scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje

Mindaugas Strockis

Abstract

    1673 m. išleistoje Kristupo Sapūno ir Teofilio Šulco lietuvių kalbos gramatikoje Compendium Grammaticae Lituanicae, sutrumpintai vadinamoje Compendium, beveik visi lietuviški žodžiai išversti į lotynų kalbą, taigi joje de facto slypi 1380 vienetų lietuvių–lotynų kalbų žodynėlis. Iš šio faktinio žodynėlio ypatumų matyti, kad lietuviškus žodžius į lotynų kalbą vertė žmogus, kurio gimtoji kalba buvo vokiečių. Galima daryti išvadą, kad Sapūno rankraštyje lietuviški žodžiai buvo palikti be vertimų, o juos vėliau pridėjo Šulcas. Nepaisant smulkių vertimo netikslumų, šis žodynėlis pateikia vertingų XVII a. Mažosios Lietuvos lietuvių kalbos faktų.

Full text

MINDAUGAS STROCKIS Instituto da Língua Lituana GLOSSÁRIO LATINO-LITUANO NA GRAMÁTICA DE SAPŪNAS E ŠULCAS PALAVRAS-CHAVE: Sapūnas, Šulcas, Compendium, glossário, tradução, língua latina. RESUMO Na gramática da língua lituana de Kristupas Sapūnas e Teofilis Šulcas, publicada em 1673, Compêndio da Gramática Lituana, abreviadamente chamada Compêndio, quase todas as palavras lituanas estão traduzidas para o latim; portanto, nela está de facto oculto um glossário lituano-latino com 1380 itens. As características desse glossário de facto mostram que as palavras lituanas foram traduzidas para o latim por alguém cuja língua materna era o alemão. Pode-se concluir que, no manuscrito de Sapūnas, as palavras lituanas foram deixadas sem tradução e que Šulcas as acrescentou posteriormente. Apesar de pequenas imprecisões de tradução, esse glossário fornece dados valiosos sobre a língua lituana da Lituânia Menor no século XVII. INTRODUÇÃO A gramática da língua lituana elaborada por Kristupas Sapūnas e Teofilis Šulcas, Compendium Grammaticae Lithuanicae, abreviadamente chamada Compendium, e frequentemente designada nos estudos lituanísticos pela sigla SC, é um valioso monumento da língua lituana do século XVII. Os pesquisadores concordam que foi escrita por Kristupas Sapūnas, e que Teofilis Šulcas publicou a gramática, acrescentando algumas coisas e escrevendo os prefácios. É natural perguntar o que exatamente Šulcas acrescentou ao manuscrito de Sapūnas. Como BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351-7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 2 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 Tamara Buchienė, Jonas Palionis e Kazimieras Eigminas investigaram o assunto (Buchienė, Palionis 1957: 21–27; Eigminas 1997: 19–22); além dos prefácios, alguns excertos da gramática de Kleinas foram inseridos no texto original de Compendium, especialmente o capítulo sobre a acentuação (Strockis 2007: 93–100). Será que podemos saber apenas isso? Esclarecer essa questão com base no pequeno léxico lituano-latim que se oculta na gramática de Sapūnas e Šulcas é o objetivo deste artigo1. Kaip žinoma, Kristupas Sapūnas (1589–1659), gimęs Mažojoje Lietuvoje, arba Kusuose, arba Didžiuosiuose Rūdupėnuose, vėliau vadintuose Enciūnais (tiksli vieta nežinoma; Biržiška 1960: 263), įstojęs į Karaliaučiaus universitetą, ten užsirašė kaip Christophorus Sepun Lituanus pauper „Kristupas Sapūnas [vėliau jo pavardė vokiškai buvo rašoma Sappuhn], neturtingas lietuvis [ar lietuvininkas]“. Iš to (ir, žinoma, iš pačios jo gramatikos) galima spręsti, kad lietuvių kalba jam buvusi gimtoji. Jei nesame tikri dėl kurio nors Mažosios Lietuvos autoriaus gimtosios kalbos, gali padėti ir pavardės etimologija. Atrodo, kad Sapūno pavardė yra lietuviška, metroniminės kilmės. Ar tai reiškia, kad kas nors iš jo protėvių buvo nesantuokinis Sapės (Sofijos) sūnus, nežinia (pats Kristupas buvo Mykolo 1 Ao citar passagens da gramática de Sapūnas e Šulcas neste artigo, será indicada a página da edição original de 1673, que pode ser facilmente localizada também na edição fac-similar de 1997. Se a página não estiver numerada no original (nos prefácios e no posfácio), será indicada a página da edição fac-similar de 1997. Ao citar a gramática de Kleinas (cuja numeração de páginas no original foi bastante comprometida por erros de revisão), serão indicadas tanto a página da edição fac-similar (1957) quanto a do original, separadas pelo sinal /. Nos casos em que o número da página da gramática de Kleinas no original não corresponde ao número correto por causa de um erro tipográfico, serão indicados tanto o número correto quanto o número impresso incorretamente; este último será escrito entre aspas. Ao citar o Compendium e o texto de Kleinas, utiliza-se a transcrição grafemática, reproduzindo como sinais distintos apenas os grafemas e os alógrafos ou ligaturas que de fato adquiriram estatuto de grafemas (ſ, æ; œ não ocorre), mas sem levar em conta o desenho tipográfico da fonte da impressão original; isto é, o z da chamada fonte “gótica” (neste caso, Schwabacher) é transcrito como o mesmo z da fonte antiqua, e não com o sinal ʒ da transcrição fonética moderna (pois fazer isso teria tanto sentido quanto, por exemplo, transcrever o g da fonte “gótica” com o sinal ɡ da transcrição fonética moderna apenas porque têm aparência semelhante). A letra ß será transcrita dessa forma, independentemente de ter sido impressa no original como ligatura (da qual deriva a letra moderna do alemão ß) ou separadamente. Se uma letra da fonte antiqua tiver sido inserida, na impressão original, numa palavra impressa em fonte “gótica”, ela será transcrita da mesma maneira que todas as demais letras, sem qualquer marcação especial. A transcrição grafemática é a que melhor corresponde ao objetivo deste artigo. As palavras lituanas do Compendium citadas e pertinentes à argumentação são destacadas em negrito. BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 3 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 Sapūno sūnus; Biržiška 1960: 263). Vis dėlto galime atkreipti dėmesį į tai, kad jo gramatikoje tarp negausių moteriškų vardų (skirtų moteriškajai gramatinei giminei lietuvių kalboje iliustruoti) paminėta ir Sape = Sophia (25)2. Iš to galima atsargiai spėti, kad galbūt bent pats Sapūnas taip suprato savo pavardės kilmę. De 1612 até sua morte, Sapūnas foi pastor de Didieji Rūdupėnai (=Enciūnai). Como se supõe, escreveu sua gramática por volta de 1643 (Biržiška 1960: 264; Eigminas 1997: 10). Essa opinião, embora não seja afirmada explicitamente em parte alguma da bibliografia, provavelmente se baseia no prefácio da edição de 1673, onde se lê que a obra ficou ultra luftrum fextum pulvere quafi obruta SC 48 “como que coberta de poeira por mais de seis quinquênios”, isto é, sem ser publicada: subtraindo-se 6 × 5 = 30 da data de publicação, 1673, chega-se a 1643. Ao que parece, não há motivo para duvidar dessa opinião (desde que o prefácio tenha sido escrito no mesmo ano em que a obra foi publicada, e não um pouco antes)3. Além disso, isso significaria que a gramática de Sapūnas é de fato mais antiga que a de Kleinas e, portanto, a glória de ser a primeira gramática da língua lituana caberia a ela. Sabe-se também que Sapūnas foi um dos colaboradores da gramática de Kleinas, a quem Kleinas emprestou o manuscrito de sua própria gramática (Biržiška 1960: 264; Eigminas 1997: 21). Sapūnas também é conhecido como autor de poemas em latim (Biržiška 1960: 263; Koženiauskienė 1990: 244, 266–267). Morreu em 1659, em Enciūnai (=Didieji Rūdupėnai) (Biržiška 1960: 263; ZM 2014: 1555). Teofilis Šulcas (1629–1673) gimė irgi Mažojoje Lietuvoje, Vėluvoje (Biržiška 1960: 343; ZM 2014: 1651; pastarajame šaltinyje šis faktas minimas su klaustuku). Įstojęs į Karaliaučiaus universitetą, jame užsirašė kaip Theophylus Schultz Welawensis Borussus „Teofilis [vėliau jo vardas buvo rašomas taisyklinga lotyniška forma Theophilus] Šulcas, 2 Provavelmente não era um nome muito comum, já que Donelaitis não deu esse nome a nenhuma das personagens de Metai. 3 A afirmação de que essa gramática foi escrita ao longo de 8 anos (SC 255) está errada (isso será discutido mais adiante). A afirmação de que foi escrita por volta de 1651, apresentada na nota bibliográfica da edição moderna, na última página do livro (SC 336), é um erro de impressão. BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 4 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 “prussiano atrasado”. A partir disso, pode-se supor que Šulcas era prussiano (embora isso possa significar apenas “cidadão do Estado prussiano”) e que sua língua materna era o alemão; a origem alemã do sobrenome também corrobora essa hipótese. Depois de concluir a universidade, trabalhou como assistente do pastor de Nybudžiai (ZM 2014: 1651); desde 1650, foi pastor de Išdagai, e em 1662 tornou-se pastor de Katniava. Morreu em 1673 (Biržiška 1960: 263; ZM 2014: 1651), ou seja, no mesmo ano em que foi publicado o Compendium. Embora se mencione que era considerado um bom conhecedor da língua lituana (Biržiška 1960: 263), não parece que o lituano fosse sua língua materna. Há informações de que escreveu um dicionário lituano-alemão-latim (Biržiška 1960: 263), mas ele, se de fato foi escrito, não sobreviveu. Aliás, um de seus sete filhos, Jonas, pastor de Lazdynai (Lasdehnen) (ZM 2014: 1651), é o mesmo Jonas Šulcas que publicou, em 1706, uma coletânea de fábulas de Esopo em lituano. É mais ou menos isso que sabemos sobre os dois autores do Compendium. Sapūnas era 40 anos mais velho que Šulcas. Ambos eram pastores luteranos formados pela Universidade de Königsberg, em paróquias lituanas situadas a uma distância entre si não maior que a de Trakai a Vilnius. Como sabemos pelo prefácio do Compendium, Šulcas considerava Sapūnas seu mestre e herdou dele um manuscrito de gramática escrito anteriormente (na época em que Sapūnas escrevia sua gramática, Šulcas devia ter apenas cerca de 14 anos). Em 1673, cerca de 30 anos após a redação e 14 anos após a morte de Sapūnas, Šulcas publicou a gramática e morreu no mesmo ano, aos 44 anos. O que mais podemos descobrir a partir do texto da gramática publicada? A maioria das palavras lituanas mencionadas na gramática está traduzida para o latim. Assim, nela se oculta de facto um pequeno léxico lituano-latim, embora não apresentado numa única seção, mas disperso por todo o texto da obra. Esse léxico de fato contém 1380 unidades (a maioria são palavras isoladas acompanhadas de traduções, mas há também combinações de palavras e frases inteiras). O correspondente BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 5 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 Um glossário de 2057 unidades também se encontra na gramática de Kleino.4 Assim de facto, temos dois glossários lituano-latinos do século XVII. Naturalmente, são muito mais breves do que os dicionários de Sirvydas publicados algum tempo antes, mas continuam a ser valiosos monumentos da lexicografia lituana do século XVII, cuja análise nos permite descobrir algumas coisas. 