Entre muros: os espaços coletivos dos condomínios residenciais fechados
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AUTORIA Christiane Nicolau Rosendo Ferreira PRODUÇÃO EDITORIAL Núcleo de Publicações Institucionais (NPI) COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO Filipe Carvalho de Almeida DIAGRAMAÇÃO Raiff Pimentel Félix Almeida Entre muros: os espaços coletivos dos condomínios residenciais fechados | Christiane Nicolau Rosendo Ferreira | Unipê: João Pessoa, 2019 | 96 páginas | ISBN 978-85-87868-83-1 DOI: 10.5281/zenodo.17674731
4 Dito isto, é inútil determinar se Zenóbia deve ser classificada entre as cidades felizes ou infelizes. Não faz sentido dividir as cidades nessas duas categorias, mas em outras duas: aquelas que continuam ao longo dos anos e das mutações a dar forma aos desejos e aquelas em que os desejos conseguem cancelar a cidade ou são por esta cancelados. Ítalo Calvino
5 APRESENTAÇÃO Este livro resulta de vivências pessoais e de pesquisas realizadas desde a graduação junto a excelentes professores pesquisadores que me apresentaram diferentes pontos de vista acerca da segregação socioespacial, a fragmentação que caracteriza a malha urbana de muitas cidades e os padrões segregatórios de moradia. As cidades à medida que crescem, tem se fechado entre novos muros, levando ao agravamento das questões relativas as ruas e ocupação do espaço urbano, a privatização de espaços públicos, a relação de vizinhança obrigatória, a alusão de uma maior segurança e status. Com isso, os espaços públicos da cidade contemporânea são marcados pela apropriação seletiva e diferenciada dos espaços que deveriam ser acessíveis a todos. O condomínio fechado altera a relação entre público e privado a partir da privatização de espaços públicos. Na zona sul da cidade de João Pessoa, somente no Bairro Portal do Sol, conta-se hoje com sete condomínios horizontais fechados, cada um com as suas grandes áreas de lazer. Como as cidades podem gerar uma diversidade de usos com uma extensão de muros separatistas para aquele que deve mais poder aquisitivo? O objetivo aqui foi analisar as áreas de uso coletivo dos condomínios horizontais fechados: Cabo Branco Residence Prive, Porta do Sol e Bosque das Orquídeas, localizados em João Pessoa, quanto à morfologia e organização socioespacial, observando as regras de planejamento, as formas, usos e comportamentos dos usuários. Como procedimento metodológico se utilizou como referência base: Kevin Lynch (1997), Maria Elaine Kohlsdorf (2005) e Jan Gehl (2006). Apesar das semelhanças formais e funcionais visíveis nestes espaços coletivos, existem diferenças fundamentais nas práticas espaciais dos seus usuários. É fundamental conhecê-las para poder compreender as dinâmicas e desempenho destes espaços bem como a lógica social de produção da segregação e parte da cultura contemporânea. As cidades é um produto que se insere no âmbito da relação do homem com o meio, porém essa relação não é o suficiente para determinar que temos cidades. A diversidade social, cultural e espacial é parte da identidade da cidade e as experiências humanas exercitadas no dia-a-dia, ao se acumularem e ao serem compartilhadas. É na diversidade ainda que seu sentido é elaborado, assimilado e negociado. Contudo, vemos as grandes transformações na realidade do espaço urbano, onde a cidade torna-se cada vez mais segregada, sendo a violência urbana e a criminalidade os principais fatores que favorecem o fechamento de espaços usualmente públicos como praças, parques e locais de comércio, por exemplo. Muitas das ideias aqui apresentadas são discutidas por outros autores considerando outras realidades geográficas, outros contextos sociais e também econômicos, porém olhar para João Pessoa e identificar as características de sua expansão auxilia no prognóstico da cidade que temos e aquela que queremos ter futuramente. Por fim, recomendo a leitura desse livro não como verdades absolutas e reflexões concluídas, mas como processos e reflexões acerca da expansão urbana contemporânea e consequentemente as relações sociais.
6 SUMÁRIO CAPÍTULO CAPÍTULO CARACTERIZAÇÃO E FORMA DE ABORDAGEM 1.1 CONCEITUANDO CONDOMÍNIO RESIDENCIAL ............................................... 10 1.2 PADRÕES DE OCUPAÇÃO SEGREGATÓRIOS EM JOÃO PESSOA .................. 11 1.3 A ORIGEM DOS CONDOMÍNIOS HORIZONTAIS EM JOÃO PESSOA .......................................................................................................... 16 1.4 MÉTODOS PARA COLETA DE DADOS ................................................................. 17 1.5 METODOLOGIAS SELECIONADAS PARA APREENSÃO DO ESPAÇO URBANO ................................................................................................... 18 DISTINGUINDO ESPAÇO E LUGAR .............................................................................. 22 2.1 CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA ................................................................................. 22 2.1.1 Delimitação Territorial .................................................................................. 22 2.1.2 Infraestrutura Urbana .................................................................................. 25 2.1.3 Legislação ..................................................................................................... 27 2.2 TRÊS CONDOMÍNIOS ..................................................................................... ........ 32 2.2.1 Cabo Branco Residence Privê ...................... ................................................ 33 2.2.2 Porta do Sol ................................................................................................... 42 2.2.3 Bosque das Orquídeas................................................................................. 49 2.3 A RELAÇÃO DOS CONDOMÍNIOS FECHADOS COM O ESPAÇO URBANO ..... 56 01 02 INTRODUÇÃO ` ..............................................................................08
7 CAPÍTULO CONSIDERACÕES FINAIS REFERÊNCIAS ` CONFIGURAÇÃO ESPACIAL E SOCIAL DOS CONDOMÍNIOS HORIZONTAIS FECHADOS ............................................................................................ 58 3.1 ANÁLISE FORMAL ................................................................................................... 59 3.1.1 Aparência Interna ......................................................................................... 63 3.1.2 Concentração e Fluxo de Pessoas .............................................................. 70 3.2 USO E APROPRIAÇÃO DOS ESPAÇOS COLETIVOS ........................................... 79 3.2.1 Atividades Necessárias ................................................................................ 82 3.2.2 Atividades Opcionais ................................................................................... 83 3.2.3 Atividades Sociais ......................................................................................... 83 03 90 93
8 INTRODUÇÃO Assistimos hoje à proliferação do fenômeno da autosegregação nas cidades contemporâneas de âmbito mundial e local, por exemplo, os condomínios horizontais fechados. Em João Pessoa, este fenômeno cresce desde 1984, localizados, sobretudo, em áreas mais periféricas da cidade e voltados para população de média e alta renda. O número de condomínios horizontais fechados vem crescendo significativamente nos últimos anos, transformando cada vez mais a paisagem urbana contemporânea. De fato, o condomínio fechado altera a relação entre o espaço público e o privado, a partir da privatização de espaços públicos, como ruas, calçadas e praças, por exemplo. Devido ao crescimento acelerado e a grande aceitação por parte da população, os condomínios fechados têm alimentado a cultura do medo (BAUMAN, 2009) com relação ao espaço urbano, levando um número cada vez maior de pessoas a investir nesse novo estilo de morar. Apresentandose como recortes físicos no espaço (RAPOSO, 2008, p. 110), as alternativas para os problemas das cidades apontam a ‘privatização’ como solução para os problemas urbanos. Na zona sul da cidade de João Pessoa, somente no bairro Portal do Sol, são sete condomínios horizontais fechados, cada um com suas grandes áreas de lazer, resultando em espaços de convívio social para um grupo seletivo de pessoas. Esses espaços de lazer parecem grandes clubes com gourmet, piscinas, quadras, playgrounds, pistas de Cooper, saunas, academias etc. Segundo Caldeira (2000, p.268), tudo indica que estas áreas comuns são pouco utilizadas o que aponta para o fato de representarem muito mais uma questão de status do que uma condição para uma vida cotidiana mais gratificante. Esses condomínios ocupam extensas áreas urbanas e seu território é demarcado e isolado por grades ou muros. Com isso, os condomínios fechados interrompem a continuidade da malha urbana alterando o equilíbrio entre ruas, quadras e lotes. Com base nesta temática geral, procuramos explicitar os elementos conceituais, teóricos e metodológicos necessários a realização desta pesquisa em arquitetura e urbanismo, nível de mestrado na área de concentração História da Arquitetura e Urbanismo do PPGAUUFPB e, mais especificamente, na linha de pesquisa de Cidade, Cultura Contemporânea e Urbanidade. O objetivo é analisar as áreas de uso coletivo de três dos sete condomínios horizontais fechados implantados no bairro Portal do Sol, na cidade de João Pessoa, quanto à morfologia e organização socioespacial, observando as regras de planejamento, as formas, usos e comportamentos dos usuários para avaliar seus efeitos e tentar contribuir com os estudos sobre a sociabilidade, a cultura e a urbanidade contemporâneas. A prática e expansão dos condomínios horizontais fechados no Brasil, vêm gerando várias discussões e estudos que abordam suas origens, causas e consequências (CALDEIRA, 2000; MOURA, 2003; BRANDSTETTER, 2001; ANDRADE, 2006; LOPES, 2008), da mesma forma, há estudos que tratam de assuntos relacionados a espaços públicos e segregação, mas não existem estudos específicos que avaliem o desempenho das áreas de uso coletivos dos condomínios horizontais fechados como se propõe abordar nesta pesquisa.
