Heróis míticos no quotidiano do século XXI: a poesia de José Miguel Silva e José Mário Silva.
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A Literatura Clássica ou os Clássicos na Literatura 1 A Literatura Clássica ou os Clássicos na Literatura: uma (re)visão da literatura portuguesa das origens à contemporaneidade coordenação científica: Cristina Pimentel e Paula Morão A literatura classica finalissimo:Layout 1 26-09-2013 15:05 Page 1
Paula Morão 4 coordenação de edição: Horácio Carvalho Guerra revisão: Ricardo Nobre, Ana Filipa Isidoro da Silva, Ana Maria Lóio e J. Filipe Ressurreição direcção gráfica: Rui A. Pereira ilustração da capa: Paulo Jorge Pereira paginação: Manuel Rocha colecção: documentos impressão: Publito-Braga primeira edição: Lisboa, Dezembro 2012 ISBN: 978-989-8465-17-7 depósito legal:!"#$%&'(! todos os direitos reservados © Campo da Comunicação, 2012 Av. de Berna, 11, 3.º 1050-036 Lisboa tel.: 21 761 32 10 fax: 21 761 32 19 e-mail: [email protected] facebook: Editora Campo da Comunicação A Literatura Clássica ou os Clássicos na Literatura: uma (re)visão da literatura portuguesa das origens à contemporaneidade coordenação científica: Cristina Pimentel e Paula Morão A literatura classica finalissimo:Layout 1 26-09-2013 15:05 Page 4
A Literatura Clássica ou os Clássicos na Literatura 5 Índice Cristina Pimentel | Paula Morão – Palavras prévias ................................. 7 João Dionísio – A erudição de D. Duarte (1391-1438) ............................... 9 Isabel Almeida – Camões e Mendes Pinto, leitores de clássicos ....................... 19 T. F. Earle – As comédias em prosa de Francisco de Sá de Miranda e de António Ferreira: um género clássico que se fez português .......................................... 29 Mafalda Frade | João Manuel Nunes Torrão – Ovídio e os Poetas do Cancioneiro G eral..... 45 André Simões – Os clássicos na literatura da Restauração: Os Applausosda U niversidadedeCoi m bra........................................ 63 Cláudia Teixeira – Cândido Lusitano: considerações introdutórias às traduções de Édipo (Sófocles e Séneca) e de Medeia (Eurípides e Séneca) no m sCXIII/1-1-d. da BPE . ........ 81 Ana Ferreira – Medeia segundo Bocage .......................................... 91 Paula Morão – “Quem é este novo e esdrúxulo poeta, este Sr. João Mínimo?”: Notas sobre o jovem Garrett .................................................... 105 Nuno Simões Rodrigues – A L ucréciade Garrett ................................... 117 Virgínia Soares Pereira – O mito de Ceres em Feliciano e Júlio de Castilho: Uma(re)visitaçãopelatradução..............................................133 Ricardo Nobre – “Já Safo não seria!...”: figuração romântica de Safo emVirações daMadrugada,de Maria Browne ............................................... 143 J. Filipe Ressurreição – O trágico na construção de um romance: O R egicida, de Camilo Castelo Branco ........................................... 157 Fátima Freitas Morna – Um desertoexílioou Narciso em tempo de O rpheu............. 169 Pedro Braga Falcão – Horácio Revisitado: O Silêncio e a Música de Ricardo Reis... ........ 179 A literatura classica finalissimo:Layout 1 26-09-2013 15:05 Page 5
Paula Morão 6 Maria do Céu Fialho – Vergílio Ferreira e a Antiguidade Clássica...................... 197 Ana Filipa Isidoro da Silva – Divindades recriadas: ecos da cultura grega em Sophia...... 207 Ana Alexandra Alves de Sousa – Mulheres Gregas na Poesia de Sophia ................ 217 Tatiana Faia – Eidolade Micenas em Agustina Bessa-Luís ........................... 231 Jorge Deserto – A cortina das palavras em Anfitrião outra vez de Augusto Abelaira ........ 241 António Manuel Ferreira – Ao contrário de Ulisses: Rui Knopfli ....................... 251 José Ribeiro Ferreira – Cassandra e Electra na poesia contemporânea: alguns exemplos . . . 