A Li e a u a Clássica ou os Clássicos na Li e a u a
1
A Li e a u a Clássica
ou os Clássicos na Li e a u a:
uma ( e) isão da li e a u a po uguesa
das o igens à con empo aneidade
coo denação
cien í ica:
C is ina Pimen el
e Paula Mo ão
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Paula Mo ão
4
coo denação de edição: Ho ácio Ca alho Gue a
e isão: Rica do Nob e, Ana Filipa Isido o da Sil a,
Ana Ma ia Lóio e J. Filipe Ressu eição
di ecção g á ica: Rui A. Pe ei a
ilus ação da capa: Paulo Jo ge Pe ei a
paginação: Manuel Rocha
colecção: documen os
imp essão: Publi o-B aga
p imei a edição: Lisboa, Dezemb o 2012
ISBN: 978-989-8465-17-7
depósi o legal:!"#$%&'(!
odos os di ei os ese ados
© Campo da Comunicação, 2012
A . de Be na, 11, 3.º
1050-036 Lisboa
el.: 21 761 32 10
ax: 21 761 32 19
e-mail: [email p o ec ed]
acebook: Edi o a Campo da Comunicação
A Li e a u a Clássica
ou os Clássicos na Li e a u a:
uma ( e) isão da li e a u a po uguesa
das o igens à con empo aneidade
coo denação
cien í ica:
C is ina Pimen el
e Paula Mo ão
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A Li e a u a Clássica ou os Clássicos na Li e a u a
5
Índice
C is ina Pimen el
|
Paula Mo ão –
Pala as p é ias
................................. 7
João Dionísio – A e udição de D. Dua e (1391-1438) ............................... 9
Isabel Almeida – Camões e Mendes Pin o, lei o es de clássicos ....................... 19
T. F. Ea le – As comédias em p osa de F ancisco de Sá de Mi anda e de An ónio Fe ei a:
um géne o clássico que se ez po uguês .......................................... 29
Ma alda F ade | João Manuel Nunes To ão – O ídio e os Poe as do Cancionei o
G
e al..... 45
And é Simões – Os clássicos na li e a u a da Res au ação:
Os Applausosda
U
ni e sidadedeCoi
m
b a........................................ 63
Cláudia Teixei a – Cândido Lusi ano: conside ações in odu ó ias às aduções de Édipo
(Só ocles e Séneca) e de Medeia (Eu ípides e Séneca) no
m
sCXIII/1-1-d. da BPE . ........ 81
Ana Fe ei a – Medeia segundo Bocage .......................................... 91
Paula Mo ão – “Quem é es e no o e esd úxulo poe a, es e S . João Mínimo?”:
No as sob e o jo em Ga e .................................................... 105
Nuno Simões Rod igues – A
L
uc éciade Ga e ................................... 117
Vi gínia Soa es Pe ei a – O mi o de Ce es em Feliciano e Júlio de Cas ilho:
Uma( e) isi açãopela adução..............................................133
Rica do Nob e – “Já Sa o não se ia!...”: igu ação omân ica de Sa o emVi ações
daMad ugada,de Ma ia B owne ............................................... 143
J. Filipe Ressu eição – O ágico na cons ução de um omance:
O
R
egicida, de Camilo Cas elo B anco ........................................... 157
Fá ima F ei as Mo na – Um dese oexílioou Na ciso em empo de
O
pheu............. 169
Ped o B aga Falcão – Ho ácio Re isi ado: O Silêncio e a Música de Rica do Reis... ........ 179
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Paula Mo ão
6
Ma ia do Céu Fialho – Ve gílio Fe ei a e a An iguidade Clássica...................... 197
Ana Filipa Isido o da Sil a – Di indades ec iadas: ecos da cul u a g ega em Sophia...... 207
Ana Alexand a Al es de Sousa – Mulhe es G egas na Poesia de Sophia ................ 217
Ta iana Faia – Eidolade Micenas em Agus ina Bessa-Luís ........................... 231
Jo ge Dese o – A co ina das pala as em An i ião ou a ez de Augus o Abelai a ........ 241
An ónio Manuel Fe ei a – Ao con á io de Ulisses: Rui Knop li ....................... 251
José Ribei o Fe ei a – Cassand a e Elec a na poesia con empo ânea: alguns exemplos . . . 259
