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* P o esso Auxilia do Depa amen o de Filosofia da Faculdade de Le as da Uni e sidade do
Po o e in es igado do Ins i u o de Filosofia da Uni e sidade do Po o, Via Pano âmica s/n; 4150-564
Po o. Email: paulo. [email protected]. Cump e-me ag adece a Sofia A aújo, cuja lei u a me pe mi iu
melho a conside a elmen e o ex o, e a João San os, que me deu a conhece alguma li e a u a ecen e
sob e Hegel, nomeadamen e os impo an es abalhos de Kenne h R. Wes phal.
PAULO TUNHAS*
TELOS E ERINNERUNG NA VIDA DO ESPÍRITO SEGUNDO HEGEL
Abs ac
The A is o elian concep o elos and he Pla onic concep o anamnesis a e bo h cen al o
Hegel’s sys em. They o ganize he p ocess h ough which ime is specula i ely conque ed in Absolu e
Knowledge. The idea o a eleological de elopmen o Geis is undamen al o Hegel’s concep ion o
human his o y and o his econs uc ion o philosophy’s his o y. The same happens wi h he idea o
a e u n, h ough he ecollec ion (anamnesis, E inne ung) o all he figu es o hough , o he e e nal
de e mina ions o he logos.
Keywo ds: Absolu e Knowledge, Recollec ion, Teleology.
Au ho s: Hegel.
Resumo
O concei o a is o élico de elos e o concei o pla ónico de anamnesis são ambos cen ais pa a o
sis ema hegeliano. Eles o ganizam o p ocesso a a és do qual o empo é especula i amen e conquis ado
no Sabe Absolu o. A ideia de um desen ol imen o eleológico do Espí i o é undamen al na concepção
hegeliana da his ó ia humana e na sua econs ução da his ó ia da filosofia. O mesmo acon ece com a
ideia de um e o no, a a és da ememo ação (anamnesis, E inne ung) de odas as figu as do pensamen o,
às de e minações e e nas do logos.
Pala as-cha e: Sabe Absolu o, Rememo ação, Teleologia.
Au o es: Hegel.
A filosofia pa icipa pa cialmen e da ficção, no sen ido em que, sob e udo quando é
sis emá ica (e endencialmen e é-o semp e), p ocu a c ia um mundo que não é coinciden e
com o da nossa pe cepção habi ual da ealidade. Tal é sem dú ida mais no ó io nas
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chamadas «me a ísicas e isioná ias», pa a u iliza a linguagem de P. F. S awson (Leibniz
ou Be keley, po exemplo), do que nas «me a ísicas desc i i as» (A is ó eles ou Locke,
po exemplo)1. Mas mesmo es as úl imas pa ilham, na u almen e, essa ca ac e ís ica.
Dize que a filosofia pa icipa da ficção não equi ale a dize que ela não obedece a eg as
cons ingen es. A ficção filosófica possui mecanismos de au o- egulação que, en a icamen e,
não são os da li e a u a, e possui uma des inação que não é a des a: a exibição de um
máximo de sen ido, de um pleno ideal de in eligibilidade, de uma sa u ação comple a
do pensá el. A explici ação des a ese exigi ia algo como a elabo ação de uma «poé ica
da filosofia», que aqui não podemos p opo 2. Mas a sua menção e a necessá ia, já que
a filosofia hegeliana ilus a, al ez mais do que qualque ou a, a dimensão ficcional da
filosofia, como, espe a-se, se e á ao longo des e ex o3.
É, de ac o, de Hegel que se a a á aqui. P ocu a -se-á, no que se segue, escla ece
os modos de acção, no sis ema hegeliano – is o é, na « e dadei a figu a na qual a e dade
exis e4» –, de dois concei os de p o eniência di e sa – a is o élica um, pla ónica ou o
– que Hegel pa a si ecupe a, is o é, de que se ap op ia a pa i da o ma p óp ia da sua
filosofia. São eles os concei os de elos e de anamnesis <E inne ung>.
Quem i e lido, um pouco que seja, o ex o hegeliano, sabe, a é pela p óp ia
expe iência da dificuldade de lei u a5, que as supe ações e in eg ações p óp ias à his ó ia
da filosofia que Hegel p a ica azem consigo ans o mações de sen ido dos e mos e
concei os colhidos em ou os filóso os, algumas delas ão g a es quan o decisi as pa a a
a gumen ação hegeliana. A lei u a hegeliana p ocede semp e pela ans o mação do sen ido
1 STRAWSON, P.F., Indi iduals, Me huen, Lond es 1959, pp. 9-10.
2 Ela de e ia e em con a as in es igações de Ma ial Gue oul sob e a na u eza dos sis emas
filosóficos (GUEROULT, M., Philosophie de l’his oi e de la philosophie, Aubie , Pa is 1979). Pa a um b e e
esumo da posição de Gue oul , c . TUNHAS, P., O pensamen o e os seus objec os. Manei as de pensa e
sis emas filosóficos, Edições da Faculdade de Le as da Uni e sidade do Po o, Ins i u o de Filosofia /
MLAG Discussion Pape s, Po o 2012, pp. 7-8.
3 Pa a Te y Pinka d, que, e e indo a dis inção s awsoniana en e desc i i o e e isioná io, lhe
p e e e a dis inção pa alela en e econs u i o e cons u i o, a filosofia hegeliana, nomeadamen e a sua
lógica, é simul aneamen e econs u i a e cons u i a (c . PINKARD, «The logic o Hegel’s Logic», in M.
INWOOD (ed.), Hegel, Ox o d Uni e si y P ess, Ox o d 1985, pp. 85-109, especialmen e pp. 89-91).
4 PhG, III: 14. As e e ências aos ex os de Hegel a -se-ão segundo a edição em 20 olumes das
suas ob as, o ganizada po E a Moldenhaue e Ka l Michel e publicada pela edi o a Suh kamp (1969-
1972), e e indo p imei o o í ulo, em ab e ia u a, e depois o olume e a página. As ab e ia u as se ão
as seguin es: Enz (Enciclopédia das Ciências Filosóficas); GPhR (P incípios da Filosofia do Di ei o); PhG
(Fenomenologia do Espí i o); VGPh (Lições sob e a His ó ia da Filosofia);VPHR (Lições sob e a Filosofia
da Religião); WL (Ciência da Lógica; os alga ismos omanos I, II e III e e em-se, espec i amen e, à
«Lógica do Se », à «Lógica da Essência» e à «Lógica do Concei o»).
5 Sob e a dificuldade de lei u a do ex o hegeliano, c . ADORNO, D ei S udien zu Hegel (1963), ad.
cas elhana, T es es udios sob e Hegel, Tau us Ediciones, Mad id 1973, pp. 119-190. E, numa pe spec i a
na u almen e mui o di e en e, KOYRÉ, A., «No e su la langue e la é minologie hégéliennes », in KOYRÉ,
É udes d’his oi e de la pensée philosophique, Pa is, Gallima d, 1971 (1961), pp. 191-224.
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in ínseco das filosofias que his o ia e que in eg a e pela sua subsequen e ecupe ação
eleológica como momen o p é io – e p é-figu ado – da p óp ia filosofia hegeliana, que,
só ela, o nece as condições de legibilidade, de comp eensão concep ual, das apa ições
do Espí i o6 que a p ecede am7.
Es ão nes e caso os concei os de elos e de E inne ung. Só que não apenas como
objec o – digamos: «maquinal», ex e io 8 – des a ope ação p op iamen e hegeliana de
6 Sob e o concei o de Espí i o, c . SOLOMON, R.C., «Hegel’s Concep o “Geis ”», in Alasdai
MACINTYRE (ed.), Hegel. A Collec ion o C i ical Essays, Uni e si y o No e Dame P ess, No e Dame
1976 (1972), pp.125-149. Uma no a: nes e ex o, ce as pala as (Espí i o, Absolu o, Sujei o, Ciência,
Sabe Absolu o, Concei o, Sis ema, En endimen o e Razão) apa ecem esc i as com maiúsculas. Não
é um p ocedimen o que se ecomende pa icula men e em filosofia (nem o a dela, de es o), mas
que aqui em a sua azão de se , uma azão de se que se p ende, em ce a medida, com a p óp ia
ficcionalidade, acima apon ada, do ex o hegeliano. É que Espí i o, e c., são em Hegel pe sonagens
filosóficos indi idualizados, do ados de uma ida p óp ia. De uma ce a manei a, se ia con á io à p óp ia
in enção hegeliana – embo a, é cla o, pe ei amen e legí imo – usa minúsculas pa a os e e i .
7 «Se, pa a Hegel, odas as filosofias são conse adas, não o são enquan o ealidades cada uma delas
au ónoma, mas enquan o elemen os de uma única ealidade au ónoma, concebida e ealizada na filosofia
hegeliana» (GUEROULT, M., Philosophie de l’his oi e de la philosophie, op. ci ., p. 255; pa a a c í ica da
es a égia hegeliana, c . pp. 247-268). E a já, como se sabe, numa escala ni idamen e mais eduzida, e
de um modo mui o di e en e, uma p á ica a is o élica. Pa a A is ó eles, a his ó ia da filosofia (ou o que
lhe azia a ez) e a po ezes en endida como p efigu ando o seu p óp io pensamen o. As duas ob as
clássicas sob e A is ó eles como his o iado da filosofia são as de CHERNISS, H.F., A is o le’s C i icism
o P esoc a ic Philosophy, Johns Hopkins P ess, Bal imo e 1935, e A is o le’s C i icism o Pla o and he
Academy, Johns Hopkins P ess, Bal imo e 1944. Se ia in e essan e coloca em pa alelo o p ocesso de
ans o mação do sen ido p óp io das filosofias que Hegel in eg a no seu sis ema com o que se e ifica
em elação às cul u as e às ci ilizações na sua filosofia da his ó ia. Pa a a análise de alhada de um exemplo
pa icula des e úl imo caso, o do O ien e, c . HULIN, M., Hegel e l’O ien , V in, Pa is 1979.
