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Desafios e caminhos epistemológicos na abordagem do turismo a partir dos estudos da literatura e da cultura

Abstract

A capacidade tentacular e o caráter omnívoro das práticas turísticas promoveram a sua expansão até praticamente qualquer área, tema ou território, incluindo entre eles a literatura, como demonstra o apogeu recente do turismo literário, nas suas diversas concretizações. As interseções que, atualmente, se produzem entre literatura e cultura e o turismo exigem novas abordagens analíticas e leituras críticas renovadas. Este estudo pretende precisamente reavaliar os motivos e as formas de estudar estes cruzamentos. Para tal, são fixados, em primeiro lugar, alguns traços significativos da prática turística na contemporaneidade, assim como os debates existentes no âmbito académico sobre a natureza deste fenómeno ou sobre a sua inter-relação com a cultura e com as identidades (locais, regionais e nacionais). Em segundo lugar, pretende-se discutir a necessidade de analisar o turismo a partir dos estudos da literatura e da cultura e propor algumas linhas de trabalho que podem ser relevantes nesta orientação, tais como a sua proximidade com a ideia de cânone, o papel dos produtos literários e culturais na construção de imaginários turísticos ou a sua (des)conexão com a literatura de viagens.

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Desafios e caminhos epistemológicos na abordagem do turismo a partir dos estudos da literatura e da cultura

Author: Martínez Tejero, Cristina
Year: 2018
Source: https://repositorio.ulisboa.pt/bitstream/10451/37717/1/2018_DesafiosECaminhosEpistemologicosTurismoLiteraturaCultura.pdf
N.º 38 – 6/ 2018 | 67-85 – ISSN 2183-2242 | h p:/dx.doi.o g/10.21747/21832242/li comp38a4
Desa ios e caminhos epis emológicos na abo dagem do u ismo a pa i
dos es udos da li e a u a e da cul u a
C is ina Ma ínez Teje o
Uni e sidade de Lisboa - Cen o de Es udos Compa a is as
Resumo: A capacidade en acula e o ca á e omní o o das p á icas u ís icas p omo e am a sua expansão
a é p a icamen e qualque á ea, ema ou e i ó io, incluindo en e eles a li e a u a, como demons a o
apogeu ecen e do u ismo li e á io, nas suas di e sas conc e izações. As in e seções que, a ualmen e, se
p oduzem en e li e a u a e cul u a e o u ismo exigem no as abo dagens analí icas e lei u as c í icas
eno adas. Es e es udo p e ende p ecisamen e ea alia os mo i os e as o mas de es uda es es c uzamen os.
Pa a al, são ixados, em p imei o luga , alguns aços signi ica i os da p á ica u ís ica na
con empo aneidade, assim como os deba es exis en es no âmbi o académico sob e a na u eza des e enómeno
ou sob e a sua in e - elação com a cul u a e com as iden idades (locais, egionais e nacionais). Em segundo
luga , p e ende-se discu i a necessidade de analisa o u ismo a pa i dos es udos da li e a u a e da cul u a e
p opo algumas linhas de abalho que podem se ele an es nes a o ien ação, ais como a sua p oximidade
com a ideia de cânone, o papel dos p odu os li e á ios e cul u ais na cons ução de imaginá ios u ís icos ou a
sua (des)conexão com a li e a u a de iagens.
