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“A língua é a própria carne do pensamento”. Entrevista a João Paulo Borges Coelho

Wieser, Doris

Abstract

João Paulo Borges Coelho, nascido em 1955 no Porto, cresceu em Moçambique e tornou-se, na última década, um dos escritores mais produtivos e reconhecidos deste país. É também professor e investigador de História Contemporânea na Universidade Eduardo Mondlane. A seguinte entrevista a João Paulo Borges Coelho realizou-se em julho 2014, em Maputo. Os temas abordados são, entre outros, questões de identidade na época colonial e pós-independência, singularidades regionais da(s) cultura(s) moçambicana(s), a relação entre “modernidade europeia” e “tradição africana”, a articulação entre o espaço urbano e rural, a memória da luta de libertação da guerra civil, além de particularidades das diferentes obras do autor.

Full text

Cade nos de Es udos A icanos 32 | 2016 Despo o e Laze em Á ica “A língua é a p óp ia ca ne do pensamen o”. En e is a a João Paulo Bo ges Coelho “Language is he e y lesh o hough ”. In e iew wi h João Paulo Bo ges Coelho Do is Wiese Elec onic e sion URL: h p://cea. e ues.o g/2141 ISSN: 2182-7400 Publishe Cen o de Es udos In e nacionais Elec onic e e ence Do is Wiese , « “A língua é a p óp ia ca ne do pensamen o”. En e is a a João Paulo Bo ges Coelho », Cade nos de Es udos A icanos [Online], 32 | 2016, Online since 01 Decembe 2016, connec ion on 19 July 2017. URL : h p://cea. e ues.o g/2141 O abalho Cade nos de Es udos A icanos es á licenciado com uma Licença C ea i e Commons - A ibuição-NãoCome cial-Compa ilhaIgual 4.0 In e nacional. Cade nos de Es udos A icanos (2016) 32, 145-172 © 2016 Cen o de Es udos In e nacionais do Ins i u o Uni e si á io de Lisboa (ISCTE-IUL) “ ía é a óa a  a. Ea a Jã Pa ” C Do is Wiese Cen o de Es udos Compa a is as Faculdade de Le as Uni e sidade de Lisboa Alameda da Uni e sidade, 1600-214 Lisboa, Po ugal Semina ü Romanische Philologie Geo g-“ugus -Uni e si ä Gö ingen Humbold allee , D- Gö ingen, “lemanha Do is.W[email p o ec ed] 146 “A língua é a p óp ia ca ne do pensamen o”. En e is a a João Paulo Bo ges Coelho Cade nos de Es udos A icanos • julho-dezemb o de 2016 • 32, 145-172 “ língua é a p óp ia ca ne do pensamen o. En e is a a João Paulo ”o ges Coelho João Paulo Bo ges Coelho, nascido em 1955 no Po o, c esceu em Moçambique e o - nou-se, na úl ima década, um dos esc i o es mais p odu i os e econhecidos des e país. É ambém p o esso e in es igado de His ó ia Con empo ânea na Uni e sidade Edua do Mondlane. A seguin e en e is a a João Paulo Bo ges Coelho ealizou-se em julho 2014, em Mapu o. Os emas abo dados são, en e ou os, ques ões de iden idade na época co- lonial e pós-independência, singula idades egionais da(s) cul u a(s) moçambicana(s), a elação en e “mode nidade eu opeia” e “ adição a icana”, a a iculação en e o espaço u bano e u al, a memó ia da lu a de libe ação da gue a ci il, além de pa icula idades das di e en es ob as do au o . Pala as-cha e: Moçambique, João Paulo Bo ges Coelho, iden idade nacional, memó ia his ó ica, li e a u a moçambicana Language is he e y lesh o hough . In e iew wi h João Paulo ”o ges Coelho João Paulo Bo ges Coelho, bo n in 1955 in Po o, g ew up in Mozambique and became wi hin he las decade one o he mos p oduc i e and ecognized w i e s o his coun y. He is also a p o esso and esea che o Con empo a y His o y a he Edua do Mondlane Uni e si y. The ollowing in e iew wi h João Paulo Bo ges Coelho was ca ied ou in July 2014 in Mapu o. The opics a e, among o he s, issues o iden i y in colonial and pos -independence e a, egional peculia i ies o Mozambican cul u e(s), he ela ionship be ween “Eu opean mode ni y” and “A ican adi ion”, he link be ween u ban and u al a eas, he memo y o he libe a ion s uggle and o he ci il wa , as well as pa icu- la i ies o di e en li e a y wo ks o he au ho . Keywo ds: Mozambique, João Paulo Bo ges Coelho, na ional iden i y, his o ical memo y, Mozambican li e a u e 147 Do is Wiese Cade nos de Es udos A icanos • julho-dezemb o de 2016 • 32, 145-172 João Paulo Bo ges Coelho, nascido no Po o em 1955, oi i e , em c iança, com os pais pa a Moçambique, país que conside a seu a é hoje. C esceu na Bei a, es udou dois anos em Lisboa (en e 1972 e 1974), sem nunca se adap a bem, e ol- ou a Moçambique depois do 25 de Ab il. Mudou-se pa a Mapu o, onde se licen- ciou em His ó ia, em 1986, pela Uni e sidade Edua do Mondlane. Dou o ou-se, em 1993, em His ó ia Económica e Social pela Uni e sidade de B ad o d (Reino Unido). É p o esso e in es igado de His ó ia Con empo ânea na Uni e sidade Edua do Mondlane e dou o hono is causa pela Uni e sidade de A ei o (2012). Tem ocado a sua in es igação nas gue as colonial e ci il em Moçambique, em ques ões de segu ança egional no sul de Á ica, bem como na polí ica da me- mó ia. Inaugu ou a sua ca ei a li e á ia com a publicação do omance As Duas Somb as do Rio, em 2003. Em pouco mais de uma década ans o mou-se num dos mais econhecidos esc i o es do seu país. A sua ob a, já ex ensa, con a com se e omances e dois olumes de con os. Com As Visi as do D . Valdez, ecebeu o P émio José C a ei inha em 2004 (a maio dis inção li e á ia de Moçambique) e, com O Olho do He zog, o P émio Leya em 2009. A seguin e en e is a ealizou-se em duas sessões: nos dias 10 (p imei a) e 15 (segunda) de julho de 2014, em Mapu o1. Os emas abo dados são, en e ou os, ques ões de iden idade na época colonial e pós-independência, singula idades egionais da(s) cul u a(s) moçambicana(s), a elação en e “mode nidade eu o- peia” e “ adição a icana”, a a iculação en e o espaço u bano e u al, a memó- ia da lu a de libe ação da gue a ci il, além de pa icula idades das di e en es ob as do au o . Nas suas ob as, al como acon ece com ou os ex os moçambicanos, apa ecem pe sonagens de di e en es co es de pele: neg os, mula os, indianos e b ancos ou seja, po ugueses. Isso, mui as ezes, de e mina a posição social ou as i- ências especíicas das pe sonagens. Qual e a a imagem es e eo ípica dos po - ugueses no empo da colónia e como é que isso mudou na época pós-colonial? Em ge al, no empo colonial, os b ancos e am associados a uma posição de p i ilégio, se bem que haja um es a o eu opeu pob e, sob e udo a pa i dos anos 1960, quando começou a p essão nacionalis a e a gue a. Uma das espos as do egime colonial oi p o oca uma mig ação maciça de colonos que, ao mesmo empo, esol ia um p oblema de desemp ego em Po ugal e cump ia um ideá io 1 A minha iagem de in es igação – em que en e is ei ambém Edua do Whi e, Mia Cou o, Nelson Saú e, Paulina Chiziane e Ungulani ”a Ka Khosa – oi inanciada pela Fundação F iz Thyssen. “s en e is as azem pa e de um p oje o maio sob e as cons uções iden i á ias em Moçambique e em Po ugal an es e após o 25 de “b il, no âmbi o de uma es ada de pós-dou o amen o na Uni e sidade de Lisboa, inanciada pela Fundação Alexande on Humbold (2014-2016). 