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"Outra terra dentro da nossa terra": a formação de um sujeito político em Amilcar Cabral

Abstract

Esta dissertação tem como objecto de estudo a formação de um sujeito político no discurso de Amílcar Cabral. Como ferramenta teórica, a categoria de «sujeito político» permite pensar a gestação de abstracções colectivas, tomando os seus imaginários como artefactos históricos. O exercício a que nos propomos aqui é o de mapear os processos discursivos que, em Amílcar Cabral, convergem para a criação do «povo da Guiné e Cabo Verde», dotando-o de um corpo e de um sentido. No cruzamento entre uma história política das ideias e uma história dos conceitos «cabralianos», tentamos compreender a relação de reciprocidade protagonizado por «projecto político» e «sujeito político», condensada nos contornos que o «povo da Guiné e Cabo Verde» assume.

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"Outra terra dentro da nossa terra": a formação de um sujeito político em Amilcar Cabral

Author: Lucas, Rita Narra
Year: 2020
Source: https://run.unl.pt/bitstream/10362/93639/1/Outra%20Terra%20Dentro%20da%20Nossa%20Terra-convertido%20%281%29.pdf
“Ou a Te a Den o da Nossa Te a”:
A Fo mação de um Sujei o Polí ico em Amílca Cab al
Ri a Na a Lucas
Disse ação de Mes ado em His ó ia Con empo ânea
No emb o de 2019
Disse ação ap esen ada pa a cump imen o dos equisi os necessá ios à ob enção do
g au de Mes e em His ó ia Con empo ânea, ealizada sob a o ien ação cien í ica de
José Manuel Viegas Ne es
*
.
*
Ve são co igida e melho ada após De esa Pública a 9 de Janei o de 2020. O Jú i, compos o po Ped o
Ai es Oli ei a (P esiden e), Manuela Ribei o Sanches (A guen e), Miguel Ca dina (A guen e) e José
Ne es (O ien ado ) a ibuiu a classi icação inal de 18 alo es po maio ia.
pa a a minha mãe,
a esã de mundos e as ilhos
Ag adecimen os
A p á ica his o iog á ica só az sen ido se o colec i a – e a ida em que se
p a ica a his o iog a ia, mais ainda – mas a esc i a, pelo menos pa a mim, é um
exe cício soli á io. Os meus ag adecimen os são di igidos a quem me pe mi e que es a
seja a única es e a onde me mo o menos acompanhada.
Em p imei o luga , ag adece ao p ojec o “Amílca Cab al, da His ó ia Polí ica
às Polí icas da Memó ia”, do qual ui e sou bolsei a. A p imei a bolsa que ecebi no
âmbi o des e p ojec o pe mi iu-me desen ol e , du an e um ano, uma pesquisa com
o al au onomia. No meio da p odu i idade e dos algo i mos que cada ez mais egem a
academia, há poucos p ojec os como es e. As alhas des a disse ação são
exclusi amen e minhas, mas os mé i os são pa ilhados e a minha a ia não é
segu amen e a maio .
Mas um p ojec o, longe de se uma en idade e é ea, é ei o de pessoas e o am
elas que o o na am um espaço de pa ilha, es ímulo e c iação conjun a. Nas euniões
mensais onde nos eunimos ao longo dos úl imos dois anos, i e o p i ilégio de discu i
o abalho de in es igado es e in es igado as alen osas, que em mui o me ab i am e
dila a am ho izon es de pesquisa, e que i e am a gene osidade de discu i o meu. O
p ocesso de ma u ação des a disse ação é indissociá el des e espaço de encon o, dos
comen á ios asse i os do Ví o , da Leono , da Ca a ina e da Inês; o meu mui o
ob igada. E do Rui, esponsá el do p ojec o, que me ece uma pala a de ap eço
pa icula : mesmo chamando-lhe ‘pa ão’ ezes demais, encon ou semp e empo e
in e esse pa a le os á ios ascunhos des a ese. Toda a minha g a idão, Rui!
Ag adece aos meus dois o ien ado es, José Ne es e Luís T indade.
O Luís T indade, na imensa gene osidade que lhe adi inha a já quando apenas
conhecia o seu abalho, acedeu a co-o ien a es a disse ação. Mesmo em ânsi o
pe manen e e com odos os abalhos que em a ca go, o Luís e e semp e empo pa a
comen a as linhas p ecá ias que lhe ia en iando, equilib ando de uma manei a ímpa a
asse i idade in elec ual das suas c í icas com pala as de enco ajamen o. Es ou-lhe
p o undamen e g a a.
E o José Ne es, o ien ado des a ese. Todos azemos o exe cício de compo
uma c onologia pa a aze sen ido da nossa expe iência: na minha, há um an es e um
depois das aulas de eo ia da his ó ia do Zé. De o-lhe ão mais do que cabe aqui, que
di ei apenas que is o sem ele não inha g ande piada.
Ag adece ambém:
À Joana, a ou a me ade des e caminho cshniano.
À Joana e à Elisa, o meu bas ião de sul a no e.
Ao Miguel, que me le a a aos Caná ios quando não podia mais e a ese à
en e.
À Alice, po odas as ezes que me en ou desencaminha da clausu a
académica.
À Ana Adema e aos nossos In an es.
À Madalena, à Rebeca, à Te esa, ao Rica do e ao Ped o, po uma amizade que só
é inócua de nome.
Ao Guilhe me, po pa ilha uma pa ede comigo e o es o.
À Ri a, que me mos a desde que somos p é-adolescen es que as ilhas únicas
podem e i mãs.
Ao Gil, companhei o de ca ei a na licencia u a e de odas as ou as ho as.
À Ma alda, po se con undi com o 121.
Ao Zé, a minha mu alha d’aço.
À Inês, po con inua mos em cima daquela a ca.
E ag adece sob e udo:
À Nina, companhei a de noi adas de abalho desde o empo dos exames
nacionais.
Aos meus a ôs, Eusébia, Inês e An ónio, o jados num Alen ejo onde a ida
acon ecia aos i mos do sol, cuja memó ia e p esença ensinam quo idianamen e à ne a
que a uni e sidade não é a escola mais impo an e.
À minha mãe e ao meu pai, Inês e Zé Cus ódio, p incípio dis o udo, meus
companhei os incansá eis. Ap endo com eles quo idianamen e que o apoio e o amo só
podem se incondicionais.

Resumo
“Ou a Te a Den o da Nossa Te a”: A Fo mação de um Sujei o Polí ico em
Amílca Cab al
Ri a Na a Lucas
PALAVRAS-CHAVE: sujei o polí ico, an i-colonialismo, nação, mode nidade, his ó ia
polí ica das ideias, his ó ia concep ual
Es a disse ação em como objec o de es udo a o mação de um sujei o polí ico
no discu so de Amílca Cab al. Como e amen a eó ica, a ca ego ia de «sujei o
polí ico» pe mi e pensa a ges ação de abs acções colec i as, omando os seus
imaginá ios como a e ac os his ó icos. O exe cício a que nos p opomos aqui é o de
mapea os p ocessos discu si os que, em Amílca Cab al, con e gem pa a a c iação do
«po o da Guiné e Cabo Ve de», do ando-o de um co po e de um sen ido. No
c uzamen o en e uma his ó ia polí ica das ideias e uma his ó ia dos concei os
«cab alianos», en amos comp eende a elação de ecip ocidade p o agonizado po
«p ojec o polí ico» e «sujei o polí ico», condensada nos con o nos que o «po o da
Guiné e Cabo Ve de» assume.
Abs ac
“Ano he Land Inside Ou Land”: The Fo ma ion o a Poli ical S udy in Amilca
Cab al
Ri a Na a Lucas
This disse a ion akes as i s objec o s udy he o ma ion o a poli ical subjec ,
in Amilca Cab al’s discou se. As a heo e ical ool, he ca ego y o «poli ical subjec »
allows us o hink abou he making o «collec i e abs ac ions», aking hei
imagina ies as his o ical a i ac s. The ollowing exe cise consis s on mapping he
discu si e p ocesses ha , in Amílca Cab al, con e ges o c ea ing he «people o
Guinea and Cape Ve de», endowing i wi h a body and a di ec ion. In he in e sec ion o
a poli ical his o y o ideas and a his o y o he «cab alian» concep s, we a emp o
highligh he ela ion o ecip oci y ha «poli ical p ojec » and «poli ical subjec »
ea u e, epi omized in he con ou s ha o m he «people o Guinea and Cape Ve de».
KEYWORDS: poli ical subjec , an i-colonialism, na ion, mode ni y, poli ical his o y o
ideas, concep ual his o y
Índice
In odução ......................................................................................................................... 1
Capí ulo I: Coo denadas pa a um i ine á io ..................................................................... 6
1.1 - Sujei os Polí icos .................................................................................................. 6
1.2 - Si ua His o iog á ico: A eme gência da «imaginação», do «discu so» e dos
«concei os» como ca ego ias analí icas e a ques ão da «subal e nidade» .................. 14
1.3 - O discu so de Amílca Cab al como objec o de es udo...................................... 19
1.4 - No as sob e a es u u a ....................................................................................... 24
Capí ulo II: Os p ocessos cen ípe os na o mação de um sujei o polí ico em Amílca
Cab al ............................................................................................................................. 30
2.1 - Po o .................................................................................................................... 31
2.2 - An i-Colonial ...................................................................................................... 37
2.2.1 – Dignidade .................................................................................................... 41
2.2.2 - Dico omia au óc one/es angei o ................................................................. 46
2.3 - Nacional .............................................................................................................. 48
2.3.1 – Dissonâncias ................................................................................................ 51
2.3.2 – Ausência ...................................................................................................... 55
2.3.3 - A nação como um azio denso .................................................................... 57
2.4 - Cul u al ............................................................................................................... 63
2.4.1 - Classe na cons elação cab aliana ................................................................. 66
2.4.2 - A cul u a, um p oblema de classe ................................................................ 70
2.5 - Ins i uição de uma «comunidade de si uação e des ino» .................................... 75
Capí ulo III: Os p ocessos cen í ugos na o mação de um sujei o polí ico em Amílca
Cab al ............................................................................................................................. 80
3.1 - A inidades e escalas: apon amen os sob e a dila ação do comum ..................... 82
3.1.1 - Depois de 1945: a ins i uição do An i-Colonialismo como campo polí ico
au ónomo. ................................................................................................................ 85
3.1.2 - Os «Condenados da Te a» .......................................................................... 88
3.2 - Viagem da Teo ia ............................................................................................... 92
3.4.1 - Uma e lexão a mui as mãos ........................................................................ 93
3.3 - Iluminismo e An i-Colonialismo ........................................................................ 97
3.3.1 - Os «di ei os humanos undamen ais» como base epis emológica ............. 100
3.3.2 - O «p og esso» no imaginá io an i-colonial................................................ 104
3.4 - Ma xismo e An i-Colonialismo ........................................................................ 110
Conclusão ..................................................................................................................... 118
Fon es e Bibliog a ia .................................................................................................... 120
Anexos .......................................................................................................................... 127
7
a iculação en e di e en es enómenos no espaço e no empo, que nos ajudam a pensa
os nossos objec os de es udo pa icula es.
O engenho do comum é, no nosso en ende , uma des as ques ões, na medida em
que podemos adsc e e a ges ação da «a inidade»
17
- ou o seu enigma – a di e en es
c onologias e la i udes. O abalho que desen ol emos aqui, o iginado a pa i da
ques ão como se az um nós?, insc e e-se nes a es e a, ope ando “no âmbi o de uma
«on ologia» do polí ico (…) como modo undamen al do «se em conjun o» (Sa e) dos
homens, como dimensão eminen e da «condição humana» (A end )”
18
. Na sua
qualidade de agmen o, es a in es igação p e ende se um con ibu o pa a o es udo da
cons i uição des es «comuns», a pa i do enquad amen o que a ca ego ia de sujei o
polí ico az da ques ão.
Começa po desdob á-la numa sé ie de ou as indagações: o que é uma
«a inidade polí ica»? Que p ocessos con e gem, e que p ocessos conco em, pa a o seu
desen ol imen o? A a és de que mecanismos se sus en a e se ep oduz? O que
p opulsiona as suas me amo oses? De onde ad ém o seu pode de in e pelação? Em
suma, e pa a in oca o deba e mais as o do qual pa icipa incon o na elmen e, “how
[do] people pu hei hough s oge he ”
19
?.
Enquan o o ma de coloca a ques ão da a inidade, a noção de sujei o polí ico é-
nos pa icula men e ú il pa a pensa con igu ações onde a a inidade su ge co po izada
numa abs acção colec i a; is o é, onde eme ge sob a o ma de uma igu a una, como é
o caso do «po o». O pa adoxo que encon amos na génese de enómenos colec i os
des e ipo es á condensado na p óp ia exp essão que consubs ancia a ca ego ia: o mada
po e mos singula es, «sujei o» e «polí ico», ela eme e pa a uma concepção de polí ica
eminen emen e plu al, e do mesmo modo que enómenos como o «po o» não são
ap eensí eis pela me a soma das suas pa es, ambém a exp essão «sujei o polí ico» só
17
Na senda de F ede ick Coope , op amos po usa «a inidade» ao in és de e mos como «iden idade»,
dado que se oda a o ma de iden idade é uma o ma de a inidade, nem oda a o ma de a inidade
desemboca necessa iamen e numa o ma de iden idade: “This con adic o y [o iden i y] usage lea es us
powe less o examine wha schola s mos need o unde s and and explain: why some a ini ies in some
con ex s gi e ise o g oups wi h a ha d sense o uniqueness and an agonism o o he g oups, while in
o he ins ances people ope a e ia deg ees o a ini y and connec ion, li e wi h shades o g ey a he han
whi e and black, and o m lexible ne wo ks a he han bounded g oups.” F ede ic Coope , Colonialism
in Ques ion - Theo y, Knowledge, His o y (Lond es: Uni e si y P ess, 2005), 9;
18
José Gomes And é, B uno Peixe Dias e José Manuel San os, “In odução”, in Teo ias Polí icas
Con empo âneas, o g. José Gomes And é, B uno Peixe Dias e José Manuel San os (Lisboa: Sis ema
Sola – Documen a, 2015), 6;
19
Coope , Colonialism in Ques ion, 11;

8
pode se en endida à luz da dinâmica colec i a que os seus e mos p o agonizam
20
.
P opondo pensa um enómeno colec i o des e ipo como um “uno que é múl iplo”
21
, a
ónica é assim colocada nos ânsi os que possibili am a eme gência de uma abs acção
colec i a en e «mul iplicidade» e «uno».
É [a unidade que nos in e essa conside a no nosso abalho], na medida em
que nós que emos ans o ma um conjun o di e so de pessoas, num conjun o bem
de inido, buscando um caminho. E não é, po que aqui não podemos esquece que
den o desse conjun o há elemen os di e sos, pelo con á io, o sen ido da unidade que
emos no nosso pa ido é o seguin e: qualque que sejam as di e enças que exis em, é
p eciso se um só, em conjun o, pa a ealiza um dado objec i o (…) Unidade é no
sen ido dinâmico, que dize de mo imen o.
22
Na busca pelas suas o ças p opulso as, a discussão em o no da na u eza des as
a inidades opõe com equência os einos da «agência» e da «imanência», e idenciado
di e en es p o eniências epis emológicas. No en an o, es a é uma dico omia que se
e ela edu o a pa a comp eende os discu sos em o no da a inidade, na medida em
que, não a as ezes, «acção humana» e «essência» não são pe cepcionadas como
mu uamen e exclusi as, azendo concessões de lado a lado – o que são as «leis da
his ó ia» se não a ei icação da his ó ia a um pon o em que ela se o na animada ou
alguns sujei os polí icos se não anscendências à escala humana, ha e á algum
enunciado “essencialis a” que não ese e algum, ainda que mui o pouco, li e a bí io
às pessoas que comp eende?
A ca ego ia de sujei o polí ico, ao coloca a ónica no polí ico, eme e pa a a
ma iz his ó ica des es sujei os ou a inidades, is o é, não econhece a in e enção de
qualque de e minação anscenden e na sua ges ação e ep odução (que seja di ina,
20
“To answe his ques ion, “wha ’s a poli ical subjec ?”, we would need o g asp he p ecise meaning o
he wo small wo ds i con ains: poli ical and subjec . Tha ’s he way philosophical analysis, since
Soc a es, would p oceed. Howe e , a leas in his case, he opposi e migh be ue. Hence, ins ead o
asking wha ’s he poli ical and wha ’s he subjec , I will y o g asp om he e y beginning he meaning
o he whole: poli ical subjec .” Da id Ta izzo, “Wha is a Poli ical Subjec ,” 17, Ins i u o de Es udos
C í icos, ol. 1 (2012): disponí el em
h ps://quod.lib.umich.edu/p/pc/12322227.0001.001? iew= ex ; gn=main;
21
P oblemá ica que eme e pa a Paolo Vi no, “Mul idão e P incípio da Indi iduação”, in A Polí ica dos
Mui os: Po o, Classes, Mul idão, o g. B uno Peixe Dias e José Ne es (Lisboa: Tin a-da-China, 2010),
393-405;
22
Amílca Cab al, Alguns P incípios do Pa ido (Lisboa: Sea a No a, 1974), 10;
9
biológica ou his ó ica). Nes e sen ido, ol a-se pa a os seus p ocessos de o mação
« e enos», p ocu ando comp eende as condições his ó icas que possibili a am a sua
eme gência. A impo ância que o concei o de «imaginação» assume nes e quad o,
oda ia, pe mi e enquad a e aze sen ido de con ex os onde es es sujei os polí icos
su gem aos olhos de quem os in eg a como p odu o de um des ino.
Sob e es a negação da anscendência ele a-se uma ideia de «con ingência»,
onde udo é como podia não e sido e onde udo o que não oi podia e -se dado. A
asu a da p é-de e minação dos enunciados a icula-se ambém com a uína da Ve dade
como ex e io idade, como azão e on ade que exis e independen e e em pa alelo às
pe ipécias humanas. A sua simul ânea agmen ação e his o icização le ou, po sua ez,
a uma in e são subs ancial dos e mos da pesquisa. Do a an e, a p á ica his o iog á ica
não p ocu a á mais a e são ce a no seio das di e en es ep esen ações do «Real»,
en ando ao in és comp eende como uma dada « e dade» ganha plausibilidade, como é
o seu campo de e osimilhança con igu ado, a a és de que elemen os. Com
na u alidade, a noção de subjec i idade ganha ele ância analí ica nes e quad o.
Se um sujei o polí ico, como nos diz Da id Ta izzo, é semp e uma o ma de
e dade, as dinâmicas in e subjec i as es ão na génese dos seus p ocessos de o mação,
pe mi indo assim a ins i uição de um espaço comum nas in e secções en e as di e en es
subjec i idades que o compõem – di e en es, não a omizadas
23
. Fo mando,
desen ol ido e animado po um núme o incomensu á el de p ocessos de ecepção,
ap op iação e ep odução, um sujei o polí ico é semp e, e em simul âneo, um pon o de
pa ida e de chegada pa a cada pessoa que comp eende e que nele se insc e e. A análise
de um enómeno colec i o passa en ão, em p imei a ins ância, po omá-lo como um
guião eminen emen e social, do qual é an o p odu o como p odu o , e nesse sen ido
p ocu a desen ol e e amen as e cul i a uma abo dagem que pe mi a ap eendê-lo a
pa i do que nele é negociação e ci culação.
Tal abo dagem, além de p opo no os ângulos e a possibilidade de um ou o ipo
de in eligibilidade pa a os enómenos enunciados, em ambém o mé i o de ques iona
epis emologicamen e o binómio ac i o/passi o que em in o mado noções de polí ico
como a a e de go e na e de di igi – e, po isso, como a a e de aze segui .
Colocando o luxo no luga da dis inção indi idual/colec i o, sabendo nós que o
23
“Nós somos ex e io idade, a in e io idade é cons uída a pa i de uma ex e io idade essencial. Nós
es amos numa elação com o mundo desde que ab imos os olhos.” Edua do Lou enço, A His ó ia é a
Sup ema Ficção – en e is a de José Jo ge Le ia a Edua do Lou enço (Lisboa: Gue a & Paz), 58;
10
p imei o assume quase semp e um ascenden e sob e o segundo, a ca ego ia de sujei o
polí ico p omo e uma ce a democ a ização da p á ica his o iog á ica
24
. No en an o,
az-lhe ambém no os p oblemas concep uais e me odológicos, na necessidade de c ia
ca ego ias e ins umen os que pe mi iam ap eende es es « luxos» na sua in ínseca
mu abilidade.
Uma das possibilidades que a in es igação em explo ado nes e sen ido passa
po coloca a ónica no p ocesso, em de imen o da coisa, onde qualque objec o de
es udo é omado como um «momen o ei icado do p ocesso» e não como um uni e so
em si mesmo, insc e endo-o nas dinâmicas de ci culação coe âneas das quais pa icipa.
O exe cício que en a emos aze com o discu so cab aliano é subsidiá io des a pos u a.
Desde logo, pode ques iona -se a alidade de uma abo dagem que en a
ap eende um enómeno, que enunciamos como ca ego icamen e colec i o, a pa i de
um só luga , do discu so de uma só igu a. É uma c í ica legí ima, que iden i ica um
pe igo que não es amos ce os de e conseguido supe a nes e abalho. Mas pa a en a
não cai na a madilha que ão diligen emen e p ocu ámos e i a , há dois aspec os que
nos pa ecem impo an es e e i .
O p imei o é o âmbi o limi ado da nossa pesquisa, que assumimos: a a-se aqui
de pensa a o mação de um sujei o polí ico no discu so de Amílca Cab al, não de aze
uma his ó ia da o mação des e sujei o polí ico no ge al (que se ia a sua his ó ia). Is o é,
ensaiamos aqui uma análise que se p opõe a mapea a o mação des e sujei o polí ico
num nó especí ico da as a ede que o compõe, obse ando um seu “momen o
ei icado”. Pa a aze um es udo mais amplo p ecisa íamos de empo e de e amen as
que es a in es igação não dispunha, mas, não obs an e, conside amos que pa e da
u ilidade des e abalho passa ambém po pode se um pon o de pa ida desse
exe cício.
O segundo aspec o elaciona-se com as «in e secções» en e di e en es
subjec i idades que acima e e íamos, que se aduz na necessidade do discu so em
o no de um dado sujei o polí ico consegui pe oma iza con inuamen e esses encon os
que o sus en am: pa a se possí el a um mesmo enunciado compo a an as o as com
di e en es p o eniências, ele em g a ado, um pouco à semelhança da noção
24
“ (…) onde a exis ência polí ica dos mui os enquan o mui os oi sup imida do ho izon e da
mode nidade: não só pelos eó icos do Es ado absolu o, mas ambém po Rousseau, pela adição libe al,
pelo p óp io mo imen o socialis a.” Vi no, “Mul idão e P incípio da Indi iduação,” 393;
11
laclauniana
25
de «signi ican e azio», uma espécie de in e ex ualidade. Os múl iplos
p ocessos de ap op iação que o o iginam es ão assim insc i os nos seus con o nos,
mesmo que es es sejam ap esen ados de o ma homogénea, na medida em que a sua
sus en ação e ep odução assen am na capacidade desse guião con inua a compo a os
di e en es signi icados que nele são in es idos – e as ea , desocul a , os i ine á ios
dessa in e ex ualidade o na-se assim uma das p incipais a e as da pesquisa. Validando
es a p emissa, o discu so cab aliano ca ega as ma cas dessa concepção colec i a,
mesmo que a sua in e p e ação seja singula ; se emp eendêssemos a a e a de mapea a
o mação des e «sujei o polí ico» a uma escala maio , ce amen e obse a íamos com
maio po meno esses diálogos a pa i dos quais o «po o da Guiné e Cabo Ve de»
eme giu, as in e secções que lhe de am o igem.
Mas o que sus en a es e encon o? Vol emos ago a a nossa a enção pa a o que
denomina emos como o a ibu o g egá io de um dado sujei o polí ico. Falamos da
ca ac e ís ica (pode se mais do que uma) que, numa dada con igu ação, é in es ida de
uma qualidade g egá ia, do a ibu o sob e o qual se unda um e eno comum – pa a
ci a alguns exemplos, uma língua, a pe ença a um mesmo e i ó io, a pa ilha de uma
mesma condição polí ica.
Pa a mapea os p ocessos de o mação de um sujei o polí ico, é necessá io
pensa na na u eza des es «elemen os g egá ios» que, compo ando uma mul iplicidade
de signi icações em si, azem esidi aqui an o o pode de in e pelação como o
po encial de desag egação de um sujei o polí ico. In es i uma dada ca ac e ís ica de
uma qualidade g egá ia é um ges o polí ico, subsidiá io da sua in eg ação num guião
polí ico que, em pe manen e dispu a com ou os guiões, consegue o ja uma
coincidência. A ag egação em o no de uma ca ac e ís ica, que é assim conside ada
legí ima e necessá ia, ad ém da capacidade demons ada no momen o de aze sen ido
do mundo, azendo da pa ilha dessa ca ac e ís ica – ou, melho , de pe cepções
pa ilhadas sob e essa ca ac e ís ica – o ce ne de uma a inidade polí ica. Is o é, pa a se
in es ido de qualidade g egá ia, um a ibu o não só em que se pe cepcionado como
comum, como em de consegui e idencia -se como ma iz de signi icação.
Na medida em que qualque pessoa eúne na sua ideia de Eu uma mul iplicidade
de ca ac e ís icas, e que um guião polí ico pode edi ica -se sob e qualque uma delas, a
iden i icação de um a ibu o pa icula como eixo é sinónimo de uma p imazia sob e os
25
E nes o Laclau, On Populis Reason (London: Ve so, 2005), 69-71;
12
es an es. Nes e sen ido, um sujei o polí ico não é apenas uma a inidade, é uma
a inidade hie a quizan e. A ins i uição de um sujei o polí ico g anjeia que, no comum
que unda, o elemen o in es ido da qualidade g egá ia secunda ize os es an es. No os
«sujei os polí icos» eme gem quando dispu am i o iosamen e es a axonomia,
conseguindo o usca ca ac e ís icas a é en ão ele an es pa a da cen alidade a ou as;
desa umando e econ igu ando a mul iplicidade.
Toda ia, es a «hie a quização» não se ma e ializa na o ma que isualmen e lhe
es á associada. O que obse amos é que es a secunda ização das ca ac e ís icas não-
g egá ias não esul a an o na sua subal e nização, como as in es e de signi icado em
unção do a ibu o cen al. A dispu a é semp e pelo a anjo des as ca ac e ís icas. O
a ibu o g egá io o na-se assim o eixo signi ican e, p oduzindo uma imagem mais
p óxima da ede, onde uma mul iplicidade de concei os são dispos os e a iculados, do
que da e icalidade. Tendo em con a que o caso de es udo que nos ocupa aqui assume a
o ma de uma igu a una, a de «po o», cons ui emos o seu imaginá io com ecu so à
imagem da cons elação, que eme e mais pa a uma ideia de unidade do que a imagem
de ede, ainda que es a ambém osse uma al e na i a legí ima; e que eme e ambém
pa a o ca ác e imaginado, aqui sinónimo de polí ico, des as a iculações.
Ma e ializando es e quad o eó ico no objec o de es udo des a disse ação,
obse a emos como o «po o da Guiné e Cabo Ve de» é edi icado sob e o elemen o
g egá io do an i-colonialismo, ganhando sus en ação e densidade nas signi icações que
concei os como «dignidade», «nação» ou «cul u a», pa a ci a alguns, ganham em
unção do ângulo an i-colonial. Des e modo, es as ou as ca ac e ís icas o nam-se
ambém campos de dispu a ao se iço do sujei o polí ico, que as in e pela e in eg a,
sendo ambém nes as es e as que a polissemia do elemen o g egá io, que acima
p oblema izá amos, se in ensi ica. A de esa dos di ei os das mulhe es, uma ques ão
impo an e na concep ualização da «libe ação» no discu so de Amílca Cab al e do
PAIGC, pode se aqui omada como exemplo.
Pa a delinea es a cons elação oi p eciso, além de iden i icação dos seus
concei os-cha e, mapea as suas a iculações, analisa o nexo de lógicas que p ocede à
sua composição e a insu la de sen ido; o seu subs a o «ideológico». Em Nie zsche, e
depois em Foucaul , es e nexo de lógicas, que cons i ui a base epis emológica de um
qualque sujei o polí ico, ecebe a designação de egime de e dade, o luga onde “sabe

