scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

O PAPEL DA ENFERMAGEM OBSTÉTRICA NA TRANSFORMAÇÃO DO MODELO ASSISTENCIAL NO PARTO

Editora Saúde Vital

Abstract

Autores Ana Beatriz Alvarenga Schafer Graduanda em Enfermagem pelo Centro Universitário do Planalto Central Apparecido dos Santos - UNICEPLAC, Gama - DF Lanna Luiza de Sousa Gomes Graduanda em Enfermagem pelo Centro Universitário do Planalto Central Apparecido dos Santos - UNICEPLAC, Gama - DF Mikaelly Fabianny Honorato Graduanda de Enfermagem pela Faculdade Wenceslau Braz - FWB, Itajubá - MG Nathalia Nunes Ferreira Graduanda em Enfermagem pela Universidade Estácio de Sá - Niterói, Rio de Janeiro - RJ Danielle Santos Vieira Graduanda em Enfermagem pelo Centro Universitário de Excelência - UNEX, Jequié - BA Maria Francisca de Aragão Mendes Graduanda em Enfermagem pela Universidade Estadual da Paraíba – UEPB,Campina Grande - PB Juliana Barbosa da Silva Graduanda em Enfermagem pela Faculdade de Ciências de Timbaúba - FACET, Timbaúba - PE Laura Beatriz Ferreira Sampaio Graduanda em Enfermagem pela Universidade Tiradentes - UNIT, Aracaju - SE Ana Clara Gonçalves Costa Melo Graduando em Enfermagem pela universidade Newton Paiva wyden- Belo Horizonte - MG Vitória Stephane de Souza Vale Enfermeira – Residente em Enfermagem Obstétrica pela Universidade do Estado do Amazonas

Full text

261 23. O PAPEL DA ENFERMAGEM OBSTÉTRICA NA TRANSFORMAÇÃO DO MODELO ASSISTENCIAL NO PARTO THE ROLE OF OBSTETRIC NURSING IN TRANSFORMING THE CARE MODEL IN CHILDBIRTH Eixo temático: Formação e atuação multiprofissional na assistência obstétrica Ana Beatriz Alvarenga Schafer Graduanda em Enfermagem pelo Centro Universitário do Planalto Central Apparecido dos Santos - UNICEPLAC, Gama - DF Lanna Luiza de Sousa Gomes Graduanda em Enfermagem pelo Centro Universitário do Planalto Central Apparecido dos Santos - UNICEPLAC, Gama - DF Mikaelly Fabianny Honorato Graduanda de Enfermagem pela Faculdade Wenceslau Braz - FWB, Itajubá - MG Nathalia Nunes Ferreira Graduanda em Enfermagem pela Universidade Estácio de Sá - Niterói, Rio de Janeiro - RJ Danielle Santos Vieira Graduanda em Enfermagem pelo Centro Universitário de Excelência - UNEX, Jequié - BA Maria Francisca de Aragão Mendes Graduanda em Enfermagem pela Universidade Estadual da Paraíba – UEPB,Campina Grande - PB Juliana Barbosa da Silva Graduanda em Enfermagem pela Faculdade de Ciências de Timbaúba - FACET, Timbaúba - PE Laura Beatriz Ferreira Sampaio Graduanda em Enfermagem pela Universidade Tiradentes - UNIT, Aracaju - SE Ana Clara Gonçalves Costa Melo Graduando em Enfermagem pela universidade Newton Paiva wydenBelo Horizonte - MG Vitória Stephane de Souza Vale Enfermeira – Residente em Enfermagem Obstétrica pela Universidade do Estado do Amazonas RESUMO Introdução: Este estudo analisa a transição do modelo de assistência ao parto, historicamente marcado pela medicalização excessiva e elevadas taxas de cesariana, em 262 contraste com a valorização crescente de práticas humanizadas centradas na pessoa que gesta. O objetivo foi examinar como a formação acadêmica e a educação permanente de enfermeiros obstetras, associadas a estratégias políticas, fortalecem sua atuação na assistência ao parto, promovendo um cuidado seguro, baseado em evidências e respeitoso à fisiologia do nascimento. Objetivo: Examinar como esses processos educativos, aliados a estratégias políticas, fortalecem a atuação da enfermagem obstétrica na assistência ao parto, promovendo um cuidado centrado na pessoa que gesta e orientado por práticas baseadas em evidências que respeitam a fisiologia do nascimento e asseguram a saúde materno-infantil. Metodologia: Foi realizada uma revisão integrativa da literatura nas bases LILACS, SciELO, BVS e PubMed, utilizando descritores específicos e critérios de inclusão que resultaram na seleção de 15 estudos publicados entre 2018 e 2025. Resultados e Discussão: Os resultados indicam que a presença qualificada da enfermagem obstétrica está associada à redução de intervenções desnecessárias, maior satisfação materna, melhoria de indicadores perinatais e ao fortalecimento de políticas públicas, apesar das barreiras como resistência multiprofissional, escassez de recursos e entraves culturais. Considerações Finais: Conclui-se que investir em formação sólida e capacitação contínua é fundamental para transformar o modelo assistencial ao parto, sendo necessária a ampliação de estudos multicêntricos que fortaleçam a base de evidências e subsidiem políticas públicas voltadas à valorização da enfermagem obstétrica. Palavras-Chaves: assistência perinatal; cuidados de enfermagem; enfermeiros obstétricos. ABSTRACT Introduction: This study analyzes the transition of the