Full text
A
c a Scien ia um
h p://pe iodicos.uem.b /ojs/ac a
ISSN on-line: 1983-4683
Doi: 10.4025/ac ascilangcul . 40i2.36457 LITERATURA / LITERATURE
Ac a Scien ia um. Language and Cul u e, . 40(2), e36457, 2018
Ape i es e exc eções em Blu , Majo Cons able, o The Spania d’s
Nigh Walk de Thomas Dekke
Ana C is ina Mendes
Faculdade de Le as, Uni e sidade de Lisboa, Alameda da Uni e sidade, 1600-214, Lisboa, Po ugal. E-mail: [email p o ec ed].p
RESUMO. O p esen e ensaio o e ece uma análise de Blu , Majo Cons able, o The Spania d’s Nigh Walk
(1601–1602) de Thomas Dekke , com en oque na cons ução do nexo comida-bebida-sexo-exc emen os
no ex o. Na es ei a dos Es udos Cul u ais e e le indo os p ocedimen os cien í icos aplicados aos a uais
es udos de Cul u a Inglesa, a me odologia ado ada nes e ensaio esul ou de um c uzamen o de abo dagens
eó icas que ca a e iza os Es udos de Géne o, é eis na e isão das posições c í icas e no desen ol imen o
de lei u as adicalmen e deses abilizado as de sabe es adqui idos. Enquan o obje o cul u al, Blu encena
p eocupações coe as ao espelha con adições ine en es ao sis ema pa ia cal, en endido não como uma
es u u a coesa, mas ele p óp io baseado em con adições ideológicas e em impulsos disc epan es. Tais
con adições e impulsos são ep esen a i os das mudanças cul u ais e das ans o mações his ó icas que
iden i icamos com a e olução da sociedade eu opeia do p incípio da e a mode na. Assim, um dos p incipais
p opósi os des e ensaio é obse a como é d ama izada a elação en e os sexos que, apesa de con li uosa,
não deixa de e um inal o dei o de modo a disciplina o co po ebelde das pe sonagens. Conclui-se que,
apesa das apa ências, a au o idade pa ia cal nunca es e e e dadei amen e em ques ão, pa icipando a peça
a i amen e num p ocesso de einsc ição de no mas cul u ais.
Pala as-cha e: enascimen o inglês; ex o d amá ico; Thomas Dekke ; sexualidade; co po ealidade; es udos
cul u ais; es udos de géne o.
Appe i es and exc e ions in Blu , Majo Cons able, o The Spania d’s Nigh Walk by Thomas
Dekke
ABSTRACT. The p esen essay o e s an analysis o Blu , Majo Cons able, o The Spania d’s Nigh Walk
(1601–1602) by Thomas Dekke , ocusing on he cons uc ion o he ood-d ink-sex-exc emen nexus in
he ex . In he wake o Cul u al S udies and e lec ing he scien i ic p ocedu es applied o he cu en
s udies o English Cul u e, he me hodology adop ed in his essay esul ed om a c oss- e iliza ion o
heo e ical app oaches which cha ac e izes Gende S udies, e ile in he e ision o c i ical posi ions and in
he de elopmen o adically des abilizing eadings o acqui ed knowledges. As a cul u al objec , Blu
enac s coe al conce ns by mi o ing con adic ions inhe en in he pa ia chal sys em, unde s ood no as a
cohesi e s uc u e, bu i sel based on ideological con adic ions and di e gen impulses. Such
con adic ions and impulses a e ep esen a i e o cul u al changes and his o ical ans o ma ions ha we
associa e wi h he e olu ion o socie y o he mode n e a. Thus, one o he main pu poses o his essay is o
obse e how he ela ionship be ween he sexes is d ama ized, which, al hough he sou ce o con lic , ends
in an o de ly ashion in o de o discipline he cha ac e s’ ebellious body. This essay concludes ha ,
despi e appea ances, in Dekke ’s Blu he pa ia chal au ho i y was ne e ac ually ques ioned, as he ex
ac i ely pa icipa es in a p ocess o einsc ip ion o cul u al no ms.
Keywo ds: english enaissance; d ama; Thomas Dekke ; sexuali y; co po eali y; cul u al s udies; gende s udies.
In odução
Num p imei o con ac o com a comédia isabelina
a dia Blu , Majo Cons able, o The Spania d’s Nigh
Walk (1601-1602) de Thomas Dekke 1, cla amen e
1 Man êm-se as dú idas em o no da au o ia des a ob a, ha endo au o es, como
Da id M. Holmes (1969) que a a ibuem a Thomas Middle on. Embo a não
consensual, assume-se que a peça oi esc i a po Thomas Dekke , al como
p opos o po Ma y Be h Rose (1988). Po que se seguiu um en oque especí ico
de lei u a, op ou-se po não inclui um esumo ala gado do en edo da peça de
Dekke , nem ca a e iza po meno izadamen e as pe sonagens p incipais ci adas
inspi ada nos en edos shakespea ianos de Romeo and
Julie (Shakespea e, 1992) e Much ado abou no hing
(Shakespea e, 2003), em-nos à ideia a pe sonagem
U sula de Ba holomew ai (1614) de Ben Jonson
ao longo do a igo. O en edo de Dekke começa po ap esen a os jo ens nob es
enezianos, Camillo e Hippoli o, ecém-chegados de uma ba alha. Camillo ha ia
cap u ado o ca alhei o ancês Fon inelle que é con iado à gua da da i mã de
Hippoli o, Viole a. F us ando o p oje o omân ico de Camillo, apaixonado po
Viole a, Fon inelle e Viole a casam-se sec e amen e. Numa en a i a de e e e
es e enamo amen o indesejado, Camillo e Hippoli o en iam o e a o do ancês
à co esã Impe ia.
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(Jonson & Hibba d, 2007), que p opo ciona aos
isi an es de uma ei a um local de sa is ação de
múl iplas u gências isiológicas2. Nes e ensaio, olha-
se pa a a ci culação de imagens de comida e
exc emen os em Blu , Majo Cons able (Dekke ,
1601-1602), ex o menos ilhado na c í ica a ual do
que Ba holomew ai de Jonson (Jonson & Hibba d,
2007), imagens especi icamen e elacionadas com o
co po e que odeiam cons an emen e as
pe sonagens, pa a examina a cons ução do nexo
comida-bebida-sexo-exc emen os no ex o de
Dekke (1601–1602). Na es ei a dos Es udos
Cul u ais e e le indo os p ocedimen os cien í icos
aplicados aos a uais es udos de Cul u a Inglesa, a
me odologia aqui ado ada esul ou de um
c uzamen o de abo dagens eó icas que ca a e iza os
Es udos de Géne o, é eis na e isão das posições
c í icas e no desen ol imen o de lei u as
adicalmen e deses abilizado as de sabe es
adqui idos.3 Tex os como Blu , Majo Cons able
(Dekke , 1601-1602) êm o es a u o de obje o
cul u al que, de o ma dinâmica, encena
p eocupações coe as. Em pa icula , a comédia de
Dekke (1601-1602) espelha con adições ine en es
ao sis ema pa ia cal, en endido não como uma
es u u a coesa, mas ele p óp io baseado em
con adições ideológicas e em impulsos disc epan es.
Tais con adições e impulsos são ep esen a i os das
mudanças cul u ais e das ans o mações his ó icas
que iden i icamos com a e olução da sociedade
eu opeia do p incípio da e a mode na (Mousley,
2000; Had ield, 2013).