13
uma coisa é não e de pensa sob e ela”
26
. Se á a a és da adopção da ca ego ia de
egime de e dade que in e pela emos as «backg ound assump ions»
27
que, no discu so
cab aliano, lhe pe mi em p oduzi a i mações que ca ac e iza como sendo da o dem do
ób io, do na u al e do e dadei o.
Como ca ego ia analí ica, o egime de e dade pe mi e-nos pensa es e exe cício
de na u alização e in eg á-lo num con ex o de dispu a in ensa de pode , onde a
au o idade da «Ve dade» é comummen e in ocada pa a an ecipa e « o ça » uma
ealidade; mas ambém o modo como a na a i a «iden i á ia», g upo onde mui os
sujei os polí icos podem se in eg ados, se cons ói sob e uma en a i a de asu a o
ges o p imo dial que es es egimes de e dade ep esen am, de modo a que as suas
na a i as ão “ganhando aquele pe il demons a i o a que as pessoas gos am de
chama a alidade”
28
. Quando o PAIGC ou Amílca Cab al ei e adamen e e e em as
“necessidades”
29
do po o da Guiné e Cabo Ve de sem as especi ica , ou in ocam os
seus “ e dadei os in e esses”
30
, es ão a apoia -se num egime de e dade pa icula que
es a ese aspi ou a iden i ica e p oblema iza ; quando azem equi ale a alência
«nacional», à alência «an i-colonial» e à alência «cul u al» - é nacional, po que an i-
colonial, po que cul u al - ambém.
Em suma, a nossa p opos a é a de, a a és do discu so de Amílca Cab al – na
sua dupla acepção, discu so como na a i a e discu so como supo e da na a i a (os
discu sos que p o e iu) – mapea “ he complex s a egies o cul u al iden i ica ion and
discu si e add ess ha unc ion in he name o he «people» o he «na ion», and make
hem immanen subjec s o a ange o social and li e a y na a i es”
31
, pensando o po o
da Guiné e de Cabo Ve de como um luga de encon o en e Amílca Cab al, o PAIGC
e a pa e das populações da Guiné e de Cabo Ve de que nele se insc e ia.
26
Jacques Ranciè e, As Pala as da His ó ia: Ensaio de Poé ica do Sabe (Lisboa: Unipop, 2014), 9;
27
Exp essão de Sanjay Se h, Subjec Lessons: The Wes e n Educa ion o Colonial India (Du ham: Duke
Uni e si y P ess, 2007), 189;
28
Julio Co áza , Final Do Jogo (Lisboa: Ca alo de Fe o, 2014), 67;
29
“(…) ga an i a sa is ação das necessidades do nosso po o (…)”. Ma ia Isabel Pin o Ven u a, ed.,
Manual Polí ico do PAIGC (Lisboa: Edições Ma ia da Fon e, 1974), 7;
30
Amílca Cab al, “A Re olução A icana”, in Nacionalismo e Cul u a, ed. Xosé Lois Ga cía (San iago
de Compos ela: Edicións Laio en o, 1999),33;[sublinhados nossos];
31
Homi Bhabha, ci ado em Ma ia Benedi a Bas o, A Gue a das Esc i as: Li e a u a, Nação e Teo ia
Pós-Colonial em Moçambique (Lisboa: Venda al, 2006), 63;
14
1.2 - Si ua his o iog á ico: a eme gência da «imaginação», do «discu so» e dos
«concei os» como ca ego ias analí icas e a ques ão da «subal e nidade»
O exe cício que ensaiamos aqui é subsidiá io de um conjun o de con ibu os que,
nas úl imas décadas, ede ini am alguns pa adigmas nas ciências sociais. Sem eles, não
se ia mesmo pensá el. Uns mais ecen es, ou os nem an o, êm em comum o ac o de
conse a em em la ga medida o seu igo analí ico. O mé i o que econhece emos a
alguns au o es singula es de e, oda ia, se lido à luz dos mo imen os mais la os de que
pa icipa am e que conhecemos, não sem p oblemas
32
, como « u ns». Num mo imen o
que se ia ans e sal às ciências sociais, es as « i agens» ece am-se a con undi
on ei as disciplina es, quando in es igações de di e en es disciplinas começa am a
mobiliza con ibu os de ou as á eas pa a os seus ges os analí icos pa icula es. Nes e
p ocesso, oi possibili ada a eme gência ecíp oca de no os objec os de es udo e de
no as abo dagens analí icas pa a os in e pela . Os apelos ei e ados à p á ica da
in e disciplina idade e da ansdisciplina idade, que hoje se o na am quase luga es
comuns no discu so cien í ico, êm aí a sua o igem.
Das ans o mações concep uais que ma ca am a academia nas úl imas décadas,
uma das mais ele an es e á sido a ascensão da imaginação como e amen a analí ica,
em a iculação ín ima com a impo ância c escen e que noções como a de subjec i idade
começa am a ecebe . Dis anciando-se das alências de « also», «ilusó io» e
«dissimulado» que adicionalmen e en o ma am o seu uni e so, a noção de
imaginação o nou-se sinónima do ges o humano de aze sen ido do mundo, passando a
se is a como a o ça mo iz que pe mi e insu la de sen ido os elemen os do mundo
que ap eendemos. Exe cício on ologicamen e p ecá io, dada a ci culação de di e en es
g elhas de comp eensão do mundo, os «imaginá ios» - como p imei o e úl imo
ho izon e de signi icação, luga onde os p essupos os elemen a es da nossa
mundi idência es ão codi icados, pa imen ando a nossa expe iência quo idiana – o am
cons i uídos em objec os de es udo pelas ciências sociais. A p á ica his o iog á ica
ensaiou assim comp eende como se ecem es es imaginá ios em na u alidades, que
p ocessos his ó icos es ão na génese des a pa ilha de ho izon es e da sua capacidade de
localização no mundo. A negociação colec i a incessan e que ins i ui um sujei o
32
“These exp essions imply ha schola s in his o y, cul u al s udies, o he social sciences ake hei
in ellec ual cu es oge he , and anyone who does no is o on a angen o has en e ed a dead end. (…)
Schola s’ openness o new ideas and di ec ions is one hing, aking “ u ns” oge he is ano he .” Coope ,
Colonialism in Ques ion, 5;
15
polí ico, que expusemos acima, p oduz um imaginá io co esponden e, cabendo ao
exe cício his o iog á ico desocul a o seu as o nas suas g andes linhas de o ça.
Es a in lexão semân ica em conhecido uma g ande di e sidade de de ac o es,
ó ãos de uma concepção posi i is a do conhecimen o que in o ma di e en es luga es do
espec o académico (e polí ico). Na ónica que é colocada na imaginação iden i icam a
edução da expe iência humana a uques na a i os, con e gindo na acusação de que
al e ia le ado à diluição de e e ências e ao nosso ime gi na pós-mode nidade
líquida
33
. O ce ne des a c í ica pa ece esidi na acepção de «Real» que a sus en a, que
exige o acompanhamen o de uma ei indicação de absolu o; no as es es pa a hábi os
an igos. Ao con á io do que a i mam, no en an o, a agmen ação do «Real» e o seu
enquad amen o a a és da imaginação não p e ende es azia ou deslegi ima conjun os
de e e ências, mas simplesmen e e idenciá-los como p odu o da nossa «agência»,
como mani es ação da nossa capacidade de aze signi ica a nossa expe iência. Tal não
e i a « ealidade» a essas e e ências, do a é o p ocesso da sua o mação de um ca ác e
epis emológico di e en e, que pode a é su gi como mais legí imo. Nas pala as de um
céleb e di ec o de escola, onde es a p emissa pa ece encon a menos esis ência,
O cou se i ’s happening inside o you head, Ha y, bu why on ea h should
ha mean i is no eal?
34
O p ocesso de ein enção do concei o de imaginação es endeu-se aos seus
desdob amen os semân icos e lexicais, que passa am ambém a in eg a o a senal
analí ico das ciências sociais: noções como as de «imaginá io», «na a i a», «mi o» ou
« icção» - Zizek sen encia ia mesmo que es as no as abo dagens ope a am num es ado
onde “beyond he ic ion o eali y, he e is he eali y o ic ion”
35
– ganha am
dignidade eó ica. Ademais, es as me amo oses de sen ido pe mi i am-nos ambém
ques iona a elação que o conhecimen o mode no ha ia es abelecido com ou as o mas
de aze sen ido do mundo, supe io izando-se a elas. No caso pa icula do «mi o», que
uma acepção posi i is a de ciência social ha ia o nado sinónimo de «a aso» e
33
Exp essão de Zygmun Bauman, em Zygmun Bauman, Mode nidade Líquida (Rio de Janei o: Edi o a
Zaha , 2001);
34
Albus Dumbledo e, em J.K. Rowling, Ha y Po e and he Deadly Hallows (New Yo k: A hu A.
Le ine Books, 2007), 723;
35
Sla oj Zizek, Less Than No hing: Hegel and he Shadow o Dialec ical Ma e ialism (New Yo k: Ve so,
2012) 4;
16
«supe s ição», a no a alência que ecebeu sob a égide da imaginação assemelhou-se a
um esga e, ao descob i em-se ambém imagens mi ológicas no co ação da
acionalidade mode na: p á icas como a de oção à «ciência» ou os monumen os ao
soldado desconhecido se iam, nes e enquad amen o, pa e de um sis ema de c enças
undado sob e a «secula ização do di ino».
Dos au o es que se dedica am ao cul i o do uni e so eó ico da imaginação,
Benedic Ande son é al ez o mais céleb e, emp eendimen o que ixa ia no í ulo da sua
magnus opus – Comunidades Imaginadas. Re lexões Sob e a O igem e a Expansão do
Nacionalismo
36
. Pionei o dos es udos sob e nacionalismo, is o é, no encalço do uni e so
mi ológico da nação, Ande son analisa ia o nacionalismo indonésio como um a e ac o
i o da capacidade que as pessoas êm de se imagina como pa e de um espaço
comum, ainda que ao longo da ida se c uzem apenas como uma ín ima pa e dos
elemen os que in eg am esse espaço.
Foi-se assim al e ando “a elação en e in a-es u u a e supe s u u a e o peso da
dimensão ima e ial da exis ência – a opinião, o gos o, o desejo – [ o aleceu-se] na
de inição es u u al”
37
. O discu so e a na a i a, cuja in e acção simbió ica engend a
imaginá ios, eme gi am assim como objec os de es udo das ciências sociais, em pa alelo
e em a iculação com a impo ância c escen e que e a dada à p oblemá ica dos
concei os, po au o es como Reinha Koselleck (pionei o da his ó ia concep ual) ou
Michel Foucaul ( abalho a queológico do sabe e o desen ol imen o da p á ica
genealógica). Di e en es con ibu os con e gi am assim pa a esba e a ideia de
«au o ia» ou «o iginalidade», e idenciando a concepção in insecamen e social dos
ho izon es em que nos mo emos, e ambém nós ensaiamos aqui um exe cício que se
insc e a “[n]uma his ó ia das ideias em que elas su gem menos como e ei o de um
pensamen o o iginal do que como elemen o cons i uído numa sé ie de elações com
ou os sujei os e objec os”
38
.
P ocu ando a ap eensão c í ica de um imaginá io, ou de um seu agmen o que
não deixa po isso de aspi a à o alidade, a pa i dos discu sos p oduzidos sob e ele
num nó especí ico de uma as a ede, subsc e emos as pala as de F ed ic Jameson
36
Benedic Ande son, Comunidades Imaginadas: Re lexões sob e a O igem e a Expansão do
Nacionalismo (Lisboa: Edições 70, 2012) [sublinhados nossos]. De es o, a exp essão «comunidade
imaginada» conhece ia a pa i da publicação des a ob a um pe cu so au ónomo nas ciências sociais;
37
Luís T indade, O Es anho Caso do Nacionalismo Po uguês. O salaza ismo en e a li e a u a e a
polí ica (Lisboa: Imp ensa de Ciências Sociais, 2008) 17;
38
Ne es, “Ideologia, ciência e po o em Amílca Cab al,” 336;
23
O o ja do «po o da Guiné e Cabo Ve de» oi um p odu o das necessidades e
das escolhas que o con ex o ia di ando e que iam sendo di adas ao con ex o, onde an o a
coe ência dos múl iplos enunciados como as suas con adições, longe de se em alhas
de aciocínio ou a alhos du idosos, “ e eal hei essencial ea u es”
51
: se Fanon
a i ma a que “l’indépendance me au jou des éali és mul iples qui, quelque ois, son
di e gen es e an agonis es”
52
, es e é um diagnós ico que se e ambém às localizações
onde o colonialismo es a a em p ocesso de se expulso.
Des a exposição esul am duas no as.
A p imei a e e e-se ao enquad amen o que Amílca Cab al ecebe á. Ao
oma mos o “cul u al p oduc ion p ocess (…) and no longe he indi idual
mas e piece”
53
como objec o de es udo des a disse ação, o apa a o biog á ico que po
no ma ca ac e iza os es udos cab alianos não se encon a á aqui. O mesmo esul a pa a
as habi uais que elas que odeiam a sua igu a – se e a mais um homem da acção ou da
eo ia (p oblemá ica onde adop amos uma pos u a diagonal, ao oma «acção» e
« eo ia» como mani es ações di e en es de um mesmo p ocesso e não es e as
sepa adas), se o seu an i-colonialismo esul ou mais da expe iência na in ância ou da
passagem pela Casa de Es udan es do Impé io, e assim po dian e.
A segunda no a elaciona-se com a ques ão da descolonização do conhecimen o,
que co e pa alela à p esen e disse ação. Es e é um p oblema que exige mais a enção do
que aquela de que dispomos aqui, pelo que usa emos es e espaço sob e udo pa a eme e
pa a o abalho de quem az da descolonização das ciências sociais um objec o de
es udo
54
e enuncia de manei a sin é ica os aços ge ais des e deba e. Conside a
impo an e a in eg ação de au o es como Aimé Césai e ou Amílca Cab al nos
cu ículos académicos não de e olda -nos a comp eensão de que a p óp ia es u u a
des es cu ículos – assen es na ideia libe al do «indi íduo» e do «cânone», e numa
di isão dema cada en e o «pensa » e o « aze » - é subsidiá ia de um ipo de
conhecimen o pa icula , o conhecimen o mode no, e que essas ma cas ( ambém)
coloniais não desapa ecem com a dispu a do con eúdo que deixa a o ma in ocada, sem
51
Immanuel Walle s ein, “The Ideological Tensions o Capi alism: Uni e salism e sus Racism and
Sexism,” in Race, Na ion and Class - Ambiguous Iden i ies, É ienne Baliba and Immanuel
Walle s ein(London: Ve so, 1991), 29;
52
Fanon, “Les Damnés de la Te e”, 536 ;
53
F ed icJameson, ci ado em T indade, O Es anho Caso do Nacionalismo Po uguês, 18;
54
Veja-se os abalhos de Sanjay Se h, Achille Mbembe ou os que se enquad am no campo dos Es udos
do Subal e no, de uma manei a ge al.

24
a ende a que a o ma em si é já, ou em in insecamen e imbu ido, uma espécie de
con eúdo.
Face a es a p oblemá ica, o nosso con ibu o passou po , ainda que ep oduzindo
em pa e os p essupos os epis emológicos mode nos (escolhemos um au o à medida do
que pode ia imagina -se como um cânone an i-colonial), usa o discu so de Amílca
Cab al pa a e lec i sob e es es mesmos p essupos os epis emológicos e ques ioná-los.
O «descen amen o do sujei o» que in o ma a nossa análise, negando a Amílca Cab al
uma lei u a enquad ada pela noção mode na de indi íduo e omando-o, ao in és, como
uma pla a o ma gi a ó ia pa a a mul iplicidade de dinâmicas que as eámos no seu
discu so, pode se lido a es a luz. A ónica no discu so, no sen ido de “de ol e às
pala as a impo ância que ou os lhe nega am”
55
e de undi as on ei as en e
pensamen o e acção, ambém. Nes a es e a, eja-se como é o p óp io Amílca Cab al
que nos con ida a epensa es e binómio, na sua máxima céleb e “ oda a p á ica
engend a uma eo ia”
56
: na sua es ei a, é possí el ques iona a noção da eo ia clássica e
o pa adigma de e udição em que assen a, p opondo uma ou a lei u a pa a o que, po
no ma, se exclui do eino da eo ia. «P o incializa a Eu opa» e «Desp o incializa
Á ica» não são exe cícios mu uamen e excluden es, de endo, pelo con á io,
condensa -se no mesmo ges o.
1.4 - No as sob e a es u u a
Os es udos sob e p ocessos de subjec i ação polí ica são ainda incipien es, não
cons i uindo p op iamen e um campo au ónomo – dispe sos, alguns des es con ibu os
nem u ilizam mesma a exp essão «subjec i ação polí ica», que é ela i amen e ecen e.
São assim a iadas as p o eniências des es abalhos que, se êm o igem numa dada
disciplina, acabam a não pode se impu ados a nenhuma em exclusi idade. Não
co emos pe igo, conside amos, em a i ma que esse ca ác e ansdisciplina es á
mesmo na génese des e ipo de es udos, sendo ambém essa a si uação des a disse ação:
p ocedendo da his ó ia con empo ânea, di icilmen e pode -lhe-á se ci cunsc i a.
Conc e iza os apelos a uma maio po osidade en e on ei as disciplina es
deixa a pesquisa, oda ia, ó ã de modelos analí icos, dada a hib idez dos seus objec os
55
Ne es, “Ideologia, ciência e po o em Amílca Cab al,” 336;
56
Amílca Cab al, ci ado em Ven u a, Manual Polí ico do PAIGC, 26;
25
de es udo e/ou dos seus quad os concep uais. No que conce ne aos sujei os polí icos em
pa icula , não só as e e ências escasseiam dada a no idade da emá ica (ou pelo menos
da sua o mulação nes es e mos), como as suas ami icações são i ualmen e
inesgo á eis, di icul ando a eme gência de um modelo de pesquisa que possa se
seguido com maio ou meno dis ância, ou mesmo em oposição. De ce a manei a, um
es udo sob e um dado sujei o polí ico con igu a um uni e so em si mesmo, onde a
selecção de ins umen os eó icos e de es u u as o ganiza i as é um exe cício
essencialmen e li e. Pe an e es e cená io, o na-se necessá io cons ui uma g elha
analí ica quase de aiz, indo busca , aqui e ali, e amen as concep uais que
conside emos de possí el u ilidade pa a a pesquisa.
A inexis ência de um modelo p é io é simul aneamen e um obs áculo e uma
i ude: há mais becos sem saída, mas ambém maio au onomia pa a engend a ugas.
T aça o i ine á io des e abalho e elou-se um p ocesso expe imen al, na medida em
que a cons ução de um quad o eó ico e a de inição dos umos da pesquisa se ize am
em pa alelo com a ime são no objec o de es udo, da selecção dos ex os à sua análise
indi idual e de conjun o, do ensaia das suas linhas de a iculação à passagem a
na a i a. Cul i ou-se assim uma dinâmica de ecip ocidade en e o objec o de es udo e
o modelo analí ico des inado a in o má-lo, num exe cício con ínuo – nem p é io, o que
inco e ia no pe igo de o cons ange a p io i, nem pos e io , sob pena da
in eligibilidade do objec o se mu ilada sem as hipó eses suge idas po di e en es
ca ego ias eó icas. Des e modo, se pa a u u os lei o es e lei o as es e p imei o capí ulo
se á um pon o de pa ida, pa a nós ele é undamen almen e um pon o de chegada, dado
que as ilações que en o mam es a exposição só pude am se ap eendidas po comple o
aquando da conclusão dos dois capí ulos que se seguem.
Após ensaia -se di e en es possibilidades de a anjo, a p opos a in e p e a i a
que p e aleceu mime iza c i icamen e a o ma como o discu so cab aliano di ide o
po o da Guiné e de Cabo Ve de en e um «den o» e um « o a». Num es o ço pa a
neu aliza a endência de oma es es espaços como au o-e iden es, o que ei ica ia as
ca ego ias-base do discu so que es e abalho p e ende p oblema iza , mas ambém de
desen ol e uma in e pelação que osse sensí el às di isões que in o mam o
pensamen o cab aliano, as ca ego ias de p ocessos cen ípe os e de p ocessos
cen í ugos eme gi am assim como ho izon e es u u al da pesquisa.
Ainda que Amílca Cab al não conceba es a di isão en e «den o» e « o a» de
manei a es anque – analisa emos como no egime de e dade que desen ol e pa a o seu
26
sujei o polí ico es abelece equi alências en e as suas di e en es mani es ações,
ap esen ando-as como as con inuidades na u ais umas das ou as – en ámos le a mais
além es a lógica, colocando em diálogo a pa icula idade dis in i a do po o da Guiné e
de Cabo Ve de com a de ou os sujei os polí icos an i-coloniais; e, na e idência da
simili ude dos seus mecanismos de cons ução e dos objec i os enunciados, sublinha
como a escala mundializada a que en ão se azia a polí ica in luía de o ma de e minan e
na cons i uição des es sujei os polí icos, do qual o «po o da Guiné e Cabo Ve de» é um
exemplo. Is o não é an o dize que o local es a a subo dinado ao in e nacional como
a i ma que o local e a eminen emen e in e nacional e ice- e sa, jogo de escalas a
pa i do qual Amílca Cab al cons uiu a sua ideia de um sujei o polí ico. Es as
dinâmicas pa icipam ainda de uma his ó ia mais ampla, a da elação en e «pa icula »
e «uni e sal» que desde a p oclamação uni e salis a da Re olução F ancesa (e as suas
insu iciências e alhas) em animado o deba e polí ico e ilosó ico, a a essando ambém
a e lexão an i-colonial e moldando os sujei os polí icos que eme gi am no seu seio;
p oblemá ica que, de es o, não e a desconhecida dos mili an es an i-coloniais, como a
seguin e passagem de Aimé Césai e es emunha: “Je décou ais pa example ce e
ci a ion de Hegel: «Il ne au pas oppose la singula i é à l’uni e sali é», e aussi ô je
m’éc i ais: «Tu as comp is, Leópold, plus nous se ons nèg es, plus nous se ons
uni e sels»”.
57
Os «p ocessos cen ípe os» a a ão assim de mapea a cons i uição des e
«den o», os mecanismos ao se iço da delimi ação de um nós, co ejando-o com a
conjun u a mundial do qual é subsidiá io; e os «p ocessos cen í ugos» deb uça -se-ão
sob e o «lado de o a», o modo como es e nós se esp aia po di e en es escalas a é
desemboca na «humanidade», po um lado, e o modo como o «po o da Guiné e de
Cabo Ve de» pode se in eg ado numa his ó ia polí ica das ideias mais ampla, que
ul apassa em la ga medida o âmbi o do an i-colonialismo. Valemo-nos da sime ia
pa cial dos e mos, cen ípe os e cen í ugos, pa a pensa os p ocessos que
comp eendem como pa e de um mesmo mo imen o – eme endo pa a a ensão
pa icula /uni e sal, na génese de qualque exp essão «iden i á ia» - sem que um
an eceda o ou o, ou a ele se sob eponha. Consequen emen e, o cen o pa a que ambas
eme em o na-se esqui o, ao só exis i concep ualmen e em co elação com o
mo imen o desc i o po es es p ocessos. Es a imagem ilus a o en endimen o que emos
57
Aimé Césai e, ci ado em Bouamama, Figu es de la Ré olu ion A icaine, 83;
27
de sujei o polí ico, incessan emen e em mo imen o e o jado no luxo. Con a iando a
disposição que eles encon am na na a i a que ins i ui o sujei o polí ico cab aliano,
onde é desc i a uma o a «de den o pa a o a», e ques ionando a es abilidade
«geog á ica» que lhes é adsc i a, p e endemos e idencia a elação simbió ica que
«den o» e « o a» es abelecem, dialéc ica o mada po duas pa es que só exis em em
in e acção.
Como a i má amos acima, a ensão pa icula /uni e sal a a essa as e lexões de
Cab al, e o «po o» que ganha co po nos seus esc i os pode se lido como um es o ço de
ha monização dessas «duas» dimensões – e, sob e udo, das ensões ge adas no seu
encon o, pela en a i a do seu equilíb io. O modo como a dimensão nacional do po o
da Guiné e de Cabo Ve de é concebida ilus a asse i amen e es e ca ác e : é pensada
como pa e de um mo imen o que designa emos como nacionalismo in e nacionalis a,
quando ala na Guiné ou em Cabo Ve de, e como in e nacionalismo nacionalismo,
quando ala em Ha ana ou em A gel. Is o é, no jogo de equi alências que se es abelece
en e an i-colonialismo e nacionalismo no Te cei o Mundo, o quad o nacional eme ge
como o meio mais e icaz pa a ealiza aspi ações uni e sais – peculia des echo –
equilib ando in e esse «p óp io» e in e esse «uni e sal». Nas consequências in incadas
des e enunciado encon amos os g andes pa adoxos da cons i uição des es sujei os
polí icos.
Discu si amen e, os imaginá ios di e en es pa a que local e humanidade
eme em – a ónica no «po o» supe io iza o seu in e esse ace aos es an es, a ónica na
«humanidade» ho izon aliza esse in e esse – podem se ha monizados, açando um
nexo de lógicas ans e sal às á ias escalas de pe ença. Toda ia, a di iculdade na sua
ma e ialização e a exis ência de ensões no decu so desse p ocesso é-nos suge ida pelo
p óp io Cab al:
Pa a quê? Pa a se i o po o da Guiné e de Cabo Ve de, cama adas. Nós não
ínhamos a mania de se i o po o de Angola, embo a nós, na nossa consciência de
homens, an o azia pa a nós se i em Angola, como se i em Moçambique, como
se i na Guiné ou Cabo Ve de.
58
58
Cab al, Análise de Alguns Tipos de Resis ência, 26;
28
Do im da misé ia à a e nidade sem on ei as, da des uição do colonialismo à
paz mundial, o po o da Guiné e de Cabo Ve de insc e e-se assim num mo imen o
comum ao Te cei o Mundo, con aindo e expandindo os seus con o nos de o ma
incessan e, numa con igu ação onde o elogio do ca ác e dis in i o da pa icula idade
coexis e com a in eg ação num «uni e sal» - em suma, econ igu ando-se em
pe manência. A conc e ização das me as uni e sais é adsc i a a uma omada de
consciência local, sendo que es a omada de consciência local é po seu u no a omada
de consciência da sua uni e salidade; «pa icula » e «uni e sal» condensam-se no
mesmo ges o. Cada um az a sua pa e.
Assim, mesmo nos momen os em que Amílca Cab al jus i ica as posições
in e nacionais do PAIGC como se os posicionamen os in e nos ossem p ojec ados no
ex e io , edimensionados e adap ados, sal agua da-se de e en uais c í icas de
supe io ização do in e esse do po o da Guiné e de Cabo Ve de, po que de ende os
in e esses do po o da Guiné e de Cabo Ve de é de ende os in e esses uni e sais:
Nós es amos a se i a humanidade, cama adas, es amos a se i o nosso po o,
a nossa e a, a Á ica, a humanidade. Es a é a nossa esponsabilidade ao da i os,
azendo gue a na nossa e a, pa a libe a o nosso po o.
59
Como emos, e como e emos, o ca ác e caleidoscópico do po o da Guiné e
Cabo Ve de pa imen a o discu so cab aliano. No egime de e dade que Amílca
Cab al lhe a á co esponde , es e jogo de escalas é mesmo o undamen o da sua
cons i uição. En e a iden idade nacional e a pe ença mundializan e (e odas as escalas
de a inidade que medeiam es es dois pólos), o sujei o polí ico cab aliano é como um
pêndulo que ai assimilando e condensando escalas, um “uno que é múl iplo” po que
an o é guineense e cabo- e diano como a icano, an i-colonial, an i-impe ialis a,
e cei o-mundis a e uni e sal. Ou melho , sendo um uno que é múl iplo po que es as
á ias alências, mais do que coexis i em, são pensadas como as consequências
na u ais umas das ou as. Se quiséssemos ilus a es a dinâmica com ecu so a uma
ó mula udimen a , o po o da Guiné e de Cabo Ve de é [in oduzi uma das alências],
po que [in oduzi as es an es]. Conc e izando-a numa das mui as combinações
59
Cab al, Análise de Alguns Tipos de Resis ência, 121;