148 “A língua é a p óp ia ca ne do pensamen o”. En e is a a João Paulo Bo ges Coelho Cade nos de Es udos A icanos • julho-dezemb o de 2016 • 32, 145-172 que es a a p óximo do ap o ei amen o do luso- opicalismo, de Gilbe o F ey e, a ideia de mes iça 2. No undo, e a a ideia salaza is a de que, quan o mais cla a osse a população, mais aízes Po ugal inha nas colónias. Em esul ado disso, o am c iados alguns colona os e ie am mui os ag icul o es pob es, pés-descal- ços, b ancos. Além disso, ha ia ambém na cidade pe i e ias apenas emediadas ou a é mesmo pob es. Mas, no ge al, a ques ão da aça é associada a uma posição na sociedade. Mesmo os pob es inham uma ce a posição de p i ilégio, na me- dida em que o c i é io acis a e a o que impe a a na sociedade. Cla o que depois da independência mui o se ans o mou. T ans o mou-se de uma manei a mui o di e en e da Á ica do Sul, po exemplo, onde, depois de 1992, a população b an- ca con inuou a se associada a uma si uação de g ande p i ilégio económico. Mas aí, essa população, além de e uma ep esen ação demog áica o e, de inha os meios de p odução da iqueza. Em Moçambique, o êxodo da independência oi maciço. Há a p ese ação de uma ce a si uação de p i ilégio, mas hou e sob e udo um desapa ecimen o dos b ancos, do pon o de is a es a ís ico. É uma pequena mino ia: não em exp essão, socialmen e. Tem mais exp essão do pon o de is a ideológico e cul u al. Que papel inham os neg os e os mula os e que papel êm hoje? “ ualmen e, ainda é possí el ala da assimilação das amílias? Às ezes ainda se ala, e al a discu i mui o a esse espei o. A discussão não oi mui o p o unda po que, no undo, há sen imen os o es em elação a isso. Po um lado, há uma iden iicação di e a da assimilação3 com a colabo ação. A meu e , isso nem semp e é legí imo. É uma solução ácil pa a esol e um p o- blema. O p oblema é mui o mais complexo do que isso. Apesa de se mais e ó- ica do que p á ica, a es a égia da assimilação colonial ajudou a c ia uma eli e nacionalis a, ainda que de manei a mui o incipien e. “ diiculdade de discussão 2 A eo ia, de Gilbe o F ey e, do luso- opicalismo sus en a a-se na alegada capacidade pa icula de os po ugueses se adap a em aos ópicos e de se mis u a em ha moniosamen e com ou as aças e cul u as. Po ém, a dou ina dominan e do Es ado No o dos anos 1930 e 1940, que en ol ia um acismo eu ocên ico, pa e nalis a e “ci iliza ó io”, alice çado na pos ulação de “ aças in e io es”, implica a a ejeição da miscigenação (Cas elo, 2011, p. 84s.). O Es ado No o se iu-se, só a pa i de meados dos anos 1950, da imagem luso- opical de Po ugal como uma comunidade mul i acial e plu icon inen al e e o çou a sua di usão na década de 1960, depois já do início da gue a colonial e unicamen e “pa a consumo ex e no” (ibid., p. 97). As en e is as concedidas e os discu sos p o e idos po Salaza nes a década e omam as ideias cen ais de Gilbe o F ey e, embo a não po con icção mas, an es, po con eniência polí ica, isando apazigua as c í icas da ONU em elação a Po ugal (ibid., p. 98). 3 No século XX, Po ugal ( al como a F ança) es abeleceu uma legislação que isa a a assimilação dos colonizados (“indígenas” e “mes iços”) à cul u a po uguesa. A Po a ia P o incial n.o 317, de 9 de janei o de 1917, edi ada pelo Go e nado -ge al Ál a o de Cas o, in oduziu o es a u o do “assimilado aos eu opeus”. Pa a adqui i o al a á de assimilado e a necessá io cump i uma sé ie de equisi os ígidos e di íceis de alcança . Exigia-se que o eque en e “a) i esse abandonado in ei amen e os usos e cos umes daquela aça; b) que alasse, lesse e esc e esse a língua po uguesa c ado asse a monogamia d exe cesse p oissão, a e ou o ício, compa í eis com a ci ilização eu opéia ou que i esse ob ido po meio líci o endimen o que osse suicien e pa a alimen ação, sus en o, habi ação e es uá io dele e de sua amília” (Zampa oni, 2006, p. 148s.). 149 Do is Wiese Cade nos de Es udos A icanos • julho-dezemb o de 2016 • 32, 145-172 desse p oblema es á em que a F elimo ei indica o monopólio do nacionalismo. Na minha manei a de e , pa a ela, é con o á el olha os assimilados como co- labo acionis as coloniais. Mas o que é ac o é que em das camadas assimiladas a p odução mais signiica i a do nacionalismo do pon o de is a cul u al. Ha ia uma eli e u bana que es a a a se c iada e que em uma elação mui o es ei a com o p ocesso da assimilação. Os mes iços es ão mais ou menos na mesma posição que os assimilados ou a sociedade c iou ainda ou a imagem pa a eles? É uma ou a imagem. Se bem que em g ande medida haja uma sob eposição, penso que são duas coisas di e en es, embo a g ande pa e dos assimilados seja iden iicá el com os mes iços, desde o p incípio do século XX. Há casos amosos como os das amílias Albasini e Fo nasini4. Mas são dois p ocessos di e en es, po que ambém há amílias mes iças pob es que não es ão cobe as pela assimi- lação. Vá ios omances moçambicanos, nomeadamen e O Aleg e Can o da Pe diz, de Paulina Chiziane, con am que, na época colonial, algumas mulhe es neg as p ocu a am e ilhos mula os. “inda hoje exis e es e desejo ou hou e uma in e são? É uma e gonha e um ilho mula o ou é posi i o? Que ipo de a- cismo exis e? No passado, Moçambique inha isso em comum com o B asil. A sob eposição da aça com o es a u o social le a à ideia de que quan o mais cla a o a pessoa, mais opo unidades em. A Paulina ansmi e essa ideia que exis e mui o na cul- u a mes iça, que é p eciso cla ea pa a aze a ança a aça. Escu ece se ia aze a asa a aça. É mui o in e essan e es a ideia pos a em e mos de elocidades. Hoje em dia, no mains eam, isso não em nenhuma exp essão. Não enho mui a p op iedade pa a ala sob e o assun o, mas não me pa ece que seja um c i é io undamen al. O c i é io económico é mui o mais impo an e. Se bem que haja aços em algumas amílias mes iças, que é uma espécie de iné cia que em do passado. 