Baltic “*jūrā-/-(i)i̯ā-” ‘sea’ & “*jaurā-̆ /-(i)i̯ā-̆” ‘wet soil, bog, deep water’
Abstract
This article analyses the Common Baltic term *jūr- ‘sea’ with its vr̥ddhi-formation *jaur- ‘wet soil, bog, deep water’, their toponymic traces in the macro-Baltic area, probable borrowings identifiable in Fenno-Permic *jürɜ ‘deep place in water’ and Fenno-Volgaic *järwä ‘lake’, probable external cognates in Armenian ǰowr ‘water’, and in the hydronyms Iuras & Zyras from Eastern Thrace and the Gaulish oronym Jura with regard to the semantic connection of the meanings ‘deep’ and ‘high’. These partial steps lead to the final conclusion that the primary meaning of the Baltic root *jūr- was ‘deep water’.
Full text
VÁCLAV BLAŽEK Universidade Masaryk ORCID id: orcid.org/0000-0002-6797-7188
Áreas de pesquisa: estudos indo-europeus, especialmente as línguas eslavas, bálticas, celtas, anatolianas, tocarianas e indo-iranianas; fino-úgricas; afro-asiáticas; etimologia; classificação genética; modelos matemáticos em linguística histórica.
DOI: doi.org/10.35321/all84-02
BÁLTICO *JŪRĀ-/- (I)IĀ- ‘MAR’ & *JAURĀ-/- (I)IĀ- ‘SOLO ÚMIDO, PÂNTANO, ÁGUA PROFUNDA’
O termo báltico *jūrā-/- (i)jā- ‘mar’ e *jaurā-/- (j)iā- ‘solo úmido, pântano, água profunda’
ANOTAÇÃO
Este artigo analisa o termo báltico comum *jūr- ‘mar’ e sua formação vṛddhi *jaur- ‘solo úmido, pântano, água profunda’, seus vestígios toponímicos na área macrobáltica, prováveis empréstimos identificáveis no fino-pérmico *jūrs ‘lugar profundo na água’ e no fino-volgaico *järwä ‘lago’, prováveis cognatos externos no armênio ǰowr ‘água’, e nos hidrônimos Iuras & Zyras da Trácia Oriental e no orônimo gaulês Jura, considerando a conexão semântica entre os significados ‘profundo’ e ‘alto’. Essas etapas parciais levam à conclusão final de que o significado primário da raiz báltica *jūr era ‘água profunda’.
PALAVRAS-CHAVE: báltico, fino-volgaico, fino-pérmico, armênio, Trácia, gaulês, apelativo, hidrônimo, topônimo, etimologia, paralelo semântico.
ANOTAÇÃO
O artigo analisa a palavra báltica comum *jūr- ‘mar’ e seu derivado vṛddhi *jaur- ‘solo úmido, pântano, água profunda’, seus vestígios toponímicos na macrorregião do Mar Báltico, prováveis empréstimos nas línguas fino-pérmicas (*jūrs ‘lugar profundo na água’) e fino-volgaicas (*järwä ‘lago’), possível parentesco com o armênio ǰowr ‘água’ e associação com os hidrônimos Iuras e Zyras da Trácia Oriental, bem como com o orônimo gaulês Jura, considerando a conexão semântica dos significados ‘profundo’ e ‘alto’
30
Acta Linguistica Lithuanica LXXXIV
Báltico *jūrā–/–(i)iā– ‘mar’ & *jaurā–/–(i)iā– ‘solo úmido, pântano, água profunda’
ryši. O estudo realizado permite concluir que o significado primário da raiz báltica *jūr– era ‘água profunda’.
PALAVRAS-CHAVE: báltico, fino-volgaico, fino-permico, armênio, trácio, gaulês, apelativo, hidrônimo, topônimo, etimologia, paralelo semântico.
DOCUMENTAÇÃO DOS APELATIVOS BÁLTICOS E SUAS RECONSTRUÇÕES NA PROTOLÍNGUA
1. Nas línguas bálticas há um termo específico *jūr– para ‘mar’, quase sinônimo do lituano mārios ou mãrės¹ f. pl. tantum ‘mar; baía separada do mar por dunas’, letão mare, maրա ‘baía, lagoa’, prussiano *mari ‘baía, lagoa, restinga’ [Elbing Vocabulary 65: mary ‘Haff’] (Mažiulis 2013: 582; Smoczyński 2018: 755). O termo báltico provavelmente foi adotado pelas línguas balto-fínicas: finlandês, olonetsiano, vepsiano, votiano, estoniano meri, careliano mérì, livônio meŕ ‘mar’. O umlaut *a > *e tem paralelo no finlandês reki ‘trenó’, careliano, olonetsiano regi, votiano reči, gen. regé, estoniano regi, livônio reggos < báltico: lituano rãgės ‘trenó’, letão ragus / raguvas / ragavas ‘trenó baixo’, derivados do termo báltico para ‘chifre’: lituano rãgas, letão rags ‘chifre’, pl. ragi ‘cabos de um arado’, prussiano antigo ragis [EV] ‘Horn’ (Thomsen 1890: 199, 210–211; SKES 341, 762; Smoczyński 2018: 1051, 1105).
1.1. Em lituano aparecem duas variantes apofônicas, jūr– e jaur–.
1.1.1. O lituano jūra f. ‘mar’, pl. jūros; var. jūria f., pl. jūrios e jūrė² f., pl. jūrės (Smoczyński 2018: 458) refletem, respectivamente, o protobáltico *jūrā–, *jūriā–, *jūriā–.
1.1.1.1. O primeiro registro aparece na tradução lituana do Novo Testamento de Bretkūnas (1579/1580), como o acusativo plural jūres: Bet kaip Ekrutnikai... Walti [bateli] ing Iures nuleido ‘Da aber die Schifffleute... den Kahn niederliessen in das meer’ (ALEW 423).
1.1.2. O lituano jáura, jáurė, jáuris ‘solo úmido, pesado e infértil; solo argiloso’, jáura ou jáuras ‘pântano, água profunda’, adj. jaurùs ‘pantanoso’, refletem a formação do tipo vṛddhi da raiz *jaur*jūr-, com extensões nominais semelhantes (Smoczyński 2018, 459; Hill, ALEW 423: Das morphologische Verhältnis der tiefstufigen und vollstufigen Bildungen zueinander ist unklar. Es ist möglich, dass der Ablaut verschiedene Stammalternanten des grundsprachlichen Nomens reflektiert. Es ist aber auch nicht auszuschliessen, dass die vollstufige Bildung eine rezente
¹ Também são atestadas as formas correspondentes do singularia tantum: mariã & mãrė (LKŽ VII 858, 848).
² Sobre a derivação do –ē final a partir de *–iā, ver Bammesberger 1970.
Straipsniai / Articles
31
VÁCLAV BLAŽEK
Continuação da derivação vr̥ddhi do radical em grau reduzido presente no lit. jūra.; Darms 1978: 435–436). A relação semântica entre ‘mar’ e ‘pântano’ corresponde à relação germânica entre *mari- ‘mar’ e a formação vr̥ddhi *mōra- ‘pântano, brejo’ (Darms 1978: 158–166, 435).
1.2. Letão jūra or jūra ‘mar; grande massa de água; lago’, dial. jūre, jūris (ME II 122), curônico da Nehrung jūr(e) f. ‘mar’ (cf. ALEW 423) são deriváveis do mesmo padrão protobáltico *jūrā-, *jūriā-, *jūriā respectivamente, tal como seus correspondentes lituanos.
1.3.1./2. Os termos prussianos antigos correspondentes aparecem em duas fontes principais, o Vocabulário de Elbing (a única cópia conhecida, feita por Peter Holcweßcher, é datada de c. 1400 d.C., mas o original provavelmente deve ser um século mais antigo) e o chamado Terceiro Catecismo, denominado Enchiridion (impresso em 1561 d.C.):
Prussiano antigo luriay [EV 66: ‘Mer’] = nom. pl. m.³ *jūr’ai (Mažiulis 1981: 276; 2013: 319).
Prussiano antigo iūrin ‘mar’ = acus. sg. m.⁴ *jūr’an (Mažiulis 1981: 276; 2013: 319): K III, 67.11: Bhe rikauite kirschą juckans en iūrin ‘e governa sobre os peixes no mar’.
K III, 75.2: bke {= bhe} ſtan pertrinctan Pharao ſen wiſſan ſwaieis en urminan iūrin auſkandinnons ‘E afogou o faraó obstinado, com todos os seus, no Mar Vermelho’ (Mažiulis 1981: 206, 226; Toporov 1980: 93).
