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O tripé do Instituto Butantan para evitar a extinção da jararaca-ilhoa

Marques, Otávio; Monteiro, Pulo H.N; Almeida-Santos, Selma

Abstract

ResumoA jararaca-ilhoa, endêmica da Ilha da Queimada Grande e criticamente ameaçada, demanda respostas rápidas e integradas. Apresentamos o tripé do Instituto Butantan para evitar sua extinção: pesquisa, conservação ex situ e educação. No eixo da pesquisa, estamos consolidando estudos e abordagens em história natural, ecologia comportamental, fisiologia reprodutiva, genética e microbiota, gerando bases para manejo, pareamentos e protocolos de reprodução assistida. No eixo ex situ, o Laboratório de Ecologia e Evolução (LEEv) do Instituto Butantan está implantando um viveiro concebido para replicar, na medida do possível, a estrutura e o microclima da Floresta Atlântica insular, visando saúde ecológica e comportamental, redução de endogamia e formação de um plantel apto a futuras reintroduções. No eixo educativo, ações nas dependências do LEEv e em escolas do litoral engajam docentes, estudantes e público em ciência participativa, fortalecendo o apoio social e o combate ao tráfico. A integração desses eixos cria um modelo replicável para outras serpentes brasileiras e amplia as chances de viabilidade populacional da espécie. Palavras-chave: jararaca-ilhoa; conservação ex situ; pesquisa; educação ambiental; reintrodução. AbstractThe Golden Lancehead, endemic to Queimada Grande Island and critically endangered, requires swift, integrated action. We present the Butantan Institute’s tripod to prevent extinction: research, ex situ conservation, and education. In the research axis, we are consolidating studies and approaches in natural history, behavioral ecology, reproductive physiology, genetics, and microbiota, providing baselines for management, pairings, and assisted-reproduction protocols. For ex situ conservation, the Laboratório de Ecologia e Evolução (LEEv) at Instituto Butantan is developing a vivarium designed to replicate, as far as feasible, the island’s Atlantic Forest structure and microclimate, promoting ecological and behavioral health, reducing inbreeding, and building a stock suitable for future reintroductions. In education, initiatives within LEEv facilities and in coastal schools engage teachers, students, and the public through participatory science, strengthening social support and curbing illegal trade. Integrating these axes offers a replicable framework for other Brazilian snakes and increases the species’ population viability. Keywords: Golden Lancehead; ex situ conservation; research; environmental education; reintroduction.

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SEÇÃO História Natural e Conservação H BVOL. 14 NUM. 02 Otavio A.V. Marques1, *, Paulo H.N. Monteiro1, Selma M. Almeida-Santos1 O tripé do Instituto Butantan para evitar a extinção da jararacailhoa Laboratório de Ecologia e Evolução, Instituto Butantan, 05503-900, São Paulo, Brasil. * Corresponding author. E-mail: otavio.marques@ butantan.gov.br Editores de Área: Cybele Lisboa, Ibere Machado Submetido: 30/04/2025 Aceito: 20/09/2025 DOI: 10.5281/zenodo.17361040 H BUma publicação da Sociedade Brasileira de Herpetologia Resumo A jararaca-ilhoa, endêmica da Ilha da Queimada Grande e criticamente ameaçada, demanda respostas rápidas e integradas. Apresentamos o tripé do Instituto Butantan para evitar sua extinção: pesquisa, conservação ex situ e educação. No eixo da pesquisa, estamos consolidando estudos e abordagens em história natural, ecologia comportamental, fisiologia reprodutiva, genética e microbiota, gerando bases para manejo, pareamentos e protocolos de reprodução assistida. No eixo ex situ, o Laboratório de Ecologia e Evolução (LEEv) do Instituto Butantan está implantando um viveiro concebido para replicar, na medida do possível, a estrutura e o microclima da Floresta Atlântica insular, visando saúde ecológica e comportamental, redução de endogamia e formação de um plantel apto a futuras reintroduções. No eixo educativo, ações nas dependências do LEEv e em escolas do litoral