29
possí eis: o po o da Guiné e de Cabo Ve de é e cei o-mundis a, po que guineense e
cabo- e diano, an i-colonial, an i-impe ialis a, a icano e uni e sal.
Num es o ço po o na a nossa análise ão equidis an e da c edulidade como do
cep icismo, p ocu ámos não oma es es imaginá ios nem como p odu os de um
idealismo desin e essado - que não se deixa molda pelos a anjos polí ico-diplomá icos
ou necessidade de cap a apoios e ecu sos – nem como a e ac os de um p agma ismo
implacá el – que, pa a cap a apoios e ecu sos, se molda ia exclusi amen e em unção
desse ho izon e.
Es as são as coo denadas pa a comp eende os dois capí ulos que se seguem e o
i ine á io que, no conjun o dos ês capí ulos, p ocu ámos aqui aça .
30
Capí ulo II: Os p ocessos cen ípe os na o mação de um sujei o polí ico em
Amílca Cab al
Nós sabemos quem somos.
60
Que dize , a nossa ealidade, pa a nós, es á no cen o duma ealidade
complexa, po que é a que mais nos in e essa.
61
Seguindo a es u u a p opos a, es e capí ulo deb uça -se-á sob e os p ocessos de
subjec i ação polí ica que, nos esc i os de Amílca Cab al, con e gem pa a a c iação de
uma especi icidade – po isso designados como «cen ípe os», aqueles que p ocu am o
cen o
62
. No encalço do imaginá io polí ico cab aliano, do qual o sujei o polí ico em que
se insc e e é subsidiá io, p ocu a emos mapea as p emissas e as dinâmicas que
delimi am e subs anciam es e «nós». Nes a que ambém é uma lu a de ep esen ações,
analisa -se-á aqui como a ges ação – e a ges ão – de a inidades é simul aneamen e
condição e p odu o de um p ojec o polí ico, in e pelação do social que aglu ina con ex o
e on ade.
A p imei a epíg a e in odu ó ia des e capí ulo – “Nós sabemos quem somos” –
pode cons i ui -se, nes e sen ido, como um seu p og ama de pesquisa, con apondo ao
ca ác e lacónico da enunciação o conjun o de in e ogações que nos é po ela susci ado:
que e quem comp eende es e «nós»; que o ma oma esse «nós»; como e em que es e as
é ma e ializado o «somos»; qual a ex ensão do «sabemos».
A cons elação que ap eendemos no discu so cab aliano oma a noção de «po o»
como base – aqui, o sujei o polí ico que esboçámos concep ualmen e no úl imo capí ulo
ecebe o nome de po o da Guiné e Cabo Ve de. G a i am em seu o no uma
mul iplicidade de concei os que, endo o sujei o de enunciação como ma iz de
signi icação, animam e densi icam o que se en ende po es e «po o», con e gindo pa a
a cons ução do seu imaginá io – em suma, insu lando-o de sen ido. São, se quise mos,
as suas coo denadas. Elegemos como pila es cen ípe os do po o da Guiné e de Cabo
Ve de ês concei os-cha e, além do de «po o» em si: as suas alências 1) an i-colonial,
60
Cab al, Análise de Alguns Tipos de Resis ência, 109;
61
Cab al, Alguns P incípios do Pa ido, 46;
62
Dicioná io P ibe am, s. ., “cen ípe o,” consul ado a 9 de No emb o, 2019,
h ps://diciona io.p ibe am.o g/cen %C3%ADpe o;
31
2) nacional e 3) cul u al. Es a selecção obedeceu a dois c i é ios, o p imei o eme endo
pa a a ele ância polí ica que assumem no imaginá io cab alino e o segundo pa a a
ab angência analí ica que possibili am enquan o pla a o mas de acomodação
concep ual, is o é, a capacidade que es as ês ca ego ias demons a am no momen o de
o ganiza e a icula , com um mínimo de coe ência, a p o usão de concei os que
pon uam o discu so de Cab al (po exemplo, e emos como a eição an i-colonial
pe mi e in eg a no seu seio concei os como o de «unidade», «unidade a icana»,
«dignidade», «au óc one» e «es angei o»).
À semelhança de ou os sujei os polí icos o iundos da subal e nidade colonial, o
ges o p imo dial que ins i ui o po o da Guiné e Cabo Ve de é a c iação – que ambém é
uma desocul ação - de um campo de dispu a, onde o an i-colonialismo eme ge como
denominado -comum de um dos campos. É a pa i da capacidade g egá ia do elemen o
an i-colonial que o PAIGC desen ol e á um p ojec o de sociedade, en ando eclama
pa a ele as mesmas bases de consenso.
O co po e o sen ido de que o po o da Guiné e Cabo Ve de se á do ado
codi icam o p ojec o polí ico que dele se eclama como in é p e e, e idenciando a
elação de ecip ocidade que «sujei o polí ico» e «p ojec o polí ico» p o agonizam.
Des e modo, podemos, po um lado, as ea o conjun o de ope ações ideológicas que
in es em es e po o de sen ido, e obse a , po ou o, que unções polí icas cump e essa
ei indicação de na u eza.
2.1 - Po o
Nós somos um po o, ou pessoas de um po o, que a ce a al u a da his ó ia desse
po o, oma am um ce o umo no seu caminho, c ia am ce os p oblemas no seu
espí i o e na sua ida, o ien a am a sua acção num ce o umo, puse am pe gun as e
busca am espos a pa a essas pe gun as.
63
No hing seems mo e ob ious han who o wha a people is.
64
63
Cab al, Alguns P incípios do Pa ido, 12;
64
Immanuel Walle s ein, “The Cons uc ion o Peoplehood: Racism, Na ionalism, E hnici y,” in Race,
Na ion, Class. Ambiguous Iden i ies, Immanuel Walle s ein and É ienne Baliba (Lond es: Ve so, 1991),
71;
32
Cen o ne álgico do p ojec o polí ico ocalizado pelo PAIGC, o «po o» o na-
se a ped a angula do imaginá io que lhe co esponde, o sujei o de enunciação e
in e pelação em que Amílca Cab al se insc e e. Cab al ala-nos de um po o
umbilicalmen e associado à geog a ia que ocupa – a “nossa e a”
65
– que se esp aia
descon inuamen e no e i ó io, ao engloba dois luga es pe cepcionados como dis in os,
a Guiné e Cabo Ve de; da união polí ica des as duas con igu ações, sus en ada pela
pa ilha da condição de colonizadas e de uma “na u eza”
66
, en endida ambém no
quad o da «unidade a icana»
67
; do papel de e minan e que o PAIGC em nes e
p ocesso, enquan o agen e que “ o ça” es a na u eza e se con e e na ma iz comum da
“di e sidade lag an e” que ca ac e iza a Guiné e Cabo Ve de, onde só na Guiné se
encon am “mais de 20 «po os» ou « aças»”
68
; de um po o que é ão a icano como
cabo- e diano e guineense, caudais a um empo polí icos e «iden i á ios» e que es ão
c is alizados no nome do pa ido que deles se eclama, Pa ido A icano pa a a
Independência da Guiné e de Cabo Ve de; de um «po o» cuja lu a de libe ação an i-
colonial é ambém uma lu a de libe ação nacional
69
; de um “po o que não em
áb icas”
70
; de um po o que não coincide com a sua «população»
71
; de um po o que
em medo, mas que não eme lu a pela sua dignidade
72
; e, ainda, de um po o que lu a
pelo p og esso e pela elicidade
73
.
65
Exp essão su ge 119 ezes, em Alguns P incípios do Pa ido, 149 ezes em Análise de Alguns Tipos de
Resis ência e 32 ezes em Manual Polí ico. PAIGC;
66
“Eu i gen e mo e de ome em Cabo Ve de e i gen e mo e de açoi es na Guiné (com bo e adas,
pon apés, abalho o çado) en endem? Essa é que é a azão da minha e ol a. Mas a azão undamen al
da lu a pela unidade da Guiné e Cabo Ve de, é a p óp ia na u eza da Guiné e Cabo Ve de que nos le a a
isso.” Cab al, Alguns P incípios do Pa ido, 34;
67
“A c iação do nosso Pa ido é, em si mesma, um ac o de a i mação de unidade a icana, pois o Pa ido
en ol ia na lu a, em conjun o e es ei amen e ligados num só co po, sob uma única di ecção, os po os da
Guiné e Cabo Ve de.”Ven u a, Manual Polí ico do PAIGC, 29;
68
“A população indígena da Guiné é de ce ca de 500 000 habi an es, sendo cons i uída po mais de 20
«po os» ou « aças». (…) Di e sidade lag an e, sob e uma mesma base de cul u a e de ci ilizações
a icanas: da co da pele à o ma de habi ação e po oamen o; do idioma à eligião; da indumen á ia ao
egime alimen a ; do ins umen o ag ícola às leis do casamen o; da di isão do abalho à epa ição da
iqueza. Dominando essa a iedade, onde são equen es as in e in luências, o impé io de uma si uação
polí ico-social idên ica e de uma base de ida idên ica – a ag icul u a.” Amílca Cab al, “A Ag icul u a da
Guiné – Algumas No as sob e as suas ca ac e ís icas e p oblemas undamen ais”, Sepa a a da Re is a
«Ag os»XLII, nº4, (1959), 337-339;
69
Ven u a, Manual Polí ico do PAIGC, 21;
70
Cab al, Alguns P incípios do Pa ido, 57;
71
“População é oda a gen e, mas o po o já em que se conside ado com elação à p óp ia his ó ia. Mas é
p eciso de ini bem o que é po o, em cada momen o da ida de uma população. Hoje, na Guiné e em
Cabo Ve de, o po o da Guiné ou po o de Cabo Ve de, pa a nós, é aquela gen e que que co e com os
colonialis as po ugueses. (…)Isso é que é po o, o es o não é da nossa e a nem que enha nascido nela.”
Ci ação de Amílca Cab al em Ven u a, Manual Polí ico do P.A.I.G.C., 32;
72
“Mas ainda mais, medo de cu andei os, medo dos que dei am so es, medo da con e sa dos Mou os,
medo do ‘i an’, medo do ma o escu o, medo dos aios, medo dos elâmpagos. Desg açado do po o que
39
pe cepção de uma expe iência colonial comum sus en a a es e apelo à união do
con inen e a icano, onde as pa icula idades de cada expe iência colonial e am
secunda izadas em unção da semelhança es u u al en e as di e en es po ências
coloniais. Os p oblemas com que cada ex-colónia se depa a a após a independência, ou
que os mo imen os an i-coloniais en en a am nas ainda colónias, e am omados como
ans e salidades e a sua esolução pensada num quad o de conjun o. Os di e en es
ocos de «sepa a ismo é nico» que desa ia am as «unidades nacionais», a í ulo de
exemplo, e am en endidos como as di e en es mani es ações de um p oblema comum, o
das o ças con á ias à «libe ação an i-colonial». Podemos ilus a es a dinâmica com
ecu so ao Manual Polí ico do PAIGC, onde encon amos um capí ulo in ei amen e
dedicado à secessão do Bia a
88
.
O Pa ido A icano pa a a Independência da Guiné e Cabo Ve de, cuja o mação
ha ia sido an ecedida pelo Pa ido A icano da Independência
89
(sem necessidade
seque de especi ica em que «bases locais» es a a sediado), e a um mili an e e o oso
da unidade a icana. O po o da Guiné e Cabo Ve de, ao ealiza a união polí ica de duas
con igu ações dis in as, é mesmo enunciado po Cab al como uma ma e ialização da
unidade a icana, assim pensado como um seu p incípio e con ibu o: “A c iação do
nosso Pa ido é, em si mesma, um ac o de a i mação de unidade a icana, pois o Pa ido
en ol ia na lu a, em conjun o e es ei amen e ligados num só co po, sob uma única
di ecção, os po os da Guiné e Cabo Ve de”
90
. Es a «unidade», cons i uindo-se como
uma qualidade polí ica em qualque escala e po isso semp e p odu o de uma dispu a,
inha de aze -se an o no «po o» como no «con inen e a icano».
Tais se ão, en e ou os, os meios indi ec os do neocolonialismo, com os quais
os impe ialis as encionam p ossegui a pilhagem dos ecu sos a icanos, pa a
88
Pon o 15 do Manual Polí ico, “Qual é a posição do nosso pa ido em elação ao p oblema bia ense?”.
O Bia a oi um es ado secessionis a da Nigé ia, habi ado na sua maio ia pelo po o Ibo, igen e de 30 de
Maio de 1967 a 15 de Janei o de 1970. Ven u a, Manual Polí ico do PAIGC, 57;
89
“Segundo a e são consolidada, a 19 de Se emb o de 1956, domingo à a de, in e indo num cí culo de
amigos con idados pa a o e ei o, Amílca Cab al p opôs a cons i uição de um pa ido polí ico pa a
alcança a independência da Guiné e Cabo Ve de e de ende a união en e os po os guineense e cabo-
e diano, numa pe spec i a ge al da unidade a icana. Se ia o Pa ido A icano da Independência. (…)
Mas a undação do PAIGC (sigla adop ada a pa i de Ou ub o de 1960) em de se is a como um
p ocesso amplo e com an eceden es, onde in e ie am a iadas pe sonalidades, e que só se conclui á pela
a i mação pública e o ganizacional do PAI/PAIGC no decu so de 1960.” An ónio E. Dua e Sil a,
“Guiné-Bissau: a causa do nacionalismo e a undação do PAIGC,” Cade nos de Es udos A icanos, nº
9/10 (2006): 149-150;
90
Ven u a, Manual Polí ico do PAIGC, 29;

40
con inua em a en iquece . Pa a pode em es a segu os de que a sua hegemonia sob e o
con inen e não acaba á, udo a ão pa a comba e o c escen e anseio da unidade no
seio das massas a icanas. Assim como a nossa o ça es á numa polí ica uni icada de
p og esso, ambém a o ça dos impe ialis as es á na nossa desunião. Só pode emos
en en á-los e icazmen e opondo-lhes uma en e uni icada, uma comunidade de
objec i os con inen al.
91
Capí ulo 4, a igo I: Depois da conquis a da independência nacional e com base
na on ade popula li emen e exp essa, lu a pela unidade dos po os a icanos, no
conjun o ou egiões do con inen e, no espei o à libe dade, à dignidade e no di ei o ao
p og esso económico, social e cul u al desses po os.
92
Fazia-se assim a unidade a ní el local pelo mesmo mo i o que se apela a à
unidade do con inen e a icano: uni es o ços pa a supe a o sis ema colonial e, após a
independência, con e gi es o ços pa a ealiza o «p og esso». Unidade no seio de cada
po o a icano pa a aze a unidade en e os di e en es po os a icanos, unidade a icana
que, à semelhança da união da Guiné e Cabo Ve de no discu so cab aliano, al ez de
u u o osse in ocada po ezes como se de um g ande po o a icano se a asse,
nou as e e indo os di e en es po os que a compunham sem que isso pe igasse
concep ualmen e a sua sus en ação.
A i má amos no capí ulo in odu ó io que o po o da Guiné e Cabo Ve de
assen a num jogo de escalas incessan e, econ igu ando-se em unção das á ias
a inidades nas quais pa icipa. Is o não se ma e ializa apenas nas o mulações que
de inem o sujei o polí ico enquan o al, mas ambém nos a ibu os que o sus en am. A
«unidade», se eme ge como uma a e a eminen emen e «nacional», é-o ambém
«a icana»; se é de e minan e pa a a cons ução de um sujei o polí ico nacional, é
ambém uma ma iz-comum eminen emen e ansnacional. Pa icipando de uma
dinâmica que ca ac e iza emos como «nacionalismo in e nacionalis a», que se
mani es a ao ní el do con inen e a icano e pa a lá dele (com a in eg ação da Ásia e da
Amé ica La ina no mesmo espaço simbólico, como e emos adian e), es es sujei os
polí icos concebem-se a um empo como nacionais e ansnacionais, não encon ando
91
Nk umah, A Á ica de e uni -se, 12 [sublinhados nossos];
92
Ven u a, Manual Polí ico do PAIGC, 33;
41
p oblemas na sua sob eposição. Quando Amílca Cab al a i ma, de manei a ão cu iosa
como pa adoxal, que “os a icanos es ão unidos em o no do ideal comum da libe ação
nacional”
93
, omando a «libe ação nacional» como um ideal comum ao conjun o dos
a icanos, é des e ca ác e peculia dos sujei os polí icos an i-coloniais que es á a da
con a.
O ângulo do an i-colonialismo assumia-se assim como uma no a g elha de
lei u a do mundo, en ando com a «unidade» log a ence onde a dispe são e
a omização das esis ências an e io es, assim co ia a na a i a, inham alhado. Mas
po que e a a de o a do colonialismo ão impo an e, ou ão a ac i a a ida no a que os
p ojec os polí icos an i-coloniais p opunham? Es a é ou a manei a de indaga po que
consegue o an i-colonialismo se in es ido des a capacidade g egá ia. P opomos como
espos a a es a ques ão que nos ocupemos ago a do concei o de «dignidade», ou o dos
elemen os que compõem a cons elação cab aliana e que se a icula umbilicalmen e com
a noção de «an i-colonialismo».
2.2.1 – Dignidade
Always bea in mind ha people a e no igh ing o ideas, o he hings in
anyone’s head. They a e igh ing o win ma e ial bene i s, o li e be e and in peace, o
see hei li es go o wa d, o gua an ee he u u e o hei child en.
94
A cen alidade da noção de «an i-colonialismo» eceu-se a pa com a
cen alidade da noção de «dignidade», sob epondo-se concep ualmen e no discu so an i-
colonial. Os desdob amen os da «dignidade» - as epe cussões de o dem “p á ica” que o
im do colonialismo e ia nas condições de ida das populações – su giam como um
pode oso elemen o de mobilização, que po ezes Amílca Cab al supe io iza à o dem
das «ideias», à luz da di isão «ma e ialidade/ideias» que in o ma o seu pensamen o. É a
essa luz que en endemos o exce o cima ansc i o, não an o como uma des alo ização
do an i-colonialismo como ideia mobilizado a – nem podíamos, dada a p imazia que ele
assume em espaços como a o mação de quad os do PAIGC – mas como uma emissão
93
Cab al, “A Guiné e as Ilhas De Cabo Ve de Face ao Colonialismo Po uguês”, 75;
94
Amílca Cab al, ci ado em Idahosa, “Going o he People. Amilca Cab al’s Ma e ialis Theo y and
P ac ice o Cul u e and E hnici y,”29;
42
pa a as al e ações nas condições de ida ge ais que se ab iga am sob os enunciados
an i-coloniais.
Em p imei a ins ância, a dignidade azia a sua apa ição no discu so cab aliano
po meio de uma denúncia: a dignidade e a negada às populações colonizadas po um
sis ema que alice ça a na iolência – es u u al e quo idiana, ísica e simbólica – a sua
capacidade de ep odução e coe ção. A enume ação das di e en es es e as em que es a
con igu ação se ma e ializa a demo a a-se assim no discu so cab aliano, desc e endo
as condições de ida em que as populações da Guiné e de Cabo Ve de e am o çadas a
i e . Tomando exemplos conc e os – como a axa de mo alidade en e a icanos em
1965, onde 84% das mo es e am apon adas a “causas obscu as ou desconhecidas”,
ainda que, como Cab al con unden emen e obse a a, ossem “«causas» (…) que só
ma am a icanos”
95
– ou eco endo a sín eses ge ais, Amílca Cab al azia da denúncia
um ins umen o pode oso ao se iço da c í ica do colonialismo po uguês:
(…) os a icanos êm um ní el de ida in e io ao mínimo i al. A sua si uação é
de se os no seu p óp io país. Depois do á ico de esc a os, a conquis a pelas a mas e
as gue as coloniais, eio a des uição comple a das es u u as económicas e sociais da
sociedade a icana. (…) As e as e os ha e es dos a icanos o am pilhados, os
po ugueses impuse am a « axa de sobe ania» e o na am ob iga ó ia a cul u a de
ce os géne os; ins i uí am o abalho o çado e o ganiza am a depo ação dos
abalhado es a icanos; passa am a con ola comple amen e a ida colec i a e
p i ada do po o, u ilizando o a a pe suasão o a a iolência. (…) Abe a ou
hipoc i amen e, p a ica-se a desc iminação [sic] acial.
96
Es a negação da dignidade não se ci cunsc e ia às dimensões « ísicas» da
exis ência das populações colonizadas, mani es ando-se ambém nos “p econcei os e
desdém sem undamen o em elação ao alo e à capacidade dos po os a icanos”
97
, no
“complexo de in e io idade [que as c ianças a icanas adqui em] ao en a em na escola
95
Amílca Cab al, “A dominação colonial po uguesa” in Ob as Escolhidas de Amílca Cab al - A ma da
Teo ia. Unidade e Lu a, ( ol. 1), coo d. Má io And ade (Lisboa: Sea a No a, 1978),63;
96
Cab al “A dominação colonial po uguesa,” 57;
97
Cab al, “A Guiné e as Ilhas de Cabo Ve de Face ao Colonialismo Po uguês,” 71;
43
p imá ia”, onde “[a]p endem a eme o homem b anco e a e e gonha de se
a icanos”
98
, e em odas as “limi ações impos as pelo acismo”
99
.
Des e modo, o comba e ao colonialismo o na a-se “necessa iamen e uma p o a
não apenas da iden idade mas ainda da dignidade”
100
, onde pa idos como o PAIGC se
dedica am a aça (e a desocul a ) uma a iculação en e as noções de «colonialismo»,
«explo ação» e «injus iça». O luga que o colonialismo ocupa hoje na memó ia
colec i a, onde a é mesmo g upos que cul i am um sen imen o de nos algia em elação
aos impé ios coloniais caídos se inibem, sal o a as excepções, de exal a o sis ema
colonial, de e in o ma -nos sob e a plausibilidade des a associação concep ual, bem
como do seu sucesso. Nes a que é en ão uma “lu a pela dignidade e independência”
101
,
os e mos i manam-se, e a p óp ia ins i uição de uma «nação» su ge como p o a de
capacidade das populações colonizadas de expo em como alsos os enunciados que as
ha iam meno izado. À semelhança do po o da Guiné e Cabo Ve de, e de an os ou os
sujei os an i-coloniais, Nk umah almeja a “c ia uma nação ganesa que ap esen [asse]
aos olhos de odo o mundo um i ecusá el es emunho da capacidade dos a icanos pa a
se go e na em a si p óp ios”
102
.
E o nosso abalho é des ui , na nossa esis ência, udo quan a aça da nossa
gen e cacho os – homens ou mulhe es – pa a deixa mos a ança , c esce , le an a
como as lo es da nossa e a, udo quan o possa aze da nossa gen e, se es humanos
de alo .
103
O concei o de «dignidade» ganha a um no o ôlego no escaldo da segunda
gue a mundial, num mundo que descob ia os campos de concen ação e que con a a
mo os aos milhões nas inchei as da gue a. O di ei o in e nacional oma ia, do a an e,
a noção de «dignidade» como eixo cen al, insc e endo-a no p eâmbulo da Ca a de São
98
Cab al, “A Dominação Colonial Po uguesa,”64;
99
Amílca Cab al, “O papel do es udan e a icano,” in Ob as Escolhidas de Amílca Cab al - A ma da
Teo ia. Unidade e Lu a, ( ol. 1),coo d. Má io And ade (Lisboa: Sea a No a, 1978), 30;
100
Amílca Cab al, “O Papel da Cul u a na Lu a pela Independência,” in Nacionalismo e Cul u a, ed.
Xosé Lois Ga cía (San iago de Compos ela: Edicións Laio en o, 1999), 138 [sublinhados nossos];
101
Cab al, “A Guiné e as Ilhas de Cabo Ve de Face ao Colonialismo Po uguês,” 72;
102
Nk umah, A Á ica de e uni -se, 12;
103
Cab al, Análise de Alguns Tipos de Resis ência, 14;
44
F ancisco: “ ea i ma os di ei os undamen ais do homem, na dignidade e no alo do
se humano”
104
.
A ea i mação da uni e salidade dos “di ei os undamen ais do homem” e os
acon ecimen os ecen es com os quais es abelecia um con as e su giu aos mo imen os
an i-coloniais como uma opo unidade. T açando pa alelos en e as p á icas do ascismo
e as p á icas do colonialismo, ans e sais às di e en es po ências coloniais, os
mo imen os an i-coloniais ap esen a am o im das sis ema colonial como a única
pos u a azoá el nes a no a o dem mundial. Nas pala as de Aimé Césai e,
Lo sque Hi le a oci é é pou la p emiè e ois ses abomina ions su la ace
supé ieu e, les peuples d’Eu ope on pu ê e é onnés. Nous au es, peuples coloniaux,
nous l’a ons é é o peu, ca nous a ions déjà en endu ce langage-là, non pa la
bouche d’Hi le , mais de la bouche de nos maî es, de celles des g ands colonisa eu s
(…)
105
Nes e cená io, se as ins âncias in e nacionais se negassem a condena as
po ências coloniais, ou se ossem ambíguas ou poucos consequen es nessa condenação,
o discu so an i-colonial podia acusá-las de incump imen o, sus en ando-se no p óp io
di ei o in e nacional. Que o palco da ONU se enha o nado decisi o pa a os
mo imen os an i-coloniais ao mesmo empo que a legi imidade dos seus sujei os
polí icos e a alice çada na linguagem dos «di ei os humanos» di icilmen e se á uma
coincidência.
O pa adigma inaugu ado em 1945 pa ece e sido assim ap op iado pela
oposição ao colonialismo, a um g au capaz de ope a ans o mações signi ica i as no
«ho izon e de expec a i as» das populações colonizadas. O im do colonialismo o na a-
se possí el e pensá el
106
. Também aqui, se o im do colonialismo nos su ge em
e ospec i a como ine i á el, es a imagem não de e se impu ada – como an as ezes
é – a um «sen ido da His ó ia», mas à habilidade com que os mili an es an i-coloniais
explo a am es a no a conjun u a. Mesmo em con ex os onde lu as a madas i e am
104
“Ca a das Nações Unidas” disponí el em h ps://nacoesunidas.o g/wp-con en /uploads/2017/11/A-
Ca a-das-Na%C3%A7%C3%B5es-Unidas.pd consul ado a 10 de No emb o, 2019;
105
Aimé Césai e, ci ado em Boumama, Figu es de la Ré olu ion A icaine, 40 ;
106
“La Seconde Gue e mondiale p o oque des boule e semen s qui on ole en écla s de nomb euses
assisses ma é ielles poli iques e idéologiques de la colonisa ion. Une des consequences du con li es de
end e pensable la décolonisa ion.” Bouamama, Figu es de la Ré olu ionA icaine, 39-40 ;

