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Desafios e caminhos epistemológicos na abordagem do turismo a partir dos estudos da literatura e da cultura

Martínez Tejero, Cristina

Abstract

A capacidade tentacular e o caráter omnívoro das práticas turísticas promoveram a sua expansão até praticamente qualquer área, tema ou território, incluindo entre eles a literatura, como demonstra o apogeu recente do turismo literário, nas suas diversas concretizações. As interseções que, atualmente, se produzem entre literatura e cultura e o turismo exigem novas abordagens analíticas e leituras críticas renovadas. Este estudo pretende precisamente reavaliar os motivos e as formas de estudar estes cruzamentos. Para tal, são fixados, em primeiro lugar, alguns traços significativos da prática turística na contemporaneidade, assim como os debates existentes no âmbito académico sobre a natureza deste fenómeno ou sobre a sua inter-relação com a cultura e com as identidades (locais, regionais e nacionais). Em segundo lugar, pretende-se discutir a necessidade de analisar o turismo a partir dos estudos da literatura e da cultura e propor algumas linhas de trabalho que podem ser relevantes nesta orientação, tais como a sua proximidade com a ideia de cânone, o papel dos produtos literários e culturais na construção de imaginários turísticos ou a sua (des)conexão com a literatura de viagens.

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N.º 38 – 6/ 2018 | 67-85 – ISSN 2183-2242 | h p:/dx.doi.o g/10.21747/21832242/li comp38a4 Desa ios e caminhos epis emológicos na abo dagem do u ismo a pa i dos es udos da li e a u a e da cul u a C is ina Ma ínez Teje o Uni e sidade de Lisboa - Cen o de Es udos Compa a is as Resumo: A capacidade en acula e o ca á e omní o o das p á icas u ís icas p omo e am a sua expansão a é p a icamen e qualque á ea, ema ou e i ó io, incluindo en e eles a li e a u a, como demons a o apogeu ecen e do u ismo li e á io, nas suas di e sas conc e izações. As in e seções que, a ualmen e, se p oduzem en e li e a u a e cul u a e o u ismo exigem no as abo dagens analí icas e lei u as c í icas eno adas. Es e es udo p e ende p ecisamen e ea alia os mo i os e as o mas de es uda es es c uzamen os. Pa a al, são ixados, em p imei o luga , alguns aços signi ica i os da p á ica u ís ica na con empo aneidade, assim como os deba es exis en es no âmbi o académico sob e a na u eza des e enómeno ou sob e a sua in e - elação com a cul u a e com as iden idades (locais, egionais e nacionais). Em segundo luga , p e ende-se discu i a necessidade de analisa o u ismo a pa i dos es udos da li e a u a e da cul u a e p opo algumas linhas de abalho que podem se ele an es nes a o ien ação, ais como a sua p oximidade com a ideia de cânone, o papel dos p odu os li e á ios e cul u ais na cons ução de imaginá ios u ís icos ou a sua (des)conexão com a li e a u a de iagens. Pala as-cha e: li e a u a, cul u a, u ismo, iden idade, espaço, globalização Abs ac : The en acula capaci y and omni o ous cha ac e o ou ism ha e p omo ed i s expansion o almos any a ea, heme o e i o y, including li e a u e, as he eme gence o li e a y ou ism (in i s a ious o ms) shows. The in e sec ions be ween li e a u e and cul u e wi h ou ism demand new analy ical app oaches and enewed c i ical eadings. The aim o his pape is o e-e alua e he easons and ways o s udy hese connec ions. To his end, some signi ican ea u es o cu en ou is p ac ice a e se ou , as well as he ongoing academic deba es abou he na u e o his phenomenon o abou i s in e ela ionship wi h 67 C is ina Ma ínez Teje o N.