necessidade de
ajus a a dis ância ocal pa a que udo con inuasse ocado e o eenquad amen o
equen e de ido às mudanças na u ais de posição que os ope á ios ealiza am. Po esse
mo i o, e e i que a an ecipação das ações é ex emamen e impo an e no deco e da
omada de imagens, sendo o esul ado de um abalho de obse ação p é io bas an e
apu ado, azendo com que o an opólogo in e io ize e comp eenda as o inas e ações.
Essas limi ações não podem se conside adas p oblemas écnicos, po que o cinema
obse acional p es a-se a essa ince eza e espon aneidade em i ude da p io idade dada
aos sujei os e às ações que es ejam a desempenha , o nando-os o cen o da na a i a
que se es á a cons ui em de imen o, mui as ezes, de um enquad amen o mais
pe ecionis a.
Na con inuação da exposição das limi ações que a p esença soli á ia ab aça,
gos a ia de des aca que essa o ma de es a p esen e no espaço c ia alguma di iculdade
de elacionamen o com os agen es locais de ido à dupla dimensão indi íduo/cole i o
que se pode encon a . No es alei o, i e semp e em e idência que nos momen os em
que es a a dian e de um ou dois ope á ios a elação de p oximidade es abelecia-se. No
en an o, quando es a a na p esença de um g upo, que na maio ia das ezes e am apenas
27
Nome dado às di e en es omadas de is as cap adas em sinc onismo com o som an es da mon agem.
abalhado es de um de e minado se o , inha uma o al incapacidade de “en en á-lo” e
man e um diálogo p o ícuo pa a o abalho de in es igação. As con e sas anscendiam
aquela exis ência e os emas di e si ica am-se. Posso assumi que é ine en e à
exis ência daquele cole i o, essa o ma de se elaciona e dialoga mas em alguns
momen os gos a ia de e ido a capacidade de ge i de o ma mais asse i a as
con e sas pa a que pudesse ex ai uma di e sidade maio de his ó ias da ida cole i a
passada e ecen e das sociabilidades den o do A senal do Al ei e. Enquan o me
encon a a a ilma , a ges ão das con e sações e in e ações (que nem semp e
signi ica a es a em p o idas de on ade eal em pe manece a dialoga mas apenas
como “ ál ula de escape” a um de e minado momen o) di icul a am-se ainda mais um
pouco de ido à minha p eocupação em cap a os momen os sociais e p o issionais e
p es a a enção às ques ões écnicas. Ab angendo a dimensão social do abalho do
an opólogo, an o no abalho de obse ação como no abalho de ecolha isual, a
solidão desse pe íodo em di e sos momen os o na-se uma limi ação, adicionando
ambém a componen e emocional do an opólogo.
No que conce ne às i udes que uma ime são soli á ia p opo ciona, aquela que
sem dú ida mais sen i, especi icamen e no local de pesquisa, oi o ac o de se homem
en e odos aqueles homens, acul ando-me a possibilidade de pene a numa ealidade
social que se osse mulhe não e ia acesso. A minha posição soli á ia pe an e odo
aquele cole i o concedeu-me uma possibilidade in e essan e: es ando cla amen e em
des an agem, julgo que os elemen os daquele cole i o no a am essa minha posição
ágil em elação a eles, o que me pe mi iu ga an i uma abe u a ge al dos
abalhado es, acolhendo-me e acei ando-me (pa icula men e quando es a a sem
câma a). Po mais que pa eça uma con adição, ela i amen e ao que enunciei
an e io men e, essa posição ágil que o an opólogo pode e ao longo do seu abalho
de in es igação, pa icula men e ao lida com ão g ande g upo, pode pe mi i uma
pos u a acolhedo a, po ezes a é pa e nalis a po que e em mos a e o ien a , do g upo
onde o in es igado ai pe manece . A possibilidade que i e em conjuga es a minha
posição singula pe an e aquele cole i o plu al e a pe manência po um pe íodo de
empo ela i amen e longo, um mês, ga an iu-me uma co en e de emoções que excedeu
posi i amen e a mo i ação inicial de “con a as his ó ias mais ma can es”, e alcançou
ou os momen os mais in ensos de alguma in imidade pessoal. De ou a o ma, osse
O empo enquan o ma é ia in isí el es á p esen e na g amá ica do cinema e
e ela-se impo an e da na a i a do ilme. Não me e i o à du ação o al do ilme mas à
opo unidade que se dá a cada plano pa a exis i e espi a . Não há um empo (du ação)
pa a cada plano nem pa a a o alidade do ilme ideal, ou p é-es abelecido. Esse empo
jus o encon a-se ao longo do p ocesso de mon agem, na análise das ações e na
in e ligação en e os planos que se an ecedem e sucedem. A a és do empo e da sua
in isibilidade o na-se possí el coloca isí eis os silêncios dos in e enien es, que na
maio ia das ezes são uma o ma de exp essão ão ou mais o e do que as pala as.