45
luga , como é o caso da Guiné, es es mo imen os log a am ap esen á-las como a única
pos u a azoá el, aquando do esgo amen o das possibilidades de esolução pací ica –
desen ol endo em pa alelo uma na a i a pa a os seus sujei os polí icos onde aze a
up u a com o colonialismo e a o único modo de não en a em up u a com a
«pe sonalidade» de um dado po o.
Nes e pon o, in e essa-nos sob e udo pensa es a pe cepção de ine i abilidade
que começou a pai a sob e o sis ema colonial e seus desdob amen os, in imamen e
associada a uma sensação de in ole á el. Es a pa ece, en e a «desocul ação» e a
«epi ania», a a essa a omada de consciência an i-colonial, ge ando a adesão e a
mobilização de no á eis con ingen es pa a a lu a an i-colonial. A i ma que ela oi
«p oduzida» nes e con ex o não p e ende nega a exis ência de al sensibilidade no seio
das populações colonizadas an e io men e à o mação dos pa idos que alcança iam a
independência (daí e e i mos ambém uma dinâmica de desocul ação), ou sinaliza um
ag a amen o subs ancial das condições de ida à época; es amos, sim, a eme e pa a a
ans o mação subs ancial do «ho izon e de expec a i as» que en ão se e i icou,
possibili ando a con on ação das po ências coloniais a uma escala inaudi a. Sendo o
quad o eó ico des a disse ação in o mado po eses sco ianas, nunca pode íamos
a i ma que a ges ação des e «in ole á el» oi espon ânea – pa a ela e ão ce amen e
in luído os discu sos ocul os que, a ní el in apolí ico, inham a é en ão esboçado o as
de dissidência ao pode colonial. Mas mesmo es e ca ác e sub e âneo é ambém
p odu o de um «ho izon e de expec a i as» cons angido, onde não se iden i ica am
possibilidades de exposição pública des es discu sos.
Re lec i sob e como uma mesma expe iência pode p oduzi di e en es ilações,
consoan e o seu enquad amen o, é um exe cício que de emos em la ga medida a
Koselleck e ao pa que nos legou pa a pensa a ans o mação social, «campo de
expe iência/ho izon e de expec a i as». Nes e pon o, a é mesmo Amílca Cab al, que de
in eg a a adminis ação colonial como engenhei o ag ónomo passou a p oclamado líde
da esis ência con a o colonialismo po uguês na Guiné e em Cabo Ve de, pode se
omado como exemplo. A icula a ans o mação social com a mu abilidade dos
imaginá ios, onde uma mudança polí ica (aqui na dupla acepção, mudança na
conjun u a “ ac ual” e mudança na g elha de lei u a do mundo), a é mais do que uma
mudança “ma e ial” (ainda que umbilicalmen e ligada a essa ma e ialidade), pode
e ela -se de e minan e pa a a modi icação das «es u u as».
46
Colocando a ónica no modo como a expe iência é enquad ada, Koselleck
pensa-a mais à luz da con ingência do que da eleologia, i ando-se pa a os p ocessos de
subjec i ação que con e gem pa a es e ges o. Assim, na génese das me amo oses
polí icas es a ia a capacidade de p oduzi uma al e ação no «ho izon e de expec a i as»,
que po sua ez in lui ia nas ilações e i adas do «campo da expe iência», modi icando
compo amen os subsequen es. Deb uça -nos-emos em po meno sob e os mecanismos
que p opiciam es as al e ações – o enquad amen o az-se a pa i da dispu a de guiões
polí icos – no capí ulo seguin e, mas podemos obse a já aqui es e que é um exe cício
de enquad amen o da expe iência, e não de deci ação da ealidade. Da mesma manei a
que os “e en s o 1933 ha e occu ed once and o all, bu he expe iencies which a e
based upon hem can change o e ime (…) [and] [i]n addi ion, new hopes o
disappoin men s, o new expec a ions, en e hem wi h e ospec i e e ec ”
107
, a
expe iência colonial das populações da Guiné e em Cabo Ve de al e ou-se à luz do no o
«ho izon e de expec a i as» da segunda me ade do século XX. Que su ja como uma
espécie de epi ania - conc e izando a ans o mação do campo da expe iência no seu
sen ido mais li e al – que su ja como uma desocul ação – ha endo uma modi icação
mais ao ní el do ho izon e de expec a i as do que no «campo de expe iência, podendo o
discu so ocul o se o nado público -, “in con incing a pe son o con on a migh y s a e
ha could do un old damage o onesel , one’s amily and one’scommuni y, he sense o
ha ing no o he way mus ha e played a key ole”
108
.
2.2.2 - Dico omia au óc one/es angei o
No nosso caso conc e o, a lu a é o seguin e: os colonialis as po ugueses,
ocupa am a nossa e a, como es angei os e, como ocupan es exe ce am uma o ça
sob e a nossa sociedade, sob e o nosso po o.
109
(…) malg é l’app op ia ion le colon es e oujou s un é ange . Ce ne son pas
les usines, ni les p op ié és, ni le comp e en banque qui ca ac é isen d’abo d la «classe
di igean e» (…)
110
107
Reinha Koselleck, Fu u es Pas : On he Seman ics o His o ical Time (New Yo k: Columbia
Uni e si y P ess, 2004), 262;
108
Ci ado em Odd A ne Wes ad, The Global Cold Wa (Camb idge: Camb idge Uni e si y P ess, 2007),
82;
109
Cab al, Alguns P incípios do Pa ido,17 [sublinhados nossos];
47
A alência an i-colonial do po o da Guiné e Cabo Ve de, se é ins i uída po um
c i é io eminen emen e polí ico, em ambém uma exp essão geog á ica. No discu so
cab aliano, a g elha analí ica que az sen ido do colonialismo é comple ada pela
dico omia au óc one/es angei o, ab indo ou a en e de comba e ao colonialismo
po uguês – à condenação da sua índole colonial, jun a-se a condenação da sua índole
es angei a. Es as duas imagens não são uma e a mesma coisa, obedecendo a nexos de
lógicas di e en es
111
, mas o am inex inca elmen e en elaçadas no «nacionalismo an i-
colonial», con igu ação que oma iam quase odos os mo imen os an i-coloniais.
Explo a emos com maio de alhe os con o nos des a jus aposição, ocupando-nos ago a
das epe cussões que es e binómio au óc one/es angei o em no imaginá io do «po o da
Guiné e Cabo Ve de» e nos seus mecanismos de ag egação.
O espaço da Guiné e Cabo Ve de é assim al o de uma elei u a da his ó ia que, à
semelhança de ou as con igu ações coloniais, sub e e e essigni ica a «geog a ia».
Ap op iando-se de espaços que “só pela acção do colonialismo se encon a[ am] ago a
ocupando um espaço comum delimi ado”
112
, os «na i os» do discu so colonial o nam-
se au óc ones, eclamando esses luga es como seus. Nes e mo imen o, almeja-se que a
a inidade «au óc one» se sob eponha às que a é en ão, sob o jugo do colonialismo, se
inham cons i uído em eixos de pe ença, sob e udo às « ibais». Ganhando um ou o
c i é io g egá io, a igu a do «po o da Guiné e Cabo Ve de» eme ge assim da
in e secção en e as imagens do «au óc one» e do «an i-colonialismo».
Reco dando a di isão en e «po o» e «população», podemos a é a i ma que, à
luz des a dico omia, o po o su ge o mado po «au óc ones» que ade i am à oposição
an i-colonial, ao passo que a população é cons i uída po «au óc ones» que não adop am
essa pos u a. Em e mos «iden i á ios», es a dico omia pa ece oda ia ope a mais num
mo imen o cen ípe o do que cen í ugo. Se encon amos no discu so cab aliano um
es o ço sis emá ico pa a comp ome e odos os ab angidos pela de inição de au óc one
com a oposição ao colonialismo, ele não é co espondido po uma en a i a de
iden i ica a igu a do «es angei o» com a do «colonizado » de manei a absolu a. Pelo
con á io, os « ugas» e os «b ancos» dissiden es do sis ema colonial são elogiados no
110
F an z Fanon, “Les damnés de la e e, F an z Fanon, Oeu es (Pa is : La Décou e e, 2011)
[sublinhados nossos], 455;
111
Ve a igo Lea Ypi, “Wha ’s w ong wi h colonialism,” Philosophy & Public A ai s 41, nº 2, (2013):
158-191;
112
Bas o, A Gue a das Esc i as, 99;
48
seu discu so com equência
113
, pos u a semelhan e à que Cab al adop a na dis inção
diligen e que es abelece en e «go e no po uguês» e «po o po uguês»
114
-
encon ando-se aqui no amen e a p e alência de um c i é io polí ico.
A dico omia au óc one/es angei o, ao in o ma a g elha de acção e e lexão
an i-colonial, o na -se-á de e minan e pa a o imaginá io do po o da Guiné e Cabo
Ve de, ao pa imen a a equi alência que se á es abelecida en e libe ação do
colonialismo e libe ação nacional. É des e modo que o sujei o polí icoan i-colonial se
con e e á ambém num sujei o polí ico nacional, o que o do a á de ca ac e ís icas
especí icas – e de de e minados cons angimen os. À pe gun a ‘quem cabe no po o?’
sucede-se a ques ão ‘pa a onde ai a nação?’, que se á espondida, segundo a nossa
p opos a in e p e a i a, com ecu so a uma sé ie de impu ações que p e endem cla i ica
em que consis e a «libe ação», que do a an e é ão «an i-colonial» como «nacional».
2.3 - Nacional
A nossa lu a é uma lu a de libe ação nacional. Is o que dize que que emos
acaba no nosso país com a dominação es angei a, dominação sob a o ma polí ica e
sob e udo económica.
115
Nk umah ou ia “de um ex emo a ou o de Á ica, homens, mulhe es e c ianças
[a epe i ] as pala as de o dem do nacionalismo a icano”, p odu o de um “ en o de
eno ação que a e a Á ica”
116
. Também Amílca Cab al sen ia esse “indomá el en o
do nacionalismo (…) [que] a e os con inen es”
117
e que pa ecia con igu a um
e dadei o «na ional u n» subal e no. Anos mais a de, em 1979, Sami Amin
113
“Po que nós, con a os colonialis as po ugueses, que emos a é mesmo gen e desse g upo de b ancos,
pa a lu a em ao nosso lado, se eles quise em. Po que en e os b ancos, pode ha e uns que são a a o do
colonialismo e ou os que são an icolonialis as. Se esses se jun a em a nós, é bom, é mais o ça con a os
colonialis as. Aliás ocês sabem que explo amos isso bas an e.” Cab al, Alguns P incípios do Pa ido,
21; “Po exemplo: os ugas ize am-nos mui o mal, mas não podemos conside a ugas odos os b ancos.”
Cab al, Alguns P incípios do Pa ido, 75;
114
“Assim, desde o começo, no quad o da nossa esis ência polí ica, nós deixamos cla o que não lu amos
con a o po o po uguês.”Cab al, Análise a Alguns Tipos de Resis ência, 22;
115
Ven u a, Manual Polí ico do PAIGC, 21-22;
116
Nk umah, A Á ica de e uni -se, 5;
117
Cab al, “A Re olução A icana”, 68;
55
2.3.2 – Ausência
A insc ição da nação na cons elação cab aliana ece-se, cu iosamen e, a pa i de
uma ausência. A sua p esença no imaginá io do «po o da Guiné e Cabo Ve de» ealiza-
se sob e udo a a és do adjec i o «nacional», sem que oda ia a «coisa» - a nação em si
– seja objec o de um es o ço de concep ualização. Uma b e e análise ilológica
co obo a es a a i mação: em Análise de Alguns Tipos de Resis ência e Alguns
P incípios do Pa ido, a «nação» não ecebe qualque nomeação, e no Manual Polí ico
do PAIGC su ge apenas uma ez. O adjec i o «nacional», po sua ez, é nomeado
ca o ze ezes em Análise de Alguns Tipos de Resis ência, qua o ezes em Alguns
P incípios do Pa ido e sessen a e oi o ezes no Manual Polí ico do PAIGC. Co ejando
com a noção de «po o», que a nossa p opos a iden i icou como o g ande sujei o de
in e pelação, es e su ge cen o e qua en a e no e ezes em Análise de Alguns Tipos de
Resis ência, sessen a e cinco em Alguns P incípios do Pa ido e cen o e doze ezes no
Manual Polí ico do PAIGC.
Ci cuns âncias um an o in ulga es, se a en a mos ao ac o do ca ác e nacional
da «lu a de libe ação» se ca ego icamen e a i mado an o po Amílca Cab al como
pelo PAIGC. Na lei u a de conjun o dos seus discu sos, ganhou o ça a suges ão de que
à «nação» se ia ese ada uma unção ins umen al, ese que p opõe uma explicação
pa a a cli agem no núme o de apa ições do subs an i o e do adjec i o: com o con eúdo
da «nação» a se de inido em unção da concep ualização de ou os concei os, que
depois ecebem o epí e o de «nacional», ela não oma ia assim o cen o do discu so
polí ico.
Com e ei o, na ajec ó ia do po o da Guiné e Cabo Ve de, a «nação» pa ece
su gi mais como um es ágio do que um des ino. A ha e um des ino, ele não é an o o
da nação da Guiné e Cabo Ve de como o é do po o da Guiné e Cabo Ve de. Em suma,
o «po o» an ecede «nação», não exis indo uma sob eposição en e os dois concei os, e
pode -lhe-á e en ualmen e sob e i e – em jei o de no a, eco de-se os p ojec os que à
época se aspi a am ealiza , como a «unidade a icana», onde es a possibilidade não é
de odo desp oposi ada.
Es a pe cepção pa icula do signi icado da «nação», omando-a mais como uma
o ma his ó ica delimi ada no empo do que como a ma e ialização de um des ino, es á
codi icada nas imagens que o discu so cab aliano elege pa a in e pela as dinâmicas
nacionais. Amílca Cab al eco e a imagens do uni e so da «c iação», que colocam a

