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Religiosidade popular e inquisição em Terras de Basto

Author: Tavares, Pedro Clementino Vilas Boas
Year: 2014
Source: https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/77818/2/97106.pdf
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TAVARES, Ped o
Religiosidade Popula e Inquisição em Te as de Bas o
VS 21 (2014), p.153 - 167
Religiosidade Popula e Inquisição em Te as de Bas o
Ped o Vilas Boas Ta a es
Uni e sidade do Po o - Ci cem
[email p o ec ed].p
RESUMO: Com ecu so a es udos conhecidos e on es ago a disponí eis, az-
se uma p elimina sondagem aos impac os ecenseá eis da ação do San o O ício
em e as de Bas o, com pa icula incidência nas mani es ações da eligiosidade
popula ma iana, cen adas na secula e mida de Nossa Senho a da G aça.
PALABRAS-CLAVE: Inquisição, Missioná ios, Cong egações Laicais,
Esca ologia.
ABSTRACT: Using known s udies and sou ces now a ailable, i is he e done
a p elimina y su ey o ecenseá eis impac s o he Holy O ice ac ion in Bas o
lands, wi h pa icula ocus on mani es a ions o Ma ian popula pie y, cen e ed
on he secula sh ine o Nossa Senho a da G aça.
KEY-WORDS: Inquisi ion, Missiona ies, Lay Cong ega ions, Escha ology.
1. Como é sabido, depois de uma longa acção de p essão polí ico-
diplomá ica, D. João III ob e e em 1536 de Paulo III o es abelecimen o do
San o O ício da Inquisição em Po ugal pela bula Cum ad nihil magis. E a
espos a, sob e udo, à ques ão social dos judaizan es c is ãos no os, c iada
com o dec e o de 1496 de D. Manuel, de expulsão ou con e são o çada dos
judeus, cujo núme o eng ossa a exponencialmen e em Po ugal em 1492,
com a admissão no e i ó io nacional, negociada e au o izada po D. João
II, de la guíssimos milha es de sequazes da lei de Moisés, expulsos pelos « eis
ca ólicos» de Cas ela e A agão1. Pe an e g a es deso dens, mo ins e explosões de
ensão social an ijudaica, o p óp io D. Manuel pedi a já ao Papa, pela p imei a
ez, no dis an e ano de 1515, o es abelecimen o do ibunal da é no nosso país.
1 * Uni e sidade do Po o. Memb o do G upo de In es igação «Sociabilidades, P á icas e Fo mas de Sen-
imen o Religioso», da Unidade de I&D (FCT) CITCEM – Cen o de In es igação T ansdisciplina «Cul u-
a, Espaço e Memó ia», Faculdade de Le as, Uni e sidade do Po o, Via Pano âmica s/n 4150-564, Po o,
Po ugal. [email p o ec ed] O ex o in a esul a da in e enção com que, a 13.06.2014, na Biblio eca
Municipal, o au o pa icipou no ciclo de con e ências o ganizado pela Câma a Municipal de Mondim de
Bas o, no âmbi o das Comemo ações dos 500 Anos dos Fo ais Manuelinos.
C . ALMEIDA, Fo una o de — His ó ia da Ig eja em Po ugal. Ba celos: Ci ilização Ed., ol. II, 1968,
p. 382-402.
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Em 1540 em luga o p imei o au o de é público, em Lisboa, e, após
hesi ações de uma « ase expe imen al», os p imei os ibunais do eino coagulam
em Lisboa, Coimb a e É o a, bem como as p imei as «ins uções» no eado as
no Regimen o de 1552, o p imei o egimen o da Inquisição. O sis ema
p ocessual inquisi o ial es á ela i amen e es udado2 e a his ó ia do ibunal
ainda ecen emen e ecebeu uma impo an íssima apo ação po pa e de José
Ped o Pai a e Giuseppe Ma cocchi3. Como é e iden e, aqui e ago a, nes e ensejo,
não nos ica luga à e oma de g andes conside ações his o iog á icas gené icas
sob e o uncionamen o global de uma ins i uição social e cul u almen e ão
impo an e e du adou a como es a, limi ando-nos po isso à emissão pa a
uma as a bibliog a ia cien í ica de e e ência que nos pe mi a acompanha ,
com segu ança, os p imei os dados de obse ação conc e a e especí ica sob e o
impac o da Inquisição nas Te as de Bas o, algo que julgamos comple amen e
po inicia .
