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As manifestações do silêncio em Mia Couto

Abstract

Silence is a topic with a great power of attraction, especially in the Western society of the 21st cen-tury, where it is always more important to “have to speak at any cost”, “have to say everything” and “have to speak always”, as if they were an explicit way demonstrating a possible equation: to speak = to be valid. Traditional African society travels in the opposite direction. Sticking to the principles of oral tradition, traditional African society, on the contrary, uses the word cautiously in an inverse scale of values, without, however, wasting it. Who speaks less is worth more because it is with an attentive, care and never excessive use of the word that it is possible to establish the place of the sacred, of the art, of the memory, of the affections, of the justice. It is also making full use of the art of silence that it is imaginable to practice the wisdom and open the doors to the great mysteries of life and of the other. The possibility that silence has to be form and object of communication brings it closer to verbal languages, but with the singularity of not sharing their prerogative of “talking about themselves” in explicit and autonomous ways, in relation to a context. In the practice of silence, form and object are one. It is not thinkable to explain, it is not conceivable to narrate and it is not possible to describe the silence with the silence itself. Silence exists, a meaning is given to it, or, more properly, innumerable meanings, depending on the circumstances of the dialogue. However, to evoke, narrate, describe their meanings and their perceptible manifestations, it is necessary to use the clarity of other types of linguistic expression. In this article, are examined some works by the Mozambican writer Mia Couto. The analysis of these works concerns the types of silence important for the weight they have in the unfolding of narrative plots and in the intertwining of discourses. They manifest themselves mainly in four ways, all linked to the African oral tradition: the silence of listening, the silence of pauses and reticence, the desire for silence and the pleasure of listening, the silence in the silence of words.

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As manifestações do silêncio em Mia Couto

Author: Gori, Barbara
Year: 2021
DOI: http://dx.doi.org/10.14718/CulturaLati-noam.2021.34.2.10
Source: http://elea.unisa.it/xmlui/bitstream/10556/6331/5/Gori%2c%20B.%20Cultura%20La-tinoamericana%2c%202021.pdf
Resumo
O silêncio é um ema com um g ande pode de a ação, sob e udo numa sociedade (como a socie-
dade ociden al do século XXI), onde é semp e mais impo an e “ e de ala a qualque p eço”, “ e
de dize udo” e “ e de ala semp e”, quase como se ossem o mas explíci as de demons ação de
uma equação possí el: ala = ale . A sociedade adicional a icana iaja em sen ido opos o. Ao
aga a -se aos p incípios da adição o al, a sociedade adicional a icana, pelo con á io, usa cau e-
losamen e a pala a numa escala de alo es in e sa, sem, oda ia, a despe diça : ale mais quem ala
menos, po que é com o uso a en o, cuidado e nunca excessi o da pala a que se es abelece o luga
do sag ado, da a e, da memó ia, dos a e os, da jus iça; é ambém azendo ecu so de o ma plena
à a e do silêncio que se p a ica a sabedo ia e se ab em as po as aos g andes mis é ios da ida e do
ou o. A possibilidade que o silêncio em de se o ma e obje o de comunicação, ap oxima-o das lín-
guas e bais, mas com a singula idade de não pa ilha a p e oga i a que aquelas êm de “ ala de
si” em o mas explíci as e au ónomas, ela i amen e a um con ex o. Na p á ica do silêncio, a o ma
e o obje o são uma coisa só. Não se explica, não se na a e não se desc e e o silêncio com o p óp io
silêncio. Faz-se silêncio, dá-se-lhe um sen ido, ou, mais p op iamen e, inúme os sen idos, segundo
as ci cuns âncias do diálogo. Toda ia, pa a e oca , na a , desc e e os seus signi icados e as suas
mani es ações pe ce í eis, é p eciso usa a cla eza de ou os ipos de exp essão linguís ica. Nes e
a igo, examinam-se algumas ob as do esc i o moçambicano Mia Cou o. A análise que o e ecemos
dessas ob as diz espei o aos á ios ipos de silêncio que se impõem pelo peso que êm no desen ola
das amas na a i as e no en elaçamen o dos discu sos, que se mani es am p incipalmen e de qua-
o manei as, odas ligadas à adição o al a icana: o silêncio da escu a, o silêncio das pausas e das
e icências, o desejo de silêncio e o p aze de escu a, o silêncio no silêncio das pala as.
Pala as-cha e
Mia Cou o; silêncio; adição o al a icana.
Abs ac
Silence is a opic wi h a g ea powe o a ac ion, especially in he Wes e n socie y o he 21s cen-
u y, whe e i is always mo e impo an o “ha e o speak a any cos ”, “ha e o say e e y hing” and
“ha e o speak always”, as i hey we e an explici way demons a ing a possible equa ion: o speak
= o be alid. T adi ional A ican socie y a els in he opposi e di ec ion. S icking o he p inciples
o o al adi ion, adi ional A ican socie y, on he con a y, uses he wo d cau iously in an in e se
scale o alues, wi hou , howe e , was ing i . Who speaks less is wo h mo e because i is wi h an
a en i e, ca e and ne e excessi e use o he wo d ha i is possible o es ablish he place o he
sac ed, o he a , o he memo y, o he a ec ions, o he jus ice. I is also making ull use o he a
o silence ha i is imaginable o p ac ice he wisdom and open he doo s o he g ea mys e ies o
li e and o he o he . The possibili y ha silence has o be o m and objec o communica ion b ings
i close o e bal languages, bu wi h he singula i y o no sha ing hei p e oga i e o “ alking
abou hemsel es” in explici and au onomous ways, in ela ion o a con ex . In he p ac ice o
silence, o m and objec a e one. I is no hinkable o explain, i is no concei able o na a e and i
is no possible o desc ibe he silence wi h he silence i sel . Silence exis s, a meaning is gi en o i , o ,
mo e p ope ly, innume able meanings, depending on he ci cums ances o he dialogue. Howe e ,
o e oke, na a e, desc ibe hei meanings and hei pe cep ible mani es a ions, i is necessa y o use
he cla i y o o he ypes o linguis ic exp ession. In his a icle, a e examined some wo ks by he
Mozambican w i e Mia Cou o. The analysis o hese wo ks conce ns he ypes o silence impo an
o he weigh hey ha e in he un olding o na a i e plo s and in he in e wining o discou ses.
They mani es hemsel es mainly in ou ways, all linked o he A ican o al adi ion: he silence o
lis ening, he silence o pauses and e icence, he desi e o silence and he pleasu e o lis ening, he
silence in he silence o wo ds.
Keywo ds
Mia Cou o; silence; A ican o al adi ion.
MANIFESTATIONS OF SILENCE IN MIA COUTO
Re e encia: Go i, B. (2021). As mani es ações do silêncio em Mia Cou o. Cul u a La-
inoame icana, 34(2), pp. 226-254. DOI: h p://dx.doi.o g/10.14718/Cul u aLa i-
noam.2021.34.2.10
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AS MANIFESTAÇÕES DO SILÊNCIO
EM MIA COUTO
Ba ba a Go i *
Uni e si à degli S udi di Pado a
DOI: h p://dx.doi.o g/10.14718/Cul u aLa inoam.2021.34.2.10
Uns nasce am pa a can a , ou os pa a dança , ou os nasce am
simplesmen e pa a se em ou os. Eu nasci pa a es a calado. Min-
ha única ocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: enho
inclinação pa a não ala , um alen o pa a apu a silêncios. Esc e o
bem, silêncios, no plu al. Sim, po que não há um único silêncio. E
odo o silêncio é música em es ado de g a idez. Quando me iam,
pa ado e eca ado, no meu in isí el ecan o, eu não es a a pas-
mado. Es a a desempenhado, de alma e co po ocupados: ecia os
delicados ios com que se ab ica a quie ude. Eu e a um a inado
de silêncios.