O en oque da análise eside nos quesi os que
pe sonagens masculinas en en am ao se em
a acados e en aquecidos pelos ape i es – e
ine i á eis (sub)p odu os – emininos que
manipulam os ‘ ulne á eis’ ins in os sexuais
masculinos, já que nem a pe sonagem eminina
‘ espei á el’ consegue sup imi o seu a do po
quem não lhe es á des inado. In e essa obse a em
que medida a ‘ ecnologia adicional da ca ne’,
eco endo à exp essão de Michel Foucaul em
His ó ia da sexualidade (1994)4, é engend ada
2 Como a gumen a Rui Ca alho Homem (2010, p. 39, adução nossa), “[...] a
sua dupla unção como p opo cionado a de alimen os, bem como a única
equi alen e a uma e e e na ei a [...] [sublinha] aquele ou o aço
ca ac e is icamen e g o esco que é a usão e a pe mu abilidade das unções
co po ais”; [ e são o iginal: “[…] he double unc ion as p o ide o ood as well
as o he only equi alen o a oile in he ai […] [ o eg ounds] ha o he
cha ac e is ically g o esque ai which is he usion and in e changeabili y o
bodily unc ions”].
3 Po limi ações de espaço, na abo dagem aqui p opos a limi amo-nos a
econhece o con ibu o de K is e a (1981), Lau e is (1987), Bu le (1990), hooks
(1990) e B aido i (1994).
4 Podemos de ini ‘ ecnologia’ como um disposi i o de pode mais complexo e
sob e udo mais posi i o do que o simples e ei o de uma p oibição (Foucaul ,
1994). Não se explo a o impac o da ob a His ó ia da sexualidade de Foucaul
(1994) em desen ol imen os eó icos que ex a asam os es udos de géne o,
ce amen e me ecedo es de mais a enção do que uma no a de odapé, po
ques ões de economia da p esen e análise.
discu si amen e a a és da insc ição no co po das
pe sonagens, e de que o ma se le a a cabo a
p odução – ou ‘docilização’ – desses co pos com
is a ao es abelecimen o dos pad ões de
compo amen o ‘no mais’ na co en e o dem social.
Pa a al, conduzi -se-á uma análise ex ual de
exce os selecionados, com pa icula incidência no
en edo secundá io, endo como p emissa o expos o
po Neil Rhodes (1980, p. 69, adução nossa):
O p incipal agen e na ligação do ocabulá io do
abuso iolen o e do ocabulá io do sexo [...] é o que
chama ei de ca á e ‘sind ómico’ das imagens de
comédia popula isabelina; is o é, á ias ideias
di e en es se associam na u almen e a ce os ipos de
imagem pa a p oduzi uma sé ie de e e be ações
cómicas: [...] a comida suge e sexo, o sexo suge e
doença e assim po dian e5.
O amo cas o su ge como ema do en edo
p incipal da ob a de Dekke (1601–1602),
enquan o o en edo secundá io se de ém no amo
es i amen e ca nal, e le indo a dico omia
pu eza/impu eza que ab e caminho pa a a
cons ução do géne o eminino subjacen e ao
discu so con empo âneo da sexualidade (Phillips
& Reay, 2002). Como esc e e Ma y Be h Rose
(1988, p. 47, adução nossa):
Em busca da análise e exposição da co upção
u bana, a comédia ci adina ge almen e pa icipa com
en usiasmo do discu so pola izado que conside a o
amo sexual como le ando a um plano de exis ência
além do ísico, ou o deg ada como luxú ia, e na qual
a idealização das mulhe es e a misoginia se o nam as
únicas possibilidades pa a cons ui o sexo
eminino6.
Há que e igualmen e em con a a
con ingência his ó ica do e mo ‘sexualidade’,
apon ada po c í icos como Je ey Weeks (2016;
2017) e Da id M. Halpe in (2007), quando se
discu e a ida e ó ica de cul u as que an ecede am
os inais do século XIX, al u a em que o ocábulo
adqui iu o alo semân ico a ual (B is ow, 1997).
Assim, um dos p incipais p opósi os des e ensaio
é obse a como é d ama izada a elação en e os
sexos que, como e emos adian e, apesa de
con li uosa, não deixa de e um inal o dei o de
modo a disciplina o co po ebelde das
pe sonagens.
5 Ve são o iginal: “The chie agen in he linking o he ocabula y o iolen abuse
and he ocabula y o sex […] is wha I shall call he ‘synd omic’ cha ac e o
Elizabe han low-comedy image y; ha is o say, a numbe o di e en ideas
associa e na u ally wi h ce ain ypes o image o p oduce a se ies o comic
e e be a ions: […] ood sugges s sex, sex sugges s disease, and so on”.
6 Ve são o iginal: “In pu sui o he analysis and exposu e o u ban co up ion, ci y
comedy gene ally pa icipa es wi h gus o in he pola ising discou se ha ei he
iews sexual lo e as leading o a plane o exis ence beyond he physical o
deg ades i as lus , and in which idealiza ion o women and misogyny become he
only possibili ies o cons uing he emale sex”.
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Ape i es
O ca ní o o Laza illo
Na segunda cena do p imei o a o são-nos
ap esen adas duas pe sonagens amin as, cada uma
es omeada a seu modo. Acompanhado do seu
subnu ido pagem com nome de peixe seco,
Laza illo, um melancólico soldado espanhol7,
insinua que se encon a a a de de desejo (ou com os
e ei os de uma qualque doença ené ea), seguindo-
se um jogo esca ológico en ol endo o duplo sen ido
de lesh:
LAZARILLO: Boy, I am melancholy because I bu n.
PILCHER: And I am melancholy because I am a-
cold.
LAZARILLO: I pine away wi h he desi e o lesh
(Dekke , 1601-1602, I.ii.)8.
Num es ado de míngua, Pilche é cáus ico em
elação à concupiscência do seu pa ão:
PILCHER: I ’s nei he lesh no ish ha I pine o ,
bu o bo h.
LAZARILLO: Pilche , Cupid ha h go me a
s omach, and I long o lac’d mu on.
PILCHER: Plain mu on wi hou a lace would se e
me (Dekke , 1601-1602, I.ii.).
O deus do amo dá a Laza illo ou os ape i es e
ca es ias ca nais e, como al, necessi a de um
bo ego adul o, co po izado na p os i u a (lac’d
mu on9). Em espos a ao sa casmo de Pilche ,
con inua a ca a e ização da mulhe em e mos de
animalidade:
LAZARILLO: Fo as you ame monkey is you
only bes , and mos only beas o you Spanish lady,
… o as he commodi ies which a e sen ou o he
Low Coun ies and pu in essels called Mo he
Co nelius’ d y- a s a e mos common in F ance, so
7 O nome da pe sonagem e oca Laza illo de To mes (1554), a p imei a no ela
pica esca da li e a u a espanhola.
8 Os exce os dos ex os p imá ios isabelinos o am man idos no idioma o iginal
de ido ao a o de não exis i aduções des e ex o de Dekke pa a po uguês e
e ê-lo pa a po uguês con empo âneo não pa ece ia co e o (No a da au o a).
9 Vejam-se os sen idos coe os dos e mos mu on e laced mu on, al como
apon ados po Jane Mills: “Em 1518, o poe a inglês Tudo , John Skel on, usa a
co dei o pa a signi ica uma p os i u a, no sen ido de ‘comida pa a a luxú ia’: ‘And
om hens o he hal e s ee , To ge us some eshe me e. Why, is he e any
s o e o awe mu on?’ (Magny icence). O e mo laced mu on (1578-1694) a
p incípio não signi ica a mais do que um e mo dep ecia i o pa a uma p os i u a.