Uma p imei a sondagem, apesa de udo, pode se já signi ica i a, e
sob e udo incen i o a come imen os mais nume osos e ex ensos em e mos
de his ó ia social da Região, dado que es e ipo de on e é hoje ex emamen e
acessí el e acilmen e é il em esul ados, assim haja capacidade de lei u a,
con ex ualização e sen ido c í ico. Digamos apenas, pa a já, que a nossa e a
acompanhou, necessa iamen e, a ligação es ei a, de malha ape ada, que oda
a ca olicidade do cen o e no e do país passou a expe imen a do ibunal de
Coimb a, al como as duas ou as mesas nacionais igidamen e subo dinado ao
pode do Conselho Ge al do San o O ício e do Inquisido Ge al. A igilância e
a ep essão deco iam não apenas da acção da ede de «comissá ios» e « amilia es
do San o O ício», olhos e longo b aço egional da Inquisição, mas sob e udo
da ins au ação ge al, o mal, sublinhada pela publicação anual de édi os da é
e da g aça, do impe a i o canónico de «denunciação» p óp ia e do p óximo
em ma é ia de he e odoxia, algo que con igu ou nas comunidades locais uma
massi a psicologia de medo, seg edo e delação que ize am da inquisição uma
co en e men alidade social4…
2. C ip ojudaísmo em Bas o?
Em elação à ques ão judaica, cump e desde já desmon a uma in undada
eo ia que ap esen a as Te as de Bas o como impo an e edu o de descenden es
2 C . nomeadamen e BETHENCOURT, F ancisco — L’ Inquisi ion à l’époque mode ne, Espagne, Po ugal,
I alie, XV.e-XIX.e siècle. Pa is: Faya d, 1995, p. 42-53.
3 His ó ia da Inquisição Po uguesa 1536-1821. Es e a dos Li os, 2013. C . DIDIER, Lucília — No a
c í ica. «Via Spi i us» 20 (2013), p. 251-282.
4 Sob e es a ma é ia c . ALCALÁ, Angel (o g.) — Inquisición española y men alidade inquisi o ial. Ba ce-
lona: A iel, 1984.
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da «gen e de nação». Nada ha e ia a apon a , se osse esse o caso; se ia a é
al ez hon oso, dado o ele an íssimo papel dos c is ãos-no os como o ça
social dinâmica no Po ugal de An igo Regime, an e io ao pombalismo. Mas,
consul ando o In en á io dos P ocessos da Inquisição de Coimb a (1541-
1820), o ganizado po Luiz de Bi a Gue a5, mesmo jun ando-lhe alguns
ou os casos aí não ecenseados6, são ela i amen e poucos os p ocessados da
egião7, e mesmo que i essem sido odos p ocessados como judaizan es (o que
mani es amen e não é o caso), ainda assim, dis ibuído o seu núme o ao longo
de odo o empo de igência do ibunal, a a i mação con inua ia insus en á el.
É e dade que, al como algumas egiões da Bei a, Bas o, como egião
«mon uosa» e in e io , e a en ão pouco po oada, desse modo ap a a ecebe
edes amilia es que quisessem es a mais a sal o de «de assas» e ameaças que
necessa iamen e se iam maio es em cen os populosos. Em 1441 o concelho de
Celo ico o a decla ado cou o pa a 30 homiziados, o que diz bem da escassez
do seu po oamen o. Ainda como exempli icação, e i iquemos que em 1527
a eguesia de San a Ma ia de Mo ei a do Cas elo inha apenas 35 ogos. S.