º 38 – 6/ 2018 | 67-85 – ISSN 2183-2242 | h p:/dx.doi.o g/10.21747/21832242/li comp38a4 cul u e and wi h iden i ies (in a local, egional o na ional le el). Secondly, I in end o explo e he easons o analyzing ou ism in li e a u e and cul u e s udies and o o e some lines o esea ch ha may be ele an in his o ien a ion, such as i s p oximi y o he idea o canon, he ole o li e a y and cul u al p oduc s in he cons uc ion o ou is imagina ies o i s (dis)connec ion wi h a el li e a u e. Keywo ds: li e a u e, cul u e, ou ism, iden i y, space, globaliza ion Es e abalho p e ende deb uça -se sob e um elemen o que podemos quali ica como incómodo no con ex o dos es udos da li e a u a e da cul u a: o u ismo. 1 Apesa des a a aliação global, há di e sas co en es no âmbi o académico que p ocu am ap o unda na elação (complexa) en e u ismo e li e a u a. Es es es udos são ealizados mui as ezes sob uma ó ica p ó-a i a, is o é, p e endem con ibui , de ce a o ma, pa a a implemen ação do u ismo li e á io, o que de e se lido segundo as coo denadas que p ocu am no as u ilidades pa a a li e a u a no meio da c ise das humanidades e ambém à luz das no as modalidades de u ismo cul u al. Não é es a a posição de endida nes e a igo que p e ende o e ece uma isão di e en e sob e os mo i os pa a es uda as elações en e li e a u a e u ismo. Pa a is o, en a ei, em p imei o luga , es abelece alguns aços signi ica i os do u ismo a pa i de uma lei u a cul u al, com pa icula a enção aos con ibu os da geog a ia cul u al, da sociologia ou da an opologia do u ismo. Em segundo luga , p e endo discu i a necessidade de es uda o u ismo a pa i da li e a u a – ou na sua in e seção com a li e a u a – e suge i algumas linhas de abalho que podem se ele an es nes a o ien ação. 1. (In)de inições do u ismo O u ismo é um dos enómenos mais ep esen a i os da a ualidade, inco po ando e e idenciando na sua na u eza o consumismo, a deslocação, a ugacidade ou a supe icialidade. Nes e sen ido, o na-se um exemplo da mode nidade líquida o mulada po Bauman (2000) e um dos enómenos que mais e idencia as lógicas da globalização. 68 Desa ios e caminhos epis emológicos na abo dagem do u ismo a pa i dos es udos da li e a u a e da cul u a N.º 38 – 6/ 2018 | 67-85 – ISSN 2183-2242 | h p:/dx.doi.o g/10.21747/21832242/li comp38a4 T a a-se de uma p á ica ex emamen e complexa, sob e a qual não exis e uma de inição cla a: “Tou ism is no a monoli h. I is an exceedingly la ge-scale and di e se indus y, ope a ing in a a ie y o ways unde di e ing ci cums ances” (G eenwood 1977: 129). Alguns dos aços que cos umam se conside ados pa a a sua ixação são: a deslocação, a queb a da o ina, a sua associação ao laze , ao p aze ou ao consumo, o seu ca á e empo almen e limi ado, e c. Cada um des es aspe os le an a múl iplas ques ões que é impossí el abo da com de alhe nes as páginas. Des aca ei, po isso, apenas alguns elemen os que lançam luz a es e espei o. Em p imei o luga , o sociólogo Zygmun Bauman (1998) apon a que i emos na e a da comp essão empo-espaço e que es amos odas e odos em mo imen o, mesmo de modo in olun á io: “Nowadays we a e all on he mo e” (1998: 77). Es a ên ase na mobilidade é ambém salien ada po G eenwood: “ ou ism is he la ges scale mo emen o goods, se ices, and people ha humani y has pe haps e e seen” (1977: 129). Po ém, nem odas as pessoas êm as mesmas acilidades e di ei os de mobilidade e aqui su gem as assime ias en e as eli es e as classes baixas, en e o p imei o e o segundo mundo, ou en e o u is a e o mig an e: “In he pos -space-wa wo ld, mobili y has become he mos powe ul and mos co e ed s a i ying ac o ” (Bauman 1998: 9; eja-se ambém idem: 89). O u ismo em, po an o, uma dimensão ísica undamen al, es ando inculado a espaços conc e os e sendo p o agonizado (ou co-p o agonizado) po co pos em mo imen o. 2 Es e enómeno u iliza, aliás, um a amen o ex ensi o do co po e do p aze que inco po a a iá eis de um al