Coloca-se, assim, uma ca ga d amá ica no silêncio, a que a an opologia isual começa
a p es a mais a enção nomeadamen e po se uma das g andes di e enças en e o ex o
(explica i o) e o isual (implíci o), pelo que diz em si mesmo. A ensão que é colocada
nesses silêncios es á dependen e da p óp ia cons ução na a i a e e uada a é esse
momen o, con e endo-se em ma é ia de análise pe si.
Nes e ilme, o empo cons i uiu, de ac o, uma ma é ia de impo ância ele ada
po que os p ocessos maquinais e manuais na indús ia habi ualmen e são longos e i e
uma p eocupação ac escida pa a que não ossem “co ados a meio” sob pena de não
se em ap eendidos de modo cla o. Pa a além da ação em si mesma, as in e ações o am
um pano de undo cons an e, o que me ob igou a e uma a enção edob ada
ela i amen e a esses momen os em que a in e ação e a exp essa ( isí el e audí el), e
aqueles em que as in e ações passa am me amen e po olha es ou ges os, dando luga a
esse lado in e pessoal que Macdougall des aca, “, i is he ealm o in e pe sonal
ela ions ha he isual complexi y o he image has pa icula ele ance o social
esea ch, as i does o cinema and an a . The possibili y o g asping a complex social
e en simul aneously h ough i s a ious dimensions o ges u e, acial exp ession,
speech, body, mo emen , and physical su oundings is some hing ha a ex can
app oach only wi h g ea di icul y. (…)Fo mal and in o mal in e ac ions ake place
o e ime, bu in bo h cases he e is also an elemen o simul anei y, which e lec s he
in e subjec i i y o he pa icipan s. (…) In mo e o mal in e ac ions, such as i uals and
communal labo , hese pa e ns become mo e p onounced, o he ex en ha hey o en
become he de ining ea u es o he e en (…)” (Macdougall,2006,50).
Quando abandonei a ideia de ep esen a as di e sas o icinas do es alei o sen i
cla amen e que me libe ei de uma esponsabilidade sob e a qual não inha a mínima
noção daquilo que signi ica a à p io i, ou seja, a cons ução de um ilme que mos asse
mui a in o mação e simul aneamen e, não mos asse nada em pa icula . Aliás, esse e a
um eceio que inha, mesmo du an e a odagem, po que as possibilidades de dispe são
e am imensas. Imedia amen e, inclinei-me pa a a p imei a sequência mon ada que se
e guia exclusi amen e sob e a Di isão de Mecânica. P ocedi a uma análise mais
cuidada dos planos cap ados naquela o icina e ence ei uma p ocu a pelas sociabilidades
que se pode iam e e i amen e encon a . Ape cebi-me, du an e esse p ocesso de seleção
e p imei os ough cu s dos planos, que ha ia uma dimensão que não me eco da a
exis i e que du an e a odagem iz os possí eis pa a anulá-la, que e a a in e ação dos
ope á ios comigo. Tal ez em i ude da minha o mação p o issional no campo
audio isual e de que e le a o concei o de cinema obse acional ao ex emo, a amen e
in e agia com os abalhado es ao longo dos planos. Reco do-me com cla eza, que a
minha opção passa a na maio ia das ezes po in e ompe a g a ação e con e sa um
pouco com eles. Con udo, ao p es a a enção ao som, no ei que em alguns momen os
espondia a comen á ios ei os pelos ope á ios. In elizmen e, só comp eendi o po encial
e lexi o des as in e ações ao longo do p ocesso de mon agem e, nessa al u a, comecei a
e on ade de inclui a minha oz no ilme, pa a adiciona mais uma camada de
in e a i a que pudesse ap o unda mais a pa ca exis ência social que eu ep esen a a nas
imagens. Nesse ins an e, comecei a concen a o sen ido do ilme nesses momen os
sociais que eu inha cap ado.
