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A verdade da mentira: o museu como dispositivo ficcional na obra de Marcel Broodthaers

Abstract

O esvaziamento das lógicas de ruptura e transgressão com que as vanguardas artísticas se tiveram que confrontar, em especial a partir da década de 60 do século XX, obrigou-as ao questionamento profundo dos mecanismos institucionais reguladores da norma e do desvio. É o caso das heterotopias museológicas que puderam ser interrogadas a partir das suas capacidades efabulatória e ficcional. É no centro mesmo deste debate que, em 1968, Marcel Broodthaers abre a Section XIXème Siècle do seu Musée d?Art Moderne, Departement des Aigles. A complexidade deste projecto, que irá durar com diversas configurações até 1972, abre uma discussão sobre a própria ontologia da arte num momento de aparente crise. Neste artigo procurámos reflectir sobre a razão da escolha de um dispositivo ficcional para a construção da sucessão heterogénea de objectos e acontecimentos que constituem esse Musée d?Art Moderne, buscando assim na própria inquietação e no movimento imprevisível da narrativa ficcional as respostas para a compreensão dos lances de Marcel Broodthaers.

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A verdade da mentira: o museu como dispositivo ficcional na obra de Marcel Broodthaers

Author: Miguel Leal
Year: 2003
Source: https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/73120/2/46575.pdf
A e dade da men i a: o museu como disposi i o iccional na ob a de
Ma cel B ood hae s
Miguel Leal
(Faculdade de Belas A es da Uni e sidade do Po o)
LEAL, Miguel – A e dade da men i a: o museu como disposi i o iccional na ob a de Ma cel
B ood hae s. Re is a Comunicação e Linguagens. Lisboa. ISSN 0870-7081. Nº 32, 2003. p.
231-244.
Na sua ob a inacabada Das Passagen-We k, Wal e Benjamin e e e-se ao
Museu como um luga de sonhos, um espaço de iden i icação do imaginá io
cole i o em que es e p ocu a na a queologia do passado uma imp egnação
nos álgica e libe ado a. Benjamin ala-nos, é ce o, da Pa is do século XIX e
enume a ou as casas de sonho do cole i o, mas pa ece-nos possí el a i ma
que esses museus oi ocen is as se ão, em po ência e na sua aceção mais la a,
um dos luga es po excelência pa a a conc e ização dessa de i a do imaginá io
(1982, pp. 423-433). Numa das ci ações incluídas no seu li o, Benjamin diz-
nos mesmo que o Museu oi p oblema a qui e ónico especí ico do século XIX e
julgamos que não se á di ícil encon a na iccionalidade que es á ine en e à
seleção do seu con eúdo o elemen o que conduz essa an asmago ia
sonhado a.
De ac o, o século XIX é o momen o da ixação de ce os modelos
he e o ópicos, modelos esses que são, segundo Michel Foucaul (1967), um
ga an e do escape da imaginação. Essas he e o opias compo am-se como
«con assí ios», u opias ealizadas g aças a uma espécie de in e são
especula em que odos os sí ios eais de uma dada cul u a se podem
encon a . Ainda segundo Foucaul , o museu e a biblio eca o am as
he e o opias acumula i as do empo ípicas da cul u a ociden al do século XIX.
Esses dois g andes a qui os-enciclopédia co espondiam a uma ideia p óxima
de uma o alidade a queológica, echando «num só luga odos os empos,
épocas, o mas e gos os», a a és da cons ução de «um luga de odos os
empos o a do empo» (idem). No undo, um luga capaz de suspende a
p óp ia passagem do empo e o desgas e po es e p o ocado, numa
imobilidade c is alizado a. Ao esc e e sob e La Ten a ion de Sain An oine, de
Gus a e Flaube , Foucaul i á en a explica o modo como o imaginá io se
ins ala no espaço ins e s icial do en e-os- ex os conside ando-o como um
enómeno ge ado pela p óp ia biblio eca - «pa a sonha , não de emos echa
os olhos, de emos le » (1976, p. 325). A i ma mesmo que La Ten a ion oi a
p imei a ob a li e á ia a e o seu luga p óp io no espaço dos li os, assim
como a Olympia ou Le déjeune su l’he be de Mane coloca am pela p imei a
ez o p oblema de uma au o e e encialidade na pin u a (idem, p. 326).