9 Para seleção dos condomínios fechados, foram realizados inicialmente leituras das geoimagens da cidade, obtidas no site da Prefeitura Municipal, onde foi possível identificar o bairro com a maior concentração de condomínios horizontais fechados. Após a leitura e mapeamento dos condomínios horizontais fechados, a escolha dos 3 (três) condomínios se deu por diferentes motivos: o Condomínio Cabo Branco Residence Prive foi escolhido por ser o mais antigo do bairro e consequentemente o mais habitado; o condomínio Porta do Sol foi escolhido porque seu terreno foi inteiramente desmatado para sua implantação e porque inicialmente o terreno pertencia ao Cabo Branco Residence Prive; e, por fim, o Bosque das Orquídeas foi escolhido por ser um dos condomínios que compõe da Cidade dos Bosques, empreendimento do grupo Capuche, que passou por uma interferência da Prefeitura Municipal, o que mostrou o reconhecimento, por parte da administração da cidade, do impacto desses empreendimentos na malha urbana. A escolha também se deu por algumas semelhanças, por exemplo: todos estão inseridos no mesmo bairro da cidade e todos são considerados de alto padrão. O recorte territorial constituído pelo bairro Portal do Sol está localizado na zona sul da cidade de João Pessoa. Trata-se de uma área pouco urbanizada, escassamente provida de infraestrutura urbana, com grandes vazios e baixa densidade, inseridas em um bairro periférico da cidade, ou seja, localizado distante do centro aumentando a dependência do automóvel. Estes fatores contribuem para o baixo custo do solo urbano e a crescente valorização que atinge o bairro sob o ponto de vista do mercado imobiliário. A cidade, não importando suas características ou sua dimensão, é um produto que se insere no âmbito da relação do homem com o meio, porém essa relação estabelecida não é o suficiente para significar que tenhamos cidades. A cidade é marcada pela diversidade social, cultural e espacial, onde a convivência com o “outro” e o “diferente” é exercitada no dia-a-dia (LOPES, 2008, p. 67). É na diversidade que se constrói a identidade da cidade e, em cada lugar que se forma a experiência humana, que ela se acumula e é compartilhada (BAUMAN, 2009, p. 35). É na diversidade ainda que seu sentido é elaborado, assimilado e negociado. Contudo, vemos as grandes transformações na realidade do espaço urbano, onde a cidade torna-se cada vez mais segregada, sendo a violência urbana e a criminalidade os principais fatores que favorecem o fechamento de espaços usualmente públicos como praças, parques e locais de comércio, por exemplo. A privatização dos espaços livres de uso coletivo é, no entanto, um problema que atinge as cidades como um todo (SERPA, 2007, p. 31). Estes espaços públicos passam a atender uma determinada classe social perdendo a noção de comunidade e, assim como os shoppings centers tentam reproduzir áreas de convívio e de lazer, os condomínios fechados parecem reproduzir no espaço intramuros uma cidade de menor porte. Essa privatização de espaços de uso coletivo muda também a cultura e os processos de adaptação ao meio ambiente. Segundo Jane Jacobs (2000, p.29), “se as ruas de uma cidade parecem interessantes, a cidade parecerá interessante; se elas parecerem monótonas, a cidade parecerá monótona”. Quando as ruas provocam inseguranças nas pessoas, mesmo não havendo casos de violência, elas utilizam menos, tornando as ruas ainda mais inseguras, levando as pessoas a atribuir a sensação de segurança às barreiras físicas.
16 1.3 A ORIGEM DOS CONDOMÍNIOS HORIZONTAIS (EM JOÃO PESSOA) Os Condomínios Fechados surgiram nos Estados Unidos na década de 1950. Considerados como fenômeno, passaram a fazer parte do panorama espacial e social de muitas cidades e regiões do mundo (RAPOSO, 2008 p. 109). Influenciados pelo modelo Norte Americano das gated communities, esse novo tipo de moradia atraiu os olhares dos estudiosos na década de 1990. Estudos a respeito dos Condomínio Fechados, como forma de moradia, se expandiram por diversas regiões e países. Ainda na década de 1990, nos Estados Unidos, os condomínios se consolidaram no mercado imobiliário. Todavia, um dos primeiros empreendimentos construídos com as características dos Condomínios Fechados atuais, foi o Tuxedo Park, datado de 1885, próximo de Nova York (BECKER, 2005 p.06). De acordo com Lara (2001), os Condomínios Fechados surgiram nos Estados Unidos influenciados pelas propostas do New Urbanism, que nasceu da necessidade de repensar os subúrbios que eram dominantes na década de 1950. O Movimento do Novo Urbanismo acreditava que aumentando a densidade e promovendo usos residenciais e comerciais numa mesma quadra estariam diminuindo a degradação ambiental e promovendo “vida” na cidade. Porém, as propostas do movimento geraram uma homogeneidade com o número crescente de condomínios fechados e a paisagem passou a ser lida como uma imagem geral de intolerância. Em 1998, de acordo com o CAI (Community Association Institute) já havia nos Estados Unidos cerca de 42.000 (quarenta e dois mil) condomínios fechados (BECKER, 2005 p.26) abrigando cerca de 2,5 milhões de famílias. No Brasil, o crescimento dos condomínios residenciais se deu na década de 1970 e intensificaram as construções a partir da década de 1980. Começaram a aparecer principalmente nas periferias das cidades, originando-se da procura de moradores urbanos por espaços de lazer e serviços para finais de semana. Dessa forma, os condomínios tinham basicamente a função de lazer para os finais de semana. Somente décadas seguintes, o condomínio passou a representar um símbolo de status e se tornando moradia permanente para muitos. Tendo como destaque inicial, na Região Metropolitana de São Paulo, o condomínio Alphaville, baseado no modelo das edge cities norte-americanas, criado em 1974 nos municípios de Barueri e Santana. A partir daí, foi se disseminando gradativamente nas maiores cidades brasileiras: Rio de Janeiro, Goiânia, Belo Horizonte, Salvador, entre outras. Diferente das gated communities, os condomínios residenciais no Brasil são geralmente construídos em áreas privadas não havendo nenhum tipo de apropriação de áreas públicas (LOPES, 2008, p. 56). Este fenômeno em João Pessoa data da década de 1980 e essa nova modalidade residencial tem movimentado o mercado imobiliário da cidade, se tornando alvo de investimento de grandes construtoras. O primeiro condomínio, Village Atlântico Sul, datado de 1984, se localiza no bairro do Seixas e abrigava famílias durante o veraneio, este tinha a área das residências padronizadas e uma área de camping. Atualmente este condomínio tem a função de moradia permanente. O Condomínio Cabo Branco Residence Privê veio em seguida, sendo o primeiro condomínio a ser implantado no bairro Portal do Sol, datado de 1998 foi registrado
17 como loteamento na Prefeitura Municipal da cidade, já que nessa época a legislação não abordava esse tipo de ocupação referente à construção de condomínios horizontais fechados. A busca por segurança consiste num motivo maior para o sucesso dos condomínios. O medo associado ao aumento da violência urbana é um fator que impulsiona a procura de moradias nos condomínios, uma vez que, além da oferta de lazer e serviços, os condomínios também oferecem todo um aparato de serviços de segurança. 1.4 MÉTODOS PARA COLETA DE DADOS Os métodos e técnicas utilizados podem ser divididos em duas fases: (1) coleta de informações sobre os condomínios fechados na cidade de João Pessoa, a legislação, levantamento de arquivos junto à Prefeitura Municipal, cartografia, sondagem sobre a possibilidade de realização de entrevistas com os moradores e de acesso aos arquivos dos condomínios, e pesquisa bibliográfica; e (2) pesquisa de campo: Leitura das formas e usos das áreas de lazer coletivas, a visão dos moradores, aplicação dos questionários, observações de comportamento, registros fotográficos e observações dos traços físicos. Na Prefeitura Municipal foram obtidos os desenhos de dois dos três condomínios horizontais fechados analisados, informações relativas à aprovação dos projetos e construção, conforme mostram as figuras 05 e 06 a seguir. Figura 05: Planta do Cond. Cabo Branco Residence Privê. Fonte: Arquivo Central - PMJP. Nov/2010 Figura 06: Planta do Cond. Porta do Sol. Fonte: Arquivo Central - PMJP. Nov/2010
18 Nas empresas que administram os condomínios, foram obtidos os regimentos internos e convenções que norteiam todos os direitos e deveres dos moradores, do síndico e demais responsáveis pela administração do mesmo. No regimento estão descritos também as regras de construção e aprovação de projetos. Para o levantamento de campo, foram adotados: questionários, mapas de concentração de pessoas e fluxos, observações de comportamentos e de traços físicos. A construção de um instrumento como o questionário é um processo cuidadoso que passa por diversos ajustes até a obtenção de sua versão final. O questionário foi aplicado com o objetivo de fazer uma sondagem sobre o grau de satisfação dos usuários em relação a diversos aspectos técnicos, funcionais e/ou comportamentais dos espaços coletivos dos condomínios horizontais fechados. Foram aplicados a 20% do número total de lotes existentes em cada condomínio. Os dados gerados a partir do questionário podem ser comparados e analisados tornando os resultados da pesquisa mais facilmente exploráveis. Assim, foi elaborado um questionário que permitiu identificar comportamentos e satisfação dos moradores com relação as vivências nas áreas de uso coletivo. As fotografias possibilitaram definir limites do ambiente a ser analisado, analisar aspectos de usos e morfologia urbana. Para esta pesquisa, foram realizados registros fotográficos dos três condomínios analisados com foco nas áreas de uso coletivo, como ruas, canteiros, áreas de lazer e calçadas. A pesquisa de campo assumiu papel fundamental para a realização deste trabalho, e foi realizada entre os meses de maio e julho de 2011. Os mapas de concentração e fluxo de pessoas foram realizados durante 3 dias em cada condomínio, em diferentes horários durante o mês de julho. Os registros fotográficos foram feitos durante as visitas para aplicação dos questionários, ou seja, nos meses de maio e junho. Analisar uma população de classe média e alta em condomínios horizontais fechados traz duas dificuldades imediatas: Primeiramente, porque pesquisar pessoas em seus locais de moradia significa interferir na privacidade dessas pessoas, e nem sempre elas estão dispostas a se submeterem a isso. Em segundo lugar, a dificuldade está em se trabalhar com classes médias e altas, porque essas classes dispõem cada vez menos de tempo dentro de casa, tendo em vista as demandas de trabalho e novos arranjos familiares. Houve muita dificuldade de acesso aos moradores em dois dos três condomínios objeto de estudo desta pesquisa. 1.5 METODOLOGIAS SELECIONADAS PARA APREENSÃO DO ESPAÇO URBANO Para analisar as formas que assumem os condomínios fechados estudados nesta pesquisa e suas respectivas áreas de uso coletivo, bem como as relações sociais e comportamentos mais frequentes no interior desses empreendimentos, foi preciso analisar os locais de implantação dos condomínios escolhidos, ou seja, o sítio físico, o interior de cada condomínio estudado, principalmente as áreas de uso coletivo, avaliando as ruas, praças e