A o ina daqueles ope á ios cimen a-se, em g ande medida, nesses momen os
sociais in e a i os, á ias ezes como escapismo momen âneo à o ina e à hie a quia
p esen es no es alei o. O que p e endi demons a no ilme, começou po se a in e ação
desses ope á ios, elegando pa a segundo plano a dimensão écnica (o ges o) e ex ingui
(comple amen e) a minha p esença no ilme (a minha oz, pode ia dize ). No en an o, a
mon agem demons ou uma ou a dimensão das imagens e do som e encaminhou-me
numa di eção di e en e da ideia o mada inicialmen e. Quando p eenchia os espaços da
na a i a, en e os di e sos momen os in e a i os que inha selecionado, com os planos
exclusi amen e de obse ação das di e en es a e as desempenhadas na o icina
28
pude
comp eende que con a iamen e ao que inha idealizado inicialmen e. O des aque que
e ia de se dado ao abalho, à mes ia ope á ia po que e a ali, naquele momen o
ulc al da sua a i idade que as in e ações se desen ola am equen e e na u almen e. A
pa i desse momen o, a ma é ia ilmada adqui iu um no o sen ido, e as p óp ias ações
28
Não posso denomina de cadeia ope a ó io po que ela, de ac o, não exis e dessa o ma sequenciada.
que deco iam em cada plano selecionado ica am des acadas pela junção com ou os
planos mais con empla i os do ges o écnico dos ope á ios.
Gos a ia igualmen e de ealça a impo ância que e e a possibilidade de ilma a
in e ação en e os dois ope á ios su dos-mudos daquela Di isão e a in e ação deles com
os es an es ope á ios. As ês o mas de in e ação (en e ope á ios sem limi ações
ísicas, en e ope á ios su dos-mudos e es an es memb os e apenas en e su dos-
mudos), que i e a opo unidade (e o p i ilégio ambém) de cap a , en iquece am o
documen á io. Po ou o lado demons a am que o ambien e social den o do es alei o é
in luenciado po es as dimensões que anscendem qualque pensamen o p imá io
ace ca de ope á ios da indús ia na al. Ao longo da cons ução do sen ido do ilme, a
minha in uição encaminhou-me pa a essa dupla ope á ia, e po lá pe maneci alguns
ins an es, des acando a o ma como con e sam e discu em ace ca do abalho. Uma ez
mais, oi impo an e encon a o jus o equilíb io en e a ação que deco ia (os ope á ios
a anspo a em pa a ou o luga uma mesa de me al que se isse de apoio à
desmon agem e limpeza de uns eios, po exemplo) pa a não a co a a meio e co e o
isco de ica impe ce í el e a comunicação deco en e desse abalho em equipa,
u ilizando língua ges ual po uguesa e linguagem ges ual pa a se aze em comp eende .
Ou o momen o emocionan e pa a mim, é p ecisamen e dos poucos onde não exis e
qualque ação labo al: dois ope á ios con e sam com um dos ope á ios su dos-mudos
ace ca da expe iência o og á ica que um deles inha ido no im-de-semana an e io .
Re e em o ânsi o que encon a am jun o a Monsan o, em Lisboa, e há uma en a i a
dos ope á ios desc e e em o som que a u bina eólica az, bem como as b incadei as
na u ais en e eles. Um insinua a que a mulhe dele lhe inha ba ido po que inha uns
a anhões no pescoço. Hou e, in elizmen e, poucos momen os de in e ação
descon aída, le e, em en e à câma a, o que con ibuiu pa a alguma necessidade
in e p e a i a da minha pa e, condensando esses momen os sociais, ou as á ias
dimensões deles.
