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Mui as Vozes, Pon a G ossa, .6, n.1, p. 403-405, 2017.
DOI: 10.5212/Mui asVozes. .6i2.0015
SAMPAIO, Cláudia R. Ve no Escu o.
Lisboa: Tin a-da-China, 2016, 84 p.
“CORAÇÃO PREFÁCIO À ESPERA DE
SER ESCRITO”: BREVES NOTAS EM
TORNO DE VER NO ESCURO (2016), DE
CLÁUDIA R. SAMPAIO
“PREFACE-HEART, WAITING TO BE
WRITTEN”: BRIEF NOTES ON VER
NO ESCURO (2016), BY CLÁUDIA R.
SAMPAIO
Rica do Gil SOEIRO*
Uni e sidade de Lisboa
Deixe-me coloca -lhe uma ques ão, senho B e on. Todos conhecemos a
noi e e os dois lados que odas as noi es êm: a noi e den o de casa e a
noi e o a de casa. Ou seja: há a anquilidade e o espe ado e há, ainda, o
medo e a es anheza. Cla o que se pode á semp e dize que a poesia não
se encon a nem num lado nem nou o: a noi e em dois lados e a poesia é
a po a da casa no momen o em que é abe a e o escu o cob e a el a e o
céu. Mas quando alguém em medo de e co e pa a casa; e quando sen e
édio de e co e pa a a pa e de o a da casa. E a poesia, que pa ece uma
coisa pa ada, esol e, ao mesmo empo, o édio e o medo; o que é bom e
dois, sendo uma única, a poesia.
Uma coisa que caminha, ao mesmo empo, pa a o seu lado di ei o e es-
que do não é uma coisa ú il (po que a u ilidade é assun o de dis âncias
exa as e p e isões em g á icos), é sim uma coisa sag ada e mágica.
Gonçalo M. Ta a es, O Senho B e on e a En e is a (2011, p. 11).
Sabemos como o pano ama da no íssima poesia po uguesa é p ó-
digo em ma can es e elações, su p eenden es es eias de i a o ôlego,
ulgu an es me eo i os que abalam o no mal cu so do o inei o poe a lusi-
ano. Sabemos ambém quão dep essa se esgo am essas ácuas hipé boles:
as palmas lauda ó ias apenas du am a é à p óxima no idade, à seguin e
ped ada no cha co, a inal es elas ugazes cujo b ilho ai paula inamen e
empalidecendo a é se e i a em disc e amen e de cena do olá il i mamen o
das le as po uguesas.
* In es igado
Dou o ado do
Cen o de Es udos
Compa a is as,
Faculdade de Le as
da Uni e sidade
de Lisboa:
ica dogilsoei o@
campus.ul.p .
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“Co ação P e ácio à Espe a de se Esc i o”: B e es No as em o no de Ve no Escu o (2016), de
Cláudia R. Sampaio
Mui as Vozes, Pon a G ossa, .6, n.1, p. 403-405, 2017.
A e dade, po ém, é que uma al abundância de pequenos nadas o na
di ícil islumb a ob as me i ó ias que, não sendo i ep eensí eis, se deixam
econhece como es emunhos singula es de ozes sólidas que eme gem,
de pleno di ei o, da e anescen e espuma dos dias. Ve no Escu o (Lisboa:
Tin a-da-China, 2016), e cei o li o de Cláudia R. Sampaio, cons i ui um
al es emunho, apon ando pa a a p ocu a dessa língua inaudi a a que a
poesia semp e almeja.
É no ó ia a e olução desde Os Dias da Co ja (Do Lado Esque do,
2014) e A P imei a U ina da Manhã (Douda Co e ia, 2015). Es amos pe an e
uma esc i a mais bu ilada, mais cien e dos mecanismos écnico-composi i os
de que se se e pa a eicula a sua isão de si e dos ou os, do mundo em
que ambos se acham. A p óp ia au o a sublinha o ap o undamen o do labo
poé ico, quando, numa en e is a, e e e que: “Esc e ia de manhá à noi e,
lia e elia, esc e ia de no o. […] Nos dois p imei os li os e a quase a e
b u a, e a o que saía o que ica a. Tinha quase pudo em e e os ex os.
