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“A língua é a própria carne do pensamento”. Entrevista a João Paulo Borges Coelho

Abstract

João Paulo Borges Coelho, nascido em 1955 no Porto, cresceu em Moçambique e tornou-se, na última década, um dos escritores mais produtivos e reconhecidos deste país. É também professor e investigador de História Contemporânea na Universidade Eduardo Mondlane. A seguinte entrevista a João Paulo Borges Coelho realizou-se em julho 2014, em Maputo. Os temas abordados são, entre outros, questões de identidade na época colonial e pós-independência, singularidades regionais da(s) cultura(s) moçambicana(s), a relação entre “modernidade europeia” e “tradição africana”, a articulação entre o espaço urbano e rural, a memória da luta de libertação da guerra civil, além de particularidades das diferentes obras do autor.

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“A língua é a própria carne do pensamento”. Entrevista a João Paulo Borges Coelho

Author: Wieser, Doris
Year: 2016
Source: https://repositorio.ulisboa.pt/bitstream/10451/29824/1/cea-2141.pdf
Cade nos de Es udos A icanos
32 | 2016
Despo o e Laze em Á ica
“A língua é a p óp ia ca ne do pensamen o”.
En e is a a João Paulo Bo ges Coelho
“Language is he e y lesh o hough ”. In e iew wi h João Paulo Bo ges Coelho
Do is Wiese
Elec onic e sion
URL: h p://cea. e ues.o g/2141
ISSN: 2182-7400
Publishe
Cen o de Es udos In e nacionais
Elec onic e e ence
Do is Wiese , « “A língua é a p óp ia ca ne do pensamen o”. En e is a a João Paulo Bo ges Coelho »,
Cade nos de Es udos A icanos [Online], 32 | 2016, Online since 01 Decembe 2016, connec ion on 19
July 2017. URL : h p://cea. e ues.o g/2141
O abalho Cade nos de Es udos A icanos es á licenciado com uma Licença C ea i e Commons -
A ibuição-NãoCome cial-Compa ilhaIgual 4.0 In e nacional.
Cade nos de Es udos A icanos (2016) 32, 145-172
© 2016 Cen o de Es udos In e nacionais do Ins i u o Uni e si á io de Lisboa (ISCTE-IUL)
“ ía é a óa a  a.
Ea a Jã Pa ” C
Do is Wiese
Cen o de Es udos Compa a is as
Faculdade de Le as
Uni e sidade de Lisboa
Alameda da Uni e sidade, 1600-214 Lisboa, Po ugal
Semina ü Romanische Philologie
Geo g-“ugus -Uni e si ä Gö ingen
Humbold allee , D- Gö ingen, “lemanha
Do is.W[email p o ec ed]
146 “A língua é a p óp ia ca ne do pensamen o”. En e is a a João Paulo Bo ges Coelho
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“ língua é a p óp ia ca ne do pensamen o. En e is a a João Paulo
”o ges Coelho
João Paulo Bo ges Coelho, nascido em 1955 no Po o, c esceu em Moçambique e o -
nou-se, na úl ima década, um dos esc i o es mais p odu i os e econhecidos des e país. É
ambém p o esso e in es igado de His ó ia Con empo ânea na Uni e sidade Edua do
Mondlane. A seguin e en e is a a João Paulo Bo ges Coelho ealizou-se em julho 2014,
em Mapu o. Os emas abo dados são, en e ou os, ques ões de iden idade na época co-
lonial e pós-independência, singula idades egionais da(s) cul u a(s) moçambicana(s), a
elação en e “mode nidade eu opeia” e “ adição a icana”, a a iculação en e o espaço
u bano e u al, a memó ia da lu a de libe ação da gue a ci il, além de pa icula idades
das di e en es ob as do au o .
Pala as-cha e: Moçambique, João Paulo Bo ges Coelho, iden idade nacional,
memó ia his ó ica, li e a u a moçambicana
Language is he e y lesh o hough . In e iew wi h João Paulo
”o ges Coelho
João Paulo Bo ges Coelho, bo n in 1955 in Po o, g ew up in Mozambique and became
wi hin he las decade one o he mos p oduc i e and ecognized w i e s o his coun y.
He is also a p o esso and esea che o Con empo a y His o y a he Edua do Mondlane
Uni e si y. The ollowing in e iew wi h João Paulo Bo ges Coelho was ca ied ou in
July 2014 in Mapu o. The opics a e, among o he s, issues o iden i y in colonial and
pos -independence e a, egional peculia i ies o Mozambican cul u e(s), he ela ionship
be ween “Eu opean mode ni y” and “A ican adi ion”, he link be ween u ban and
u al a eas, he memo y o he libe a ion s uggle and o he ci il wa , as well as pa icu-
la i ies o di e en li e a y wo ks o he au ho .
Keywo ds: Mozambique, João Paulo Bo ges Coelho, na ional iden i y, his o ical
memo y, Mozambican li e a u e
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João Paulo Bo ges Coelho, nascido no Po o em 1955, oi i e , em c iança,
com os pais pa a Moçambique, país que conside a seu a é hoje. C esceu na Bei a,
es udou dois anos em Lisboa (en e 1972 e 1974), sem nunca se adap a bem, e ol-
ou a Moçambique depois do 25 de Ab il. Mudou-se pa a Mapu o, onde se licen-
ciou em His ó ia, em 1986, pela Uni e sidade Edua do Mondlane. Dou o ou-se,
em 1993, em His ó ia Económica e Social pela Uni e sidade de B ad o d (Reino
Unido). É p o esso e in es igado de His ó ia Con empo ânea na Uni e sidade
Edua do Mondlane e dou o hono is causa pela Uni e sidade de A ei o (2012).
Tem ocado a sua in es igação nas gue as colonial e ci il em Moçambique, em
ques ões de segu ança egional no sul de Á ica, bem como na polí ica da me-
mó ia. Inaugu ou a sua ca ei a li e á ia com a publicação do omance As Duas
Somb as do Rio, em 2003. Em pouco mais de uma década ans o mou-se num
dos mais econhecidos esc i o es do seu país. A sua ob a, já ex ensa, con a com
se e omances e dois olumes de con os. Com As Visi as do D . Valdez, ecebeu o
P émio José C a ei inha em 2004 (a maio dis inção li e á ia de Moçambique) e,
com O Olho do He zog, o P émio Leya em 2009.
A seguin e en e is a ealizou-se em duas sessões: nos dias 10 (p imei a) e 15
(segunda) de julho de 2014, em Mapu o1. Os emas abo dados são, en e ou os,
ques ões de iden idade na época colonial e pós-independência, singula idades
egionais da(s) cul u a(s) moçambicana(s), a elação en e “mode nidade eu o-
peia” e “ adição a icana”, a a iculação en e o espaço u bano e u al, a memó-
ia da lu a de libe ação da gue a ci il, além de pa icula idades das di e en es
ob as do au o .
Nas suas ob as, al como acon ece com ou os ex os moçambicanos, apa ecem
pe sonagens de di e en es co es de pele: neg os, mula os, indianos e b ancos
ou seja, po ugueses. Isso, mui as ezes, de e mina a posição social ou as i-
ências especíicas das pe sonagens. Qual e a a imagem es e eo ípica dos po -
ugueses no empo da colónia e como é que isso mudou na época pós-colonial?