Flaube es a ia pa a a biblio eca como Mane pa a o museu. Foucaul si ua
ambém Bou a d e Pécuche , o li o que se seguiu na ob a de Flaube , na
linhagem de uma icção que se cons ói a pa i de li os já esc i os, numa
combina ó ia edesenhada a pa i de uma ce a e udição, al qual uma
enciclopédia.
Con udo, se segui mos a análise que Eugenio Dona o (1993) p opões pa a
esse mesmo li o de Flaube , pode emos an es encon a nessa ou a
he e o opia acumula i a do empo que é o museu o modelo e o mo o da sua
cons ução. A lei u a da babelização impos a pela iccionalização do mundo
que Flaube ope ou a pa i da biblio eca-enciclopédia mos a-se assim
insa is a ó ia pa a explica em oda a sua ex ensão o d ama i ido pelos dois
p o agonis as do omance: «a sua incapacidade de econhece que a
linguagem não consegue ixa a na u eza das coisas» e cons i ui po essa ia
uma ep esen ação adequada do mundo (idem, p. 13). Bou a d ey Pécuche
se ia en ão uma icção sob e a impossibilidade e a alência dos p óp ios
modelos cole i os de ep esen ação. Res a ia o ecu so a uma polí ica do
agmen o que não é mais do que um dos des inos imaginados pa a as
pe sonagens des e li o ambém inacabado – copia a é à exaus ão, esc e e
um li o ei o de ci ações - , e simul aneamen e uma ap oximação ao p ocesso
cons u i o u ilizado po Flaube pa a esc e e 1. Segundo Dona o, uma mais
a en a obse ação da he e ogeneidade dos elemen os que ão su gindo ao
longo do li o e ela-se adicalmen e dis in a da homogeneidade
ep esen acional do espaço da enciclopédia-biblio eca:
«O conjun o de obje os que o Museu ap esen a é sus en ado apenas pela icção de
que eles cons i uam de algum modo um uni e so ep esen acional coe en e. A icção é
a de que um deslocamen o me onímico epe ido do agmen o pa a o odo, do obje o
pa a a e ique a, da sé ie de obje os pa a a sé ie de e ique as, possa ainda p oduzi
uma ep esen ação que seja de algum modo adequada a um uni e so não-linguís ico»
(idem, p. 64).
Pa a es e au o , o concei o que melho de ine a he e ogeneidade de Bou a d e
Pécuche e a sua elação com uma o alidade enciclopédica é o museu,
semp e p esen e nas in icadas abulações que os p o agonis as ão
desenhando em ol a dos mais insuspei os obje os. A icção do museu es a á
pois na ilusão de que a pa e possa ep esen a o odo e que a eunião
he e ócli a do b ic-a-b ac museológico se mos e capaz de cons i ui um odo
coe en e.
Es e ou o modo de en ende o museu como luga de sonhos e abulações
pode ajuda -nos a comple a um quad o in odu ó io pa a o en endimen o da
ins i uição museológica como espaço de de i a signi icacional dos obje os, mas

1Umalei u adaco espondênciadeFlaube àépoca,comoDona onãosecansade eco da ,
escla ece‐nosdeimedia osob eolabi in odelei u asemque e edeseen eda pa aesc e e 
Bou a de Pécuche .
ambém como luga de uma in ensa manipulação e domes icação da sua
p óp ia exis ência.