Pala as-cha e: li e a u a, cul u a, u ismo, iden idade, espaço, globalização
Abs ac : The en acula capaci y and omni o ous cha ac e o ou ism ha e p omo ed i s expansion o
almos any a ea, heme o e i o y, including li e a u e, as he eme gence o li e a y ou ism (in i s a ious
o ms) shows. The in e sec ions be ween li e a u e and cul u e wi h ou ism demand new analy ical
app oaches and enewed c i ical eadings. The aim o his pape is o e-e alua e he easons and ways o
s udy hese connec ions. To his end, some signi ican ea u es o cu en ou is p ac ice a e se ou , as well
as he ongoing academic deba es abou he na u e o his phenomenon o abou i s in e ela ionship wi h
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cul u e and wi h iden i ies (in a local, egional o na ional le el). Secondly, I in end o explo e he easons o
analyzing ou ism in li e a u e and cul u e s udies and o o e some lines o esea ch ha may be ele an in
his o ien a ion, such as i s p oximi y o he idea o canon, he ole o li e a y and cul u al p oduc s in he
cons uc ion o ou is imagina ies o i s (dis)connec ion wi h a el li e a u e.
Keywo ds: li e a u e, cul u e, ou ism, iden i y, space, globaliza ion
Es e abalho p e ende deb uça -se sob e um elemen o que podemos quali ica
como incómodo no con ex o dos es udos da li e a u a e da cul u a: o u ismo.
1
Apesa des a
a aliação global, há di e sas co en es no âmbi o académico que p ocu am ap o unda na
elação (complexa) en e u ismo e li e a u a. Es es es udos são ealizados mui as ezes
sob uma ó ica p ó-a i a, is o é, p e endem con ibui , de ce a o ma, pa a a implemen ação
do u ismo li e á io, o que de e se lido segundo as coo denadas que p ocu am no as
u ilidades pa a a li e a u a no meio da c ise das humanidades e ambém à luz das no as
modalidades de u ismo cul u al.
Não é es a a posição de endida nes e a igo que p e ende o e ece uma isão
di e en e sob e os mo i os pa a es uda as elações en e li e a u a e u ismo. Pa a is o,
en a ei, em p imei o luga , es abelece alguns aços signi ica i os do u ismo a pa i de
uma lei u a cul u al, com pa icula a enção aos con ibu os da geog a ia cul u al, da
sociologia ou da an opologia do u ismo. Em segundo luga , p e endo discu i a
necessidade de es uda o u ismo a pa i da li e a u a – ou na sua in e seção com a
li e a u a – e suge i algumas linhas de abalho que podem se ele an es nes a
o ien ação.
1. (In)de inições do u ismo
O u ismo é um dos enómenos mais ep esen a i os da a ualidade, inco po ando e
e idenciando na sua na u eza o consumismo, a deslocação, a ugacidade ou a
supe icialidade. Nes e sen ido, o na-se um exemplo da mode nidade líquida o mulada
po Bauman (2000) e um dos enómenos que mais e idencia as lógicas da globalização.
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T a a-se de uma p á ica ex emamen e complexa, sob e a qual não exis e uma de inição
cla a: “Tou ism is no a monoli h. I is an exceedingly la ge-scale and di e se indus y,
ope a ing in a a ie y o ways unde di e ing ci cums ances” (G eenwood 1977: 129).
Alguns dos aços que cos umam se conside ados pa a a sua ixação são: a deslocação, a
queb a da o ina, a sua associação ao laze , ao p aze ou ao consumo, o seu ca á e
empo almen e limi ado, e c.
Cada um des es aspe os le an a múl iplas ques ões que é impossí el abo da com
de alhe nes as páginas. Des aca ei, po isso, apenas alguns elemen os que lançam luz a es e
espei o. Em p imei o luga , o sociólogo Zygmun Bauman (1998) apon a que i emos na
e a da comp essão empo-espaço e que es amos odas e odos em mo imen o, mesmo de
modo in olun á io: “Nowadays we a e all on he mo e” (1998: 77). Es a ên ase na
mobilidade é ambém salien ada po G eenwood: “ ou ism is he la ges scale mo emen o
goods, se ices, and people ha humani y has pe haps e e seen” (1977: 129). Po ém, nem
odas as pessoas êm as mesmas acilidades e di ei os de mobilidade e aqui su gem as
assime ias en e as eli es e as classes baixas, en e o p imei o e o segundo mundo, ou en e
o u is a e o mig an e: “In he pos -space-wa wo ld, mobili y has become he mos
powe ul and mos co e ed s a i ying ac o ” (Bauman 1998: 9; eja-se ambém idem: 89).