Con udo, no inal do século XVI deno a a uma p os i u a doen e: ‘You may […]
ea o a li le wa m mu on, bu ake heede i be no Laced, o ha is ill o a sicke
body’ (Nicholas B e on). […] Laced, do la im laque e, que signi ica enlaça ,
ambém é usado no sen ido de adminis a eneno. O que é, sem dú ida, como
um homem com sí ilis ou gono éia se sen e [...]. Aplicado a uma mulhe , o
ca nei o […] ambém se baseia numa imagem de o elha: as o elhas não são
conhecidas po sua in eligência” (Mills, 1991, p. 175, adução nossa); e são
o iginal: “In 1518 he English Tudo poe John Skel on used mu on in he sense
o ‘ ood o lus ’ o a p os i u e: ‘And om hens o he hal e s ee , To ge us
some eshe me e. Why, is he e any s o e o awe mu on?’ (Magny icence). The
e m laced mu on (1578-1694) a i s mean no hing mo e de oga o y han a
s umpe . Bu by he end o he C16 h i deno ed a diseased p os i u e: ‘You may
[…] ea o a li le wa m mu on, bu ake heede i be no Laced, o ha is ill o a
sicke body’ (Nicholas B e on). […] Laced, om he La in laque e, meaning o
ensna e, is also used in he sense o adminis e ing poison. Which is doub less
how a man wi h syphilis o gono hoea eels […] Applied o a woman, mu on […]
also d aws upon a sheep image: sheep a e no known o hei in elligence”.
i please h he des inies ha I should hi s o d ink
ou o a mos swee I alian essel, being Spania d
(Dekke , 1601-1602, I. ii.).
Os ocábulos bes e beas são in e dependen es no
con ex o da sequência ásica em que se inse em,
azendo equi ale des e modo Spanish lady a beas , já
que as mulhe es espanholas e am epu adas como
libidinosas. Assim, e emos uma compa ação da
mulhe com um macaco ades ado ou a a -se-á de
uma e e ência elada a p á icas sexuais de
bes ialidade?
Numa conjun u a de eme gência do capi alismo,
as mu ações económicas a uam como dis up o as
das elações sociais: a Lond es de Dekke e a um
local de expansão do in e câmbio come cial com a
Eu opa, p opo cionando as lojas lond inas uma
su p eenden e lis a de p odu os es angei os (Taylo
& Henley, 2016). Cons uindo uma sinédoque en e
a i idades económica e sexual, no co po da
p os i u a con luem o comé cio sexual e
es i amen e económico: no e-se a iden i icação de
commodi ies com as p os i u as impo adas dos Países
Baixos, bens de consumo anspo ados em
emba cações designadas Mo he Co nelius’ d y- a s, e a
imagem de uma banhei a colossal eple a de animais
pa a enda que so em, du an e o anspo e, um
p ocesso de pu i icação po meio da exsudação de
go du as noci as. Dekke (1601–1602) se e-se de
sua an e io e e ência a essel (na sua acepção mais
gené ica de ba co ou na io) pa a aludi a um
segundo sen ido de ecipien e pa a líquidos, de onde
se bebe (ou pa a onde se aza) ao e e i que, sendo
espanhol, es á-lhe des inado bebe de um mos swee
I alian essel, is o é, de uma mulhe - ecep áculo
i aliana. Associando a mulhe ao ecep áculo que
cons i ui o ú e o, a me á o a do co po da mulhe
enquan o essel é co en e, como a es a Jane Mills:
O concei o de mulhe como um ecipien e azio a
se p eenchido ou apado po um homem, pelo seu
ó gão sexual ou seu sémen, é uma imagem comum.
O aso, o iginá io do la im ascellum, que signi ica
um pequeno aso ou u na, e um na io, é mais um
exemplo de uma pala a que desc e e uma mulhe
como um ecipien e. (Mills, 1991, p. 246, adução
nossa)10.
No decu so da cena em Blu (Dekke , 1601-
1602), o an e io a amen o me a ó ico de essel
o na-se um símile despudo ado da Madonna de
mãos anspi adas, c ia u a pa a enda a clien es
endinhei ados mas ambém sagaz mulhe de
negócios, sin oma de uma sociedade cada ez mais
come cializada:
10 Ve são o iginal: “The concep o woman as an emp y con aine o be illed o
plugged up by a man, his sex o gan o his semen, is a common image. Vessel,
o igina ing in he La e La in ascellum, meaning a small ase o u n, and a ship,
is ye ano he example o a wo d which desc ibes a woman as a con aine ”.
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PILCHER: Wha essel is ha , signio ?
LAZARILLO: A woman, Pilche , he mois -handed
Madonna Impe ia, a mos a e and di ine c ea u e.
PILCHER: A mos ascally damn’d cou esan
(Dekke , 1601-1602, I.ii.).
O echo acima ansc i o unciona como um dos
exemplos da con luência na economia da peça de
ape i es do co po dou ina iamen e ep imidos pela
Ig eja Ca ólica. Como se obse a na ca ne de caça,
componen e da die a do amo suge ida po John
Donne no poema Lo e’s Die , após um desgos o
a e i o, o ecu so à imagé ica da comida é equen e
na ep esen ação cul u al da mulhe e dos seus
ó gãos geni ais, pa icula men e enquan o ca ne
des inada à sa is ação de necessidades sexuais
masculinas (Sugg, 2004)11:
Thus I eclaim’d my buzza d lo e, o ly
A wha , and when, and how, and whe e I choose;
Now negligen o spo I lie,
And now, as o he s alcone s use,
I sp ing a mis ess, swea , w i e, sigh and weep:
And he game kill’d, o los , go alk, and sleep
(Donne, 1998, p. 144).
Também T ue-Wi ad e e Mo ose dos pe igos
da união ma imonial em Epicoene, o he silen woman
(1609 [1953]) de Jonson, compa ando uma mulhe
bela e jo em a ca ne que a ai ine i a elmen e
moscas a ejei as:
I shee be ai e, yong, and ege ous, no swee mea s
e e d ew mo e lies [...] (Jonson 1609 [1953],
II.2.56).
Nos exce os de Blu (Dekke , 1601-1602),
lis am-se ês ocábulos que uncionam como
e e en es de mulhe es – lesh, mu on e essel, e mos
de oga ó ios com cono ações sexuais que e ão
o igem na ansiedade mo i ada po uma supos a
ameaça ao pode sexual a onil ou medo de possí el
insu iciência sexual, já que o desempenho eminino
con inua mis e ioso ao con á io da isibilidade do
co esponden e masculino. I onicamen e, na mesma
cena, o lúb ico Laza illo é compa ado a um ca alo
cas ado (cu al) po e ido o ges o mui o pouco
i il e másculo de dese a na úl ima ba alha: ‘[...]
his is he Spanish cu al ha in he las ba le led
11 No a Mills: “[…] no inal do século XVI, a ca ne e a um e mo gené ico
bas an e coloquial pa a o co po humano – a amen e o masculino – como um
ins umen o pa a o p aze sexual. Também se o nou gí ia pa a a agina e, mui o
ocasionalmen e, pa a o pénis ambém. The dic iona y o his o ical slang lis a
á ias ases coloquialmen e popula es desde o século XV, algumas ainda em
uso, que e ocam uma imagem de mulhe como ca ne mo a,
ensaguen adamen e esculpida, co ada, picada po um açouguei o ou cozinhei o,
e e en ualmen e se ida pa a consumo masculino” (Mills, 1991, p. 155, adução
nossa); e são o iginal: “[…] by he la e C16 h mea was a low colloquial gene ic
e m o human body – only a ely he male – as an ins umen o sexual
pleasu e. I also became slang o he agina and, e y occasionally, o he
penis, oo. The dic iona y o his o ical slang lis s se e al ph ases colloquially
popula since he C15 h, some s ill in use, which e oke an image o woman as
dead mea , bloodily ca ed up, hacked a , minced by a bu che o a cook, and
e en ually se ed up o male consump ion”.
wen y miles e e he look’d behind him’ (Dekke ,
1601-1602, I.ii.)
