Sé gio Campos Ma os & Ma ia Isabel João (o gs.)
HISTORIOGRAFIA E RES PUBLICA
Lisboa
Cen o de His ó ia da Uni e sidade de Lisboa
Cen o de Es udos das Mig ações e das Relações In e cul u ais da Uni e sidade Abe a
2017
Sé gio Campos Ma os & Ma ia Isabel João (o gs.)
NOS DOIS ÚLTIMOS SÉCULOS
Tí ulo | Ti le
His o iog a ia e Res Publica
Nos dois úl imos séculos
Di ecção da Colecção | Se ies Edi o s
Sé gio Campos Ma os & Co adonga Valdaliso
O ganização | O ganisa ion
Sé gio Campos Ma os & Ma ia Isabel João
Edi o | Edi o
Sé gio Campos Ma os
Assis en es de Edição | Edi o ial Assis an s
Gonçalo Ma os Ramos, Rica do de B i o
Comissão Edi o ial | Edi o ial Boa d
Luís Filipe Ba e o, Valdei A aújo
Capa | F on co e
De alhe da ep esen ação da Di ina Comédia de Dan e Alighie i. Almada Neg ei os, 1961. Pó ico da en ada da
Faculdade de Le as. A e pa ie al, g a u as incisas colo idas sob e pa ede e es ida a can a ia de calcá io, Faculdade
de Le as da Uni e sidade de Lisboa. Fo og a ia de A mando No e.
F on ispício | F on ispiece
De alhe de Cabeça Mecânica (O Espí i o da Nossa E a). Raoul Hausmann, c. 1920. Mon agem. Pa is, Musée Na ional
d’A Mode ne, Cen e Pompidou.
Con a-capa | Backco e
Musa (Clio?) lendo um uolumen. Pin o de Klügmann, c. 435-425 BCE (Beócia?). Leky hos, ce âmica á ica de igu as
e melhas, Museu do Lou e, CA 220.
His o iog a ia – His ó ia Con empo ânea – Memó ia | 930(469) MAT,S
Edi o a | Publishe
Cen o de His ó ia da Uni e sidade de Lisboa & Cen o de Es udos das Mig ações e das Relações In e cul u ais da
Uni e sidade Abe a | 2017
Concepção G á ica | G aphic Design
B uno Fe nandes
Imp essão G á ica | P in ing Shop
Se sili o-Emp esa G á ica Lda.
ISBN 978-989-8068-22-4
Ti agem 300 exempla es
P.V.P. 15.00€
Cen o de His ó ia da Uni e sidade de Lisboa | Cen e o His o y o he Uni e si y o Lisbon
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men ioned license and complying wi h he FCT di ec i e “Polí ica sob e Acesso Abe o a Publicações Cien i icas esul an es de P ojec os de I&D Financiados pela FCT (05/05/2014)”.
ÍNDICE
SOBRE A ESCRITA DA HISTÓRIA NOS DOIS ÚLTIMOS SÉCULOS
Sé gio Campos Ma os e Ma ia Isabel João
I – HISTÓRIA, TEMPO, CIDADANIA
O HISTORIADOR NA CIDADE: HISTÓRIA E POLÍTICA
Fe nando Ca oga
HISTOIRE GLOBALE, HISTOIRE NATIONALE?
COMMENT RÉCONCILIER RECHERCHE ET PÉDAGOGIE
Ch is ophe Cha le
AS FORMAS DO PRESENTE.