Os museus, na sua lógica cumula i a e inco po ado a, ope a am desde o seu
apa ecimen o no sen ido de uma dessac alização dos obje os, endo su gido no
exa o momen o em que de e minados obje os deixa am de e um papel segu o
num dado quad o mí ico. Po isso, e des iando um pouco os a gumen os de
Thomas Pa el (1986), e á sido, en e ou os aspe os, do en aquecimen o da
c ença nas cons uções mi ológicas associadas a esses obje os que su giu a
icção museológica. Ou o modo de olha pa a es a descon ex ualização do
obje o a ís ico é sublinha a pe da da sua unção social, o modo como es e
iaja de um con ex o sag ado pa a um ou o p o ano, desligando-se do eal
quo idiano e p ocu ando p og essi amen e uma au onomia e
au o e e encialidade. Nessa iagem, os obje os inco po ados no museu e ão
pe dido a p o eção e a coe ência o alizan e e in iolá el do espaço do sag ado
e, po isso, como qualque ou a icção, os museus i am-se ob igados a
eco e a odos os meios possí eis pa a se aze em econhece e acei a . É
que, como eco da Pa el, se não medimos a e dade de um mi o, já as icções
es ão cons an emen e sujei as a julgamen o e cabe-lhes cons ui e o nece os
seus p óp ios ins umen os de legi imação. Assim, os museus o am e elando
a cons ução de in incadas na a i as capazes de explica em e con e i em um
sen ido aos seus espólios.
Essas na a i as, que se supunham a cada momen o uni e sais e
uni e salizan es, o am-se apu ando, na insis en e en a i a de se a as a em da
i olidade iccional, mas a igu a am-se semp e incapazes de se libe a em
desse peso. Aliás, pa ecia a é que à medida que iam pe dendo a sua
ingenuidade, is o é, que se mos a am conscien es da necessidade de ocul a
o seu ca á e iccional, mais a sua p e ensão uni e salizan e ia sendo colocada
em causa.
De ac o, o museu oi ocen is a que ascina a Benjamin en ou no século XX
sujei o a mu ações de di e sa o dem, colocando em causa a coe ência in e na
das na a i as que o sus en a am e ob igando a um maio e inamen o das
suas es a égias de legi imação. Os museus, mui o pa icula men e aqueles
ligados à his ó ia da a e, semp e se cons uí am a pa i de uma na a i a que
p essupunha um en edo cen al e o denado . O a, a p oli e ação de
ep oduções de ob as de a e e i ou ao museu o exclusi o na cons ução
dessas na a i as, de um en edo cen al passamos, numa lógica exponencial, a
um es ilhaça das cen alidades. O Museu Imaginá io de And é Mal aux (1947)
não é mais do que a ixação des e enómeno de cole i ização da a e. Pa a
Mal aux, a solução sal í ica pa a he e ogeneidade museológica esidia
exa amen e nes e nascimen o de uma linguagem uni e sal da a e,
pa adoxalmen e cen ada na indi idualização das escolhas. O segundo
momen o de descon ex ualização das ob as – p imei as a ancadas à sua
exis ência pelo museu – que a in ensa p oli e ação das suas ep oduções
ep esen a acaba pois po conduzi a mais um passo decisi o no caminho da
au onomização da a e. Es a democ a ização do imaginá io passa ia pela
a ibuição a cada um da possibilidade de esc e e a sua p óp ia icção2.
Con udo, na lei u a de Mal aux, há ainda uma g ande na a i a subjacen e a
es e museu imaginá io, a do des ino da p óp ia humanidade.
Bem sabemos que es a colagem ao museu de um ca á e iccional e ela um
en endimen o bas an e la o do concei o, embo a po ou o lado nos pa eça que
a inco po ação da ins i uição museológica na classe dos disposi i os iccionais
é al ez a melho o ma de da um enquad amen o concep ual à imagem do
museu como a casa de sonho do cole i o de que ala a Benjamin. Mas o
museu, pa a além de pode se enca ado dessa o ma, oi ambém desde
semp e um mecanismo de con olo do discu so, uma ins i uição legi imado a e
o denado a. Pa a um obje i o, en a no museu signi ica a passa a pe ence à
adição e se inco po ado numa na a i a no malizado a.
