scieee Science in your language
[po] (orig)

A Roma dos Flávios: gente e sentimentos nos Epigramas de Marcial

Read accessible full text

A Roma dos Flávios: gente e sentimentos nos Epigramas de Marcial

Author: Pimentel, Maria Cristina, 1954-
Publisher: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos Imprensa da Universidade de Coimbra
Year: 2012
DOI: http://dx.doi.org/10.14195/978-989-721-040-2_7
Source: https://repositorio.ulisboa.pt/bitstream/10451/32831/1/A%20Roma%20dos%20Fl%c3%a1vios.pdf
O poe a e a cidade no
mundo omano
C is ina Pimen el, José Luís B andão,
Paolo Fedeli (coo ds.)
IMPRENSA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA
COIMBRA UNIVERSITY PRESS
121
A Roma dos Flá ios: gen e e sen imen os nos Epig amas de Ma cial
A RomA dos Flá ios:
gen e e sen imen os nos Epig amas de mARciAl
Ma ia C is ina de Cas o-Maia de Sousa Pimen el
Uni e sidade de Lisboa
Cen o de Es udos Clássicos
Bajulado e obsceno: dois ó ulos que, ao longo dos empos, se cola am
ao poe a Ma co Valé io Ma cial e p ejudica am a a aliação dos seus lei o es,
guiados po es udos que, sucessi a e ac i icamen e, seguiam pe spec i as
he dadas de ou os, e, ambém, po p econcei os da ados e p incípios mo ais
mais in lexí eis, ainda que, quan as ezes, não in ei amen e since os. Es amos
hoje, pa a o bem e pa a o mal, libe os de cons angimen os que a ec em a
nossa lei u a dos au o es an igos, e podemos po isso olha pa a Ma cial com
olhos mais lúcidos, sem con undi alo li e á io com alo es mo ais. Isso
nos le a a ques iona , pe an e os quinze li os de epig amas, a pe spec i a do
poe a no ocan e ao pode ins i uído, bem como ao papel do sexo na sociedade
omana em que i ia e, é cla o, na sua p óp ia ida.
Rela i amen e à adulação, julgo pe inen e lança mos as seguin es ques ões:
Ma cial adulou po que quis adula , uma ez que admi a a o p inceps e a época
em que i ia? Ou ê-lo-á ei o po que lhe e a necessá ia e con enien e essa
a i ude pa a alcança a ama e, em úl ima ins ância, sob e i e ? Adian ando
uma espos a, e sem p ejuízo do deba e que es as pe gun as possam susci a ,
di ei que, quan o mais leio os Epig amas e es udo a época dos Flá ios e o dealba
da dos An oninos, mais me pa ece que a poesia de Ma cial deixa anspa ece
a simbiose en e dois sen imen os: a admi ação pela ob a ei a pelos p incipes e
pela exp essão do seu pode , e o desejo, a inal bem comp eensí el, de assegu a
a sua p óp ia ama e ga an i o pão de cada dia.
Ma cial chegou a Roma pelo ano 64 do séc. I da nossa e a. Vinha de
Bílbilis, a cidade pequenina onde nasce a, na Hispânia Ta aconense, luga ejo
que dece o lhe pa eceu acanhado pa a os seus sonhos e pa a o caminho
da ama que o seu alen o almeja a. De ou o modo, po que e ia pa ido?
Quando chegou à capi al do impé io, de imedia o se de e e deslumb ado
com a g andeza dos monumen os: que imp essão lhe e á ealmen e causado
a Domus Au ea e o colosso de Ne o, cujo espa en o se e á mais a de na
ob igação de exp ob a (Sp. 2), mo o o megalómano que os concebe a? Bem
dep essa o poe a se de e e deixado imp essiona pela agi ação e o equin e
das es as e dos jogos, pelo luxo dos icos e a au o idade dos pode osos. Tudo
e a ão di e en e da e inha de onde saí a e onde um dia, mui os anos depois,
desencan ado, ama go e gas o pelos anos e pela ida es ei a, há-de que e
ol a , eg esso que só se iu pa a e ela , nas gen es de Bílbilis, o espí i o
122
Ma ia C is ina de Cas o-Maia de Sousa Pimen el
acanho dos in ejosos e dos que espi am ai a con a quem ousa asga o
ho izon e1.
