Resumo
O p esen e es udo p opõe-se a analisa a o ma como Cla ice Lispec o
desen ol eu sua e lexão sob e a condição da mulhe a a és da esc i a
li e á ia e jo nalís ica. Apesa de e cons an emen e ejei ado o ó ulo
de eminis a, o conjun o da ob a da esc i o a b asilei a pa ece aça um
pe cu so de libe ação dos pad ões sociais: uma ap endizagem do “se
mulhe ” que p escinde de qualque concei o de gêne o.
Re e indo-se p incipalmen e às e lexões de Judi h Bu le e de Pie e
Bou dieu, al aspec o se á ap o undado a a és da analise das páginas e-
mininas, publicadas sob pseudônimos en e os anos 50 e 60, e o omance
Uma ap endizagem ou Li o dos p aze s; ex os mui os di e en es en e si,
mas que o e ecem in e essan es pe spec i as em elação ao “se mulhe ”
segundo Cla ice Lispec o .
Pala as-cha e
Cla ice Lispec o ; li e a u a e jo nalismo; páginas emininas; Uma ap en-
dizagem ou O li o dos p aze es.
Abs ac
This s udy aims o analyse he way in which Cla ice Lispec o de eloped
he e lec ion on he condi ion o women h ough li e a y and jou nalis ic
w i ing. Al hough she has cons an ly ejec ed he label o eminis , he
wo ks o he B azilian w i e seems o ace a pa h o libe a ion om so-
cial s anda ds: an app en iceship o “being a woman” ha dispenses wi h
any concep o gende .
Re e ing mainly o he e lec ions o Judi h Bu le and Pie e Bou dieu,
his aspec will be deepened h ough he analysis o he “women’s pages”
published unde pseudonyms be ween he 50s and he 60s, and he no el
An app en iceship o he book o pleasu es; ex s ha a e e y di e en
om each o he bu ha o e in e es ing pe spec i es on “being a wom-
an” acco ding o Cla ice Lispec o .
Keywo ds
Cla ice Lispec o ; li e a u e and jou nalism; women’s pages; An app en i-
ceship o he book o pleasu es.
BEING A WOMAN ACCORDING TO CLARICE
LISPECTOR: AN APPRENTICESHIP BETWEEN
JOURNALISM AND LITERATURE
Re e encia: De C escenzo, L. (2021). Se mulhe segundo Cla ice Lispec o : uma ap en-
dizagem en e jo nalismo e li e a u a. Cul u a La inoame icana, 34(2), pp. 192-209. DOI:
h p://dx.doi.o g/10.14718/Cul u aLa inoam.2021.34.2.8
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SER MULHER SEGUNDO CLARICE
LISPECTOR: UMA APRENDIZAGEM
ENTRE JORNALISMO E LITERATURA
Luigia De C escenzo *
Uni e si à degli S udi Roma T e
DOI: h p://dx.doi.o g/10.14718/Cul u aLa inoam.2021.34.2.8
No mês de se emb o de 1941, quando e a ainda uma es udan e
da Faculdade Nacional de Di ei o do Rio de Janei o, Cla ice Lis-
pec o publicou na e is a uni e si á ia, A Época, a enque e De e a
mulhe abalha ?. A a és dos depoimen os dos colegas de cu so,
a es udan e de di ei o ap esen a as azões a a o ou con a a com-
plexa ques ão do papel da mulhe na sociedade coe a e das mudan-
ças que es a am oco endo sob e udo no âmbi o do abalho e da
educação eminina. A jo em Cla ice não decla a explici amen e sua
posição, mas coloca a ques ão «no sábio e p uden e meio e mo»
(Lispec o , 2012, p. 72) não o e ecendo espos as e ab indo um es-
paço de e lexão sob e a ealidade social da época, como se pode
obse a no seguin e echo:
To nou-se elho o p oblema da mulhe , embo a da e apenas da G ande
Gue a, an o oi ele isado e es udado. De e ou não de e ela es ende
suas a i idades pelos á ios se o es sociais? De e, ou não, ol a suas is-
as ambém pa a o a do la ? De um lado – ap esen a-se-nos ela seguindo
apenas seu e e no des ino biológico, e de ou o – a no a mulhe , escolhen-
do li emen e seu caminho.