Em ge al, no empo colonial, os b ancos e am associados a uma posição de
p i ilégio, se bem que haja um es a o eu opeu pob e, sob e udo a pa i dos
anos 1960, quando começou a p essão nacionalis a e a gue a. Uma das espos as
do egime colonial oi p o oca uma mig ação maciça de colonos que, ao mesmo
empo, esol ia um p oblema de desemp ego em Po ugal e cump ia um ideá io
1 A minha iagem de in es igação – em que en e is ei ambém Edua do Whi e, Mia Cou o, Nelson Saú e,
Paulina Chiziane e Ungulani ”a Ka Khosa – oi inanciada pela Fundação F iz Thyssen. “s en e is as azem
pa e de um p oje o maio sob e as cons uções iden i á ias em Moçambique e em Po ugal an es e após o 25
de “b il, no âmbi o de uma es ada de pós-dou o amen o na Uni e sidade de Lisboa, inanciada pela Fundação
Alexande on Humbold (2014-2016).
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que es a a p óximo do ap o ei amen o do luso- opicalismo, de Gilbe o F ey e,
a ideia de mes iça 2. No undo, e a a ideia salaza is a de que, quan o mais cla a
osse a população, mais aízes Po ugal inha nas colónias. Em esul ado disso,
o am c iados alguns colona os e ie am mui os ag icul o es pob es, pés-descal-
ços, b ancos. Além disso, ha ia ambém na cidade pe i e ias apenas emediadas
ou a é mesmo pob es. Mas, no ge al, a ques ão da aça é associada a uma posição
na sociedade. Mesmo os pob es inham uma ce a posição de p i ilégio, na me-
dida em que o c i é io acis a e a o que impe a a na sociedade. Cla o que depois
da independência mui o se ans o mou. T ans o mou-se de uma manei a mui o
di e en e da Á ica do Sul, po exemplo, onde, depois de 1992, a população b an-
ca con inuou a se associada a uma si uação de g ande p i ilégio económico. Mas
aí, essa população, além de e uma ep esen ação demog áica o e, de inha
os meios de p odução da iqueza. Em Moçambique, o êxodo da independência
oi maciço. Há a p ese ação de uma ce a si uação de p i ilégio, mas hou e
sob e udo um desapa ecimen o dos b ancos, do pon o de is a es a ís ico. É uma
pequena mino ia: não em exp essão, socialmen e. Tem mais exp essão do pon o
de is a ideológico e cul u al.
Que papel inham os neg os e os mula os e que papel êm hoje? “ ualmen e,
ainda é possí el ala da assimilação das amílias?
Às ezes ainda se ala, e al a discu i mui o a esse espei o. A discussão não
oi mui o p o unda po que, no undo, há sen imen os o es em elação a isso.
Po um lado, há uma iden iicação di e a da assimilação3 com a colabo ação. A
meu e , isso nem semp e é legí imo. É uma solução ácil pa a esol e um p o-
blema. O p oblema é mui o mais complexo do que isso. Apesa de se mais e ó-
ica do que p á ica, a es a égia da assimilação colonial ajudou a c ia uma eli e
nacionalis a, ainda que de manei a mui o incipien e. “ diiculdade de discussão
2 A eo ia, de Gilbe o F ey e, do luso- opicalismo sus en a a-se na alegada capacidade pa icula de os
po ugueses se adap a em aos ópicos e de se mis u a em ha moniosamen e com ou as aças e cul u as. Po ém,
a dou ina dominan e do Es ado No o dos anos 1930 e 1940, que en ol ia um acismo eu ocên ico, pa e nalis a e
“ci iliza ó io”, alice çado na pos ulação de “ aças in e io es”, implica a a ejeição da miscigenação (Cas elo, 2011,
p. 84s.). O Es ado No o se iu-se, só a pa i de meados dos anos 1950, da imagem luso- opical de Po ugal como
uma comunidade mul i acial e plu icon inen al e e o çou a sua di usão na década de 1960, depois já do início
da gue a colonial e unicamen e “pa a consumo ex e no” (ibid., p. 97). As en e is as concedidas e os discu sos
p o e idos po Salaza nes a década e omam as ideias cen ais de Gilbe o F ey e, embo a não po con icção
mas, an es, po con eniência polí ica, isando apazigua as c í icas da ONU em elação a Po ugal (ibid., p. 98).
3 No século XX, Po ugal ( al como a F ança) es abeleceu uma legislação que isa a a assimilação dos colonizados
(“indígenas” e “mes iços”) à cul u a po uguesa. A Po a ia P o incial n.o 317, de 9 de janei o de 1917, edi ada
pelo Go e nado -ge al Ál a o de Cas o, in oduziu o es a u o do “assimilado aos eu opeus”. Pa a adqui i o
al a á de assimilado e a necessá io cump i uma sé ie de equisi os ígidos e di íceis de alcança . Exigia-se
que o eque en e “a) i esse abandonado in ei amen e os usos e cos umes daquela aça; b) que alasse, lesse e
esc e esse a língua po uguesa c ado asse a monogamia d exe cesse p oissão, a e ou o ício, compa í eis com
a ci ilização eu opéia ou que i esse ob ido po meio líci o endimen o que osse suicien e pa a alimen ação,
sus en o, habi ação e es uá io dele e de sua amília” (Zampa oni, 2006, p. 148s.).

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desse p oblema es á em que a F elimo ei indica o monopólio do nacionalismo.
Na minha manei a de e , pa a ela, é con o á el olha os assimilados como co-
labo acionis as coloniais. Mas o que é ac o é que em das camadas assimiladas
a p odução mais signiica i a do nacionalismo do pon o de is a cul u al. Ha ia
uma eli e u bana que es a a a se c iada e que em uma elação mui o es ei a
com o p ocesso da assimilação.
Os mes iços es ão mais ou menos na mesma posição que os assimilados ou a
sociedade c iou ainda ou a imagem pa a eles?
É uma ou a imagem. Se bem que em g ande medida haja uma sob eposição,
penso que são duas coisas di e en es, embo a g ande pa e dos assimilados seja
iden iicá el com os mes iços, desde o p incípio do século XX. Há casos amosos
como os das amílias Albasini e Fo nasini4. Mas são dois p ocessos di e en es,
po que ambém há amílias mes iças pob es que não es ão cobe as pela assimi-
lação.
Vá ios omances moçambicanos, nomeadamen e O Aleg e Can o da Pe diz, de
Paulina Chiziane, con am que, na época colonial, algumas mulhe es neg as
p ocu a am e ilhos mula os. “inda hoje exis e es e desejo ou hou e uma
in e são? É uma e gonha e um ilho mula o ou é posi i o? Que ipo de a-
cismo exis e?
No passado, Moçambique inha isso em comum com o B asil. A sob eposição
da aça com o es a u o social le a à ideia de que quan o mais cla a o a pessoa,
mais opo unidades em. A Paulina ansmi e essa ideia que exis e mui o na cul-
u a mes iça, que é p eciso cla ea pa a aze a ança a aça. Escu ece se ia aze
a asa a aça. É mui o in e essan e es a ideia pos a em e mos de elocidades.