Em Roma, po ém, o poe a expe imen ou as di iculdades de quem não em
posses nem in luência: descobe a a conju a con a Ne o no ano 65, e caídos
em desg aça os pa onos que o ha iam acolhido2, es ou a Ma cial p ocu a
quem lhe ga an isse o sus en o. Não, não eg essou à e a na al: como o a ia
sem se con essa encido, ão pouco empo após a pa ida? Ficou, pois, em
Roma, e oi dei ando mão ao que podia. E o que podia e a pouco mais do que
a ida de cliens, ia-sac a que ap ende a pe co e , ainda quando as manhãs
chu osas, e o sono ab e iado, e a humilhação das espe as e dos pedidos, no
álgido limia das casas de pa onos a ogan es e ing a os que ão bem e a ou
nos epig amas3, lhe deixa am o ama go de boca de quem não é, e sen e que
não é, li e4. Longos anos de dese o, os que a a essou, aqueles em que nada
sabemos do que e á ei o: mas podemos imagina que, a pa da ede de amici
que oi ecendo, uns mais chegados, ou os mais i anos e egoís as, lá oi o
nosso poe a obse ando, quase semp e mo daz, mas algumas ezes ambém
ocado de compaixão ou mo ido de simpa ia, os inúme os aços da comédia e
a mão-cheia de chagas da agédia da ida em Roma e dos seus p o agonis as,
ins an âneos que gua da a na memó ia e de que depois azia a sei a dos seus
epig amas.
Com a chegada de Ti o ao pode , Ma cial encon a a opo unidade de,
en im, colhe da sua a e algum u o mais suma en o do que as migalhas
da mesa daqueles que lhe ga an iam a espó ula diá ia e a decência de uma
1 … a má-língua dos munícipes e a in eja, em luga da c í ica, e um ou dois malé olos, demasiados
pa a luga ão pequeno é o que Ma cial encon a no seu eg esso à e a na al, como diz na epís ola
in odu ó ia do Li o 12, di igida a Te êncio P isco. Na ci ação dos passos aduzidos, usamos
a edição dos Epig amas de Ma cial, com in odução e no as de C is ina Pimen el, e adução de
Del im Fe ei a Leão (Li os Dos Espec áculos, 4, 7, 11 e 13), José Luís B andão (Li os 1, 2, 6, 9
e 12) e Paulo Sé gio Fe ei a (Li os 3, 5, 8, 10 e 14), Lisboa, 4 ol., 2000-2004.
2 Conc e amen e os Sénecas e os Pisões, que e oca com saudosa g a idão em 4.40,1-2. C .
12.36.8.
3 São eco en es, nos epig amas, as e e ências aos a ia e aos limina dos pode osos, i.e., dos
pa onos que não e am amici, o que se ê nas sinédoques que designam a casa: os clien es não
passa am do limia ou, na melho das hipó eses, do a ium, jamais inham acesso ao co ação
da domus, ese ado pa a ín imos e p óximos. V. .g., 1.70.13 (limen supe bum); 5.20.5 (a ia
po en um); 12.18.4 (limina po en io um); 12.68.2 (a ia ambi iosa), além de 1.55.5-6; 9.100;
10.10; 70; 74; 11.29(26); 12.29… Ou a si uação amiúde denunciada no compo amen o
dos pa onos é a das cenae em que aos clien es e am se idos alimen os e bebidas di e en es (e,
ob iamen e, de mui o pio qualidade) dos que os que o pa ono consumia. V., e.g. 1.20; 3.60;
4.68; 6.11; 10.49… Não admi a, pois, o desaba o de 5.22.13: Sempe inhumanos habe o iciosus
amicos (Semp e desumanos em o clien e os seus amigos!).