* Dou o a em Es udos Eu o-Ame icanos pela Uni e sidade Roma T e e pesquisado a de Li e-
a u a Po uguesa e B asilei a no Depa amen o de Línguas, Li e a u a e Cul u as Es angei as
da mesma uni e sidade. Os seus es udos concen am-se p incipalmen e no âmbi o da li e a u a
po uguesa e b asilei a dos séculos XIX e XX, com pa icula e e ência à li e a u a eminina. É
au o a de á ios ensaios e a igos cien í icos en e os quais a monog a ia Cla ice Lispec o . Co pi
disciplina i, co pi (dis)obbedien i (Roma, No a Delphi Academia, 2019).E-mail: luigia.dec escenzo
@uni oma3.i
Es e a igo az pa e de um p oje o da Uni e si à degli S udi Roma T e.
Fecha de ecepción: 28 de agos o de 2021; echa de acep ación: 20 de sep iemb e de 2021.
194 Cul u a La inoam. Volumen 34, núme o 2, julio-diciemb e 2021, pp. 192-209
LUIGIA DE CRESCENZO
De um lado, a casa, comp eendendo ilhos e ma ido, exigindo abnegação
cons an e. De ou o, a e olução dos cos umes e dos ideais, lançando-a no
conhecimen o de si mesma e de suas possibilidades. (Lispec o , 2012, p. 71)
Embo a a jo em es udan e não ome pa ido, suas pala as pa e-
cem ques iona , de o ma indi e a, os alo es adicionais que a i-
buíam à mulhe o papel exclusi o de esposa e mãe, en a izando a
impo ância da e olução dos cos umes e dos ideais pa a que a mulhe
pudesse se mais li e e desen ol e a p óp ia au oconsciência. Ao
compa a a imagem da no a mulhe àquela ligada a uma conceção
mais conse ado a, Cla ice dá su ilmen e a en ende sua opinião, es-
boçando, de ce o modo, aquele peculia «p ocedimen o da dissimu-
lação» (Go lib, 2013, p. 343) que cons i ui á um elemen o essencial
das na a i as da u u a esc i o a. Dessa o ma, o ex o publicado em
A Época cons i ui uma in e essan e p emissa pa a analisa a o ma
como Cla ice desen ol eu sua e lexão sob e a condição da mulhe
a a és da esc i a li e á ia e jo nalís ica; nesse sen ido, é impo an-
e salien a que a pe spec i a cla iceana nunca assumiu um ca á e
ideológico nem se o nou numa posição decla adamen e eminis a,
mas con es a a a ó ica hie a quizan e e a uni ocidade do modelo pa-
ia cal p opondo o econhecimen o da al e idade e da mul iplicidade
de se mulhe a a és da cons ução de um caleidoscópico uni e so
eminino. Como a i ma Lucia Helena:
A ob a de Lispec o – ao ala sob e a condição da mulhe e ao insc e ê-la
como sujei o da es ó ia e da his ó ia – não se limi a à pos u a ep esen-
acional de espelha al qual o mundo pa ia cal e denunciá-lo, como se
o a uma na a i a de ex ação neona u alis a. Nela se cons ói, is o sim,
um campo de medi ação (e de mediação) em que se me gulha undo no
ques ionamen o das elações en e a li e a u a, a ealidade e a sociedade
(Helena, 2010, p. 96).