Hoje em dia, no mains eam, isso não em nenhuma exp essão. Não enho mui a
p op iedade pa a ala sob e o assun o, mas não me pa ece que seja um c i é io
undamen al. O c i é io económico é mui o mais impo an e. Se bem que haja
aços em algumas amílias mes iças, que é uma espécie de iné cia que em do
passado.
4 T a a-se de duas amílias miscigenadas de ascendência i aliana que i e am á ios memb os de enome social.
Os Fo nasini chega am a Moçambique em 1830 e ins ala am-se em Inhambane. Ca los An ónio Fo nasini, um dos
mais impo an es colecionado es de bo ânica em Moçambique, ambém e e um papel impo an e na polí ica,
pa icipando numa e ol a con a o Go e nado do dis i o em 1850 e desempenhando o ca go de p esiden e
da Câma a da cidade de Inhambane de 1851 a 1856 (Massa i, 2005, pp. 32-44). O undado da amília Albasini
(An ónio) chegou a Moçambique em 1831 e desen ol eu a i idades come ciais e polí icas em Lou enço Ma ques
(hoje Mapu o). Des acam-se, sob e udo, o seu ne o jo nalis a, João Albasini (1876-1922), que undou O A icano
(1908-1918), p imei o jo nal local de Lou enço Ma ques (ibid., pp. 44-53). Os a igos de João Albasini (en e eles,
á ios sob e a Po a ia do Assimilado) o am eedi ados po Césa B aga-Pin o e Fá ima Mendonça (2012).
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Os po ugueses ecém-chegados po causa da c ise em Po ugal são bem- in-
dos em ge al ou há alguma hos ilidade?
Há uma espécie de isão i ónica. O pob e aspi a a se o ico, assim como de
alguma manei a o o u ado aspi a a se como o o u ado . Há uma espécie de
i onia e a Eu opa pob e. Susci a uma su da ga galhada. No ge al, não enho
uma ideia o mada ace ca disso. As pessoas pensam que, po um lado, eles êm
i a as nossas opo unidades e compe i connosco. Po ou o lado, p ecisamos
deles. Penso que as pessoas ainda não se decidi am em elação a is o. É um p o-
cesso que ai causa desequilíb ios, po que é maciço. Tudo o que hou e an es
oi uma me a b incadei a, compa ando com o que es á a acon ece ago a. Es á
a chega mui a gen e que ai ans o ma o almen e o pe il do luga . Não é só
da Eu opa, mas ambém da Ásia, especialmen e da China… Da Ásia, há uma
mig ação an iga, mais con ida, de chineses; mui o maio , e es abilizada, de india-
nos. Ago a, êm do Bangladesh, das Filipinas, o igens que p oduzem mig an es
maciçamen e. Bas a i ao ae opo o, e e que em cada oo que chega do Qa a ou
da E iópia ica semp e um mon e de pessoas p esas, sem is o.
Moçambique oi c iado na época colonial sem espei a as e nias e as unidades
cul u ais que exis iam. Hoje, é um espaço polí ico, mas é já ambém um espaço
cul u al com uma iden idade p óp ia, uma moçambicanidade, ou isso ainda
não exis e na men e das pessoas?
Es a ques ão esconde mui as a madilhas. De ac o, odas as on ei as de
Moçambique di idem ao meio g andes g upos cul u ais: os macondes no No e,
os yao mais no in e io , os chonas no Cen o, os songas em baixo… Todos es ão
di ididos. Mas, po ou o lado, não podemos cai na a madilha de conside a
essas unidades como unidades polí icas es á eis p é-exis en es. Há, po ezes,
a ideia de que ha ia uma es abilidade an e io . Não é e dade. A ins abilidade
es á lá desde semp e. Sob e udo, há um enómeno mui o impo an e na p imei-
a me ade do século XIX, que é o M ecane, a in asão zulu de Moçambique e das
Rodésias, que oi a é Cabo Delgado, a é à on ei a com a Tanzânia5. Is o ees u-
u a p o undamen e as cul u as e p o oca g ande ins abilidade. C ia a cul u a
changana, c ia a cul u a angoni, c ia os Ndebele na Rodésia… São enómenos
mui o ecen es e mui o ensos. Há ins abilidades que ainda es ão p esen es. A
5 O M ecane ( ambém conhecido como Di aqane) oi uma mig ação massi a de á ios po os nguni do sul da
Á ica nas décadas 1820 a 1940, de ida p o a elmen e à al a de e as, a secas p olongadas e à expansão dos
Zulu e dos Boe . Chaka, ei zulu, o mou um pode oso es ado mili a que a asou a egião a a és da gue a. Em
consequência, mui os Nguni ugi am pa a No e e Oes e, conquis a am aldeias e c ia am no as alianças e iden-
idades. Des a época da a, po exemplo, a o mação do eino do Leso o. Em 1824, os soldados nguni a aca am as
possessões po uguesas em Inhambane e, em 1836, as de So ala. O líde nguni Soshangane assen ou em Manica
e o mou em  o Impé io de Gaza  eja-se Newi , , p. -.
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ques ão das e nias ai e em, po que se adap a aos ou os p oblemas pa a os po-
encia ou ado mece . Mas, de ac o, as ans o mações são mui o g andes nes e
momen o. É um p ocesso.
Ainda es amos longe de e uma ideia es á el de uma nacionalidade. Há
g andes di isões. O colonialismo oi ei o no sen ido ho izon al e o país é e -
ical. Po an o, são camadas que cus a uni e que ago a o p ocesso polí ico es á
a ajuda a p onuncia ainda mais. Tan o do lado do go e no como do lado da
Renamo, não descansa am enquan o não c ia am es e espe o de di isão. Hoje,
i emos uma si uação pa icula men e pe igosa, com uma g ande concen ação
de ecu sos no No e e da eli e polí ica se do Sul. É uma si uação explosi a. Não
di ia que há uma pe spe i a coesa em elação à nação. Po um lado, poli ica-
men e, já passa am mui os anos desde a independência pa a da a en ende uma
mesma pe ença a um mesmo Es ado: há um bilhe e de iden idade uni e sal, há
passapo es, há on ei as econhecidas e es á eis e, po an o, há es e sen ido de
pe ença nacional. Mas, po ou o lado, ainda há g andes dis âncias a pe co e .
Um camponês ou um pescado quimuane do Ibo6 sen e-se mui o mais p óxi-
mo do izinho anzaniano do que de um emp esá io de Mapu o. Nesse sen ido,
as dis âncias ainda são mui o g andes. Ul imamen e, o p oje o nacional pe deu
mui a elocidade e dinâmica. Há sob e udo um iolen o p ocesso de c iação de
di e enciação social, de acen uação da iqueza de pequenas eli es p edado as,
sem dimensão his ó ica, sem dimensão do ambien e… São pequenos uba ões,
ilhos do neolibe alismo, e que ão p o oca um dano incalculá el a p azo. Po
ou o lado, há um g ande ap o undamen o da pob eza, do pon o de is a abso-
lu o, demog áico e es a ís ico. São dinâmicas que não a o ecem a c iação da
iden idade nacional, que implica uma pla a o ma comum.