56
ónica na agência humana colec i a, negando à nação o ca ác e imanen e que
comummen e lhe é adsc i o pelos discu sos que a ei indicam (e onde encon amos
assim com maio equência exp essões como «descobe a», « e elação» e suas
sinónimas). À semelhança da unidade, a é po que con e gem e en elaçam-se no mesmo
ges o, a cons ução nacional e a subsidiá ia de uma dinâmica p ocessual, ge ada a pa i
de uma dispu a onde o ca ác e polí ico des es p ocessos é en a izado:
Fazemos [e.g. não «descob imos»] a unidade nacional com um objec i o ce o:
comba e o inimigo, lu a con a o inimigo, mas ambém ao mesmo empo lu a con a
odos os ac o es nega i os do nosso meio.
136
(…) uni , c ia [e.g. não « e ela »] a pouco e pouco a consciência nacional,
po que nós pa imos de um pon o em que não ínhamos uma consciência nacional, em
que an o pela nossa his ó ia como pelo abalho dos ugas, es á amos di ididos em
g upos.
137
Temos que cons ui [e.g. não «p ocu a »] a consciência nacional do nosso
po o, desen ol e cada dia mais a consciência polí ica da nossa população (…)
138
Ou a das eses que podem ajuda a enquad a a ausência da «nação» no discu so
cab aliano elaciona-se com o seu luga de u u o. Após a independência, se á ela o
e eno de consag ação da unidade do po o da Guiné e Cabo Ve de, que pe de á o seu
elemen o g egá io o iginal – o an i-colonialismo deixa á de e ope a i idade num
con ex o onde já não exis e uma po ência colonial a comba e . Sabendo, a pa i da
obse ação da ealidade polí ica de países que inham já supe ado a dominação colonial,
como “l’indépendance me au jou des éali és mul iples qui, quelque ois, son
di e gen es e an agonis es”
139
, eme e a de inição conc e a da nação pa a um ho izon e
que ainda não inha chegado pode se lido como uma en a i a de e i a algumas ensões
no seio des e po o, ainda a b aços com o colonialismo po uguês. Se o an i-
136
Cab al, Análise de Alguns Tipos de Resis ência, 16 [sublinhados nossos];
137
Cab al, Análise de Alguns Tipos de Resis ência, 15-16 [sublinhados nossos];
138
Cab al, Análise de Alguns Tipos de Resis ência, 35 [sublinhados nossos];
139
Fanon, “Les damnés de la e e,” 536;
57
colonialismo ge a a um consenso ala gado en e os «au óc ones», as bases de apoio
pa a um p ojec o de sociedade u u a podiam e ela -se mais exíguas.
Pa ilhamos des a lei u a, desde que não suben enda que essas linhas
p og amá icas de u u o es ão po de ini em la ga medida. Se não encon amos no
discu so cab aliano uma especi icação dos con o nos que a u u a nação assumi á,
Cab al não se coíbe de aze apon amen os sob e o ho izon e pós-colonial. Uma pa e
des es apon amen os es á oda ia – e es e é um dos a gumen os que p ocu amos aqui
demons a – condensada na o ma que o «po o da Guiné e Cabo Ve de» assume nos
seus discu sos, nos aços de pe sonalidade que lhe adsc e e como na u alidades
e iden es e dadas e que ob igam a u u a nação a segui de e minado umo.
Nas p óximas secções en a emos demons a como o co po do po o da Guiné e
Cabo Ve de ence a um caminho ideológico pa icula , do ando de um sen ido a
sociedade que eme gi á dos escomb os do colonialismo. Em pa e, o sucesso des as
ope ações ideológicas esidi á na capacidade de asu a o seu as o polí ico, ensaiando
codi icá-las no egime de e dade do sujei o polí ico cab aliano – onde o «po o» é
po que é – e des e modo azendo eme gi os desígnios nacionais que lhe são impu ados
como impe a i os.
2.3.3 - A nação como um azio denso
A suges ão de que a nação é pensada a pa i de um ângulo ins umen al no
discu so cab aliano pa ece es a in imamen e a iculada com a capacidade que a
«nação» em demons ado, ao longo da época con empo ânea, em se aze passa po
o ma. No escaldo de e oluções e con a con a- e oluções, colonizações e
descolonizações, o imaginá io nacional es endeu-se ao conjun o da humanidade
140
,
o nando-se a pla a o ma de odas as a i mações ca egó icas, su gindo como uma
espécie de base neu a capaz de compo a odos os signi icados que são insc i os no seu
ho izon e.
Expusemos já acima as di iculdades e as apo ias com que a in es igação se
depa a quando cons i ui o enómeno nacional em objec o de es udo, incapaz de o mula
140
“In he wake o e olu ions and coun e - e olu ions, coloniza ions and decoloniza ions, he o m o he
na ion-s a e has been o mally ex ended o he whole o humani y”. É ienne Baliba , “P e ace,” in Race,
Na ion and Class - Ambiguous Iden i ies, É ienne Baliba and Immanuel Walle s ein (London: Ve so,
1991), 5;
58
uma de inição com ab angência analí ica em g au su icien e pa a aba ca a plu alidade
das suas mani es ações. No en an o, o âmbi o des es impasses não es á ci cunsc i o à
in es igação. Pa a alguns mo imen os e igu as an i-coloniais, que iden i icam e
p oblema izam a ins abilidade on ológica da «nação», a ambiguidade do(s) seu(s)
signi icado(s) e a ambém um p oblema polí ico. F an z Fanon e á sido um dos au o es
mais p olí e os nes e sen ido, ocalizando ei e adamen e o eceio do que se pode ia
ab iga po de ás da inde inição nacional. Como que exo ando os mo imen os an i-
coloniais a um exe cício de cla i icação, ques iona ia: “Qu’es -ce que le na ionalisme?
Que me ez- ous de iè e ce mo ? Que con ien ce ocable? L’independance
pou quoi?”
141
.
À medida que as no as independências a da am na esolução de p oblemas
an igos (em nome da qual inham sido ealizadas, na esmagado a maio ia dos casos), a
necessidade de especi ica os guiões nacionais e a sen ida de o ma c escen e. O
espec o do «neocolonialismo», dizia-se, pai a a sob e o Te cei o Mundo, e as eli es
pós-coloniais pa eciam en adas em segui o umo das suas homónimas
la inoame icanas. A he e ogeneidade do an i-colonialismo começa a a e idencia -se – e
a agudiza -se. Escla ece o que “se me e a ás da pala a” nação, is o é, cla i ica em
que consis e a libe ação nacional, começa a assumi a es de u gência pa a o g upo no
seio do campo an i-colonial que deseja a que a sua e olução osse uma Re olução
142
,
de manei a a impedi que a polissemia la a do e mo se isse de achada a no os
mecanismos de pe pe uação de iniquidades an igas.
Podemos si ua F an z Fanon e Amílca Cab al no g upo sup aci ado, ges o que
a compa ação dos seus discu sos ajuda a co obo a , dada a simili ude das emá icas,
das abo dagens e das soluções p esc i as que encon amos neles. Pa a a ques ão que nos
ocupa aqui, a da ap op iação do uni e so nacional po pa e do an i-colonialismo, há
duas passagens que gos a íamos de coloca em diálogo, p opondo a pa i do seu
encon o um i ine á io eó ico pa a in eligi a ges ação do nacionalismo an i-colonial.
Escolhemos es as duas passagens po que, po um lado, nos pe mi em comp eende o
en endimen o que an o Fanon como Cab al azem do nacionalismo ( e elando a lógica
a que obedecem os seus usos) e po que, po ou o, nos su gem como a e ac os desse
141
Fanon, “Les damnés de la e e, 521 ;
142
Pa a aseando Amílca Cab al em Amílca Cab al, “Fundamen os e objec i os da libe ação nacional
em elação com a es u u a social” in Ob as Escolhidas de Amílca Cab al - A ma da Teo ia. Unidade e
Lu a, ( ol. 1), coo d. Má io And ade (Lisboa: Sea a No a, 1978), 200;
59
quad o polí ico sup anacional onde Fanon e Cab al se mo em, endo em con a a
simili ude no á el dos dois exce os (e idenciando os ânsi os polí icos que pe mi iam
ge a , em ci culação, ca ego ias ans e sais a di e en es con ex os locais). Passamos a
ansc e ê-las:
Le colonialisme e ses dé i és ne cons i uen pas à ai di e les ennemis ac uels
de l’A ique. À b è e échéance ce con inen se a libé é. Pou ma pa plus je pénè e les
cul u es e les ce cles poli iques plus la ce i ude s’impose à moi que le g and dange
qui menace l’A ique es l’absence d’idéologie.
143
A de iciência ideológica, pa a não dize a o al al a de ideologia, po pa e dos
mo imen os de libe ação nacional – que em a sua jus i icação na igno ância da
ealidade his ó ica que esses mo imen os p e endem ans o ma – cons i uem uma das
maio es senão a maio aqueza da nossa lu a con a o impe ialismo.
144
Em p imei a ins ância, a en e-se no modo como a coincidência das acusações –
pa a Fanon o g ande pe igo que assola Á ica é a “ausência de ideologia”, pa a Cab al a
maio aqueza da lu a con a o impe ialismo é a “de iciência ideológica” e a “ o al al a
de ideologia” dos mo imen os de libe ação nacional – é in o mada po um p essupos o
epis emológico pa ilhado. Se os mo imen os nacionais podem e “ o ais al as” ou
“ausências” de ideologia é po que o seu ca ác e nacional não é pe cepcionado como
con eúdo ideológico, não ep esen ando a p io i qualque posicionamen o nesse sen ido
– é poli icamen e neu o.
Quase como uma sua consequência, ou a p emissa en elaça-se nes a úl ima:
se an o Fanon como Cab al se mo em em e enos nacionais e ambos desen ol em
c í icas à « al a» de ideologia dos mo imen os de libe ação nacional, é com alguma
segu ança que podemos conclui que desen ol em es o ços pa a os seus mo imen os
não padece em das mesmas aquezas e que é desse luga que alam; assim, o que Fanon
e Cab al implici amen e a i mam é que a nação de e se p eenchida ideologicamen e,
p á ica que cul i am em oposição aos mo imen os que in e pelam nes as acusações.
143
F an z Fanon, ci ado em Bouamama, Figu es de La Ré olu ion A icaine, 158 ;
144
Cab al, “Fundamen os e objec i os da libe ação nacional em elação com a es u u a social,” 202;
60
Podemos a pa i daqui edi ica um conjun o de hipó eses eó icas, que nos
ajudam a comp eende o luga da nação no imaginá io cab aliano em pa icula , e em
pa e no imaginá io an i-colonial de uma manei a mais ge al: a nação su ge assim como
um espaço azio, que de e se p eenchido ideologicamen e, po meio de uma sé ie de
ope ações que denomina emos como impu ações ao ho izon e nacional. Is o é,
p opomos pensa o imaginá io nacional como p odu o de p ocessos que ans igu am
nacionalmen e aquilo que, a é en ão, não o é, po que nada o é à pa ida – eco de-se que
pa a Fanon e Cab al o ca ác e nacional, po si só, não ca ega qualque ipo de
ideologia.
No en an o, é econhecido um pode al a es e epí e o, nacional, que ele pa ece
in es ido de uma espécie de densidade p imo dial, con as ando com a imagem de
« o ma azia» que pa ece in o ma es es enunciados. O ges o de ei e a , com
equência e obs inadamen e, o ca ác e nacional dos seus mo imen os, p o oca de ce a
o ma um desconce o analí ico, na medida em que, segundo as suas lógicas, a «nação»
po si só não é qualque ipo de a i mação.
Pa a in e pela a alência nacional na cons elação cab aliana, suge imos assim
in e pelá-la a pa i da ca ego ia de azio denso. Fo jada a pa i da imagem da « o al
al a de ideologia» e das p emissas polí icas em que se desdob a, a noção de azio denso
pe mi e dialoga com o ca ác e nacional do «po o da Guiné e de Cabo Ve de» a pa i
de uma mul iplicidade de en es – mas ambém usa o caso pa icula que nos ocupa
pa a e lec i sob e as dinâmicas mais ge ais que ca ac e izam o enómeno nacional.
Es e é um exe cício que azemos em pa alelo com o discu so cab aliano: se Cab al oma
esse « azio» como nega i o, ele pe mi e-nos oda ia assinala o momen o que an ecede
a apa ição do ca ác e nacional p eenchido, ins i uindo um espaço onde o as o des as
impu ações pode se econs i uído.
Comp eende o que es á condensado na ca ego ia de « azio denso» exige uma
análise singula dos dois e mos que a cons i uem – azio e denso – mas ambém do
po quê de os e mos eunido numa mesma exp essão, sendo o seu alo au e í el
ambém po nessa lei u a de conjun o.
A imagem de azio é aqui u ilizada pa a in oca um e eno – o e eno da
«nação» - que em sido pe cepcionado, his o icamen e, como passí el de odas as
ap op iações, es aziando-se de manei a a consegui albe gá-las a odas. Já a imagem de
denso eme e pa a o pode de ag egação e mobilização que, ao longo da mode nidade, o
elemen o nacional em pe o ma izado, is o é, pa a a «na u alidade» demons ada em

61
cons i ui -se em «segunda pele». A sua junção, azio denso, des ina-se a o igina um
con as e, a ap eende o desconce o analí ico que ca ac e iza o enómeno nacional:
como pode um « azio» se «denso»?, ques ão onde ecoa ambém a indagação undado a
do abalho de Laclau, como pode um «signi ican e» se « azio»? O pa adoxo aqui
condensado é análogo ao pa adoxo que encon amos na génese do enómeno nacional:
como pode o «nacionalismo» e an as ca as e, ainda assim, cons i ui -se num agen e de
in e pelação ão pode oso? Na sua es ei a, a dissonância des a exp essão de e se
ambém en endida como um con i e pa a ( e)pensa a apa en e neu alidade ideológica
da nação
145
.
Mas in e pela a nação a pa i da ca ego ia de azio denso pe mi e-nos ambém
ques iona a disposição das na a i as nacionalis as, onde o elemen o nacional nunca é
enunciado des e modo, como um espaço azio que oi ocupado. Pelo con á io, as
na a i as nacionalis as ecem-se semp e a pa i de a i mações ca egó icas, em o no da
pe sonalidade da nação e dos seus impe a i os. Is o é, no enquad amen o que p opomos
aqui, a nação nas na a i as nacionalis as su ge semp e já p eenchida, asu ando no seu
discu so o as o des es p ocessos que são polí icos, e po isso, dispu ados, na sua
génese.
O que a ca ego ia de « azio denso» nos pe mi e é ab i um espaço a i icial, di -
se-ia da o dem da eo ia, onde é possí el analisa o momen o que an ecede as
enunciações ca egó icas em o no da «nação» e dos elemen os que ecebem o epí e o
«nacional»; uma espécie de labo a ó io onde as impu ações ope adas no imaginá io
nacional se dão a obse a , onde podemos as ea os p ocessos de ans igu ação
nacional de elemen os que, po si só, não o são. Adi inha-se, pois, que o espaço
analí ico ins i uído pela ca ego ia de azio denso se deb uça sob e a c iação de um
« egime de e dade», luga onde o pe cu so des as impu ações es á codi icado de modo
a pe mi i que, à supe ície, elas eme jam como a «na u eza das coisas» e sus en em a
au o idade de sen encia as suas emanações como e dadei as ou ób ias – como
e e imos já, mani es o em o mulações que de inem de e minado ipo de in e esses,
p á icas ou objec i os como os legí imos, undamen ais ou e dadei os. Des e modo, a
ca ego ia de azio denso pe mi e-nos nega o seu p oclamado ca ác e au o-e iden e,
con apondo à simplicidade das suas enunciações a complexidade ideológica e o
145
A í ulo de exemplo, a emissão pa a um imaginá io ho izon al em o no do «po o» e da «nação»,
secunda izando ou o ipo de di isões, em epe cussões polí icas. Veja-se no a de odapé 131;
62
con ex o de dispu a de pode que se ab iga sob elas. A í ulo de exemplo, pe an e uma
a i mação como: “A libe ação nacional não é pô em p á ica as esoluções da ONU,
mas sim libe a e dadei amen e as o ças p odu i as do nosso país pa a as pô em
mo imen o ao se iço do nosso po o”
146
, a ca ego ia de azio denso ques iona quem ou
o que es á a sus en a es a a i mação, indagando sob e o p ocesso polí ico que pe mi e
ao au o da a i mação de ini o que é a e dadei a «libe ação nacional» e iden i icando
aí uma dessas impu ações que pe mi e ge a au o-e idências nacionais.
As impu ações, mecanismos de «essencialização» a a és dos quais uma sé ie de
a ibu os se o nam nacionais e passam a comunga da au o idade do epí e o, só são
possí eis po que a nação “[is] always pa o a chain in which is bo h he cen al and he
weak link”
147
. São es as impu ações que p o idenciam a ma é ia pa a as “complex
s a egies o cul u al iden i ica ion and discu si e add ess ha unc ion in he name o
he «people» o he «na ion» and make hem immanen subjec s o a ange o social
andli e a yna a i es”
148
. Mas que a ibu os são es es, subme idos a e dadei os
p ocessos de «nacionalização»?
A na a i a em o no de um sujei o polí ico nacional ins i ui cada pessoa que
comp eende como um “homo na ionalis, om c adle o g a e”, mas á-lo “a he same
ime as he o she is ins i ued as homo economicus, poli icus, eligious”
149
. No caso do
po o da Guiné e de Cabo Ve de, não se á an o «homo na ionalis» como «homo
popula is», no sen ido de «po o», mas pa a e ei os des e aciocínio os e mos
equi alem-se. A classe, a eligião, a e nia, o géne o, en e ou os a ibu os, ou
de e minadas eses polí icas ou económicas (como a da libe ação das o ças p odu i as,
que acima ci á amos) não são nacionais na sua génese – se na a inidade hie a quizan e
que sus en a um sujei o polí ico alguma des as ca ac e ís icas osse in es ida de
qualidade g egá ia, as on ei as des e sujei o não se iam coinciden es com as suas
delimi ações nacionais.
Toda ia, a his ó ia des es a ibu os nos úl imos dois séculos em sido a de uma
acomodação no imaginá io nacional, ao se em mobilizados pelas na a i as
nacionalis as de modo a densi icá-las e a dila a o seu pode de in e pelação. Logo no
ad en o do Es ado-nação mode no, em jei o de p enúncio, o la im deixa ia de se a
146
Ven u a, Manual Polí ico do PAIGC, 21;
147
É ienne Baliba , “Racism and Na ionalism,” 46;
148
Homi Bhabha, ci ado em Bas o, A Gue a das Esc i as, 64;
149
É ienne Baliba , “The Na ion Fo m: His o y and Ideology,” in Race, Na ion, Class - Ambiguous
Iden i ies, É ienne Baliba and Immanuel Walle s ein (London: Ve so, 1991), 93;
63
língua li ú gica pa a da luga aos e náculos e a es u u a hie á quica da Ig eja
decompo -se-ia em ig ejas nacionais. Ao longo da con empo aneidade, in incados
sinc e ismos en e o elemen o nacional, eligioso, acial, de classe, pa a ci a alguns,
p oduzi am uma mul iplicidade de sujei os polí icos, mas oi o elemen o «nacional» que
eme giu como o alizan e, na sua la ga maio ia, ma iz a pa i da qual os ou os
elemen os o am dispos os e in es idos de sen ido.
A «nacionalização» dos p ocessos de subjec i ação é, não obs an e, um
enómeno ins á el. Es a mul iplicidade de a ibu os pode con e gi pa a a sus en ação e
ep odução de uma nação, mas ambém pode a o iá-la, caso um guião sus en ado
nou as on ei as – com um ou o a anjo hie á quico, com uma ou a disposição e
axonomia dos a ibu os – lhe dispu e a hegemonia, enquan o g elha de lei u a do
mundo. Nes e sen ido, es e p ocesso de «nacionalização» é ambém um es o ço no
sen ido de domes ica o po encial de con li uosidade dos elemen os que são ap op iados
pelo ho izon e nacional. Do mesmo modo que uma nação é simul aneamen e o elo
cen al e mais aco de uma cadeia, o ca ác e caleidoscópico de um sujei o polí ico
nacional é simul aneamen e a maio o ça e a maio aqueza do seu pode de
in e pelação.
O «po o da Guiné e Cabo Ve de», alidando es e aciocínio, ao se um sujei o
nacional é ambém p odu o de um conjun o de impu ações. O e cei o concei o-cha e da
cons elação cab aliana, o concei o de cul u a, se á analisado sob es e en oque, ao omá-
lo como um campo onde podemos mapea a o a de uma impu ação. O eco e de
«classe» dema cado que se ab iga sob o concei o de «cul u a» pe mi i á iden i ica o
«po o» com um g upo especí ico no seu seio, do ando po sua ez o ca ác e «nacional»
de um sen ido de e minado.
2.4 - Cul u al
Rep imida, pe seguida, humilhada, aída po um ce o núme o de ca ego ias
sociais comp ome idas com o es angei o, e ugiada nas aldeias, nas lo es as e no
espí i o das ge ações í imas de dominação, a cul u a sob e i e a odas as empes ades
pa a e oma g aças à lu a de libe ação, oda a sua aculdade de desen ol imen o. Eis
po que o p oblema de um “ e o no às on es” ou de um “ enascimen o cul u al” não se
põe nem se pode ia pô pa a as massas popula es, is o que elas são po ado as da sua
64
cul u a p óp ia, são a on e de cul u a e, ao mesmo empo, a única en idade
e dadei amen e capaz de p ese a e c ia a cul u a – e de aze his ó ia.
150
An es de inicia mos es a secção, é necessá io aze a no a p é ia que o concei o
de «cul u a» no discu so de Amílca Cab al conhece á ios usos. Nas p óximas páginas,
quando in oca mos a noção de «cul u a» es a emos a eme e pa a uma sua acepção
pa icula , onde es á mais em diálogo com noções como as de «dignidade». No capí ulo
seguin e, e emos como a «cul u a», se em a iculação com noções como as de
«p og esso», ganha signi icados subs ancialmen e di e en es.
A i má amos en ão e localizado no concei o de «cul u a» o e eno de uma
impu ação que, ao modela de manei a de e minan e o imaginá io do «po o da Guiné e
Cabo Ve de», do a a nação u u a de um umo cla o. Tal ez seja aqui, mais do que
nou os luga es, que o labo de cons ução mú ua en e «sujei o polí ico» e «p ojec o
polí ico» se dê a obse a . Conside amos mesmo que não é possí el comp eende a
génese de algumas eses cab alianas, como a do céleb e «suicídio da pequena
bu guesia», sem a en a ao luga que a cul u a ocupa na cons elação do po o da Guiné e
Cabo Ve de; ou como o a igo 3 do capí ulo 4 do manual polí ico do PAIGC acaba a
consag a “a de esa dos di ei os e conquis as polí icas, económicas, sociais e cul u ais,
dos camponeses e abalhado es u banos da Guiné e Cabo Ve de” enquan o “condição
undamen al na ealização da unidade com ou os po os a icanos”
151
.
Nos discu sos que dedica em exclusi o à p oblemá ica da cul u a
152
, Amílca
Cab al enuncia-a como a base da «libe ação nacional», ca ac e izando a «lu a de
libe ação nacional» simul aneamen e como um ac o e um ac o de «cul u a»
153
. A
ele ância que a noção de cul u a assume su ge aqui sus en ada num eco e de «classe»
ca egó ico, o que con as a com a ajec ó ia aciden ada que a noção de classe conhece
no pensamen o cab aliano. Pa a comp eende o luga que a «ul u a ocupa no imaginá io
do po o da Guiné e Cabo Ve de, p ecisa emos ambém de nos muni de uma exposição
150
Cab al, “O Papel da Cul u a na Lu a pela Independência,” 128;
151
Ven u a, Manual Polí ico do PAIGC, 33;
152
Cab al, “O Papel da Cul u a na Lu a pela Independência,” 124-146; Amílca Cab al, “Libe ação
Nacional e Cul u a,” in Malhas que os Impé ios Tecem: ex os an icoloniais, con ex os pós-coloniais, o g.
Manuela Ribei o Sanches, 355-376. Lisboa: Edições 70, 2012;
153
“Vemos assim que, se o domínio impe ialis a em como necessidade i al p a ica a op essão cul u al,
a libe ação nacional é, necessa iamen e, um ac o de cul u a.” Cab al, “Libe ação Nacional e Cul u a,”
361;
71
É e iden e que a mul iplicação das ca ego ias sociais, em especial de e nias,
o na mais complexa a de inição do papel da cul u a no mo imen o de libe ação.
Mas es a complexidade não pode nem de e diminui a impo ância decisi a, no
desen ol imen o des e mo imen o, do ca ác e de classe da cul u a, mui o mais
sensí el nas ca ego ias u banas e nas sociedades u ais de es u u a e ical (Es ado),
mas que não de e deixa de se omada em conside ação mesmo nos casos em que o
enómeno de classe su ge ainda no es ado emb ioná io. A expe iência demons a que,
pe an e a necessidade de uma opção polí ica exigida pela con es ação do domínio
es angei o, as ca ego ias p i ilegiadas, na sua maio ia, colocam os seus in e esses
imedia os de classe acima dos in e esses do g upo ou da sociedade, con a as
aspi ações popula es.
167
Es e en endimen o pa icula do concei o de cul u a con unde-se
p oposi adamen e com uma ideia de « esis ência», na qual ecoam algumas eses de
James C. Sco , que as massas popula es e iam p o agonizado ace ao colonialismo
po uguês em con apon o com a acção de ou as «camadas sociais» (nomeadamen e “as
ca ego ias p i ilegiadas” que, “pe an e a necessidade de uma opção polí ica exigida pela
con es ação do domínio es angei o (…) na sua maio ia, coloca os seus in e esses
imedia os de classe acima dos in e esses do g upo ou da sociedade, con a as aspi ações
popula es”). «Massas popula es», «cul u a» e « esis ência» andam a pa no discu so
cab aliano, in o mando-se mu uamen e:
O alo da cul u a como elemen o de esis ência ao domínio es angei o eside
no ac o de ela se a mani es ação igo osa, da ealidade ma e ial e his ó ica da
sociedade dominada ou a domina . F u o da his ó ia de um po o (…)
168
Es a esis ência, longa e mul i o me, só é possí el po que, p ese ando a sua
cul u a e a sua dignidade, as massas popula es man êm in ac o o sen imen o de
dignidade indi idual e colec i a, apesa dos exames, das humilhações e se ícias de
que são an as ezes al o.
169
167
Cab al, “O Papel da Cul u a na Lu a pela Independência,” 141 [sublinhados nossos];
168
Cab al, “Libe ação Nacional e Cul u a,” 363;
169
Cab al, “O Papel da Cul u a na Lu a pela Independência,” 139;