Nos seus ex os, Cla ice não denuncia abe amen e a si uação de
op essão e subo dinação das mulhe es na sociedade, nem delineia
uma imagem eminina es á ica e ixa; pelo con á io, a a és do jo -
nalismo e da li e a u a, a au o a de Pe o do Co ação Sel agem aça
um caminho de e olução que le a suas pe sonagens – e, num ce o
sen ido, ela mesma – a pô em causa os p econcei os e os ínculos
que condicionam suas exis ências. Nos ex os de Cla ice Lispec o ,
as ci cuns âncias ex e nas ep esen am me os aspec os ac uais de
uma ealidade mais complexa e di ícil a se cap ada pela lógica e pela
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ENTRE JORNALISMO E LITERATURA
linguagem humana pois não se a a simplesmen e de mimese ou de
um «espelhamen o ‘sel agem’ […] en e au o ia eminina e eminis-
mo» (Helena, 2010, p. 95), mas sim da con igu ação de um espaço
de ein e p e ação dos pad ões sociais e de busca de uma dimensão
mais au ên ica do se pa a além do ideal de gêne o concebido como
cons ução social. De aco do com Luce I iga ay, de ac o:
Qualque eo ia do “sujei o” é semp e conside ada ap op iada pa a o
“masculino”. Ao sujei a -se a ela, a mulhe enuncia inconscien emen e
à especi icidade de sua elação com o imaginá io. Em ou as pala as, ela
se coloca na si uação de se obje i icada – como “ eminino” - pelo discu -
so. Ela mesma en ão se e-obje i ica quando a i ma iden i ica -se “como”
um sujei o masculino. […] A subje i idade negada à mulhe , es a é sem
dú ida a hipo eca com a qual oda cons i uição i edu í el do obje o é
ga an ida: o obje o da ep esen ação, do discu so, do desejo. (I iga ay,
2010, p. 129)1
Como já obse amos, no caso de Cla ice Lispec o não se pode
ala de um engajamen o eminis a s ic o sensu, oda ia, sua esc i a
pa ece delinea uma aje ó ia de essigni icação do luga simbólico
do sujei o eminino p escindindo das oposições e do bina ismo es a-
belecidos cul u al e socialmen e. Nesse sen ido, as igu as emininas
que habi am a icção e, mais em ge al, a esc i a cla iceana pa ecem
enca na os á ios es ágios de um p ocesso de “ap endizagem” do se
no mundo que en ec uza ida e a e, li e a u a e jo nalismo, ul apas-
sando a dema cação en e qualque gêne o e con luindo na p o unda
e lexão exis encial e exp essi a da au o a. As pala as “masculinas”
a a és das quais é de inido cul u almen e o sujei o eminino não
pe mi em – segundo a i ma ambém I iga ay – o econhecimen o de
sua indi idualidade e negam a possibilidade de sua a i mação o a
dos pad ões pa ia cais, cons i uindo, na pe spec i a cla iceana, um
obs áculo àquela en a i a, ema izada sob e udo na sua p odução
li e á ia, de «sai do inau ên ico pa a inicia a busca de si mesmos»
(Nunes, 2009, p. 126). A e lexão sob e a condição eminina conjuga-
-se, po an o, à incessan e busca exp essi a de Cla ice ao ques iona
a elação en e linguagem e ealidade, pala a e coisa, pois na ob a
da esc i o a, como a i ma Benedi o Nunes (2009, p. 126), «a lingua-
gem […] en ol e o p óp io obje o da na a i a, ab angendo o p oble-
ma da exis ência, como p oblema da exp essão e da comunicação».
1. O echo oi ci ado da edição i aliana. A adução pa a o po uguês é da au o a do a igo.
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LUIGIA DE CRESCENZO
A ques ão da linguagem cons i ui, de ac o, o ce ne de uma esc i a
que p oblema iza a capacidade das pala as e, po conseguin e, da
li e a u a de cap a o sen ido au ên ico da exis ência, pois, de aco do
com Nunes (2009, p. 127), «à medida que alamos de nós mesmos,
p ocu ando exp essa -nos, as pala as, dizendo de mais ou de me-
nos, o mam uma casca e bal, que ci cunda com seus signi icados
o âmago da pe sonalidade, acabando po se con e e numa imagem
p o isó ia, po ém ine i á el, do nosso p óp io se ».