Em As Duas Somb as do Rio, a ma gem no e do Zambeze é associada ao espí-
i o da cob a e a ma gem sul ao espí i o do leão. Exis e es a c ença em odo o
país ou só na Zambézia?
Esse li o mani es a uma pe plexidade minha ao e iica que, na ealidade,
es as di isões não e am c iações dos an opólogos. Lá e iiquei que em mui o
mais a e com a ealidade do que eu pensa a. Is o mos a a di isão p o unda
do que é o Zambeze, o io in ei o. Ao longo das ma gens há pequenas cul u as
mis as, mas o io dis ancia dois g andes complexos cul u ais. Não é só a cob a e
o leão. É o elemen o eminino associado à água e à cob a e o elemen o masculino,
ao ogo e ao leão. E ambém a idade e a expe iência associadas à cob a, à mulhe
6 Ilha p incipal do a quipélago das Qui imbas, no no e de Moçambique (Cabo Delgado), p óxima da on ei a
com a Tanzânia.
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e à água, e a ju en ude e a o ça aliadas ao leão, ao homem e ao ogo. Es es dois
uni e sos de e minam g andes di e enças no elacionamen o en e as duas ma -
gens.
Li que, pa a o omance As Duas Somb as do Rio, ez pesquisas no local, na
egião do Zumbo. Que ipo de pesquisa ez? Os esul ados es ão publicados?
O que iz o am en e is as que g a ei, mas não es ão publicadas. Falei, po
exemplo, com a cu andei a que apa ece no omance, a Joaquina M’boa. Desc e o
a ce imónia de uma consul a com ela7. Pe gun ou-me po que é que que ia uma
consul a, se es a a doen e. Eu espondi: “Não, não es ou”. Ela pe gun ou se que-
ia lança um m’i i, uma maldição sob e alguém. Eu ainda pensei no meu ei o ,
mas es a a mui o longe e du idei que chegasse a é cá… E disse que que ia ou i
a his ó ia do Kanyemba8. Ela con ou, en ão. Mas como é que ela conhecia es a
his ó ia? Ela e a mui o no a, inha al ez 30 anos, e não e a mui o bem is a na
comunidade. Diziam: “Ela não az bem a machamba, a ag icul u a, a machamba
dela é desmazelada, é eia, já e e mui os homens…”. Mas oi ela que o Kanyemba
escolheu pa a o ep esen a . Ela es a a a inaugu a um no o san uá io e ala a
com a oz g ossa do Kanyemba… Es a a possuída. Tinha duas elhas que lhe
da am um apé e uma água. Ela puxa a o apé, sal a a e depois começa a “Oh,
oh…” É o “leão” já. En ão começa a a con a a his ó ia. P imei o, con ou numa
língua. E eu com um g a ado … Ela disse, duas ho as depois: “Não pe cebes e
nada do que eu con ei. Vou con a nou a língua pa a u pe cebe es”. E, depois,
oi o ocado de ambo que aduziu udo. Eu inha a lis a dos adminis ado es
e ela seguia udo. Há e acidade his ó ica, ela não es a a a imp o isa . Ela dizia:
“Eu ui e com o adminis ado Pin o e disse: ‘Tu azes assim, assim e assim’. E
ele espondeu…”. Toda aquela sequência es a a ce a. O que me in iga é quem
man ém aquele conhecimen o. Não há mui a con adição en e o que ela con a
(que em um século de idade) e a documen ação his ó ica. Ela chama os admi-
nis ado es pelos nomes. Há ali uma memó ia que escapa ao c i o do pode , da
academia, mas que unciona. Ao san uá io, chega am pessoas de Me cedes da
Á ica do Sul pa a a consul a . Foi mui o in e essan e.
7 Re e e-se ao capí ulo 24 – no co il do leão – do omance As Duas Somb as do Rio.
8 Kanyemba José do Rosá io de “nd ade e a ilho de um che e ande e uma goesa. Rec u ou no inal da década
de 1860 caçado es de ele an es chicunda (esc a os dos p azos que desempenha am a e as policiais e mili a es)
no in e io de Te e e es abeleceu-se com eles em Bawa (ao sul do io Zambeze, em en e a Zumbo, na ma gem
no e). Tomou e a pela o ça e subs i uiu a caça de ele an es pela mais luc a i a caça de esc a os. Kanyemba
ans o mou-se num gue ei o pode oso e emido. Segundo a c ença dos achicunda, Kanyemba o nou-se
mhondo o, espí i o de leão, p o e o do po o (Isaacman, 2000, pp. 131-135; eja-se ambém Isaacman & Isaacman,
2005, pp. 141-151). Kanyemba ambém apa ece mencionado no omance Cho i o (2009), de Ungulani Ba Ka Khosa.
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mas pelas memó ias. Quando a gue a começou, a minha a ó saiu do Ibo e eio
i e pa a a Bei a. Assis i a g ande pa e do que con o ali. É cla o que aquilo
não é uma his ó ia de amília, é um omance. Tenho sensações mui o di ididas
sob e udo em elação à lei u a polí ica. Po um lado, pe cebo e iden iico-me com
a lei u a polí ica do pós-colonialismo, mas, po ou o lado, acho que não é mui o
ino ado a. Já nos anos 1960, ha ia sob e udo economis as com a eo ia do cen o
e da pe i e ia, e c. O g ande pe igo que eu ejo é a negação da capacidade de p o-
dução de His ó ia depois das au onomias. Ou seja, é condena as í imas ao es a-
u o e e no de í imas. É uma o ma de e e o No e na his ó ia do Sul pa a odo
o semp e. Não me su p eende que sejam eo ias que apa ecem po académicos
do Sul mas em uni e sidades do No e. Hou e uma eação ao pós-colonialismo
um pouco ia em Á ica, po exemplo, po que há uma edução do espí i o c í ico
em elação à his ó ia polí ica depois da independência. A ibuindo os p oblemas
ao No e ou ao Cen o, é incapaz de ha e conli o no Sul. Há al a de ins umen-
os pa a le , po exemplo, os di ado es depois das independências, po que os
di ado es são ao mesmo empo í imas. Nesse sen ido, enho g andes dis âncias
das lei u as pós-coloniais.
“ F elimo, du an e a lu a pela independência, dizia que lu a a ambém pela
libe ação da mulhe . “ independência melho ou os di ei os das mulhe es e a
sua condição social ou oi só uma independência pa a os homens?
Num sen ido gené ico, a independência oi mui o impo an e, po que esga-
ou a sociedade in ei a – homens e mulhe es – da si uação de semiobje os pa a
humanos. Isso é um passo undamen al. T ouxe uma melho ia pa a homens e
mulhe es, em ge al, mas não signiicou au oma icamen e uma g ande melho ia
ela i a pa a a mulhe no con ex o do géne o, a é po que a ideologia e olucio-
ná ia e a mui o cen ada no homem. Eu não conheço cul u a mais machis a do
que a cul u a changana. Há melho ias, mas são melho ias u o, em g ande medi-
da, da lu a das p óp ias mulhe es. A dis ância que inham de pe co e e a mui o
g ande. Dos dois lados, ha ia uma g ande disc iminação de géne o, an o na
cul u a changana ( o emen e pa ia cal e masculina), como na cul u a colonial,
po azões ideológicas, cul u ais e a é de economia polí ica.
