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Álabe nº15 ene o - junio 2017 ISSN 2171-9624
A cidade e as c ianças na li e a u a pa a a in ância.
Um es udo explo a ó io a pa i de ês ob as1
The Ci y and Child en in Child en’s Li e a u e:
An Explo a o y S udy on Th ee Wo ks
ÂNGELA BALÇA
CIEC. Uni e sidad de É o a
FERNANDO AZEVEDO
CIEC, Uni e sidade de Minho
Po ugal
[email p o ec ed]
ag[email p o ec ed]
Resumo. O a igo abo da o espaço ísico
e men al da cidade e a sua elação com as
c ianças em ês ob as de li e a u a pa a
a in ância. Pa indo do en endimen o de
cidade ap esen ado po Fe ei a (2015),
Teixei a (2015) e Domingues (2015), o
obje i o maio des e b e e es udo é com-
p eende que modelo de cidade é ap e-
sen ado às c ianças em ob as de li e a u a
pa a a in ância esc i as e ilus adas em di e-
en es décadas do século XXI, po a is as
de di e sas nacionalidades e edi adas em
di e sos países. Pa a alcança es e obje i-
o az-se uma lei u a compa ada, c í ica e
e lexi a des as ob as. Como conclusão,
podemos a i ma que o modelo/espaço
cidade nes as ob as de li e a u a in an-
il é ap esen ado como um e i ó io si-
mul aneamen e eu ó ico e dis ó ico, com
ma izes di e si icados. Po ém, à c iança é
semp e deixada uma pala a luminosa. Em
odas as ob as ica o apelo à comunicação,
à pa ilha, à amizade.
Pala as – cha e: li e a u a in an il; ilus-
ação; cidade; pa ilha; comunicação.
Abs ac . The a icle discusses he phy-
sical and men al space o he ci y, and i s
ela ionship wi h child en, in h ee wo ks
o child en’s li e a u e. S a ing om he
unde s anding o he ci y p esen ed by
Fe ei a (2015), Teixei a (2015) and Do-
mingues (2015), he main objec i e o his
sho s udy is o unde s and wha ci y mo-
del is p esen ed o child en in wo ks o
child en’s li e a u e w i en and illus a ed
in di e en decades o he cen u y, by a -
is s o di e en na ionali ies, and edi ed in
se e al coun ies. To accomplish his we
ca y ou a compa a i e, c i ical and e lec-
i e eading o hese wo ks. In conclusion,
we can say ha he model / space o he
ci y p esen ed in hese wo ks o child en’s
li e a u e is simul aneously a eupho ic and
dyspho ic e i o y, wi h di e se shades.
Howe e , o he child he e always ema-
ins a wo d o ligh . In all wo ks he e is a
call o communica ion, sha ing, and iend-
ship.
Keywo ds: child en’s li e a u e; illus a ion;
ci y; sha ing; communica ion.
1 Pa a ci a es e a ículo: Balça, Ângela y Aze edo, Fe nando (2017). A cidade e as c ianças na li e a u a in an il. Um es udo explo-
a ó io a pa i de ês ob as. Álabe 15. [www. e is aalabe.com]
DOI: 10.15645/Alabe2017.15.1
(Recibido: 05-02-2016;
acep ado: 15-11-2016)
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A cidade, espaço eu ó ico e dis ó ico
Nos dias de hoje, os espaços u banos ep esen am um polo de a ação pa a as
pessoas, pelas opo unidades que eles o e ecem. Po ém, apesa de se em um luga de
inúme as possibilidades, as cidades ence am igualmen e um conjun o de p oblemas
pa a as populações que as habi am. Simbolicamen e, elas são espaços o ganizados com
uas e a enidas, com sen idos, com edi ícios e seus habi an es. Nes a pe spec i a, elas
ap esen am semp e um ce o núme o de con enções, à luz das quais a ida é egida. Mas
as cidades são ambém luga es de isibilidade e de in isibilidade, espaços onde os sonhos
eme gem e são des uídos, no undo, um caleidoscópio de conc e izações e de desejos.