o g au de iolência – simbólica e ma e ial – a iculadas em o no às di isões de géne o, classe e e nia. Não é alheio a is o o ac o de á ios es udiosos e em aludido às dimensões neocoloniais da p á ica u ís ica (d’Hau ese e 2004; Hall / Tucke 2004). Com e ei o, como assinala G eenwood (1977: 129), o desen ol imen o u ís ico ende a p oduzi desigualdades. Es e es udo oi iniciado com uma e e ência à incomodidade do u ismo den o das humanidades; es a e lexão de e, no en an o, se igualmen e conside ada pa a as ciências sociais. De ac o, hou e e há, em ge al, uma simpa ia académica a a o da igu a do iajan e e em de imen o do u is a (C ang 2004: 81), o que pode se associado com a p óp ia 69 C is ina Ma ínez Teje o N.º 38 – 6/ 2018 | 67-85 – ISSN 2183-2242 | h p:/dx.doi.o g/10.21747/21832242/li comp38a4 o igem nega i a do concei o de u is a, des inado às classes abalhado as do Reino Unido que começa am a aze iagens de laze no século XIX (Smi h 2004: 25 e s.), e opos o à igu a do iajan e, associado às classes al as. As di iculdades pa a analisa o u ismo a pa i dos es udos li e á ios e da cul u a de em se igualmen e lidas à luz das e lexões de Bou dieu sob e a au a a ibuída à li e a u a e a incomodidade em abo da assun os económicos nos campos cul u ais, onde o habi us exige uma lógica egida pelo in e esse no desin e esse (Bou dieu 1992: 201 e ss.). Po ou o lado, com a sua aiz de na u eza consumis a, o u ismo elaciona-se com p ocessos de dis inção social a a és do consumo e do gos o (Bou dieu 1979). Des e pon o de is a, U y (2002) dis ingue en e o “collec i e ou is gaze” e o “ oman ic ou is gaze”, o p imei o dos quais con empla ia p á icas u ís icas ealizadas de o ma cole i a, em con í io, e que só azem sen ido des a o ma (po exemplo, es i idades como o ca na al ou os pa ques emá icos); enquan o o segundo es a ia dominado pela p á ica indi idual e p e ensamen e a as ada das massas: “ he oman ic gaze, which is much mo e ob iously au a ic, conce ned wi h he mo e eli is – and soli a y – app ecia ion o magni icen scene y, an app ecia ion which equi es conside able cul u al capi al especially i pa icula physical objec s signi y speci ic li e a y ex s” (U y 2002: 78). 3 2. O u ismo e a iccionalização da ealidade Exis em á ios deba es a i os e ele an es em o no do u ismo e que, simpli icando, podem se sin e izados nas con o é sias sob e a sua exis ência e g au de independência, po um lado, e nas ensões en e a au en icidade e a encenação, po ou o. Em elação ao p imei o, a noção de u ismo con inua abe a e exis e uma g ande di e sidade de opiniões sob e se pode, po exemplo, se de inido como uma indús ia ou inclusi e sob e a sua p óp ia u ilidade/ iabilidade como concei o. 4 Nes e sen ido, depa amos com uma con adição ambi alen e na p og essi a ins i ucionalização dos es udos u ís icos ace às di iculdades pa a o na consensual uma de inição des e enómeno. Po ou o lado, um elemen o-cha e do u ismo eside na ideia da au en icidade e a sua ensão com a iccionalização ou encenação. Um dos aspe os mais discu idos nas 70 Desa ios e caminhos epis emológicos na abo dagem do u ismo a pa i dos es udos da li e a u a e da cul u a N.º 38 – 6/ 2018 | 67-85 – ISSN 2183-2242 | h p:/dx.doi.o g/10.21747/21832242/li comp38a4 abo dagens da sociologia ou da an opologia sob e o u ismo é a ideia de au en icidade como um alo p ocu ado pelos isi an es e que se conc e iza ia na busca e maio ap eciação dos elemen os conside ados genuínos da cul u a local (MacCannel 1999: 96 e ss.). 5 Não obs an e, há semp e uma manipulação – seja em maio ou meno g au – nos obje os e pe o mances u ís icas o e ecidas, que seja pela sua adap ação a um público alheio e a lógicas de me cado, ou simplesmen e pelo ac o de se em elemen os e i ados do seu con ex o o iginal. Tal esul a em e lexões conec adas com a ideia de hipe - ealidade desen ol ida, en e ou os, po Baud illand (1981) ou Umbe o Eco (1986). 