Pa a as angua das a ís icas do inicio do século, imbuídas como es a am de
uma lógica ansg esso a e de u u a, o museu e a o ga an e dessa adição, o
las o que e a u gen e libe a pa a pe mi i o mo imen o em di eção ao
desconhecido e o es abelecimen o da ligação pe dida en e a a e e a p axis
i al. Mas a mobilidade que as ins i uições do mundo da a e semp e cul i a am
le ou a que em mui o pouco empo esses mesmos des ios ossem in eg ados
na no ma. A ex e io idade a u an e de uma an i adição iu-se apidamen e no
cen o legi imado . A on ei a en e ex e io e in e io es aziou-se
epen inamen e. Pa ecia já não ha e nenhuma agédia e olucioná ia pa a
cump i , apenas uma a sa mimé ica e des i uída de con eúdo3. É es e o
con ex o de uma c ise cul u al que as neo angua das i e am de en en a a
pa i do pós-gue a (e em especial nas décadas de 60 e 70). O aná ema
á sico da mo e das angua das aba eu-se sob e as p á icas a ís icas que
p ocu a am ecupe a a he ança das angua das di as his ó icas. As
neo angua das i e am pois de lida com a ausência de um ex e io , com a
impossibilidade de man e a lógica ansg esso a e de u u a que pa ecia se o
des ino e e no das angua das. Um con on o com as ins i uições do sis ema
das a es – e mui o pa icula men e com o museu -, que já não admi ia a
manu enção da dualidade adição/an i adição, i á o na -se o eixo da ação de

2Pa aes aques ãoempa icula , e o ex oPos mode nism’sMuseumWi hou Walls,deRosalind
K auss.
3Pa aumadesmon agemmaisp ecisades aideiap esaemdemasiaaomi odao iginalidadedas
angua dasequepa edop essupos odequeexis eump imei omomen ode e dadecomas
angua dashis ó icaseumsegundomomen o,comasneo angua das,depu a epe içãoac í icados
lancesdasp imei as(comonas esesdePe e Bü ge ), e oli oTheRe u no  heReal,deHalFos e .
Aí, endocomobaseasnoçõesdepa alaxeaçãodi e ida,Fos e lançasob ees adiscussãodamo e
das angua dasumain e essan e e i a ol a.Asduasnoções,quees u u am odaessa elei u a,
se emumen endimen odas elaçõesen e angua dasdis an edas isõeshis o icis asep opondo
modelosdi e en esdecausalidade, empo alidadeena a i idade.
mui os a is as dessa ge ação. Um de e minado modelo de c í ica ins i ucional
se i á como ins umen o de ensi o con a a lógica inco po ado a e
anes esian e das ins i uições.
É no cen o mesmo des e deba e que em 27 de se emb o de 1968 Ma cel
B ood hae s ab e na sua casa-a elie da Rue de la Pepiniè e, em B uxelas, a
Sec ion XIXème Siècle do seu Musée d’A Mode ne, Dépa emen des Aigles.
Du an e exa amen e um ano essa casa ai o na -se o cená io e o co po de
uma na a i a de ca á e iccional em que um ce o e ei o de sucção pe mi iu
suspende empo a iamen e o eal iluminando a e dade da men i a, como
e e ia o p óp io B ood hae s. Olha essa p opos a me amen e como uma
es a égia de c í ica ins i ucional é eduzi-la a um es ado empob ecedo . De
ac o, a complexidade des e p oje o, que i á du a com di e sas con igu ações
a é 1972, ab e espaço pa a uma e lexão mais p o unda sob e a p óp ia
on ologia da a e num momen o de apa en e c ise. Nes e b e e ensaio
p opomo-nos e le i sob e a azão da escolha de um disposi i o iccional pa a
a cons ução da sucessão he e ogénea de obje os e acon ecimen os que
cons i uem o Musée d’A Mode ne, Dépa emen des Aigles, buscando assim
na p óp ia inquie ação eno mo imen o imp e isí el da na a i a iccional
(Blancho ) as espos as pa a a comp eensão dos lances de Ma cel
B ood hae s.