4 A um cliens como ele, que i e e se alimen a à cus a de pa onos, mas pensa que em o
di ei o de ala mal deles e insul á-los, assegu a o poe a, lapida men e: Libe non po es e gulosus
esse (9.9.4: li e e guloso ao mesmo empo é que não podes se ). C . b. 2.53.
123
A Roma dos Flá ios: gen e e sen imen os nos Epig amas de Ma cial
oga. Pese embo a alguma c í ica que elacionou o Libe Spec aculo um com
a celeb ação de jogos em empo de Domiciano, c emos que oi em 80, pa a
os abulosos ludi de inaugu ação do An i ea o dos Flá ios, depois conhecido
po Coliseu, como celeb ação desses cem dias em que odo o mundo omano,
numa a iedade de aças e po os (Sp. 3; 27.1), se concen ou na capi al pa a
e o espec áculo com que o impe ado os en a a o seu pode , que Ma cial
compôs, e di ulgou jun o de quem impo a a que o conhecesse, o li inho
que nos e ela alguém que, no meio da mul idão, se ascina com o apa a o,
com a g andiosidade dos di e en es momen os do espec áculo: os homens e os
animais na a ena, a é as mulhe es a en en a em as e as em inusi ada uena io,
os balle s aquá icos, a naumaquia, as abulae my hologicae com as suas an ás icas
maquina ias – e a c ueza do seu inal –, os pa es de gladiado es ou os bes ia ii
de excepção, a chu a de aça ão caindo sob e os espec ado es, e, lá em cima
na ibuna impe ial, o p inceps, a quem odos, homens e animais, p es a am
a homenagem que lhe e a de ida5. A é que pon o Ma cial se deixa guia pela
genuína admi ação pelo senho de Roma, nunca o sabe emos. Mas, no om com
que o sen imos ib a pe an e o que os seus olhos êem, podemos desco ina ,
pelo menos, a since idade de quem admi a o que Roma dá ao mundo, e o
o gulho de quem se sen e pa e in eg an e de um po o que conside a supe io
a odos os ou os. Po mui o que hoje em dia, lemb ados de ideologias que
ex e mina am milhões de se es humanos conside ados in e io es, eco dados, a
cada no iciá io, de que esses não são empos i e oga elmen e esquecidos, po
mui o que hoje em dia, epi o, al o gulho nos pa eça malsão e de consequências
sinis as, enca a essa a i ude à luz dos nossos alo es é in e p e ação abusi a
da pa e de quem se deb uça sob e o pensa e o sen i de um Romano, e um
Romano das úl imas décadas do séc. I, quando o impé io es a a p es es a a ingi
a sua maio ex ensão, ainda que, sem que delas se desse con a, as semen es do
declínio i essem já começado a ge mina .
Recompensado po Ti o, con i mado po Domiciano na benesse que
o guinda a a es a u o social mais ele ado, de en o do ius ium libe o um –
mas não dos ês ilhos... – ibuno e eques6, sem oda ia e conquis ado o
que nunca i e a nem i ia a e , a e ec i a independência económica, como
podemos admi a -nos de que Ma cial enha con inuado a ilha , cada ez com
mais empenho, os es a ados a alhos da adulação? Como podemos es anha
5 V. uena iones (Sp. 11; 12; 13; 14; 15; 16; 19; 21; 22) e mulhe es na a ena (Sp. 7 e 8; c .
Díon 66.25); balle s aquá icos (Sp. 30; 34); naumaquias (Sp. 27; 34); abulae my hologicae, mimos,
hid omimos e pan omimas (Sp. 6; 9; 10; 24; 25; 28; 29); pa es de gladiado es (Sp.23; 31) ou
bes ia ii excepcionais (como Ca pó o o: Sp. 17; 26; 32); as spa siones, chu a de aça ão lançada
sob e os espec ado es, com p op iedades umiga ó ias e odo í e as (Sp. 3.8); a p oskynesis de
animais (Sp. 20; 33).
