Mes ado An opologia - Cul u as Visuais
Rela ó io de Es ágio de Mes ado
Cen o de Memó ias do Museu Spo ing C. P.
O ien ação FCSH-UNL - Ca a ina Al es Cos a
O ien ação Museu Spo ing C.P. - Isabel Vic o
Mes ando - Da id José Moço Felguei a nº 37659
Se emb o de 2018
Lisboa
2 | P á g i n a
“(…) pa a o empo, é bloquea o abalho do esquecimen o, ixa um es ado de coisas,
imo aliza a mo e, ma e ializa o ima e ial pa a p ende o máximo de sen ido num
mínimo de sinais (…)”
(NORA: 1993 in JANTSCH: 2014, p. 102)
3 | P á g i n a
Resumo
Enquan o Mes ando do cu so de An opologia – Cul u as Visuais, da Faculdade
Ciências Sociais e Humanos – Uni e sidade No a de Lisboa, o abalho de es ágio po
mim desen ol ido esponde ao desa io que me oi p opos o pela di ecção do Museu
Spo ing de c ia um Cen o de Memó ias no âmbi o do seu p ojec o de alo ização e
in e ligação do pa imónio ma e ial e ima e ial do Spo ing Clube de Po ugal e da sua
ampla comunidade de despo is as, sócios e adep os espalhados po odo o mundo.
Tendo po base a ecolha de es emunhos – egis o audio isual – p opusemo-
nos abo da , com ecu so à memó ia, os p ocessos de cons ução iden i á ia e
ep esen ação, emá icas elacionadas com o clube e o seu pa imónio cul u al –
ma e ial e ima e ial – a iden idade spo inguis a, os seus símbolos, i ências e
i ualizações, as o mas de con a e ansmi i sen imen os.
De o ma a delimi a o objec o de es udo - o seu campo de aplicação - e consegui
em empo ú il desc e e a cadeia ope a ó ia, desde a ecolha à cons ução e
ap esen ação de uma na a i a coe en e em con ex o museológico, ocamo-nos ao caso
p á ico da exposição empo á ia A so e dá mui o abalho sob e o p o esso Má io
Moniz Pe ei a. Pa a es a con ibuí am as ecolhas de es emunhos de ex-a le as, amigos
e amília, sob e o “Senho A le ismo”, o g ande impulsionado e einado da
modalidade em Po ugal e no es angei o. Uma ida dedicada ao despo o, ao Spo ing
e a Po ugal. Uma igu a ímpa , mui o além do seu empo.
Pala as Cha e:
An opologia – Cul u as Visuais - Cen o de Memó ias – Museologia – Pa imónio
Cul u al – Pa imónio Ima e ial - Má io Moniz Pe ei a - Spo ing Clube de Po ugal
No a: Po opção, es e ela ó io é edigido com o an e io aco do o og á ico.
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Abs ac
As a Mas e o An h opology - Visual Cul u es, Facul y o Social and Human
Sciences - Uni e sidade No a de Lisboa, he aineeship I ha e de eloped esponds o
he challenge p esen ed o me by he managemen o he Spo ing Museum o c ea e a
Memo y Cen e wi hin he amewo k o i s p ojec o alo iza ion and in e connec ion
o he ma e ial and imma e ial he i age o Spo ing Clube de Po ugal and i s wide
communi y o a hle es, membe s and ans sp ead all o e he wo ld.
Based on he collec ion o es imonies - audio isual egis e - we ha e p oposed
o add ess, h ough memo y, he p ocesses o iden i y building and ep esen a ion,
hemes ela ed o he club and i s cul u al he i age - ma e ial and in angible - spo ing
iden i y, i s symbols, expe iences and i ualiza ions, he ways o elling and ansmi ing
eelings.
In o de o delimi he s udy objec - i s ield o applica ion - and in a imely
manne o desc ibe he ope a i e chain, om collec ion o cons uc ion and
p esen a ion o a cohe en na a i e in museological con ex , we ocus on he p ac ical
case o he empo a y exhibi ion A Luck gi es a lo o wo k on he eache Má io Moniz
Pe ei a. Fo his, he es imonies o ex-a hle es, iends and amily con ibu ed o he
"Lo d A hle ics", he g ea p omo e and coach o he spo in Po ugal and ab oad. A
li e dedica ed o spo , Spo ing and Po ugal. An odd igu e, a beyond his ime.
Keywo ds:
An h opology - Visual Cul u es - Memo y Cen e – Museology – Cul u al He i age –
In angible He i age – Má io Moniz Pe ei a – Spo ing Clube de Po ugal
5 | P á g i n a
Ag adecimen os
Em p imei o luga que o ag adece a oda a minha amília - em especial aos meus
pais - a possibilidade que me p opo ciona am, pois sei que não i e am essa mesma
opo unidade de ing essa no ensino supe io . G aças a eles cheguei a é aqui, c esci,
o mei-me academicamen e e adqui i alo es que gua da ei pa a oda a ida. Não oi
ácil, mas conseguimos.
Em segundo, ag adeço ao meu g upo de amigos odos os se ões passados a
es uda , a aze abalhos, ou simplesmen e a espai ece as “ideias”, pois odos esses
momen os con ibuí am pa a o meu sucesso académico. Ag adecimen o especial ao
meu iel companhei o de “lu a” And é pelos mais de cinco anos em comum, pois oi sem
dú ida o meu maio apoio den o e o a da Academia, e possibili ou-me chega a é aqui
com a mesma mo i ação inicial.
Ag adeço a odos os p o esso es da FCSH-UNL que con ibuí am pa a a minha
ap endizagem, em especial à p o esso a dou o a Ca a ina Al es Cos as que mui o me
inspi ou, pela acei ação e disponibilidade despendida na o ien ação do meu es ágio,
sendo a minha maio e e ência no campo isual.
À Isabel Vic o , di ec o a do Museu Spo ing e coo denado a do es ágio,
ag adeço a apos a no meu abalho, desde o dia da en e is a a é ao úl imo dia de
es ágio, semp e ac edi ou nas minhas capacidades, semp e me deu o al au onomia e
es e e semp e p esen e pa a discu i ideias, me odologias ou simplesmen e ala a
sociedade em que habi amos.
A oda a equipa do museu um eno me ob igado, pois ac edi a am em mim e
ize am com que os seis meses de es ágio passassem ápido e me deixassem mui a
saudade na ho a da despedida. Ag adecimen o especial ao Miguel, que de meu colega
de sec e á ia do museu, apidamen e passou pa a um amigo pa a a ida.
Fo am seis meses numa ec a inal de mes ado que ep esen a am cinco anos
de ensino supe io , de abalho á duo e en iquecedo . Espe o e hon ado odos aqueles
que ac edi a am em mim, assim como a minha ins i uição ensino e o local de es ágio.
6 | P á g i n a
Índice
In odução .............................................................................................................. 7
Museu de Clubes ..................................................................................................... 9
Museologia dos A ec os ........................................................................................ 12
Usos da Memó ia: ................................................................................................. 16
Passado ............................................................................................................. 17
P esen e ............................................................................................................ 19
Fu u o ............................................................................................................... 20
Cen o de Memó ias ................................................................................................. 22
Discussão Teó ica .................................................................................................. 30
O Caso P á ico ....................................................................................................... 38
Recolha - His ó ia O al ....................................................................................... 40
G a ação e Edição de Audio isual (So wa e) .................................................... 44
Local de Es ágio ..................................................................................................... 44
Ap esen ação dos esul ados ob idos .................................................................... 46
Bibliog a ia ............................................................................................................ 48
Anexos .................................................................................................................. 51
(1) - Vida e Ob a de Má io Moniz Pe ei a .......................................................... 51
(2) - Fo og a ias da sala de exposições empo á ias do Museu Spo ing. ........... 59
(3) – F ames e i ados dos es emunhos p esen es na exposição. ..................... 62
(4) - Pan le os ela i os às exposições sob e Má io Moniz Pe ei a ..................... 65
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In odução
Enquan o aluno de Mes ado de An opologia em Cul u as Visuais - licenciado
em An opologia - o abalho de es ágio desen ol ido no Museu Spo ing incidiu na
c iação do Cen o de Memó ias do museu, algo que a é à da a não exis ia e que em
como objec i o a en ol ência da comunidade de a le as, sócios e adep os do Spo ing
C.P. nos p ocessos de ecolha, pa imonialização, e na ida do museu, com is a ao
e o ço da iden idade, aumen o da cul u a despo i a e da esponsabilidade social na
de esa dos alo es e na coesão do clube. O Cen o de Memó ias p ima pelo o diálogo
en e ge ações e pa ilha de emoções, esul ando num cen o da acção con inua.
A ac ual di ecção do museu, com o oco na Museologia Social e nas co en es da
No a museologia, apos ou no seu o e pa imónio ima e ial como o ma de aze ala
o seu pa imónio ma e ial exis en e. Milha es de objec os, o éus e ade eços agua dam
pacien emen e nas i inas e ese as do museu po alguém que lhes de ol a a sua
“ oz”, pe dida no momen o em que es es objec os muda am de mãos e chega am ao
museu. Pa a isso e ec uamos quan idade de ecolhas que conside amos ele an es pa a
o nosso objec o de es udo, es emunhos-cha e sob e Moniz Pe ei a.
De modo a que es a pesquisa não pe desse o oco po en e mais de 110 anos de
his ó ia do clube, nem se pe desse po en e os seus acon ecimen os his ó icos,
concen amo-nos en ão no caso p á icos em que a equipa do Museu Spo ing i ia
começa a abalha a quando da minha chegada – a exposição de homenagem ao
p o esso Má io Moniz Pe ei a, ilus e igu a des e clube e do despo o nacional.
Con udo, não só de ecolhas se ez o meu abalho, pois ou as das a e as undamen ais
o am a p ese ação, o ganização e, po conseguin e, a di ulgação des es es emunhos.
Es e “co e de memó ias” em como objec i o assegu a no p esen e a
p ese ação do passado e a sua p ojecção no u u o, possibili ando a consul a de oda
a in o mação ecolhida sob e a his ó ia do clube e sua iden idade, mas ambém as
his ó ias das pessoas que pelo clube passa am – a le as, di igen es, adep os - e ajuda am
a cons ui-lo de á ias o mas e a múl iplas ozes. O passado pode a é se um país
es angei o como a i ma Da id Lowen hal (1998), um mundo de ma cos his ó icos
palpá eis e memo iais. É pa a que esse passado não se pe ca e não se a unde como
A lân ida no undo do esquecimen o, como uma lenda, que é impo an e aqui elemb a
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que os objec os são passi eis de se de e io a em e desapa ece em, al como a nossa
memó ia. É possí el ec ia objec os, éplicas iéis ao o iginal - como o eus ou a é
mesmo o an igo piano de Má io Moniz Pe ei a p esen e no Museu Nacional do
Despo o
1
- mas no caso da memó ia, isso não é possí el.