6 Des e pon o de is a, o an opólogo Ma c Augé (1998 [1997]) e e e que a dimensão iccional em cada ez mais peso no mundo a ual, sob e udo a a és dos p odu os u ís icos, e sublinha a p og essi a indis inção en e ealidade e icção (idem: 58). In e endo a lógica p é ia, a ealidade acaba po imi a a icção (idem: 57), o que esul a na “sus i ución de los luga es de ida po un deco ado (o si se quie e: sus i ución de la ida eal po la ciudad i ual)” (idem: 153). Há uma ideia undamen al que esul a dis o: qualque elemen o (ma e ial ou ima e ial) é susce í el de se o nado obje o de a ação u ís ica. 7 Pa a es e e ei o, p oduz- se sob e ele a cons ução de uma na a i a adoçada com es ímulos que possam induzi à cu iosidade das/dos isi an es. Is o é, há uma mediação, uma seleção de elemen os que são des acados ou cons uídos (ou econs uídos), enquan o ou os são delibe adamen e igno ados. O u ismo ap op ia-se, po an o, de ealidades, sejam es as pessoas, obje os ou espaços. Po ém, es es dois deba es sob e a essência do u ismo e sob e a ques ão da (in)au en icidade de em se lidos à luz das no as e lexões desen ol idas sob a ideia do pós- u ismo, que p e endem coloca em e idência as al e ações ope adas sob e es e enómeno nas úl imas décadas. Segundo es a p opos a, os u is as a uais si uam-se num espaço de jogo e p aze , onde a ideia de au en icidade pe de sen ido ou já não es á p esen e. Simul aneamen e, não é p ecisa a iagem pa a a ua como u is a – é possí el azê-lo a a és dos meios ecnológicos ou a ní el local – e unciona uma indis inção no consumo en e al a cul u a e popula (U y 2002: 78). 71 C is ina Ma ínez Teje o N.º 38 – 6/ 2018 | 67-85 – ISSN 2183-2242 | h p:/dx.doi.o g/10.21747/21832242/li comp38a4 Es a lei u a le a-nos a uma p opos a o mulada pelo p óp io U y (idem: 161) que consis e no im do u ismo. Pa indo de Guy Debo d e das suas ideias sob e a sociedade do espe áculo (Debo d 1992 [1967]), 8 es e au o assinala como os luga es u ís icos es ão hoje po odo o lado e simul aneamen e os luga es quo idianos são edesenhados “em modo u is a”, median e a c iação de ambien es emá icos. 9 P oduz-se, po an o, uma queb a en e espaços e discu sos que já não são exclusi amen e di igidos nem consumidos po isi an es. Nes a pe spe i a, a e o-me a ap esen a uma p opos a que ai além da enunciada po U y e que consis e na a i mação da inexis ência do u ismo, ou seja, na ideia de que exis em p á icas u ís icas, mas o u ismo pe se é apenas um sin oma ou ca a e ís ica da sociedade hipe -consumis a a ual e não p op iamen e uma a i idade social independen e. 3. P á icas u ís icas e luxos cul u ais Pela sua p óp ia na u eza, o u ismo e idencia os luxos cul u ais da con empo aneidade, ca ac e izados po p ocessos de es e eo ipação, simpli icação e me can ilização, e onde os signi icados mudam e são e o mulados de o ma cons an e: “To p ac ice and o pe o m a e componen s o he low o con empo a y cul u e. Meanings change and a e changed” (C ouch 2002: 91). A di e ença do que acon ecia em ases an e io es, es u u adas em o no da p odução ma e ial, no capi alismo pós- o dis a são especialmen e ele an es as p á icas económicas associadas à cul u a e à c ia i idade, en e as quais o u ismo é um exemplo p i ilegiado. Fo am an e io men e e e idos os p ocessos de simpli icação, mas de emos conside a simul aneamen e lei u as complexas, enómenos de hib idação – segundo as p opos as do geóg a o Mike C ang (2002) ou do an opólogo Nés o Ga cía Canclini (2001 [1989]) – que o iginam o mas cul u ais que ul apassam o dualismo local e sus u ís ico. 10 Tan o in es igado as/es p oceden es da á ea da geog a ia cul u al, como dou os campos do sabe , êm insis ido na necessidade de uma omada de consciência do p ocesso de ans o mação em me cado ias dos luga es e cul u as na economia con empo ânea, especialmen e nas a i idades ligadas ao u ismo (Debbage / Ioannides 2002: 101). 