Resumo
O silêncio é um ema com um g ande pode de a ação, sob e udo numa sociedade (como a socie-
dade ociden al do século XXI), onde é semp e mais impo an e “ e de ala a qualque p eço”, “ e
de dize udo” e “ e de ala semp e”, quase como se ossem o mas explíci as de demons ação de
uma equação possí el: ala = ale . A sociedade adicional a icana iaja em sen ido opos o. Ao
aga a -se aos p incípios da adição o al, a sociedade adicional a icana, pelo con á io, usa cau e-
losamen e a pala a numa escala de alo es in e sa, sem, oda ia, a despe diça : ale mais quem ala
menos, po que é com o uso a en o, cuidado e nunca excessi o da pala a que se es abelece o luga
do sag ado, da a e, da memó ia, dos a e os, da jus iça; é ambém azendo ecu so de o ma plena
à a e do silêncio que se p a ica a sabedo ia e se ab em as po as aos g andes mis é ios da ida e do
ou o. A possibilidade que o silêncio em de se o ma e obje o de comunicação, ap oxima-o das lín-
guas e bais, mas com a singula idade de não pa ilha a p e oga i a que aquelas êm de “ ala de
si” em o mas explíci as e au ónomas, ela i amen e a um con ex o. Na p á ica do silêncio, a o ma
e o obje o são uma coisa só. Não se explica, não se na a e não se desc e e o silêncio com o p óp io
silêncio. Faz-se silêncio, dá-se-lhe um sen ido, ou, mais p op iamen e, inúme os sen idos, segundo
as ci cuns âncias do diálogo. Toda ia, pa a e oca , na a , desc e e os seus signi icados e as suas
mani es ações pe ce í eis, é p eciso usa a cla eza de ou os ipos de exp essão linguís ica. Nes e
a igo, examinam-se algumas ob as do esc i o moçambicano Mia Cou o. A análise que o e ecemos
dessas ob as diz espei o aos á ios ipos de silêncio que se impõem pelo peso que êm no desen ola
das amas na a i as e no en elaçamen o dos discu sos, que se mani es am p incipalmen e de qua-
o manei as, odas ligadas à adição o al a icana: o silêncio da escu a, o silêncio das pausas e das
e icências, o desejo de silêncio e o p aze de escu a, o silêncio no silêncio das pala as.
Pala as-cha e
Mia Cou o; silêncio; adição o al a icana.
Abs ac
Silence is a opic wi h a g ea powe o a ac ion, especially in he Wes e n socie y o he 21s cen-
u y, whe e i is always mo e impo an o “ha e o speak a any cos ”, “ha e o say e e y hing” and
“ha e o speak always”, as i hey we e an explici way demons a ing a possible equa ion: o speak
= o be alid. T adi ional A ican socie y a els in he opposi e di ec ion. S icking o he p inciples
o o al adi ion, adi ional A ican socie y, on he con a y, uses he wo d cau iously in an in e se
scale o alues, wi hou , howe e , was ing i . Who speaks less is wo h mo e because i is wi h an
a en i e, ca e and ne e excessi e use o he wo d ha i is possible o es ablish he place o he
sac ed, o he a , o he memo y, o he a ec ions, o he jus ice. I is also making ull use o he a
o silence ha i is imaginable o p ac ice he wisdom and open he doo s o he g ea mys e ies o
li e and o he o he . The possibili y ha silence has o be o m and objec o communica ion b ings
i close o e bal languages, bu wi h he singula i y o no sha ing hei p e oga i e o “ alking
abou hemsel es” in explici and au onomous ways, in ela ion o a con ex . In he p ac ice o
silence, o m and objec a e one. I is no hinkable o explain, i is no concei able o na a e and i
is no possible o desc ibe he silence wi h he silence i sel . Silence exis s, a meaning is gi en o i , o ,
mo e p ope ly, innume able meanings, depending on he ci cums ances o he dialogue. Howe e ,
o e oke, na a e, desc ibe hei meanings and hei pe cep ible mani es a ions, i is necessa y o use
he cla i y o o he ypes o linguis ic exp ession. In his a icle, a e examined some wo ks by he
Mozambican w i e Mia Cou o. The analysis o hese wo ks conce ns he ypes o silence impo an
o he weigh hey ha e in he un olding o na a i e plo s and in he in e wining o discou ses.
They mani es hemsel es mainly in ou ways, all linked o he A ican o al adi ion: he silence o
lis ening, he silence o pauses and e icence, he desi e o silence and he pleasu e o lis ening, he
silence in he silence o wo ds.
Keywo ds
Mia Cou o; silence; A ican o al adi ion.
MANIFESTATIONS OF SILENCE IN MIA COUTO
Re e encia: Go i, B. (2021). As mani es ações do silêncio em Mia Cou o. Cul u a La-
inoame icana, 34(2), pp. 226-254. DOI: h p://dx.doi.o g/10.14718/Cul u aLa i-
noam.2021.34.2.10
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AS MANIFESTAÇÕES DO SILÊNCIO
EM MIA COUTO
Ba ba a Go i *
Uni e si à degli S udi di Pado a
DOI: h p://dx.doi.o g/10.14718/Cul u aLa inoam.2021.34.2.10
Uns nasce am pa a can a , ou os pa a dança , ou os nasce am
simplesmen e pa a se em ou os. Eu nasci pa a es a calado. Min-
ha única ocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: enho
inclinação pa a não ala , um alen o pa a apu a silêncios. Esc e o
bem, silêncios, no plu al. Sim, po que não há um único silêncio. E
odo o silêncio é música em es ado de g a idez. Quando me iam,
pa ado e eca ado, no meu in isí el ecan o, eu não es a a pas-
mado. Es a a desempenhado, de alma e co po ocupados: ecia os
delicados ios com que se ab ica a quie ude. Eu e a um a inado
de silêncios.
(Cou o, 2009b, pp. 13-14)
In odução
“A adição o al a icana é a g ande escola da ida, e dela ecupe-
a e elaciona odos os aspec os”1. É assim que o in elec ual maliano
Hampâ é Bâ (1982, p. 183), jun o com ou os es udiosos, e le e so-
b e os concei os de o alidade e de adição o al no mundo a icano,
1. Nou o echo, Hampâ é Bâ de ine a adição o al como “conhecimen o o al”: “Se o mulás-
semos a seguin e pe gun a a um e dadei o adicionalis a a icano: ‘O que é adição o al?’, po
ce o ele se sen i ia mui o emba açado. Tal ez espondesse simplesmen e, após longo silêncio: ‘É
o conhecimen o o al’” (2003, p. 182).
* P o esso a Associada de Li e a u a Po uguesa e B asilei a no Dipa imen o di S udi Linguis ici
e Le e a i (DiSLL) da Uni e sidade de Pádua (I ália). É adu o a de ob as em poesia e em p osa,
en e as quais os sone os de An e o de Quen al, oda a ob a em p osa de Má io de Sá-Ca nei o
e a poesia de Ângelo de Lima. Tem a suo ca go ensaios e li os sob e li e a u a po uguesa, em
pa icula sob e as duas Ge ações da Mode nidade po uguesa, a de 70 e a de O pheu, que ep e-
sen am os seus p incipais âmbi os de in e esse, e sob e li e a u a a icana em língua po uguesa.
E-mail: [email p o ec ed]
Es e a igo az pa e de um p oje o da Uni e si à degli S udi Pado a.
Fecha de ecepción: 30 de agos o de 2021; echa de acep ación: 27 de sep iemb e de 2021.