Sobe a o ien ação de Ca a ina Al es Cos a
2
docen e na Faculdade de Ciências
Sociais e Humanas da Uni e sidade No a de Lisboa e de Isabel Vic o
3
esponsá el do
Museu Spo ing, i e a opo unidade de e uma o ien ação ocada em duas e en es
que ajuda am a comple a o meu abalho: o lado An opológico na ecolha de sabe es
apoiada nos meus in o man es e nos seus discu sos aliado às Cul u as Visuais, que me
pe mi e não só u iliza ma e ial isual na pesquisa mas ambém desen ol e aspec os
p á icos e me odológicos ligados ao audio isual e à o og a ia, bem como p oduzi
conhecimen o p óp io a pa i de ma e ial p oduzido po ou em. Um exemplo des e
ido de ma e ial é o emblemá ico ilme do a qui o da RTP ilmado po A mindo Mendes
– uma das pessoas com quem abalhei no Cen o de Memó ias - da iagem his ó ica
que Spo ing Clube de Po ugal ez à China em 1978 que oi mais do que um me o
encon o despo i o, oi um encon o diplomá ico en e Po ugal e a China, do qual
esul ou um laço de amizade que pe du a há já 40 anos. A segunda e en e oi-me dada
po uma o ien ação na á ea da Museologia e Sociologia, uma museologia social que
p ima pela inclusão das pessoas na sociedade e no in e io dos museus, que pe mi e que
as pessoas enham oz ac i a no museu e açam pa e des e, não de o ma acessó ia,
mas an es como uma pon e de múl iplos in e esses em comum, uma pon e en e o
passado e o p esen e que digni ique, ao mesmo empo, o clube e a sua comunidade.
Pa a além da e en e p á ica e c ia i a do meu abalho, na ecolha de
es emunhos o ais e sua g a ação audio isual, pude ambém e ec ua abalho de
pesquisa no Cen o de Documen ação do clube que po en e milha es de o og a ias,
imagens, li os e documen os his ó icos me pe mi iu ab ange o máximo núme o de
1
Exposição Sala Moniz Pe ei a p esen e no Museu Nacional do Despo o. Nes a exposição oi ec iada a
sala de abalho de Má io Moniz Pe ei a, que po en e milha es de apon amen os, documen os,
o og a ias e Cd´s, podemos ambém encon a uma éplica do seu piano.
2
Ca a ia Al es Cos a – An opóloga e docen e na FCSH-UNL, com mes ado em An opologia Visual pelo
G anada Cen e o Visual An h opology da Uni e sidade de Manches e , é uma impo an e
in es igado a cien í ica, ealizado a de ilme e nog á ico e documen á io.
3
Isabel Vic o – Com mes ado em Museologia pela ULHT, oi du an e 15 anos di ec o a do Museu do
T abalho Michael Giacome i, di ec o a do Depa amen o de Museus da Rede Po uguesa de Museus,
coo denado a do Con en o de Jesus em Se úbal, e ac ual Di ec o a do Museu Spo ing.
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in o mação possí el sob e o Spo ing, as suas gen es e o meu caso p á ico. Em algumas
si uações, e ec uei ambém pesquisas em locais ex e nos aos Spo ing, como o A qui o
RTP, Museu Nacional do Despo o e Jo nal Reco d.
Museu de Clubes
Em á ios países, al como em Po ugal, exis e odo um abalho a desen ol e
no que à di ulgação e ambém à acei ação po pa e da comunidade museológica e da
sociedade em ge al diz espei o dos museus de clubes. A a és de uma b e e pesquisa,
que seja pela in e ne que seja em pos os u ís icos, podemos a e i que em Po ugal
os p incipais museus, como suges ão a isi a pelas agencias u ís icas e cul u ais, são os
museus “clássicos” ou seja, os museus de a e, os museus de his ó ia, que se assumem
como museus e udi os, mui as ezes is os como “mais eais” e impa ciais, mas que na
e dade são apenas o e lexo daquilo que o público es á p epa ado ou que abso e .
A al a de in o mação e e en e a museus clubís icos ou de despo o em po
base a ideia p é-concebida de que es es locais não são ep odu o es de cul u a, que são
locais de p opaganda ideológica, nes e caso conc e o clubís ica. Nenhum museu é
impa cial, diz Isabel Vic o . Todos os museus são o esul ado de algo que acon eceu, de
p ocessos e ans o mações sociais. Cabe assim aos museus, a a és de ac os e ídicos,
de ques ões his ó icas e iden i á ias, ou seja, das pessoas, e ela a sua p óp ia e dade
pois como sabemos não exis e apenas uma e dade absolu a, mas a e dade de cada
um. “Nenhum museu é neu o, nem em que se ” como me a i ma a Isabel Vic o . Cada
museu é, po an o, o esul ado da sua p óp ia cons ução cul u al e social em que es e
se inse e, e, desse modo, não de emos al e a ou esconde seja o que o . O museu
exis e, é esul ado de um p ocesso e é esse p ocesso que nos ajuda á a pe cebe a sua
mensagem. Isabel Vic o e e e po di e sas ezes que a p incipal unção do museu é
in e agi e se i pa a nos pô a pensa , pa a nos le an a inquie ações e
ques ionamen os. Se o museu não cump e essa unção undamen al, en ão esse museu
não se e pa a a ida, é apenas algo deco a i o e o ma ado.
Ao con á io do que se possa pensa , no seio dos museus de clubes em sido
adop ado no os mé odos e no as p eocupações sociais, bem como desen ol idas no as
16 | P á g i n a
Usos da Memó ia: o Pode de Reco da
“Nunca sabemos o que sabemos, onde começa a nossa eco dação e começa a
dos ou os, o que lemb amos hoje é semp e o que da úl ima ez lemb amos, são alsas
odas as memó ias. E udo se mis u a, um sonho, um ac o, uma eco dação, á ios
pon os ac escen ados que o mam uma cons elação de ei uosa – udo ei o da mesma
ma é ia, uma esponja, cheia de lapsos e in e s ícios, e às ezes quando se esp eme sai
uma go a a cus o, ou as, um jo o o encial.” (CARVALHO: 2013, p. 05)
Po que é ão impo an e o papel de eco da ? De que o mas pode oco e esse
p ocesso? O papel ulc al do Cen o de Memó ias é o de aze com que as pessoas
possam ememo a acon ecimen os já passados, empos longínquos. “Lemb a pa a
não esquece ” – como diz o di ado - po que a pa i do momen o em que esquecemos,
di ícil é ol a a lemb a .
“Nós in en amos o que lemb amos
Nós esquecemos o que lemb amos
Nós lemb amos o que esquecemos
Nós in en amos po que esquecemos
Nós in en amos o que somos.
Nós esquecemos o que in en amos.
Nós nascemos an es
Nós descob imos depois.” (LUZ TEIMOSA: 2010, m. 12:34 – 12:59)
8
Es e esquecimen o pode e á ios ac o es: “na u ais” como o aumen o da
idade, doenças que a ec am o cé eb o – Alzheime - ou en ão ac o es “ex e nos”,
memó ias aumá icas que o cé eb o apaga ou bloqueia p oposi adamen e como um
mecanismo de de esa do co po humano, al como acon eceu com Fe nando Mamede,
quando lhe pe gun ei na en e is a pa a o Cen o de Memó ias, sob e quais as co es da
an iga pis a de a le ismo do an igo es ádio de Al alade (1956). Mamede só se lemb a a
da pis a e ido a co e de – al ez po se nessa mesma pis a que alcançou um ei o
ão g andioso como o eco de da eu opa dos 10.000m no To neio In e nacional de
Lisboa, no es ádio de Al alade em 1981. A co de “ ijolo” da pis a sucesso a, su ge num
8
Diálogo p esen e no documen á io sob e a ida e ob a de Fe nando Lemos: Luz Teimosa, ealizado po
Luís Al es de Ma os, p odução: Real Ficção – 2010.
17 | P á g i n a
momen o menos posi i o da ida de Fe nando Mamede, que es e p e e e não se
lemb a , sem, no en an o, o esquece . Se po um lado a pis a a ã e de é um luga de
memó ia (NORA: 1993) pa a Fe nando Mamede, que an as aleg ias lhe dá, a ou a pis a
su ge associada a um pe íodo de dep essão que o a le a passou.
Po isso é “u gen e” semp e que se jus i ique, e nos seja possí el, e ec ua o
abalho de “ ecolha de memó ias” pa a que nada se pe ca, pa a que nada ique po
con a , pa a que nada seja esquecido e/ou apagado da his ó ia/ empo. Paula Godinho
iden i ica na sua pesquisa sob e as memó ias da esis ência à di adu a Salaza is a (1926-
1974) e no pós 25 de Ab il, qua o discu sos sob e o empo a pa i das memó ias. 1 –
Alongado, ela i o às con inuidades e à ep odução social. 2 – F agmen ado, que se
ajus a aos momen os de up u a. 3 – Denso, e en os ma can es como e olução, amo
ou doença. 4 – Re isi ado, ou seja, é a a és do p esen e que o in o man e e i e o
passado, não al e qual como es e oi, mas uma ein e p e ação de e minada pelo g upo
social em que es e es á inse ido, géne o, ou aixa e á ia.
Es a iden i icação po pa e da au o a, pe mi e-nos ambém iden i ica no caso
p a ico de es udo do Museu Spo ing, o modo como cada um dos meus in o man es,
acede am às suas memó ias pa a me cede em o seu es emunho, pois es es passa am
po di e en es ases e inúme os momen os, desde a sua iniciação no a le ismo,
a i mação, con inuidade e abandono da modalidade.
Passado
Um exemplo que podemos des aca e enquad a nos di e en es discu sos sob e
o empo e memó ias de um passado que se en a a odo o cus o nega , sem no en an o,
o esquece , é o exemplo das he anças di íceis deixadas pela Alemanha Nazi, que Sha on
Macdonald (2006) es udou. Nes e ex o a au o a expõem e in e oga sob e de que
o ma de emos in e p e a os esquícios des e eneb oso impé io, sob e a ques ão de
pa imónio e iden idade no caso especí ico de Nu embe ga. “O pa imónio é is o, com
equência, como um ins umen o de a i mação e econhecimen o da iden idade dos
g upos. Pe mi e demons a que o g upo não se cons i uiu num passado ecen e, mas
sim mui o an es de “”nas b umas da memó ia”” ou na mais p o unda an iguidade.”
(MACDONALD: 2006, p. 103). O caso da Alemanha é bas an e complexo nesse sen ido,
18 | P á g i n a
uma ez que a Alemanha passou po um p ocesso di a o ial du an e o impé io Nazi,
pe íodo esse neg o na his ó ia da humanidade, ma cado po c imes a ozes, genocídios,
di isões e pilhagens. Mais a de, com o im da Segunda Gue a Mundial e a queda do
egime Nazi, seguiu-se uma di isão da Alemanha em duas pa es – República Fede al da
Alemanha (RFA - Alemanha Ociden al), e República Democ á ica da Alemanha (RDA –
Alemanha O ien al), di isão essa ma cada geog á ica e isicamen e pelo mu o de Be lim,
c iando assim mais uma eno me up u a de cul u as, de po os e po conseguin e
ambém a sua di isão.
