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A Roma dos Flávios: gente e sentimentos nos Epigramas de Marcial

Pimentel, Maria Cristina, 1954-

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O poeta e a cidade no mundo romano Cristina Pimentel, José Luís Brandão, Paolo Fedeli (coords.) IMPRENSA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA COIMBRA UNIVERSITY PRESS 121 A Roma dos Flávios: gente e sentimentos nos Epigramas de Marcial A RomA dos Flávios: gente e sentimentos nos Epigramas de mARciAl Maria Cristina de Castro-Maia de Sousa Pimentel Universidade de Lisboa Centro de Estudos Clássicos Bajulador e obsceno: dois rótulos que, ao longo dos tempos, se colaram ao poeta Marco Valério Marcial e prejudicaram a avaliação dos seus leitores, guiados por estudos que, sucessiva e acriticamente, seguiam perspectivas herdadas de outros, e, também, por preconceitos datados e princípios morais mais inflexíveis, ainda que, quantas vezes, não inteiramente sinceros. Estamos hoje, para o bem e para o mal, libertos de constrangimentos que afectem a nossa leitura dos autores antigos, e podemos por isso olhar para Marcial com olhos mais lúcidos, sem confundir valor literário com valores morais. Isso nos leva a questionar, perante os quinze livros de epigramas, a perspectiva do poeta no tocante ao poder instituído, bem como ao papel do sexo na sociedade romana em que vivia e, é claro, na sua própria vida. Relativamente à adulação, julgo pertinente lançarmos as seguintes questões: Marcial adulou porque quis adular, uma vez que admirava o princeps e a época em que vivia? Ou tê-lo-á feito porque lhe era necessária e conveniente essa atitude para alcançar a fama e, em última instância, sobreviver? Adiantando uma resposta, e sem prejuízo do debate que estas perguntas possam suscitar, direi que, quanto mais leio os Epigramas e estudo a época dos Flávios e o dealbar da dos Antoninos, mais me parece que a poesia de Marcial deixa transparecer a simbiose entre dois sentimentos: a admiração pela obra feita pelos principes e pela expressão do seu poder, e o desejo, afinal bem compreensível, de assegurar a sua própria fama e garantir o pão de cada dia. Marcial chegou a Roma pelo ano 64 do séc. I da nossa era. Vinha de Bílbilis, a cidade pequenina onde nascera, na Hispânia Tarraconense, lugarejo que decerto lhe pareceu acanhado para os seus sonhos e para o caminho da fama que o seu talento almejava. De outro modo, porque teria partido? Quando chegou à capital do império, de imediato se deve ter deslumbrado com a grandeza dos monumentos: que impressão lhe terá realmente causado a Domus Aurea e o colosso de Nero, cujo espavento se verá mais tarde na obrigação de exprobrar (Sp. 2), morto o megalómano que os concebera? Bem depressa o poeta se deve ter deixado impressionar pela agitação e o requinte das festas e dos jogos, pelo luxo dos ricos e a autoridade dos poderosos. Tudo era tão diferente da terrinha de onde saíra e onde um dia, muitos anos depois, desencantado, amargo e gasto pelos anos e pela vida estreita, há-de querer voltar, regresso que só serviu para revelar, nas gentes de Bílbilis, o espírito 122 Maria Cristina de Castro-Maia de Sousa Pimentel tacanho dos invejosos e dos que respiram raiva contra quem ousa rasgar o horizonte1. Em Roma, porém, o poeta experimentou as dificuldades de quem não tem posses nem influência: descoberta a conjura contra Nero no ano 65, e caídos em desgraça os patronos que o haviam acolhido2, restou a Marcial procurar quem lhe garantisse o sustento. Não, não regressou à terra natal: como o faria sem se confessar vencido, tão pouco tempo após a partida? Ficou, pois, em Roma, e foi deitando