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Psicologia: Teo ia e Pesquisa
2016, Vol. 32 n. 2, pp. 1-9
doi: h p://dx.doi.o g/10.1590/0102-3772e32224
e32224
ARTIGO ORIGINAL
A Relação en e as Rep esen ações ace ca das Figu as Pa en ais e as Compe ências
Sociais em C ianças Mal a adas e não Mal a adas
Ma iana Lopes de Sousa1
O landa C uz
Uni e sidade do Po o
ReSuMO - Assumindo a cen alidade das ep esen ações ace ca das igu as pa en ais na aje ó ia desen ol imen al, es e
es udo e e como obje i o analisa a elação des as ep esen ações com as compe ências sociais de c ianças mal a adas e
não mal a adas. Pa icipa am, nes a in es igação, 62 c ianças em idade escola (22 mal a adas e 40 não mal a adas). As
ep esen ações ace ca das igu as pa en ais o am a aliadas com a En e is a de A aliação das Rep esen ações ace ca das Figu as
Pa en ais e as compe ências sociais com a adap ação po uguesa da Social Skills Ra ing Sys em – Fo m o Teache s. Nas c ianças
mal a adas, não se e i ica a associação en e as ep esen ações das igu as pa en ais e as compe ências sociais, obse ada em
amos as no ma i as. Os esul ados suge em que os dois g upos a ibuem signi icados dis in os aos compo amen os pa en ais.
Pala as-cha e: ep esen ação men al em c ianças, ep esen ação pa en al, elações pais-c iança, compe ência, abuso da c iança
Rela ionship be ween Men al Rep esen a ions o Pa en s and Social Compe ence o
Abused and Nonabused Child en
AbSTRACT - Conside ing he impo ance o men al ep esen a ions o pa en al igu es in he de elopmen al ajec o y
o child en, his s udy aimed o analyze he ela ionship o hese ep esen a ions wi h he social compe ence o abused and
nonabused child en. A o al o 62 school-aged child en pa icipa ed in his s udy (22 mal ea ed and 40 nonmal ea ed). The
men al ep esen a ions o he child en we e assessed wi h he Child en Rep esen a ions abou Pa en al Figu es In e iew,
while social compe ence was assessed wi h means o he Po uguese e sion o he Social Skills Ra ing Sys em – o m o
eache s. The associa ion be ween ep esen a ions o pa en al igu es and social compe ence obse ed in no ma i e samples
does no exis in abused child en. These esul s sugges ha abused and nonabused child en a ibu e di e en meanings o
hei pa en s’ beha io .
Keywo ds: men al ep esen a ion in child en, pa en al ep esen a ion, pa en child ela ions, compe ence, child abuse
1 Ende eço pa a co espondência: Rua Al edo Allen, Po o, Po ugal.
CEP: 4200-135. E-mail: [email p o ec ed]
A expe iência de maus- a os cons i ui a o de isco pa a
a aje ó ia desen ol imen al, podendo exe ce g andes
epe cussões nega i as ex ensí eis ao desen ol imen o
ísico, emocional, social e cogni i o da c iança (Ba ne ,
1997). A i ência de si uações de maus- a os encon a-se
es ei amen e associada às compe ências sociais da c iança
(Shields, Ryan, & Cicche i, 2001). Em compa ação com as
não mal a adas, as c ianças mal a adas endem a ap esen a
um locus mais ex e no de con ole (Bolge & Pa e son,
2001), a se menos empá icas e sensí eis nas in e ações
pessoais (S ake & Jacobson, 1981) e a inco e , com maio
equência, em compo amen os ag essi os (Johnson e al.,
2002) e de up u a com a eg a (To es, Maia, Ve íssimo,
Fe nandes, & Sil a, 2012).
Além das di iculdades na in e ação social, as c ianças que
i encia am expe iências de maus- a os endem a ap esen a
di iculdades de egulação emocional e compo amen al
(Maughan & Ciche i, 2002), que po encializam a eme gência
de p oblemas de in e nalização (Bolge & Pa e son, 2001)
e de ex e nalização (To h, Cicche i, Mac ie, Rogosch, &
Maughan, 2000). As c ianças mal a adas êm maio isco
de desen ol e sin oma ologia dep essi a (e.g. To h, Manly,
& Cicche i, 1992) e ansiosa, bem como de ap esen a
queixas somá icas (Culp, Howell, Culp, & Blankemeye ,
2001). Ap esen am, ambém, mais eações de i i abilidade
explosi a, desobediência e di iculdades no elacionamen o
in e pessoal (Milo , É hie , S -Lau en , & P o os , 2010).
O es udo da pa en alidade mal a an e su ge, assim,
como um impe a i o na análise dos p ocessos psicológicos
associados ao impac o da expe iência de maus- a os
nas compe ências sociais das c ianças. O es udo das
ep esen ações men ais das c ianças ace ca das igu as
pa en ais pe mi e cump i esse desígnio.
As ep esen ações ace ca das igu as pa en ais são
in e nalizadas pela c iança no con ex o das elações a e i as
p ecoces, modelando a o ma e a qualidade das elações po
ela es abelecidas, ao longo da sua aje ó ia desen ol imen al
(Clyman, 2003; Shields e al., 2001). Essas ep esen ações
são es u u as men ais de na u eza cogni i a e a e i a, que
inco po am e in eg am as ep esen ações do sel , do ou o e
da in e ação de ambos (Waldinge , To h, & Ge be , 2001).
Funcionam como pa âme o pa a as expe iências elacionais
da c iança (Solomonica-Le i, Yi miya, E el, Same , &
Oppenheim, 2001).
2 Psic.: Teo . e Pesq., B asília, 2016, Vol. 32 n. 2, pp. 1-9
ML Sousa & O C uz
As ep esen ações men ais das c ianças êm sido es udadas
com base em me odologias na a i as, nomeadamen e a a és
de en e is as semies u u adas em que são ap esen ados
inícios de his ó ias que a c iança de e comple a , a a és
da cons ução de uma na a i a e da sua d ama ização (e.g.,
B e he on & Oppenheim, 2003; Cus ódio & C uz, 2008). Os
esul ados da in es igação baseada na análise compa a i a
do con eúdo das na a i as de c ianças mal a adas e não
mal a adas não supo am, de o ma consis en e, a exis ência
de di e enças nas ep esen ações ace ca das igu as pa en ais
(c . Clyman, 2003).