4 T a a-se de duas amílias miscigenadas de ascendência i aliana que i e am á ios memb os de enome social. Os Fo nasini chega am a Moçambique em 1830 e ins ala am-se em Inhambane. Ca los An ónio Fo nasini, um dos mais impo an es colecionado es de bo ânica em Moçambique, ambém e e um papel impo an e na polí ica, pa icipando numa e ol a con a o Go e nado do dis i o em 1850 e desempenhando o ca go de p esiden e da Câma a da cidade de Inhambane de 1851 a 1856 (Massa i, 2005, pp. 32-44). O undado da amília Albasini (An ónio) chegou a Moçambique em 1831 e desen ol eu a i idades come ciais e polí icas em Lou enço Ma ques (hoje Mapu o). Des acam-se, sob e udo, o seu ne o jo nalis a, João Albasini (1876-1922), que undou O A icano (1908-1918), p imei o jo nal local de Lou enço Ma ques (ibid., pp. 44-53). Os a igos de João Albasini (en e eles, á ios sob e a Po a ia do Assimilado) o am eedi ados po Césa B aga-Pin o e Fá ima Mendonça (2012). 150 “A língua é a p óp ia ca ne do pensamen o”. En e is a a João Paulo Bo ges Coelho Cade nos de Es udos A icanos • julho-dezemb o de 2016 • 32, 145-172 Os po ugueses ecém-chegados po causa da c ise em Po ugal são bem- in- dos em ge al ou há alguma hos ilidade? Há uma espécie de isão i ónica. O pob e aspi a a se o ico, assim como de alguma manei a o o u ado aspi a a se como o o u ado . Há uma espécie de i onia e a Eu opa pob e. Susci a uma su da ga galhada. No ge al, não enho uma ideia o mada ace ca disso. As pessoas pensam que, po um lado, eles êm i a as nossas opo unidades e compe i connosco. Po ou o lado, p ecisamos deles. Penso que as pessoas ainda não se decidi am em elação a is o. É um p o- cesso que ai causa desequilíb ios, po que é maciço. Tudo o que hou e an es oi uma me a b incadei a, compa ando com o que es á a acon ece ago a. Es á a chega mui a gen e que ai ans o ma o almen e o pe il do luga . Não é só da Eu opa, mas ambém da Ásia, especialmen e da China… Da Ásia, há uma mig ação an iga, mais con ida, de chineses; mui o maio , e es abilizada, de india- nos. Ago a, êm do Bangladesh, das Filipinas, o igens que p oduzem mig an es maciçamen e. Bas a i ao ae opo o, e e que em cada oo que chega do Qa a ou da E iópia ica semp e um mon e de pessoas p esas, sem is o. Moçambique oi c iado na época colonial sem espei a as e nias e as unidades cul u ais que exis iam. Hoje, é um espaço polí ico, mas é já ambém um espaço cul u al com uma iden idade p óp ia, uma moçambicanidade, ou isso ainda não exis e na men e das pessoas? Es a ques ão esconde mui as a madilhas. De ac o, odas as on ei as de Moçambique di idem ao meio g andes g upos cul u ais: os macondes no No e, os yao mais no in e io , os chonas no Cen o, os songas em baixo… Todos es ão di ididos. Mas, po ou o lado, não podemos cai na a madilha de conside a essas unidades como unidades polí icas es á eis p é-exis en es. Há, po ezes, a ideia de que ha ia uma es abilidade an e io . Não é e dade. A ins abilidade es á lá desde semp e. Sob e udo, há um enómeno mui o impo an e na p imei- a me ade do século XIX, que é o M ecane, a in asão zulu de Moçambique e das Rodésias, que oi a é Cabo Delgado, a é à on ei a com a Tanzânia5. Is o ees u- u a p o undamen e as cul u as e p o oca g ande ins abilidade. C ia a cul u a changana, c ia a cul u a angoni, c ia os Ndebele na Rodésia… São enómenos mui o ecen es e mui o ensos. Há ins abilidades que ainda es ão p esen es. A 5 O M ecane ( ambém conhecido como Di aqane) oi uma mig ação massi a de á ios po os nguni do sul da Á ica nas décadas 1820 a 1940, de ida p o a elmen e à al a de e as, a secas p olongadas e à expansão dos Zulu e dos Boe . Chaka, ei zulu, o mou um pode oso es ado mili a que a asou a egião a a és da gue a. Em consequência, mui os Nguni ugi am pa a No e e Oes e, conquis a am aldeias e c ia am no as alianças e iden- idades. Des a época da a, po exemplo, a o mação do eino do Leso o. Em 1824, os soldados nguni a aca am as possessões po uguesas em Inhambane e, em 1836, as de So ala. O líde nguni Soshangane assen ou em Manica e o mou em  o Impé io de Gaza  eja-se Newi , , p. -. 151 Do is Wiese Cade nos de Es udos A icanos • julho-dezemb o de 2016 • 32, 145-172 ques ão das e nias ai e em, po que se adap a aos ou os p oblemas pa a os po- encia ou ado mece . Mas, de ac o, as ans o mações são mui o g andes nes e momen o. É um p ocesso. Ainda es amos longe de e uma ideia es á el de uma nacionalidade. Há g andes di isões. O colonialismo oi ei o no sen ido ho izon al e o país é e - ical. Po an o, são camadas que cus a uni e que ago a o p ocesso polí ico es á a ajuda a p onuncia ainda mais. Tan o do lado do go e no como do lado da Renamo, não descansa am enquan o não c ia am es e espe o de di isão. Hoje, i emos uma si uação pa icula men e pe igosa, com uma g ande concen ação de ecu sos no No e e da eli e polí ica se do Sul. É uma si uação explosi a. Não di ia que há uma pe spe i a coesa em elação à nação. Po um lado, poli ica- men e, já passa am mui os anos desde a independência pa a da a en ende uma mesma pe ença a um mesmo Es ado: há um bilhe e de iden idade uni e sal, há passapo es, há on ei as econhecidas e es á eis e, po an o, há es e sen ido de pe ença nacional. Mas, po ou o lado, ainda há g andes dis âncias a pe co e . Um camponês ou um pescado quimuane do Ibo6 sen e-se mui o mais p óxi- mo do izinho anzaniano do que de um emp esá io de Mapu o. Nesse sen ido, as dis âncias ainda são mui o g andes. Ul imamen e, o p oje o nacional pe deu mui a elocidade e dinâmica. Há sob e udo um iolen o p ocesso de c iação de di e enciação social, de acen uação da iqueza de pequenas eli es p edado as, sem dimensão his ó ica, sem dimensão do ambien e… São pequenos uba ões, ilhos do neolibe alismo, e que ão p o oca um dano incalculá el a p azo. Po ou o lado, há um g ande ap o undamen o da pob eza, do pon o de is a abso- lu o, demog áico e es a ís ico. São dinâmicas que não a o ecem a c iação da iden idade nacional, que implica uma pla a o ma comum. Em As Duas Somb as do Rio, a ma gem no e do Zambeze é associada ao espí- i o da cob a e a ma gem sul ao espí i o do leão. Exis e es a c ença em odo o país ou só na Zambézia? Esse li o mani es a uma pe plexidade minha ao e iica que, na ealidade, es as di isões não e am c iações dos an opólogos. Lá e iiquei que em mui o mais a e com a ealidade do que eu pensa a. Is o mos a a di isão p o unda do que é o Zambeze, o io in ei o. Ao longo das ma gens há pequenas cul u as mis as, mas o io dis ancia dois g andes complexos cul u ais. Não é só a cob a e o leão. É o elemen o eminino associado à água e à cob a e o elemen o masculino, ao ogo e ao leão. E ambém a idade e a expe iência associadas à cob a, à mulhe 6 Ilha p incipal do a quipélago das Qui imbas, no no e de Moçambique (Cabo Delgado), p óxima da on ei a com a Tanzânia. 