His o icamen e, as cidades semp e es i e am ligadas a no as ideias, a no os a anços pa a
a humanidade, ao cosmopoli ismo. Desde há mui o que á ios campos do sabe se in e-
essam pelo es udo da u be, nos seus mais di e sos sec o es, que elacionados com a
sua dimensão ísico- e i o ial que elacionados com a componen e humana, cul u al e
ideológica.
De aco do com a ONU (2016), a ualmen e, 54% da população mundial i e em
á eas u banas e es ima-se que aumen e, em 2050, pa a 66%, o que ce amen e le a Fe -
ei a (2015:168) a a i ma que “(…) não é di ícil an ecipa que o modelo u bano se á o
g ande e e en e – possi elmen e o único – de oda a o ganização geog á ica e social nas
p óximas décadas. A condição u bana é já a condição humana do século XXI”.
O a mui as são as c ianças e as suas amílias que i em oda a sua ida nes es e i ó ios
u banos, são elas que cons i uem o capi al humano que az mo e e a ança as cidades,
pois de aco do com Teixei a (2015: 8) “Desde que Pla ão e Sóc a es discu iam nos me ca-
dos a enienses, as azões que le am as cidades a iun a êm mais a e com o seu capi al
humano do que com as suas in aes u u as ísicas.”.
Na e dade, há um conjun o de a o es de o dem económica, social, psicológica,
ambien al e cul u al, elencados po di e sos in elec uais, polí icos e in es igado es (Tei-
xei a, 2015; Fe ei a, 2015; Domingues, 2015; Sampaio e Teixei a, 2015) que se cons i-
uem como os g andes a a i os de uma cidade. Assim, nos espaços u banos encon a-se
a p ocu a/o e a de uma maio di e sidade de emp egos e aí eside ambém a expe a i a
de uma p omessa labo al mais desa iado a e mais ecompensado a a ní el pessoal e eco-
nómico; é no espaço u bano que eg a ge al se exe ci am no as sociabilidades, possibili-
ando simul aneamen e a p oximidade e o anonima o bem como a au onomia dos indi í-
duos. Os desa ios cul u ais o nam os e i ó ios u banos como um chama iz, sob e udo
pa a as ge ações mais no as, que con i em dia iamen e e de modo democ á ico com a
di e sidade cul u al. De ac o, de aco do com Fe ei a (2015: 168) “De ho izon e de ex-
pec a i as a cidade o nou-se ho izon e de p ojecção, que esis e a odas as desilusões,
mesmo quando não consegue da espos a às aspi ações mais conc e as e ma e iais.”
Toda ia, Teixei a (2015) e Domingues (2015) ale am pa a o lado menos posi i o
e menos a a i o dos espaços u banos, a i mando que a u banização é demasiadas ezes
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oco de pob eza, desigualdades, con li os e injus iças, sendo um eal desa io à go e na-
ção. Mui as ezes aliados a es es ocos es ão os aspe os ambien ais que ma cam a cidade
e exigem olha es, a i udes, medidas ousadas e in eg adas que pe mi em o na mais ha-
bi á el a “sel a u bana”. É nes e con ex o menos apela i o e numa en a i a de pensa a
cidade que su ge a ob a de F ancesco Tonucci (1997), que p oblema iza a elação en e
as c ianças e as cidades. Tonucci (1997) a i ma que os cidadãos so em com os males da
cidade e êm consciência que a cidade não é amigá el pa a as c ianças, pois “Saben que
quienes más su en son los niños, no saben cómo ayuda los (…)” (Tonucci, 1997:17).
Des e modo, in elec uais, polí icos, au a cas, in es igado es con on am-se com es as
duas dimensões da cidade, espaço eu ó ico de odas as possibilidades, mas ambém espa-
ço dis ó ico de pob eza e de desigualdade. E es es se ão g andes desa ios que se colocam
ao capi al humano que az mo e as cidades, mui as ezes p essen idas como po enciado-
as da desumanização, da incomunicabilidade, da solidão, pouco amigas do desen ol i-
men o das elações humanas, necessá ias pa a uma ida ha moniosa e cidadã.