Ai es A. Nascimen o – “Boca bilingue”: oz de ou as ozes, a pala a poé ica em Ruy Belo. . . 271
Te esa Ca alho – P esenças clássicas na poesia de Vasco G aça Mou a:
da e e ência à con a acção................................................... 299
Paolo Fedeli – Nuno Júdice e la isc i u a dell’an ico .............................. 319
Ma ia Helena da Rocha Pe ei a – O céu azul da G écia na ob a de Hélia Co eia.......... 339
Ma ia C is ina de Cas o-Maia de Sousa Pimen el – He óis mí icos no quo idiano
do século XXI: a poesia de José Miguel Sil a e José Má io Sil a....................... 349
Ana So ia Albuque que e Aguila – Bloom e e “os G egos como an epassados,
e isso no a-se” (ou as p esenças clássicas em
U
m
aViage
m
àÍndia,de Gonçalo M. Ta a es). . . 363
Tes emunhos .............................................................. 375
Hélia Co eia ............................................................. 375
Má io de Ca alho ........................................................ 381
Vasco G aça Mou a ....................................................... 385
Manuel Aleg e ........................................................... 389
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He óis mí icos no quo idiano do século XXI:
a poesia de José Miguel Sil a
e José Má io Sil a
Ma ia C is ina de Cas o-Maia de Sousa Pimen el*
T espassados os escudos dos Aqueus,
os deuses e i a am-se dos campos
de ba alha e o can o dos aedos
decaiu em jo nalismo.
As a mas, hoje em dia, não êm
quem as guie. En egues a ciências
ão exac as como a ome, o lu o,
as cu as es a ís icas do saque,
as balas não escu am
o apelo dos caídos, cujas lág imas
e ocam es es úl imos he óis:
Penélope e Cassand a, An ígona,
And ómaca, a núbil I igénia.
Es e poema encon a-se num li o de José Miguel Sil a que em po í ulo Ulisses já não
mo a aqui, publicado em 20021. Nele se con a de um mundo sem he óis, o mundo que
é hoje o nosso, de que anda ausen e o sonho e a co agem, em que a g andeza de igu-
A Li e a u a Clássica ou os Clássicos na Li e a u a
349
* [email p o ec ed]. Uni e sidade de Lisboa: Faculdade de Le as; Cen o de Es udos Clássicos.
1Na p. 60. Todas as ci ações que a emos eme em pa a a edição & e c., com o núme o da página en e pa ên eses.
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as como An ígona, And ómaca ou I igénia se pe deu, esmagada ou espa ilhada no quo-
idiano du o e cinzen o de mul idões de homens e mulhe es o migas ob igados a bai-
xa o olha e que, po olha em o chão, não conseguem ou não podem e o céu e sonha
o oo. Um mundo em que uns poucos, gigan es de pode ou in luência social, pisam e
aniquilam com ieza o ca ei inho incessan e das o migas. Um mundo onde o inho ou
a d oga o e ecem o esquecimen o, onde a agédia do quo idiano é a inal a que nos olhe
o amo e apaga a luz do desejo no olha dos que nos amam.
É desse mundo que a poesia de José Miguel Sil a ala, sob um í ulo que, pelo eco do
ilme Alice doesn’ li e he e anymo e de Ma in Sco cese, eme e pa a a a e do cinema
que equen emen e é ma é ia poé ica do Au o 2e nos conduz de no o à Odisseia3, a
e e na iagem do homem que deseja ol a à sua Í aca e ao po o segu o do amo dos
seus ou, pelo menos, ao con en amen o com a paz encon ada na eposição de uma
ce a o dem, an e io ao desassossego da a en u a e da descobe a.
Ulisses já não mo a aqui obedece a um plano cujo io condu o é o poema homé ico, pela
emissão pa a alguns dos seus episódios e pe sonagens simbolicamen e mais signi i-
ca i os. Poema a poema, sucedem-se as imagens, em e a os de aço quase semp e
desapiedado e ealis a, no po meno dos mo imen os e das a i udes suge idas.
