scieee Science in your language
[po] (orig)

Apetites e Excreções em Blurt, Major Constable, or the Spaniard’s Night Walk de Thomas Dekker

Abstract

O presente ensaio oferece uma análise de Blurt, Major Constable, or The Spaniard’s Night Walk (1601–1602) de Thomas Dekker, com enfoque na construção do nexo comida-bebida-sexo-excrementos no texto. Na esteira dos Estudos Culturais e refletindo os procedimentos científicos aplicados aos atuais estudos de Cultura Inglesa, a metodologia adotada neste ensaio resultou de um cruzamento de abordagens teóricas que carateriza os Estudos de Género, férteis na revisão das posições críticas e no desenvolvimento de leituras radicalmente desestabilizadoras de saberes adquiridos. Enquanto objeto cultural, Blurt encena preocupações coevas ao espelhar contradições inerentes ao sistema patriarcal, entendido não como uma estrutura coesa, mas ele próprio baseado em contradições ideológicas e em impulsos discrepantes. Tais contradições e impulsos são representativos das mudanças culturais e das transformações históricas que identificamos com a evolução da sociedade europeia do princípio da era moderna. Assim, um dos principais propósitos deste ensaio é observar como é dramatizada a relação entre os sexos que, apesar de conflituosa, não deixa de ter um final ordeiro de modo a disciplinar o corpo rebelde das personagens. Conclui-se que, apesar das aparências, a autoridade patriarcal nunca esteve verdadeiramente em questão, participando a peça ativamente num processo de reinscrição de normas culturais.

Read accessible full text

Apetites e Excreções em Blurt, Major Constable, or the Spaniard’s Night Walk de Thomas Dekker

Author: Mendes, Ana Cristina
Publisher: Universidade Estadual de Maringá
Year: 2018
Source: https://repositorio.ulisboa.pt/bitstream/10451/34986/1/Mendes%2c%20Apetites_e_excrecoes_em_Blurt_Major_Constable%20%282018%29.pdf
A
c a Scien ia um
h p://pe iodicos.uem.b /ojs/ac a
ISSN on-line: 1983-4683
Doi: 10.4025/ac ascilangcul . 40i2.36457 LITERATURA / LITERATURE
Ac a Scien ia um. Language and Cul u e, . 40(2), e36457, 2018
Ape i es e exc eções em Blu , Majo Cons able, o The Spania d’s
Nigh Walk de Thomas Dekke
Ana C is ina Mendes
Faculdade de Le as, Uni e sidade de Lisboa, Alameda da Uni e sidade, 1600-214, Lisboa, Po ugal. E-mail: [email p o ec ed].p
RESUMO. O p esen e ensaio o e ece uma análise de Blu , Majo Cons able, o The Spania d’s Nigh Walk
(1601–1602) de Thomas Dekke , com en oque na cons ução do nexo comida-bebida-sexo-exc emen os
no ex o. Na es ei a dos Es udos Cul u ais e e le indo os p ocedimen os cien í icos aplicados aos a uais
es udos de Cul u a Inglesa, a me odologia ado ada nes e ensaio esul ou de um c uzamen o de abo dagens
eó icas que ca a e iza os Es udos de Géne o, é eis na e isão das posições c í icas e no desen ol imen o
de lei u as adicalmen e deses abilizado as de sabe es adqui idos. Enquan o obje o cul u al, Blu encena
p eocupações coe as ao espelha con adições ine en es ao sis ema pa ia cal, en endido não como uma
es u u a coesa, mas ele p óp io baseado em con adições ideológicas e em impulsos disc epan es. Tais
con adições e impulsos são ep esen a i os das mudanças cul u ais e das ans o mações his ó icas que
iden i icamos com a e olução da sociedade eu opeia do p incípio da e a mode na. Assim, um dos p incipais
p opósi os des e ensaio é obse a como é d ama izada a elação en e os sexos que, apesa de con li uosa,
não deixa de e um inal o dei o de modo a disciplina o co po ebelde das pe sonagens. Conclui-se que,
apesa das apa ências, a au o idade pa ia cal nunca es e e e dadei amen e em ques ão, pa icipando a peça
a i amen e num p ocesso de einsc ição de no mas cul u ais.
Pala as-cha e: enascimen o inglês; ex o d amá ico; Thomas Dekke ; sexualidade; co po ealidade; es udos
cul u ais; es udos de géne o.
Appe i es and exc e ions in Blu , Majo Cons able, o The Spania d’s Nigh Walk by Thomas
Dekke
ABSTRACT. The p esen essay o e s an analysis o Blu , Majo Cons able, o The Spania d’s Nigh Walk
(1601–1602) by Thomas Dekke , ocusing on he cons uc ion o he ood-d ink-sex-exc emen nexus in
he ex . In he wake o Cul u al S udies and e lec ing he scien i ic p ocedu es applied o he cu en
s udies o English Cul u e, he me hodology adop ed in his essay esul ed om a c oss- e iliza ion o
heo e ical app oaches which cha ac e izes Gende S udies, e ile in he e ision o c i ical posi ions and in
he de elopmen o adically des abilizing eadings o acqui ed knowledges. As a cul u al objec , Blu
enac s coe al conce ns by mi o ing con adic ions inhe en in he pa ia chal sys em, unde s ood no as a
cohesi e s uc u e, bu i sel based on ideological con adic ions and di e gen impulses. Such
con adic ions and impulses a e ep esen a i e o cul u al changes and his o ical ans o ma ions ha we
associa e wi h he e olu ion o socie y o he mode n e a. Thus, one o he main pu poses o his essay is o
obse e how he ela ionship be ween he sexes is d ama ized, which, al hough he sou ce o con lic , ends
in an o de ly ashion in o de o discipline he cha ac e s’ ebellious body. This essay concludes ha ,
despi e appea ances, in Dekke ’s Blu he pa ia chal au ho i y was ne e ac ually ques ioned, as he ex
ac i ely pa icipa es in a p ocess o einsc ip ion o cul u al no ms.
Keywo ds: english enaissance; d ama; Thomas Dekke ; sexuali y; co po eali y; cul u al s udies; gende s udies.
In odução
Num p imei o con ac o com a comédia isabelina
a dia Blu , Majo Cons able, o The Spania d’s Nigh
Walk (1601-1602) de Thomas Dekke 1, cla amen e
1 Man êm-se as dú idas em o no da au o ia des a ob a, ha endo au o es, como
Da id M. Holmes (1969) que a a ibuem a Thomas Middle on. Embo a não
consensual, assume-se que a peça oi esc i a po Thomas Dekke , al como
p opos o po Ma y Be h Rose (1988). Po que se seguiu um en oque especí ico
de lei u a, op ou-se po não inclui um esumo ala gado do en edo da peça de
Dekke , nem ca a e iza po meno izadamen e as pe sonagens p incipais ci adas
inspi ada nos en edos shakespea ianos de Romeo and
Julie (Shakespea e, 1992) e Much ado abou no hing
(Shakespea e, 2003), em-nos à ideia a pe sonagem
U sula de Ba holomew ai (1614) de Ben Jonson
ao longo do a igo. O en edo de Dekke começa po ap esen a os jo ens nob es
enezianos, Camillo e Hippoli o, ecém-chegados de uma ba alha. Camillo ha ia
cap u ado o ca alhei o ancês Fon inelle que é con iado à gua da da i mã de
Hippoli o, Viole a. F us ando o p oje o omân ico de Camillo, apaixonado po
Viole a, Fon inelle e Viole a casam-se sec e amen e. Numa en a i a de e e e
es e enamo amen o indesejado, Camillo e Hippoli o en iam o e a o do ancês
à co esã Impe ia.