ENSAIO SOBRE O TEMPO E A ESCRITA DA HISTÓRIA
Temís ocles Ceza
CONTINUIDADES E RUPTURAS HISTORIOGRÁFICAS:
O CASO PORTUGUÊS NUM CONTEXTO PENINSULAR (C.1834 - C.1940)
Sé gio Campos Ma os
II – DIRECÇÕES DE ESTUDO
MODERNIZAÇÃO E BLOQUEIOS:
PROBLEMAS DO DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO
NA MEMÓRIA HISTÓRICA
José Luís Ca doso
A HISTÓRIA SOCIAL EM PORTUGAL (1779-1974)
ESBOÇO DE UM ITINERÁRIO DE PESQUISA
Nuno Gonçalo Mon ei o
ESPIRITUALIDADE E RELIGIÕES:
UNIVERSOS DE MOTIVAÇÃO E DE CRENÇA
An ónio Ma os Fe ei a
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25
27
89
115
131
161
163
183
203
AS MIGRAÇÕES NA HISTORIOGRAFIA PORTUGUESA (1779-1974)
Jo ge Fe nandes Al es
O IMPÉRIO E AS SUAS METAMORFOSES NA HISTORIOGRAFIA
Diogo Ramada Cu o
A HISTORIOGRAFIA NO ÂMBITO DOS ESTUDOS REGIONAIS
Ma ia Isabel João
III – PERIODISMO E HISTÓRIA
HISTÓRIA, OPINIÃO PÚBLICA E PERIODISMO
José Augus o dos San os Al es
DIVULGAR O CONHECIMENTO HISTÓRICO
AS PUBLICAÇÕES COLECTIVAS DA ACL SOB O LIBERALISMO (1820-1851)
Daniel Es udan e P o ásio
O CONTRIBUTO D’O PANORAMA NA DIVULGAÇÃO HISTÓRICA
EM PORTUGAL NO SÉCULO XIX (1837-68)
Rica do de B i o
DIFERENTES CONCEPÇÕES DE HISTÓRIA NA VÉRTICE
DURANTE O ESTADO NOVO (1942-1974)
José de Sousa
OS ARQUIVOS DO CENTRO CULTURAL PORTUGUÊS (1969-1993):
UMA “COLECTÂNEA ERUDITA” AO SERVIÇO DA HISTÓRIA
And eia da Sil a Almeida
A HISTÓRIA DE PORTUGAL NA SEARA NOVA:
A BUSCA NO TEMPO PASSADO PARA A CONSTRUÇÃO
DE UM PRETENDIDO FUTURO
Joaquim Rome o Magalhães
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lisbon his o ical s udies | his o iog aphica
a disseminação de di e en es “conhecimen os ú eis”, de “ins ução a iada”,
emp egando as pala as de He culano. Os emas encon a am-se explanados
nos p óp ios es a u os da sociedade (a . 47º): his ó ia nacional e es angei a,
biog a ias (de mili a es, eclesiás icos, en e ou os), geog a ia, li e a u a, di ei o,
economia, comé cio, desen ol imen os écnicos que a ní el indus ial como na
ag icul u a, auna e lo a, algumas noções de higiene, en e ou os. Sem dú ida que
pela ab angência de ma é ias o nome do jo nal ca ac e iza a a sín ese p e endida.
Con ém, não obs an e, eco da que O Pano ama he dou pa e da adição iluminis a
do enciclopedismo, ca ac e ís ica aliás isí el em ou os pe iódicos da al u a, como
o A qui o Popula (1837), A qui o Pi o esco (1857) ou o A qui o Uni e sal (1859).
A qualidade do jo nal, que em e mos écnicos14 como de con eúdos, al ez
explique o sucesso que apa en ou e numa ase inicial. Ainda no p imei o ano deu-
se a no ícia de que o quin o núme o do jo nal inha a ingido o signi ica i o núme o
de 5000 exempla es, “caso único em a his ó ia das publicações pe iódicas em
Po ugal”15. Con ém no en an o e e i que compa a i amen e com a sua inspi ação
b i ânica, O Pano ama e a conside a elmen e meno em i agem, na medida em que
o The Penny Magazine, em 1837, inha a ingido os 300.000 exempla es16. Es á amos
des a o ma pe an e con ex os populacionais e públicos di e en es, o que ez
com que, passado um ano em ci culação, os edac o es d´O Pano ama i essem de
adop a uma no a es u u a. Num balanço anual, e após comp eende a ecepção
po pa e do público, He culano es abelecia um no o o ma o, não sem an es aça
um «diagnós ico» do público lei o po uguês des es ipos de jo nais “popula es”,
di idindo-o em ês classes:
a p imei a é a dos que pe endem [sic] só ins ução, sem lhes impo a a
o ma (...) são es es poucos; a segunda classe, que é a mais nume osa, cons a daqueles