A p imei a secção do li o in i ula-se “Ciclopes”. Os Ciclopes são, no nosso empo,
mons os ci adinos que nem po isso deixam de se an opó agos. Ciclopes são os
Salões de Beleza, onde se busca uma “di i âmbica ilusão” (9) que não a as a nem en-
gana a mo e, donde saem mulhe es que, masca ando o peso da idade, insis en es em
gua da o que já pe de am, “ esis em à lição de Ma co Au élio”4, sem da “c édi o à
melancolia” e, sob e udo, calando a ce eza da ini ude e o sem-sen ido da ida. Ci-
clopes são os Cen os Come ciais, com o o ei o das lojas e a indi e ença a quem
passa e ao que se passa à nossa ol a, luga es que i u am o que há ou pode ia ha e
de humano e indi idual em cada um de nós. Ciclope é a alienação p ocu ada em iogas
e ou as écnicas ou iloso ias exis enciais que se c ê p opicia em au ocon olo e pa-
ci icação in e io , mas são quase semp e pose da moda ou másca a do azio e da pe-
Ma ia C is ina de Cas o-Maia de Sousa Pimen el
350
2Veja-se, em pa icula , o li o Mo imen os no Escu o (Lisboa: Relógio D’Água, 2005).
3Indispensá el, pa a a uição des e li o de poemas, é o conhecimen o da Odisseia, cuja ( e)lei u a se ecomenda na exce-
len e adução de F ede ico Lou enço (Lisboa: Co o ia, 2003).
4Na p. 10, no poema in i ulado “Salão de Beleza (2.ª Imp essão)”. A lição de Ma co Au élio é, ob iamen e, a dos es óicos
sob e a e eme idade da ida e a necessidade de acei a o que ela nos az, sob e a impe iosa p epa ação pa a a mo e, em
cada dia, na caminhada de ape eiçoamen o que, se não az de nós sapien es, nos ai ap oximando dessa me a.
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nú ia in elec ual. Ciclope é o p aze p ocu ado pelos “pis olei o[s] do amo ” (13), in-
decen es não pelo p aze em si, mas po que so e a am o co ação ap endendo na “es-
cola do e és”, onde não se sabe que o p aze só em sen ido no amo e pelo amo .
Ciclopes são os cu sos que o mam pa a “miudezas de u u o g adeado” (14), numa
sucessão de ma é ias sob e as quais não há luga a pe gun as nem in e ogações, em
que se espe a a docilidade e o seguidismo, compe ências que assegu am, no u u o,
um “esgo o co de p a a” (14). Ciclopes são os Op imis as e odos aqueles que sabem
ence na ida, que sabem acau ela -se e “[n]unca dão pon o sem an es o nó / mas
azem um laço po cima do nó” (15), que não hesi am an e a aude, a que chamam
“boa o una”, e sabem adap a -se às ci cuns âncias e aze as escolhas ce as, polí-
icas e eligiosas, ga an ia de sucesso e iqueza5. Ciclope é a gue a mo ida po po os
pode osos que, em nome de in e esses que não con essam ou de ódios a que não
que em pô égua, a acam e des oem ou os po os, mais acos e sem ecu sos. Ci-
clopes são po os, como o po uguês, “de cos as pa a o ma ” (17), po que an í ese do
que o am ou pode iam e sido, que, “à po ada que lhes dão chamam-lhe u u o” e,
igno an es e mesquinhos, abúlicos mas con encidos, “colocam a cabeça mais a jei o
do ca asco” (17). Ciclopes são a indi e ença, a acomodação, o egoísmo, os desejos
pequeninos das é ias em Va ade o ou o sonho co -de- osa com pe sonagens de con-
os de adas, p incesas e ou as ba bies, os “no os clássicos da ida” (19) com que,
“sem is eza nem emo so”, se iluminam as exis ências dos que i em con en es na
“apagada e il is eza” a que há mui os séculos nos habi uámos.
F en e aos Ciclopes que hoje nos ameaçam e a quase odos de o am, ica o homem em
si uação de ce co e, pa a quem é lúcido, pouco es a. No poema que echa es a secção
(19), em om de indignação que é comum nes a poesia e se inge amiúde de lai os de
sa casmo, exp essa o poe a o seu ama go desencan o pe an e o que nos é dado i e num
mundo de que os g andes he óis, e ambém os deuses, se ausen a am:
(…)
Nes e ce co, i e é uma ques ão
de p o oga o desalen o, de iludi
o in o únio: ce amos uma po a suicida,
desa amos a g a a a, icamos sa is ei os
quando o gelo, na bebida, é de boa qualidade.