A cidade e as c ianças na Li e a u a pa a a in ância
A cidade e as emá icas com ela elacionadas, nomeadamen e a in e ação en e/
com a c iança e a cidade, ma cam p esença nas ob as de li e a u a pa a a in ância. Em
á ias ob as de li e a u a pa a a in ância encon amos ecos ou mesmo ep esen ações
da cidade, que podem se mais ou menos explíci as e que es ão p esen es que no ex o
e bal que no ex o icónico. A li e a u a pa a a in ância, embo a obedecendo ao p o o-
colo da iccionalidade, ajuda a c iança a amilia iza -se com o mundo e eicula pa a os
mais no os conhecimen os e alo es que os auxiliam a pensa e a in e oga esse mesmo
mundo (Sloan, 1991; Aze edo, 2011). Além disso, ins au ando a pala a, a memó ia da
humanidade, a li e a u a o na-se o ma i a, c í ica e c iado a. G aças a ela, os mais no os
podem pa ilha sabe es e expe iências humanas, in elec ual e cul u almen e es imulado-
as, nu indo as aízes pa a a c iação de hábi os de in e ação cul u al ui i os e passí eis
de se expandi em ao longo da ida.
Os ex os de li e a u a pa a a in ância, e bais e plás icos, ap esen am de e mina-
do(s) modelo(s) de cidade, p on os a se obse ados, comp eendidos ou mesmo descons-
uídos pelas c ianças. Assim, nes e es udo cen amo-nos no modo como a li e a u a in-
an il ep esen a o e i ó io, sob e udo o u bano ou p essen ido como al, e a inse ção/
elação das c ianças com a cul u a e modo de ida desse mesmo espaço.
Es a ma iz li e á ia em azido a lume á ias ob as que mos am às c ianças di-
e sos con ex os que in luenciam de o ma mui o cla a as elações sociais, amilia es e
a e i as que podem ou não es abelece -se nesse e i ó io.
Des e modo, es e es udo em como obje i os comp eende que modelo(s) de ci-
dade são ep esen ados e ap esen ados às c ianças nos ex os de li e a u a pa a a in ân-
cia; pe cebe se os ex os de li e a u a pa a a in ância, esc i os e ilus ados em di e en es
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décadas do século XXI, ep esen am a cidade do mesmo modo; comp eende se os ex os
de li e a u a pa a a in ância, esc i os e ilus ados po a is as de di e sas nacionalidades,
ence am modelos di e en es de cidade.
Pa a e e i a mos es e es udo, soco emo-nos das seguin es ob as: Vizinho, Vizi-
nha, dos b asilei os G aça Lima, Ma iana Massa ani e Roge Mello, publicada pela edi o-
a Companhia das Le inhas no ano de 2002; Pe o, da a gen ina Na alia Colombo, edi-
ada pela edi o a Kaland aka, em 2008; e po im Amigos do pei o, do b asilei o Cláudio
Thebas e da espanhola Viole a Lópiz, inda a lume na edi o a B uaá, em 2014.
Lançada em 2002, pela edi o a b asilei a Companhia das Le inhas, a ob a Vizi-
nho, Vizinha ap esen a uma ipla au o ia dos p emiadíssimos b asilei os Roge Mello
( encedo do P émio Hans Ch is ian Ande sen, em 2014), Ma iana Massa ani e G aça
Lima. Es a ipla au o ia e le e-se na es u u a da p óp ia ob a, sob e udo nas pe so-
nagens e nos espaços. Assim, Roge Mello é o au o do ex o e bal e do ex o plás ico
espaço co edo do p édio; Ma iana Massa ani é a ilus ado a da pe sonagem Vizinho e
da sua casa; a G aça Lima coube as ilus ações da pe sonagem Vizinha e do seu la .
Dominado po co es o es, o ex o plás ico des a ob a apos a sob e udo em dois
ons: o co -de- osa e o ama elo. A emá ica da cidade pode se logo p essen ida nos pa a-
ex os capa e con acapa que o mam um díp ico, mas ambém nas gua das do li o que,
a p e o e b anco, azendo lemb a uma maque e, nos p esen eiam com o espaço de uma
cidade.