Po ugal, como país pe i é ico, não inha a capacidade de ans o ma os cam-
poneses em ope á ios. Isso signiica a aze uma e olução indus ial no campo,
signiica a i a as pessoas da e a e da um salá io que pe mi isse sob e i e . O
que acon ece é que as o mas de in eg ação dos camponeses ão sendo pa ciais.

160 “A língua é a p óp ia ca ne do pensamen o”. En e is a a João Paulo Bo ges Coelho
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Os salá ios e am ão baixos, jun amen e com o abalho o çado15 e a mig ação,
que a e a nunca oi i ada às pessoas. Fica am as mulhe es a p oduzi a comida,
a alimen a os ilhos e a si p óp ias. Os homens saíam e podiam e salá ios mui o
mais baixos. A cul u a colonial e e mui o mais con ac o com os homens do que
com as mulhe es. Elas ica am a as adas dos espaços b ancos.
Não ha ia emp egadas domés icas, em ge al, a é aos anos 1950, a se i em
casas de b ancos. E am os homens que se iam, que cuida am das c ianças, que
la a am a oupa, que cozinha am… Não há uma adição de mulhe es cozinhei-
as. São os homens. Ainda hoje, de manhã, lia um jo nal colonial em que uma
mulhe b anca dizia que o enómeno de e mulhe es a se i em casa é no o e
que de ia ha e uma lei que as ob igasse a do mi em casa dos pa ões pa a não
i em a a dos ilhos em casa, e em con ac os e aze em doenças. Is o signii-
ca a ambém meno es opo unidades de con ac o das mulhe es po ia colonial.
A mulhe es a a dob ada sob e a e a, com a enxada, e os homens es a am na
cidade, com o mal do colonialismo mas ambém com as opo unidades que o
colonialismo da a. A mulhe pa e de uma posição duplamen e secundá ia, e o
caminho que em de aze é mui o maio .
A gue a ajudou mui o a emancipa a mulhe . Ti ando os homens de casa,
ob iga a-as a e esponsabilidades. Mas a ideologia é mui o o e. Lemb o-me
de es a a aze um inqué i o a amílias de desmobilizados de gue a, com o ho-
mem a dize : “A minha mulhe não abalha, az essas coisas de mulhe . Quem
abalha sou eu e ganho an o”. Depois, amos e e a mulhe az enda in o mal
e o dinhei o que ela az pa a casa é dez ezes mais do que o dele. Mas ele diz que
ela não abalha, po que não em um salá io do pa ão com um papel.
A F elimo c iou o ganizações emininas, mas e am cla amen e subal e nas.
Du an e mui o empo igo a a a ideia de que a mulhe ajuda o comba en e,
anspo a as a mas, cozinha e sa is á-lo sexualmen e. É um longo p ocesso que
ao mesmo empo implica um g ande ní el de cosmopoli ismo, po que é a abe u-
a às lu as das ou as mulhe es que pe mi e às moçambicanas começa a ganha
uma consciência da sua p óp ia o ça. A independência ajudou, no sen ido em
que humanizou a sociedade in ei a, mas não libe ou a mulhe .
15 Depois do escla agismo, o abalho o çado (chibalo) eio subs i ui o abalho do esc a o. Aco dos egionais
pe mi iam a depo ação dos abalhado es o çados pa a o T ans aal (Á ica do Sul), a Rodésia e ambém pa a a
en ão colónia po uguesa de São Tomé e P íncipe (Zampa oni, 1998, p. 87).
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Que desaio cons i ui esc e e em po uguês sob e pessoas que na ida quo i-
diana não ala iam necessa iamen e essa língua mas, an es, uma língua ban u?
O ela o não ica ia mais au ên ico se osse esc i o nessas línguas?
Acho que há alguns equí ocos em elação à língua e à esc i a. Pa a mim, a
esc i a é um negócio p i ado e não em o obje i o de aze o e a o da sociedade.
É uma o ma de exp essão. Há ou os caminhos pa a chega à e osimilhança: o
elo que liga o au o e o lei o . A a és da e osimilhança, cump e-se o con a o
da esc i a. O au o inge que o que diz é e dade e o lei o inge que ac edi a. Os
pe sonagens são me os ins umen os pa a aze essa cons ução. O p opósi o,
pelo menos da minha li e a u a, não é olha a ealidade e aze um e a o; o
p opósi o é exp imi -me. Se os lei o es me acompanha em, an mieux. Se não me
acompanham, an pis.
Eu não egis o as ozes dos pe sonagens. Eu uso a minha oz de uma ma-
nei a poli ónica a a és dos pe sonagens. Nesse sen ido, a língua é um assun o
p i ado, meu. O que eu aço é usa e explo a a minha língua. Con o-lhe um
caso cu ioso: quando publiquei o meu p imei o li o, As Duas Somb as do Rio,
moçambicanos neg os ie am ag adece -me po pô os neg os a ala com oz
de gen e e não com uma oz masca ada. Com mui a li e a u a que p ocu a aze
essa ap oximação, “deg adando” a língua, es as pessoas sen em-se o endidas,
como se os a icanos não pudessem ala co e amen e. Po an o, como se não
pudessem pensa co e amen e. São pessoas incomple as – e is o é o ensi o. No
undo, p e endo chega à oz in e io dos pe sonagens, à sua manei a de acioci-
na . Aí, a língua é uni e sal.
Nenhuma li e a u a em como obje i o se um e a o iel da ealidade. Há
aquela pin u a ealis a que pega numa ga a a de Coca-Cola e que azê-la exa-
amen e igual. Há pin o es que en am esse caminho… Mas é mui o a o a li e-
a u a p e ende se um e a o da ealidade. Quando se diz “Es a é a manei a
de ala dos a icanos”, não é. É uma cons ução. Aqui, as pessoas são mui o
sensí eis a isso e icam mui o zangadas. O que me mo e é explo a a minha
língua, que cons i ui a minha iden idade, e essa língua é a língua po uguesa.
Eu não ei indico aze uma li e a u a moçambicana, não sei o que é isso. Isso é
uma cons ução no malmen e polí ica. Eu ei indico apenas cons ui a minha
li e a u a. É um p oje o mais modes o, mas ambém mui o mais independen e.
Eu es ou mui o em desaco do com essa iden iicação da li e a u a com p oje-
os nacionais, com p oje os polí icos em ge al. “ li e a u a deine o seu p óp io
campo. “ li e a u a de icção é uma in enção da ealidade, e a sua g ande o ça é
mos a que há mui as manei as de ap eende a ealidade, não há uma manei a
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que se sob epõe a odas as ou as. A língua az pa e do p oje o, mas num sen ido
indi idual.
“p endeu a ala alguma língua ban u na sua in ância?
Não. Eu sou um ilho colonial. O que eu ap endi oi a ala bocados da língua.
Mui o pouco. Mas os bocados que as ci cuns âncias me pe mi i am. B incando
com ou os meninos, ou ia algumas pala as. Conheço mais pala as da língua
do Cen o do que de Mapu o.