mão ao que podia. E o que podia era pouco mais do que a vida de cliens, via-sacra que aprende a percorrer, ainda quando as manhãs chuvosas, e o sono abreviado, e a humilhação das esperas e dos pedidos, no álgido limiar das casas de patronos arrogantes e ingratos que tão bem retratou nos epigramas3, lhe deixavam o amargo de boca de quem não é, e sente que não é, livre4. Longos anos de deserto, os que atravessou, aqueles em que nada sabemos do que terá feito: mas podemos imaginar que, a par da rede de amici que foi tecendo, uns mais chegados, outros mais tiranos e egoístas, lá foi o nosso poeta observando, quase sempre mordaz, mas algumas vezes também tocado de compaixão ou movido de simpatia, os inúmeros traços da comédia e a mão-cheia de chagas da tragédia da vida em Roma e dos seus protagonistas, instantâneos que guardava na memória e de que depois fazia a seiva dos seus epigramas. Com a chegada de Tito ao poder, Marcial encontra a oportunidade de, enfim, colher da sua arte algum fruto mais sumarento do que as migalhas da mesa daqueles que lhe garantiam a espórtula diária e a decência de uma 1 … a má-língua dos munícipes e a inveja, em lugar da crítica, e um ou dois malévolos, demasiados para lugar tão pequeno é o que Marcial encontra no seu regresso à terra natal, como diz na epístola introdutória do Livro 12, dirigida a Terêncio Prisco. Na citação dos passos traduzidos, usamos a edição dos Epigramas de Marcial, com introdução e notas de Cristina Pimentel, e tradução de Delfim Ferreira Leão (Livros Dos Espectáculos, 4, 7, 11 e 13), José Luís Brandão (Livros 1, 2, 6, 9 e 12) e Paulo Sérgio Ferreira (Livros 3, 5, 8, 10 e 14), Lisboa, 4 vol., 2000-2004. 2 Concretamente os Sénecas e os Pisões, que evoca com saudosa gratidão em 4.40,1-2. Cf. 12.36.8. 3 São recorrentes, nos epigramas, as referências aos atria e aos limina dos poderosos, i.e., dos patronos que não eram amici, o que se vê nas sinédoques que designam a casa: os clientes não passavam do limiar ou, na melhor das hipóteses, do atrium, jamais tinham acesso ao coração da domus, reservado para íntimos e próximos. V. v.g., 1.70.13 (limen superbum); 5.20.5 (atria potentum); 12.18.4 (limina potentiorum); 12.68.2 (atria ambitiosa), além de 1.55.5-6; 9.100; 10.10; 70; 74; 11.29(26); 12.29… Outra situação amiúde denunciada no comportamento dos patronos é a das cenae em que aos clientes eram servidos alimentos e bebidas diferentes (e, obviamente, de muito pior qualidade) dos que os que o patrono consumia. V., e.g. 1.20; 3.60; 4.68; 6.11; 10.49… Não admira, pois, o desabafo de 5.22.13: Semper inhumanos habet officiosus amicos (Sempre desumanos tem o cliente os seus amigos!). 4 A um cliens como ele, que vive e se alimenta à custa de patronos, mas pensa que tem o direito de falar mal deles e insultá-los, assegura o poeta, lapidarmente: Liber non potes et gulosus esse (9.9.4: livre e guloso ao mesmo tempo é que não podes ser). Cf. tb. 2.53. 123 A Roma dos Flávios: gente e sentimentos nos Epigramas de Marcial toga. Pese embora alguma crítica que relacionou o Liber Spectaculorum com a celebração de jogos em tempo de Domiciano, cremos que foi em 80, para os fabulosos ludi de inauguração do Anfiteatro dos Flávios, depois conhecido por Coliseu, como celebração desses cem dias em que todo o mundo romano, numa variedade de raças e povos (Sp. 3; 27.1), se concentrou na capital para ver o espectáculo com que o imperador ostentava o seu poder, que Marcial compôs, e divulgou junto de quem importava que o conhecesse, o livrinho que nos revela alguém que, no meio da multidão, se fascina com o aparato, com a grandiosidade dos diferentes momentos do espectáculo: os homens e os