72
É des e modo que, se o «po o da Guiné e Cabo Ve de» é o sujei o polí ico que
ai aze da sua e olução uma Re olução
170
, as «massas popula es» se o nam o
e dadei o agen e e olucioná io no seu seio, ao se em o único g upo capaz de
“p ese a e c ia a cul u a – e de aze a his ó ia”. Eme gindo como o alice ce da lu a
de libe ação, os in e esses das massas popula es o nam-se os in e esses do «po o da
Guiné e Cabo Ve de», num mo imen o que culmina á na sua jus aposição:
(…) julgamos que se a a de uma concepção demasiado limi ada, senão mesmo
e ónea, do papel p imo dial da cul u a no desen ol imen o do mo imen o de
libe ação. Essa limi ação ou e o p o êm, pensamos, de uma gene alização inco ec a
de um enómeno eal mais es i o, que se si ua a um de e minado ní el das eli es ou
das diáspo as coloniais. Gene alização essa que igno a ou negligencia o dado
essencial do p oblema: o ca ác e indes u í el da esis ência cul u al do po o – das
massas popula es – ace ao domínio es angei o.
171
Reco dando o encadeamen o com que enquad ámos o concei o de cul u a, é
des e modo que se conc e iza uma impu ação ao imaginá io nacional: o po o da Guiné e
Cabo Ve de o na-se, de aco do com o egime de e dade que o subjaz, nas massas
popula es da Guiné e Cabo Ve de. No Manual Polí ico do PAIGC, de 1974, es a
imb icada ope ação ideológica su ge já consag ada em pleno:
(…) a posição do nosso Pa ido, an o no plano in e no, em elação às massas
popula es, como no plano in e nacional, nas nossas elações com os ou os, é bas an e
cla a e p ecisa (…)
172
A cul u a o na-se assim a pla a o ma a pa i da qual o p oblema polí ico en e
au óc ones é in e pelado, mani es ação de um p oblema que em de se pensado num
quad o sup anacional. Nas e lexões de Cab al em o no do p oblema da cul u a,
chegamos mesmo a encon a c í icas se e as ao ca ác e eli is a de mo imen os que
hoje são eco dados como co olá ios do pe íodo, onde Cab al sinaliza uma en a i a de
170
Pa a aseando Amílca Cab al em Cab al, “Fundamen os e objec i os da libe ação nacional em
elação com a es u u a social,” 200;
171
Cab al, “O Papel da Cul u a na Lu a pela Independência,”127 [sublinhados nossos];
172
Ven u a, Manual Polí ico do PAIGC, 74;
73
eclipsa o papel que as massas popula es p o agonizam no es o ço an i-colonial:
condenado a “gene alização inco ec a de um enómeno eal mais es i o, que se si ua a
um de e minado ní el das eli es ou das diáspo as coloniais”, na medida em que “o
p oblema de um ‘ e o no às on es’ ou de um ‘ enascimen o cul u al’ não se põe nem se
pode ia pô às massas popula es”
173
. Se ia o eli ismo dos seus memb os que os le a a a
“igno a[ ] e negligencia[ ] o dado essencial do p oblema: o ca ác e indes u í el da
esis ência cul u al do po o – das massas popula es – ace ao domínio es angei o”, e
nes e mo imen o a p omo e em uma polí ica que não em em con a, ou ai mesmo
con a, as «aspi ações popula es».
O g ande p oblema des a concep ualização da «lu a de libe ação» esidia no
ac o de a sua di ecção es a a ca go de elemen os que não p o inham das «massas
popula es», na sua maio ia. A en a i a de esolução des a dis ância, en e uma di ecção
«pequeno-bu guesa» da lu a e o g upo pa a quem ela se des ina a, e ela-se quando
co ejamos as passagens em o no da cul u a com as que se deb uçam sob e a ese do
«suicídio da pequena bu guesia», iden i icando uma sime ia en e a e e ência às
«massas popula es», no uni e so da «cul u a», e a e e ência às «classes abalhado as»,
no uni e so do «suicídio da pequena-bu guesia». Sem eco e à imagem da «lu a de
classes» no campo da cul u a, Cab al p opõe um caminho aos elemen os «pequeno-
bu gueses» que cons i uem a di ecção da «lu a», a da sua iden i icação p og essi a com
as «massas popula es» que “só se comple a no decu so dela [da lu a de libe ação], no
con ac o quo idiano com as massas popula es e na comunhão de sac i ícios que a lu a
exige”
174
. No seu en ende , es e é o único caminho – e eja-se como a impu ação da
cul u a ao imaginá io nacional é de e minan e pa a es e enunciado – que ga an e uma
e dadei a independência nacional, esqui ando-se à coop ação po dinâmicas
«neocoloniais».
Quando há pouco a i má amos que o «po o da Guiné e Cabo Ve de» a unila a
nas suas «massas popula es», o e bo não oi escolhido ao acaso. A composição do
egime de e dade cab aliano, no que conce ne a es a p oblemá ica, desc e e esse
mesmo mo imen o de um unil, ao eclama o consenso ala gado que o an i-
colonialismo ge ou pa a um p ojec o que enha no cen o as massas popula es - is o é,
canalizando essa base de apoio em o no da oposição ao colonialismo pa a um p ojec o
173
Cab al, “O Papel da Cul u a na Lu a pela Independência,” 128;
174
Cab al, “Libe ação Nacional e Cul u a,”363;
74
polí ico pa icula na «nação» u u a, a unilando-a de modo a que não pe igue essa
unidade inicial. E á-lo com ecu so à linguagem das «missões», dos «de e es» e dos
«impe a i os» his ó icos, onde a His ó ia, à semelhança, da «cul u a», su ge ambém
como uma «abs acção animada», de cuja on ade o PAIGC é um in é p e e iel:
Pa a man e o pode que a libe ação nacional põe nas suas mãos, a pequena
bu guesia só em um caminho: deixa agi li emen e as suas endências na u ais de
embu guesamen o, pe mi i o desen ol imen o duma bu guesia bu oc á ica e de
in e mediá ios do ciclo das me cado ias, ans o ma -se em pseudo-bu guesia
nacional, is o é, nega a e olução e en euda -se necessa iamen e ao capi al
impe ialis a. O a isso co esponde à si uação neocolonial, que dize , à aição dos
objec i os da libe ação nacional. Pa a não ai esses objec i os, a pequena bu guesia
só em um caminho: e o ça a sua consciência e olucioná ia, epudia as en ações
de embu guesamen o e as solici ações na u ais da sua men alidade de classe,
iden i ica -se com as classes abalhado as, não se opo ao desen ol imen o no mal do
p ocesso da e olução. Isso signi ica que, pa a desempenha cabalmen e o papel que
lhe cabe na lu a de libe ação nacional, a pequena bu guesia e olucioná ia de e se
capaz de suicida -se como classe, pa a essusci a na condição de abalhado
e olucioná io, in ei amen e iden i icado com as aspi ações mais p o undas do po o a
que pe ence.
175
Os in incados mecanismos ideológicos e discu si os que es ão na génese des as
omadas de posição suge em-nos as ensões polí icas en e «au óc ones», os equilíb ios
delicados e p óp ios do con ex o guineense e cabo- e diano. Mas elas eme em-nos
ambém pa a a his ó ia mais la a do c uzamen o en e a «nação» e a «classe» que, pese
embo a as suas na u ezas po encialmen e an agónicas («nação» in insecamen e
ansclassis a, «classe» in insecamen e ansnacional), êm p o agonizado mais
con e gências do que exclusões mú uas na paisagem polí ica mode na. Pa a es uda os
sujei os polí icos ge ados nes as suas in e secções, onde eme gem simul aneamen e
como nacionais e classis as, o na-se necessá io adop a uma pos u a que, na senda de
Baliba , assuma que “ o say hey a e p oblema ic is no o ejec he p emisses, i is only
175
Cab al, “Fundamen os e objec i os da libe ação nacional em elação com a es u u a social,” 212;
75
o ask o a philosophical disquisi ion o he consequences”
176
; e, po conseguin e,
iden i ica e p oblema iza as en a i as de ha monização des as na u ezas con li uan es,
que encon amos nos egimes de e dade que in es em es es sujei os polí icos de
sen ido.
Mais uma ez, sinalizamos um p oblema analí ico que oi ambém en endido
como um p oblema polí ico, no caso de es udo que nos ocupa. A ilus a es a
coincidência, a secção 4 do Manual Polí ico do PAIGC, onde encon amos a ques ão “A
nossa lu a é undamen almen e uma lu a de libe ação nacional ou uma lu a de classes?”.
A espos a se á ão ou mais suges i a do que a pe gun a em si, cons i uída po uma
ambi alência que, à luz do concei o de «cul u a», an o pode eme e pa a a ques ão
colonial como pa a a iden i icação da «po o» com as suas «massas popula es»: “a
dominação colonial na nossa e a é a dominação da classe di igen e po uguesa sob e o
nosso po o, ou, se o p e e i em, sob e a nossa nação conside ada no seu conjun o
como uma classe”
177
.
2.5 - Ins i uição de uma «comunidade de si uação e des ino»
178
A lu a de um po o, a esis ência de um po o, em á ias o mas. Como já os
disse, há mui o empo que começou a nossa esis ência. Desde o dia em que passou
pela cabeça dos ugas domina -nos, explo a -nos, a nossa esis ência começou.
179
Os mecanismos na a i os que undam os «po os» na mode nidade são, em
alguns aspec os, análogos aos que es u u am as cosmogonias na An iguidade. À
semelhança de algumas deidades cosmogónicas, onde odas as po encialidades do
mundo agua dam po consubs anciação
180
, um «po o» é aquele que, an es de se , já o é.
Is o é, an es das pessoas que comp eende se imagina em como pa e de um mesmo
po o, a na a i a que o ins i ui sinaliza já aí um caminho a se pe co ido, a é culmina ,
po im, numa omada de consciência em que a pe ença a um mesmo po o é e elada.
176
Ve so Books, “Communism, A New Beginning? Day 2 É ienne Baliba , Communism as Commi men ,
Imagina ion and Poli ics, Filmado [Junho 2012], You ube Video, 01.36.25, Publicado [Junho 2012],
h ps://www.you ube.com/wa ch? =NEu5 VzFJ 0, consul ado em 12/08/2018;
177
Ven u a, Manual Polí ico do PAIGC, 13 [sublinhados nossos];
178
No o iginal: “Communau é de si ua ion e des in.” Bouamama, Figu es de la Ré olu ion A icaine,
103;
179
Cab al, Análise de Alguns Tipos de Resis ência, 10;
180
Casos de «Nun», na mi ologia egípcia, ou de «Chaos», na mi ologia g ega.
76
A na u eza des a imanência a ia, é ce o – o a os cap ichos do di ino, o a as
leis da his ó ia ou os impe a i os da cul u a – mas o mo imen o desc i o po es as
na a i as é ans e sal aos seus di e en es ipos de de e minação: elas a i mam que
chegámos aqui, quando, na e dade, é des e «aqui» que pa em. Se não alida mos que
ce os elemen os podem exis i em es ado de la ência – is o é, in luenciado a acção de
pessoas que deles não êm consciência – emos de nos deb uça sob e es as na a i as
enquan o « icções polí icas», como ges os eminen emen e polí icos que iden i icam – ou
seja, imaginam – ce o ipo de de e minação como eículos de aze sen ido do seu
p esen e e, po isso, da sua his ó ia e da sua expe iência. Assim, o que su ge como um
des ino não é an o uma emanação de um sen ido que, ocul o, animou a his ó ia a é ao
momen o da sua e elação, como é uma «c iação», uma anscendência à escala
humana que, em p imei a e úl ima ins ância, se ci cunsc e e à acção das pessoas que se
eclamam desse des ino. Do mesmo modo que oda a his ó ia é his o iog a ia
181
, odas
as na a i as em o no de um po o são uma p ojecção de uma lei u a no p esen e pa a
os e en os que o an ecede am e que os insu lam de um no o sen ido, só exis indo em
co elação com esse p esen e e com as ânsias de u u o que o animam.
Obse amos assim que, na ins i uição de um po o como sujei o polí ico, o ges o
de ilha um caminho ao longo da his ó ia – selecciona e a icula di e en es episódios
numa na a i a, de modo a que possam ganha aquele pe il demons a i o a que as
pessoas gos am de chama a alidade
182
– assume uma impo ância de e minan e.
Mesmo em discu sos onde a ónica é colocada na «agência», es a igu a de es ilo é
u ilizada e ge a a pe cepção de um ce o caminho. Tal é o caso da na a i a que ins i ui
o «po o da Guiné e Cabo Ve de», onde podemos encon a apon amen os nes e sen ido:
quando Amílca Cab al a i ma, a í ulo de exemplo, que “desde o dia em que passou
pela cabeça dos ugas domina -nos, explo a -nos, a nossa esis ência começou”
183
, o
adjec i o possessi o - «nossa» - condensa es e exe cício de p ojecção de sen ido do
p esen e no passado, na medida em que analisa um empo à luz de uma ealidade que,
en ão, não e a seque pensá el – o «po o da Guiné e de Cabo Ve de». Além disso,
insc e e na na a i a des e «po o» oda e qualque mani es ação de dissidência ao
sis ema colonial, imp imindo-lhe uma coesão g egá ia que, à época, não inha.
181
Tese de Hayden Whi e.
182
Co áza , Final do Jogo, 67;
183
Cab al, Análise de Alguns Tipos de Resis ência, 10 [sublinhados nossos];

77
Nós somos um po o, ou pessoas de um po o, que a ce a al u a da his ó ia desse
po o, oma am um ce o umo no seu caminho, c ia am ce os p oblemas no seu
espí i o e na sua ida, o ien a am a sua acção num ce o umo, puse am pe gun as e
busca am espos a pa a essas pe gun as.
184
Se iden i ica mos o “ce o umo omado” como a i agem an i-colonial que o
PAIGC simboliza, epa amos como es e po o, ainda an es de se «po o» - de se
imagina enquan o al – oma a já um umo em conjun o, como um nós. É uma elei u a
do passado, à luz das con igu ações do p esen e – seleccionando episódios a é en ão
desa iculados e in eg ando-os numa mesma linha na a i a coesa – que lhe pe mi e
aze a i mações des e ipo. Insu lando es es e en os com um no o sen ido – que é an o
mais e icaz quan o essa no idade su gi como uma an iga no idade – possibili a às
pessoas que se insc e em no seu ho izon e descob i como colec i a a sua i ência
indi idual, como pa e de um no o «nós».
No con ex o do an i-colonialismo, es e jogo de empo alidades é pa icula men e
e iden e na impo ância que é a ibuída à «unidade». O iginada po uma ( e)lei u a da
his ó ia onde o ca ác e «dispe so» e «a omizado» das esis ências ao colonialismo e ia
possibili ado, em pa e, a sua ep odução e pe pe uação enquan o sis ema, a ónica na
«unidade» su ge como uma solução pa a es e p oblema. Mas es e ges o de iden i ica
essas esis ências como dispe sas e a omizadas só é possí el à luz de g elhas
«ag egado as», que só mais a de se iam c iadas.
A pa i daqui, o na-se possí el ques iona a disposição da na a i a de Amílca
Cab al e do PAIGC em elação ao «po o da Guiné e de Cabo Ve de», onde es á
subsumida a p emissa de que «sujei o polí ico» p ecede «p ojec o polí ico». Nes e
cená io, o segundo se ia a «emanação» do p imei o: pensa-se o «p ojec o polí ico»
como um eículo a a és do qual o «sujei o polí ico» se exp essa, a es u u a da
na a i a obedece a uma ideia de sequência.
A disposição que a «sequência» possibili a en e sujei o polí ico e p ojec o
polí ico cump e unções polí icas cla as, pe mi indo ao p ojec o polí ico assumi -se
como o iel in é p e e do sujei o polí ico e eclamando-se assim da sua au o idade
anscenden e, que em p imei a e úl ima ins ância de e ia in lui na sua legi imidade
como ac o polí ico. O pa ido como agen e que o ça es a «na u eza» é assim celeb ado
184
Cab al, Alguns P incípios do Pa ido, 12;
78
pela diligência no cump imen o de uma dada missão, e a obediência à sua di ecção pode
se exigida. É a es a luz que podemos enquad a a au o idade eclamada pa a o PAIGC
no discu so cab aliano: “Se compa a mos aquele momen o com o momen o de hoje,
emos de ac o que a c iação do P.A.I.G.C. oi o pon o de pa ida pa a c ia na nossa
e a, Guiné e Cabo Ve de, uma ealidade no a, cama adas”
185
.
Toda ia, se negamos qualque de e minação anscenden e aos enómenos
colec i os, o ca ác e eleológico das na a i as que os ins i uem colapsa – deixa de se
uma «au o-e idência» o po quê de um sujei o polí ico se como é. Sublinha o ca ác e
his ó ico des as na a i as le a-nos a con apo à imagem de sequência uma de
simul aneidade: um «sujei o polí ico» não p ecede o «p ojec o polí ico» que dele se
eclama; ao in és, «sujei o polí ico» e «p ojec o polí ico» cons oem-se mu uamen e,
p o agonizam uma elação de ecip ocidade. Assen e no jogo pe manen e do discu so,
como ges o que simul aneamen e ep esen a e c ia o «Real» - “se o concei o de ‘po o”
desc e e, iden i ica e objec i a uma dada ealidade, ao mesmo empo cons i ui, ac i a e
subjec i a essa ealidade (Koselleck, 2011)”
186
– o nome que o sujei o polí ico ecebe
assume-se assim como o e eno de uma mediação: o «po o da Guiné e de Cabo
Ve de», ao o na -se o luga de encon o en e Amílca Cab al, o PAIGC e pa e das
populações da Guiné e de Cabo Ve de, pe mi e ins i ui uma comunidade de si uação e
des ino. Nes a que é uma lu a de ep esen ações, não é só o «po o» que az a «lu a»:
es e «po o» ambém se az na «lu a» e a «lu a» ambém se az no «po o».
Desna u aliza a ajec ó ia de um po o, não obs an e, não é sinónimo de
in alidá-la. Amílca Cab al em oda a legi imidade pa a concebe a lu a do PAIGC
como a con inuação da esis ência ao colonialismo po uguês “desde o momen o em que
passou pela cabeça dos ugas domina -nos”. Como expusemos no capí ulo an e io ,
aze sen ido da expe iência é semp e um ges o eminen emen e c ia i o, de ece
a iculações mesmo onde elas a é en ão não exis iam – ou sob e udo onde elas não
exis em. Mos a o «po o da Guiné e Cabo Ve de» como uma c iação ecen e não
sen encia como e adas as in e p e ações que oma am o «po o da Guiné e de Cabo
Ve de» como uma ealidade que se esp aia a mui o pa a lá do seu empo; é, sim, um
con i e a pe cebe como oi es a sensação de «la ência» ge ada, como a sequência se
o nou plausí el e des e modo on e de sen ido.
185
Cab al, Alguns P incípios do Pa ido, 79;
186
Ne es, “Ideologia, ciência e po o em Amílca Cab al,” 336;
79
The e en s o 1933 ha e occu ed once and o all, bu he expe iences which
a e based upon hem can change o e ime. Expe iences o e lap and mu ually
imp egna e one ano he . In addi ion, new hopes o disappoin men s, o new
expec a ions, en e hem wi h e ospec i e e ec . Thus, expe iences al e hemsel es as
well, despi e, once ha ing occu ed, emaining he same.
187
Nes as no as inais, gos a íamos de sublinha o modo como es e ânsi o
pe manen e en e empo alidades molda o imaginá io de um «sujei o polí ico»,
possibili ando a eme gência de uma «comunidade de si uação e des ino»; e ambém
como a coexis ência de di e en es empo alidades, imp egnando-se mu uamen e,
con e ge pa a a legi imidade des as na a i as, dispos as numa na a i a diac ónica
onde o momen o p esen e é o culmina de um passado de onde se em e a an ecâma a de
um u u o pa a onde se ai.
187
Koselleck, Fu u es Pas , 274-275;
80
Capí ulo III: Os p ocessos cen í ugos na o mação de um sujei o polí ico em
Amílca Cab al
O ca ác e da nossa lu a é in e nacional e uni e sal.
188
O po o da Guiné e Cabo Ve de exis e em a iculação com ou os po os. A sua
enunciação, no discu so cab aliano, az semp e subjacen e a pe ença a um mo imen o
pe cepcionado como his ó ico e ansnacional, do qual se ia an o subsidiá io como
agen e ac i o. Se á sob e es e jogo de escalas que e emos o sujei o polí ico cab aliano
edi ica -se, animando e animado po uma mul iplicidade de a inidades polí icas que são,
segundo o seu discu so, as consequências na u ais umas das ou as. Se i a nossa
e a, di -nos-á ei e adamen e Amílca Cab al, se i Á ica e se i a Humanidade são
pa e de um mesmo ges o
189
.
A pe cepção de que uma mesma insu eição inha luga em ês con inen es,
endo na Guiné e em Cabo Ve de um seu desdob amen o, az com que os objec i os e
as on ades enunciadas nes e con ex o obedeçam a uma pau a que se esp aia bem pa a
lá das suas delimi ações e i o iais. Num quad o em que cada po o de ia « aze a sua
pa e» pa a ealiza desígnios uni e sais, da p imazia ao «local» e a concebido como
um ges o eminen emen e in e nacionalis a, como a epíg a e que in oduz es e capí ulo
ilus a exempla men e. Comp eende os «po os» que eme gem a pa i des e eixo não é
pois possí el sem que os insc e amos nas dinâmicas peculia es do nacionalismo
in e nacionalis a, se pensados a pa i das suas bases «locais», e do in e nacionalismo
nacionalis a, se pensados nos seus luga es de encon o in e nacionais, que ca ac e izam
o enómeno an i-colonial. Es a ese peculia – a dimensão nacional dos sujei os polí icos
an i-coloniais não só não en a em o a de colisão com as suas a iliações
in e nacionalis as, como é mesmo a sua conc e ização – ca ega cla as apo ias, que não
suge imos aqui asu a : a análise das suas possibilidades só pode se ei a a pa com a
obse ação dos seus limi es e ensões.
188
Ven u a, Manual Polí ico do PAIGC, 31;
189
“Nós es amos a se i a humanidade, cama adas, es amos a se i o nosso po o, a nossa e a, a Á ica,
a humanidade. Es a é a nossa esponsabilidade ao da i os, azendo gue a na nossa e a, pa a libe a o
nosso po o.” Cab al, Análise de Alguns Tipos de Resis ência, 121; “E emos de c iá-la e desen ol ê-la
cada dia mais pa a se i mos cada ez melho não só e p incipalmen e o in e esse do nosso po o, mas
ambém o in e esse de Á ica, o p og esso da humanidade.” Cab al, Alguns P incípios do Pa ido, 79;
87
polí ico au ónomo. Num empo pa ilhado com a Gue a F ia, a lu a de libe ação do
«Sul Global» en ou se em si mesma uma omada de posição
205
, sonhando aze da sua
caco ónica união um e cei o caminho.
O cená io e a complexo pa a os sujei os an i-coloniais. En e a con e gência e o
cons angimen o, a solida iedade e a coop ação, a ajuda e a imposição, a sedução e a
coe ção, a au onomia e a necessidade, a elação que os mo imen os an i-coloniais
es abelece em com as duas supe po ências da Gue a F ia a amen e oi ácil ou
simples. Se se econheciam em pa e na no a o dem mundial, dominada ago a po duas
po ências pós-coloniais que inham secunda izado a in luência dos elhos mes es
coloniais – a URSS unda a-se sob e a condenação do impe ialismo e os EUA, como
p imei a colónia emancipada, a i ma am e uma “simpa ia na u al”
206
pelos
mo imen os de descolonização – po ou o lado ecea am os iques expansionis as que
an o URSS e EUA começa am a demons a , e que alguns denuncia am já como as
no as es es do impe ialismo.
A eme gência do an i-colonialismo como um campo polí ico au ónomo, que em
em momen os como Bandung
207
ou em Belg ado
208
os seus co olá ios, de e se co ejada
com o eceio de que as agendas «locais» do an i-colonialismo ossem agadas pelas
p e ensões o alizan es das duas supe po ências, ainda que não de a se lido
exclusi amen e a es a luz. P opôs-se nes es espaços uma ou a g elha de lei u a do
mundo, onde a co ida a zonas de in luência não impe a a como p incipal c i é io,
desen ol endo-se es o ços pa a não ope a na moldu a dico ómica que enquad a a a
diplomacia in e nacional – o Mo imen o dos Não-Alinhados, c iado em 1961 na
Jugoslá ia e com sede em Jaca a (a geog a ia é p og amá ica) aba ca a o «Te cei o
Mundo» na sua quase o alidade, en e países memb os e países obse ado es, cob indo
a maio pa e da ex ensão e ena.
Os mo imen os an i-coloniais i e am o çosamen e que in e agi com as
dinâmicas da Gue a F ia, uns alinhando po um ou ou o bloco, ou os en ando
explo ando os seus ágeis equilíb ios com is a a sal agua da a sua au onomia. Se
mui os alha am esse p opósi o, al não asu a o ges o da en a i a, e menos ainda alida
205
Veja-se no a de odapé 193;
206
“We ou sel es a e he i s colony in mode n imes o ha e won independence. We ha e a na u al
sympa hy wi h hose e e ywhe e who would ollow ou example." ci ado em Lee om Medo oi, Rebels:
You h and he Cold Wa O igins o Iden i y (Du ham: Duke Uni e si y P ess, 2005), 12;
207
Con e ência de Bandung, ealizada em 1955, na Indonésia.
208
Onde é c iado o Mo imen o dos Não-Alinhados, em 1961.