152 “A língua é a p óp ia ca ne do pensamen o”. En e is a a João Paulo Bo ges Coelho Cade nos de Es udos A icanos • julho-dezemb o de 2016 • 32, 145-172 e à água, e a ju en ude e a o ça aliadas ao leão, ao homem e ao ogo. Es es dois uni e sos de e minam g andes di e enças no elacionamen o en e as duas ma - gens. Li que, pa a o omance As Duas Somb as do Rio, ez pesquisas no local, na egião do Zumbo. Que ipo de pesquisa ez? Os esul ados es ão publicados? O que iz o am en e is as que g a ei, mas não es ão publicadas. Falei, po exemplo, com a cu andei a que apa ece no omance, a Joaquina M’boa. Desc e o a ce imónia de uma consul a com ela7. Pe gun ou-me po que é que que ia uma consul a, se es a a doen e. Eu espondi: “Não, não es ou”. Ela pe gun ou se que- ia lança um m’i i, uma maldição sob e alguém. Eu ainda pensei no meu ei o , mas es a a mui o longe e du idei que chegasse a é cá… E disse que que ia ou i a his ó ia do Kanyemba8. Ela con ou, en ão. Mas como é que ela conhecia es a his ó ia? Ela e a mui o no a, inha al ez 30 anos, e não e a mui o bem is a na comunidade. Diziam: “Ela não az bem a machamba, a ag icul u a, a machamba dela é desmazelada, é eia, já e e mui os homens…”. Mas oi ela que o Kanyemba escolheu pa a o ep esen a . Ela es a a a inaugu a um no o san uá io e ala a com a oz g ossa do Kanyemba… Es a a possuída. Tinha duas elhas que lhe da am um apé e uma água. Ela puxa a o apé, sal a a e depois começa a “Oh, oh…” É o “leão” já. En ão começa a a con a a his ó ia. P imei o, con ou numa língua. E eu com um g a ado … Ela disse, duas ho as depois: “Não pe cebes e nada do que eu con ei. Vou con a nou a língua pa a u pe cebe es”. E, depois, oi o ocado de ambo que aduziu udo. Eu inha a lis a dos adminis ado es e ela seguia udo. Há e acidade his ó ica, ela não es a a a imp o isa . Ela dizia: “Eu ui e com o adminis ado Pin o e disse: ‘Tu azes assim, assim e assim’. E ele espondeu…”. Toda aquela sequência es a a ce a. O que me in iga é quem man ém aquele conhecimen o. Não há mui a con adição en e o que ela con a (que em um século de idade) e a documen ação his ó ica. Ela chama os admi- nis ado es pelos nomes. Há ali uma memó ia que escapa ao c i o do pode , da academia, mas que unciona. Ao san uá io, chega am pessoas de Me cedes da Á ica do Sul pa a a consul a . Foi mui o in e essan e. 7 Re e e-se ao capí ulo 24 – no co il do leão – do omance As Duas Somb as do Rio. 8 Kanyemba José do Rosá io de “nd ade e a ilho de um che e ande e uma goesa. Rec u ou no inal da década de 1860 caçado es de ele an es chicunda (esc a os dos p azos que desempenha am a e as policiais e mili a es) no in e io de Te e e es abeleceu-se com eles em Bawa (ao sul do io Zambeze, em en e a Zumbo, na ma gem no e). Tomou e a pela o ça e subs i uiu a caça de ele an es pela mais luc a i a caça de esc a os. Kanyemba ans o mou-se num gue ei o pode oso e emido. Segundo a c ença dos achicunda, Kanyemba o nou-se mhondo o, espí i o de leão, p o e o do po o (Isaacman, 2000, pp. 131-135; eja-se ambém Isaacman & Isaacman, 2005, pp. 141-151). Kanyemba ambém apa ece mencionado no omance Cho i o (2009), de Ungulani Ba Ka Khosa. 159 Do is Wiese Cade nos de Es udos A icanos • julho-dezemb o de 2016 • 32, 145-172 mas pelas memó ias. Quando a gue a começou, a minha a ó saiu do Ibo e eio i e pa a a Bei a. Assis i a g ande pa e do que con o ali. É cla o que aquilo não é uma his ó ia de amília, é um omance. Tenho sensações mui o di ididas sob e udo em elação à lei u a polí ica. Po um lado, pe cebo e iden iico-me com a lei u a polí ica do pós-colonialismo, mas, po ou o lado, acho que não é mui o ino ado a. Já nos anos 1960, ha ia sob e udo economis as com a eo ia do cen o e da pe i e ia, e c. O g ande pe igo que eu ejo é a negação da capacidade de p o- dução de His ó ia depois das au onomias. Ou seja, é condena as í imas ao es a- u o e e no de í imas. É uma o ma de e e o No e na his ó ia do Sul pa a odo o semp e. Não me su p eende que sejam eo ias que apa ecem po académicos do Sul mas em uni e sidades do No e. Hou e uma eação ao pós-colonialismo um pouco ia em Á ica, po exemplo, po que há uma edução do espí i o c í ico em elação à his ó ia polí ica depois da independência. A ibuindo os p oblemas ao No e ou ao Cen o, é incapaz de ha e conli o no Sul. Há al a de ins umen- os pa a le , po exemplo, os di ado es depois das independências, po que os di ado es são ao mesmo empo í imas. Nesse sen ido, enho g andes dis âncias das lei u as pós-coloniais. “ F elimo, du an e a lu a pela independência, dizia que lu a a ambém pela libe ação da mulhe . “ independência melho ou os di ei os das mulhe es e a sua condição social ou oi só uma independência pa a os homens? Num sen ido gené ico, a independência oi mui o impo an e, po que esga- ou a sociedade in ei a – homens e mulhe es – da si uação de semiobje os pa a humanos. Isso é um passo undamen al. T ouxe uma melho ia pa a homens e mulhe es, em ge al, mas não signiicou au oma icamen e uma g ande melho ia ela i a pa a a mulhe no con ex o do géne o, a é po que a ideologia e olucio- ná ia e a mui o cen ada no homem. Eu não conheço cul u a mais machis a do que a cul u a changana. Há melho ias, mas são melho ias u o, em g ande medi- da, da lu a das p óp ias mulhe es. A dis ância que inham de pe co e e a mui o g ande. Dos dois lados, ha ia uma g ande disc iminação de géne o, an o na cul u a changana ( o emen e pa ia cal e masculina), como na cul u a colonial, po azões ideológicas, cul u ais e a é de economia polí ica. Po ugal, como país pe i é ico, não inha a capacidade de ans o ma os cam- poneses em ope á ios. Isso signiica a aze uma e olução indus ial no campo, signiica a i a as pessoas da e a e da um salá io que pe mi isse sob e i e . O que acon ece é que as o mas de in eg ação dos camponeses ão sendo pa ciais. 