11 A es e 72 Desa ios e caminhos epis emológicos na abo dagem do u ismo a pa i dos es udos da li e a u a e da cul u a N.º 38 – 6/ 2018 | 67-85 – ISSN 2183-2242 | h p:/dx.doi.o g/10.21747/21832242/li comp38a4 espei o, o an opólogo G eenwood (1977) denuncia explici amen e o a amen o da cul u a como mais um ecu so u ís ico – em especial com a p omoção do “local colo ” – e apon a pa a a posição de agilidade em que icam as comunidades, que eem al e ada a sua cul u a e são, po an o, explo adas: “Unde hese ci cums ances, local cul u e is in e ec being exp op ia ed, and local people a e being exploi ed” (1977: 131). As consequências iden i á ias des e p ocesso são e iden es: p oduz-se a pe da de e e en es que unciona am pa a a comunidade como o ma de o ganização social e i al e que ago a são subme idos a um p ocesso de me can ilização e desna u alização. Ve i ica-se, ainda, a já e e ida pe da da di ecionalidade habi ual dos discu sos u ís icos, que já não são apenas consumidos pelos isi an es, mas ambém pela p óp ia comunidade an i iã, le ando à econ igu ação da sua au o-pe ceção. 12 Nes a o ien ação, de e se igualmen e conside ada a pa icipação a i a do u ismo nos p ocessos de homogeneização cul u al de i ados da globalização. Como indica Ga cía Canclini: “En una cul u a indus ializada, que necesi a expandi cons an emen e el consumo, es meno la posibilidad de ese a epe o ios exclusi os pa a mino ías” (2001: 98). 4. Es uda o u ismo a pa i dos es udos da li e a u a e da cul u a: mo i os e caminhos A capacidade en acula e o ca á e omní o o das p á icas u ís icas p omo e am a sua expansão a é p a icamen e qualque á ea, ema ou e i ó io, incluindo a li e a u a, como demons a o apogeu ecen e do u ismo li e á io, nas suas di e sas conc e izações. As in e seções que, hoje em dia, se p oduzem en e li e a u a e cul u a e o u ismo exigem no as abo dagens analí icas e lei u as c í icas eno adas. O u ismo ap esen a dimensões polí icas, económicas e cul u ais e es es aspe os são a endidos de o ma pa cial po /em cada uma das con igu ações académicas dedicadas ao seu es udo. No en an o, a ins i ucionalização dos es udos u ís icos es e e – e con inua a es a – es ei amen e inculada à sua e en e económica, não dialogando su icien emen e com os ou os aspe os da sua na u eza. O ac o de se a a de um enómeno em expansão, 73 C is ina Ma ínez Teje o N.º 38 – 6/ 2018 | 67-85 – ISSN 2183-2242 | h p:/dx.doi.o g/10.21747/21832242/li comp38a4 que es á a a e a a p odução e di usão cul u al, ob iga, na minha opinião, a abo da es a p á ica do pon o de is a das humanidades. Ha ald Hend ix (2014: 19) si ua em inais da década de 80 do século XX o desen ol imen o do u ismo li e á io e a inícios dos 90 o su gimen o do in e esse académico pelos c uzamen os en e li e a u a e u ismo. Apesa de es e au o assinala que al sucede em á ios países, a e dade é que a in es igação académica sob e es e campo es á ainda mui o cen ada no âmbi o anglo-saxónico. Mui os des es es udos – alguns exemplos dos quais, p incipalmen e pa a o caso po uguês, podem se localizados em Quin ei o e Balei o (2014) – es ão ocados em: p odu os associados ao u ismo li e á io (museus, casas de au o as/es, o as, es i ais, e c.); no u ismo e nas iagens como ema ou mo i o; ou, inclusi e, no a amen o dos espaços nas ob as li e á ias. É equen e nes e olha a p ocu a – de o ma di e a ou indi e a – de no as c iações susce í eis de se em u ilizadas pela indús ia u ís ica, como podemos cons a a a