Clemen e de Bas o, uma das mais ex ensas eguesias do Minho e a mais
impo an e do Concelho de Celo ico, con a a nessa da a o modes o núme o
de 150 ogos, o que mul iplicado pelo coe icien e 4, dá uma eguesia com
seiscen as almas. Do século XVI pa a o XVIII, mais p ecisamen e no espaço de
231 anos, a população e á c escido pa a o dob o; em 1758, em S. Clemen e,
con a am-se 315 ogos, co espondendo a 1169 almas, e em 1800 con inua a
a e i ica -se um c escimen o segu o: 1351 almas, dis ibuídas po 358 ogos…
Mas, se no início de quinhen os o po oamen o e a débil, cump ia ainda que
as ac i idades económicas ossem ela i amen e alician es pa a os ad en ícios
e que a sociedade egionalmen e o ganizada não osse, como undadamen e
suspei amos, al amen e hos il ao elemen o populacional de o igem semi a.
A ideia de uma o e componen e de sangue heb aico na egião e -se-á
5 Pa is, Fundação Calous e Gulbenkian, 1972, ols. I e II.
6 De aco do com o que lemos em El i a Cunha de Aze edo Mea — A Inquisição de Coimb a no Séc. XVI.
A Ins i uição, os Homens e a Sociedade, Po o, II ol., 1989, p. 511-512, pa a quinhen os, ha e á que jun a
mais dois p ocessos, e em se ecen os o p ocesso mo ido a João Pin o, la ado na u al e mo ado de S. Ma i-
nho de Vale de Bou o, «ap esen ado» em 1759, caso a que nos epo a emos mais demo adamen e, bem como
aos seus sequazes (um o al de dez p ocessos).
7 Eis os dados coligí eis do e e ido In en á io de Bi a Gue a, Vol. I, pp. 293-294: P ocessos «de Je ónimo
de Macedo, de San a Tecla, Bas o, mo ado em Ama an e (1688); Diogo de Ca alhaes, quin ei o, de Villa
Ga cia, Bas o, e mo ado na Quin a da A ellada ahonde he casei o (1689); de And é Pin o, ilho de Manuel
Pin o, de San o And é de Tolões, mo ado em Ga am, concelho de Bas o (1689); de Ma ia Fe nandes, mulhe
de An ónio Gomes, Ama an e, Tolões, concelho de Bas o (1689); Vol. II, p. 355 e p. 411: de Ma ia Gonçal es
de alcunha a ascoa, iú a de Miguel Al es, al aia e, de San a Ma ia de Canedo (1723); de Jose a da Sil a,
iú a de Paulo Teixei a, abalhado , de San a Leocadia de Massiei a, concelho de Bas o (1749); de Manuel
Fe ei a, molei o, de S. Cip iano da Lappa [po Chapa], concelho de Bas o (1749); Ap esen ação de José
An ónio, de S. Ma inho do A co, mo ado em Ribei a de Pena, Villa Real (1782).
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ge ado con empo aneamen e, com ajuda de um li o na ando a genealogia de
A hu Ben-Rosh ou Ba -Rosh (o capi ão do exé ci o po uguês A u Ba os
Bas o), cujos an epassados e iam sido no empo de D. Manuel o çados a ade i
à é c is ã e, ansmu ando o seu nome em Ba os, e iam passado às e as de
Bas o (donde o nome Ba os de Bas o). Mais a de, aqui incomodados pelo
San o O ício, e iam saído pa a o exílio, i adiando po á ios países, a é ao
eg esso a Po ugal, implan ado o libe alismo, dos p óp ios a ós do capi ão A u
de Ba os Bas o8. Mas como ha e emos de le a mui o a sé io ais a i mações
ela i as à pe manência dos Ben-Rosh em Bas o, a i mações de que não nos são
dados meios de con olo, se o p óp io Má io de Saa, esc i o u iosamen e an i-
semi a, que minuciosamen e no-lo con a, alega que es a his ó ia genealógica é
«mais ou menos lendá ia em seus p incípios»9?