1.4. As formas reunidas acima foram projetadas no protoindo-europeu por vários estudiosos:
1.4.1. Darms (1978: 435): *iu̯ərovs. Derivação vr̥ddhi *ieu̯əro-. 1.4.2. Irslinger (NIL 2008: 404–405): *iuHr-aH₂-/–(i)aH₂and *ieuHr-aH₂-. 1.4.3. Petit (2010: 9): *H₁uHrand *H₁euHr-; alternativamente *iūr- (com relação ao armênio ȳowr ‘água’). 1.4.4. Hill (ALEW 2015: 423): *iuHr-. 1.4.5. Derksen (2015: 215): *uHr-/*eu̯r-.
DOCUMENTAÇÃO DOS TOPÔNIMOS BÁLTICOS
2. O uso desses apelativos na toponímia báltica também é interessante.
³ Petit (2010: 144) vê em –ay o dual feminino em *–āi.
⁴ Trautmann (1910: 349) identificou no prussiano antigo iūrin o feminino correspondente aos equivalentes lituano e letão.
32
Acta Linguistica Lithuanica LXXXIV
Báltico *jūrā–/–(i)jā– ‘mar’ & *jaurā–/–(i)jā– ‘solo úmido, pântano, água profunda’
2.1.1. Na Lituânia, por exemplo, são conhecidos os nomes de rios Jūra, Jūrė, Jūrupis e o nome de lago Jūr-ežeris (Vanagas 1981: 139), correspondente ao apelativo composto jurėžeris ‘lago muito grande’ (Toporov 1980: 93).
2.1.2. A formação vṛddhi também foi aplicada na hidronímia lituana: os rios Jāur-upė, Jāuros upėlis, Jauryklà, Jaur̃š, Jaurìukas (Vanagas 1981: 134).
2.2. Na Letônia também há topônimos formados a partir desses apelativos: o prado Jūra e as florestas Jūras-mežs, Jūr-bierž etc. (Vanagas 1981: 139).
2.3. Na fronteira meridional do território dos Yotvingianos históricos, era conhecido o rio chamado Jura (1426, 1428 Jura, 1432, 1540, 1565 Jura), hoje Bronówka, afluente direito do rio Narew (Rozwadowski 1948: 125; cf. também Przybytek 1993: 91–92 sobre os nomes de lugar da mesma origem). Udolph (1990: 128–130) mencionou corretamente que a raiz báltica *jūrdeveria ter sido transformada no eslavo/polonês +Jyra e posteriormente +Jira. A forma Jura em meio eslavo indica uma fonte pré-eslava primária do tipo *jaur-, que é de fato atestada (ver §1.1.2.).
2.4. Na bacia do rio Moskva, afluente do Oka, há dois desfiladeiros chamados Jurin, que podem ser etimologizados com o auxílio do lituano jaurýnas ‘lugar pantanoso’ (Otkupščikov 2004: 91).
2.5. O primeiro registro escrito de um possível derivado da raiz báltica *jūro em algum dialeto báltico ocidental hipotético poderia ser identificado no topônimo Ἰούρουνον, atestado no chamado manuscrito Rᵗ da “Geografia” de Ptolomeu [2.11.27.] de meados do século II d.C., sob as coordenadas [μδ′L′, νς′] = [44°30′, 55°00′], isto é, a oeste da foz do rio Vístula [με′, νς′] = [45°00′, 56°00′] e a leste da foz do rio Viadua [μβ′L′, νς′] = [42°30′, 56°00′] e da foz do rio Suevus [λθ′L′, νς′] = [39°30′, 56°00′] (ver Ptolomeu 2.11.3.). Mencionemos que o registro alternativo é Οὐίρουνον, com as coordenadas [μ′L′, νε′] = [40°30′, 55°00′], que o deslocam para oeste, entre as fozes dos rios Viadua e Suebus (ver Cuntz 1923: 66). Aceitando a forma Ἰούρουνον, é possível analisá-la como a raiz báltica *jūr-, mais o sufixo *-ūn-, que aparece, por exemplo, no nome de rio prussiano Raudune (1316), sem o sufixo no nome de rio lituano Raudà, ambos derivados do adjetivo do tipo lituano raūdas ‘avermelhado’; de modo semelhante, no nome de lago prussiano antigo Sirgun vs. sirgis ‘garanhão’; lituano Dumblūnai: dumblas ‘pântano’ (Gerullis 1922: 139, 254).
Straipsniai / Articles
33
VÁCLAV BLAŽEK
PROVÁVEIS EMPRÉSTIMOS BÁLTICOS NO FENNO-PÉRMICO
3. São notáveis os prováveis empréstimos de ambas as variantes bálticas, *jūr- & *jaur-, para o fenno-pérmico *jūrz ‘lugar profundo na água’ e o fenno-volgaico *järwä ‘lago’, respectivamente.
3.1. Fenno-pérmico *jūrz ‘lugar profundo na água’ (UEW 635–36; SKES 128–29) > finlandês jyrä ‘riacho com margens íngremes, canal de declive acentuado, poço’, jyrämä ‘cachoeira menor, redemoinho’; lapão jârem ‘ligeiro alargamento de um rio’ (N), L jårre ‘pequena bacia de vale, buraco profundo, remanso profundo em um lago ou rio’, L jaŕem ‘pequena bacia de vale com vegetação abundante; pequena saliência arredondada em um rio ou córrego’, Ko. Not. jērem ‘lugar profundo na água (esp. abaixo de uma cachoeira)’ (> finlandês dial. järämä ‘cachoeira menor’; udmurte jer ‘lugar profundo (na água), profundidade, redemoinho’, komi jir (S P) ‘lugar profundo no rio ou lago’ (S), ‘depressão; profundo (esp. da água, também, por exemplo, de uma cova)’ (P), PO jör ‘lugar profundo (na água)’.
3.2. Fenno-volgaico *järwä ‘lago’ (UEW 633; SKES 132) > finlandês järvi, vote jarvi, estoniano järv ‘lago’; lapão N jaw’re Jule jau’re, T jāvre, Kld. jąvr, Not. javr id., mordvino Mokša (j)ɛŕ-k’é, erzia ɛŕ-k’é ‘id., lagoa’, mari KB jär, U B jer ‘lago’ (Būga 1959: 273; Rozwadowski 1948: 127; Toporov 1980: 97; Báltico > fenno-volgaico; Bednarczuk 1976: 48: fenno-volgaico > Báltico). A metátese das soantes é regular em empréstimos de origem báltica, cf. por exemplo (a) finlandês karva ‘pelo’, estoniano karv ‘id., cor’ < lituano gaūras ‘pelo no corpo de um animal’, letão gauri pl. ‘pelos pubianos’ (Thomsen 1890: 171; SKES 166–167; Fraenkel 1962/1965: 140); (b) finlandês tarvas ‘corça, alce’, estoniano tarvas ‘alce macho, auroque’ < lituano taũras ‘auroque, touro’, prussiano tauris ‘bisão’ (Thomsen 1890: 228–229; SKES 1240–1241).
4. Parece que há apenas um cognato seguro dentro do indo-europeu, a saber, o armênio jōwr ‘água’, gen.sg. jṙoy, inst.sg. jōwrb, gen. pl. jōwrc‘, jṙoc‘ (Meillet 1936: 52; Solta 1960: 320–322; Džaukjan 1967: 220; Schmitt 1981: 70; Olsen 1999: 50, 662, 674, 787, 855; tema o-/consonantal).
4.1. Meillet (1936: 52), seguido por Džaukjan (1967: 221–222) e Martirosyan (2010: 556; em seu dicionário etimológico, o lema jōwr ‘água’ está surpreendentemente ausente), cita ainda outro exemplo do desenvolvimento de *i- > em armênio j-, a saber, armênio jān ‘zelo, esforço, trabalho’, vs. grego ζῆλος, dórico ζᾶλος ‘zelo, emulação, ciúme’, além de armênio dial. (Suć‘ava) glxi janal ‘causar dano, prejuízo’ vs. grego ζημία ‘perda, dano, penalidade’, avéstico jovem auua-iiā- ‘penitência’. Džaukjan (1967: 222) acrescentou a comparação do armênio
34
Acta Linguistica Lithuanica LXXXIV
Báltico *jūrā–/–(i)jā̄– ‘mar’ & *jaurā–/–(i)jā̄– ‘solo úmido, pântano, água profunda’
jōv ‘brotar, germinar’ versus o védico yā́vasa– ‘erva, pastagem’, além de yā́va– ‘Getreide, Gerste, Hirse’; cf. o grego φυτί–ζοος ‘que produz cereais’, o lituano javaĩ ‘cereais’ etc. (Pokorny 1959: 512).