engajam docentes, estudantes e público em ciência participativa, fortalecendo o apoio social e o combate ao tráfico. A integração desses eixos cria um modelo replicável para outras serpentes brasileiras e amplia as chances de viabilidade populacional da espécie. Palavras-chave: jararaca-ilhoa; conservação ex situ; pesquisa; educação ambiental; reintrodução. Abstract The Golden Lancehead, endemic to Queimada Grande Island and critically endangered, requires swift, integrated action. We present the Butantan Institute’s tripod to prevent extinction: research, ex situ conservation, and education. In the research axis, we are consolidating studies and approaches in natural history, behavioral ecology, reproductive physiology, genetics, and microbiota, providing baselines for management, pairings, and assisted-reproduction protocols. For ex situ conservation, the Laboratório de Ecologia e Evolução (LEEv) at Instituto Butantan is developing a vivarium designed to replicate, as far as feasible, the island’s Atlantic Forest structure and microclimate, promoting ecological and behavioral health, reducing inbreeding, and building a stock suitable for future reintroductions. In education, initiatives within LEEv facilities and in coastal schools engage teachers, students, and the public through participatory science, strengthening social support and curbing illegal trade. Integrating these axes offers a replicable framework for other Brazilian snakes and increases the species’ population viability. Keywords: Golden Lancehead; ex situ conservation; research; environmental education; reintroduction. H B H B A serpernte A jararaca-ilhoa (Bothrops insularis) é talvez a serpente mais emblemática da fauna brasileira. Vivendo isolada na pequena Ilha da Queimada Grande (Fig. 1), a mais de 30 km da costa de São Paulo, ela depende de aves vindas do continente e a sua população representa uma das maiores densidades de serpentes do planeta (Marques et al., 2002, 2012; Martins et al., 2008; Abrahão et al., 2021). Sua coloração amarelada e a presença de fêmeas intersexuadas são outras particularidades que intrigam diversos pesquisadores (Marques, 2021; Garcia et al., 2022; Kasperoviczus et al., 2023). Essa população de cobras da Ilha da Queimada Grande sempre suscitou o imaginário popular, dando origem a inúmeras histórias e lendas, aumentando sua notabilidade. Infelizmente, o fato de estar classificada como criticamente ameaçada de extinção é outro atributo que dá fama a essa singular jararaca. Figura 1. A Ilha da Queimada Grande e a jararaca-ilhoa (Bothrops insularis) em seu habitat natural. MARQUES ET AL. SEÇÃO História Natural e Conservação Aspectos como a pequena área da ilha, a alteração de seu habitat natural, a retirada de espécimes pelo tráfico ilegal e a constatação da queda populacional em seu habitat natural (Marques, 2021) fazem com que jararaca-ilhoa seja incluída na categoria ‘criticamente ameaçada’ na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) desde o ano de 2000. Posteriormente, foi adicionada também às listas oficiais da fauna ameaçada de extinção do Estado de São Paulo e do Brasil (Marques et al., 2002). Apresentamos, a seguir, as ações desenvolvidas pelo Instituto Butantan na tentativa de reverter o processo de extinção desta espécie. H B O Instituto Butantan Fundado em 1901 como Instituto Serumtherápico, com o objetivo de produzir soro antipestoso para combater um surto de peste bubônica que se propagava a partir do Porto de Santos, o Instituto passou a produzir o soro antiofídico já no seu primeiro ano de existência. Dessa forma, o Butantan também passou a responder aos objetivos de Vital Brazil, seu primeiro diretor, que já desenvolvia pesquisas relacionadas ao combate ao ofidismo. Como uma das principais estratégias para a captação de serpentes na natureza, necessárias para produzir o soro antiofídico, Vital Brazil criou um sistema no qual a população poderia adquirir gratuitamente o soro antiofídico e caixas de madeira, além de outros equipamentos para a captura, em troca de serpentes entregues vivas ao Butantan. Devido ao sucesso dessa estratégia, a instituição