A ap oximação de Ma cel B ood hae s ao campo das a es pla´s icas é
demasiado singula pa a não me ece uma no a p é ia. Em 1964, aos qua en a
anos, B ood hae s o na-se num dese o da esc i a a ab e a sua p imei a
exposição indi idual na Gale ie Sain -Lau en , em B uxelas. O con i e da
exposição ap esen a a, imp esso e o- e so sob e páginas de e is as, o
seguin e:
«L’idée en in d’in en e quelque chose d’insincè e me a e sa l’esp i e je me mis
aussi ô au a ail. Au bou de ois móis, je mon ai ma p oduc ion à Ph. Edoua d
Toussain le p op ié ai e de la gale ie Sain Lau en . Mais c’es de l’a e j’expose ais
olon ie s ou ça. D’acco d luis espondis je. Si je ends quelque chose il p end a 30%.
Ce son pa aî -il des condi ions no males ce aines gale ies p enan 75%. Ce que c’es ?
En ai des obje s.
Ma cel B ood hae s
Moi aussi je me sui demande si je ne pou ais pás end e quelque chose e éussi dans
la ie. Cela ai un momen déjà que je ne suis bom à ien. Je suis âgé de qua en
ans…»
Uma ina i onia a a essa es as ases, sob e udo po que se ins ala uma dú ida
sob e o mo i o dessa iagem do mundo da li e a u a pa a o das a es plás icas.
O «eu não sou bom em nada» indica um alhanço de B ood hae s nos seus
emp eendimen os an e io es ou a cons a ação do es aziamen o das
compe ências o icinais que adicionalmen e es a am associadas as a es
plás icas inha inalmen e chegado a um g au ze o em que udo se ia pe mi ido,

a é a si, na sua since idade con essada? Ou en ão, e ia Ma cel B ood hae s
descobe o no comé cio da a e um ilão inespe ado pa a a sua sob e i ência,
um espaço onde uma implosão das compe ências e das especi icidades de
cada a e e ia passado a admi i qualque a i ude desde que in eg ada nas
con enções de um sis ema ensimesmado numa ci cula idade es é il? Ou
e iam as ama as mais ape adas, as con enções mais ígidas e a p isão da
linguagem associadas à esc i a que o e iam ap oximado das imagens e dos
obje os em de imen o da pala a?
Um dos obje os-escul u a p esen es na exposição – Pense-Bê e – pode ajuda -
nos na en a i a de encon a as azões dessa ap oximação. O úl imo li o de
B ood hae s à época, p ecisamen e in i ulado Pense-Bê e, inha já sido
opo unidade pa a esse des io que consis iu na indi idualização g á ica de
cada exempla a a és de in e enções do p óp io a is a. Os úl imos cinquen a
exempla es acaba am objec ualizados na escul u a que le a a o mesmo í ulo.
O li o, en endido po B ood hae s como o obje o de uma in e dição: uma pas a
in o me de gesso b anco eúne ago a o maço es an e dos li os, iluminando
ambém em ce a medida a insu iciência mú ua da ep esen ação esc i a e da
ep esen ação isual – não podíamos le o li o sem des ui o seu aspe o
escul u al. T a a -se-ia do en e o «de uma p osa, de uma poesia, de is eza
ou de p aze »? O ac o, assinala B ood hae s, é que pa a o espec ado essa
não e a uma ques ão a coloca pe an e aquele obje o. Aqueles li os e am
ago a uma escul u a, li os en e ados em gesso. Mas, po ou o lado e de um
modo su p eenden emen e, Ma cel B ood hae s inha ago a um público eal4.
