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Escamoteamentos socioculturais e sociolinguísticos: políticas colonizantes e efeitos híbridos

Author: Lima Hernandes, Maria Célia
Year: 2021
DOI: http://dx.doi.org/10.14718/CulturaLatinoam.2021.33.1.3
Source: http://elea.unisa.it/xmlui/bitstream/10556/6325/5/Lima-Hernandes%2c%20M.%20C.%20Cultura%20Latinoamericana%2c%202021.pdf
Resumo
A p opos a que o mulo nes e a igo é uma e lexão sob e os mé odos ado-
ados numa mesma lógica colonizan e an o no B asil quan o em Macau. Ao
longo do ex o, ap oximo a ca ac e ização social e a concepção de hib i-
dez do que conside amos ca ego ias es anques na Ciência da Linguagem.
Como en a i a cien í ica de inco po a a mig ação humana no con ex o da
supe di e sidade linguís ica, e idenciamos alguns p oblemas ad indos da
adesão aos ó ulos ge ados ao longo do século XX na Linguís ica e azemos
uma concepção mais elás ica de língua incluindo aços iden i á ios nessa
discussão, já que se híb ido pode se uma an agem em alguns momen os
e uma g ande des an agem em ou os. Pa a es e es udo, mobiliza ei dois
casos especí icos: o do mameluco (índio e po uguês → eu oame icano) e o
do macaense (chinês e po uguês → eu oasiá ico), ilhos da e a e bicul u ais
em essência. A pa i deles, discu i emos os e ei os híb idos deco en es da
polí ica colonizan e.
Pala as-cha e
Hib idez cul u al, macaense, mameluco, ca uso.
Abs ac
The p oposal ha I o mula e in his esea ch a icle is a e lec ion abou
me hods adop ed in he same colonizing logic bo h in B azil and in Macau.
Th oughou he ex , I b ing social cha ac e iza ion and he concep o hyb id-
i y close o wha we conside o be wa e igh ca ego ies in he Science o Lan-
guage. As a scien i ic a emp o inco po a e human mig a ion in he linguis ic
supe di e si y con ex , we ha e highligh ed some p oblems a ising om ad-
he ence o labels gene a ed o e he 20 h cen u y in Linguis ics and b ing a
mo e wide concep ion o language including iden i y ai s in his discussion,
since being hyb id can be an ad an age in some momen s and a losses in o h-
e s. Fo his s udy, I will mobilize wo speci ic cases: he mameluco (Indian and
Po uguese → Eu oame ican) and he Macanese (Chinese and Po uguese →
Eu oasian), child en o he land and bicul u al in essence. F om hem, we will
discuss he hyb id e ec s esul ing om he colonizing policy.
Keywo ds
Cul u al hyb idi y, Macanese, Mameluco.
Re e encia: Lima-He nandes, M. C. (2021). Escamo eamen os sociocul u ais e sociolinguís icos:
polí icas colonizan es e e ei os híb idos. Cul u a La inoame icana, 33(1), pp. 32-51. DOI: h p://
dx.doi.o g/10.14718/Cul u aLa inoam.2021.33.1.3
SOCIOCULTURAL AND SOCIOLINGUISTIC
SHIFTS: COLONISING POLITICS
AND HYBRID EFFECTS
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ESCAMOTEAMENTOS
SOCIOCULTURAIS E
SOCIOLINGUÍSTICOS:
POLÍTICAS COLONIZANTES
E EFEITOS HÍBRIDOS
Ma ia Célia Lima-He nandes *
Uni e sidade de São Paulo
DOI: h p://dx.doi.o g/10.14718/Cul u aLa inoam.2021.33.1.3
In odução
Es e ex o consubs ancia-se como subsídio ao es udo das he anças
sociocul u ais e sociolinguís icas em que es á implicada a supe di e -
sidade. Pa a cump i esse obje i o, o na-se p emen e a e omada de
alguns con ex os especí icos que jus i iquem aba ca um mais amplo
espec o nas de inições sinc ônicas. In a ia elmen e, os es udos so-
b e he anças cul u ais, em especial ocalizando as línguas em con a o,
p essupõem a exis ência de um con ex o de línguas pu as que se en-
con am po mo i o de mig ação. Esse con ex o, como e ei opo u-
nidade de demons a , não acolhe ou as possibilidades de ealidades
implicados na his ó ica de con a os linguís icos no B asil e em Macau.