8 C . Enz., # 195, VIII: 352. A pala a «maquinal» é aqui p oposi adamen e u ilizada. Si uada
no e mo da segunda secção – na Ciência da Lógica de 1812-1816, «A objec i idade»; na Lógica da
Enciclopédia, «O objec o» – do Li o III, «A Dou ina do Concei o», a desc ição da ac i idade eleo-
lógica é p ecedida pelas análises do Mecanismo <Mechanismus> e do Quimismo <Chemismus> e ope a
o sal o final e decisi o na conciliação da subjec i idade e da objec i idade que cons i ui a ansição
pa a a Ideia <Idee>, secção úl ima da Ciência da Lógica em que se p ocede à de adei a definição do
Absolu o, «definição absolu a em si mesma» (Enz., # 213, VIII: 367-368). O domínio do maquinismo
é o domínio da ex e io idade, que a eleologia isa á exac amen e anula . Sob e a elação en e maqui-
nismo, quimismo e eleologia, c . MCTAGGART, J.M.E., A Commen a y on Hegel’s Logic, Camb idge
Uni e si y P ess, Camb idge 1910, pp. 241-271, e LÉONARD, A., Commen ai e li é al de la Logique
de Hegel, V in/Édi ions de l’Ins i u Supé ieu de Philosophie, Pa is e Lo aina 1974, pp. 434-485. As
secções sob e a eleologia, an o na Ciência da Lógica como na Lógica da Enciclopédia, são al ez uma
das ias de acesso mais ecundas – al ez a ia de acesso mais ecunda - ao pensamen o de Hegel. Como
esc e eu Jacques De ida, «la éléologie n’a pas seulemen ni oujou s le ca ac è e apaisan qu’on eu
lui p ê e . On peu l’in e oge , la dénonce comme un leu e ou un effe , mais on ne peu en édui e
la menace (…) En posan la nécessi é éléologique en effe nous sommes déjà dans Hegel» (DERRIDA,
J., Glas, Galilée, Pa is 1974, p. 12). Além dos comen á ios já ci ados, c . ambém HARTMANN, N.,
Hegel (1929), ad. po uguesa, A Filosofia do Idealismo Alemão, Fundação Calous e Gulbenkian, Lisboa
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supe ação, mas ambém especialmen e como agen es o mado es da p óp ia es u u a
ope a ó ia. Os concei os – objec os de pensamen o – são in es idos de um alo ope a-
ó io, o nam-se agen es. É o concei o de elos que pe mi e a Hegel a ibui um sen ido
final à p óp ia ope ação da in eg ação his ó ica dos sis emas p é-hegelianos num sis ema
dos sis emas – o seu –, e é po meio da ememo ação, da E inne ung, espe amos mos-
á-lo, que a eac i ação desses mesmos sis emas (da sucessão das « o mas de cul u a»
<Bildungs o men>, das «configu ações» <Ges al ungen> do Espí i o9) se o na p odu i a,
agen e da econquis a lógica do Espí i o à sua alienação empo al, um ema cen al de
Hegel ao qual já ol a emos. Di o de uma manei a al ez mais simples: elos e E inne ung
– sob e udo quando a iculados um com o ou o – pe mi em a eliminação especula i a
do empo, que é o co olá io do Sabe Absolu o hegeliano. O Sabe Absolu o ep esen a
pa a Hegel uma comp eensão, que é uma aniquilação, da empo alidade.
Po isso, os concei os de elos e de E inne ung pa ecem essenciais à concep ualização
de uma eg essão que é ao mesmo empo uma p og essão, eg essão/p og essão essa que
é o elemen o <das Elemen > da filosofia hegeliana, «o elemen o da uni e salidade que
inclui em si o pa icula 10», «o p ocesso que engend a e pe co e os seus momen os»,
cons i uindo assim, nas pala as de Hegel, «o posi i o e a e dade desse posi i o» <das
Posi i e und seine Wah hei >11.
Reg essão: o Espí i o ecapi ula e in e io iza – é o abalho da Fenomenologia - as
á ias figu as <Ges al en> que cons i uí am o seu desen ol imen o, a «his ó ia da cul u a
uni e sal12». A ecapi ulação exige o abalho do nega i o13, a paciência do Concei o14,
só es e podendo «p oduzi a uni e salidade do sabe 15». P og essão: al ecapi ulação
é, simul aneamen e, um p ocesso eleologicamen e o ien ado conducen e à pe ei a e
1976, 2ª pa e, pp. 555-559; FINDLAY, J.N., Hegel: a Re-Examina ion, Geo ge Allen & Unwin, Lond es
1958, pp. 248-252; TAYLOR, Cha les, Hegel, Camb idge Uni e si y P ess, Camb idge 1975, pp. 321-
328; D’HONDT, J., «Teleologia e p axis na Lógica de Hegel», in J. D’HONDT (ed.), Hegel e la pensée
mode ne (1970), ad. po uguesa Hegel e o pensamen o mode no, Rés Edi o a, Po o 1979, pp. 9-38; e
FERRER, Diogo, Lógica e Realidade em Hegel. A Ciência da Lógica e o P oblema da Fundamen ação do
Sis ema, Edições do Cen o de Filosofia da Uni e sidade de Lisboa, Lisboa, 2006, pp. 495-499. Pa a
uma análise que elaciona o a amen o da elologia na Ciência da lógica, e em ob as de ju en ude, an o
com as filosofias kan iana e schellinguiana como com a adição ma xis a, c . LUKÁCS, De junge Hegel
und die P obleme de kapi alis ischen Gesellscha (1948), ad. cas elhana, El jo en Hegel y los p oblemas
de la sociedad cap i alis a, Ediciones G ijalbo, Ba celona 1970, pp. 335-360.
9 PhG, III: 19. C . b. PhG, III: 576 («os momen os do Concei o au ên ico ou do pu o sabe
de em se indicados sob a o ma de figu ações da consciência»).
10 PhG, III: 11.
11 PhG, III : 46.
12 PhG, III: 26.
13 PhG, III: 36, 39 ss.
14C . LEBRUN, G., La pa ience du concep . Essai su le discou s hégélien, Gallima d, Pa is 1972.
15 PhG, III: 65.
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final au ode e minação do Espí i o, que os úl imos pa ág a os da Enciclopédia16 dão
a e 17.
16 Enz., ## 572-577, X : 378-395.
17 Heidegge , em «Hegel und die G iechen» (1958), oi mui o a en o a es e simul âneo
mo imen o de eg essão e de p og essão, undamen al no pensamen o hegeliano: «O mo imen o
<Gang> saíu <Ausgang> da ese, p og essão <Fo gang> a é à an í ese, passagem <Übe gang> na sín ese
e, a pa i des a como um odo, ele é eg essão <Rückgang> da posição afi mada <gese z en Se zung> a
si mesma» (HEIDEGGER, Wegma ken, Klos e mann, F ank u 1976, p. 431). A jus eza da in e p e ação
heidegge iana de Hegel con as a com as mui as iolências que, ambém ele, exe ce em á ias das suas
in e p e ações de ou os filóso os. Isso de e-se em pa e, ce amen e, ao diálogo sis emá ico que, a
pa i de uma indispu á el afinidade, Heidegge semp e man e e com a filosofia de Hegel, algo que
Rüdige Bubne salien ou com absolu a pe inência: «Pa a Heidegge (…), Hegel oi oda a sua ida
o pon o de e e ência sec e o, o g ande oposi o que alia a pena ejei a e com quem, po isso, um
deba e e a ine i á el» (BUBNER, R., Mode n Ge man Philosophy, Camb idge Uni e si y P ess, Camb idge
1981, p. 62). No e-se que a p óp ia busca do impensado <das Ungedach e>, algo que es u u a a
isão de Heidegge das ou as filosofias, não deixa de possui – apesa de o p ocesso se , na apa ência,
exac amen e in e so – alguma semelhança com a es a égia hegeliana de e nas noções colhidas em
ou os filóso os an ecipações pa ciais das suas p óp ias de e minações concep uais. Seja como o ,
Heidegge pa ilha a con icção que ca ac e iza a filosofia hegeliana: o p incípio <Beginn> da filosofia
dá-se com os G egos – a sua ealização <Vollendung> com o p óp io Hegel (c . HEIDEGGER, «Hegel und
die G iechen», Wegma ken, op. ci ., p. 433). De uma ce a o ma, o mesmo se pode ia dize de Jacques
De ida. A ope ação heidegge iana – «des uição» – sob e Hegel p olonga-se na ope ação de idiana
– «descons ução» – sob e, en e ou os, o p óp io Heidegge (c . DERRIDA, J., Posi ions (1972), ad.
po uguesa Posições, Plá ano Edi o a, Lisboa 1975, pp. 65-66), mas Hegel pe manece, mesmo mais
do que Heidegge , o in e locu o , e o ad e sá io, p i ilegiado (c . DESCOMBES, V., Le même e l’au e,
Minui , Pa is 1979, pp. 160-178; sob e a elação de De ida a Hegel, c . ambém o conjun o de
ensaios eunidos em S ua BARNETT (ed.) Hegel A e De ida, Rou ledge, Lond es 1998). O p ojec o
da «descons ução», a a a da «des uição» heidegge iana, é um p ojec o di igido, em p imei o luga ,
con a a eleologia hegeliana. Pensa é, des e pon o de is a, o pon o de is a da «descons ução»,
dialoga soli a iamen e com o «úl imo filóso o», in en ando a dis pa a escapa às suas eg as (c ., po
exemplo, DERRIDA, J., Posi ions, passim; do mesmo au o , c . igualmen e, «Violence e mé aphysique»,
in J. DERRIDA, L’éc i u e e la diffé ence, Seuil, Pa is 1969, p. 176 : «dès qu’il pa le con e Hegel, Le inas
ne peu que confi me Hegel, l’a déjà confi mé» - uma objecção que oi i ualmen e ende eçada a
Kie kegaa d: o Sis ema explicá-lo-ia). T a a a-se, de es o, de uma con icção la gamen e di undida nas
ma gens do es u u alismo dos anos sessen a e se en a do século XX: « ou e no e époque, que ce soi
pa la logique ou pa l’épis émologie, que ce soi pa Ma x ou pa Nie zsche, essaye d’échappe à Hegel
(…) Mais échappe éellemen à Hegel suppose d’app écie exac emen ce qu’il en coû e de se dé ache
de lui ; cela suppose de sa oi jusqu’où Hegel, insidieusemen peu -ê e, s’es app oché de nous ; cela
suppose de sa oi , dans ce qui nous pe me de pense con e Hegel, ce qui es enco e hégélien; e de
mesu e en quoi no e ecou s con e lui es enco e peu -ê e une use qu’il nous oppose e au e me
de laquelle il nous a end, immobile e ailleu s» (FOUCAULT, M., L’o d e du discou s, Gallima d, Pa is
1971, pp. 74-75). Um dos aspec os undamen ais da lei u a deleuziana de Nie zsche é, exac amen e,
o sublinha a i edu í el oposição des e a Hegel: «Não exis e comp omiso possí el en e Hegel e
Nie zsche» (DELEUZE, G., Nie zsche e la philosophie, P esses Uni e si ai es de F ance, Pa is 1962, p.