Pense-Bê e e oca pois a pe gun a que a a essa o li o Les Muses, de Jean-
Luc Nancy (1994): Po que é que há á ias a es, e não apenas uma? Nancy
iden i ica uma a u a en e um plu al das a es - «Há as musas, e não a musa»
- e um singula da a e que e á nascido com o oman ismo. O plu al das a es
se a á assim sob e udo ligado a um ace-a- ace pe an e a écnica, a uma
plu alidade cen ada nas p óp ias con ingências do aze a ís ico. Já o singula
da a e an es um in aduzí el denominado comum, uma cons ução ilosó ica,
uma abs ação. Mas, segundo Nancy, exis e uma i edu ibilidade ão o e
nessa plu alidade das a es como na unidade do singula da a e; po isso a á
apenas sen ido ala des e plu al e des e singula se o mos capazes de
en ende a singula idade da a e no seu plu al e a plu alidade da a e a pa i do
seu singula : uma espécie de singula plu al (ou plu al singula ). Es e é o
enunciado p oblemá ico da a e ci cunsc i a no seu singula , a cons a ação de
uma cli agem in e na a pa i do pa a e e écnica (Nancy, 1994, p. 48). Essa

4«Quemque que osse[oespec ado dassuasob as],a éaop esen e,eleape cebiaoobje ocomo
umaexp essãoa ís icaouumacu iosidade.“Olha,li osme idosemgesso!”.Ninguém e ea
cu iosidadedo ex o,igno andosese a a adoen e odeumap osa,deumapoesia,de is ezaoude
p aze .Ninguémsesen iuimp essionadopeloin e di o.A éessemomen o,eu i iap a icamen e
isoladodopon ode is adacomunicação,sendoomeupúblico ic ício.Repen inamen e,ele o nou‐se
eal.»‐ma celB ood hae s,1974(inMa celB ood hae s,Pa is,JeudePomme,1991,p.58).
ó mula de con on o acaba po condensa os excessos de um pensamen o da
a e sem in enção da a e, e de uma p o usão da écnica sem pensamen o da
écnica (idem, p. 18). O singula plu al se á assim a lei e o p oblema da a e
(idem, p. 30). O obje o-escul u a de B ood hae s eco da-nos pois as
especi icidades de cada a e, ao joga com a in adu ibilidade en e as a es,
implodindo a pala a a a és da imposição do obje o («Eu u ilizo o obje o como
uma pala a ze o»5). É, usando a imagem de Jean-Luc Nancy, como se as
a es se compo assem e elacionassem enquan o línguas, sem o se em de
ac o. A icção ísica ( écnica?) das a es deixa apenas um es ei o espaço
pa a a adu ibilidade, e esse pequeno nada se á o es ígio do singula da a e
(idem, p. 166).
Es e e ei o implosi o da esc i a e a ques ão do singula plu al da a e su gem
dessa o m no cen o da ob a de B ood hae s. É assim que emblema icamen e,
ao se con idado em 1974 pa a concebe a capa da edição belga da e is a
S udio In e na ional, B ood hae s insc e e sob e um undo neg o simplesmen e
as pala as FINE ARTS, subs i uindo a le a E pela imagem de uma águia
(eagle) e a le a A pela imagem de um bu o (ass), ea i mando mais uma ez
essa a u a en e o singula e um plu al da a e6. Ou en ão, quando ilma La
Pluie (P ojec pou un ex e), em 1969, uma pequena ob a de dois minu os em
que emos o p óp io B ood hae s, sen ado, no cená io do ja dim da sua cas-
a elie , en ão ans o mada em Museu, e endo como pano de undo um mu o
com a insc ição Dépa emen des Aigles, en ando esc e e sob e uma olha de
papel debaixo de uma chu a in ensa7, mos ando a é à e idência uma ce a
impossibilidade ou, di o de ou o modo, um g au ze o da esc i a que já se
adi inha a em Pense-Bê e. Que es e ilme enha sido ealizado no quad o da
sua icção museológica, com a legenda da águia impe ial da a e em segundo
plano, é ainda mais escla ecedo .