259 Aires A. Nascimento – “Boca bilingue”: voz de outras vozes, a palavra poética em Ruy Belo. . . 271 Teresa Carvalho – Presenças clássicas na poesia de Vasco Graça Moura: da reverência à contrafacção................................................... 299 Paolo Fedeli – Nuno Júdice e la riscrittura dell’antico .............................. 319 Maria Helena da Rocha Pereira – O céu azul da Grécia na obra de Hélia Correia.......... 339 Maria Cristina de Castro-Maia de Sousa Pimentel – Heróis míticos no quotidiano do século XXI: a poesia de José Miguel Silva e José Mário Silva....................... 349 Ana Sofia Albuquerque e Aguilar – Bloom teve “os Gregos como antepassados, e isso nota-se” (ou as presenças clássicas em U m aViage m àÍndia,de Gonçalo M. Tavares). . . 363 Testemunhos .............................................................. 375 Hélia Correia ............................................................. 375 Mário de Carvalho ........................................................ 381 Vasco Graça Moura ....................................................... 385 Manuel Alegre ........................................................... 389 A literatura classica finalissimo:Layout 1 26-09-2013 15:05 Page 6
Heróis míticos no quotidiano do século XXI: a poesia de José Miguel Silva e José Mário Silva Maria Cristina de Castro-Maia de Sousa Pimentel* Trespassados os escudos dos Aqueus, os deuses retiraram-se dos campos de batalha e o canto dos aedos decaiu em jornalismo. As armas, hoje em dia, não têm quem as guie. Entregues a ciências tão exactas como a fome, o luto, as curvas estatísticas do saque, as balas não escutam o apelo dos caídos, cujas lágrimas evocam estes últimos heróis: Penélope e Cassandra, Antígona, Andrómaca, a núbil Ifigénia. Este poema encontra-se num livro de José Miguel Silva que tem por título Ulisses já não mora aqui, publicado em 20021. Nele se conta de um mundo sem heróis, o mundo que é hoje o nosso, de que anda ausente o sonho e a coragem, em que a grandeza de figuA Literatura Clássica ou os Clássicos na Literatura 349 * [email protected]. Universidade de Lisboa: Faculdade de Letras; Centro de Estudos Clássicos. 1Na p. 60. Todas as citações que faremos remetem para a edição & etc., com o número da página entre parênteses. A literatura classica finalissimo:Layout 1 26-09-2013 15:06 Page 349
ras como Antígona, Andrómaca ou Ifigénia se perdeu, esmagada ou espartilhada no quotidiano duro e cinzento de multidões de homens e mulheres formigas obrigados a baixar o olhar e que, por olharem o chão, não conseguem ou não podem ver o céu e sonhar o voo. Um mundo em que uns poucos, gigantes de poder ou influência social, pisam e aniquilam com frieza o carreirinho incessante das formigas. Um mundo onde o vinho ou a droga oferecem o esquecimento, onde a tragédia do quotidiano é afinal a que nos tolhe o amor e apaga a luz do desejo no olhar dos que nos amam. É desse mundo que a poesia de José Miguel Silva fala, sob um título que, pelo eco do filme Alice doesn’t live here anymore de Martin Scorcese, remete para a arte do cinema que frequentemente é matéria poética do Autor2e nos conduz de novo à Odisseia3, a eterna viagem do homem que deseja voltar à sua Ítaca e ao porto seguro do amor dos seus ou, pelo menos, ao contentamento com a paz encontrada na reposição de uma certa ordem, anterior ao desassossego da aventura e da descoberta. Ulisses já não mora aqui obedece a um plano cujo fio condutor é o poema homérico, pela remissão para alguns dos seus episódios e personagens simbolicamente mais significativos. Poema a poema, sucedem-se as imagens, em retratos de traço quase sempre desapiedado e realista, no pormenor dos movimentos e das atitudes sugeridas. A primeira secção do livro intitula-se “Ciclopes”. Os Ciclopes são, no nosso tempo, monstros