Vizinho, Vizinha é, na sua es u u a, uma ob a ex ao dina iamen e o iginal. Em
e mos plás icos, a ob a di ide-se isicamen e em ês pa es: a casa do Vizinho, a casa da
Vizinha e o co edo do p édio; quan o à pala a esc i a, ela encon a-se jus apos a ao
Vizinho e à Vizinha, o que não signi ica que não se e i a ao co edo . Mui o in e essan es
são os aspe os plás icos ligados à pala a esc i a – pa a o Vizinho su ge o co -de- osa o -
e; pa a a Vizinha o ama elão, o que num li o pa a os mais no os pode se signi ica i o,
uma ez que con a ia os es e eó ipos de géne o no malmen e associados ao co -de- osa.
O início da ob a si ua imedia amen e o lei o mais no o no espaço onde se i á
desen ola a in iga “Quem passa pela Rua do Desassossego, núme o 38, nem pe cebe,
mas…”, deixando es as e icências um as o campo de hipó eses in e p e a i as a explo-
a . E a ob a con inua com a his ó ia de um Vizinho e de uma Vizinha que i em no mes-
mo p édio, no mesmo anda , em casas em en e uma da ou a, apenas sepa adas po um
co edo . Com gos os e manias di e en es, es es izinhos i em a sua ida, den o das
suas casas, de o ma isolada. Mal se conhecem e só se encon am no espaço neu o, que
é o co edo , semp e na mesma ho a: “Qua o e qua en a: ele sai com o caná io pa a um
passeio. Vin e pa a as cinco: ela inalmen e le a o elógio ao conse o. Só se encon am
a es a ho a.”. E é no co edo , apa en emen e um espaço independen e e impa cial, que
nada em a e com eles ou com as suas dis in as casas, que o Vizinho e a Vizinha ocam
um so iso e umas b e es pala as “No co edo : Boa a de, boa a de, como em passa-
do? Como es á o empo? E é só.”
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A é aqui, es a ob a si ua-nos num mundo que acilmen e colamos à cidade e ao
modo de ida que nela pa ece impe a . Indi idualismo, anonima o, elações énues e p e-
cá ias pa ecem se cul i adas com gos o pelos p o agonis as des a his ó ia e pelos habi-
an es da cidade em ge al.
Toda ia, nes a his ó ia, algo de inespe ado acon ece. O Vizinho “ em uma So-
b inha quase da idade do ne o dela.” e a Vizinha “ em um Ne o dois dedos meno que a
sob inha dele.” que coinciden emen e os isi am no mesmo dia. Na ausência dos adul os,
as duas c ianças ab em as po as de casa pa a o co edo , “A Sob inha esp ei a.” e “O
Ne o obse a.” Após es e p imei o momen o de con ac o isual, o co edo que e a um
espaço neu o, independen e, impa cial o nou-se num p olongamen o das duas casas
que se uni am a a és des a á ea.
Após o im da isi a das c ianças aos espe i os amilia es, “(…) o silêncio ensaiou
meia dúzia de passos de dança.”. O Vizinho e a Vizinha ol am às suas elhas o inas. Po-
ém, o ex o plás ico ala ga es e episódio. Se an es da isi a das c ianças, os p o agonis as
es a am elizes e sa is ei os, com uma a i ude posi i a e um so iso no os o, depois da
isi a das c ianças ambos pa ecem dep imidos e en is ecidos. Os dois es ão ago a dis-
pos os a conhece em-se melho “Qualque dia desses ele con ida a Vizinha pa a en a .
Se ele con ida , ela acei a.” Na ilus ação, à po a de en ada da casa da Vizinha, os múl-
iplos ape es que des ilam ao longo da his ó ia são ago a subs i uídos po um ou o que
diz “Bem-Vindo”.