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BARBARA GORI
Cul u a La inoam. Volumen 34, núme o 2, julio-diciemb e 2021, pp. 226-254
chamando a a enção pa a o ac o de ambos não e em a e exclusi a-
men e com o p edomínio da exp essão e bal2 na comunicação, po
se a a de um au ên ico sis ema de pensamen o que em ambém a
ca ac e ís ica de se basea num diálogo p o undo en e os di e en es
âmbi os da ida cole i a, ganhando os con o nos de um a qui o li e á-
io, his ó ico e cien í ico inesgo á el e de ines imá el alo . De modo
que, con a uma his ó ia não se aduz simplesmen e na on ade de
en e e ou di e i o in e locu o , mas num a o pe o ma i o mui o
mais complexo, inculado à necessidade de ansmi i ou as coisas:
sabe es de ipo p á ico, alo es mo ais, pe pe uação da p óp ia his-
ó ia. Um concei o-cha e an o simples quan o impo an e3, em que,
jun o da pala a calib ada, a capacidade de cul i a o silêncio4 ganha
g ande ele ância, não só como índice de sabedo ia, em ge al, mas
ambém como p á ica necessá ia pa a sabe ala ou agi com sabedo-
ia, em pa icula , usando a pala a ce a no momen o ce o, azendo
as pe gun as necessá ias quando necessá io, sabendo que não é im-
po an e só quando se ala —ou se cala— como ambém quem ala e
pa a quem ala.
Ao disse a sob e os signi icados que a pala a em en e as po-
pulações ban as, Alexand e on Saenge (2006) chama a a enção p e-
cisamen e pa a o ac o de nas sociedades adicionais a icanas, em
ge al, se em os idosos os que alam pouco —bem como os que comem
pouco e azem pouco sexo—, sob e udo quando p ocu am espos-
as. Eles cos umam se conside ados mais sábios, po que adqui i am
a capacidade de escu a —e escu a signi ica es a em silêncio— pa a
deci a o que o mundo em pa a comunica , e decidi depois o que
é p eciso dize e o que é p eciso não dize (Wondji, 1996, p. 10)5.
2. Re i o-me, em pa icula , aos es udos de Amadou Hampâ é Bâ, A adição i a (1982); Paul
Zum ho , In odução à poesia o al (2010); Wal e Ong, O alidade e cul u a esc i a (1998); Jean
De i e, O alidade, li e a ização e o alização da li e a u a (2010), Jack Goody, Domes icação do
pensamen o sel agem (1988).
3. T a a-se de um concei o que encon amos nas maio es ob as dedicadas ao es udo das adi-
ções o ais, en e as quais se des acam as ob as de Ch is ophe Wondji, Da boca do ancião (1996);
Alexand e on Saenge , A Pala a na sabedo ia ban o (2006); Ri h Finnegan, O signi icado da
li e a u a em cul u as o ais (2006); Fábio Lei e, Valo es ci iliza ó ios em sociedades neg o-a icanas
(1995-1996).
4. A pa i da segunda me ade do século XX, o silêncio, de ema ligado, em ge al, à me a ísica e às
conceções mís icas que e a, começou a susci a o in e esse ambém dos es udiosos da linguagem,
de iloso ia e dos es udos linguís icos sob e o discu so. En e os mui os nomes que se pode iam
ci a , ale a pena lemb a : Mau ice Me leau-Pon y (2010) e Ludwig Wi gens ein (2006), no que
conce ne à iloso ia; quan o aos es udos linguís icos sob e o discu so, são impo an es os con i-
bu os de Jaqueline Au hie -Re uz (1982; 1990; 2011), Ma co Villa a-Nede (2004a; 2004b; 2020)
e Eni Puccinelli O landi (2007). No que diz espei o à li e a u a, é undamen al o es udo de Bice
Mo a a Ga a elli, Silenzi d’au o e (2015).
5. Especi ica Wondji (1996, p. 10): “O pai escolhe o mais calmo de seus ilhos, o menos inclinado
à cóle a – aquele de quem se diz se como um úmulo, ou seja, acolhe as pala as, mas não as p o-
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AS MANIFESTAÇÕES DO SILÊNCIO EM MIA COUTO
Na adição o al a icana, silêncio não signi ica somen e ausência de
ba ulho, sons e ozes num dado ambien e ou numa de e minada
si uação, mas ambém, e sob e udo, pala a em ges ação (Oli ei a,
2003, p. 106), ou seja, momen o de elabo ação, o mação e ma u a-
ção da p óp ia pala a, exp essão inal de um mundo in isí el, ou,
al ez a é, da in isibilidade do mundo isí el: “P a ica-se a disci-
plina da pala a e não se u iliza imp uden emen e. Pois se se ala, é
conside ada uma ex e io ização das ib ações de o ças in e io es,
in e samen e, a o ça in e io nasce da in e io ização da ala (Ham-
pâ é Bâ, 1982, p. 190).
As mani es ações do silêncio p esen es nos omances de Mia Cou o
são in imamen e ma cadas po es as ca ac e ís icas dis in i as e ípicas6
da adição o al a icana. Cou o ap op ia-se delas a a és de um p o-
cesso a que pode íamos da o nome de “o alização da li e a u a”, que
pe mi e que o lei o desça em p o undidade no sis ema da adição o al
po meio da p óp ia esc i a, a qual pa ece ab i -se, molda -se, dob a -se
pa a se undi com a o alidade. É Mia Cou o que o diz, quando, n’O
ou o pé da se eia, a i ma que “O silêncio não é a ausência da ala, é o
dize -se udo sem nenhuma pala a” (2006, p. 7). Com e ei o, nos seus
omances, escu a , não ala , pa ilha silêncios, não dize nada, decidi
cala são o mas de comunicação ípicas de mui as das suas pe sona-
gens. Um exemplo é Sidónio Rosa, em Venenos de Deus, Remédios do
Diabo, quando a i ma que “Em Á ica ap endi a escu a e não apenas
a ala ”, ase magis almen e comple ada pelo seu in e locu o , que
ac escen a: “Escu a ambém é ala ” (Cou o, 2008, p. 172). O obje i o
é semp e o mesmo: demons a que “há mui a coisa escondida nes es
silêncios a icanos” (Cou o, 2005, p. 76) e aze com que o lei o a des-
cub a, a a és de uma ime são o al e abnegada na adição o al a icana
e, mais especi icamen e, moçambicana.
Desde semp e cono ado como uma ca ac e ís ica posi i a, em Mia
Cou o o silêncio é, como eco da a pe sonagem Mwani o, uma “mú-
sica em es ado de g a idez” (2009b, p. 13), ou seja, uma pon e sob e
a qual caminha len amen e pa a chega a é ao ou o. Que se a e de
silêncio da escu a, a en o e pacien e, de silêncio desejado, de silêncio
da eco dação, cada ipo de silêncio —“Sim, po que não há um único
nuncia. Po sua a i ude mani es a o desejo de ap ende : pe manece na companhia dos “g andes”,
mas se cala na p esença deles, demons ando que sabe se man e em seu luga ”.
6. Jean De i e, em O alidade, li e a ização e o alização da li e a u a, ala de “e ei os da o alidade”:
“Mais do que índices na u almen e dispos os no ex o, quase sem o conhecimen o dos c iado es,
as ma cas da o alidade são signos, a se iço de es a égias – conscien es ou inconscien es – que
de em se pensadas como e ei os de ex o. Não há aços de o alidade, mas e ei os de o alidade”
(2010, pp. 24-25).