4.2. Alexander Nikolaev (comunicação pessoal, 3 de abril de 2021) chamou minha atenção para um cognato hipotético do báltico *jur– ‘mar’, que ele identifica no grego Εὔοος ‘{Deus do} vento sudeste’ [Od. 5.295, 331; 19.205]. As etimologias existentes não são convincentes: Curtius (1879: 398) relacionou-o ao verbo εὔω ‘chamuscar’ < *H₁eus– ‘queimar’ (Beekes 2010: 486), mas isso não condiz com o epíteto ὑγρὸς ‘úmido, molhado, aquoso, fluido; fraco, macio’ desse vento, transmitido pelas Scholia à Odisseia [5.295]. Kaibel (1885: 614) desenvolveu a antiga ideia de conexão com o grego αὔρα ‘brisa, ar fresco’, relacionado a ἀχύ ‘névoa, bruma, nuvens’ < *H₂eus–ēr (Beekes 2010: 27, 171–172), mas os ditongos iniciais ευ– e αυ– são incompatíveis. Uma nova etimologia poderia consistir na oposição semântica entre o jônico Βορέης, o ático Βοῤῥᾶς, o lésbio Βορίας, ‘vento norte’, em Aristóteles Βορέας καὶ ἀπαρκτίας, e Εὔρος ‘vento sudeste’. Se Βορέας, como hipotético ‘vento das montanhas’, ocultar uma palavra indo-europeia fossilizada *guorH– ‘montanha’ (cf. Beekes 2010: 227), é tentador especular que Εὔρος, trazendo umidade, poderia estar relacionado a um ‘mar’, talvez ‘vento do mar no sudeste’. Resta explicar as diferenças na posição inicial.
4.2.1. A reconstrução de Petit *H₁euHr– e a de Derksen *eu’r– parecem ser compatíveis com o grego Εὔρος, mas não com o armênio jōwr ‘água’, enquanto a reconstrução de Irslinger *iuHr–/*ieuHr– = a de Darms’ *iuəro–/*ieuəro– é compatível com o armênio jōwr ‘água’. Avaliemos se elas também são compatíveis com o grego Εὔρος. Em grego, há dois continuantes do IE *j–, a saber, ζ– e h– (spiritus asper) – ver Schwyzer 1939: 303; Lejeune 1972: 165–166. Mas a psilosis operava no jônico e no eólico, pelos quais o spiritus asper foi substituído pelo spiritus lenis, por exemplo εἰνατέες pl. ‘esposa do irmão do marido’ [Il.], sg. ἐνάτης [inscr.; Anatolia] < *(H)ienH₂–ter–, com cognatos em sânscrito yatar–, armênio ner, latim ianitrīcēs ‘esposas dos irmãos’, lituano antigo jentė ‘esposa do irmão, cunhada’, eslavo eclesiástico antigo [G1 Meth] jǫtry ‘cunhada’ (Beekes 2010: 389; Smoczyński 2018: 447; Valčáková, ESJS 5: 292–293). Isto significa que Εὔρος também é derivável de *ieuHr–.
POSSÍVEIS CONTRAPARTES HIDRONÍMICAS BALCÂNICAS
5. Fora da área toponímica báltica, há outros topônimos que se apresentam como possivelmente relacionados.
Straipsniai / Articles
35
VÁCLAV BLAŽEK
5.1. No território da Trácia histórica, Plínio, o Velho⁵ registrou dois hidrônimos, Zyras, hoje talvez o Batovska reka na Dobrudja (Detschew 1957: 196), e Iuras, hoje talvez o rio búlgaro meridional Karaagač (‘árvore negra’ em turco), também conhecido como Kitenska reka (Beševliev apud Janakieva 2009: 77), que são candidatos mais ou menos promissores a uma relação com o isoglossa báltico–armênio.
5.1.1. Tomaschek (1894: 98) relacionou Zyras (escreveu Ζύρας & Ζούρας) ao armênio ǰowr ‘água’, mas localizou o rio nas proximidades de Thynias, onde Plínio havia localizado o rio Iuras. Talvez Tomaschek tenha julgado implicitamente que ambos os hidrônimos eram idênticos, embora suas localizações geográficas tenham sido determinadas de maneira diferente por Plínio (cf. Janakieva 2009: 70–71). Mencionemos que Duridanov (1969: 34) considerava Zyras um hidrônimo dárcio e o relacionava ao nome do rio lituano Žiūrà etc.
⁵ Plinius, Naturalis Historia 4.44–45: ⁴⁴namque thracia altero latere a pontico litore incipiens, ubi hister amnis emergitur, vel pulcherrimas in ea parte urbes habet, histropolitan milesiorum, tomos, callatim, quae antea cerbatis vocabatur, heracleam: habuit et bizonen terrae hiatu raptam; nunc habet dionysopolim, crunor antea dictam; addit zyras amnis. totum eum tractum scythae aroteres cognominati tenuere. eorum oppida aphrodisias, libistos, zygere, rhocoboe, eumenia, parthenopolis, gerania, ubi pygmaeorum gens fuisse proditur; catizos barbari vocabant, creduntque a gruibus fugatos. ⁴⁵in ora a dionysopoli est odessus milesiorum, flumen pannysis, oppidum ereta, naulochus. mons haemus, vasto iugo procumbens in pontum, oppidum habuit in vertice aristaeum; nunc in ora mesembria, anchialum, ubi messa fuerat. astice regio habuit oppidum anthium; nunc est apollonia. flumina panisos, iuras, tearus, orosines; oppida thynias, halmydesos, develton cum stagno, quod nunc deutum vocatur veteranorum, phinopolis, iuxta quam bosporos. Plinius Secundus: Naturalis Historia, ed. por G. Winkler, 1988. ‘O outro lado da Trácia começa agora, na costa do Euxino, onde o rio Ister deságua; e é nesta região, talvez, que a Trácia possui as mais belas cidades, Histrópolis, fundada pelos milesianos, Tomi e Callatis, anteriormente chamada Acervertis. Ela também possuía as cidades de Heracleia e Bizone, esta última engolida por um terremoto; agora possui Dionisópolis, anteriormente chamada Cruni, banhada pelo rio Zyras. Todo esse território era antigamente ocupado pelos citas, cognominados Aroteres; suas cidades eram Aphrodisias, Libistos, Zygere, Rocobe, Eumenia, Parthenopolis e Gerania, onde se diz que habitava uma raça de pigmeus; os bárbaros costumavam chamá-los Cattuzi e acreditavam que haviam sido expulsos por grous. Na costa, partindo de Dionisópolis, encontram-se Odessus, cidade dos milesianos, o rio Panysus e a cidade de Tetranaulochus. O monte Hemo, que, com sua vasta cadeia, se projeta sobre o Euxino, tinha antigamente em seu cume a cidade de Aristaeum. Atualmente, na costa, encontram-se Mesembria e Anchialum, onde antes ficava Messa. A região de Astice tinha antigamente uma cidade chamada Anthium; atualmente Apollonia ocupa seu lugar. Os rios aqui são o Panisos, o Iuras, o Tearus e o Orosines; há também as cidades de Thynias, Halmydessos, Develton, com seu lago, hoje conhecido como Deultum, uma colônia de veteranos, e Phinopolis, perto da qual fica o Bósforo.’ Plínio, o Velho: The Natural History, traduzido por John Bostock & H. T. Riley, Londres: Taylor & Francis, 1855.