160 “A língua é a p óp ia ca ne do pensamen o”. En e is a a João Paulo Bo ges Coelho Cade nos de Es udos A icanos • julho-dezemb o de 2016 • 32, 145-172 Os salá ios e am ão baixos, jun amen e com o abalho o çado15 e a mig ação, que a e a nunca oi i ada às pessoas. Fica am as mulhe es a p oduzi a comida, a alimen a os ilhos e a si p óp ias. Os homens saíam e podiam e salá ios mui o mais baixos. A cul u a colonial e e mui o mais con ac o com os homens do que com as mulhe es. Elas ica am a as adas dos espaços b ancos. Não ha ia emp egadas domés icas, em ge al, a é aos anos 1950, a se i em casas de b ancos. E am os homens que se iam, que cuida am das c ianças, que la a am a oupa, que cozinha am… Não há uma adição de mulhe es cozinhei- as. São os homens. Ainda hoje, de manhã, lia um jo nal colonial em que uma mulhe b anca dizia que o enómeno de e mulhe es a se i em casa é no o e que de ia ha e uma lei que as ob igasse a do mi em casa dos pa ões pa a não i em a a dos ilhos em casa, e em con ac os e aze em doenças. Is o signii- ca a ambém meno es opo unidades de con ac o das mulhe es po ia colonial. A mulhe es a a dob ada sob e a e a, com a enxada, e os homens es a am na cidade, com o mal do colonialismo mas ambém com as opo unidades que o colonialismo da a. A mulhe pa e de uma posição duplamen e secundá ia, e o caminho que em de aze é mui o maio . A gue a ajudou mui o a emancipa a mulhe . Ti ando os homens de casa, ob iga a-as a e esponsabilidades. Mas a ideologia é mui o o e. Lemb o-me de es a a aze um inqué i o a amílias de desmobilizados de gue a, com o ho- mem a dize : “A minha mulhe não abalha, az essas coisas de mulhe . Quem abalha sou eu e ganho an o”. Depois, amos e e a mulhe az enda in o mal e o dinhei o que ela az pa a casa é dez ezes mais do que o dele. Mas ele diz que ela não abalha, po que não em um salá io do pa ão com um papel. A F elimo c iou o ganizações emininas, mas e am cla amen e subal e nas. Du an e mui o empo igo a a a ideia de que a mulhe ajuda o comba en e, anspo a as a mas, cozinha e sa is á-lo sexualmen e. É um longo p ocesso que ao mesmo empo implica um g ande ní el de cosmopoli ismo, po que é a abe u- a às lu as das ou as mulhe es que pe mi e às moçambicanas começa a ganha uma consciência da sua p óp ia o ça. A independência ajudou, no sen ido em que humanizou a sociedade in ei a, mas não libe ou a mulhe . 15 Depois do escla agismo, o abalho o çado (chibalo) eio subs i ui o abalho do esc a o. Aco dos egionais pe mi iam a depo ação dos abalhado es o çados pa a o T ans aal (Á ica do Sul), a Rodésia e ambém pa a a en ão colónia po uguesa de São Tomé e P íncipe (Zampa oni, 1998, p. 87). 161 Do is Wiese Cade nos de Es udos A icanos • julho-dezemb o de 2016 • 32, 145-172 Que desaio cons i ui esc e e em po uguês sob e pessoas que na ida quo i- diana não ala iam necessa iamen e essa língua mas, an es, uma língua ban u? O ela o não ica ia mais au ên ico se osse esc i o nessas línguas? Acho que há alguns equí ocos em elação à língua e à esc i a. Pa a mim, a esc i a é um negócio p i ado e não em o obje i o de aze o e a o da sociedade. É uma o ma de exp essão. Há ou os caminhos pa a chega à e osimilhança: o elo que liga o au o e o lei o . A a és da e osimilhança, cump e-se o con a o da esc i a. O au o inge que o que diz é e dade e o lei o inge que ac edi a. Os pe sonagens são me os ins umen os pa a aze essa cons ução. O p opósi o, pelo menos da minha li e a u a, não é olha a ealidade e aze um e a o; o p opósi o é exp imi -me. Se os lei o es me acompanha em, an mieux. Se não me acompanham, an pis. Eu não egis o as ozes dos pe sonagens. Eu uso a minha oz de uma ma- nei a poli ónica a a és dos pe sonagens. Nesse sen ido, a língua é um assun o p i ado, meu. O que eu aço é usa e explo a a minha língua. Con o-lhe um caso cu ioso: quando publiquei o meu p imei o li o, As Duas Somb as do Rio, moçambicanos neg os ie am ag adece -me po pô os neg os a ala com oz de gen e e não com uma oz masca ada. Com mui a li e a u a que p ocu a aze essa ap oximação, “deg adando” a língua, es as pessoas sen em-se o endidas, como se os a icanos não pudessem ala co e amen e. Po an o, como se não pudessem pensa co e amen e. São pessoas incomple as – e is o é o ensi o. No undo, p e endo chega à oz in e io dos pe sonagens, à sua manei a de acioci- na . Aí, a língua é uni e sal. Nenhuma li e a u a em como obje i o se um e a o iel da ealidade. Há aquela pin u a ealis a que pega numa ga a a de Coca-Cola e que azê-la exa- amen e igual. Há pin o es que en am esse caminho… Mas é mui o a o a li e- a u a p e ende se um e a o da ealidade. Quando se diz “Es a é a manei a de ala dos a icanos”, não é. É uma cons ução. Aqui, as pessoas são mui o sensí eis a isso e icam mui o zangadas. O que me mo e é explo a a minha língua, que cons i ui a minha iden idade, e essa língua é a língua po uguesa. Eu não ei indico aze uma li e a u a moçambicana, não sei o que é isso. Isso é uma cons ução no malmen e polí ica. Eu ei indico apenas cons ui a minha li e a u a. É um p oje o mais modes o, mas ambém mui o mais independen e. Eu es ou mui o em desaco do com essa iden iicação da li e a u a com p oje- os nacionais, com p oje os polí icos em ge al. “ li e a u a deine o seu p óp io campo. “ li e a u a de icção é uma in enção da ealidade, e a sua g ande o ça é mos a que há mui as manei as de ap eende a ealidade, não há uma manei a 162 “A língua é a p óp ia ca ne do pensamen o”. En e is a a João Paulo Bo ges Coelho Cade nos de Es udos A icanos • julho-dezemb o de 2016 • 32, 145-172 que se sob epõe a odas as ou as. A língua az pa e do p oje o, mas num sen ido indi idual. “p endeu a ala alguma língua ban u na sua in ância? Não. Eu sou um ilho colonial. O que eu ap endi oi a ala bocados da língua. Mui o pouco. Mas os bocados que as ci cuns âncias me pe mi i am. B incando com ou os meninos, ou ia algumas pala as. Conheço mais pala as da língua do Cen o do que de Mapu o. Ban