19 áreas de lazer, e ainda, a vivência dos moradores nessas áreas. Para isso, foi necessário fazer um embasamento teórico sobre o assunto, consultando textos de autores como Maria Elaine Kohlsdorf, Kevin Lynch, Jan Gehl, dentre outros, que tratam de análises morfológicas e organização socioespacial. Kohlsdorf (1985, p.162) classifica as características próprias de cada morfologia básica sem ainda levar em consideração as leis de organização destes espaços segundo os indivíduos e grupos sociais que os vivenciam, estas morfologias foram examinadas com o auxílio de categorias de análise do espaço, inicialmente de configurações necessariamente ligadas a aspectos estruturais de uso e apropriação: sítio físico, planta baixa e estrutura interna do espaço. Uma das características mais marcantes dos condomínios horizontais fechados é o cuidado quanto a escolha do sítio, já que esse tipo de empreendimento requer uma extensa área para implantação. Com isso, os condomínios horizontais fechados são geralmente implantados em áreas periféricas da cidade, ou seja, áreas localizadas nos limites geográficos da cidade, distante do centro, muitas vezes essas áreas são pouco adensadas e urbanizadas e, consequentemente, de baixo custo. No caso dos três condomínios analisados, todos se localizam em área periférica da cidade de João Pessoa e seus limites são sempre barreiras reais, ou seja, muros com mais de 3 (três) metros de altura e nunca elementos de fácil transposição física. Os condomínios horizontais fechados apresentam tipos semelhantes de planta baixa (KOHLSDORF, 1985, p.172): regularidade na malha, disposição dos lotes, área reservada para lazer, um eixo de acesso, etc. Com relação ao parcelamento do solo, a ocupação é predominantemente por lotes e uma característica do parcelamento do solo desse tipo de empreendimento é o maior aproveitamento dos espaços para lotes, já que esse modelo de habitação visa principalmente o lucro, com isso, as residências ficam muito próximas uma das outras tirando dos moradores a privacidade e impondo uma relação de vizinhança. A cada conjunto de lotes, geralmente iguais, com acesso por vias locais, comunicadas por outras vias locais delimitam-se as quadras. No interior dos condomínios, as quadras loteadas são de uso exclusivamente habitacional e existem outras quadras para lazer e convivência entre os moradores. A estrutura interna do espaço, descreve que os assentamentos estruturam diferentemente seus espaços, apresentando pontos de contato e distanciamento entre si (KOHLSDORF, 1985, p.185). As vias comparecem com funções específicas de possibilitar deslocamentos e no caso dos condomínios horizontais fechados, configuram-se como superfícies próximas das edificações. De acordo com Lynch (1997, p.52), as vias são os canais de circulação ao longo dos quais os habitantes observam-nas à medida que se locomovem por elas. Tratar da percepção com relação ao espaço se refere a identificação espacial de lugares já vivenciados, onde a percepção forma-se por representação e interpretação pela memória de características morfológicas (KOHLSDORF, 2005, p. 3). De acordo com Lynch (1997, p. 3) a legibilidade é entendida como a facilidade com que cada parte da cidade pode ser reconhecida e organizada em um padrão coerente, esclarecendo que a legibilidade a que se refere o autor é aquela proveniente dos aspectos visuais. Um ambiente legível oferece segurança e possibilita
20 uma experiência urbana mais intensa, uma vez que a cidade explore seu potencial visual e expresse toda a sua complexidade. O condomínio fechado vai de encontro a esse conceito por se tratar de um empreendimento ilegível para quem está de fora, circundado por uma extensa barreira física. Ligado ao conceito de legibilidade, está a imaginabilidade, uma vez que imagens “fortes” aumentam a probabilidade de se construir uma visão clara e estruturada da cidade. Figura 07: Ilegibilidade visual entre os condomínios. Fonte: Arquivo Pessoal. Julho/2010 O contexto do bairro Portal do Sol para a construção dos condomínios fechados, segundo as ações transformadoras característica de cada quadro de ocupação, se incorpora à atual paisagem urbana. Ainda existem vestígios da paisagem urbana e da morfologia anterior, e estes vestígios podem ser vistos ao circular pelo bairro. Devido a sua distância do centro e de outros bairros mais antigos, uma série de medidas urbanísticas não foram realizadas, como por exemplo, infraestrutura básica prevista pelo código de Urbanismo. Os condomínios horizontais fechados analisados têm seu território demarcado por muros com mais de três metros de altura e com cerca elétrica em toda extensão do muro. Para Lynch (1997, p. 52) esses muros são limites, ou barreiras mais ou menos penetráveis. O parcelamento do solo é feito respeitando a topografia existente. Quando existe vegetação natural, apenas alguns condomínios a preservam parcialmente, outros, não preservam nada, replantando algumas árvores após o parcelamento do solo para atender aos 5% de área verde determinado pelo Código de Urbanismo. Ao tratar da organização socioespacial, Jan Gehl (2006, p. 17) escreve sobre as atividades exteriores realizadas no dia a dia que influenciam uma série de condicionantes, por exemplo, o entorno físico. O autor descreve um conjunto de atividades realizadas no espaço urbano e as condições físicas que influenciam essas atividades, classificando-as em três categorias: atividades necessárias, atividades opcionais e atividades sociais. Essa classificação foi utilizada para identificar as atividades realizadas pelos moradores dos condomínios horizontais fechados, objetos de estudo deste trabalho. As atividades necessárias incluem aquelas que são mais ou menos obrigatórias, ou seja, são aquelas atividades que as pessoas estão mais ou menos obrigadas a realizar independentemente das condições exteriores serem favoráveis: ir ao colégio, ir ao trabalho, esperar o ônibus, ir a padaria, ao supermercado, esperar uma pessoa, etc. Estas atividades
21 estão geralmente relacionadas à ação de caminhar e são mais ou menos independentes do entorno e os participantes não tem necessariamente relações. As atividades opcionais são aquelas que se participa se existir o desejo de fazêla ou se o tempo e o lugar permitirem, ou seja, estas atividades só se realizam quando os condicionantes exteriores são favoráveis. Esta categoria inclui atividades como dar um passeio para tomar um pouco de ar fresco, sentar para tomar sol, ler o jornal sentado no banco de uma praça, etc. De acordo com o Gehl (2006, p.19), quando os ambientes externos são de pouca qualidade, as atividades se restringem à apenas as atividades estritamente necessárias, mas quando os ambientes externos são de boa qualidade, as atividades tendem a durar mais. Espaços de boa qualidade tendem a distrair as pessoas, que caminham mais devagar, são influenciadas a sentar-se por exemplo. Espaços de pouca qualidade influenciam o mínimo de atividade possível fazendo o caminhante seguir rapidamente para casa. Na realidade intramuros dos condomínios residenciais fechados, toda a infraestrutura do condomínio é planejada para atender perfeitamente aos moradores. A maior parte do condomínio é loteada e uma parte reservada para a construção da área de lazer. Essas áreas reservadas para o lazer dos moradores, embora tenham boa qualidade, geralmente se localizam distantes da maioria das residências e não existem atividades necessárias que estimulem o uso pelos moradores. As áreas de lazer dos condomínios, embora influenciem a realização de atividades opcionais, precisa existir uma motivação para fazer o morador dirigir-se até lá. As atividades sociais são todas aquelas que dependem da presença de outras pessoas. Acontecem de maneira espontânea como consequência direta da presença de pessoas no mesmo espaço e variam de acordo com o contexto que se produz, por exemplo, áreas residenciais, entorno de colégios, lugares de trabalho; onde existe pessoas com interesse comum. Isso implica que as atividades sociais acontecem indiretamente quando as atividades necessárias e opcionais proporcionam melhores condições de interação. Além das atividades, as regras de conduta em ruas, parques, restaurantes, teatros, lojas, pistas de dança, sala de reuniões e outros lugares que concentram pessoas, dizem muito sobre as formas de organização social. Um ato pode ser apropriado ou não apenas de acordo com o que um determinado grupo social define. Quando pessoas entram no campo de visão de outras pessoas não é preciso que haja nenhuma comunicação oral entre eles para que se inicie inevitavelmente um tipo de comunicação. O interior dos condomínios horizontais fechados aqui analisados, pela estrutura física e organização socioespacial, influenciam as vivências e o estilo de vida dos moradores.
22 Segundo a Prefeitura Municipal, a cidade de João Pessoa possui atualmente, 64 bairros com configurações e perfis que variam de acordo com a classe social presente em cada bairro. Entretanto, João Pessoa vem passando por diversas transformações espaciais influenciados pela economia e cultura vigentes, por exemplo: espraiamento, periferização, crescimento vertical, segregação, enobrecimento de algumas áreas e outras tendências contemporâneas relacionadas com o surgimento dos condomínios fechados. O processo de crescimento urbano espraiado apresentado pela cidade de João Pessoa, a partir da década de 1970, tem a ver, primeiramente, com o aumento significativo da população (BARBOSA, 2011, p. 37). Assim, a demanda por moradias aumentou favorecendo os interesses de grupos ligados ao capital imobiliário que lucraram com a periferização da cidade. Atualmente, às avenidas Epitácio Pessoa, Beira Rio e Rui Carneiro se constituem eixos de comércio e serviço, assim como os bairros litorâneos passaram por um intenso aumento populacional e de valor imobiliário. Com o intenso crescimento e valorização desses bairros litorâneos, alguns fatores como a verticalização, por exemplo, geraram problemas urbanos relacionados principalmente à acessibilidade e à segurança. Neste item apresentaremos os aspectos centrais do bairro Portal do Sol para o entendimento do processo de implantação dos três condomínios horizontais fechados analisados. 2.1 CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA 2.1.1 Delimitação Territorial O recorte territorial, constituído pelo bairro Portal do Sol, trata-se de uma área pouco urbanizada, escassamente provida de infraestrutura urbana, com grandes vazios e baixa densidade, localizado numa área mais periférica da cidade, aumentando a dependência do automóvel. CAPÍTULO DISTINGUINDO ESPAÇO E LUGAR 02
23 Em extensão territorial, o bairro do Portal do Sol possui mais de 545 hectares, de acordo com o censo do IBGE (2010) João Pessoa possui uma população urbana de 720,789 habitantes e no bairro Portal do Sol, em 2000 o censo registrou 1.878 habitantes, esse número aumentou para 4.136 habitantes em 2010. Do ano 2000 para o ano de 2010, foram implantados no bairro aproximadamente 6 (seis) dos 7 (sete) condomínios existentes na área. Assim, a densidade demográfica, segundo o IBGE (2010) é de 793,12 hab/Km² neste bairro. Figura 08: Delimitação territorial do bairro Portal do Sol. Fonte: Google earth editado por Julio Gonçalves. Ago/2011. Localizado entre os bairros de Altiplano, a norte; Ponta do Seixas, a leste; Mangabeira e Costa do Sol, a sul; e, Bancários e Cidade Universitária a oeste, como mostra a figura 09, o bairro Portal do Sol é seguido do bairro do Altiplano que possui segunda maior extensão, com 225,60 hectares, sendo o bairro mais populoso do setor litorâneo sul com 4.151 habitantes. O setor litorâneo sul abrange os bairros do Altiplano, Portal do Sol, Ponta do Seixas, Penha e Costa do Sol.
