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"Coração prefácio à espera de ser escrito": breves notas em torno de Ver no Escuro (2016), de Cláudia R. Sampaio

Soeiro, Ricardo G.

Abstract

O presente artigo visa oferecer uma panorâmica do percurso poético da autora portuguesa Cláudia R. Sampaio, desde a obra "Os Dias da Corja" (Do Lado Esquerdo, 2014) passando pelo livro "A Primeira Urina da Manhã" (Douda Correria, 2015), colocando particular enfoque no último volume de poema, intitulado "Ver no Escuro" (Lisboa: Tinta-da-China, 2016). Procurar-se-á argumentar que este terceiro livro de Cláudia R. Sampaio constitui a procura de uma língua inaudita que o discurso poético almeja, idioma eivado de ironia e destreza imagética.

Full text

403 Mui as Vozes, Pon a G ossa, .6, n.1, p. 403-405, 2017. DOI: 10.5212/Mui asVozes. .6i2.0015 SAMPAIO, Cláudia R. Ve no Escu o. Lisboa: Tin a-da-China, 2016, 84 p. “CORAÇÃO PREFÁCIO À ESPERA DE SER ESCRITO”: BREVES NOTAS EM TORNO DE VER NO ESCURO (2016), DE CLÁUDIA R. SAMPAIO “PREFACE-HEART, WAITING TO BE WRITTEN”: BRIEF NOTES ON VER NO ESCURO (2016), BY CLÁUDIA R. SAMPAIO Rica do Gil SOEIRO* Uni e sidade de Lisboa Deixe-me coloca -lhe uma ques ão, senho B e on. Todos conhecemos a noi e e os dois lados que odas as noi es êm: a noi e den o de casa e a noi e o a de casa. Ou seja: há a anquilidade e o espe ado e há, ainda, o medo e a es anheza. Cla o que se pode á semp e dize que a poesia não se encon a nem num lado nem nou o: a noi e em dois lados e a poesia é a po a da casa no momen o em que é abe a e o escu o cob e a el a e o céu. Mas quando alguém em medo de e co e pa a casa; e quando sen e édio de e co e pa a a pa e de o a da casa. E a poesia, que pa ece uma coisa pa ada, esol e, ao mesmo empo, o édio e o medo; o que é bom e dois, sendo uma única, a poesia. Uma coisa que caminha, ao mesmo empo, pa a o seu lado di ei o e es- que do não é uma coisa ú il (po que a u ilidade é assun o de dis âncias exa as e p e isões em g á icos), é sim uma coisa sag ada e mágica. Gonçalo M. Ta a es, O Senho B e on e a En e is a (2011, p. 11). Sabemos como o pano ama da no íssima poesia po uguesa é p ó- digo em ma can es e elações, su p eenden es es eias de i a o ôlego, ulgu an es me eo i os que abalam o no mal cu so do o inei o poe a lusi- ano. Sabemos ambém quão dep essa se esgo am essas ácuas hipé boles: as palmas lauda ó ias apenas du am a é à p óxima no idade, à seguin e ped ada no cha co, a inal es elas ugazes cujo b ilho ai paula inamen e empalidecendo a é se e i a em disc e amen e de cena do olá il i mamen o das le as po uguesas. * In es igado Dou o ado do Cen o de Es udos Compa a is as, Faculdade de Le as da Uni e sidade de Lisboa: ica dogilsoei o@ campus.ul.p . 404 “Co ação P e ácio à Espe a de se Esc i o”: B e es No as em o no de Ve no Escu o (2016), de Cláudia R. Sampaio Mui as Vozes, Pon a G ossa, .6, n.1, p. 403-405, 2017. A e dade, po ém, é que uma al abundância de pequenos nadas o na di ícil islumb a ob as me i ó ias que, não sendo i ep eensí eis, se deixam econhece como es emunhos singula es de ozes sólidas que eme gem, de pleno di ei o, da e anescen e espuma dos dias. Ve no Escu o (Lisboa: Tin a-da-China, 2016), e cei o li o de Cláudia R. Sampaio, cons i ui um al es emunho, apon ando pa a a p ocu a dessa língua inaudi a a que a poesia semp e almeja. É no ó ia a e olução desde Os Dias da Co ja (Do Lado Esque do, 2014) e A P imei a U ina da Manhã (Douda Co e ia, 2015). Es amos pe an e uma esc i a mais bu ilada, mais cien e dos mecanismos