Algumas in es igações e elam que, em compa ação com
os pa es não mal a ados, as c ianças mal a adas endem a
ep esen a as igu as pa en ais como menos esponsi as
(Wa en, 2003), mais puni i as, ag essi as e con li uosas
(To h e al., 2000). Nas suas na a i as, as c ianças
mal a adas endem a mos a menos empa ia e p eocupação
pe an e o mal-es a ísico e/ou emocional dos pa es (Klimes-
Dougan & Kis ne , 1990) e a en ol e -se em menos
compo amen os p ó-sociais (Koenig, Ciche i, & Rogosch,
2004). Assumem menos a pe spe i a do ou o e ep esen am
os adul os e os pa es como menos esponsi os ace ao
mal-es a emocional e aos compo amen os p ó-sociais das
pe sonagens (Mac ie e al., 1999). Tendem, igualmen e, a
desc e e mais compo amen os de ag essão ísica com os
cuidado es e os pa es (Buchsbaum, To h, Clyman, Cicche i,
& Emde, 1992), bem como mais compo amen os de up u a
com a eg a (Koenig e al., 2004).
Toda ia, ou as in es igações mos am que os con eúdos
eme gen es nas na a i as das c ianças mal a adas não es ão
linea men e associados à sua expe iência na in e ação com as
igu as pa en ais (Mac ie e al., 1999). A inconsis ência dessa
associação apon a pa a a possibilidade de, na cons ução das
na a i as das c ianças mal a adas, pode em in e e i ou os
aspe os, além das ep esen ações das expe iências i idas
em con ex o amilia .
No âmbi o dessa discussão, su gem duas hipó eses
explica i as: a ep esen acional e a da egulação emocional
(Clyman, 2003). A hipó ese ep esen acional p econiza
que as c ianças mal a adas endem a desc e e si uações
de con li o e ensão emocional, ep oduzindo, nas suas
na a i as, as expe iências i enciadas no con ex o amilia
(He zbe ge , Po s, & Dillon, 1981). Po sua ez, a hipó ese
da egulação emocional baseia-se no p essupos o de que
as c ianças modi icam, ou e i am e a a , as in e ações
amilia es nega i as, pa a e i a o con on o com as emoções
po elas despe adas, sendo as suas na a i as pe meadas po
mecanismos de egulação emocional (To h, Cicche i, Mac ie,
& Emde,1997). Desse modo, as na a i as cons uídas pelas
c ianças sob e as igu as pa en ais pa ecem se in luenciadas
não só pelas ep esen ações das in e ações amilia es como
ambém pelos mecanismos de egulação das emoções a elas
associadas (Clyman, 2003).
A in es igação mos a que as ep esen ações ace ca das
igu as pa en ais es ão associadas ao compo amen o social
da c iança (Laible, Ca lo, To qua i, & On ai, 2004). As
c ianças que ep esen am o compo amen o ma e no como
ambi alen e, is o é, pau ado pela disciplina inconsis en e e
pelo a e o nega i o, endem a ap esen a mais p oblemas de
compo amen o (Solomonica-Le i e al., 2001). As c ianças
que ep esen am as igu as pa en ais como eco endo,
mais equen emen e, à punição ísica endem a se menos
compe en es social e academicamen e (Shields e al.,
2001) e a ap esen a mais p oblemas de in e nalização
(Oppenheim, Emde, & Wa en, 1997). Além disso, os
compo amen os pa en ais puni i os p edizem a desc ição
de in e ações ag essi as dos p o agonis as das na a i as e os
compo amen os ex e nalizados da c iança. Em consonância
com esses esul ados, a li e a u a mos a que baixos ní eis
de esponsi idade emocional e al os ní eis de ejeição es ão
associados a p oblemas de in e nalização e ex e nalização,
sendo que os compo amen os pa en ais de a e o p edizem
nega i amen e os sin omas de ex e nalização (e.g., Mu is,
Mees e s, & an den Be g, 2003). Os compo amen os
pa en ais de apoio es ão nega i amen e associados a
compo amen os delinquen es e ag essi os (Oppenheim e
al., 1997) e posi i amen e associados a compo amen os
p ó-sociais e de acei ação pelos pa es (Shields e al., 2001).
Esses esul ados são co obo ados pela in es igação
cen ada na pe spe i a dos pais, mos ando que, quando os
pais a i mam eco e à punição ísica e à ag essão e bal,
os ilhos exp essam menos bem-es a (Ama o & Fowle ,
2002), e idenciam meno au ocon ole (C uz, 1999), assim
como mais p oblemas de in e nalização e de ex e nalização
(Ge sho , 2002).
Assumindo as ep esen ações ace ca das igu as pa en ais
como decisi as na aje ó ia desen ol imen al, es e es udo
e e como obje i o analisa a elação dessas ep esen ações
com as compe ências sociais em c ianças mal a adas,
dado que a especi icidade dessa elação é documen ada de
o ma insu icien e na li e a u a. A in es igação mos a que
a in luência das p á icas educa i as pa en ais na c iança
pode a ia em unção do meio social em que a amília es á
inse ida, nomeadamen e da no ma i idade dessas p á icas
(Baum ind, 2012). Po exemplo, se os compo amen os
de con ole puni i o o em habi uais em uma de e minada
comunidade, podem não e um impac o nega i o, sendo
possí el que a c iança não lhes a ibua um signi icado
nega i o e os in e p e e como mani es ações de a enção
e a e o. Desse modo, é possí el que a ep esen ação de
compo amen os pa en ais simila es possa es a associada
a di e en es compe ências nas c ianças mal a adas e não
mal a adas.