24 Figura 09: O Centro de João Pessoa e os bairros vizinhos ao Portal do Sol. Fonte: Google earth editado por Julio Gonçalves. Ago/2011. A opção por estudar os condomínios horizontais fechados do bairro do Portal do Sol adveio também do reconhecimento do processo de produção crescente do espaço urbano e a crescente valorização sob o ponto de vista do mercado imobiliário, através dos inúmeros condomínios horizontais fechados implantados no bairro a despeito da extensa área que forma os vazios urbanos. E, paralelamente ao desenvolvimento dessa área ocorrem a marginalização de determinados espaços públicos devido ao deslocamento da população mais rica para assentamentos mais distantes. A cidade de João Pessoa possui atualmente 11 (onze) condomínios horizontais fechados direcionados a classe média/alta e desse total, o bairro Portal do Sol possui 7 (sete) condomínios horizontais fechados e 1 (um) condomínio vertical ainda em fase de acabamento, direcionados a classe média/alta. Os condomínios horizontais são: Cabo Branco Residence Prive (1998), Extremo Oriental (2005), Porta do Sol (2004), Bougainville (2004), Vilas do Farol (2008), Bosque das Orquídeas (2007) e Bosque das Gameleiras (2007); e o condomínio vertical é o Jardim Cabo Branco (2009). Desse total, três são objetos de estudo deste trabalho: o Cabo Branco Residence Prive, Porta do Sol e Bosque das Orquídeas (Figura 10).
25 Figura 10: Localização dos três condomínios analisados no bairro Portal do Sol. Fonte: Google earth editado por Julio Gonçalves. Ago/2011. Essa área apresenta uma leitura da paisagem urbana notadamente horizontal e parte do bairro possui resquícios de vegetação primitiva. 2.1.2 Infraestrutura Urbana Os condomínios horizontais fechados foram implantados em uma Zona Residencial 3 (Mapa 01) e trata-se de uma área não atendida com toda infraestrutura básica prevista no Art. 7° do Código de Urbanismo, XI - Infraestrutura básica: os sistemas de abastecimento
32 As leis e normas que regulam os condomínios são: O Novo Código Civil Brasileiro (Lei Federal N° 10.406/ 2002), a Lei de Condomínio (Lei Federal N° 4.591/ 1964), O Regimento Interno e a Convenção dos Condomínios (particulares para cada condomínio) e as decisões da Assembleia Geral. O condomínio é previsto no Novo Código Civil e na Lei de Condomínio como uma edificação contendo propriedade privada exclusiva e propriedade comum. A área exclusiva é de uso particular do condomínio e as áreas comuns são de uso de todos, não podendo ser alienadas ou divididas. A convenção do condomínio deve ser elaborada pelos titulares das unidades, sendo no mínimo 2/3 das frações ideais. Até 2003 os condomínios eram regidos pela Lei de Condomínio. Em 2003 o Novo Código Civil trouxe em seu corpo uma parte dedicada aos condomínios, o que não invalida a Lei de Condomínio de 1964, mas entra em conflito com essa em alguns pontos, nos quais a orientação é que prevaleça o Novo Código Civil. O Regimento Interno e a Convenção de condomínio, são normas criadas pelos proprietários de determinado condomínio para regulamentar o convívio interno dos moradores. A Convenção, é um dos pré-requisitos para constituir-se condomínio e poder registra-lo em cartório. Enquanto a Convenção regulamenta o direito sobre a propriedade, o Regimento Interno regulamenta o direito sobre o uso, complementando a Convenção. Com relação aos direitos e deveres dos condôminos, a convenção e o regimento interno deixam claro o direito de utilizarem livremente suas unidades, desde que esse uso não interfira para outros condôminos o mesmo direito. 2.2 TRÊS CONDOMÍNIOS Os condomínios fechados selecionados localizam-se no bairro Portal do Sol, em João Pessoa, cidade que, como outras, retrata a expansão dessa tipologia habitacional pelos vários empreendimentos construídos e em construção. Em João Pessoa, até 2009, havia dez (10) condomínios horizontais fechados registrados na Prefeitura Municipal e a procura por lotes no interior desses empreendimentos é cada vez maior, devido aos inúmeros investimentos da especulação imobiliária em propagandas. Tal informação foi narrada durante entrevista feita com dois corretores de imóveis, em junho de 2012. O interesse de investigar condomínios horizontais fechados em João Pessoa se dá pelas várias discussões e pesquisas que abordam suas origens, causas e consequências, além de estudos que tratam de assuntos ligados a espaços públicos e segregação, mas não existem estudos específicos que avaliem o desempenho das áreas de uso coletivo dos condomínios horizontais fechados, como já foi mencionado. Os condomínios fechados mais recorrentes na cidade de João Pessoa são os verticais, mas as mudanças na leitura da paisagem urbana causadas pela concentração de condomínios horizontais fechados no mesmo bairro periférico da cidade, como mostra a figura 14, chamou a atenção de estudiosos de diversas áreas, por exemplo, arquitetura e geografia (BECKER, 2005; BARBOSA, 2005).
33 Figura 14: Condomínios fechados concentrados na região dos bairros Altiplano, Portal do Sol e Ponta do Seixas: 1-Vila Real; 2-Vila do Farol; 3Village Atlântico do Sul; 4-Extremo Oriental; 5-Cabo Branco Residence Privê; 6-Portal do Sol; 7-Jardim Cabo Branco (este, o único condomínio vertical na área); 8-Bosque das Gameleiras; 9-Bosque das Orquídeas e 10-Bongainville. Fonte: Patrícia Alonso e Wylnna Vidal, 2011. Após leitura das geoimagens da cidade e pesquisa no arquivo central da Prefeitura Municipal para identificar o bairro com a maior concentração de condomínios horizontais fechados, a seleção dos condomínios analisados nesta pesquisa foi realizada após mapeamento de todos os condomínios horizontais fechados localizados na cidade de João Pessoa. Os três condomínios horizontais fechados escolhidos para análise nesta pesquisa serão descritos a seguir. 2.2.1 Cabo Branco Residence Prive Localização e Limites Localizado na Avenida Hilton Souto Maior, na cidade de João Pessoa, o Condomínio Cabo Branco Residence Prive teve seu processo de aprovação em 20 de janeiro de 1988, assim, é o condomínio mais antigo no bairro Portal do Sol. Completamente delimitado por muros, apenas na fachada frontal existe um gradil, e acima desse, a cerca elétrica. O Condomínio Cabo Branco Residence Prive tem a fachada frontal
34 voltada para a rua, indicada na figura 15 como sendo a Estrada da Penha e as demais fechadas estão voltadas para outros condomínios horizontais fechados: à direita, fica o Condomínio Extremo Oriente; à esquerda, fica o Condomínio Porta do Sol e atrás do condomínio, se tem o muro do Condomínio Bougainville. Figura 15: condomínios localizados no entorno do Condomínio Cabo Branco Residence Prive. Fonte: www.wikimapia.com editado por Christiane Nicolau. Julho/2010 Essa avenida definida no mapa como “Estrada da Penha” possui atualmente outro nome já registrado: Avenida Hilton Souto Maior, que passa entre os seguintes bairros: Água Fria, José Américo, Jardim Cidade Universitária, Mangabeira, Quadramares e Porta do Sol. Planta Baixa O Condomínio Cabo Branco Residence Prive é dividido em quadras e subdividido em lotes, as casas são organizadas lado a lado com uma distância de quatro metros uma das outras, correspondente ao recuo obrigatório de dois (02) metros em cada lateral de cada lote. São dezenove (19) quadras e quatrocentos e trinta e oito (438) lotes sendo que sete (07) destes lotes, foram inicialmente destinados a área comercial, de uma área total de 33,75 hectares.
35 Figura 16: Condomínio Cabo Branco Residence Prive. Fonte: Google earth editado por Christiane Nicolau. Julho de 2012. Apesar de existirem sete lotes destinados a atividades comerciais apenas dois lotes foram utilizados para construção desses estabelecimentos, em um lote funciona o mercadinho “Center Prive” e no outro, o “Prive Shop” que contém marmitaria, loja de presentes, costureira, loja de material de piscina, dois salões de beleza, manicure, curso de inglês e desenho, e uma loja de cosméticos. Figura 17: Mercadinho Center Prive. Fonte: Christiane Nicolau. Julho/2010. Figura 18: Prive Shop. Fonte: Christiane Nicolau. Julho/2010. De acordo com o Regimento Interno, o Condomínio Cabo Branco Residence Prive conta com sistema viário inteiramente asfaltado, mas não totalmente integrado à malha urbana,
36 já que existe uma rua paralela à Avenida Hilton Souto Maior onde é utilizada apenas para acesso ao condomínio; conta ainda com sistema de energia elétrica e iluminação pública, sendo a rua principal com iluminação na cor branca e nas ruas secundárias é utilizada uma iluminação amarelada; sistema de drenagem de águas pluviais; sistema de irrigação automática para jardins e parques; sistema de água e reservatório elevado com o poço artesiano, para manutenção e fornecimento exclusivo ao condomínio. Na extensão territorial do condomínio, existem cinco (05) guaritas de segurança (Figura 16), porém elas não são utilizadas desde a ocupação dos terrenos vizinhos por outros condomínios horizontais fechados. Os muros abrangem a área total do condomínio dotada de acesso único para moradores e visitantes e outro para cargas e funcionários. Tabela 04: Quadro geral das áreas internas do condomínio. Fonte: Regimento Interno. Julho/2011. O sistema viário interno do condomínio possui uma área total de 38.255,05m², equivalente a 11,40% da área total da propriedade. O arruamento onde se encontra a portaria possui uma via principal com vinte e dois (22) metros de largura e duas pistas de rolamento com seis (06) metros em mão única, interligando as vias secundárias com seção de oito (08) metros, incluindo passeios, estas reservadas ao trânsito local, como mostra a figura 15 a seguir. Não há nesse condomínio sinalização nas esquinas com os nomes das ruas. A ligação das ruas locais por um eixo central faz com que apenas os moradores e visitantes circulem nessas ruas, diminuindo assim o fluxo e aumentando ainda mais a tranquilidade entre as quadras. Assim, o maior fluxo de veículos durante todo o dia se concentra no eixo central. A avenida principal do interior do condomínio é arborizada com árvores de médio e grande porte e algumas outras vegetações de pequeno porte. Essa arborização contribui para sombrear a rua por um período maior de tempo, porém essa arborização não se faz presente nas vias locais do condomínio cabendo aos proprietários arborizar ou não.