A canibal co esã
É sabido que a p os i u a pe manece como um
pon o de con ac o com o paganismo, sendo o pode
das an igas me e izes eminiscen e nas co esãs
enascen is as (Paglia, 1997). Desde logo, o nome
escolhido po Dekke (1601-1602) pa a a
pe sonagem – Impe ia – e oca ine i a elmen e Bel-
Impe ia, a he oína cas a de Spanish T agedy (1587) de
Thomas Kid, co po izando a Madona Impe ia o
complexo Madonna-p os i u a, usão da cas a Ma ia
e da lasci a Ma ia Madalena.
Nas ep esen ações coe as da sexualidade
eminina, mescla do elho aducianismo bíblico e
de uma medicina empí ica, a mulhe su ge como
animal sexualmen e insaciá el12 que, a pa de um
ape i e de o ado po oupas, jóias e cosmé icos,
o nados disponí eis pelas ei as e me cados de
Lond es, mani es a um des eg ado ape i e sexual. A
es e p opósi o, esc e e Ma bod o Rennes (apud
Blami es, 1992, p. 102, adução nossa) em De
Me e ice:
Como exemplo des e e í el mons o a se e i ado, a
sabedo ia an iga in en ou a e í el Quime a. Não
ime ecidamen e, diz-se que uma o ma íplice oi lhe
oi con e ida: o leão da pa e da en e, a ás a cauda de
uma se pen e, e as pa es do meio nada mais do que
uma chama incandescen e. Es a imagem imi a a
na u eza da p os i u a, na medida em que es a busca os
espólios pa a os le a na sua boca de leão, enquan o
inge se algo com uma apa ência imponen e, quase
nob e. Com es a achada, ela consome os seus ca i os
nas chamas do amo , nos quais nada de subs ância ou
peso é disce nido; apenas luxú ia í ola, i acional e
u iosa. As pa es de ás es ão plenas de eneno mo al
po que a mo e e a condenação dão po e minados os
p aze es sensuais13.
12 A es a Weisne : “A julga pelos p imei os manuais de sexo mode nos, a
sexualidade eminina ambém oi is a de o ma nega i a na opinião popula .
Dois dos manuais mais ezes publicados o am A is o le’s mas e -piece, em
inglês, publicada pela p imei a ez em 1684, e Venus minsieke gas huis,
publicada em ancês e holandês em Ams e dão na década de 1680. Ambas
elacionam a sexualidade eminina em ex os e ilus ações com animais e
conside am as mulhe es sexualmen e insaciá eis, como es emunhado pela sua
capacidade de e múl iplos o gasmos” (Weisne , 1993, p. 46, adução nossa);
e são o iginal: “Judging by ea ly mode n sex manuals, emale sexuali y was also
iewed nega i ely in popula opinion. Two o he mos equen ly published we e
A is o le’s mas e -piece, in English, i s published in 1684, and Venus minsieke
gas huis, published in F ench and Du ch in Ams e dam in he 1680s. Bo h o
hese link emale sexuali y in ex and illus a ions wi h animals, and see women
as sexually insa iable, as wi nessed by hei abili y o ha e mul iple o gasms”.
13 Ve são o iginal: “As exempla o his di e mons e o be a oided, ancien
wisdom con i ed he e i ying Chimae a. No undese edly, i is said a h ee old
shape was gi en o i : he on pa lion, he ea a se pen ’s ail, and he middle
pa s no hing bu ed-ho lame. This image mimics he na u e o he ha lo , in ha
she seizes spoil o ca y o in he lion’s mou h, while A es a Weisne : “A julga
pelos p imei os manuais de sexo mode nos, a sexualidade eminina ambém oi
is a de o ma nega i a na opinião popula . Dois dos manuais mais ezes
publicados o am A is o le’s mas e -piece, em inglês, publicada pela p imei a ez
em 1684, e Venus minsieke gas huis, publicada em ancês e holandês em
Ams e dão na década de 1680. Ambas elacionam a sexualidade eminina em
ex os e ilus ações com animais e conside am as mulhe es sexualmen e
insaciá eis, como es emunhado pela sua capacidade de e múl iplos o gasmos”
Ape i es e Exc eções em Blu Page 5 o 10
Ac a Scien ia um. Language and Cul u e, . 40(2), e36457, 2018
Examinemos como é ep esen ada a co esã: de
obje o de consumo no p imei o a o a consumido a
no segundo. Quando F isco, o po ei o do bo del,
anuncia Cu e o, é a ez des e idalgo dec épi o se
compa ado a um gu ne , peixe de cabeça g aúda e
ou içada:
FRISCO; Ha k, shall he en e he b each?
IMPERIA: Fie, ie, ie. I wonde wha his gu ne ’s
head makes he e. Ye b ing him in; he will se e o
picking mea (Dekke , 1601-1602, II.ii.).
Na p imei a cena do e cei o a o, Impe ia em
em is a um epas o al e na i o, suge ido po um
e a o de um p isionei o ancês que Hipoli o,
i mão de Viole a, omou a seu cuidado en ia :
The wooden pic u e you sen he ha h se he on
i e, and she desi es you […] o se e ha monsieu
in a suppe o he . […]
HIPOLITO: The F enchman! Sain Dennis, le he
ca e him up! S ay, he e’s Camillo. […] News,
news: Impe ia do es on Fon inell.
CAMILLO: Wha com o speaks he lo e o my
sick hea ?
HIPOLITO: […] The F enchman, you see, has a
mis ess, being gi en o his new alling-sickness,
will cu e hee. The F enchman, you see, has a so
ma malady hea , and shall no soone eel Impe ia’s
liquo ish desi e o lick a him, bu s aigh he’ll s ick
he b ooch o he longing in i […] (Dekke ,
1601-1602, III. i.).
A a és do co po da co esã, do exage o dos
seus ape i es ísico e sexual, emos o g o esco em
cena e a ei e ação da c ença de que as mulhe es
padecem dos pecados mo ais da gula e da luxú ia.
A Impe ia cabe o papel de ‘ incha ’ Fon inell de
modo a que es e deixe de se é ice no iângulo
amo oso Camillo – Viole a – Fon inell. Pe an e o
ímpe o do desejo sexual de uma co esã – Impe ia’s
liquo ish desi e o lick a him – o ancês deixa á o
caminho desimpedido. Hipoli o ab e o caminho,
dando-lhe a conhece a paixão da bona oba e
assegu ando-lhe a libe ação do es ado de
p isionei o:
[…] he e’s a li le dapple-colou ’d ascal, ho, a bona
oba. He name’s Impe ia, a gen lewoman, by my ai h,
o an ancien house, and has goodly en s and comings
in o he own; and his ape would ain ha e hee
(Weisne , 1993, p. 46, adução nossa); e são o iginal: “Judging by ea ly
mode n sex manuals, emale sexuali y was also iewed nega i ely in popula
opinion. Two o he mos equen ly published we e A is o le’s mas e -piece, in
English, i s published in 1684, and Venus minsieke gas huis, published in
F ench and Du ch in Ams e dam in he 1680s. Bo h o hese link emale sexuali y
in ex and illus a ions wi h animals, and see women as sexually insa iable, as
wi nessed by hei abili y o ha e mul iple o gasms”.