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Só es es concei os possibili am – e o nam necessá io – que Hegel ale do sen ido
final da sua filosofia como acabamen o – como fim, pe azimen o – da p óp ia filosofia.
E são esses concei os que pe mi em que Hegel exe ça sob e os concei os colhidos
em ou os filóso os odas as iolências e odas as dis o ções que uma lei u a mesmo
pouco a en a do seu ex o mos a à e idência. Po que esses concei os (melho se ia
dize noções, pa a assinala o seu inacabamen o p é-hegeliano) que ou os filóso os
pa a ele descob i am, só pa a ele – que a ingiu a Ciência, essa «co oa de um mundo
do espí i o18», o Sis ema, onde o sabe é «e ec i amen e eal» <wi klich>19, o eino
que o Espí i o cons ói «no seu p óp io elemen o20» – são e ec i amen e momen os
do Concei o <das Beg iff>, esse «se in elec ual i o21». Pa a os ou os, essa «gale ia
dos he óis da azão pensan e» <Gale ie de He oen de denkenden Ve nun >22 que
caminha am pela neg a noi e do mundo den o, os concei os não podiam senão
se pa ciais e inacabadas mani es ações do Espí i o, nas quais apenas uma única
«de e minabilidade» <Bes imm hei > é dominan e23. O Espí i o, digamo-lo mais uma
ez, só ao Sábio hegeliano apa ece, nele se e ela, como Espí i o Absolu o, is o é,
como empo acabado e ealizado, como passado comple amen e ememo ado num
p esen e absolu o24. Cabe ao Sábio «ac ualiza o uni e sal e in undi -lhe o Espí i o
221). (Deleuze, no en an o, não pa icipou na cons elação filosófica que afi ma a a inescapabilidade
de um diálogo com Hegel e a dificuldade em escapa às malhas do Sis ema.)
18 PhG, III: 19.
19 PhG, III: 26. O pa Reali ä /Wi klichkei é, como se sabe, undamen al em Hegel. Apenas a
Wi klichkei apa ece in es ida de um significado filosófico p o undo, não abs ac o, mas conc e o. (Es e
pa ecoa, ao seu modo, o pa ma emá ico/dinâmico em Kan .)
20 PhG, III: 29.
21 DUBARLE, Dominique, «Dialec ique hégélienne e o malisa ion», in D. DUBARLE - A. DOZ,
Logique e dialec ique, La ousse, Pa is 1972, p. 15.
22 VGPh, XVIII: 20.
23 PhG, III: 32. A «de e minabilidade» é semp e sinal de inacabamen o e de pa cialidade, já
que indica uma sa u ação concep ual impe ei a ou inacabada, uma expec a i a não comple amen e
p eenchida.
24 C . FINDLAY, Hegel: a Re-Examina ion, op. ci ., p. 20. Heidegge insis iu, na u almen e, na
impo ância do p esen e absolu o no pensamen o de Hegel. Po exemplo: «Pa a Hegel, o absolu o é
o espí i o: o-que-es á-p esen e em si mesmo na ce eza do sabe incondicionado de si» (HEIDEGGER,
«O concei o de expe iência em Hegel», in HEIDEGGER, Holzwege (1949), ad. po uguesa, Caminhos
de flo es a, Fundação Gulbenkian, Lisboa 2012, p. 156). (A exp essão «pa usia do absolu o», epe ida
inúme as ezes, é a exp essão cen al do ex o.) É e dade que ou os au o es p e e i ão insis i na
impo ância de algo como uma i equie ude exis encial em Hegel. É, po exemplo, o caso de Alexand e
Koy é, que opõe mesmo a «inquie ude do se » (KOYRÉ, A., «Hegel à Iéna», in KOYRÉ, É udes d’his oi e
de la pensée philosophique, op. ci ., p. 162, no a 3) à menos adical «mobilidade» suge ida po Ma cuse
(MARCUSE, Hegels On ologie und die G undlegung eine Theo ie de Geschich lichkei (1932), adução
ancesa, L’on ologie de Hegel e la héo ie de l’his o ici é, Minui , Pa is 1972, p. 24). Mas a in e p e ação
de Heidegge pa ece, nes e caso, se a boa.
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g aças à sup essão dos pensamen os de e minados e solidificados25». Des e modo, os
«pu os pensamen os» < einen Gedanken> o na -se-ão concei os <Beg iffe>26.
Is o pa a um quad o ge al. Ten emos uma ap oximação à es u u a des a dupla
ope ação, eg essi a e p og essi a, da Razão.
Pa a Hegel, o Espí i o, enquan o logos, é logicamen e p imei o e empo almen e,
c onologicamen e, enquan o Sabe Absolu o, úl imo. A Lógica, p imei o momen o
da Enciclopédia das Ciências Filosóficas, eleologicamen e p essupos o, só é e ec i ada
his o icamen e, só é ealidade absolu amen e media izada, elação infini a a si, no
momen o apon ado no fim da Enciclopédia, só aí se ealiza c onologicamen e27. A
ealização c onológica da lógica, a sua absolu a e ec i ação his ó ica, é a final conciliação
do sabe <Wissen> e da objec i idade <Gegens ändlichkei >, de que ala o P e ácio à
25 PhG, III: 37. As figu as do Sábio – daquele que não busca já a e dade, pois que se encon a
do a an e na sua posse – e da Sageza são cen ais na in e p e ação hegeliana de Alexand e Kojè e. C .
KOJÈVE, A., In oduc ion à la lec u e de Hegel, Gallima d, Pa is 1947, bem como Essai d’une his oi e
aisonnée de la philosophie païenne (3 omos), Gallima d, Pa is 1968. C . ainda, a es e espei o, o úl imo
capí ulo do li o de E ic Weil: WEIL, Logique de la philosophie, V in, Pa is 1967. A in e p e ação hegeliana
de Kojè e, cuja impo ância nos es udos hegelianos anceses oi eno me – pa a uma esenha dos es udos
hegelianos em F ança p é ios à ob a de Kojè e, c . KOYRÉ, A., «Rappo su l’é a des é udes hégéliennes
en F ance», in KOYRÉ, É udes d’his oi e de la pensée philosophique, op. ci , pp. 225-251 (o ex o o iginal
da a de 1930) –, é sabidamen e idiossinc á ica, e isso não apenas no que espei a à céleb e dialéc ica do
senho e do esc a o, que me eceu a co ecção de Gwendoline Ja czyk e Pie e-Jean Laba iè e (JARCZYK
- LABARRIÈRE, Les p emie s comba s de la econnaissance. Maî ise e se i ude dans la Phénoménologie de
l’Esp i de Hegel, Aubie , Pa is 1987 ; c . b., pa a uma c í ica de Kojè e, ARMSTRONG KELLY, Geo ge,
«No es on Hegel’s Lo dship and Bondage», in Alasdai MACINTYRE (ed.), Hegel. A Collec ion o C i ical
Essays, op. ci ., pp. 189-217; e, pa a uma lei u a ac ual dessas céleb es passagens, NEUHOUSER, F ede ick,
«Desi e, Recogni ion and he Rela ion be ween Bondsman and Lo d», in Kenne h WESTPHAL (ed.)
The Blackwell Guide o Hegel’s Phenomenology o Spi i , Wiley-Blackwell, Ox o d 2009, pp. 37-54.).
É-o ambém, po exemplo, na adicalização a que subme e a ese hegeliana do fim da his ó ia. (Mais
gene icamen e, e e ospec i amen e, pode-se le na ob a de Kojè e, um ecalcamen o da dimensão
p op iamen e epis emológica da Fenomenologia do Espí i o.) Mas essa idiossinc asia é p eciosa do
pon o de is a de uma eo ia da ficcionalidade filosófica; como, num ce o sen ido, o é a de Geo ges
Ba aille, em g ande pa e dependen e da de Kojè e, e que ensaia uma ap oximação, sob a o ma de
um ace a ace, en e Hegel e Nie zsche, Au hebung e epe ição, abalho do Concei o e jogo, sis ema e
excesso, ou ansg essão, man endo, é cla o, as di e enças en e ambos: «Nie zsche es à Hegel ce que
l’oiseau b isan la coquille es à celui qui en abso bai heu eusemen la subs ance in é ieu e» (BATAILLE,
«L’obélisque», in BATAILLE, Oeu es, I, Gallima d, Pa is 1970, p. 510). (Sob e Kojè e e a sua influência
na filosofia ancesa, c . DESCOMBES, Le même e l’au e, op. ci ., pp. 21-63; sob e Ba aille, c . DERRIDA,
«L´économie géné ale», in DERRIDA, L’éc i u e e la diffé ence, op. ci ., pp. 369-407; HOLLIER, D., «Le
disposi i Hegel/Nie zsche dans la biblio hèque de Ba aille», L’A c, 38 (1969) 35-47; CHATAIN, J.,
Geo ges Ba aille, Seghe s, Pa is 1973, sb d. pp. 22 sg s.)
26 PhG, III: 37. Tomando g ande libe dade com os e mos, pode -se-ia dize que, con a iamen e
ao que se passa em F ege («Übe Beg iff und Gegens and», 1892), não é o concei o que é incomple o,
e o objec o comple o: é a incomple ude (a me a de e minabilidade) do objec o (do indi íduo) que é
sa u ada pelo Concei o. E Hegel é o indi íduo his ó ico comple amen e sa u ado pelo Concei o.