37 Figura 19: Eixo central do condomínio com canteiro arborizado. Fonte: Christiane Nicolau. Abril/2009. Figura 20: Casa arborizada. Fonte: Christiane Nicolau. Abril/2009. Acessos Os acessos ao interior do Condomínio Cabo Branco Residence Prive localizam-se na fachada frontal e a entrada é permanentemente vigiada por guardas de segurança de uma empresa terceirizada e assistida por funcionários administrativos também contratados de uma empresa especializada e, por fim, acesso de cargas. A portaria possui sala de administração, vestiário, recepção, controle eletrônico de acessos. Com uma estrutura de cobertura metálica que promove acesso coberto para os veículos que entram e saem. Figura 21: Vista da portaria do Condomínio. Fonte: www.cabobrancoprive.com.br - Julho/2009. Figura 22: Acesso de funcionários, cargas e demais serviços. Fonte: Christiane Nicolau. Julho/2009. O acesso dos funcionários do condomínio, dos funcionários dos serviços comerciais e o acesso de caminhões, é feito por uma entrada diferente, localizado a esquerda da portaria principal (Figura 22). O trabalhador seja pedreiro, empregada doméstica, babá, jardineiro etc. precisa ser antecipadamente cadastrado pelo dono do lote e todos os dias o acesso dessas pessoas é feito através da leitura da impressão digital e apresentação de uma carteirinha de identificação com foto.
38 O acesso é controlado por vigilantes que conferem o lote pelo nome do proprietário. A entrada de materiais precisa ser previamente comunicada pelo proprietário à portaria para a liberação do acesso e é necessário ainda informar que materiais serão entregues, quando e quem vai estar responsável por receber esses materiais na residência. Regras Internas As regras internas de cada condomínio seguem as leis e normas que regulam os condomínios, como já foi mencionado no item que trata da legislação: O Novo Código Civil Brasileiro (Lei Federal N° 10.406/ 2002), a Lei de Condomínio (Lei Federal N° 4.591/ 1964), O Regimento Interno e a Convenção dos Condomínios (particulares para cada condomínio) e as decisões da Assembleia Geral, como já foi mencionado anteriormente. No Cabo Branco Residence Prive, as calçadas devem possuir um (01) metro de largura e o material do revestimento de piso dessas calçadas varia de lote para lote, de acordo com a preferência do proprietário ou morador. Esse valor de um (01) metro referente a largura do passeio determinado no Regimento Interno é menor do que o valor exigido pelo Código de Urbanismo, referente a um e vinte (1,20) metros. Os serviços comuns como, limpeza das ruas, tratamento nos canteiros etc. são realizados por funcionários contratados pelo condomínio, aos moradores cabem a limpeza e a manutenção de tudo que diz respeito ao seu lote. Próximo à portaria, tem-se o salão de atividades múltiplas, mais conhecido por salão de festas, a utilização do espaço acontece mediante reserva antecipada feita na portaria do condomínio. O salão é aberto, a coberta de estrutura metálica igual a coberta da portaria. De alvenaria pintada, sem nenhum tratamento acústico, o salão possui um depósito, área de bar e dois banheiros. O salão de festas encontra-se atualmente em estado de abandono, sendo utilizado para atividades físicas, como ioga, capoeira, dança do ventre, etc. A coberta do salão encontra-se enferrujada e por não ser climatizado e também por ser pequeno, o espaço raramente é utilizado para festas e outros eventos. O projeto arquitetônico da residência é livre seguindo algumas regras de construção estabelecidas pelo Regimento Interno que regulam o direito de utilização e aproveitamento do lote: só é permitido térreo e mais um pavimento; os recuos laterais e frontais devem ser respeitados; a área de serviço não pode estar exposta; é permitida a construção de muro de arrimo de até 60 centímetros de altura e mais a altura de cercas vivas apenas para deixar a área de lazer mais reservada. Porém nem tudo é respeitado, existem casas com térreo mais dois pavimentos, muros com altura de pé-direito, roupas expostas, casas sem calçadas e nem sempre os recuos laterais são respeitados. Gerenciar e administrar tem o intuito de garantir o funcionamento, manutenção e a realização de todos os serviços necessários. Os órgãos competentes, responsáveis pelo gerenciamento e administração do condomínio, são: a Assembleia Geral do condomínio, síndico, Conselho Fiscal e a Administradora, além da Comissão de Deliberação sobre construção. As Assembleias são marcadas para prestação de contas e a tomada de novas decisões junto a todos os moradores porém, de acordo com documento emitido pela administração do
39 condomínio aos condôminos pela falta de comparecimento de uma maioria, a administração do condomínio, como alternativa, resolveu premiar através de sorteios aqueles moradores presentes nas assembleias com assinaturas de jornais e TV a cabo, isenção do pagamento de um mês da taxa de condomínio, entre outras coisas não especificadas. Áreas de Lazer A área de lazer do Condomínio Cabo Branco Residence Prive se localiza nas laterais (figura 23) e é composta por campo de futebol gramado, duas quadras de vôlei de areia, uma quadra de tênis, uma quadra de squash e uma reserva ambiental onde o seu entorno é utilizado para caminhadas e passeios de bicicleta. O playground, localizado na outra extremidade do condomínio é circundado por grades e um portão, e uma outra reserva ambiental também utilizada para caminhadas. Existe ainda um espaço de praça construído pelos próprios moradores após a construção de suas residências, trata-se de uma área pavimentada e gramada, com bancos, postes pequenos de iluminação e estrutura de madeira e telha cerâmica (Figura 26). Figura 23: Localização da área de lazer do condomínio Cabo Branco Residence Prive. Fonte: Google earth editado por Julio Gonçalves. Ago/2011.
40 Todos os equipamentos de lazer do condomínio são de uso exclusivo dos moradores podendo ser utilizados em qualquer horário, com exceção do campo de futebol e do playground que são equipamentos fechados e com horários para uso. Essa determinação foi decidida em assembleia, assim como os horários de utilização, como forma de preservar os equipamentos que passaram recentemente por reformas. Figura 24: Quadras de areia e squash. Fonte: Christiane Nicolau. Junho/2011. Figura 25: Playground. Marcela Dimenstein. Junho/2011 Figura 26: Pracinha construída pelos moradores. Fonte: Marcela Dimenstein. Junho/2011. A quadra de squash e as quadras de vôlei de areia, encontram-se atualmente em péssimas condições de uso, ou seja, o piso degradado e as redes rasgadas. Apenas o entorno da quadra de tênis e do playground têm calçadas, porém na calçada do playground algumas árvores de médio porte são obstáculos que impedem o uso da mesma (Figura 25). O campo de futebol vai até o limite da rua assim as crianças que utilizam esse equipamento de lazer, dividem o espaço da rua com os carros. Figura 27: Área de lazer sem calçada nem tratamento de piso. Fonte: Christiane Nicolau. Julho/2010. Figura 28: Campo de futebol sem calçada. Fonte: Christiane Nicolau. Julho/2010. Tipologias Com relação as tipologias das habitações no interior do Condomínio Cabo Branco Residence Prive, a intenção não é fazer uma classificação tipológica, apenas mostrar o padrão construtivo das residências no interior deste condomínio.
41 Na maioria dos casos, são edificações de alto padrão com estilos variados. Por se tratar do condomínio mais antigo do bairro Portal do Sol, consequentemente é o mais ocupado com os mais diversos estilos de residências. Alguns moradores não são brasileiros e o projeto arquitetônico da residência não foi feito no Brasil, por exemplo uma família americana que trouxe o projeto de Boston, além de outros moradores de nacionalidade estrangeira: alemães, italianos e portugueses. Figuras 29: Residências do Condomínio Cabo Branco Residence Prive. Fonte: Christiane Nicolau. Julho/2010. Figuras 30: Residências do Condomínio Cabo Branco Residence Prive. Fonte: Christiane Nicolau. Julho/2010. Outras casas observadas são menores, térreas, com pouco vidro na fachada, telhado com duas águas e poucos detalhes construtivos. Algumas casas seguem um modelo mais moderno de habitação onde o telhado não aparece mais, usa-se muito vidro nas fachadas, pórticos e pé-direito duplo. O número de pessoas por residência varia muito, assim como o número de veículos. Durante os percursos a pé para apreensão do espaço, foi possível observar, entre outras coisas, o número de veículos por residência e o tamanho das garagens. Na maioria das residências existe no mínimo dois carros, uma residência em particular chamou a atenção por abrigar seis (06) carros na garagem (Figura 34). Nessa residência moram pai, mãe e quatro (04) filhos e cada um tem o seu próprio carro.
48 Figura 45: quadras poliesportivas. Fonte: Christiane Nicolau. Julho/2011. Figura 46: salão de festas. Fonte: Christiane Nicolau. Julho/2011. Figura 47: Playground. Fonte: Christiane Nicolau. Julho/2011. Tipologias Com relação as edificações nesse condomínio, o acesso para registro fotográfico das residências foi mais complicado, restringindo assim a descrição textual neste item. Porém, algumas fotografias foram tiradas de pontos mais distantes, a fim de apresentar, com limitações, o estilo das residências. Em todos os condomínios, as residências utilizam materiais semelhantes, possuem o mesmo padrão construtivo e estilos parecidos de moradias, ou seja, são, na maioria dos casos, residências com dois pavimentos (térreo + um), uso de vidro das fachadas, de grande porte, com pé-direito duplo e varandas. Figura 48: Tentativa de registrar as residências do Condomínio Porta do Sol. Fonte: Marcela Dimenstein. Maio/2010. Figura 49: Tentativa de registrar as residências do Condomínio Porta do Sol. Fonte: Marcela Dimenstein. Maio/2010.
49 2.2.3 Bosque das Orquídeas Localização e Limites O Condomínio Bosque das Orquídeas é um dos condomínios que compõe a Cidade dos Bosques, projeto da empresa Ecomax. O Bosque das Orquídeas e o Bosque das Gameleiras se localizam na Avenida Governador Antônio da Silva Mariz, esta trata-se de uma rua aberta pela construtora a partir de uma interferência no projeto inicial do grupo Capuche. Com uma área total de 420.000,00 m², a área é inteiramente delimitada por muro e acima do muro a cerca elétrica. Figura 50: Vista aérea dos condomínios Bosque das Orquídeas. Fonte: http://www.ecomax.eng.br/?p=69 Acesso em 10 de Janeiro de 2011. Figura 51: Vista aérea da implantação do Condomínio Bosque das Orquídeas. Fonte: http://www.ecomax.eng.br/?p=69 Acesso em 10 de Janeiro de 2011. Inicialmente os dois condomínios que compõem a Cidade dos Bosques seriam um único condomínio horizontal fechado. Reconhecendo o impacto na malha urbana que o empreendimento causaria, a Prefeitura interveio, solicitando a divisão do projeto inicial transformando um condomínio em dois, o Bosque das Orquídeas e o Bosque das Gameleiras. De acordo com o Art. 75 do Código de Urbanismo, Lei N° 2.102/1975, quando o parcelamento da terra assumir a forma privada, pode o poder público aceitá-lo, rejeitá-lo ou modificá-lo, total ou parcialmente, sempre em concordância com a orientação do Plano Diretor. São 236 lotes, todos destinados a uso residencial, não existindo área reservada para uso comercial. O condomínio se localiza entre o Condomínio Bosque das Gameleiras a oeste, Condomínio Bougainville a leste, a sul pelo Condomínio Jardim Cabo Branco e a norte por uma área pouco urbanizada, como mostra a figura 52.