13 Ve são o iginal: “As exempla o his di e mons e o be a oided, ancien
wisdom con i ed he e i ying Chimae a. No undese edly eigning o be
some hing wi h an imp essi e, quasi-noble appea ance. Wi h his açade she
consumes he cap i es in he lames o lo e in which no hing o subs ance o
weigh is seen; only i olous, i a ional, u ious lus . The back pa s a e c ammed
wi h deadly poison because dea h and damna ion e mina e sensual pleasu es”.
chain’d o he in he holy s a e. Si ah, she’s all’n in
lo e wi h hy pic u e; yes, ai h. To he , woo he , and
win he . Lea e my sis e and hy ansom’s paid, all’s
paid, gen lemen (Dekke , 1601-1602, III. i.).
Enquan o a Madonna não ‘ a ia’ o ca i o
ancês, con ém que Viole a ceda aos a anços do
Camillo, assolado pela angús ia de um amo
apa en emen e não co espondido. Hipoli o
exe ce a sua au o idade pa ia cal de i mão que já
escolheu um cunhado a seu gos o, p ocu ando
que Viole a ceda à co e de Camillo, sem sucesso.
Quando a donzela ecusa cede à imposição do
i mão é al o de insul os no eminino, o p imei o
deles com cono ações equídeas: apa iga
sexualmen e imo al (scu y i )14, p os i u a (punk)
e a é Fon inell se ê compa ado a uma me e iz
(muskca ) po associação à amada:
You scu y i ; ‘s oo , scu y any hing! Do you hea ,
Susanna? You punk, i I geld no you muskca ! I’ll
do’ , by Jesu! (Dekke , 1601-1602, III. i.).
A aques congéne es são e omados no úl imo
a o:
HIPOLITO: As o ha ligh hobbyho se, my sis e ,
whose oul name I will ase ou wi h my ponia d, by
he honou o my amily, which he lus ha h
p o aned, I swea – and gen lemen, be in his my
swo n b o he s – I swea ha as all Venice does
admi e he beau y, so all he wo ld shall be amazed
a he punishmen (Dekke , 1601-1602, V.i.).
CAMILLO: […] And, wan on dame, ou w a h he e
mus no sleep; You sin being deep’s , you sha e
shall be mos deep (Dekke , 1601-1602, V.iii.).
Coloca-se ên ase na possessão mais aliosa da
mulhe numa sociedade de sucessão pa ilineal: a
cas idade, con apondo es e ideal masculino de
eminilidade com o a qué ipo da mulhe
ameaçado a da o dem, a diabólica, desgo e nada e
sexualmen e ac i a wan on dame, que deixa en a e
é en ado a15.
14 Repa e-se mais po meno izadamen e na ans e ência semân ica da pala a i
de ca alo pa a mulhe : “Ao longo dos séculos, i deno ou um seio, um mamilo,
um pequeno animal, um ca alo, uma pessoa ola, uma menina, uma mulhe e
uma p os i u a [...]. Como um nome pa a um ca alo pequeno, i en ou na língua
inglesa no inal do século XVI […]. No inal do século XVI, i deno a a uma
mulhe jo em. Tal oi p esumi elmen e in luenciado an o po i no sen ido de um
animal pequeno como pela conexão equina” (Mills, 1991, p. 237, adução
nossa); e são o iginal: “O e he cen u ies i has deno ed a b eas , a nipple, a
small animal, a ho se, a silly pe son, a gi l, a woman and a who e […]. As a name
o a small ho se, i en e ed English in he la e C16 h […]. Towa ds he end o he
C16 h i deno ed a young woman. This was p esumably in luenced bo h by i in
he sense o a small animal and by he equine connec ion”.
15 Vem a p opósi o o que esc e e Lisa Ja dine: “[...] mo alis as e sa i is as
apidamen e con e e am uma sensação descon o á el segundo a qual as
mulhe es ( al como os ilhos mais no os e os g upos pe encen es às classes
baixas) es a am a agi com maio libe dade, num símbolo po en e de deso dem
ge al. Com equência c escen e no início do pe íodo mode no, a meno
possibilidade de e icácia eminina ansbo da em absolu o ho o e abuso po
pa e de uma eminilidade “mons uosa” – a não-mulhe ’ (Ja dine, 1983, p. 93,
adução nossa); e são o iginal: “[…] mo alis s and sa i is s we e quick o
con e an uneasy sense ha women (like younge sons, he low bo n, and
adi ional se an g oups) we e ac ing wi h g ea e eedom, in o a po en symbol
o gene al diso de . Wi h g owing equency in he ea ly mode n pe iod he
ain es possibili y o emale e ec i eness spills o e in o ou igh ho o and
abuse o ‘mons ous’ womanhood – he no -woman”.
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Ac a Scien ia um. Language and Cul u e, . 40(2), e36457, 2018
Exc eções
Impe ia de mãos húmidas
No início da segunda cena do segundo a o,
Impe ia espe a clien es anspi ando p o usamen e.
A ação p ocessa-se numa a mos e a po oada de
e e ências sexuais:
IMPERIA: Fie, ie, ie, ie, by he ligh oa h o my
an, he wea he is exceeding edious and ain .
T i ia, Simpe ina, s i , s i , s i ; one o you open he
casemen s, ’o he ake a en oy and gen ly cool my
ace. Fie, I ha’ such an exceeding high colou , I so
swea […] (Dekke , 1601-1602, II. ii.).
A ep esen ação de uma mulhe excessi a pela
di iculdade de con olo sob e os seus luidos
co po ais e ela-se no e a o da co esã pelas mãos
ligei amen e anspi adas ( he mois -handed Impe ia), o
que co obo á uma al a de cas idade16.
O co po-luga de p aze es acompanha o co po-
o gânico, máquina de sec eções, como é o nado
e iden e pela associação do co po eminino a luidos
no discu so médico mode no17. A dado passo,
ambém em Lo e’s Die de Donne (1998) se ale a o
aman e pa a a alsidade das lág imas emininas:
olhos que pa a odos olam, não cho am,
anspi am:
I suck’d he s, I le him know
‘Twas no a ea which he had go ,
His d ink was coun e ei , as was his mea ;
Fo eyes which oll owa ds all, weep no , bu swea
(Donne, 1998, p. 144).
A exibição do o gânico
No e cei o a o encon amos Cu e o num
qua o do bo del de Impe ia, á ido da sua p esença.
Pe an e a esis ência de Simpe ia, a c iada, o idalgo
acaba po cede pe an e a p omessa de pode
eg essa a uma ho a combinada, al u a em que se á
a endido depois de oca uma sine a. Po ém, igno a
o háli o é ido a cebola e álcool, no undo, ‘amacia ’
uma ca ne descaída e en ugada compa á el a
bacalhau (d y’d s ock ishes) ao pon o de a o na
sensual, cons i ui uma missão imp a icá el pa a a
Madonna:
16 Como nos lemb a Daileade a p opósi o de U sula de Ba holomew ai : “O
co po eminino, com sua pele po osa e bu acos, unciona como me onímia,
símbolo e sin oma, de excesso em ge al. Esse excesso […] pode se ealizado
socialmen e ou p oje ado isicamen e [...] mas semp e […] se esumi á a sexo”
(Daileade , 1998, p. 66, adução nossa); e são o iginal: “The emale body, wi h
i s po ous skin and unning holes, ope a es as bo h me onymy, bo h symbol and
symp om, o excess in gene al. This excess […] may be enac ed socially o
p ojec ed physically […] bu i always […] comes down o sex”.