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Cul u a La inoam. Volumen 34, núme o 2, julio-diciemb e 2021, pp. 226-254
silêncio” (Cou o, 2009b, pp. 13-14)— de e mina semp e um dis an-
ciamen o de si p óp io e, ao mesmo empo, uma on ade de abe u a
e de ap oximação ao ou o, que seja pessoa, paisagem ou simples
pensamen o. Quando Mia Cou o a i ma que “Á ica ensina a escu a ”
e que em Á ica “é impo an e sabe ica calado”7 (Cha es, 2012,
p. 22), que dize po an o algo que ai além do simples concei o de
“sabe escu a ”, passando uma mensagem em que é implíci o o p o-
pósi o da escu a e do silêncio como o mas de abe u a e de p edis-
posição pa a o ou o, de modo a que o ou o possa se en endido na
sua mul iplicidade e e dadei a essência. De ac o, se ala é um meio
de exp imi e de se da a conhece aos ou os, escu a é um meio pa a
acolhe os ou os em si mesmo: “o seg edo é es a disponí el pa a que
ou as lógicas nos habi em, é isi a mos e se mos isi ados po ou as
sensibilidades. […] Di ícil é se mos ou os, di ícil mesmo é se mos os
ou os” (Cou o, 2009a, p. 107).
Es a é p ecisamen e a mensagem de Uma pala a de conselhos e
um conselho sem pala as, ex o em que Mia Cou o, ao se di igi às
c ianças, ala do p ocesso da c iação li e á ia, dizendo que pa a esc e-
e uma his ó ia “o único conselho é es e: escu a ”, e ac escen a em
seguida que, em Moçambique:
exis e nas zonas u ais gen e que, sendo anal abe a, é sábia. Eu ap endo
mui o com esses homens e mulhe es que êm conhecimen os de ou a na-
u eza e que são capazes de esol e p oblemas usando uma ou a lógica
pa a a qual o meu cé eb o não oi ensinado. Es e mundo u al, dis an e
dos compêndios cien í icos, não em menos sabedo ia que o mundo u ba-
no onde i emos. Es a disponí el pa a escu a nessa linha de on ei a:
essa pode se uma g ande on e de p aze . (Cou o, 2005a, p. 48)
Nou o ex o, e i ado de E se Obama osse a icano? E ou as in e-
in enções, Mia Cou o con a uma con e sa com um elho camponês,
pa a da um exemplo de encon o com os que ele de ine como “so a-
ques do silêncio”:
Es á amos numa dessas pausas quando ele me pe gun ou:
– O senho não sabe ala nada de xi-djaua?8
– Nem uma pala a, Saide.
– Es á a e a di e ença en e nós?
7. A ase oi e i ada de uma in e enção de Mia Cou o du an e o Fó um das Le as, que deco -
eu a 15 de no emb o de 2010, na cidade de Ou o P e o, no es ado de Minas Ge ais.
8. Língua do po o Aja a que i e no No e de Moçambique.
231
AS MANIFESTAÇÕES DO SILÊNCIO EM MIA COUTO
– Es ou, sim. Nós alamos di e en e.
– Não, o senho não es á a e . A di e ença en e nós não es á no que ala-
mos. A di e ença es á em que eu sei ica calado em po uguês e o senho
não sabe ica calado em nenhuma língua. (Cou o, 2009a, p. 198)
O silêncio, ou mais p op iamen e, sabe es a em silêncio, é,
po an o, uma unidade de signi icado comum a odas as línguas, mas
a sua ap endizagem nada em a e com as línguas; es á elacionado
com o modo que cada pessoa em de es a no mundo, de in e agi
com a pala a, com o conhecimen o e com o ou o: “em uma cul u a
o al, pode não ha e ‘pala as’ como aquelas que comumen e p ocu-
amos no dicioná io. Nesse ipo de cul u a, in e alos silenciosos po-
dem cons i ui uma sílaba ou uma sen ença, mas não o nosso á omo: a
pala a” (Illich, 1995, p. 42).
1. O silêncio da escu a
Nos omances de Mia Cou o, o silêncio ganha mui as ezes a o -
ma da escu a e da espe a, a que co esponde a unção especí ica do
conselho e do ensino. Na maio pa e dos casos, a a-se de con e sas
assimé icas que se elacionam com a idade e o papel social dos in e -
locu o es, onde os p o agonis as cos umam se um idoso e um jo em,
cabendo ao mais- elho o dom da pala a, po que é ele, a p io i, a e
mais expe iência de ida, a conhece mais o mundo e a es a mais p ó-
ximo dos an epassados9. O jo em, po sua ez, escu a as pala as do
9. Nos seus es udos sob e os Diúlas do Kong, egião no des e da Cos a do Ma im, Jean De i e
chama a a enção pa a a o es que põem im ao chamado di ei o de pala a nas sociedades adi-
cionais a icanas. Embo a ci e á ios a o es – en e os quais o sexo (os homens êm mais di ei o
de ala do que as mulhe es) e a classe social (alguns indi íduos pe encen es a posições sociais es-
pecí icas, de e minadas segundo ipos de classe e papel social, êm maio di ei o de pala a) – aca-
ba po indica a idade como o a o decisi o: “O mais elho em semp e em p incípio au o idade
sob e o mais no o” (De i e, 2010, p. 32). Pa a o au o , a p e alência da maio idade como c i é io
de ini i o pa a de e mina quem ala (em p imei o luga , em úl imo luga , quem de e ecebe
as saudações, quem pode e o di ei o de não esponde ) é ambém um p incípio de equidade,
pois en e os c i é ios iden i icados, a idade é o único que a ia du an e a ida, e pe mi e a cada
memb o do g upo e , a seu empo, o p i ilégio de ala e ambém o p i ilégio de cala . Segundo
o ilóso o ganês Kwame Appiah, pa ece ha e um ou o aspe o comum às sociedades adicionais.
No seu li o, Na casa de meu pai, na a de uma ez que um dos seus con e âneos, in e pelado
po um es udan e no e-ame icano sob e a di e ença p incipal en e os ganeses e os ame icanos,
espondeu que e a a ag essi idade dos ame icanos. Appiah explica a espos a da seguin e o ma
(1997, p. 184): “Ob iamen e, o que ele ha ia no ado não o a a ag essi idade, mas simplesmen e
um es ilo de con e sação di e en e. Em Gana, mas não nos Es ados Unidos, é indelicado disco -
da , discu i ou e u a ”. Segundo Kwame Appiah, es e modo conciliado de con e sa de e-se
à o ma de o ganização social das comunidades adicionais, mas em a e ambém com a al a
de um sis ema de esc i a nas línguas locais (Appiah, 1997, p. 185): “a al abe ização em conse-
quências impo an es, den e elas o a o de pe mi i um ipo de coe ência que a cul u a o al não
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BARBARA GORI
Cul u a La inoam. Volumen 34, núme o 2, julio-diciemb e 2021, pp. 226-254
mais- elho pa a ap ende e, amiúde, pa a obedece ; a sua pa icipa-
ção no diálogo é quase semp e ca ac e izada po b e es in e enções.
É o caso da con e sa en e o adu o de Tizanga a e a sua mãe, n’O
úl imo oo do lamingo:
Eu lhe pedia explicação do nosso des ino, anco ados na pob eza.
– Veja ocê, meu ilho, já apanhou mania dos b ancos! – Inclina a a ca-
beça como se a cabeça ugisse do pensamen o e me a isa a:
– Você que en ende o mundo que é coisa que nunca se en ende.