O u ismo em, po an o, uma dimensão ísica undamen al, es ando inculado a espaços
conc e os e sendo p o agonizado (ou co-p o agonizado) po co pos em mo imen o.
2
Es e
enómeno u iliza, aliás, um a amen o ex ensi o do co po e do p aze que inco po a
a iá eis de um al o g au de iolência – simbólica e ma e ial – a iculadas em o no às
di isões de géne o, classe e e nia. Não é alheio a is o o ac o de á ios es udiosos e em
aludido às dimensões neocoloniais da p á ica u ís ica (d’Hau ese e 2004; Hall / Tucke
2004). Com e ei o, como assinala G eenwood (1977: 129), o desen ol imen o u ís ico
ende a p oduzi desigualdades.
Es e es udo oi iniciado com uma e e ência à incomodidade do u ismo den o das
humanidades; es a e lexão de e, no en an o, se igualmen e conside ada pa a as ciências
sociais. De ac o, hou e e há, em ge al, uma simpa ia académica a a o da igu a do iajan e
e em de imen o do u is a (C ang 2004: 81), o que pode se associado com a p óp ia
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o igem nega i a do concei o de u is a, des inado às classes abalhado as do Reino Unido
que começa am a aze iagens de laze no século XIX (Smi h 2004: 25 e s.), e opos o à
igu a do iajan e, associado às classes al as. As di iculdades pa a analisa o u ismo a pa i
dos es udos li e á ios e da cul u a de em se igualmen e lidas à luz das e lexões de
Bou dieu sob e a au a a ibuída à li e a u a e a incomodidade em abo da assun os
económicos nos campos cul u ais, onde o habi us exige uma lógica egida pelo in e esse no
desin e esse (Bou dieu 1992: 201 e ss.).
Po ou o lado, com a sua aiz de na u eza consumis a, o u ismo elaciona-se com
p ocessos de dis inção social a a és do consumo e do gos o (Bou dieu 1979). Des e pon o
de is a, U y (2002) dis ingue en e o “collec i e ou is gaze” e o “ oman ic ou is gaze”, o
p imei o dos quais con empla ia p á icas u ís icas ealizadas de o ma cole i a, em
con í io, e que só azem sen ido des a o ma (po exemplo, es i idades como o ca na al ou
os pa ques emá icos); enquan o o segundo es a ia dominado pela p á ica indi idual e
p e ensamen e a as ada das massas: “ he oman ic gaze, which is much mo e ob iously
au a ic, conce ned wi h he mo e eli is – and soli a y – app ecia ion o magni icen
scene y, an app ecia ion which equi es conside able cul u al capi al especially i pa icula
physical objec s signi y speci ic li e a y ex s” (U y 2002: 78).
3
2. O u ismo e a iccionalização da ealidade
Exis em á ios deba es a i os e ele an es em o no do u ismo e que, simpli icando,
podem se sin e izados nas con o é sias sob e a sua exis ência e g au de independência,
po um lado, e nas ensões en e a au en icidade e a encenação, po ou o. Em elação ao
p imei o, a noção de u ismo con inua abe a e exis e uma g ande di e sidade de opiniões
sob e se pode, po exemplo, se de inido como uma indús ia ou inclusi e sob e a sua
p óp ia u ilidade/ iabilidade como concei o.
4
Nes e sen ido, depa amos com uma
con adição ambi alen e na p og essi a ins i ucionalização dos es udos u ís icos ace às
di iculdades pa a o na consensual uma de inição des e enómeno.