pa i das pala as de Ma ino Alba (2017: 48): (…) en nues o a ículo de endemos la idea de que el ges o u ís ico, con una p o unda y a aigada o mación humanís ica, se á más imagina i o y c ea i o a la ho a de pone en ma cha no edosos p oduc os u ís icos basados en los ecu sos que o ece la pe cepción de los au o es li e a ios en sus eco idos iaje os. Ou, omando as pala as de Hend ix, que p e ê uma e alo ização das humanidades em se o es polí icos e económicos (2014: 21; i álicos meus): This hen also indica es an opening owa ds he wo ld o en e p ise and poli ics, no only in he p o essions adi ionally linked o he humani ies, as museum managemen is, bu also in o he sec o s whe e e en mo e capi al and poli ical in e es is a s ake, like o ins ance egional de elopmen , he i age managemen and he leisu e indus y. The opic o li e a u e and ou ism he e o e o e s qui e some oppo uni ies o connec he wo ld o schola ly analysis wi h he cul u e indus y a la ge, and he comme cial and poli ical in e es s unde lying i . Face à g ande ên ase que mui os es udos u ís icos colocam na igu a do isi an e, a 74 Desa ios e caminhos epis emológicos na abo dagem do u ismo a pa i dos es udos da li e a u a e da cul u a N.º 38 – 6/ 2018 | 67-85 – ISSN 2183-2242 | h p:/dx.doi.o g/10.21747/21832242/li comp38a4 abo dagem que de endo p ocu a conhece as consequências des es p ocessos pa a as comunidades locais, em di e en es e en es. Há ês elemen os in e ligados que con luem pa a o in e esse de uma p opos a analí ica a iculada sob e as conexões en e cul u a e u ismo. Em p imei o luga , a expansão do u ismo e a sua elação com as indús ias cul u ais, em especial com a li e a u a; 13 segundo, a cons ução social e cul u al do espaço e o seu p og essi o a amen o como obje o de consumo; e, inalmen e, o denominado ma e ial u n ( i agem ma e ial) consis en e no acen ua da dimensão ísica das ob as de a e, incluindo a li e a u a, que uncionam, segundo Hend ix (2014: 21), como mediado as angí eis en e o mundo ísico e o uni e so da imaginação. Um dos aspe os que pode se a ado nes e sen ido é, po exemplo, o papel dos p odu os li e á ios e cul u ais na cons ução dos imaginá ios u ís icos. Dado que a p odução do espaço u ís ico é um pon o undamen al pa a comp eende o u ismo a ual – “we ha e long a gued ha comp ehending ou ism equi es imp o ed unde s anding o how he ou ism p oduc ion sys em manipula es and shapes ou is places and des ina ions” (Debbage / Ioannides 2002: 99 e s.) –, o na-se opo uno pensa de que modo os e e en es cul u ais são u ilizados pela indús ia u ís ica, mas ambém como es es uncionam socialmen e o a dos campos a ís icos. Assim, Hend ix (2014: 27) explica como a li e a u a causa um en ol imen o emocional mui o maio nas audiências do que as ou as a es, o que esul a em di e en es o mas de apego (embo a seja necessá io al ez ques iona a é que pon o is o se man ém na a ualidade, à luz de ou as modalidades de p odu os cul u ais – como a banda desenhada ou os ilmes – e em que medida is o es á dependen e de p ocessos mediá icos de di usão e come cialização). No en an o, casos como os pa ques de a en u as inspi ados na igu a de Ha y Po e e que uncionam sob e udo com base nos ilmes des a saga, mos am-nos como, po ezes, o e e en e li e á io o iginal ica diluído an e o pode de di usão e de ixação/ma e ialização de imaginá ios que ap esen am modalidades cul u ais de na u eza isual e, pa icula men e, a indús ia do cinema. Ou o pon o de in e esse analí ico pode esidi nas lei u as a uais sob e a igu a do lâneu ou sob e a ideia de al e idade que de i am das endências obse á eis na p á ica 75 C is ina Ma ínez Teje o N.