Essa é a azão po que isolei dois enquad amen os dis an es geo-
g a icamen e, o do he dei o de língua asiá ica (Macau, hoje RAEM,
China) —que desconhecia uma de suas línguas de he ança— e o he -
dei o de língua b asilei a (Bahia, B asil) que desconhecia a his ó ia de
sua amília, com implicações pa a o sob enome amilia . Demons a-
ei que ou as azões e con ex os podem ma iza o p ocesso que em
* Dou o a em Linguís ica (Unicamp), Mes e em Neu ociências (Uni e sidad Eu opea Miguel de
Ce an es), Mes e em Filologia e Língua Po uguesa (USP). P o esso a Ti ula da Uni e sidade
de São Paulo e pesquisado a de Línguas em ex inção, línguas de he ança e línguas de aiz em seus
aspec os sociocogni i os no G upo de Pesquisa Linguagem e Cognição (LinC-USP). Con a o:
[email p o ec ed]
O p esen e a igo é esul ado de pesquisa ealizada na China como pesquisado a inanciada, em
á ias e apas, pela CAPES, CNPq e FAPESP.
Fecha de ecepción: 15 de ene o de 2021; echa de acep ación: 20 de eb e o de 2021.
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MARIA CÉLIA LIMA-HERNANDES
sido mais ge almen e acei o pa a o emp ego do ó ulo, especialmen e
se conside a mos a supe di e sidade implicada em cada geog a ia en-
do em is a as dinâmicas humanas (Ve o ec, 2007).
Hib idez e dinâmicas na sociedade e na Ciência
Vá ios são os a o es que desembocam no que en endemos po
supe di e sidade. Na concepção de Ve o ec (2007), su ge a ideia de
que as ciências p ecisam a ança nessa ques ão, e isando a o ma de
olha pa a os luxos mig a ó ios líquidos, pois, a depende dos países
en ol idos, das línguas ma e nas implicadas, das eligiões em con a o,
dos canais de mig ação e do es a u o da imig ação, os esul ados e
e ei os podem se di e en es. Essas ideias do au o suge em a e i ica-
ção dos quad os his ó icos de colonização e o ja gão écnico emanado
desse con ex o.
Tendo isso em men e, de ini Línguas de He ança (LH) em sido
já mui o menos d amá ico pa a o campo de pesquisas linguis as, pois
esses es udiosos já i e am um eno me impac o de es udos sinc ôni-
cos que passa am a ganha iden idade p óp ia, saída dos es udos da
Linguís ica Aplicada ol ados pa a o es udo de L2 ou —como consi-
de o p e e í el— de línguas adicionais. Com o passa do empo, ou-
os con ex os de con a o linguís ico passa am a se discu idos, endo
em is a a ica expe iência de a iados pesquisado es (Sa in, 2016;
Mo oni, 2017; Win e le-Jennings & Lima-He nandes, 2015; Gonçal-
es & Melo-P ei e , 2020), e isso p opiciou que um no o deba e se
ins au asse com ques ões bem in e essan es, ais como aquelas ela-
i as à mo i ação da dinâmica emp eendida pelo indi íduo: o con-
ex o da imig ação olun á ia se ia o único a pe mi i iden i ica as
LHs? As espos as ainda êm sido o muladas po meio de es udos
pon uais de con ex os híb idos em oda pa e do mundo en ol en-
do línguas em con ex o a iado de con a o (Weiwei & Shin, 2020;
Kim, 2020; Wilkinson & Wong, 2021; Fahik, Ra miningsih & Adya-
ni, 2021; Comio o, Mo a & Soa es, 2020; Calossa & Flo es, 2020;
Bi, 2013; Mendonça, 2015; Kuhlmann, 2018; Lima-He nandes, 2009;
Lima-He nandes & Teixei a e Sil a, 2019; Spaziani, 2016; Teixei a e
Sil a & Lima-He nandes, 2012, 2014, 2020; den e ou os) e adicio-
nalmen e elas e elam a supe di e sidade implicada em cada paisa-
gem linguís ica, ainda que paisagens ou as su jam embu idas nessas
paisagens p ima iamen e islumb adas.