passou a ser principal destino para o envio de serpentes encontradas na natureza em diversas regiões do território brasileiro, tornando-se referência no estudo de ofídicos (Ibañez et al., 2005). Foi neste Instituto que dezenas de novas espécies de serpentes foram descobertas pela ciência, destacandose também inúmeros estudos sobre seus venenos. Em 1921, um de seus diretores, Afrânio do Amaral, descreveu uma jararaca diferente, de tom amarelado, que habita a isolada Ilha da Queimada Grande, ao largo do litoral de São Paulo. Apesar dessa descoberta, poucos estudos foram desenvolvidos no Instituto Butantan com a espécie no século passado (Kasperoviczus & AlmeidaSantos, 2012). Além do próprio Amaral, que descreveu a espécie e estudou aspectos básicos de sua biologia e seu veneno (Amaral, 1921), outro estudo que caracteriza a intersexualidade da espécie na década de 1950 merece destaque (Hoge et al., 1959). Atualmente, o Instituto Butantan destaca-se pela produção de soros e vacinas, além do desenvolvimento de pesquisas básicas e aplicadas relacionadas direta ou indiretamente à saúde pública. A caracterização e investigação das propriedades farmacológicas das moléculas que compõem os venenos ofídicos, assim como a avaliação do seu uso para novos medicamentos têm sido uma das frentes de pesquisa do instituto neste século (Armelin, 2009). Em relação à pesquisa básica, podemos ressaltar os estudos sobre história natural de serpentes, consolidados na instituição nas últimas três décadas (ver Maschio et al., 2023). O conhecimento da história natural, associado à estudos filogenéticos tem possibilitado resgatar e compreender vários aspectos da história evolutiva desses répteis (e.g., Martins et al., 2002; Alencar et al., 2013). Vale destacar que muitas espécies de serpentes são alvos de estudos de bioprospecção. Agregar o conhecimento da história natural de uma espécie, assim como reconhecer a sua posição filogenética, frequentemente sinaliza maior possibilidade para descoberta de moléculas desconhecidas e com potencial de uso farmacológico em benefício dos humanos. Há muito a pesquisar, mas o processo de extinção avança continuamente no planeta e também atinge as serpentes, motivando a preocupação de boa parte dos pesquisadores do Instituto Butantan. O novo desafio O Brasil está no topo dos países megadiversos (Brooks et al., 2006) e abriga cerca de 10% da biodiversidade mundial (Lewinsohn & Prado, 2005). As análises mais recentes indicam que 1.253 espécies da fauna brasileira estão ameaçadas de extinção (PORTARIA MMA Nº 148/2022). Dada a sua elevada biodiversidade, o país tem um grande desafio para refrear a perda de espécies. Reverter o processo de extinção de qualquer espécie é tarefa fundamental para manutenção da biodiversidade do planeta, e ações neste sentido são de extrema importância. Tal tarefa exige a ampla mobilização da sociedade, das universidades e de centros de pesquisas. Ações que preservem os habitats naturais em que vivem as espécies certamente são as medidas mais efetivas para reverter o processo de extinção. No entanto, ações específicas voltadas para espécies-alvos, tais como programas de manutenção ex situ, reprodução assistida e a criação de biobancos devem ser vistas como ferramentas indispensáveis para a conservação. Entre as espécies ameaçadas de nossa fauna estão listadas 24 serpentes, incluindo a jararaca-ilhoa. Diante deste cenário, o Instituto enfrenta mais um desafio e começa a dar a sua parcela de contribuição para salvaguardar a nossa biodiversidade. Dado o seu grau de ameaça e o relativo bom conhecimento de sua ecologia, a jararacaH BMARQUES ET AL. SEÇÃO História Natural e Conservação H B H B ilhoa é a primeira espécie-alvo do Instituto para o desenvolvimento de ações de conservação. As ações para conservar A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) propõe diversas medidas para proteger ou recuperar populações de espécies ameaçadas. Além da preservação ou recuperação de seus habitats naturais, podemos reconhecer três eixos básicos de ações para reverter o processo de extinção de uma espécie: (1) o desenvolvimento de pesquisas