Pa a além do ges o écnico e das in e ações que p ocu ei cap a , ou a ques ão a
que en ei da ele o oi a elação com o espaço, não só ísico, do edi ício, mas ambém
com os obje os. Nes e pon o especí ico, mesmo du an e a odagem já me inha
despe ado in e esse pa icula . A o ma como os ope á ios o ganizam e ado nam o
espaço pessoal, as caixas e bancadas, semp e eple as de obje os di e sos, pos e s dos
clubes de u ebol ou o og a ias dos p óp ios como al o de chaco a dos colegas, os
ádios pe sonalizados e sin onizados quase lado a lado em es ações di e en es, a
mon agem e idenciou-o. Da mesma o ma, o espaço cole i o é o ganizado e en ei ado,
ou seja, os placa ds in o ma i os com o og a ias de g upo em jei o de pa ódia,
desenhos e olhe os in o ma i os do sindica o, da adminis ação e da p óp ia secção e
di isão. A memó ia indi idual e cole i a es ão imp essas no espaço, ma e ializadas
nesses obje os. Os ope á ios, da mesma que o ma p ocu am e idencia a memó ia e as
elações que man ém com os colegas, ambém p ocu am assinala a iden idade
indi idual, o sen ido do gos o pessoal, a a és da o ganização da bancada, da es é ica
dos ádios e colunas, nas pin u as, desenhos e colagens que ado nam o luga . A
assina u a deixada pelos indi íduos naquele espaço é sinónimo da impo ância que ele
em nas suas idas. Po isso, es a é uma o ma da sua passagem po ali se elemb ada
ma e ialmen e assim como a p óp ia es adia o na-se mais con o á el de ido a essa
ap op iação e eadap ação. O espaço p omo e uma p esença conc e a na imagem.
A a és daquela caco onia isual e sono a emos a possibilidade de nos ape cebe como
p omo em a o ganização espacial e como se elacionam com ela, e idenciando
igualmen e aços da pe sonalidade indi idual e cole i a pouco habi uais nes as
ocasiões. Aquela ealidade ma e ial ep esen ada na imagem, elemb a-me a ci ação de
Macdougall, “ ilm images u he sugges ha e en i objec s and o ms ha e symbolic
quali ies, hey ha e a he same ime a simple b u e physical exis ence, he le el a
which people mos o en expe ience hem“ (Macdougall,2006,50), pa icula men e, pa a
quem isiona o ilme.
Ao longo do p ocesso de mon agem, o único eceio que i e oi ace ca da
possí el es anheza que as pessoas que isualizassem o ilme pode iam sen i àquele
ambien e ab il, de ido à dis ância ge al que a g ande po ção da população ap esen a
ela i amen e a esses luga es. Es a insegu ança ad ém ambém pelo mo i o de “ he
iewe ’s abili y o ecognize objec s and pe sons is essen ial o mos o hese e ec s,
which ely on condi ioned esponses. When we ecognize an objec we a e, a he same
ime, a ibu ing o i he physical quali ies ha we associa e wi h i in ou own li es. In
iewing a pe son, o a ace, we apply bo h ou own p io expe iences and he cul u al
associa ions p e alen in ou socie y” (Macdougall,2006,20). No en an o, julgo que esse
dis anciamen o não se á uma ba ei a pa a a comp eensão do sen ido do ilme e ge a á
no os signi icados em cada espe ado .
Gos a ia de deixa uma no a inal ace ca das en e is as que ealizei aos ês
ope á ios su dos-mudos do A senal do Al ei e SA. Pa a além de ê-los ilmado a
abalha , sen i necessidade de lhes da oz, de en a naquela dimensão (ou apenas e
dela alguma ap oximação) po que a capacidade écnica exis e naqueles ope á ios, são
iguais aos ou os que não êm essa limi ação ísica. No en an o, pelo ac o de e
começado a se a ingido dia iamen e pelos ba ulhos (alguns deles ensu decedo es)
cons an es da o icina e pela caco onia musical, sen i um mó bido desejo de e a
(in)capacidade ou i . Foi nesse momen o que pe cebi a impo ância do sen ido audi i o
na o icina po que se e ambém de ale a, de p e enção pa a uma si uação de pe igo.