Mas com Ve no Escu o oi uma al obsessão com o aspec o o mal, nem
sei explica po quê” (SAMPAIO, 2016b, p. 33).
O discu so i ónico e desempoei ado, esse, é o mesmo. A des eza
imagé ica alia-se a uma aguda consciência í mica que se plasma em compo-
sições que, a iando no ôlego que ensaiam, cump em o mesmo deside a o
de um desnudamen o que em an o de i ónico como de delicado: “É assim
que esc e o, com a alma en iada nos dedos/ou os dedos en iados nos olhos/
mi aculosamen e/sen ada, espi ando,/sendo a aca co ada ao meio/sendo
a coluna um pouco o a pe o de/uma janela quase semp e abe a/como se
daí iesse udo” (SAMPAIO, 2016a, p. 70).
O p esen e olume ab e com um ep o de ca iz exis encial em cla e
impe a i a: “A dam-se mais à esque da ou mais à di ei a/mais a en o de
sul ou de no e/mas laba edem-se, sejam ogos que a dem!” (SAMPAIO,
2016a, p. 7). A injunção de índole on ológica que se lança ao lei o deixa
adi inha , desde logo, o ulgo imagé ico que pe co e á p a icamen e
odos os poemas, p omo endo associações inespe adas e ein en ando o
deslumb amen o pe an e imagens o es. Um li o que ousa, que en en a
o assomb o, que se assume como pu o delei e imagís ico, azendo lemb a
em alguns momen os as complexas aces poé icas de Golgona Anghel ou
de Raquel Nob e Gue a. “E ascendo-me, g a a,/com a poesia dançando
en e a/ ida e a mo e, magní ica/ apando-me a boca oda,/ azendo-me e
no escu o” (SAMPAIO, 2016a, p. 78).
Uma poesia que, embo a não inco endo em í olas g andiloquências,
não enjei a a a acção de um sub il li ismo que ampli ica a dimensão emo-
cional: “En e nós, udo./En e nós, a u gência de me ensina es/a empu a
os dias, de inco esco/e saudades aos i os” (SAMPAIO, 2016a, p. 35).
Uma al incandescência exis encial (de que Ped o Mexia ala na badana
do li o, quando se epo a aos elâmpagos, às b asas e aos incêndios que
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Rica do Gil SOEIRO
Mui as Vozes, Pon a G ossa, .6, n.1, p. 403-405, 2017.
in lamam es e li o) é o es emunho de um co po que se esc e e, de uma
pala a que pensa. Daí ambém que um c í ico como José Má io Sil a se
epo e à linguagem hipnó ica des e li o (SILVA, 2016).
Esc i a sol a e a dilosa (na o mulação jus a de Hen ique Fialho), a
poé ica que nela se desp ende desc e e, a inal, a do e o júbilo de es a no
mundo, pin a um os o mo en e que descon ia de si p óp io: “Se me des-
cub o, injo, mudo de pa ág a o,/ eben o impiedosamen e como con ex o/
que me ixa em poema./Min o. E posso./Não há nada mais cla o do que es e
ba e /de le a con a le a que me az aco dada,/a suga ânsias, a sabe -me
i a,/a julga -me mo a” (SAMPAIO, 2016a, p. 30).
A poesia é aqui essa men i a ascinan e que desa ma, paixão inú il,
ela soli á ia a dendo em câma a escu a.
Re e ências
SAMPAIO, Cláudia R. Os Dias da Co ja. Coimb a: Do Lado Esque do,
2014.
SAMPAIO, Cláudia R. A P imei a U ina da Manhã. Lisboa: Douda
Co e ia, 2015.
SAMPAIO, Cláudia R. Ve no Escu o. Lisboa: Tin a-da-China, 2016a.
SAMPAIO, Cláudia R. Amo Pela Pala a. Re is a Es an e, Lisboa,
2016b.
SILVA, José Má io. Recensão a Ve no Escu o. A ual: Lisboa, 2016.
TAVARES, Gonçalo M. O Senho B e on e a En e is a. Al agide:
Edi o ial Caminho, 2011.
Recebido em agos o/2017.
Acei o em se emb o /2017.