Em om mais g a e, me ale a a:
– A ideia lhe poise como a ga ça: só com uma pe na. Que é pa a não pesa
no co ação.
– O a, mãe…
– Po que o co ação, meu ilho, o co ação em semp e ou o pensamen o.
Falas dela, mais pe o da boca que do miolo. (Cou o, 2005b, p. 46)
Ou en ão, de uma das con e sas en e o adu o -na ado e o seu
pai, o elho Sulplício:
No im, e o çou o dem com o dem:
– E não que o esse i aliano a escu a as pala as. Ou iu? Ainda não con io
cen o po cen o nesse idamãe.
– Mas pai, esse i aliano nos es á ajuda .
– A ajuda ?
– Ele e os ou os. Nos ajudam a cons ui a paz.
– Nisso se engana. Não é a paz que lhe in e essa. Eles se p eocupam é com
a o dem, o egime desse mundo.
– O a, pai…
– O p oblema deles é man e a o dem que lhes az se em pa ões. Essa
o dem é uma doença em nossa his ó ia.
[…] A apos a dos pode osos – os de o a e os de den o – e a uma só: p o-
a que só colonizados podíamos se go e nados. (Cou o, 2005b, p. 188)
O obje i o de ensina é e iden e nos dois diálogos. Nas pala as
exige nem pode exigi ”. Pa a Wal e Ong (1998, p. 52): “a esc i a […] dep ecia as igu as do
sábio ancião, epe ido do passado, em a o de descob ido es mais jo ens de algo no o”. No
a igo Da boca do ancião, Ch is ophe Wondji a a a ques ão omando como exemplo a di e ença
exis en e en e o modo de ensina segundo o sis ema escola ociden al e o modo como as c ianças
ap endem no mundo adicional (Wondji, 1996, pp. 11-12): “Há algum empo os educado es se
es o çam pa a in oduzi – a exemplo do Ociden e – no os mé odos de ‘exp essão e comunicação’
nas escolas da Cos a do Ma im. O diálogo es á na moda. ‘Façam ale seu pon o de is a!’, diz-se
aos jo ens alunos. ‘Fo mulem suas dú idas e suas c í icas.’ É e iden e que só com mui a di icul-
dade esses alunos conseguem se adap a a uma p á ica ão comple amen e opos a à sua adição
de espei o ao mes e e ao sabe ”.
233
AS MANIFESTAÇÕES DO SILÊNCIO EM MIA COUTO
dos pais idosos há a ideia de que o jo em ilho não sabe, não conhece
e, po conseguin e, não comp eende plenamen e ce os signi icados.
Do ou o lado, emos o jo em que é bem cien e des a al a de conheci-
men o10, demons ada pela sua pa icipação no diálogo, que, além de
se limi ada em e mos de pala as, é ca ac e izada po uma a i ude
que pode íamos de ini uma con es ação paca a. Com e ei o, embo a
seja e iden e que o jo em não es á o almen e de aco do com as pala-
as dos pais, não há nenhum con li o causado pelos di e en es pon os
de is a, como nos mos am os a os “mas” e os poucos “o a” que
exp imem p ecisamen e uma nuance de desaco do, mas que nunca se
desen ol e no es o da con e sa.
Também n’Um io chamado empo, uma casa chamada e a, é
possí el obse a , logo na abe u a do omance, es a posição dialógica
assimé ica de escu a po pa e do jo em Ma ianinho, eg essando à
ilha do Lua -do-Chão e, no caso em ap eço, de o dem po pa e do io
mais elho, Abs inêncio, com o seu om impe a i o que não admi e
explicações ul e io es:
– Es a a alando com essa elha?
– Sim, Tio. Fala a.
– Pois não ale. Não deixe que ela chegue pe o.
– Mas, Tio…
– Não há mas. Essa mulhe que não se chegue! Nunca. (Cou o, 2003, p. 22)
Pa a mos a que exis e uma au ên ica hie a quia na ges ão do uso
e da dis ibuição da pala a e do silêncio po pa e do memb o mais
elho, ci amos ou a passagem do omance Um io chamado empo,
uma casa chamada e a, onde quem em o p i ilégio de ala é a a ó
Dulcineusa, não só ela i amen e ao ne o Ma ianinho, mas ambém
em elação ao ilho Abs inêncio:
10. Não são poucos os exemplos em que o p óp io jo em admi e a sua igno ância ela i amen e
aos p oblemas do mundo. En e as mui as passagens que pode íamos ci a , ale a pena eco da o
caso de Kindzu, que, depois de e con ado a con e sa com o nyanga da sua aldeia (Cou o, 1995,
p. 38), a i ma: “Es as o am as alas do adi inho, pala as que nunca eu deci ei a undu a”. Ou
en ão, n’O úl imo oo do lamingo, o exemplo do adu o que, depois do esumo de uma das
con e sas idas com o pai, az um comen á io do mesmo ipo (Cou o, 2005b, p. 206): “Meu elho
puxa a assun o demasiado pa a meu pei o. Ele não pe cebia como, po ezes, eu não a ingia o
sen ido de suas pala as”. Pa a ou os ap o undamen os sob e o assun o, eja-se, em especial, o
capí ulo O jo em men i oso e o elho sábio da ob a O alidade, li e a ização e o alização da li e a u-
a de Jean De i e (2010, pp. 45-65).
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– Me diga, meu ne o, ocê, lá na cidade, oi iniciado?
Tio Abs inêncio osse, em delicada in omissão.
– É que eles lá na cidade, mamã…
– Ninguém lhe pediu alas, Abs inêncio.
Não chego a p onuncia pala a. A con e sa odopia no cí culo pequeno
dos donos da ala, em obediências e espei os. Tudo len o, pa a se escu a-
em os silenciosos p esságios. Após longa pausa, a A ó p ossegue:
– Falo udo isso, não é po causa de nada. É pa a sabe se ocê pode ou
não i ao une al.
– En endo, A ó.
– Não diga que en ende po que ocê não en ende nada. Você icou mui o
empo o a.
– Es á ce o, A ó. (Cou o, 2003, p. 31; p. 32)
Nes a passagem, Dulcineusa pode ala po cima de odos os ou-
os, po que é a mais elha, é mãe e a ó, es a u o que lhe con e e
di ei o/pode não só de in e oga o ne o sob e aquilo que conside a
se impo an e, mas ambém de cala b uscamen e o ilho Abs inêncio
—co ando-lhe a pala a— e co igi pe en o iamen e o ne o, dizen-
do-lhe cla amen e que não pe cebe nada.
Em boa e dade, o na ado Ma ianinho, além de assumi a posi-
ção de a en o escu ado de conselhos, o dens e ensinamen os da a ó
idosa, e ela-se ambém um obse ado agudo dos silêncios que p e-
cedem, enchem ou egulam as suas con e sas: ala de obediência e de
espei o em elação aos “donos da ala”, ala de “silenciosos p essá-
gios” e no a a longa pausa que p ecede a ala da a ó. Ma ianinho, po -
an o, não es á in e essado só em na a o con eúdo da con e sa com a
a ó Dulcineusa; ele que igualmen e desc e e o i mo e a dis ibuição
de pala as e de silêncios na con e sa, dis ibuição que é p ecisa e não
casual: “Não chego a p onuncia pala a. A con e sa odopia no cí -
culo pequeno dos donos da ala, em obediências e espei os. Tudo len-
o, pa a se escu a em os silenciosos p esságios” (Cou o, 2003, p. 17).