Tendo essas p emissas como eixo no eado , es e es udo
em como obje i os:
1. Analisa compa a i amen e as ep esen ações ace ca
das igu as pa en ais em unção da expe iência de
maus- a os. Na in es igação desen ol ida nesse
domínio, su gem duas hipó eses - a ep esen acional
e a da egulação emocional –, p e endendo-se es á-
las nes e es udo.
2. Analisa compa a i amen e as compe ências sociais
das c ianças em unção da expe iência de maus-
a os. A li e a u a supo a a exis ência de agilidades
nessas compe ências, nas c ianças mal a adas.
3. Analisa a elação das ep esen ações sob e as igu as
pa en ais com as compe ências sociais das c ianças
em unção da expe iência de maus- a os. Dada a
insu iciência de dados empí icos na documen ação
3Psic.: Teo . e Pesq., B asília, 2016, Vol. 32 n. 2, pp. 1-9
Maus- a os, Rep esen ações ace ca das Figu as Pa en ais e Compe ências
dessas di e enças, essa ques ão se á obje o de uma
análise explo a ó ia.
Mé odo
Pa icipan es
Pa icipa am, nes e es udo, 62 c ianças, sendo 22
mal a adas e 40 não mal a adas. O g upo de c ianças
mal a adas oi cons i uído po 15 meninas e 7 meninos,
en e os 6 e os 12 anos de idade (M = 8.05; DP = 1.84), a
equen a o 1º ou 2º ciclo do ensino básico1 . Es as c ianças
o am e i adas à amília biológica, po se em í imas de
mau- a o, endo sido ins i ucionalizados em Cen os de
Acolhimen o Tempo á ios (CAT). Qua o c ianças p o inham
de um ní el socioeconómico (NSE) médio e 18 de um NSE
baixo . Quan o à na u eza dos maus- a os, 7 c ianças inham
so ido maus- a os ísicos; 6, maus- a os emocionais;
e 20, negligência, ha endo, como se ia de espe a , uma
sob eposição en e os di e en es ipos de maus- a os.
Rela i amen e ao empo de esidência no CAT, 17 c ianças
encon a am-se ins i ucionalizadas há um ano ou menos e
cinco há mais de um ano. O g upo de c ianças não mal a adas
oi in eg ado po 20 meninas e 20 meninos, en e os 8 e os
9 anos de idade (M = 8,43, DP = 0,50), que i iam com a
amília biológica, p o indo 20 de um NSE médio e 20 de
um NSE baixo. Essas c ianças equen a am o 1º ciclo de
escola idade e i iam com ambos os pais.
Ins umen os
en e is a de A aliação das Rep esen ações das
C ianças ace ca das Figu as Pa en ais (eARCFP).
A EARCFP (Cus ódio & C uz, 2008) é uma en e is a
semies u u ada, cons i uída po dez inícios de his ó ias
que desc e em si uações de in e ação de pais/mães e ilhos,
ep esen a i as da o ina das c ianças em idade escola .
Foi cons uída com base na MacA hu S o y S em Ba e y
(MSSB; B e he on & Oppenheim, 2003). Em cinco his ó ias,
o ema dominan e é o disciplina , enquan o, nas es an es,
p edomina um ema de a e o. Nas his ó ias em que domina
o ema disciplina , a c iança p o agonis a ap esen a um
compo amen o socialmen e desadequado. Nas his ó ias
em que p edomina o ema de a e o, a c iança p o agonis a
é desc i a como es ando numa si uação de ulne abilidade
ísica e/ou emocional. A en e is a em duas e sões,
di e enciadas em unção da igu a pa en al p o agonis a.
O p ocedimen o de adminis ação consis e em ap esen a
o início da his ó ia, sendo o p ocesso de cons ução da
na a i a es u u ado com base em um conjun o de ques ões
que isam explo a o seu con eúdo, onalidade emocional
dominan e e es u u a: (a) Como é que achas que o(a)
menino(a) se sen e? Po quê?; (b) E a mãe/pai, como é que
1 O 1º ciclo do ensino básico co esponde aos qua o p imei os anos de
escola idade, enquan o o 2º ciclo do ensino básico se e e e aos dois
anos de escola idade subsequen es.
achas que ela/e se sen e? Po quê?; (c) O que é que achas
que a mãe/pai ai aze ?; (d) Po que é que achas que agiu
dessa o ma?; (e) E ago a, como é que o(a) menino(a) se
sen e?; ( ) E ago a, como é que achas que a mãe/pai se
sen e?; (g) Como e mina a his ó ia?. Com is a a acili a
o p ocesso de cons ução da na a i a, são u ilizadas oi o
igu as ilus a i as das pe sonagens que p o agonizam as
his ó ias (o menino, a menina, a mãe, o pai, o i mão, a i mã,
o amigo e a amiga dos pais), cujo in ui o é pe mi i à c iança
d ama iza a ação na ada.
O con eúdo das na a i as das c ianças oi analisado com
ecu so a um sis ema de codi icação baseado no sis ema
de Cus ódio e C uz (2008), que ab ange: compo amen os
pa en ais de a e o, compo amen os pa en ais disciplina es
e clima emocional dominan e na in e ação com as igu as
pa en ais. Os compo amen os pa en ais de a e o incluem os
compo amen os de acei ação (apoio, p o eção, p es ação de
cuidados ou sa is ação de desejos da c iança) e de ejeição
(desap o ação, insensibilidade ace às necessidades e
desejos, a as amen o). Po sua ez, os compo amen os
pa en ais disciplina es ab angem a punição ( ísica e não
ísica), a indução (explicações, jus i icações, ap esen ação de
uma eg a ou p incípio a cump i ) e a ausência de con on o
(igno a a si uação de con li o ou cede às solici ações
da c iança pa a e i a o con on o com o compo amen o
desadequado).
Os compo amen os pa en ais de a e o e disciplina es o am
a aliados em uma escala de ês pon os (1-compo amen o
ausen e; 2-compo amen o com in ensidade média;
3-compo amen o mui o in enso). O clima emocional oi
a e ido numa escala de 4 pon os (1- o almen e nega i o;
4- o almen e ou quase posi i o).