88
a subsunção das dinâmicas an i-coloniais ou e cei o-mundis as às pe ipécias dos dois
g andes ac o es da Gue a F ia, pos u a que em ca ac e izado uma pa e subs ancial da
his o iog a ia sob e o pe íodo. Desde a i agem do século, oda ia, a “‘new Cold Wa
his o y’ (…) has sough o in e p e he Cold Wa h ough an app oach desc ibed by
Wes ad as as “mul ia chi al in esea ch”, “mul ipola in analysis” and “mul icul u al in
i s abili y o unde s and di e en and some imes opposing mindse s””
209
, onde o
Te cei o Mundo não su ge mais como um ac o subal e no. A impo ância das
dinâmicas da Gue a F ia pa a comp eende a dimensão quase uni e sal que as
ei indicações mais localizadas ganham
210
, e o modo como os sujei os an i-coloniais se
o na am “des animaux poli iques au sens le plus plané ai e du e me”
211
, é
conside á el, mas apenas uma pa e da equação.
3.1.2 - Os «Condenados da Te a»
No ie namise e e called me a n*****.
212
The concep “Thi d Wo ld” came in o being in he ea ly 1950s, i s in F ench
and hen in English, and gained p ominence a e he Bandung con e ence o 1955,
when leade s om Asia and A ica me o he i s la ge pos colonial summi . Wi h i s
F ench conno a ions o ie s é a – he “ hi d s a e”, he mos populous bu leas
ep esen ed o he F ench p e e olu iona y social g oups – he e m “Thi d Wo ld”
implied “ he people” on a wo ld scale, he global majo i y who had been down odden
and ensla ed h ough colonialism bu who we e now on hei way o he op o he
ladde in luence. The concep also implied a dis inc posi ion in Cold Wa e ms, he
e usal o be uled by he supe powe s and hei ideologies, he sea ch o al e na i es
bo h o Capi alism and Communism, a “ hi d way” (i he exp ession can be decoupled
om p esen -day Blai i e hypoc isy) o he newly libe a ed s a es.
213
209
Odd A ne Wes ad, “«I don’ belie e in seeking dis ance om you own ime», a alk wi h Odd A ne
Wes ad abou he limi s o he Cold Wa and he challenges o Popula His o y,” en e is ado po Rui
Lopes, P á icas da His ó ia, n.º 4 (2017): 221;
210
Pa a aseando Fanon: “Elle s’é ein d’au an moins que la cons uc ion na ionale con inue à s’insc i e
dans le cad e de la compé i ion décisi e du capi alisme e du socialisme. Ce e compé i ion donne une
dimension quasi uni e selle aux e endica ions le plus localisées. Chaque mee ing, chaque ac e de
ép ession e en i dans l’a ène in e na ionale.” Fanon, “Les Damnés de la Te e,” 481;
211
Fanon, “Les Damnés de la Te e,” 486;
212
Ve Anexo 2;
213
Wes ad, The Global Cold Wa , 67-68;
89
O p ocesso de descobe a de a inidades, que é semp e p ecá io e incessan e, oi-
se dando ao logo da e a da descolonização a di e en es escalas. O «Te cei o Mundo»
se á p o a elmen e o a e ac o mais elucida i o que emos nes e sen ido, ao ins i ui um
espaço simbólico comum a pelo menos ês con inen es e e idenciando a impo ância
que a imaginação em na cons ução de uni e sos polí icos bem «conc e os».
A Amé ica La ina não es e e p esen e em Bandung – não inha sido con idada.
As undações da OSPAA, O ganização de Solida iedade com os Po os A o-Asiá icos,
e da OSPAAAL, O ganização de Solida iedade com os Po os da Ásia, Á ica e
Amé ica La ina, são mediadas po apenas oi o anos. Nes e in e alo, é-nos o emen e
suge ida uma me amo ose no imaginá io an i-colonial: dila ando-se a sua noção de
comum, a Amé ica La ina passa a in eg a o mesmo espaço simbólico que a Ásia e a
Á ica. Que a Re olução Cubana enha acon ecido no espaço des es oi o anos, em 1959,
di icilmen e se á coincidência. Es a ap oximação, ge ada po um exe cício de
compa ação, con as e e analogia, oma a como semelhan e as condições de ida das
populações la ino-ame icanas, a icanas e asiá icas, ainda que as p imei as conhecessem
já a independência nacional há mais de um século. Sus en ado na plas icidade de noções
como «independência», «dominação», «emancipação» e a é mesmo «colonialismo»,
eme gia o «Te cei o Mundo».
Como a acção do nosso inimigo p incipal – os colonialis as po ugueses – se
in eg a no campo impe ialis a, é necessá io ap o unda o nosso conhecimen o da
na u eza e ca ac e ís icas do colonialismo e impe ialismo, sob odas as o mas pa a
assim comp eende mos mais p o undamen e a ma cha his ó ica do nosso po o, as
consequências do nosso comba e e o signi icado uni e sal da nossa lu a.
214
Mui as das ca ego ias que encon amos a in o ma o discu so de Amílca Cab al
o am ge adas ambém a pa i do diálogo com o con ex o la ino-ame icano. A di isão
en e independência « o mal» e « eal», a noção de «neocolonialismo» ou os apelos a um
«independência e dadei a», ca ego ias que começa am a se ope a i as nos con ex os
nos ecém-independen es e nos ainda coloniais, e am as mesmas que os sujei os
polí icos la ino-ame icanos usa am pa a aze sen ido de uma independência polí ica
214
Ven u a, Manual Polí ico do PAIGC, 27 [sublinhados nossos];
90
que inha chegado no século XIX, mas que a da a em conc e iza as aspi ações que
nela inham sido p ojec adas. À luz das «independências o mais» e das dinâmicas
«neocoloniais», as condições de ida la ino-ame icanas su giam como semelhan es
àquelas i idas em Á ica e na Ásia, e os compo amen os de algumas eli es pós-
coloniais a icanas e asiá icas o na am-se in eligí eis quando co ejados com a acção
das eli es pós-coloniais la ino-ame icanas ao longo da con empo aneidade. A si uação
la ino-ame icana começa a mesmo a se is a como p enúncio das no as
independências: “Si elle a ai mieux ega dé e s les pays d’Ame ique La ine, elle
au ai sans nul dou e iden i ié les dange s qui la gue en ”
215
.
Es e exe cício analógico, mais sensí el às condições ma e iais e subjec i as do
aos con o nos o mais de cada con ex o, não se ci cunsc e e ia à Amé ica La ina. A
pe ença ao Te cei o Mundo oi ambém es endida aos g upos «ma ginalizados» no seio
dos p óp ios países «impe ialis as», como es emunham alguns ca azes de
mani es ações no Ha lem con a a gue a do Vie name – um deles in oduz es a secção,
nou o podemos le “Black Men Should Figh Whi e Racism, no Vie namise F eedom
Figh e s”
216
. Nes as localizações, a dila ação do imaginá io e cei o-mundis a ins iga
mesmo a um ques iona das lealdades nacionais, p opondo um ou o ipo de on ei as
simbólicas. O e cei o-mundismo e a animado po uma solida iedade eminen emen e
ansnacional, pa a a qual con e giam di e en es caudais da subal e nidade. A
ans e salidade do acismo, a í ulo de exemplo, c ia a pon es en e as populações a o-
ame icanas e as populações a icanas, sus en ada e sus en ando ambém noções como as
de «diáspo a» ou «neg i ude».
Po ezes, chegou a en e e -se um sujei o polí ico à escala de ês con inen es,
um sujei o e cei o-mundis a a que Wes ad chamou “ he people” on a wo ldscale
217
, ou
que es á condensado no li ismo necessa iamen e ago de Fanon, quando cunha e
exp essão «condenados da e a». Se podemos aze co esponde ao Te cei o Mundo
um espaço geog á ico emblemá ico, ele não se ci cunsc e e a ele, na medida em que o
ca ác e eminen emen e polí ico da sua pe ença a a essa delimi ações e i o iais.
Ao insc e e o seu aio de acção “no plano mais ge al da lu a dos po os de
Á ica, Ásia e Amé ica La ina”
218
, o PAIGC consag a es e quad o no seu p og ama
215
Fanon, “Les Damnés de la Te e,” 562;
216
Ve Anexo 3;
217
Wes ad, The Global ColdWa , 2 [sublinhados nossos];
218
Ven u a, Manual Polí ico do PAIGC, 30;
91
polí ico. O lib e o e cei o-mundis a essoa á pelos ês con inen es, so endo
ap op iações pa icula es e he e ogéneas em cada um deles. Base de uma solida iedade
uni e sal, é des e modo que a “ omada de posição con a o colonialismo po uguês”,
mesmo omando uma o ma nacional, não é senão concebida “em consequência, [como
uma omada de posição] con a odas as injus iças do mundo”
219
.
No en an o, a ha monização de di e en es escalas de a inidade, pe o ma izada
no discu so cab aliano e do PAIGC, conhece uma aplicação na p á ica mais á dua e
menos linea . O po encial de ensão que es e jogo de escalas albe ga, ao eme e
simul aneamen e pa a imaginá ios nacionais e ansnacionais, é-nos po ezes suge ido
no discu so de Cab al. Se es e nacionalismo in e nacionalis a é equen emen e
de endido a pa i de um luga de abnegação, onde a ónica nos in e esses nacionais é
álida apenas po que se e um p opósi o que se esp aia bem além deles, nou os
momen os ambém é usado pa a subjuga a dimensão in e nacionalis a, colocando o
in e nacionalismo nacionalis a ao se iço do in e esse nacional da Guiné e de Cabo
Ve de. Veja-se um exemplo:
Nós de emos con a com udo isso, com a ealidade do mundo in ei o (…)
pa a pode mos pô co agem pa a a ança mos com a lu a na nossa e a. Po que se
nos colocássemos apenas dian e de uma ealidade, den o da nossa abanca, pa a
pensa mos como é que amos lu a con a o uga, e a impossí el, não ha ia
possibilidade.
220
Reside aqui, no nosso en ende , um impo an e nó de ensão do discu so
cab aliano. Lemos as a i mações de Cab al no âmbi o do nacionalismo in e nacionalis a
e no âmbi o do in e nacionalismo nacionalis a, alinhando os in e esses «locais» com os
«in e nacionais» e ap esen ando-os como ex ensões na u ais uns dos ou os, enquan o
uma en a i a de e ea que o possí el desen ol imen o de um nacionalismo
«exace bado» na Guiné e em Cabo Ve de, que aça obli e a ao seu po o as lu as
maio es em que pa icipa, que a secunda ização dos in e esses das populações
guineenses e cabo- e dianas nas agendas dessas a inidades em maio escala que
in eg am. Não obs an e, a sua aplicação não é uní oca nem o equilíb io desejado é uma
219
Ve no a de odapé 189;
220
Cab al, Alguns P incípios do Pa ido, 77 [sublinhados nossos];
92
ealidade es á el, com algumas passagens a suge i os cons angimen os ge ados nes a
en a i a de usão de di e en es imaginá ios:
Pa a quê? Pa a se i o po o da Guiné e Cabo Ve de, cama adas. Nós não
ínhamos a mania de se i o po o de Angola, embo a nós, na nossa consciência de
homens, an o azia pa a nós se i em Angola, como em Moçambique como se i na
Guiné ou em Cabo Ve de.
221
A en e-se como a p imazia dada aqui ao con ex o da Guiné e Cabo Ve de sob e
os es an es é a ibuída com um ce o mal-es a , como se se a asse de uma concessão
egoís a mas necessá ia, que a “consciência de homens” subsc e ia apenas po
impe a i os es a égicos. Es e pequeno apon amen o pode se lido como um a e ac o
dos ânsi os e das ensões que con ibuem pa a a cons ução do sujei o polí ico em
análise, que se o ma na oscilação en e a libe ação nacional e os condenados da e a,
num mo imen o cons i u i o que não cessa de p ocu a sin e iza -se numa só pos u a,
num só p ojec o polí ico, num só sujei o
222
.
3.2 - Viagem da Teo ia
O objec i o da eo ia é (…) iaja , indo além dos seus limi es, emig a ,
pe manece em ce o sen ido no exílio.
223
As ideias da democ acia e libe dade, que os países ociden ais se es o ça am po
p opagandea pa a pode em encon a de enso es da sua causa, e am abso idas
so egamen e e po aqueles a quem mais cla amen e se inha ecusado a libe dade.
Vol ando-se con a os que as p opaga am e o nando-se «pe igosas» no seio daqueles
a quem não e am des inadas, essas ideias alimen a am a necessidade de libe dade nos
po os de além-ma , que, mais que quaisque ou os, as comp eendiam e a elas
ade iam.
224
221
Cab al, Análise de Alguns Tipos de Resis ência, 26;
222
Re e ência ao poema “Ha e ” de Vinícius de Mo aes, ela i a à p ocu a pela unidade de um sujei o
poé ico que é on ologicamen e agmen á io: “Em busca de uma só ida, uma só mo e, um só Vinícius.”
Vinícius de Mo aes, Ja dim No u no - Poemas Inédi os (São Paulo: Companhia das Le as, 1993), 17;
223
Said, ci ado em Sanches, Deslocaliza a Eu opa, 7;
224
Nk umah, Á ica de e uni -se, 6;

93
Em pa alelo simbió ico com a es e a da «p axis», o an i-colonialismo ins i uiu-se
como co en e de pensamen o. Fundando um campo eó ico na necessidade de
“ap o unda o (…) conhecimen o da na u eza e ca ac e ís icas do colonialismo e do
impe ialismo”
225
, mas ambém de cons ui um guião que alice çasse os seus cade nos
ei indica i os, os sujei os polí icos an i-coloniais ge a am-se a sul dispu ando
concei os como «libe ação», «independência nacional» e «emancipação». Pe an e os
guiões polí icos que a é en ão inham pa imen ado a polí ica, engaja am-se em
p ocessos de ap op iação, ma ização e sub e são ideológica, num labo pe manen e de
con as e e analogia, o que pe mi iu a es es sujei os c ia um guião an i-colonial. Tecido
na in e secção en e dis upção e con inuidade, a a és do enquad amen o p o idenciado
pelo ângulo no o – a expe iência colonial – em que se unda am es es p ojec os
polí icos, ein en a em adicalmen e algumas eses e assimila am ou as com poucas
al e ações (de es o, à semelhança de odos os guiões).
Como enómeno polí ico, o an i-colonialismo ca ac e izou-se pela
he e ogeneidade das suas mani es ações, o que e e be a com na u alidade nas
di e en es sensibilidades que compõem o seu campo eó ico. O an i-colonialismo, se
imp ime coesão ao g upo enquan o seu elemen o g egá io, não o uni o miza: é an es o
denominado -comum de um mosaico que, como e e imos an e io men e, é bas an e
di e so. Se á a es a luz que desen ol e emos uma e lexão em o no do guião polí ico
do po o da Guiné e Cabo Ve de, omando-o simul aneamen e como um p odu o de um
guião an i-colonial ge al e como uma sua a iação pa icula , o que nos pe mi i á pa i
do po o da Guiné e Cabo Ve de pa a pensa as g andes linhas de o ça do guião an i-
colonial, mas ambém e lec i sob e as eses ge ais do guião an i-colonial pa a pensa a
pa icula idade do sujei o polí ico cab aliano.
3.2.1 - Uma e lexão a mui as mãos
Das o ganizações de solida iedade in e nacionais à co espondência ocada, da
p o usão de li os, jo nais e comunicados aos encon os e comi és a di e en es escalas
geog á icas ( egionais, con inen ais, in e nacionais, e c.), o am mui os os luga es de
encon o do an i-colonialismo. As simili udes na ma iz cons i u i a de di e en es
sujei os an i-coloniais (ou a simili ude das mani es ações de um mesmo sujei o an i-
225
Ven u a, Manual Polí ico do PAIGC, 27;
94
colonial) ap esen am pa ecem se indissociá eis dessa ci culação in ensa de in o mação,
de deba es e de eses polí icas: pa a nomea alguns exemplos, quase odos g a i a am
em o no de um mesmo conjun o de concei os, a sua abo dagem à ques ão colonial
obedecia a uma pau a conjun a, as o mas polí icas do «po o» e da «nação» e am a base
dos seus cade nos ei indica i os e os objec i os enunciados e am em la ga medida
pa ilhados, com a ónica na «paz», na « elicidade» e no «p og esso». Todo es e
uni e so pa ece co obo a a p emissa de que uma eo ia an i-colonial es a a em
ci culação, mos ando-se (e azendo-se) aqui e ali, quase igual mas não a mesma
226
.
A noção de emancipação e a undamen al pa a es es guiões. Como concei o
on ologicamen e ago e eminen emen e si uacional que é, ho izon es emancipa ó ios
podiam se encon ados em di e en es con ex os. O espec o polí ico que os sujei os
an i-coloniais inham à disposição e a pois la o, dado que uma plu alidade de adições
polí icas podiam assumi con o nos emancipa ó ios se si uadas em con igu ações
pa icula es: o humanismo ( is-à- is o ali a ismo), o ma xismo ( is-à- is capi alismo),
o iluminismo ( is-à- is eudalismo) ou a neg i ude ( is-à- is sup emacia b anca), pa a
ci a algumas. Na en a i a de elabo a um guião an i-colonial emancipa ó io, a elei u a
c í ica des e cânone – à luz da expe iência (an i)colonial – possibili ou a mobilização de
elemen os de di e en es epe ó ios pa a a no a na a i a, de manei a a aze signi ica a
sua expe iência e a sus en a as suas ânsias de u u o. Se nenhuma das co en es de
pensamen o com as quais o an i-colonialismo en ou em diálogo lhe se iu em absolu o,
e explo a as azões des a inadequação auxilia-nos ambém a comp eende a sua
ges ação como campo polí ico au ónomo, de emos oda ia p ocu a pe cebe como
es es diálogos pe mi i am à e lexão an i-colonial ex ai – ap op ia – e amen as
analí icas e ca ego ias polí icas que se i am os seus p opósi os. Is o esul a á numa
dualidade con e gen e: o an i-colonialismo em uma his ó ia au ónoma, mas insc e e-se
ambém numa his ó ia polí ica das ideias que ul apassa em la ga medida, no espaço e
no empo, as suas delimi ações polí icas e e i o iais. Em jei o de no a, po ezes
econhece-se a au onomia da his ó ia do an i-colonialismo mas não an o a sua
in eg ação nes as ou as na a i as mais amplas, o que não deixa de se uma cu iosa
manei a de pe pe ua a meno ização dos sujei os an i-coloniais, celeb ando-os e
ence ando-os simul aneamen e no âmbi o da sua «pa icula idade».
226
Inspi ado no concei o de «Mimic y» de Homi Bhabha, ainda que a uma ou a luz. Homi Bhabha, The
Loca ion o Cul u e (New Yo k: Rou ledge, 1994), 121-131;
95
Aimé Césai e alude a es as iagens da eo ia e ao labo de selecção, eco e e
ea anjo ideológico que as p opulsiona, numa passagem que ilus a de o ma exempla
os p ocessos que p ocu amos as ea aqui:
Nous é ions han és pa les mêmes ques ions: celles de la ace nèg e, de
l’iden i é, de l’aliéna ion. Nous é ions bons élè es, mais, au cou s de nos é udes, jamais
nous ne pe dions de ue ces ques ions ondamen ales. Nous che chions épe dumen
dans les li es de a mes pou no e comba . Mon esquieu, Rousseau, Hegel, Ma x…
ou nous se ai .
227
A cons ução da eo ia an i-colonial oi assim um p ocesso em la ga medida
sinc é ico, que é ainda p eciso c uza com ou as dinâmicas: “The in e sec ion o locally
and egionally oo ed mobiliza ions wi h mo emen s deploying a libe al-democ a ic
ideology, wi h a emp s a a icula ing a Ch is ian uni e salism, wi h he mobiliza ions
o Islamic ne wo ks, wi h he linkages o an i-impe ialis mo emen s in di e en
con inen s, o wi h ade union in e na ionalism helped o shape and eshape he e ain
o con es a ion”
228
. O seu en endimen o u a -se-á po isso a esquemas simplis as:
mesmo quando encon amos, nos discu sos an i-coloniais, elemen os que nos
acos umá amos a ou i na boca dos seus ca ascos, eles êm de se lidos à luz do
discu so em que es ão inse idos, numa abo dagem sensí el a quem ala, p ocu ando
comp eende como es ão ali e que unções cump em nesse con ex o pa icula .
O exe cício que p opomos aqui é subsidiá io do ep o de F ede ick Coope , que
nos exo a a examina , an es de “desis i des as ideias”, o que elas signi icam e como
são usadas – “and pe haps, in being used by people in colonies, gi en a new
meaning”
229
. Desca a em absolu o as ca ego ias mode nas, de ido à sua o igem
eu ocên ica e consequen e pa icipação na es u u a de pode impe ial, cons ange-nos
a pesquisa, na medida em que pe an e imagens mode nas no discu so an i-colonial ou as
a amos como sin oma de ingenuidade (subsc e endo nes e ges o um diagnós ico de
incapacidade de supe ação da cul u a colonial), na melho das hipó eses, ou as omamos
como mani es ação de cumplicidade com a cul u a colonial e seus agen es, na pio .
Benedic Ande son chama ia ambém a a enção pa a es e p oblema, a pa i de um
227
Césai e, ci ado em Bouamama, Figu es de la Ré olu ion A icaine, 83 [sublinhados nossos];
228
Coope , Colonialism in Ques ion, 25;
229
Coope , Colonialism in Ques ion, 16;
96
exemplo pa icula de uma ca ego ia mode na, expondo os seus desdob amen os
analí icos: “Na ionalism had he e o e o be unde s ood as pa and pa cel o ha
domina ion. I s appea ance in he la e colonial wo ld, and a e wa d, had o be ead
unde he sign o inau hen ici y, no ma e how local leade s o he ype o Neh u,
Suka no, and Nk umah insis ed on i s in eg i y and au onomy”
230
.
Ou a g elha de lei u a, no nosso en ende , é possí el. Uma al e na i a que se
esqui a a es a dico omia passa po analisa como o am os guiões an i-coloniais ge ados
his o icamen e, si uando os di e en es usos dos mesmos concei os no seu con ex o – a
í ulo de exemplo, pe an e a assimilação quase inal e ada de concei os como
«p og esso» ou « azão» no discu so an i-colonial – e p ocu ando comp eende como,
nessas con igu ações, es a abso ção pode se i como a ma de a emesso con a o
discu so colonial, que é assim de o ado no seu p óp io e eno. No e-se que não
a i mamos, em momen o algum, que es es usos são imunes a con adições polí icas, ou
que os concei os em ques ão são e amen as neu as ou mesmo «uni e sais» – de es o,
conside amos que o exe cício de localização his ó ica des es usos não pode se ei o
sem um mapeamen o dessas epe cussões, po encialmen e con adi ó ias, no seu
uni e so polí ico. P opomos, sim, uma abo dagem que en a econhece no mesmo
ges o que es es concei os ca egam cons angimen os, mas que não são monolí icos,
sensí el às b echas onde in o ma am quad os de « esis ência» à dominação colonial.
Sem es e ho izon e, eceamos que a nossa in eligibilidade dos enómenos an i-coloniais
saia semp e mu ilada.
A iagem da eo ia az-se, passe-se a edundância, em mo imen o – a
me amo ose es á no âmago do seu p ocesso cons i u i o. É po isso que as ideias,
mesmo quando se em o pode , podem o na -se «pe igosas», como Nk umah a i ma a
acima. De manei a in e samen e simé ica, o no o na eo ia só pode se uma
ein enção, na medida em que as e amen as que usamos pa a c ia um no o sen ido,
como a linguagem, an ecedem semp e qualque emp eendimen o des e ipo – “[n]o
sen ido li e al ou o mal de um começo – que, po isso mesmo, não pode e i a se um
ecomeço”
231
. A c iação, no que conce ne às ideias polí icas, é semp e dialéc ica no que
230
Ande son, “In oduc ion,”11;
231
B uno C. Dua e, “In odução,” in Da C í ica, ed. e o g. B uno C. Dua e (Lisboa: Documen a,
2012),46;
103
di e en es, indagando pela coe ência e ope acionalidade des es concei os. Quando
Cab al, em Ha ana, e e e aqueles que que iam que a nossa e olução osse uma
Re olução
250
, e a com es a polissemia que joga a. Temos po isso que adop a a
suges ão de Hump y Dump y e acei a que a his ó ia des es concei os é a ambém
his ó ia de uma dispu a: “ he ques ion is (…) which is o be Mas e ”
251
.
Des e modo, analisa es as con e gências dos «concei os-cha e» é um exe cício
a se ei o com cau ela. A i ma que alguns concei os insc e em-se numa linha de
con inuidade pode obscu ece o ac o de, po ezes, essa con inuidade se e ge ado a
pa i de uma sé ie de up u as. Ou quando encon amos o discu so dos «dominados» a
assimila , da manei a quase absolu a, alguns concei os do discu so da «dominação»,
a i ma que há uma ep odução do discu so colonial po pa e dos mo imen os an i-
coloniais pode o usca o ac o de essa assimilação, no con ex o em que é p o e ida,
cump i de e minadas unções polí icas, como se i de «a ma de a emesso» - o que
não in alida uma análise pa alela das suas epe cussões epis emológicas, e idenciando
o ca ác e p oblemá ico desse uso.
O concei o sob e o qual nos deb uça emos de seguida, o de «p og esso», é disso
pa adigmá ico. Pe an e um discu so an i-colonial que mime iza a noção de
desen ol imen o do discu so das po ências coloniais, sem uma análise que in eg e es e
ges o na ealidade caleidoscópica em que eme ge, a en o às sub ilezas e axonomias
p óp ias do con ex o, es a-nos uma pos u a maniqueís a que ou celeb a, ei icando, o
«p og esso» como modelo de desen ol imen o uni e sal, ou condena os guiões an i-
coloniais enquan o “agen es da sua p óp ia subjugação”, ao subsc e e em as eses das
mesmas epis emologias do no e que, em p imei a e úl ima ins ância, os subal e nizam.
P opomos, ao in és, uma análise que possibili e um ou o ipo de in eligibilidade des as
dinâmicas, median e um enquad amen o que não as deixe e éns de sen enças a
mon an e e a jusan e.
250
“C emos que es a é mais uma lição pa a odos, mas pa icula men e pa a os mo imen os de libe ação
nacional e, em especial, pa a aqueles que p e endem que a sua e olução nacional seja uma Re olução.”
discu so é aquele dos undamen os (…)” Cab al, “Fundamen os e objec i os da libe ação nacional em
elação com a es u u a social”, 200;
251
“The ques ion is,’ said Alice, ‘whe e you can make wo ds mean so many di e en hings.’
‘The ques ion is,’ said Hump y Dump y, which is o be Mas e – ha ’s all.”ci ado em Ca he ine Belsey,
Pos s uc u alism: A Ve y Sho In oduc ion (New Yo k: Ox o d Uni e si y P ess, 2002), 2;