Page 2 o 10 Mendes
Ac a Scien ia um. Language and Cul u e, . 40(2), e36457, 2018
(Jonson & Hibba d, 2007), que p opo ciona aos
isi an es de uma ei a um local de sa is ação de
múl iplas u gências isiológicas2. Nes e ensaio, olha-
se pa a a ci culação de imagens de comida e
exc emen os em Blu , Majo Cons able (Dekke ,
1601-1602), ex o menos ilhado na c í ica a ual do
que Ba holomew ai de Jonson (Jonson & Hibba d,
2007), imagens especi icamen e elacionadas com o
co po e que odeiam cons an emen e as
pe sonagens, pa a examina a cons ução do nexo
comida-bebida-sexo-exc emen os no ex o de
Dekke (1601–1602). Na es ei a dos Es udos
Cul u ais e e le indo os p ocedimen os cien í icos
aplicados aos a uais es udos de Cul u a Inglesa, a
me odologia aqui ado ada esul ou de um
c uzamen o de abo dagens eó icas que ca a e iza os
Es udos de Géne o, é eis na e isão das posições
c í icas e no desen ol imen o de lei u as
adicalmen e deses abilizado as de sabe es
adqui idos.3 Tex os como Blu , Majo Cons able
(Dekke , 1601-1602) êm o es a u o de obje o
cul u al que, de o ma dinâmica, encena
p eocupações coe as. Em pa icula , a comédia de
Dekke (1601-1602) espelha con adições ine en es
ao sis ema pa ia cal, en endido não como uma
es u u a coesa, mas ele p óp io baseado em
con adições ideológicas e em impulsos disc epan es.
Tais con adições e impulsos são ep esen a i os das
mudanças cul u ais e das ans o mações his ó icas
que iden i icamos com a e olução da sociedade
eu opeia do p incípio da e a mode na (Mousley,
2000; Had ield, 2013).
O en oque da análise eside nos quesi os que
pe sonagens masculinas en en am ao se em
a acados e en aquecidos pelos ape i es – e
ine i á eis (sub)p odu os – emininos que
manipulam os ‘ ulne á eis’ ins in os sexuais
masculinos, já que nem a pe sonagem eminina
‘ espei á el’ consegue sup imi o seu a do po
quem não lhe es á des inado. In e essa obse a em
que medida a ‘ ecnologia adicional da ca ne’,
eco endo à exp essão de Michel Foucaul em
His ó ia da sexualidade (1994)4, é engend ada
2 Como a gumen a Rui Ca alho Homem (2010, p. 39, adução nossa), “[...] a
sua dupla unção como p opo cionado a de alimen os, bem como a única
equi alen e a uma e e e na ei a [...] [sublinha] aquele ou o aço
ca ac e is icamen e g o esco que é a usão e a pe mu abilidade das unções
co po ais”; [ e são o iginal: “[…] he double unc ion as p o ide o ood as well
as o he only equi alen o a oile in he ai […] [ o eg ounds] ha o he
cha ac e is ically g o esque ai which is he usion and in e changeabili y o
bodily unc ions”].
3 Po limi ações de espaço, na abo dagem aqui p opos a limi amo-nos a
econhece o con ibu o de K is e a (1981), Lau e is (1987), Bu le (1990), hooks
(1990) e B aido i (1994).
4 Podemos de ini ‘ ecnologia’ como um disposi i o de pode mais complexo e
sob e udo mais posi i o do que o simples e ei o de uma p oibição (Foucaul ,
1994). Não se explo a o impac o da ob a His ó ia da sexualidade de Foucaul
(1994) em desen ol imen os eó icos que ex a asam os es udos de géne o,
ce amen e me ecedo es de mais a enção do que uma no a de odapé, po
ques ões de economia da p esen e análise.
discu si amen e a a és da insc ição no co po das
pe sonagens, e de que o ma se le a a cabo a
p odução – ou ‘docilização’ – desses co pos com
is a ao es abelecimen o dos pad ões de
compo amen o ‘no mais’ na co en e o dem social.
Pa a al, conduzi -se-á uma análise ex ual de
exce os selecionados, com pa icula incidência no
en edo secundá io, endo como p emissa o expos o
po Neil Rhodes (1980, p. 69, adução nossa):
O p incipal agen e na ligação do ocabulá io do
abuso iolen o e do ocabulá io do sexo [...] é o que
chama ei de ca á e ‘sind ómico’ das imagens de
comédia popula isabelina; is o é, á ias ideias
di e en es se associam na u almen e a ce os ipos de
imagem pa a p oduzi uma sé ie de e e be ações
cómicas: [...] a comida suge e sexo, o sexo suge e
doença e assim po dian e5.
O amo cas o su ge como ema do en edo
p incipal da ob a de Dekke (1601–1602),
enquan o o en edo secundá io se de ém no amo
es i amen e ca nal, e le indo a dico omia
pu eza/impu eza que ab e caminho pa a a
cons ução do géne o eminino subjacen e ao
discu so con empo âneo da sexualidade (Phillips
& Reay, 2002). Como esc e e Ma y Be h Rose
(1988, p. 47, adução nossa):
Em busca da análise e exposição da co upção
u bana, a comédia ci adina ge almen e pa icipa com
en usiasmo do discu so pola izado que conside a o
amo sexual como le ando a um plano de exis ência
além do ísico, ou o deg ada como luxú ia, e na qual
a idealização das mulhe es e a misoginia se o nam as
únicas possibilidades pa a cons ui o sexo
eminino6.
Há que e igualmen e em con a a
con ingência his ó ica do e mo ‘sexualidade’,
apon ada po c í icos como Je ey Weeks (2016;
2017) e Da id M. Halpe in (2007), quando se
discu e a ida e ó ica de cul u as que an ecede am
os inais do século XIX, al u a em que o ocábulo
adqui iu o alo semân ico a ual (B is ow, 1997).
Assim, um dos p incipais p opósi os des e ensaio
é obse a como é d ama izada a elação en e os
sexos que, como e emos adian e, apesa de
con li uosa, não deixa de e um inal o dei o de
modo a disciplina o co po ebelde das
pe sonagens.
5 Ve são o iginal: “The chie agen in he linking o he ocabula y o iolen abuse
and he ocabula y o sex […] is wha I shall call he ‘synd omic’ cha ac e o
Elizabe han low-comedy image y; ha is o say, a numbe o di e en ideas
associa e na u ally wi h ce ain ypes o image o p oduce a se ies o comic
e e be a ions: […] ood sugges s sex, sex sugges s disease, and so on”.
6 Ve são o iginal: “In pu sui o he analysis and exposu e o u ban co up ion, ci y
comedy gene ally pa icipa es wi h gus o in he pola ising discou se ha ei he
iews sexual lo e as leading o a plane o exis ence beyond he physical o
deg ades i as lus , and in which idealiza ion o women and misogyny become he
only possibili ies o cons uing he emale sex”.
Ape i es e Exc eções em Blu Page 3 o 10
Ac a Scien ia um. Language and Cul u e, . 40(2), e36457, 2018
Ape i es
O ca ní o o Laza illo
Na segunda cena do p imei o a o são-nos
ap esen adas duas pe sonagens amin as, cada uma
es omeada a seu modo. Acompanhado do seu
subnu ido pagem com nome de peixe seco,
Laza illo, um melancólico soldado espanhol7,
insinua que se encon a a a de de desejo (ou com os
e ei os de uma qualque doença ené ea), seguindo-
se um jogo esca ológico en ol endo o duplo sen ido
de lesh:
LAZARILLO: Boy, I am melancholy because I bu n.
PILCHER: And I am melancholy because I am a-
cold.
LAZARILLO: I pine away wi h he desi e o lesh
(Dekke , 1601-1602, I.ii.)8.
Num es ado de míngua, Pilche é cáus ico em
elação à concupiscência do seu pa ão:
PILCHER: I ’s nei he lesh no ish ha I pine o ,
bu o bo h.
LAZARILLO: Pilche , Cupid ha h go me a
s omach, and I long o lac’d mu on.
PILCHER: Plain mu on wi hou a lace would se e
me (Dekke , 1601-1602, I.ii.).
O deus do amo dá a Laza illo ou os ape i es e
ca es ias ca nais e, como al, necessi a de um
bo ego adul o, co po izado na p os i u a (lac’d
mu on9). Em espos a ao sa casmo de Pilche ,
con inua a ca a e ização da mulhe em e mos de
animalidade:
LAZARILLO: Fo as you ame monkey is you
only bes , and mos only beas o you Spanish lady,
… o as he commodi ies which a e sen ou o he
Low Coun ies and pu in essels called Mo he
Co nelius’ d y- a s a e mos common in F ance, so
7 O nome da pe sonagem e oca Laza illo de To mes (1554), a p imei a no ela
pica esca da li e a u a espanhola.