que gos am de ins ui -se ec eando-se; a e cei a en im, é o mada pelos que só na
lei u a buscam passa empo pa a ma a o empo (...) doen ia é a compleição mo al
des es, di ícil a sua cu a; mas po isso mesmo nãos os de emos abandona : com o
14 Uma o e apos a em g a u as de boa qualidade.
15 O Pano ama, "Galicismos", nº 7, 1837, pp. 52-53.
16 Jacin o Bap is a, op. ci ., p. 26.
342 his o iog a ia e es publica
uso de le , po en u a adqui i ão o amo dos conhecimen os mais solidos, ou pelo
menos oma ão a lei u a po habi o, e na al a de coisas supe iciais, alguma ez
eco e ão a esc i os mais ins u i os e p o undos.17
A dimensão e o in e esse dos di e en es públicos, sin oma icamen e aqui
expos os, e ela am as limi ações da época. Não é po isso de admi a que
ou as inicia i as edi o iais da mesma al u a não i essem longe idade, embo a
encon emos alguns exemplos de pe iódicos que consegui am, mesmo assim, uma
ida ela i amen e longa, casos do A qui o Popula , Biblio eca Familia e Rec ea i a (1835-
42), O Rec eio (1835-41) e O Ramalhe e (1837-44)18. Pa a que O Pano ama con inuasse
a e sucesso pe an e o público, e após o diagnós ico ei o po He culano, oi en ão
p ojec ado um no o o ma o. A opção omada oi ela i amen e simples: di idi cada
núme o em duas pa es ela i amen e dis in as; ou seja, man e ia a es u u a p é ia,
mas e o mulando-a. A p imei a inclui ia a igos mais ex ensos, com emá icas
mais p o undamen e analisadas e subo dinadas às á eas das ciências na u ais, emas
his ó icos, geog a ia, opog a ia, monumen os, economia, li e a u a, en e ou os. A
segunda inclui ia a igos mais b e es, com linguagem mais acessí el e sob e emas
que pudessem, opo unamen e, in e essa a um público mais as o. A «ciência»
não es a ia ausen e des es b e es ex os, mas se ia ocacionada pa a, julgamos nós,
p eocupações mais p emen es. Começamos a encon a igualmen e cu iosidades e
ambém anedo as. Man endo es a es u u a inal e ada a é à ex inção do jo nal, O
Pano ama apa en ou e ido sucesso o a dos cen os u banos ( adicionalmen e
com públicos menos p opensos à lei u a des e ipo de imp ensa), sendo lido em
assembleia nas po oações u ais19. Chegou, inclusi amen e, a a a essa o A lân ico
sendo lido nos Aço es, Madei a e B asil, con ando com igu as des e úl imo como
colabo ado es, como po exemplo F ancisco Adol o de Va nhagen20.
A publicação deco eu com ela i a no malidade a é 1839, ano em que
Alexand e He culano ez publica o úl imo núme o enquan o edac o p incipal21,
17 O Pano ama, "Aos assinan es", nº 36, 1837, p. 1.
18 Ma ia Lou des San os, op. ci ., p. 167.
19 O Pano ama, "In odução", nº 192,1841, p. 2.
20 O Pano ama, "Aos lei o es", nº 1,1842, p. 1.
21 Despediu-se dos lei o es numa pequena no a, O Pano ama, nº 115, 1839, p. 221.
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lisbon his o ical s udies | his o iog aphica
saindo pa a i ocupa o ca go de Di ec o das Biblio ecas Reais da Ajuda e
Necessidades, após nomeação do ei D. Fe nando. Te minada a passagem de
He culano pelo jo nal (cons a-se que con ibui, ainda que episodicamen e, com
algumas colunas), oi, cu iosamen e, Feliciano de Cas ilho a assumi o ca go de
edac o a é 1841, al u a em que saiu pa a di igi um ou o pe iódico, a Re is a
Uni e sal Lisbonense, en e 1841-45. Depois de Cas ilho, se ia An ónio de Oli ei a
Ma eca a ica à en e da 2ª sé ie a é 1843. Em 1844, e mina am as sé ies d´O
Pano ama associadas à Sociedade P opagado a dos Conhecimen os Ú eis, po
ex inção des a, u o do dec éscimo do pagamen o das assina u as que possi elmen e
colocou em causa a sus en abilidade inancei a da Sociedade. A al a de pagamen o
das assina u as es e e eco en emen e ci ada nas páginas do jo nal22.
Vol amos a e O Pano ama disponí el ao público passados dois anos, em
1846, pela inicia i a do ipóg a o-edi o An ónio José Fe nandes Lopes (que ambém
i ia a lança a Ilus ação Luso-B asilei a. Jo nal uni e sal, en e 1856-59). A ideia e a
apenas a de elança o jo nal, sem g andes al e ações, “Es e jo nal compo -se-á,
como d´an es, de udo que se julga de p és imo em descob imen os cien í icos, em
ape eiçoamen os de indús ia, e nos in en os em a e, a pa das no idades no á eis.
Sem se igo osamen e no iciado acompanha a o andamen o do século em odos
os seus aspec os”23. Tinha-se como objec i o lança ce ca de 52 núme os anuais,
con udo, indo a lume em Se emb o, so eu us ações ine en es ao no o con li o
em ma cha, a Gue a da Pa uleia. Só em 1852 é que alcança ia os núme os anuais
p e endidos, publicando egula e sis ema icamen e desde en ão. Em 1858, se ia
suspensa a publicação. Es a suspensão du ou a é 1866, al u a em que O Pano ama oi
no amen e essusci ado (pelo mesmo ipóg a o em colabo ação com a Tipog a ia
F anco-Po uguesa), publicando-se a é 1868, ano da ex inção de ini i a do jo nal.