Ban u é uma aiz e, depois, há mui as línguas que se en endem pa cialmen e
umas às ou as. As pala as, mui as ezes, são pa ecidas. Po exemplo, “água”,
em Mapu o, diz-se “ma i” e, na Bei a, diz-se “ma zi”. Não sei se é legí imo dize
que as di e enças são como as que exis em en e o espanhol e o po uguês. Há
di e enças, e é mui o a iscado dize que é a mesma língua. As pessoas que alam
essas línguas eagem mui o a isso. Quando se ala na cul u a e na unidade ban u,
no malmen e há uma segunda ideia po de ás, de ai mação de uma iden idade
com base na aça. Essa ques ão não me a a essa.
A ques ão da li e a u a nas línguas ban u é mui o complexa. Po um lado,
em a e com o edi ício da li e a u a – em que en am lei o es, po exemplo…
Pe mi o-me lemb a que publiquei o p imei o li o depois da independência em
onga, Zabela, de um amigo, Ben o Si oe16. E a um li o esc i o em onga, que em
os seus lei o es. Podemos pe gun a po que não há mais li e a u a em onga ou
em changana. Do pon o de is a do edi ício da li e a u a, em a e com as edi o-
as, a polí ica da língua, a ixação esc i a da língua e sob e udo com os esc i o es,
e isso é um assun o p i ado, deles, po que não esc e em em onga ou em chan-
gana. É uma opção pe ei amen e legí ima esc e e em po uguês, se conside am
que é a língua em que se exp essam. É mui o complexo.
A p o esso a Pe pé ua Gonçal es es uda as on ei as das línguas ban u e do
po uguês e os conli os de on ei a17. Quan o a mim, nunca me passou pela ca-
beça explo a esses caminhos, mesmo seque pala as. Quando eu uso pala as
de ou as línguas é po que êm signiicados que anscendem o p óp io uni e so
da língua. Po exemplo, chamua signiica amigo. Eu uso essa pala a como se
usa kanimambo, ou seja, “ob igado”18. É uma pala a que oda a gen e conhece.
Não es ou à p ocu a do cânone do po uguês, mas esc e o na língua com que me
sin o con o á el e que é mais e dadei o exp imi -me.
16 Zabela oi publicado em 1983.
17 Veja-se, p. ex., Gonçal es (1998).
18 As duas pala as es ão egis adas no dicioná io da Po o Edi o a. Chamua é uma pala a do sena (língua
alada no cen o do país) e kanimambo do onga (língua alada em Mapu o). Veja-se www.in opedia.p (consul ado
em 23 de e e ei o de 2015).
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Qual a si uação linguís ica em Mapu o? Há pessoas que não dominam o po -
uguês ou é uma língua alada em odos os ní eis sociais? Falando com as pes-
soas nas uas, pe cebo que há mui as que alam mui o bem, mas êm mui a
diiculdade em esc e e .
Acho que a si uação é mui o p eocupan e. O onga é a língua da cidade, o
changana é dos a edo es mas que en ou na cidade. São línguas mui o o es, a-
ladas em casa, en e as pessoas... Mas o po uguês impõe-se cada ez mais como
língua es a al, a língua pública, a língua que as pessoas que em ala a é pa a e
acesso aos emp egos, às posições impo an es da sociedade, e c. Mas o ensino é
mui o deicien e. En ão, as pessoas es ão a se esp emidas en e a necessidade e
o desejo de adqui i um ins umen o e a al a de polí ica em elação a esse ins-
umen o, a al a de omen o e de desen ol imen o desse ins umen o. Também
não há nenhuma polí ica em elação às línguas nacionais. Assim, coloca-se o p o-
g essi o desapa ecimen o das línguas nacionais, o que é mui o nega i o, po que
as línguas azem pa e da cul u a e da iden idade. Em oca, ambém não é dado
um ins umen o, po que nas escolas não se ap ende bem po uguês. Na uni e -
sidade, enho alunos inalis as de licencia u a que esc e em pessimamen e. Cada
ez é pio , po que a escola cada ez es á mais deg adada. É mui o p eocupan e,
po que a língua não é um casaco: a língua é a p óp ia ca ne do pensamen o.
Se á mui o di ícil domina em o po uguês, se não i e em uma o mação na
sua p óp ia língua ma e na.
Exa amen e. Mas, po ou o lado, há mui a gen e, uma no a ge ação na cida-
de, que só sabe ala po uguês. Em Angola, isso é mais ní ido. En ão, c ia-se es a
indeinição, um e eno cinzen o que az mui os p oblemas.
Há alguma en a i a polí ica de implemen a o ensino das línguas nacionais na
escola básica, pa alelamen e ao po uguês?
Há umas expe iências. Mas o p oblema do ensino ab ange udo. Essas en a-
i as depa am-se com as mesmas diiculdades do ensino do po uguês, da ma e-
má ica… O p oblema ge al dos ensinos básico e secundá io é deini uma es a-
égia e implemen á-la. Embo a a e ó ica diga o con á io, eu acho que o ensino
não é uma p io idade pa a os polí icos. A educação e a saúde não são p io i á ias.
A p io idade es á na economia, no en iquecimen o, e c. Po ou o lado, há o p o-
blema: que língua ensina ? Na uni e sidade, pôs-se esse p oblema. Ab iu-se um
cu so de changana e imedia amen e se colocou: po quê o changana? Po se a
língua do pode ? O macua-lomué em uma exp essão demog áica mui o maio ,
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é alado po quase me ade da população. O sena ambém é uma língua mui o
g ande. Isso implica uma es a égia que ap oxime as escolas das comunidades e
das egiões. Aqui há um g ande hia o. Há a pe spe i a cen al e a pe spe i a lo-
cal. É mui o di ícil algo in e médio. A lógica de desen ol e as línguas ma e nas
na escola se ia ap oxima a escola da comunidade, e isso ainda é mui o di ícil de
aze . Mas eu não sou especialis a. É apenas uma obse ação enquan o cidadão.
Falemos de ou o ema. Como i eu a sua amília o empo da gue a ci il e po -
que decidiu ica em Moçambique? Mui os b ancos decidi am i -se embo a.
A maio ia dos b ancos saiu an es. Com a independência, hou e um êxodo
massi o. Foi uma mis u a de ugi em e se em empu ados. Po acaso, eu a é es-
a a o a quando se deu o 25 de Ab il. Es a a a es uda em Lisboa. Os a iões iam
cheios e eu inha num a ião quase azio. Não oi seque po um g ande mo i o
polí ico, po adesão à e olução, mas e a a sensação de ol a pa a casa. Baseei-
me numa deinição di e en e de casa. Vi i dois anos em Lisboa, de  a ,
e nunca me adap ei mui o àquele luga , e que ia mesmo eg essa . Tudo i ou.