8 Os exce os dos ex os p imá ios isabelinos o am man idos no idioma o iginal
de ido ao a o de não exis i aduções des e ex o de Dekke pa a po uguês e
e ê-lo pa a po uguês con empo âneo não pa ece ia co e o (No a da au o a).
9 Vejam-se os sen idos coe os dos e mos mu on e laced mu on, al como
apon ados po Jane Mills: “Em 1518, o poe a inglês Tudo , John Skel on, usa a
co dei o pa a signi ica uma p os i u a, no sen ido de ‘comida pa a a luxú ia’: ‘And
om hens o he hal e s ee , To ge us some eshe me e. Why, is he e any
s o e o awe mu on?’ (Magny icence). O e mo laced mu on (1578-1694) a
p incípio não signi ica a mais do que um e mo dep ecia i o pa a uma p os i u a.
Con udo, no inal do século XVI deno a a uma p os i u a doen e: ‘You may […]
ea o a li le wa m mu on, bu ake heede i be no Laced, o ha is ill o a sicke
body’ (Nicholas B e on). […] Laced, do la im laque e, que signi ica enlaça ,
ambém é usado no sen ido de adminis a eneno. O que é, sem dú ida, como
um homem com sí ilis ou gono éia se sen e [...]. Aplicado a uma mulhe , o
ca nei o […] ambém se baseia numa imagem de o elha: as o elhas não são
conhecidas po sua in eligência” (Mills, 1991, p. 175, adução nossa); e são
o iginal: “In 1518 he English Tudo poe John Skel on used mu on in he sense
o ‘ ood o lus ’ o a p os i u e: ‘And om hens o he hal e s ee , To ge us
some eshe me e. Why, is he e any s o e o awe mu on?’ (Magny icence). The
e m laced mu on (1578-1694) a i s mean no hing mo e de oga o y han a
s umpe . Bu by he end o he C16 h i deno ed a diseased p os i u e: ‘You may
[…] ea o a li le wa m mu on, bu ake heede i be no Laced, o ha is ill o a
sicke body’ (Nicholas B e on). […] Laced, om he La in laque e, meaning o
ensna e, is also used in he sense o adminis e ing poison. Which is doub less
how a man wi h syphilis o gono hoea eels […] Applied o a woman, mu on […]
also d aws upon a sheep image: sheep a e no known o hei in elligence”.
i please h he des inies ha I should hi s o d ink
ou o a mos swee I alian essel, being Spania d
(Dekke , 1601-1602, I. ii.).
Os ocábulos bes e beas são in e dependen es no
con ex o da sequência ásica em que se inse em,
azendo equi ale des e modo Spanish lady a beas , já
que as mulhe es espanholas e am epu adas como
libidinosas. Assim, e emos uma compa ação da
mulhe com um macaco ades ado ou a a -se-á de
uma e e ência elada a p á icas sexuais de
bes ialidade?
Numa conjun u a de eme gência do capi alismo,
as mu ações económicas a uam como dis up o as
das elações sociais: a Lond es de Dekke e a um
local de expansão do in e câmbio come cial com a
Eu opa, p opo cionando as lojas lond inas uma
su p eenden e lis a de p odu os es angei os (Taylo
& Henley, 2016). Cons uindo uma sinédoque en e
a i idades económica e sexual, no co po da
p os i u a con luem o comé cio sexual e
es i amen e económico: no e-se a iden i icação de
commodi ies com as p os i u as impo adas dos Países
Baixos, bens de consumo anspo ados em
emba cações designadas Mo he Co nelius’ d y- a s, e a
imagem de uma banhei a colossal eple a de animais
pa a enda que so em, du an e o anspo e, um
p ocesso de pu i icação po meio da exsudação de
go du as noci as. Dekke (1601–1602) se e-se de
sua an e io e e ência a essel (na sua acepção mais
gené ica de ba co ou na io) pa a aludi a um
segundo sen ido de ecipien e pa a líquidos, de onde
se bebe (ou pa a onde se aza) ao e e i que, sendo
espanhol, es á-lhe des inado bebe de um mos swee
I alian essel, is o é, de uma mulhe - ecep áculo
i aliana. Associando a mulhe ao ecep áculo que
cons i ui o ú e o, a me á o a do co po da mulhe
enquan o essel é co en e, como a es a Jane Mills:
O concei o de mulhe como um ecipien e azio a
se p eenchido ou apado po um homem, pelo seu
ó gão sexual ou seu sémen, é uma imagem comum.
O aso, o iginá io do la im ascellum, que signi ica
um pequeno aso ou u na, e um na io, é mais um
exemplo de uma pala a que desc e e uma mulhe
como um ecipien e. (Mills, 1991, p. 246, adução
nossa)10.
No decu so da cena em Blu (Dekke , 1601-
1602), o an e io a amen o me a ó ico de essel
o na-se um símile despudo ado da Madonna de
mãos anspi adas, c ia u a pa a enda a clien es
endinhei ados mas ambém sagaz mulhe de
negócios, sin oma de uma sociedade cada ez mais
come cializada:
10 Ve são o iginal: “The concep o woman as an emp y con aine o be illed o
plugged up by a man, his sex o gan o his semen, is a common image. Vessel,
o igina ing in he La e La in ascellum, meaning a small ase o u n, and a ship,
is ye ano he example o a wo d which desc ibes a woman as a con aine ”.
Page 4 o 10 Mendes
Ac a Scien ia um. Language and Cul u e, . 40(2), e36457, 2018
PILCHER: Wha essel is ha , signio ?
LAZARILLO: A woman, Pilche , he mois -handed
Madonna Impe ia, a mos a e and di ine c ea u e.
PILCHER: A mos ascally damn’d cou esan
(Dekke , 1601-1602, I.ii.).
O echo acima ansc i o unciona como um dos
exemplos da con luência na economia da peça de
ape i es do co po dou ina iamen e ep imidos pela
Ig eja Ca ólica. Como se obse a na ca ne de caça,
componen e da die a do amo suge ida po John
Donne no poema Lo e’s Die , após um desgos o
a e i o, o ecu so à imagé ica da comida é equen e
na ep esen ação cul u al da mulhe e dos seus
ó gãos geni ais, pa icula men e enquan o ca ne
des inada à sa is ação de necessidades sexuais
masculinas (Sugg, 2004)11:
Thus I eclaim’d my buzza d lo e, o ly
A wha , and when, and how, and whe e I choose;
Now negligen o spo I lie,
And now, as o he s alcone s use,
I sp ing a mis ess, swea , w i e, sigh and weep:
And he game kill’d, o los , go alk, and sleep
(Donne, 1998, p. 144).
Também T ue-Wi ad e e Mo ose dos pe igos
da união ma imonial em Epicoene, o he silen woman
(1609 [1953]) de Jonson, compa ando uma mulhe
bela e jo em a ca ne que a ai ine i a elmen e
moscas a ejei as:
I shee be ai e, yong, and ege ous, no swee mea s
e e d ew mo e lies [...] (Jonson 1609 [1953],
II.2.56).
Nos exce os de Blu (Dekke , 1601-1602),
lis am-se ês ocábulos que uncionam como
e e en es de mulhe es – lesh, mu on e essel, e mos
de oga ó ios com cono ações sexuais que e ão
o igem na ansiedade mo i ada po uma supos a
ameaça ao pode sexual a onil ou medo de possí el
insu iciência sexual, já que o desempenho eminino
con inua mis e ioso ao con á io da isibilidade do
co esponden e masculino. I onicamen e, na mesma
cena, o lúb ico Laza illo é compa ado a um ca alo
cas ado (cu al) po e ido o ges o mui o pouco
i il e másculo de dese a na úl ima ba alha: ‘[...]
his is he Spanish cu al ha in he las ba le led
11 No a Mills: “[…] no inal do século XVI, a ca ne e a um e mo gené ico
bas an e coloquial pa a o co po humano – a amen e o masculino – como um
ins umen o pa a o p aze sexual. Também se o nou gí ia pa a a agina e, mui o
ocasionalmen e, pa a o pénis ambém. The dic iona y o his o ical slang lis a
á ias ases coloquialmen e popula es desde o século XV, algumas ainda em
uso, que e ocam uma imagem de mulhe como ca ne mo a,
ensaguen adamen e esculpida, co ada, picada po um açouguei o ou cozinhei o,
e e en ualmen e se ida pa a consumo masculino” (Mills, 1991, p. 155, adução
nossa); e são o iginal: “[…] by he la e C16 h mea was a low colloquial gene ic
e m o human body – only a ely he male – as an ins umen o sexual
pleasu e. I also became slang o he agina and, e y occasionally, o he
penis, oo. The dic iona y o his o ical slang lis s se e al ph ases colloquially
popula since he C15 h, some s ill in use, which e oke an image o woman as
dead mea , bloodily ca ed up, hacked a , minced by a bu che o a cook, and
e en ually se ed up o male consump ion”.
wen y miles e e he look’d behind him’ (Dekke ,
1601-1602, I.ii.)