A pe sis ência de publicação que pe mi iu a longe idade do jo nal mos a
a epu ação da publicação. De ac o, já em meados do século, são e elado as as
pala as de Rebelo da Sil a (um dos mais des acados discípulos de He culano)
e de Lopes de Mendonça, numa “In odução” aos Anais das Ciências e Le as, de
1857, “O mais admi á el ins umen o de iniciação in elec ual, no a aso ela i o
22 Po exemplo, O Pano ama, nº 28, 1837, p. 224.
23 O Pano ama, "In odução", nº 1, 3ª sé ie, 1846, p. 2.
344 his o iog a ia e es publica
em que exis íamos, mani es ou os seus e ei os desde logo, e, edigido po algumas
das capacidades mais dis in as des e país, que hoje emos a hon a de con a no
nosso núme o de sócios, ape eiçoou a língua, desen ol eu o gos o pelas le as,
ez e i e as nossas adições na imaginação popula , e po ele se deu oo e
impulso a essas ocações no as que emos g adualmen e hoje sob essaindo em
odas as es e as da ac i idade social”24. Não obs an e, pa ece e exis ido a coe a
noção de que O Pano ama, após as p imei as sé ies, pe de a alguma qualidade. Tal
ideia é exp essa po José Sil es e Ribei o, quando e e e que “Em 1857, quando
ainda se publica a o Pano ama da 3ª sé ie, se disse: Es e pe iódico... é hoje apenas
um eco do que oi, e, se i e, é à somb a dos í ulos de es ima pública e c édi os
in elec uais que soube g anjea e i ma em pad ão, que a lemb ança dos homens
lidos espei a á ainda po mui o empo”25. É e dade que o jo nal já não con a a
com as con ibuições sis emá icas de Alexand e He culano, Feliciano Cas ilho, José
Félix Hen ique Noguei a ou de Ra ael Bo dalo Pinhei o, mas en e as suas colunas
encon a emos nomes como Luís Augus o Rebelo da Sil a, Inácio Vilhena Ba bosa,
F ancisco Gomes de Amo im, An ónio Ped o Lopes de Mendonça, o p óp io
Sil es e Ribei o, Camilo Cas elo B anco, Manuel Pinhei o Chagas, daí que julgamos
discu í el a coe a ideia de que O Pano ama pe de a, de ac o, qualidade. A espos a
pode á se ou a, in imamen e ligada com as mudanças que começa am a ope a
na sociedade e no me cado li e á io.
Numa análise sob e a imp ensa pe iódica, Alexand e He culano, já em 1838,
des acou a Re is a Li e á ia do Po o, p imei o exemplo dum géne o que começa a a
su gi . Em sua opinião, endo como base a e olução da imp ensa des e géne o no
es o da Eu opa, islumb a a que o modelo d´O Pano ama, de jo nal popula , após
cump ida a sua missão de unção social, ex ingui -se-ia ou, pelo menos, e olui ia
pa a o modelo de e is a. É que se o modelo de jo nal popula e a o opos o
ao das e is as cien í icas e li e á ias em oga no século XVIII (mas man endo
algumas ca ac e ís icas), as e is as li e á ias oi ocen is as consegui iam conjuga
os dois modelos, e lec indo assim a mudança ope ada (ou espe ada) na sociedade
24 Apud, Ma ia Lou des dos San os, op. ci ., p. 169.
25 José Sil es e Ribei o - His ó ia dos Es abelecimen os Cien í icos, Li e á ios e A ís icos de Po ugal. Tomo VIII, 1881, p. 26.
345
lisbon his o ical s udies | his o iog aphica
po uguesa26. Pode -se-ia, po en u a, discu i se o modelo de jo nal iliado n´O
Pano ama se ex inguiu de ac o ou se se modi icou27, mas o me cado li e á io
nacional, com di e en es p eocupações e com uma eno ação ge acional a pa i
da década de 1860, eio a p i ilegia no os o ma os, como po exemplo as e is as
ilus adas em que se des aca a a imagem (O Ociden e, 1878-1914), dando maio
ên ase à e en e lúdica e ec ea i a28.
Con eúdos
Fei a a e is a dos in ui os p og amá icos e, de o ma sin é ica, da his ó ia
d´O Pano ama, oquemo-nos ago a nos seus con eúdos, pa e subs ancial do jo nal.
Como deixamos a an e e , ao longo dos anos chega am às páginas des e pe iódico
di e en es con ibu os, ema icamen e di e si icados. A p emissa cen al, expos a
nos in ui os p og amá icos, oi a da ins ução ou, nas pala as dos p omo o es, o
seu “de amamen o” - em pa icula , uma ins ução com uma e en e popula .