Ao en a exp essa o incognoscí el da expe iência humana, de
ac o, Cla ice sub e e as o mas es abelecidas azendo a linguagem
dob a -se sob e si mesma como se, em luga de esc e e o ex o, o
«desesc e esse, conseguindo um e ei o mágico de e luxo da lingua-
gem que deixa à mos a o “aquilo”, o inexp essado» (Nunes, 2009,
p 132); es e p ocesso, de inido po Benedi o Nunes (2009, p. 132)
« écnica de desgas e», pa ece es azia as pala as do sen idos con-
encionais ompendo aquela “casca e bal” que en ol e a exis ência.
O abalho sob e a linguagem é, com e ei o, uma cons an e na ob a
de Cla ice que pode se lida, segundo Nádia Ba ella Go lib, como
«a cons ução e o pe cu so em di eção a uma libe ação»2 a a és de
uma esc i a à p ocu a de o mas exp essi as em con ínua ans o ma-
ção; à ei e ação de emas e mo i os co esponde um mo imen o de
eno ação da linguagem que, ao es u u a uma no a pe ceção da ea-
lidade, desmis i ica as con enções e os luga es comuns c is alizados
na cul u a e nas elações sociais. Nesse sen ido, como suge e Vilma
A êas (2005, p. 15), «é como se Cla ice i esse esc i o apenas um li o
du an e oda a ida», pois, sua e lexão exis encial a a essa oda sua
ob a, con igu ando uma coe ência emá ica a a és da agmen ação
das o mas e ques ionando o eal e os limi es de sua ep esen ação.
Po isso, no p esen e es udo, a análise da con igu ação de um es-
paço de isibilidade pa a a mulhe na ob a cla iceana não é limi ada
aos ex os li e á ios, mas segue “o pe cu so de libe ação” açado
pela au o a, de o ma emb ioná ia, já no ex o publicado na e is a
uni e si á ia e nas páginas emininas (assinadas com pseudônimos),
supe ando assim as dico omias de (qualque ) gêne o. É dessa o ma
que se p e ende essal a , en ão, a o ça deses abilizado a da esc i a
de Cla ice em elação ao sis ema simbólico que a ibui aos homens e
às mulhe es iden idades con o madas com «pad ões econhecí eis de
2. B e e exce o da con e ência ap esen ada du an e o encon o Cla ice Lispec o : sop os de ida
ealizado no âmbi o do p og ama Diálogos Necessá ios (30 de agos o de 2020). Vídeo na ín eg a
disponí el na pla a o ma #Cul u aEmCasa: h ps://cul u aemcasa.com.b / ideo/nadia-ba ella-
go lib-e ando-nascimen o-e-joao-ceza -de-cas o- ocha-dialogos-necessa ios/
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SER MULHER SEGUNDO CLARICE LISPECTOR: UMA APRENDIZAGEM
ENTRE JORNALISMO E LITERATURA
in eligibilidade do gêne o» (Bu le , 2003, p. 37), pois, como explica
Judi h Bu le :
The symbolic is unde s ood as he no ma i e dimension o he cons i u-
ion o he sexed subjec wi hin language. I consis s in a se ies o demands,
aboos, sanc ions, injunc ions, p ohibi ions, impossible idealiza ions, and
h ea s — pe o ma i e speech ac s, as i we e, ha wield he powe o
p oduce he ield o cul u ally iable sexual subjec s: pe o ma i e ac s,
in o he wo ds, wi h he powe o p oduce o ma e ialize subjec i a ing
e ec s. (Bu le , 1993, p. 106)
Segundo Bu le – na es ei a da pe spec i a ilosó ica de Michel
Foucaul – o sujei o sexuado é p oduzido a pa i de uma ede de
pode e sabe que quali ica o “se humano” (C . Bu le , 1993, p. 8)
a a és da epe ição de no mas e p á icas discu si as de gêne o as