Apos a queda do mu o no início dos anos 90, deu-se a uni icação das duas pa es,
a Alemanha passou a se de no o um odo, esul an e de um longo passado em comum,
uma he ança cul u al que pe mi iu ea a laços. Toda ia, o passado não pode se
esquecido ou apagado, e an os anos depois, a Alemanha en a ainda a odo o cus o
enega - sem, no en an o, que e esquece - o as o deixado pelo egime nazi. Pa a isso
c ia am memo iais, placas comemo a i as das i imas do Holocaus o, solidi icando o
passado a a és da c iação de monumen os e museus, eu ilizando an igos espaços
o emen e ma cados pela ideologia nazi em locais que ansmi am sen imen os
opos os. “T ans o ma algo em pa imónio, o na absolu amen e cla o que es a he ança
se e e e ao passado (…).” (ibid: p. 104)
Macdonald ap esen a-nos o caso conc e o do Palácio do Cong esso que albe ga
um Cen o de Documen ação, onde exis e uma exposição denominada Fascínio e
Violência. Apesa des a se enquad ada no Se iço de Museus da Cidade de
Nu embe ga, es es ecusa am u iliza o e mo museu, pois ac edi am que es e a ia um
ca ác e especial de admi ação àqueles objec os e suspensão c i ica, esul an e do
“olha museog á ico” das peças expos as. O e mo Cen o de Documen ação, con e e
assim a ideia de pesquisa e não de con emplação, a a és da his ó ia e não do
pa imónio.
Também em Po ugal encon amos exemplos complexos de p ocessos de
esis ência, como é o caso de es udo da in es igado a Paula Godinho, que se deb uça
sob e es e ema a a és do passado e memó ias ligadas à esis ência associadas à
di adu a po uguesa (1926-1974). Em Resis ência E/Y Memó ia, Paula Godinho a a és
de di e sos casos de es udo demons a-nos que as memó ias êm classe, géne o e es ão
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associadas aos usos polí icos da memó ia. “O longo silêncio ace ca do oco ido, que
ac u ou o empo local dos g upos amilia es a ingidos, p olongou-se bem além da
memó ia da di adu a (…)” (VARELA E PEREIRA: 2013, in GODINHO: 2015, p. 09)
Ainda na sua análise, Godinho e e e que alguns dos seus en e is ados ica am
p esos ao passado, p esos ao que pode ia e sido, numa acção “de o a pa a den o” o
que nos mos a que al ez o p esen e pa a es es con inue a se baseado nas suas an igas
memó ias e não seja algo ão linea assim uma ez que ainda exis e uma “ e ol a da
memó ia” esul an e de uma e ocação cons an e do passado, uma memó ia colec i a
do passado, ab icada cons an emen e no p esen e.
O ema da memó ia é um ema cada ez mais abo dado, a é pelos media. Veja-
se, ac ualmen e, na es ação ele isi a TVI a emissão do p og ama Epheme a. O
p og ama é conduzido pela jo nalis a Joana Reis e pelo his o iado José Pacheco Pe ei a,
e em po objec i o da a conhece aos espec ado es alguns a qui os p i ados de
Po ugal. A Associação Cul u al Epheme a, disponibiliza o seu ace o a in es igado es,
de aco do com no mas condicionan es de pesquisa, que de ido à escassez de espaço
o na impossí el disponibiliza odo o ace o. Esses a qui os são do mais di e so que se
possa imagina : objec os, pan le os, li os, ilmes, o og a ias, en e ou os. A a és
des es é possí el descob i não só a his ó ia do país, mas ambém mais sob e os seus
p o agonis as, des enda seg edos e pa ilha his ó ias, “a nossa memó ia a a és dos
objec os de odo o ipo que a his ó ia ocou.”
9
Julgo que es e ipo de ace os e a sua
cons ução e di ulgação, são undamen ais numa museologia que se que inclusi a e
c ia i a.
P esen e
O p esen e em em mãos uma e amen a pode osíssima capaz de muda o
mundo, a a és do impac o social, ainda que não enhamos eal noção dessa
consequência. Re i o-me às edes sociais – Facebook, Ins ag am – que a a és das
nossas “pegadas” no espaço i ual, amos cons uindo uma memó ia social, aquilo que
que emos que os ou os ejam e associem a nós p óp ios. O Facebook, pe cebendo es e
impac o, c iou uma unção que se e pa a nos elemb a de acon ecimen os passados
9
Desc ição p esen e no ende eço elec ónico da TVI, ela i amen e ao p og ama Epheme a.
20 | P á g i n a
publicados po nós, acon ecimen os esses já no nosso esquecimen o, ea i ados po um
“lemb e e” diá io des a e amen a. Mas a é que pon o es a ão os nossos dados
segu os, uma ez que es es são acessí eis a um mundo de “amigos”? Uma ez que um
con eúdo é publicado na in e ne , di icilmen e pode emos con ola o seu des ino inal.
Juliana Al maye az e e ência a um no o di ei o na e a da e olução ecnológica
que em como objec i o ga an i e assegu a o di ei o à p i acidade. Pa a isso u iliza o
concei o de Di ei o ao Esquecimen o, e e e e que es a é uma ques ão c escen e, cada
ez mais es amos dependen es de compu ado es, in e ne , sma phones e odeados de
câma as, onde mui as ezes de modo inconscien e azemos pa e. Juliana e e e que
“(…) o di ei o ao esquecimen o pode, po um lado, se um a o de libe ação pa a um
indi íduo, e e en e aos seus di ei os de pe sonalidade; e po ou o, pode se uma pe da
pa a a sociedade, no condizen e a sua his ó ia e memó ia. São dois lados de uma moeda,
de um, em-se o in e esse p i ado, de ou o, o colec i o.” (ALTMAYER: 2017, p. 16-17)
O p esen e es á eple o de e amen as, a amen os e medicamen os que
exis em na sociedade pa a en a “ a a ” o e ei o do esquecimen o humano. É ex ensa
a lis a de mé odos usados pela ciência, na lu a pela sal agua da e qualidade da saúde.
No en an o, nenhuma des as soluções ga an es melho ias de ini i as, podendo mesmo
e e ei os secundá ios. O melho emédio con inua a se o “medicamen o” na u al que
esul a das con e sas en e amigos, ecolhas de es emunhos, isionamen o de ilmes e
o og a ias. Es a é a cha e pa a a sal agua da da nossa sanidade, não só con a o
esquecimen o, mas ambém na lu a con a a solidão. É um ac o que podemos eco da
es ando sós, mas podemos ambém eco da es ando jun os, com ou as pessoas, e
cons ui uma ede de eco dações e memó ias conjun as que an as ezes encon a
sinónimos en e pa es.
Fu u o
É de modo cu ioso que assis imos na nossa con empo aneidade às o mas
a i iciais que a icção cien í ica encon ou pa a e ac a a emá ica da memó ia. De
o ma es upe ac a assis imos ao modo como a icção cien i ica, que seja a a és de
li o, sé ies ele isi as ou ilmes, a am emas como a memó ia e nos mos am de que
o ma o u u o pode á lida com es a, que seja de o ma posi i a – a a és da
21 | P á g i n a
p ese ação da memó ia e pe missão pa a “na ega ” na memó ia como se de um disco
ígido se a asse - que seja de o ma nega i a – u ilização da p óp ia memó ia ou da
memó ia de ou em pa a ins menos p óp ios, como ob e in o mações passadas e
con idenciais.
Sé ies de icção cien í ica como Black Mi o
10
abo dam o lado pe e so da
ecnologia na sociedade e de que o ma a ecnologia i á in luencia as sociedades do
u u o, nomeadamen e como i ão lida com a ques ão da memó ia. Des aco dois
episódios de Black Mi o que e lec em es a g ande p eocupação e nos dão mui o que
pensa : C ocodile - A acção desen ol e-se em o no de um e í el aciden e de iação
onde a mo e de um ciclis a oi ocul ada p oposi adamen e. Anos mais a de, a a és de
uma agen e de segu os que possui uma máquina de isionamen o da memó ia, es a
descob e esse ho í el c ime, o que desen ol e oda uma se ie de assassínios em cadeia
pa a en a e i a que se saiba a e dade sob e o a opelamen o. A a és da au o ização
da pessoa in e ogada, é lhe colocado um chip na êmpo a e con olado pela agen e de
segu os que a a és de algumas pe gun as consegue aze as pessoas e i e em esses
momen os e acede às suas memó ias a a és da máquina, sendo es as ansmi idas em
seguida na ele isão pe mi indo assim a ou as pessoas e em exac amen e aquilo que
a ou a pessoa iu - na p imei a pessoa - se indo assim de on e inegá el de p o a e
conhecimen o, nes e caso pa a uso companhias de segu os no u u o.
Ou o episódio da sé ie onde é abo dado o ema da memó ia é em The En i e
His o y o You, que a a és de um chip implan ado po de ás da o elha é possí el as
pessoas g a a em de o ma conscien e udo o que êem e ou em. A a és de um
con olo emo o es as conseguem “ e e ” as suas memó ias di ec amen e nos p óp ios
olhos ou a a és de moni o es pa a ou as pessoas ambém e em. O g ande p oblema
des e sis ema é o ac o de os humanos ica em obsessi os com as memó ias pessoas e
ambém com as memó ias alheias, in adindo a p i acidade das ou as pessoas pa a
sabe em o que es as ize am, chegando ao pon o de ob iga as pessoas a apaga em
ce as memó ias e inclusi e de ma a pa a que es as não possam mos a a ninguém.
10
Cha lie B ooke é o c iado da sé ie Black Mi o , 2011 – P esen e.
22 | P á g i n a
Pa a colma a a emá ica sob es os e ei os que a ecnologia em no p esen e e
e á no u u o, jun o Donna Ha away
11
au o a do Mani es o Cibo gue, que es uda os
acoplamen os en e o ganismos Humanos e Máquina. Ha away (1984) e e e na sua
ob a que a con empo aneidade es á eple a de “Cibo gues”, esul an es de junções que
oco em pa a colma a alhas exis en es nos Humanos como o uso p ó eses, apa elhos
egulado es in e nos como pacemake ou de memó ia. No en an o a au o a isa que
es as mudanças oco em pa a colma a alhas humanas e não especi icamen e pa a da
an agem ou a o ece os se es humanos que usu uem da ecnologia, le an ando
ambém impo an es ques ões sob e ques ões de géne o associadas ao
desen ol imen o da “máquina” sob e o homem. É cu ioso pe cebe que oi em 1960
que o e mo Cibo gue oi u ilizado pela p imei a ez. Clynes e Kline (1960) u iliza am a
pala a Cibo gue em Cybo gs and Space pa a desc e e uma “ u u a e a de as onau as”
que supo a iam as igo osas iagens espaciais de longa dis ância, eco endo ao uso de
implan es como agen es egulado es do o ganismo, uma ez que es amos a ala de
iagens espaciais com du ação de anos. Te emos nós, p óximos de nos o na mos
Cibo gues ao eco e mos ao uso de ecnologia pa a egis a as nossas alhas de
memó ia como se de um compu ado se a asse? Onde bas a epa a ou oca o disco
ígido pa a e mos acesso a ainda mais in o mação?
Cen o de Memó ias
O Museu Spo ing apos a ac ualmen e mais do que nunca na p ese ação do seu
pa imónio cul u al. O ima e ial su ge assim como uma “peça” undamen al na
cons ução da iden idade do clube e que a é hoje e e pouca acção nesse sen ido. Com
o seu complexo museológico – ac ualmen e com 2 espaços exposi i os
12
- podemos
dize que es es espaços são “biblio ecas i as de in o mação”, azendo po isso sen ido
apos a na ecolha de es emunhos o ais, associados ao clube, de o ma a que nada se
pe ca e ambém como o ma de econhecimen o e ag adecimen o à sua comunidade
de adep os. Desse modo o Cen o de Memó ias do museu pode con ibui pa a o
en iquecimen o museog á ico, algo que oi já inco po ado nas duas exposições
11
Dona Ha away, (1944 – P esen e) Bióloga, Filoso a, Esc i o a e His o iado a. Esc e eu o Mani es o
Cibo gue (1984).