A canibal co esã
É sabido que a p os i u a pe manece como um
pon o de con ac o com o paganismo, sendo o pode
das an igas me e izes eminiscen e nas co esãs
enascen is as (Paglia, 1997). Desde logo, o nome
escolhido po Dekke (1601-1602) pa a a
pe sonagem – Impe ia – e oca ine i a elmen e Bel-
Impe ia, a he oína cas a de Spanish T agedy (1587) de
Thomas Kid, co po izando a Madona Impe ia o
complexo Madonna-p os i u a, usão da cas a Ma ia
e da lasci a Ma ia Madalena.
Nas ep esen ações coe as da sexualidade
eminina, mescla do elho aducianismo bíblico e
de uma medicina empí ica, a mulhe su ge como
animal sexualmen e insaciá el12 que, a pa de um
ape i e de o ado po oupas, jóias e cosmé icos,
o nados disponí eis pelas ei as e me cados de
Lond es, mani es a um des eg ado ape i e sexual. A
es e p opósi o, esc e e Ma bod o Rennes (apud
Blami es, 1992, p. 102, adução nossa) em De
Me e ice:
Como exemplo des e e í el mons o a se e i ado, a
sabedo ia an iga in en ou a e í el Quime a. Não
ime ecidamen e, diz-se que uma o ma íplice oi lhe
oi con e ida: o leão da pa e da en e, a ás a cauda de
uma se pen e, e as pa es do meio nada mais do que
uma chama incandescen e. Es a imagem imi a a
na u eza da p os i u a, na medida em que es a busca os
espólios pa a os le a na sua boca de leão, enquan o
inge se algo com uma apa ência imponen e, quase
nob e. Com es a achada, ela consome os seus ca i os
nas chamas do amo , nos quais nada de subs ância ou
peso é disce nido; apenas luxú ia í ola, i acional e
u iosa. As pa es de ás es ão plenas de eneno mo al
po que a mo e e a condenação dão po e minados os
p aze es sensuais13.
12 A es a Weisne : “A julga pelos p imei os manuais de sexo mode nos, a
sexualidade eminina ambém oi is a de o ma nega i a na opinião popula .
Dois dos manuais mais ezes publicados o am A is o le’s mas e -piece, em
inglês, publicada pela p imei a ez em 1684, e Venus minsieke gas huis,
publicada em ancês e holandês em Ams e dão na década de 1680. Ambas
elacionam a sexualidade eminina em ex os e ilus ações com animais e
conside am as mulhe es sexualmen e insaciá eis, como es emunhado pela sua
capacidade de e múl iplos o gasmos” (Weisne , 1993, p. 46, adução nossa);
e são o iginal: “Judging by ea ly mode n sex manuals, emale sexuali y was also
iewed nega i ely in popula opinion. Two o he mos equen ly published we e
A is o le’s mas e -piece, in English, i s published in 1684, and Venus minsieke
gas huis, published in F ench and Du ch in Ams e dam in he 1680s. Bo h o
hese link emale sexuali y in ex and illus a ions wi h animals, and see women
as sexually insa iable, as wi nessed by hei abili y o ha e mul iple o gasms”.
13 Ve são o iginal: “As exempla o his di e mons e o be a oided, ancien
wisdom con i ed he e i ying Chimae a. No undese edly, i is said a h ee old
shape was gi en o i : he on pa lion, he ea a se pen ’s ail, and he middle
pa s no hing bu ed-ho lame. This image mimics he na u e o he ha lo , in ha
she seizes spoil o ca y o in he lion’s mou h, while A es a Weisne : “A julga
pelos p imei os manuais de sexo mode nos, a sexualidade eminina ambém oi
is a de o ma nega i a na opinião popula . Dois dos manuais mais ezes
publicados o am A is o le’s mas e -piece, em inglês, publicada pela p imei a ez
em 1684, e Venus minsieke gas huis, publicada em ancês e holandês em
Ams e dão na década de 1680. Ambas elacionam a sexualidade eminina em
ex os e ilus ações com animais e conside am as mulhe es sexualmen e
insaciá eis, como es emunhado pela sua capacidade de e múl iplos o gasmos”
Ape i es e Exc eções em Blu Page 5 o 10
Ac a Scien ia um. Language and Cul u e, . 40(2), e36457, 2018
Examinemos como é ep esen ada a co esã: de
obje o de consumo no p imei o a o a consumido a
no segundo. Quando F isco, o po ei o do bo del,
anuncia Cu e o, é a ez des e idalgo dec épi o se
compa ado a um gu ne , peixe de cabeça g aúda e
ou içada:
FRISCO; Ha k, shall he en e he b each?
IMPERIA: Fie, ie, ie. I wonde wha his gu ne ’s
head makes he e. Ye b ing him in; he will se e o
picking mea (Dekke , 1601-1602, II.ii.).
Na p imei a cena do e cei o a o, Impe ia em
em is a um epas o al e na i o, suge ido po um
e a o de um p isionei o ancês que Hipoli o,
i mão de Viole a, omou a seu cuidado en ia :
The wooden pic u e you sen he ha h se he on
i e, and she desi es you […] o se e ha monsieu
in a suppe o he . […]
HIPOLITO: The F enchman! Sain Dennis, le he
ca e him up! S ay, he e’s Camillo. […] News,
news: Impe ia do es on Fon inell.
CAMILLO: Wha com o speaks he lo e o my
sick hea ?
HIPOLITO: […] The F enchman, you see, has a
mis ess, being gi en o his new alling-sickness,
will cu e hee. The F enchman, you see, has a so
ma malady hea , and shall no soone eel Impe ia’s
liquo ish desi e o lick a him, bu s aigh he’ll s ick
he b ooch o he longing in i […] (Dekke ,
1601-1602, III. i.).
A a és do co po da co esã, do exage o dos
seus ape i es ísico e sexual, emos o g o esco em
cena e a ei e ação da c ença de que as mulhe es
padecem dos pecados mo ais da gula e da luxú ia.
A Impe ia cabe o papel de ‘ incha ’ Fon inell de
modo a que es e deixe de se é ice no iângulo
amo oso Camillo – Viole a – Fon inell. Pe an e o
ímpe o do desejo sexual de uma co esã – Impe ia’s
liquo ish desi e o lick a him – o ancês deixa á o
caminho desimpedido. Hipoli o ab e o caminho,
dando-lhe a conhece a paixão da bona oba e
assegu ando-lhe a libe ação do es ado de
p isionei o:
[…] he e’s a li le dapple-colou ’d ascal, ho, a bona
oba. He name’s Impe ia, a gen lewoman, by my ai h,
o an ancien house, and has goodly en s and comings
in o he own; and his ape would ain ha e hee
(Weisne , 1993, p. 46, adução nossa); e são o iginal: “Judging by ea ly
mode n sex manuals, emale sexuali y was also iewed nega i ely in popula
opinion. Two o he mos equen ly published we e A is o le’s mas e -piece, in
English, i s published in 1684, and Venus minsieke gas huis, published in
F ench and Du ch in Ams e dam in he 1680s. Bo h o hese link emale sexuali y
in ex and illus a ions wi h animals, and see women as sexually insa iable, as
wi nessed by hei abili y o ha e mul iple o gasms”.