36
Acta Linguistica Lithuanica LXXXIV
Báltico *jūrā–/–(i)jā̄- ‘mar’ & *jaurā–/–(i)jā̄- ‘solo húmido, pântano, água profunda’
5.1.2. Duridanov (1969: 34–35) e Georgiev (1977: 82) compararam Iuras com o báltico *jūr- ‘mar’.
UM CORRESPONDENTE ORÓNIMO HIPOTÉTICO
6. É tentador especular sobre a relação do orónimo Mons Jura, isto é, as montanhas do Jura, na atual Suíça ocidental e no leste da França, que formam a margem noroeste do maior e mais profundo lago da Europa Ocidental, o Lago de Genebra (580 km²; 310 m). Já na primeira fonte antiga em que as montanhas do Jura foram mencionadas, na ‘Guerra das Gálias’ de Caesar, a altura das montanhas do Jura foi enfatizada: altera ex parte monte Iura altissimo⁶ ‘de um segundo lado pelo Jura, uma montanha muito alta’ [1.2.3.] ou inter montem Iuram et flumen Rhodanum,... mons autem altissimus impendebat⁷ ‘entre o monte Jura e o rio Ródano... havia, além disso, uma montanha muito alta que se erguia sobre eles’ [1.6.1.]. O orónimo Jura perpetua-se em alguns dialetismos da região fronteiriça franco-suíça (FEW V, 82–83): Neuchâtel antigo (1297) jour ‘floresta’, Montana
⁶ Caesar: De bello Gallico 1.2.3: Id hoc facilius iīs persuasit, quod undique loci natura Helvetii continerentur: una ex parte flumine Rheno latissimo atque altissimo, qui agrum Helvetium a Germanis dividit; altera ex parte monte Iura altissimo, qui est inter Sequanos et Helvetios; tertia lacu Lemanno et flumine Rhodano, qui provinciam nostram ab Helvetiis dividit. ‘Ele persuadiu-lhes isso mais facilmente porque os Helvécios estavam confinados por todos os lados pela natureza do lugar: de um lado, pelo Reno, um rio muito largo e profundo, que separa o território helvécio dos Germanos; de um segundo lado, pelo Jura, uma montanha muito alta, que está entre os Sequanos e os Helvécios; de um terceiro, pelo Lago de Genebra e pelo rio Ródano, que separa a nossa Província dos Helvécios.’
⁷ Caesar: De bello Gallico 1.6.1–2: ¹Erant omnino itinera duo, quibus itineribus domo exire possent: unum per Sequanos, angustum et difficile, inter montem Iuram et flumen Rhodanum, vix qua singuli carri ducerentur, mons autem altissimus impendebat, ut facile perpauci prohibere possent; ²alterum per provinciam nostram, multo facilius atque expeditius, propterea quod inter fines Helvetiorum et Allobrogum, qui nuper pacati erant, Rhodanus fluit isque non nullis locis vado transitur. ‘Havia ao todo duas rotas pelas quais podiam sair do seu país: uma através dos Sequanos, estreita e difícil, entre o monte Jura e o rio Ródano, por onde mal passaria uma carroça de cada vez; havia, além disso, uma montanha muito alta que se erguia sobre eles, de modo que muito poucos poderiam facilmente barrá-los; a outra através da nossa Província, muito mais fácil e livre de obstáculos, porque o Ródano corre entre as fronteiras dos Helvécios e dos Alobroges, que haviam sido recentemente subjugados, e em alguns lugares é atravessado a vau.’ C. Julius Caesar: De bello Gallico, ed. por T. Rice Holmes, Oxford: Clarendon Press, 1914. C. Julius Caesar: Gallic War, traduzido por W. A. McDevitte & W. S. Bohn, New York: Harper & Brothers, 1869.
Straipsniai / Articles
37
VÁCLAV BLAŽEK
žur, Chamonix ður id., Neuchâtel joux ‘floresta, sobretudo floresta de montanha’, jorat ‘pequena floresta; lugar cheio de matagais’, Vionnaz dzorá ‘pequena floresta de abetos’, além do latim medieval (Sabóia) joria ‘Bergwald’ etc.
6.1. A conexão semântica entre os significados ‘profundo’ e ‘alto’ não deve surpreender. 6.1.1. Por exemplo, o latim altus significa tanto ‘alto’ (originalmente ‘crescido’, se derivado de alo ‘nutrir, aumentar’) como ‘profundo’; cf. sub ramis arboris altae [Cicero, Tusculanae disputationes 3.19.44] ou altis de montibus [Ovidius, Metamorphoses 3.181] em contraste com altissima flumina [Cicero, Tusculanae disputationes 3.6.13] ou altior aqua [Caesar, Bellum civile 3.77]. É notável o sintagma ‘alto-mar’, usado já em textos arcaicos como IN ALTOD MARID PVCNandod [Columna Duilii = CIL 25; ver Wachter 1987: 359–60] ou tu qui permensus ponti maria alta velivola [Livius Andronicus apud Macrobius, Saturnalia 6.5.10].
6.1.2. Por outro lado, o tochariano A täp- ‘tornar-se alto’, além de A tpär, B tapre ‘alto’, refletindo *dʰubro-, são derivados da raiz *dʰeubʰ- ‘ser profundo’, cf. britônico *dubno- > galês dwfn, córnico down, bretão doun ‘profundo’; gótico diups, nórdico antigo djúpr, inglês antigo dēop, saxão antigo diop, alto-alemão antigo tiof ‘profundo’; lituano dubùs ‘profundo; com uma cavidade (de uma árvore); côncavo, desabado’, além de daubà ‘garganta, desfiladeiro, ravina florestal’, prussiano antigo [EV] padауbis ‘vale’; observe-se também o tochariano A top, B taupe, sem r, ‘mina’ (Adams 2013: 296, 330; Smoczyński 2018: 199–200, 256–257). É tentador acrescentar a extensão sigmática no luviano cuneiforme dupša-⁸, na formulação al-ta-an-ni-iš \ Du-up-ša-aš ‘a nascente Dupša-’ [KBo II 7 Vo. 25] (Starke 1990: 175; Melchert 1993: 235). Derivados em r também são conhecidos fora do tochariano: lituano dubrà ‘ravina numa floresta’, dubrỹs ‘reentrância, cavidade, ravina; profundezas num rio ou lago’, letão dubra ‘lama, atoleiro’, eslavo eclesiástico (redação russa) dъbъrъ ‘φάραγξ, ravina, garganta’, eslovaco dialetal debra ‘vala escavada pela água de tempestade; ravina, sulco, buraco’, ucraniano dialetal débра ‘ravina, garganta, vale’, bielorrusso dialetal dziеbra ‘vale entre montanhas; riacho, córrego entre montanhas’ etc. (Smoczyński 2018: 256); celta *dubpo- ‘água’ > irlandês antigo dobr, galês médio dw(f)r, galês dŵr, córnico e bretão médio dour id., britônico antigo Dubris [Itinerarium Antonini], hoje Dover, gaulês *dubra > Douvres, ou hoje Tauber na região alemã de Tauber-gau (Dubra-gaue AD 807), etc. (Hamp 1972: 233–237; Matasović 2009: 107; Greule 2014: 529; Delamarre 2018: 152). A glosa δύβρις · κατὰ γλῶσσον θάλασσα [sch. Theoc. 1.118c] pertence indubitavelmente a este conjunto também, embora sua filiação linguística permaneça aberta; a hipótese favorita tem sido o ilírio (Beekes 2010: 358). O significado ‘mar’ também sustenta outro derivado da mesma raiz, albanês det, ítalo-albanês dejt,
⁸ O correspondente tema em s poderia ser encontrado no nome de um dos lagos lituanos, Būdasas, geralmente derivado de *dubasas (Vanagas 1981: 93).
38
Acta Linguistica Lithuanica LXXXIV
Báltico *jūrā−/−(i)jā− ‘mar’ & *jaurā−/−(i)jā− ‘solo úmido, pântano, água profunda’
dejet, se continua a protoforma *dʰeubetā, correspondente ao protogermânico *deupipō ‘profundidade’ > gótico diupiba, nórdico antigo dýpt, saxão antigo diupitha, baixo-alemão médio dēpede, neerlandês médio diepde, etc. (Orel 1998: 61).
6.1.3. Se Iura designava originalmente ‘floresta montanhosa’, a julgar por dialetismos românicos como neuchâtel antigo (1297) jour ‘floresta’, Montana zür, Chamonix our id., Neuchâtel joux ‘forêt, sobretudo floresta de montanha’, jorat ‘pequena floresta; lugar cheio de matagais’, Vionnaz dzorá ‘pequena floresta de abetos’, além do latim medieval (Sabóia) joria ‘Bergwald’ etc. (FEW V 82–83), a semântica primária da raiz que forma Iura também pode ser ‘alto’. Há outro orônimo gaulês com provável motivação semântica paralela, a Floresta de Arduenna: in silvam Arduennam ou per Arduennam silvam [Caesar, BG 5.3.4, 6.29.4] e Ἀρδουέννα ὕλη [Strabo 4.3.5⁹]. É geralmente aceito que esse orônimo deriva do tema *arduo- ‘alto’, cf. irlandês antigo ard ‘alto, grande’, galês ardd ‘colina’, mas as montanhas das Ardenas não se caracterizam por sua altura (o pico mais alto é o Signal de Botrange – 692 m), e sim por suas vastas florestas. A julgar pelo latim arbor ‘árvore’, arbustum ‘bosque’, deriváveis de *H₃r̥dʰ-os ‘altura, verticalidade’ (de Vaan 2008: 50), ou pelo tcheco strom ‘árvore’, derivado de strmý ‘íngreme’, além do polonês strom ‘encosta íngreme’ vs. stromy ‘íngreme’ (Rejzek 2015: 666), Arduenna provavelmente designava ‘floresta’, composta por árvores altas. Aceitando essa ideia, é possível especular sobre uma motivação semântica semelhante para o orônimo Iura, do adjetivo hipotético *jūro- ‘alto, plenamente desenvolvido’, por substantivação em ‘árvore’, até o coletivo *jūrā ‘floresta’.