Nesse momen o, comecei a que e en e is á-los pa a oma consciência, na p imei a
pessoa, como é se su do naquele ambien e e de que o ma aquela possibilidade de
abalho os in luenciou mas ambém, a a és do sub e ugio da mon agem, e i a o
áudio e deixá-los apenas a ala a a és dos ges os e eme endo-nos pa a aquela
dimensão não-audi i a. Po se em as únicas en e is as, deixei-as pa a o inal do ilme,
em jei o de anexo ou pos -sc ip um.
4.1.3 - As sociabilidades implíci as na imagem e no som
“Al hough ilms may no cons uc na a i es in he s ic sense – ha is, as s o y elling
– hey do (pace Pe ez) cons uc deic ic na a i es, o na a i es o he eye. Fo ilms a e
no simply d ama iza ions o li e; hey p ese e he aces o a p ocess o seeing and
showing. They guide he audience, bu hey also egis e (especially in “ i s -pe son”
non ic ion ilms) he ilmmake ’s pe cep ions and physical p esence, much as he
speaking oice is physically pa o he na a i e in an o al adi ion. I can be said ha
he ilmmake ’s body is insc ibed in he came a’s ision a he same co po eal le el as
he bodies o he ilm subjec s hemsel es.” (Macdougall,2006,54)
Nes e ópico gos a ia de e le i um pouco ace ca daquilo que a imagem e o som
des endam e ocul am. O meu assun o de pesquisa, como mencionei di e sas ezes,
concen a a-se nas sociabilidades ope á ias mas u o de alguma di iculdade em ob ê-
las dian e da câma a, a sensibilidade analí ica da na a i a isual e sono a e e de se
polida. Es a pe o mance que encon ei, apesa de se ap esen a con ida, e idencia as
mic ona a i as que podem se encon adas naquele espaço, a a és dos ges os, olha es,
so isos, exp essões co po ais e a é ases inacabadas. Tendo consciência que o discu so
e bal é impo an e, en e os in e enien es ou com a câma a (o ealizado ),
in elizmen e há á ios momen os onde isso não acon ece e, po di e sas ezes, não é
cla amen e audí el o diálogo que es á deco e . Tal de e-se a um egis o de cinema
di e o, onde o som es a a sínc ono com a imagem e o mic o one no opo da câma a, o
que não me pe mi ia cap á-lo limpo em alguns momen os. Ou seja, po di e sas ezes, a
necessidade de in o ma , “mos ando” (a a és das con e sas en e os ope á ios) mais
camadas das sociabilidades exis en es naquele espaço, e a necessidade de “ e a a ”
(deixando apenas a ida desen ola -se, numa pe spe i a pu amen e obse acional)
aquele espaço e aqueles ope á ios, e e um ligei o desequilíb io po que a capacidade
in o ma i a do ma e ial cap ado que encon ei na mon agem oi um pouco de icien e.
No en an o, e eg essando ao pon o de pa ida, aquilo que pe cebi du an e o p ocesso de
mon agem, oi p ecisamen e que a o ça que aquelas imagens inham consis ia nessa
in e subje i idade, que pe mi e ao espe ado analisa os planos em si mesmos e,
ambém, coloca a sua p óp ia subje i idade na in e p e ação, de ol endo-lhes no os
signi icados. No en an o, in e essa-me essal a es a ques ão, e eg esso no amen e a
Macdougall, pa a en a iza que o being (os p o agonis as) i e semp e pa a além do
meaning que possam emp es a às imagens (Macdougall, 2006).