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ESCAMOTEAMENTOS SOCIOCULTURAIS E SOCIOLINGUÍSTICOS:
POLÍTICAS COLONIZANTES EFEITOS HÍBRIDOS
O que es ou a i mando é que, independen emen e do con ex o
coloniza ó io, já ha ia no B asil e em Macau uma supe di e sidade
que pode ia se medida po pa âme os que ogem à Sociolinguís-
ica mode na. Assim como em Lond es —con ex o de discussão de
Ve o ec (2007)—, no B asil, é possí el epensa esse modelo eó-
ico pa a, assim, alcança a di e si icação da di e sidade. Embo a
pa eça um an o pleonás ica a e e ência, a lógica dos es udos so-
ciolinguís icos ao longo do século XX o am consolidando algumas
a iá eis p io izadas e expo adas po es udos no e-ame icanos,
p incipalmen e. No B asil, o a o classe social é mui o mais comple-
xo do que se pode supo . Isso não signi ica epa a que há á ias e -
nias e es amen os sociais guiados pela p odução de iqueza. Seque
es ou adicionando o a o da imig ação ao longo dos séculos pa a
lida com o componen e é nico, ou seja, não que dize que haja
somen e mais países de o igem en ol idos na ques ão. A p e ensão
é p o oca o exe cício de econhecimen o de uma ealidade em que
age uma mul iplicação de a iá eis signi ica i as que a e am onde,
como e com quem as pessoas con i em, mesmo po que a iados
p oblemas ad êm do a o de que nem semp e a iden idade de g upo
é acei a pelos p óp ios memb os da comunidade es i a p ocu ada
pelo pesquisado : alguns êm o desejo de se em is os como mem-
b os do g upo majo i á io, o nando-se uma espécie de camaleão;
ou os ejei am o g upo majo i á io e dele se a as am, apegando-se
mais o emen e aos aços de o igem. Os p imei os são capazes de
aden a os dois espaços linguís icos e, po azões mui o mais é nicas
do que de luência global na língua, mig am de um pa a ou o es-
paço com ela i a acei ação e uncionalidade. Os úl imos con i em
apa ados da cul u a local, ainda que enham boa luência na língua
majo i á ia. São casos a ípicos que en ol em mais do que geog a ia
e sociocul u al. En ol e mais adicalmen e concei os de iden idade
e de consciência.
Nesse sen ido, al ez osse p oceden e que o pesquisado -cama-
leão, que pa icipa da dinâmica de con i ências e ambém que colhe
os dados pa a o es udo, pudesse a alia os es a u os di e enciais da
imig ação, o que pedi ia uma isada (i) nos di ei os e es ições de
di ei os, (ii) nas expe iências de me cado de abalho di e gen es, (iii)
na ampli ude dos gêne os iden i á ios, (i ) nos pe is de idade dis in os
en ol idos nessa dinâmica, ( ) nos pad ões de dis ibuição espacial e
( i) nas á eas locais mis as em e mos de p o edo es de se iços e de
esiden es. Podem não esgo a o que se de e analisa , mas, segundo
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MARIA CÉLIA LIMA-HERNANDES
Ve o ec, já se ia um es udo que pe mi i ia chega mais pe o da e-
alidade. A jus i ica i a o e ecida pelo au o baseia-se no a o de que,
no a ual con ex o mundial e de globalização de que azem pa e os es-
paços i ualizados, mais pessoas mig am de á ios e di e sos luga es,
ha endo no as conjunções e in e ações de a iá eis signi ica i as que
su gem como meio de con igu a os pad ões de imig ação. Além dis-
so, ainda segundo ele, a conjunção da e nia com uma sé ie de ou as
a iá eis o na a comunidade supe di e sa e demanda polí icas pú-
blicas que a endam a essas no as composições, aje ó ias, in e ações
e necessidades de se iço público. No B asil e em Macau, i emos
cená ios di e en es de idên icas polí icas públicas pa a lida com essa
massa híb ida. Assim, conside a uma me odologia mul idimensional
pe mi i ia i além do ‘g upo é nico como unidade de análise ou único
obje o de es udo’ (Glick Schille e al. 2006, apud Ve o ec, 2007) e
ambém a o ece ia que o pesquisado ap eciasse a coalescência de
a o es que condicionam a ida das pessoas.