1. PECULIARIDADES DO GLOSSÁRIO Ao ler a gramática de Sapūnas e Šulcas, percebe-se que o glossário contém certas peculiaridades que podem levantar a suspeita de que o tradutor que verteu as palavras lituanas para o latim não tinha o lituano como língua materna. Não encontramos tais peculiaridades no glossário de Kleino. São precisamente essas peculiaridades do glossário de Sapūnas e Šulcas que podem ajudar a esclarecer melhor as contribuições de cada autor para o texto do Compendium. Em primeiro lugar, é evidente que tanto no Compendium como na gramática de Kleino, e portanto também nos seus glossários, há formas gramaticais antigas e palavras arcaicas, ou ainda palavras conhecidas hoje empregadas em sentidos antigos ou raros. Por isso, um leitor contemporâneo nem sempre poderia usá-los comodamente como dicionários lituano-latinos. Naturalmente, esses casos são perfeitamente legítimos e não fazem parte das peculiaridades aqui mencionadas. Para ilustrar, vale a pena citar alguns: Skellu Debeo, Skellejau 57 (skelėti, «estar em dívida»); Lazda Nux 57 («avelaneira, nogueira»; e lazda aqui não significa «bastão», tal como nux não significa «noz»); Skilliu Elicio ignem, Skiliau 47 (skìlti, skìlia, skýlė, «acender fogo com pederneira»; ver skìlti 2 LKŽᵉ), Gaudžiu Conqueror, Gauzdawau 49 (gausti, «lamentar, prantear, queixar-se»; na Prússia Menor 4 O glossário de Kleino utilizado neste artigo foi digitalizado durante um estágio estudantil por Ramunė Markevičiūtė, atualmente doutoranda na Universidade Livre de Berlim (Freie Universität Berlin). Agradeço-lhe também pelas valiosas discussões sobre o tema deste artigo. BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 6 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 sentido atestado na Lituânia); Paſtimpu Rigeſco, Paſtippau 56 (pastipti, «enrijecer, ficar rígido»; sentido também atestado no LKŽe), Wasfaris Januarius, Kowas Februarius, Karwèlininis Martius 25 (antigos nomes dos meses bem atestados na Prússia Menor) etc. Ainda assim, alguns casos são um pouco mais complexos. 1.1. Casos duvidosos, mas ainda assim não errôneos Na edição de 1997 (SC 83), já tinha sido observado e discutido o caso admįfu [sic; a julgar por tudo, trata-se de um erro tipográfico causado pela influência do prefixo latino ad-; deveria ser atmįfu], traduzido como divinabo 11. Pode parecer que a palavra «atminsiu» está aqui traduzida para o latim como «preverei, profetizarei», embora na gramática de Kleino (KG 103 / 9) a mesma palavra atmįfu seja traduzida por recordabor («recordarei»). É evidente que foi traduzido aqui outro sentido da mesma palavra; na gramática de Sapūnas e Šulcas, tinha-se em mente o sentido «adivinharei». Outro caso, Melmū Calculus 26, embora à primeira vista pareça que «cóccix» tenha sido traduzido aqui como «pedrinha», também não constitui erro. Melmuo significa aqui «dor no cóccix, cálculo urinário»; esse sentido também é atestado em outras fontes lituanas da Prússia Menor do século XVII, como vemos no LKŽe. A palavra calculus também podia significar, em latim, uma pedra nos rins ou na bexiga; portanto, temos aqui uma tradução essencialmente correta. O caso Smagurauju Parafitum ago 51 parece, à primeira vista, pouco preciso, como se a palavra que significa «deleitar-se com comidas saborosas» tivesse sido traduzida aqui como «viver à custa de alguém» (isto é, como o «parasita» da sociedade antiga (gr. παράσιτος), que comia por favor do anfitrião) ou «viver ociosamente». Ao examinar o caso mais atentamente, percebe-se que o sentido pretendido é «viver ociosamente, viver acima das próprias posses». Embora esse sentido não seja atestado no LKŽe, Kristijonas Donelaitis escreveu: tu, lėbaudams ir 5 Para o testemunho na Lituânia Maior, veja-se o verbete no dicionário de Sirvydas de 1642: Krzyźá bolenie, Lumbago, Melmenio populis SD3 137. BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikose | 7 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 sempre se empanturrando, / comeste o campo cercado e a casa inteira DM PV 465–466. Por este contexto, percebe-se que o significado da palavra smagurauti não é tanto «gostar de iguarias», mas sim «banquetear-se além das próprias posses». Isso é confirmado pela tradução de Compendium, «viver à custa dos outros» (e parece que esse sentido histórico da palavra smagurauti poderia ter sido incluído no Dicionário da língua lituana). O caso Jauju Aqvā fervidā fup[er] infūdere, Jowjau Jowe 52 tampouco constitui uma tradução incorreta, embora o LKŽₑ apresente para a palavra jáuti (jáuna / jáuja, jóvė) apenas o significado «revolver, virar, misturar, fazer desordem, remexer a lavagem», enquanto a frase latina significa «escaldar com água fervente». Refletindo um pouco, parece que jáuti aqui significa «fazer lavagem» não em sentido figurado, mas literal, isto é, preparar determinado alimento para porcos. Os ingredientes da lavagem podiam ser escaldados com água fervente; portanto, jáuti significaria aqui aquilo que na Žemaitija se exprime pelo verbo plikyti6, e ao qual na Aukštaitija corresponderia šutinti (apšutinti)7. Assim, trata-se, em essência, de uma tradução correta. Ao leitor contemporâneo, os casos Skinnu Eradico 54 (a tradução significa «arranco pela raiz»; teria sido mais adequado carpo) e Nėkaltaĩ impunē 67 (a tradução significa «impunemente»; talvez fossem mais adequadas as palavras innocue, innoxie ou innocenter) também não são muito precisos, mas tampouco podem ser considerados traduções realmente incorretas. Alguns casos parecem estar de fato relacionados com as realidades do século XVII, por exemplo, Kėlines Caligae 33 (e a mesma tradução na gramática de Klein: KG 166 / 72 «70»). Na língua clássica, essa palavra latina significava «sandálias dos soldados». Naturalmente, o vestuário era de um tipo na Roma antiga, de outro no século XVII e ainda de outro hoje; por isso, não se devem esperar equivalentes totalmente exatos. A confusão que havia no latim do século XVII ao tentar denominar as calças até os joelhos, as calças compridas, as botas, as polainas, as meias e os vários tipos de calçado da época com nomes de peças de vestuário romanas semelhantes pode ser vista em Cn 1171 (no verbete Vbránie powſzéchnie, odzież nóg). O mesmo se observa também no século XVI, 6 Agradeço esta informação ao colega, professor associado Dr. Petras Skirmantas. 7 Agradeço esta informação à colega, professora associada Dra. Rasuolė Vladarskienė. BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 8 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 DD 23, 357, 434, 485, onde a palavra caliga é explicada em alemão como Hob oder kriegsstiffel («calças ou botas militares»).8 Também a palavra aviu (Awju qs.9 Aweju. Induo ocreas Awejau 52) foi traduzida como «calço as perneiras», mas, como vemos em outras fontes, no século XVII a palavra latina ocreae também designava certos tipos de botas ou caneleiras, cf. o já mencionado Cn 1171 e ainda quatro atestações no dicionário de Sirvydas: Bot, boty. Ocreæ. Czebatay SD³ 21; Cholewá. Ocrea. Aulas SD³ 30; Nágolenice żołnierſkie, Ocreæ militares. Cziebatay kariewwiu SD³ 189; e Skornie, Ocreæ, mullei. Ciebałay SD³ 406. Essencialmente, o caso de Szawju Difplodo, Szowjau Szowe 52 é o mesmo, em que a palavra latina significa «dou um estalido» ou «faço explodir»; é evidente que aqui se alude a disparar armas de fogo, desconhecidas dos antigos romanos. A tradução do verbo saugoti por uma palavra latina que significa «precaver-se» suscita um pouco mais de suspeita: Sawǥmi qs. Sawgoju Caveo, Saugojau 53 (teria sido mais adequado custodio). Ainda assim, o significado de saugoti «precaver-se, evitar» está atestado no LKŽe; portanto, não há aqui um erro propriamente dito. É verdade que, no próprio Compendium, a mesma palavra Sawǥmi, apenas algumas páginas adiante, já foi traduzida como Cuſtodio 58. À primeira vista, a tradução do adjetivo rõdas (um eslavismo que significa «de acordo, disposto») pelo advérbio «de bom grado» (Rodas libenter 67) pode parecer um erro, mas este caso 8 Que a palavra latina caliga também designava calças desde a Idade Média vê-se ainda em Hanzíková 1988: 95, onde se afirma que, em checo, a designação de calças kalhoty, atestada desde o século XIV, deriva da forma italiana *caligotte «botas militares com canos longos e ajustados», que, por sua vez, derivava do latim caliga. Aliás, este é, afinal, também o protótipo da palavra kalgotkės («meias-calças») conhecida em lituano: as primeiras meias-calças foram importadas da Checoslováquia para a então União Soviética e, portanto, também para a Lituânia ocupada, em meados do século XX; nas embalagens, lia-se em checo kalhotky punčochové (literalmente, «calcinhas com meias»; compare-se a designação lituana «calças-meias», usada na segunda metade do século XX). Embora as fontes na internet que mencionam estes últimos fatos não tenham o estatuto de artigos científicos revisados por pares, parece não haver motivo para duvidar das informações que apresentam. Uma busca na internet pelos termos kalhoty, caligotte, caliga, kalhotky punčochové (combinados de várias maneiras) revela numerosas fontes com essas informações. 