6 C . 2.91; 92; 3.95.5-6; 5.13.2; 9.97.5-6.
124
Ma ia C is ina de Cas o-Maia de Sousa Pimen el
que ele enha ac edi ado que o seu alen o ha e ia de me ece a de ida gló ia
en e os Romanos e, em especial, de conquis a -lhe um luga de p e e ência
jun o daquele que de inha nas mãos o pode absolu o, de ida e de mo e, sob e
udo e sob e odos?
Acei emos, pois, es a e idência: Ma cial, e ec i amen e, adula, e a sua
a s molda o seu ingenium de modo a desen ol e uma an ás ica – ainda que
quase nunca bem-sucedida – es a égia de adulação. Ma cial concen a-se e
emp ega odos os ecu sos que o epig ama lhe pe mi e, ou que ele p óp io lhe
con e e, pa a consegui um objec i o: o encómio de um momen o – aquele
em que i ia e esc e ia – e o de quem, nesse momen o, manda a em Roma.
Deixemos de pa e qualque juízo de alo sob e os quinze anos do p incipado
de Domiciano, aqueles du an e os quais Ma cial esc e eu e publicou a maio ia
dos seus li os, an o mais que, como é ób io, não é ácil aça a bissec iz
en e a isão lauda ó ia que nos de am au o es como, além de Ma cial, Es ácio,
Sílio I álico, a é Quin iliano, e a pe spec i a de condenação, ão pa cial quan o
o encómio, adop ada po esc i o es como Táci o, Plínio, Ju enal, Sue ónio
ou ambém Epic e o, Filós a o, Díon Cássio: odos, a inal, esc i o es que o
o am quando já podiam esc e e em segu ança, após a mo e de Domiciano,
e quando, pa a eng andece os no os senho es de Roma, Ne a, T ajano,
Ad iano, ha ia que pin a com as mais neg as co es a i ania a que eles ha iam
pos o im, como de es o as no mas e ó icas do encómio p opunham e
ensina am. Ma cial, que ambém en ou aze o mesmo, p ocu ando, de o ma
que a nós nos pa ece quase pa é ica, e ac a -se dos lou o es cada ez mais
desb agados que ece a a Domiciano, pouco ou nada conseguiu. Ao con á io
do que sonha a e do que julga a possí el, ele nunca deixou de pe ence àquelas
anjas da sociedade que não êm peso nem in luência. Tal ez po isso nos dê a
sensação de que ninguém pa ece e -se p eocupado com ele quando chegou o
momen o do ajus e de con as. Nada lhe acon eceu de g a e, mas ambém nada
lhe acon eceu de bom. Con inuou a sua apagada idinha de cliens, ag a ada
pelo peso dos anos e al ez po alguma má consciência pela ol a- ace que oi
ob igado a aze , e semp e, semp e sem mui o dinhei o nem a du adou a ama
que ambiciona a. Tal ez po isso, ambém, não possamos deixa de sen i a
since idade do seu cansaço, do seu desalen o, da en anhada elhice que, mais
do que o co po, lhe olhia o espí i o, quando esol e ol a à e a na al, onde,
pa a que o ciclo se eche, nada encon a do que espe a a, a não se as ho as em
que pode do mi a é a manhã se al a7, e onde, ao in és, encon a udo aquilo
7 O desejo de do mi sem en a es e incómodos pa ece a a essa os Epig amas: . 1.49.36;
10.74.12; 12.57.28. Num epig ama (12.18) di igido a Ju enal, que icou p eso em Roma à ida
de cliens enquan o Ma cial usu ui do sossego de Bílbilis, gaba-se o poe a de e conquis ado o
gozo de um sono desca adamen e longo / que, amiúde, nem a e cei a ho a queb a ( . 13-14: Ingen i
uo inp oboque somno, / Quem nec e ia saepe umpi ho a). Po isso, em 12.68, assegu a que

125
A Roma dos Flá ios: gen e e sen imen os nos Epig amas de Ma cial
de que ugi a aos in e e poucos anos: a es ei eza das men es e as den adas da
in eja. E aí, nesse poço undo que lhe an ecedeu a mo e, sen imos ambém
que o seu amo po Roma e a genuíno, aduzido nas saudades dos amigos e
da ida que lá le a a, na al a dos ea os, dos pó icos, dos ecin os dos jogos,
das biblio ecas, das con e sas com gen e que, como ele, inha o espí i o ino e
apu ado pa a as a es8 e ambém, po que não?, pa a a uni e salmen e humana
ac i idade do mexe ico e da má-língua.