Nou o momen o da his ó ia, quando ai isi a o co ei o Cu oze o,
Ma ianinho desc e e o seu es ado de espí i o ao chega ao cemi é io,
con iando a ep esen ação isual da cena aos a ibu os que acompa-
nham o silêncio ( espei o, espe a, ausência de p essa) e às pala as
que compõem a ase. Todas as pala as indicam es ado (de e -se, sen-
a -se, mu o): “Es á agi ado [o co ei o], pa ece um ja ali a ejando o
chão. Depois, ele se de ém, sen ado sob e o mu o. Ap oximo-me, mas
não alo. Esse o modo de mos a espei o. E espe o pela sua ala, sem
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AS MANIFESTAÇÕES DO SILÊNCIO EM MIA COUTO
Kindzu exp ime a sua on ade e o seu desejo de se o na ou in e
da his ó ia de Fa ida, pedindo-lhe que não enha p essa, e ans o -
mando-se ambém, de ce a o ma, naquele cuida das eb es e dos a -
epios que oma am o co po dela: “Nesse enquan o, ui um ou ido .
De cada ez que so ia uma dessas es anhas eb es que lhe ouba am
o co po, Fa ida con a a sua es ó ia, ia a e des ia a lemb anças. Eu
escu a a a é anoi ece ” (Cou o, 1995, p. 112).
O pode cu a i o da escu a é ea i mado nou as passagens do o-
mance, al ez po que, sendo ambien ado no pe íodo da gue a ci il,
Te a sonâmbula é a ob a em que as pe sonagens mais so e am a au-
sência os ou os e da sua pala a. Tal ez seja po isso ambém que e
quem nos escu a se o na sob e udo um modo pa a o e ece e goza
de um bem ex emamen e p ecioso, em empos de solidão: uma p e-
sença que pode cu a mais e melho do que um emédio. Vemo-lo
no episódio em que Tuahi , p eso na ede do elho Siquele o jun o
com o jo em Muidinga, começa a con a ao habi an e soli á io da al-
deia como se iam os empos indou os; a sua imaginação az Sique-
le o ado mece e Muidinga sonha . Em seguida, o na ado obse a:
“Tuahi se e ela, po um ins an e, como um cu andei o amenizando
o uni e so, seu pacien e” (Cou o, 1995, p. 82). Também Fa ida exp i-
me o desejo de escu a e de ali ia a sua do , pedindo uma es ó ia à
ei a da missão onde o seu ilho Gaspa encon ou e úgio: “– I mã,
peço: me con e es ó ias! A ei a se su p eendeu. A isi an e [Fa ida]
lhe explicou: que ia sabe no ícias do mundo, ou i as co es desse
longe em que seus sonhos eima am. Pouco impo a a que ossem ou
não e dade” (Cou o, 1995, p. 97).
N’Um io chamado empo, uma casa chamada e a, é a ô Ma iano,
numa das suas ca as, a ala da ín ima elação en e escu a e pode
cu a i o:
O médico escu ou udo isso, sem me in e ompe . E a mim, essa escu a
que ele me o e eceu quase me cu ou. En ão, eu disse: já es ou a ado, só
com o empo que me cedeu, dou o . É isso que, em minha ida, me em
escasseado: me o e ece em escu a, o elhas pos as em con issões. (Cou o,
2003, p. 149)
Nes a mani es ação do silêncio, o a o de doa empo a a és da
disponibilidade a escu a o na possí el a cu a, como diz a ô Ma-
iano, que, nas suas ca as, de ac o, não az ou a coisa senão p e-
ende que Ma ianinho o escu e com ca inho, pa a que o ne o possa
cump i a “sua missão de apazigua espí i os com anjos, Deus com
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os deuses” (Cou o, 2003, p. 126). E ac escen a: “E não se ocupe
nem se p eocupe. Po que ocê, meu ne o, es á cump indo bem.
Ampa ando sua A ó, sossegando os seus ios, amolecendo medos
e an asmas” (2003, p. 198). Semp e nes e con ex o de p o eção e
a enção, a ó Dulcineusa diz a Ma ianinho: “– Mas ocê não que
se pad e? – Nunca pensei nisso, A ó. – É pena, ocê é ão bom
escu ado ” (Cou o, 2003, p. 91). Tendo em conside ação que doa
empo signi ica es a dispos o a doa ambém pa e da p óp ia ida
(Ba hes e Flahaul , 1987, p. 122), não nos su p eende que em Te a
sonâmbula, é o empo que Su end a dedica a Kindzu a e o ça o
sen imen o ecíp oco de amizade: “Enquan o ali es á amos, azen-
do o absolu o nada, eu me sen ia p omo ido. Na oca de nossos
nenhuns assun os, Su end a se esquecia de a ende os egueses. Eu
me con o a a: nunca ninguém se ha ia esquecido de nada po causa
de mim” (Cou o, 1995, p. 29).
Ao desejo de escu a e ao p aze de escu a – semp e sem p essa
–, pode íamos jun a o p aze de pa ilha os silêncios, a o que pode
se pa a aseado com o p aze de “não aze nada em conjun o”, ou,
como diz Mia Cou o, de “ aze o Nada” (Cou o, 2009c, p. 63), que é
semp e uma o ma indispensá el na p á ica da escu a. No ex o En-
con os e encan os, Mia Cou o e e e-se a es e “não aze nada” como
se se a asse de uma a i ude ilosó ica, iniciando o seu ex o com a
na ação do seguin e episódio:
ao eg essa a casa, em Mapu o, depa ei com dois jo ens sen ados no
mu o de minha casa e pe gun ei o que eles aziam ali. O p imei o espon-
deu: – Não es ou azendo nada. E o segundo ac escen ou: – Pois eu es ou
aqui a ajuda o meu amigo. Ha e alguém que ajuda um ou o a não aze
nada é do domínio da mais pu a me a ísica. Possi elmen e não se a a a
de não aze nada, mas da á dua a e a de aze o Nada. (Cou o, 2009c,
p. 63)
Es a pa ilha de silêncios apa ece ou as ezes nos omances, como
nos encon os en e Fulano Mal a e Pad e Nunes, n’Um io chamado
empo, uma casa chamada e a, onde es a em silêncio jun os se o na
um co o de silêncios:
Ce a ez, quem compa eceu nesse descampado oi Fulano Mal a [à bei a
do io Madzimi]. […]. Fulano se ap esen ou e disse que inha con e sa :
– Con essa ? – pe gun ou o pad e.