científicas, (2) a conservação ex situ (ou seja, a manutenção de uma população fora do seu habitat natural) e (3) campanhas educativas. Vários projetos desenvolvidos no Instituto Butantan com apoio da FAPESP possibilitaram caracterizar os principais aspectos da história natural e ecologia da espécie, mas outros estudos são essenciais e urgentes para subsidiar medidas de conservação in situ e ex situ. Para concretizar as ações de conservação de serpentes, o Instituto Butantan inaugurou novas instalações para o Laboratório de Ecologia e Evolução (LEEv) cuja principal missão é desenvolver e consolidar os três eixos básicos de ações para a conservação das espécies. Para tal finalidade o local (Fig. 2) possui um viveiro para a conservação ex situ da jararaca-ilhoa e prédios destinados a biotérios, laboratórios e espaços destinados a exposições com finalidades educativas, relacionadas à temas científicos em geral e, particularmente, à conservação. Figura 2. Instalações do Laboratório de Ecologia e Evolução (LEEv) do Instituto Butantan, com quatro prédios destinados a pesquisa, biotério, exposição ao público e um viveiro para conservação ex situ. MARQUES ET AL. SEÇÃO História Natural e Conservação Os primeiros passos Em um artigo publicado na Ciência Hoje em 2002, os autores mencionaram a importância de estudos detalhados sobre biologia para avaliar os riscos reais a que jararacailhoa está sujeita e sugeriram a manutenção de um plantel ex situ como uma medida importante para a conservação da espécie (ver Marques et al., 2002). Desde então, dois projetos patrocinados pela FAPESP, conduzidos por pesquisadores do LEEv, possibilitaram o desenvolvimento de vários estudos sobre a história natural e ecologia da jararaca-ilhoa. Atualmente, um terceiro projeto está detalhando a sua biologia reprodutiva. Em um dos projetos, desenvolvido entre 2007 e 2009, com o objetivo de caracterizar os hábitos alimentares e a biologia reprodutiva da jararaca-ilhoa, surgiu a proposta de coletar alguns exemplares a fim de iniciar uma experiência piloto visando a conservação ex situ. Nesse contexto, 20 exemplares foram trazidos da ilha e acondicionados em caixas plásticas individualizadas em um pequeno biotério do LEEv (SISBIO: 25650-13). A consolidação do primeiro plantel ex situ da jararacailhoa permitiu abordar vários aspectos da biologia reprodutiva dessa serpente (e.g., período de acasalamento, fecundidade, acompanhamento gestacional com o uso da ultrassonografia, época de nascimento e número de filhotes) resultando em vários artigos (Marques et al., H B Figura 3. Área do viveiro, onde serão replicadas as condições similares às da Ilha da Queimada Grande para manter um plantel da jararaca-ilhoa. 2013; Amorim et al., 2019; Garcia et al., 2022, 2023 Garcia & Almeida-Santos, 2022 ). Tais estudos, principalmente sobre as características físicas e biológicas do sêmen e a época de vitelogênese possibilitaram a seleção de adultos férteis para pareamento de casais em biotério (Silva et al., 2015, 2021). Diante disso, o plantel foi multiplicado, aumentando de 20 para quase 60 exemplares. O sucesso na manutenção e reprodução desse plantel impulsionou o projeto de conservação ex situ e culminou com a construção de novas dependências para o LEEv. No novo local, foi incluído um viveiro para abrigar uma população ex situ com as condições similares às da Ilha da Queimada Grande, permitindo que as serpentes se habituem a se locomover sobre a vegetação, fiquem aptas a capturar aves e preparadas para enfrentar outras situações próprias do seu habitat natural. Conservação ex situ O viveiro do LEEv (Fig. 3) pretende não apenas abrigar um plantel para assegurar a existência da espécie ex situ, mas também manter espécimes viáveis para serem introduzidos na natureza em caso de extinção ou mesmo diante de dados de que esta seja iminente. Assim, é fundamental que os exemplares do viveiro se adaptem a viver em condições similares às da Ilha da Queimada Grande, considerando suas particularidades e as dificuldades impostas pelo seu habitat natural. O recinto, com 250 m2, foi concebido justamente para que nele sejam replicadas − na medida do possível − as condições existentes na ilha. MARQUES ET AL. A Ilha da Queimada Grande é recoberta por Mata Atlântica, e a sua composição florística é relativamente bem conhecida (Kurtz et al., 2017, Marques 2021). Desse modo, há informações seguras para replicar uma cobertura vegetal similar no viveiro. Um estudo populacional da jararaca-ilhoa mostrou que a espécie vive no interior da floresta e raramente é avistada em porções abertas da ilha (Martins et al., 2008). Essa jararaca apresenta um padrão termo-conformador, ou seja, sua temperatura corporal varia de acordo com o ambiente, sem mecanismos comportamentais evidentes de termorregulação ativa. Suas exigências térmicas são asseguradas pelo microclima relativamente estável do interior da floresta que recobre a ilha (Bovo et al., 2012). A Ilha possui integridade florestal menor do que áreas de Mata Atlântica bem preservadas, mas um estudo sobre o uso de habitat evidenciou que a serpente tem preferência por locais mais íntegros, com dossel alto e poucas aberturas (Banci, 2023). Florestas mais íntegras oferecem habitats melhor estruturados, com maior disponibilidade de substratos acima do solo, por onde as serpentes costumam se locomover, além de poleiros frequentemente utilizados para caçar as aves que constituem sua dieta. Assim, a criação de ambiente florestal com tais características é essencial para a manutenção de um plantel de B. insularis fora do seu habitat natural, de forma saudável do ponto de vista ecológico e comportamental. Se não há dúvida de que a presença de uma fisionomia vegetal no viveiro similar à da ilha é imprescindível, não há, até o momento, elementos para afirmar se as espécies vegetais nativas da ilha são igualmente importantes para manter as mesmas características ecológicas e comportamentais da população ex situ. Estudos em andamento e em planejamento no LEEv irão auxiliar a responder tal questão (ver item Pesquisa). Uma vez que, no momento, só há informação segura de que a jararaca-ilhoa necessita do sombreamento da floresta, o primeiro passo é a formação de uma pequena floresta com espécies arbóreas que permitam o desenvolvimento de um dossel. Para esse fim foram introduzidas no recinto dezenas de mudas arbóreas de rápido crescimento. Com o dossel consolidado, garantido o sombreamento e umidade necessários, serão acrescentadas lianas, epífitas e formas arbustivas, deixando o ambiente similar àqueles mais íntegros existentes na ilha, conforme estudo prévio (Banci, 2023). SEÇÃO História Natural e Conservação H B O manejo da vegetação deve incluir poda, remoção de invasoras e, eventualmente, a introdução de espécies nativas da ilha, caso se demonstre que são importantes para a ecologia e o comportamento da jararaca-ilhoa. Pesquisa Embora diversos aspectos da história natural e ecologia da jararaca-ilhoa tenham sido estudados ao longo das últimas duas décadas, incluindo hábitos alimentares, termorregulação, uso do habitat, interação com predadores, reprodução e estimativas populacionais (Marques, 2021, Alves-Nunes et al., 2023; Kasperoviczus et al., 2023; Sawaya et al., 2023; Banci et al., 2024), muitas questões essenciais para o manejo da espécie no viveiro permanecem em aberto. Estudos sobre ecologia comportamental, ecofisiologia, fisiologia reprodutiva e genética são prioritários, pois podem gerar informaçõeschave para o manejo de um plantel saudável e para futuras introduções ou reintroduções. A adequação do viveiro, simulando ao máximo as condições da ilha é imperativa, especialmente se houver a possibilidade de soltura de espécimes no local, sendo indispensável, que mantenham características biológicas compatíveis com as populações selvagens, garantindo sua adaptação ao ambiente natural. Além disso, é fundamental preservar essas características ao longo das gerações do plantel, para evitar a seleção artificial que poderia favorecer caracteres diferentes daqueles presentes na população natural da ilha. A primeira fase de instalação da vegetação, embora utilize espécies vegetais registradas na ilha ou semelhantes, tem como objetivo criar um ambiente sombreado e com complexidade