Vá ias ezes apon ada, sob di e en es p imas é ce o29, es a linha edi o ial e lec iu
a o ien ação de um mo imen o cul u al que começa a a consolida -se em Po ugal:
o oman ismo30. O in elec ual omân ico, em especial numa p imei a ase des e
mo imen o, assumiu-se como educado - em g ande medida u o das suas
expe iências no ex e io - azendo, assim, pa e da sua acção social a p omoção da
educação como ins umen o pa a um no o modelo de p og esso e cons ução de
uma no a sociedade31. Se ia po en u a ocioso, pois não é o objec o des e abalho,
e e i mos que o deba e em o no educação se ia pos e io men e ecupe ado,
embo a com ou os moldes, em especial a pa i de 1870. Cons i uindo um dos
seus eixos p incipais, a educação p opos a pelo in elec ual omân ico, apesa
de ab angen e, concedia pa icula ele o à di ulgação his ó ica, se indo es a
26 O Pano ama, "Re is a Li e á ia", nº 76, 1838, p. 326.
27 Jacin o Bap is a, op. ci ., p. 64.
28 Sé gio Campos Ma os, op. ci ., pp. 146-147.
29 Po exemplo, "Ins ução popula ", nº 5, 1837, p. 36; "Da educação in elec ual", nº 27, 1837, p. 214.; "Da
educação em odas as idades", nº 122 , 1839, pp. 278-79 ou "O ensino público", 2ª sé ie, nº10, 1842, pp. 78-79
30 José Augus o F ança - O Roman ismo em Po ugal, es udo de ac os socio-cul u ais. Lisboa: Li os Ho izon e, 1983.
31 Fe nando Ca oga - «Roman ismo, li e a u a e his ó ia», in His ó ia de Po ugal (coo d. Luís Reis To gal e João
Lou enço Roque), ol. V. Lisboa: Ci culo de Lei o es, 1993 p. 545.
346 his o iog a ia e es publica
e ocação do passado pa a da o ma a uma no a iden idade nacional, numa al u a
de o mação do Es ado-Nação32. Não é pois po acaso que Oli ei a Ma ins dedique
a es e jo nal algumas linhas na sua ob a Po ugal Con empo âneo, p ecisamen e num
sub-capí ulo in i ulado “Renascimen o”:
Ago a, em Lisboa, o eno ado dos es udos, che e da no a escola, c ia a a
«sociedade p opagado a dos conhecimen os ú eis», cujo ó gão, o Pano ama, adqui ia
uma ci culação ex ao diná ia. Não ha ia ou a coisa que le , e le começa a a se
moda ma sociedade das luzes, como diziam, em i onia e despei o, os an igos. O
Pano ama azia bonecos e ecei as, além de aze os es udos iniciado es da adição
no a, assinados «A.H.»33
De ac o, e demons a i o de que O Pano ama oi, possi elmen e, um dos
p imei os e mais exempli ica i os jo nais omân icos34, obse amos que a di ulgação
his ó ica cons i uiu pa e cen al nos seus con eúdos, em pa icula do pe íodo
medie o35. Apesa da di e sidade emá ica, emos que en e 1837 e 1844, os emas
ge ais que me ece am maio di ulgação o am: His ó ia (des acado), Geog a ia e
Li e a u a; num segundo plano, os campos ligados à Técnica, Ag icul u a, Conselhos
ú eis e, não ão espan oso, Anedo as36 (mui o possi elmen e uma o ma de ca i ação
de público, embo a algumas exigissem uma ce a cul u a). Não endo p op iamen e
dados quan i icá eis, podemos conside a pela lei u a das seguin es sé ies que es a
endência man e e-se a é à ex inção do jo nal. A di ulgação his ó ica assumiu,
po ém, di e en es o mas, pois na lei u a dos di e en es a igos que de alguma o ma
ap esen a am uma base his ó ica egis amos di e en es ias. Po um lado, pelo menos
numa ase inicial e pela pena de Alexand e He culano, obse amos um es o ço po
pa e do colabo ado de e lec i , ou p oblema iza , o papel das di e en es ciências
his ó icas. Não deixa de se in e essan e no a que um jo nal que se p opunha se de
32 Fe nando Ca oga - «Alexand e He culano e o his o icismo omân ico». In His ó ia da His ó ia em Po ugal, p. 39.
33 Oli ei a Ma ins - Po ugal Con empo âneo, ol. II. Lisboa: Guima ães & C. a Edi o es, 1979 [1881], p. 112.
34 José Tenga inha - No a his ó ia da imp ensa em Po ugal. Lisboa: Temas e Deba es - Cí culo de Lei o es, 2013 p. 558.
35 Eu ico Gomes Dias - A cons ução da His ó ia Medie al na Imp ensa Pe iódica Po uguesa de Oi ocen os. Lisboa:
INCM, 2011.