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AS MANIFESTAÇÕES DO SILÊNCIO EM MIA COUTO
Con essa , podia se , acei ou Fulano. Mas não con e sou, nem con es-
sou. Ficou calado, azendo co o com o silêncio de Nunes. Sen ados, os
dois con empla am o io como se escu assem coisas só deles. (Cou o,
2003, p. 102)
4. O silêncio no silêncio das pala as
O silêncio no silêncio das pala as al ez seja o mais complica-
do de deci a nos omances de Mia Cou o, po que é aquele silêncio
que pa a se di o e con ado não pode, em ge al, aga a -se aos sinais
g á icos que cos umam apa ece no ex o, não sendo aduzido em
pala as e não sendo p eenchido po nenhum e mo ou nenhum sin-
agma que eme a explici amen e pa a o silêncio. Ap esen a-se como
um azio o al de ex o, em que o lei o “sen e” a p esença do silên-
cio, sem, oda ia, pode explica a sua o igem ( an den Heu el, 1985,
p. 77). É a ausência de léxico do silêncio a ma ca e es abelece am-
bém g a icamen e es e silêncio, e é exa amen e es e ipo de silêncio a
ge a aquela a mos e a silenciosa ípica que apa ece amiúde nos o-
mances de Mia Cou o e que, como e emos, pode e mo i ações e
unções di e en es: pode a a -se de uma ecusa a ala , po cau ela,
esis ência e, mui as ezes, echamen o ela i amen e ao in e locu o
num de e minado momen o da ama na a i a; pode se uma escolha
na a i a delibe ada, usada pelo au o pa a desloca sapien emen e
o oco na a i o do na ado , que se põe à ma gem da es ó ia, pa a a
cena ou as pe sonagens obse adas16; ou en ão, pode se uma ep e-
sen ação do silêncio nos momen os em que o na ado se deixa le a
pelas eco dações. O que ca ac e iza cada uma des as mani es ações
do silêncio é que o na ado sai semp e disc e amen e da cena na a-
da, um ges o que, se quise mos, pode se in e p e ado ambém como
um modo pa a aze silêncio (Schuback, 1996, p. 34), de modo a que
nenhum ba ulho ou oz possa pe u ba a a mos e a silenciosa que
ca ac e iza a na ação daquela paisagem, daquela pe sonagem ou da-
quele me gulho na memó ia.
16. T a a-se mui as ezes de um duplo silêncio: silêncio do homem, po um lado, silêncio da
na u eza, po ou o. Não é po acaso que es es são ambém os dois aspe os que con luem e se
sob epõem no ocábulo, desde o seu signi icado o iginal. De ac o, na pala a silêncio encon am-
-se os emas e bais silĕ e e acē e. Os dois ipos semân icos deno am, desde as aízes g eco-la inas,
que a ausência de som (silēo), que a ausência de pala a ( ăcĕo): silĕo denomina p op iamen e o
silêncio, ăcĕo subsis e diale icamen e em elação a loqui, indicando a in e upção momen ânea da
pala a den o do espaço dialógico de uma comunidade de alan es e ou in es.
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O silêncio po cau ela, esis en e e echado cos uma se causado
pelo eceio de possí eis consequências nega i as que a p onúncia de
uma pala a pode ia implica . Tal é o que acon ece numa passagem
de Te a sonâmbula, onde cala -se é p es a a enção ao isco que ala
demasiado ou dize algo e ado podem de e mina :
– Você, en ão? Nada se ala?
O homem se ap oximou de mim, eu já es a a sem emédio: me ido na
dispu a. Mais que ia ica de o a, alheio à con e sa pe u ada, mais eu
es a a com o pescoço den o dela. Ne oso, o homem me empas ou com
seu háli o:
– Você es angei o, escu a. Nes a e a se passam mui as me das, odos
êm medo de ala . Eu sei quem es á a ma a aqui. Não são só os bandos.
Há ou os, ambém. (Cou o, 1995, p. 157)
Ainda nes e omance, ambém a elha Vi gínia, esposa do po u-
guês Romão Pin o, exp ime as suas e icências em ala com quem
que que seja o onde que que seja:
– Não posso ala aqui.
– Po quê?
– Senão es a minha casinha se enche de an asmas.
– Falamos onde, en ão?
– Vamos pa a minha an iga casa. Me aça uma coisa, en e an o: me cha-
ma de o ó. Pa a eu lhe e como uma c iança. (Cou o, 1995, p. 197)
A elha Vi gínia explica, em seguida, a Kindzu o mo i o do seu
eceio e o mo i o pelo qual se e ugia na loucu a: “Não esqueça eu
sou uma elha on a, não alo com gen e c escida. Só me eço con ian-
ça das c ianças. Como é que posso assina um papel? E dinhei o, eu
sei o que é dinhei o? Não aço nenhuma ideia. Me en ende, Kindzu?”
(Cou o, 1995, p. 206).
Em casos como es es, p e e e-se o silêncio, um silêncio semp e o-
al, po que a pala a é is a como causa possí el de desen endimen-
os, como p e ex o pa a causa amiúde con li os inú eis e discó dias
pe igosas. A escolha do silêncio é uma escolha de p udência; aquela
mesma p udência que é necessá io e odas as ezes que em Mo-
çambique se pisa a e a cheia de minas an ipessoal. Po causa des as
minas, o adu o de Tizanga a, n’O úl imo oo do lamingo, escolhe
pe manece em silêncio ace à suspei a, con i mada depois no im
do omance, de que o g upo de homens que es á a eabili a a zona
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AS MANIFESTAÇÕES DO SILÊNCIO EM MIA COUTO
minada é o mesmo que epõe as minas, com a cumplicidade da admi-
nis ação local: “mas uma oz me chamou às cau elas. Melho se ia eu
cala -me com meus bo ões” (Cou o, 2005, p. 119). Do mesmo modo,
n’Um io chamado empo, uma casa chamada e a, é a igu a do mais- e-
lho, a ô Ma iano, que inspi a silêncio em Ma ianinho, quando o ne o
é p eso com a acusação de es a en ol ido no assassínio de Juca Sabão:
O que a ia o A ô naquela ci cuns ância? E penso: é cu ioso eu p ocu a
inspi ação no mais- elho. A inal, já me ou exe cendo como um Malila-
ne. E logo a espos a me ilumina: Ma iano ha e ia de se aze de mo o.
E isso é o que decido aze . Como não espondesse i a am-me os sapa os
e o dena am que sen asse no chão. (Cou o, 2003, pp. 203-204)
Na si uação em que se encon a Ma ianinho, a decisão de ala
apenas ag a a ia as suspei as que já caíam sob e ele. À p udência,
nes e caso, associa-se ambém uma a i ude de esis ência: escolhe i-
ca em silêncio signi ica ambém impedi que as pala as di as possam
legi ima as suspei as e as acusações, dando-lhes, pelo con á io, o -
ça; nes e caso, o silêncio ap esen a-se como uma o ma de esis ência
e de ecusa a concede ao ou o a mínima possibilidade de encon a
p e ex os plausí eis (Le B e on, 1997, p. 84).
Também o adu o de Tzinga a, n’O úl imo oo do lamingo, e-
sis e. Resis e quando é con ocado pelo adminis ado local pa a se
designado adu o o icial da aldeia, e comen a: “Ou imos, calamos e
azemos de con a que, calados, obedecemos” (Cou o, 2005b, p. 17).
Nes e echo, o adu o u iliza a p imei a pessoa do plu al, incluin-
do-se, assim, num g upo mais amplo, que é o dos que ingem obede-
ce , mas na ealidade esis em, op ando pelo silêncio. Na e dade,
ambém a sua a i idade de adu o exp ime bem a sua a i ude de
esis ência, pois, con a iamen e ao que o adminis ado espe a, o a-
du o não abalha pa a os in e esses da adminis ação, segundo um
p incípio de obediência cega:
– Quando mandei que osse meu adu o ocê não en endeu – disse Es-
ê ão Jonas assim que me sen ei.
– Desculpe, não pe cebo.
– Es á a e ? Con inua sem en ende . Você não en ende o que eu que o
de si.
– E é o quê, Excelência?