Um sinal his ó ico da ensão en e a e e écnica pode encon a -se no ac o de
às a es plás icas e sido ecusada a a ibuição de uma musa inspi ado a.
Tendo a pin u a e a escul u a du an e mui o empo sido conside adas como
sabe es a esanais, oi g aças a um longo p ocesso, que se iniciou ainda no
Renascimen o, que essas disciplinas se guinda am à dignidade das ou as
a es. Alguns eem no museu a sua ingança. É a ins i uição museológica que
ajuda a cons ui a icção da a e no singula e não admi a po isso que
B ood hae s enha escolhido p ecisamen e o museu e as con enções que lhe
são p óp ias pa a sus en a a sua icção ins i ucional. Uma icção den o da
icção, uma men i a sob e o engano, ou um modo de ilumina a e dade da
men i a da nascença e pe manência de um ce o en endimen o celiba á io da

5B ood hae s,1974(idem,p.248).
6Pa aes aques ãoempa icula , e oexcelen eensaiodeRosalindK aussAVoyageon heNo hSea:
A in heAgeo  hePos ‐MediumCondi ion(Lond es,Thames&Hudson,1999).
7Aideiadeumdilú ioaniquilado ,mas ambémadeumdilú io eden o epo enciado deum
ecomeço
a e. Po di e sas ezes, B ood hae s i ia a e e i -se a es e ca á e ic ício, de
um engano e de uma men i a conscien es e abe as ao jogo com o público da
a e:
«O “Musée d’A Mode ne, Dépa emen des Aigles” é mui o simplesmen e uma
men i a, um engano. Mas ele sob e i e há já qua o anos no seio de mani es ações
das mais di e sas: em publicações, em en e is as, em pos ais dos co eios, em
e dadei os obje os de a e, em quad os, em escul u as e em obje os de publicidade.
Fala do meu museu equi ale a ala da a e e, desse modo, a analisa o engano. O
museu no mal e os seus ep esen an es colocam simplesmen e em cena uma o ma de
e dade. Fala des e museu equi ale a disco e sob e as condições des a e dade.
Há uma e dade da men i a.
[…]
Quando uma ob a de a e encon a a sua condição na men i a ou no engano, é ainda
uma ob a de a e? Não enho espos a.
[…]
O museu ic ício en a pilha o museu au ên ico, o icial, pa a assim a ibui o ça e
e osimilhança à sua men i a. É igualmen e impo an e descob i se o museu ic ício
lança um no o dia sob e os mecanismos da a e, do mundo e da ida da a e. Com o
meu museu eu coloco a ques ão. É po isso que não enho necessidade de da
espos a. […]
Tal ez a única possibilidade pa a mim de se um a is a seja a de se um men i oso
[…].»8
No undo, Ma cel B ood hae s az uso das con enções que egem essa
cons ução iccional (en endendo aqui icção no seu sen ido mais la o) que
acaba po se qualque museu – ins umen o implacá el da au onomização e
singula ização da a e – pa a c ia uma ou a icção (ago a já num sen ido mais
es i o). Po um lado, u iliza esse ca á e iccional do seu museu pa a
ques iona uma on ologia da a e demasiado cen ada na a u a expos a pelo
seu FINE / ARTS; po ou o, usa-o pa a de ende a sua p óp ia ob a da
implacá el mo bilidade associada à sua e en ual ins i ucionalização. T a a-se
en ão de joga em dois abulei os em simul âneo: no plano on ológico são o
passado e o p esen e da a e que se eem ques ionados; em elação à sua
ob a, é sob e udo um lance de an ecipação do seu des ino.