Pa a calcula o aco do in e codi icado , as na a i as
de 25% dos pa icipan es o am co adas po qua o
in es igado as. Duas in es igado as co a am as na a i as de
dez c ianças não mal a adas, em um o al de 200 na a i as.
As ou as duas in es igado as co a am as na a i as de
seis c ianças mal a adas, em um o al de 120 na a i as.
Foi calculado o coe icien e de aco do [nº de aco dos/ (nº
de aco dos + nº de desaco dos)] e o Kappa ponde ado. O
coe icien e de aco do oscilou en e 92% e 100%, sendo a
média 97%. Os alo es do Kappa ponde ado a ia am en e
0,84 e 1, sendo a média 0,89.
escalas de A aliação da Compe ência Social (eACS).
As compe ências sociais o am a aliadas a a és das Escalas
de A aliação da Compe ência Social – o ma pa a p o esso es
(Lemos & Meneses, 2002), que consis e na e são aduzida
e adap ada do Social Skills Ra ing Sys em (SSRS; G esham
& Ellio , 1990). No es udo de adap ação à população
po uguesa, oi encon ada uma es u u a mul i a o ial
semelhan e à p opos a pelos au o es do SSRS (Lemos &
Meneses, 2002).
Esse ins umen o é compos o po 54 i ens, o ganizados
em ês escalas: (a) Habilidades Sociais, com 30 i ens
o ganizados em ês subescalas (Au ocon ole, Coope ação
e Asse ção); (b) P oblemas de Compo amen o, com 18 i ens
o ganizados em ês subescalas (P oblemas Ex e nalizados,
P oblemas In e nalizados e Hipe a i idade); (c) Compe ência
Académica, com 6 i ens. Os esul ados da úl ima escala não
o am u ilizados nes e es udo. A consis ência in e na das no as
4 Psic.: Teo . e Pesq., B asília, 2016, Vol. 32 n. 2, pp. 1-9
ML Sousa & O C uz
é ele ada, à semelhança do que acon ece em ou os es udos
(c . Cus ódio & C uz, 2008; Lemos & Meneses, 2002).
Os coe icien es alpha de C onbach pa a o Au ocon ole,
a Coope ação, a Asse ção e Habilidades Sociais são 0,85;
0,91; 0,85 e 0,94, espec i amen e. Po seu u no, nas escalas
de P oblemas Ex e nalizados, P oblemas In e nalizados,
Hipe a i idade e P oblemas de Compo amen o, os alo es
ob idos são 0,93; 0,79; 0,87 e 0,94, espec i amen e.
P ocedimen o
A cole a de dados oi ealizada em ês Cen os de
Acolhimen o Tempo á io (CAT), no caso do g upo de
c ianças mal a adas, e em escolas, no g upo de c ianças
não mal a adas. Nos CAT, a ealização das en e is as oi
au o izada pela di eção écnica e, nas escolas, pela di eção
dos ag upamen os e pelos enca egados de educação.
Todas as c ianças esponde am às duas e sões da
en e is a, em um o al de 20 na a i as. Me ade das c ianças
espondeu, p imei o, à e são e e en e à igu a ma e na e,
depois, à e são ela i a à igu a pa e na, endo a o dem
de aplicação das duas e sões sido in e ida com a ou a
me ade dos pa icipan es. A du ação média da en e is a
ondou os 50 minu os, embo a a iando em unção do
es ilo de uncionamen o de cada c iança. As na a i as das
c ianças o am g a adas em áudio e ansc i as pa a análise
e codi icação. De posse dos dados ecolhidos jun o à c iança,
os écnicos dos CAT e os p o esso es i ula es de u ma
p eenche am a EACS, no g upo de c ianças mal a adas e
não mal a adas, espec i amen e.
Resul ados
Análises P elimina es
As na a i as p oduzidas pelas c ianças ace à igu a
pa e na e à igu a ma e na o am subme idas a análises
compa a i as e co elacionais. Os esul ados e elam,
po um lado, a ausência de di e enças es a is icamen e
signi ica i as na o ma como as c ianças ep esen am a igu a
ma e na e pa e na e, po ou o, a p esença de co elações
es a is icamen e signi ica i as de alo mode ado e ele ado
en e as ep esen ações cons uídas pelas c ianças sob e a
igu a pa e na e a igu a ma e na. Con o me os esul ados,
obse a-se que as c ianças ep esen am as igu as pa en ais
de o ma semelhan e, po an o o am u ilizadas as médias
das ep esen ações ma e nas e pa e nas pa a as seis a iá eis
(Acei ação, Rejeição, Punição, Indução, Ausência de
Con on o e Clima Emocional), nas análises pos e io es.
As ep esen ações das c ianças e as compe ências
sociais não di e em es a is icamen e em unção do sexo
das c ianças, nem es ão es a is icamen e associadas à sua
idade. As ep esen ações das c ianças não di e em ambém
em unção do NSE. As c ianças de NSE médio ap esen am
mais habilidades sociais, nomeadamen e de au ocon ole
(M = 1,25, DP = 0,45) e coope ação (M = 3,57, DP = 1,22),
do que as de NSE baixo (M = 0,99, DP = 0,46 e M = 2.64,
DP = 1,36, espec i amen e) (60) = -2,72, p < 0,001 e
60) = -2,22, p < 0,05, espec i amen e. As c ianças de NSE
médio endem, além disso, a ap esen a menos p oblemas
in e nalizados (M = 0,21, DP = 0,33) e de hipe a i idade (M
= 0,43, DP = 0,51) do que as de NSE baixo (M = 0,40, DP =
0,42 e M = 0,69, DP = 0,50, espec i amen e), (60) = 1,93,
p <0,06 e (60) = 1,94, p < 0,06, espec i amen e.