⁹ ὕλη γάρ ἐστιν οὐχ ὑψηλῶν δένδρων πολλὴ μὲν οὐ τοσαύτη δὲ ὅσην οἱ συγγραφεῖς εἰρήκασι, τετρακισχιλίων σταδίων, καλοῦσι δ’ αὐτὴν Ἀρδουένναν· κατὰ δὲ τὰς πολεμικὰς ἐφόδους συμπλέκοντες τὰς τῶν θάμνων λύγους βατώδεις οὔσας ἀπέφρακτον τὰς παρόδους· ἔστι δ’ ὅπου καὶ σκόλοπας κατέπηττον, αὐτοὶ δὲ κατέδυνον εἰς τὰ βάθη πανoίκιοι, νησίδια ἔχοντες ἐν τοῖς ἕλεσι: Estrabão: Geographica, ed. A. Meineke, Leipzig: Teubner, 1877. ‘Consiste numa floresta repleta de árvores baixas; de grande extensão, mas não tão grande quanto os autores descreveram, a saber, 4000 estádios. Chama-se Arduenna. Em caso de incursões guerreiras, os habitantes entrelaçavam os arbustos flexíveis e espinhosos, bloqueando assim as passagens [para o seu território]. Também fincavam estacas em vários lugares e depois se retiravam com todas as suas famílias para os recessos da floresta, para pequenas ilhas cercadas por pântanos.’ Estrabão: The Geography, traduzido por H. C. Hamilton & W. Falconer, Londres: George Bell & Sons, 1903.
Straipsniai / Articles
39
VÁCLAV BLAŽEK
RELAÇÃO ENTRE *i̯uHr–/*i̯euHr– E *uH₁r–/*u̯eH₁r– ‘ÁGUA’?
7. É legítimo perguntar se existe alguma relação entre *iuHr–/*ieuHr– discutido acima e o IE *uHr–/*ueH₁r– ‘água’¹⁰.
7.1. A reconstrução de Petit *H₁euHr– (§1.4.3.) é provavelmente compatível tanto com o báltico *jūr– ‘mar’ quanto com o IE *uH₁r–/*ueH₁r– ‘água’, se essas formas forem reinterpretadas como *H₁uH₁r–/*H₁ueH₁r–, mas não com o armênio jōwr ‘água’ (§4.2.1.).
7.2. Uma possível solução seria analisar *iuHr–/*ieuHr– como um composto constituído de *iu–/*ieu– + *uH₁r–. O primeiro componente parece estar relacionado a uma de duas raízes homônimas:
7.2.1. *ieu– (< *H₁i̯-eu–¹¹ – cf. EWAI II 420) ‘mover-se’ > saka de Khotan gyūna–, jūna– ‘movimento, marcha; vezes’, pastó yun, pl. yānə ‘movimento, marcha, passo’, além de avéstico yaona–, se significava ‘caminho’ em vez da tradução tradicional ‘lugar’, e védico yóni–, se significava ‘rota, morada’ (ESIJ 4: 94–95; NEVP 100; Bailey 1979: 112; Lubotsky 1988: 38).
7.2.2. *ieu– ‘separar’ > védico yúcchati ‘mantém-se afastado, separa-se’, conj. ví yāvanta ‘separarão’ etc., yutā-dveṣas– ‘liberto dos inimigos’ (LIV 314; EWAI 2: 403–04; Turner 1966: #10442, 10497; MW 848, 852–53); avéstico jovem yūtā– ‘separado’; persa médio: maniqueísta jwd̄y, budista ywdt ‘separado, dividido’, parta ywd ‘separado (de); sem’; persa moderno jūdā, balúchi jītā, zazaki jīyā, qohrudi yadā ‘separado’; pastó byal ‘separado, diferente, à parte’ etc. (Cheung 2007: 215–16).
7.2.3. Há um termo indo-iraniano específico *iau(i)iā– que designa ‘curso de água’, continuado no védico yāvyā– ‘riacho, rio, canal’ [RV 8.98.8], ashkun yo ‘riachinho’, kati yū id. etc.; persa antigo yau̯viyā– ‘canal’, pahlavi zoroastriano ywd /jōy/, persa moderno jō(i) id., parachi žī ‘regato’ (EWAI 2: 405; ESIJ 4: 118–19; Turner 1966: #10442). Os cursos de água têm-se deslocado, como Bailey (1979: 112) mencionou (cf. §7.2.1.), mas também podem separar suas margens, como Turner (1966: #10442) propôs (cf. §7.2.2.). O mesmo pode ser dito de um mar. Por isso, o composto hipotético
¹⁰ védico vār–, avéstico jovem vāra– ‘chuva’; luviano cuneiforme wā́rsa ‘água’; latim ūrinārī ‘mergulhar’, inglês antigo wær ‘mar’, nórdico antigo vá́ri ‘líquido, água’, úr ‘umidade, humidade’; prussiano antigo wurs ‘lagoa’ etc. (NIL 715–17).
¹¹ A forma *H₁ieu– representa a extensão da raiz *H₁ei̯– ‘ir’ (LIV 232–233), como *sreu̯– ‘fluir’ (LIV 588) vs. *ser– > védico sar– ‘correr, apressar-se’, páli sarati ‘move-se’; sogdiano hrt ‘foi’, curdo har ‘ir’ (EWAI 2: 705–706; Blažek 2018: 74–76).
40
Acta Linguistica Lithuanica LXXXIV
Báltico *jūrā-/- (i)jā̄- ‘mar’ & *jaurā-/- (i)jā̄- ‘solo úmido, pântano, água profunda’
*iu–/*ieu– + *uH₁r– é interpretável de duas maneiras alternativas: (i) ‘água em movimento’; (ii) ‘água que separa’.
7.2.4. A questão seguinte é saber se o mesmo composto é aplicável ao orônimo gaulês *Jurā?
7.2.4.1. Talvez pareça paradoxal, mas o composto *iu–/*ieu– + *uH₁r–, com o significado hipotético ‘água em movimento’, poderia realmente servir para designar montanhas, pois é precisamente nas montanhas que se encontram as nascentes dos rios. Nos territórios onde se falam línguas eslavas, há várias montanhas chamadas Tok, isto é, ‘riacho’. Etimologias de ‘água’ semelhantes podem ser propostas para montanhas como Mons Abnоbae [Plínio, o Velho, Naturalis historiae 4.79], hoje Schwarzwald, onde se situa a nascente do Danúbio. O orônimo pode representar a adaptação latina do gaulês *moni̯os abnobi ou, mais tarde, *abnobe ‘cordilheira [rica] em rios’. Outro exemplo pode ser a montanha mítica avéstica Harā–/Haraitī–, cujo pico mais alto, chamado Hū̆kairiia–, é a morada da deusa Arduui Sūrā Anāhita, que rege todas as águas [Yašt 5.121; 10.50; 10.88; 12.23–25] (Blažek & Šefčík 2011: 239–49). Nas montanhas do Jura encontram-se as nascentes de vários rios pertencentes às bacias dos rios Ródano e Reno: Ain (→ Ródano), Allaine (→ Doubs → Ródano), Birs (→ Reno), Doubs (→ Saône → Ródano), Loue (→ Doubs → Ródano), Orbe (→ Thielle → Reno), Seille (→ Saône → Ródano), Venoge (→ Lago de Genebra → Ródano).