104
Des e modo, analisa emos a cen alidade do «p og esso» nos guiões an i-
coloniais à luz da con ingência do seu con ex o, a en ando no ac o da abso ção quase
in eg al des a ese do no e se i como «a ma de a emesso» con a os agen es
coloniais que p imei amen e dela se inham se ido, ao mesmo empo que e idenciamos
as ensões que esse uso albe ga, em e mos de coe ência holís ica, nos imaginá ios an i-
coloniais. Mesmo que a p emissa seja quase a mesma, os seus di e en es
enquad amen os de em impedi -nos de homogeneiza os seus usos. Conside amos que
al abo dagem nos pe mi e, po um lado, e i a juízos de alo dep ecia i os dos
mo imen os an i-coloniais, que os acusa iam do ca ác e “ac í ico” des e ges o, mas
ambém, po ou o lado, auxilia -nos a não ei ica a noção de «p og esso»,
p oblema izando as implicações des e ges o e os luga es de ensão que ele po ezes
o igina no discu so an i-colonial.
3.3.2 - O «p og esso» no imaginá io an i-colonial
O Pa ido é o ins umen o de ans o mação da nossa sociedade, p imei o pa a
expulsa da nossa e a o colonialismo, em segundo luga , pa a cons ui o p og esso
do nosso país.
252
E ymologically, he wo d is o La in o igin, and combines wo elemen s, p o and
g adi, meaning o walk o wa d. In gene al usage, he e m has come o be synonymous
wi h such wo ds as ad ancemen , g ow h, de elopmen , o imp o emen . (…) ‘The idea
o human p og ess is a heo y which in ol es a syn hesis o he pas and a p ophecy o
he u u e. I is based on an in e p e a ion o his o y which ega ds men as slowly
ad ancing in a de ini e and desi able di ec ion, and in e s ha his p og ess will
con inue inde ini ely’
253
O «uni e salismo» que euni a a humanidade numa mesma comunidade de
di ei os e a o mesmo que a subo dina a a uma hie a quia de desen ol imen o,
di idindo o mundo en e «a anço», «a aso» e odos os es ágios que esses dois pólos
comp eendem. Em pa alelo e em a iculação, a ciência desen ol eu-se na sua acepção
252
Ven u a, Manual Polí ico do PAIGC, 14;
253
James H. S. Bossa d “The Concep o P og ess,”Social Fo ces10, No. 1 (Oc obe 1931): 5-14;
105
posi i is a – is o é, como a única on e legí ima do conhecimen o – o nando-se um
ins umen o que, en e ou as unções, a a a de a e i esses á ios g aus de
desen ol imen o. «P og esso» e «ciência» co po iza am assim “one o he de ining
ea u es o mode n knowledge (…) [one ha ] p esumed a sha p dis inc ion be ween a
disenchan ed na u e, which was o be unde s ood in e ms o laws and egula i ies, and
a newly disco e ed objec called socie y, which was a ealm o meaning, pu poses and
ends (…) also [ e e ing] he o de be ween god(s) and men, p esuming ha gods we e
o be explained in e ms o men, a he men in e ms o gods”
254
.
O p og esso conheceu cu iosas a essias, ao o na -se ans e sal ao espec o
polí ico mode no na sua quase o alidade: é pa imónio comum a é de p ojec os
polí icos que p o agonizam en e si uma elação de an agonismo. Viajou na bagagem da
«missões ci ilizacionais», cená io onde le a o p og esso e a sinónimo de ci iliza e
uma das insígnias mais dis in as no a senal legi imado do colonialismo; mas o
p og esso oi ambém ab açado po p ojec os polí icos que si ua íamos no espec o
polí ico à «esque da», ao pon o de uma sua de i ação semân ica – p og essis a –
con inua , a é aos dias de hoje, a se usada pa a denomina esses g upos.
A no á el ampli ude ideológica do «p og esso» pa ece se o iginada po uma
pe cepção pa icula : a ín ima elação que man ém com a ideia de «melho amen o»,
que, sendo um caminho-de- e o um caminho-de- e o em odos os segmen os do
espec o polí ico, pe ence ia à o dem da écnica e, po isso, neu o ideologicamen e.
Con udo, a dou ina edi icada sob e a noção de «p og esso» não e a inócua
ideologicamen e – como, de es o, uma ex ensa bibliog a ia se em es o çado po
demons a
255
- pa icipando de uma mundi idência que in e io iza a uns e
supe io iza a ou os, como um dos en áculos mais sub is e insidiosos do acismo.
«P og esso» e «melho amen o», como se o p imei o osse uma espécie de edi ício
maciço cons uído sob e o segundo (ainda que a p óp ia noção de «melho amen o»
possa e de a se p oblema izada). No en an o, se se ia um e o não sublinha es e
ca ác e in ínseco do «p og esso» e as implicações polí icas que acaba semp e po e ,
se ia ambém um e o homogeneiza os seus usos, sem a en a que eles, no seu núme o
i ualmen e inesgo á el, es ão em ânsi o en e es as duas noções, de «p og esso» e
«melho amen o», umas ezes omando usos mais no sen ido de ep oduzi essa
254
Sanjay Se h, “«Once Was Blind Bu Now Can See»,” 138;
255
T abalhos de Theodo Ado no e Max Ho kheime , Sanjay Se h, AmyAllen, en e ou os;
106
hie a quia de desen ol imen o, nou as omando-os mais no sen ido de
«melho amen os» (o que não in alida, cla o, que ep oduzam ou a é mesmo acei em
essa hie a quia de desen ol imen o, mas con inuando a se p eciso, ainda assim, aze
uma dis inção en e es as si uações).
Pa a os p ojec os polí icos an i-coloniais, a noção de «melho amen o» assumia
um ca ác e pa icula men e u gen e, dadas as condições de ida que en o ma am o
quo idiano da esmagado a maio ia das populações colonizadas e que o discu so an i-
colonial ei e adamen e denuncia. A p omessa de melho a essas condições de ida e a
um das medidas mais impo an es, senão a mais impo an e, dos cade nos
ei indica i os an i-coloniais, e ela coincidia no seu discu so com a apologia do
«p og esso».
Amílca Cab al, que almeja um empo em que “[sabe emos] que na lo es a, no
ma o, nós é que mandamos, nós os homens, não é nenhum bicho, nem nenhum espí i o
que es á lá me ido”
256
, pa icipa des a adopção gene alizada do «p og esso» e do
modelo de desen ol imen o que condensa, sus en ado na c ença secula de que é o
modelo ce o. No seu discu so, pois, é ese ado pa a o «p og esso» um luga de
absolu a cen alidade, onde é concebido simul aneamen e como um meio e como um
im em si mesmo: se é pa e do caminho pa a a « elicidade», po ezes con unde-se
mesmo com essa « elicidade»
257
. Uma lei u a de conjun o das á ias (e longas)
passagens que Amílca Cab al lhe dedica pe mi iu-nos ap eende as di e en es unções
que a noção de «p og esso» desempenha no seu discu so: in e pela a necessidade de
uma melho ia gene alizada do ní el de ida na Guiné e em Cabo Ve de, ap esen ando-
se como a sua solução
258
; é a con inuação do ges o emancipa ó io que se inaugu a com a
libe ação do colonialismo, que em na « ealização do p og esso» o seu
256
Cab al, Alguns P incípios do Pa ido, 68;
257
“Nós que es amos dispos os a mo e numa lu a, pa a o p og esso e a elicidade do nosso po o (…)”
Cab al, Análise a Alguns Tipos de Resis ência, 98; “Odia os inimigos do p og esso e da elicidade do
homem (…)” Amílca Cab al, “Uma luz ecunda ilumina o caminho da lu a: Lénine e a lu a de libe ação
nacional,” in Ob as Escolhidas de Amílca Cab al - A ma da Teo ia. Unidade e Lu a, ( ol. 1), coo d.
Má io And ade (Lisboa: Sea a No a, 1978),215; “(…) in e esses de oda a Humanidade p og essis a que
que cons ui a paz, o p og esso e a elicidade pa a odos os po os do mundo.” Ven u a, Manual Polí ico
do PAIGC, 10;
258
“Es amos con encidos de que, se o p og esso não se pode conc e iza sem a liquidação o al do
colonialismo e das suas sequelas, sem uma independência eal, ambém é ce o que os po os a icanos
não pode iam comp eende es a independência se i essem de con inua a le a uma ida mise á el e
cheia de so imen os.” Cab al, “A Re olução A icana,” 69;
107
p olongamen o
259
(exe cícios que chegam a equipa a -se no seu discu so); e in eg a o
epe ó io de c í ica ao colonialismo, ab indo-lhe mais uma en e de comba e (a
assimilação da noção de «p og esso» cul i ada pelas epis emologias do no e pe mi e
esponsabilizá-las pelo acasso da sua conc e ização, uncionando como uma espécie
de «a ma de a emesso»). No e-se que não a i mamos, em momen o algum, que a
abso ção do concei o de «p og esso» isa a es as á ias unções que lhe econhecemos,
mas sim que, no discu so cab aliano, os seus usos podem se ag upados sob es as
di e en es ca ego ias.
Tomando a e cei a imagem que associámos à ideia de «p og esso» cab aliano,
que a oma como «a ma de a emesso», e a pois no p óp io e eno concep ual das
po ências coloniais que Cab al as p e endia de o a , sublinhando que as g andes ob as
do «p og esso» nunca inham sido conc e izadas na Guiné e Cabo Ve de – se ia o
PAIGC a ealiza essa a e a. Nes e cená io, o diagnós ico de «a aso» que é subsc i o à
Guiné e a Cabo Ve de pela abso ção da ideia de p og esso não só não e a con es ado,
como e a os ensi amen e anunciado, na medida em que – e es a in lexão é de
impo ância capi al – esse «a aso» e a uma consequência do colonialismo, pela mão da
sua a ian e po uguesa, que inha impedido o «po o da Guiné e Cabo Ve de» de se
«desen ol e » - em suma, não azendo nem deixando aze . O sujei o polí ico que se
engaja no de ube do colonialismo, ambém po es e obs ui o caminho do
desen ol imen o, se á assim aquele que, consequen emen e, co igi á es e «a aso».
Ins umen o de e u ação do colonialismo e pla a o ma de a i mação das
populações colonizadas, o p og esso eme gia como um dos sus en áculos mais
impo an es do «po o da Guiné e Cabo Ve de», con igu ando-lhe um p og ama de
u u o. De es o, o p og esso e a um dos desdob amen os da p omessa uni e salis a, da
qual, imos já, es e sujei o polí ico se eclama a.
Toda ia, as implicações polí icas e eó icas des e exe cício se iam as as,
con e gindo pa a o ma um dos maio es nós de ensão no discu so cab aliano. A
assimilação da hie a quia de desen ol imen o que a noção de p og esso condensa, bem
como das suas p emissas epis emológicas, le a á Cab al a dep ecia mui as das o mas
de compo amen o e espi i ualidade que en o ma am o quo idiano de mui os guineenses
e cabo- e dianos com quem pa ilha a inchei as, ole ando-as com
259
“O Pa ido é o ins umen o de ans o mação da nossa sociedade, p imei o pa a expulsa da nossa e a
o colonialismo, em segundo luga , pa a cons ui o p og esso do nosso país.” Ven u a, Manual Polí ico do
PAIGC,14;
108
condescendência
260
. E, à luz da noção de «p og esso», a condenação do colonialismo
ans o ma a-se subs ancialmen e:
Mas nós somos uma e a desen ol ida? Não. Somos a asados
economicamen e sem desen ol imen o nenhum, an o na Guiné como em Cabo Ve de.
Não há indús ia a sé io, a ag icul u a é a asada, a nossa ag icul u a é do empo dos
nossos a ós. As iquezas da nossa e a o am i adas, sob e udo, do abalho do
homem. Mas os ugas não ize am nada pa a desen ol e qualque iqueza da nossa
e a, absolu amen e nada.
261
Com e ei o, a pa i do eixo do «p og esso» as ilações e i adas da expe iência
colonial são subs ancialmen e di e en es daquelas pos uladas po Cab al quando a ónica
é colocada nou os concei os, como o de «dignidade», a í ulo de exemplo – chegando
mesmo a se con adi ó ias. A i ma que “os ugas não ize am nada pa a desen ol e
qualque iqueza da nossa e a, absolu amen e nada”, é a i ma implici amen e que a
expe iência colonial, se não podia e sido boa, podia e sido melho . Es e é um
posicionamen o co obo ado nou as passagens, onde Cab al eco e a compa ações
com ou as po ências coloniais pa a ilus a a «incompe ência» do colonialismo
po uguês, azendo-lhes uma espécie de elogio-po -oposição:
Quando amos a Daka e emos o po o de Daka , ou mesmo o po o de
Conak y, que são bons po os, quan o mais se o mos a Abidjan ou a Lagos na Nigé ia,
podemos e como é que os anceses e os ingleses ize am bons po os, g andes po os,
onde in e e al ba cos ou mais podem a aca . E emos quan o empo o uga pe deu a
goza -nos, a oma , a le a , e a b inca connosco. Não ize am nada pa a a nossa
e a.
262
O a, ainda que es e uni e so do discu so cab aliano cump a uma unção polí ica
ób ia – de deslegi ima o mais possí el o colonialismo po uguês – ele en a em o a de
260
“Vocês podem dize isso cama adas, mas eu enho espe ança que os ilhos dos nossos ilhos, quando
ou i em isso, ica ão con en es po que o P.A.I.G.C., oi capaz de aze a lu a de aco do com a ealidade
da sua e a, mas hão-de dize : os nossos pais lu a am mui o, mas ac edi a am em coisas esquisi as.”
Cab al, Análise a alguns ipos de Resis ência, 68;
261
Cab al, Alguns P incípios do Pa ido, 56 [sublinhados nossos];
262
Cab al, Alguns P incípios do Pa ido, 56 [sublinhados nossos];

109
colisão a dinâmica ge al do mo imen o an i-colonial, que e idencia a semelhança
es u u al do sis ema colonial e secunda iza as pa icula idades de cada con igu ação
colonial, e com o p óp io discu so de Amílca Cab al. Con as emos es as acusações de
«incompe ência» do colonialismo po uguês, que êm na génese a hipó ese do
colonialismo não e sido bom mas e sido mais compe en e, com a seguin e passagem:
Pe gun a -nos-ão se o colonialismo po uguês não e e uma acção posi i a em
Á ica. A jus iça é semp e ela i a. Pa a os a icanos, que du an e cinco séculos se
opuse am à dominação colonial, o colonialismo po uguês é um in e no; e onde eina o
mal não há luga pa a o bem.
263
A con li uosidade des as imagens quando jus apos as ad ém dos pon os de
pa ida epis emológicos di e gen es de que pa em. Sob o ângulo do «p og esso»,
mesmo noções como as de «dignidade», ão impo an es pa a es es guiões, se sac i icam
em nome de um « im maio », que é o do «p og esso». Di -se-ia, nes e pon o, que Cab al
comunga a do mesmo pecado que Ma x, no deco e da análise sob e a colonização da
Índia: “unde hese ci cums ances impe ialism was an agen o p og ess, in spi e o
Ma x’s sympa hy wi h i s ic ims. ‘England’, he concluded as B i ain was c ushing he
Indian Mu iny in 1853, ‘has a double mission in India: one des uc i e, he o he
egene a ing – he annihila ion o old Asia ic socie y, and he laying o he ma e ial
ounda ions o wes e n socie y in Asia’”
264
. Encon amos mesmo no discu so cab aliano
imagens análogas à des a «dupla missão b i ânica na Índia», nomeadamen e quando
Cab al a i ma que o que in e essa aos po os colonizados é sabe se “o impe ialismo,
como capi al em acção, [cump iu] (…) a missão his ó ica que lhe es a a ese ada”
265
–
uma «missão» que a «ideologia do p og esso» lhe inha assignado, e que nos
enunciados ma xis as inha o seu apogeu na sociedade sem classes. Analisa emos no
p óximo subcapí ulo como o ma xismo e a, nes a ques ão, eminen emen e mode no,
o mando jun amen e com o libe alismo a p ogeni u a da mode nidade
266
- e dispu ando
o í ulo de seu paladino.
263
Cab al, “A Dominação Colonial Po uguesa,” 59;
264
Ka l Ma x, ci ado em Wes ad, The Global Cold Wa , 50;
265
Ven u a, Manual Polí ico do PAIGC, 27;
266
“Ma xism and libe alism a e no only p oduc s o he mode n age bu also champions o i . They sha e
conce ns and make assump ions abou human socie y and eason which ma k hem unmis akably as
p ogeny o he Enligh enmen , and hey see in he mode n ha which is bo h ine i able and desi able.”
110
Vol ando à dis ância que sepa a o Amílca Cab al que elogia os po os anceses
do Amílca Cab al que condena ans e salmen e o sis ema colonial, o concei o de
«p og esso», mais a é do que pon o de ensão onde os seus desdob amen os colidem
com ou as p emissas do discu so cab aliano, pa ece mesmo con igu a um uni e so
au ónomo no pensamen o de Cab al. A cons elação que emos es ado a compo nes a
disse ação des abiliza-se quando em ace do «p og esso», na medida em que quase
odos os concei os que êm p o agonizado a nossa exposição ganham no as alências
em co elação com o ângulo do «p og esso» ou ao se em subme idos ao exame da
ciência - com e ei o, o p og esso pa ece pa ece e uma «cons elação» p óp ia.
Es a desa umação dos luga es pode se au e ida pelo concei o de «cul u a», a
í ulo de exemplo. Quando em a iculação com o concei o de «libe ação», de
«dignidade» ou de « esis ência», a «cul u a» é celeb ada como a base da «lu a de
libe ação», exal ada como a sua azão de se ; mas quando em ace do «p og esso» ou
da «ciência», a eição que é sublinhada é o ac o de se “cheia de aqueza dian e da
na u eza”
267
e de necessi a de uma in e enção ans o mado a, no sen ido de i a
“ i a da nossa cul u a udo quan o é an icien í ico”
268
. As concepções de his ó ia que
encon amos associadas a um e a ou o uni e so e lec em es a ambi alência do p ojec o
polí ico que o PAIGC ocaliza a, dada a di e ença das suas ma izes de signi icação.
Es a dinâmica pa icula do discu so cab aliano de e in o ma -nos de algumas das
con adições que es i e am na génese dos p ojec os an i-coloniais, e que se e ela ia
de e minan e no umo que mui as das no as independências segui am.
3.4 - Ma xismo e An i-Colonialismo
As I’ e said, ne e again do we wan ou people o be exploi ed. Ou desi e o
de elop ou coun y wi h social jus ice and powe in he hands o ou people is ou
ideological basis. Ne e again do we wan o see a g oup o a class o people exploi ing
o domina ing he wo k o ou people. Tha ’s ou basis. I you wan o call i Ma xism,
you may call i Ma xism. Tha ’s you esponsabili y.
269
Sanjay Se h, “In e p e ing Re olu iona y Excess: The Naxali e Mo emen in India, 1967–71,” Posi ions
3, nº2 (1995): 589;
267
Cab al, Alguns P incípios do Pa ido, 68;
268
Cab al, Análise de Alguns Tipos de Resis ência, 86;
269
Chabal, Amilca Cab al: Re olu iona y Leade ship and People’s Wa , 168;
111
A e is a Viewpoin publicou ecen emen e uma en e is a de 1992 a Ab aham
Se a y, mili an e comunis a an i-colonial de Ma ocos, com o cu ioso í ulo “Decidedly
Ma xis ”
270
. Nes a necessidade de ei e a a a iliação ma xis a do en e is ado ecoa a
suspeição que pai ou sob e mui os ma xis as do Te cei o Mundo que, ao p ocu a em
adap a as eses clássicas do ma xismo a con ex os di e en es daquele em que inham
sido o iginadas, i am a sua idelidade à ma iz ma xis a ques ionada. Temos mesmo
conhecimen o de expulsões da In e nacional de algumas igu as que en a am c uza as
eses ma xis as com ou os guiões polí icos, os que nas colónias se assumiam como
pla a o mas de dissenso ao sis ema colonial e impe ial: casos de Mi said Sul an-
Galie
271
, com a ques ão eligiosa, ou de Geo ge Padmo e
272
, com a ques ão acial. As
en a i as de ac ualização e e o mulação da dou ina, de modo a dila a -lhe a
ab angência analí ica e a in e pelação polí ica, ize am-se mui as ezes sob a ameaça de
os acismo do campo ma xis a.
Toda ia, es a elação de p oximidade en e o ma xismo e a oposição ao
colonialismo em uma his ó ia longa. Vá ias são as igu as cujo pe cu so epi omiza o
c uzamen o ín imo des es dois uni e sos, como W.E.B. Du Bois, F anz Fanon, Ho Chi
Minh, C.L.R. James ou Aimé Césai e. As eses ma xis as, ao se em um ins umen o
pa a pensa simul aneamen e a emancipação e a in e secção his ó ica en e o
capi alismo e o colonialismo (na céleb e o mulação de Lenine, o impe ialismo sendo o
úl imo es ágio do capi alismo) e enquan o ins umen o pa a pensa a emancipação,
inspi a am uma pa e conside á el da c í ica ao sis ema colonial. A í ulo de exemplo, o
encon o an i-impe ialis a de B uxela, em 1927, se ia denominado po Saïd Bouamama
como pa adigma do “an i-colonialismo comunis a”, chamando ambém a a enção pa a a
270
Ab aham Se a y, Robe o Mozzachiodi and Joe Haynsaqui, “Decidedly Ma xis : An In e iew wi h
Ab aham Se a y (1992),” Viewpoin Magazine, Ma ch 5, 2019,
disponí elemh ps://www. iewpoin mag.com/2019/03/05/decidedly-ma xis -an-in e iew-wi h-ab aham-
se a y-1992/;
271
“As S alin’s depu y as Comissione o Na ionali ies, he Bashki Communis [Galie ] a gued ha “all
colonized Muslim peoples a e p ole a ian peoples” wi hou s ong class con adic ions, and ha he
libe a ion o he colonies was an essen ial p econdi ion o e olu ions in he Wes . “So long as
in e na ional impe ialism… e ains he Eas as a colony whe e i is he absolu e mas e o he en i e
na u al weal h”, Galie s essed, “i is assu ed o a a o able ou come o all isola ed economic clashes
wi h he me opoli an wo king masses, o i is pe ec ly able o shu hei moun hs by ag eeing o mee
hei economic demands”. Unde s andably, as S alin’s s a ose wi hin he go e nmen , Galie ’s ell. He
was expelled om he pa y in 1923, accused o wan ing o o ganize a sepa a e an icolonial In e na ional
and o claiming a p og essi e ole o Islam in he libe a ion o Asian peoples. As S alin’s hold on he
So ie pa y inc eased in he 1920’s, dissiden oices om he Thi d Wo ld we e s i led bo h wi hin he
So ie Union and wi hin Comin e n.” Wes ad, The Global Cold Wa , 53;
272
Michael O. Wes , “The Communis In e na ional and he «Neg o Ques ion».” Black Pe spec i es, July
28, 2015, disponí el emh ps://www.aaihs.o g/ he-communis -in e na ional/;
112
“in luence (…) dé e minan e dans l’é olu ion poli ique des cong ès pana icains”
273
que
a sensibilidade ma xis a neles ha ia p o agonizado. Em pa alelo, a In e nacional
apoia a os mo imen os de con es ação ao colonialismo, ainda que mui as ezes osse
cla a em p incípio
274
mas ambígua na p á ica.
A explosão do «não-Ociden e», na segunda me ade do século XX, in ensi ica ia
es a elação, bem como alguns deba es que inham já luga no campo ma xis a. O
esquema de e apas e as ca ego ias ma xis as clássicas, subsidiá ias ainda de uma
e lexão que “ om i s nine een h-cen u y o igins Ma xism had concen a ed i s analysis
and p edic ions on Eu ope and Ame ica, and had had li le ime o o in e es in hose
coun ies in which capi alism had no ye been es ablished as he main ehicle o
exploi a ion”
275
, se iam pouco a luga es onde a indus ialização, a p ole a ização e a
u banização não e am ealidades. Se po um lado a in e secção en e an i-colonialismo e
ma xismo e a p opulsionada pelos ma xis as do Te cei o Mundo, ao p ocu a em
desen ol e um p og ama polí ico que, sal agua dando o essencial das eses ma xis as,
pudesse se aplicado nos seus con ex os, po ou o uma polí ica de p oximidade aos
mo imen os “na i is as” (os mais des acados ep esen ados po Nasse , Neh u ou
Suka no) oi cul i ada pelo bloco comunis a
276
, u o da con e gência em alguns
posicionamen os, sob e udo no que dizia espei o à condenação das dinâmicas
«neocoloniais» ou «neocolonialis as».
E a nes e uni e so que Amílca Cab al ambém se mo ia. No en an o, ao
con á io de Se a y, não pa ecia e in e esse num passapo e inequi ocamen e
ma xis a, pelo con á io. Cul i ando uma pos u a «equidis an e mas não neu a», iel à
ese de que a sua «lu a de libe ação» é uma omada de posição em si
277
, Cab al ope a á
com habilidade nos equilíb ios ágeis da Gue a F ia, esqui ando-se a iden i icações
cla as e inequí ocas em ma é ias que ex a asam o âmbi o an i-colonial e que in eg am
as pau as das duas supe po ências da Gue a F ia. Na lógica que anima o «nacionalismo
273
Bouamama, Figu es de la Ré olu ion A icaine, 35;
274
Resolução adop ada no segundo cong esso da Te cei a In e nacional: “Dans la ques ion des colonies e
des na ionali és opp imés, les Pa is des pays don la bou geoisie possède des colonies ou opp ime des
na ions doi en a oi une ligne de condui e pa iculiè emen clai e e ne e. Tou Pa i appa enan à la
IIIème In e na ionale a pou de oi de dé oile impi oyablemen les p ouesses de «ses» impé ialis es aux
colonies, de sou eni , non en pa oles mais en ai , ou mou emen d’émancipa ion dans les colonies,
d’exige l’expulsion des colonies des impé ialis es de la mé opole.” Ci ado em Bouamama, Figu es de la
Ré olu ion A icaine, 33;
275
Wes ad, The Global Cold Wa , 50;
276
Pa a mais in o mação sob e es a elação, e capí ulo e cei o de Wes ad, The Global ColdWa ,73-
109;
277
Ve no a de odapé 193;
119
Desejamos sob e udo que es as páginas possam se um con ibu o pa a as mui as
his ó ias mobilizadas na sua concepção, onde podemos encon a a ins i uição do an i-
colonialismo como campo au ónomo de acção e e lexão polí ica, a p oblemá ica da
«dominação» e da «emancipação», as genealogias das ca ego ias mode nas de «po o»,
«nação» ou «classe», a discussão em o no do p óp io concei o de «mode nidade» e da
on ologia do polí ico, que in o ma o quad o eó ico com que pensamos os enómenos
colec i os. Tomando o «sujei o polí ico» cab aliano como um nó numa as a ede, o
exe cício que ensaiámos aze aqui pode se ilus ado com ecu so à me á o a do
elescópio: p ocu ando comp eende como as g andes linhas de o ça da segunda
me ade do século XX são ap op iadas de o ma singula no «po o da Guiné e Cabo
Ve de», es a pos u a co esponde ia ao ges o de amplia a imagem, desc e endo um
mo imen o que, pa indo da as idão des a ede, ai paula inamen e pa a um pon o
especí ico no seu seio; o ges o in e so co esponde ia ao modo como, pa indo do
«po o da Guiné e Cabo Ve de», p ocu ámos insc e e as suas dinâmicas a escalas
maio es, pe dendo p og essi amen e a ni idez dos seus con o nos pa icula es mas
possibili ando a obse ação das dinâmicas mais la as em que se in eg a.

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Anexos
1 – Comba en e do PAIGC lê comunicado a um g upo de mulhe es
289
:
289
Fo og a ia disponí el no a qui o Casa Comum – Fundação Má io Soa es em
h p://casacomum.o g/cc/ isualizado ?pas a=05222.000.008 ;
128
2 – Fo og a ia da Ma cha Pela Paz no Ha lem, a 15 de Ab il de 1967
290
:
290
Fo og a ia disponí el em Fes i al Ambulan e, h ps://www.ambulan e.o g/en/documen ales/ningun-
ie nami a-me-ha-llamado-neg o/;