50 Figura 52: Entorno do Condomínio Bosque das Orquídeas. Fonte: Google earth editado por Christiane Nicolau. Julho/2012. Planta Baixa O Condomínio Bosque das Orquídeas possui com sistema viário asfaltado, como mostra a figura 53 a seguir, sistema de energia elétrica e iluminação pública, sendo iluminação amarelada nas vias secundárias e iluminação branca somente na área da portaria; sistema de drenagem de águas pluviais; sistema de irrigação automática para jardins e parques; sistema de água e reservatório elevado; muro com cerca elétrica abrangendo a área total do condomínio e guarita localizada no acesso principal, vigiada por guardas de segurança de uma empresa terceirizada e assistida por funcionários administrativos também contratados. Figura 53: Ruas do interior do condomínio inteiramente asfaltadas. Fonte: Arquivo Pessoal. Julho/ 2011. Figura 54: Reserva de mata verde protegida por gradil. Fonte: Arquivo pessoal. Julho/2011.
51 Diferente do Condomínio Cabo Branco Residence Prive, o Condomínio Bosque das Orquídeas tem as ruas sinuosas e não existe um eixo principal de acesso. As quadras e lotes tem dimensões variadas e a área de lazer é concentrada em um único espaço (Figura 55). Figura 55: Condomínio Porta do Sol. Fonte: Google earth editado por Christiane Nicolau. Julho de 2012. Acessos No Bosque das Orquídeas o acesso de moradores, visitantes e cargas, são feitos em portões diferentes. O acesso de moradores se dá pela leitura da digital, o acesso de visitantes, através de identificação pelo interfone e só libera após autorização do morador e o acesso de cargas é registrado por um funcionário do condomínio e autorizado pelo morador. A entrada de funcionários do condomínio, funcionário das obras e das residências é feita pelo mesmo portão de pedestres dos moradores.
52 Figura 56: Portaria do Condomínio Bosque das Orquídeas. Fonte: Site da ecomax http://www.ecomax.eng.br/?p=69 Acesso em 10 de Janeiro de 2011. Figura 57: Portaria do Condomínio Bosque das Orquídeas. Fonte: Site da ecomax http://www.ecomax.eng.br/?p=69 Acesso em 10 de Janeiro de 2011 Regras Internas O regimento interno, tem por finalidade submeter o Condomínio às disposições legais estipuladas na lei nº 4.591/64 e no Código Civil Brasileiro (lei nº 10.406/2002), bem como regular os direitos e deveres de seus condôminos, estabelecer as regras referentes à sua administração, manutenção dos equipamentos urbanos e áreas comuns. A administração e direção do Condomínio são exercidas pelo Conselho Consultivo Fiscal (CCF), pelo Síndico e Subsíndico e pela Assembleia Geral. O Conselho Consultivo Fiscal (CCF) é composto por três (03) condôminos e três (03) suplentes, os quais escolherão o Presidente, um secretário e o Vice-Presidente. Ao CCF compete colaborar com o síndico na administração do condomínio. Das regras de construção, o projeto e respectiva forma de construção devem ser analisados e aprovados previamente pelo Condomínio mediante avaliação por profissional credenciado e esta aprovação deve ocorrer antes dos projetos serem encaminhados para avaliação na Prefeitura Municipal de João Pessoa e demais órgãos públicos competentes. Nenhuma habitação pode ter mais de 02 (dois) pavimentos (térreo e superior) acima do nível da rua, limitando sua altura máxima a 7,20m (sete metros e vinte centímetros) acima do nível do meio-fio, já inclusos o embasamento máximo de 0,80m (oitenta centímetros). E, cada habitação pode construir muros de alvenaria ou cerca viva mediante acordo com seus respectivos vizinhos. As regras de construção também estabelecem uma área mínima a ser construída de modo a manter o padrão construtivo das habitações. As calçadas e a arborização das ruas serão objeto de projeto de padronização promovido pelo Condomínio e aprovado em Assembleia Geral, sendo o custo de implantação rateado entre todos os condôminos. As calçadas devem ter largura mínima de 1,20 metros. Os coletores de lixo das casas também são objeto de padronização promovida pelo Condomínio, sendo seu custo de responsabilidade de cada condômino.
53 Área de Lazer As áreas de lazer são de uso exclusivo dos condôminos, seus dependentes e convidados e são inúmeras as atividades oferecidas aos moradores, desde as quadras poliesportivas, a academia, espaço gourmet, etc. Para uso do salão de festas é necessário a requisição feita por escrito ao Síndico. O Condomínio Bosque das Orquídeas tem uma área verde de 65.623,35m² aos 236 lotes. Figura 58: Localização da área de lazer do condomínio Bosque das Orquídeas. Fonte: Google earth editado por Julio Gonçalves. Ago/2011. A área de lazer do condomínio Bosque das Orquídeas é chamado de Clube Social com: estar, circulação, salão de jogos, cozinha, despensa, terraço externo e pátio de serviço; espaço gourmet, kids club: terraço, salão, copa, lavabo, piscina kids, piscina baby, parquinho; clube esportivo: terraço de acesso, vestiários, sauna, ducha, depósito, piscina de hidromassagem, piscina com raia e academia; quadras poliesportivas, quadra de tênis, campo de futebol society, trilha ecológica e praça de convivência.
54 Figura 59: clube social. Fonte: http://www.ecomax.eng.br/?p=69 acesso em 20 de Agosto de 2011. Figura 60: parquinho na reserva ecológica. Fonte: Christiane Nicolau. Julho/2010. Figura 61: piscina c/ raias. Fonte: http://www.ecomax.eng.br/?p=69 acesso em 20 de agosto de 2011. Apesar dos inúmeros equipamentos de lazer oferecidos por esse empreendimento, foi possível perceber, durante a pesquisa de campo, a ociosidade desses espaços que estavam vazios na maior parte do tempo, ao contrário do que mostram as propagandas publicitárias, que exibem áreas de uso coletivo sempre ocupadas, pessoas felizes, e muita interação social. Figura 62: propaganda publicitária do salão de festas do Cond. Bosque das Orquídeas. Fonte: Cd de lançamento do empreendimento. Janeiro/2009 Figura 63: propaganda publicitária do espaço kids do Cond. Bosque das Orquídeas. Fonte: Cd de lançamento do empreendimento. Janeiro/2009 Figura 64: propaganda publicitária da vista externa da área de piscina e academia do Cond. Bosque das Orquídeas. Fonte: Cd de lançamento do empreendimento. Janeiro/2009 Figura 65: propaganda publicitária da vista interna da área de piscina e academia do Cond. Bosque das Orquídeas. Fonte: Cd de lançamento do empreendimento. Janeiro/2009 Esse vazio nas áreas de lazer do Condomínio Bosque das Orquídeas pode ser justificado pelo pouco número de residências prontas no interior do empreendimento. Já
55 que o maior número de edificações observadas durante a pesquisa de campo, estavam em construção. Porém, esse mesmo vazio nos equipamentos de lazer foi observado nos outros dois condomínios aqui analisados: o Condomínio Porta do Sol e o Condomínio Cabo Branco Residence Prive. Tipologias A respeito das residências, por ser um condomínio ainda recente, durante a pesquisa de campo, havia apenas duas residências já construídas e algumas em construção. Mas, foi possível perceber que o padrão construtivo das casas é o mesmo dos demais condomínios e algumas residências neste empreendimento são ainda maiores devido a variação no tamanho dos lotes. Figura 66: Residência em construção no Condomínio Bosque das Orquídeas. Fonte: arquivo pessoal. Abril/2010. Figura 67: Residência no Condomínio Bosque das Orquídeas. Fonte: arquivo pessoal. Abril/2010. As residências, mesmo com tipologias variadas (térreas ou dois pavimentos), seguem o padrão espacial e social do espaço em que estão inseridas, ou seja, um ambiente socioeconômico, e por vezes cultural, homogêneo, onde seus moradores possuem características similares. Os maiores responsáveis pelas relações sociais dentro dos condomínios, são as crianças e adolescentes, que foram vistos com mais frequência, circulando pelas ruas internas e nas áreas de lazer. De acordo com Caldeira (2000, p.259), esses condomínios estão transformando a natureza do espaço público e a qualidade das interações públicas na cidade, que estão se tornando cada vez mais marcadas por suspeita e restrição. Ao descrever esses três condomínios, é possível perceber as semelhanças e diferenças entre eles, nas regras, estrutura interna, o padrão construtivo das residências, a forma de organização do espaço, etc. Pelo número de residências já construídas e em construção, também é possível perceber que as pessoas se adaptam ao seu entorno e ao estilo de vida oferecido nesses empreendimentos, extraindo estrutura e identidade como descreve Lynch (1997, p. 09) ao analisar e comparar três cidades americanas.