Ao longo da mon agem do ilme, os planos iam imp imindo no os signi icados
na sequência, pela p óp ia ida que emanam quando se in e ligam com ou os planos. O
meu olha enquan o mon ado (ou edi o ) o nou-se mais clínico e sensi i o
simul aneamen e, o que signi ica, p ocu a a obse a a composição do plano, os
mo imen os de câma a, a ação mas ambém sen i o que es a a e ido naqueles ges os,
ou as suas mic ona a i as, que se o am e elando de ex ema impo ância pa a es e
ilme. Nesse sen ido, a imagem (que é o elemen o p imá io do ilme, que se des aca de
imedia o) ambém consegue ocul a e e ela mais camadas do being que i e den o
dela, conse ando semp e esse edu o in e p e a i o que es á na dependência do i ido
de cada indi íduo. Inicialmen e, pensei numa mon agem um pouco i mada que não
deixa a espi a os planos. A busca pelo empo jus o (ou que pelo menos me pa eceu
jus o), uma ez mais, desempenhou um papel decisi o na cons ução do sen ido do
ilme, pa icula men e a a és dos planos que “nada dizem”, que se em apenas como
pon es obse acionais, essenciais na e dade, mas que não desen ol em
e dadei amen e a ação. No caso des e ilme, esses momen os con êm o ges o écnico e
ap esen am o espaço, ou seja, con ibuem pa a a na a i a mas pode iam se , no limi e,
dispensá eis. Con udo, ao longo dessa análise isual e da cons ução do eal, esses
planos con e e am-se em momen os de espi ação da ação e de ap eensão do eal.
Esses momen os pe mi i am (do meu pon o de is a) e idencia essas sociabilidades que
es ão implíci as na imagem, de uma o ma sub il em alguns momen os. A mon agem
isual pe mi e cons ui esse sen ido implíci o, sem “dizê-lo”, uncionando ao longo do
ilme como uma p epa ação sensual e isual.
O som unciona da mesma o ma que a imagem na cons ução do sen ido pa a o
ilme (a na a i a), no en an o, de ido à sua in isibilidade, é um elemen o mui o
en ado pa a a manipulação do eal. Na mon agem consegui ape cebe -me da
impo ância do som em o pa a e idencia o ambien e i ido o a da imagem. Em
alguns momen os, há con e sas que acon ecem jun o de mim ou eu p óp io alo, os
ádios ocam e ecoam em iun an e caos sono o, há ba ulhos de abalhos a
acon ece em que ecoam igualmen e. Essa dimensão do eal, daquela expe iência
momen ânea, conc e a, apenas é alcançada a a és desse som em o , que não em
qualque sinc onismo com a imagem mas ansmi e essa sensação ambien e. Po decisão
de não in e e i com a ealidade ilmada, não coloquei nenhuma música nem nenhum
ou o som ambien e que pudesse c ia um disposi i o “a i icial” que despole a ia uma
ou a dimensão sono a e manipula ia o eal. A única mudança que ealizei, po
necessidade da na a i a isual, oi a al e ação de sons que inha cap ado sínc onos com
a imagem mas que se encon a am o almen e dani icados (com uídos de ido à minha
alha écnica) po sons ela i os ao mesmo espaço onde me encon a a a ilma . Des a
o ma, p ocu ei p ese a o mais possí el aquela ealidade pa a ansmi i sono amen e
o meu p óp io emba e com o local.
O p ocesso de mon agem é o momen o onde o ealizado (auxiliado po um
mon ado ou não) cons ói o sen ido do ilme e imp ime a sua ideia, mas é ambém
du an e esse p ocesso que pe cebemos a e lexi idade do ma e ial cap ado e de como
udo es á sujei o a um conjun o de subje i idades: ealizado , ma é ia cap ada e, após
esse p ocesso mas que in luencia desde o início, espe ado . Es a con e gência o na es e
momen o bas an e desespe an e mas, na mesma medida, desa ian e.
5 - As sociabilidades, a cons ução de classe, a écnica: o ilme pa a a
e lexão inal
Nes e capí ulo inal p e endo aze uma e lexão ace ca dos emas acima
mencionados em a iculação com o ilme po mim ealizado. Começo pela única
dimensão que não se encon a explíci a no ilme: a memó ia. Apenas nas en e is as que
ealizei me ap oximo dela. Coloquei-a o a da na a i a/sen ido do ilme
p oposi adamen e po que me que ia es ingi ao quo idiano daquela o icina, usando
como pon o de pa ida pa a a análise o p esen e ope á io naquele es alei o.