– Vigia esse cab ão desse b anco. Esse i aliano que anda po aí a chei a
nos ecan os alheios. (Cou o, 2005b, p. 120)
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Ou o episódio de esis ência, nes e caso de “pos u a”, é aque-
le em que o in es igado es angei o Massimo Risi p e ende ou i o
es emunho de Sulplício ace ca das explosões, mas o elho se ecusa,
echando-se num silêncio ensu decedo :
Olhou os céus, desdenhoso. Com a mesma supe io idade nos soslaiou.
Depois, ol ou a sen a -se e eg essou à sua indi e ença. Pa ado, sob a
chu a. Ficámos ali, calados, agua dando uma mudança em sua disponibi-
lidade. Eu olha a a eimosia do meu pai e me pa ecia e nele uma aça in-
ei a sen ando o seu empo con a o empo dos ou os. Pela p imei a ez
sen i o gulho nele. To ci a é pa a que não alasse. (Cou o, 200b5, p. 134)
Nes a ci ação, o signi icado do silêncio é ampli icado pelo olha
admi ado e o gulhoso do na ado ela i amen e à ecusa a ala do
pai, associando mais uma ez es a a i ude a uma posição não indi i-
dual, mas cole i a: quem impõe o i mo e o empo daquela con e sa
apa en emen e inexis en e não é só o pai, mas são odos os habi an es
de Tizanga a (“ oda uma aça”). Passado algum empo, em que na a-
do e es angei o espe am, Sulplício a i ma:
– O io pa ou?
O i aliano me olhou, a elampejado. Eu sabia que não e a pa a se es-
ponde . Ele, a inal, não ala a o que dizia. Re e ia ou o assun o. Cada
coisa em di ei o a se uma pala a. Cada pala a em o de e de não se
nenhuma coisa. Seu assun o e a o empo. Como o io: pa ado é que o
empo c esce.
– O io pa ou? Heim?
– Não, pai.
– Ainda não? Pois quando pa a eu alo com esse es angei o.
Desis imos. (Cou o, 2005b, p. 135)
Depois Sulplício explica o mo i o do seu silêncio eimoso: “Ao
menos, me es asse essa possibilidade de ecusa: não ala quando os
ou os pediam” (Cou o, 2005b, p. 138).
Como se disse, o silêncio no silêncio das pala as pode ganha
ambém a o ma de uma écnica na a i a a gu a usada po Mia Cou-
o pa a ocaliza o obje i o numa de e minada cena ou pe sonagem,
deslocando o in e esse do lei o pa a algo de di e en e do na ado , o
qual, de ce a o ma, pa ece sai de cena. Es a écnica pe mi e que o
lei o obse e e escu e com mais a enção, p ecisamen e em silêncio, o
que é na ado, ap oximando-se, assim, às pe sonagens, conseguindo
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AS MANIFESTAÇÕES DO SILÊNCIO EM MIA COUTO
acompanhá-las nos seus ges os e mo imen os. O que ges o e o mo i-
men o dizem e con am é, mais uma ez, um modo pa a in ensi ica a
p esença do ou o na na ação, con ando-o ambém como co po17,
mais do que uma me a desc ição.
En e os mui íssimos exemplos que podemos ci a , eco de-se,
n’Um io chamado empo, uma casa chamada e a, a cena em que Ma-
ianinho olha pa a o co ei o: “Cu oze o Muando não me ê chega .
Encos o-me ao onco da ma u ei a enquan o o obse o. O co ei-
o es á sen ado jun o a uma oguei a, pe nas abe as quase a oça
as chamas” (Cou o, 2003, p. 157); em Te a sonâmbula, a cena em
que Kindzu se encon a na loja de Su end a: “Pe dia ho as no es a-
belecimen o, sen ado en e me cado ias enquan o as comp idas mãos
de Su end a co iam le es pelos panos” (Cou o, 1995, p. 28); ou en-
ão, quando consul a o adi inho da sua aldeia: “O adi inho alisa a
as pe nas joelhudas, pa ecia i a delas a o ça de adi inha ”. Uma
ges ualidade que en iquece e comple a o conhecimen o que o lei o ,
em pa e, já possui de cada pe sonagem, ealçando-a em oda a sua
especi icidade e minuciosidade de co po e p esença em mo imen o
(Cou o, 1995, p. 37).
N’O úl imo oo do lamingo, é modo de anda de Massimo Risi
a o na -se, po um b e e momen o, o cen o da cena desc i a: “Eu
seguia a ás, espei osamen e. No enquan o, obse a a o es angei o:
como a alma dele se ia pelas suas asei as! Os eu opeus, quando ca-
minham, pa ecem pedi licença ao mundo. Pisam o chão com delica-
deza mas, es anhamen e, p oduzem mui o ba ulho” (Cou o, 2005b,
p. 35). Mais adian e, o adu o obse a de no o o modo de anda
do i aliano: “Segui-o e no ei que o seu modo de caminha já e a mais
ligei o, ele já se mexia como se o co po osse dele” (Cou o, 2005b, p.
105). O modo de anda diz mui o do seu modo de se —um homem
delicado, po en u a um pouco desajei ado, le e— e ambém sob e
a sua pessoa que é, como se pode e pelo comen á io de Ana Deus-
quei a a Massimo Risi: “Sabe po que gos ei de si? Foi quando lhe i
a a essa a es ada, o modo como anda a. Um homem se pode medi
pelo jei o como anda. Você caminha a, imiudinho, az con a um me-
nino que semp e se di ige pa a a lição. Foi isso que ap eciei” (Cou o,
200b5, p. 179). N’Um io chamado empo, uma casa chamada e a,
17. Te ezinha Tabo da Mo ei a, no li o O ão da oz, diz-nos o que en ende po na ado pe o -
ma i o, que endo pô em e idência com es a de inição, “o a o da pe o mance o al do con ado
de his ó ia moçambicano so e um p ocesso de me amo ose que lhe pe mi e inse i -se no ex o
esc i o ei o co po cul u al, insc e endo na esc i a as p á icas da o alidade p imo dial da cul u a
o al” (2005, p. 24).
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Mise inha é quem põe em elação o modo de anda com o modo de
se da pessoa que anda: “– Não ês que só o pé esque do é que pisa
com on ade? Aquilo é peso do co ação. Explica-me que sabe le a
ida de um homem pelo modo como ele pisa no chão. Tudo es á es-
c i o em seus passos, os caminhos po onde ele andou” (Cou o, 2003,
p. 20). No inal do omance, Mise inha diz a Ma ianinho: “– Você
es á com o passo mais le e – comen a – Isso é um caminha de anjo”
(Cou o, 2003, p. 244).
Usando es a posição p i ilegiada, es a pe spe i a “mais pos a que
expos a”18, e omando e modi icando le emen e uma ase de Mia
Cou o (2005b, p. 15), os na ado es obse am o mundo e os ou os,
semp e em silêncio absolu o. Tal é o que acon ece com Kindzu, em
Te a sonâmbula, que obse a a elha Vi gínia, en ando en ende
quem é ela, olhando-a de longe:
Decidi esp ei a a elha Vi gínia, conhece aquela que o a a segunda
mãe de Fa ida. […] Cheguei e iz espe a, semiocul o […] Fiquei ali ho as
pe didas, esp ei ando a uma dis ância, en e os e des-escu os das ma u-
ei as. O que i ali me encheu de an asia, es ó ias de ea e es e mundo
onde não cabemos. (Cou o, 1995, pp. 191-192)
Do mesmo modo, n’Um io chamado empo, uma casa chamada
e a, Ma ianinho acaba po esp ei a , sem o que e , a ó Dulcineusa:
Esp ei o en e a penumb a, ao jei o dos ga os que esg a a am somb as
no meio da noi e. É en ão que ejo A ó Dulcineusa, oda esguei ada,
a ançando u i a pelo aposen o. Usa es es an igas, ce imoniosas endas
a oça o chão. E ela se exibe an e o mo ibundo, mãos nas ancas. De e-
pen e começa a dança , seu co po go do em con abalanço com as saias.