112 Re is a da Faculdade de Le as – Sé ie de Filosofia, 30 (2013) 105-130
Fenomenologia do Espí i o28, ou, nos e mos do capí ulo sob e o Sabe Absolu o da mesma
Fenomenologia, a iden idade da ce eza <Gewisshei > e da e dade <Wah hei >29, ou ainda,
em linguagem con empo ânea, do epis émico – do que espei a à elação do sujei o com
o seu p óp io sabe – e do epis emológico – do que espei a ao sabe en endido como
objec i idade30. Essa iden idade, a Fenomenologia ob e e-a a pa i do pon o de is a
epis émico (do pon o de is a do sabe e da ce eza), a Lógica ob ém-na a pa i do pon o
de is a epis emológico (do pon o de is a da objec i idade e da e dade). O epis émico
não pode exis i sem a p essuposição do epis emológico – e o epis emológico não pode
se descobe o sem o pe cu so do epis émico. Con ém, pa a se pe cebe is o, indica algo
sob e a o ma do sis ema hegeliano.
Uma explicação da es u u a o mal do Sis ema31, al como ele se e ela na a iculação
dos á ios ex os hegelianos, pode á se a seguin e. A Fenomenologia do Espí i o (Iena,
1807) desc e e em e mos epis émicos o acesso ao Sabe Absolu o po pa e do sujei o,
ela é, pode -se-ia dize , uma au obiog afia da humanidade esc i a po Hegel32. A Ciência
da Lógica (1812-1816, Nu embe ga/Heidelbe ga), esboçada já na Lógica e na Me a ísica
de Iena, de 1804-1805, enuncia o Sabe Absolu o em e mos epis emológicos. A
Enciclopédia das Ciências Filosóficas (p imei a e são: 1817, Heidelbe ga; segunda e são:
1827, Be lim; e cei a e úl ima e são: 1830, Be lim), anunciada já pela P opedêu ica
Filosófica de Nu embe ga, da ada dos anos 1808 e seguin es, ap esen a, pa indo da
Lógica, e igualmen e em e mos epis emológicos – is o é, p essupondo já a conciliação
do sabe e da objec i idade –, o p ocesso de ealização c onológica do Espí i o Absolu o
(a Filosofia do Espí i o, da qual uma p imei a e são pode se lida na Filosofia do Espí i o
de Iena, de 1805), sendo a passagem en e a Lógica e a Filosofia do Espí i o mediada pela
análise da alienação do Espí i o no espaço e no empo, o domínio da ex e nalidade e da
27 Sob e a elação da lógica, enquan o pensamen o de Deus an es da c iação do mundo, e a
eligião absolu a, c . BRUAIRE, Claude, Logique e eligion ch é ienne dans la philosophie de Hegel, Seuil,
Pa is 1964.
28 PhG, III: 38, 39.
29 PhG, III: 582.
30 A dis inção en e «epis émico» e «epis emológico», nos e mos acima e e idos, não se á
p esumi elmen e acei e po odos. De qualque manei a, al não pa ece mui o p oblemá ico no p esen e
con ex o.
31 Sob e as á ias acepções de «Sis ema» em Hegel, c . KAINZ, H.P., Pa adox, Dialec ic and Sys em,
The Pennsyl ania S a e Uni e si y P ess, Uni e si y Pa k 1988, pp. 78-83.
32 J. N. Findlay, ala, a p opósi o da Fenomenologia, de uma «biog afia uni e salizada ou
p opedêu ica anscenden al» (FINDLAY, Hegel : a Re-Examina ion, op. ci ., p. 85) Ma x já o ha ia
ap oximadamen e di o: «Hegel não e e senão um único desejo: esc e e a biog afia da subs ância
abs ac a, da Ideia» <die Lebensgeschich e de abs ak en Subs anz, de Idee> (MARX, Ka l, K i ik des
Hegelschen S aa s ech es (## 261-313), Ma x-Engels We ke, Band I, Ka l Die ze Ve lag, Be lim 1961,
pp. 240-241). Pa a es e aspec o da Fenomenologia, como pa a odos os ou os, se á semp e necessá io
con inua mos a e e i -nos à p eciosa ob a de Jean Hyppoli e: HYPPOLITE, J., Genèse e s uc u e de la
Phémoménologie de l’esp i de Hegel, Aubie , Pa is 1946.
Re is a da Faculdade de Le as – Sé ie de Filosofia, 30 (2013) 105-130 113
con ingência (a Filosofia da Na u eza). No e-se que a inco po ação de elemen os p óp ios à
Fenomenologia na Filosofia do Espí i o da Enciclopédia se az já num con ex o epis emológico
e não epis émico. Po isso mesmo, a Fenomenologia pe manece imp escindí el: ela é a
única a e a a e ec i amen e o acesso ao Sabe Absolu o do pon o de is a da elação do
sujei o com o seu p óp io sabe 33. Os P incípios de Filosofia do Di ei o (1821, Be lim),
bem como os á ios cu sos de Be lim (de Es é ica, de Filosofia da Religião, de His ó ia
da Filosofia e de Filosofia da His ó ia) desen ol em, semp e no plano epis emológico
– epi amos: omando semp e como já dada a conciliação do sabe e da objec i idade
ob ida no final da Fenomenologia –, a Filosofia do Espí i o da Enciclopédia. Os esc i os de
Hegel an e io es a Iena (Tübingen, Be na, F anc o e), sendo undamen ais pa a o es udo
das p oblemá icas hegelianas e pa a a cons i uição da sua manei a de pensa (não apenas
na Fenomenologia, mas ambém nas ob as pos e io es), não in e essam di ec amen e pa a a
exposição o mal do Sis ema (embo a con enham já, e iden emen e, elemen os do Sis ema
u u o). É – deixa-se aqui a indicação, sem, no en an o, a desen ol e – o co po-a-co po
com a filosofia de Schelling, em Iena, que se encon a na o igem do Sis ema34.
Vol ando ago a, mais de alhadamen e, à elação en e p incípio e fim, en e logos e
Sabe Absolu o. T a a-se de algo undamen al em Hegel. Chega-se ao p incípio, à comple a
au ode e minação do logos, à sua absolu a ealização, no fim da his ó ia, quando o empo
é comp eendido. O que é p imei o de um pon o de is a lógico é úl imo de um pon o
de is a c onológico35. Como em Elio (Bu n No on), «Only h ough ime ime is
conque ed». Chega-se ao p incípio no fim. Falando como J. N. Findlay: o Espí i o «é o
Al a lógico e on ológico do cosmos, mas só depois de ele e p imei o eme gido como o
33 Secunda iamen e, é de no a que a o ma como ce os emas da Fenomenologia são e omados
na Filosofia do Espí i o da Enciclopédia os empob ece singula men e. E isso não po azões que enham
a e com a mui o maio b e idade do a amen o nem com qualque «dogma ismo» p óp io a essa
ase do pensamen o hegeliano. Tem an es a e com a dificuldade da adução do epis émico no
epis emológico, como se, nessa adução, algo de essencial se pe desse. O que pode mui o legi imamen e
le an a suspei as quan o à legi imidade da adução.
34 As páginas já an igas que Edwa d Cai d dedicou à elação en e Schelling e Kan alem ainda a
pena se lidas (CAIRD, Edwa d, Hegel, William Blackwood and Sons, Lond es, 1911 (1883), pp. 45-64).
Pa a ou as e sões das a iculações do sis ema, c ., po exemplo, HARRIS, H.S., Hegel: Phenomenology
and Sys em, Hacke , Indianapolis 1995; KAINZ, Pa adox, Dialec ic and Sys em, op. ci ; e FERRER, Lógica
e Realidade em Hegel, op. ci . Análises sucin as do desen ol imen o da filosofia hegeliana no pe íodo
que an ecede a Fenomenologia, encon am-se em WALSH, W.H., «The O igins o Hegelianism», in M.
INWOOD (ed.), Hegel, op. ci ., pp. 13-30, e HARRIS, H.S., «Hegel’s in ellec ual de elopmen o 1807»,
in F.C. BEISER (ed)., The Camb idge Companion o Hegel, Camb idge Uni e si y P ess, Camb idge
1993, pp. 25-51. Pa a o pe íodo de F anc o e em pa icula , c . BOURGEOIS, Be na d, Hegel à F anc o ,
V in, Pa is 1970, e, pa a o pe íodo de Iena, FERREIRA, M.J.C., Hegel e a Jus ificação da Filosofia (Iena,
1801-1807), Imp ensa Nacional/Casa da Moeda, Lisboa, 1992.
35 Se ia in e essan e, a é pa a compa a a di e en e espos a das duas filosofias em elação à ques ão
do empo, pô em elação o a amen o hegeliano da elação an e io /pos e io com o a amen o
a is o élico (Me a ísica, Del a, 11 e Ca ego ias, 12).
120 Re is a da Faculdade de Le as – Sé ie de Filosofia, 30 (2013) 105-130
que o limi a, o indi e encia, o nega. Mo imen o eflexi o, po an o, no qual o Espí i o
se deb uça sob e si e p ocede à o al ememo ação do seu cal á io, como esc e e Hegel,
à ememo ação de odos os seus momen os num p esen e absolu amen e de e minado.
A E inne ung é, no undo, o de i <We den> eflec ido, a eflexão do de i . O de i
eflec ido é a ememo ação. A his ó ia filosófica é essa ememo ação p odu i a do passado,
a p esen ificação des e en endida como sua e ec i ação. A enomenologia do espí i o
– concebida como ac i idade – é o que azemos odos os dias, quando ecapi ulamos
– is o é, in e io izamos – a nossa ida passada, e descob imos que somos a nossa ida
aqui e ago a. Não é, pode -se-ia dize , apenas uma dou ina filosófica: é uma ac i idade
filosófica que se o igina espon aneamen e na consciência comum.
Simul aneamen e, é po meio da E inne ung (da edução da ealidade à memó ia
eflexi a), no seu elemen o, que Hegel p ocede à iden ificação do eal e do acional64,
numa mani es ação daquilo que Ka l Poppe chamou posi i ismo é ico e ju ídico65.