Des e modo, no amos uma e olução nes a ob a, no que diz espei o à a i ude
das pe sonagens. Da indi e ença, da incomunicabilidade p essen e-se que pode i a se
cons uído e a exis i um caminho pa a a comunicação e pa a a elação, pe cu so esse
consen ido simbolicamen e pelas c ianças, pela sua abe u a, pela sua cu iosidade, pela
sua capacidade de elacionamen o.
A ob a Pe o, lançada em 2008 pela edi o a espanhola Kaland aka, é da au o ia de
Na alia Colombo. Nascida na A gen ina, Na alia Colombo ganhou com Pe o o I P émio
In e nacional Compos ela pa a Álbuns Ilus ados 2008.
Nes a ob a, apa en emen e ma cada pela simplicidade, encon amos ecos da cida-
de, o espaço u bano é adi inhado an o nas ilus ações como no ex o e bal. Na e dade,
o espaço ilus ado ap esen a ma cas de u banidade: casas que se assemelham a p édios,
ja dins e es adas onde se c uzam meios de anspo e como ca os ou bicicle as. No ex-
o e bal, são exp essões como “com mui a p essa”, “p aça”, “pa que” que nos pe mi-
em coloca a hipó ese in e p e a i a da in iga se cen a em e i ó io ci adino.
Ma cada po um cu íssimo mas poé ico, ocan e e signi ica i o ex o e bal e po
belíssimas ilus ações que dialogam, en e ecem e ac escen am conside a elmen e a pa-
la a esc i a, Pe o ap esen a uma es u u a pa alelís ica. Es e pa alelismo é sen ido nas
pe sonagens (o Senho Pa o e o Senho Coelho), nos espaços, no empo, nas ações. O
Senho Pa o e o Senho Coelho azem exa amen e as mesmas coisas, nos mesmos espa-
ços, no mesmo empo “(…) c uzam-se semp e. Quando ão…e quando êm.”.
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Os pa a ex os des a ob a, nomeadamen e a capa e a página de os o, podem le a
o pequeno lei o a le an a uma hipó ese in e p e a i a que de ac o não se i á con i ma .
Em ambos os pa a ex os, su ge-nos um coelho e um pa o, de en e um pa a o ou o, o
que pode á indicia que são conhecidos ou mesmo amigos. Na e dade, ao longo da ob a,
ai-se desenhando uma me á o a dos empos mode nos, mui o comum nos espaços u ba-
nos. Apesa de se c uza em odos os dias, nos mais di e sos luga es e nas mais a iadas
ho as do dia, com os mais dis in os es ados de alma, o Senho Pa o e o Senho Coelho
“nunca se cump imen am”. O ex o icónico ala ga a lei u a do ex o e bal e mos a-nos
um Senho Pa o e um Senho Coelho com a in eliz, aba ido, quase semp e de cos as ol-
adas um pa a o ou o.
Des e modo Pe o ence a uma ealidade onde impe a a al a de comunicação, a
solidão, a al a de pa ilha e de en eajuda, uma sociedade ma cada pelo isolamen o, pela
incomunicabilidade, pelo indi idualismo. Es a é uma ealidade consis en e com as g an-
des u bes, palcos de “ an as incomp eensões, o miguei os de anseios con adi ó ios”
(Teixei a, 2015, p. 11).
Toda ia, es a ob a cons i ui-se igualmen e como um ale a, se i e mos em con-
a o seu desenlace. O Senho Pa o e o Senho Coelho deixam escapa a opo unidade
do encon o e o na ado posiciona-se “É ealmen e uma pena… Pode iam se g andes
amigos.”, e elando o ex o icónico os inúme os momen os de con í io e de pa ilha que
pode iam e acon ecido en e os dois.
Fica es e despe a de consciências, pa a a abe u a ao Ou o, ão ca a à p óp ia
Na alia Colombo “En el momen o en que e mino un p oyec o, lo que más me mo i a es
la posibilidad de llega a las manos de un niño o de un adul o. Que se ap opien de él; de
esa posibilidad de pode con a les cómo es mi mundo, cómo me imagino pe sonajes e
his o ias.” (h p://www.imagina ia.com.a /2009/10/na alia-colombo/).