quais, po sua ez, ealizam as condições pa a que a subje i ação seja
possí el e insc e em os co pos no âmbi o da in eligibilidade social;
po an o, a iden idade de gêne o não é p eexis en e à linguagem mas é
cons uída po e a pa i de p á icas discu si as. Po isso, a iloso a as-
socia o gêne o ao concei o de pe o ma i idade, pois, a na u alização
da no ma de i a da epe ição de uma sé ie de a os que disciplinam as
possí eis o mas pelas quais a sexualidade se exp ime, ma e ializando
nos co pos aquilo que nomeia. Nas pala as de Bu le :
“Sex” is always p oduced as a ei e a ion o hegemonic no ms. This p o-
duc i e ei e a ion can be ead as a kind o pe o ma i i y. Discu si e
pe o ma i i y appea s o p oduce ha which i names, o enac i s own
e e en , o name and o do, o name and o make. Pa adoxically, how-
e e , his p oduc i e capaci y o discou se is de i a i e, a o m o cul u al
i e abili y o ea icula ion, a p ac ice o esigni ica ion, no c ea ion ex
nihilo. Gene ally speaking, a pe o ma i e unc ion o p oduce ha which
i decla es. As a discu si e p ac ice (pe o ma i e “ac s” mus be epea ed
o become e icacious), pe o ma i es cons i u e a locus o discu si e p o-
duc ion. No “ac ” apa om a egula ized and sanc ioned p ac ice can
wield he powe o p oduce ha which i decla es. Indeed, a pe o ma-
i e ac apa om a ei e a ed and, hence, sanc ioned se o con en ions
can appea only as a ain e o o p oduce e ec s ha i canno possibly
p oduce. (1993, p. 107)
Baseada p incipalmen e nas e lexões o muladas po J. L. Aus in
e J. Sea le no âmbi o da Speech Ac s Theo y, a pe o ma i idade de
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LUIGIA DE CRESCENZO
gêne o implica a epe ição i ualizada de a os – não apenas linguís i-
cos – que p oduzem os e ei os que exp essam, modelando especí icas
manei as de se em elação ao sexo. Como a i ma Bu le : «o gêne o é a
es ilização epe ida do co po, um conjun o de a os epe idos no in e-
io de uma es u u a egulado a al amen e ígida, a qual se c is aliza
no empo pa a p oduzi a apa ência de uma subs ância, de uma classe
na u al de se » (Bu le , 2003, p. 59).
A iden idade de gêne o não é, en ão, a mani es ação de uma essên-
cia biologicamen e de e minada ou, simplesmen e, uma cons ução
cul u al, mas o p odu o da ei e ação de a os e a i udes que de inem
os papéis e as ca a e ís icas dos dois sexos, es abilizando o bina ismo
e a hegemonia da no ma masculina e he e ossexis a. A ep odução de
pad ões designados como masculino e eminino não é, na u almen e,
um a o olun á io, mas é u o da in e io ização de discu sos e p á i-
cas sociais po e ei o das quais o indi íduo ica “p eso” numa ede de
imposições (nem semp e e iden es) que moldam sua condu a, ges os
e ações, limi ando ine i a elmen e sua libe dade. Daí que essas pa i-
cula es disposições ou habi us – segundo a de inição de Pie e Bou -
dieu – uncionem como «ma izes das pe cepções, dos pensamen os
e das ações de odos os memb os da sociedade, como anscenden ais
his ó icos que, sendo uni e salmen e pa ilhados, impõem-se a cada
agen e como anscenden es» (Bou dieu, 2012, p. 45), legi imando as
elações de domínio e, po conseguin e, a assim chamada iolência