9 A abreviatura qs. significa aqui quasi («como se, por assim dizer»), isto é, afirma-se que o passado do verbo aviu é formado como se o seu presente fosse avėju. BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 9 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 explica o dicionário de Neselmano: Jetzt wird Ródas, Ród’s allgemein als Adverbium gebraucht, gern, willig N 445. Algumas designações de plantas também podem suscitar dúvidas, mas, como a experiência demonstra, os nomes de espécies biológicas nos dicionários, sobretudo os de línguas antigas, são sempre uma questão difícil, e nunca se deve esperar aqui uma consistência absoluta. Compendium afirma que grikiai são panicum (Grikkai Panicum 33), mas, segundo Sirvydas, panicum são painço: Ber. Panicum. Soros nežifžákoi, foros kulines SD3 10 (veja também a explicação de kūlinis 4 no LKŽė). Lėšiai, segundo o Compendium, são ciceres. Isso significaria «ervilhas», mas empregou-se uma forma plural incorreta10 (provavelmente um pequeno lapso, se não um erro tipográfico); a tradução lentes teria sido mais adequada. Segundo Klein e também Sirvydas, cicer (singular correto) significa trigo-sarraceno: grikkai ocymum, cicer KG 166 / 72 «70»; Tatárka iarzyna, Ocymum (vulgo) cicer. Gribiey SD3 442. Além disso, a gramática de Sapūnas e Šulcas (como qualquer livro complexo) contém pequenos lapsos, difíceis de distinguir dos erros de impressão. Parece que, ao apresentar ufpraffu intelligo 2, ocorreram dois erros de revisão, um na palavra lituana e outro na latina: se fosse [fu]praffu intell[am], significaria «compreenderei». A palavra lituana foi corrigida dessa forma na edição de 1997 (SC 65; cf. também fuprantu intelligo KG 197 / 103 «101» de Klein). Um caso semelhante é drifu audeam 11, em que a forma latina significa não «ousarei», mas «ousaria» (deveria ser audebo). Casos como Nubundu Expergifco 55 (deveria ser Expergifcor), žirkles Porpex 33 (deveria ser Forpex), Įfž te illuc inde 65 (deveria ser illinc, inde), Trysdefžimt Triginti 29 (deveria ser Triginta) são quase certamente erros de impressão. Um erro de impressão evidente aparece na página 67 (erro de paginação; na verdade, página 69), onde se lê: Po, fub, fubter. Ante, coram. Tudo isso é, na verdade, uma explicação de quais 10 A forma plural gramaticalmente correta seria cicera, mas, como se afirma na obra do contemporâneo de Cícero Marco Terêncio Varrão, Sobre a língua latina (De lingua latina, 8.48), esta palavra é singular, e a forma plural cicera não é usada de modo algum. BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 10 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 as preposições latinas correspondem à preposição lituana po, mas aconteceu que a preposição latina ante («diante de») foi impressa com o tipo (Schwabacher) que, no Compendium, era normalmente usado apenas para imprimir palavras lituanas, criando assim a impressão de que ante fosse uma preposição lituana e coram («junto de, na presença de») a sua tradução latina. Por isso, a palavra ante foi até incluída no índice de palavras lituanas da edição de 1997 (SC 270), embora com um ponto de interrogação. Se fosse preparada uma nova edição desse livro, a palavra ante deveria certamente ser removida do índice de palavras lituanas. Na realidade, pretendia-se dizer que a preposição po na expressão po akimis significa «diante de, na presença de»; cf. poakim ante oculos 6, o exemplo de uso po Akimis Diewo coram Deo 93, e exemplos exatamente iguais, mencionados até seis vezes na gramática de Klein (KG 111 / 17, 114 / 20, 115 / 21, 236 / 142 «140», 262 / 168 «166» e 265 / 171 «169»). 1.2. Erros do glossário Passemos agora aos casos que parecem ser verdadeiros erros de tradução. O caso Sergmi, Sergeju Ægroto 53, embora reconhecido como correto na edição de 1997 (SC 167: nota 4), certamente não parece sê-lo. É evidente que a palavra sergėti foi aqui traduzida como sirgti. Compare-se a sua tradução nas páginas adjacentes de SC, onde aparece corretamente: Sergmi Cufodio 58 («guardo») e Sergu Ægroto, Sirgau 55 («estou doente»). Compare-se também a tradução das mesmas palavras na gramática de Klein: férgmi vigilo, excubias ago, férgiu cuftodio KG 214 / 120 «118» e fergu ægroto KG 198 / 104 «102», firga ægrotavit KG 194 / 100 «98» (e novamente na página seguinte). Podemos igualmente comparar as mesmas palavras no dicionário de Neselmano: Sergmi, Sergiu und Sergėju, ėjau, ėsu, ėti; bewahren, behüten, bewachen; Wache halten N 463 e Sergu, sirgau, sirgsu, sirgti, krank fein, leiden N 463. Também não encontraremos nada diferente no LKŽₑ. A conclusão é evidente: em nenhum lugar há testemunho de que BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 11 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 o verbo sirgti alguma vez tenha tido na Lituânia Menor formas do verbo sergėti. Mesmo no texto de Compendium, essa palavra é traduzida corretamente nas outras páginas. O caso Liekmi Volo 59 também é considerado um erro na edição de 1997 (SC 296). É evidente que aqui foram confundidos os verbos likti e lėkti, pois o latim traduzido significa «voo». Uma página antes, a mesma palavra está traduzida corretamente: Liekmi Linqvo 58; cf. a tradução da mesma palavra na gramática de Klein: liekmi, paliekmi linqvo, relinqvo KG 213 / 119 «117». Pode suscitar alguma dúvida o facto de a palavra latina linqvo (bem como relinqvo) significar «deixo (algo)», e não «fico (eu próprio)»; contudo, o sentido «deixar algo» da palavra lituana likti está atestado tanto no LKŽe11 como no dicionário de Neselmano: Lėkmi, Žem. auch Lėkiu, likkau, liksu, likti, übrig bleiben; zurückbleiben; von etwas laffen N 365. Parece também que o caso Klibbu Dependeo, Klibbejau 57 não está correto, pois a palavra klibu está aqui traduzida como «estou pendurado». É muito duvidoso que a palavra klibėti pudesse ter o sentido de «estar pendurado» na Lituânia Menor; cf. o dicionário de Neselmano: Klìbu, bėjau, bēsu, bēti, klappern. Dantys kliba, die Zähne klappern. Klibanczos dantys, lofe, wackelnde, und daher klappernde Zähne N 215. Cf. também o uso de Donelaitis: Sparai po kraiku su čytais [caibros sob a cumeeira e frontões] kliba supuvę, / O viduj visur po stogu latgalai [ripas que sustentam a palha do telhado] kaba DM RG 610–611. Parece que klibėti sempre teve apenas o sentido que conhecemos atualmente. Por fim, vemos um caso em que o tradutor não conseguiu distinguir homónimos. A palavra pakala significa tanto «cunha» como «ferradura» (LKŽe pakala 1), também «costas» (LKŽe pakala 2) e «ciperácea» (LKŽe pakala 3; atestada numa fonte da Lituânia Menor). Na página 92 de Compendium, apresenta-se a expressão Tu už mano Pakalos flapdawais, que, apesar da ortografia do século XVII (e talvez de um erro tipográfico na palavra flapdawais = flepdawais), significa sem dúvida, para qualquer falante nativo de lituano, «tu te escondias atrás das minhas costas». Vemos aqui que foi traduzida como Tu poft 11 O sentido II (transitivo) da palavra likti no LKŽe; há também atestações da Lituânia Menor. BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 12 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 carecta latebas, isto é, «tu te escondias entre [omitido “meus”] caniçais» (a gramática aqui está correta: «viksva» é carex, enquanto carectum significa «caniçal»). Isso já suscita sérias suspeitas de que o tradutor das palavras do Compendium para o latim não era falante nativo de lituano (embora, por alguma razão, a tradução seja considerada correta na edição de 1997; ver SC 305). Verbos reflexivos. Também suscitam dúvidas as traduções para o latim de alguns verbos reflexivos lituanos, embora entre elas haja exemplos acertados, como: Besfibajiu Obftunefco, Besfibajefjau 47 («fico atônito, espanto-me»); Besfigailiu Tāgor mifericordia, Besfigailejau 47 («sou tocado pela compaixão»); Besfigedžiu Pudet me, Besfigedejau 48 («tenho vergonha, envergonho-me»); compare-se o uso de Donelaitis: Aš besigėdėdams išvydau Krizą bekumpsant DM PL 322 e Ir besigėdėdams saugojos man parodyt DM VD 333. Ainda assim, algumas traduções levantam suspeitas de que o próprio tradutor não compreendeu plenamente o significado do verbo reflexivo lituano, por exemplo: Rūpinasfi ipfe mæret 14, isto é, rūpinasi foi traduzido como «ele próprio se aflige»; compare-se a tradução clara e precisa de Kleinas: rūpinūs sollicitus sum de me ipfo KG 180 / 86 «83» «estou inquieto por mim mesmo»; Rafžaus ego ipfe fcribo 41 (impresso como Rafžiaus, corrigido na lista de Corrigenda) foi traduzido como «eu próprio escrevo»; Mylius ego me diligo 41, isto é, a palavra myliuosi foi traduzida como «eu amo a mim mesmo»; Besfibjauriu Commaculo me, Besfibjaurejau 47, isto é, besibjauriu (bjauriuosi) foi traduzido como «maculo-me». Na gramática de Kleinas, os verbos reflexivos são traduzidos de forma impecável: apfibiaurinu contamino me ipfum «maculo a mim mesmo» KG 180 / 86 «83»; pafididinu magnifico, extollo me ipfum «glorifico, exalto a mim mesmo» KG 180 / 86 «83»; apfirupinu curam, rationem mei habeo «cuido de mim mesmo, ocupo-me dos meus próprios assuntos» KG 180 / 86 «83»; pafidarijk facias tibi «faz para ti» KG 251 / 157 «155»; pafizéminu humilio me «humilho-me» KG 251 / 157 «155». Quanto à transitividade do verbo, pode-se ainda acrescentar que a palavra važiuoju foi traduzida como «transporto» (Ważuju Veho, Ważawau 52), se não se tratar de um erro tipográfico, veho em vez de vehor. BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351-7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 13 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 Verbos causativos. As maiores suspeitas quanto à língua materna do tradutor são suscitadas pela tradução para o latim dos verbos causativos (ou factitivos) lituanos (como rašydinti). O caso [R]afžidinu12 permitto scribere 41 foi traduzido por palavras latinas que significam «permito escrever». O mesmo se observa na tradução do verbo reflexivo rašydintis (compare-se com as traduções algo estranhas dos verbos reflexivos mencionadas acima): Rafžidinūs ego ipfe permitto scribere 41 «eu próprio permito escrever». Na realidade, a forma lituana rašydinu não significa «permito (dou autorização para) escrever», mas sim «trato de fazer com que algo seja escrito, peço a outra pessoa que escreva algo (em meu lugar)»; uma expressão latina próxima seria facio scribi13 ou facio ut scribatur14, embora talvez a melhor expressão para esse sentido seja scribendum curo15. Embora, em certos casos raros, uma tradução latina com permitto possa até ser adequada (em alguns contextos, a palavra latina permittere significa «ceder», «entregar» e assim por diante), ainda assim não transmite o significado preciso da palavra lituana. Suspeita-se que o tradutor, antes de traduzir as palavras lituanas para o latim, as traduzisse mentalmente para o alemão, ou seja, primeiro imaginava rašydinti como schreiben lassen, e depois traduzia essa expressão para o latim16. Comparemos como Kleinas traduz os verbos causativos: rafzydinu, id eft, dūmi rafzyti, ich laffe fchreiben, jūkinnu ridere facio, ich mache lachen, puldinu facio labi, ich mache fallen KG 179 / 85 «83». Embora, naturalmente, Kleinas também comparasse essas palavras com construções alemãs, as traduções latinas são equivalentes precisas das palavras lituanas: juokinu 12 Na edição original, foi impresso Kafžidinu e corrigido na edição de 1997 (SC 143: nota 2). 