17 Re e e MacLean: “Quase odos os ou os ex os an igos podem se
in e p e ados como indicando que a mulhe é mais ia e húmida nos humo es
dominan es, mas depois de 1580 is o já não se á conside ado um sinal de
impe eição” (MacLean, 1980, p. 34, adução nossa); e são o iginal: “Nea ly all
o he ancien ex s can be in e p e ed o indica e ha woman is colde and
mois e in dominan humou s, bu a e 1580 his is no longe assumed o be a
sign o impe ec ion”.
Is his old o en aqua- i ae bo le s opp’d up? Is he
gone? Fie, ie, ie, ie, he so smells o ale and onions
and osa-solis, ie. Bol he doo , s op he keyhole,
les his b ea h peep in; bu n some pe ume. I do no
lo e o handle hese d y’d s ock ishes ha ask so
much awing, ie, ie, ie (Dekke , 1601-1602,
III. iii.).
Ainda na mesma cena, Laza illo con oca Impe ia
pa a um encon o:
IMPERIA: […] Abou wel e a’ clock you shall ake
my beau y p isone . Fie, ie, ie, how I blush. A
wel e a’ clock.
LAZARILLO: Rich a gosy o all golden pleasu e!
(Dekke , 1601-1602, III. iii.).
Ve emos que inespe ado p aze dou ado18 espe a
Laza illo. Tal como sucedeu com Cu e o, ambém
os planos lasci os do espanhol não são ecebidos
en usias icamen e po Impe ia, compa ado-o a um
al aia e, o mais desp ezí el dos p e enden es. A
Madonna e ela as suas e dadei as in enções de se
li a do pequeno a enque que ede no seu
o ganismo. Mais impo an e pa a es a é o banque e
que deixou a meio:
So, so, so, I will be id o his b oiled ed sp a ha
s inks so in my s omach, ih. I ha e him wo se han
o ha e a ailo come a-wooing o me. […] God’s
me [...] he banque , I o ge (Dekke , 1601-1602,
III. iii.).
Tal como o sexo é um cons angimen o
isiológico, ambém o abuso da alimen ação no
bo del de Impe ia aca e a o exc emencial, num
ciclo icioso de ansmu ação do gus a ó io em
exc e ó io. O que esc e e Celia Daileade a
p opósi o de Ba holomew Fai aplica-se a Blu :
ambos são “sob e mulhe es que comem demais,
bebem demais, [...] que u inam demasiado [...]
Todos es es p oblemas são, na ealidade, os mesmos:
consumo excessi o ( isiológico, sexual [...]) implica
gas o excessi o e ice e sa” (Daileade , 1988, p. 66,
adução nossa)19. É possí el aze um pa alelo com
o a amen o que Jonson az da sexualidade eminina
enquan o pe u bado a da au onomia masculina no
seu epig ama On Gu 20, onde não se dis ingue um
o gasmo de qualque ou a e acuação ísica:
Gu ea es all day, and leche s all he nigh ,
So all his mea e he as e h oue , wise:
18 A e e ência a golden pleasu e e oca uma cena inicial de Romeo and Julie ,
em que o p o agonis a, não endo conseguido ‘assal a ’ Rosaline sexualmen e,
comen a: ‘She’ll no be hi / Wi h Cupid’s a ow: she ha h Diana’s wi , / And, in
s ong p oo o chas i y well a med, / F om Lo e’s weak childish bow she li es
unha med. / She will no s ay he siege o lo ing e ms, / No bid h’encoun e o
assailing eyes, / No ope he lap o sain -seducing gold’ (Shakespea e, I.i.207-
214).
19 Ve são o iginal: “Ba holomew Fai […] is abou women who ea oo much,
d ink oo much, […] who pee oo much [...] Fo all o hese p oblems a e eally he
same: excess consump ion (physiologically, sexually […]) implies excess
expendi u e and ice e sa”.
20 T a a-se do epig ama CXVIII, ci ado em McLuskie (1989, p. 171-172).
Ape i es e Exc eções em Blu Page 7 o 10
Ac a Scien ia um. Language and Cul u e, . 40(2), e36457, 2018
And s iuing so o double his deligh ,
He makes himsel e a ho ough- a e o ice.
Thus, in his belly, can he change a sin,
Lus i comes ou ha glu ony wen in (McLuskie,
1989, p. 171-172).
En e an o, numa ua em en e ao bo del de
Impe ia, Cu e o p ocu a a co da da sine a, cujo
som quali ica de libidinoso e amo oso – lus y peal e
lo e’s knell – po con ia que lhe a á a igua ia
espe ada.
A peal, a lus y peal, se , ing lo e’s knell;
I’ll swea , bu hus I’ll bea away he bell (Dekke ,
1601-1602, IV. i.).
Numa si uação de i onia d amá ica, eis que
Cu e o é encha cado em u ina, co esia da
a madilha mon ada po Simpe ina, numa possí el
eminiscência do Wi e o Ba h’s P ologue de Geo ey
Chauce (Chauce & Cannon, 2011)21. Con udo, se
Sóc a es, de aco do com a lenda, não se a e eu a
ipos a , na lógica de Blu segue-se um ine i á el
co ejo de insul os no eminino:
Umh! D own’d? Noah’s lood? Duck’d o e head
and ea s? […] I swea now ill I d op. Wha
illainies, oh!
Punks, punka e oes, nags, hags I will ban.
I ha e ca ch’d my bane (Dekke , 1601-1602, IV. i.).
A queda de deje os assemelha-se-lhe a um
Dilú io gelado. Ensopado, ilipendiado na sua
aidade de macho, exec a as mulhe es (Punks,
punka e oes, nags, hags I will ban) se indo-se de
a aques sexualmen e de oga ó ios a a és da
associação semân ica do eminino a um animal e a
espí i os malé icos: nag22 e hag23, espec i amen e;
21 “He le ou no hing o he g ie and woe / Tha he wice-ma ied Soc a es wen
h ough; / How Xan hippe pou ed piss upon his head, / And he poo man sa
s ock-s ill as i dead; / He wiped his head, no da ing o complain: / ‘Be o e he
hunde s ops, down comes he ain!’” (Chauce & Cannon 2011, p. 168).
22 No que diz espei o a nag, Mills e e e: “No século XVI, nag o nou-se um
e mo de abuso aplicado p incipalmen e às mulhe es [...]. Nag é ou o exemplo
da me á o a do ca alo que suge e que a mulhe é pa a se ‘mon ada’ po um
ca alei o [...]. As cono ações de um ca alo cansado o am usadas pa a deneg i
odas as mulhe es, não apenas as idosas e cansadas” (Mills, 1991, p. 176,
adução nossa); e são o iginal: “In he C16 h nag became a e m o abuse
applied mos ly o women […]. Nag is ye ano he example o he ho se me apho
which sugges s a woman is a moun o be ‘ idden’ by a male ide […], The
conno a ions o a i ed ho se we e used o denig a e all women, no jus old and
i ed ones”.
23 Quan o ao ocábulo hag, “a haeg esse do inglês an igo deno a a um espí i o
maligno a e o izado , um demónio ou se in e nal sob a o ma eminina. A
pala a de aiz indo-eu opeia signi icou aga a ou pega e, po ex ensão, ce ca
(em). O sen ido de ap eensão pode e le ado ao signi icado de haeg esse como
alguém que se apode ou das suas í imas (ge almen e do sexo masculino). No
inal do século XIV, endo o c is ianismo iun ado sob e as eligiões pagãs, hag
signi ica a um espí i o eminino maligno [...], assim como o sen ido deg adado de
uma elha eia e epulsi a, com as implicações de maldade ou maldade […]. No
inal do século XVI, quando an o a Ig eja quan o o Es ado espalha am o medo
popula da ei iça ia, a b uxa passou, mais uma ez, a signi ica b uxa. As
mulhe es que o am pe seguidas, o u adas e mo as e am ge almen e mulhe es
idosas e assim, po de inição, eias” (Mills, 1991, p. 113; adução nossa); e são
o iginal: “[ ]he Old English haeg esse deno ed a e i ying e il spi i , demon o
in e nal being in emale o m. The Indo-Eu opean oo wo d mean o seize o
ca ch and, by ex ension, o ence (in). The sense o seize may ha e led o he
meaning o haeg esse as one who seized he (usually male) ic ims. By he end
o he C14 h, Ch is iani y ha ing iumphed o e pagan eligions, hag mean an
e il emale spi i […], as well as he debased sense o an ugly, epulsi e old
woman, wi h he implica ions o maliciousness o iciousness […]. By he end o
encido, admi e e -se a uinado (I ha e ca ch’d my
bane) pela ligação a p os i u as (punks) e p oxene as
(punka e oes).