Po ou o lado, um elemen o-cha e do u ismo eside na ideia da au en icidade e a
sua ensão com a iccionalização ou encenação. Um dos aspe os mais discu idos nas
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abo dagens da sociologia ou da an opologia sob e o u ismo é a ideia de au en icidade
como um alo p ocu ado pelos isi an es e que se conc e iza ia na busca e maio
ap eciação dos elemen os conside ados genuínos da cul u a local (MacCannel 1999: 96 e
ss.).
5
Não obs an e, há semp e uma manipulação – seja em maio ou meno g au – nos
obje os e pe o mances u ís icas o e ecidas, que seja pela sua adap ação a um público
alheio e a lógicas de me cado, ou simplesmen e pelo ac o de se em elemen os e i ados do
seu con ex o o iginal. Tal esul a em e lexões conec adas com a ideia de hipe - ealidade
desen ol ida, en e ou os, po Baud illand (1981) ou Umbe o Eco (1986).
6
Des e pon o
de is a, o an opólogo Ma c Augé (1998 [1997]) e e e que a dimensão iccional em cada
ez mais peso no mundo a ual, sob e udo a a és dos p odu os u ís icos, e sublinha a
p og essi a indis inção en e ealidade e icção (idem: 58). In e endo a lógica p é ia, a
ealidade acaba po imi a a icção (idem: 57), o que esul a na “sus i ución de los luga es
de ida po un deco ado (o si se quie e: sus i ución de la ida eal po la ciudad i ual)”
(idem: 153).
Há uma ideia undamen al que esul a dis o: qualque elemen o (ma e ial ou
ima e ial) é susce í el de se o nado obje o de a ação u ís ica.
7
Pa a es e e ei o, p oduz-
se sob e ele a cons ução de uma na a i a adoçada com es ímulos que possam induzi à
cu iosidade das/dos isi an es. Is o é, há uma mediação, uma seleção de elemen os que são
des acados ou cons uídos (ou econs uídos), enquan o ou os são delibe adamen e
igno ados. O u ismo ap op ia-se, po an o, de ealidades, sejam es as pessoas, obje os ou
espaços.
Po ém, es es dois deba es sob e a essência do u ismo e sob e a ques ão da
(in)au en icidade de em se lidos à luz das no as e lexões desen ol idas sob a ideia do
pós- u ismo, que p e endem coloca em e idência as al e ações ope adas sob e es e
enómeno nas úl imas décadas. Segundo es a p opos a, os u is as a uais si uam-se num
espaço de jogo e p aze , onde a ideia de au en icidade pe de sen ido ou já não es á
p esen e. Simul aneamen e, não é p ecisa a iagem pa a a ua como u is a – é possí el
azê-lo a a és dos meios ecnológicos ou a ní el local – e unciona uma indis inção no
consumo en e al a cul u a e popula (U y 2002: 78).
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Es a lei u a le a-nos a uma p opos a o mulada pelo p óp io U y (idem: 161) que
consis e no im do u ismo. Pa indo de Guy Debo d e das suas ideias sob e a sociedade do
espe áculo (Debo d 1992 [1967]),
8
es e au o assinala como os luga es u ís icos es ão hoje
po odo o lado e simul aneamen e os luga es quo idianos são edesenhados “em modo
u is a”, median e a c iação de ambien es emá icos.
9
P oduz-se, po an o, uma queb a
en e espaços e discu sos que já não são exclusi amen e di igidos nem consumidos po
isi an es. Nes a pe spe i a, a e o-me a ap esen a uma p opos a que ai além da
enunciada po U y e que consis e na a i mação da inexis ência do u ismo, ou seja, na ideia
de que exis em p á icas u ís icas, mas o u ismo pe se é apenas um sin oma ou
ca a e ís ica da sociedade hipe -consumis a a ual e não p op iamen e uma a i idade social
independen e.