Di e enças en e G upos nas Rep esen ações ace ca
das Figu as Pa en ais e nas Compe ências Sociais
Na análise compa a i a das ep esen ações ace ca
das igu as pa en ais, não o am encon adas di e enças
es a is icamen e signi ica i as en e o g upo de c ianças
mal a adas e não mal a adas ( e Tabela 1).
No que ange às compe ências sociais, os esul ados
mos am que, com exceção da asse ção, as c ianças
Dimensões / Ca ego ias Mal a adas Não
Mal a adas
M DP M DP
Rep esen ações F.
Pa en ais
Acei ação 37,91 5,49 39,92 5,85 1,33
Rejeição 39,41 6,25 40,08 5,85 ,42
Punição 31,59 6,12 29,55 6,41 -1,22
Indução 22,45 3,17 22,30 4,01 -,16
Ausência de Con on o 37,05 6,32 37,92 6,61 0,51
Clima Emocional 49,00 8,42 54,50 8,69 2,41
Compe ências Sociais
Au ocon ole 0,95 0,30 1,17 0,53 2,15*
Coope ação 1,25 0,34 3,97 0,45 24,68***
Asse ção 1,15 0,27 1,20 0,51 0,58
P. Ex e nalizados 1,07 0,54 0,23 0,37 -6,55***
P. In e nalizados ,75 0,38 0,96 0,12 -7,92***
Hipe a i idade 1,04 0,34 0,34 0,42 -6,75***
Tabela 1. Médias, des ios-pad ão e no as das ep esen ações
sob e as igu as pa en ais e das compe ências sociais em unção
da a iá el G upo
No a: *p < 0,05; ***p < 0,001
mal a adas são is as pelos seus cuidado es como menos
compe en es socialmen e e como ap esen ando mais
p oblemas ex e nalizados e menos p oblemas in e nalizados
de compo amen o do que as c ianças não mal a adas ( e
Tabela 1). As di e enças são es a is icamen e signi ica i as
(0,036 < p < 0,0001).
A expe iência de Maus-T a os e as Rep esen ações
ace ca das Figu as Pa en ais nas Compe ências Sociais
A im de pe cebe a associação en e as ep esen ações das
c ianças e a sua compe ência social, e e uou-se uma análise
5Psic.: Teo . e Pesq., B asília, 2016, Vol. 32 n. 2, pp. 1-9
Maus- a os, Rep esen ações ace ca das Figu as Pa en ais e Compe ências
Dimensões / Ca ego ias Au ocon ole Coope ação Asse ção Habilidades sociais
To al NM MTo al NM MTo al NM MTo al NM M
G upo -0,23+ -0,95*** -0,06 -0,17
NSE 0,28* 0,33** 0,21 0,24+
Acei ação 0,29* 0,29+ 0,22 0,22+ 0,25 0,03 0,22+ 0,29 -0,06 0,27* 0,30 0,08
Rejeição -0,27* -0,29+ -0,35 -0,00 -0,25 -0,05 -0,20 -0,29 0,03 -0,24+ -0,30 -0,15
Punição -0,34** -0,45** 0,13 -0,24+ -0,42 0,01 -0,33** -0,47 0,18 -0,36** -0,49 0,12
Indução 0,25+ 0,37* -0,21 0,08 0,34 0,36 0,40** 0,40 0,49 0,36** 0,40 0,25
Ausência de Con on o 0,10 0,04 0,29 0,07 0,01 0,02 0,01 0,03 -0,10 0,05 0,03 0,09
Clima Emocional 0,28* 0,25 0,17 0,36** 0,35 0,06 0,25* 0,31 0,06 0,32* 0,34 0,12
Tabela 2. Co elações en e as ep esen ações das c ianças e as escalas de habilidades sociais
No a: NM: Não Mal a adas (n=40); M: Mal a adas (n=22); + p < .10; * p <. 05; ** p <.01
Dimensões / Ca ego ias P.ex e nalizados P.In e nalizados Hipe a i idade P.Compo amen o
To al NM MTo al NM MTo al NM MTo al NM M
G upo 0,68*** 0,80*** 0,66*** 0,75***
NSE -0,19 -0,24+ -0,24+ -0,21+
Acei ação -0,21+ -0,11 -0,17 -0,22+ -0,40 -0,01 -0,21+ -0,16 -0,10 -0,23+ -0,19 -0,12
Rejeição 0,09 0,11 0,24 -0,06 0,40 -0,28 0,09 0,16 0,20 0,04 0,19 0,02
Punição 0,12 0,10 -0,08 0,23+ 0,44 0,07 0,20 0,17 0,06 0,19 0,20 0,00
Indução -0,02 -0,25 0,25 -0,04 0,01 -0,21 -0,18 -0,28 -0,20 -0,08 -0,26 0,06
Ausência de Con on o -0,11 0,01 -0,21 -0,02 -0,26 0,25 -0,10 -0,05 -0,12 -0,08 -0,06 -0,01
Clima Emocional -0,29* -0,21 -0,01 -0,23+ -0,20 0,15 -0,37** -0,30 -0,10 -0,30* -0,28 0,10
Tabela 3. Co elações en e as ep esen ações das c ianças e as escalas de p oblemas de compo amen o
No a: NM: Não Mal a adas (n=40); M: Mal a adas (n=22); + p < .10; * p <. 05; ** p <.01
co elacional. Na abela 2, ap esen am-se as co elações
en e as ep esen ações e as habilidades sociais e, na abela
3, as co elações en e as ep esen ações e os p oblemas de
compo amen o.
É possí el e i ica uma associação mui o o e do g upo
de pe ença com a habilidade de coope ação ( = -0,95) e
com os p oblemas de compo amen o ( = 0,75), o que le a
a pensa que o g upo de pe ença se á o p edi o mais o e
dessas a iá eis. Po ou o lado, o g upo de pe ença apa ece
associado ao au ocon ole e à asse ção com um alo aco e
nulo, espe i amen e. Rela i amen e ao NSE, conside a-se
ele an e o con ole dessa a iá el, embo a as co elações
com as compe ências sociais sejam gene icamen e baixas,
com exceção da coope ação, em que o alo se pode
conside a mode ado.