childbirth care model, historically characterized by excessive medicalization and high cesarean rates, contrasted with the growing appreciation of humanized practices centered on the birthing person. The objective was to examine how the academic training and continuing education of nursemidwives, combined with political strategies, strengthen their role in childbirth care, promoting safe, evidence-based care that respects the physiology of birth. Objective: To examine how these educational processes, combined with political strategies, strengthen the performance of obstetric nursing in childbirth care, promoting care centered on the person who gestates and guided by evidence-based practices that respect the physiology of birth and ensure maternal and child health. Methodology: An integrative literature review was conducted in the LILACS, SciELO, BVS, and PubMed databases, using specific descriptors and inclusion criteria, resulting in the selection of 15 studies published between 2018 and 2025. Results and Discussion: Results indicate that qualified obstetric nursing is associated with reduced unnecessary interventions, increased maternal satisfaction, improved perinatal indicators, and the strengthening of public policies, despite barriers 263 such as interprofessional resistance, resource scarcity, and cultural challenges. Final Considerations: It is concluded that investing in solid academic formation and continuous training is essential to transform the childbirth care model. Furthermore, expanding multicenter studies to strengthen the evidence base and support public policies aimed at valuing obstetric nursing is necessary. Keywords: perinatal care; nursing care; nurse midwives. INTRODUÇÃO Historicamente, o parto era conduzido por parteiras no ambiente domiciliar até que, nas últimas décadas do século XX, passou a ser “institucionalizado” e hospitalizado sob o olhar da medicina científica. Embora essa transição tenha contribuído para a queda da morbimortalidade materno‑infantil esse avanço técnico veio acompanhado de uma série de práticas intervencionistas padronizadas, que muitas vezes desconsideram a individualidade da pessoa que gesta e a fisiologia do parto, configurando um modelo tecnocrático e desumanizante de atenção obstétrica (Vallerini, 2020). Entretanto, observa-se que o “modelo médico de dominação’’, apesar de ter contribuído historicamente para a redução da morbimortalidade materna, passou a produzir efeitos adversos à medida que se consolidou como padrão único de assistência. A excessiva medicalização do parto, expressa principalmente pelo crescimento desproporcional das cesarianas, representa um novo fator de risco. Em 2016, a cesariana foi responsável por 88% dos nascimentos na rede privada e por 46% no Sistema Único de Saúde (SUS), resultando em uma taxa média nacional de 52%, muito acima dos 15% recomendados pela Organização Mundial da Saúde (Paim et al, 2025). Diante das limitações e riscos do modelo medicocêntrico, surgem movimentos que propõem a reformulação da assistência ao parto, priorizando o protagonismo da mulher, o respeito à fisiologia do nascimento e a adoção de práticas baseadas em evidências. No âmbito das políticas públicas, destaca-se a criação da Rede Alyne, instituída em 2024 pelo Ministério da Saúde, que incorporou e ampliou os princípios da antiga Rede Cegonha, criada em 2011. A nova estratégia reafirma o compromisso com uma atenção humanizada à saúde materno- 264 infantil, com ênfase na equidade, no enfrentamento do racismo obstétrico e na redução da mortalidade materna e neonatal (Brasil, 2024). Nesse contexto, a discussão sobre a atuação da enfermagem obstétrica para a transformação do modelo assistencial assume grande relevância social, acadêmica e política. Socialmente, ela está relacionada à necessidade urgente de enfrentamento das altas taxas de cesarianas no Brasil, em sua maioria realizadas sem indicação clínica, e à persistência de práticas intervencionistas que colocam em risco a saúde de mães e bebês. No campo acadêmico, o tema mobiliza debates sobre a formação profissional, o protagonismo da enfermagem, e a implementação de práticas baseadas em evidências e a reconstrução de modelos de cuidado centrados na pessoa que gesta. Politicamente, trata-se de uma pauta que dialoga diretamente com as políticas públicas de saúde materno-infantil implantadas no Brasil desde a instituição da Rede Cegonha. (Brasil, 2024). Diante do exposto, torna-se fundamental compreender de que maneira a formação acadêmica e a capacitação contínua da enfermagem obstétrica contribuem para a transformação no modelo de assistência ao parto em vigência. Portanto, este trabalho tem como objetivo examinar como esses processos