animais na arena, até as mulheres a enfrentarem as feras em inusitada uenatio, os ballets aquáticos, a naumaquia, as fabulae mythologicae com as suas fantásticas maquinarias – e a crueza do seu final –, os pares de gladiadores ou os bestiarii de excepção, a chuva de açafrão caindo sobre os espectadores, e, lá em cima na tribuna imperial, o princeps, a quem todos, homens e animais, prestavam a homenagem que lhe era devida5. Até que ponto Marcial se deixa guiar pela genuína admiração pelo senhor de Roma, nunca o saberemos. Mas, no tom com que o sentimos vibrar perante o que os seus olhos vêem, podemos descortinar, pelo menos, a sinceridade de quem admira o que Roma dá ao mundo, e o orgulho de quem se sente parte integrante de um povo que considera superior a todos os outros. Por muito que hoje em dia, lembrados de ideologias que exterminaram milhões de seres humanos considerados inferiores, recordados, a cada noticiário, de que esses não são tempos irrevogavelmente esquecidos, por muito que hoje em dia, repito, tal orgulho nos pareça malsão e de consequências sinistras, encarar essa atitude à luz dos nossos valores é interpretação abusiva da parte de quem se debruça sobre o pensar e o sentir de um Romano, e um Romano das últimas décadas do séc. I, quando o império estava prestes a atingir a sua maior extensão, ainda que, sem que delas se desse conta, as sementes do declínio tivessem já começado a germinar. Recompensado por Tito, confirmado por Domiciano na benesse que o guindava a estatuto social mais elevado, detentor do ius trium liberorum – mas não dos três filhos... – tribuno e eques6, sem todavia ter conquistado o que nunca tivera nem viria a ter, a efectiva independência económica, como podemos admirar-nos de que Marcial tenha continuado a trilhar, cada vez com mais empenho, os estafados atalhos da adulação? Como podemos estranhar 5 V. uenationes (Sp. 11; 12; 13; 14; 15; 16; 19; 21; 22) e mulheres na arena (Sp. 7 e 8; cf. Díon 66.25); ballets aquáticos (Sp. 30; 34); naumaquias (Sp. 27; 34); fabulae mythologicae, mimos, hidromimos e pantomimas (Sp. 6; 9; 10; 24; 25; 28; 29); pares de gladiadores (Sp.23; 31) ou bestiarii excepcionais (como Carpóforo: Sp. 17; 26; 32); as sparsiones, chuva de açafrão lançada sobre os espectadores, com propriedades fumigatórias e odoríferas (Sp. 3.8); a proskynesis de animais (Sp. 20; 33). 6 Cf. 2.91; 92; 3.95.5-6; 5.13.2; 9.97.5-6. 124 Maria Cristina de Castro-Maia de Sousa Pimentel que ele tenha acreditado que o seu talento haveria de merecer a devida glória entre os Romanos e, em especial, de conquistar-lhe um lugar de preferência junto daquele que detinha nas mãos o poder absoluto, de vida e de morte, sobre tudo e sobre todos? Aceitemos, pois, esta evidência: Marcial, efectivamente, adula, e a sua ars molda o seu ingenium de modo a desenvolver uma fantástica – ainda que quase nunca bem-sucedida – estratégia de adulação. Marcial concentra-se e emprega todos os recursos que o epigrama lhe permite, ou que ele próprio lhe confere, para conseguir um objectivo: o encómio de um momento – aquele em que vivia e escrevia – e o de quem, nesse momento, mandava em Roma. Deixemos de parte qualquer juízo de valor sobre os quinze anos do principado de Domiciano, aqueles durante os quais Marcial escreveu e publicou a maioria dos seus livros, tanto mais que, como é óbvio, não é fácil traçar a bissectriz entre a visão laudatória que nos deram autores como, além de Marcial, Estácio, Sílio Itálico, até Quintiliano, e a perspectiva de condenação, tão parcial quanto o encómio, adoptada por escritores como Tácito, Plínio, Juvenal, Suetónio ou também Epicteto, Filóstrato, Díon Cássio: todos, afinal, escritores