citadinos que nem por isso deixam de ser antropófagos. Ciclopes são os Salões de Beleza, onde se busca uma “ditirâmbica ilusão” (9) que não afasta nem engana a morte, donde saem mulheres que, mascarando o peso da idade, insistentes em guardar o que já perderam, “resistem à lição de Marco Aurélio”4, sem dar “crédito à melancolia” e, sobretudo, calando a certeza da finitude e o sem-sentido da vida. Ciclopes são os Centros Comerciais, com o roteiro das lojas e a indiferença a quem passa e ao que se passa à nossa volta, lugares que trituram o que há ou poderia haver de humano e individual em cada um de nós. Ciclope é a alienação procurada em iogas e outras técnicas ou filosofias existenciais que se crê propiciarem autocontrolo e pacificação interior, mas são quase sempre pose da moda ou máscara do vazio e da peMaria Cristina de Castro-Maia de Sousa Pimentel 350 2Veja-se, em particular, o livro Movimentos no Escuro (Lisboa: Relógio D’Água, 2005). 3Indispensável, para a fruição deste livro de poemas, é o conhecimento da Odisseia, cuja (re)leitura se recomenda na excelente tradução de Frederico Lourenço (Lisboa: Cotovia, 2003). 4Na p. 10, no poema intitulado “Salão de Beleza (2.ª Impressão)”. A lição de Marco Aurélio é, obviamente, a dos estóicos sobre a efemeridade da vida e a necessidade de aceitar o que ela nos traz, sobre a imperiosa preparação para a morte, em cada dia, na caminhada de aperfeiçoamento que, se não faz de nós sapientes, nos vai aproximando dessa meta. A literatura classica finalissimo:Layout 1 26-09-2013 15:06 Page 350
núria intelectual. Ciclope é o prazer procurado pelos “pistoleiro[s] do amor” (13), indecentes não pelo prazer em si, mas porque soterraram o coração aprendendo na “escola do revés”, onde não se sabe que o prazer só tem sentido no amor e pelo amor. Ciclopes são os cursos que formam para “miudezas de futuro gradeado” (14), numa sucessão de matérias sobre as quais não há lugar a perguntas nem interrogações, em que se espera a docilidade e o seguidismo, competências que asseguram, no futuro, um “esgoto cor de prata” (14). Ciclopes são os Optimistas e todos aqueles que sabem vencer na vida, que sabem acautelar-se e “[n]unca dão ponto sem antes o nó / mas fazem um laço por cima do nó” (15), que não hesitam ante a fraude, a que chamam “boa fortuna”, e sabem adaptar-se às circunstâncias e fazer as escolhas certas, políticas e religiosas, garantia de sucesso e riqueza5. Ciclope é a guerra movida por povos poderosos que, em nome de interesses que não confessam ou de ódios a que não querem pôr trégua, atacam e destroem outros povos, mais fracos e sem recursos. Ciclopes são povos, como o português, “de costas para o mar” (17), porque antítese do que foram ou poderiam ter sido, que, “à porrada que lhes dão chamam-lhe futuro” e, ignorantes e mesquinhos, abúlicos mas convencidos, “colocam a cabeça mais a jeito do carrasco” (17). Ciclopes são a indiferença, a acomodação, o egoísmo, os desejos pequeninos das férias em Varadero ou o sonho cor-de-rosa com personagens de contos de fadas, princesas e outras barbies, os “novos clássicos da vida” (19) com que, “sem tristeza nem remorso”, se iluminam as existências dos que vivem contentes na “apagada e vil tristeza” a que há muitos séculos nos habituámos. Frente aos Ciclopes que hoje nos ameaçam e a quase todos devoram, fica o homem em situação de cerco e, para quem é lúcido, pouco resta. No poema que fecha esta secção (19), em tom de indignação que é comum nesta poesia e se tinge amiúde de laivos de sarcasmo, expressa o poeta o seu amargo desencanto perante o que nos é dado viver num mundo de que os grandes heróis, e também os deuses, se ausentaram: (…) Neste cerco, viver é uma questão de prorrogar o desalento, de iludir o infortúnio: cerramos uma porta suicida, desatamos a gravata, ficamos satisfeitos quando o gelo, na bebida, é de boa qualidade. Heróis míticos no quotidiano do século XXI: a poesia de José Miguel Silva e José Mário Silva 351 5Sobre a mesma temática, leia-se o poema “Feios, Porcos e Maus – Ettore Scola (1976)”, de Movimentos no Escuro, pp. 42-43, e “Zapping generation ou a queima das fitas”, em Erros Individuais (Lisboa: Relógio D’Água, pp. 63-64). A literatura classica finalissimo:Layout 1 26-09-2013 15:06 Page 351