Posi i ismo é ico e ju ídico po que assim se alida absolu amen e o eal a pa i do
c i é io de e ec i idade, is o é, de o al imanência à his ó ia (mas à his ó ia en endida
nos moldes an e io men e expos os), de adical an i- anscendência. A ecusa hegeliana
da anscendência não se limi a à cons a ação de que a filosofia de e e i a o desejo
de se edifican e <e baulich>66. É algo mais. E, po sua ez, a iden ificação do eal e
do acional po meio da E inne ung – a ememo ação p oduz o sen imen o de uma
i ep eensí el necessidade que é signo indiscu í el de acionalidade -, ao de e mina o
fim (o « undamen o», ou « azão de se » essencial, o G und – uma ca ego ia da Lógica67)
como conclusão da ap endizagem his ó ica – is o é, da ealidade o nada memó ia eflexi a
– conduz ao que podemos designa , sem pa icula es p eocupações de igo e minológico,
po «in e são do pla onismo», explici ada no capí ulo sob e «Fo ça e En endimen o» <K a
und Ve s and> – o e cei o e úl imo da secção A – da Fenomenologia do Espí i o68.
64 P e ácio aos P incípios da Filosofia do Di ei o (GPhR, VII: 24).
65 POPPER, K., The Open Socie y and I s Ennemies, Rou ledge, Lond es 1966 (1945), ol. II, p. 41.
Pa a algumas de esas da posição de Hegel – que não se cen am, de es o, nos P incípios da Filosofia do
Di ei o, nem mencionam as objecções poppe ianas –, c . HYPPOLITE, J., In oduc ion à la philosophie
de l’his oi e de Hegel, Pa is, Seuil 1983 (1948), WEIL, E., Hegel e l’É a , V in, Pa is 1985 (1950) e
BOURGEOIS, B., La pensée poli ique de Hegel, P esses Uni e si ai es de F ance, Pa is 1969. Pa a uma
de esa da posição de Hegel que con ém c í icas às objecções poppe ianas, c . KAUFMANN, Wal e , «The
Hegel My h and I s Me hod», in Alasdai MACINTYRE (ed.), Hegel. A Collec ion o C i ical Essays, op.
ci ., pp. 21-60 e O’BRIEN, G.D., Hegel on Reason and His o y. A Con empo a y In e p e a ion, The
Uni e si y o Chicago P ess, Chicago 1975.
66 PhG, III: 17.
67 Enz., ## 121-122, VIII: 247-253.
68 É de assinala que os ês p imei os capí ulos da Fenomenologia, comp eendidos na secção
«Consciência» («Ce eza sensí el», «Pe cepção», «Fo ça e En endimen o», que lidam sucessi amen e com
a indicação, a exp essão e a explicação), endem a me ece cada ez mais a enção, a é em isolamen o do
es o da ob a. C ., po exemplo, TAYLOR, Cha les, «The Opening A gumen s o he Phenomenology»,
in Alaisda MACINTYRE (ed.), Hegel. A Collec ion o C i ical Essays, op. ci ., pp. 151-187, e, mais
Re is a da Faculdade de Le as – Sé ie de Filosofia, 30 (2013) 105-130 121
Vejamos o essencial desse capí ulo69. A busca pla ónica da aíz do enómeno
concluía-se com a cons i uição de uma es e a eidé ica, de um cosmos noe os, um mundo
sup a-sensí el, eino de leis e essências es á eis. Uma objecção, que emon a a A is ó eles,
ê, nesse mundo sup asensí el de essências ou o mas, menos uma causa de mo imen o
do que de imobilidade70. Sendo, no en an o, ambém possí el uma in e p e ação do
pla onismo como uma filosofia do «mis o» e da «mis u a», que comp eende o mo imen o
e o explica (lemb emo-nos do Timeu e do Filebo), é jus amen e A is ó eles que, nes e
pon o, Hegel ai segui , mas o seu p incipal objec i o ela i amen e ao mundo das o mas
pla ónico i á se o de as dissol e no de i empo al, p ocesso so ís ico po excelência,
como Hegel de es o admi e, num elogio dedicado aos sofis as nas Lições sob e a his ó ia
da filosofia, e e indo-se, é e dade, não à dissolução <Auflösung> das o mas mas sim do
pa icula 71.
As o mas, ou ideias, são dissol idas (anuladas, supe adas) no de i empo al po meio
da ac i idade in e io izan e da E inne ung. Es a dissolução é ambém, significa i amen e,
a de e minação do Concei o como ida e da consciência como consciência de si. P oduz-
se pela conside ação das di e enças como di e enças in e io es ao Concei o. Nunca se á
excessi o assinala a impo ância des e p ocesso de in e nalização das di e enças na filosofia
hegeliana. Insis amos nes e pon o. Ele é, no undo, o essencial da ope ação dialéc ica, e
encon amo-lo em odas as egiões do Sis ema (na medida em que se pode e dadei amen e
ecen emen e, WESTPHAL, Kenne h, Hegel, Hume und die Iden i ä wah nehmba e Dinge, Klos e mann,
F anc o e 1998 (sob e udo sob e o segundo capí ulo, sob e a pe cepção, concebido como uma c í ica
de Hume) e WESTPHAL, Kenne h, Hegel’s Epis emology. A Philosophical In oduc ion o he Phenomenology
o Spi i , Hacke , Indianapolis, 2003, que, não se es ingindo aos ês p imei os capí ulos, lhes dá, no
en an o, uma impo ância undamen al. Com e ei o, é al ez possí el encon a mos nes es ês capí ulos
o essencial da epis emologia – ou, como di ia Robe C. Solomon, da «on ologia do conhecimen o»
(SOLOMON, «Hegel’s Epis emology», in INWOOD (ed.), Hegel, op. ci ., p. 31) – de Hegel.
69 Também aqui os comen á ios de Hyppoli e (HYPPOLITE, Genèse e s uc u e de la Phémoménologie
de l’esp i de Hegel, op. ci ., pp. 116-136) con inuam imp escindí eis, embo a não lidem com a e e ência
ao pla onismo, con a iamen e a JANICAUD, D., «Essai d’une phénoménologie de la conscience g ecque»,
in J. D’HONDT (ed.), Hegel e la pensée g ecque, op. ci ., pp. 133-158. Na b e e in e p e ação que
aqui p opomos do capí ulo sob e «Fo ça e En endimen o», seguimos o pon o de is a de Dominique
Janicaud, que, de es o, não é, c emos, incompa í el com ou as lei u as. Heidegge , no seu cu so de
1930-1931 sob e as secções iniciais da Fenomenologia do Espí i o comen ou ambém demo adamen e o
capí ulo sob e «Fo ça e En endimen o» (HEIDEGGER, Hegels Phänomenologie des Geis es, ad. ancesa, La
“Phénoménologie de l’Esp i ” de Hegel, Gallima d, Pa is 1984, pp. 156-196). C . b. WESTPHAL, Kenne h,
«Hegel», in Jona han DANCY - E ns SOSA, A Companion o Epis emology, Blackwell, Ox o d 1992, pp.
167-170, especialmen e p. 169, que, em poucas linhas, esume o essencial do mo imen o p óp io ao
capí ulo; WESTPHAL, Hegel’s Epis emology. A Philosophical In oduc ion o he Phenomenology o Spi i ,
op. ci ., p. 54-55, 58-59; WESTPHAL, «Hegel’s Phenomenological Me hod», in Kenne h WESTPHAL (ed.)
The Blackwell Guide o Hegel’s Phenomenology o Spi i , op. ci ., pp.1-36, sob e udo pp. 15-24.
70 C . JANICAUD, D., «Essai d’une phénoménologie de la conscience g ecque», in J. D’HONDT
(ed.), Hegel e la pensée g ecque, op. ci ., pp. 150-151.
71 VGPh, XIX: 65.
122 Re is a da Faculdade de Le as – Sé ie de Filosofia, 30 (2013) 105-130
ala de egiões no Sis ema hegeliano, uma ques ão que deixa emos aqui de lado). A filosofia
hegeliana é a filosofia das elações in e nas po excelência: udo o que se ê a ec ado de
ex e io idade de e á se econduzido à in e nalidade. (A ans o mação das di e enças
ex e nas em di e enças in e nas é analisada na Ciência da Lógica, p ecisamen e no início
da «Teo ia da Essência», no con ex o do es udo das «de e minações da eflexão», depois
da análise da iden idade e an es da da con adição: a di e ença <Un e schied> pu amen e
ex e io <äusse liche>, a di e sidade <Ve schiedenhei >, in e io izando-se, ans o ma-se
em oposição <Gegensa z>72 – que, po sua ez, se conclui essencialmen e na con adição
<Wide sp uch>; es e p ocesso é p óp io à Razão, po dis inção com o En endimen o,
que se man ém, pela sua p óp ia na u eza, p eso às dis inções ex e nas, e é, epi amo-
lo, o ges o ma can e da dialéc ica73.) A in e io ização das di e enças é um ges o que o
pensamen o ep esen a i o < o s ellende Denken>74 não pode comp eende e que apenas
a «ap esen ação especula i a» <spekula i e Da s ellung>75 ap eende. O pensamen o
ep esen a i o – o al o p e e encial de Hegel é Kan , mas, no undo, é oda a filosofia
an e io que é isada - não consegue abandona o pon o de is a da ex e io idade. E
desse pon o de is a a ma emá ica, que em po p incípio a « elação p i ada de Concei o»
<beg ifflose Ve häl nis>76, é, pa a Hegel, o melho exemplo: «o mo imen o da demons ação
72 WL-II, VI: 46-64.
73 WL-II, VI : 64-80. No e-se que o mo imen o da Ciência da Lógica da Enciclopédia inco po a
a con adição den o da ca ego ia da di e ença, a ando-a (# 120) logo a segui à di e sidade (## 117-
118) e à oposição (# 119), o que az, de es o, odo o sen ido, já que a con adição ep esen a a máxima
in e nalização (que é ambém máxima media ização) da di e ença (Enz, VIII: 239-247); na linguagem
do P e ácio à Fenomenologia, a con adição ep esen a o «delí io báquico» da di e ença (PhG, III: 46).