56 2.3 A RELAÇÃO DOS CONDOMÍNIOS FECHADOS COM O ESPAÇO URBANO O espaço urbano é formado por um conjunto de espaços abertos e fechados e/ou construídos de uma cidade. Em termos morfológicos, a cidade pode ser compreendida com três níveis organizativos básicos: o coletivo, o comunitário e o individual (DEL RIO, 1990, p. 83) e em torno desses, estruturam-se todos os significados e acontecem as apropriações sociais. Atualmente, parece ser um senso comum o problema da falta de vitalidade dos espaços públicos, decorrente do inchaço das cidades, da crescente criminalidade e violência urbana, dos problemas de má administração pública, que repercutem na má manutenção desses espaços. Todavia, mesmo que pareça existir essa tendência de perda das funções e significado dos espaços públicos, autores como Gehl (2006, p.27) sugerem que as necessidades da vida pública nas cidades tendem a aumentar a cada dia. A cidade nos ensina a lidar com a diversidade, conviver com estranhos já que se desenvolve dentro de uma lógica de heterogeneidade e ela mesma nos ensina como viver com essa diversidade, já que nela se constrói a identidade do espaço urbano. Entretanto, a experiência cotidiana na cidade contemporânea é complexa e as nossas análises apontam para contradições que indicam uma ocupação e uso de espaços de forma segregada em detrimento do caráter público e da ampliação dos espaços de convivência coletiva. Dessa forma, entende-se que é importante estudar como os espaços públicos estão sendo transformados por novas formas de ocupação urbana, como os condomínios fechados, por exemplo, que constituem um dos elementos que formam o espaço urbano. Um número cada vez maior de cidades tem se caracterizado por enclaves e diversas situações de isolamento onde as funções da cidade são agora interiorizadas. No livro “Cidade de Muros”, Teresa Caldeira afirma que: (...) as transformações recentes estão gerando espaços nos quais os diferentes grupos sociais estão muitas vezes próximos, mas estão separados por muros e tecnologias de segurança, e tendem a não circular ou interagir em áreas comuns. O principal instrumento desse novo padrão de segregação espacial é o que chamo de “enclaves fortificados”. Tratase de espaços fechados e monitorados para residência, consumo, lazer e trabalho. A sua principal justificação é o medo do crime violento (CALDEIRA, 2000, p.211). Valorizado pelos empreendedores e cada vez mais aceito pela população, nos condomínios horizontais, o que se vende são apenas os lotes como nos demais loteamentos e bairros da cidade; a principal diferença é que as ruas, praças, áreas verdes e demais equipamentos são privatizados. Os condomínios fechados oferecem no seu interior uma série de equipamentos de uso coletivo acessível apenas aos moradores. Os espaços de uso coletivo parecem desempenhar um papel fundamental na vida das pessoas que moram em condomínio. Esses espaços possibilitam as mais diversas atividades de socialização a medida que oferecem várias opções de lazer, se tornando uma das principais razões para as pessoas optarem por esse tipo de empreendimento. O bairro Portal do Sol, onde está inserido o objeto de estudo desta pesquisa é formado por camadas de elevado poder aquisitivo e por ocupações irregulares (Figuras 68 e 69
57 a seguir). As transformações que vem ocorrendo neste bairro têm alterado a dinâmica dessa área. Segundo Lopes (2008, p. 78), os condomínios fechados são uma tentativa de (re) produzir um espaço público seguro, controlado, agradável e limpo. No entanto, o que é produzido dentro desses empreendimentos não é espaço público e sim, um espaço de uso coletivo, de propriedade privada e, consequentemente, não está aberto para o público em geral se voltando apenas para proprietários. Figura 68: Residência localizada no Condomínio Cabo Branco Residence Prive. Fonte: Christiane Nicolau. Maio/2010. Figura 69: Residência localizada no Bairro Portal do Sol, próximo ao condomínio Bosque das Orquídeas. Fonte: Christiane Nicolau. Maio/2010. No próximo capítulo, analisaremos, mais detalhadamente, os espaços de uso coletivo dentro dos condomínios horizontais fechados estudados, reforçando as análises morfológicas e comportamentais. Partindo da discussão sobre o espaço público e a vivência dos moradores nas áreas de uso coletivo oferecidas por esses empreendimentos e tão divulgadas nas propagandas publicitárias.
64 Figura 79: jardim até o limite da rua. Fonte: Christiane Nicolau. Set/2009 Figura 80: poste impedindo o uso da calçada. Fonte: Christiane Nicolau. Set/2009 Figura 81: babás e empregadas passeando na rua. Fonte: Christiane Nicolau. Set/2009 De acordo com Jane Jacobs (2007, p.29) as ruas e suas calçadas são os principais locais públicos de uma cidade, portanto, são seus órgãos vitais. O mesmo vale para o interior dos condomínios horizontais fechados, as ruas e as calçadas tem a função fundamental de manter a segurança do espaço, a medida em que separa os usos. As calçadas, assim como a sinalização, estão ligadas à acessibilidade, que significa a facilidade ou dificuldade de acessar um determinado espaço. O valor de 1,00 (um) metro determinado pelo Regimento Interno para as calçadas no Condomínio Cabo Branco Residence Prive, pode ser considerado inadequado já que este mesmo espaço é utilizado para implantação de postes de iluminação e placas de sinalização, tornando inacessível para o pedestre circular. No Condomínio Bosque das Orquídeas, a calçada é padronizada, ou seja, em todas as residências, a calçada é feita com o mesmo material no piso e os postes de iluminação ficam entre o limite da calçada e o limite do lote, liberando assim a circulação para os pedestres. A padronização promove uma continuidade na calçada, permitindo o uso para caminhadas, passeios de bicicleta, carrinhos de bebês, etc. Nos condomínios Cabo Branco Residence Prive e Porta do Sol, cada morador é responsável pela construção da sua calçada, sendo opcional o material a ser utilizado, devido a isso, as calçadas apresentam níveis diferentes, obstáculos e/ou materiais inacessíveis, levando o pedestre a utilizar a rua. Em toda a extensão do condomínio Cabo Branco Residence Prive, além da ausência de acessibilidade das calçadas devido a pouca fiscalização, só existe uma rampa que se localiza na parada de ônibus em frente ao empreendimento e que só foi construída por exigência da STTRANS (Superintendência de Transportes e Trânsito). A Avenida Hilton Souto Maior se liga ao condomínio através de um acesso particular para moradores, ou seja, uma rua paralela e é entre essas duas ruas que se localiza a parada de ônibus. Porém, pela falta de fiscalização do órgão competente, a rampa que deveria ser acessível não atende a NBR9050 quanto a inclinação, extensão e tratamento de piso.
65 Figura 82: Parada de ônibus em frente ao condomínio Cabo Branco Residence Prive. Fonte: Arquivo Pessoal. Nov/2009 Figura 83: única rampa do condomínio Fonte: Arquivo Pessoal. Nov/2009 Nos condomínios Cabo Branco Residence Prive e Porta do Sol não existe nenhum tipo de sinalização horizontal, como faixas para travessia de pedestres, por exemplo, e as únicas placas de sinalização vertical observadas são as placas de limite de velocidade de 40km/h e placas de proibido buzinar. Nenhuma esquina nesses dois condomínios é dotada de rampa acessível nem piso tátil, dificultando o acesso às calçadas, à administração e aos equipamentos de lazer por idosos ou portadores de necessidades especiais. Nos estabelecimentos comerciais existentes no Condomínio Cabo Branco Residence Prive, apenas o mercadinho possui rampa de acesso além da escada, porém essa rampa se restringe apenas ao empreendimento comercial, ou seja, a altura do meio fio é inacessível a um portador de necessidades especiais. Figura 84: PriveShop no Condomínio Cabo Branco Residence Prive. Julho/2010. Figura 85: Mercadinho Center Prive no Condomínio Cabo Branco Residence Prive. Rampa acessível. Julho/2010. A partir de imagens aéreas disponibilizadas pelo Google Earth, que se atualiza a cada dois anos, é possível observar o interior de cada condomínio horizontal fechado aqui estudado, a disposição das residências, traçado das ruas, presença de vegetação, áreas de lazer, acessos, etc., como já foi descrito no capítulo anterior. O conjunto de informações levantadas durante o mapeamento auxiliou na avaliação da influência dos espaços de uso coletivo na vida intramuros e na satisfação residencial de cada morador.
66 Figura 86: Vista aérea do Condomínio Cabo Branco Residence Prive. Fonte: Google earth, editado por Christiane Nicolau. Maio/2012. Legenda: 1. Acesso; 2. Área comercial; 3. Áreas de lazer; 4. Área verde de preservação. O Condomínio Porta do Sol e o Condomínio Cabo Branco Residence Prive, por serem retilíneos, é possível compreender mais facilmente a organização espacial e os limites físicos do espaço. O eixo central, no caso do Cabo Branco Residence Prive, liga todas as ruas locais, desde o acesso de moradores e visitantes, até o muro limite. Separado por um canteiro central, esse eixo concentra a circulação de veículos e pedestres durante todo o dia, essa concentração de um hábito ou atividade especial numa rua pode torná-la importante aos olhos dos observadores (LYNCH, 1997, p. 55) levando um número cada vez maior de pessoas a utilizarem o espaço. O limite de velocidade somado à ruas retilíneas permite ao morador e visitante apreender mais facilmente o percurso e o espaço. Em casos de condomínios pequenos, como o Porta do Sol, a marcação das áreas destinadas a lotes já mostra o desenho da rua (Figura 87) e impede a visualização dos muros que delimitam o empreendimento.
67 Figura 87: Vista aérea do Condomínio Porta do Sol. Fonte: Google earth, editado por Christiane Nicolau. Maio/2012. Legenda: 1. Acesso; 2. Áreas de lazer. E, por fim, tem-se aqueles condomínios com ruas sinuosas e quadras definidas, mas de difícil percepção, como o condomínio Bosque das Orquídeas, onde os lotes têm tamanhos variados devido ao desenho das quadras (Figura 88). O Condomínio Bosque das Orquídeas respeitou parte da topografia existente na área que foi loteada, assim, algumas quadras são um pouco mais elevadas do que outras dificultando a identificação de cada rua, tornando o
68 espaço confuso e de difícil apreensão. Lynch (1997, p.58) observou ao tratar de três cidades norte americanas que nos casos em que as vias eram facilmente confundidas ou que careciam de identidade, a totalidade da imagem urbana ficava difícil de configurar. Assim, as vias com grau satisfatório de continuidade promovem maior segurança, pela facilidade de apreensão do espaço. Figura 88: Vista aérea do Condomínio Bosque das Orquídeas. Fonte: Google earth, editado por Christiane Nicolau. Maio/2012. Legenda: 1. Acesso; 2. Áreas de lazer; 3. Área verde de preservação. É possível observar através das imagens aéreas que os condomínios Cabo Branco Residence Prive e Bosque das Orquídeas possuem uma extensa área verde de preservação, que para os moradores são pontos de referência ou marcos no interior dos condomínios. Essas áreas devem ser protegidas e conservadas, não podendo ser utilizadas nem desmatadas. Os marcos, como se caracterizam essas áreas verdes, são assim classificadas pela singularidade dentre o conjunto de residências, sendo fáceis de identificar e contrastam com o plano de fundo e pela localização (LYNCH, 1997, p. 88) dentro do espaço a qual encontram-se inseridas. No condomínio Cabo Branco Residence Prive, as áreas verdes de preservação são abertas e utilizadas pelos moradores para caminhadas e passeios de bicicleta, já no Condomínio Bosque das Orquídeas, a área verde de preservação é isolada por um gradil, chamada de “Espaço Tarzan” por existir um playground para as crianças.