(Cou o, 2003, p. 127)
Enquan o con a os ges os, as oupas, os mo imen os da a ó, Ma-
ianinho ala ambém do seu sen imen o de culpa e de p o undo
emba aço, po e obse ado a a ó, sem a sua pe missão, e po e
in adido a sua in imidade, mais uma ez sem au o ização —“Sin o
culpa em es a ali, esp ei ado de alheias in imidades” (Cou o, 2003,
p. 127). N’O úl imo oo do lamingo, é o adu o que acompanha o
sonho, de olhos abe os, de Massimo Risi com Tempo ina:
18. T a a-se da pa e inicial do omance O úl imo oo do lamingo: “Uma oda de gen e se en-
go dou em edo da coisa. Também eu me cheguei, pa ado nas ilei as mais asei as, mais pos o
que expos o. A isado es ou: a ás é onde melho se ê e menos se é is o (Cou o, 2005b, p. 15).
249
AS MANIFESTAÇÕES DO SILÊNCIO EM MIA COUTO
De longe ainda i como Tempo ina se sen a a no colo do i aliano e como
seus co pos se enlea am. De súbi o, o os o dela se colocou em luz e eu
me espan ei: em lag an e de amo Tempo ina ju enescia. […]. E ecuei
meus olhos, ecolhi meu enleio. […]. Ago a, po ce o, ele não ca ecia de
adu o . (Cou o, 2005b, p. 68)
Bas a o seu olha a en o, suspenso nes a a mos e a ca egada de
silêncios, pa a se inse i e inse i o lei o na cena. Mais uma ez, n’Um
io chamado empo, uma casa chamada e a, é o na ado Ma ianinho
quem pa icipa no sonho de olhos abe os do io Abs inêncio, e am-
bém nes e caso é um olha ápido, apesa de se in enso, que p o oca
a saída de cena do na ado :
Abs inêncio es á dançando, a i elando a pa cei a num ab aço i me.
Dança com quem? Me empino sob e os pés pa a desco ina quem em-
pa elha com meu io. É quando enxe go: não há ninguém senão ele. Abs-
inêncio dança com um es ido […] Re i o-me pé an e pé pa a não ouba
sonho. Mas Abs inêncio ê-me pela janela e sai à po a. Chama-me.
– Meu sob inho, es ou eliz. É que Dona Conceição es á aqui comigo,
mudou-se pa a Lua -do-Chão.
– Já i, já i! (Cou o, 2003, p. 248)
Ou o exemplo des a disc e a saída de cena do na ado encon a-
-se semp e n’Um io chamado empo, uma casa chamada e a, mais es-
peci icamen e no episódio em que Ma ianinho e a ó Dulcineusa eem
o álbum o og á ico de amília, comen ando imagens que, de ac o,
não exis em. Depois de e em olheado o álbum, a a ô pede pa a i-
ca sozinha. E o na ado esponde: “Vou saindo, com espei osos
aga es” (Cou o, 2003, p. 50). Con a o modo como o na ado sai do
qua o, acili a a a i ude de in ospeção da a ó, que deseja ica sozi-
nha, e, ao mesmo empo, ca ac e iza o na ado como pessoa gen il e
sensí el, como quem é capaz de comp eende e espei a a on ade do
ou o, como quem sabe escu a pa a lá das pala as.
Po im, ou a mani es ação impo an e do silêncio no silêncio das
pala as é a que se encon a ligada à eco dação e à memó ia. Am-
bas a o ecem o silêncio, po que ampli icam a a i ude de in ospeção,
pe mi indo que a pe sonagem quede, po um momen o, na solidão
da sua memó ia. São momen os de suspensão do empo na a i o, em
que o au o ab e uma po a à pe sonagem, pa a que es a enha a pos-
sibilidade de olha pa a den o de si, e, quem sabe, possa encon a o
seu luga no mundo e e um pouco de paz (Le B e on, 1997, p. 146).
250
BARBARA GORI
Cul u a La inoam. Volumen 34, núme o 2, julio-diciemb e 2021, pp. 226-254
Nos omances de Mia Cou o, é mui o equen e encon a pe -
sonagens sen adas à somb a de uma á o e, ou à ma gem de um io,
abandonadas às suas eco dações: “Ago a, sob a g ande somb a do
ama indo, eu echei os olhos e con oquei saudades” (Cou o, 2005b,
p. 161); “Na bo da da água nada assinala o local do en e o. Sen ei-me
ali, no calado da a de. E elemb o minha mãe, Dona Ma ia ilhosa”
(Cou o, 2003, pp. 230-231).
Es ando num empo di e en e da na ação, a memó ia acaba, mui-
as ezes, po coincidi com o empo da in ância, ou seja, com aquele
empo em que ainda não se inham e i icado mui os dos acon eci-
men os deses abilizado es na ados nos omances. É o que acon ece
em Te a sonâmbula, an es de começa a gue a ci il na aldeia de Kin-
dzu; n’O úl imo oo do lamingo, an es da pa ida do elho Sulplício,
pai do na ado ; n’Um io chamado empo, uma casa chamada e a,
an es da ida de Ma ianinho pa a a cidade. Não é po acaso que a
memó ia desse empo de in ância es eja cheia de nos algia e delimi e
o que ha ia e o que deixou de ha e na ida des es jo ens moçambica-
nos, na ado es de es ó ias, como a i ma Kindzu: “Me inha on ade
de eg essa , o na a alimen a o meu alecido elho, me simpli ica
no nada acon ece da aldeia. Sen ia saudade das a des com Su end a.
Lá, em minha aldeia, no semp e igual dos dias, o empo nem exis ia”
(Cou o; 1995, p. 53); ou en ão, como diz o adu o n’O úl imo oo do
lamingo: “Apesa da noc u na is eza de minha mãe, eu i ia com o
sossego de peixe em água pa ada. Naquele empo, não ha ia an iga-
men e. Tudo pa a mim e a ecen e, em ia de nasce ” (Cou o, 2005b,
p. 47), po que, a bem e : “A in ância não é um empo, não é uma
idade, uma colecção de memó ias. A in ância é quando ainda não é
demasiado a de. É quando es amos disponí eis pa a nos su p een-
de mos, pa a nos deixa mos encan a ” (Cou o, 2009a, p. 110).
Face ao passa do empo e sob o peso do so imen o, exis e amiú-
de o desejo de eg essa , de ol a àquele “nada acon ece na aldeia”,
como diz Kindzu, e de euni o p óp io se nes a suspensão. Em Te a
sonâmbula, es e dilema en e desejo de encon a um luga anquilo
e a necessidade de con inua o caminho é ainda mais e iden e ela i-
amen e aos ou os omances: “Fiquei na somb a, emoendo um de-
sejo: já não e a a lu a, os napa amas que me da am alma. Eu que ia
simplesmen e adoece , ansia a uma doença que me apagasse oda a
paisagem po den o. Que ia ecebe essa doçu a que a doença sem-
p e em” (Cou o, 1995, p. 218).
A possibilidade que pa ece exis i , em cada omance, de ec ia (a
pa i des as iagens na memó ia) um no o espaço empo al signi ica