simbólica ins i uída, de aco do com o sociólogo ancês:
po in e médio da adesão que o dominado não pode deixa de concede
ao dominan e (e, po an o, à dominação) quando ele não dispõe, pa a
pensá-la e pa a se pensa , ou melho , pa a pensa sua elação com ele,
mais que de ins umen os de conhecimen o que ambos êm em comum e
que, não sendo mais que a o ma inco po ada da elação de dominação,
azem es a elação se is a como na u al; ou, em ou os e mos, quando
os esquemas que ele põe em ação pa a se e e se a alia , ou pa a e e
a alia os dominan es (ele ado/baixo, masculino/ eminino, b anco/neg o
e c), esul am da inco po ação de classi icações, assim na u alizadas, de
que seu se social é p odu o. (Bou dieu, 2012, p. 47)
Os habi us, masculinos e emininos, co espondem a uma cons-
ução simbólica do «mundo social e suas a bi á ias di isões» (Bou -
dieu, 2012, p. 17) indissolu elmen e ligada ao co po e, em pa icula ,
às di e enças ana ômica en e os sexos que es abelecem e, de ce a
o ma, jus i icam as elações de dominação; no caso especí ico da
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SER MULHER SEGUNDO CLARICE LISPECTOR: UMA APRENDIZAGEM
ENTRE JORNALISMO E LITERATURA
mulhe , a expe iência p á ica do co po az com que “o se eminino”
seja semp e um “se -pe cebido”, pois, o co po é «incessan emen e
expos o à obje i ação ope ada pelo olha e pelo discu so dos ou os»
(Bou dieu, 2012, p. 79). A dimensão co po al da mulhe é, com e ei o,
obje i icada po injunções e p esc ições que são ap eendidas, incons-
cien emen e, «a a és de uma disciplina incessan e, ela i a a odas as
pa es do co po» (Bou dieu, 2012, p. 38) e que es u u am o mas de
se socialmen e econhecidas. Nes a pe spec i a, es a adesão mimé-
ica, e in olun á ia, a um “modelo eminino” na u aliza a hie a quia
en e os gêne os po que:
A dominação masculina, que cons i ui as mulhe es como obje os simbóli-
cos, cujo se (esse) é um se -pe cebido (pe cipi), em po e ei o colocá-las
em pe manen e es ado de insegu ança co po al, ou melho , de dependên-
cia simbólica: elas exis em p imei o pelo, e pa a, o olha dos ou os, ou
seja, enquan o obje os ecep i os, a aen es, disponí eis. Delas se espe a
que sejam “ emininas”, is o é, so iden es, simpá icas, a enciosas, submis-
sas, disc e as, con idas ou a é mesmo apagadas. E a p e ensa “ eminilida-
de” mui as ezes não é mais que uma o ma de aquiescência em elação
às expec a i as masculinas, eais ou supos as, p incipalmen e em e mos
de eng andecimen o do ego. Em conseqüência, a dependência em elação
aos ou os (e não só aos homens) ende a se o na cons i u i a de seu se .
(Bou dieu, 2012, p. 82)
A dependência do olha do ou o o na-se, po an o, numa a i u-
de in oje ada pela mulhe cons i uindo uma ma ca de sua posição
subo dinada den o do discu so masculino, ou de sua exclusão de
uma ce a o dem do discu so. Nesse sen ido, e ela-se o esquema de
coe ções pelo qual a ua a pe o ma i idade de gêne o, pois, a a és da
de inição – ou denominação – do eminino, c ia um sujei o socialmen-
e in eligí el, um “se humano”, elegando na dimensão do abje o os
indi íduos que não co espondem aos pad ões es abelecidos.