A análise das associações obse adas nos dois g upos de
c ianças mos a que os alo es das co elações endem a se
p óximos ou êm a mesma di eção. Con udo, as co elações
en e punição e au ocon ole, indução e au ocon ole, punição
e asse ção, indução e p oblemas ex e nalizados, ejeição
e p oblemas in e nalizados, e ausência de con on o e
p oblemas in e nalizados ap esen am di eções opos as. Es es
esul ados le am a supo que o g upo de pe ença es a á
a unciona como a iá el mode ado a dos e ei os dessas
ep esen ações em algumas das escalas de compe ência
social.
Pa a es uda os e ei os de in e ação do g upo de pe ença
com as ep esen ações das c ianças, o am cons uídos
modelos de eg essão hie á quica com as compe ências
sociais como a iá eis dependen es. No p imei o passo de
cada modelo, oi incluído o NSE, de modo a con ola o e ei o
dessa a iá el. No segundo, oi in eg ado o g upo de pe ença
(0: não mal a adas; 1: mal a adas) e uma das ep esen ações
ace ca das igu as pa en ais. No e cei o passo, oi in oduzida
a in e ação en e o g upo de pe ença e as ep esen ações.
Seguindo as indicações de Aiken e Wes (1991), as a iá eis
p edi o as o am cen adas na média, pa a e i a p oblemas
de mul icolinea iedade. Esses modelos são ap esen ados nas
Tabelas 4, 5 e 6.
A in e ação de punição e g upo de pe ença e a in e ação
de indução e g upo de pe ença são ambas signi ica i as na
p edição do au ocon ole ( e Tabela 4). Ao con á io do que
acon ece nas c ianças mal a adas, o ac éscimo na punição e
a diminuição na indução es ão associados a uma diminuição
no au ocon ole nas c ianças não mal a adas.
A in e ação de punição e g upo de pe ença ( e Tabela
5) é signi ica i a na p edição da asse ção. Nas c ianças não
mal a adas, e i ica-se uma associação nega i a en e a
punição e a asse ção, associação essa que não se e i ica nas
c ianças mal a adas.
A in e ação da indução e do g upo de pe ença ( e
Tabela 5) é signi ica i a a um ní el de p = 0,07, na p edição
dos p oblemas ex e nalizados, apesa da o e con ibuição
única do g upo. Nas c ianças não mal a adas, obse a-se
6 Psic.: Teo . e Pesq., B asília, 2016, Vol. 32 n. 2, pp. 1-9
ML Sousa & O C uz
B SE B βR2 ajus ado
(∆ R2) B SE B βR2 ajus ado
(∆ R2)
Au ocon ole Au ocon ole
Passo 1 0,06*(0,08) Passo 1
NSE 0,27 0,12 0,28* NSE 0,27 0,12 0,28* 0,06*(0,03*)
Passo 2 0,13*(0,10) Passo 2
NSE 0,18 0,12 0,18 NSE 0,19 0,12 0,20 0,11*(0,08+)
G upo -0,13 0,12 -0,13 G upo -0,17 0,13 -0,18
Punição -0,02 0,01 -0,28* Indução 0,03 0,02 0,23
Passo 3 0,18**(0,06*) Passo 3
NSE 0,13 0,12 0,13 NSE 0,21 0,12 0,22 0,16**(0,06*)
G upo -0,17 0,12 -0,17 G upo -0,16 0,12 -0,17
Punição -0,04 0,01 -0,47** Indução 0,05 0,02 0,37**
G upo X Punição .04 .02 .31* G upo X Indução -.07 .04 -.29*
Tabela 4. O g upo como mode ado da elação en e as ep esen ações ace ca das igu as pa en ais e o au ocon ole
No a: *p < 0,05; **p < 0,01
B SE B βR2 ajus ado
(∆ R2) B SE B β R2 ajus ado (∆ R2)
Asse ção P oblemas Ex e nalizados
Passo 1 0,03(0,04) Passo 1 0,02(0,04)
NSE 0,19 0,11 0,21 NSE -0,23 0,15 -0,19
Passo 2 0,09*(0,09+) Passo 2 0,44*** (0,44***)
NSE 0,15 0,12 0,16 NSE 0,04 0,12 0,04
G upo 0,03 0,12 0,04 G upo 0,86 0,12 0,70***
Punição -0,02 0,01 -0,31* Indução -01 0,02 -0,04
Passo 3 0,16**(0,08*) Passo 3 0,47*** (0,03+)
NSE 0,09 0,11 0,10 NSE 0,03 0,12 0,02
G upo -0,01 0,12 -0,01 G upo 0,85 0,12 0,69***
Punição -0,04 0,01 -0,52** Indução -0,02 0,02 -0,14
G upo X Punição 0,04 0,02 0,36* G upo X Indução 0,07 0,04 0,20+
Tabela 5. O g upo como mode ado da elação en e as ep esen ações ace ca das igu as pa en ais e os p oblemas ex e nalizados
No a: *p < 0,05; **p < 0,01
B SE B β R2 ajus ado
(∆ R2) B SE B β R2 ajus ado
(∆ R2)
P oblemas
In e nalizados
P oblemas
In e nalizados
Passo 1 Passo 1 -0,20 0,10 -0,24+ 0,04+ (0,06+)
NSE -0,20 0,10 -0,24+ 0,04+ (0,06+) NSE
Passo 2 0,61***
(0,57***)
Passo 2 0,61***
(0,58***)
NSE 0,00 0,07 0,01 NSE 0,01 0,07 0,01
G upo 0,66 0,07 0,80*** G upo 0,66 0,07 0,80***
Rejeição -0,00 0,01 -0,02 Indução 0,00 0,01 0,03
Passo 3 0,64***
(0,04*)
Passo 3 0,63***
(0,02+)
NSE 0,04 0,07 0,05 NSE 0,02 0,07 0,03
G upo 0,66 0,07 0,80*** G upo 0,67 0,07 0,81***
Punição 0,01 0,01 0,13 Indução -0,01 0,01 -0,08
G upo X Punição -0,03 0,01 -0,24* G upo X Indução 0,02 0,01 0,19+
Tabela 6. O g upo como mode ado da elação en e as ep esen ações ace ca das igu as pa en ais e os p oblemas in e nalizados
No a: *p < 0,05; **p < 0,01
7Psic.: Teo . e Pesq., B asília, 2016, Vol. 32 n. 2, pp. 1-9
Maus- a os, Rep esen ações ace ca das Figu as Pa en ais e Compe ências
uma associação nega i a en e a indução e os p oblemas de
compo amen o, que não se e i ica nas c ianças mal a adas.