Sob e a in e nalização das di e enças em Hegel, c . DUBARLE, Dominique, «Dialec ique hégélienne e
o malisa ion», in DUBARLE - DOZ, Logique e dialec ique, op. ci ., p. 45 sg s. e FINDLAY, J.N., «The
Con empo a y Rele ance o Hegel», in Alasdai MACINTYRE (ed.), Hegel. A Collec ion o C i ical Essays,
op. ci ., p. 12 sg s. Jacques De ida deb uçou-se na u almen e sob e a eo ia hegeliana da di e ença, a
pa i do seu p ojec o de uma «descons ução» dos concei os filosóficos (c ., en e ou os luga es, «Ho s-
ex e», in DERRIDA, La dissémina ion, Le Seuil, Pa is 1972, p. 12, no a 5; «La diffé ance», in DERRIDA,
Ma ges de la philosophie, op. ci , p. 21; Posi ions, op. ci ., p. 56 sg s; c . b. DESCOMBES, Le même e l’au e,
op. ci ., pp. 160-178). C . b. TUNHAS, P., «Belie Rela ions», An opológicas, 11 (2009) 205-223, onde
se p ocu am analisa os desen ol imen os da dou ina hegeliana das di e enças in e nas no idealismo
b i ânico dos finais do século XIX e no início do século XX (B adley, Joachim, McTagga , Bosanque ),
bem como a sua c í ica po G. E. Moo e e Be and Russell. Sob e es a úl ima ques ão, c . igualmen e
HYLTON, P., «Hegel and analy ic philosophy», in BEISER (ed.), The Camb idge Companion o Hegel, op.
ci ., pp. 445-485; ROCKMORE, Tom, «Some Recen Analy ic “Realis ” Readings o Hegel», in NUZZO,
Hegel and he Analy ic T adi ion, op. ci ., pp. 158-172; WESTPHAL, Kenne h, «Hegel, Russell, and he
Founda ions o Philosophy», in NUZZO, op. ci ., pp. 173-193; e, sob e o modo como a filosofia hegeliana
se p olonga, con a os o os de Moo e e Russell, no con ex o da «filosofia analí ica», nomeadamen e
em Wil id Sella s, Richa d B andom e John McDowell, c . REDDING, Paul, Analy ic Philosophy and
he Re u n o Hegelian Though , Camb idge Uni e si y P ess, Camb idge, 2007.
74 PhG, III: 58.
75 PhG, III: 61.
76 PhG, III: 44, 47.
Re is a da Faculdade de Le as – Sé ie de Filosofia, 30 (2013) 105-130 123
ma emá ica não pe ence ao con eúdo do objec o <Gegens and>, mas é uma ope ação
ex e io à coisa <ein de Sache äusse liches Tun>77», e, sendo assim, a a és dela a « e dadei a
coisa» <die wah e Sache> é modificada78. Os de ei os acumulam-se: não se pe cebe a
necessidade da cons ução <Kons uk ion> ma emá ica79 - Kons uk ion em em Hegel,
de es o, um sen ido nega i o –, os seus mo imen os são go e nados po uma «finalidade
ex e na80», a e idência <E idenz> de ipo ma emá ico de e se desp ezada pela filosofia81,
a ma emá ica mo e-se no elemen o da ausência de ealidade e ec i a <Unwi klichkei >
cons i uído po «p oposições ígidas e mo as» <fixie e, o e Sä ze>82, lida apenas com
di e enças inessenciais83, e c. Resumindo: no pensamen o ep esen a i o em ge al, os
77 PhG, III: 42.
78 PhG, III: 43.
79 PhG, III: 43.
80 PhG, III: 44.
81 PhG, III: 44.
82 PhG, III: 44.
83 PhG, III: 45. A Ciência da Lógica eno a á, na «Dou ina do se », as acusações. Assim, as p o as
ma emá icas são ex e io es (WL-I, V: 282), não p oduzem senão a «apa ência de uma a mação de p o a»
<Schein eines Ge üs es on Beweis> (WL-I, V: 320), são uma «simples p es idigi ação <Taschenspiele ei> e
uma cha la anice <Cha la ane ie> em ma é ia de p o a » (WL-I, V: 321). Hegel a aca pa icula men e
as p o as new onianas: es as possuem apenas uma «a mação azia» <lee e Ge üs > (WL-I, V: 321), a
«ma emá ica não se encon a de modo algum com capacidade pa a p o a as de e minações de g andezas
da ísica» (WL-I, V: 321), ela «não sai do concei o»: New on não pôde senão p oduzi um «edi ício
a ificial desp o ido de undamen o <g undlosen>» (WL-I, V: 321). No que diz espei o à e idência
ma emá ica, duas oco ências: no e cei o capí ulo da p imei a secção da «Dou ina do Concei o», «A
subjec i idade», a e idência do «silogismo ma emá ico», «que não se ia suscep í el, nem e ia necessidade,
de nenhuma p o a, is o é, de nenhuma mediação», epousa «unicamen e sob e o ac o de se ão pob e
<dü ig> em de e minações de pensamen o <Gedankenbes immung> e [ ão] abs ac o» (WL-III, VI:
372); é, de es o, ambém o des ino da geome ia, como o explica o segundo capí ulo da e cei a secção
da mesma «Dou ina do Concei o», des ino sem dú ida explicá el pela «baixeza do seu pon o de is a»
<die Nied igkei ih es S andpunk s>: «O ca ác e de in uição que a geome ia possui em i ude do seu
ma e ial ainda sensí el dá-lhe apenas esse aspec o de e idência que possui o sensí el em ge al pa a o
espí i o desp o ido de pensamen o <gedankenlosen Geis >» (WL-III, VI: 536). Duas no as apenas. A
c í ica hegeliana das p o as ma emá icas assemelha-se à sua c í ica das p o as apagógicas kan ianas
(WL-I, V: 219, 272; a espei o das « e u ações» hegelianas de Kan , c . STANGUENNEC, A., Hegel c i ique
de Kan , P esses Uni e si ai es de F ance, Pa is 1985; c . b. SOLOMON, R.C., «Hegel’s epis emology»,
in M. INWOOD (ed.), Hegel, op. ci ., pp. 31-53, especialmen e pp. 39-44, e GUYER, P., «Though and
being: Hegel’s c i ique o Kan ´s heo e ical philosophy», in BEISER (ed.), The Camb idge Companion
o Hegel, op. ci ., pp. 171-210). Em segundo luga , o c i é io hegeliano da boa p o a é o ela se uma
mediação: «O p o a <das Beweisen> é, em ge al, o conhecimen o media isado < e mi el e E kenn nis>»
(WL-II, VI: 125-6), uma p o a é uma mediação (WL-III, VI: 372). O a, media isa é, pelo menos
numa das suas acepções, « e o na ao undamen o». A p o a álida – não ex e io men e álida, mas
in insecamen e, dialec icamen e, álida – é aquela que pe mi e, que media iza, o e o no ao undamen o.
O que em como o e ei o que, em con adis inção com as p o as ma emá icas, a p o a on ológica (c .
ambém a exposição da p o a on ológica nas lições de 1831 sob e a filosofia da eligião, VPHR, XVI:
124 Re is a da Faculdade de Le as – Sé ie de Filosofia, 30 (2013) 105-130
undamen os <G ünde> usados na demons ação « êm po sua ez necessidade de uma
undação <Beg ündung>, e assim po dian e ao infini o. Mas es a manei a de unda e de
condiciona pe ence a uma espécie de demons ação di e en e do mo imen o dialéc ico,
e, assim, ao conhecimen o ex e io 84». Em oposição ao pensamen o ma emá ico e ao
pensamen o ep esen a i o em ge al, encon amos a «p oposição especula i a», onde
se dissol e a ep esen ação e onde, con a iamen e ao que se e ifica no pensamen o
ep esen a i o, se des ói a di e ença en e sujei o e p edicado85, is o é, onde se in e nalizam
as di e enças: «na p oposição filosófica, a iden idade do sujei o e do p edicado não
de e aniquila a sua di e ença exp essa pela o ma da p oposição, mas a sua unidade
de e b o a como uma ha monia86». A «p oposição especula i a» não é já da o dem da
ep esen ação, mas da ap esen ação <Da s ellung>: «A ap esen ação, seguindo fielmen e
528-535) su ge como excelen e aos olhos de Hegel. (Schopenhaue di á, não sem azão, no # 7 de
Da quád upla aíz do p incípio da azão suficien e, que oda a filosofia – ele esc e e «pseudo-filosofia»
<Philosophas e ei> – de Hegel não é senão, «p op iamen e alando, uma amplificação mons uosa da
p o a on ológica <eine mons ose Amplifika ion des on ologischen Beweises>».) O p imei o capí ulo da
segunda secção («O enómeno») da Dou ina da essência, «A exis ência», discu e explici amen e a p o a
on ológica na sua elação ao abismo e ao undamen o. E con a en e as suas úl imas p oposições com
a seguin e: «mas es e abismo <Abg und>, o undamen o nega i o <de nega i e G und>, é ao mesmo
empo o undamen o posi i o do i à luz do se -aí, da essência imedia a em si mesma; a mediação
<Ve mi lung> é momen o essencial» <WL-II, VI: 128). Es as conside ações de Hegel não ep esen am
apenas um pon o de is a sob e o modo de exposição que melho con i ia à sua lógica (não pode ha e ,
de es o, de um pon o de is a hegeliano, dis inção en e ma é ia e modo de exposição). Exp imem,
an es, a sua na u eza p o unda, um pensamen o que busca, an es de udo o mais, «os in e s ícios en e
noções bem definidas», pa a ala como J. N. Findlay (FINDLAY, J.N., «The Con empo a y Rele ance
o Hegel», in Alasdai MACINTYRE (ed.), Hegel. A Collec ion o C i ical Essays, op. ci ., p. 3). O que
condena an ecipadamen e ao acasso en a i as alo osas de o maliza a lógica hegeliana, como as
de KOSOK, Michael, «The Fo maliza ion o Hegel’s Dialec ical Logic», in Alasdai MACINTYRE (ed.),
Hegel. A Collec ion o C i ical Essays, op. ci ., pp. 237-287, e DUBARLE, D., em «Dialec ique hégélienne
e o malisa ion», in DUBARLE - DOZ, Logique e dialec ique, op. ci ., pp. 1-200 (Duba le, no e-se de
passagem, expõe em de alhe odas as objecções hegelianas ao p ojec o que p ocu a desen ol e ; c .
b. DUBARLE, Logos e o malisa ion du langage, Klincksieck, Pa is 1977, pp. 230 sg s.). Di o is o, se á
semp e p eciso e em con a as a aliações posi i as da elação de Hegel à filosofia da ciência. C ., po
exemplo, a In odução e os comen á ios de And é Doz à e cei a secção do p imei o li o da Ciência da
Lógica (HEGEL, Théo ie de la mesu e, P esses Uni e si ai es de F ance, Pa is 1970), BUCHDAHL, Ge d,
«Hegel’s Philosophy o Na u e and he S uc u e o Science», in INWOOD (ed.), Hegel, op. ci ., pp. 110-
136, FERRINI, Cinzia, «Reason Obse ing Na u e», in Kenne h WESTPHAL (ed.) The Blackwell Guide
o Hegel’s Phenomenology o Spi i , op. ci ., pp. 92-135, bem como os abalhos já e e idos de Kenne h
WESTPHAL, nomeadamen e Hegel’s Epis emology. A Philosophical In oduc ion o he Phenomenology o
Spi i , op. ci . (A lis a, é cla o, é udo menos exaus i a.)