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5Sob e a mesma emá ica, leia-se o poema “Feios, Po cos e Maus – E o e Scola (1976)”, de Mo imen os no Escu o, pp. 42-43,
e “Zapping gene a ion ou a queima das i as”, em E os Indi iduais (Lisboa: Relógio D’Água, pp. 63-64).
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Se olhamos pa a o chão desapa ece
o ho izon e; se olhamos pa a o céu
icamos sós. (…) (p. 20)
E, numa quase e ol a con a o con o mismo, a men i a, a alienação da “úl ima hipnose”,
pe gun a-nos no úl imo e so desse úl imo poema da secção, signi ica i amen e in i u-
lado “T e as”, “se is o que nós emos é um homem”.
Na segunda secção, “En e Cila e Ca íbdis”6, os mons os ma inhos do es ei o de
Messina, ambém eles de o ado es, aduzem-se em dois pólos que se excluem:
quando se consegue ugi a um pe igo, agua da-nos ou o. Como se se dissesse que
nunca o se humano conhece éguas. O homem i e, pois, semp e en e dois pólos
ágicos: das pe das maio es, como o sen ido de Deus, com maiúsculas7, às peque-
nas pe das do dia-a-dia; da exal ação da poesia à abulia do quo idiano; do amo à so-
lidão, ou da solidão absolu a à solidão acompanhada; da ida com sen ido ao azio
da exis ência; do ulgo que a ida pode e à espessu a que a mo e semp e em. E
o homem queda-se pe dido no meio dessas duas o ças, que o a aem e epelem a
um empo, sem sabe se a ecei a que lhe de am é “a indicada pa a sal a o mundo
ou apenas / se eliz” (28).
Essa ensão espelha-se exp essi amen e no poema “Sem Tí ulo” (33), em após o e a
Nausica (sic). A e ocação da bela e sedu o a jo em que desejou Ulisses e o que ia pa a
semp e, amo que nem começa a quando acabou, lê-se aqui aduzindo a elação amo-
osa que oi in e ompida, po e o do aman e, pouco depois do seu início:
O eu co po como um li o
esc i o em b aille,
Nausica, deixei-o
no capí ulo p imei o.
Inú il é pensa
nos pa ág a os de luz
que p ome ias.
Fei o es á o e o.
Ma ia C is ina de Cas o-Maia de Sousa Pimen el
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6Na edição, po lapso, o í ulo su ge g a ado “En e Cila e Ca ídbis”.
7“Poema com Apólogo Mo al” (23): “Há quem diga que depois da ba alha de Que oneia, / de Los Alamos, do Rap o das Sa-
binas, / nunca mais se pode esc e e com maiúsculas / a pala a ‘Deus’ […]”.
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Não é cego o amo :
é cego quem o oca
pelo hás de bem amado
da sua escu idão. (p. 33).
Pesa o om de a ependimen o pelo que se ez e não de e ia e -se ei o; pesa a ejeição
do amo que se adi inha a no o ei o do co po a descob i , p omessa de luz que, po ce-
guei a, hábi o de solidão ou medo de ousa a en ega, se oca pela escu idão da ida,
ambém ela sem í ulo, dos que não amam nem êm quem os ame.
T ágico con li o, o do homem que se pensa e olha sem dis a ce a sua condição: “Nos as-
os a desdi a, / no sex an e a ilusão. / A noi e nada ensina / e udo é sem emédio”.
(“Lamen o dos Remado es” 36). Te minando des a o ma a iagem en e Cila e Ca íbdis,
a o a p ossegue e ai “Da Pá ia dos Lo ó agos à Ilha de Ci ce”. A Pá ia dos Lo ó agos,
e a onde se bebe o esquecimen o, si ua-se em egiões a ins das habi adas pelos Ci-
clopes, po exemplo no p on o-a- es i onde a luz a i icial, os so isos de quem que
ende e a maciez dos ecidos, na banal, mas exc ucian e, indecisão “en e ganga e al-
godão” (39), aba am o pesa , a ânsia de in ini o e pe eição do mundo. Na ama ga luci-
dez do passa dos anos, conquis a-se o esquecimen o dos a ec os e da pleni ude no
con en amen o passagei o de um no o pa de calças e na ã ilusão de que du a ão mui o,
sem se de o ma em. A Pá ia dos Lo ó agos, que acolhem hospi alei amen e mas azem
esquece o umo que se açou, a e a que se busca a e o ( e)encon o com quem ama-
mos, es á ambém numa ga a a de inho, “Colhei a de 98”, que “Tal ez não seja o Bem,
a Beleza, / a Ve dade, mas é melho / do que a [nossa] ida e é ea, / cap ichosa, sem
e olução, de co / a inag ada e a oma nenhum” (41). A a i ude de desalen o e ince eza
pe an e o que a ida é e nos dá, pe an e aquilo em que nos ans o mou, con e e uma
ez mais impo ância a pequenos ges os de subs i uição da g andeza sonhada.