13 Ve são o iginal: “As exempla o his di e mons e o be a oided, ancien
wisdom con i ed he e i ying Chimae a. No undese edly eigning o be
some hing wi h an imp essi e, quasi-noble appea ance. Wi h his açade she
consumes he cap i es in he lames o lo e in which no hing o subs ance o
weigh is seen; only i olous, i a ional, u ious lus . The back pa s a e c ammed
wi h deadly poison because dea h and damna ion e mina e sensual pleasu es”.
chain’d o he in he holy s a e. Si ah, she’s all’n in
lo e wi h hy pic u e; yes, ai h. To he , woo he , and
win he . Lea e my sis e and hy ansom’s paid, all’s
paid, gen lemen (Dekke , 1601-1602, III. i.).
Enquan o a Madonna não ‘ a ia’ o ca i o
ancês, con ém que Viole a ceda aos a anços do
Camillo, assolado pela angús ia de um amo
apa en emen e não co espondido. Hipoli o
exe ce a sua au o idade pa ia cal de i mão que já
escolheu um cunhado a seu gos o, p ocu ando
que Viole a ceda à co e de Camillo, sem sucesso.
Quando a donzela ecusa cede à imposição do
i mão é al o de insul os no eminino, o p imei o
deles com cono ações equídeas: apa iga
sexualmen e imo al (scu y i )14, p os i u a (punk)
e a é Fon inell se ê compa ado a uma me e iz
(muskca ) po associação à amada:
You scu y i ; ‘s oo , scu y any hing! Do you hea ,
Susanna? You punk, i I geld no you muskca ! I’ll
do’ , by Jesu! (Dekke , 1601-1602, III. i.).
A aques congéne es são e omados no úl imo
a o:
HIPOLITO: As o ha ligh hobbyho se, my sis e ,
whose oul name I will ase ou wi h my ponia d, by
he honou o my amily, which he lus ha h
p o aned, I swea – and gen lemen, be in his my
swo n b o he s – I swea ha as all Venice does
admi e he beau y, so all he wo ld shall be amazed
a he punishmen (Dekke , 1601-1602, V.i.).
CAMILLO: […] And, wan on dame, ou w a h he e
mus no sleep; You sin being deep’s , you sha e
shall be mos deep (Dekke , 1601-1602, V.iii.).
Coloca-se ên ase na possessão mais aliosa da
mulhe numa sociedade de sucessão pa ilineal: a
cas idade, con apondo es e ideal masculino de
eminilidade com o a qué ipo da mulhe
ameaçado a da o dem, a diabólica, desgo e nada e
sexualmen e ac i a wan on dame, que deixa en a e
é en ado a15.
14 Repa e-se mais po meno izadamen e na ans e ência semân ica da pala a i
de ca alo pa a mulhe : “Ao longo dos séculos, i deno ou um seio, um mamilo,
um pequeno animal, um ca alo, uma pessoa ola, uma menina, uma mulhe e
uma p os i u a [...]. Como um nome pa a um ca alo pequeno, i en ou na língua
inglesa no inal do século XVI […]. No inal do século XVI, i deno a a uma
mulhe jo em. Tal oi p esumi elmen e in luenciado an o po i no sen ido de um
animal pequeno como pela conexão equina” (Mills, 1991, p. 237, adução
nossa); e são o iginal: “O e he cen u ies i has deno ed a b eas , a nipple, a
small animal, a ho se, a silly pe son, a gi l, a woman and a who e […]. As a name
o a small ho se, i en e ed English in he la e C16 h […]. Towa ds he end o he
C16 h i deno ed a young woman. This was p esumably in luenced bo h by i in
he sense o a small animal and by he equine connec ion”.
15 Vem a p opósi o o que esc e e Lisa Ja dine: “[...] mo alis as e sa i is as
apidamen e con e e am uma sensação descon o á el segundo a qual as
mulhe es ( al como os ilhos mais no os e os g upos pe encen es às classes
baixas) es a am a agi com maio libe dade, num símbolo po en e de deso dem
ge al. Com equência c escen e no início do pe íodo mode no, a meno
possibilidade de e icácia eminina ansbo da em absolu o ho o e abuso po
pa e de uma eminilidade “mons uosa” – a não-mulhe ’ (Ja dine, 1983, p. 93,
adução nossa); e são o iginal: “[…] mo alis s and sa i is s we e quick o
con e an uneasy sense ha women (like younge sons, he low bo n, and
adi ional se an g oups) we e ac ing wi h g ea e eedom, in o a po en symbol
o gene al diso de . Wi h g owing equency in he ea ly mode n pe iod he
ain es possibili y o emale e ec i eness spills o e in o ou igh ho o and
abuse o ‘mons ous’ womanhood – he no -woman”.

Page 6 o 10 Mendes
Ac a Scien ia um. Language and Cul u e, . 40(2), e36457, 2018
Exc eções
Impe ia de mãos húmidas
No início da segunda cena do segundo a o,
Impe ia espe a clien es anspi ando p o usamen e.
A ação p ocessa-se numa a mos e a po oada de
e e ências sexuais:
IMPERIA: Fie, ie, ie, ie, by he ligh oa h o my
an, he wea he is exceeding edious and ain .
T i ia, Simpe ina, s i , s i , s i ; one o you open he
casemen s, ’o he ake a en oy and gen ly cool my
ace. Fie, I ha’ such an exceeding high colou , I so
swea […] (Dekke , 1601-1602, II. ii.).
A ep esen ação de uma mulhe excessi a pela
di iculdade de con olo sob e os seus luidos
co po ais e ela-se no e a o da co esã pelas mãos
ligei amen e anspi adas ( he mois -handed Impe ia), o
que co obo á uma al a de cas idade16.
O co po-luga de p aze es acompanha o co po-
o gânico, máquina de sec eções, como é o nado
e iden e pela associação do co po eminino a luidos
no discu so médico mode no17. A dado passo,
ambém em Lo e’s Die de Donne (1998) se ale a o
aman e pa a a alsidade das lág imas emininas:
olhos que pa a odos olam, não cho am,
anspi am:
I suck’d he s, I le him know
‘Twas no a ea which he had go ,
His d ink was coun e ei , as was his mea ;
Fo eyes which oll owa ds all, weep no , bu swea
(Donne, 1998, p. 144).
A exibição do o gânico
No e cei o a o encon amos Cu e o num
qua o do bo del de Impe ia, á ido da sua p esença.
Pe an e a esis ência de Simpe ia, a c iada, o idalgo
acaba po cede pe an e a p omessa de pode
eg essa a uma ho a combinada, al u a em que se á
a endido depois de oca uma sine a. Po ém, igno a
o háli o é ido a cebola e álcool, no undo, ‘amacia ’
uma ca ne descaída e en ugada compa á el a
bacalhau (d y’d s ock ishes) ao pon o de a o na
sensual, cons i ui uma missão imp a icá el pa a a
Madonna:
16 Como nos lemb a Daileade a p opósi o de U sula de Ba holomew ai : “O
co po eminino, com sua pele po osa e bu acos, unciona como me onímia,
símbolo e sin oma, de excesso em ge al. Esse excesso […] pode se ealizado
socialmen e ou p oje ado isicamen e [...] mas semp e […] se esumi á a sexo”
(Daileade , 1998, p. 66, adução nossa); e são o iginal: “The emale body, wi h
i s po ous skin and unning holes, ope a es as bo h me onymy, bo h symbol and
symp om, o excess in gene al. This excess […] may be enac ed socially o
p ojec ed physically […] bu i always […] comes down o sex”.
17 Re e e MacLean: “Quase odos os ou os ex os an igos podem se
in e p e ados como indicando que a mulhe é mais ia e húmida nos humo es
dominan es, mas depois de 1580 is o já não se á conside ado um sinal de
impe eição” (MacLean, 1980, p. 34, adução nossa); e são o iginal: “Nea ly all
o he ancien ex s can be in e p e ed o indica e ha woman is colde and
mois e in dominan humou s, bu a e 1580 his is no longe assumed o be a
sign o impe ec ion”.