3. P á icas u ís icas e luxos cul u ais
Pela sua p óp ia na u eza, o u ismo e idencia os luxos cul u ais da
con empo aneidade, ca ac e izados po p ocessos de es e eo ipação, simpli icação e
me can ilização, e onde os signi icados mudam e são e o mulados de o ma cons an e: “To
p ac ice and o pe o m a e componen s o he low o con empo a y cul u e. Meanings
change and a e changed” (C ouch 2002: 91). A di e ença do que acon ecia em ases
an e io es, es u u adas em o no da p odução ma e ial, no capi alismo pós- o dis a são
especialmen e ele an es as p á icas económicas associadas à cul u a e à c ia i idade, en e
as quais o u ismo é um exemplo p i ilegiado. Fo am an e io men e e e idos os p ocessos
de simpli icação, mas de emos conside a simul aneamen e lei u as complexas, enómenos
de hib idação – segundo as p opos as do geóg a o Mike C ang (2002) ou do an opólogo
Nés o Ga cía Canclini (2001 [1989]) – que o iginam o mas cul u ais que ul apassam o
dualismo local e sus u ís ico.
10
Tan o in es igado as/es p oceden es da á ea da geog a ia cul u al, como dou os
campos do sabe , êm insis ido na necessidade de uma omada de consciência do p ocesso
de ans o mação em me cado ias dos luga es e cul u as na economia con empo ânea,
especialmen e nas a i idades ligadas ao u ismo (Debbage / Ioannides 2002: 101).
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A es e
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espei o, o an opólogo G eenwood (1977) denuncia explici amen e o a amen o da
cul u a como mais um ecu so u ís ico – em especial com a p omoção do “local colo ” – e
apon a pa a a posição de agilidade em que icam as comunidades, que eem al e ada a sua
cul u a e são, po an o, explo adas: “Unde hese ci cums ances, local cul u e is in e ec
being exp op ia ed, and local people a e being exploi ed” (1977: 131).
As consequências iden i á ias des e p ocesso são e iden es: p oduz-se a pe da de
e e en es que unciona am pa a a comunidade como o ma de o ganização social e i al e
que ago a são subme idos a um p ocesso de me can ilização e desna u alização. Ve i ica-se,
ainda, a já e e ida pe da da di ecionalidade habi ual dos discu sos u ís icos, que já não
são apenas consumidos pelos isi an es, mas ambém pela p óp ia comunidade an i iã,
le ando à econ igu ação da sua au o-pe ceção.
12
Nes a o ien ação, de e se igualmen e
conside ada a pa icipação a i a do u ismo nos p ocessos de homogeneização cul u al
de i ados da globalização. Como indica Ga cía Canclini: “En una cul u a indus ializada, que
necesi a expandi cons an emen e el consumo, es meno la posibilidad de ese a
epe o ios exclusi os pa a mino ías” (2001: 98).
4. Es uda o u ismo a pa i dos es udos da li e a u a e da cul u a: mo i os e
caminhos
A capacidade en acula e o ca á e omní o o das p á icas u ís icas p omo e am a
sua expansão a é p a icamen e qualque á ea, ema ou e i ó io, incluindo a li e a u a,
como demons a o apogeu ecen e do u ismo li e á io, nas suas di e sas conc e izações. As
in e seções que, hoje em dia, se p oduzem en e li e a u a e cul u a e o u ismo exigem
no as abo dagens analí icas e lei u as c í icas eno adas.
O u ismo ap esen a dimensões polí icas, económicas e cul u ais e es es aspe os são
a endidos de o ma pa cial po /em cada uma das con igu ações académicas dedicadas ao
seu es udo. No en an o, a ins i ucionalização dos es udos u ís icos es e e – e con inua a
es a – es ei amen e inculada à sua e en e económica, não dialogando su icien emen e
com os ou os aspe os da sua na u eza. O ac o de se a a de um enómeno em expansão,
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que es á a a e a a p odução e di usão cul u al, ob iga, na minha opinião, a abo da es a
p á ica do pon o de is a das humanidades.