(Cou o, 2009b, pp. 13-14)
In odução
“A adição o al a icana é a g ande escola da ida, e dela ecupe-
a e elaciona odos os aspec os”1. É assim que o in elec ual maliano
Hampâ é Bâ (1982, p. 183), jun o com ou os es udiosos, e le e so-
b e os concei os de o alidade e de adição o al no mundo a icano,
1. Nou o echo, Hampâ é Bâ de ine a adição o al como “conhecimen o o al”: “Se o mulás-
semos a seguin e pe gun a a um e dadei o adicionalis a a icano: ‘O que é adição o al?’, po
ce o ele se sen i ia mui o emba açado. Tal ez espondesse simplesmen e, após longo silêncio: ‘É
o conhecimen o o al’” (2003, p. 182).
* P o esso a Associada de Li e a u a Po uguesa e B asilei a no Dipa imen o di S udi Linguis ici
e Le e a i (DiSLL) da Uni e sidade de Pádua (I ália). É adu o a de ob as em poesia e em p osa,
en e as quais os sone os de An e o de Quen al, oda a ob a em p osa de Má io de Sá-Ca nei o
e a poesia de Ângelo de Lima. Tem a suo ca go ensaios e li os sob e li e a u a po uguesa, em
pa icula sob e as duas Ge ações da Mode nidade po uguesa, a de 70 e a de O pheu, que ep e-
sen am os seus p incipais âmbi os de in e esse, e sob e li e a u a a icana em língua po uguesa.
E-mail: [email p o ec ed]
Es e a igo az pa e de um p oje o da Uni e si à degli S udi Pado a.
Fecha de ecepción: 30 de agos o de 2021; echa de acep ación: 27 de sep iemb e de 2021.
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BARBARA GORI
Cul u a La inoam. Volumen 34, núme o 2, julio-diciemb e 2021, pp. 226-254
chamando a a enção pa a o ac o de ambos não e em a e exclusi a-
men e com o p edomínio da exp essão e bal2 na comunicação, po
se a a de um au ên ico sis ema de pensamen o que em ambém a
ca ac e ís ica de se basea num diálogo p o undo en e os di e en es
âmbi os da ida cole i a, ganhando os con o nos de um a qui o li e á-
io, his ó ico e cien í ico inesgo á el e de ines imá el alo . De modo
que, con a uma his ó ia não se aduz simplesmen e na on ade de
en e e ou di e i o in e locu o , mas num a o pe o ma i o mui o
mais complexo, inculado à necessidade de ansmi i ou as coisas:
sabe es de ipo p á ico, alo es mo ais, pe pe uação da p óp ia his-
ó ia. Um concei o-cha e an o simples quan o impo an e3, em que,
jun o da pala a calib ada, a capacidade de cul i a o silêncio4 ganha
g ande ele ância, não só como índice de sabedo ia, em ge al, mas
ambém como p á ica necessá ia pa a sabe ala ou agi com sabedo-
ia, em pa icula , usando a pala a ce a no momen o ce o, azendo
as pe gun as necessá ias quando necessá io, sabendo que não é im-
po an e só quando se ala —ou se cala— como ambém quem ala e
pa a quem ala.
Ao disse a sob e os signi icados que a pala a em en e as po-
pulações ban as, Alexand e on Saenge (2006) chama a a enção p e-
cisamen e pa a o ac o de nas sociedades adicionais a icanas, em
ge al, se em os idosos os que alam pouco —bem como os que comem
pouco e azem pouco sexo—, sob e udo quando p ocu am espos-
as. Eles cos umam se conside ados mais sábios, po que adqui i am
a capacidade de escu a —e escu a signi ica es a em silêncio— pa a
deci a o que o mundo em pa a comunica , e decidi depois o que
é p eciso dize e o que é p eciso não dize (Wondji, 1996, p. 10)5.
2. Re i o-me, em pa icula , aos es udos de Amadou Hampâ é Bâ, A adição i a (1982); Paul
Zum ho , In odução à poesia o al (2010); Wal e Ong, O alidade e cul u a esc i a (1998); Jean
De i e, O alidade, li e a ização e o alização da li e a u a (2010), Jack Goody, Domes icação do
pensamen o sel agem (1988).
3. T a a-se de um concei o que encon amos nas maio es ob as dedicadas ao es udo das adi-
ções o ais, en e as quais se des acam as ob as de Ch is ophe Wondji, Da boca do ancião (1996);
Alexand e on Saenge , A Pala a na sabedo ia ban o (2006); Ri h Finnegan, O signi icado da
li e a u a em cul u as o ais (2006); Fábio Lei e, Valo es ci iliza ó ios em sociedades neg o-a icanas
(1995-1996).
4. A pa i da segunda me ade do século XX, o silêncio, de ema ligado, em ge al, à me a ísica e às
conceções mís icas que e a, começou a susci a o in e esse ambém dos es udiosos da linguagem,
de iloso ia e dos es udos linguís icos sob e o discu so. En e os mui os nomes que se pode iam
ci a , ale a pena lemb a : Mau ice Me leau-Pon y (2010) e Ludwig Wi gens ein (2006), no que
conce ne à iloso ia; quan o aos es udos linguís icos sob e o discu so, são impo an es os con i-
bu os de Jaqueline Au hie -Re uz (1982; 1990; 2011), Ma co Villa a-Nede (2004a; 2004b; 2020)
e Eni Puccinelli O landi (2007). No que diz espei o à li e a u a, é undamen al o es udo de Bice
Mo a a Ga a elli, Silenzi d’au o e (2015).
5. Especi ica Wondji (1996, p. 10): “O pai escolhe o mais calmo de seus ilhos, o menos inclinado
à cóle a – aquele de quem se diz se como um úmulo, ou seja, acolhe as pala as, mas não as p o-
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AS MANIFESTAÇÕES DO SILÊNCIO EM MIA COUTO
Na adição o al a icana, silêncio não signi ica somen e ausência de
ba ulho, sons e ozes num dado ambien e ou numa de e minada
si uação, mas ambém, e sob e udo, pala a em ges ação (Oli ei a,
2003, p. 106), ou seja, momen o de elabo ação, o mação e ma u a-
ção da p óp ia pala a, exp essão inal de um mundo in isí el, ou,
al ez a é, da in isibilidade do mundo isí el: “P a ica-se a disci-
plina da pala a e não se u iliza imp uden emen e. Pois se se ala, é
conside ada uma ex e io ização das ib ações de o ças in e io es,
in e samen e, a o ça in e io nasce da in e io ização da ala (Ham-
pâ é Bâ, 1982, p. 190).
As mani es ações do silêncio p esen es nos omances de Mia Cou o
são in imamen e ma cadas po es as ca ac e ís icas dis in i as e ípicas6
da adição o al a icana. Cou o ap op ia-se delas a a és de um p o-
cesso a que pode íamos da o nome de “o alização da li e a u a”, que
pe mi e que o lei o desça em p o undidade no sis ema da adição o al
po meio da p óp ia esc i a, a qual pa ece ab i -se, molda -se, dob a -se
pa a se undi com a o alidade. É Mia Cou o que o diz, quando, n’O
ou o pé da se eia, a i ma que “O silêncio não é a ausência da ala, é o
dize -se udo sem nenhuma pala a” (2006, p. 7). Com e ei o, nos seus
omances, escu a , não ala , pa ilha silêncios, não dize nada, decidi
cala são o mas de comunicação ípicas de mui as das suas pe sona-
gens. Um exemplo é Sidónio Rosa, em Venenos de Deus, Remédios do
Diabo, quando a i ma que “Em Á ica ap endi a escu a e não apenas
a ala ”, ase magis almen e comple ada pelo seu in e locu o , que
ac escen a: “Escu a ambém é ala ” (Cou o, 2008, p. 172). O obje i o
é semp e o mesmo: demons a que “há mui a coisa escondida nes es
silêncios a icanos” (Cou o, 2005, p. 76) e aze com que o lei o a des-
cub a, a a és de uma ime são o al e abnegada na adição o al a icana
e, mais especi icamen e, moçambicana.