estrutural adequada. Essa configuração garantirá a redução da insolação direta, a manutenção da umidade e a oferta de temperaturas e substratos arbóreos compatíveis com as necessidades da jararacailhoa. O micro-habitat de caça depende dessas variáveis, mas desconhecemos se determinadas espécies vegetais influenciam na escolha desses locais. Na ilha, observamos frequentemente serpentes caçando em meio a frutos caídos no solo ou sobre a vegetação (Fig. 4). A presença de frutos é um atrativo para aves, e a seleção desses pontos pela jararaca-ilhoa aumenta as chances de encontro com suas presas. É importante compreendermos qual sinal a serpente utiliza para reconhecer esses sítios de caça. Experimentos para avaliar o interesse e a atração das jararacas-ilhoas por diferentes estímulos, incluindo sinais químicos liberados pelos frutos serão essenciais para as próximas etapas do manejo da vegetação. Essas avaliações, associadas a outros estudos de ecologia comportamental, devem orientar o manejo e o enriquecimento ambiental do viveiro. Outro aspecto importante considerado pelo LEEv é a avaliação da diversidade genética do plantel de jararacasilhoas. Esse procedimento é necessário porque, havendo poucos indivíduos para cruzamento, o risco de elevada taxa de endogamia (cruzamento entre parentes próximos) aumenta, podendo levar à diminuição da variabilidade genética do plantel. Recomenda-se que a similaridade genética da população ex situ seja próxima à da população selvagem, a fim de manter características compatíveis com a população insular e preservar sua capacidade de adaptação ao ambiente natural da ilha. Figura 4. Jararaca-ilhoa (Bothrops insularis) em atividade de caça entre frutos caídos e na vegetação. A compreensão dos sinais utilizados pela espécie para selecionar seus sítios de caça é essencial para o manejo ex situ. MARQUES ET AL. SEÇÃO História Natural e Conservação H BMARQUES ET AL. Figura 5. Estudos sobre reprodução, diversidade genética das populações ex situ (viveiro) e in situ (Ilha) e análise de suas microbiotas serão essenciais para o manejo e para a implantação de programas de reintrodução da jararaca-ilhoa. do litoral sul de São Paulo, região adjacentes à Ilha da Queimada Grande. As instalações do LEEv, com mais de mil metros quadrados, estão situadas no interior da reserva de Mata Atlântica do instituto e incluem quatro blocos independentes de pesquisa, além do viveiro. Esse complexo oferece um ambiente propício para atividades educativas que transmitam o conhecimento produzido pelo Laboratório, assim como os seus princípios de trabalho. Todos os quatro prédios do LEEv apresentam janelas dispostas para a observação e a interação com o público e são circundados por passarelas de circulação para visitantes. Três prédios abrigam laboratórios e pesquisadores e outro é destinado principalmente para a manutenção de animais vivos em biotérios e à exposição de temas relacionados à conservação. A proposta é receber visitas monitoradas por educadores que interajam continuamente com os pesquisadores, permitindo aos visitantes vivenciar os projetos desenvolvidos no LEEv voltados à conservação das espécies. Esses educadores conduzirão os grupos, apresentando e discutindo as pesquisas desenvolvidas no local. Temas como ecologia comportamental, bem-estar animal, reprodução, evolução e diversidade genética serão abordados, destacando como a pesquisa e a produção de conhecimentos são essenciais para subsidiar as ações de conservação in situ e ex situ. O primeiro estudo, realizado com 79 indivíduos (49 ex situ e 30 in situ), indicou 49% de similaridade genética entre a população de cativeiro e selvagem (Salles-Oliveira et al., 2020). Esse resultado preliminar reforça a necessidade de monitoramento da população do viveiro, já que programas de reintrodução geralmente recomendam a manutenção de pelo menos 90% da diversidade genética entre as populações ex situ e in situ (Frankham et al., 2017). Neste sentido, os estudos sobre reprodução darão o respaldo necessário para reduzir a endogamia e evitar a perda da diversidade genética (Fig. 5). A elaboração de protocolos para