que o foram quando já podiam escrever em segurança, após a morte de Domiciano, e quando, para engrandecer os novos senhores de Roma, Nerva, Trajano, Adriano, havia que pintar com as mais negras cores a tirania a que eles haviam posto fim, como de resto as normas retóricas do encómio propunham e ensinavam. Marcial, que também tentou fazer o mesmo, procurando, de forma que a nós nos parece quase patética, retractar-se dos louvores cada vez mais desbragados que tecera a Domiciano, pouco ou nada conseguiu. Ao contrário do que sonhara e do que julgara possível, ele nunca deixou de pertencer àquelas franjas da sociedade que não têm peso nem influência. Talvez por isso nos dê a sensação de que ninguém parece ter-se preocupado com ele quando chegou o momento do ajuste de contas. Nada lhe aconteceu de grave, mas também nada lhe aconteceu de bom. Continuou a sua apagada vidinha de cliens, agravada pelo peso dos anos e talvez por alguma má consciência pela volta-face que foi obrigado a fazer, e sempre, sempre sem muito dinheiro nem a duradoura fama que ambicionava. Talvez por isso, também, não possamos deixar de sentir a sinceridade do seu cansaço, do seu desalento, da entranhada velhice que, mais do que o corpo, lhe tolhia o espírito, quando resolve voltar à terra natal, onde, para que o ciclo se feche, nada encontra do que esperava, a não ser as horas em que pode dormir até a manhã ser alta7, e onde, ao invés, encontra tudo aquilo 7 O desejo de dormir sem entraves e incómodos parece atravessar os Epigramas: v. 1.49.36; 10.74.12; 12.57.28. Num epigrama (12.18) dirigido a Juvenal, que ficou preso em Roma à vida de cliens enquanto Marcial usufrui do sossego de Bílbilis, gaba-se o poeta de ter conquistado o gozo de um sono descaradamente longo / que, amiúde, nem a terceira hora quebra (vv. 13-14: Ingenti fruor inproboque somno, / Quem nec tertia saepe rumpit hora). Por isso, em 12.68, assegura que 125 A Roma dos Flávios: gente e sentimentos nos Epigramas de Marcial de que fugira aos vinte e poucos anos: a estreiteza das mentes e as dentadas da inveja. E aí, nesse poço fundo que lhe antecedeu a morte, sentimos também que o seu amor por Roma era genuíno, traduzido nas saudades dos amigos e da vida que lá levava, na falta dos teatros, dos pórticos, dos recintos dos jogos, das bibliotecas, das conversas com gente que, como ele, tinha o espírito fino e apurado para as artes8 e também, porque não?, para a universalmente humana actividade do mexerico e da má-língua. E então, numa visão que é retrospectiva relativamente à leitura cronológica dos livros dos Epigramas, percebemos que a adulação não foi assim tão desprovida de alguma sinceridade por parte do poeta, quando louvava as qualidades do princeps, as suas vitórias militares – as que obteve de facto e as que a propaganda lhe terá atribuído – as medidas e as leis promulgadas, a política de construções e de jogos que empreendeu, enfim, numa palavra, entendemos o móbil do poeta quando criteriosamente escolhe os acontecimentos e circunstâncias que considerou importante enaltecer (ou denegrir), em campos tão diversos como o social, o militar, o político e religioso, o administrativo, como também compreendemos o seu silêncio sobre outras circunstâncias que, menos douradas, menos transparentes, não cabiam na moldura encomiástica que Marcial, livro a livro, numa vertigem para nós obsidiante e às vezes difícil de aceitar, vai estreitando e apurando até ao limite que as palavras permitem. No entanto, insistimos neste aspecto, que admiração há em que Marcial, que, mal chegara da Hispânia, viu a destruição causada pelo enorme incêndio que devastou Roma em 64, que viu a cidade