7.2.4.2. A segunda interpretação semântica, ‘água que separa’, aparentemente não se aplica às montanhas. Mas temos à disposição o composto modificado *iu–/*ieu– + *H₂(o)r–, no qual o segundo componente pode ser identificado no celta continental: gaulês cisalpino *orom-bouui *{of} habitantes-das-montanhas¹², reconstruído com base em várias variantes do genitivo plural latino: Oromobiorum / Orumboviorum / Orumbioiorum / Oromobiorum (Meid 1996: 13); celtibérico [Peñalba de Villastar] *oros- (tema em s) no sintagma eni.orosei̯ on/
¹² Veja a interpretação documentada por Plínio, Naturalis historiae 3.124–125: oromobiorum stirpis esse comum atque bergomum et licini forum aliquotque circa populos auctor est cato, sed originem gentis ignorare se fatetur, quam docet cornelius alexander ortam a graecia interpretatione etiam nominis vitam in montibus degentium. in hoc situ interiit oppidum oromobiorum parra, unde bergomates cato dixit ortos, etiamnum prodente se altius quam fortunatius situm. ‘De Catão também aprendemos que Comum, Bergomo e Liciniforo, além de alguns outros povos das proximidades, tiveram origem nos Oromóbios, mas ele admite ignorar a origem desse povo. Cornélio Alexandre, contudo, informa que vieram da Grécia, interpretando seu nome como significando “os que vivem nas montanhas”. Nesta região, Parra desapareceu, uma cidade dos Oromóbios, dos quais, segundo Catão, descendem os habitantes de Bergomo; seu local ainda demonstra que se situava numa posição mais elevada do que fértil.’ Plínio, o Velho: The Natural History, traduzido por John Bostock & H.T. Riley, Londres: Taylor & Francis, 1855.
Straipsniai / Articles
41
VÁCLAV BLAŽEK
na montanha’, isto é, ‘montanus’, como epíteto do deus Lugus (Meid 1996: 13). Relacionada pode ser a palavra para ‘limite, fronteira’ no celta insular: irlandês médio or m. ‘limite, fronteira, extremo’ (DIL O–149); galês antigo (séc. IX) or, galês moderno ŏr ‘limite, fronteira, costa, margem, beira, borda, banco, extremidade’ (GPC), córnico or f., pl. oryon, bretão antigo orion gl. ‘oram’, bretão médio euryen ‘bord de uma fonte’ (LEIA II 26; Pedersen I: 207; II: 51). Cognatos extracélticos são, por exemplo, grego ὄρος ‘montanha, altura’ [Il. 14.227; Od. 5.279], ὀρέστερος ‘que vive nas montanhas, constituído por montanhas’ [Il. 22.93; Od. 10.212]; hitita haršar/haršn- ‘cabeça, pessoa, frente, começo’ < *H₃ersr̥, gen. *H₃r̥snós (Kloekhorst 2008: 314–315); avéstico antigo arašūua-, védico r̥ṣvā- ‘alto’ (EWAI 1: 262). Nesse caso, o composto *iu–/*ieu– + *H₃(o)r– + coll. *–eH₂ > gaulês *Jūrā significaria *‘montanhas que separam’, provavelmente tanto para suas encostas quanto para suas florestas.
CONCLUSÃO
8. As análises parciais precedentes permitem formular as seguintes conclusões:
8.1. No báltico, encontramos dois quase-sinônimos que designam ‘mar’, *jūra–, *jūr(i)ia– id. e *mar(i)iā– ‘mar, baía, lagoa’. Se o último termo designava ‘mar raso’¹³, o primeiro deveria ter significado originalmente ‘mar profundo’.
8.2. A formação lituana v̥rddhi jáura, jáurė, jáuris ‘solo úmido, pesado, infértil; solo com argila’, jáura ou jáuras ‘pântano, água profunda’ pode ser relacionada ao báltico comum *jūr- ‘mar’ numa perspectiva semântica por meio do significado ‘água profunda’, considerando a percepção tradicional dos pântanos como sem fundo.
8.3. Os hidrônimos Jura (bacia do Narew) & Jurin (bacia do Oka) situam-se longe de qualquer mar e, por isso, seus significados primários deveriam ser ‘(água) profunda’ ou ‘pantanosa’. O mesmo pode ser proposto para o topônimo Ἰούρουνον, localizado por Ptolomeu ao sul da costa do mar Báltico. Talvez designasse uma
13 Originalmente ‘mar’ em geral, amplamente difundido na área ‘antiga europeia’: latim mare ‘mar (água do mar)’; gaulês more ‘mar’ [Glossário de Vienne], irlandês antigo muir, galês mōr ‘mar’; gótico marei ‘mar’, mari-saiws ‘lago’, nórdico antigo marr ‘mar’, alto-alemão antigo mari, meri ‘mar, lago’; eslavo eclesiástico antigo morje ‘mar’. O significado primário ‘mar’ no báltico é confirmado pelo empréstimo báltico no fino-báltico *mere ‘mar’, discutido acima (§1). Fora dessa área, há cognatos menos seguros, com semânticas bastante diferentes: hitita marmar(a)-, mammara- ‘bosque encharcado, pântano coberto de vegetação, zona úmida, brejo, charneca, pântano’ (Puhvel 2004: 79–80); armênio mawr ‘pântano’ (*mamr- <?*mar mr-, embora também possa ser relacionado ao lituano máuras ‘limo, lodo, lama’ etc. – veja Džaukjan, Saradževa, Arutjunjan 1983: 128); osseta mal ‘água estagnada’ < *māria– (Gamkrelidze, Ivanov 1984: 673, 943).
42
Acta Linguistica Lithuanica LXXXIV
Báltico *jūrā–/–(i)iā̄- ‘mar’ & *jaurā–/–(i)iā̄- ‘solo úmido, pântano, água profunda’
aldeia junto a algum lago profundo na Região dos Lagos da Cassúbia (Pojezierze Kaszubskie), por exemplo, Jezioro Wdzydze: 14,55 km²; 69,5 m; ou na Região dos Lagos de Drawsko (Pojezierze Drawsko), por exemplo, Jezioro Drawsko: 19,56 km²; 79,7 m.
8.4. Se o fino-pérmico *jürs ‘lugar profundo na água’ e o fino-volgaico *järwä ‘lago’ representam adaptações do báltico *jūrā–/–(i)iā̄ ‘mar’ e *jaurā–/–(i)iā̄- ‘pântano, água profunda’, respectivamente, podem refletir os significados mais primários, talvez ‘água profunda’ em geral e ‘reservatório de água profunda’.
8.5. O pré-báltico hipotético *jūr- ‘água profunda’ é compatível com o armênio յowr ‘água’ e o grego Εὔρος ‘{Deus do} vento sudeste’. A protoforma comum foi provavelmente *iuHr-/ *ieuHr segundo Irslinger, e não *H₁euHr segundo Petit ou *eu’r segundo Derksen.
8.6. Ambos os hidrônimos da Trácia Oriental registrados por Plínio, Juras e Zyras, poderiam estar relacionados, se pertencessem a rios profundos ou pantanosos.
8.7. O orônimo Jura refere-se a montanhas caracterizadas por uma encosta muito íngreme em direção ao lago de Genebra. Portanto, pode muito bem ter a mesma origem. A conexão entre os significados ‘profundo’ e ‘alto’ é discutida em §6.1.2. Adams (2013: 296) acrescenta: ‘o que é profundo quando visto de cima pode ser considerado alto quando visto de baixo’.
8.8. A questão legítima de saber se *iuHr–/*ieuHr– representa um composto antigo constituído de *uH₁r- ‘água’ pode ser respondida afirmativamente, se o primeiro componente for identificado como o verbo *ieu– (i) ‘mover-se’ ou (ii) ‘separar’. A ideia de ‘água em movimento’ é aplicável aos mares, rios e até mesmo às montanhas, se estas forem os locais das nascentes dos rios. A ideia alternativa de ‘água que separa’ também se aplica aos mares e rios, mas provavelmente não às montanhas. No caso das montanhas do Jura, que provavelmente refletem o protocelta *jūrā, pode estar em jogo o composto alternativo *iu–/*ieu– + *H₃(o)r- + *–eH₂– ‘*montanhas que separam’. É necessário enfatizar que a aceitação do composto com uma dessas interpretações semânticas torna irrelevantes as especulações sobre ‘profundo’ versus ‘alto’ discutidas acima (§6.1.2.).
BIBLIOGRAPHY
ALEW – Altlitauisches etymologisches Wörterbuch 1: A–M, 2: N–Ž, unter der Leitung von W. Hock und der Mitarbeit von E. J. Bukevčiūtė und Ch. Schiller bearbeiten von R. Fecht, A. H. Feulner, E. Hill und D. S. Wodtko, 3: Verzeichnisse und Indices, unter der Leitung von W. Hock und der Mitarbeit vieler anderer bearbeiten von R. Fecht, Hamburg: Baar, 2015.
Bailey Harold W. 1979: Dictionary of Khotan Saka, Cambridge: University Press.
Straipsniai / Articles
43
VÁCLAV BLAŽEK
Bammesberger Alfred 1970: Litauisch lapė und lateinisch zolpēs. – Donum Balticum: To Professor Christian S. Stang on the occasion of his seventieth birthday, 15 March 1970, ed. V. Rūke–Draviņa, Stockholm: Almqvist & Wiksell, 38–43.