Is his old o en aqua- i ae bo le s opp’d up? Is he
gone? Fie, ie, ie, ie, he so smells o ale and onions
and osa-solis, ie. Bol he doo , s op he keyhole,
les his b ea h peep in; bu n some pe ume. I do no
lo e o handle hese d y’d s ock ishes ha ask so
much awing, ie, ie, ie (Dekke , 1601-1602,
III. iii.).
Ainda na mesma cena, Laza illo con oca Impe ia
pa a um encon o:
IMPERIA: […] Abou wel e a’ clock you shall ake
my beau y p isone . Fie, ie, ie, how I blush. A
wel e a’ clock.
LAZARILLO: Rich a gosy o all golden pleasu e!
(Dekke , 1601-1602, III. iii.).
Ve emos que inespe ado p aze dou ado18 espe a
Laza illo. Tal como sucedeu com Cu e o, ambém
os planos lasci os do espanhol não são ecebidos
en usias icamen e po Impe ia, compa ado-o a um
al aia e, o mais desp ezí el dos p e enden es. A
Madonna e ela as suas e dadei as in enções de se
li a do pequeno a enque que ede no seu
o ganismo. Mais impo an e pa a es a é o banque e
que deixou a meio:
So, so, so, I will be id o his b oiled ed sp a ha
s inks so in my s omach, ih. I ha e him wo se han
o ha e a ailo come a-wooing o me. […] God’s
me [...] he banque , I o ge (Dekke , 1601-1602,
III. iii.).
Tal como o sexo é um cons angimen o
isiológico, ambém o abuso da alimen ação no
bo del de Impe ia aca e a o exc emencial, num
ciclo icioso de ansmu ação do gus a ó io em
exc e ó io. O que esc e e Celia Daileade a
p opósi o de Ba holomew Fai aplica-se a Blu :
ambos são “sob e mulhe es que comem demais,
bebem demais, [...] que u inam demasiado [...]
Todos es es p oblemas são, na ealidade, os mesmos:
consumo excessi o ( isiológico, sexual [...]) implica
gas o excessi o e ice e sa” (Daileade , 1988, p. 66,
adução nossa)19. É possí el aze um pa alelo com
o a amen o que Jonson az da sexualidade eminina
enquan o pe u bado a da au onomia masculina no
seu epig ama On Gu 20, onde não se dis ingue um
o gasmo de qualque ou a e acuação ísica:
Gu ea es all day, and leche s all he nigh ,
So all his mea e he as e h oue , wise:
18 A e e ência a golden pleasu e e oca uma cena inicial de Romeo and Julie ,
em que o p o agonis a, não endo conseguido ‘assal a ’ Rosaline sexualmen e,
comen a: ‘She’ll no be hi / Wi h Cupid’s a ow: she ha h Diana’s wi , / And, in
s ong p oo o chas i y well a med, / F om Lo e’s weak childish bow she li es
unha med. / She will no s ay he siege o lo ing e ms, / No bid h’encoun e o
assailing eyes, / No ope he lap o sain -seducing gold’ (Shakespea e, I.i.207-
214).
19 Ve são o iginal: “Ba holomew Fai […] is abou women who ea oo much,
d ink oo much, […] who pee oo much [...] Fo all o hese p oblems a e eally he
same: excess consump ion (physiologically, sexually […]) implies excess
expendi u e and ice e sa”.
20 T a a-se do epig ama CXVIII, ci ado em McLuskie (1989, p. 171-172).
Ape i es e Exc eções em Blu Page 7 o 10
Ac a Scien ia um. Language and Cul u e, . 40(2), e36457, 2018
And s iuing so o double his deligh ,
He makes himsel e a ho ough- a e o ice.
Thus, in his belly, can he change a sin,
Lus i comes ou ha glu ony wen in (McLuskie,
1989, p. 171-172).
En e an o, numa ua em en e ao bo del de
Impe ia, Cu e o p ocu a a co da da sine a, cujo
som quali ica de libidinoso e amo oso – lus y peal e
lo e’s knell – po con ia que lhe a á a igua ia
espe ada.
A peal, a lus y peal, se , ing lo e’s knell;
I’ll swea , bu hus I’ll bea away he bell (Dekke ,
1601-1602, IV. i.).
Numa si uação de i onia d amá ica, eis que
Cu e o é encha cado em u ina, co esia da
a madilha mon ada po Simpe ina, numa possí el
eminiscência do Wi e o Ba h’s P ologue de Geo ey
Chauce (Chauce & Cannon, 2011)21. Con udo, se
Sóc a es, de aco do com a lenda, não se a e eu a
ipos a , na lógica de Blu segue-se um ine i á el
co ejo de insul os no eminino:
Umh! D own’d? Noah’s lood? Duck’d o e head
and ea s? […] I swea now ill I d op. Wha
illainies, oh!
Punks, punka e oes, nags, hags I will ban.
I ha e ca ch’d my bane (Dekke , 1601-1602, IV. i.).
A queda de deje os assemelha-se-lhe a um
Dilú io gelado. Ensopado, ilipendiado na sua
aidade de macho, exec a as mulhe es (Punks,
punka e oes, nags, hags I will ban) se indo-se de
a aques sexualmen e de oga ó ios a a és da
associação semân ica do eminino a um animal e a
espí i os malé icos: nag22 e hag23, espec i amen e;
21 “He le ou no hing o he g ie and woe / Tha he wice-ma ied Soc a es wen
h ough; / How Xan hippe pou ed piss upon his head, / And he poo man sa
s ock-s ill as i dead; / He wiped his head, no da ing o complain: / ‘Be o e he
hunde s ops, down comes he ain!’” (Chauce & Cannon 2011, p. 168).
22 No que diz espei o a nag, Mills e e e: “No século XVI, nag o nou-se um
e mo de abuso aplicado p incipalmen e às mulhe es [...]. Nag é ou o exemplo
da me á o a do ca alo que suge e que a mulhe é pa a se ‘mon ada’ po um
ca alei o [...]. As cono ações de um ca alo cansado o am usadas pa a deneg i
odas as mulhe es, não apenas as idosas e cansadas” (Mills, 1991, p. 176,
adução nossa); e são o iginal: “In he C16 h nag became a e m o abuse
applied mos ly o women […]. Nag is ye ano he example o he ho se me apho
which sugges s a woman is a moun o be ‘ idden’ by a male ide […], The
conno a ions o a i ed ho se we e used o denig a e all women, no jus old and
i ed ones”.
23 Quan o ao ocábulo hag, “a haeg esse do inglês an igo deno a a um espí i o
maligno a e o izado , um demónio ou se in e nal sob a o ma eminina. A
pala a de aiz indo-eu opeia signi icou aga a ou pega e, po ex ensão, ce ca
(em). O sen ido de ap eensão pode e le ado ao signi icado de haeg esse como
alguém que se apode ou das suas í imas (ge almen e do sexo masculino). No
inal do século XIV, endo o c is ianismo iun ado sob e as eligiões pagãs, hag
signi ica a um espí i o eminino maligno [...], assim como o sen ido deg adado de
uma elha eia e epulsi a, com as implicações de maldade ou maldade […]. No
inal do século XVI, quando an o a Ig eja quan o o Es ado espalha am o medo
popula da ei iça ia, a b uxa passou, mais uma ez, a signi ica b uxa. As
mulhe es que o am pe seguidas, o u adas e mo as e am ge almen e mulhe es
idosas e assim, po de inição, eias” (Mills, 1991, p. 113; adução nossa); e são
o iginal: “[ ]he Old English haeg esse deno ed a e i ying e il spi i , demon o
in e nal being in emale o m. The Indo-Eu opean oo wo d mean o seize o
ca ch and, by ex ension, o ence (in). The sense o seize may ha e led o he
meaning o haeg esse as one who seized he (usually male) ic ims. By he end
o he C14 h, Ch is iani y ha ing iumphed o e pagan eligions, hag mean an
e il emale spi i […], as well as he debased sense o an ugly, epulsi e old
woman, wi h he implica ions o maliciousness o iciousness […]. By he end o
encido, admi e e -se a uinado (I ha e ca ch’d my
bane) pela ligação a p os i u as (punks) e p oxene as
(punka e oes).
Simpe ia assoma à janela pa a e quem e a a
causa de amanha ozea ia:
SIMPERINA: Who’s he e?
CURVETTO: A wa e -man.
SIMPERINA: Who ings ha scolding peal?