13 Compare-se, por exemplo, o uso de Cícero no capítulo 142 da obra Brutus. 14 Compare-se, por exemplo, o uso de Ovídio nas Metamorfoses, I.545. 15 Compare-se, por exemplo, a inscrição do século I a.C. Post[umus] Mimesius (e os nomes de mais 5 magistrados) murum <...> faciundum coiravere (=faciendum curaverunt) «Postumus Mimesius (e mais 5 magistrados) mandaram construir a muralha [defensiva] <...>» (EDCS 12700059), além de muitas outras inscrições semelhantes. 16 As construções alemãs com o verbo lassen, como mostram as fontes, eram a forma mais difundida de traduzir os verbos causativos lituanos; compare-se Neselman (Raszydinu <...> fchreiben laffen N 429), Kuršaitis (rafžydinu <...> schreiben lassen K 346; pykinu erzürnen, pykin(d)inu erzürnen lassen KrG § 1277) e assim por diante, muitas vezes, embora por vezes também se empreguem outros verbos. BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 14 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 “faço com que riam”, puldinu “faço com que desabe”. Embora notemos que a palavra latina facere é usada por Kleinas apenas onde os equivalentes alemães têm machen, ainda assim lassen não é traduzido para o latim pela palavra permittere, percebendo-se que esta não seria muito adequada. Um exemplo em que em alemão se usa lassen é “traduzido” apenas para o lituano, isto é, expresso com outras palavras lituanas: rašydinu “dou (permito) que se escreva”. Também se pode observar que Kleinas chamava os verbos causativos de transitiva, enquanto no Compendium são chamados permissiva (“permissivos”; traduzidos assim também em SC 143), como se tivessem o sentido de permissão. Parece que os criadores do termo atual curativa (usado em LKŽe; “causativos”) conheciam a construção do latim clássico faciendum curo. Formas do modo imperativo. Também suscitam dúvidas semelhantes as traduções das formas lituanas do modo imperativo: Tevadinna jo permitte ut vocet illum 39 “que ele o chame”; wadinkem, permitte ut vocemus 39 “que chamemos”; Dūkem, permitte ut demus 39 “que demos”. Em latim, para todos esses casos seriam adequadas as formas de coniunctivus iussivus ou coniunctivus hortativus sem palavras adicionais: vocet, vocemus, demus (cf. o conhecido por todos Gaudeamus). Surge a suspeita de que também aqui o tradutor pensava em construções alemãs com o verbo lassen (isto é, talvez tenha traduzido mentalmente vadinkim como lass uns nennen, e então para o latim como permitte ut vocemus etc.)17. Comparando com a gramática de Kleinas, vemos que ali tais formas são traduzidas com precisão e em belo latim, usando coniunctivus hortativus: Izwęskem 100 / 6 “santifiquemos”, wadinti bukime vocati fimus 199 / 105 “103” “sejamos chamados”18. 17 Ao tratar da tradução para o alemão das formas com te-, também se podem comparar as observações de Kurschat (KrG § 1369) sobre o permissivo (o verdadeiro permissivo da língua lituana, não os “verba permissiva” de SC mencionados = verba curativa). 18 Na gramática de Kleinas (KG 251 / 157 “155”), a forma mencionada gélbėkim é uma forma abreviada de gelbėkimi (“salva-me”), e sua tradução latina juva me é inteiramente exata. BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 15 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 1.3. Casos pouco claros Algumas traduções de palavras lituanas para o latim na gramática SC permanecem pouco claras. Na página 48, lê-se: Besfigerriu Bibens bibo, Befigerejau. As palavras latinas significam “bebendo, bebo” (mais literalmente, “bebente, bebo”). Tal construção não é característica do latim e não se sabe exatamente o que deveria significar, mas se assemelha às chamadas tautologias sagradas, isto é, expressões tautológicas da Bíblia que foram traduzidas literalmente na Vulgata latina. Um caso desse tipo encontra-se em Jeremias 46:12: ecce quibus non erat iudicium ut biberent calicem, bibentes bibent et tu quasi innocens relinqueris? non eris innocens, sed bibens bibes VUL (a pontuação varia um pouco entre as edições). Na Bíblia lituana atual (na tradução de A. Rubšys e Č. Kavaliauskas de 1998), traduz-se assim: Até mesmo aqueles que não mereciam beber o cálice terão de bebê-lo! Acaso ficarás impune? Não ficarás impune, terás de bebê-lo! SNT. No texto latino da Vulgata, muito mais literal, em vez de terão de bebê-lo diz-se “bebendo, beberão”, e terás de bebê-lo corresponde a “bebendo, beberás”. Só especialistas em hebraico poderiam explicar com maior precisão o significado dessas construções (talvez algo como beberás até beber, como em correu a correr?19), mas os estudiosos da Bíblia conhecem essas construções desde há muito. Por exemplo, comentários do século XVIII dizem em alemão que o texto hebraico diz literalmente “werden trinkend trinken, oder haben trinkend getrunken” (Dietelmair 1760: 719). É possível que o tradutor da palavra lituana tivesse em mente essa passagem da Bíblia, mas aqui surge outra dúvida, muito maior: será que a palavra lituana Besfigerriu, Befigerejau não será besigėrėti, e não besigerti? Nesse caso, a tradução latina estaria completamente errada. Donelaitis também usava a palavra gėrėtis (Gėrėjos didei dukters sulaukusiu svodbą DM RG 138), e a palavra gertis (a menos que seu 19 Pode-se observar que as tautologias hebraicas são comparadas a formas adverbiais lituanas na gramática de Kleinas (mas traduzidas literalmente para o latim por meio de gerúndios latinos): girdėte girdėjau audiendo audivi f. rectiffimē audivi, literalmente “ouvindo, ouvi ou, mais corretamente, ouvi”; fakyte fakiau, dicendo dixi, feu diligenter dixi “dizendo, disse, ou disse diligentemente (claramente)” KG 259 / 165 “163”. BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 16 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 é difícil encontrar, em geral, esse significado («absorver-se, absorberi») atestado em monumentos escritos. Pode causar alguma dúvida o fato de Besfigerriu estar escrito com dois -rr-, como se a vogal que os precede fosse breve, mas, na mesma página, a palavra žerriu, žerrejau também está escrita da mesma maneira, e ela é certamente žėrėti (não žerti; a tradução Scintillo confirma isso). Outro caso pouco claro é Perriu Lavo, Perrejau 48. A tradução latina é «lavei», como se a palavra lituana fosse perti, isto é, lavar numa sauna. Há fortes motivos para suspeitar que, na verdade, a palavra usada aqui seja perėti (para a qual seria adequada a forma latina incubo, «ficar sentado, chocar», usada para traduzir a palavra tupėti 52). No dicionário de Neselman20, não há indícios de que perti e perėti fossem confundidos; portanto, é possível que tenham sido confundidos pelo tradutor das palavras lituanas do Compendium. A ambiguidade aumenta pelo fato de que, na mesma página, a palavra que certamente é sėti tem a forma do pretérito Sejeiau. Essa duplicação das letras -ej- provavelmente é um erro tipográfico, pois, até onde sabemos, a forma do pretérito *sėjėjau não é atestada não apenas na Lituânia Menor21, mas em lugar algum. Um caso muito duvidoso é Swellu Glifco, Swillau 54, aliás, não discutido na edição de 1997. As formas da palavra lituana provavelmente são svilti, svela, svilo, portanto ela seria idêntica à palavra hoje conhecida svilti, svyla, svilo, embora também possa ser svelti, svela, svile (usada com o sentido de «chamuscar» ou «queimar», LKŽ.; além disso, o verbo svelti é atestado sobretudo em monumentos da Lituânia Menor). A tradução latina significa «expandir-se, inchar, inflar, aumentar». Esse caso estranho pode ser explicado de várias maneiras, mas não há dados suficientes para optar por uma delas. Talvez a escolha dessa palavra tenha sido determinada pelo fato de que a palavra glisco também é usada na literatura latina em referência ao fogo, por exemplo, no verso 474 do canto I de Sobre a natureza das coisas, de Lucrécio: ignis gliscens «fogo que se expande, = que arde mais intensamente, = que se incendeia»? Com base em tais usos 20 Pēru, perējau, ēsu, ēti, chocar, dito das aves. Ant pautū perēti, chocar sobre os ovos 285. Peru, pēriau, persu, perti, banhar alguém; bater com o ramo de banho; depois, também em geral, bater em alguém, espancar <...> N 286. 