36 A. M. Ribei o - Pe iodismo cien i ico e li e á io Român ico: O Pano ama. Sepa a a da e is a Munda, n.º 29. Coimb a,
1995, pp. 69-72.
347
lisbon his o ical s udies | his o iog aphica
ulga ização ap esen e es e es o ço, embo a, a bem da e dade, bas an e eduzido
no cômpu o ge al dos a igos. Con ém no en an o eco da que a his o iog a ia
mode na, a caminho de uma ce a cien i icidade, começa a a da os p imei os passos.
Possi elmen e, He culano u ilizou es e pe iódico pa a mos a alguns aspec os
me odológicos que u iliza ia mais a de em ob as de maio ôlego. É po isso que,
logo em 1838, dedique alguns a igos à ques ão do Tempo, à sua o denação, is o é,
às C onologias. Re e e que é “ciência, sem a qual não ha e ia mé odo na his ó ia,
is o que ac a dos ac os que se passa am no empo que oi ou que é [...] dis ingui
a sucessão dos empos [...] É es a a c onologia da his ó ia, que sem ela, logo degene a
em ábula, e po consequência deixa de se his ó ia”37.
São á ios os exemplos de di ulgação his ó ica: emos assinaladas
e emé ides; cu iosidades; e ocações de luga es his ó icos com o in ui o de en a
o nece uma isão dos cos umes e, ao mesmo empo, sa is aze a cu iosidade
dos lei o es aí esiden es38; desc ição his ó ica de alguns monumen os nacionais
e a é biog a ias de pe sonagens ilus es. Embo a com p edomínio do pe íodo
medie al, como já se e e iu, O Pano ama assumiu a sua componen e jo nalís ica,
dando conhecimen o de acon ecimen os ela i amen e coe os e ele an es, que
nacionais como es angei os39. As e e ências his ó icas inham, mui as ezes,
bases mui o p agmá icas, como a de esa do pa imónio con a o seu abandono,
signi ica i amen e expos os po He culano40 e con a o andalismo, “O andalismo
é co esão, ci il e a á el. Que não eja um monumen o, e se á o en e mais paci ico
des e mundo”41. Ainda nes e úl imo a igo, Alexand e He culano e e ia que a de esa
des es monumen os e ia uma e en e p odu i a, não só pela iqueza simbólica
e iden i á ia, mas sendo u ilizados no que pode íamos chama hoje de u ismo42.
Es a memó ia his ó ica mobilizada pelos colabo ado es não con inha um
undo me amen e exposi i o. São exempli icado as as pala as de An ónio de
Oli ei a Ma eca,
37 O Pano ama, "Ch onologia I", nº 43, 1838, pp. 58-59. Tem ou o a igo sob e o ema, no núme o 67 do
mesmo ano.
38 Eu ico Dias, op., ci ., p. 58.
39 Po exemplo, O Pano ama, "A in eja que enho ao que isi am a Exposição Uni e sal de Pa is", nº 22, 5ª sé ie,
1867, pp. 174-175
40 O Pano ama, "A A qui ec u a Gó ica", nº 1, 1837, p. 2
41 O Pano ama, "Monumen os II", nº 70, 1838, p. 275.
42 Idem, p. 277.
348 his o iog a ia e es publica
(…) oi ele [O Pano ama] o p imei o que a pa da di usão das ideias de u ilidade
ma e ial, abalhou pa a que enascesse o sen imen o da an iga ene gia e gló ia
nacional, sen imen o amo ecido e quase gas o po dila adas anos de des en u a
e desalen o, e sem cuja enascença não há egene ação possí el, po que se não
começa pela egene eção do homem e do cidadão [...] O Pano ama em p ocu ado
inco po a os desejos e espe anças do u u o com as saudades e adições do belo e
g andioso que enob eceu es a nossa boa e a em e as emo as. Temos a con icção
de que pelo lado mo al é es e o máximo se iço que a imp ensa popula pode aze
à nação, e de que O Pano ama o em ei o.43
Uma pa e subs ancial da memó ia his ó ica mobilizada pelos libe ais oi,
num ce o sen ido, in eg ado a. Assegu a a, apesa do co e com o absolu ismo,
uma con inuidade en e passado-p esen e- u u o, o que e a impo an e numa al u a
poli icamen e ins á el, com e oluções e gue a ci il. É pois nes e sen ido que a
concepção de his ó ia pa en e n´O Pano ama e a ins umen al. A his ó ia não oi
u ilizada apenas na e en e lúdica, de di ulgação, azendo uso da li e a u a e de
ou as a es com sen ido p agmá ico - e p og amá ico -, is o é, ol ada pa a a
o mação cul u al do cidadão. Tendo como pano de undo uma memó ia his ó ica
(cons uída) é ad ogado o seu uso, os seus exemplos melho dizendo, numa c ença
e olu i a do po o po uguês, cump indo, des a o ma, o p opósi o do jo nal.