E en ão, numa isão que é e ospec i a ela i amen e à lei u a c onológica
dos li os dos Epig amas, pe cebemos que a adulação não oi assim ão
desp o ida de alguma since idade po pa e do poe a, quando lou a a as
qualidades do p inceps, as suas i ó ias mili a es – as que ob e e de ac o e as que
a p opaganda lhe e á a ibuído – as medidas e as leis p omulgadas, a polí ica
de cons uções e de jogos que emp eendeu, en im, numa pala a, en endemos
o móbil do poe a quando c i e iosamen e escolhe os acon ecimen os e
ci cuns âncias que conside ou impo an e enal ece (ou deneg i ), em campos
ão di e sos como o social, o mili a , o polí ico e eligioso, o adminis a i o,
como ambém comp eendemos o seu silêncio sob e ou as ci cuns âncias que,
menos dou adas, menos anspa en es, não cabiam na moldu a encomiás ica
que Ma cial, li o a li o, numa e igem pa a nós obsidian e e às ezes di ícil
de acei a , ai es ei ando e apu ando a é ao limi e que as pala as pe mi em.
No en an o, insis imos nes e aspec o, que admi ação há em que Ma cial,
que, mal chega a da Hispânia, iu a des uição causada pelo eno me incêndio
que de as ou Roma em 64, que iu a cidade a asada pela gue a ci il do ano
69, assolada pelos soldados de Vi élio que a ocupa am e pelos de Vespasiano
que a oma am de assal o, que a iu de no o des oçada po um g a e incêndio
du an e o p incipado de Ti o, que admi ação há, pois, que ele se enha deixado
empolga pela econs ução que Domiciano le ou a cabo, ee guendo o que
há décadas jazia em uínas (5.7), cons uindo no os e mais esplendo osos
monumen os ci is e eligiosos, enchendo as colinas com es á uas suas, apenas
de me ais p eciosos, e de a cos magní icos em celeb ação das suas i ó ias9?
Que nos espan a que ele, ap eciado como e a de anda pelas uas dece o
o am os o icia ma u inos que, na sua condição de cliens, inha de cump i , que o le a am a
deixa a capi al e a e ugia -se na e a na al, ad e indo po im: Ag ada-me o sossego e o sono que
a g andeza de Roma / me nega a en ão: eg esso, se nem aqui posso do mi ( . 5-6).
8 Me gulhado na pasmacei a p o inciana (in … p ouinciali soli udine), Ma cial con essa, na
epís ola in odu ó ia do li o 12, que sen e al a dos ou idos da cidade, da a gúcia dos juízos, da
ecundidade dos a gumen os, pois não em as biblio ecas, os ea os, as euniões, onde se es uda sem que
o p aze se essin a.