No en an o, os discu sos sob e a memó ia azem pa e da componen e esc i a
des e abalho de p oje o po que, na minha opinião, e a um elemen o undamen al pa a
e e ua uma análise consis en e e pode e uma noção da whole pic u e da his ó ia
daquele es alei o a a és das na a i as indi iduais da memó ia, que se undem com a
cole i a (Halbwachs 1952;1968; Fen ess, e Wickam, 1999; Name 1987). Fazendo uso
dessas na a i as que ecolhi an e io men e à minha chegada ao es alei o, pe mi iu-me
islumb a an ecipadamen e a dimensão social e p o issional que se i eu no es alei o,
ao longo das décadas a é à passagem a SA e após esse momen o a é à da a em que en ei
pela p imei a ez no es alei o e ence ei o abalho explo a ó io de econhecimen o do
local, a a és de con e sas in o mais com di e sos ope á ios. Os discu sos que aqueles
an igos ope á ios pa ilha am comigo o am o e mo de compa ação his ó ico com o
p esen e obse ado. Também po isso, o con ac o p é io com aquelas na a i as enha
sido pa icula men e p o ícuo pa a que não sen isse emba aços a con e sa com os
ope á ios.
Enquan o escu a a as suas his ó ias sob e a o ganização ope á ia do es alei o
du an e o ascismo e já em democ acia, pude comp eende que a consciência de classe,
i ida e pa ilhada, e a uma cla a ealidade (mesmo que não osse pa ilhada a i amen e
po odos os abalhado es) naquele cole i o ope á io. Pegando na ideia de EP Thomson
sob e a cons ução (making) da classe, egis ada po Es anque, “ “a classe acon ece
quando alguns homens, como esul ado de expe iências comuns (he dadas ou
pa ilhadas), sen em e a iculam a iden idade dos seus in e esses en e si e con a ou os
homens cujos in e esses di e em dos seus (e ge almen e se lhes opõem). A expe iência
de classe é de e minada, em g ande medida, pelas elações de p odução em que os
homens nasce am ou nelas en a am in olun a iamen e. A consciência de classe é a
o ma como essas expe iências são a adas em e mos cul u ais: enca nadas em
adições, sis emas de alo es, ideias e o mas ins i ucionais. Se a expe iência apa ece
como de e minada, o mesmo não oco e com a consciência de classe (Thompson,
1987:10)”. O c i é io da consciência de classe apa ece, assim, como aquele que de ine
as o mas de iden i icação en e os memb os de uma classe” (Es anque,2000,76). Nesse
sen ido, “a cul u a e as expe iências pa ilhadas no quo idiano assumem uma
impo ância ulc al na de inição hompsoniana de classe. Segundo Thompson, pa a
iden i ica mos uma classe social é undamen al conhece o seu p ocesso de o mação,
ou seja, a classe é an es de mais uma ca ego ia his ó ica em que a expe iência i ida é
omada como o subs ac o ma e ial em o no do qual deco em as condições sociais de
exis ência” (Es anque,2000,75). De o ma ainda mais es u u an e da classe, Bu awoy
ale a-nos pa a os elemen os polí icos e ideológicos no p ocesso de p odução (ci in
Es anque,2000), ou seja, a classe é esul ado da expe iência comum pa ilhada
quo idianamen e no chão da áb ica (e ac escen o, o a dele).