12
Museu Spo ing (Al alade), Museu Spo ing (Lei ia) Colecção Be na des Dinis. Es á ambém p e is a a
inaugu ação do Museu das modalidades no Pa ilhão João Rocha.
23 | P á g i n a
empo á ias, sob e a Viagem do Spo ing à China em 1978 e na exposição sob e Má io
Moniz Pe ei a, algo que a i ulo de exemplo não se encon a pa en e na exposição
pe manen e no Museu Spo ing de Al alade, uma ez que p i ilegia po comple o os
seus milha es de o éus, a a és do seu pa imónio ma e ial, ao con á io da colecção
Be na des Dinis em Lei ia em que é o p óp io coleccionado que con a a his ó ia de cada
uma daquelas peças – po que i eu na p imei a pessoa alguns daqueles acon ecimen os
- com a mesma paixão no p esen e que o le ou na in ância a colecciona udo o que
osse elacionado com o Spo ing. O museu de Al alade em a lacuna de se um museu
sem oz. Sem oz no sen ido em que não nos con a, apenas nos mos a. Mos a-nos o
esul ado inal de um p ocesso de conquis a. Aquilo que não se ê, não exis e? Exis e,
apenas es á ainda po con a .
Pa a inicia o p ojec o que me oi p opos o, ela i o ao Cen o de Memó ias, oi
necessá io pesquisa e conhece exemplos já bem cimen ados, com p o as dadas na
á ea, no campo da in es igação, memó ia e his ó ia o al. A 11 e 12 de Ou ub o de 2017,
i e a opo unidade de pa icipa no Encon o de His ó ia O al no Museu da Cidade de
Almada, e ica a pa de di e sos in es igado es, p ojec os e expe iências cul u ais
exis en es. Pos o is o, i ei e e i alguns ópicos das comunicações a que assis i naquela
con e ência. Uma das ap esen ações que mais me p endeu a a enção oi a de Rosana
Mizia a: “As his ó ias de ida na p imei a pessoa: A expe iência do Museu da Pessoa”,
que como o í ulo indica, oi sob e a expe iência do Museu da Pessoa. A his ó ia o al
mos a-nos aquilo que não es á nos esc i os o iciais, e po isso o Museu da Pessoa
(B asil) é um museu i ual que con a em média com ce ca de 82.820 isualizações po
mês e ce ca de 70 his ó ias no as odos os meses, segundo dados de Rosana. Pa a isso
exis e uma pon e de ligação en e o Ace o, o Cu ado e o Visi an e.
A linha de acção do Museu da Pessoa desen ola-se em á ias e en es, o que
pe mi e ao in e enien e con a a sua his ó ia de á ias o mas: Museu que Anda - ai
a é às pessoas a a és de uma cabine mó el - Es údio Abe o - egis o no Museu - Vi ual
- egis o pelos u ilizado es - Expedição - iagens emá icas de ecolha de his ó ias, como
es i idades.
Exis e ambém um p og ama educa i o jun o das escolas po pa e do museu,
que isa sensibiliza pa a a alo ização da memó ia local, jun o das c ianças. Es as
a a és da pin u a, c iam desenhos sob e as his ó ias dos en e is ados, e es abelecem
24 | P á g i n a
uma elação en e his ó ia o al, imaginação e a es isuais. Es e abalho e lec e a
impo ância que os mais no os e ão no u u o, pois cabe-lhes a missão de p ese a o
pa imónio cul u al nas suas a iadas e en es. Pa a e ei os de pesquisa e di ulgação,
a colecção do ace o é uma colecção ísica e ambém digi al, que con a com ichei os de
á ios o ma os - áudio, o og a ia, audio isual, documen os esc i os e ma e ial
colec ado dos en e is ados.
A g ande an agem, ac ualmen e, é o ac o de a ecnologia pe mi i uma
associação com a e en e social da memó ia - em meios de sal agua da ou p odução –
com baixos cus os, um ele ado impac o social e ambém uma ep odução em la ga
escala, uma ez que pe mi e que qualque pessoa, em qualque luga do mundo, a a és
da in e ne consiga isualiza os con eúdos disponí eis no si e do Museu da Pessoa -
nes e caso em especí ico. Em Ou ub o, da a da ap esen ação, a equipa do Museu da
Pessoa e a cons i uída po 12 abalhado es ixos e 35 olun á ios, o que demos a bem
a dimensão que es e ipo de p ojec os en ol e e necessi a. Como a i mou Rosana
Mizia a na sua ap esen ação: “Não exis e iden idade sem na ação (…) uma his ó ia
pode muda o nosso jei o de e o mundo”.
No mesmo encon o, Helena Pin o Janei o, alando sob e “His ó ia O al num
Museu de Memó ia: A Expe iencia do Aljube” isa o abalho do museu na educação e
cidadania, nomeadamen e no que diz espei o à expe ienciação e i encias: “Po ezes,
os es emunhos o ais são mais impo an es que os objec os”. Não é possí el ansmi i
e explica i ências – como o caso das o u as ei as pela PIDE - pelo o ma o esc i o,
pois esse não possui a capacidade de sen i e ansmi i as emoções. Os locais de
en e is a podem se os mais a iados, con o me a necessidade ísica, psicológica ou
simbólica. Cada uma des as escolhas, i á en iquece odo o con eúdo es emunhal, e
a a és da his ó ia o al, pode emos “sen i ” e ecua no empo, jun amen e com as
memó ias daquela pessoa. Impo a e cien es a “Ideia de que o p esen e es á semp e
em ex inção” a i mou Ri a Á lia Cachado. Es a é semp e uma das g andes ba alhas do
Cen o de Memó ias, lu a con a a e osão do empo, assegu a a p ese ação do
passado a a és do p esen e.
Também Manuel Lo na sua exposição o al “Pa a que se e lemb a : O sen ido
Social da Memó ia”, e e e a memó ia como ins umen o con igu ado de iden idade.
As memó ias indi iduais con am a memó ia de g upos na medida em que es a é
25 | P á g i n a
p oduzida a a és da amília, de g upos, de classes sociais ou mo imen os
eligiosos/sociopolí icos. O g upo assume pa a Lo um papel p imo dial, nós
“ eco damos po que não es amos sós, az-se num e pa a um colec i o que pa ilha a
mesma memó ia (…) nós i emos numa sociedade que nos diz, e nos mos a, que é bom
eco da , a a és dos nomes das uas, nomes de escolas, museus e es á uas.” Mas qual
se á a impo ância, e pa a que se e esse ac o social? Segundo Manuel Lo exis em
ês pe spec i as a pa i das quais se eco da: 1 - Socialmen e - memó ia do encedo
que oi bem-sucedida. 2 - Socialmen e - memó ia do de o ado que en ol e ques ões
polí icas, cul u ais e simbólicas. 3 - O ensa à memó ia - a a és da do , da ep essão, da
agédia. Os discu sos da memó ia oco em semp e a pa i das pe spec i as dos
sujei os. Exis e a necessidade de “lemb a pa a ol a a se ”, eco da pa a p ese a ,
eco da pa a muda . Manuel Lo e e e o ac o de a memó ia se selec i a pois “Nós
só nos lemb amos daquilo que escolhemos”.
Ma ia Miguel Ca doso, oi ou a das con idadas p esen es, que abo dou a
emá ica da memó ia a a és da “Fo og a ia à Memó ia – O Cen o de Memó ias do
Museu do T abalho Michel Giacome i e o A qui o Fo og á ico Amé ico Ribei o”, e ela
o oco que o Museu do T abalho em sob e as pessoas e não sob e os seus objec os,
uma ez que no Museu do T abalho, g ande pa e da sua exposição sob e a indus ia
conse ei a de Se úbal, assen e em diálogos e desc ições na p imei a pessoa, dos
p ocessos de abalho, das ans o mações sociais, i encias e expe iencias, udo is o
e ac ado no museu de o ma cla a e concisa, g aças aos es emunhos ecolhidos.
Exis em 3 eixos de abalho no Cen o de Memó ias do Museu do T abalho, no que oca
à exposição do a qui o o og á ico de Amé ico Ribei o. Es e a qui o ab ange egis os
desde os anos 20 a é aos anos 90, con ando com 140 mil imagens. 1 - É ei a a análise
da o og a ia. 2 - Análise da his ó ia de ida de quem apa ece na imagem. 3 - Recolha de
es emunhos acompanhado no e eno, de quem apa ece ou pa icipou na o og a ia.
Ma ia Miguel Ca doso e e e que semp e que a o og a ia e ela um
acon ecimen o impo an e, azem uma ecolha o al pa a descob i mais sob e es a - o
que exis iu, nomes e cu iosidades –, dessa o ma é ácil pe cebemos a impo ância que
a memó ia e a o alidade assumem no p ocesso desc i i o, e no en iquecimen o não só
do ma e ial exposi i o, ace o audio isual, e p incipalmen e a ealização de e úlias
que p imam pela inclusão social local.
32 | P á g i n a
indus ial. Como nos ensina a An opologia, exis e ambém a memó ia o al, a o alidade,
conside ada, nos con ex os das sociedades ág a as/ p imi i as/ indígenas/ na i as,
como uma «esca ação da memó ia», pa a u iliza uma linguagem a queológica.”
(DONIZETE: s.d, p. 05)
Em 2003, ealizou-se em Pa is, uma impo an e “Con enção pa a a Sal agua da
do Pa imónio Cul u al Ima e ial” que ale a a pa a o ac o do pa imónio ima e ial e
ma e ial “anda em de mãos dadas”, e e o ça os pe igos a que ambos es ão sujei os,
como p ocessos de globalização, ans o mações sociais, in ole ância, deg adação,
desapa ecimen o e/ou des uição. Com odos es es pe igos, omamos consciência de
que são ambém esses mesmos agen es, que desempenham o papel de p ese ação,
sal agua da, manu enção, p odução e di ulgação do pa imónio cul u al, con ibuindo
pa a o en iquecimen o da di e sidade cul u al e da “c ia i idade humana”. É
undamen al, pa a que a p ese ação do pa imónio enha um maio impac o, e ec ua
abalho de sensibilização jun o das camadas jo ens, e consciencializa-las pa a a
sal agua da do pa imónio, pe encen e a odos nós – e seu ines imá el alo - ma e ial
e ima e ial, ac o de ap oximação e en endimen o en e se es humanos. Es a
con enção e e como inalidade, o espei o pelo pa imónio cul u al ima e ial das
comunidades, sensibilização local, nacional e in e nacional, pa a a impo ância da
coope ação e assis ência in e nacionais.