As in e ações da ejeição e do g upo de pe ença, bem
como da ausência de con on o e do g upo de pe ença, são
signi ica i as na p edição dos compo amen os in e nalizados
( e Tabela 6). Enquan o, nas c ianças não mal a adas,
o aumen o da ejeição e a diminuição da ausência de
con on o co espondem a um aumen o dos p oblemas
in e nalizados, nas c ianças mal a adas, essas associações
não são obse adas.
Discussão
A análise compa a i a das ep esen ações ace ca das
igu as pa en ais nos dois g upos apon a pa a a ausência
de di e enças na o ma como as c ianças mal a adas e não
mal a adas ep esen am as igu as pa en ais. Segundo a
hipó ese ep esen acional, espe a -se-ia que as c ianças que
so e am expe iências de maus- a os ep esen assem as
igu as pa en ais como mais ejei an es e puni i as do que
as não mal a adas. Con udo, os esul ados des e es udo não
o e ecem supo e a essa p edição, uma ez que apon am
pa a a possibilidade de as na a i as das c ianças mal a adas
consis i em em uma econs ução subje i amen e il ada
das expe iências amilia es, pe meada po mecanismos de
egulação emocional. Esses mecanismos isam p o ege a
c iança do con on o com as emoções nega i as associadas
à expe iência de maus- a os (Clyman, 2003). Nesse
sen ido, as na a i as dessas c ianças podem e le i uma
idealização das in e ações com as igu as pa en ais, ou
dis ancia -se signi ica i amen e das suas i ências pessoais.
T a a-se, assim, de um p ocesso eminen emen e emocional,
equen emen e obse ado em c ianças í imas de maus-
a os, que se eem o çadas a ge i a emocionalidade
associada à expe iência de maus- a os.
Rela i amen e às di e enças encon adas nas compe ências
sociais nos dois g upos, os esul ados são consis en es com
as conclusões da in es igação nesse domínio, dado que as
c ianças mal a adas são pe cebidas como menos compe en es
socialmen e (Milo e al., 2010) e como ap esen ando mais
p oblemas in e nalizados (Bolge & Pa e son, 2001) e
ex e nalizados (Johnson e al., 2002, To h e al., 2000).
Os esul ados mos am que as ep esen ações se encon am
associadas a algumas das habilidades sociais e p oblemas de
compo amen o, endo essas associações di eções con á ias,
nas c ianças mal a adas e não mal a adas. Co obo am
a in luência decisi a das ep esen ações men ais nas
compe ências sociais, e o çando a pe inência de ap o unda
a análise dos p ocessos psicológicos que explicam as
associações obse adas. A análise das ep esen ações das
c ianças ace ca das igu as pa en ais pe mi e cump i esse
obje i o.
De uma o ma global, é possí el a i ma que, nas c ianças
não mal a adas, as ep esen ações dos compo amen os
pa en ais indu i os es ão associadas a maio habilidade social
e a menos p oblemas de compo amen o. Po sua ez, as
ep esen ações nega i as das igu as pa en ais como puni i as
e ejei an es es ão associadas a menos habilidades sociais e
a mais p oblemas de compo amen o.
Esse pad ão de associações não se e i ica nas c ianças
mal a adas. Nessas c ianças, a ep esen ação posi i a das
igu as pa en ais p ediz menos habilidades sociais e mais
p oblemas de compo amen o ex e nalizados, enquan o a
ep esen ação dessas igu as como puni i as não em um
e ei o signi ica i o nas habilidades sociais. Po sua ez, a
ep esen ação das igu as pa en ais como ejei an es p ediz
menos p oblemas de compo amen o in e nalizados. A
ep esen ação de ausência de con on o, habi ualmen e
associada a um es ilo educa i o pe missi o, p ediz
posi i amen e os p oblemas in e nalizados nas c ianças
mal a adas, não ap esen ando um e ei o signi ica i o nas não
mal a adas. Esses esul ados, apa en emen e incoe en es,
necessi am de se lidos do pon o de is a da c iança e
dos signi icados po ela impu ados às suas expe iências
amilia es.
Nas c ianças não mal a adas, o compo amen o disciplina
indu i o é, po en u a, en endido como po encializando
um espaço de diálogo, em que os pais espei am os ilhos
como pessoas com in e esses e necessidades p óp ias.
Ac esce que as ep esen ações das igu as disciplina es
como eco endo a esse ipo de es a égia disciplina es ão
associadas a ní eis supe io es de compe ência social (Ha ,
DeWol , Wozniak, & Bu s, 1992). As ep esen ações das
c ianças mal a adas sob e os compo amen os pa en ais
indu i os são di e en es das cons uídas pelas c ianças não
mal a adas. O espaço de diálogo e negociação, em que o
adul o explica à c iança as eg as e os limi es, modelando
al e na i as compo amen ais mais ajus adas, con igu a-se,
nas na a i as das c ianças mal a adas, como p omo o de
des egulação compo amen al. A igu am-se plausí eis duas
jus i ica i as pa a esses esul ados. A p imei a baseia-se
na hipó ese da egulação emocional, segundo a qual essas
c ianças pa ecem cons ui ep esen ações sob e as igu as
pa en ais de uma o ma apa en emen e dissonan e ace à
sua expe iência, en ando compensa , na na a i a, aquilo
que pe cebem como desejá el na abo dagem educa i a das
igu as pa en ais. A segunda epo a-se ao con ex o educa i o
em que oco em as in e ações com as igu as pa en ais.