CURVETTO: I am w inging we ,
I am wash’d; oh, he e’s ose-wa e sold by h’ ounce
[…] (Dekke , 1601-1602, IV. i.).
Os sons que Cu e o espe a a sensuais (lus y
peal) o nam-se sons de censu a (scolding peal) pelo
compo amen o masculino inopo uno. O idalgo
i oniza com a sua si uação, endo-se ans o mado
em aguadei o (wa e -man) que em ez de le a água
ao domicílio le a com uma olup uosa ‘ ag ância’
( ose-wa e ). Con inuam as ped adas e bais, des a
ei a com a ped a mais comum – who e – e lexo da
ambi alência epulsa e, simul aneamen e, ape i e
pela ca ne eminina24:
SIMPERINA: Wha do you ake us o ?
CURVETTO: Y’a e all damn’d who es! (Dekke ,
1601-1602, IV. i.).
Vejamos como se desen ola o jogo de pala as ho
e cool: se po um lado Cu e o es á exal ado, po
ou o o ogo do seu desejo oi ex in o pela u ina das
co esãs e dos seus clien es, endo-se e elado
a a és dessa ablução idículo, edo en o e
en aquecido:
SIMPERINA: Wha makes you be so ho ?
CURVETTO: You lie, I am cool;
I am an old cou ie , bu s inking ool! (Dekke ,
1601-1602, IV. i.).
Além de se em a o ma de mediação da
expe iência das elações de pode en e os sexos, há
he C16 h when bo h Chu ch and S a e anned popula ea o wi chc a , hag
once again came o mean wi ch. The women who we e pe secu ed, o u ed and
killed we e usually old women and hus, by e y de ini ion, ugly”.
24 Na mesma linha, Rhodes conclui: “O g o esco elisabe ano de i a da ins á el
coalescência de imagens con á ias da ca ne: indulgen e, abusada e condenada”
(Rhodes, 1980, p. 4, adução nossa); e são o iginal: “[ ]he Elizabe han
g o esque de i es om he uns able coalescence o con a y images o he lesh:
indulged, abused and damned”. Mills e e e: “[...] oi quando os p imei os c is ãos
começa am a di ama as p os i u as sag adas das eligiões pagãs, que o que
o iginalmen e o a um e mo de espei o esul ou num p ocesso de pejo ação. À
medida que so ia de pejo ação, es ei a a-se pa a se e e i às mulhe es apenas
em e mos dep ecia i os e, po im, limi a a-se à ala g ossei a e abusi a. Who e
em um signi icado mais amplo do que me amen e uma mulhe que se p os i ui a
con a o: ambém é usada de o ma mais ge al pa a e e i qualque mulhe que
seja conside ada impu a […] ou indecen e, o nicado a ou adúl e a […]. Como a
maio ia do ocabulá io ligado ao desejo masculino pelo o sexo ilíci o, a manei a
como a p os i u a oi usada e ela uma ambi alência: há an o uma a e são à
ca ne quan o uma paixão po ela” (Mills, 1991, p. 258, adução nossa); e são
o iginal: “[…] i was when he ea ly Ch is ians began o ili y he sac ed who es o
pagan eligions, ha wha had o iginally been a poli e e m o espec began a
p ocess o pejo a ion. As i unde wen pejo a ion i na owed o e e o women
solely in de oga o y e ms and e en ually became con ine o coa se and abusi e
speech. Who e has a wide meaning han me ely a woman who p os i u es
he sel o hi e: i is also used mo e gene ally o any women who is conside ed
unchas e […] o lewd, a o nica ess o adul e ess […]. Like mos o ou
ocabula y connec ed o male desi e o illici sex, he way in which who e has
been used e eals an ambi alence: he e is bo h an abho ence o he lesh and
a passion o i ”.
Page 8 o 10 Mendes
Ac a Scien ia um. Language and Cul u e, . 40(2), e36457, 2018
que econhece o p aze social de iso comuni á io
que si uações de iolência con a o pode ideológico
da au o idade p o oca( a)m. Simpe ia chega a
chama -lhe indi e amen e animal de esgo os que
p e endia e adica :
SIMPERINA: God’s my li e, wha ha e you done?
You a e in a swee pickle i you pull’d a his ope
[…]. Why, his was a wa e wo k o d own a a ha
uses o c eep in a his window (Dekke , 1601-1602,
IV. i.).
No amen e num qua o do bo del de Impe ia, é
a ez de Laza illo, ao en a sa is aze a sua ome
sexual esguei ando-se pa a a alco a de Impe ia, se
ecebido com exc emen os, p imei o ao cai po
alçapão numa ossa e depois ao se ensopado de
u ina. A epulsa isce al de uma sexualidade exp essa
em e mos de ca ne pa a consumo a inge o clímax
na ingança que a mulhe e e enciada p e iamen e
como ca ne se iu ia: Impe ia, eduzida a um
co po desumanizado, e alia com os subp odu os do
seu ape i e. O homem que deseja pe isca , mas que
não é ele p óp io pe isco ameaça omi a :
Ho, ho, F isco! Madonna! I am in hell, bu he e is
no i e; hell i e is all pu ou . Wha ho? so, ho, ho? I
shall be d own’d. I beseech hee, dea F isco, aise
Blu he cons able, o some sca enge , o come and
make clean hese kennels o hell, o hey s ink so,
ha I shall cas away my p ecious sel (Dekke ,
1601-1602, IV. ii.).
O desespe o de Laza illo con inua a é à cena
seguin e, em que p ocu a o pa aíso ma e ializado no
bo del de Impe ia (ho house o my lo e), sem sabe que
o in e no nauseabundo em que se encon a é a ossa
desse bo del:
LAZARILLO: I beseech hee se i e on hy bush o
ho ns o ligh and wa m me, o I am dung-we . I
ell like Luci e , I hink, in o hell, and am c awl’d
ou , bu in wo se pickle han my lean Pilche .
He eabou is he ho house o my lo e [...] Le me
en e , mos p ecious F isco; he mis ess o his
mansion is my beau i ul hos ess.
FRISCO: How? You u pen ine pill, my wi e you
hos ess? Away, you Spanish e min! […]
LAZARILLO: I mus and will lamen .
FRISCO: Mus you? I’ll wash o you ea s! Away,
you hog’s- ace! [D enches him wi h u ine, hen]
exi .
LAZARILLO: Thou has soused my poo hog’s-
ace. 0 F isco, hou a a scu y doc o o cas my
wa e no be e ; i is a mos ammish u ine (Dekke ,
1601-1602, V. iii.).
Median e o a e ecimen o da paixão de Laza illo
po in e médio de uma unção de exc emen os,
conclui-se que “[...] o abuso ísico e o a amen o
g o esco da sexualidade se ligam em exc emen os”
(Rhodes, 1980, p. 84, adução nossa)25. O
a amen o da sexualidade a igu a-se g o esco e
esca ológico, a a és da concepção do co po como
alimen o pa a a sa is ação de necessidades
isiológicas e como luga de simples exibição das
unções exc e ó ias, espe áculo que esul a numa
iolação igu a i a do co po pela desumanização e
en aquecimen o do co po masculino. Rei indica-se
o pode do exc emencial como sinalizado de
alimen o não desejado e quase como ex e io ização
da au ode e minação sexual eminina.
Boca, cala - e-ei com um beijo
Tudo acaba como se ia de espe a . Viole a une-
se a Fon inell e nes e ambien e de ha monia social e
consequen e neu alização de ensões sexuais, em
que o casamen o esul a an o numa solução social
como na a i a pa a ambos os en edos, a desbocada
Impe ia é silenciada com um beijo po Hipoli o, o
i mão da donzela, num pa alelo com a cena inal
en e Bea ice e Benedic em Much ado abou no hing
de Shakespea e (2003):
Punk, you may laugh a his.
He e’s icks, bu , mou h, I’ll s op you wi h a kiss
(Dekke , 1601-1602, V. iii.).
O excesso e bal da co esã, que zomba des a
si uação, cons i ui uma ameaça à au o idade. Po ém,
ao mesmo empo que as a i udes de Impe ia êm
uma unção li e á ia (se não ossem g ossei as, não
ha e ia en edo e as ansiedades sociais e sexuais
ep esen adas na peça ica iam sem sus en ação),
uncionam como exemplo de compo amen os
incon enien es nes e ambien e cul u al,
es abelecendo a o dem apa en emen e ameaçada26.