Beekes Robert S. P. 2010: Etymological Dictionary of Greek 1–2, Leiden, Boston: Brill.
Bednarczuk Leszek 1976: Zapożyczenia ugrofińskie w językach bałtosłowiańskich. – Acta Baltico-Slavica 9, 39–63.
Billy Pierre-Henry 1993: Thesaurus Linguae Gallicae, Hildesheim, Zürich, New York: Olms & Weidmann.
Blažek Václav, Šefčík Ondřej 2011: Oronyms derived from water? – Mons Abnobae and Haraiti. Historische Sprachforschung 124, 239–249.
Blažek Václav 2018: K pramenům řek indoevropských. – Vesper Slavicus. Sborník k nedožitým devadesátinám prof. Radoslava Večerky, ed. P. Malčík, Praha: Nakladatelství Lidové noviny, 58–80.
Būga Kazimieras 1959: Rinktiniai raštai 2, ed. Z. Zinkevičius, Vilnius: Valstybinė politinės ir mokslinės literatūros leidykla.
Cheung Johnny 2007: Etymological Dictionary of the Iranian Verb, Leiden, Boston: Brill.
Curtius Georg 1879: Grundzüge der griechischen Etymologie 5. unter mitwirkung von E. Windisch umgearb. aufl., Leipzig: Teubner.
Darms Georges 1978: Schwäher und Schwager, Hahn und Huhn: die Vṛddhi-Ableitung im Germanischen, München: Kitzinger.
Delamarre Xavier 2018: Dictionnaire de la langue gauloise. Une approche linguistique du vieux celtique continental, Paris: Éditions Errance.
Derksen Rick 2015: Etymological Dictionary of the Inherited Baltic Lexicon, Leiden, Boston: Brill.
Detschew Dimiter 1957: Die thrakischen Sprachreste, Wien: Rohrer.
DIL – Dictionary of the Irish Language. Based mainly on Old and Middle Irish Materials (Compact Edition), ed. E. G. Quin et al., Dublin: Royal Irish Academy, 1998.
Douglas Q. Adams 2013: A Dictionary of Tocharian B 1–2, Revised and Greatly Enlarged Edition, Amsterdam, New York: Rodopi.
Duridanov Ivan 1969: Thrakisch-dakische Studien. 1. Teil: Die thrakischund dakisch-baltischen Sprachbeziehungen. – Balkansko ezikoznanie 13/2, 1–104.
44
Acta Linguistica Lithuanica LXXXIV
Baltic *jūrā-/-(i)iā- ‘sea’ & *jaurā-/-(i)iā- ‘wet soil, bog, deep water’
Džaukjan Gevork B. 1967: Očerki po istorii dopis’mennogo perioda armjanskogo jazyka, Erevan: Izdatel’stvo Akademii nauk Armjanskoj SSR.
Džaukjan Gevork B., Saradževa Lûdviga A., Arutjunjan Covinar R. (eds.) 1983: Očerki po sravnitel’noj leksikologii armjanskogo jazyka, Erevan: Izdatel’stvo Akademii nauk Armjanskoj SSR.
ESIJ – Rastorgueva Vera S., Ėdel’man Dž. I. 2000–2011: Ėtimologičeskij slovar’ iranskix jazykov 1–4, Moskva: “Vostočnaja literatura”.
ESJS – Etymologický slovník jazyka staroslověnského 5, ed. E. Havlová, Praha: Academia, 1995.
EWAI – Mayrhofer Manfred 1986–2001: Etymologisches Wörterbuch des Altindoarischen 1–3, Heidelberg: Carl Winter Universitätsverlag.
FEW – Walther von Wartburg et al. 1928–2003: Französischen etymologisches Wörterbuch: eine Darstellung des galloromanischen Sprachschatzes, Basel: Helbing & Lichtenhahn; Zbinden, Paris: H. Champion; Genève: Slatkine. Available at: https://apps.atilf.fr/lecteurFEW/index.php/page/view.
Fraenkel Ernst 1962–1965: Litauisches etymologisches Wörterbuch 2 Bde. (Indogermanische Bibliothek: 2. Reihe Wörterbücher), Heidelberg, Göttingen: Carl Winter Universitätsverlag, Vandhoeck & Ruprecht.
Gamkrelidze Tamaz V., Ivanov Vjačeslav V. 1984: Indoevropejskij jazyk i indoevropejcy. Rekonstrukcija i istoriko-tipologičeskij analiz prajazyka i protokul’tury, Tbilisi: Izdatel’stvo Tbilisskogo universiteta.
Georgiev Vladimir I. 1977: Trakite i texnijat ezik, Sofija: Izdatelstvo na Bălgarskata akademija na naukite.
GPC – Geiriadur Prifysgol Cymru. Available at: https://welsh-dictionary.ac.uk.
Greule Albrecht 2014: Deutsches Gewässernamenbuch. Etymologie der Gewässernamen und der dazugehörigen Gebiets-, Siedlungsund Flurnamen, Berlin, unter Mitarbeit von S. Hackl-Rößler, Boston: de Gruyter.
Hamp Eric P. 1972: Keltic dubro- ‘water’: the story of a lexeme. – Studies in Linguistics in honor of George L. Trager, ed. M. E. Smith, Hague, Paris: Mouton, 233–237.
Janakieva Svetlana 2009: Trakijskata xidronimija, Sofija: Akademično izdatelstvo “Prof. Marin Drinov”.
Kaibel Georg 1885: Antike Windrosen. – Hermes: Zeitschrift für klassische Philologie 20/4, 579–624.
Straipsniai / Articles
45
VÁCLAV BLAŽEK
Kloekhorst Alwin 2008: Etymological Dictionary of the Hittite Inherited Lexicon, Leiden, Boston: Brill.
LEIA II – Lexique étymologique de l’irlandais ancien 2: M–P, par J. Vendryès, Dublin: Dublin Institute for Advanced Studies, 1960.
Lejeune Michel 1972: Phonétique historique du mycénien et du grec ancien, Paris: Klincksieck.
LIV – Helmut Rix, Martin Kümmel, Thomas Zehnder, Reiner Lipp, Brigitte Schirmer 2001: Lexikon der indogermanischen Verben. Die Wurzeln und ihre Primärstammbildungen, Wiesbaden: Reichert.
LKŽ – Lietuvių kalbos žodynas, vols. I–XX, Vilnius: Mokslas, 1941–2002.
Lubotsky Alexander M. 1988: The System of Nominal Accentuation in Sanskrit and Proto-Indo-European, Leiden, New York, Köbenhavn, Köln: Brill.
Matasović Ranko 2009: Etymological Dictionary of Proto-Celtic, Leiden, Boston: Brill.
Mažiulis Vytautas 1981: Prūsų kalbos paminklai 2, Vilnius: Mokslas.
Mažiulis Vytautas 2013: Prūsų kalbos etimologijos žodynas, Vilnius: Mokslo ir enciklopedijų leidybos centras.
ME – Mühlenbach Karlis, Endzelin Janis 1923–1932: Lettisch-deutsches Wörterbuch IV. Band, Riga: Herausgegeben vom lettischen Kulturfonds.
Meid Wolfgang 1996: Kleine keltiberische Sprachdenkmäler, Innsbruck: Innsbrucker Beiträge zur Sprachwissenschaft, Vorträge und Kleinere Schriften 64.
Meillet Antoine 1936: Esquise d’une grammaire comparée de l’arménien classique, Vienne: Imprimerie des P. P. Mekhitharistes.
Melchert H. Craig 1993: Cuneiform Luvian Lexicon, Chapell Hill, N. C.: self-published.
MW – Monier-Williams Sir Monier 1899 (reprint 1993): A Sanskrit-English Dictionary, Delhi: Motilal Banarsidass. Available at: http://www.sanskrit-lexicon.uni-koeln.de/cgi-bin/tamil/recherche.
NEVP – Morgenstjerne Georg 2003: A New Etymological Vocabulary of Pashto, ed. J. Elfenbein, D. N. MacKenzie, N. Sims-Williams, Wiesbaden: Reichert.
NIL – Wodtko Dagmar S., Irslinger Britta, Schneider Carolin 2008: Nomina im Indogermanischen Lexikon. (Indogermanische Bibliothek, Reihe 2: Wörterbücher), Heidelberg: Carl Winter Universitätsverlag.
46
Acta Linguistica Lithuanica LXXXIV
Baltic *jūrā-/-(i)iā̄- ‘sea’ & *jaurā-/-(i)iā̄- ‘wet soil, bog, deep water’
Nobbe C. F. A. (ed.) 1966: Claudii Ptolemaei Geographia, Hildesheim: Olms.