Vemos e lec idas ou as endências que i iam se uma ma ca no me cado
li e á io e que consubs ancia am a dimensão li e á ia do jo nal44: o omance
his ó ico. Tendo po base ac os ou igu as his ó icas, o omance his ó ico, uma
ped a de oque do ideal omân ico, pa a além do ca ác e lúdico ou ec ea i o,
ep esen a a, segundo He culano, ambém um impo an e papel de di ulgação
his ó ica, “Nós p ocu amos desen anha do esquecimen o a poesia nacional dos
nossos maio es”45. De ac o, em mui o se de eu a in odução des e géne o em
Po ugal a Alexand e He culano, em pa icula com a sua acção nes e jo nal46. Não
con undia, con udo, a his ó ia com a no ela, embo a ap esen asse um modelo mis o,
43 O Pano ama, "In odução", nº 106, 1844, pp. 1-2.
44 O nome comple o do jo nal e a O Pano ama, Jo nal Li e á io e Ins u i o da Sociedade P opagado a dos Conhecimen os Ú eis.
45 O Pano ama, no a, nº 126, 1839, p. 306.
46 Fe nando Ca oga - «Alexand e He culano e o his o icismo omân ico», op. ci ., pp. 42-43.
349
lisbon his o ical s udies | his o iog aphica
“nis o demos a c ónica; no es uá io com que o en ei ámos, demos o omance”.
Vá ios o am os exemplos de omances- olhe ins (géne o po ezes c i icado po
uma pa e duma eli e in elec ual, exigen es po um ce o ipo de qualidade) nas
páginas d´O Pano ama, endo Alexand e He culano dado um impo an e con ibu o
com, po exemplo,”A as po o o de Espanha”, que começa ia a se di ulgado no
jo nal47, e que, mais a de, em 1851, cons a ia em Lendas e Na a i as48. No en an o,
a ap esen ação de pequenos omances, echos de ex os maio es e pa es de peças
de ea o, e a sem dú ida uma es a égia u ilizada pelos di ec o es dos jo nais como
o ma de ca i a público, como inclusi amen e se ia pa a pe cebe a ecep i idade
des e, de o ma a sabe se ale ia a ança pa a a publicação pos e io do li o49.
A c í ica se iu o mesmo p opósi o - como mediado a do me cado li ei o
-, não podendo se descu ado que os jo nais se ap esen a am como um meio
impo an íssimo pa a a sua exp essão. Nes e sen ido, a c í ica a abalhos de á ia
índole, omance, his o iog á ico, en e ou os, não se encon ou ausen e d´O
Pano ama50. Pelo con á io, são á ios os exemplos, como Alexand e He culano em
o no da ob a Cas ilho, Quad os his ó icos de Po ugal (1838)51. A c í ica ou ecensão
expandiu-se - de o ma não só no iciosa - ao me cado pe iódico, dando no a de
ou as publicações, inclusi amen e conco enciais, como a an e io men e e e ida
Re is a Uni e sal Lisbonense, e que na cuidada esc i a se e e ia que “e se a an o nos
podemos a e e conside á-lo-emos como complemen o do nosso”52.
47 O Pano ama, "A as po o o de Espanha", nº 236, 1841, p. 356-360.
48 Pa a uma isão global da ob a li e á ia de Alexand e He culano, eja-se o ex o de Fe nando Ca oga, acima
ci ado, pp. 44-45.
49 Ma ia Lu des dos San os - «A eli e in elec ual e a di usão do li o nos meados do século XIX». Análise Social,
ol. XXVII, 1992, p. 544.
50 Sé gio Campos Ma os, op. ci , pp. 147-150.
51 O Pano ama, nº 68, 1838, p. 263.
52 O Pano ama, "Bibliog aphia", nº 23, 1842, p. 184.
350 his o iog a ia e es publica
Conside ações inais
É isí el que O Pano ama e lec iu uma es a égia cul u al, sendo lag an e que
a His ó ia cons i uiu uma ped a de oque na no a opinião pública que começa a
a eme gi , esul ado da consolidação do libe alismo e da sensibilidade omân ica.