Desde semp e cono ado como uma ca ac e ís ica posi i a, em Mia
Cou o o silêncio é, como eco da a pe sonagem Mwani o, uma “mú-
sica em es ado de g a idez” (2009b, p. 13), ou seja, uma pon e sob e
a qual caminha len amen e pa a chega a é ao ou o. Que se a e de
silêncio da escu a, a en o e pacien e, de silêncio desejado, de silêncio
da eco dação, cada ipo de silêncio —“Sim, po que não há um único
nuncia. Po sua a i ude mani es a o desejo de ap ende : pe manece na companhia dos “g andes”,
mas se cala na p esença deles, demons ando que sabe se man e em seu luga ”.
6. Jean De i e, em O alidade, li e a ização e o alização da li e a u a, ala de “e ei os da o alidade”:
“Mais do que índices na u almen e dispos os no ex o, quase sem o conhecimen o dos c iado es,
as ma cas da o alidade são signos, a se iço de es a égias – conscien es ou inconscien es – que
de em se pensadas como e ei os de ex o. Não há aços de o alidade, mas e ei os de o alidade”
(2010, pp. 24-25).
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BARBARA GORI
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silêncio” (Cou o, 2009b, pp. 13-14)— de e mina semp e um dis an-
ciamen o de si p óp io e, ao mesmo empo, uma on ade de abe u a
e de ap oximação ao ou o, que seja pessoa, paisagem ou simples
pensamen o. Quando Mia Cou o a i ma que “Á ica ensina a escu a ”
e que em Á ica “é impo an e sabe ica calado”7 (Cha es, 2012,
p. 22), que dize po an o algo que ai além do simples concei o de
“sabe escu a ”, passando uma mensagem em que é implíci o o p o-
pósi o da escu a e do silêncio como o mas de abe u a e de p edis-
posição pa a o ou o, de modo a que o ou o possa se en endido na
sua mul iplicidade e e dadei a essência. De ac o, se ala é um meio
de exp imi e de se da a conhece aos ou os, escu a é um meio pa a
acolhe os ou os em si mesmo: “o seg edo é es a disponí el pa a que
ou as lógicas nos habi em, é isi a mos e se mos isi ados po ou as
sensibilidades. […] Di ícil é se mos ou os, di ícil mesmo é se mos os
ou os” (Cou o, 2009a, p. 107).
Es a é p ecisamen e a mensagem de Uma pala a de conselhos e
um conselho sem pala as, ex o em que Mia Cou o, ao se di igi às
c ianças, ala do p ocesso da c iação li e á ia, dizendo que pa a esc e-
e uma his ó ia “o único conselho é es e: escu a ”, e ac escen a em
seguida que, em Moçambique:
exis e nas zonas u ais gen e que, sendo anal abe a, é sábia. Eu ap endo
mui o com esses homens e mulhe es que êm conhecimen os de ou a na-
u eza e que são capazes de esol e p oblemas usando uma ou a lógica
pa a a qual o meu cé eb o não oi ensinado. Es e mundo u al, dis an e
dos compêndios cien í icos, não em menos sabedo ia que o mundo u ba-
no onde i emos. Es a disponí el pa a escu a nessa linha de on ei a:
essa pode se uma g ande on e de p aze . (Cou o, 2005a, p. 48)
Nou o ex o, e i ado de E se Obama osse a icano? E ou as in e-
in enções, Mia Cou o con a uma con e sa com um elho camponês,
pa a da um exemplo de encon o com os que ele de ine como “so a-
ques do silêncio”:
Es á amos numa dessas pausas quando ele me pe gun ou:
– O senho não sabe ala nada de xi-djaua?8
– Nem uma pala a, Saide.
– Es á a e a di e ença en e nós?
7. A ase oi e i ada de uma in e enção de Mia Cou o du an e o Fó um das Le as, que deco -
eu a 15 de no emb o de 2010, na cidade de Ou o P e o, no es ado de Minas Ge ais.
8. Língua do po o Aja a que i e no No e de Moçambique.

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AS MANIFESTAÇÕES DO SILÊNCIO EM MIA COUTO
– Es ou, sim. Nós alamos di e en e.
– Não, o senho não es á a e . A di e ença en e nós não es á no que ala-
mos. A di e ença es á em que eu sei ica calado em po uguês e o senho
não sabe ica calado em nenhuma língua. (Cou o, 2009a, p. 198)
O silêncio, ou mais p op iamen e, sabe es a em silêncio, é,
po an o, uma unidade de signi icado comum a odas as línguas, mas
a sua ap endizagem nada em a e com as línguas; es á elacionado
com o modo que cada pessoa em de es a no mundo, de in e agi
com a pala a, com o conhecimen o e com o ou o: “em uma cul u a
o al, pode não ha e ‘pala as’ como aquelas que comumen e p ocu-
amos no dicioná io. Nesse ipo de cul u a, in e alos silenciosos po-
dem cons i ui uma sílaba ou uma sen ença, mas não o nosso á omo: a
pala a” (Illich, 1995, p. 42).
1. O silêncio da escu a
Nos omances de Mia Cou o, o silêncio ganha mui as ezes a o -
ma da escu a e da espe a, a que co esponde a unção especí ica do
conselho e do ensino. Na maio pa e dos casos, a a-se de con e sas
assimé icas que se elacionam com a idade e o papel social dos in e -
locu o es, onde os p o agonis as cos umam se um idoso e um jo em,
cabendo ao mais- elho o dom da pala a, po que é ele, a p io i, a e
mais expe iência de ida, a conhece mais o mundo e a es a mais p ó-
ximo dos an epassados9. O jo em, po sua ez, escu a as pala as do
9. Nos seus es udos sob e os Diúlas do Kong, egião no des e da Cos a do Ma im, Jean De i e
chama a a enção pa a a o es que põem im ao chamado di ei o de pala a nas sociedades adi-
cionais a icanas. Embo a ci e á ios a o es – en e os quais o sexo (os homens êm mais di ei o
de ala do que as mulhe es) e a classe social (alguns indi íduos pe encen es a posições sociais es-
pecí icas, de e minadas segundo ipos de classe e papel social, êm maio di ei o de pala a) – aca-
ba po indica a idade como o a o decisi o: “O mais elho em semp e em p incípio au o idade
sob e o mais no o” (De i e, 2010, p. 32). Pa a o au o , a p e alência da maio idade como c i é io
de ini i o pa a de e mina quem ala (em p imei o luga , em úl imo luga , quem de e ecebe
as saudações, quem pode e o di ei o de não esponde ) é ambém um p incípio de equidade,
pois en e os c i é ios iden i icados, a idade é o único que a ia du an e a ida, e pe mi e a cada
memb o do g upo e , a seu empo, o p i ilégio de ala e ambém o p i ilégio de cala . Segundo
o ilóso o ganês Kwame Appiah, pa ece ha e um ou o aspe o comum às sociedades adicionais.