No e-se que ecen emen e Ilídio de A aújo admi iu que as chamadas
«casa ias de Penal a», em S. Clemen e, e iam sido ocupadas po umas e ugiadas
âns ugas, com suas c ianças de colo, «p o a elmen e mulhe es judias da
comuna de Guima ães, ugidas às pe seguições de 1497 e cujos descenden es aí
i e am a é ao século XVII»10. Não nos dá o au o a on e das suas a i mações
e suposições, e como a his ó ia não se az com hipó eses, icamos p a icamen e
na mesma…
As ac uações inquisi o iais na egião de e -se-iam ce amen e mui o mais
a ou as azões, e bas an es mais i iais en e humildes abalhado es b açais,
po ezes desespe ando sob o peso das cansei as diá ias, como «blas émias e
p oposições com pala as escandalosas», a ão equen e de esa da « o nicação
simples»11, ou as p oposições laxis as, «o ensi as das o elhas pias», o uso de
p á icas mágicas e supe iciosas… e a é, num caso singula que aqui e oca emos,
a sus en ação de p oposições he é icas po pa e de um la ado de S. Ma inho
de Vale de Bou o, que soube alen a , manipula e di igi , du an e algum empo,
no seio de um con en ículo eligioso po si o ganizado em Mondim, uma
imp essionan e ensão esca ológica popula ela i a à consumação dos empos,
mesclada com os habi uais eceios in undidos pela dou inação dos no íssimos
na men e do po o c en e e simples dos campos.
8 Sob e a pe sonalidade des e mili a , undado da sinagoga do Po o em 1923, ide MEA, El i a Cunha
Aze edo, STEINHARDT, Inácio — Ben-Rosh. Uma biog a ia do capi ão Ba os Bas o, o após olo dos ma -
anos. Po o: A on amen o, 1997.
9 C . A In asão dos Judeus. Lisboa: Imp ensa Libânio da Sil a, 1925, p. 130-133
10 Memó ias a qui ec ónicas e umula es dos an igos «Fidalgos de Bas o», in Casa Nob e um Pa imónio
pa a o Fu u o (Ac as do 2.º Cong esso In e nacional), Município de A cos de Valde ez, 2011, p. 461.
11 C . TAVARES, Ped o Vilas Boas — «Fo nicazione». In PROSPERI, Ad iano — Diziona io s o ico dell’
Inquisizione. Ed. della No male Supe io e di Pisa, 2010, ol. I, p. 840; SAAVEDRA, Pege o — La ida
quo idiana en la Galicia del An iguo Régimen. Ba celona: C í ica, p. 281-284.
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3. Missões e missioná ios em Bas o
Com ecu so a on es inquisi o iais, a p imei a ez em que cla amen e
sen imos ib a colec i amen e o po o de Mondim em o no da paixão eligiosa
de uma ida c is ã mais in ensa e e o mada oco e po ocasião de uma g ande
missão do in e io aqui p egada pelo g ande poe a e missioná io undado do
a a ojo, F ei An ónio das Chagas.
No inal de No emb o / p imei os dias de Dezemb o de 167712, mui o
doen e, de odo incapaz de p ega , na essaca do es o ço de ou as missões do
in e io , aqui chega a à ila de Mondim o adinho com dois companhei os.
Encon a a a população di idida em dois bandos inimigos, g aças à odien a
condu a do pá oco local, que nessas e egas a cus o escapa a com ida ugindo
pelo quin al da sua esidência de uma in asão de mulhe es amo inadas… Os
dois ou os missioná ios ize am alguns se mões, apaziguando os ânimos, mas
mesmo assim, po exigência popula , i e a de subi ao púlpi o, pa a consolida
a « edução» ob ida13. A inal uma égua e não uma paz pe pé ua…
Passados dez / onze anos inha-se de no o incendiado «mui a desunião en e
os mo ado es e o seu pá oco» e no a missão chegou a Mondim, des a ei a
di igida po um jo em p egado , An ónio da Fonseca, em p ocesso de admissão
na no el Cong egação do O a ó io.