84 PhG, III: 61.
85 PhG, III: 59. Sob e a p oposição especula i a, c . Dominique DUBARLE, Logos e o malisa ion
du langage, op. ci ., pp. 253 sg s.
86 PhG, III: 59.
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a pene ação <Einsich > na na u eza do especula i o, de e man e a o ma dialéc ica87».
A «plas icidade88» assim adqui ida co esponde pe ei amen e à máxima in e nalização
das di e enças pe mi ida pelo pensamen o.
Vol emos ago a ao capí ulo sob e «Fo ça e En endimen o» da Fenomenologia. O
eino pla ónico das ideias, eino e e no e sepa ado do empo, ao qual o acesso só po ia
mís ica é possí el, define-o Hegel como um «além pe manecen e» <bleibende Jensei s>
acima do «aquém desapa ecen e» <schwindenden Diessei s>89. O a, Hegel c i ica esse
mundo que, numa já não inocen e de u pação do pla onismo, chama «in e io », po
ele se inde e miná el (conc e amen e inde e miná el, en enda-se, como coisa dis in a
de uma de e minação abs ac a: não ele a da ealidade e ec i a, da Wi klichkei ). Pa a
Hegel, pa a quem só exis e aquilo que pode se di o, e o indizí el é apenas um ou o
nome da banal igno ância, oda a di e ença que não es á insc i a no in e io do se e
não exp ime o se no seu mo imen o de au o-explici ação, de au o-dilucidação, oda
a di e ença que é me amen e ex e io , é i ele an e. E o pla onismo, ao p essupo às
di e enças enomenais uma unidade p imei a (sup asensí el, sup a enomenal), e po aí
pos ulando uma di e ença ex e na ( o ma/ enómeno), enega os seus un os dialéc icos
(de que o Pa ménides cons i ui ia o mais al o exemplo90 – o Pa ménides, jus amen e, que
encena uma « ecaída na e ís ica, e mesmo na so ís ica», como bem iu Paul Ricoeu 91)
e o na-se mais uma filosofia do En endimen o. O a, o que o capí ulo sob e «Fo ça e
En endimen o» ai mos a , pa indo do p incípio que o desen ol imen o do Espí i o é a
sua E inne ung, a eflexão in e io izada de uma essência que o discu so p og essi amen e
– a é Hegel – concep ualiza, é que oda a di e ença é, pa a u iliza exp essões da Ciência
da lógica da Enciclopédia, di e ença in e na à p óp ia coisa <Ding>, «exis ência essencial
<wesen liche Exis enz> que se sup ime e se conse a em si», « enómeno» <E scheinung>92.
Não há luga , como em Pla ão, pa a um eino das o mas, das leis, sepa ado do eino do
87 PhG, III: 62. Sob e a exa a quaes io da dialéc ica: a en a i a mais consis en e e es o çada de
cap u a o seu e dadei o sen ido pe manece al ez a de McTagga (MCTAGGART, J.M.E., S udies in he
Hegelian Dialec ic, Camb idge Uni e si y P ess, Camb idge 1896; mas, pa a uma isão con empo ânea,
c . FORSTER, M., «Hegel’s dialec ical me hod» , in BEISER (ed.), The Camb idge Companion o Hegel,
op. ci ., pp. 130-170); e a sua c í ica mais incisi a a de Poppe (POPPER, K., «Wha is Dialec ic?», in
K. POPPER, Conjec u es and Re u a ions, Rou ledge and Kegan Paul, Lond es 1972 (1963), Cap. XV).
Pa a uma b e e his ó ia das á ias acepções do e mo «dialéc ica», c . DOZ, A., «Usage e abus du mo
“dialec ique”», in DUBARLE - DOZ, Logique e dialec ique, op. ci ., pp. 201-237, e, pa a uma análise
mais ex ensa do concei o, SICHIROLLO, Li io, Diale ica (1973), ad. po uguesa, Dialéc ica, P esença,
Lisboa, 1980.
88 C . PhG, III: 60.
89 PhG, III: 117.
90 PhG, III: 66.
91 RICOEUR, P., Pla on e A is o e, Les cou s de So bonne, Cen e de Documen a ion Uni esi ai e,
Pa is 1957, pp. 15-16.
92 Enz, # 130, VIII: 260.
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sensí el. É como se as leis habi assem o p óp io sensí el e nada ossem pa a além dele.
A di e ença é semp e, quando concep ualmen e bem comp eendida, di e ença in e io .
«G aças a es e p incípio, esc e e Hegel, o p imei o mundo sup asensí el, o calmo eino
das leis, a cópia imedia a <unmi elba e Abbild> do mundo pe cepcionado» – é assim que
Hegel desc e e o mundo ideal pla ónico – «é con e ido no seu con á io93».
O mundo assim alcançado é o e o no da di e ença à iden idade, é a iden ificação
da di e ença – concep ual – no in e io do p óp io enómeno, é, enfim, a de e minação
– conc e a, não abs ac a – da infini ude. O que, no undo, Hegel p e ende p o a – con a
Pla ão – é que o Mesmo p ecisa do Ou o, significa i amen e iden ificado com o nega i o,
pa a exis i , e pa a exis i no in e io de uma enomenalidade concep ualizada, po assim
dize , no in e io do p óp io enómeno94. Pa a Pla ão – é, em odo o caso, a in e p e ação
mais e osímil da dou ina da elação dos g andes géne os no Sofis a -, o Mesmo p ecisa
do Ou o pa a se di o, mas essa necessidade ad ém de uma deficiência: é que a dicção do
Se é semp e p ecá ia, só é possí el a a és de pon os de is a, o çosamen e incomple os,
e aí o Ou o é necessá io, a con a-dicção é necessá ia, é impossí el de e i a , pelo menos
num egis o p é io ao acesso ao an-hipo é ico, que é sup a-dic i o e onde a ques ão muda
in ei amen e de figu a. Mas pa a Hegel – jus amen e po ela se impossí el de e i a , po
não pode muda de figu a – ela é a p óp ia e dade (o seu mo imen o), e udo o que
exis e só pode exis i po meio do discu so (con adi ó io): de ou o modo é also, ou
pio , nem seque é also, po que a alsidade, o e o, é um momen o da e dade95, pu a
93 PhG, III: 127.
94 Nas Lições sob e a his ó ia da filosofia, Hegel lê no en an o o Sofis a à luz da sua p óp ia dou ina,
p oduzindo, po assim dize , uma o são on ológica de Pla ão (VGPh, XIX: 69-77). Assim: «A o ma
mais ele ada que encon amos em Pla ão é a iden idade do se e do não-se <die Iden i ä des Seins
und Nich seins>: o que é e dadei o é o exis en e <das Seiende>, mas esse exis en e não exis e sem a
negação <Nega ion>. Pla ão mos a assim que o não-se exis e <Pla o zeig so au , dass das Nich sein is >»,
«(unidade do se e do não se , e ao mesmo empo não-unidade <Einhei des Seins und Nich seins, und
zugleich Nich einhei >)», o ou o é o nega i o em ge al <was das Ande e is , is das Nega i e übe haup >
(VGPH, XIX: 74, 75). A p e ensão hegeliana – na qual se pode le oda a ex ensão da sua de u pação
do pla onismo – consis e em e a ambição undado a do Sofis a como o es abelecimen o da exis ência
eal do Não-Se , quando es e es abelecimen o é, no Sofis a, apenas uma hipó ese, somando udo ad hoc,
des inada a au o iza (po um ecu so a pad ões on ológicos, um ecu so ao qual e osimilmen e Pla ão
não se podia esqui a ) a dou ina posi i a (lógica e epis emológica) do e o, que, essa sim, cons i ui
uma das maio es con ibuições do Sofis a pa a a his ó ia do pensamen o (e um eno me a anço po
elação ao Tee e o). (O pa icídio pla ónico le ado a cabo pelo Es angei o do Sofis a – Sofis a, 241d
- não é al como o concebe Hegel, a elação en e Se e Não-Se não possui em Pla ão o mesmo g au de
in e nalidade que em Hegel: o Não-Se é o Ou o, não o nega i o hegeliano, a dialéc ica pla ónica não
é a dialéc ica hegeliana.) Fundamen almen e, como G. L. Owen o no ou, os p oblemas essenciais do
Sofis a são p oblemas de p edicação e de e e ência, não p oblemas on ológicos (OWEN, G.L., «Pla o on
No -Being» (1970), in Gail FINE, Pla o 1. Me aphysics and Epis emology, op. ci ., pp. 416-454). Sob e a
e olução da concep ualização do e o, ale semp e a pena ele as belas análises de BROCHARD, Vic o , De
l’e eu (1879), ad. po uguesa Do e o, A lân ida, Coimb a 1971 (sob e Pla ão, c . o capí ulo II).
95 Enz., Adenda ao # 212, VIII: 367.
Re is a da Faculdade de Le as – Sé ie de Filosofia, 30 (2013) 105-130 127
e simplesmen e não exis e, não pode se pensado – ou quando é pensado, como aqui,
ago a, já exis e como eac ualização de uma di e ença, como «incessan e dis inção de si
com espei o a si p óp io», segundo a hegeliana exp essão de Gadame 96.