Simpe ia assoma à janela pa a e quem e a a
causa de amanha ozea ia:
SIMPERINA: Who’s he e?
CURVETTO: A wa e -man.
SIMPERINA: Who ings ha scolding peal?
CURVETTO: I am w inging we ,
I am wash’d; oh, he e’s ose-wa e sold by h’ ounce
[…] (Dekke , 1601-1602, IV. i.).
Os sons que Cu e o espe a a sensuais (lus y
peal) o nam-se sons de censu a (scolding peal) pelo
compo amen o masculino inopo uno. O idalgo
i oniza com a sua si uação, endo-se ans o mado
em aguadei o (wa e -man) que em ez de le a água
ao domicílio le a com uma olup uosa ‘ ag ância’
( ose-wa e ). Con inuam as ped adas e bais, des a
ei a com a ped a mais comum – who e – e lexo da
ambi alência epulsa e, simul aneamen e, ape i e
pela ca ne eminina24:
SIMPERINA: Wha do you ake us o ?
CURVETTO: Y’a e all damn’d who es! (Dekke ,
1601-1602, IV. i.).
Vejamos como se desen ola o jogo de pala as ho
e cool: se po um lado Cu e o es á exal ado, po
ou o o ogo do seu desejo oi ex in o pela u ina das
co esãs e dos seus clien es, endo-se e elado
a a és dessa ablução idículo, edo en o e
en aquecido:
SIMPERINA: Wha makes you be so ho ?
CURVETTO: You lie, I am cool;
I am an old cou ie , bu s inking ool! (Dekke ,
1601-1602, IV. i.).
Além de se em a o ma de mediação da
expe iência das elações de pode en e os sexos, há
he C16 h when bo h Chu ch and S a e anned popula ea o wi chc a , hag
once again came o mean wi ch. The women who we e pe secu ed, o u ed and
killed we e usually old women and hus, by e y de ini ion, ugly”.
24 Na mesma linha, Rhodes conclui: “O g o esco elisabe ano de i a da ins á el
coalescência de imagens con á ias da ca ne: indulgen e, abusada e condenada”
(Rhodes, 1980, p. 4, adução nossa); e são o iginal: “[ ]he Elizabe han
g o esque de i es om he uns able coalescence o con a y images o he lesh:
indulged, abused and damned”. Mills e e e: “[...] oi quando os p imei os c is ãos
começa am a di ama as p os i u as sag adas das eligiões pagãs, que o que
o iginalmen e o a um e mo de espei o esul ou num p ocesso de pejo ação. À
medida que so ia de pejo ação, es ei a a-se pa a se e e i às mulhe es apenas
em e mos dep ecia i os e, po im, limi a a-se à ala g ossei a e abusi a. Who e
em um signi icado mais amplo do que me amen e uma mulhe que se p os i ui a
con a o: ambém é usada de o ma mais ge al pa a e e i qualque mulhe que
seja conside ada impu a […] ou indecen e, o nicado a ou adúl e a […]. Como a
maio ia do ocabulá io ligado ao desejo masculino pelo o sexo ilíci o, a manei a
como a p os i u a oi usada e ela uma ambi alência: há an o uma a e são à
ca ne quan o uma paixão po ela” (Mills, 1991, p. 258, adução nossa); e são
o iginal: “[…] i was when he ea ly Ch is ians began o ili y he sac ed who es o
pagan eligions, ha wha had o iginally been a poli e e m o espec began a
p ocess o pejo a ion. As i unde wen pejo a ion i na owed o e e o women
solely in de oga o y e ms and e en ually became con ine o coa se and abusi e
speech. Who e has a wide meaning han me ely a woman who p os i u es
he sel o hi e: i is also used mo e gene ally o any women who is conside ed
unchas e […] o lewd, a o nica ess o adul e ess […]. Like mos o ou
ocabula y connec ed o male desi e o illici sex, he way in which who e has
been used e eals an ambi alence: he e is bo h an abho ence o he lesh and
a passion o i ”.
Page 8 o 10 Mendes
Ac a Scien ia um. Language and Cul u e, . 40(2), e36457, 2018
que econhece o p aze social de iso comuni á io
que si uações de iolência con a o pode ideológico
da au o idade p o oca( a)m. Simpe ia chega a
chama -lhe indi e amen e animal de esgo os que
p e endia e adica :
SIMPERINA: God’s my li e, wha ha e you done?
You a e in a swee pickle i you pull’d a his ope
[…]. Why, his was a wa e wo k o d own a a ha
uses o c eep in a his window (Dekke , 1601-1602,
IV. i.).
No amen e num qua o do bo del de Impe ia, é
a ez de Laza illo, ao en a sa is aze a sua ome
sexual esguei ando-se pa a a alco a de Impe ia, se
ecebido com exc emen os, p imei o ao cai po
alçapão numa ossa e depois ao se ensopado de
u ina. A epulsa isce al de uma sexualidade exp essa
em e mos de ca ne pa a consumo a inge o clímax
na ingança que a mulhe e e enciada p e iamen e
como ca ne se iu ia: Impe ia, eduzida a um
co po desumanizado, e alia com os subp odu os do
seu ape i e. O homem que deseja pe isca , mas que
não é ele p óp io pe isco ameaça omi a :
Ho, ho, F isco! Madonna! I am in hell, bu he e is
no i e; hell i e is all pu ou . Wha ho? so, ho, ho? I
shall be d own’d. I beseech hee, dea F isco, aise
Blu he cons able, o some sca enge , o come and
make clean hese kennels o hell, o hey s ink so,
ha I shall cas away my p ecious sel (Dekke ,
1601-1602, IV. ii.).
O desespe o de Laza illo con inua a é à cena
seguin e, em que p ocu a o pa aíso ma e ializado no
bo del de Impe ia (ho house o my lo e), sem sabe que
o in e no nauseabundo em que se encon a é a ossa
desse bo del:
LAZARILLO: I beseech hee se i e on hy bush o
ho ns o ligh and wa m me, o I am dung-we . I
ell like Luci e , I hink, in o hell, and am c awl’d
ou , bu in wo se pickle han my lean Pilche .
He eabou is he ho house o my lo e [...] Le me
en e , mos p ecious F isco; he mis ess o his
mansion is my beau i ul hos ess.
FRISCO: How? You u pen ine pill, my wi e you
hos ess? Away, you Spanish e min! […]
LAZARILLO: I mus and will lamen .
FRISCO: Mus you? I’ll wash o you ea s! Away,
you hog’s- ace! [D enches him wi h u ine, hen]
exi .
LAZARILLO: Thou has soused my poo hog’s-
ace. 0 F isco, hou a a scu y doc o o cas my
wa e no be e ; i is a mos ammish u ine (Dekke ,
1601-1602, V. iii.).