Os meus pais o am pa a Po ugal. Alguns i mãos o am pa a os Es ados Unidos,
ou os pa a o Leso o… Dos seis i mãos, eu ui o único que iquei aqui. Mas não
iquei na ”ei a, po que e a mui o es anho, pa a mim, e aquela mudança na
Bei a. Vim pa a Mapu o, po que e a um luga desconhecido pa a mim. Depois,
i e uma companhei a, i e ilhos e i i aqui sem o es o da amília, embo a odos
os anos osse isi a a minha mãe. Ela e a mui o o e e con oca a-me pa a p es-
a con as odos os anos. Ti e uma elação cons an e com o ex e io . Pa a mim,
e a uma coisa na u al, escolhe um sí io pa a ica . Não oi um g ande p oje o,
mas ha ia uma g ande iden iicação com o o imismo, com a ideia de cons ui
uma ealidade no a, mui o mais jus a e ala gada. Isso inha uma g ande o ça.
Em ge al, quando há um conli o a mado, depois há um silêncio po causa do
auma. Isso ambém se pode obse a em Moçambique, as pessoas não ão
con a a qualque um o que i e am na gue a ci il…
Há duas gue as ci is di e en es. De  a , e a uma gue a mui o coni-
nada ao co edo da Bei a, ei a sob e udo pela Rodésia. Só a pa i de 1980, 1981,
é que começou a ganha ou a na u eza com o en ol imen o da Á ica do Sul.
Só em 1982, 1983, é que se gene alizou a odo o País. Aí ganhou o mas mui o
iolen as. Mais iolen as a é do que o conli o colonial. “ gue a ci il oi mais
ala gada e mais iolen a. A cidade oi mui o p ese ada. O campo e a a p óp ia
deinição do in e no, no sen ido de Dan e, onde udo podia acon ece  pais que

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ma a am ilhos, e a a ba bá ie à sol a… Na cidade e a di e en e. E a uma si ua-
ção de escassez, de g ande aus e idade. Chegámos a ou i os i os da gue a
quando o en o os azia. Es á amos ce cados e ínhamos uma ida expec an e.
Du an e mui o empo, a es a égia go e namen al oi ai ma que as gue as são
odas assim. O ou o lado não em os o, é o diabo. No empo colonial, os gue i-
lhei os nacionalis as e am classiicados como e o is as, que comiam c ianças…
Na gue a ci il, os da Renamo e am os bandidos a mados, não inham nome nem
ca a. É semp e uma manei a de demoniza o ou o. Chegou uma al u a em que
as pessoas se cansa am dessa e ó ica que jus iica a a gue a. “ posição come-
çou a se cada ez mais a seguin e: “Nenhum de ocês em azão, po que ocês
é que p oduzem es a ealidade”. Isso e e mui a o ça, e ambém a mudança de
con ex o in e nacional, com o im da Gue a F ia, a queb a do apa heid... Tudo
isso e e uma o ça mui o g ande pa a acaba com o conli o aqui. Mas hou e
uma ene gia in e na que as pessoas consegui am i a das cinzas. Foi um conli o
que p oduziu cen enas de milha es de mo os, um milhão e meio de e ugiados
o a do País e quase cinco milhões de deslocados in e nos. Não hou e nenhuma
amília que não i esse sido a e ada. Foi uma heca ombe.
Em Campo de T ânsi o, há o chamado Campo “n igo que exis e pa a a ex-
piação do c ime da memó ia…
Tal ez seja esquemá ico. Tal ez hoje já esc e esse de ou a manei a. É o jogo
da o ça do Es ado, en e essas ideias de adição e de mode nidade. O Es ado
adqui iu con o nos mui o pe e sos. Es e Es ado i eu à somb a da mimese em
elação ao Es ado colonial. O Es ado colonial a e o iza a, mas, ao mesmo em-
po, c ia a o desejo pe e so de aze como ele, po que e a eicaz. Em cima disso
i emos a S asi alemã, que oi uma g ande conselhei a do Es ado daqui19. Tudo
is o oi o mando uma cul u a sis emá ica do pode de Es ado que eu p ocu a a
discu i em Campo de T ânsi o. Po exemplo, como a condição de e mina a o c i-
me. É um bocado kakiano… “ acusação em si é já a p o a de um c ime. Não é
p eciso quase aze nada. Não é p eciso p o a : o ónus do c ime es á no ac o de
ha e uma acusação.
Qual é o isco do esquecimen o?
Não há uma memó ia. Há á ias memó ias, e são semp e conli uosas. Tenho
abalhado a ques ão da memó ia e cada ez me pa ece mais mis e iosa. Ela o -
ma a nossa iden idade em g ande medida, mas não há uma memó ia no singula .
19 Sob e as di e sas colabo ações en e a RDA e Moçambique, eja-se Voss (2005).
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P oissionalmen e, li g ande pa e dos au o es que a am da memó ia e ejo que
emos uma memó ia indi idual conli uosa e que há ambém memó ias amilia-
es, comuni á ias, egionais… E há as memó ias públicas, uma memó ia polí ica
que o Es ado en a cons ui e impo aos cidadãos a a és da escola... Vão mu-
dando as pala as e os concei os mas é o que o g ande ilóso o ma xis a Louis
“l husse chama a apa elhos ideológicos de Es ado, que que em ai ma a
memó ia20. Depois, há a memó ia his ó ica, que es á pa a além dessas odas, mas
que é mais esidual e só su ge depois. A ambição do pode polí ico é ans o ma
a sua memó ia polí ica em memó ia his ó ica, é deixa um egis o dos acon eci-
men os segundo a sua on ade.
O que acon ece hoje é mui o complexo. A minha eo ia é que nós es amos
a acaba um g ande ciclo nacionalis a e es amos a en a nou o ciclo que, po
deinição, de ia se democ á ico mas ainda não sabemos o que se á. No ciclo
nacionalis a, o pode e a legi imado his o icamen e. O ac o de comba e con a o
colonialismo legi ima a po si só o pode . A F elimo chegou ao pode sem su á-
gio popula . Hoje em dia, po deinição cons i ucional, já não é assim chega-se ao
pode a a és de eleições. Há uma esis ência do nacionalismo a acei a es a no a
o dem. Uma das g andes a mas que a F elimo usa é a memó ia da libe ação,
es u u ada e con ada po ela. Mas há aqui um a i ício, po que esse p ocesso de
libe ação oi ei o pela F elimo enquan o en e de libe ação nacional e, hoje, a
F elimo é um pa ido, não é uma en e. Ela p óp ia abdicou desse papel de en-
e pa a se assumi como pa ido, como pa e da sociedade. T ans o mou-se em
pa ido em 1977, mas e a um pa ido único. Em 1992, oi ob igada a acei a , pelos
aco dos de paz, uma cons i uição mul ipa idá ia. Ago a, já não é mui o legí imo
ela ei indica a lu a de libe ação como um capi al seu. Mas há pio : a lu a de li-
be ação, al como a F elimo explica a, e a uma e olução, ou seja, a lu a oi ei a
não só pa a libe a o país do colonialismo, mas ambém pa a aze a e olução e
pa a impedi que o pode colonial osse subs i uído po no as eli es. Hoje, sendo
um pa ido neolibe al, ela em que i a essa pa e da e olução do con eúdo da
libe ação. En ão, ei indica a lu a a mada de libe ação, mas não ei indica a
e olução. A sepa ação des as duas coisas só pode se ei a echando a e são da
lu a de libe ação. Quando o az, ela echa ambém os a qui os da lu a de libe a-
ção. Esses a qui os es ão odos echados pa a não pô essas con adições cá o a.