arrasada pela guerra civil do ano 69, assolada pelos soldados de Vitélio que a ocupavam e pelos de Vespasiano que a tomaram de assalto, que a viu de novo destroçada por um grave incêndio durante o principado de Tito, que admiração há, pois, que ele se tenha deixado empolgar pela reconstrução que Domiciano levou a cabo, reerguendo o que há décadas jazia em ruínas (5.7), construindo novos e mais esplendorosos monumentos civis e religiosos, enchendo as colinas com estátuas suas, apenas de metais preciosos, e de arcos magníficos em celebração das suas vitórias9? Que nos espanta que ele, apreciador como era de andar pelas ruas decerto foram os officia matutinos que, na sua condição de cliens, tinha de cumprir, que o levaram a deixar a capital e a refugiar-se na terra natal, advertindo por fim: Agrada-me o sossego e o sono que a grandeza de Roma / me negava então: regresso, se nem aqui posso dormir (vv. 5-6). 8 Mergulhado na pasmaceira provinciana (in … prouinciali solitudine), Marcial confessa, na epístola introdutória do livro 12, que sente falta dos ouvidos da cidade, da argúcia dos juízos, da fecundidade dos argumentos, pois não tem as bibliotecas, os teatros, as reuniões, onde se estuda sem que o prazer se ressinta. 9 Cf. 1.70.5-6; Suet. Dom. 13.6-7; Plin. Pan. 53.3; Díon 67.8.1; 68.1.1. São inúmeros os epigramas em que o poeta exalta a actuação política de Domiciano, traduzida no engrandecimento da cidade e numa época que ele diz entre todas magnífica, pelo respeito das leis, da moral, da tradição, dos ritos e cultos. A título de exemplo, v. 5.19.1-6; 6.4; 8.36; 39; 65; 9.3; 5; 101; 10.28… 126 Maria Cristina de Castro-Maia de Sousa Pimentel em amena cavaqueira com os amigos, de olho alerta a descortinar os podres e os vícios do seu semelhante, tenha achado justíssima a determinação de Domiciano de limpar das ruas de Roma de toda a parafernália dos comerciantes que atravancavam os passeios e atrapalhavam o trânsito com a exposição da traquitana da sua mercadoria (7.61), e se tenha encantado com o embelezamento de casas, janelas, templos e estátuas com rosas que o princeps mandava vir expressamente de estufas que as produziam, mesmo no Inverno (6.80; 13.127)? Ainda assim, porém, e correndo o risco de fazermos o que tanto queremos evitar, não podemos deixar de reparar que muitas das medidas a que Marcial dá o seu aval são absolutamente reveladoras da sua visão conservadora da sociedade e do governo do estado. Tal é manifesto quando louva todas as medidas que Domiciano promulgou ou reinstituiu reabilitando o mos antiquus, como dizia ser timbre da sua orientação política. Esse desiderato abrangeu campos como a moralização dos costumes ou a restauração do tradicional ordenamento da sociedade, com o necessário respeito pela hierarquia dos estratos que a compunham. Para só referirmos alguns casos, lembremos como, com o pano de fundo dos reiterados encómios à Pudicitia que regressara a Roma pela mão do terceiro Flávio, Marcial rejubila com a reposição em vigor da lex Iulia de adulteriis coercendis – até porque os infractores se punham a jeito da sua mordacidade epigramática!10 – ou com a reinstituição da lex Roscia theatralis, que, nos recintos dos jogos, reservava à classe equestre as primeiras catorze filas imediatamente a seguir aos lugares adstritos aos senadores11 – e aqui, como se imagina, o eques Marcial era parte interessada na garantia de um lugarzinho jeitoso quando ia aos espectáculos de que tanto gostava. Nessa mesma ordem de ideias, quando o poeta se sente beneficiado por certas medidas e, por isso, não pode senão apoiá-las, ainda que tal não possa estar isento da parcialidade de quem é juiz em causa própria, não podemos estranhar que Marcial não tenha ficado indiferente à variedade acrescida – e talvez também à possibilidade de um maior volume de apostas – que trazia ao espectáculo a introdução de duas novas factiones, a aurata e a purpurea, que vieram juntar-se às quatro já existentes nas corridas do circo12. No tocante à parcialidade de Marcial, não podemos deixar de reparar que há 10 Cf. 2.61; 83; 5.75; 6.2.1; 7; 22; 45; 91; 9.5.8; 11 Cf. 3.95.9-10; 4.67; 5.8; 14; 23; 25; 27; 35; 38; 41; 6.9. V. Suet. Dom. 8.4. 