Mas se á possí el cala a memó ia, anula o sen imen o? Num poema que jus amen e se
chama “Esquece”, o poe a, alando consigo e com cada um de nós, e oca panaceias pa a
o io do co po e da alma, pa a a ama gu a do olha que e lec e a do espí i o, e logo con-
apõe: “(…) mas a alma / não esquece onde lhe dói: / eab e sua chaga / como um li o
de exe cícios, / lê in e e qua o páginas / e nada comp eende.” (40). E é essa pe ple-
xidade que empu a pa a a uga, pa a a en a i a de mudança, nem que seja muda de
casa pa a que, pelo menos po ins an es, seja possí el “a uma de ou a manei a as ilu-
sões”, “simula a libe dade” e “pô o dem en e os li os / e a ida.” (42). B e es ins-
an es de esquecimen o, em que se ol a a ac edi a na bonomia dos que nos odeiam,
He óis mí icos no quo idiano do século XXI: a poesia de José Miguel Sil a e José Má io Sil a
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O eu se p ende e o deixa “a li o”, numa enc uzilhada que o nome da es ação, Se e
Rios, suge e. Faça o que ize , O eu sai á a pe de : se hesi a , pe de Eu ídice; se es-
colhe pa ilha com ela o caminho da d oga, pe de -se-á ele.
Meio-dia. Uma mulhe p epa a udo em casa, pa a o almoço. Pôs a mesa pa a dois,
“como se ele iesse” (18). É Penélope que espe a, em cada dia, que Ulisses ol e, e o
epe i dos mesmos ges os al ez consiga o engano da espe ança. A sua o ina, cinzen a
e es ei a, enche-se do azio de quem há mui o não conhece o amo , de quem há mui o
esqueceu o calo do co po do ma ido dei ado a seu lado. Ilude essa solidão, como Pe-
nélope, azendo e des azendo o mesmo nape on: pa a quem há-de ela en ei a a casa?
As e as c escem no mu o do quin al, sem ha e quem as co e. Tem o empo odo
pa a enche de nada. Ele não ol a: como Ulisses, anda po esses ma es há mui os
anos. Na solidão des a mulhe , que pode p endê-la à ida senão a espe ança, eimosa,
de que p ecisamen e hoje ele eg esse?
Cinco da a de. Um homem anspo a en ulho num camião (22). Despeja-o jun o ao io.
Vol a a ca ega , ol a a despeja . In e mina elmen e, a é à exaus ão, sem pode pa a , no
limi e do que o se humano supo a. O seu a do e o seu o men o não êm im, conde-
nado a uma pena que pa ece e e na. Tal ez um dia, al ez um dia, o epouso chegue. Mas
a é lá, Sísi o ob igado à o u a de um Tá a o quo idiano, há-de epe i os ges os sem
sen ido, e supo a o es o ço, homem máquina sem empo nem pe missão pa a pa a .
No e da noi e. Um apaz de mo a despis ou-se num c uzamen o da cidade (24). Uma no-
ícia de jo nal egis a ia, al ez, o acon ecimen o, dizendo apenas o local do aciden e, a
idade e a p o issão do jo em. A ibui ia, dece o, a causa do desas e ao des espei o i -
esponsá el das eg as de ânsi o. O poema, po ém, mos a-nos o apaz a ou a luz: e
consegue-o dando-lhe um nome, He mes. Um He mes que, decaído do Olimpo, en-
ega pizas ao domicílio. Os seus sonhos o am mo endo, como os de mui os jo ens do
nosso empo, a quem a ida não ab e po as. Sonhou al o: como He mes, deus da co-
municação, sonhou se diploma a. Não conseguiu. Dei ou mão ao que apa eceu, e oi es-
a e a. Como He mes, mensagei o e a au o dos deuses. Ago a, le a a casa dos ins alados
na ida o que eles encomendam po ele one. O lei o sabe, po que possui os códigos
sociais do nosso empo, que a p essa de He mes se de e ia sob e udo à ob igação de
en ega o maio núme o de pizas possí el no ho á io de abalho: exigência da mul ina-
cional que e i a o emp ego mise á el a quem não p oduz o que lhe engo da os luc os,
aliada à necessidade de acumula go je as pa a se um pouco menos pob e. Como He -
mes, deus das enc uzilhadas, o apaz despis ou-se num c uzamen o en e duas uas da
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zona nob e da capi al. Co adas as asas do sonho, ambém as asas dos pés que He mes
lhe emp es a não o am bené icas. Na u gência da ambulância, oda a sua ju en ude dis-
pa a o ala me, e o cho o sol a-se no medo do silêncio sem ol a.