O êxi o oi di ícil, mas pa ece e sido mais comple o do que o da missão
a a ojana. Depois de uma sé ie de p egações suas, «em o ma de missão», na
Qua esma de 1688, embo a encaminhando os mondinenses «a mui os exe cícios
de i udes, nunca pôde consegui que se unissem e la gassem os ódios», a é
que, descon iado do bom inal da emp esa, no empo das celeb ações do íduo
pascal, Fonseca «se esol eo a p ega o [se mão do] Manda o, con iando i a
delle o u o, ponde ando o luga de Ch is o Senho Nosso se po aos pes
de Judas»: nessa p egação, oi an a a edi icação e oca i a do la a-pés, que o
pá oco e os egueses se puse am en ão aos pés uns dos ou os, pedindo pe dão
e pe doando-se mu uamen e14…
O alen oso p esbí e o, en ão com in e e oi o anos, e a na u al da ila de
Ama an e, ilho de Domingos Fonseca, ba bei o e sang ado , na u al do luga
de E a, eguesia de San o And é de Telões, concelho de Celo ico de Bas o, e
sua mulhe , Ma ia Gomes, ilha do e ado da Rua da Po ela, naquela ila.
Ao casa em inham indo esidi em Ama an e, na Rua da Po ela, onde lhes
12 C . CHAGAS, An ónio das — Ca as Espi i uais (Selecção, P e ácio e No as de M. Rod igues Lapa).
Lisboa: Sá da Cos a, 1957, p. 94-101), onde o p óp io o nece es a indicação: em 24.11.1677 esc e e uma
ca a de Vila Real anunciando pa i pa a Mondim, «luga onde anda[ a]m odos os demónios»; em 8.12.1677
esc e e uma ou a ca a, já da ada de Ama an e, com e e ência aos sucessos de Mondim.
13 CHAGAS, An ónio das — Ca as Espi i uais. Ed. ci ., p. 97.
14 ANTT, Inquisição de Coimb a, P ocesso 10318, Maço 6, 1.ª Pa e, l. 516 .º.

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nasce am os ilhos, ele e o seu i mão Manuel. O a ô pa e no, o Pad e G egó io
Pi es, o a igá io da ig eja de Telões e na u al do luga de Todeia, da mesma
eguesia.
Ab e iando azões: An ónio da Fonseca i eu os p imei os anos em
Ama an e, a é que o pai, bem is o e elacionado no bu go ama an ino, e á
desejado isen a o ilho da sua p óp ia a e, e sabendo que ele podia i a
inqui ições limpas, como equen emen e oco ia com an os che es de amília
de ex acção o diná ia ou dos o ícios, e á is o no la im, a ap ende na e a, o
passapo e pa a a ida eclesiás ica, opção de maio segu ança e hon a pa a a sua
casa15. Depois da ca ilha, ap endeu o la im com os dominicanos de S. Gonçalo.