9 C . 1.70.5-6; Sue . Dom. 13.6-7; Plin. Pan. 53.3; Díon 67.8.1; 68.1.1. São inúme os os
epig amas em que o poe a exal a a ac uação polí ica de Domiciano, aduzida no eng andecimen o
da cidade e numa época que ele diz en e odas magní ica, pelo espei o das leis, da mo al, da
adição, dos i os e cul os. A í ulo de exemplo, . 5.19.1-6; 6.4; 8.36; 39; 65; 9.3; 5; 101; 10.28…
126
Ma ia C is ina de Cas o-Maia de Sousa Pimen el
em amena ca aquei a com os amigos, de olho ale a a desco ina os pod es
e os ícios do seu semelhan e, enha achado jus íssima a de e minação
de Domiciano de limpa das uas de Roma de oda a pa a e nália dos
come cian es que a a anca am os passeios e a apalha am o ânsi o com a
exposição da aqui ana da sua me cado ia (7.61), e se enha encan ado com o
embelezamen o de casas, janelas, emplos e es á uas com osas que o p inceps
manda a i exp essamen e de es u as que as p oduziam, mesmo no In e no
(6.80; 13.127)?
Ainda assim, po ém, e co endo o isco de aze mos o que an o que emos
e i a , não podemos deixa de epa a que mui as das medidas a que Ma cial
dá o seu a al são absolu amen e e elado as da sua isão conse ado a da
sociedade e do go e no do es ado. Tal é mani es o quando lou a odas
as medidas que Domiciano p omulgou ou eins i uiu eabili ando o mos
an iquus, como dizia se imb e da sua o ien ação polí ica. Esse deside a o
ab angeu campos como a mo alização dos cos umes ou a es au ação do
adicional o denamen o da sociedade, com o necessá io espei o pela
hie a quia dos es a os que a compunham. Pa a só e e i mos alguns casos,
lemb emos como, com o pano de undo dos ei e ados encómios à Pudici ia
que eg essa a a Roma pela mão do e cei o Flá io, Ma cial ejubila com
a eposição em igo da lex Iulia de adul e iis coe cendis – a é po que os
in ac o es se punham a jei o da sua mo dacidade epig amá ica!10 – ou com a
eins i uição da lex Roscia hea alis, que, nos ecin os dos jogos, ese a a à
classe eques e as p imei as ca o ze ilas imedia amen e a segui aos luga es
ads i os aos senado es11 – e aqui, como se imagina, o eques Ma cial e a pa e
in e essada na ga an ia de um luga zinho jei oso quando ia aos espec áculos
de que an o gos a a. Nessa mesma o dem de ideias, quando o poe a se sen e
bene iciado po ce as medidas e, po isso, não pode senão apoiá-las, ainda
que al não possa es a isen o da pa cialidade de quem é juiz em causa p óp ia,
não podemos es anha que Ma cial não enha icado indi e en e à a iedade
ac escida – e al ez ambém à possibilidade de um maio olume de apos as
– que azia ao espec áculo a in odução de duas no as ac iones, a au a a e a
pu pu ea, que ie am jun a -se às qua o já exis en es nas co idas do ci co12.
No ocan e à pa cialidade de Ma cial, não podemos deixa de epa a que há
10 C . 2.61; 83; 5.75; 6.2.1; 7; 22; 45; 91; 9.5.8;
11 C . 3.95.9-10; 4.67; 5.8; 14; 23; 25; 27; 35; 38; 41; 6.9. V. Sue . Dom. 8.4.
12 14.55; 131; c . Sue . Dom. 7.1; Díon 67.4.4. As ac iones que já exis iam e am a uene a
(azul), a p asina ( e de), a alba (b anca) e a ussa a (enca nada). As duas p imei as e am as que
g anjea am mais adep os. Os impe ado es, consoan e que iam pa ece mais popula es ou mais
a is oc a as, di ulga am o seu apoio, espec i amen e, à ac io p asina ou à uene a. Domiciano
‘ o cia’ pelos Ve des, pelo que, du an e o seu p incipado, segundo o p óp io Ma cial deixa
anspa ece , os Azuis não inham g andes hipó eses de i ó ia (6.46; 11.33). O sucesso das
no as ac iones não du ou mais que o empo de ida do seu c iado .