Assinada pelo b asilei o Cláudio Thebas e ilus ada pela espanhola Viole a Lópiz,
a ob a Amigos do Pei o eio a lume pela mão da po uguesa Edi o a B uaá, no ano de
2014. Viole a Lópiz conquis ou com as ilus ações des a ob a o P émio Ilus a e 2016.
Nes a ob a, o espaço u bano é bem isí el no ex o plás ico. Es as ilus ações o-
am concebidas em Lisboa, cidade pa a onde a ilus ado a se mudou, quando oi con ida-
da pela Edi o a B uaá a ilus a o ex o de Cláudio Thebas “Lo p ime o que hice es a ez
pa a einicia mi cabeza ue, muda me a Lisboa (…). Llegamos el 5 de Ene o de 2014.”
(h p:// iole alopiz.blogspo .p /). E, na e dade, um olha a en o às ins igan es ilus-
ações de Viole a Lópiz e ela-nos uma cidade cosmopoli a, igual a an as ou as; mas
Lisboa pode se p essen ida, com as suas ma cas: a calçada po uguesa, os mi adou os e
os seus quiosques, as escadinhas íng emes dos bai os his ó icos. Po an o, pa a ex os
como capa e con acapa (que o mam nes e caso um díp ico), gua das e página de os o
pe mi em p a icamen e sem ese as que o lei o mais no o le an e a hipó ese in e p e-
a i a de que es a ob a ence a á alguma his ó ia que se passa ou que se elaciona com a
cidade.
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A belíssima p osa poé ica, assinada po Cláudio Thebas, ence a uma ilusó ia
singeleza. Aliás, soco emo-nos de no o das pala as da ilus ado a Viole a Lópiz, pa a
a es a mos a complexidade que ence a o ex o,
Lo segundo que hice ue lee el poema muchas eces y en ende que
no e a en absolu o un ex o sencillo, pues no me daba casi pis as, y
además no enía una ama na a i a cla a. (…) La mi ad del iempo
lo dediqué a desci a qué me decía el ex o de Claudio (…).(h p://
iole alopiz.blogspo .p /).
Assim, Cláudio Thebas assina um ex o cuja emá ica lhe é mui o que ida – a cida-
de, as uas, as p aças e os pa ques, “Desejo de encon a pessoas, conhece suas cul u as
e exp essões. Sonhos se ealizam. (…) conc e izando mais uma ez o sonho de p omo e
encon os essencialmen e humanos com as cidades, suas pessoas, seus a is as.” (h p://
claudio hebas.com.b / oma aquide.h ml) É es a isão da cidade, como local de encon-
o, conhecimen o, sonho, ino ação, c iação, pa ilha que nos é ambém ansmi ida po
Fe ei a (2015: 168), “As no as cidades são hoje luga es de con e gência e a i mação de
aspi ações cul u ais no as, de no as o mulações do desejo, de no as o mas de p ocu a
a aleg ia e o p aze , de pa ilha a in o mação, de c ia .”
A ob a Amigos do pei o ence a, des e modo, um ex o que nos ala do bai o,
da ua (“T ans o mando a ua, não ans o mamos a cidade?” pe gun a e o icamen e
Cláudio Thebas - h p://claudio hebas.com.b / oma aquide.h ml) e a pala a esc i a é
eno memen e ala gada pelas ilus ações que ex a asam a ua, o bai o e nos si uam na
cidade.
Es a ob a abo da, numa lei u a mais de supe ície, a ida na cidade, dando des a
ida uma imagem mui o posi i a. Vi e na cidade, nes e caso em pa icula num de e -
minado bai o ou mesmo numa ce a ua, é nes e ex o sinónimo de con í io en e as
c ianças que nele/a habi am. E, assim, os amigos do p o agonis a, uma c iança em idade
escola , “Todos os dias eg esso da escola”, que su ge em odas as ilus ações com calças
e melhas, blusa cas anha, cabelo enca acolado neg o, mochila azul às cos as, acompa-
nhada de um ga o p e o, são c ianças que i em pe o umas das ou as e que pa ilham os
mesmos espaços/equipamen os das edondezas – a esquina, o lado, o p édio da en e,
o sé imo anda , o ba – dando oz a uma cen alidade, assinalada pelos equipamen os
escola e ba , que ma ca a o ganização de mui os dos a uais espaços u banos. De ac o,
a c iança p o agonis a ol a quo idianamen e da escola com “a Ana Lúcia da esquina”;
e e e “o Ca los Albe o, do lado” e o ac o de ele não emp es a a bicicle a a ninguém;
menciona como seus amigos “o B uno do p édio da en e, o Rica do do sé imo anda , o
i mão da Lúcia da esquina, o ilho do dono do ba .”