A infini ude, a boa infini ude, ob ida pela in e nalização das di e enças no enómeno
é, pa a Hegel, o Concei o Absolu o, «que é p eciso ap esen a e ap eende na sua pu eza
(…) da di e ença como di e ença in e io <als inne e Un e schied>97». Assim, a lei (a
o ma) já não é, como em Pla ão, anscenden e ao seu exemplo, ela é o p óp io exemplo
enquan o p og esso di e encian e da sua explici ação. A lei, pa a Hegel, como infini ude,
«é um igual a si mesmo que é, no en an o, a di e ença em si» <ein Sichselbs gleiches, welches
abe de Un e schied an sich is >98. Es a infini ude, esc e e Hegel – mui o pla onicamen e,
de es o – é «a Alma do Mundo» <die Seele de Wel >99.
A di e ença, o exemplo, o Ou o, en e o Mesmo e o Mesmo, en e o p incípio e o
fim, e ela a consciência a si mesma, ab e, como esc e e Hegel, as co inas do in e io
pla ónico, que dilucida, e descob e o objec o como sujei o, au o-iden ifica o objec o como
sujei o. Con ém ac escen a que a iden ificação do objec o como sujei o passa po uma
ime são do sujei o na « ida do objec o <Gegens and>», uma pene ação no «con eúdo
imanen e da coisa <Sache>», uma exp essão da «necessidade in e io desse objec o100».
Mais uma ez: abolição de qualque ex e io idade. Todas as di e enças se dão in e namen e.
Só assim são ida, ida do Concei o, ida da Razão.
Assim, a es e a eidé ica, o cosmos noe os in e io izado, é a consciência de si, o acional
é o eal, o pla onismo in e ido – po meio da in e io ização das di e enças – comp eende
o op imismo a is o élico e o seu mo imen o dos se es eleologicamen e o ien ado. Aquilo
que é di e enciação, au o-explici ação do Mesmo po meio do Ou o ( elos), é mo imen o
do Ou o de e o no ao Mesmo (E inne ung). O fim p essupos o e o na p og essi amen e,
po meio da ememo ação, ao seu p incípio, e o seu empo é o único empo, se é que
empo há: o p esen e, o empo do discu so que diz absolu amen e o uni e sal.
É chegada a al u a de uma ecapi ulação. O p og esso do Espí i o az-se a a és da
supe ação da consciência ep esen a i a, que assinala a ex e io idade da subs ância, is o
é, a concepção de uma subs ância sem ida, uma subs ância que não é ainda concebida
como Sujei o: «A subs ância, com e ei o, é [nes e es ado] o em si ainda não desen ol ido,
ou o undamen o <G und> e o concei o na sua simplicidade ainda imó el101». Supe a
a consciência ep esen a i a, passa da ep esen ação à ap esen ação, à Da s ellung,
à p oposição especula i a, significa p og edi em di ecção à ealização do Concei o,
96 GADAMER, Hegels Dialek ik. Fün he meneu ische S udien (1966), ad. cas elhana, La dialec ica
de Hegel, Ca ed a, Mad id 1981, p. 73.
97 PhG, III: 130.
98 PhG, III: 131.
99 PhG, III : 132.
100 PhG, III: 52.
101 PhG, III: 584.
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em di ecção à eliminação da ex e io idade – à abso ção da alienação, maximamen e
ep esen ada, na Enciclopédia, pela Na u eza – e à in e io ização das di e enças:
[A] de e minabilidade <Bes imm hei > do Concei o com is a ao seu p eenchimen o
<E üllung> sup ime-se, a sua consciência de si ganha a o ma da uni e salidade, e o que
es a à consciência de si é o seu Concei o e dadei o, o Concei o que ganhou a sua ealização
<Realisie ung>; é o Concei o [o É e da ida do Espí i o102] na sua e dade, is o é, na sua unidade
com a sua alienação <En äusse ung>103.
Di o de ou a manei a, é a Ciência: «O Espí i o mani es ando-se à consciência nes e
elemen o [o Concei o], ou, o que é a mesma coisa, p oduzido po ela num al elemen o,
é a Ciência104». A Ciência é en ão o esul ado de uma comple a sa u ação do indi íduo
pelo Concei o, sa u ação essa que co esponde simul aneamen e ao fim da dis inção
en e sabe e e dade105 (en e epis émico e epis emológico) e à eliminação do empo:
o Espí i o «mani es a-se no empo enquan o não cap u a <e ass > o seu Concei o
pu o, is o é, não elimina < ilg > o empo106». O meio pelo qual o empo é eliminado,
o meio da ealização do Concei o, da sua econquis a eflexi a, já o conhecemos. É a
coincidência de dois mo imen os apa en emen e opos os: um mo imen o de ex e io ização
e desen ol imen o eleológico – o elos – e um mo imen o de in e io ização e de
ememo ação – a E inne ung. Como esc e e Hegel, «essa subs ância que é o Espí i o,
é o de i do Espí i o pa a a ingi aquilo que ele é em si, e é unicamen e como al de i
eflec indo-se a si mesmo em si mesmo que ele é em si, na e dade, Espí i o107». Is o é: o
desen ol imen o da subs ância – da his ó ia, do mundo –, eleologicamen e o ien ado,
culmina com o e o no a si dessa mesma subs ância, ago a concebida como Espí i o, e
esse e o no é exac amen e a ememo ação do desen ol imen o – uma ememo ação que
é in e io ização, en ol imen o –, o pa a si do em si. «Es e mo imen o [de ac o: a unidade
comple a dos dois mo imen os de desen ol imen o e en ol imen o, elos e E inne ung]
é o cí culo e o nando em si mesmo que p essupõe o seu começo e o a inge unicamen e
no fim108». Telos e E inne ung o mam, com e ei o, um cí culo pe ei o: o en ol imen o
ea a com o início do desen ol imen o, com a e dade p essupos a, mas ago a, no e mo
do p ocesso, já in ei amen e de e minada. A de e minação comple a, insis amos, é a
in e nalização comple a das di e enças, que liquida o empo e abso e oda a inquie ude
numa apa ência de imobilidade: «o sabe consis e (…) nes a inac i idade apa en e
<scheinba en Un ä igkei > que conside a unicamen e como aquilo que é di e en e se mo e
102 PhG, III: 589.
103 PhG, III: 580.
104 PhG, III: 583.
105 PhG, III: 589.
106 PhG, III: 584.
107 PhG, III: 585.
108 PhG, III: 585.
Re is a da Faculdade de Le as – Sé ie de Filosofia, 30 (2013) 105-130 129
em si mesmo e e o na na sua unidade109». O e o no a si da subs ância concebida como
Espí i o é duplo: p imei o, alienação do Espí i o na Na u eza, no espaço e no empo, de
que se ocupa a Filosofia da Na u eza da Enciclopédia, o mo imen o da negação110; segundo,
econquis a do Espí i o ao espaço e ao empo a a és da his ó ia, objec o da Filosofia do
Espí i o da Enciclopédia, a negação da negação111. Mas es e segundo momen o di ide-
se ele mesmo em dois, e são esses dois sub-momen os que nos êm indo a ocupa : o
p imei o deles ( elos) compo a ainda uma ex e io ização – é a his ó ia e ec i a: o Espí i o,
já econquis ado à na u eza, desen ol e-se pacien emen e; o segundo (E inne ung) é a
in e io ização p op iamen e di a – a filosofia. «Pois que a pe eição <Vollendung> do
espí i o consis e em sabe in eg almen e aquilo que ele é, a sua subs ância, esse sabe é
en ão o seu en a em si <Insichgehen> no qual o Espí i o abandona o seu se -aí e confia
a figu a des e à ememo ação <E inne ung>112». A E inne ung apa ece aqui mais uma
ez explici amen e associada à in e io ização, ao e o no a si.
O pon o em que es es dois mo imen os se encon am é um pon o de con acção,
uma concen ação máxima do Espí i o. Não se a a aqui da «concen ação em si mesma»
<Insichsein> da Bela Alma, modelo da o u ada ausência de p eenchimen o113. T a a-se
an es da sa u ação comple a do indi íduo pelo Concei o, a a és da qual se obse a «a
pa usia do absolu o no seu igo a <Wal en>114». Uma sa u ação que é uma de e minação
comple a do Concei o na men e de Hegel115. Na ficção filosófica que é o Sis ema hegeliano,
a his ó ia acaba quando, num pon o de con acção máxima, o empo é abolido com o
ad en o do Sabe Absolu o. E o Sabe Absolu o e ela-se como uma au ode e minação
final e pe ei a do Espí i o, esul ado do seu pleno desen ol imen o finalizado ( elos) e
do seu pa alelo en ol imen o (E inne ung). Que al e elação possa e sido pensada po
um filóso o como endo-se dado, de modo defini i o, na sua consciência – um pouco
à imagem de Napoleão, a is ado po Hegel em Iena: «É um sen imen o p odigioso e
109 PhG, III: 588.
110 PhG, III: 590.
111 PhG, III: 590.
112 PhG, III: 590.
113 PhG, III: 580. Pa a a análise hegeliana da Bela Alma, c . HYPPOLITE, Jean, Genèse e s uc u e
de la Phénoménologie de l’esp i de Hegel, op. ci ., pp. 495-500, e BEISER, F.C., «Mo ali y in Hegel’s
Phenomenology o Spi i », in Kenne h WESTPHAL (ed.) The Blackwell Guide o Hegel’s Phenomenology o
Spi i , pp. 209-225, especialmen e pp. 221-224.
114 HEIDEGGER, «Hegel e o seu concei o de expe iência», in HEIDEGGER, Caminhos de flo es a
(Holzwege), op. ci ., p. 232. Sob e a pa usia, c . b. DERRIDA, «Ousia e g ammè», op. ci ., pp. 31-78.
115 «Hegel même déc i an la déma che de l’esp i comme si elle excluai ou a ê possible la
aisai abou i cependan à LUI comme si, de ou e nécessi é, il de ai en ê e le e me. Il donnai
aussi au mou emen du emps la s uc u e cen ipè e qui ca ac é ise la sou e aine é, l’Ê e ou Dieu»
(BATAILLE, «L’obélisque», op. ci ., p. 509). No e-se que o concei o de sobe ania <sou e aine é> é um
concei o undamen al no pensamen o de Ba aille, azendo en a em jogo o pa Hegel/Nie zsche, numa
espécie de excesso do segundo po elação ao p imei o.