Ha ald Hend ix (2014: 19) si ua em inais da década de 80 do século XX o
desen ol imen o do u ismo li e á io e a inícios dos 90 o su gimen o do in e esse
académico pelos c uzamen os en e li e a u a e u ismo. Apesa de es e au o assinala que
al sucede em á ios países, a e dade é que a in es igação académica sob e es e campo
es á ainda mui o cen ada no âmbi o anglo-saxónico. Mui os des es es udos – alguns
exemplos dos quais, p incipalmen e pa a o caso po uguês, podem se localizados em
Quin ei o e Balei o (2014) – es ão ocados em: p odu os associados ao u ismo li e á io
(museus, casas de au o as/es, o as, es i ais, e c.); no u ismo e nas iagens como ema ou
mo i o; ou, inclusi e, no a amen o dos espaços nas ob as li e á ias. É equen e nes e
olha a p ocu a – de o ma di e a ou indi e a – de no as c iações susce í eis de se em
u ilizadas pela indús ia u ís ica, como podemos cons a a a pa i das pala as de Ma ino
Alba (2017: 48):
(…) en nues o a ículo de endemos la idea de que el ges o u ís ico, con una p o unda y a aigada
o mación humanís ica, se á más imagina i o y c ea i o a la ho a de pone en ma cha no edosos
p oduc os u ís icos basados en los ecu sos que o ece la pe cepción de los au o es li e a ios en sus
eco idos iaje os.
Ou, omando as pala as de Hend ix, que p e ê uma e alo ização das humanidades em
se o es polí icos e económicos (2014: 21; i álicos meus):
This hen also indica es an opening owa ds he wo ld o en e p ise and poli ics, no only in he
p o essions adi ionally linked o he humani ies, as museum managemen is, bu also in o he
sec o s whe e e en mo e capi al and poli ical in e es is a s ake, like o ins ance egional
de elopmen , he i age managemen and he leisu e indus y. The opic o li e a u e and ou ism
he e o e o e s qui e some oppo uni ies o connec he wo ld o schola ly analysis wi h he cul u e
indus y a la ge, and he comme cial and poli ical in e es s unde lying i .
Face à g ande ên ase que mui os es udos u ís icos colocam na igu a do isi an e, a
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abo dagem que de endo p ocu a conhece as consequências des es p ocessos pa a as
comunidades locais, em di e en es e en es. Há ês elemen os in e ligados que con luem
pa a o in e esse de uma p opos a analí ica a iculada sob e as conexões en e cul u a e
u ismo. Em p imei o luga , a expansão do u ismo e a sua elação com as indús ias
cul u ais, em especial com a li e a u a;
13
segundo, a cons ução social e cul u al do espaço e
o seu p og essi o a amen o como obje o de consumo; e, inalmen e, o denominado
ma e ial u n ( i agem ma e ial) consis en e no acen ua da dimensão ísica das ob as de
a e, incluindo a li e a u a, que uncionam, segundo Hend ix (2014: 21), como mediado as
angí eis en e o mundo ísico e o uni e so da imaginação.
Um dos aspe os que pode se a ado nes e sen ido é, po exemplo, o papel dos
p odu os li e á ios e cul u ais na cons ução dos imaginá ios u ís icos. Dado que a
p odução do espaço u ís ico é um pon o undamen al pa a comp eende o u ismo a ual –
“we ha e long a gued ha comp ehending ou ism equi es imp o ed unde s anding o
how he ou ism p oduc ion sys em manipula es and shapes ou is places and
des ina ions” (Debbage / Ioannides 2002: 99 e s.) –, o na-se opo uno pensa de que modo
os e e en es cul u ais são u ilizados pela indús ia u ís ica, mas ambém como es es
uncionam socialmen e o a dos campos a ís icos. Assim, Hend ix (2014: 27) explica como
a li e a u a causa um en ol imen o emocional mui o maio nas audiências do que as ou as
a es, o que esul a em di e en es o mas de apego (embo a seja necessá io al ez
ques iona a é que pon o is o se man ém na a ualidade, à luz de ou as modalidades de
p odu os cul u ais – como a banda desenhada ou os ilmes – e em que medida is o es á
dependen e de p ocessos mediá icos de di usão e come cialização). No en an o, casos como
os pa ques de a en u as inspi ados na igu a de Ha y Po e e que uncionam sob e udo
com base nos ilmes des a saga, mos am-nos como, po ezes, o e e en e li e á io o iginal
ica diluído an e o pode de di usão e de ixação/ma e ialização de imaginá ios que
ap esen am modalidades cul u ais de na u eza isual e, pa icula men e, a indús ia do
cinema.