21 No dicionário de Neselman: Sėju, sėjau, sėsu, sėti, semear. Ropes sėti, plantar nabos ou batatas N 459. No dicionário de Hako: Sėti semear, prf. ju, prt. jau, fut. fu H 115. BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 17 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 pelos exemplos, talvez seja possível perceber aqui uma semelhança com o significado de «arder lentamente». Parece pouco provável que o tradutor tenha confundido de algum modo as palavras alemãs schwelen «arder lentamente, ficar em brasa» e schwellen «inchar, avolumar-se», pois essa confusão só seria possível com palavras de uma língua estrangeira, não da língua materna. Talvez, no século XVII, existisse realmente nos dialetos da Lituânia Menor a palavra svelti (um empréstimo do alemão?22), com o significado de «inchar»? Embora os dicionários23 não confirmem isso, um verso de Donelaitis dá que pensar: Tūls nusvilęs ponpal laikis, rods, juokiasi būrams DM VD 278. O que significa exatamente «nusvilęs» aqui? Parece que esta passagem suscitou dúvidas a muitos: o LKŽe apresenta a interpretação (citando precisamente esta passagem de Donelaitis) «arruinado, miserável», mas Rėza (que talvez fosse quem melhor compreendesse o dialeto de Donelaitis e, portanto, as suas expressões figurativas) traduziu de forma totalmente literal: Manches Herrlein, verfengst am Ofen, verlacht zwar den Bauer «queimado junto ao fogão» (R 47). Será que nusvilęs não significava aqui «gordo, inchado»? Também se pode comparar outro verso de Donelaitis, no qual, numa frase muito semelhante (e na mesma posição do hexâmetro), se emprega a palavra pilvotas: Kad pilvots koks ponpal laikis taipo prasikeikia DM VD 126. Summa summarum, na falta de novos dados, permanece obscuro por que razão a palavra Compendium svelti (ou svilti) foi traduzida por glisco, mas não parece tratar-se de uma boa tradução. Outro caso que suscita dúvidas é Sellu Saliwam emitto, Sellejau 57. A tradução latina significa «expelir saliva». Se a palavra lituana for realmente seleti, sela (seli, seleja), selejo, então significa «esgueirar-se». É o que também indica o LKŽe, citando várias fontes, sobretudo da Lituânia Menor. O LKŽe menciona entre elas também esta passagem específica (SC 57), portanto, implicitamente 22 Os dicionários etimológicos estão de acordo (https://www.dwds.de/wb/etymwb/schwellen), que esta raiz, com o significado de «inchar», só está atestada nas línguas germânicas (cf. inglês swell «inchar»; a propósito, quanto à outra palavra, schwelen «arder lentamente, ficar em brasa», cf. o inglês contemporâneo swelter «sofrer com o calor»). Assim, parece pouco provável a existência de uma palavra báltica *svelti «inchar» (um cognato herdado do protoindo-europeu comum com as línguas germânicas). Ainda assim, um empréstimo do alemão seria provavelmente foneticamente possível; cf. svėlis do alemão Schwelle «limiar», K 417, LKŽ. 23 Nos dicionários encontram-se apenas os significados atuais dos verbos svilti e svelti: Swelù, swélti, f. u. Swylu N 508; Swylu, swillau, swilsu, swilti, glimmen, fchwelen. Swelù, sweliàu, swélsu, swélti, daff. N 509; [fwelu, fweliau, fweltiu, fwelti = fwylù, schwelen.] K 417 (os colchetes neste dicionário de Kurschat indicam que ele não conhecia essa palavra no dialeto materno, mas apenas por fontes escritas). BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351-7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 18 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 reconhece-se que a tradução latina de SC está incorreta, mas na edição de 1997 consideram-se corretas tanto a forma selėti como o significado «expelir saliva», SC 313. Há duas interpretações possíveis: ou se trata da palavra selėti, com o significado de «esgueirar-se», ou ocorreu um erro tipográfico na edição original de 1673 do Compendium (as letras -ell- em vez de -eil-). Donelaitis também usa a palavra seilėti: Taip kad jam daugsyk seiledams jo liežuvėlis DM PV 519. Outro caso duvidoso é Kibždu Submoveo, Moto, Kibždejau 57. Kibždeti significa «mover-se», enquanto a tradução latina diz «empurrar, mover», portanto talvez se pretendesse dizer «pôr em movimento». Não se sabe se a palavra kibždeti poderia ter tido outrora um significado transitivo, ou se se trata de um erro do tradutor (provavelmente, o segundo caso). Convém recordar mais uma vez que não encontramos traduções duvidosas desse tipo na gramática de Klein. Todas as palavras lituanas nela traduzidas para latim, apesar da ortografia do século XVII e das formas arcaicas, são claras para um falante contemporâneo de lituano e correspondem fluentemente às traduções latinas. Tudo o que de duvidoso se pode encontrar na gramática de Klein, além dos nomes um tanto aproximados de plantas ou de peças de vestuário do século XVII já mencionados, resume-se a alguns casos — ou, mais precisamente, a um conjunto de casos — em que o presente lituano parašau é traduzido pelo perfeito latino (como se em lituano estivesse parašiau ar esu parašęs): afz fawa warda parafzau, ego meum nomen fcripfi; tu fawa warda parafzai, tu tuum nomen fcripfifti; jis fawa warda parafza, ille fuum nomen fcripfit; afz tawa warda parafzau, ego tuum nomen fcripfi; tu tawa warda parafzai, tu tuum nomen fcripfifti KG 243 / 149 „147“24. Tudo indica que se trata de um descuido acidental. Seja qual for a origem étnica de Danielius Klein, é evidente que o seu domínio do lituano era equivalente ao de um falante nativo. Esses são os casos duvidosos de tradução de palavras lituanas para o latim na edição do Compendium. Ainda assim, não se deve ficar com a impressão de que essa obra está repleta de erros. 24 Trata-se sem dúvida de formas do presente, não de variantes fonéticas ou ortográficas do passado; comparem-se os verdadeiros passados, traduzidos de modo correspondente: mufze verberavit KG 195 / 101 „99“, atnefze... attulit KG 241 / 147 „145“ e outros. BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 19 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 Como mencionado, há 1380 traduções de palavras e expressões lituanas para o latim, e as duvidosas são apenas as que foram discutidas neste artigo. Todos os demais casos de tradução são corretos e precisos. Entre eles há também um caso que, ao que parece, foi interpretado incorretamente pelos responsáveis pela elaboração do LKŽ: no LKŽₑ, o segundo significado do verbete paskr̄isti 2 (paskrinda, paskrito) fundamenta-se num único trecho da gramática aqui analisada (indicado como SC 55), e esse significado é dado como «escavar, escavar raspando». Ao verificar esse caso no texto do Compendium, vemos: Pajkrindu Cavus fio, Pajkrittau 55. A tradução latina seria «torno-me oco (ou côncavo)»; portanto, o significado desta palavra não é «escavar» algo para que se torne oco (isso seria cavum facio), mas tornar-se oco por si próprio, isto é, «ficar esburacado» ou «afundar-se». 2. DADOS VALIOSOS APRESENTADOS NO GLOSSÁRIO O glossário aqui analisado contém também muitos elementos interessantes e valiosos que não são o objeto direto deste artigo, mas que, ainda assim, merecem ser mencionados. Nele podemos encontrar nomes atestados de antigas divindades lituanas (Kaukas, Gabv̄artas, Gab̄aujis, Velinas, Žemyna 24–25; Klein atesta a forma Žemynė KG 157 / 63 „61“), topónimos e designações dos habitantes (prūsas, Prūsa; Klein atesta a forma Prūsija KG 158 / 64 „62“), Karaliaučius, karaliaučionis, Danckas [Danzig ou Gdańsk], danckionis, Tilžė, tilžėnas, Įsrutis, įsrutenas, Katenava [Katniava], katenaūviškis [katniaviškis], Lietuva, lietuvininkas 19, 25; encontramos uma lista semelhante na gramática de Klein, mas apenas parte destes nomes aparece em ambas as listas). O glossário do Compendium atesta também o antigo significado da palavra kunigaikštis, mirabile dictu, que não foi incluído no LKŽ: Kunigaik[f]štis Principis filius 19 «filho de um governante, monarca (“duque”, no sentido atual)»; compare-se Kunigas Princeps 19 («governante, monarca», isto é, «duque» no sentido atual; este último significado da palavra kunigas foi incluído no LKŽ). Que isto não é um acaso BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 20 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 ou um engano fica claro pelo contexto, no qual, na mesma secção, na página 19, são mencionados os títulos de vários governantes e dos seus filhos: Karalius Rex, Karalunas Regis filius; Ercikis Princeps, Ercikaitis Principis filius, e também Klebonas Paftor, Klebonaitis Paftoris filius (trata-se, naturalmente, de pastores luteranos, que eram casados e tinham filhos). Podemos ainda comparar com os testemunhos de Klein: Kunigas Dominus «senhor da casa, governante», Kunige Domina «senhora da casa, governante» KG 118 / 24 e Kunigaikštis Principis filius, Princeps «filho do governante; governante» KG 161 / 67 „65“ (cf. também as outras palavras que Klein apresenta no mesmo lugar). 2.1. Citações de autores romanos clássicos No glossário do Compendium, entre várias frases que ilustram a sintaxe da língua lituana, encontram-se também algumas citações de autores romanos clássicos. Embora breves, são, ainda assim, as traduções mais antigas conhecidas dessas obras para o lituano. Em três delas, os autores são indicados; algumas outras não têm indicação de autoria e permaneceram por identificar na edição de 199725. Eis as citações com os autores indicados: Ipač[ę] Lieko rytę tur, ant ataũžimo Ligg[o]fą kuno karščius. Sing[u]lare remedium habent ad refrigerandum in morbis corporis ardores. Plinius 86–87 (a forma impressa era Ipačė, Liggũfą, Singnlare). Esta é uma citação de Plínio, o Velho26, que significa «tem uma propriedade medicinal especial para arrefecer as febres do corpo durante as doenças» (a propósito das uvas silvestres). Neigi viena ręčiž kuri ant jednojimo Deiwių pareitis’ nera užlikta. Neq[ue] ulla res quae ad placand[os] De[o]s pertinet, praeteroifa eft. Cic. 86 (na impressão constava placandum Deus, o que confirma que se podem esperar erros de revisão não só nos textos lituanos, mas também nos latinos 25No prefácio da edição de 1997 (SC 19), mencionam-se apenas duas citações, de Plínio e Cícero, tendo-se esquecido a citação de Horácio, identificada pouco depois em SC 223. 