O conhecimen o, o con í io, a amizade es abelecida en e o p o agonis a e odas
es as c ianças é ex ao dina iamen e ma cada pelos espaços do bai o/ ua, onde odos/
as habi am, es udam, b incam, con ac am. E es e aço é e elado pelo ac o da c iança
p o agonis a não sabe os nomes comple os dos seus amigos “O nome comple o deles eu
nunca sei, ou esqueço.”, nem mesmo os seus apelidos, “(…) Ana Lúcia da esquina. Da
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esquina não é apelido é o ende eço da menina.”; “Já o Ca los Albe o, do lado, (do lado
não é nome ambém)”, po que “Amigo não em apelido: amigo em ende eço.”. O a as
pala as inais do ex o de Cláudio Thebas mos am que “um mon e de amigos do pei o”
são pa e in ínseca do bai o/ ua, são como que a sua ex ensão, unindo-se e con un-
dindo-se numa ligação inequí oca e p o unda com a cidade. A ua, o bai o, a cidade são
mui o mais que o local onde es as c ianças caminham, b incam, jogam à bola, andam de
bicicle a; são um espaço que se en elaça nas suas idas.
Vol ando às pala as de Viole a Lópiz, “Aunque me daba un poco de miedo, de-
cidí aleja me del ex o e ilus a aquello que yo sen ía sob e la amis ad. Deja ía que las
imágenes con as a an con el ex o pe o que habla an de la misma cosa.” (h p:// iole a-
lopiz.blogspo .p /), no amos a sua necessidade de es ende o ex o de Cláudio Thebas.
E nes e ala gamen o das ilus ações em elação à pala a esc i a encon amos a cidade,
no seu espaço ísico “la a qui ec u a y la ca og a ía, coleccioné casas, ejados, chime-
neas, azulejos, iendas, mu os, en anas, plazas, me cados y u as.” (h p:// iole alopiz.
blogspo .p /), mas igualmen e a cidade, no seu espaço men al e elacional “explo a la
elación en e luga es y pe sonas, a qui ec u a y sen imien os, mapas men ales, luga es
en el cue po, en la men e, en la calle, la memo ia que i en en los luga es y los luga es
que i en en la memo ia.” (h p:// iole alopiz.blogspo .p /), aquele espaço que subjaz,
inspi a e pelo qual lu a Cláudio Thebas, no seu mul i ace ado abalho.
Des e modo, as ilus ações mos am-nos ainda uma ou a pa e da his ó ia, cen-
ada na página de os o e nas duas úl imas páginas da ob a. Es a na a i a isual segue
o pe cu so da c iança p o agonis a, saindo do seu p édio, caminhando e usu uindo dos
á ios espaços da cidade e chegando, de no o, ao seu p édio. À saída de casa, os seus
amigos esp ei am à esquina do p édio; ao eg essa a casa, espe a-o uma es a su p esa,
p epa ada pelos seus companhei os.
O a Amigos do Pei o cons i ui-se na ealidade como uma ob a que nos p opõe
inúme as hipó eses in e p e a i as e múl iplas lei u as da ealidade. Numa lei u a mais
p o unda des a essi u a e bal e plás ica, essal am o cul i a das elações humanas, da
amizade, da pa ilha que as c ianças ainda conseguem, num espaço que an os conside-
am ad e so ao es abelece e ap o unda des es alo es.