“Pa a e ei os da p esen e Con enção,
1. En ende-se po “pa imónio cul u al ima e ial” as p á icas, ep esen ações,
exp essões, conhecimen os e compe ências – bem como os ins umen os,
objec os, a e ac os e espaços cul u ais que lhes es ão associados – que as
comunidades, g upos e, e en ualmen e, indi íduos econhecem como
azendo pa e do seu pa imónio cul u al. Es e pa imónio cul u al ima e ial,
ansmi ido de ge ação em ge ação, é cons an emen e ec iado pelas
comunidades e g upos em unção do seu meio en ol en e, da sua in e acção
com a na u eza e da sua his ó ia, e con e e-lhes um sen ido de iden idade e
33 | P á g i n a
de con inuidade, con ibuindo assim pa a p omo e o espei o da
di e sidade cul u al e a c ia i idade humana.” (UNESCO: 2003, p. 03)
18
A e nog a ia su ge da necessidade de e ac a e sal agua da a cul u a humana,
nas suas á ias e en es. Se de inicio es a e a ei a po e nóg a os em gabine es, com
base nos ela os de ou em, como missioná ios, explo ado es ou colonos,
pos e io men e es a adqui iu maio des aque, p incipalmen e, a pa i do momen o em
que B onislaw Malinowski (1884-1942) decidiu e oluciona o mé odo e nog á ico em
1914 nas Ilhas T ob iand. Malinowski subme gi-o o almen e naquela cul u a
desconhecida, desp endendo-se da sua ida na me ópole, pa icipando e in eg ando a
ida daquelas pessoas, e ec uando obse ação pa icipan e (in loco) e ap endendo os
seus p óp ios cos umes, udo is o du an e o pe íodo da P imei a Gue a Mundial (1914-
1918).
É aqui que a An opologia – uma ez que es a engloba no seu conjun o a
E nog a ia - ganha especial ele o, na pesquisa, análise, ecolha e p ese ação do
pa imónio cul u al, que seja ma e ial ou ima e ial. “O pa imónio ima e ial é uma
c iação da e nog a ia e da an opologia.”,” (…) ao longo de 100 anos o pe cu so da
an opologia po uguesa ez daquilo a que hoje se chama pa imónio ima e ial uma das
suas p incipais linhas de desen ol imen o” (LEAL: 2009, p. 290, 292). João Leal, espelha
a impo ância da An opologia nes a e en e - que chega a é aos dias de hoje como
uma g ande apos a das ins i uições, na p ese ação do seu pa imónio cul u al - e e ela
que no caso conc e o dos an opólogos po ugueses, o olha des es sob e o ima e ial
so eu uma p o unda al e ação, passando do olha “documen a is a” - ma cado pela
nos algia do passado - pa a ap oximações mais complexas, endo o no o e o elho
adqui ido o mesmo es a u o nas cul u as popula es, conside ando ão impo an e os
es emunhos o ais e as memó ias das lu as sociais, como a li e a u a o al de 1870-1880.
Dessa o ma, a a és da apos a no pa imónio ima e ial, é possí el consegui mos
sabe mais sob e os objec os que se encon am em posse do museu, objec os que
ca ecem de p ocessos desc i i os de conquis a, que não possuem documen os esc i os,
mas que a memó ia e a his ó ia o al podem con ex ualiza , sem, no en an o, pe de
peso, ele ância ou mesmo c edibilidade, al como a i ma João Leal, ac o es que não
18
Con enção da UNESCO pa a a Sal agua da Pa imónio Cul u al Ima e ial.
34 | P á g i n a
consegui íamos sabe apenas ao olha pa a o o eu. É p eciso da na a i as aos
objec os, da -lhe “co po e oz”, da -lhe des aque, às pessoas que conquis a am, e às
pessoas que assis i am.
Luís Ai es-Ba os no seu ex o O legado da memó ia: os monumen os hoje e no
u u o, e e e a impo ância de a sociedade e indo a desen ol e ao longo dos anos
um impo an e ac o de consciencialização sob e a p ese ação do seu pa imónio, da
sua he ança e da sua his ó ia. É impo an e p ese a pa a que as ge ações u u as
enham acesso a esse pa imónio e não pe cam a sua iden idade po que a ansmissão
de alo es cul u ais acon ece mui o po ia des e pa imónio que se e como ânco a,
al como os palcos onde a cul u a spo inguis a eside. Es es são eais, são ísicos e
uncionam como luga es de memó ia. Todas as cul u as como as conhecemos, são
esul an es de um logo p ocesso, de udo aquilo que oi p oduzido pelos po os ao longo
de mui os anos e não algo ge ado de o ma espon ânea e p oposi ada. É algo que oi
acon ecendo e se oi o nando na génese de um po o. A iden idade a ec a ao Spo ing,
é esul an e do con ac o com ou as cul u as despo i as e di e en es ideais, que se
o am moldando a é chega aos dias de hoje. Todo o ana ismo e ela uma paixão
inexplicá el, uma ligação pa a a ida que é pa ilhada en e pa es, en e amigos e
amília, algo que passa de ge ação em ge ação com objec i os que ge am e ep oduzem
alo .
O “uni e so” spo inguis a es á eple o de símbolos iden i á io, mui os desses
ísicos e de g ande dimensão como os es ádios, sedes, academias, núcleos e espaços de
sociabilização comum como p aças ou uas. Es es luga es adqui em o es a u o de palco
de eco dações, são luga es iden i á ios, são ma cos, luga es de memó ia que pe mi em
eco da e ememo a o passado. Jan sch Souza az e e ência ao a igo de Pie e No a
En e memó ia e his ó ia – A p oblemá ica dos luga es (1993), pa a nos mos a as
conside ações do au o sob e os luga es de memó ia: “O au o a a da necessidade
mode na de elege luga es onde deposi a memó ias, impo a ce os espaços ou
objec os a a e a de cap u a a memó ia e deixá-la ali ence ada pa a a qualque
momen o se despe ada pelo homem” (JANTSCH: 2014, p.100). Os luga es de memó ia
pa a No a são assim uma “ e amen a” que es abelece uma co elação en e o passado
e o p esen e, a a és de odo o seu simbolismo alojado nas memó ias e lemb anças.
Mui as ezes es as só ol am a es a acessí eis a a és de ce os es ímulos senso iais
35 | P á g i n a
como a isão, ol ac o ou audição. Os luga es de memó ia segundo No a são “ es os” de
algo que icou e que pe mi e se lemb ado al como os ma cos his ó icos e simbólicos
do clube.
A disciplina de An opologia do Espaço – a a és da An opóloga Filomena
Sil ano
19
– ajuda-nos a en ende a abo dagem po pa e da sociedade aos
concei os de es u u a social, espaço e memó ia. Es a pe mi e-nos obse a a
co elação en e á ios con ex os no que oca à obse ação e ao es udo dos
elemen os iden i á ios de um po o e de uma cul u a que segundo a isão
du kheimiana: “algumas dimensões do espaço são desen ol idas, como a
dimensão ma e ial, a sua ealidade dinâmica e enquan o supo e de memó ias
colec i as, ap eendendo o espaço como uma ep esen ação social elacionada
com p ocessos de iden idade e de memó ia simbólica e a ec i a de um g upo”
(SILVANO: 2001, p. 115).
Donize e Rod igues ap esen a-nos au o es como Gee z, S ua Hall e Bauman
que abo dam concei os cha e pa a o abalho do Cen o de Memó ias do Museu
Spo ing. Gee z (1973), p opo ciona-nos concei os como memó ia social, pa imónio
cul u al e iden idade. Po sua ez S ua Hall (2002) e Bauman (1998) su gem com
concei os como a globalização, on ei as e i o iais, localidades e iden idades. Todos
es es são impo an es concei os na medida em que nos ajudam a elaciona e a
comp eende melho a elação que os adep os êm com o clube a a és da sua memó ia
social, indi idual/g upo que cons i ui alo es de iden idade que se a i mam den o e
o a. Is o pe mi e localiza-los geog a icamen e, não só em Po ugal, mas ambém no
Mundo. Jun os, es es g upos cons i uem um mosaico dinâmico em cons an e c escen e
e mo imen ação, que p opagam es a onda de a inidades.
No en an o não bas a apenas iden i ica e eco da luga es, espaços ou símbolos.
É p eciso agi em o no da p ese ação des es sí ios. É ão impo an e egis a como
p ese a . Em Luga es de memó ia ou a p á ica de p ese a o in isí el a a és do
conc e o Ma cia Conceição da Massena A é alo dá-nos noções de p ese ação das
memó ias a a és do espaço, u ilizando pa a isso o concei o já aqui abo dado
an e io men e de Pie e No a - luga es de memó ia - no qual suge e o espaço ísico
19
Dulce Mou a, s.d. Filomena Sil ano (2001) - An opologia do Espaço. Uma In odução, Oei as, Cel a. pp. 115-116
36 | P á g i n a
(ma e ial) como supo e pa a a o mação de memó ia colec i a (ima e ial), uma ez que
segundo Massena a memó ia necessi a de um i ual pa a se associa a um espaço ísico
que unciona como uma ânco a na o mação de memó ias na sociedade con empo ânea
ainda que es as não sejam uni e sais, sejam indi iduais ou colec i as e sejam
iden i ica i as. É a memó ia que legi ima as acções e en eliga o passado, p esen e e
u u o. “Os luga es de memó ia nascem e i em do sen imen o que não há memó ia
espon ânea, que é p eciso c ia a qui os, o ganiza celeb ações, man e ani e sá ios
(…).” (MASSENA: s.d, p. 04) Es es luga es podem aze memó ia colec i a apoiada nas
p á icas cul u ais aí ealizadas, e desse modo são locais a se p ese ados pois são sí ios
“sag ados”, palcos de g andes i uais e de oções.
P ese a “luga es sag ados” é uma a e a de eno me impo ância e não pode
se deixada ao acaso. Pa a isso oi c iada a Decla ação de Québec – Sob e a p ese ação
do “Spi i u loci” – In e na ional Council on Monumen s and Si es, decla ação essa que
isa exac amen e p o ege o pa imónio cul u al e os alo es espi i uais associados ao
luga , le ando o Conselho In e nacional de Monumen os e Sí ios a conside a adop a
uma ca a especí ica dedicada ao pa imónio in angí el de sí ios e monumen os, o
chamado “espí i o do luga ”. Mas o que é o espí i o do luga ? “O espí i o do luga é
de inido como os elemen os angí eis (edi ícios, sí ios, paisagens, o as, objec os) e
in angí eis (memó ias, na a i as, documen os esc i os, i uais, es i ais, conhecimen o
adicional, alo es, ex u as, co es, odo es, e c.) is o é, os elemen os ísicos e espi i uais
que dão sen ido, emoção e mis é io ao luga .” (Ibid: p. 02). Es a ca a não p e ende
sepa a ou dis ingui os elemen os angí eis e in angí eis, mas que es es in e ajam en e
si e se cons uam mu uamen e, que a bem e dade não podemos obse a um deles
sem o ou o, nem cuida de um sem cuida do ou o. No caso de o eus ou objec os, o
ma e ial dá-nos con a de um p ocesso de conquis a que oi ou não concluído com o al
êxi o, e o lado ima e ial dá-nos con a de odo esse p ocesso a a és dos es emunhos.
Podemos obse a-los em sepa ado, no en an o apenas se os obse a mos jun os é que
e emos o máximo igo possí el e eal conhecimen o de odo o ei o, endo na sua
pleni ude “os dois lados da mesma moeda”.