26 Naturalis historia, XIV. 99 (a numeração dos capítulos varia em algumas edições, mas deve situar-se aproximadamente no início do último terço do livro XIV). A obra completa de Plínio ainda não foi traduzida para lituano. BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 21 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 nas palavras; além disso, em algumas cópias do texto de Cícero (e em edições modernas), em vez de praetervisa usa-se praetermissa com significado quase idêntico). Esta é uma frase de Cícero da Terceira oração contra Catilina27 (In Catilinam, III.20), que significa «Nada do que pertence a aplacar os deuses foi [=não foi] omitido». Deiwjų significa literalmente deusas, mas a forma feminina deusa era usada para designar, em geral, as divindades dos antigos lituanos (e, portanto, também dos romanos); assim, seria adequado dizer que um dos significados antigos da palavra deusas (plural) é simplesmente «divindades» (não apenas divindades femininas); compare-se o gênero feminino do plural žmonės nos escritos antigos. No LKŽe, aliás, esse significado não é mencionado no verbete deivė, embora no trecho de Mažvydas ali citado, Tos deivės negal jums nieko gero duoti, o significado da palavra empregada seja precisamente esse («divindades»; nesse contexto, as divindades mencionadas por Mažvydas são, de fato, masculinas). Já te tornas velha, mas ainda queres parecer bela. Fis anus & tamen vis formofa videri Horat. 4. Carm. Od. 13 81. Como indicado, trata-se de uma citação das Odes de Horácio (Carmina, IV.13.2–3). O original corresponde ao final do segundo verso e ao terceiro verso da chamada quarta estrofe asclepiadeia, e a tradução lituana aproxima-se bastante da métrica do original28. Algumas citações de autores romanos foram deixadas sem indicação de autoria. Ei-las: Por que digo que és digna ou indigna desse nome? Digna tuo cur fis indignaq[ue] nomine, dicam 76. Esta é a primeira linha da epigrama III.34 de Marcial (hexâmetro). A tradução lituana também é um hexâmetro (ao declamá-la, deve-se fazer elisão em vert’ argu, como nos hexâmetros latinos); portanto, trata-se de um verso hexamétrico lituano antigo (embora não seja o mais antigo). A epigrama inteira de Marcial é a seguinte: 27 A tradução moderna pode ser lida neste livro: Marco Túlio Cícero. Discursos, tradução de E. Ulčinaitė, Vilnius: Pradai, 1997. P. 118–169. 28 A tradução moderna pode ser encontrada aqui: Horácio. Lírica, tradução de H. Zabulis, Vilnius: Vaga, 1977. P. 183. BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 22 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 Digna, direi por que és digna e indigna desse nome. És fria e negra: és e não és Quíone. O epigrama é dedicado a uma jovem chamada Quíone. O nome grego Chionē (Χιόνη) significa aproximadamente «Branquinha de Neve» ou «Nevinha», e o epigrama inteiro significa: «Por que és digna e [ao mesmo tempo] indigna do teu nome, direi: és fria [=sem paixão] e és negra [=de tez escura, que não era considerada um ideal de beleza pelos romanos]: [portanto] és e [ao mesmo tempo] não és Branquinha de Neve». Existe também uma tradução moderna deste texto, como da maioria dos outros epigramas de Marcial (exceto os mais obscenos)29. A escolha deste epigrama para ilustrar a sintaxe parece indicar que os autores de Compendium, embora fossem pastores luteranos, apreciavam as alegrias da vida e o humor romano30. Pode-se observar que, na página 84, foi escolhida a combinação de palavras mylu mergą para ilustrar a regência dos casos; mas a expressão pareimi mylėjęs provavelmente significa «volto depois de ter prestado um serviço a um amigo» ou algo semelhante (cf. o uso de Donelaitis pamyleti =tratar com hospitalidade DM RG 116), pois, caso contrário, surgiria a questão de que tipo exato de estabelecimento o falante teria deixado (deixa). Kàm ant gero? Cui bono? 79. Embora seja uma expressão breve, é conhecida do discurso de Cícero Em defesa de Róscio (Pro Roscio 84, 86 etc.): «A quem beneficiou isso [o assassinato do pai de Róscio]?»31 Cf. a expressão atual (provavelmente derivada, em última instância, deste discurso de Cícero): «a quem isso beneficia?». 29 Ver Marcus Valerius Martialis. Epigramas, tradução de A. T. Veličkienė, Vilnius: Baltos lankos, 1998. P. 74. 30 Aliás, como mencionado, Jonas, filho de Šulcas, publicou em 1706 traduções para o lituano das fábulas de Esopo (entre elas havia enredos de fábulas conhecidos também da obra de Fedro e Horácio). Talvez tenha herdado do pai o gosto pela literatura antiga. 31 Žr.: Markas Tulijus Ciceronas. Kalbos, vertė A. Kučinskienė, Vilnius: Pradai, 1997, 35–88. BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 23 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 Sugryžtu valgęs. Redeo obfonatu 85. Embora seja uma expressão breve, trata-se de uma citação da comédia de Plauto Os Dois Menecmos 32 (Menaechmi 277, 288). O sentido literal da expressão é «volto tendo providenciado comida (por exemplo, depois de fazer compras no mercado)», mas não se trata de algum erro de tradução, e sim de um possível sentido figurado. 2.2. Citações bíblicas Também há no texto de Compendium cerca de 90 citações lituanas e latinas correspondentes do Antigo e do Novo Testamento, geralmente com referências exatas. A versão latina de muitas delas coincide com o texto da Vulgata (ou difere apenas ligeiramente) e corresponde ao texto lituano. Há, contudo, casos que parecem indicar que foi escolhido na Vulgata um equivalente incorreto para o texto lituano: Girriafi Piktybe, five ifž Piktybės fawo. Gloriatur Peccator in desideriis an[im]æ fuæ. Pf. 10, 3 79 (foi impresso anmiæ). A referência ao salmo está correta, mas o seu texto latino significa «o pecador se gloria nos desejos de sua alma» (na tradução de 1998 de A. Rubšys e Č. Kavaliauskas: «Pois o ímpio se orgulha dos intentos de seu coração»). Parece que o texto lituano seria melhor correspondido por uma passagem de Sl 52:3 (51:3 na Vulgata) gloriatur in malitia («gloria-se na maldade»; frase completa: quid gloriatur in malitia qui potens est in iniquitate? «por que se gloria na maldade aquele que é poderoso na iniquidade?»; versão de A. Rubšys e Č. Kavaliauskas: «Por que te gabas, ó poderoso sem honra, de tua obra perversa?»). Isso acaba por confirmar a suspeita de que, no manuscrito original da gramática, todas ou quase todas as palavras e frases lituanas estavam sem traduções, e que as traduções latinas foram acrescentadas posteriormente por outra pessoa, isto é, Teofilis Šulcas. 32 Uma tradução moderna da comédia (por Aleksis Churginas) pode ser encontrada no livro: Comédias antigas, org. D. Dilytė, Vilnius: Vaga, 1989, 445–504. BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 24 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 3. IMPRECISÕES DAS TRADUÇÕES MODERNAS Por fim, é necessário mencionar as imprecisões que ocorrem nas traduções modernas dos prefácios latinos de Compendium (escritos, como se aceita, por Šulcas), apresentadas na edição de 1997. São variadas: muitas são pequenas ou se assemelham a paráfrases poéticas, mas algumas dificultam um pouco a compreensão dos fatos expostos nos prefácios. Se algum dia fosse preparada uma nova edição deste monumento, valeria a pena corrigir essas imprecisões. No prefácio do original, em páginas sem numeração (SC 48, 50), encontra-se a seguinte frase: Multa & ferè sexcenta forfitan (si spectes gentis Lithvanicæ originem, nonnullorum Grammatices præcepta respuentium, & ex usu addiscendam linguam, contendentium, objectiones) monenda occurrent, nisi ne monstri ad instar appareant, timor obicem poneret, & aurem quasi vellicaret tritum illud & verissimum Veriverbium: Vino vendibili non opus est fuſpenſâ hederâ. Significa (em tradução quase literal): «Muitas e quase seiscentas [expressão latina que significa aproximadamente “uma infinidade”] talvez (se considerasses a origem do povo lituano [e] as objeções de alguns que rejeitam as regras da gramática e afirmam que a língua deve ser aprendida pela prática) dúvidas [monenda: observações, advertências] surgiriam, se o receio de que elas se tornassem um mau presságio [ou “um monstro”] não lhes barrasse o caminho e não nos viesse à mente [lit. “não nos arranhasse o ouvido”] aquela máxima batida e muito verdadeira: um bom produto não precisa de publicidade [lit. “o vinho vendável (=que se vende bem) não precisa de hera pendurada” [que, segundo os Adagia de Erasmo, 589C, era usada como sinal publicitário nas tabernas romanas]]. Daqui se depreende que a frase alude ao prefácio da gramática de Kleinas, no qual foram apresentadas as possíveis objeções dos oponentes à ideia de escrever uma gramática da língua lituana, para depois refutá-las ponto por ponto. Essas objeções eram, essencialmente, as seguintes: 1) a língua lituana teria surgido de uma mistura de línguas e, além disso, teria muitos dialetos, de modo que seria impossível escrever uma gramática; 2) seria possível aprender melhor uma língua pela prática do que por meio de uma gramática. Šulcas, não querendo entrar em tais debates, limita-se aqui a BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 25 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 dizer que objeções desse tipo (monenda) poderiam surgir às centenas, mas que não vale a pena lhes dar atenção. As palavras «se considerasses a origem do povo lituano» aludem à objeção já refutada por Kleinas, segundo a qual a língua lituana teria surgido de uma mistura de línguas; porém, o fato de não se dizer «da língua lituana», mas «da origem do povo lituano (gentis Litvanicæ)», talvez signifique que Sapūnas e Šulcas também conheciam a teoria da origem romana dos lituanos. Caso contrário, por que escolher passagens de obras de autores romanos para ilustrar a sintaxe lituana e traduzir os fragmentos em verso procurando conservar a métrica? Na gramática de Kleinas, aliás, não se recorre a citações de autores clássicos. Nas páginas sem numeração do prefácio (SC 50, 52), entre as razões que levaram à publicação desta gramática, menciona-se também a seguinte: ex tam crebrâ descriptione ortus timor, ne citra tum Inventoris, tum Autoris Gratiam typis