Conside ações inais
Nes e b e e es udo deb uçámo-nos sob e o espaço cidade, como um e i ó io
eu ó ico e dis ó ico. Com uma pe cen agem mui o ele ada da população mundial a i e
em e i ó ios u banos, a cidade oma á ias qualidades. Se pa a alguns in es igado es e
in elec uais, ela é sinónimo de no as opo unidades, no as sociabilidades, semp e eno-
ados desa ios cul u ais, pa a ou os ela ep esen a um eno me ep o à go e nação. Es e
ep o ao go e no da cidade é lançado não só pelos aspe os eu ó icos que ela ence a, mas
sob e udo pelos aspe os dis ó icos, ca ac e izados pela pob eza, pela desigualdade, pela
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Álabe nº15 ene o - junio 2017 ISSN 2171-9624
não acei ação do Ou o, pelo indi idualismo, pela solidão, ma cas ão p esen es em an-
os espaços u banos,
Hoje diz-se (e pensa-se) que es amos num mundo onde a maio ia
das pessoas i e em cidades, pensando dessa manei a num mundo
mais jus o ou mais emancipado e “mode no”. A e dade é que essa
a i mação con ém ou a bem menos posi i a: a u banização do pla-
ne a é, na sua maio ia, a u banização da pob eza (…) (Domingues,
2015: 22).
A li e a u a pa a a in ância ence a um conjun o de ex os que nos azem ecos
ou mesmo ep esen ações dos e i ó ios u banos. Es a ma iz li e á ia em p esen eado
os lei o es mais no os com ex os de g ande qualidade li e á ia e plás ica, onde se ap e-
sen am dis in os modelos de cidade mas ambém di e sas elações que se podem es abe-
lece en e os espaços u banos e os indi íduos, nomeadamen e as c ianças. Es as ob as
de li e a u a pa a a in ância conco em, ce amen e, pa a que as c ianças possam le o
mundo de o ma plu al e es abelece pon os de con ac o en e a sua ealidade e o mundo
p esen e nesses ex os.
Nes e es udo no ea am-nos os obje i os de comp eende que modelo(s) de cida-
de são ep esen ados e ap esen ados às c ianças nos ex os de li e a u a pa a a in ância e
pe cebe se, po um lado, os ex os de li e a u a pa a a in ância, esc i os e ilus ados em
di e en es décadas do século XXI e, po ou o lado, esc i os e ilus ados po a is as de
di e sas nacionalidades, ep esen am a cidade do mesmo modo e ence am modelos di e-
en es de cidade. Pa a o cump imen o des es obje i os soco emo-nos de ob as esc i as,
ilus adas e mesmo edi adas em á ios pon os do globo na 1.ª e 2.ª década do século XXI.
Des e modo, pudemos pe cebe que nas ês ob as que es udámos encon amos
pe spe i as dis in as ao enca a a cidade e as elações que os indi íduos es abelecem ou
não nes es e i ó ios.
A ob a Pe o, de Na alia Colombo, mos a-nos a cidade como um local onde im-
pe a a solidão e a incomunicabilidade. As pe sonagens, mui o embo a se c uzem odos
os dias e enham os mesmos hábi os, nunca êm espaço/ empo/ on ade pa a o encon o.
Po ém, a ob a ence a uma mensagem de espe ança pa a os lei o es mais no os, deixada
pelo na ado , que az um apelo à comunicação, à pa ilha, ao conhecimen o mú uo, pon-
o de pa ida pa a a amizade.
A ob a Vizinho, Vizinha, de Roge Mello, Ma iana Massa ani e G aça Lima, é de
ce o modo uma ob a onde a cidade é enca ada como um espaço de con iança. As pe so-
nagens comunicam, ocam algumas imp essões en e si, mui o embo a não se conheçam
ealmen e, mesmo i endo no mesmo p édio, em casas uma em en e da ou a. A mensa-
gem de espe ança é aqui deixada pelas pe sonagens c ianças, amilia es do Vizinho e da
Vizinha. São elas que queb am a dis ância ísica en e as duas casas, ocupando o espaço
do co edo e in adindo ambas as habi ações; são elas que deixam a expe a i a, o desejo
nos adul os de se conhece em melho .