No âmbi o do Cen o de Memó ias, mui os são os es emunhos que e e em
luga es simbólicos de memó ia no uni e so spo inguis a, luga es eple os de his ó ia,
luga es comuns na maio ia dos casos de memó ia colec i a, mas ambém memó ias
37 | P á g i n a
indi iduais como do an igo es ádio e an iga Sede da Rua do Passadiço nº86, os con í ios
en e uncioná ios e a le as como e e e Leono Roque, Vic o Cândido, Be na des Dinis,
ou os i mãos Sousa Ma ques. As pis as do an igo Es ádio de Al alade, p imei o o
elód omo, depois a pis a de cinza como nos con ou Ped o Ma os, Joaquim Fe ei a,
A mando Aldegalega, C is ina Coelho, seguindo-se a pis a a ã e de pela mão do
an igo p esiden e João Rocha, e po im a pis a co de ijolo. A an iga Na e do es ádio
de 1956, o Bingo, es au an es como O´Mag iço - onde abalha An ónio Gonçal es à
la gos anos e que an as memó ias êm pa a pa ilha – os ciclos es i os como na al e
a ida ao ci co, galas como Rugidos de Leão na Ba alha, P émios S omp ou memó ias
pessoais, como o dia em que joga am, co e am, assis i am a uma p o a pela p imei a
ez. A p imei a ez que conhece am Moniz Pe ei a, a p imei a ez que ganha am uma
p o a como Ca los Lopes, Fe nando Mamede, ou Domingos Cas o, udo is o associado
di ec amen e a ques ões emocionais não só e e en es ao espaço, mas ambém aos
esul ados.
No que e e e à e en e despo i a como Fu ebol, g andes au o es como
Gilbe o F ey e, Robe o DaMa a, Pie Paolo, An ónio da Sil a Cos a e Salomé Ma i oe
dão-nos con a do Fu ebol como um ac o social ( o al) que pe mi e explica e in e p e a
a sociedade, que socialmen e, que cul u almen e. Em Diz-me como jogas e e di ei
quem és… de And é Cap a o, os au o es como F ey e, DaMa a e Paolo, apesa de não
se em especialis as sob e o ema do u ebol i am nes e, g andes po encialidades pa a
explica á ios enómenos sociais. No caso em especí ico de Gilbe o F ey e au o de
Casa G ande e Senzala (1933), iu nes e despo o e nas suas gen es a possibilidade de
e o ça es a sua ese sob e a in eg ação acial, uma ez que concluiu que no caso
b asilei o o u ebol é esul an e de á ios elemen os sociais e cul u ais, de i ados da
in e acção acial en e o neg o, o b anco eu opeu (nes e caso o po uguês) e o indígena.
Já An ónio da Sil a Cos a em Po ugal, País de u ebol: g aças ao u ebol, a nossa Pá ia
é o mundo, analisa odo o ciclo es i o associado ao u ebol, especialmen e em o no do
Eu o 2004 ealizado em Po ugal: “O u ebol em um papel impo an íssimo a
desempenha no que diz espei o à eno ação es i a da sociedade mode na,
p incipalmen e em sociedades como a po uguesa, onde a es a é um elemen o
undamen al e imp escindí el pa a o seu no mal uncionamen o”. (COSTA: 2003, p. 01)
Po ou as pala as, segundo o au o , o u ebol em a capacidade de c ia “a es a” à
38 | P á g i n a
escala local, mas ambém à escala global, o que no caso da cul u a spo inguis a em
amplo e lexo, não só a a és u ebol e das suas modalidades, mas ambém a a és dos
seus adep os, núcleos, iliais e academias. Como sabemos o Fu ebol assume no mundo
o papel de p incipal ep esen an e do despo o, despon ando em si como em ou as
modalidades uma pale a de expe iências e emoções que icam exp essas po Cláudia
Dias, Nuno Co e-Real, José C uz e An ónio Fonseca em Emoções no despo o: O que
sabemos e o (que sen imos) que julgamos sabe , e ela-nos que du an e la gos anos
a ibuía-se quase em exclusi o como ac o de al e ação no despo o a pa e psíquica,
con olada pela ansiedade. Es es au o es explo am o que são as emoções e de que modo
as podemos a alia , mas não apenas de o ma psicológica, mas ambém ísica. Pa a isso
enume am ês ac o es que oco em de i ados à expe imen ação de o es emoções.
É p eciso e em con a que es as emoções oco em an o an es, como du an e e no pôs,
cada uma com ca ac e ís icas di e en es. Um dos elemen os que oco e é o aumen o
da equência ca díaca que a ia consoan e a impo ância do ad e sá io, que esul a
ambém numa mudança da exp essão acial que a ia ambém com o des echo do
desa io, como so iso em caso de i ó ia ou o ica pálido com medo. Ou o elemen o
encon a-se in e ligado com ag essi idade, passi idade consoan e a si uação, que no
caso de adep os mais e o osos e no pico das suas emoções pode da azo a iolência
ou insu iciência ca díaca.
O Caso P á ico
“Semp e oda a ida, a minha ida oi o Spo ing, oi o Spo ing” – Moniz Pe ei a
20
De ido à dimensão do clube e sua iqueza his ó ica, e de aco do com as
necessidades do museu e de es ágio – objec o conc e o – concen amos o oco de acção
na exposição empo á ia sob e o p o esso Má io Moniz Pe ei a, exposição essa que me
i ia pe mi i acompanha odo o seu p ocesso, desde o seu inicio a é ao im, pois a
inaugu ação des a e a an es da da a em que inda a o es ágio.
20
F ase di a po Moniz Pe ei a, no dia em que comple ou 94 anos de ida (11-02-2015) em en e is a à
ele isão do clube (Spo ing T ).
39 | P á g i n a
O í ulo da exposição A SORTE DÁ MUITO TRABALHO desde logo nos aguça a
cu iosidade e nos despe a os sen idos. Má io Moniz Pe ei a oi um azedo de
Campeões. Mas como podem duas pala as ão dis in as como a pala a so e e
abalho, cabe em na mesma ase?
Impo a e e i que de ido à g andiosidade e mul idisciplina íssimo de Moniz
Pe ei a em oda a sua ida, es e que e a conhecido como o S . A le ismo, de e ia an es
de mais se conhecido como o S . Ecle ismo. A exposição homenageia não só a sua
eno me igu a humana, mas ambém o a le a, o di igen e, o einado e o amo ao clube
do seu co ação, de al modo que no dia em que comple ou 94 anos de ida con essou à
ele isão do clube: “Semp e oda a ida, a minha ida oi o Spo ing, oi o Spo ing”. o
qual e a o sócio núme o dois quando aleceu com 95 anos de idade. De modo a
consegui ab ange 95 anos de ida - 93 anos ligados ao Spo ing - o am desen ol idas
duas exposições e á ias ac i idades – a ealiza - em pa ce ia com ou as ins i uições,
como é o caso do Museu Nacional do Despo o, Museu Spo ing, Cen o Despo i o
Nacional do Jamo , Comi é Olímpico de Po ugal, Museu do Fado, Faculdade de
Mo icidade Humana e Fede ação Po uguesa de A le ismo. Cada ins i uição icou
enca egue de assegu a a sua pa e exposi i a, que no caso do Museu Nacional do
Despo o esul ou na econs i uição da sala de abalho de casa do p o esso . Nes a
podemos e uma éplica do seu piano, os documen os e apon amen os pessoais. O
Museu do Fado icou enca egue de uma e úlia que abo da a eia adis a, composi o ,
e le is a de Moniz Pe ei a. O Museu Spo ing, p e endeu ep esen a e digni ica o seu
pe cu so enquan o Spo inguis a, enquan o a le a, einado e di igen e, pois é uma
igu a ímpa na his ó ia do clube e de Po ugal.
O Cen o de Memó ias do museu con ibuiu pa a a exposição, a a és dos
es emunhos de algumas das pessoas que i e am o p i ilégio de lida com o p o esso
e c esce com ele, não apenas a ní el despo i o, mas ambém a ní el humano. Os
es emunhos o nam es a uma exposição in imis a, di e en e, sen ida na p imei a,
pessoa po aqueles que azem pa e des a, e po odos aqueles que a pode ão isi a .
Foi undamen al e ec ua uma ecolha de memó ias de quem lidou de pe o
como o p o esso , uma ecolha que nos pe mi e acede a a és do in o man e e das
suas memó ias a um leque de momen os i idos pelos p óp ios, uma ecolha u gen e
que en iquece o pa imónio do clube e pe mi e “sal a ” as memó ias de quem de pe o
40 | P á g i n a
lidou com o Moniz Pe ei a. Es a ecolha de es emunhos pe mi e e ec ua duas acções
bas an e impo an es: a p imei a é o ac o de a a és das i ências pessoais, es a mos
a da oz e ambém a e i a as pessoas do esquecimen o, ou seja, do seu esquecimen o
in e no, das suas p óp ias memó ias e do esquecimen o do público, no caso de an igos
a le as que ago a se encon am longe dos empos de gló ia. Pe mi e um ea i a
posi i o, pois nes e caso o p ocesso de eco da pe mi e que de ol amos a es as
pessoas algo que ha iam pe dido há mui o, o con ac o com um mundo despo i o que
pa a es es pode ia e deixado de exis i . E po isso podemos ambém a e i que es a
in es igação possui ambém uma e en e social na medida que es e con ac o humano
pe mi e ambém uma ap oximação e a é inclusão no es abelecimen o de con ac os,
mas ambém de empo e de luga . O segundo bene ício des e abalho é o ac o de
econs ui o passado e a his ó ia do clube, a a és de his ó ias na p imei a pessoa,
aquelas his ó ias que dão co es, chei os e sabo es à nossa imaginação, aquilo que oi
i enciado de de e minada manei a po uma de e minada pessoa, pois como sabemos
a mesma si uação é i ida de di e en es modos po di e en es pessoas que en iquecem
a nossa his ó ia não só pessoal, mas ambém a ins i ucional. É undamen al e ec ua a
p ese ação u gen e des e pa imónio e sal a o máximo possí el de memó ias e
his ó ias, pois são a a és des as que possibili amos a con ex ualização no p esen e,
mas sob e udo c iamos uma pon e de ligação com o u u o.
Recolha - His ó ia O al
“(…) a memó ia a i a-se nos seus meios de memó ia (No a: 1986). Sem os meios de
memó ia, associados a um local ou a á ios, as pessoas e as suas idas se iam imagens
ins an âneas, an asmá icas, sem du ação.” (2014, p. 10
21
)
Pe e Loizos em Inno a ion in E hnog aphic
22
, diz-nos que o e eno do ilme
documen á io é as o, e enquan o a maio ia dos ilmes e nog á icos são idos como
documen á ios, apenas uma mino ia dos documen á ios é is o pela academia como
21
Paula Godinho, Inês Fonseca e João Baía, (Coo ds.), (2014), Resis ência e/y Memó ia – Pe spec i as
Ibe o-Ame icanas [Documen o elec ónico], Lisboa: IHC-FCSH/UNL.
22
Pe e Loizos, (1992), Ino a ion in E hnog aphic Film, F om Innocence o Sel -consciousness 1955-
1985. p. 5-15
41 | P á g i n a
sendo ilmes e nog á icos. Anne Ma ie
23
e o ça a o ça da o og a ia em elação aos
egis os audio isuais, uma ez que as o og a ias êm uma maio isibilidade, pois
pe mi em uma ácil ans o mação em pos ais e nesse caso uncionando como meio de
di ulgação de algo, como p odu os, paisagens e memó ias. As o og a ias são po á eis
e são um espelho do passado u ilizado ambém nos ilmes pa a econs ui
acon ecimen os an e io es ao ilme, de o ma de alhada e ealis a. Na an opologia po
a o og a ia an opomé ica é a pionei a, p o enien e do con ex o colonial, em que a
o og a ia p opo ciona a um no o meio de c ia modelos humanos, como e e e
MacDougall em The Visual in An h opology
24
. Só pos e io men e se começam a ealiza
os ilmes e nog á icos, con udo a o og a ia e o ilme ac uam de o ma conjun a e
comple am-se. A na a i a dos ilmes consegue se mais pode osa, po ou o lado as
o og a ias o e ecem aquilo que não é possí el encon a nos ilmes, os p imó dios da
imagem.