127
A Roma dos Flá ios: gen e e sen imen os nos Epig amas de Ma cial
uma única medida de Domiciano que ele não apoia, e con a a qual desen ol e
aquilo que hoje chama íamos uma as a campanha de con es ação: a a-se
da ans o mação da spo ula de ida pelos pa onos aos seus clien es que, po
imposição impe ial, passa a de en ega de dinhei o à ob igação de uma ec a
cena. Mas aí, é cla o, Ma cial é mais uma ez pa e in e essada e em com
ele, no co o de p o es os, os dois lados da elação clien ela : nem os pa onos
que em da uma cena diá ia à mul idão de clien es que lhes se em an es pa a
as campanhas polí icas e pa a a os en ação pública do pode que de êm, nem
os clien es es ão in e essados, po que lhes é ma e ialmen e impossí el, em
sob e i e , a oco de an a cansei a dos o icia a que es ão ob igados, com a
única e eição diá ia que assim e iam ga an ida, com a ag a an e de, como
e a equen e, se compos a po comida e bebida de segunda ou e cei a
escolha. Na u almen e, quando a de e minação oi e ogada, o poe a não
pôde senão ejubila 13, pois ol a a a pode ecebe , de cada um dos seus
pa onos, cem quad an es, o que lhe ia dando pa a os gas os.
Pa a a adulação de ou as pe sonagens dos epig amas, al ez já seja mais
di ícil desco ina ou os mo i os além daqueles que p esidem ao desejo de
consegui acesso às mais al as ins âncias impe iais, ou, pelo menos, de ga an i
a ajuda daqueles que g a i a am em o no do cen o do pode , que o mesmo é
dize do impe ado . Nos seus lou o es, Ma cial p ocede segundo um esquema
de cí culos que, em e mos de pode e in luência, p og essi amen e se a as am
de um cen o, ob iamen e ocupado pelos p incipes sob quem esc e eu, Ti o,
Domiciano, Ne a e T ajano, al os p e e enciais da sua poesia, incluindo nessa
galáxia de as os ambém os memb os da amilia impe ial já desapa ecidos, em
cul o endido a quem o a ans o mado em diuus14.
Em seguida, não enjei a o poe a, numa espécie de segunda linha es a égica,
a an agem de adula ou e oca aqueles que, seguindo ca ei as polí icas
ou mili a es de ele o, e am esponsá eis pela conc e ização dos desígnios
impe iais, ou aqueles que, pela o una ou es a u o de que goza am, pe enciam
aos es a os polí ico-sociais dominan es. Pa a só e e i mos alguns exemplos
eloquen es, nos Epig amas há espaço pa a al os uncioná ios impe iais como
Sílio I álico, Plínio-o-Moço, Cláudio E usco e seu pai, a a ionibus de Tibé io
e dos impe ado es que lhe sucede am, Licínio Su a, An ís io Rús ico, Domício
Apolina , M. An ónio P imo, Mécio Céle e, legado na Hispânia Ci e io ,
Is âncio Ru o, que eio a se p ocônsul da Bé ica, o ico e e udi o magis ado
A úncio Es ela15. A es es nomes jun am-se ou os, ligados ao campo da a e,
13 C . 3.7; 14; 30; 60.
14 Conc e amen e, a sob inha, Júlia (6.3; 13; 9.1), ilha de Ti o, que se disse e sido sua
aman e e e mo ido na sequência de um abo o que Domiciano a ob igou a aze , e o ilho que,
em 73, e e de sua mulhe , Domícia Longina, mo o de en a idade (4.3; 9.86).