Ou o pon o de in e esse analí ico pode esidi nas lei u as a uais sob e a igu a do
lâneu ou sob e a ideia de al e idade que de i am das endências obse á eis na p á ica
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O p óp io Hend ix (2014: 19) cons a a a expansão des e sec o nalguns países, como em F ança, e indica
que: “This conside able expansion o he li e a y he i age ou is indus y has gene a ed a pa allel g ow h o
p o essional o ganisa ions and aining ins i u ions linked o his e y indus y”.
14
A ó mula o iginal “ ou is li e a u e” oi aduzida po Quin ei o e Balei o (2017: 21 e ss., especialmen e
idem: 24) como “li e a u a de u ismo”, que de inem como: “conjun o de ex os, que po de e minados e ei os
in encionais e semân icos (...), são pe meá eis a uma exegese in e disciplina nas á eas da li e a u a e do
u ismo” (idem: 21). Es as in es igado as o e ecem, aliás, com es a noção, uma al e na i a pa a a ensão aqui
esboçada en e “li e a u a de u ismo” e “li e a u a de iagens”.
15
Embo a es a a i mação possa pa ece con adi ó ia em elação à e lexão p é ia sob e o conse ado ismo, é
necessá io e em con a a di e sidade dos guias e ma e iais u ís icos exis en es, assim como os di e en es
empos de a uação, au o ia, público-al o e unções. Des e modo, exis em p opos as que ap o undam de o ma
mais di e a na li e a u a ou na cul u a, con emplando ambém a época p esen e, e que podem p opicia a
ixação e econhecimen o de au o as/es. No en an o, es a unção é habi ualmen e complemen a , sendo mais
que p o á el uma ce a consolidação p é ia dos nomes selecionados no campo li e á io de o igem.
16
E, ainda, umas páginas à en e, a i ma: “Le Guide bleu, lui, en es es é à une my hologie bou geoise
pa iellemen pé imée, celle qui pos ulai l’A ( eligieux) comme aleu ondamen ale de la cul u e, mais ne
considé ai ses ‘ ichesses’ e ses ‘ éso s’ que comme un emmagasinemen écon o an de ma chandises
(c éa ion des musées)” (Ba hes 1957: 116).
17
Es a endência é ambém obse á el nalguns es udos sob e o u ismo in e essados em en a iza os
bene ícios económicos e onde os cus os sociais ou ambien ais são igno ados. Tal ez es a a i mação possa se
eexaminada pa a casos como o da k ou ism, po ém, a sua p óp ia consolidação como modalidade u ís ica
e idencia a ela i ização e a as amen o dos ac os ágicos o iginá ios.

Desa ios e caminhos epis emológicos na abo dagem do u ismo a pa i dos es udos da li e a u a e da cul u a
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In eg a ambém o g upo Galab a (G upo de pesquisa no sis emas galego, luso, b asilei o e
a icanos de língua po uguesa) e o CIPPCE (Cen o de in es igación de p ocesos e p ác icas
cul u ais eme xen es), ambos pe encen es à Uni e sidade de San iago de Compos ela. Os
seus a uais in e esses de in es igação conec am a cul u a, o espaço, a globalização e o
u ismo.
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