É jus amen e desse luga que p oduzi ei a e lexão. De um luga
em que posso ap ecia a coalescência de a o es que pa eciam ígidos
e assim guia am a lógica social, p oduzindo uma dinâmica i a de pes-
soas dian e do pode público es abelecido e ou a lógica num mundo
in isí el, em que nada é ão ca egó ico e que essas eminiscências em
suas aguezas e lacunas podem anspi a li emen e en e o que se
p e ende homogêneo.
Cená ios de hib idez sociocul u al
Tan o no B asil quan o em Macau, a colonização po uguesa se-
guiu um mesmo i ual. O pano de undo de cada po o colonizado e a
bem di e en e, con udo. No B asil, comunidades indígenas ág a as e
pouco co-o ganizadas habi a am o espaço. Não oi di ícil aos jesuí as
e, depois, à ig eja ca ólica impo uma o ma de i e di e en e. Os
jesuí as e angeliza am alguns indígenas, a ig eja ca ólica zelou pela
cons i uição da amília ca ólica po meio dos i uais de ba ismo, p in-
cipalmen e. Em Macau, comunidades milena es inham naquele pe-
daço de e a um local pa a negócios. Os manda ins já es a am bem
o ganizados e epo a am-se ao go e no chinês os e en os, e elan-
do aí uma co-o ganização endocên ica. Esse e a o modo de man e
uma unidade chinesa em e mos de cuidado com a e a, negócios
e habi an es. A eligião em Macau seguiu o mesmo sc ip do B asil,
no en an o, com a ba ei a de uma condu a já es abelecida ali, o que

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ESCAMOTEAMENTOS SOCIOCULTURAIS E SOCIOLINGUÍSTICOS:
POLÍTICAS COLONIZANTES EFEITOS HÍBRIDOS
di icul ou em mui o a imposição po uguesa. Os manda ins moni o-
a am os passos po ugueses e, em comunhão com o po o chinês,
consegui am e e e á ias ações polí ico-sociais emp eendidas pelos
po ugueses. Es es conside a am-se colonizado es, aqueles o ula am
o con a o em bases negociais, daí o e mo a endamen o1.
No B asil, po sua ez, os indígenas b asilei os, pa a sob e i e em
aos massac es, i e am que se adap a à no a ealidade. Mui os não o
ize am e o am ex in os. As mulhe es indígenas o am as peças un-
damen ais pa a o su gimen o de uma comunidade híb ida. Também
as mulhe es a icanas. O mesmo oco e a em Macau. O ba ismo cole-
i o, o casamen o e os assen os uné eos o am as o mas de hib idiza
a população e con olá-la, mas —sabemos— que nem udo es a a sob
con ole de a o.
O quad o é bem complexo e a his ó ia é digna de no a. Pode se
lida em á ios ma e iais (Rego, 1950, den e ou os), no en an o,
se á p eciso conside a pe spec i as sociolinguís icas e iden i á ias,
as quais ogem à na a i a he oica dos colonizado es, ais como Li-
ma-He nandes & Bax e (2019), Lima-He nandes & G osso (2019),
Teixei a e Sil a, Lima-He nandes & Ca alhinhos (2014), além da
p odução sob e o ema ei a po discípulos des es.