No seu li o, Na casa de meu pai, na a de uma ez que um dos seus con e âneos, in e pelado
po um es udan e no e-ame icano sob e a di e ença p incipal en e os ganeses e os ame icanos,
espondeu que e a a ag essi idade dos ame icanos. Appiah explica a espos a da seguin e o ma
(1997, p. 184): “Ob iamen e, o que ele ha ia no ado não o a a ag essi idade, mas simplesmen e
um es ilo de con e sação di e en e. Em Gana, mas não nos Es ados Unidos, é indelicado disco -
da , discu i ou e u a ”. Segundo Kwame Appiah, es e modo conciliado de con e sa de e-se
à o ma de o ganização social das comunidades adicionais, mas em a e ambém com a al a
de um sis ema de esc i a nas línguas locais (Appiah, 1997, p. 185): “a al abe ização em conse-
quências impo an es, den e elas o a o de pe mi i um ipo de coe ência que a cul u a o al não
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BARBARA GORI
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mais- elho pa a ap ende e, amiúde, pa a obedece ; a sua pa icipa-
ção no diálogo é quase semp e ca ac e izada po b e es in e enções.
É o caso da con e sa en e o adu o de Tizanga a e a sua mãe, n’O
úl imo oo do lamingo:
Eu lhe pedia explicação do nosso des ino, anco ados na pob eza.
– Veja ocê, meu ilho, já apanhou mania dos b ancos! – Inclina a a ca-
beça como se a cabeça ugisse do pensamen o e me a isa a:
– Você que en ende o mundo que é coisa que nunca se en ende.
Em om mais g a e, me ale a a:
– A ideia lhe poise como a ga ça: só com uma pe na. Que é pa a não pesa
no co ação.
– O a, mãe…
– Po que o co ação, meu ilho, o co ação em semp e ou o pensamen o.
Falas dela, mais pe o da boca que do miolo. (Cou o, 2005b, p. 46)
Ou en ão, de uma das con e sas en e o adu o -na ado e o seu
pai, o elho Sulplício:
No im, e o çou o dem com o dem:
– E não que o esse i aliano a escu a as pala as. Ou iu? Ainda não con io
cen o po cen o nesse idamãe.
– Mas pai, esse i aliano nos es á ajuda .
– A ajuda ?
– Ele e os ou os. Nos ajudam a cons ui a paz.
– Nisso se engana. Não é a paz que lhe in e essa. Eles se p eocupam é com
a o dem, o egime desse mundo.
– O a, pai…
– O p oblema deles é man e a o dem que lhes az se em pa ões. Essa
o dem é uma doença em nossa his ó ia.
[…] A apos a dos pode osos – os de o a e os de den o – e a uma só: p o-
a que só colonizados podíamos se go e nados. (Cou o, 2005b, p. 188)
O obje i o de ensina é e iden e nos dois diálogos. Nas pala as
exige nem pode exigi ”. Pa a Wal e Ong (1998, p. 52): “a esc i a […] dep ecia as igu as do
sábio ancião, epe ido do passado, em a o de descob ido es mais jo ens de algo no o”. No
a igo Da boca do ancião, Ch is ophe Wondji a a a ques ão omando como exemplo a di e ença
exis en e en e o modo de ensina segundo o sis ema escola ociden al e o modo como as c ianças
ap endem no mundo adicional (Wondji, 1996, pp. 11-12): “Há algum empo os educado es se
es o çam pa a in oduzi – a exemplo do Ociden e – no os mé odos de ‘exp essão e comunicação’
nas escolas da Cos a do Ma im. O diálogo es á na moda. ‘Façam ale seu pon o de is a!’, diz-se
aos jo ens alunos. ‘Fo mulem suas dú idas e suas c í icas.’ É e iden e que só com mui a di icul-
dade esses alunos conseguem se adap a a uma p á ica ão comple amen e opos a à sua adição
de espei o ao mes e e ao sabe ”.
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AS MANIFESTAÇÕES DO SILÊNCIO EM MIA COUTO
dos pais idosos há a ideia de que o jo em ilho não sabe, não conhece
e, po conseguin e, não comp eende plenamen e ce os signi icados.
Do ou o lado, emos o jo em que é bem cien e des a al a de conheci-
men o10, demons ada pela sua pa icipação no diálogo, que, além de
se limi ada em e mos de pala as, é ca ac e izada po uma a i ude
que pode íamos de ini uma con es ação paca a. Com e ei o, embo a
seja e iden e que o jo em não es á o almen e de aco do com as pala-
as dos pais, não há nenhum con li o causado pelos di e en es pon os
de is a, como nos mos am os a os “mas” e os poucos “o a” que
exp imem p ecisamen e uma nuance de desaco do, mas que nunca se
desen ol e no es o da con e sa.
Também n’Um io chamado empo, uma casa chamada e a, é
possí el obse a , logo na abe u a do omance, es a posição dialógica
assimé ica de escu a po pa e do jo em Ma ianinho, eg essando à
ilha do Lua -do-Chão e, no caso em ap eço, de o dem po pa e do io
mais elho, Abs inêncio, com o seu om impe a i o que não admi e
explicações ul e io es:
– Es a a alando com essa elha?
– Sim, Tio. Fala a.
– Pois não ale. Não deixe que ela chegue pe o.
– Mas, Tio…
– Não há mas. Essa mulhe que não se chegue! Nunca. (Cou o, 2003, p. 22)
Pa a mos a que exis e uma au ên ica hie a quia na ges ão do uso
e da dis ibuição da pala a e do silêncio po pa e do memb o mais
elho, ci amos ou a passagem do omance Um io chamado empo,
uma casa chamada e a, onde quem em o p i ilégio de ala é a a ó
Dulcineusa, não só ela i amen e ao ne o Ma ianinho, mas ambém
em elação ao ilho Abs inêncio:
10. Não são poucos os exemplos em que o p óp io jo em admi e a sua igno ância ela i amen e
aos p oblemas do mundo. En e as mui as passagens que pode íamos ci a , ale a pena eco da o
caso de Kindzu, que, depois de e con ado a con e sa com o nyanga da sua aldeia (Cou o, 1995,
p. 38), a i ma: “Es as o am as alas do adi inho, pala as que nunca eu deci ei a undu a”. Ou
en ão, n’O úl imo oo do lamingo, o exemplo do adu o que, depois do esumo de uma das
con e sas idas com o pai, az um comen á io do mesmo ipo (Cou o, 2005b, p. 206): “Meu elho
puxa a assun o demasiado pa a meu pei o. Ele não pe cebia como, po ezes, eu não a ingia o
sen ido de suas pala as”. Pa a ou os ap o undamen os sob e o assun o, eja-se, em especial, o
capí ulo O jo em men i oso e o elho sábio da ob a O alidade, li e a ização e o alização da li e a u-
a de Jean De i e (2010, pp. 45-65).
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Cul u a La inoam. Volumen 34, núme o 2, julio-diciemb e 2021, pp. 226-254
– Me diga, meu ne o, ocê, lá na cidade, oi iniciado?
Tio Abs inêncio osse, em delicada in omissão.
– É que eles lá na cidade, mamã…
– Ninguém lhe pediu alas, Abs inêncio.
Não chego a p onuncia pala a. A con e sa odopia no cí culo pequeno
dos donos da ala, em obediências e espei os. Tudo len o, pa a se escu a-
em os silenciosos p esságios. Após longa pausa, a A ó p ossegue:
– Falo udo isso, não é po causa de nada. É pa a sabe se ocê pode ou
não i ao une al.
– En endo, A ó.
– Não diga que en ende po que ocê não en ende nada. Você icou mui o
empo o a.
– Es á ce o, A ó. (Cou o, 2003, p. 31; p. 32)
Nes a passagem, Dulcineusa pode ala po cima de odos os ou-
os, po que é a mais elha, é mãe e a ó, es a u o que lhe con e e
di ei o/pode não só de in e oga o ne o sob e aquilo que conside a
se impo an e, mas ambém de cala b uscamen e o ilho Abs inêncio
—co ando-lhe a pala a— e co igi pe en o iamen e o ne o, dizen-
do-lhe cla amen e que não pe cebe nada.