25
O mé odo de ecolha de in o mação pa a o Cen o de Memó ias, oco eu a a és
da g a ação de es emunhos o ais em audio isual. As pessoas o am con idadas a
con a as suas his ó ias e a e i e momen os, azendo pa a isso os seus p óp ios
objec os pessoais. Uma ez que as en e is as e am p e iamen e agendadas - quando
possí el -, pe mi ia aos in o man es aze em esses mesmos objec os, como o og a ias,
documen os, medalhas, sapa ilhas ou equipamen os despo i os, e pe mi ia ambém
uma pesquisa p é ia sob e aquelas pessoas de modo a en iquece o con eúdo do
egis o. Po ezes acon ece am ambém ecolhas de es emunhos espo ádicos, em que
as pessoas êm isi a o museu, e os guias de se iço pe cebem que aquela pessoa em
memó ias inc í eis e p ecisam se egis adas. Nesse caso é ei o o con i e ao isi an e e
explicado o objec i o e a me odologia do Cen o de Memó ias. Aqui, o ac o su p esa
de uma en e is a inespe ada, coloca an o pa a o en e is ado como pa a a pessoa que
egis a, uma igualdade ci cuns ancial de ambas as pa es. Faz-se um jogo de descobe a
e pa ilha, num i mo desa ian e, e mui o ma can e.
As ecolhas pa a o cen o de memó ia oco e am po no ma no in e io da sala
di ecção do museu. Es a escolha assen ou em á ios ac o es: 1 – o ac o de pe mi i
23
Anne-Ma ie Willis, (1995), Pho og aphy and Film, Uni e si y o Cali o nia. p. 77-93
24
Da id MacDougall, (1997), The Visual in An h opology, Yale Uni e si y. p. 277-295
25
Niépce Nicépho e – c iação da p imei a imagem o og á ica conhecida 1826.
48 | P á g i n a
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93.
51 | P á g i n a
Anexos
(1) - Vida e Ob a de Má io Moniz Pe ei a
“Pode a i ma -se que a sua ida deco ia como uma p o a de a le ismo. Se ha ia
ba ei as, ul apassa a-as. Se ha ia um des alecimen o súbi o, ele azia um apelo ao seu
in e io e ecupe a a. Se a me a ainda es a a longe, sabia domina o es o ço com o
objec i o de a a ingi .” (CORREIA: 2016, p. 220)
Como imos an e io men e, o e mo Senho A le ismo como e a
ca inhosamen e apelidado, não az jus ao eno me ecle ismo do p o esso , uma ez que
oi a le a e einado de á ias modalidades como: Voleibol, Ginás ica, A le ismo ou
Ténis de Mesa, p epa ado ísico da equipa de Fu ebol do Spo ing C.P., bem como
di igen e despo i o do mesmo clube. Foi uma igu a impa na his ó ia do despo o, na
música e na sociedade. A sua disciplina, as suas ambições, o mé odo de eino, as i ó ias
alcançadas e os eco des ba idos pelos seus a le as, azem de Má io Moniz Pe ei a um
exemplo de pe se e ança, de ga a e sucesso em á ios dos seus campos de acção.
Comecemos en ão po descob i mais sob e Má io Moniz Pe ei a e o po quê de se uma
igu a de eno me ele o a ní el nacional e mundial.
Como nos desc e eu Leono Moniz Pe ei a – ilha mais elha de Moniz Pe ei a -
o seu pai “e a uma pessoa simples, não e a aidoso e acha a que a sua ob igação e a
supe a -se a si p óp io”. Supe ação, uma das pala as que melho ca ac e izam Moniz
Pe ei a, alguém que lu ou mui o pelos seus sonhos, pelos seus a le as, e po udo aquilo
que ac edi a a. Moniz Pe ei a semp e disse que o seu g ande objec i o enquan o
einado de a le ismo, e a um dia consegui e um a le a que ganhasse nos Jogos
Olímpicos a medalha de ou o, que subisse a bandei a po uguesa e se can asse o hino
nacional – objec i o esse que deixou esc i o em 1945/1946 e i ia a consegui ealiza
em 1984 com a i ó ia de Ca los Lopes na ma a ona em Los Angeles, al u a em que
con essou em en e is as que nesse dia “cho ou como uma madalena”. Foi enume as
ezes homenageado em ida - P émio S omp 1964, Medalha de Mé i o Despo i o em
1976 e 1984, Comenda da O dem do In an e D. Hen ique em 1980, Comenda da O dem
de Ins ução Pública em 1984, Mé i o em Ou o em 1985, O dem Olímpica em 1988,
G ande O icial da O dem do In an e D Hen ique em 1991, Leão de Ou o em 2000, Leões
52 | P á g i n a
Hono is Spo ing 2015 - mas Leono ac edi a que a maio homenagem que Má io Moniz
Pe ei a i ia que e que lhe p es assem e a a c iação de uma pis a de a le ismo, no
Spo ing, e que se con inuassem a aze pis as de a le ismo po Po ugal, com melho es
condições, nomeadamen e pis as cobe as que possibili assem einos em qualque
ocasião a mos é ica.
A pis a de a le ismo de 1977 do an igo Es ádio José Al alade (1956)
26
oi du an e
mui os anos uma eno me on e de o gulho e conquis as como a de Fe nando Mamede
em 1981 em que ba eu o eco de da Eu opa dos 10.000 me os pe an e uma pla eia de
15 mil espec ado es. O es ádio e a pis a e am o labo a ó io de Moniz Pe ei a, os
einado es e os a le as a sua equipa de in es igação, udo is o g aças à e en e
olímpica do an igo es ádio que pe mi ia o c uzamen o de modalidades e expe iencias,
algo que indou com o desapa ecimen o do es ádio de 1956 e sua pis a a ã.
Os es emunhos egis ados pa a o Cen o de Memó ias são cla o, pois odos os
en e is ados e e em que o desapa ecimen o da pis a e a não colocação da pis a no
no o es ádio de 2003, esul ou num g ande desgos o pa a o p o esso pois pe cebeu
que o clube es a ia a “abandona ” aquela modalidade que an as aleg ias lhe inha dado.
Também a desis ência de Fe nando Mamede nos Jogos Olímpicos de Los Angeles em
1984 oi mo i o de g ande is eza pa a Moniz Pe ei a, não só po Moniz Pe ei a não e
conseguido esse objec i o que conside a a pe ei amen e alcançá el - Fe nando
Mamede e a o g ande a o i o à i ó ia - mas pelo impac o nega i o que i ia aze ao
“dep essi o” Fe nando Mamede. Ainda hoje - 34 anos depois - Mamede gua da o
bilhe e que Moniz Pe ei a lhe deixou debaixo da po a do ho el em Los Angeles: “O que
passou, passou. Vamos há lu a”, eco da emocionado a a és do objec o.
O momen o de maio elicidade do p o esso oi concedido po Ca los Lopes -
nos Olímpicos de L.A de 1984, na e en e de ma a ona
27
- medalha de ou o, o mais al o
econhecimen o, conquis ado po Moniz Pe ei a que conside a a o seu maio objec i o
enquan o einado , e um a le a nos Jogos Olímpicos que ganhasse a medalha de ou o
pa a Po ugal, que se can asse o hino e se ele asse bem al o a bandei a da pá ia: “De o
dize que, no início da minha ca ei a como einado de a le ismo, eu semp e
26
Es ágio José Al alade oi inaugu ado a 10 de Junho 1956 - a a és de uma ce imónia nunca an es is a
em Po ugal - e oi desac i ado em 2003, al u a em que odos se muda am pa a o no o es ádio.
27
Ca los Lopes – Ou o – Jogos Olímpicos de Los Angeles 1984 – Ma a ona 42km
53 | P á g i n a
ambicionei que Po ugal iesse a e um dia a le as de ca ego ia in e nacional. Já inha
ido a alguns Jogos Olímpicos e a minha ambição e a a de que a bandei a po uguesa
subisse ao mas o olímpico e que o hino nacional se ou isse no Es ádio Olímpico. Sei de
co os hinos de mui os países, mas nunca inha ido o p aze de ou i A Po uguesa.”
(ibid: p. 112). Pa a além do al o ní el enquan o einado , o a dos palcos despo i os
Moniz Pe ei a azia de udo pa a ajuda os seus a le as a ní el pessoal, nomeadamen e:
na p ocu a de emp ego pa a os seus a le as, na p ocu a de ho á ios lexí eis de modo a
ga an i compa ibilidade com os seus einos, e a é mesmo na p ocu a de melho es
salá ios pa a os seus a le as e melho es pa ocínios. Is o po que como nos con a Leono
Moniz Pe ei a, o seu pai olha a semp e as pessoas no seu conjun o e nas suas
necessidades pois desse modo conseguia e melho es a le as no a le ismo e a ingi os
seus objec i os.
Moniz Pe ei a e a um homem de amília, que ap o ei a a semp e que podia pa a
es a , ou se aze acompanha pelos seus. Fo am enume as as ezes que Leono Moniz
Pe ei a - ainda c iança - acompanhou o seu pai, nos einos e em p o as. Como a p óp ia
diz: “Não me impo a a de e 10 os ões po cada ez que subi as escadas do José de
Al alade.”
O ac o de se um homem ex emamen e exigen e, le a a a que passasse mui o
empo o a de casa – einos, p o as, compe ições nacionais, eu opeias e mundiais - e
não conseguia acompanha da melho o ma a sua amília, de modo que pa a os
compensa da sua ausência c iou o Cong esso Moniz Pe ei a. “Ele acha a que as pessoas
não se de iam euni só pa a os casamen os bap izados e en e os, e, po an o, de iam
ha e ou os acon ecimen os amilia es que jun assem as pessoas odas. Ele o ganiza a
o Cong esso da amília Moniz Pe ei a e jun a a odos numa zona de lisboa po exemplo.
Os p imei os o am no Ho el do Vimei o po que inha espaços, piscina, ca alos e campos
de énis. Depois ele o ganiza a uma espécie de calendá io em que as pessoas se
insc e iam al e qual como se osse pa a os olímpicos (…)” explicou Leono Moniz
Pe ei a. Reunia a máxima amília possí el, c ia a um ciclo de jogos com igo compe i i o
- como se a asse dos Jogos Olímpicos - e em que odos pudessem pa icipa . Se uma
p o a e a in e ompida a meio, es a e a con inuada em ou o dia a combina com os
isados na p o a. Todos se di e iam e e o ça am ao mesmo empo a união amilia ,
54 | P á g i n a
udo is o com a se iedade despo i a que se impunha e que Moniz Pe ei a nunca
descu a a.
No pano ama despo i o, lu ou a é ao im po melho es condições pa a os seus
a le as, melho es mé odos de eino, sac i icou a sua amília com inúme as ausências,
mas conseguiu 30 anos depois, uma medalha de ou o pa a Po ugal. Com ão pouco,
conseguiu ão bons esul ados, o eus, medalhas, eco des olímpicos e mundiais. O seu
lema “ abalho, abalho, abalho” não e a em ão, a é po que como o p óp io dizia “A
so e dá mui o abalho”. O Li o de Fe nando Co eia Moniz Pe ei a – Vida e Ob a do
Senho A le ismo, dá-nos consciência do as o caminho que Moniz Pe ei a pe co eu
desde o inicio da sua in ância a é se o na na e e ência que odos conhecemos.