Analisemos os casos ela ados po Raminelli, que pode ep esen a
a pe spec i a da His ó ia. Selecionei ês deles. T a a-se de um exce o
um pouco ex enso, mas necessá io pa a que possamos me gulha na
ealidade desc i a:
[1]
Os ilhos dos conquis ado es com “as neg as da e a” ambém não acei-
a am a dominação b anca sem esis ências. Mui os deles i e am boa
pa e de suas idas ao lado dos pa en es ma e nos e pouco conheciam
os cos umes dos “ci ilizados”. A dualidade acial e cul u al ans o mou
os mamelucos em se es deslocados, nem índio, nem b anco. Em á ias
opo unidades, exe ciam um papel de in e mediá ios en e os coloniza-
do es e os na i os, in luenciando os úl imos a abalha nas á eas ag ícolas
e engenhos. Con udo, nem odos os mamelucos es a am sa is ei os com
a c is ianização emp eendida pelos eu opeus, po is o não e a a o en-
con a mes iços con es ando passagens bíblicas e lançando p oposições
con a a é. An ônio Rod igues, la ado em Pe nambuco, con essou
a Hei o Fu ado que não ac edi a a na exis ência de um mundo além
1. Pa a uma lei u a das ansições de go e no e suas en a i as de negociação ela i as a Macau e
a Hong Kong, sugi o a lei u a de Lima (1999).
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MARIA CÉLIA LIMA-HERNANDES
des e, lançando dú idas sob e a e acidade das Esc i u as Sag adas. O
mameluco Láza o A anha e a, segundo depoimen os, um dos indi íduos
mais i e e en es da Colônia. Em ce a ocasião, ugiu um esc a o de p o-
p iedade do mes iço; a im de ecupe á-lo p ome eu eza uma missa em
de oção a San o An ônio. Depois de ealiza a p omessa, logo o neg o
ugido apa eceu. Láza o en ão se lamen ou de e eco ido ao san o e
disse: “que o elhaquinho de San o An ônio e a azi iei o que sabia mui o
que lhe não quise a depa a o neg o senão depois que lhe p ome e a
missa…” O mesmo dela o con ou que Láza o p opala a a exis ência
de á ios deuses, “Deus dos c is ãos e ou o Deus dos mou os e ou os
dos gen ios” e diziam ainda que Ma oma e a um dos deuses do mundo.
O mes iço ambém zomba a de i uais ca ólicos. Em uma sex a- ei a da
qua esma se ez um co ejo no se ão; os peni en es le a am candeias e
eza am com mui a de oção, enquan o o di o mameluco azia zomba ias
e escandaliza a a odos que o iam. Os ilhos de b ancos com neg as da
e a não e am os únicos a con a ia os p ecei os da o odoxia. (Rami-
nelli, 1994, p. 213, g i o meu)
[2]
Os mamelucos não e am os únicos a se con e e ao modo de ida dos
na i os, os b ancos, po ezes, se mis u a am à indiada e se ans o ma-
am em meio b ancos, meio índios. João B ás, em 17 de agos o de 1591,
acusou Pan alião Ribei o de p a ica gen ilidades, mesmo sendo c is ão e
b anco. Pan alião pa icipa a das en adas o ganizadas po Tamacaúna,
pois sabia bem a “língua dos gen ios mamelucos”. Uma ez no in e io ,
se “ eba izou” ao modo dos gen ios na Abusão da San idade do Jagua i-
pe. No p ocesso inquisi o ial con a Fe não Cab al Taíde encon am-se,
igualmen e, e e ências sob e uma possí el “acul u ação às a essas” de
um pode oso senho -de-engenho. (Raminelli, 1994, pp. 215-216, g i o
meu)
[3]
Domingos Nob e Tamacaúna não e a b anco como Diogo Ál a es, mas
desempenhou a mesma unção de in e mediá io en e po ugueses e ín-
dios. Tamacaúna e a mameluco, ilho do ped ei o Miguel Fe nandes e
da “neg a do gen io” Joana. Decla ou, em con issão, que en e os 18 a 36
anos i eu alheio ao c is ianismo, con essando na qua esma apenas po
ob igação. No “di o empo oi mais de gen io que de c is ão po ém nunca
deixou a é de C is o e essa e e semp e no seu co ação”. A con issão de
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ESCAMOTEAMENTOS SOCIOCULTURAIS E SOCIOLINGUÍSTICOS:
POLÍTICAS COLONIZANTES EFEITOS HÍBRIDOS
Domingos Nob e é um es emunho admi á el da dualidade, ou malea-
bilidade cul u al dos mamelucos. O con i en e decla ou ao Visi ado que
pe co eu a ias localidades no se ão a mando das au o idades coloniais.