Em boa e dade, o na ado Ma ianinho, além de assumi a posi-
ção de a en o escu ado de conselhos, o dens e ensinamen os da a ó
idosa, e ela-se ambém um obse ado agudo dos silêncios que p e-
cedem, enchem ou egulam as suas con e sas: ala de obediência e de
espei o em elação aos “donos da ala”, ala de “silenciosos p essá-
gios” e no a a longa pausa que p ecede a ala da a ó. Ma ianinho, po -
an o, não es á in e essado só em na a o con eúdo da con e sa com a
a ó Dulcineusa; ele que igualmen e desc e e o i mo e a dis ibuição
de pala as e de silêncios na con e sa, dis ibuição que é p ecisa e não
casual: “Não chego a p onuncia pala a. A con e sa odopia no cí -
culo pequeno dos donos da ala, em obediências e espei os. Tudo len-
o, pa a se escu a em os silenciosos p esságios” (Cou o, 2003, p. 17).
Nou o momen o da his ó ia, quando ai isi a o co ei o Cu oze o,
Ma ianinho desc e e o seu es ado de espí i o ao chega ao cemi é io,
con iando a ep esen ação isual da cena aos a ibu os que acompa-
nham o silêncio ( espei o, espe a, ausência de p essa) e às pala as
que compõem a ase. Todas as pala as indicam es ado (de e -se, sen-
a -se, mu o): “Es á agi ado [o co ei o], pa ece um ja ali a ejando o
chão. Depois, ele se de ém, sen ado sob e o mu o. Ap oximo-me, mas
não alo. Esse o modo de mos a espei o. E espe o pela sua ala, sem
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AS MANIFESTAÇÕES DO SILÊNCIO EM MIA COUTO
Kindzu exp ime a sua on ade e o seu desejo de se o na ou in e
da his ó ia de Fa ida, pedindo-lhe que não enha p essa, e ans o -
mando-se ambém, de ce a o ma, naquele cuida das eb es e dos a -
epios que oma am o co po dela: “Nesse enquan o, ui um ou ido .
De cada ez que so ia uma dessas es anhas eb es que lhe ouba am
o co po, Fa ida con a a sua es ó ia, ia a e des ia a lemb anças. Eu
escu a a a é anoi ece ” (Cou o, 1995, p. 112).
O pode cu a i o da escu a é ea i mado nou as passagens do o-
mance, al ez po que, sendo ambien ado no pe íodo da gue a ci il,
Te a sonâmbula é a ob a em que as pe sonagens mais so e am a au-
sência os ou os e da sua pala a. Tal ez seja po isso ambém que e
quem nos escu a se o na sob e udo um modo pa a o e ece e goza
de um bem ex emamen e p ecioso, em empos de solidão: uma p e-
sença que pode cu a mais e melho do que um emédio. Vemo-lo
no episódio em que Tuahi , p eso na ede do elho Siquele o jun o
com o jo em Muidinga, começa a con a ao habi an e soli á io da al-
deia como se iam os empos indou os; a sua imaginação az Sique-
le o ado mece e Muidinga sonha . Em seguida, o na ado obse a:
“Tuahi se e ela, po um ins an e, como um cu andei o amenizando
o uni e so, seu pacien e” (Cou o, 1995, p. 82). Também Fa ida exp i-
me o desejo de escu a e de ali ia a sua do , pedindo uma es ó ia à
ei a da missão onde o seu ilho Gaspa encon ou e úgio: “– I mã,
peço: me con e es ó ias! A ei a se su p eendeu. A isi an e [Fa ida]
lhe explicou: que ia sabe no ícias do mundo, ou i as co es desse
longe em que seus sonhos eima am. Pouco impo a a que ossem ou
não e dade” (Cou o, 1995, p. 97).
N’Um io chamado empo, uma casa chamada e a, é a ô Ma iano,
numa das suas ca as, a ala da ín ima elação en e escu a e pode
cu a i o:
O médico escu ou udo isso, sem me in e ompe . E a mim, essa escu a
que ele me o e eceu quase me cu ou. En ão, eu disse: já es ou a ado, só
com o empo que me cedeu, dou o . É isso que, em minha ida, me em
escasseado: me o e ece em escu a, o elhas pos as em con issões. (Cou o,
2003, p. 149)
Nes a mani es ação do silêncio, o a o de doa empo a a és da
disponibilidade a escu a o na possí el a cu a, como diz a ô Ma-
iano, que, nas suas ca as, de ac o, não az ou a coisa senão p e-
ende que Ma ianinho o escu e com ca inho, pa a que o ne o possa
cump i a “sua missão de apazigua espí i os com anjos, Deus com

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os deuses” (Cou o, 2003, p. 126). E ac escen a: “E não se ocupe
nem se p eocupe. Po que ocê, meu ne o, es á cump indo bem.
Ampa ando sua A ó, sossegando os seus ios, amolecendo medos
e an asmas” (2003, p. 198). Semp e nes e con ex o de p o eção e
a enção, a ó Dulcineusa diz a Ma ianinho: “– Mas ocê não que
se pad e? – Nunca pensei nisso, A ó. – É pena, ocê é ão bom
escu ado ” (Cou o, 2003, p. 91). Tendo em conside ação que doa
empo signi ica es a dispos o a doa ambém pa e da p óp ia ida
(Ba hes e Flahaul , 1987, p. 122), não nos su p eende que em Te a
sonâmbula, é o empo que Su end a dedica a Kindzu a e o ça o
sen imen o ecíp oco de amizade: “Enquan o ali es á amos, azen-
do o absolu o nada, eu me sen ia p omo ido. Na oca de nossos
nenhuns assun os, Su end a se esquecia de a ende os egueses. Eu
me con o a a: nunca ninguém se ha ia esquecido de nada po causa
de mim” (Cou o, 1995, p. 29).
Ao desejo de escu a e ao p aze de escu a – semp e sem p essa
–, pode íamos jun a o p aze de pa ilha os silêncios, a o que pode
se pa a aseado com o p aze de “não aze nada em conjun o”, ou,
como diz Mia Cou o, de “ aze o Nada” (Cou o, 2009c, p. 63), que é
semp e uma o ma indispensá el na p á ica da escu a. No ex o En-
con os e encan os, Mia Cou o e e e-se a es e “não aze nada” como
se se a asse de uma a i ude ilosó ica, iniciando o seu ex o com a
na ação do seguin e episódio:
ao eg essa a casa, em Mapu o, depa ei com dois jo ens sen ados no
mu o de minha casa e pe gun ei o que eles aziam ali. O p imei o espon-
deu: – Não es ou azendo nada. E o segundo ac escen ou: – Pois eu es ou
aqui a ajuda o meu amigo. Ha e alguém que ajuda um ou o a não aze
nada é do domínio da mais pu a me a ísica. Possi elmen e não se a a a
de não aze nada, mas da á dua a e a de aze o Nada. (Cou o, 2009c,
p. 63)
Es a pa ilha de silêncios apa ece ou as ezes nos omances, como
nos encon os en e Fulano Mal a e Pad e Nunes, n’Um io chamado
empo, uma casa chamada e a, onde es a em silêncio jun os se o na
um co o de silêncios:
Ce a ez, quem compa eceu nesse descampado oi Fulano Mal a [à bei a
do io Madzimi]. […]. Fulano se ap esen ou e disse que inha con e sa :
– Con essa ? – pe gun ou o pad e.