Aos dezasseis anos oi pa a Vila Real, ap endendo iloso ia em S. Domingos
e daqui pa a a Ba alha. Tinha enções de oma hábi o, mas oi pe suadido
po uns pa en es eligiosos de S. F ancisco a oma hábi o da obse ância. A
p e ensão oi-lhe acei e, mas en e an o de e ia es uda em B aga « eologia
mo al e especula i a». E ec i amen e aqui equen ou as aulas públicas dos
g acianos do Con en o de Nossa Senho a do Pópulo e dos inaciano do Colégio
de S. Paulo. Finalizada a eologia oi admi ido às o dens, endo p e iamen e
p o ado que «po si e pelos seus pais e a ós e a «legí imo e in ei o ch is am
elho, limpo e de limpo sangue e ge ação, sem aça alguã de judeo, mou o,
neg o, mula o, mou isco nem de ou a alguã in ec a nação das ep o adas em
de ei o», sem qualque deles e sido p eso, punido ou peni enciado pelo San o
O ício, ou e pago «pa a a in a ou pedido da gen e de nação heb eia» ou disso
e sido «in amado», an es endo odos sido semp e « idos, a idos e conhecidos
po in ei os e legí imos ch is ãos elhos», sem do con a io «ha e ama ou
umo », uma impan e, p olixa, in elizmen e i ial e lamen á el ó mula que
apenas mui o mais a de a «piíssima lei» jose ina de 25.5.1773 ha e ia de
exec a . An ónio da Fonseca ecebeu o dens maio es aos in e e seis anos, mas
e ec i amen e não chegou a ing essa em claus o nenhum, pe manecendo na
cidade dos a cebispos algum empo «ao concu so das ig ejas». Desgos oso de
sucessi as p e e ições nas «oposições» a ig ejas do a cebispado, eg essou à sua
ila na al. Ti ando di idendos da sua la ga p epa ação escola , aqui iniciou o
seu ciclo de p egado de sucesso e inculcado da o ação men al pública. As
p egações e am en ão apenas a solici ação das ig ejas e con a ias, po ocasião
das es i idades do calendá io li ú gico, mas dois anos depois, em 1688, como
imos, já ambém p ega a «e angelicamen e», ou «em o ma de missão». Tinha
en ão desejo «de se ecolhe na Religião do Va a ojo» e, pelos is os, começa a a
15 C . TAVARES, Ped o Vilas Boas — Bea as, inquisido es e eólogos. Reacção po uguesa a Miguel de
Molinos. Po o: CIUHE, 2005, p. 204-205.
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adop a -lhe as p á icas16…
Es a a An ónio da Fonseca nes a enc uzilhada ocacional quando a
Ama an e lhe ie am ala , con idando-o a en a na Cong egação do O a ó io
de Viseu os Pad es José Caldas e Diogo Pe ei a, au o izados pelo undado , Pad e
Ba olomeu de Quen al. Acedeu, mas com a condição de apenas en a após as
p egações daquela Qua esma e Páscoa em Mondim e A ei. No Domingo de
Páscoa ainda andou acompanhando o pá oco de Mondim na isi a às casas das
pessoas p incipais da e a, com as quais aquele se ha ia inalmen e cong açado.
Po que azemos “ icha biog á ica” ao au o des a g ande e bem-sucedida
missão em Mondim? Não apenas po que é alguém, como imos, po laços
amilia es ligado à egião. Não apenas po que à his ó ia mondinense in e essa,
ob iamen e, o conhecimen o da pas o al de c is ianização social pós- iden ina
que aí e e luga . Não apenas po que as ma cas, mesmo ma e iais, dessas missões
do in e io es ão pa en es, nomeadamen e na inculcada p á ica da ia-sac a, com
seus c uzei os e capelas, econs i uindo o «sac o mon e» e os passos da Paixão,
ou a é mesmo na equen e o ganização missioná ia de e éme as cong egações e
escolas de o ação men al pública, equen adas, ainda que «idio as e sem le as»,
po signi ica i o núme o de leigos (e emos em S. C is ó ão de Mondim,
em mísula de g ani o de uma po a la e al da ig eja, o símbolo de p ecoce e
in e essan e de oção co dial po pa e dos iéis, se não mesmo o que nos pa ece
o símbolo de uma cong egação do «amo di ino» sediada no espaço daquela
ma iz). Mas ambém po que udo o que e e imos esul a de in o mações de
um p ocesso inquisi o ial incoado em 1694 pelo San o O ício da Inquisição de
Coimb a a es e Pad e An ónio da Fonseca que, endo começado a sua ca ei a
sace do al como g ande e p omisso a e elação missioná ia, em Mondim
de Bas o, passado meia dúzia de anos se eio a o na mo i o de escândalo,
engulhos e e gonha pa a a nascen e Cong egação do O a ó io, pela acusação
de adep o das he esias quie is as de Miguel de Molinos, condenadas em Roma
em 1687 pelo Papa Inocêncio XI.