u é uma aiz e, depois, há mui as línguas que se en endem pa cialmen e umas às ou as. As pala as, mui as ezes, são pa ecidas. Po exemplo, “água”, em Mapu o, diz-se “ma i” e, na Bei a, diz-se “ma zi”. Não sei se é legí imo dize que as di e enças são como as que exis em en e o espanhol e o po uguês. Há di e enças, e é mui o a iscado dize que é a mesma língua. As pessoas que alam essas línguas eagem mui o a isso. Quando se ala na cul u a e na unidade ban u, no malmen e há uma segunda ideia po de ás, de ai mação de uma iden idade com base na aça. Essa ques ão não me a a essa. A ques ão da li e a u a nas línguas ban u é mui o complexa. Po um lado, em a e com o edi ício da li e a u a – em que en am lei o es, po exemplo… Pe mi o-me lemb a que publiquei o p imei o li o depois da independência em onga, Zabela, de um amigo, Ben o Si oe16. E a um li o esc i o em onga, que em os seus lei o es. Podemos pe gun a po que não há mais li e a u a em onga ou em changana. Do pon o de is a do edi ício da li e a u a, em a e com as edi o- as, a polí ica da língua, a ixação esc i a da língua e sob e udo com os esc i o es, e isso é um assun o p i ado, deles, po que não esc e em em onga ou em chan- gana. É uma opção pe ei amen e legí ima esc e e em po uguês, se conside am que é a língua em que se exp essam. É mui o complexo. A p o esso a Pe pé ua Gonçal es es uda as on ei as das línguas ban u e do po uguês e os conli os de on ei a17. Quan o a mim, nunca me passou pela ca- beça explo a esses caminhos, mesmo seque pala as. Quando eu uso pala as de ou as línguas é po que êm signiicados que anscendem o p óp io uni e so da língua. Po exemplo, chamua signiica amigo. Eu uso essa pala a como se usa kanimambo, ou seja, “ob igado”18. É uma pala a que oda a gen e conhece. Não es ou à p ocu a do cânone do po uguês, mas esc e o na língua com que me sin o con o á el e que é mais e dadei o exp imi -me. 16 Zabela oi publicado em 1983. 17 Veja-se, p. ex., Gonçal es (1998). 18 As duas pala as es ão egis adas no dicioná io da Po o Edi o a. Chamua é uma pala a do sena (língua alada no cen o do país) e kanimambo do onga (língua alada em Mapu o). Veja-se www.in opedia.p (consul ado em 23 de e e ei o de 2015). 163 Do is Wiese Cade nos de Es udos A icanos • julho-dezemb o de 2016 • 32, 145-172 Qual a si uação linguís ica em Mapu o? Há pessoas que não dominam o po - uguês ou é uma língua alada em odos os ní eis sociais? Falando com as pes- soas nas uas, pe cebo que há mui as que alam mui o bem, mas êm mui a diiculdade em esc e e . Acho que a si uação é mui o p eocupan e. O onga é a língua da cidade, o changana é dos a edo es mas que en ou na cidade. São línguas mui o o es, a- ladas em casa, en e as pessoas... Mas o po uguês impõe-se cada ez mais como língua es a al, a língua pública, a língua que as pessoas que em ala a é pa a e acesso aos emp egos, às posições impo an es da sociedade, e c. Mas o ensino é mui o deicien e. En ão, as pessoas es ão a se esp emidas en e a necessidade e o desejo de adqui i um ins umen o e a al a de polí ica em elação a esse ins- umen o, a al a de omen o e de desen ol imen o desse ins umen o. Também não há nenhuma polí ica em elação às línguas nacionais. Assim, coloca-se o p o- g essi o desapa ecimen o das línguas nacionais, o que é mui o nega i o, po que as línguas azem pa e da cul u a e da iden idade. Em oca, ambém não é dado um ins umen o, po que nas escolas não se ap ende bem po uguês. Na uni e - sidade, enho alunos inalis as de licencia u a que esc e em pessimamen e. Cada ez é pio , po que a escola cada ez es á mais deg adada. É mui o p eocupan e, po que a língua não é um casaco: a língua é a p óp ia ca ne do pensamen o. Se á mui o di ícil domina em o po uguês, se não i e em uma o mação na sua p óp ia língua ma e na. Exa amen e. Mas, po ou o lado, há mui a gen e, uma no a ge ação na cida- de, que só sabe ala po uguês. Em Angola, isso é mais ní ido. En ão, c ia-se es a indeinição, um e eno cinzen o que az mui os p oblemas. Há alguma en a i a polí ica de implemen a o ensino das línguas nacionais na escola básica, pa alelamen e ao po uguês? Há umas expe iências. Mas o p oblema do ensino ab ange udo. Essas en a- i as depa am-se com as mesmas diiculdades do ensino do po uguês, da ma e- má ica… O p oblema ge al dos ensinos básico e secundá io é deini uma es a- égia e implemen á-la. Embo a a e ó ica diga o con á io, eu acho que o ensino não é uma p io idade pa a os polí icos. A educação e a saúde não são p io i á ias. A p io idade es á na economia, no en iquecimen o, e c. Po ou o lado, há o p o- blema: que língua ensina ? Na uni e sidade, pôs-se esse p oblema. Ab iu-se um cu so de changana e imedia amen e se colocou: po quê o changana? Po se a língua do pode ? O macua-lomué em uma exp essão demog áica mui o maio , 164 “A língua é a p óp ia ca ne do pensamen o”. En e is a a João Paulo Bo ges Coelho Cade nos de Es udos A icanos • julho-dezemb o de 2016 • 32, 145-172 é alado po quase me ade da população. O sena ambém é uma língua mui o g ande. Isso implica uma es a égia que ap oxime as escolas das comunidades e das egiões. Aqui há um g ande hia o. Há a pe spe i a cen al e a pe spe i a lo- cal. É mui o di ícil algo in e médio. A lógica de desen ol e as línguas ma e nas na escola se ia ap oxima a escola da comunidade, e isso ainda é mui o di ícil de aze . Mas eu não sou especialis a. É apenas uma obse ação enquan o cidadão. Falemos de ou o ema. Como i eu a sua amília o empo da gue a ci il e po - que decidiu ica em Moçambique? Mui os b ancos decidi am i -se embo a. A maio ia dos b ancos saiu an es. Com a independência, hou e um êxodo massi o. Foi uma mis u a de ugi em e se em empu ados. Po acaso, eu a é es- a a o a quando se deu o 25 de Ab il. Es a a a es uda em Lisboa. Os a iões iam cheios e eu inha num a ião quase azio. Não oi seque po um g ande mo i o polí ico, po adesão à e olução, mas e a a sensação de ol a pa a casa. Baseei- me numa deinição di e en e de casa. Vi i dois anos em Lisboa, de  a , e nunca me adap ei mui o àquele luga , e que ia mesmo eg essa . Tudo i ou. Os meus pais o am pa a Po ugal. Alguns i mãos o am pa a os Es ados Unidos, ou os pa a o Leso o… Dos seis i mãos, eu ui o único que iquei aqui. Mas não iquei na ”ei a, po que e a mui o es anho, pa a