educativos, aliados a estratégias políticas, fortalecem a atuação da enfermagem obstétrica na assistência ao parto, promovendo um cuidado centrado na pessoa que gesta e orientado por práticas baseadas em evidências que respeitam a fisiologia do nascimento e asseguram a saúde materno-infantil. A partir dessa perspectiva, a pergunta norteadora que guia este estudo é: Como a formação acadêmica e a capacitação contínua de enfermeiros obstetras contribuem para a transformação de um modelo assistencial ao parto? METODOLOGIA Trata-se de uma revisão integrativa da literatura cuja busca de estudos foi realizada nas bases de dados LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), SciELO (Scientific Electronic Library Online), BVS (Biblioteca Virtual em Saúde) e PubMed, utilizando os seguintes Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e Medical Subject 265 Headings (MeSH): “assistência perinatal”, “cuidados de enfermagem” e “enfermeiros obstétricos”, combinados com os operadores booleanos AND e OR para refinamento da busca. Os critérios de inclusão focaram em estudos publicados entre os anos de 2018 a 2025, disponíveis na íntegra, nos idiomas português, inglês ou espanhol, que abordassem de forma direta a atuação dos enfermeiros obstétricos no processo de cuidado durante o período perinatal. Mediante a aplicação desses critérios, foram selecionados 35 estudos para leitura completa. Após a leitura, foram excluídos 13 estudos devido à indisponibilidade do texto completo, temática distinta ou por não responderem ao objetivo da pesquisa. Ao final da triagem, foram selecionados 22 estudos para uma melhor análise e 15 na amostra final da revisão. RESULTADOS E DISCUSSÃO A caracterização das 15 pesquisas mostrou que a maioria das fontes escolhidas referem-se aos anos de 2018 e 2025, evidenciando o maior período de discussão sobre a importância do papel da enfermagem obstétrica na transformação do modelo assistencial no parto. As publicações mais pertinentes ao nosso tema foram selecionadas e organizadas em um quadro abrangente, contendo o título de cada produção, os autores, o ano de publicação, o objetivo do artigo e suas conclusões, conforme apresentado no Quadro 1. Quadro 1. Fontes selecionadas para a revisão mais relevantes divididas por autor/ano publicado, título, objetivo do artigo e principais achados. Autor/Ano de Publicação Título Objetivo do Artigo Conclusão 266 DUARTE, M. R. et al., 2021 Percepção das enfermeiras obstétricas na assistência ao parto: resgate da autonomia e empoderamento da mulher Analisar a percepção das enfermeiras obstétricas sobre o parto. A atuação das enfermeiras obstétricas fortalece a autonomia e promove assistência humanizada. FONSECA , L. E. et al., 2025 Desafios enfrentados pela Enfermeira Obstétrica no cotidiano da assistência na ótica da Enfermeira Residente Refletir sobre alguns desafios enfrentados pela enfermeira obstétrica no cotidiano da assistência sob a ótica da enfermeira residente. A presença da enfermeira obstetra nos serviços de saúde da mulher promove autonomia, humanização da assistência e redução de morbimortalidade materna e perinatal. MATOS, S. C.; MOLIN, R. S. D., 2025 O parto domiciliar planejado a partir da assistência prestada pelo enfermeiro Identificar os benefícios e os desafios do parto domiciliar planejado (PDP) a partir da assistência realizada pelo enfermeiro. O parto domiciliar planejado traz benefícios, mas enfrenta barreiras sociais e políticas, reforçando a importância da autonomia do enfermeiro obstetra na assistência NASCIME NTO, A. R. D.; O papel do enfermeiro no pré-natal de Evidenciar a importância da consulta acolhedora, O enfermeiro é responsável pelo acolhimento e bem-estar 267 MENEZES , J. L., 2024 risco habitual da educação em saúde e da atuação do enfermeiro no prénatal de risco habitual. da mulher no ciclo gestacional, atuando com visão holística e humanizada, o que reforça sua importância social. PONTES, A. F. et al., 2022 Melhoria da qualidade da assistência ao parto normal pela enfermeira obstetra e o uso do partograma Analisar a atuação da enfermeira obstétrica e o uso do partograma no PN. A atuação efetiva da enfermeira obstetra requer competências técnicas, autonomia e uma assistência menos intervencionista, incluindo o uso do partograma. SILVA, T. P. R. et al., 2019 Enfermagem Obstétrica nas boas práticas da assistência ao parto e nascimento Analisar as boas práticas da enfermagem obstétrica na assistência ao parto e nascimento. A enfermagem obstétrica desempenha papel central na assistência segura e humanizada ao parto, promovendo melhores resultados para mães e recém-nascidos. SOUZA, R. A. G. et al., 2022 O processo de construção da enfermagem obstétrica: uma revisão narrativa Revisar a evolução da enfermagem obstétrica e sua consolidação como área de prática. A enfermagem obstétrica se consolidou como especialidade essencial. Fonte: elaborado pelos autores (2025). 