“No dia 11 de Fe e ei o de 1921, nasceu na Rua Gomes F ei e, nº 163, p imei o
esque do, na cidade de Lisboa, uma c iança do sexo masculino a quem oi dado o nome
de Má io Albe o, com os apelidos, ma e no e pa e no, de F ei e Moniz Pe ei a.” (ibid:
p. 15). Da in ância às é ias em Sin a, na casa do seu a ô pa e no. Da educação no Liceu
Camões e o mação no INEF – Ins i u o Nacional de Educação Física – à ida mili a , e
inalmen e à chegada ao Spo ing - inicio do seu pe cu so no clube. Má io Moniz Pe ei a
“ ez de udo no Spo ing”, desde a le a, einado , p epa ado ísico e di igen e, chegou
inclusi e a se ice-p esiden e do Conselho Di ec i o, esponsá el po odas as
modalidades despo i as (exce o u ebol).
“Vi e é eina e eina é quase ence ”, es a oi uma das ases que Moniz
Pe ei a adop ou pa a si p óp io, depois de a e lido numa e is a b asilei a. Iden i icou-
se de al modo com aquela máxima, que a esc e eu na sua ese inal do INEF, endo-a
seguido pa a a ida. “O einado em que es a semp e em acção e de e se um bom
conselhei o, acompanhando de pe o os seus a le as.” (ibid: p. 116). Moniz Pe ei a
e e e po di e sas ezes que a cha e pa a o sucesso é eina o máximo de ezes
possí el, sendo o núme o de exe cícios mais impo an es do que a qualidade écnica de
cada indi iduo, pois como o mesmo diz, iu mui as ezes a le as ecnicamen e maus a
ganha em p o as e a le as ecnicamen e pe ei os que não conseguiam ganha . E pa a
jus i ica essas a i mações, Moniz Pe ei a jus i ica-se:
“(…) em Po ugal há o cul o da el a e con inua a se p oibido pisá-la. Ou nos
locais ou nos es ádios que enham pis a de a le ismo. Donde não é possí el aze
55 | P á g i n a
lançamen os, po que não deixam en a no el ado. En ão is o en ende-se? Já ago a,
ou ainda mais além. Já i am que os ame icanos são bons no basque ebol, não é
e dade? E já epa a am que, na maio ia das casas pa icula es, há uma abela de
basque e à po a e que miúdos e g aúdos passam a ida a aze lançamen os? Ninguém
ensina os miúdos a aze lançamen os ecnicamen e pe ei os. Eles lançam como sabem.
Vão a co e pa a a escola e a ba e a bola. De ez em quando pa am e lançam num
ces o dos mui os que há pelo caminho. Não em nenhum policia a co e pa a lhes i a
a bola. Quando eg essam a casa azem o mesmo, do mem com a bola no qua o,
começam a eina a sé io aos 13 ou 14 anos e, ela i amen e aos ou os miúdos de
ou os países, em dez lançamen os me em seis ou se e, e os ou os ze o ou um. E os
ame icanos são bons na modalidade. Po que se á? Em Po ugal, a écnica é boa. É
e dade. Mas uma écnica pe ei a pe de qualidade quando não é execu ada
equen emen e, odos os dias ou mais do que uma ez po dia. Is o é que se chama
adap ação ao ges o, à dis ância e ao es o ço. A écnica é impo an e, mas o seg edo do
êxi o es á no abalho cons an e e no mé odo a aplica , po que é a o um a le a e um
mé odo de abalho igual a ou o.” (ibid: p. 117)
A 1 de Agos o de 1975 Moniz Pe ei a e a di ec o écnico da ede ação
Po uguesa de A le ismo e como al ap esen ou um plano e olucioná io de p epa ação
pa a a modalidade, plano esse ap o ado pela di ecção da Fede ação e ambém pelo
Minis é io da Educação. Es e plano inha como objec i o p epa a da melho o ma
possí el os a le as de Po ugal pa a os Olímpicos de Mon eal em 1976, a começa pelo
simples ac o de os a le as po ugueses e em as mesmas opo unidades de eino que
os a le as de ou os países, aliando a sua qualidade écnica às i ó ias. “A ualmen e, não
podemos admi i que os nossos a le as, que einam 90 minu os po dia após 8 ho as de
abalho, ão compe i , em Mon eal, com aqueles que se p epa am 2 a 3 ezes po dia
num o al de seis ho as, seguido do necessá io epouso ecupe ado . As condições de
p epa ação e ão de se iguais, an o mais que, ago a, possuímos a le as de e dadei a
ca ego ia in e nacional e que apesa da desigualdade de p epa ação a ás ci ada, êm
ob ido mui as i ó ias no es angei o – e dadei os milag es – sob e aqueles que não
azem ou a coisa senão eina , o que nos le a a conclui que o seu eal po encial ainda
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es á po classi ica e é supe io ao de alguns nomes sonan es do a le ismo eu opeu”
(ibid: p. 140 - 141)
A ambição e a c ença de Moniz Pe ei a em aze campeões, não encon ou
consenso e mui as o as as c í icas que so eu. A comunicação social esc e ia: Luís Al es,
Jo nal O Século – “O s . p o esso de educação ísica Má io Moniz Pe ei a que êm o
g a íssimo de ei o de ama a sua p o issão como se ela o a um sace dócio (…) come eu
ago a a imp udência de ad oga a p esença do modes o a le ismo po uguês nos Jogos
Olímpicos de Mon eal (…), elabo a um p og ama especial de p epa ação pa a os seus
a le as que, em p incípio, já es ão seleccionados e que ai cus a ao e á io público pa a
cima de 500 con os. De mais sabe o p o esso Moniz Pe ei a na alhada em que se oi
me e .” (ibid: p. 145) O a igo segue ainda com o e c i ica, não só a Moniz Pe ei a bem
como aos a le as dizendo que: “as medalhas olímpicas e as al as classi icações só es ão
ao alcance dos a le as excepcionalmen e do ados, en e os quais se não con a nenhum
po uguês. Aplaudimos sem ese as a p esença po uguesa nos Jogos Olímpicos, mas
só uma p esença que seja a e dadei a imagem do país, is o é, uma p esença modes a
e sem ambições. Digamos, mesmo, uma p esença pob e, que pode se pob e e não
pe de dignidade. En endemos que os dinhei os que ão se gas os pode iam se mui o
mais ú eis se ossem canalizados pa a as escolas.” Já o jo nal República publica a o
seguin e: “Moniz Pe ei a es á no Alga e a gas a o dinhei o do po o!” (ibid: p. 146)
E a no ó io o desag ado ace às exigências - écnicas e inancei as -, pois pa e
da população po uguesa não ac edi a a se possí el que os po ugueses ossem aze
“boa igu a” no pano ama in e nacional. É bom eco da que o país saí a de uma
di adu a e ainda ha ia mui a ins abilidade na sociedade. Acon ece que pa a su p esa da
população, os esul ados ob idos nos Jogos Olímpicos de Mon eal de 1976, “excede am
la gamen e as p e isões, alcançando mesmo o b ilhan ismo, e só o am possí eis pelo
abalho in enso e ec uado ao longo do ano, após a ap o ação go e namen al do plano
de p epa ação.” (ibid: p. 147)
De al o ma o am posi i os que inclusi e o P imei o Minis o (à época) Má io
Soa es en iou um eleg ama a elici a Moniz Pe ei a: “Felici o excelen e abalho que
em desen ol ido há longos anos, bem exp esso nos esul ados ago a ob idos.” (ibid: p.
152)
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O es o ço de Moniz Pe ei a e a e olução que p o ocou na p epa ação des es
Jogos Olímpicos, me ece am g andes esul ados, de des aca o seu a le a do Spo ing
Ca los Lopes que alcançou o segundo luga em A le ismo nos 10.000 m, e, po
conseguin e, a medalha de p a a pa a Po ugal, e A mando Ma ques que ambém oi
medalha de p a a na modalidade de Ti o (Fosso olímpico). Nos Jogos Olímpicos de Los
Angeles em 1984, con inuando a segui os seus mé odos de eino que an o
impulsiona am a modalidade em Po ugal, a excelen e o ma ísica dos seus a le as
po ugueses le ou a que Ca los Lopes ganhasse mesmo a medalha de ou o - Ma a ona
- alcançando a p imei a medalha de ou o pa a Po ugal nos Jogos Olímpicos e
alcançando ambém o momen o áu eo de Moniz Pe ei a, aquele que e a o seu g ande
objec i o enquan o einado , que e a e um a le a que pa icipasse nos jogos
Olímpicos, que subisse ao pódio, ganhasse o ou o e se ou isse a Po uguesa com a
bandei a da pá ia como undo pa a odo o mundo assis i , algo que a é ao seu ul imo
dia de ida eco dou com eno me o gulho. “Fica a de lag imas nos olhos de emoção.
Como não enho do es de esc i o pa a desc e e essa emoção, só posso dize que,
quando a bandei a po uguesa subiu no mas o de hon a, ao som do hino nacional,
cho ei que nem uma Madalena… E a um sonho que ambiciona a ealiza , mas que não
julga a se possí el, quando iniciei a minha ca ei a de einado no Spo ing, em 1945.”
(ibid: p. 163)
Moniz Pe ei a es e e p esen e em 12 Jogos Olímpicos nas mais a iadas
condições: como jo nalis a, como di igen e, einado ou espec ado . A p imei a ez o a
em Lond es em 1948 e a úl ima oi no ano de 2000. Só al ou po duas ezes: Melbou ne
1956 e Mosco o 1980. Pelo caminho, mui as o am as medalhas, eco des pessoais,
nacionais, eu opeus e mundiais ba idos pelos a le as - pelos seus a le as do Spo ing,
mas ambém po a le as de ou os clubes ao se iço da selecção nacional, o que mos a
que Má io Moniz Pe ei a semp e olhou pa a o despo o e pa a as modalidades como
um odo e semp e ez udo em p ol do mesmo, ele ando o nome de Po ugal no mundo.
Todos es es episódios dão-nos con a da o e pe sonalidade de Moniz Pe ei a,
um g ande einado , em que a sua pe sis ência o le a a semp e a alcança os seus
objec i os. Con a udo e con a odos ez his ó ia, não só pessoal, mas ambém a dos
seus a le as, e de odas as ge ações u u as, que g aças a ele i e am e êm a
64 | P á g i n a
FIGURA 12 - ARMANDO ALDEGALEGA – PARTICIPOU NA 1ª EDIÇÃO DA TAÇA DOS CAMPEÕES EUROPEUS DE
ATLETISMO EM 1975.
FIGURA 43 - CRISTINA COELHO – COMEÇOU A PRATICAR ATLETISMO COM APENAS 7 ANOS DE IDADE, TENDO
REPRESENTADO O SPORTING DURANTE 20 ANOS.
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(4) - Pan le os ela i os às exposições sob e Má io Moniz Pe ei a.
FIGURA 14 - PANFLETO DE AUTORIA DO MUSEU NACIONAL DO DESPORTO (FRENTE)
FIGURA 15 - PANFLETO DE AUTORIA DO MUSEU NACIONAL DO DESPORTO (VERSO)
66 | P á g i n a
FIGURA 56 - PANFLETO DE AUTORIA DO MUSEU SPORTING.