Nos qua o anos da sua exis ência, o Musée d’A Mode ne, Dépa emen des
Aigles i á ocupa di e sos locais, como se de um squa ing a ís ico se a asse,
uma ocupação empo á ia que sub e ia as noções de empo alidade e
pe enidade associadas à a e. A icção ai se u ilizada como si uação (e não
como mé odo), como B ood hae s gos a a de lemb a , u ilizando a ugacidade
e a impe manência como ins umen os de ação. Não ha endo aqui
p op iamen e uma na ação, sen e-se a p esença de uma na a i a. Uma
na a i a que se oi cons uindo e p esen i icando de uma o ma quase
pe o ma i a. É assim que, po exemplo, du an e a es adia da Sec ion XIXème
siècle na Rue de la Pepinié e, B ood hae s ealiza uma iagem i ine an e do

8Ma celB ood hae s,1974(op.ci .,p.229).
seu museu a é Wa e loo, po al u a do bicen ená io do nascimen o de
Napoleão. Essa iagem ica á documen ada na segunda pa e do ilme Musée
d’A Mode ne, Dépa emen des Aigles, Sec ion XIXème Siècle, em que
podemos e B ood hae s a ca ega uma caixa azia num camião e a aze a
iagem de B uxelas a Wa e loo apenas pa a a desca ega . Ou en ão, de um
modo mais e iden e, quando em agos o de 1969 cons ói nas a eias da p aia
de Le Coq a Sec ion Documen ai e do seu Museu, que du a ia apenas o empo
de uma baixa-ma .
O nosso en endimen o é o de que apenas a lexibilidade dos mundos iccionais
admi ia es e emp eendimen o em oda a sua ex ensão. A capacidade de
abalha num plano em que se suspendia momen aneamen e a ealidade,
c iando um uni e so ap op iado à ins au ação de um mundo pa alelo, ao
mesmo empo dis an e e p óximo da ealidade, só no quad o de um disposi i o
iccional e a conc e izá el. A acei ação da con enção da iccionalidade que,
nes e caso, ad e e cla amen e o público da a e que se encon a pe an e uma
ins i uição ic ícia, uma men i a delibe ada, pe mi e a B ood hae s manipula o
Musée d’A Mode ne a seu bel-p aze . Po ou o lado, como Thomas Pa el
(1986) p ocu ou demons a , a inexis ência de on ei as ígidas en e icção e
ealidade ab e a possibilidade de um conjun o as íssimo de con aminações.
Pode íamos ambém a gumen a que essa condição de suspensão empo á ia
da desc ença, ou pelo menos de uma abe u a ao inespe ado, é apanágio da
a e de um modo ge al. Mas no con ex o de uma icção ins i ucional como a de
B ood hae s, o po encial exis en e no duplo ence amen o de uma icção – uma
ci cula idade in e na que le a a na a i a a ence a -se em si p óp ia; e uma
ci cula idade ex e na consubs anciada na in odução do museu ic ício
exa amen e no co po do museu eal – pa ece de uma ou a o dem bem mais
complexa e que julgamos obedece mais uma lógica p óp ia dos disposi i os
iccionais do que aos mecanismos especí icos da a e. A ideia de uma
cons ução a i icial, ca ac e ís ica de qualque icção, é apon ada po Benjamin
Buchloch (1996) como a o ma mimé ica do Musée de B ood hae s an ecipa o
seu des ino úl imo, num abalho de esis ência ao p ocesso de mi i icação. É
Roland ba hes que o e ece o a gumen o, a a és do seu concei o de
mi i icação secundá ia (1957, pp. 200-205)9. E é ambém aí que pode emos
encon a mais uma sus en ação pa a a implosão da esc i a que dá o igem à
ob a plás ica de Ma cel B ood hae s; mais p ecisamen e a ideia de uma ce a
adicalidade da sub e são da esc i a, is a como um modo de negação da
li e a u a como sis ema mí ico. O museu de B ood hae s é ainda a con inuação
dessa iagem, a a és da c iação de um campo g a i acional único onde
pala as, imagens e obje os podiam inalmen e se des i uídos da sua
signi icação. Tal ez po isso, a igu a de Malla mé osse ão impo an e pa a

9Cu iosamen e,oexemploli e á ioescolhidopo Ba hesémesmooBou a de Pécuche deFlaube …