mim, e aquela mudança na Bei a. Vim pa a Mapu o, po que e a um luga desconhecido pa a mim. Depois, i e uma companhei a, i e ilhos e i i aqui sem o es o da amília, embo a odos os anos osse isi a a minha mãe. Ela e a mui o o e e con oca a-me pa a p es- a con as odos os anos. Ti e uma elação cons an e com o ex e io . Pa a mim, e a uma coisa na u al, escolhe um sí io pa a ica . Não oi um g ande p oje o, mas ha ia uma g ande iden iicação com o o imismo, com a ideia de cons ui uma ealidade no a, mui o mais jus a e ala gada. Isso inha uma g ande o ça. Em ge al, quando há um conli o a mado, depois há um silêncio po causa do auma. Isso ambém se pode obse a em Moçambique, as pessoas não ão con a a qualque um o que i e am na gue a ci il… Há duas gue as ci is di e en es. De  a , e a uma gue a mui o coni- nada ao co edo da Bei a, ei a sob e udo pela Rodésia. Só a pa i de 1980, 1981, é que começou a ganha ou a na u eza com o en ol imen o da Á ica do Sul. Só em 1982, 1983, é que se gene alizou a odo o País. Aí ganhou o mas mui o iolen as. Mais iolen as a é do que o conli o colonial. “ gue a ci il oi mais ala gada e mais iolen a. A cidade oi mui o p ese ada. O campo e a a p óp ia deinição do in e no, no sen ido de Dan e, onde udo podia acon ece  pais que 165 Do is Wiese Cade nos de Es udos A icanos • julho-dezemb o de 2016 • 32, 145-172 ma a am ilhos, e a a ba bá ie à sol a… Na cidade e a di e en e. E a uma si ua- ção de escassez, de g ande aus e idade. Chegámos a ou i os i os da gue a quando o en o os azia. Es á amos ce cados e ínhamos uma ida expec an e. Du an e mui o empo, a es a égia go e namen al oi ai ma que as gue as são odas assim. O ou o lado não em os o, é o diabo. No empo colonial, os gue i- lhei os nacionalis as e am classiicados como e o is as, que comiam c ianças… Na gue a ci il, os da Renamo e am os bandidos a mados, não inham nome nem ca a. É semp e uma manei a de demoniza o ou o. Chegou uma al u a em que as pessoas se cansa am dessa e ó ica que jus iica a a gue a. “ posição come- çou a se cada ez mais a seguin e: “Nenhum de ocês em azão, po que ocês é que p oduzem es a ealidade”. Isso e e mui a o ça, e ambém a mudança de con ex o in e nacional, com o im da Gue a F ia, a queb a do apa heid... Tudo isso e e uma o ça mui o g ande pa a acaba com o conli o aqui. Mas hou e uma ene gia in e na que as pessoas consegui am i a das cinzas. Foi um conli o que p oduziu cen enas de milha es de mo os, um milhão e meio de e ugiados o a do País e quase cinco milhões de deslocados in e nos. Não hou e nenhuma amília que não i esse sido a e ada. Foi uma heca ombe. Em Campo de T ânsi o, há o chamado Campo “n igo que exis e pa a a ex- piação do c ime da memó ia… Tal ez seja esquemá ico. Tal ez hoje já esc e esse de ou a manei a. É o jogo da o ça do Es ado, en e essas ideias de adição e de mode nidade. O Es ado adqui iu con o nos mui o pe e sos. Es e Es ado i eu à somb a da mimese em elação ao Es ado colonial. O Es ado colonial a e o iza a, mas, ao mesmo em- po, c ia a o desejo pe e so de aze como ele, po que e a eicaz. Em cima disso i emos a S asi alemã, que oi uma g ande conselhei a do Es ado daqui19. Tudo is o oi o mando uma cul u a sis emá ica do pode de Es ado que eu p ocu a a discu i em Campo de T ânsi o. Po exemplo, como a condição de e mina a o c i- me. É um bocado kakiano… “ acusação em si é já a p o a de um c ime. Não é p eciso quase aze nada. Não é p eciso p o a : o ónus do c ime es á no ac o de ha e uma acusação. Qual é o isco do esquecimen o? Não há uma memó ia. Há á ias memó ias, e são semp e conli uosas. Tenho abalhado a ques ão da memó ia e cada ez me pa ece mais mis e iosa. Ela o - ma a nossa iden idade em g ande medida, mas não há uma memó ia no singula . 19 Sob e as di e sas colabo ações en e a RDA e Moçambique, eja-se Voss (2005). 166 “A língua é a p óp ia ca ne do pensamen o”. En e is a a João Paulo Bo ges Coelho Cade nos de Es udos A icanos • julho-dezemb o de 2016 • 32, 145-172 P oissionalmen e, li g ande pa e dos au o es que a am da memó ia e ejo que emos uma memó ia indi idual conli uosa e que há ambém memó ias amilia- es, comuni á ias, egionais… E há as memó ias públicas, uma memó ia polí ica que o Es ado en a cons ui e impo aos cidadãos a a és da escola... Vão mu- dando as pala as e os concei os mas é o que o g ande ilóso o ma xis a Louis “l husse chama a apa elhos ideológicos de Es ado, que que em ai ma a memó ia20. Depois, há a memó ia his ó ica, que es á pa a além dessas odas, mas que é mais esidual e só su ge depois. A ambição do pode polí ico é ans o ma a sua memó ia polí ica em memó ia his ó ica, é deixa um egis o dos acon eci- men os segundo a sua on ade. O que acon ece hoje é mui o complexo. A minha eo ia é que nós es amos a acaba um g ande ciclo nacionalis a e es amos a en a nou o ciclo que, po deinição, de ia se democ á ico mas ainda não sabemos o que se á. No ciclo nacionalis a, o pode e a legi imado his o icamen e. O ac o de comba e con a o colonialismo legi ima a po si só o pode . A F elimo chegou ao pode sem su á- gio popula . Hoje em dia, po deinição cons i ucional, já não é assim chega-se ao pode a a és de eleições. Há uma esis ência do nacionalismo a acei a es a no a o dem. Uma das g andes a mas que a F elimo usa é a memó ia da libe ação, es u u ada e con ada po ela. Mas há aqui um a i ício, po que esse p ocesso de libe ação oi ei o pela F elimo enquan o en e de libe ação nacional e, hoje, a F elimo é um pa ido, não é uma en e. Ela p óp ia abdicou desse papel de en- e pa a se assumi como pa ido, como pa e da sociedade. T ans o mou-se em pa ido em 1977, mas e a um pa ido único. Em 1992, oi ob igada a acei a , pelos aco dos de paz, uma cons i uição mul ipa idá ia. Ago a, já não é mui o legí imo ela ei indica a lu a de libe ação como um capi al seu. Mas há pio : a lu a de li- be ação, al como a F elimo explica a, e a uma e olução, ou seja, a lu a oi ei a não só pa a libe a o país do colonialismo, mas ambém pa a aze a e olução e pa a impedi que o pode colonial osse subs i uído po no as eli es. Hoje, sendo um pa ido neolibe al, ela em que i a essa pa e da e olução do con eúdo da libe ação. En ão, ei indica a lu a a mada de libe ação, mas não ei indica a e olução. A sepa ação des as duas coisas só pode se ei a echando a e são da lu a de libe ação. Quando o az, ela echa ambém os a qui os da lu a de libe a- ção. Esses a qui os es ão odos echados pa a não pô essas con adições cá o a. Aqui há mui os casos in e essan es de lu a de memó ias, mas é uma lu a mui o desigual. Eu enho bons exemplos disso, como as en e is as a an igos gue ilhei os da F elimo. Logo depois da independência, eles inham uma e são 20 Re e e-se ao ensaio de Al husse “Idéologie e appa eils idéologiques d’É a ”, publicado na e is a La Pensée, em 1970. 