15 Sem exaus i idade, egis em-se: Sílio I álico – 4.14; 6.64; 7.63; 8.66; 9.86; 11.48; 50(49);
128
Ma ia C is ina de Cas o-Maia de Sousa Pimen el
como Rabí io (7.56; 10.71), o a qui ec o que desenhou e cons uiu a abulosa
Domus Flauia no Pala ino, ou da li e a u a, como Quin iliano, p ecep o
dos ilhos adop i os de Domiciano (2.90), ou Colino (4.54) e Ca o (9.23;
24), p emiados, espec i amen e, nos ludi Capi olini e nos ludi Albani, jogos
ins i uídos po Domiciano. En im, uma panóplia de nomes dos que hoje
di íamos ‘coluná eis’.
Quan o aos libe os, a inal ambém memb os da amilia impe ial, Ma cial
escolhe aqueles que, den o do Pala ium, inham unções elacionadas com o
a amen o e a endimen o do p inceps, pois, na u almen e, ê-os como ulc ais
no p ocesso de adulação que emp eende: a con i ência diá ia com o impe ado
e a in imidade que daí ad inha azem deles – pelo menos assim o julga Ma cial
– os in e mediá ios ideais pa a que o poe a ascenda ao a o do p inceps. Pa a
que seja e iden e a dimensão des e ‘cí culo’ de pe sonagens que Ma cial en a
– quase semp e sem sucesso – ganha pa a a sua causa, lemb emos b e emen e
quem eles e am: Pa énio, o cubicula ius de Domiciano, que acabou po in eg a
o g upo que planeou e execu ou o assassínio do impe ado ; Eu emo, libe o de
o igem g ega que desempenha a unções ambém de mo domo ( iclinia cha) de
Domiciano; Sige o, ou o dos seus minis i, que ambém eio a con a -se en e os
amici e libe i impe iais que planea am e execu a am o homicídio de Domiciano;
Sex o, libe o do p inceps, seu sec e á io e biblio ecá io; En elo, seu a libellis, ao
que pa ece ambém um dos seus u u os assassinos16; Flá io Eá ino, escanção
de Domiciano e seu pue delica us, p e e ido en e odos, a quem Ma cial dedica
nada menos que um ciclo de seis epig amas (9.11; 12; 13; 16; 17; 36), dece o no
momen o em que o jo em a ingia o auge do a o do p inceps.
O poe a não hesi a mesmo pe an e o lou o de ou o g upo de
colabo ado es p óximos de Domiciano, cons i uído pelos dela o es. O exemplo
mais exp essi o é o de Ma co Aquílio Régulo, de quem Ma cial nos deixou um
e a o elogioso que em udo con as a com aquele que ou as on es, como
Plínio e Táci o, aça am17. E ambém não despe diça a ocasião de adula
C ispino, p o egido e amigo de Domiciano, aquele sob e quem Ju enal dizia
que di icile es sa u am non sc ibe e18.
Pode íamos ac escen a a es es nomes o de mui os ou os que, po es a
ou aquela azão, se encon a am p óximos do pode , e, sob e udo po isso,
Plínio-o-Moço – 10.20(19); Cláudio E usco e seu pai – 6.42; 7.40; Licínio Su a – 6.54.9;
7.47; An ís io Rús ico (e a mulhe , Nig ina) – 4.75; 9.30; Domício Apolina – 4.86; 7.26; 89;
10.30; 11.15; M. An ónio P imo – 10.23; 32; Mécio Céle e – 7.52; Is âncio Ru o – 7.68; 8.50;
73; 12.95.4; 98.5. A úncio Es ela, mais amigo que pa ono, pelo que lemos nos epig amas, é
p esença cons an e na ob a de Ma cial.
16 C . 4.45; 5.6; 8.28; 9.49;11.1; 12.11 (Pa énio); 4.8 (Eu emo); 4.78 (Sige o); 5.5 (Sex o);
8.68 (En elo).
17 1.12; 82; 111; 2.74; 93; 5.10; 21; 28.6; 63; 6.38; 64.11…
18 1.30. Em Ma cial, . 7.99; 8.48.