concederentur «o receio, surgido de tantas transcrições, de que, sem o consentimento de uma parte do Inventor e da outra do Autor, [estes Elementos da língua lituana] fossem entregues à oficina tipográfica [=entregues para impressão]». Vemos aqui que, no século XVII, como seria de esperar, os direitos autorais eram tratados com mais liberdade do que hoje: muitas pessoas faziam cópias desta obra (provavelmente depois de tomar o original emprestado a Šulcas), até que, por fim, Šulcas começou a recear que alguém a imprimisse e se apropriasse dos rendimentos obtidos com a sua venda. Isso também explica por que Šulcas se chama «autor»: em latim, a palavra auctor (aqui empregada na forma tardia autor) também pode significar proprietário legítimo, com o direito de vender a sua propriedade. Portanto, Šulcas, tendo herdado o manuscrito de Sapūnas, considera-se, nos termos atuais, titular dos direitos patrimoniais de autor, e dá a entender que essa era a vontade do próprio Sapūnas (chamado de Inventor no prefácio, Inventor). Não há motivo algum para duvidar disso. Aliás, embora no rosto da edição a obra seja intitulada Compendium grammaticæ Lithvanicæ («Compêndio da gramática lituana»), nos prefácios é constantemente mencionada BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351-7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 26 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 como se o seu título fosse Elementa linguæ Lithuanicæ («Elementos da língua lituana»)33. Como sabemos, Šulcas morreu no mesmo ano de 1673 em que esta obra foi impressa; portanto, é provável que essa discrepância indique que, antes de morrer, Šulcas não teve tempo de finalizar a preparação da edição. Isso também explicaria erros de revisão como esses, sobretudo nas palavras latinas, que alguém com excelente domínio do latim não teria deixado passar. É preciso mencionar mais uma imprecisão na edição de 1997. No posfácio (SC 254), lê-se: Et tu fortean L[ector] C[uriofe] fi hos octerniores [sic] perlegeris <...>. Na edição de 1997, isso é traduzido assim: «E tu, leitor cuidadoso, se <...> leres esta obra escrita ao longo de oito anos <...>» SC 255. Na realidade, o original não diz durante quantos anos esta obra foi escrita. A palavra original octerniores não é uma variante da palavra octennium («período de oito anos»); é um evidente erro tipográfico por octerniones. A palavra octernio (literalmente, algo como «grupo de oito») é um neologismo do latim moderno (formado por analogia com o clássico ternio «grupo de três»), por isso não se encontra nos dicionários de latim clássico ou medieval (nem no Forcellini ou no Thesaurus Linguae Latinae, ou no DuCange); uma busca na internet, porém, mostra imediatamente que era usado no século XVII em referência a tipografias e impressos. Por exemplo, no prefácio do dicionário latino de Comênio Lexicon atriale latino–latinum (1657)34, lê-se: Habet n. [=enim] Lexicon hoc Octerniones 40, h. e. foliola 320 «Pois este dicionário contém 40 octerniones, isto é, 320 folhas». Daqui vemos que um octernio tem 8 folhas, ou seja, 16 páginas. Portanto, um octernio é uma forma tipográfica de dezesseis páginas ou oito folhas (in octavo). O prefácio da edição de 1997 informa que a gramática de Sapūnas e Šulcas foi publicada no formato in octavo (Stundžia 1997: 5). Portanto, fi hos octernio[n]es 33 Algumas fontes também mencionam que a gramática de Sapūnas era chamada de Nomenclatorium (Biržiška 1960: 264), mas esse título (um neologismo latino que significaria aproximadamente «repertório de nomes») seria mais apropriado para um dicionário do que para uma gramática. 34 Disponível online: http://comlex.pbworks.com/w/page/9977075/Jan_0. BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 27 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 perlegeris significa «se leres estas folhas de impressão» ou «esta publicação no formato in octavo». Não sabemos quanto tempo levou realmente a redação desta obra. A palavra octerniones (desta vez sem erro de impressão) é também mencionada na dedicatória da publicação ao filho do duque da Prússia, Carlos Emílio35, numa página não numerada: hi octerniones numerum fanctum vix attingentes, ad SERENISSIMÆ CELSITUDINIS TUÆ pedes devoluti <...> SC 42. Isto significa: «estes cadernos de impressão, tendo apenas atingido por pouco o número sagrado, depositados aos pés de VOSSA ALTÍSSIMA ALTEZA <...>». Na literatura latina36, o número 7 era chamado número sagrado. Como se lê no prefácio de 1997 (Stundžia 1997: 6), a edição original completa do Compendium é composta por 113 páginas, o que corresponde precisamente a 7 cadernos de impressão e uma fração. Vemos, assim, que a dedicatória foi escrita (ou pelo menos revista) depois de o texto principal do livro já ter sido composto na tipografia e de se ter conhecido o número de cadernos de impressão. O prefácio escrito por Šulcas (SC 40) também permite precisar um pouco as informações sobre a sua biografia. As fontes indicam que, em 1675, a viúva de Teofilis Šulcas, Ona Blumaitė (Anna Bluhmin), com sete filhos ainda menores, caiu na miséria devido a dois incêndios (ŽM 2014: 1651). Poder-se-ia ficar com a impressão de que esses dois incêndios ocorreram apenas depois da morte de Šulcas, mas ficamos a saber pelo prefácio que foram três e que ocorreram quando Šulcas ainda era vivo: Ingenue fateor, meam pulvere Lithvanico jam vigesimum, & quod excurrit, annum, sopitam quasi, interea[que] à Vulcano tertiò impeditam, favillis obrutam & mediis omnibus orbatam tenuitatem, eloqui vix valere, quantum Ornamentum, PRINCIPEM <...> cum singulis suis subditis patriâ loqui posse linguâ <...> «Confesso sinceramente que dificilmente consigo expressar quanto ornamento representa o PRÍNCIPE, quando a minha indigência, como que adormecida há já vinte anos e alguns, entrementes três vezes impedida por Vulcano, coberta de cinzas e privada de todos os meios de se dar a conhecer publicamente, mal consegue...» 35 À época da publicação do SC, ele tinha 18 anos; um ano depois, em 1674, morreu. 36 Cf. o capítulo 90.6 das Cartas a Lucílio de Séneca (tradução lituana: Lucius Annaeus Seneca. Laiškai Lucilijui, tradução de D. Dilytė, Vilnius: Pradai, 1999, 299). BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 28 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 mal conseguindo expressar que ornamento é, quando o SOBERANO <...> pode falar na língua materna com cada um dos seus súbditos <...>.» A expressão «a indigência adormecida durante vinte anos pela poeira lituana» refere-se provavelmente ao período em que Šulcas trabalhou como pastor de paróquias lituanas — desde 1650 em Išdagai e desde 1662 em Katniava. Pode inferir-se daí que o prefácio talvez tenha sido escrito por volta de 1670, isto é, cerca de três anos antes da publicação impressa. CONCLUSÕES Os pesquisadores concordam que a gramática da língua lituana, abreviadamente denominada Compendium, foi escrita por Kristupas Sapūnas, e que Teofilis Šulcas a publicou, acrescentando algumas coisas e redigindo os prefácios. A questão é: o que exatamente Šulcas acrescentou ao manuscrito original de Sapūnas? Nos prefácios, a autoria de Šulcas é evidente; mas o que foi acrescentado ao próprio texto da gramática? Como mencionado no início, alguns trechos da gramática de Kleinas foram inseridos no texto original do Compendium. Será que isso é tudo? Ao comparar as traduções para o latim das palavras lituanas mencionadas nesta gramática (um glossário lituano-latino de facto), observam-se alguns aspectos suspeitos que não encontraríamos na gramática de Kleinas: 1) algumas palavras foram traduzidas incorretamente, sobretudo por confusão entre palavras lituanas de sonoridade semelhante (likti e lėkti, sirgti e sergėti etc.); 2) alguns verbos lituanos reflexivos foram traduzidos de maneira um tanto vaga, como se seu significado não tivesse sido inteiramente compreendido; 3) os significados de homônimos foram confundidos em casos nos quais seriam evidentes para um falante nativo de lituano; 4) verbos lituanos causativos e algumas formas do imperativo foram traduzidos como se o tradutor primeiro os tivesse traduzido mentalmente para o alemão; 5) para uma citação bíblica em lituano, foi escolhida como equivalente uma citação semelhante, mas não idêntica, da Vulgata latina — algo que não poderia ter acontecido se o próprio autor tivesse acrescentado os equivalentes latinos enquanto escrevia a obra (isso só poderia ter acontecido se as citações lituanas do manuscrito do autor tivessem sido deixadas sem equivalentes latinos e outra pessoa tivesse tido de encontrá-los posteriormente no texto latino da Vulgata). BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 29 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 as citações teriam ficado sem equivalentes latinos, que outra pessoa teria de encontrar posteriormente no texto latino da Vulgata). É possível censurar um ou outro coautor por não dominar perfeitamente o latim? De modo algum: ambos receberam formação em latim na Universidade de Königsberg e escreveram obras em latim impecável. E quanto ao domínio do lituano? O autor que escreveu a gramática dominava o lituano como falante nativo (seu lituano é impecável), enquanto o outro homem, a julgar pelas traduções, conhecia bem a língua lituana, mas não era falante nativo. Certos indícios nas traduções mostram que sua língua materna era o alemão. A conclusão é evidente: no manuscrito de Sapūnas, palavras e expressões lituanas (pelo menos a maioria delas) foram deixadas sem traduções latinas, e os equivalentes latinos foram acrescentados por alguém que conhecia bem o lituano, mas tinha o alemão como língua materna — ou seja, Teofilis Šulcas. Provavelmente, ele foi levado a fazer isso pelo fato de quase todas as palavras lituanas terem sido traduzidas para o latim na gramática de Kleinas, que, como se sabe, Šulcas também utilizava. Tudo isso é compatível com o fato de Šulcas chamar Sapūnas de seu Mestre (Praeceptor) no