écnico-composi i os de que se se e pa a eicula a sua isão de si e dos ou os, do mundo em que ambos se acham. A p óp ia au o a sublinha o ap o undamen o do labo poé ico, quando, numa en e is a, e e e que: “Esc e ia de manhá à noi e, lia e elia, esc e ia de no o. […] Nos dois p imei os li os e a quase a e b u a, e a o que saía o que ica a. Tinha quase pudo em e e os ex os. Mas com Ve no Escu o oi uma al obsessão com o aspec o o mal, nem sei explica po quê” (SAMPAIO, 2016b, p. 33). O discu so i ónico e desempoei ado, esse, é o mesmo. A des eza imagé ica alia-se a uma aguda consciência í mica que se plasma em compo- sições que, a iando no ôlego que ensaiam, cump em o mesmo deside a o de um desnudamen o que em an o de i ónico como de delicado: “É assim que esc e o, com a alma en iada nos dedos/ou os dedos en iados nos olhos/ mi aculosamen e/sen ada, espi ando,/sendo a aca co ada ao meio/sendo a coluna um pouco o a pe o de/uma janela quase semp e abe a/como se daí iesse udo” (SAMPAIO, 2016a, p. 70). O p esen e olume ab e com um ep o de ca iz exis encial em cla e impe a i a: “A dam-se mais à esque da ou mais à di ei a/mais a en o de sul ou de no e/mas laba edem-se, sejam ogos que a dem!” (SAMPAIO, 2016a, p. 7). A injunção de índole on ológica que se lança ao lei o deixa adi inha , desde logo, o ulgo imagé ico que pe co e á p a icamen e odos os poemas, p omo endo associações inespe adas e ein en ando o deslumb amen o pe an e imagens o es. Um li o que ousa, que en en a o assomb o, que se assume como pu o delei e imagís ico, azendo lemb a em alguns momen os as complexas aces poé icas de Golgona Anghel ou de Raquel Nob e Gue a. “E ascendo-me, g a a,/com a poesia dançando en e a/ ida e a mo e, magní ica/ apando-me a boca oda,/ azendo-me e no escu o” (SAMPAIO, 2016a, p. 78). Uma poesia que, embo a não inco endo em í olas g andiloquências, não enjei a a a acção de um sub il li ismo que ampli ica a dimensão emo- cional: “En e nós, udo./En e nós, a u gência de me ensina es/a empu a os dias, de inco esco/e saudades aos i os” (SAMPAIO, 2016a, p. 35). Uma al incandescência exis encial (de que Ped o Mexia ala na badana do li o, quando se epo a aos elâmpagos, às b asas e aos incêndios que 405 Rica do Gil SOEIRO Mui as Vozes, Pon a G ossa, .6, n.1, p. 403-405, 2017. in lamam es e li o) é o es emunho de um co po que se esc e e, de uma pala a que pensa. Daí ambém que um c í ico como José Má io Sil a se epo e à linguagem hipnó ica des e li o (SILVA, 2016). Esc i a sol a e a dilosa (na o mulação jus a de Hen ique Fialho), a poé ica que nela se desp ende desc e e, a inal, a do e o júbilo de es a no mundo, pin a um os o mo en e que descon ia de si p óp io: “Se me des- cub o, injo, mudo de pa ág a o,/ eben o impiedosamen e como con ex o/ que me ixa em poema./Min o. E posso./Não há nada mais cla o do que es e ba e /de le a con a le a que me az aco dada,/a suga ânsias, a sabe -me i a,/a julga -me mo a” (SAMPAIO, 2016a, p. 30). A poesia é aqui essa men i a ascinan e que desa ma, paixão inú il, ela soli á ia a dendo em câma a escu a. Re e ências SAMPAIO, Cláudia R. Os Dias da Co ja. Coimb a: Do Lado Esque do, 2014. SAMPAIO, Cláudia R. A P imei a U ina da Manhã. Lisboa: Douda Co e ia, 2015. SAMPAIO, Cláudia R. Ve no Escu o. Lisboa: Tin a-da-China, 2016a. SAMPAIO, Cláudia R. Amo Pela Pala a. Re is a Es an e, Lisboa, 2016b. SILVA, José Má io. Recensão a Ve no Escu o. A ual: Lisboa, 2016. TAVARES, Gonçalo M. O Senho B e on e a En e is a. Al agide: Edi o ial Caminho, 2011. Recebido em agos o/2017. Acei o em se emb o /2017.