Quando um compo amen o disciplina posi i o su ge em
um con ex o elacional ma cado pelos maus- a os ísicos
e psicológicos, pode se con undido pela c iança com a
inexis ência de no mas de condu a, ou sen ido como on e
de insegu ança e imp e isibilidade.
Nas c ianças não mal a adas, o compo amen o puni i o
es á associado a meno compe ência social, sendo esse
esul ado consis en emen e apoiado pela li e a u a (c .
Laible e al., 2004). Po ém, nas c ianças mal a adas, esse
e ei o não se e i ica e ende a é a in e e -se. A hipó ese
da egulação emocional pode ajuda a comp eende esses
esul ados, no sen ido em que p econiza que as c ianças
mal a adas endem a ap esen a ep esen ações que não
são ep oduções idedignas das suas i ências amilia es.
Uma ou a possibilidade é que a punição seja en endida po
essas c ianças como no ma i a ( odos os pais o azem), ou
mesmo como um compo amen o que aduz um momen o
de a enção exclusi a à c iança, passí el de se con undido
com a mani es ação de a e o (Baum ind, 2012).
Nas c ianças não mal a adas, o compo amen o de
ejeição es á associado a mais p oblemas in e nalizados.
8 Psic.: Teo . e Pesq., B asília, 2016, Vol. 32 n. 2, pp. 1-9
ML Sousa & O C uz
Con udo, essa elação in e e-se nas c ianças mal a adas.
Mais uma ez, a hipó ese da egulação emocional pe mi e
explica esses esul ados apa en emen e pa adoxais,
e o çando a assunção de que as na a i as in an is são
uma econs ução o ma ada po um c i o emocional.
Pode á ambém acon ece que as c ianças mal a adas que
ep esen am as igu as pa en ais como mais ejei an es
endam a ap esen a mais p oblemas de ex e nalização
do que in e nalização. Além disso, as mani es ações dos
p oblemas in e nalizados são, po en u a, di e en es nas
c ianças mal a adas e não mal a adas. Ac esce que as
c ianças mal a adas podem desen ol e mecanismos de
esiliência que lhes pe mi am lida com a ulne abilidade
ísica e emocional associada à expe iência de maus- a os.
Finalmen e, no que se e e e à ep esen ação da ausência
de con on o, não é e iden e o signi icado que, que as
c ianças mal a adas que as não mal a adas, a ibuem
a esse compo amen o. A ausência de con on o apa ece
associada a mais p oblemas de in e nalização nas c ianças
mal a adas. É, pois, possí el que essas c ianças signi iquem
esse ipo de compo amen o como co espondendo a ausência
ou negligência pa en al, aduzindo uma pe missi idade
excessi a ou uma ausência de limi es.
Em sín ese, os esul ados pe mi em conclui que: (a) as
c ianças mal a adas e não mal a adas endem a ep esen a
de o ma semelhan e as igu as pa en ais, sendo as suas
na a i as in luenciadas que pelas suas ep esen ações que
po mecanismos de egulação emocional; (b) as c ianças
mal a adas são pe cebidas como sendo menos compe en es
socialmen e e como ap esen ando mais p oblemas de
compo amen o; (c) a expe iência de maus- a os mode a
os e ei os das ep esen ações das c ianças ace ca das
igu as pa en ais nas habilidades sociais e nos p oblemas de
compo amen o, o que le a a supo que os compo amen os
pa en ais assumem di e en es signi icados pa a os dois g upos
de c ianças. É, oda ia, necessá ia mais e idência empí ica
pa a apoia essas conclusões.
Es a in es igação ap esen a algumas limi ações, en e
as quais se des aca o eduzido núme o de pa icipan es,
sob e udo no g upo de c ianças mal a adas. Essa limi ação
in iabilizou a inclusão simul ânea do conjun o das
ep esen ações como p edi o as, em um único modelo de
eg essão. Impossibili ou ambém a in eg ação simul ânea
do ipo de mau a o e do empo de ins i ucionalização nos
modelos cons uídos. Nes e sen ido, es e es udo em um
ca iz explo a ó io, de endo os esul ados se analisados de
o ma cau elosa.
Embo a não enha sido obse ada uma associação da
idade nem com as ep esen ações ace ca das igu as pa en ais
nem com as compe ências sociais, uma segunda limi ação
des e es udo elaciona-se com a maio ampli ude e á ia no
g upo das c ianças mal a adas. Em es udos u u os, se á
impo an e homogeneiza a dis ibuição das idades das
c ianças.
O a o de a a aliação da compe ência social se basea só
na pe ceção dos p o esso es cons i ui uma e cei a limi ação.
Se ia, po isso, impo an e ala ga o leque de in o man es,
de modo a possibili a uma a aliação comp eensi a do
uncionamen o da c iança.
Apesa dessas limi ações, es e es udo con ibuiu pa a
p eenche uma lacuna na in es igação. As ep esen ações que
as c ianças mal a adas cons oem sob e as igu as pa en ais
êm um e ei o na sua compe ência social di e en e do que
se obse a nas c ianças com um pe cu so desen ol imen al
no ma i o. É, des a o ma, c ucial que a in es igação pe mi a
ap o unda a comp eensão da o ma como as c ianças ( e)
cons oem e signi icam na a i amen e as suas expe iências
a e i as signi ica i as.
Po úl imo, es es esul ados e o çam a necessidade
de analisa as consequências da expe iência de i imação
no ajus amen o social da c iança. Assim, se á possí el
desenha in e enções que se o e eçam como expe iências
descon i ma ó ias, po encializando a econs ução das
ep esen ações sob e as igu as pa en ais e a ges ão das
emoções a ela associadas.
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Recebido em 14.12.2012
P imei a decisão edi o ial em 06.06.2014
Ve são inal em 09.02.2016
Acei o em 09.02.2016 n