268 A partir da análise do conteúdo dos 15 artigos ficou evidente a convergência em torno da necessidade de consolidação de um modelo assistencial ao parto centrado na pessoa que gesta e embasado em boas práticas depende, significativamente, da formação qualificada e da capacitação contínua de enfermeiros obstetras. A análise dos dados obtidos nas produções científicas revela que a atuação desses profissionais não apenas transforma a lógica assistencial vigente marcada por intervenções excessivas e uma abordagem tecnocrática, mas também promove a humanização, a segurança e o protagonismo feminino no parto. O estudo de Silva et al. (2019), realizado com 666 mulheres em maternidades brasileiras, demonstra que instituições com presença ativa da enfermagem obstétrica apresentaram maiores índices de práticas claramente úteis e baseadas em evidências científicas, como liberdade de posição, contato pele a pele e estímulo à amamentação precoce. Em contrapartida, práticas prejudiciais ou utilizadas de modo inapropriado foram menos frequentes nessas instituições, com diferenças estatisticamente significativas. Tais achados sustentam a tese de que a formação e atuação fundamentada dos enfermeiros obstetras contribui diretamente para a melhoria da qualidade da atenção ao parto e nascimento, em conformidade com os princípios estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde (MS). Corroborando com esses achados, Duarte et al. (2020) enfatizam que a prática da enfermeira obstétrica, quando baseada em conhecimento técnico-científico, favorece a construção de um modelo assistencial pautado no respeito à autonomia da mulher, com a inibição de práticas intervencionistas desnecessárias. As autoras ressaltam que o resgate da autonomia e o empoderamento feminino são elementos estruturantes na atuação da enfermagem obstétrica e constituem instrumentos políticos e sociais de ruptura com o modelo medicalizado ainda hegemônico. A importância dessa atuação também foi destacada no estudo de Lima et al. (2021), ao investigar as percepções de puérperas atendidas em Centro de Parto Normal (CPN), no âmbito da Rede Cegonha. Os relatos evidenciam que a presença da enfermagem obstétrica proporcionou um ambiente acolhedor, com vínculo, respeito à privacidade e menor número de intervenções. Além disso, mesmo diante do desconhecimento inicial das parturientes sobre o 269 papel da enfermagem obstétrica, a experiência revelou-se positiva, indicando que o cuidado centrado na mulher é amplamente reconhecido e valorizado pelas usuárias. Ainda, na revisão conduzida por Santana et al. (2020), as autoras reiteram que a inserção das enfermeiras obstetras no cenário obstétrico contribui diretamente para o aumento dos índices de partos normais e a diminuição das taxas de cesarianas desnecessárias. O estudo aponta que, mesmo com avanços, ainda prevalece no Brasil um modelo hospitalocêntrico e médico-centrado, o que representa um entrave à consolidação de um modelo humanizado de atenção. Isso reforça a necessidade de políticas públicas que promovam a valorização, formação e inserção das enfermeiras obstetras nos diversos níveis de atenção obstétrica. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os achados desta revisão integrativa reforçam que a formação acadêmica e a capacitação contínua dos enfermeiros obstetras são determinantes para a consolidação de um modelo assistencial ao parto centrado na mulher, seguro e fundamentado em evidências. Ao priorizar a fisiologia do nascimento e o respeito à autonomia da gestante, esses profissionais contribuem para reduzir práticas desnecessárias e para fortalecer políticas públicas voltadas à humanização do cuidado. Apesar dos avanços identificados, persistem barreiras estruturais, culturais e institucionais que limitam a plena atuação da enfermagem obstétrica, incluindo a resistência de parte da equipe multiprofissional e a insuficiência de recursos financeiros e materiais em alguns serviços. Este estudo apresenta limitações relacionadas ao recorte temporal e à diversidade metodológica das produções analisadas, o que restringe a possibilidade de comparações diretas e generalizações mais amplas. Portanto, torna-se imprescindível ampliar o número de investigações que explorem o impacto da atuação da enfermagem obstétrica em diferentes contextos e regiões do país, especialmente por meio de estudos multicêntricos e de abordagens mistas. A produção de evidências mais robustas poderá subsidiar decisões políticas e institucionais capazes de