O disposi i o social que o ilme nos pe mi e obse a é um mic ouni e so em
mudança, onde di e en es ge ações con i em e o conhecimen o écnico é passado aos
“mais no os” mas com pe spe i as e abo dagens à ida e ao abalho dispe sas. Quando
emos os neó i os con e sa em sob e ca os, num obje i o cla o de consumo conspícuo,
o na-se e iden e que “pa a es es ope á ios no a os, o abalho ab il pe manece uma
in e posição undamen al no acesso a pad ões de apa ência pessoal e a es e as de
sociabilidade pública” (Mon ei o,2014,168). Pe an e a paisagem a ual, ela i amen e ao
passado a senalis a, gos a ia de esga a a ideia da cons ução de classe ope á ia, como
um p ocesso que so e e és e des ios ao longo do caminho, mas que não é um p ocesso
acabado nem uma de inição his ó ica c is alizada (ela exis e com di e en es nuances
consoan e a época). Pessoalmen e, essa oi uma cla a ap endizagem que e i ei de odo o
abalho de in es igação.
Uma ou a dimensão que não consegui e e explici amen e no ilme, pela opção
de não en e is a ninguém e de não in e e i a i amen e, oi o descon en amen o ge al
dos abalhado es ela i amen e às polí icas de lexibização do pessoal ope á io pa a
ou os se o es. Esse descon o o c ia um ambien e pesado, “que ci cunda dia iamen e os
ope á ios e pa ece esul a da combinação en e as mudanças na o ganização do abalho
(…), a deses abilização do colec i o ope á io (…) e a p esunção de malícia a esco a as
in e ações quo idianas na áb ica en e colegas e en e es es e as che ias.”
(Mon ei o,2014,200). Essa lexibilidade labo al, pa a além da des abilização cole i a,
p o oca em cada ope á io um ce o desencan amen o do mundo e ansiedade em elação
ao de i (Senne ,2002), mas ambém dá luga ao “homem i ónico. A i onia é
exa amen e um es ado de espí i o no qual as pessoas jamais são, “(…) exa amen e
capazes de se le a a sé io, po que semp e sabem que os e mos em que se desc e em
es ão sujei os a mudança, semp e sabem da con ingência e agilidade dos seus
ocabulá ios inais, e po an o de seus eus” (Senne ,2002,p.138). Uma isão i ónica de
si mesmo é a consequência mais p e isí el po se i e no empo lexí el, sem pad ões
de au o idade e esponsabilidade.” (Bi encou , e Bo din,2012,6). É necessá io,
des aca o que signi ica na expe iência quo idiana de abalho es a lexibilização labo al
pois, “ he e m lexibilizing p oduc ion condenses se e al s a egies: he subs i u ion o
pe manen wo ke s wi h occasional wo ke s; he loosening o job dema ca ion; he
eo ganiza ion o wo k om indi idual o eam wo k.” (O iz,2002,400).
Um aspe o que ica bas an e e idenciado no ilme (acaba po se o io condu o )
é o ges o écnico dos abalhado es, a sua elação ín ima com a ma é ia, as máquinas e
as e amen as, essa ex ensão do co po do ope á io e de como a mes ia ope á ia ainda
se man ém p esen e no seio daquele cole i o. Ali, os abalhado es ainda não
sucumbi am à in odução de maquina ia au oma izada que o na os abalhado es
dispensá eis e con e e-os apenas em ope ado es. O ilme, numa si uação como es a,
em que melho do que desc e e é mos a , em um alo explana i o e sensi i o em si
mesmo, di e en e daquele que o ex o desc i i o alcança. Como se ia possí el desc e e
o ope á io que manuseia o o no de o ma ão na u al que apenas no momen o de ma ca
as medidas é que pa a? Como desc e e o momen o em que o ope á io desbas a o
in e io de uma peça numa esa e em a ca a quase em cima dela pa a “medi a olho”
an es de ace á-la? Como aduzi o momen o em que os neó i os con e sam e limpam
peças, os seus silêncios e ges os manuais cadenciados? A ma é ia isual em a
in ensidade que po pala as em alguns momen os se á di ícil de ansmi i . Nes e
emba e (ou elação) en e homem-máquina, homem-ma é ia, a ma é ia sono a cap ada
desses momen os é o úl imo edu o da capacidade sensual que o ilme consegue
imp imi na expe iência de isionamen o. O som unciona como supo e cons an e da
expe iência do espe ado , azendo-o ime gi , mais um pouco, naquela ealidade cap ada.
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