167 Do is Wiese Cade nos de Es udos A icanos • julho-dezemb o de 2016 • 32, 145-172 mui o di e en e da oicial. Hoje, se o en e is á-los, já êm uma e são igual. É como se nós dei ássemos o a as nossas memó ias, memó ias que podem se in- cómodas, pa a ap ende a pensa como os ou os. É o adeo pa a en a pa a o clube. No undo, é o p ocesso que cons ói os ascismos, po que os ascismos são egimes popula es. Hi le , Mussolini não são egimes de pequenas eli es, mas de massas. Eles en am conquis a a memó ia das massas, po que isso é que as iden- iica com os egimes. Mis iicam a iden idade e o pe cu so… E o medo ambém é uma a ma pode osíssima. Aliás, oi o medo que a Renamo usou pa a aumen a a sua o ça. En e is ámos mui a gen e, í imas de gue a e memb os da Renamo, e lemb o-me, po exem- plo, de um jo em que dizia “s coisas que eu iz impedem-me de ol a à minha e a ou de ol a pa a jun o de ou os homens. Eu iquei bicho deini i amen e, já não sou uma pessoa”. É quando a Renamo chega à aldeia e ob iga, po exem- plo, a ma a os pais. “s pessoas ma am os pais pa a sob e i e e icam pe plexas com essa on ade de sob e i e , que é ão g ande que le a a ma a os pais ou os ilhos. Depois, saem com a Renamo. É uma ga an ia que a Renamo inha que es as pessoas não ol a iam, po que ma a os pais é co a o laço com a aldeia. Eu i e alunas que ize am um abalho de ein eg ação. Há casos em que as aldeias acei a am de ol a mulhe es que inham sido ap adas pela Renamo. En ão, as aldeias in en a am adições, chamadas kuphahla, segundo as quais, quando se la a, la a-se ambém os pecados, a his ó ia e a memó ia21. Depois de uma ce imónia des as, se alguém acusa es as mulhe es, dá mais e gonha ao acusado do que à acusada. São mecanismos in en ados de adições que não exis iam, mas que mos am a o ça da comunidade pa a in en a . Pa a mim, é a p o a mais conc e a que a adição não é uma coisa do passado, é uma coisa in en i a pa a esol e p oblemas. A ques ão não é segui uma eg a que oi es abelecida pelos an epassados, mas a anja um mecanismo pa a esponde ao p esen e. A memó ia em aqui um papel impo an e, a é saindo de cena. Como diz Ricoeu , a memó ia só az sen ido em con on o com o esquecimen o22. A memó ia não é uma coisa obje i a, é um jogo em que amos busca umas coisas, esquece ou as e es u u a o que amos busca segundo uma con eniência. 21 Veja-se a ese de licencia u a de Elisa Muianga, o ien ada po João Paulo Bo ges Coelho: “[O kuphahla] É uma ce imónia ‘ adicional’ que consis e na e ocação dos espí i os dos an epassados, no malmen e pa a pedi a bênção pa a a ealização de algo, ou pa a ag adece alguma su p esa boa e anuncia algo, como po exemplo um pedido de mais so e” (Muianga, 1996, p. 44). Sob e ou os i uais que cump em a unção de ein eg a e e anos de gue a, eja-se G anjo (2011). 22 Re e e-se ao ensaio La mémoi e, l’his oi e, l’oubli (Pa is: Seuil, 2000). 168 “A língua é a p óp ia ca ne do pensamen o”. En e is a a João Paulo Bo ges Coelho Cade nos de Es udos A icanos • julho-dezemb o de 2016 • 32, 145-172 “lém des as no as adições, há mo imen os cul u ais que exigem a memó- ia das í imas independen emen e do que diz a F elimo? Es ou a pensa nas Mães da P aça de Maio, na “ gen ina. Esse ipo de mo imen os exis e em Moçambique? Exis em alguns casos in e essan es, como os madge manes, abalhado es na Alemanha Democ á ica, e que se conside am injus içados pelo Es ado, a gumen- ando que os alemães paga am mas o Es ado e e e o dinhei o e não lhes pagou23. Fazem pe iodicamen e mani es ações e c ia am uma iden idade de madge manes pa a aze essa denúncia e pa a p ese a a sua memó ia desse passado. “o im de in e, in a anos, es ão con encidos de que não ão consegui , mas c ia-se quase uma iden idade, como as Mães da P aça de Maio. Aqui é mui o di ícil, po que a es a égia p e alecen e é a do esquecimen o. A F elimo não que que as pessoas lemb em a lu a de libe ação, que que as pessoas lemb em a sua e são da lu a de libe ação. É uma es a égia de pode , não é uma lemb ança do pas- sado. Esse é o sen ido p o undo da gue a ci il, po que é uma gue a ace ca do passado. A ideia de sociedade e de economia da F elimo e da Renamo não é subs- ancialmen e di e en e. O que di ide é a memó ia das coisas. Ainda hoje A onso Dhlakama [o líde da Renamo] acusa es e go e no [da F elimo] de se comunis a, apesa de se libe al. É mui o in e essan e o Dhlakama usa essa e minologia. Ambos p ecisam des a dis inção, po que o passado é a única coisa que os dis in- gue. Se esquecem o passado, ão ica iguais. Po ou o lado, a F elimo que es a memó ia sele i a, que sob e udo o esquecimen o. C ia-se, en ão, uma si uação ao mesmo empo mui o complexa e mui o in e essan e. É e dade o que diz o P esiden e “ mando Guebuza, que o líde da Renamo, “ onso Dhlakama, não apa ece pa a dialoga em pessoa? Viu como oi p eso o po a- oz de Dhlakama, An ónio Muchanga?24 Dhlakama não é pa o, sabe que, se apa ece , ai se p eso ou mo o. Se eu osse Dhlakama, ambém não apa ecia. Se ele apa ece e é mo o, a comunidade in e nacional ai pedi explicações, mas, ês meses depois, já esqueceu. Mas os moçambicanos sa- bem que são os dois culpados des a si uação. Nenhum deles que a o dem demo- c á ica de ac o. É uma si uação ins á el que se ai esol e de ou a manei a25. 23 Na página web dos madge manes, moçambicanos que abalha am na RDA nos anos 1980, podem-se e ideoclips das mani es ações e e idas po João Paulo ”o ges Coelho h p//madge manes.com. 24 An ónio Muchango oi p eso a 7 de julho de 2014 e libe ado duas semanas depois. 25 O no o p esiden e, Filipe Nyusi, alou pessoalmen e com A onso Dhlakama. Não obs an e, a ensão en e os dois pa idos ag a ou-se, is o que a Renamo começou, no início de 2015, a ei indica a c iação de uma egião au ónoma no cen o e no e de Moçambique.