Se olhamos para o chão desaparece o horizonte; se olhamos para o céu ficamos sós. (…) (p. 20) E, numa quase revolta contra o conformismo, a mentira, a alienação da “última hipnose”, pergunta-nos no último verso desse último poema da secção, significativamente intitulado “Trevas”, “se isto que nós vemos é um homem”. Na segunda secção, “Entre Cila e Caríbdis”6, os monstros marinhos do estreito de Messina, também eles devoradores, traduzem-se em dois pólos que se excluem: quando se consegue fugir a um perigo, aguarda-nos outro. Como se se dissesse que nunca o ser humano conhece tréguas. O homem vive, pois, sempre entre dois pólos trágicos: das perdas maiores, como o sentido de Deus, com maiúsculas7, às pequenas perdas do dia-a-dia; da exaltação da poesia à abulia do quotidiano; do amor à solidão, ou da solidão absoluta à solidão acompanhada; da vida com sentido ao vazio da existência; do fulgor que a vida pode ter à espessura que a morte sempre tem. E o homem queda-se perdido no meio dessas duas forças, que o atraem e repelem a um tempo, sem saber se a receita que lhe deram é “a indicada para salvar o mundo ou apenas / ser feliz” (28). Essa tensão espelha-se expressivamente no poema “Sem Título” (33), em apóstrofe a Nausica (sic). A evocação da bela e sedutora jovem que desejou Ulisses e o queria para sempre, amor que nem começara quando acabou, lê-se aqui traduzindo a relação amorosa que foi interrompida, por erro do amante, pouco depois do seu início: O teu corpo como um livro escrito em braille, Nausica, deixei-o no capítulo primeiro. Inútil é pensar nos parágrafos de luz que prometias. Feito está o erro. Maria Cristina de Castro-Maia de Sousa Pimentel 352 6Na edição, por lapso, o título surge grafado “Entre Cila e Carídbis”. 7“Poema com Apólogo Moral” (23): “Há quem diga que depois da batalha de Queroneia, / de Los Alamos, do Rapto das Sabinas, / nunca mais se pode escrever com maiúsculas / a palavra ‘Deus’ […]”. A literatura classica finalissimo:Layout 1 26-09-2013 15:06 Page 352
Não é cego o amor: é cego quem o troca pelo hás de bem amado da sua escuridão. (p. 33). Pesa o tom de arrependimento pelo que se fez e não deveria ter-se feito; pesa a rejeição do amor que se adivinhava no roteiro do corpo a descobrir, promessa de luz que, por cegueira, hábito de solidão ou medo de ousar a entrega, se troca pela escuridão da vida, também ela sem título, dos que não amam nem têm quem os ame. Trágico conflito, o do homem que se pensa e olha sem disfarce a sua condição: “Nos astros a desdita, / no sextante a ilusão. / A noite nada ensina / e tudo é sem remédio”. (“Lamento dos Remadores” 36). Terminando desta forma a viagem entre Cila e Caríbdis, a rota prossegue e vai “Da Pátria dos Lotófagos à Ilha de Circe”. A Pátria dos Lotófagos, terra onde se bebe o esquecimento, situa-se em regiões afins das habitadas pelos Ciclopes, por exemplo no pronto-a-vestir onde a luz artificial, os sorrisos de quem quer vender e a maciez dos tecidos, na banal, mas excruciante, indecisão “entre ganga e algodão” (39), abafam o pesar, a ânsia de infinito e perfeição do mundo. Na amarga lucidez do passar dos anos, conquista-se o esquecimento dos afectos e da plenitude no contentamento passageiro de um novo par de calças e na vã ilusão de que durarão muito, sem se deformarem. A Pátria dos Lotófagos, que acolhem hospitaleiramente mas fazem esquecer o rumo que se traçou, a terra que se buscava e o (re)encontro com quem