Median e o a e ecimen o da paixão de Laza illo
po in e médio de uma unção de exc emen os,
conclui-se que “[...] o abuso ísico e o a amen o
g o esco da sexualidade se ligam em exc emen os”
(Rhodes, 1980, p. 84, adução nossa)25. O
a amen o da sexualidade a igu a-se g o esco e
esca ológico, a a és da concepção do co po como
alimen o pa a a sa is ação de necessidades
isiológicas e como luga de simples exibição das
unções exc e ó ias, espe áculo que esul a numa
iolação igu a i a do co po pela desumanização e
en aquecimen o do co po masculino. Rei indica-se
o pode do exc emencial como sinalizado de
alimen o não desejado e quase como ex e io ização
da au ode e minação sexual eminina.
Boca, cala - e-ei com um beijo
Tudo acaba como se ia de espe a . Viole a une-
se a Fon inell e nes e ambien e de ha monia social e
consequen e neu alização de ensões sexuais, em
que o casamen o esul a an o numa solução social
como na a i a pa a ambos os en edos, a desbocada
Impe ia é silenciada com um beijo po Hipoli o, o
i mão da donzela, num pa alelo com a cena inal
en e Bea ice e Benedic em Much ado abou no hing
de Shakespea e (2003):
Punk, you may laugh a his.
He e’s icks, bu , mou h, I’ll s op you wi h a kiss
(Dekke , 1601-1602, V. iii.).
O excesso e bal da co esã, que zomba des a
si uação, cons i ui uma ameaça à au o idade. Po ém,
ao mesmo empo que as a i udes de Impe ia êm
uma unção li e á ia (se não ossem g ossei as, não
ha e ia en edo e as ansiedades sociais e sexuais
ep esen adas na peça ica iam sem sus en ação),
uncionam como exemplo de compo amen os
incon enien es nes e ambien e cul u al,
es abelecendo a o dem apa en emen e ameaçada26.
Segue-se mais mo i o pa a iso, quando Duke
comunica a Cu e o que a Madonna o acusou de
en a i a de oubo e que a única o ma de e i a a
mo e é o casamen o. A is o, a ‘ í ima’ esponde que
se o izesse se ia apelidado de on o (daw) e co nudo
(ox) po casa com uma mulhe que é de odos:
acei a di e i -se com ela, mas casa só se não
es i esse na posse das suas aculdades:
How? Die o ma y he ? Then call me daw.
Ma y he – she’s mo e common han he law –
Fo boys o call me ox? No, I am no d unk.
I’ll play wi h he bu , hang he , wed no punk.
I shall be a hoa y cou ie hen, indeed,
And ha e a pe ilous head; hen I we e bes
25 Ve são o iginal: “[p]hysical abuse and he comic g o esque ea men o
sexuali y ma y in exc emen ”.
26 No mesmo sen ido, esc e e McLuskie (1989, p. 54-55, adução nossa): “[…] Pa a
os esc i o es, o po encial cómico e pa é ico do compo amen o dis up i o das mulhe es
pode ia se ap eciado po que, em úl ima análise, e a con olado an o pela es u u a
na a i a quan o pela a i mação inal da o dem pa ia cal”; e são o iginal; “[…] o he
w i e s, he comic and pa he ic po en ial o women’s dis up i e beha iou could be
app ecia ed and enjoyed because i was ul ima ely con olled bo h by he na a i e
amewo k and by he inal asse ion o pa ia chal o de ”.
Ape i es e Exc eções em Blu Page 9 o 10
Ac a Scien ia um. Language and Cul u e, . 40(2), e36457, 2018
Lie close, lie close o hid my o ked c es .
No; ie, ie, ie, hang me be o e he doo
Whe e I was d own’d e e I ma y wi h a who e
(Dekke , 1601-1602, V. iii.).
Sendo a luxú ia uma aqueza ca nal, apanágio do
géne o eminino, a ome de Cu e o o nou-o
e eminado. Ao desis i do co po de Impe ia nes e a o
inal, assumindo a sua loucu a e ap endendo a
con ola os seus impulsos, o idalgo o na-se macho
de no o, unindo-se aos ou os na cons ução da
sexualidade eminina enquan o consumido a e
dessang ado a. A ‘educação’ de Cu e o espelha o
disposi i o da sexualidade que de ine e con ém os
co pos den o da peça: a in empe ança sexual é
sa i izada e ( e)cons uída em compo amen o social
con o me, enquan o o co po da co esã
consubs ancia a sexualidade eminina
simul aneamen e o az e ú il, eminiscen e das
pala as de San o Agos inho em De O dine:
As p os i u as numa cidade são como um esgo o
num palácio. Se nos li amos do esgo o, odo o
palácio se o na á imundo e indigno. (apud Mills,
1994, p. 195, adução nossa)27.
Conclusão
As p á icas discu si as e le em as ansiedades e
alo es con empo âneos, cons i uindo-se a
sexualidade uma p oblemá ica que ai adqui indo
uma essi u a cada ez mais complexa: Dekke
(1601–1602) c i ica o p ocesso de enalização da
sociedade ao coloca p os i u as no palco, ao mesmo
empo que é in luenciado pelas ideologias que
ma e ializam os males sociais nas mulhe es. O amo
é en endido em Blu como um cons angimen o
c uamen e glandula , ep esen ado me onimicamen e
a a és da boca e dos ó gãos geni ais enquan o
consumo eminino des eg ado e enquan o eliminação
no amen e pelo co po da mulhe . O discu so da ob a,
em que o pe igoso e excessi o são emininos, o ien a-
se no sen ido do es abelecimen o da o dem a a és do
ades amen o da p os i u a e do idalgo dec épi o.
Conclui-se que, apesa das apa ências, a
au o idade pa ia cal nunca es e e e dadei amen e
em ques ão, pa icipando a peça num p ocesso a i o
de einsc ição de no mas cul u ais e consequen e
no ma i ização do compo amen o dos sujei os, a
que aludimos na in odução a es e ensaio. Os co pos
são ‘p oduzidos’ po oposição a uma noção de
compo amen o abje o. Mais uma ez, cump e ao
ex o d amá ico um papel p i ilegiado de eículo e
palco de c ise ideológica28, sendo eminen emen e
27 Ve são o iginal: “P os i u es in a ci y a e like a sewe in a palace. I you ge id
o he sewe , he whole palace becomes il hy and oul”.
28 Ve i ica Lisa Ja dine a p opósi o do d ama da época: “A gumen o que o o e
in e esse pelas mulhe es demons ado pelo d ama isabelino e jacobino não
alo izado pela sua capacidade de in e enção
dinâmica e ma e ial na his ó ia. Nas sucessi as
encenações e in e p e ações c í icas, no âmbi o das
quais es e es udo se inse e, essal am os obje i os de
con ibui pa a a cons an e econcep ualização cul u al
de di e ença sexual, que em indo a ca a e iza os
Es udos de Géne o com pa icula incidência desde os
anos 80 do século XX, e um en endimen o mais
ap o undado da o ma como es a de i a de es a égias
de pode .
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e le e, de ac o, condições sociais ecém-melho adas e mais opo unidades pa a
as mulhe es, mas es á elacionado com a p eocupação não decla ada do
pa ia cado ela i a às g andes mudanças sociais que ca ac e izam o pe íodo”
(Ja dine, 1983, p. 6, adução nossa); e são o iginal: “I main ain ha he s ong
in e es in women shown by Elizabe han and Jacobean d ama does no in ac
e lec newly imp o ed social condi ions, and g ea e possibili y o women, bu
a he is ela ed o he pa ia chy’s unexp essed wo y abou he g ea social
changes which cha ac e ise he pe iod”.