obtenção e armazenamento de sêmen de machos da ilha, aliada ao aprimoramento das técnicas de inseminação artificial, poderá minimizar ou eliminar a necessidade de novas coletas, garantindo um plantel geneticamente diverso (Silva et al., 2021). O estado sanitário do plantel deve ser avaliado periodicamente. A reintrodução de espécimes pode provocar a disseminação de doenças, afetando a população selvagem, e os animais reintroduzidos também podem ser vulneráveis a patógenos presentes no ambiente natural. O Instituto Butantan possui a expertise para traçar o perfil metagenômico da microbiota da população ex situ e in situ, utilizando técnicas de metagenômica para garantir a reintrodução seguras também sob o ponto de vista sanitário. Ações educativas Ações educativas estão sendo conduzidas no próprio Instituto Butantan, junto às novas instalações do LEEv, e também com o envolvimento de escolas municipais SEÇÃO História Natural e Conservação H B O trabalho junto às escolas do litoral foi iniciado no município de Itanhaém, em 2018, com cursos direcionados aos professores da rede pública. Itanhaém é a cidade mais próxima da Ilha da Queimada Grande e ponto de acesso por embarcações, incluindo barcos de pescadores. Em uma primeira fase, foi ministrado um curso abordando serpentes em geral e especificidades relacionadas à jararaca-ilhoa, voltado para professores de 18 escolas municipais. A segunda fase, iniciada em 2022, tem como objetivo envolver alunos e professores em projetos de pesquisa desenvolvidos pelos pesquisadores do LEEv na Ilha da Queimada Grande. O primeiro projeto trata da pressão de predadores na ilha como um dos fatores da evolução e diferenciação da jararaca-ilhoa, e envolve a estratégia de utilizar réplicas de cobras (Fig. 6) em experimentos bem adequados para serem conduzidos pelos estudantes. Figura 6. Réplicas feitas com massa de modelar representando as cores da da jararaca continental (acima) e da jararaca-ilhoa (abaixo). MARQUES ET AL. SEÇÃO História Natural e Conservação Experimentos com réplicas de serpentes confeccionados com massa de modelar têm sido desenvolvidos em algumas áreas de Mata Atlântica para quantificar a taxa de predadores sobre serpentes (e.g., Siqueira & Marques, 2018; Banci et al., 2020). Em um desses estudos foi possível comparar a pressão de predadores de serpentes entre a Ilha da Queimada Grande e áreas continentais de Mata Atlântica, constatando-se que a taxa de predação na ilha é muito inferior às do continente (Banci et al., 2024). É possível que essa menor pressão de predadores tenha possibilitado a evolução e fixação da cor amarelada nas jararacas da Ilha. Similar aos animais albinos, a cor amarelada tende a ser mais chamativa aos predadores visuais, mas poderia ter sido fixada na população da ilha pela baixa pressão de predação. Para testar tal hipótese é necessário comparar a taxa de predação sobre réplicas H B com padrão amarronzado (similar à cor da jararaca continental) com as de padrão amarelado (como o da jararaca-ilhoa). A ideia é levar essa questão aos estudantes e envolvê-los no estudo e experimentos em campo (Fig. 7). Nesse sentido, estratégias baseadas na Ciência Cidadã, onde a população participa da coleta de dados em uma pesquisa, poderão ser desenvolvidas junto ao público (Bonney, et. al. 2015). Essa ação possui vários passos que envolvem a discussão de conteúdos e conceitos sobre interações ecológicas, MARQUES ET AL. Figura 7. Experimento piloto utilizando as réplicas com a participação dos alunos de uma das escolas municipais de Itanhaém (ver texto). adaptação, deriva genética e outros aspectos relacionados à evolução e ecologia. A partir do domínio desses conceitos, professores e alunos poderão vivenciar as principais etapas do método científico, incluindo a descrição de fenômenos, a elaboração de hipóteses e o planejamento e execução de experimentos. Além de estimular a prática do pensamento científico nas escolas, espera-se que a presença da jararaca-ilhoa desperte a sensibilização e engajamento para a conservação dessa espécie e, em especial, na luta contra o tráfico. SEÇÃO História Natural e Conservação