12 14.55; 131; cf. Suet. Dom. 7.1; Díon 67.4.4. As factiones que já existiam eram a ueneta (azul), a prasina (verde), a alba (branca) e a russata (encarnada). As duas primeiras eram as que granjeavam mais adeptos. Os imperadores, consoante queriam parecer mais populares ou mais aristocratas, divulgavam o seu apoio, respectivamente, à factio prasina ou à ueneta. Domiciano ‘torcia’ pelos Verdes, pelo que, durante o seu principado, segundo o próprio Marcial deixa transparecer, os Azuis não tinham grandes hipóteses de vitória (6.46; 11.33). O sucesso das novas factiones não durou mais que o tempo de vida do seu criador. 127 A Roma dos Flávios: gente e sentimentos nos Epigramas de Marcial uma única medida de Domiciano que ele não apoia, e contra a qual desenvolve aquilo que hoje chamaríamos uma vasta campanha de contestação: trata-se da transformação da sportula devida pelos patronos aos seus clientes que, por imposição imperial, passara de entrega de dinheiro à obrigação de uma recta cena. Mas aí, é claro, Marcial é mais uma vez parte interessada e tem com ele, no coro de protestos, os dois lados da relação clientelar: nem os patronos querem dar uma cena diária à multidão de clientes que lhes servem antes para as campanhas políticas e para a ostentação pública do poder que detêm, nem os clientes estão interessados, porque lhes é materialmente impossível, em sobreviver, a troco de tanta canseira dos officia a que estão obrigados, com a única refeição diária que assim teriam garantida, com a agravante de, como era frequente, ser composta por comida e bebida de segunda ou terceira escolha. Naturalmente, quando a determinação foi revogada, o poeta não pôde senão rejubilar13, pois voltava a poder receber, de cada um dos seus patronos, cem quadrantes, o que lhe ia dando para os gastos. Para a adulação de outras personagens dos epigramas, talvez já seja mais difícil descortinar outros motivos além daqueles que presidem ao desejo de conseguir acesso às mais altas instâncias imperiais, ou, pelo menos, de garantir a ajuda daqueles que gravitavam em torno do centro do poder, que o mesmo é dizer do imperador. Nos seus louvores, Marcial procede segundo um esquema de círculos que, em termos de poder e influência, progressivamente se afastam de um centro, obviamente ocupado pelos principes sob quem escreveu, Tito, Domiciano, Nerva e Trajano, alvos preferenciais da sua poesia, incluindo nessa galáxia de astros também os membros da familia imperial já desaparecidos, em culto rendido a quem fora transformado em diuus14. Em seguida, não enjeita o poeta, numa espécie de segunda linha estratégica, a vantagem de adular ou evocar aqueles que, seguindo carreiras políticas ou militares de relevo, eram responsáveis pela concretização dos desígnios imperiais, ou aqueles que, pela fortuna ou estatuto de que gozavam, pertenciam aos estratos político-sociais dominantes. Para só referirmos alguns exemplos eloquentes, nos Epigramas há espaço para altos funcionários imperiais como Sílio Itálico, Plínio-o-Moço, Cláudio Etrusco e seu pai, a rationibus de Tibério e dos imperadores que lhe sucederam, Licínio Sura, Antístio Rústico, Domício Apolinar, M. António Primo, Mécio Célere, legado na Hispânia Citerior, Istâncio Rufo, que veio a ser procônsul da Bética, o rico e erudito magistrado Arrúncio Estela15. A estes nomes juntam-se outros, ligados ao campo da arte, 13 Cf. 3.7; 14; 30; 60. 