º 38 – 6/ 2018 | 67-85 – ISSN 2183-2242 | h p:/dx.doi.o g/10.21747/21832242/li comp38a4 13 O p óp io Hend ix (2014: 19) cons a a a expansão des e sec o nalguns países, como em F ança, e indica que: “This conside able expansion o he li e a y he i age ou is indus y has gene a ed a pa allel g ow h o p o essional o ganisa ions and aining ins i u ions linked o his e y indus y”. 14 A ó mula o iginal “ ou is li e a u e” oi aduzida po Quin ei o e Balei o (2017: 21 e ss., especialmen e idem: 24) como “li e a u a de u ismo”, que de inem como: “conjun o de ex os, que po de e minados e ei os in encionais e semân icos (...), são pe meá eis a uma exegese in e disciplina nas á eas da li e a u a e do u ismo” (idem: 21). Es as in es igado as o e ecem, aliás, com es a noção, uma al e na i a pa a a ensão aqui esboçada en e “li e a u a de u ismo” e “li e a u a de iagens”. 15 Embo a es a a i mação possa pa ece con adi ó ia em elação à e lexão p é ia sob e o conse ado ismo, é necessá io e em con a a di e sidade dos guias e ma e iais u ís icos exis en es, assim como os di e en es empos de a uação, au o ia, público-al o e unções. Des e modo, exis em p opos as que ap o undam de o ma mais di e a na li e a u a ou na cul u a, con emplando ambém a época p esen e, e que podem p opicia a ixação e econhecimen o de au o as/es. No en an o, es a unção é habi ualmen e complemen a , sendo mais que p o á el uma ce a consolidação p é ia dos nomes selecionados no campo li e á io de o igem. 16 E, ainda, umas páginas à en e, a i ma: “Le Guide bleu, lui, en es es é à une my hologie bou geoise pa iellemen pé imée, celle qui pos ulai l’A ( eligieux) comme aleu ondamen ale de la cul u e, mais ne considé ai ses ‘ ichesses’ e ses ‘ éso s’ que comme un emmagasinemen écon o an de ma chandises (c éa ion des musées)” (Ba hes 1957: 116). 17 Es a endência é ambém obse á el nalguns es udos sob e o u ismo in e essados em en a iza os bene ícios económicos e onde os cus os sociais ou ambien ais são igno ados. Tal ez es a a i mação possa se eexaminada pa a casos como o da k ou ism, po ém, a sua p óp ia consolidação como modalidade u ís ica e idencia a ela i ização e a as amen o dos ac os ágicos o iginá ios. Desa ios e caminhos epis emológicos na abo dagem do u ismo a pa i dos es udos da li e a u a e da cul u a N.º 38 – 6/ 2018 | 67-85 – ISSN 2183-2242 | h p:/dx.doi.o g/10.21747/21832242/li comp38a4 Bibliog a ia Augé, Ma c (1998), El iaje imposible. El u ismo y sus imágenes [1997], ad. Albe o Luis Bixio, Ba celona, Gedisa. Ba hes, Roland (1957), My hologies, Pa is, Édi ions du Seuil. Baud illa d, Jean (1981), Simulac es e simula ion, Pa is, Galilée. Bauman, Zymun (1998), Globaliza ion. The Human Consequences. Camb idge, Poli y P ess. -- (2000), Liquid Mode ni y, Ox o d, Blackwell. Bou dieu, Pie e (1979), La Dis inc ion. C i ique sociale du jugemen , Pa is, Minui . -- (1992), Les ègles de l’a , Genèse e s uc u e du champ li é ai e, Pa is, Édi ions du Seuil. C ang, Mike (2004), “Cul u al Geog aphies o Tou ism”, in A Companion o Tou ism, Alan A. Lew / C. Michael Hall / Allan M. Williams (eds.), Ox o d, Blackwell, 74-84. 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C is ina Ma ínez Teje o é in es igado a de pós-dou o amen o no Cen o de Es udos Compa a is as (CEC) da Uni e sidade de Lisboa, onde az pa e do g upo LOCUS (Espaço, luga es e paisagens) e dos p oje os Li &Tou (Li e a u a e Tu ismo), CILM (Cidade e (in)segu ança na li e a u a e os média) e DIIA (Diálogos Ibé icos e Ibe o-ame icanos). In eg a ambém o g upo Galab a (G upo de pesquisa no sis emas galego, luso, b asilei o e a icanos de língua po uguesa) e o CIPPCE (Cen o de in es igación de p ocesos e p ác icas cul u ais eme xen es), ambos pe encen es à Uni e sidade de San iago de Compos ela. Os seus a uais in e esses de in es igação conec am a cul u a, o espaço, a globalização e o u ismo. 85