É, jus amen e, a pa i desse enquad amen o eó ico que o p esen e
abalho p e ende in e p e a alguns ex os – li e á ios e jo nalís icos –
de Cla ice como uma eesc i a sub e si a das « icções egulado as que
consolidam e na u alizam egimes de pode con e gen es de op essão
masculina e he e ossexis a» (Bu le , 2003, p. 59); uma con ana a i a es-
ilhaçada numa cons elação de di e en es manei as de se mulhe que aqui
se ão analisadas p incipalmen e a pa i da “ap op iação” de um gêne o
es anda dizado como as colunas emininas e ambém a a és da igu a de
200 Cul u a La inoam. Volumen 34, núme o 2, julio-diciemb e 2021, pp. 192-209
LUIGIA DE CRESCENZO
Ló i, p o agonis a do omance Uma ap endizagem ou O li o dos p aze es
(1969). Como obse a Lucia Helena, de ac o:
sua na a i a p ocessou a c í ica da ecnologia de gende que u diu as ima-
gens da e a-mãe e da mulhe con inada aos limi es do la e da amília,
mas ambém con inada aos pode osos limi es da p óp ia incapacidade de
descen a -se dos símbolos in e nalizados. Ao des abiliza os es e eó ipos
de gende e as o mas de a iculação do pode , ins alados pelo pa ia cado,
Lispec o ambém asu a as bases do essencialismo. (Helena, 2010, p. 93)
Embo a Cla ice Lispec o não se conside asse uma jo nalis a, po
um longo pe íodo de sua ida, colabo ou, de á ias o mas, com jo -
nais e e is as b asilei as, p oduzindo um as o e di e si icado epe -
ó io de ex os. A elação de Cla ice com a imp ensa oi um an o
con o e sa: po um lado, cons i uía um obs áculo ao desejo da esc i-
o a de dedica -se exclusi amen e à li e a u a, mas po ou o, se iu
de apoio à sua p odução li e á ia. O con a o com o jo nalismo acom-
panhou e a é an ecedeu sua ca ei a li e á ia e oi jus amen e a a és
de pe iódicos e e is as que Lispec o conseguiu ansmi i seus ex-
os li e á ios a um público mais amplo de lei o es e, de ce a o ma,
supe a a elu ância a publica suas ob as mani es ada po algumas
edi o as.
A a uação de Cla ice na imp ensa começou, em 1940, com a publi-
cação do con o T iun o no semaná io Pan, seguido po ou as publi-
cações em jo nais e e is as como o pe iódico li e á io Dom Casmu o
e o jo nal Diá io do Po o. No início dos anos 40, oi con a ada como
epó e pela Agência Nacional, ó gão do Depa amen o de Imp ensa
e P opaganda (DIP) do go e no Ge úlio Va gas e, no mesmo pe íodo,
colabo ou com A Época, e is a da Faculdade Nacional de Di ei o,
publicando os a igos Obse ações sob e o undamen o do di ei o de
puni e De e a mulhe abalha ?. Ao mesmo empo, a jo em Cla ice
abalhou com o g upo edi o ial A Noi e, publicando con os, adu-
ções, epo agens e en e is as, inicialmen e no semaná io Vamos Le !
e depois no jo nal A Noi e.
Numa época em que a maio ia das mulhe es ainda es a a elegada
ao papel de esposa e mãe, Cla ice oi um exemplo de emancipação e
independência eminina, o nando-se numa das p imei as mulhe es a
abalha como epó e no B asil (Nunes, 2006, pp. 64-65). No âm-
bi o da colabo ação com A Noi e, Lispec o ob e e o egis o p o is-
sional de jo nalis a e, a a és do mesmo g upo edi o ial, conseguiu
publica seu p imei o omance, Pe o do co ação sel agem (1943), que
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SER MULHER SEGUNDO CLARICE LISPECTOR: UMA APRENDIZAGEM
ENTRE JORNALISMO E LITERATURA
Ves iu um es ido mais ou menos no o, p on a que que ia es a pa a en-
con a algum homem, mas a co agem não inha. En ão, sem en ende o
que azia – só o en endeu depois – pin ou demais os olhos e demais a boca
a é que seu os o b anco de pó pa ecia uma másca a: ela es a a pondo
sob e si mesma alguém ou o: esse alguém e a an as icamen e desinibido,
e a aidoso, inha o gulho de si mesmo. Esse alguém e a exa amen e o
que ela não e a. (Lispec o , 1998, p. 84)
Esse ou o é a másca a social que cob e suas eições e que a o na
i econhecí el, mas é, ambém, Ulisses que guia sua ap endizagem do
«sen ido da exis ência indi idual» (Nunes, 1989, p. 81) pa a que Ló i
seja p epa ada pa a uma comple a união co po al. Como oi assina-
lado po alguns es udiosos, en e os quais Benedi o Nunes e Vilma
A êas, o papel de Ulisses na na ação pa ece de ce a o ma con i ma
a supe io idade da pe sonagem masculina em elação àquela emini-
na, oda ia, no omance se ealiza ambém uma in e são desses pa-
péis que es abelece um equilíb io, neu alizando as di e enças en e
os dois. A a és do olha de Ulisses, que não obje i ica a mulhe , e
do encon o amo oso e ísico, Ló i (des)ap eende, e e i amen e, a se
mulhe segundo as expec a i as dos ou os o nando-se li e a a és
dos p aze es do co po; an es de ama Ulisses, ela ap eende, de ac o,
a ama a si mesma, como e ela es e belíssimo e signi ica i o echo:
Aí es a a o ma , a mais inin eligí el das exis ências não-humanas. E ali
es a a a mulhe , de pé, o mais inin eligí el dos se es i os. Como o se
humano ize a um dia uma pe gun a sob e si mesmo, o na a-se o mais
inin eligí el dos se es onde ci cula a sangue. Ela e o ma . Só pode ia ha-
e um encon o de seus mis é ios se um se en egasse ao ou o: a en ega
de dois mundos incognoscí eis ei a com a con iança com que se en ega-
iam duas comp eensões.