prefácio. Que disciplina Sapūnas poderia ter ensinado a Šulcas, se ambos haviam recebido a mesma formação na Universidade de Königsberg? É evidente: a língua lituana, cujo conhecimento Šulcas precisou aprimorar ao se tornar pastor de uma paróquia lituana. Ainda assim, nada disso deve dar a impressão de que a gramática de Sapūnas, complementada e publicada por Šulcas, tenha algum defeito. As traduções latinas de algumas palavras discutidas neste artigo devem ser consideradas com cautela caso contrariem o que sabemos sobre os significados das palavras lituanas com base na competência de falantes nativos e em fontes históricas. No entanto, é preciso reconhecer que Šulcas, ao publicar a gramática de Sapūnas, preservou para nós este valioso monumento da língua lituana e, ao acrescentar traduções latinas às palavras e expressões lituanas, de facto criou um glossário lituano-latino com 1380 unidades, preservando assim também dados da língua lituana do século XVII que certamente mereciam ser incluídos no LKŽ. BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 30 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 As imprecisões das traduções de Šulcas seriam inevitáveis para qualquer falante não nativo (sobretudo para alguém sem recursos modernos para verificar informações). Nós, falantes nativos contemporâneos munidos de bases de dados, só podemos agradecer pelo seu trabalho àquele prussiano germanófono do século XVII. Se coubesse ao autor deste artigo explicar em latim palavras alemãs de uma gramática da língua alemã, os resultados seriam muito, muito piores (assim como seria a tentativa de localizar, sem bases de dados, a passagem necessária na Bíblia latina). Por fim, as últimas palavras de Šulcas no final da gramática publicada são estas: si quæ per Sphalmata irrepsisse videantur ac observari potuēre, placidè corrige “se por acaso alguns [erros] parecerem ter-se infiltrado por descuido e puderem ser notados, corrige-os gentilmente” SC 254. Este artigo é uma tentativa respeitosa de fazer exatamente isso. ŠALTINIAI Cn – R. P. Gregorii Cnapij Societatis Iesu Theologi Thesauri Polonolatinogræci Tomus I. Cracoviæ: Typis & Sumptu Francisci Cæfarij, 1643. DD – Dicionarium Latinogermanicum, et vice versa Germanicolatinum ex optimis Latinæ linguæ scriptoribus concinnatum. Autore Petro Dasypodio. Argentorati: per Wendelinum Rihelium, 1537. DM – Donelaičio „Metų“ tekstas šiuolaikine rašyba. Prieiga internete: http://www.xn--altiniai-4wb.info/files/literatura/LF00/Kristijonas_Donelaitis._Metai.LF0900.pdf. (Giesmės žymimos santrumpomis: PV = Pavasario linksmybės, VD = Vasaros darbai, RG = Rudenio gėrybės; tada nurodomas eilutės numeris). EDCS – Epigraphik-Datenbank Clauss / Slaby (Lotynų įrašai). Prieiga internete: www.manfredclauss.de. BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 31 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 H – Vocabularium Litthuanico-Germanicum, et Germanico-Litthuanicum, Darin alle im Neuen Testament und Psalter befindliche Wörter nach dem Alphabet enthalten sind; Nebst Einem Anhang einer kurtzgefaßten Litthauischen Grammatic. Ausgefertiget von Friederich Wilhelm Haack, S. S. Theol. Cultore, zur Zeit Docente im Litthauischen Seminario zu Halle, Halle: Druckts Stephanus Orban, Univers. Buchdr., 1730. KG – Pirmoji lietuvių kalbos gramatika, fotograf. leidimas, Vilnius: Valstybinė politinės ir mokslinės literatūros leidykla, 1957. KrG – Kuršaitis F. Lietuvių kalbos gramatika (1876), par. B. Kabašinskaitė, iš vok. k. vertė A. Tekorius. Vilnius: Vilniaus universiteto leidykla, 2013. KrG – Kurschat Friedrich. Grammatik der littauischen Sprache, Halle: Verlag der Buchhandlung des Waisenhauses, 1876. LKŽe – Lietuvių kalbos žodynas, t. 1–20, 1941–2002 (elektroninis variantas), vyr. red. G. Naktinienė, Vilnius: Lietuvių kalbos institutas, 2005. Prieiga internete: www.lkz.lt. N – Nesselmann G. H. F. 1850: Wörterbuch der Littauischen Sprache von G. H. F. Nesselmann, Königsberg: Verlag der Gebrüder Bornträger. R – Rhesa L. J. Das Jahr in vier Gesängen, ein ländliches Epos aus dem Litthauischen des Christian Donaleitis, genannt Donalitius, in gleichem Versmaaß ins Deutsche übertragen von D. L. J. Rhesa, Prof. d. Theol., Königsberg: in der Königl. Hartungischen Hofbuchdruckerei, 1818. SC – Sapūno ir Šulco gramatika, fotograf. leidimas, Vilnius: Mokslo ir enciklopedijų leidybos institutas, 1997. SD3 – Dictionarium trium linguarum, In ufum Studiofæ Iuventutis, auctore Constantino Szyrwid è Societate Jesu. Tertia editio recognita & aucta. Vilnae: Typis Academicis Societatis Jesu. MDCXLII [1642]. Prieiga internete: www.thesaurus.flf.vu.lt (paieška pagal lotynišką žodį; originalaus leidinio puslapių numeriai faksimilėse). BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 32 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 SNT – Šventasis Raštas: Senasis ir Naujasis Testamentai. Senąjį Testamentą iš hebrajų, aramejų ir graikų kalbų vertė, pratarmę, įvadus ir ST sąvokų žodyną bei paaiškinimus parašė prel. prof. Antanas Rubšys. Naująjį Testamentą iš graikų kalbos vertė, įvadus ir NT sąvokų žodyną parašė kun. Česlovas Kavaliauskas, Vilnius: Katalikų pasaulis. Prieiga internete: biblija.lt. VUL – The Latin Vulgate. Prieiga internete: www.biblestudytools.com/vul. LITERATŪRA Biržiška Vaclovas 1960: Aleksandrynas: senųjų lietuvių rašytojų, rašiusių prieš 1865 m., biografijos, bibliografijos ir biobibliografijos. I: XVI–XVII amžiai, Čikaga: Kultūros fondas. Buchienė Tamara, Palionis Jonas 1957. Pirmosios spausdintos lietuvių kalbos gramatikos. – Pirmoji lietuvių kalbos gramatika, Vilnius: Valstybinė politinės ir mokslinės literatūros leidykla, 9–63. Dietelmair Johann Augustin 1760: Die Heilige Schrift des Alten und Neuen Testaments, nebst einer vollständigen Erklärung derselben, welche aus den auserlesensten Anmerkungen verschiedener Engländischen Schriftsteller zusammengetragen, und in der holländischen Sprache an das Licht gestellet, nunmehr aber in dieser deutschen Uebersetzung aufs neue durchgesehen, und mit vielen Anmerkungen und einem Vorberichte begleitet worden von D. Johann Augustin Dietelmair, der heil. Schrift Prof. ord. zu Altorf, und Archidiac. der Stadtkirche. Der neunte Theil, welcher die Weißagungen und Klaglieder Jeremiä enthält, Leipzig: Verlegts Bernhard Christoph Breitkopf. BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 33 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 Eigminas Kazimieras 1997: Kristupo Sapūno ir Teofilio Šulco „Compendium Grammaticae Lithvanicae“. – Sapūno ir Šulco gramatika, Vilnius: Mokslo ir enciklopedijų leidybos institutas, 9–32. Hanzíková Ludmila 1988: Názvy kalhot v češtině z hlediska principů sémantické motivace. – Sborník prací Filozofické fakulty brněnské univerzity. Studia minora Facultatis Philosophicae Universitatis Brunensis A 36, Brno: Masarykova univerzita, Filozofická fakulta, 95–101. Koženiauskienė Regina 1990: XVI–XII amžiaus prakalbos ir dedikacijos, Vilnius: Mokslas. Strockis Mindaugas 2007: Klasikinių kalbų kirčio žymėjimo įtaka lietuvių kirčio žymėjimui: daktaro disertacija, Vilnius: Vilniaus universitetas. Stundžia Bonifacas 1997: Pratarmė. – Sapūno ir Šulco gramatika, Vilnius: Mokslo ir enciklopedijų leidybos institutas, 5–7. ZM 2014: Das „Zwischenmanuskript“ zum Altpreußischen evangelischen Pfarrerbuch 6. Saalfeld bis Szypulowski. Auf der Grundlage der Sammlungen von Friedwald Moeller bearbeitet von Walther Müller-Dultz, Reinhold Heling und Wilhelm Kranz, Hamburg: Im Selbstverlag des Vereins [für Familienforschung in Ost- und Westpreußen e. V. Quellen, Materialien und Sammlungen zur altpreußischen Familienforschung (QMS)]. Gauta 2020 12 09 Priimta 2020 12 30 BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 34 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 LATIN-LITHUANIAN GLOSSARY IN THE 1673 LITHUANIAN GRAMMAR BY SAPŪNAS AND SCHULTZ Summary A short grammar of Lithuanian, written in Latin and published in 1673 in Koenigsberg, referred to as the Compendium, was written by Kristupas Sapūnas (in German known as Christoph Sappuhn) and published by Theophilus Schultz (in Lithuanian known as Teofilis Šulcas). It has been a consensus among scholars that Schultz, to whom Sapūnas had bequeathed his unpublished manuscript, published it, years after the death of the original author, with his own additions; yet, in the absence of the original manuscript, it is not always clear what exactly these additions are. Almost all Lithuanian words mentioned in the Compendium are accompanied with Latin translations; thus we have a de facto Lithuanian–Latin glossary consisting of 1380 entries. Most of the words are translated well, but the peculiarities of the translation of certain Lithuanian grammatical forms suggest that the translator had to mentally translate them into German first before producing the Latin version; also, certain similar-sounding or homonymous Lithuanian words, which could not have presented any difficulty for a native speaker, seem to have confused the translator. From this a conclusion can be drawn that in the original manuscript by Sapūnas (who was beyond doubt a native speaker of Lithuanian) the Lithuanian words had no accompanying Latin translations, and that these were added by Schultz (who was a Germanophone Prussian). Yet, despite these minor shortcomings inevitable with a non-native speaker, Schultz must be commended for his work in preserving for the posterity this interesting document on Lithuanian as it was spoken in Lithuania Minor in the 17th century. BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204 MINDAUGAS STROCKIS. Lotynų–lietuvių kalbų žodynėlis Sapūno ir Šulco gramatikoje | 35 doi.org/10.35321/bkalba.2020.93.13 KEYWORDS: Sapūnas, Šulcas (Schultz), Compendium, glossary, translation, Latin. MINDAUGAS STROCKIS Lietuvių kalbos institutas Petro Vileišio g. 5, 10308 Vilnius [email protected] BENDRINĖ KALBA 93 (2020) http://journals.lki.lt/bendrinekalba ISSN 2351–7204