Em cada ibo isi ada, o mes iço se adap ou aos cos umes locais. No
in e io da Capi ania de Po o Segu o, se pin ou com jenipapo, usou
coca de penas, angeu pandei os e a abaques, can ou em língua gen í-
lica. No se ão do A abo, pe maneceu qua o ou cinco anos, e e duas
mulhe es ao modo gen ílico, iscou as coxas, nádegas e b aços com den e
de paca. Tempos depois, ol ou à A abo, a mando do go e nado Luís de
B i o, a im de “ aze desce o gen io pa a o po oado”. Na opo unidade,
casou com ês índias, bebeu com os na i os “o seu umo”; anda a nu,
cho a a e lamen a a “como eles ao seu uso gen ílico”. No se ão de Ilhéus
passou qua o ze meses, ingiu o co po com u ucum, e e se e mulhe es,
bebeu e bailou sob os ange es e can a es do gen io. (Raminelli, 1994, p.
217, g i o meu)
Em [1], a desc ição do mameluco Láza o nos conduz a uma pe -
cepção de suas di e enças no g upo local: e a ilho de índia [neg a da
e a] com b anco, man inha uma dualidade de aça e de cul u a [nem
b anco, nem índio], em que o esul ado e a a negação de uma e ou a
como um odo em si, daí se conside ado i e e en e em condu a. O
exemplo ap esen ado e e e-se à eligião, mas é ób io que essa a i ude
é pa e de seu caminha naquele con ex o. Esse compo amen o meio
lá, meio cá inspi a a alguns b ancos a ado a em os cos umes gen ios,
al como desc i o em [2] com elação a Pan alião, numa “acul u ação
às a essas”. Esse mesmo compo amen o ambíguo de e se iden i ica-
do no mameluco Tamacaúna, que e a de apa ência mais p óxima aos
b ancos, e sua “maleabilidade cul u al”.
Como o ula íamos esses casos em que um indi íduo é híb ido em
sua o igem, man endo cos umes da e a, enquan o pe co e espaços
uncionais a ibuídos ao colonizado sem so e qualque epúdio?
Po domina duas línguas pelo menos, e a alo izado en e os dois
g upos, ainda que nenhum deles se p eocupasse em sabe qual e a a
sua língua ma e na. Essa, con udo, é uma ques ão que a inge de pe o
o que discu o aqui. A luência em duas línguas, com insupeição de
so aques e de modos de a iculação, se iam indícios de que es á ali um
indi íduo bilíngue com uma língua ma e na di e sa da língua de he-
ança. Os mamelucos e am, po assim dize , alan es de LH, mas am-
bém e am alan es de línguas adicionais ap eendidas no con a o com
di e sos po os. Nada disso exclui ia o a o de que inham uma língua
ma e na. Essa ealidade desenha-se em odo espaço mul icul u al.
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MARIA CÉLIA LIMA-HERNANDES
Luga es mul icul u ais —como o B asil, como a Á ica ou como a
China— de êm um colo ido sociolinguís ico especial e con ex os a í-
picos pa a se pensa cien i icamen e. Tais con ex os são undamen ais
pa a se e ina em os concei os e os mé odos associados a emas cen-
ais dos es udos, especialmen e nos campos sociocul u ais e sociolin-
guís icos, ainda que hoje enha se cons i uído um p oblema comum
pa a o ambien e escola nessa no a onda de mig ação sis êmica po
que es á passando o mundo.
Visi emos dois con ex os em que mic o-his ó ias eclodem pa a nos
e idencia uma ealidade mui o mais complexa. Dado se his ó ia do-
cumen al, o namos em sigla odos os nomes eais.