Segue-se mais mo i o pa a iso, quando Duke
comunica a Cu e o que a Madonna o acusou de
en a i a de oubo e que a única o ma de e i a a
mo e é o casamen o. A is o, a ‘ í ima’ esponde que
se o izesse se ia apelidado de on o (daw) e co nudo
(ox) po casa com uma mulhe que é de odos:
acei a di e i -se com ela, mas casa só se não
es i esse na posse das suas aculdades:
How? Die o ma y he ? Then call me daw.
Ma y he – she’s mo e common han he law –
Fo boys o call me ox? No, I am no d unk.
I’ll play wi h he bu , hang he , wed no punk.
I shall be a hoa y cou ie hen, indeed,
And ha e a pe ilous head; hen I we e bes
25 Ve são o iginal: “[p]hysical abuse and he comic g o esque ea men o
sexuali y ma y in exc emen ”.
26 No mesmo sen ido, esc e e McLuskie (1989, p. 54-55, adução nossa): “[…] Pa a
os esc i o es, o po encial cómico e pa é ico do compo amen o dis up i o das mulhe es
pode ia se ap eciado po que, em úl ima análise, e a con olado an o pela es u u a
na a i a quan o pela a i mação inal da o dem pa ia cal”; e são o iginal; “[…] o he
w i e s, he comic and pa he ic po en ial o women’s dis up i e beha iou could be
app ecia ed and enjoyed because i was ul ima ely con olled bo h by he na a i e
amewo k and by he inal asse ion o pa ia chal o de ”.
Ape i es e Exc eções em Blu Page 9 o 10
Ac a Scien ia um. Language and Cul u e, . 40(2), e36457, 2018
Lie close, lie close o hid my o ked c es .
No; ie, ie, ie, hang me be o e he doo
Whe e I was d own’d e e I ma y wi h a who e
(Dekke , 1601-1602, V. iii.).
Sendo a luxú ia uma aqueza ca nal, apanágio do
géne o eminino, a ome de Cu e o o nou-o
e eminado. Ao desis i do co po de Impe ia nes e a o
inal, assumindo a sua loucu a e ap endendo a
con ola os seus impulsos, o idalgo o na-se macho
de no o, unindo-se aos ou os na cons ução da
sexualidade eminina enquan o consumido a e
dessang ado a. A ‘educação’ de Cu e o espelha o
disposi i o da sexualidade que de ine e con ém os
co pos den o da peça: a in empe ança sexual é
sa i izada e ( e)cons uída em compo amen o social
con o me, enquan o o co po da co esã
consubs ancia a sexualidade eminina
simul aneamen e o az e ú il, eminiscen e das
pala as de San o Agos inho em De O dine:
As p os i u as numa cidade são como um esgo o
num palácio. Se nos li amos do esgo o, odo o
palácio se o na á imundo e indigno. (apud Mills,
1994, p. 195, adução nossa)27.
Conclusão
As p á icas discu si as e le em as ansiedades e
alo es con empo âneos, cons i uindo-se a
sexualidade uma p oblemá ica que ai adqui indo
uma essi u a cada ez mais complexa: Dekke
(1601–1602) c i ica o p ocesso de enalização da
sociedade ao coloca p os i u as no palco, ao mesmo
empo que é in luenciado pelas ideologias que
ma e ializam os males sociais nas mulhe es. O amo
é en endido em Blu como um cons angimen o
c uamen e glandula , ep esen ado me onimicamen e
a a és da boca e dos ó gãos geni ais enquan o
consumo eminino des eg ado e enquan o eliminação
no amen e pelo co po da mulhe . O discu so da ob a,
em que o pe igoso e excessi o são emininos, o ien a-
se no sen ido do es abelecimen o da o dem a a és do
ades amen o da p os i u a e do idalgo dec épi o.
Conclui-se que, apesa das apa ências, a
au o idade pa ia cal nunca es e e e dadei amen e
em ques ão, pa icipando a peça num p ocesso a i o
de einsc ição de no mas cul u ais e consequen e
no ma i ização do compo amen o dos sujei os, a
que aludimos na in odução a es e ensaio. Os co pos
são ‘p oduzidos’ po oposição a uma noção de
compo amen o abje o. Mais uma ez, cump e ao
ex o d amá ico um papel p i ilegiado de eículo e
palco de c ise ideológica28, sendo eminen emen e
27 Ve são o iginal: “P os i u es in a ci y a e like a sewe in a palace. I you ge id
o he sewe , he whole palace becomes il hy and oul”.
28 Ve i ica Lisa Ja dine a p opósi o do d ama da época: “A gumen o que o o e
in e esse pelas mulhe es demons ado pelo d ama isabelino e jacobino não
alo izado pela sua capacidade de in e enção
dinâmica e ma e ial na his ó ia. Nas sucessi as
encenações e in e p e ações c í icas, no âmbi o das
quais es e es udo se inse e, essal am os obje i os de
con ibui pa a a cons an e econcep ualização cul u al
de di e ença sexual, que em indo a ca a e iza os
Es udos de Géne o com pa icula incidência desde os
anos 80 do século XX, e um en endimen o mais
ap o undado da o ma como es a de i a de es a égias
de pode .
Re e ências
Blami es, A. (Ed.). (1992). Woman de amed and women
de ended: an an hology o medie al ex s. Ox o d, UK:
Cla edon P ess.
B aido i, R. (1994). Nomad subjec s: embodimen and sexual
di e ence in con empo a y eminis heo y. New Yo k, NY:
Columbia Uni e si y P ess.
B is ow, J. (1997). Sexuali y. London, UK: Rou ledge.
Bu le , J. (1990). Gende ouble: eminism and he sub e sion
o iden i y. New Yo k, NY: Rou ledge.
Chauce , C, & Cannon, C. (2011). The Can e bu y ales.
Ox o d, UK: Ox o d Uni e si y P ess.
Daileade , C. (1998). E o icism on he enaissance s age:
anscendence, desi e, and he limi s o he isible. Camb idge,
UK: Camb idge Uni e si y P ess.
Dekke , T. (1601–1602). Blu , Majo Cons able o he
spania d’s nigh walk. Re i ado de h p://www. ech.
o g/~clea y/blu .h ml.
Donne, J. (1998). Poemas e ó icos. (H. Ba bas, T ad.).
Lisboa, PT: Assí io & Al im.
Foucaul , M. (1994). His ó ia da sexualidade I: a on ade de
sabe . Lisboa, PT: Relógio D’Água.
Had ield, A. (2013). The english enaissance, 1500-1620.
Ox o d, UK: Blackwell.
Halpe in, D. M. (2007). How o do he his o y o homosexuali y.
Chicago, IL: Uni e si y o Chicago P ess.
Holmes, D. M. (1969). Thomas Middle on’s Blu , Mas e
Cons able, o he spania d’s nigh walk. Mode n Language
Re iew, 64(1), 1-10.
Homem, R. C. (2010). Fleshly oyages: Ben Jonson, space
and he body. SEDERI: Yea book o he Spanish and
Po uguese Socie y o English Renaissance S udies, 11(1),
25-42.
Hooks, b. (1990). Yea ning: ace, gende and cul u al poli ics.
Bos on, MA: Sou h End P ess.
Ja dine, L. (1983). S ill ha ping on daugh e s: women and d ama in
he age o Shakespea e. B igh on, UK: Ha es e .
Jonson, B., & Hibba d, G. R. (2007). Ba holomew ai .
London, UK: A. & C. Black.
e le e, de ac o, condições sociais ecém-melho adas e mais opo unidades pa a
as mulhe es, mas es á elacionado com a p eocupação não decla ada do
pa ia cado ela i a às g andes mudanças sociais que ca ac e izam o pe íodo”
(Ja dine, 1983, p. 6, adução nossa); e são o iginal: “I main ain ha he s ong
in e es in women shown by Elizabe han and Jacobean d ama does no in ac
e lec newly imp o ed social condi ions, and g ea e possibili y o women, bu
a he is ela ed o he pa ia chy’s unexp essed wo y abou he g ea social
changes which cha ac e ise he pe iod”.