Sem dú ida, nes e pon o, O Pano ama ep esen ou um impo an e mecanismo de
di ulgação. A ideia de “conhecimen os ú eis” ia, assim, pa a além de conhecimen os
écnicos que ize am pa e das páginas do jo nal - sob e ag icul u a, écnica, en e
ou os. Es a a, pois, em pe spec i a a o mação possí el de um modelo de cidadão
em que a His ó ia, ou melho dizendo o conhecimen o do passado, se ia um alice ce
undamen al. Não con undamos: nas páginas d´O Pano ama não emos uma ia
“saudosis a” do passado, ou uma me a enume ação des e, mas sim um p opósi o
de exemplos que, possi elmen e, se i iam como guião a segui no empo p esen e
(com as de idas dis âncias).
No uni e so da imp ensa pe iódica, O Pano ama oi exemplo pa adigmá ico
da união en e ex o e imagem, ó mula, aliás, econhecida como endo mui o
p o ei o pa a a ca i ação de público, p incipalmen e das classes mais baixas. Ma cou
um empo e cons i uiu um modelo que eio a se seguido po ou os jo nais da
al u a. O impac o que O Pano ama e e oi ão exp essi o que es e se ia eco dado,
anos após a sua ex inção, po ou as igu as da cul u a po uguesa. Como bem
no ou An ónio Manuel Ribei o, o jo nal popula da década de 1830 oi is o com
admi ação e espei o po Ramalho O igão, Joaquim de A aújo, Teó ilo B aga,
Sampaio B uno e Oli ei a Ma ins. Inclusi amen e, O Pano ama e e a hon a de se
mencionado na icção oi ocen is a, como em Eusébio Macá io de Camilo Cas elo
B anco ou na ob a de Eça de Quei oz, A Ilus e casa de Rami es53.
53 An ónio Manuel Ribei o, op. ci ., pp. 74-75.
HISTORIOGRAFIA E RES PUBLICA
Em con ac o com as suas congéne es eu opeias e mui o ma cada pela
he ança clássica e c is ã, a his o iog a ia po uguesa oi a é meados do século
XX um campo p i ilegiado de exp essão de concepções o ganicis as, cen adas
na dico omia p og esso e ou os p é-concei os que êm pe meado os discu sos
sob e a ans o mação social. His o iado es libe ais e posi i is as de di e sos
ma izes con ibuí am pa a acen ua es es en oques. Fo am-se en e an o a i mando
isões c í icas do e olucionismo, assinalando-se con inuidades mas ambém
up u as, di e en es exp essões de esis ência ao posi i ismo, median e um deba e
ansdisciplina que en ol eu abe u a a ou as ciências humanas e múl iplas
o ien ações eó icas: Annales, in e p e ações ma xis as, es u u alismo, linguis ic- u n.
P e ende-se nes a ob a ala ga o conhecimen o ace ca das his o iog a ias
e dos his o iado es dos séculos XIX e XX - sem esquece os seus an eceden es
e endências ecen es como a his ó ia global - nas suas elações com o espaço
público e a cidadania, p oblema iza a sua unção social e cul u al, endo em a enção
as elações ansnacionais e os con ex os em que p oduzi am as suas ob as. A
pa i de ópicos-cha e, ecem-se balanços c í icos sec o iais sob e a his o iog a ia
po uguesa, os modos de ecepção de deba es his ó icos in e nacionais, o luga dos
his o iado es e a o ma como nas suas esc i as, da Re olução libe al à ac ualidade,
se es u u a am olha es sob e Po ugal na sua elação com ou os po os. Em que
medida p esen e e u u o condiciona am a cons ução social do passado? Qual o
ho izon e di e encial que os his o iado es econhece am ao passado? Como lida am
com a acele ação das expe iências do empo?
A colecção His o iog aphica dá a conhece es udos sob e
his o iog a ias e his o iado es, a cons ução de memó ias sociais e
indi iduais e usos ins umen ais do passado - a semp e complexa
elação en e p esen e, passado e u u o, nas suas elações
con ex uais com p oblemas sociais e polí icos. Ab ange múl iplos
empos e geog a ias e incen i a a ap oximação en e di e sas
ciências sociais e humanas.
Di ecção de
Sé gio Campos Ma os & Co adonga Valdaliso
His o iog a ia e Res Publica
Sé gio Campos Ma os e Ma ia Isabel João (o gs.)
2017
His o iog a ia, Cul u a e Polí iCa
na ÉPoCa do VisConde de san a Ém
Daniel Es udan e P o ásio (coo d.)
2018