His ó ia do Paulis ano João PL
José PL (pa do) é baiano de I iúba (se ão da Bahia) e diz se ne o de po -
uguês. Casou-se com uma baiana do se ão de Fei a de San ana. Ti e am
um ilho: Vicen e PL, que se casa com uma baiana e em com ela 2 ilhos.
Vicen e PL descob e que o sob enome o iginal de seu pai e a BS e que
es e i e a, na e dade, mais 1 esposa. Con e sando com ou as pessoas
an igas da egião, descob e que José PL ha ia b igado com a esposa (uma
neg a da e a) e a expulsa a de casa impedindo que le asse consigo seu
único ilho, João PL. Quando o ilho pe gun a pela mãe, o pai diz que a
mãe mo e a.
João PL, com 11 anos, muda-se de cidade sozinho em busca de uma
ida melho , pois e a mal a ado pela no a esposa do pai, uma baiana de
I iúba. João PL, já adul o e mo ando em São Paulo, decide isi a o pai.
Descob e que a mãe e a i a e que e a uma ca usa, anal abe a, que ala a
um po uguês mui o di e en e. Descob e ambém que o nome o iginal do
pai e a B azilei o da Sil a. A azão da mudança de nome oi, no passado,
camu la sua o igem e des ino po que eng a ida a, na ju en ude, a ilha
de um azendei o pode oso da egião. João PL pensa a se de linhagem
po uguesa e se descob iu ilho de ca usa [miscigenação de neg o com
índio]. [Fon e documen al]
A his ó ia de João PL é comum a á ios no des inos mig ados pa a
São Paulo na p imei a me ade do século XX. Mui os ie am, sem es-
udo e sem amília, pa a busca um emp ego e uma ida melho . Se
ôssemos analisa a miscigenação dos ilhos de João PL, e íamos que
dize que descende de baianos, que o am ge ados po ca usa e baia-
no, que, po sua ez, inha descendência po uguesa. Vá ias e nias
en am na his ó ia de ida sociocul u al de indi íduos que se consi-
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POLÍTICAS COLONIZANTES EFEITOS HÍBRIDOS
eu opeu, a ob iga o iedade do uso de oupas e o incen i o ao casamen o
en e índios e b ancos. Além disso, o Di e ó io egulou a dis ibuição de
e as pa a o cul i o, as o mas de ibu ação, a p odução e come ciali-
zação ag ícola, as expedições pa a cole a de espécies na i as e a p es ação
de se iços nos po oados.
Aos di e o es cabiam a supe isão e iscalização dessas medidas, sob e-
udo as que comp eendiam a p odução econômica esul an e do abalho
emune ado ealizado pelos índios e a come cialização de sua p odução
ag ícola e ex a i a. Também e am enca egados de dis ibui pos os ho-
no í icos e í ulos aos índios que desempenhassem e icien emen e os ca -
gos públicos, bem como zela pelos cos umes, impedindo que as amílias
i essem em p omiscuidade, en e ou os pon os. (Cama go, 2013, s/p.)
A pa i de en ão, a p omiscuidade de, po exemplo, anda nu ou
se casa com mais de uma mulhe passa, inicialmen e, a se e eada.
Depois, ol a a aze pa e da cul u a na u al de ole ância com expli-
cações, a pa i de en ão, que ogem a um enquad amen o é nico. Esse
p ocesso de na u alização do “es anho” ambém oco eu em Macau,
especialmen e p o enien e da cul u a chinesa, mas inco po ado pelos
macaenses. Um deles é o do e p é io ao casamen o, em que a amília
do noi o o e ece à amília da noi a um alo que co esponda ao que
p e ensamen e equi ale ia à impo ância da companhei a pa a si. Ob-
iamen e, pode oco e algum ipo de negociação, mas o i ual é p axe
e a é segue alo izado como índice cul u al local.