Aqui há mui os casos in e essan es de lu a de memó ias, mas é uma lu a
mui o desigual. Eu enho bons exemplos disso, como as en e is as a an igos
gue ilhei os da F elimo. Logo depois da independência, eles inham uma e são
20 Re e e-se ao ensaio de Al husse “Idéologie e appa eils idéologiques d’É a ”, publicado na e is a La Pensée,
em 1970.
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Do is Wiese
Cade nos de Es udos A icanos • julho-dezemb o de 2016 • 32, 145-172
mui o di e en e da oicial. Hoje, se o en e is á-los, já êm uma e são igual. É
como se nós dei ássemos o a as nossas memó ias, memó ias que podem se in-
cómodas, pa a ap ende a pensa como os ou os. É o adeo pa a en a pa a o
clube. No undo, é o p ocesso que cons ói os ascismos, po que os ascismos são
egimes popula es. Hi le , Mussolini não são egimes de pequenas eli es, mas de
massas. Eles en am conquis a a memó ia das massas, po que isso é que as iden-
iica com os egimes. Mis iicam a iden idade e o pe cu so… E o medo ambém
é uma a ma pode osíssima.
Aliás, oi o medo que a Renamo usou pa a aumen a a sua o ça. En e is ámos
mui a gen e, í imas de gue a e memb os da Renamo, e lemb o-me, po exem-
plo, de um jo em que dizia “s coisas que eu iz impedem-me de ol a à minha
e a ou de ol a pa a jun o de ou os homens. Eu iquei bicho deini i amen e,
já não sou uma pessoa”. É quando a Renamo chega à aldeia e ob iga, po exem-
plo, a ma a os pais. “s pessoas ma am os pais pa a sob e i e e icam pe plexas
com essa on ade de sob e i e , que é ão g ande que le a a ma a os pais ou
os ilhos. Depois, saem com a Renamo. É uma ga an ia que a Renamo inha que
es as pessoas não ol a iam, po que ma a os pais é co a o laço com a aldeia.
Eu i e alunas que ize am um abalho de ein eg ação. Há casos em que
as aldeias acei a am de ol a mulhe es que inham sido ap adas pela Renamo.
En ão, as aldeias in en a am adições, chamadas kuphahla, segundo as quais,
quando se la a, la a-se ambém os pecados, a his ó ia e a memó ia21. Depois de
uma ce imónia des as, se alguém acusa es as mulhe es, dá mais e gonha ao
acusado do que à acusada. São mecanismos in en ados de adições que não
exis iam, mas que mos am a o ça da comunidade pa a in en a . Pa a mim, é
a p o a mais conc e a que a adição não é uma coisa do passado, é uma coisa
in en i a pa a esol e p oblemas. A ques ão não é segui uma eg a que oi
es abelecida pelos an epassados, mas a anja um mecanismo pa a esponde ao
p esen e. A memó ia em aqui um papel impo an e, a é saindo de cena. Como
diz Ricoeu , a memó ia só az sen ido em con on o com o esquecimen o22. A
memó ia não é uma coisa obje i a, é um jogo em que amos busca umas coisas,
esquece ou as e es u u a o que amos busca segundo uma con eniência.
21 Veja-se a ese de licencia u a de Elisa Muianga, o ien ada po João Paulo Bo ges Coelho: “[O kuphahla] É uma
ce imónia ‘ adicional’ que consis e na e ocação dos espí i os dos an epassados, no malmen e pa a pedi a
bênção pa a a ealização de algo, ou pa a ag adece alguma su p esa boa e anuncia algo, como po exemplo um
pedido de mais so e” (Muianga, 1996, p. 44). Sob e ou os i uais que cump em a unção de ein eg a e e anos
de gue a, eja-se G anjo (2011).
22 Re e e-se ao ensaio La mémoi e, l’his oi e, l’oubli (Pa is: Seuil, 2000).
168 “A língua é a p óp ia ca ne do pensamen o”. En e is a a João Paulo Bo ges Coelho
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“lém des as no as adições, há mo imen os cul u ais que exigem a memó-
ia das í imas independen emen e do que diz a F elimo? Es ou a pensa nas
Mães da P aça de Maio, na “ gen ina. Esse ipo de mo imen os exis e em
Moçambique?
Exis em alguns casos in e essan es, como os madge manes, abalhado es na
Alemanha Democ á ica, e que se conside am injus içados pelo Es ado, a gumen-
ando que os alemães paga am mas o Es ado e e e o dinhei o e não lhes pagou23.
Fazem pe iodicamen e mani es ações e c ia am uma iden idade de madge manes
pa a aze essa denúncia e pa a p ese a a sua memó ia desse passado. “o im
de in e, in a anos, es ão con encidos de que não ão consegui , mas c ia-se
quase uma iden idade, como as Mães da P aça de Maio. Aqui é mui o di ícil,
po que a es a égia p e alecen e é a do esquecimen o. A F elimo não que que as
pessoas lemb em a lu a de libe ação, que que as pessoas lemb em a sua e são
da lu a de libe ação. É uma es a égia de pode , não é uma lemb ança do pas-
sado. Esse é o sen ido p o undo da gue a ci il, po que é uma gue a ace ca do
passado. A ideia de sociedade e de economia da F elimo e da Renamo não é subs-
ancialmen e di e en e. O que di ide é a memó ia das coisas. Ainda hoje A onso
Dhlakama [o líde da Renamo] acusa es e go e no [da F elimo] de se comunis a,
apesa de se libe al. É mui o in e essan e o Dhlakama usa essa e minologia.
Ambos p ecisam des a dis inção, po que o passado é a única coisa que os dis in-
gue. Se esquecem o passado, ão ica iguais. Po ou o lado, a F elimo que es a
memó ia sele i a, que sob e udo o esquecimen o. C ia-se, en ão, uma si uação
ao mesmo empo mui o complexa e mui o in e essan e.
É e dade o que diz o P esiden e “ mando Guebuza, que o líde da Renamo,
“ onso Dhlakama, não apa ece pa a dialoga em pessoa?
Viu como oi p eso o po a- oz de Dhlakama, An ónio Muchanga?24 Dhlakama
não é pa o, sabe que, se apa ece , ai se p eso ou mo o. Se eu osse Dhlakama,
ambém não apa ecia. Se ele apa ece e é mo o, a comunidade in e nacional ai
pedi explicações, mas, ês meses depois, já esqueceu. Mas os moçambicanos sa-
bem que são os dois culpados des a si uação. Nenhum deles que a o dem demo-
c á ica de ac o. É uma si uação ins á el que se ai esol e de ou a manei a25.
23 Na página web dos madge manes, moçambicanos que abalha am na RDA nos anos 1980, podem-se e
ideoclips das mani es ações e e idas po João Paulo ”o ges Coelho h p//madge manes.com.
24 An ónio Muchango oi p eso a 7 de julho de 2014 e libe ado duas semanas depois.
25 O no o p esiden e, Filipe Nyusi, alou pessoalmen e com A onso Dhlakama. Não obs an e, a ensão en e os
dois pa idos ag a ou-se, is o que a Renamo começou, no início de 2015, a ei indica a c iação de uma egião
au ónoma no cen o e no e de Moçambique.