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AS MANIFESTAÇÕES DO SILÊNCIO EM MIA COUTO
Con essa , podia se , acei ou Fulano. Mas não con e sou, nem con es-
sou. Ficou calado, azendo co o com o silêncio de Nunes. Sen ados, os
dois con empla am o io como se escu assem coisas só deles. (Cou o,
2003, p. 102)
4. O silêncio no silêncio das pala as
O silêncio no silêncio das pala as al ez seja o mais complica-
do de deci a nos omances de Mia Cou o, po que é aquele silêncio
que pa a se di o e con ado não pode, em ge al, aga a -se aos sinais
g á icos que cos umam apa ece no ex o, não sendo aduzido em
pala as e não sendo p eenchido po nenhum e mo ou nenhum sin-
agma que eme a explici amen e pa a o silêncio. Ap esen a-se como
um azio o al de ex o, em que o lei o “sen e” a p esença do silên-
cio, sem, oda ia, pode explica a sua o igem ( an den Heu el, 1985,
p. 77). É a ausência de léxico do silêncio a ma ca e es abelece am-
bém g a icamen e es e silêncio, e é exa amen e es e ipo de silêncio a
ge a aquela a mos e a silenciosa ípica que apa ece amiúde nos o-
mances de Mia Cou o e que, como e emos, pode e mo i ações e
unções di e en es: pode a a -se de uma ecusa a ala , po cau ela,
esis ência e, mui as ezes, echamen o ela i amen e ao in e locu o
num de e minado momen o da ama na a i a; pode se uma escolha
na a i a delibe ada, usada pelo au o pa a desloca sapien emen e
o oco na a i o do na ado , que se põe à ma gem da es ó ia, pa a a
cena ou as pe sonagens obse adas16; ou en ão, pode se uma ep e-
sen ação do silêncio nos momen os em que o na ado se deixa le a
pelas eco dações. O que ca ac e iza cada uma des as mani es ações
do silêncio é que o na ado sai semp e disc e amen e da cena na a-
da, um ges o que, se quise mos, pode se in e p e ado ambém como
um modo pa a aze silêncio (Schuback, 1996, p. 34), de modo a que
nenhum ba ulho ou oz possa pe u ba a a mos e a silenciosa que
ca ac e iza a na ação daquela paisagem, daquela pe sonagem ou da-
quele me gulho na memó ia.
16. T a a-se mui as ezes de um duplo silêncio: silêncio do homem, po um lado, silêncio da
na u eza, po ou o. Não é po acaso que es es são ambém os dois aspe os que con luem e se
sob epõem no ocábulo, desde o seu signi icado o iginal. De ac o, na pala a silêncio encon am-
-se os emas e bais silĕ e e acē e. Os dois ipos semân icos deno am, desde as aízes g eco-la inas,
que a ausência de som (silēo), que a ausência de pala a ( ăcĕo): silĕo denomina p op iamen e o
silêncio, ăcĕo subsis e diale icamen e em elação a loqui, indicando a in e upção momen ânea da
pala a den o do espaço dialógico de uma comunidade de alan es e ou in es.
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O silêncio po cau ela, esis en e e echado cos uma se causado
pelo eceio de possí eis consequências nega i as que a p onúncia de
uma pala a pode ia implica . Tal é o que acon ece numa passagem
de Te a sonâmbula, onde cala -se é p es a a enção ao isco que ala
demasiado ou dize algo e ado podem de e mina :
– Você, en ão? Nada se ala?
O homem se ap oximou de mim, eu já es a a sem emédio: me ido na
dispu a. Mais que ia ica de o a, alheio à con e sa pe u ada, mais eu
es a a com o pescoço den o dela. Ne oso, o homem me empas ou com
seu háli o:
– Você es angei o, escu a. Nes a e a se passam mui as me das, odos
êm medo de ala . Eu sei quem es á a ma a aqui. Não são só os bandos.
Há ou os, ambém. (Cou o, 1995, p. 157)
Ainda nes e omance, ambém a elha Vi gínia, esposa do po u-
guês Romão Pin o, exp ime as suas e icências em ala com quem
que que seja o onde que que seja:
– Não posso ala aqui.
– Po quê?
– Senão es a minha casinha se enche de an asmas.
– Falamos onde, en ão?
– Vamos pa a minha an iga casa. Me aça uma coisa, en e an o: me cha-
ma de o ó. Pa a eu lhe e como uma c iança. (Cou o, 1995, p. 197)
A elha Vi gínia explica, em seguida, a Kindzu o mo i o do seu
eceio e o mo i o pelo qual se e ugia na loucu a: “Não esqueça eu
sou uma elha on a, não alo com gen e c escida. Só me eço con ian-
ça das c ianças. Como é que posso assina um papel? E dinhei o, eu
sei o que é dinhei o? Não aço nenhuma ideia. Me en ende, Kindzu?”
(Cou o, 1995, p. 206).
Em casos como es es, p e e e-se o silêncio, um silêncio semp e o-
al, po que a pala a é is a como causa possí el de desen endimen-
os, como p e ex o pa a causa amiúde con li os inú eis e discó dias
pe igosas. A escolha do silêncio é uma escolha de p udência; aquela
mesma p udência que é necessá io e odas as ezes que em Mo-
çambique se pisa a e a cheia de minas an ipessoal. Po causa des as
minas, o adu o de Tizanga a, n’O úl imo oo do lamingo, escolhe
pe manece em silêncio ace à suspei a, con i mada depois no im
do omance, de que o g upo de homens que es á a eabili a a zona
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AS MANIFESTAÇÕES DO SILÊNCIO EM MIA COUTO
minada é o mesmo que epõe as minas, com a cumplicidade da admi-
nis ação local: “mas uma oz me chamou às cau elas. Melho se ia eu
cala -me com meus bo ões” (Cou o, 2005, p. 119). Do mesmo modo,
n’Um io chamado empo, uma casa chamada e a, é a igu a do mais- e-
lho, a ô Ma iano, que inspi a silêncio em Ma ianinho, quando o ne o
é p eso com a acusação de es a en ol ido no assassínio de Juca Sabão:
O que a ia o A ô naquela ci cuns ância? E penso: é cu ioso eu p ocu a
inspi ação no mais- elho. A inal, já me ou exe cendo como um Malila-
ne. E logo a espos a me ilumina: Ma iano ha e ia de se aze de mo o.
E isso é o que decido aze . Como não espondesse i a am-me os sapa os
e o dena am que sen asse no chão. (Cou o, 2003, pp. 203-204)
Na si uação em que se encon a Ma ianinho, a decisão de ala
apenas ag a a ia as suspei as que já caíam sob e ele. À p udência,
nes e caso, associa-se ambém uma a i ude de esis ência: escolhe i-
ca em silêncio signi ica ambém impedi que as pala as di as possam
legi ima as suspei as e as acusações, dando-lhes, pelo con á io, o -
ça; nes e caso, o silêncio ap esen a-se como uma o ma de esis ência
e de ecusa a concede ao ou o a mínima possibilidade de encon a
p e ex os plausí eis (Le B e on, 1997, p. 84).
Também o adu o de Tzinga a, n’O úl imo oo do lamingo, e-
sis e. Resis e quando é con ocado pelo adminis ado local pa a se
designado adu o o icial da aldeia, e comen a: “Ou imos, calamos e
azemos de con a que, calados, obedecemos” (Cou o, 2005b, p. 17).
Nes e echo, o adu o u iliza a p imei a pessoa do plu al, incluin-
do-se, assim, num g upo mais amplo, que é o dos que ingem obede-
ce , mas na ealidade esis em, op ando pelo silêncio. Na e dade,
ambém a sua a i idade de adu o exp ime bem a sua a i ude de
esis ência, pois, con a iamen e ao que o adminis ado espe a, o a-
du o não abalha pa a os in e esses da adminis ação, segundo um
p incípio de obediência cega:
– Quando mandei que osse meu adu o ocê não en endeu – disse Es-
ê ão Jonas assim que me sen ei.