14 Concretamente, a sobrinha, Júlia (6.3; 13; 9.1), filha de Tito, que se disse ter sido sua amante e ter morrido na sequência de um aborto que Domiciano a obrigou a fazer, e o filho que, em 73, teve de sua mulher, Domícia Longina, morto de tenra idade (4.3; 9.86). 15 Sem exaustividade, registem-se: Sílio Itálico – 4.14; 6.64; 7.63; 8.66; 9.86; 11.48; 50(49); 128 Maria Cristina de Castro-Maia de Sousa Pimentel como Rabírio (7.56; 10.71), o arquitecto que desenhou e construiu a fabulosa Domus Flauia no Palatino, ou da literatura, como Quintiliano, preceptor dos filhos adoptivos de Domiciano (2.90), ou Colino (4.54) e Caro (9.23; 24), premiados, respectivamente, nos ludi Capitolini e nos ludi Albani, jogos instituídos por Domiciano. Enfim, uma panóplia de nomes dos que hoje diríamos ‘colunáveis’. Quanto aos libertos, afinal também membros da familia imperial, Marcial escolhe aqueles que, dentro do Palatium, tinham funções relacionadas com o tratamento e atendimento do princeps, pois, naturalmente, vê-os como fulcrais no processo de adulação que empreende: a convivência diária com o imperador e a intimidade que daí advinha fazem deles – pelo menos assim o julga Marcial – os intermediários ideais para que o poeta ascenda ao favor do princeps. Para que seja evidente a dimensão deste ‘círculo’ de personagens que Marcial tenta – quase sempre sem sucesso – ganhar para a sua causa, lembremos brevemente quem eles eram: Parténio, o cubicularius de Domiciano, que acabou por integrar o grupo que planeou e executou o assassínio do imperador; Eufemo, liberto de origem grega que desempenhava funções também de mordomo (tricliniarcha) de Domiciano; Sigero, outro dos seus ministri, que também veio a contar-se entre os amici e liberti imperiais que planearam e executaram o homicídio de Domiciano; Sexto, liberto do princeps, seu secretário e bibliotecário; Entelo, seu a libellis, ao que parece também um dos seus futuros assassinos16; Flávio Eárino, escanção de Domiciano e seu puer delicatus, preferido entre todos, a quem Marcial dedica nada menos que um ciclo de seis epigramas (9.11; 12; 13; 16; 17; 36), decerto no momento em que o jovem atingia o auge do favor do princeps. O poeta não hesita mesmo perante o louvor de outro grupo de colaboradores próximos de Domiciano, constituído pelos delatores. O exemplo mais expressivo é o de Marco Aquílio Régulo, de quem Marcial nos deixou um retrato elogioso que em tudo contrasta com aquele que outras fontes, como Plínio e Tácito, traçaram17. E também não desperdiça a ocasião de adular Crispino, protegido e amigo de Domiciano, aquele sobre quem Juvenal dizia que difficile est saturam non scribere18. Poderíamos acrescentar a estes nomes o de muitos outros que, por esta ou aquela razão, se encontravam próximos do poder, e, sobretudo por isso, Plínio-o-Moço – 10.20(19); Cláudio Etrusco e seu pai – 6.42; 7.40; Licínio Sura – 6.54.9; 7.47; Antístio Rústico (e a mulher, Nigrina) – 4.75; 9.30; Domício Apolinar – 4.86; 7.26; 89; 10.30; 11.15; M. António Primo – 10.23; 32; Mécio Célere – 7.52; Istâncio Rufo – 7.68; 8.50; 73; 12.95.4; 98.5. Arrúncio Estela, mais amigo que patrono, pelo que lemos nos epigramas, é presença constante na obra de Marcial. 16 Cf. 4.45; 5.6; 8.28; 9.49;11.1; 12.11 (Parténio); 4.8 (Eufemo); 4.78 (Sigero); 5.5 (Sexto); 8.68 (Entelo). 17 1.12; 82; 111; 2.74; 93; 5.10; 21; 28.6; 63; 6.38; 64.11… 18 1.30. Em Marcial, v. 7.99; 8.48.