E ec i amen e saiu em conco ido au o-de- é ealizado no Te ei o de S.
Miguel de Coimb a a 14 de Junho de 1699, na companhia de dois ou os pad es
secula es, cas igados po idên icos deli os. O g ande b ado do caso le a a o
g ande a adis a de eologia ascé ica e mís ica, Pad e Manuel Be na des, a e de
sai a lume, pouco depois da p isão daquele seu con ade de oupe a, com a Luz
e Calo (Lisboa, Miguel Deslandes, 1696), conhecido ade-mecum de eologia
mís ica, des inado a apu a e escla ece concei os den o da mais es i a adição
o odoxa, a de ende a linha pas o al do O a ó io po uguês e a ei indica
16 C . TAVARES, Ped o Vilas Boas — Bea as, inquisido es e eólogos. Op. ci ., p. 207; ANTT, Inquisição de
Coimb a, P ocesso 10318, ibidem, l. 515 .º.
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a legi imidade de os leigos con inua em a acede à ida con empla i a,
nomeadamen e à «o ação de quie e adqui ida», encos ando-se àquilo que os
magis é ios e esiano e sanjoanis a ha iam ensinado sob e a «o ação de é pu a,
de silêncio in e io e p esença de Deus»17.
Como se ope ou a queda do «San o de Midões»?18. Ac uando nos domínios
se anos da diocese de Coimb a, An ónio da Fonseca conhece a em Nabais
A cângela Hen iques ou do Sac amen o, uma bea a «na opinião de mui os»
ida po «mulhe de i ude». A pa i de um edi ício p é-exis en e, adap ado
à unção, undou em Midões um ecolhimen o pa a eze mulhe es, de que
passou a se di ec o espi i ual, azendo de A cângela a egen e dessa casa.
Quan o mais c esce am as alegadas mani es ações de es ados eopá icos e
dons espi i uais de A cângela, mais se ap o undou a elação de cumplicidade
en e di ec o e di igida, ma cada po a ibuladas elações sexuais. Como
o ma de desculpabilização passa am a espi i ualiza as p óp ias lascí ias e a
aze ca nalização de alego ias sac as. Se se a asse de assumidas agilidades
da ca ne, não e iam conhecido a b aço cas igado do San o O ício. Mas com
compo amen os con á ios aos mandamen os, nomeadamen e ao Sex o,
nem po isso deixa am de se ap esen a aos ou os como san os, eco endo
a ex ensas e o uosas explanações dou iná ias, o a ap esen ando ais ac os
como líci os e san i ican es, o a como esul ado de « iolências diabólicas»…
Assim, sendo sob e udo da «dou ina da é» que cuida a o San o O ício, po
es a ia se ag a a a a si uação dos cúmplices, cujas o mulações eme iam pa a
o eo de algumas das 68 p oposições condenadas do he esia ca a agonês. O ex-
missioná io e minou os seus dias, po en u a con i o, nos cá ce es do San o
O ício, e A cângela do Sac amen o, depois de uma passagem pela cadeia da
po agem de Coimb a, iu-lhe comu ado o deg edo de oi o anos no B asil,
e minando a ida eclusa em casa de um conhecido cidadão nob e daquela
cidade19.
4. Abju ação de João Pin o, la ado de S. Ma inho de Vale de Bou o e
dissolução do seu e éme o “con en ículo” de Vila inho (Mondim).
Es e caso, a ado pela Inquisição de Coimb a, oi já objec o de mui o
in e essan e es udo e me i ó ia publicação po pa e do Dou o An ónio Ribei o,
endo po base a sua disse ação de mes ado ap esen ada em 2002 à Faculdade
de Le as da Uni e sidade de Coimb a, com suges i o e bem ca egado í ulo
17 TAVARES, Ped o Vilas Boas — Bea as, inquisido es e eólogos. Op. ci ., p. 43.
18 C . TAVARES, Ped o Vilas Boas — Camilo pe an e a ep essão inquisi o ial do embus e e da alsa san i-
dade. O caso de O San o de Midões. In Li e a u a e His ó ia (o g. Ma ia de Fá ima Ma inho). Faculdade de
Le as do Po o, DEPER, 2004, ol. II, p. 267-276.