– Desculpe, não pe cebo.
– Es á a e ? Con inua sem en ende . Você não en ende o que eu que o
de si.
– E é o quê, Excelência?
– Vigia esse cab ão desse b anco. Esse i aliano que anda po aí a chei a
nos ecan os alheios. (Cou o, 2005b, p. 120)
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Ou o episódio de esis ência, nes e caso de “pos u a”, é aque-
le em que o in es igado es angei o Massimo Risi p e ende ou i o
es emunho de Sulplício ace ca das explosões, mas o elho se ecusa,
echando-se num silêncio ensu decedo :
Olhou os céus, desdenhoso. Com a mesma supe io idade nos soslaiou.
Depois, ol ou a sen a -se e eg essou à sua indi e ença. Pa ado, sob a
chu a. Ficámos ali, calados, agua dando uma mudança em sua disponibi-
lidade. Eu olha a a eimosia do meu pai e me pa ecia e nele uma aça in-
ei a sen ando o seu empo con a o empo dos ou os. Pela p imei a ez
sen i o gulho nele. To ci a é pa a que não alasse. (Cou o, 200b5, p. 134)
Nes a ci ação, o signi icado do silêncio é ampli icado pelo olha
admi ado e o gulhoso do na ado ela i amen e à ecusa a ala do
pai, associando mais uma ez es a a i ude a uma posição não indi i-
dual, mas cole i a: quem impõe o i mo e o empo daquela con e sa
apa en emen e inexis en e não é só o pai, mas são odos os habi an es
de Tizanga a (“ oda uma aça”). Passado algum empo, em que na a-
do e es angei o espe am, Sulplício a i ma:
– O io pa ou?
O i aliano me olhou, a elampejado. Eu sabia que não e a pa a se es-
ponde . Ele, a inal, não ala a o que dizia. Re e ia ou o assun o. Cada
coisa em di ei o a se uma pala a. Cada pala a em o de e de não se
nenhuma coisa. Seu assun o e a o empo. Como o io: pa ado é que o
empo c esce.
– O io pa ou? Heim?
– Não, pai.
– Ainda não? Pois quando pa a eu alo com esse es angei o.
Desis imos. (Cou o, 2005b, p. 135)
Depois Sulplício explica o mo i o do seu silêncio eimoso: “Ao
menos, me es asse essa possibilidade de ecusa: não ala quando os
ou os pediam” (Cou o, 2005b, p. 138).
Como se disse, o silêncio no silêncio das pala as pode ganha
ambém a o ma de uma écnica na a i a a gu a usada po Mia Cou-
o pa a ocaliza o obje i o numa de e minada cena ou pe sonagem,
deslocando o in e esse do lei o pa a algo de di e en e do na ado , o
qual, de ce a o ma, pa ece sai de cena. Es a écnica pe mi e que o
lei o obse e e escu e com mais a enção, p ecisamen e em silêncio, o
que é na ado, ap oximando-se, assim, às pe sonagens, conseguindo

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AS MANIFESTAÇÕES DO SILÊNCIO EM MIA COUTO
acompanhá-las nos seus ges os e mo imen os. O que ges o e o mo i-
men o dizem e con am é, mais uma ez, um modo pa a in ensi ica a
p esença do ou o na na ação, con ando-o ambém como co po17,
mais do que uma me a desc ição.
En e os mui íssimos exemplos que podemos ci a , eco de-se,
n’Um io chamado empo, uma casa chamada e a, a cena em que Ma-
ianinho olha pa a o co ei o: “Cu oze o Muando não me ê chega .
Encos o-me ao onco da ma u ei a enquan o o obse o. O co ei-
o es á sen ado jun o a uma oguei a, pe nas abe as quase a oça
as chamas” (Cou o, 2003, p. 157); em Te a sonâmbula, a cena em
que Kindzu se encon a na loja de Su end a: “Pe dia ho as no es a-
belecimen o, sen ado en e me cado ias enquan o as comp idas mãos
de Su end a co iam le es pelos panos” (Cou o, 1995, p. 28); ou en-
ão, quando consul a o adi inho da sua aldeia: “O adi inho alisa a
as pe nas joelhudas, pa ecia i a delas a o ça de adi inha ”. Uma
ges ualidade que en iquece e comple a o conhecimen o que o lei o ,
em pa e, já possui de cada pe sonagem, ealçando-a em oda a sua
especi icidade e minuciosidade de co po e p esença em mo imen o
(Cou o, 1995, p. 37).
N’O úl imo oo do lamingo, é modo de anda de Massimo Risi
a o na -se, po um b e e momen o, o cen o da cena desc i a: “Eu
seguia a ás, espei osamen e. No enquan o, obse a a o es angei o:
como a alma dele se ia pelas suas asei as! Os eu opeus, quando ca-
minham, pa ecem pedi licença ao mundo. Pisam o chão com delica-
deza mas, es anhamen e, p oduzem mui o ba ulho” (Cou o, 2005b,
p. 35). Mais adian e, o adu o obse a de no o o modo de anda
do i aliano: “Segui-o e no ei que o seu modo de caminha já e a mais
ligei o, ele já se mexia como se o co po osse dele” (Cou o, 2005b, p.
105). O modo de anda diz mui o do seu modo de se —um homem
delicado, po en u a um pouco desajei ado, le e— e ambém sob e
a sua pessoa que é, como se pode e pelo comen á io de Ana Deus-
quei a a Massimo Risi: “Sabe po que gos ei de si? Foi quando lhe i
a a essa a es ada, o modo como anda a. Um homem se pode medi
pelo jei o como anda. Você caminha a, imiudinho, az con a um me-
nino que semp e se di ige pa a a lição. Foi isso que ap eciei” (Cou o,
200b5, p. 179). N’Um io chamado empo, uma casa chamada e a,
17. Te ezinha Tabo da Mo ei a, no li o O ão da oz, diz-nos o que en ende po na ado pe o -
ma i o, que endo pô em e idência com es a de inição, “o a o da pe o mance o al do con ado
de his ó ia moçambicano so e um p ocesso de me amo ose que lhe pe mi e inse i -se no ex o
esc i o ei o co po cul u al, insc e endo na esc i a as p á icas da o alidade p imo dial da cul u a
o al” (2005, p. 24).
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Mise inha é quem põe em elação o modo de anda com o modo de
se da pessoa que anda: “– Não ês que só o pé esque do é que pisa
com on ade? Aquilo é peso do co ação. Explica-me que sabe le a
ida de um homem pelo modo como ele pisa no chão. Tudo es á es-
c i o em seus passos, os caminhos po onde ele andou” (Cou o, 2003,
p. 20). No inal do omance, Mise inha diz a Ma ianinho: “– Você
es á com o passo mais le e – comen a – Isso é um caminha de anjo”
(Cou o, 2003, p. 244).