Olsen Birgit A. 1999: The Noun in Biblical Armenian. Origin and Word-Formation, Berlin, New York: de Gruyter Mouton.
Orel Vladimir 1998: Albanian Etymological Dictionary, Leiden, Boston, Köln: Brill.
Otkupščikov Jurij V. 2004: Drevnjaja gidronimija v bassejne Oki. – Balto-slavjanskie issledovanija 16, 83–114.
Pedersen Holger 1909–1913: Vergleichende Grammatik der keltischen Sprachen, 2 vols: I. Einleitung und Lautlehre, II. Bedeutungslehre (Wortlehre), Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht.
Petit Daniel 2010: Untersuchungen zu den baltischen Sprachen, Leiden, Boston: Brill.
Przybytek Rozalia 1993: Ortsnamen baltischer Herkunft im südlichen Teil Ostpreußens, Stuttgart: Steiner.
Puhvel Jaan 2004: Hittite Etymological Dictionary, vol. 6: Words beginning with M, Berlin, New York: de Gruyter Mouton.
Rejzek Jiří 2015: Etymologický slovník, 3. (2. přeprac. a rozšíř.), Praha: Leda.
Rozwadowski Jan 1948: Studia nad nazwami wód słowiańskich, Kraków: Nakładem polskiej Akademii umietności.
Schmidt Rüdiger 1981: Grammatik des Klassisch-Armenischen mit sprachvergleichenden Erläuterungen, Innsbruck: Institut für Sprachwissenschaft der Universität Innsbruck (Innsbrucker Beiträge zur Sprachwissenschaft, Bd. 32).
Schwyzer Eduard 1939: Griechische Grammatik auf der Grundlage von Karl Brugmanns Griechischer Grammatik, 1. Band, München: Beck.
SKES – Suomen kielen etymologinen sanakirja, ed. Y. H. Toivonen et al., Helsinki: Suomalais-Ugrilainen seura, 1955–1981.
Smoczyński Wojciech 2018: Lithuanian Etymological Dictionary, ed. A. Holvoet, S. Young, assist. W. Browne, Berlin, Bern, Bruxelles, New York, Oxford, Warszawa, Wien: Peter Lang.
Solta Georg R. 1960: Die Stellung des Armenischen im Kreise der indogermanischen Sprachen, Wien: Mechitharisten-Buchdruckerei.
Starke Frank 1990: Untersuchung zur Stammbildung des keilschrift-luwischen Nomens, Wiesbaden: Harrassowitz.
Thomsen Vilhelm 1890: Beröringer mellem de finske og de baltiske (litauisk-lettiske) Sprog, Kobenhavn: Dreyer.
Straipsniai / Articles
47
VÁCLAV BLAŽEK
Tomaschek Wilhelm 1894: Die alten Thraker: eine ethnologische Untersuchung II: Die Sprachreste 2: Personen und Ortsnamen. – Sitzungsberichte der Philosophisch-historischen Classe der Kaiserlichen Akademie der Wissenschaften 131.1, Wien: Österreichischen Akademie der Wissenschaften, 1–103.
Toporov Vladimir N. 1975–1980: Prusskij jazyk: slovar’ (A–D), (I–K), Moskva: Nauka.
Trautmann Reinhold 1910: Die altpreussischen Sprachdenkmäler, Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht.
Turner Ralph L. 1966: A Comparative Dictionary of the Indo-Aryan Languages, Oxford: University Press.
Udolph Jürgen 1990: Die Stellung der Gewässernamen Polens innerhalb der alteuropäischen Hydronymie, Heidelberg: Carl Winter Universitätsverlag.
UEW – Uralisches etymologisches Wörterbuch, ed. K. Rédei, Budapest: Akadémiai Kiadó, 1986–1988.
Vanagas Aleksandras 1981: Lietuvių hidronimų etimologinis žodynas, Vilnius: Mokslas.
Vries Jan de 1962: Altnordisches etymologisches Wörterbuch, Leiden: Brill.
Wachter Rudolf 1987: Altl ateinische Inschriften. Sprachliche und epigrafische Untersuchungen zu den Dokumenten bis etwa 150 v. Chr., Bern, Frankfurt am Main, New York, Paris: Lang.
Walde Alois, Hofmann J. B. 1954: Lateinisches etymologisches Wörterbuch, vol. 2, Heidelberg: Carl Winter Universitätsverlag.
Winkler Gerhard 1988: C. Plinii Secundi Historiae Naturalis, Libri III/IV, Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft.
Acknowledgement
The present study was prepared thanks to the support of the Specific Research Fund of Masaryk University, Nr. 2817. I am grateful to John D. Bengtson and Stefan Zimmer for their comments and correction of English. My thanks also belong to Alexander Nikolaev for his mention of the Greek data and to two anonymous referees for their useful comments.
48
Acta Linguistica Lithuanica LXXXIV
Baltic *jūrā–/(i)ijā– ‘sea’ & *jaurā–/(i)ijā– ‘wet soil, bog, deep water’
Baltų *jūrā–/(i)ijā– ‘jūrą’ ir *jaurā–/(i)ijā– ‘šlapias dirvožemis, pelkė, gilus vanduo’
SANTRAUKA
Straipsnyje analizuojama proto-baltų šaknis *jūr-. Ji paliudyta lietuvių kalbos žodyje jūra f., pl. jūros; var. jūria f., pl. jūrios ir jūrė f., pl. jūrės ir lat. jūra arba jūra ‘jūra; didelis vandens telkinys; ežeras’, dial. jūre, jūris (ME II 122), kuršininkų jūr(e) f. ‘jūra’. Šios formos atitinkamai gali būti sietinos su proto baltų *jūra–, *jūria–, *jūri̯ā–. S. prūsų lurīay [Elbingo žodynas 66: ‘Mer’] = nom. pl. *jur’ai ir iurin [Enchiridion] ‘jūra’ = acc. sg. *jur’an atspindi protobaltišką formą *jūriā–. Nagrinėjamajai šakniai giminiški ir liet. jūra, jūrė, jūris ‘šlapia, sunki, nederlinga dirva; dirvožemis su moliu’, jūra arba jūrās ‘pelkė, gilus vanduo’, būdvardis jūrus ‘pelkėtas’, atspindintys šaknies *jūr– vṛddhi– darybos tipą *jaur–su panašiais vardžodominiais plėtiniais. Nagrinėjamasis žodis yra gana plačiai paliudytas Lietuvos ir Latvijos hidronimijoje, taip pat ir už rytinio Baltijos regiono teritorijos ribų, pavyzdžiui, Jura (Narevo intakas, pirmasis paminėjimas 1426 m.) ir Jurin (dvi griovos Maskvos upės baseine), pastarasis atitinka liet. jaurýnas ‘pelkėta vieta’. Pirmasis rašytinis galimai baltiškos šaknies *jūro darinio paminėjimas gali būti atpažįstamas vv. ‘loúrquovov’, lokalizuojamo į vakarus nuo Vistula upės žiočių ir į rytus nuo Viadua upės žiočių, kuris fiksuotas vadinamame Ptolemajaus Geografijos rankraštyje Rt [2.11.27.] (II a.). Abu baltų variantus *jūr– & *jaur– pasiskolino Permės finai – *jürs ‘gili vieta vandenyje’ ir Volgos finai – *järwä ‘ežeras’. Kitose indoeuropiečių kalbose patikimai paliudytas tik vienas gimin iškas žodis – armėnų jowr ‘vanduo’. Esama galimybės jį sieti su s. graikų Εὔρος ‘Pietryčių vėjo {dievas}’. Šiuo atveju galima rekonstruoti bendras protoformas *iuHr– ir *ieuHr–. Pateikiamos ir dvi perspektyvios Plinijaus Vyresniojo iš istorinės Trakijos užrašytos hidroniminės paralelės: Zyras, galbūt dabartinė Batovska reka Dobrudžoje, ir Iuras, dabar galbūt upė Karaagač (Pietų Bulgarija). Problemiškesnis siejimas su galų oronimu Mons Iura. Siūlomas naujas etimologinis sprendimas – formą *iuHr–/*ieuHr– galima analizuoti kaip seną junginį, sudarytą iš *ieu– (i) ‘judėti’ arba (ii) ‘atskirti’ ir *uHr̥– ‘vanduo’.
Įteikta 2021 m. kovo 15 d.
VÁCLAV BLAŽEK
Department of Linguistics and Baltic Studies Masaryk University Nováka 1, CZ–60200 Brno [email protected]
Straipsniai / Articles
49