Cai o “C epúsculo” e “[ ]odos os caminhos le am à noi e, / à sua cilada de es elas e pe-
numb a” (25). E depois é meia-noi e. O dia, que começou com a d oga, passou pela soli-
dão, pelo abalho esc a o, pela de o a dos sonhos, chega ago a ao abismo da dependência
do álcool. P ome eu eg essa à abe na onde “julgou encon a a única o ma de / libe a-
ção” (26). Cedo iu que a emb iaguez não lhe concedia mais que uma “eu o ia p o isó ia,
/ es é il”, e que o álcool não lhe azia o ogo dos deuses que ambiciona a ouba -lhes.
Como os g andes condenados, ama ado pelas cadeias da bebida ao Cáucaso das abe nas,
P ome eu sen e a doença, impa á el e esc upulosa, a de o a -lhe o ígado e a alma.
Fecha-se assim o dia, pe cu so em que hou e ainda luga pa a ou as pe sonagens sem
nome, como as que habi am o as o can o do “Hades” do nosso empo que é a d oga,
ao qual descem pe an e o mal-es a dos que nele não en am nem que em en a , pe an e
a indi e ença de quase odos e a compaixão de alguns. Num poema e í el, “56
(Hades)”, em que a ba ca de Ca on e que conduz aos in e nos é o au oca o que passa
jun o aos bai os dos a ican es, onde “[e]n am em á ios sí ios e saem / semp e no
mesmo, ali em en e ao / mo o” (23) aqueles que ão comp a d oga e desce ao eino
dos mo os, emos o quad o da gen e ulga que iaja a a essando a cidade, as c ian-
ças i equie as chamando as mães, os elhos que ma am o empo em ol as e mais ol-
as sem umo ce o, os passagei os que êm um i o e um des ino, e em con as e emos
odos os deg edados da ida, que não olham pa a nada nem ninguém, na p essa de che-
ga ao luga do á ico e ansiosos na iminência da essaca. Colocamo-nos, al ez, do
lado de cá, segu os de que es amos na ma gem ce a da ida. Mas o silêncio emba a-
çado dos passagei os quando os d ogados saem do au oca o e deles ica apenas o
chei o e a imagem ebaixada é o de odos nós pe an e a dissolução de um ecido em que
os ios de ou o não en am na u didu a do empo.
A poesia de José Miguel Sil a e a de José Má io Sil a ob igam-nos a olha . A olha pa a den-
o de nós, em busca do que izemos da nossa iagem, do que izemos, ou nos ize am, da
espe ança, do que é ou pode ia se a nossa ida. Ob igam-nos a olha à nossa ol a e, numa
sa je a ou numa casa de janelas echadas, em b aços com ma cas de se ingas ou num os o
incado de pob eza e abalho, encon a mos os he óis mí icos de ou o a no nosso quo i-
diano, gen e que ecebeu nome e dimensão de se humano idên ico a nós.
He óis mí icos no quo idiano do século XXI: a poesia de José Miguel Sil a e José Má io Sil a
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E, no labi in o, maio e sem dú ida mais e í el que o de C e a, em que cada se humano
oi echado, só há uma eg a de sabedo ia, em ap oximação a Íca o: “Olha / pa a cima,
/ semp e pa a cima. / Única o ma de / iludi a e igem”, ce os de que o que de e e a
ce a das nossas asas não é “o sol mas o medo, / o eno me pa o da queda.”13
Ma ia C is ina de Cas o-Maia de Sousa Pimen el
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13 Es o e do poema de José Má io Sil a, Ap oximações a Íca o, pp 20-21.
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