Usando es a posição p i ilegiada, es a pe spe i a “mais pos a que
expos a”18, e omando e modi icando le emen e uma ase de Mia
Cou o (2005b, p. 15), os na ado es obse am o mundo e os ou os,
semp e em silêncio absolu o. Tal é o que acon ece com Kindzu, em
Te a sonâmbula, que obse a a elha Vi gínia, en ando en ende
quem é ela, olhando-a de longe:
Decidi esp ei a a elha Vi gínia, conhece aquela que o a a segunda
mãe de Fa ida. […] Cheguei e iz espe a, semiocul o […] Fiquei ali ho as
pe didas, esp ei ando a uma dis ância, en e os e des-escu os das ma u-
ei as. O que i ali me encheu de an asia, es ó ias de ea e es e mundo
onde não cabemos. (Cou o, 1995, pp. 191-192)
Do mesmo modo, n’Um io chamado empo, uma casa chamada
e a, Ma ianinho acaba po esp ei a , sem o que e , a ó Dulcineusa:
Esp ei o en e a penumb a, ao jei o dos ga os que esg a a am somb as
no meio da noi e. É en ão que ejo A ó Dulcineusa, oda esguei ada,
a ançando u i a pelo aposen o. Usa es es an igas, ce imoniosas endas
a oça o chão. E ela se exibe an e o mo ibundo, mãos nas ancas. De e-
pen e começa a dança , seu co po go do em con abalanço com as saias.
(Cou o, 2003, p. 127)
Enquan o con a os ges os, as oupas, os mo imen os da a ó, Ma-
ianinho ala ambém do seu sen imen o de culpa e de p o undo
emba aço, po e obse ado a a ó, sem a sua pe missão, e po e
in adido a sua in imidade, mais uma ez sem au o ização —“Sin o
culpa em es a ali, esp ei ado de alheias in imidades” (Cou o, 2003,
p. 127). N’O úl imo oo do lamingo, é o adu o que acompanha o
sonho, de olhos abe os, de Massimo Risi com Tempo ina:
18. T a a-se da pa e inicial do omance O úl imo oo do lamingo: “Uma oda de gen e se en-
go dou em edo da coisa. Também eu me cheguei, pa ado nas ilei as mais asei as, mais pos o
que expos o. A isado es ou: a ás é onde melho se ê e menos se é is o (Cou o, 2005b, p. 15).
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AS MANIFESTAÇÕES DO SILÊNCIO EM MIA COUTO
De longe ainda i como Tempo ina se sen a a no colo do i aliano e como
seus co pos se enlea am. De súbi o, o os o dela se colocou em luz e eu
me espan ei: em lag an e de amo Tempo ina ju enescia. […]. E ecuei
meus olhos, ecolhi meu enleio. […]. Ago a, po ce o, ele não ca ecia de
adu o . (Cou o, 2005b, p. 68)
Bas a o seu olha a en o, suspenso nes a a mos e a ca egada de
silêncios, pa a se inse i e inse i o lei o na cena. Mais uma ez, n’Um
io chamado empo, uma casa chamada e a, é o na ado Ma ianinho
quem pa icipa no sonho de olhos abe os do io Abs inêncio, e am-
bém nes e caso é um olha ápido, apesa de se in enso, que p o oca
a saída de cena do na ado :
Abs inêncio es á dançando, a i elando a pa cei a num ab aço i me.
Dança com quem? Me empino sob e os pés pa a desco ina quem em-
pa elha com meu io. É quando enxe go: não há ninguém senão ele. Abs-
inêncio dança com um es ido […] Re i o-me pé an e pé pa a não ouba
sonho. Mas Abs inêncio ê-me pela janela e sai à po a. Chama-me.
– Meu sob inho, es ou eliz. É que Dona Conceição es á aqui comigo,
mudou-se pa a Lua -do-Chão.
– Já i, já i! (Cou o, 2003, p. 248)
Ou o exemplo des a disc e a saída de cena do na ado encon a-
-se semp e n’Um io chamado empo, uma casa chamada e a, mais es-
peci icamen e no episódio em que Ma ianinho e a ó Dulcineusa eem
o álbum o og á ico de amília, comen ando imagens que, de ac o,
não exis em. Depois de e em olheado o álbum, a a ô pede pa a i-
ca sozinha. E o na ado esponde: “Vou saindo, com espei osos
aga es” (Cou o, 2003, p. 50). Con a o modo como o na ado sai do
qua o, acili a a a i ude de in ospeção da a ó, que deseja ica sozi-
nha, e, ao mesmo empo, ca ac e iza o na ado como pessoa gen il e
sensí el, como quem é capaz de comp eende e espei a a on ade do
ou o, como quem sabe escu a pa a lá das pala as.
Po im, ou a mani es ação impo an e do silêncio no silêncio das
pala as é a que se encon a ligada à eco dação e à memó ia. Am-
bas a o ecem o silêncio, po que ampli icam a a i ude de in ospeção,
pe mi indo que a pe sonagem quede, po um momen o, na solidão
da sua memó ia. São momen os de suspensão do empo na a i o, em
que o au o ab e uma po a à pe sonagem, pa a que es a enha a pos-
sibilidade de olha pa a den o de si, e, quem sabe, possa encon a o
seu luga no mundo e e um pouco de paz (Le B e on, 1997, p. 146).
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Nos omances de Mia Cou o, é mui o equen e encon a pe -
sonagens sen adas à somb a de uma á o e, ou à ma gem de um io,
abandonadas às suas eco dações: “Ago a, sob a g ande somb a do
ama indo, eu echei os olhos e con oquei saudades” (Cou o, 2005b,
p. 161); “Na bo da da água nada assinala o local do en e o. Sen ei-me
ali, no calado da a de. E elemb o minha mãe, Dona Ma ia ilhosa”
(Cou o, 2003, pp. 230-231).
Es ando num empo di e en e da na ação, a memó ia acaba, mui-
as ezes, po coincidi com o empo da in ância, ou seja, com aquele
empo em que ainda não se inham e i icado mui os dos acon eci-
men os deses abilizado es na ados nos omances. É o que acon ece
em Te a sonâmbula, an es de começa a gue a ci il na aldeia de Kin-
dzu; n’O úl imo oo do lamingo, an es da pa ida do elho Sulplício,
pai do na ado ; n’Um io chamado empo, uma casa chamada e a,
an es da ida de Ma ianinho pa a a cidade. Não é po acaso que a
memó ia desse empo de in ância es eja cheia de nos algia e delimi e
o que ha ia e o que deixou de ha e na ida des es jo ens moçambica-
nos, na ado es de es ó ias, como a i ma Kindzu: “Me inha on ade
de eg essa , o na a alimen a o meu alecido elho, me simpli ica
no nada acon ece da aldeia. Sen ia saudade das a des com Su end a.
Lá, em minha aldeia, no semp e igual dos dias, o empo nem exis ia”
(Cou o; 1995, p. 53); ou en ão, como diz o adu o n’O úl imo oo do
lamingo: “Apesa da noc u na is eza de minha mãe, eu i ia com o
sossego de peixe em água pa ada. Naquele empo, não ha ia an iga-
men e. Tudo pa a mim e a ecen e, em ia de nasce ” (Cou o, 2005b,
p. 47), po que, a bem e : “A in ância não é um empo, não é uma
idade, uma colecção de memó ias. A in ância é quando ainda não é
demasiado a de. É quando es amos disponí eis pa a nos su p een-
de mos, pa a nos deixa mos encan a ” (Cou o, 2009a, p. 110).
Face ao passa do empo e sob o peso do so imen o, exis e amiú-
de o desejo de eg essa , de ol a àquele “nada acon ece na aldeia”,
como diz Kindzu, e de euni o p óp io se nes a suspensão. Em Te a
sonâmbula, es e dilema en e desejo de encon a um luga anquilo
e a necessidade de con inua o caminho é ainda mais e iden e ela i-
amen e aos ou os omances: “Fiquei na somb a, emoendo um de-
sejo: já não e a a lu a, os napa amas que me da am alma. Eu que ia
simplesmen e adoece , ansia a uma doença que me apagasse oda a
paisagem po den o. Que ia ecebe essa doçu a que a doença sem-
p e em” (Cou o, 1995, p. 218).
A possibilidade que pa ece exis i , em cada omance, de ec ia (a
pa i des as iagens na memó ia) um no o espaço empo al signi ica