19 TAVARES, Ped o Vilas Boas — Bea as, inquisido es e eólogos. Op. ci ., p. 268.
161
TAVARES, Ped o
Religiosidade Popula e Inquisição em Te as de Bas o
VS 21 (2014), p.153 - 167
– Um bu aco no In e no, João Pin o o la ado he esia ca e a Inquisição. Pela
sua alia, a es a ob a nos epo a emos, já que a análise do p ocesso aí ei a,
bem como o apêndice documen al ap esen ado, com ansc ição de impo an es
pa es do mesmo, nos dispensa, pelo menos p o iso iamen e, da consul a di ec a
dele no ANTT.
Es e en edo inquisi o ial, si uado nos anos de 1758-1759, no início
da polí ica o icial das «Luzes» pombalinas (palpá el a ní el das eli es, mas
longamen e inde ec á el ao ní el das massas u ais), mos a mais uma ez o
impac o das missões do in e io na eligiosidade popula , semp e p opendendo
pa a a magia e pa a “supe s ições” indas equen emen e do paganismo, já que,
mesmo em meados de se ecen os, a c is ianização dos cos umes e da sociedade
con inua a incomple a, não obs an e odo o apa a o dou inado pós iden ino
em cu so.
João Pin o, o p incipal p o agonis a, que se ap esen a olun a iamen e na
Mesa do San o O ício da Inquisição de Coimb a a 21 de Maio de 1759, decla a-
se c is ão- elho, la ado , sol ei o, sem ilhos, de in a e se e anos de idade, ilho
de um homónimo pai, ambém la ado , e Ca a ina da Sil a, na u al do luga
dos Mou ões, eguesia de S. Ma inho de Vale de Bou o, e mo ado no luga
de Mo ei a de Além, da di a eguesia, e mo da Vila de Bas o20. Bap izado e
c ismado, sabia le e esc e e , inha alguns li os de piedade po onde lia e, an es
de i pa a Vila inho, «cuida a das suas azendas, abalhando com os seus bois
e mais dois moços»21.
Não inha manuseado apenas li os de espi i ualidade. Ti e a ac i idade de
cu andei o. Con o me con ou na Mesa de Coimb a, usa a ambém um aslado
manusc i o, em o ma de cade ninho, com ó mulas de o ação e exo cismo,
i adas do chamado Li o de S. Cip iano, que lhe o e ece a um homem secula ,
ico e abonado de bens, seu conhecido, de Bo icas de Ba oso, que po sua ez
o hou e a de um clé igo galego, exo cis a, e cujo uso, alegadamen e, não lhe
o a es anhado po um «missioná io apos ólico» com quem con ac a a22. Na
algibei a a ia co en emen e, a In odução ao Símbolo da Fé, de F ei Luís
de G anada, um clássico consag ado que e ela as aspi ações espi i uais do
la ado de Vale de Bou o, e Casos Ra os da Con issão, de C is óbal de la Veja,
S.J., ( adução de Bal asa Guedes, Coimb a, José Fe ei a, 1673, com á ias
edições), e Báculo Pas o al de lo es de exemplos, de F ancisco Sa ai a e Sousa
(Lisboa, Ped o C aesbeeck, 1624), nes e caso, dois li os con endo imp essi as
20 C . RIBEIRO, An ónio — Um bu aco no In e no, João Pin o o la ado he esia ca e a Inquisição. Coim-
b a: Palimage, 2006, Apêndice, p. 200.
21 RIBEIRO, An ónio — Um bu aco no In e no, João Pin o o la ado he esia ca e a Inquisição. Op. ci .,
Apêndice, p. 207.
22 C . RIBEIRO, An ónio — Um bu aco no In e no. Op. ci ., Apêndice, p. 208-210.
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