amamos, está também numa garrafa de vinho, “Colheita de 98”, que “Talvez não seja o Bem, a Beleza, / a Verdade, mas é melhor / do que a [nossa] vida etérea, / caprichosa, sem evolução, de cor / avinagrada e aroma nenhum” (41). A atitude de desalento e incerteza perante o que a vida é e nos dá, perante aquilo em que nos transformou, confere uma vez mais importância a pequenos gestos de substituição da grandeza sonhada. Mas será possível calar a memória, anular o sentimento? Num poema que justamente se chama “Esquece”, o poeta, falando consigo e com cada um de nós, evoca panaceias para o frio do corpo e da alma, para a amargura do olhar que reflecte a do espírito, e logo contrapõe: “(…) mas a alma / não esquece onde lhe dói: / reabre sua chaga / como um livro de exercícios, / lê vinte e quatro páginas / e nada compreende.” (40). E é essa perplexidade que empurra para a fuga, para a tentativa de mudança, nem que seja mudar de casa para que, pelo menos por instantes, seja possível “arrumar de outra maneira as ilusões”, “simular a liberdade” e “pôr ordem entre os livros / e a vida.” (42). Breves instantes de esquecimento, em que se volta a acreditar na bonomia dos que nos rodeiam, Heróis míticos no quotidiano do século XXI: a poesia de José Miguel Silva e José Mário Silva 353 A literatura classica finalissimo:Layout 1 26-09-2013 15:06 Page 353
Orfeu se prende e o deixa “aflito”, numa encruzilhada que o nome da estação, Sete Rios, sugere. Faça o que fizer, Orfeu sairá a perder: se hesitar, perde Eurídice; se escolher partilhar com ela o caminho da droga, perder-se-á ele. Meio-dia. Uma mulher prepara tudo em casa, para o almoço. Pôs a mesa para dois, “como se ele viesse” (18). É Penélope que espera, em cada dia, que Ulisses volte, e o repetir dos mesmos gestos talvez consiga o engano da esperança. A sua rotina, cinzenta e estreita, enche-se do vazio de quem há muito não conhece o amor, de quem há muito esqueceu o calor do corpo do marido deitado a seu lado. Ilude essa solidão, como Penélope, fazendo e desfazendo o mesmo naperon: para quem há-de ela enfeitar a casa? As ervas crescem no muro do quintal, sem haver quem as corte. Tem o tempo todo para encher de nada. Ele não volta: como Ulisses, anda por esses mares há muitos anos. Na solidão desta mulher, que pode prendê-la à vida senão a esperança, teimosa, de que precisamente hoje ele regresse? Cinco da tarde. Um homem transporta entulho num camião (22). Despeja-o junto ao rio. Volta a carregar, volta a despejar. Interminavelmente, até à exaustão, sem poder parar, no limite do que o ser humano suporta. O seu fardo e o seu tormento não têm fim, condenado a uma pena que parece eterna. Talvez um dia, talvez um dia, o repouso chegue. Mas até lá, Sísifo obrigado à tortura de um Tártaro quotidiano, há-de repetir os gestos sem sentido, e suportar o esforço, homem máquina sem tempo nem permissão para parar. Nove da noite. Um rapaz de mota despistou-se num cruzamento da cidade (24). Uma notícia de jornal registaria, talvez, o acontecimento, dizendo apenas o local do acidente, a idade e a profissão do jovem. Atribuiria, decerto, a causa do desastre ao desrespeito irresponsável das regras de trânsito. O poema, porém, mostra-nos o rapaz a outra luz: e consegue-o dando-lhe um nome, Hermes. Um Hermes que, decaído do Olimpo, entrega pizas ao domicílio. Os seus sonhos foram morrendo, como os de muitos jovens do nosso tempo, a quem a vida não abre portas. Sonhou alto: como Hermes, deus da comunicação, sonhou ser diplomata. Não conseguiu. Deitou mão ao que apareceu, e foi estafeta. Como Hermes, mensageiro e arauto dos deuses. Agora, leva a casa dos instalados na vida o que eles encomendam por telefone. O leitor sabe, porque possui os códigos sociais do nosso tempo, que a pressa de Hermes se deveria sobretudo à obrigação de entregar o maior número de pizas possível no horário de trabalho: exigência da multinacional que retira o emprego miserável a quem não produz o que lhe engorda os lucros, aliada à necessidade de acumular gorjetas para ser um pouco menos pobre. Como Hermes, deus das encruzilhadas, o rapaz despistou-se num cruzamento entre duas ruas da Maria Cristina de Castro-Maia de Sousa Pimentel 360 A literatura classica finalissimo:Layout 1 26-09-2013 15:06 Page 360