Todo macaense legí imo eza pa a o san o ca ólico e ambém acen-
de incenso pa a os deuses chineses. A mescla de hábi os condiz com
a hib idez é nica implicada. Sai da missa das 18h, ealizada na Ca e-
d al da Sé, e es ica uma caminhada a é o es au an e do cassino pa a
oma a caldo de cob a é um dos p aze es macaenses que o empo
não apaga3. Ao con á io, é um encadeamen o de ações que o alece
a liga do g upo. Os mais adicionais ainda equen am a Associação
que os ep esen a. Es e é um dos dois luga es em que se em acesso a
um adicional minchi. O ou o é o es au an e de dona A.J., chinesa
com iden idade macaense, que man e e po anos o hábi o de sen a -
-se ao lado de seus clien es pa a elemb a his ó ias da Macau an iga.
E no Ano No o chinês, di idem-se en e banque es, jogos e queima
de panchões. Den o de casa, é ho a de um i ual híb ido:
3. De aco do com Ba os (2004), há em Macau á ios es abelecimen os dedicados ao p epa o
desse p a o, os quais impo am da China ap oximadamen e 15 a 20 mil se pen es no in e no.

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MARIA CÉLIA LIMA-HERNANDES
Não p ecisando ninguém mais sai da casa, a po a p incipal é, po im,
selada com papel e melho pa a impedi a uga da elicidade e pa a obs a
a en ada dos demónios. (…) Em ce as p o íncias, an es de se sela em as
po as, é cos ume espalha -se pelo pá io amos de pinhei o e de sésamo
que denuncia ão a ap oximação dos demónios, pois es es se es, apesa da
sua le eza, não conseguem e i a que os amos se es alem aíndo (sic) a
sua p esença. (Rangel, 2012, p. 25)
Ou os elemen os ão su gindo, mas e omando hábi os an igos
de uma o ma o almen e no a, como a ma ca a p esença naquele
espaço. Um desses emp eendimen os aduz-se nas peças ea ais do
g upo Doci Papiaçam di Macau, di igidas po Miguel de Senna Fe -
nandes, um ilus e ad ogado de Macau que he dou o alen o c ia i o
do pai, Hen ique de Senna Fe nandes, esc i o macaense.
Conside ações inais
Ao aze a compa ação —ainda que es i a— de dois espaços que
o am subme idos a ações simila es o ien adas pelo plano coloniza ó-
io po uguês, no amos que os e ei os em cada sociedade e ela am-se
di e en es, especialmen e se conside a mos a supe di e sidade con i-
da em cada um deles.
Enquan o o b asilei o expõe em suas ações sociopolí icas pela di-
e sidade a ei indicação agmen ada em di ei os é nicos, deno ando
a pa ca consciência de si nesse g ande caldei ão de e nias que colo em
a sociedade, o macaense em sido le ado silenciosamen e pela ideia
de que odos es ão ligados po idên icos aços iden i á ios e de em
caminha jun os em suas demandas. O macaense, dado o con ex o de
mudanças impos as, ez ou ou a mais incisi amen e, pela República
Popula da China, acabou se unindo e e isi ando, de á ias o mas,
suas his ó ias, azendo com que suas eias iden i á ias b adassem:
100% macaense é o que somos! O b asilei o, no en an o, con inua
igno ando que sua composição híb ida de e se lida nas anjas da
his ó ia social, do con a o en e línguas e dos hábi os cul u ais.
Se, na China, a hib idez é nica i ompe odos os dias com ações
de au op ese ação à medida do es o ço con á io pa a o seu silen-
ciamen o, no B asil, a mes içagem silencia-se cada ez mais enquan o
p esencia lu as e ei indicações que isam à iden idade das e nias pu-
as, num p ocesso iden i á io e e so ao que —espe a-se— p ese a-
ia a hib idização de an os po os.
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Esse, con udo, é um ema que não se esgo a aqui, no en an o de e
agua da ou o momen o e espaço pa a seus desdob amen os. Es e
ex o, po sua ez, embo a publicado num momen o em que a pande-
mia da Co id-19 nos enha isolado de nossos obje os de in es igação,
p opo ciona e lexões mais agudas sob e o que somos no con ex o su-
pe di e so que eme ge do locus em que nos encon amos, já que não
é p i ilégio cole i o, ampouco geog á ico, cons i ui -se como mescla
em suas aízes.
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