Ló i olha a o ma , e a o que podia aze . Ele só lhe e a delimi ado pela
linha do ho izon e, is o é, pela sua incapacidade humana de e a cu a-
u a da Te a.
[…] Seu co po se consola de sua p óp ia exiguidade em elação à as idão
do ma po que é a exiguidade do co po que o pe mi e o na -se quen e e
delimi ado, e o que a o na a pob e e li e gen e, com sua pa e de libe -
dade de cão nas a eias. Esse co po en a á no ilimi ado io que sem ai a
uge no silêncio da mad ugada.
A mulhe não es á sabendo: mas es á cump indo uma co agem. Com a
p aia azia nessa ho a, ela não em o exemplo de ou os humanos que
208 Cul u a La inoam. Volumen 34, núme o 2, julio-diciemb e 2021, pp. 192-209
LUIGIA DE CRESCENZO
ans o mam a en ada no ma em simples jogo le iano de i e . Ló i es á
sozinha. O ma salgado não é sozinho po que é salgado e g ande, e isso
é uma ealização da Na u eza. A co agem de Ló i é a de, não se con-
hecendo, no en an o p ossegui , e agi sem se conhece exige co agem.
(Lispec o , 1998, pp. 78-79)
O encon o en e duas na u ezas di e en es anula, po an o, qual-
que oposição, e elando numa « ealização da Na u eza» a ances al
união en e odos os en es e um p o undo conhecimen o de si mesma.
Cu iosamen e, es a passagem oi publicada, em momen os di e-
en es, ambém no Jo nal do B asil: a p imei a, em 1968, com o í ulo
Ri ual – echo e, sucessi amen e, em 1973, com o í ulo As águas do
ma ; não sendo p op iamen e uma c ônica, es e ex o pa ece emble-
má ico daquele p ocedimen o de “sub e são de gêne os” que pe -
meia a esc i a cla iceana, en elaçando li e a u a e jo nalismo, ida e
página esc i a, pois, Cla ice, ao en a a ingi o âmago dos sen imen os
humanos «os insc e e na p óp ia o ma que p ocu a es emunhá-los.
Ela “pe o ma”, como se diz; ela e e ua em sua o ma isso de que ela
a a» (P ado J ., 1989, p. 21), desen ol endo uma p o unda e lexão
que desmancha qualque sabe codi icado.
É, po an o, no sen ido da labilidade de gêne o na esc i a de Cla-
ice Lispec o que se ocou a p esen e análise da e lexão da esc i o a
em elação à ques ão eminina. Um assun o as o e complexo que o e-
ece mui as pe spe i as a se ap o undadas em ou os es udos po que
“se mulhe ” segundo Cla ice Lispec o oi um p ocesso em cons an e
cons ução e que se eno a a cada lei u a de seus ex os icando, po-
ém, inde iní el, al como sua ob a: um «seg edo igno ado po odos
e a é pelo espelho: mulhe » (Lispec o , 1999, p. 154).
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