zona nobre da capital. Cortadas as asas do sonho, também as asas dos pés que Hermes lhe empresta não foram benéficas. Na urgência da ambulância, toda a sua juventude dispara o alarme, e o choro solta-se no medo do silêncio sem volta. Cai o “Crepúsculo” e “[t]odos os caminhos levam à noite, / à sua cilada de estrelas e penumbra” (25). E depois é meia-noite. O dia, que começou com a droga, passou pela solidão, pelo trabalho escravo, pela derrota dos sonhos, chega agora ao abismo da dependência do álcool. Prometeu regressa à taberna onde “julgou encontrar a única forma de / libertação” (26). Cedo viu que a embriaguez não lhe concedia mais que uma “euforia provisória, / estéril”, e que o álcool não lhe trazia o fogo dos deuses que ambicionara roubar-lhes. Como os grandes condenados, amarrado pelas cadeias da bebida ao Cáucaso das tabernas, Prometeu sente a doença, imparável e escrupulosa, a devorar-lhe o fígado e a alma. Fecha-se assim o dia, percurso em que houve ainda lugar para outras personagens sem nome, como as que habitam o vasto canto do “Hades” do nosso tempo que é a droga, ao qual descem perante o mal-estar dos que nele não entram nem querem entrar, perante a indiferença de quase todos e a compaixão de alguns. Num poema terrível, “56 (Hades)”, em que a barca de Caronte que conduz aos infernos é o autocarro que passa junto aos bairros dos traficantes, onde “[e]ntram em vários sítios e saem / sempre no mesmo, ali em frente ao / morro” (23) aqueles que vão comprar droga e descer ao reino dos mortos, vemos o quadro da gente vulgar que viaja atravessando a cidade, as crianças irrequietas chamando as mães, os velhos que matam o tempo em voltas e mais voltas sem rumo certo, os passageiros que têm um fito e um destino, e em contraste vemos todos os degredados da vida, que não olham para nada nem ninguém, na pressa de chegar ao lugar do tráfico e ansiosos na iminência da ressaca. Colocamo-nos, talvez, do lado de cá, seguros de que estamos na margem certa da vida. Mas o silêncio embaraçado dos passageiros quando os drogados saem do autocarro e deles fica apenas o cheiro e a imagem rebaixada é o de todos nós perante a dissolução de um tecido em que os fios de ouro não entram na urdidura do tempo. A poesia de José Miguel Silva e a de José Mário Silva obrigam-nos a olhar. A olhar para dentro de nós, em busca do que fizemos da nossa viagem, do que fizemos, ou nos fizeram, da esperança, do que é ou poderia ser a nossa vida. Obrigam-nos a olhar à nossa volta e, numa sarjeta ou numa casa de janelas fechadas, em braços com marcas de seringas ou num rosto vincado de pobreza e trabalho, encontrarmos os heróis míticos de outrora no nosso quotidiano, gente que recebeu nome e dimensão de ser humano idêntico a nós. Heróis míticos no quotidiano do século XXI: a poesia de José Miguel Silva e José Mário Silva 361 A literatura classica finalissimo:Layout 1 26-09-2013 15:06 Page 361
E, no labirinto, maior e sem dúvida mais terrível que o de Creta, em que cada ser humano foi fechado, só há uma regra de sabedoria, em aproximação a Ícaro: “Olhar / para cima, / sempre para cima. / Única forma de / iludir a vertigem”, certos de que o que derrete a cera das nossas asas não é “o sol mas o medo, / o enorme pavor da queda.”13 Maria Cristina de Castro-Maia de Sousa Pimentel 362 13 Estrofe do poema de José Mário Silva, Aproximações a Ícaro, pp 20-21. A literatura classica finalissimo:Layout 1 26-09-2013 15:06 Page 362