69 Figura 89: Playground no condomínio Bosque das Orquídeas. Fonte: Arquivo pessoal. Abril/2010. Figura 90: Playground no condomínio Bosque das Orquídeas. Fonte: Arquivo pessoal. Abril/2010. As áreas de lazer, cartão de visita da maioria dos condomínios, são focos estratégicos nos quais o observador pode entrar e, são também áreas que auxiliam quanto a orientação (LYNCH, 1997, p. 80; KOHLSDORF, 2005, p. 3). Em termos gerais, os moradores dos três condomínios investigados consideram fundamental a existência de equipamentos de lazer, mesmo os resultados dos mapeamentos de concentração e fluxo de moradores apontando para o baixo uso dessas áreas. Dos três condomínios analisados, o Condomínio Bosque das Orquídeas possui a maior área de lazer oferecendo um número maior de equipamentos e atividades. Uma particularidade desse condomínio é que, diferente dos outros, essa área não pode ser utilizada por visitantes nem convidados dos moradores, ou seja, é de uso restrito e exclusivo dos proprietários de lotes e demais moradores. Se os espaços de lazer dos condomínios fechados são “teoricamente” concebidos como expansão da residência, seria de se esperar que essas residências buscassem uma relação generosa com esses espaços e com os espaços de uso coletivo como um todo. Todavia, o que se observou são casas construídas da mesma maneira que as da rua tradicional, ou seja, voltadas para o interior, como já foi mencionado, aumentando a privacidade e diminuindo as interações sociais, contrariando, os anúncios publicitários. A influência dos espaços de uso coletivo para a interação social foi verificada em cada condomínio, isoladamente, uma vez que a boa qualidade desses espaços tende a reforçar as interações sociais. Todavia, tal característica parece ser mais importante no Condomínio Cabo Branco Residence Prive, onde os espaços coletivos foram mais frequentemente utilizados, principalmente os estabelecimentos comerciais. Para registrar e posteriormente analisar os locais com maior concentração e fluxo de moradores no interior dos três condomínios analisados, foi realizado um mapeamento registrando ruas com maior e menor fluxo e os locais que concentravam o maior número de pessoas durante a pesquisa. A apropriação e os usos identificados nesses mapeamentos contribuíram para a compreensão do estilo de vida no interior desses empreendimentos.
70 3.1.2 Concentração e Fluxo de pessoas No primeiro dia de mapeamento no Condomínio Cabo Branco Residence Prive, foi possível perceber que a localização de certas funções já determinava que tipo de pessoas circulariam e a frequência com que utilizariam determinado espaço. Por exemplo, a linha verde registrada no mapa (Figura 91) determina uma via de médio fluxo e ela tem essa característica por ser a rua de entrada e saída de funcionários, caminhões de carga e descarga, depósito de lixo, etc. Nessa rua, a frequência de circulação é maior durante o horário de trabalho dos funcionários do condomínio e dos funcionários das residências. O Cabo Branco Residence Prive tem um eixo central que liga todas as demais ruas. Esse eixo, representado no mapa pelas linhas vermelhas. Essa rua concentra a circulação de veículos e pedestres durante todo o dia, o maior problema observado aqui é que os pedestres dividem o espaço das ruas com os carros, devido aos obstáculos que impedem o uso das calçadas, como já foi falado anteriormente. Por fim, as linhas amarelas representadas como vias de baixo fluxo, sãos as ruas residenciais, onde a circulação está mais restrita aos moradores locais. A movimentação nessas ruas é maior no começo da manhã e início da noite. Representado pela linha pontilhada de cor rosa, está a delimitação territorial do condomínio e cada sinal de representação humana significa uma pessoa vista no interior do condomínio. Figura 91: Pesquisa de campo, Condomínio Cabo Branco Residence Prive, 14 de Julho de 2011. Fonte: Google earth editado por Julio Gonçalves.
71 O primeiro dia de pesquisa de campo, aconteceu no dia 14 de julho de 2011, das 10:00 às 11:00 horas da manhã, vinte e três (23) pessoas foram vistas circulando pelas ruas internas (Figura 91). Sendo cinco (05) pessoas na área comercial, nove (09) eram funcionários concentrados na portaria de serviço do condomínio e outras nove (09) pessoas, circulando pelas ruas, entre elas, crianças, babás e moradores adultos. No segundo dia, das 9:00 às 10:00 horas da manhã, a maior concentração de pessoas se deu na área comercial e na portaria de serviço. Durante a semana, a portaria de serviço concentra um número maior de pessoas, funcionários das residências ou empresas para entrega de mercadorias, materiais de construção, etc. Na área comercial, com exceção dos funcionários de cada serviço, a concentração de moradores se mantém durante a maior parte do dia, aumentando durante os finais de semana. Figura 92: Pesquisa de campo, Condomínio Cabo Branco Residence Prive, 15 de Julho de 2011. Fonte: Google earth editado por Julio Gonçalves. Com relação ao fluxo nas ruas internas do condomínio, o eixo central é o responsável pela maior movimentação. Da mesma forma que as fachadas com características especiais de uma rua tradicional tem particularidades importantes para a identidade do sistema viário, como explica Lynch (1997, p. 56), as ruas internas dos condomínios horizontais fechados têm uma série de fachadas voltadas para a rua, com diferentes estilos, cores, texturas, espaços para jardins, etc. diferenciando uma das outras e orientando quem passa.
72 Figura 93: Pesquisa de campo, Condomínio Cabo Branco Residence Prive, 16 de Julho de 2011. Fonte: Google earth editado por Julio Gonçalves. O terceiro dia no condomínio Cabo Branco Residence Prive, entre os horários de 15:00 às 16:00 horas o mapeamento foi realizado com o intuito de verificar se o fluxo nas ruas era maior ou menor do que os fluxos observados no turno da manhã. Nesse horário, o que foi possível perceber, foi um fluxo maior de pedestres, mais especificamente, babás passeando com crianças e/ou cachorros, crianças brincando nas ruas e andando de bicicleta e alguns funcionários. A maior concentração de pessoas se deu na área comercial e próximo a essa área. Às 15:00 horas a padaria começa a funcionar, o que pode justificar o fluxo intenso na área comercial. Outra diferença notada com relação a pesquisa de campo feita no período da manhã, foi que a tarde, a rua onde se localiza o acesso de funcionários e a área de serviço do condomínio teve pouca circulação de veículos e pessoas.
73 Figura 94: área comercial do Condomínio Cabo Branco Residence Prive. Fonte: Christiane Nicolau. Julho/2010. Figura 95: interior da área comercial do Condomínio Cabo Branco Residence Prive. Fonte: Christiane Nicolau. Maio/2007. No Condomínio Porta do Sol, o mapeamento também aconteceu em três (03) dias. Por ser tratar de um condomínio com apenas um acesso, poucos lotes e uma única rua interna que alcança todos os lotes, foi mais fácil apreender o espaço interno. Importante lembrar que as imagens aéreas trabalhadas nos mapas, são imagens disponibilizadas pelo Google Earth, que se atualiza a cada dois anos, sendo assim, atualmente, os condomínios possuem um número maior de residências do que apresentam os mapas. O muro lateral e dos fundos coincide com o muro do condomínio Cabo Branco Residence Prive. Alguns moradores do Cabo Branco Prive já afirmaram que o terreno do condomínio Porta do Sol era parte do condomínio Cabo Branco Residence Prive que foi desmembrado, porém, não souberam informar a razão desse desmembramento. No condomínio Porta do Sol, os lotes estão dispostos lado a lado, como já foi falado no capítulo 2, com os fundos das residências voltados para o muro de delimitação territorial do condomínio e não há divisão de quadras. Nas visitas ao interior do condomínio, foi possível observar que a forma de disposição lotes, impede a visualização dos muros laterais e de fundo do condomínio. Diferente do Cabo Branco Residence Prive, que possui um eixo central que liga a frente do condomínio ao muro de fundo do empreendimento. No primeiro dia de pesquisa de campo para mapeamento, das 10:00 às 11:00 horas da manhã, apenas quatro (04) pessoas foram vistas, sendo duas delas, no jardim da própria residência. Com relação ao fluxo nas ruas internas, apesar da pouca circulação de pedestres nas ruas, a linha vermelha registra a via de maior fluxo porque esse trecho da rua concentra o maior número de veículos entrando e saindo do condomínio.
80 empreendimentos é habitado por população de classe alta, a qual prima pela individualidade e privacidade ao convívio social o que explica a baixa interação entre os residentes encontrada nos condomínios fechados. Outro aspecto que parece estar relacionado à interação social é o uso e a qualidade dos espaços coletivos, ou seja, quanto maior for a frequência de utilização dessas áreas, maior a possibilidade de existir convívio social. Porém, a maioria das residências construídas nos condomínios fechados, possuem áreas de lazer, com espaço gourmet, piscina e algumas vezes, até playground, tornando desnecessário o uso dos espaços oferecidos pelo empreendimento. Os espaços de uso coletivo, principalmente as áreas de lazer, assumem um papel importante nas propagandas publicitárias por influenciar pessoas a optarem por esse novo estilo de morar. Nada mais atrativo numa propaganda de condomínio fechado do que as áreas de lazer. Nos condomínios horizontais fechados de uso residencial, investigados por Brandstetter (2001), a interação social assume grande importância, influenciando fortemente a satisfação residencial, porém Caldeira (2000) conclui que há baixo convívio social nos condomínios fechados a partir do baixo uso dos espaços coletivos e esse baixo uso foi observado em dois dos três condomínios estudados, durante a pesquisa de campo. No Condomínio Cabo Branco Residence Prive, os equipamentos comerciais foram identificados como os maiores responsáveis pela interação social entre os moradores como pode ser observado nos mapas de fluxo do empreendimento (Figuras 91, 92 e 93). Os vários espaços de uso coletivo criados no interior dos condomínios fechados têm o objetivo de oferecerem as mais diversas atividades funcionais, sociais, de lazer e recreação, sendo de uso exclusivo dos condôminos. Esses espaços parecem ser de grande importância devido a aparente ineficiência do poder público de prover a devida segurança, assim a população constrói essa segurança no interior dos condomínios fechados, onde passam para o domínio privado, que é capaz de fornecer, além de segurança, a devida manutenção. Aspectos relacionados ao projeto, como a adequação espacial e a aparência, a relação com as residências (acesso funcional e visual), assim como presença de vegetação e mobiliário, podem interferir na satisfação e no uso desses espaços. Quanto maior o contato entre as residências e os espaços de uso coletivo, seja por conexões funcionais ou visuais, maior o uso desses espaços, como foi observado nos três condomínios. As crianças brincavam nas ruas próximo e/ou em frente das suas próprias residências, onde as babás ou os próprios pais poderiam observar e os equipamentos de lazer eram mais utilizados por moradores que tinham suas residências mais próximas.
81 Figura 102: Crianças brincando na rua onde moram. Condomínio Cabo Branco Residence Prive. Fonte: Christiane Nicolau. Julho/2010. Além da tipologia arquitetônica, essa distância física entre as residências e as áreas de lazer, principalmente, parece contribuir, em termos gerais, para os bons níveis de relação social. Os Condomínios Cabo Branco Residence Prive e Porta do Sol tem suas áreas de lazer distribuídas em diferentes áreas no interior do espaço (Figuras 23 e 44), assim um número maior de residências tem acesso visual à essas áreas. Já no Condomínio Bosque das Orquídeas, a área de lazer é chamada de clube social e agrega em um único espaço a maior parte dos equipamentos de lazer, se aproximando de algumas residências e se distanciando de outras (Figura 58). De acordo com as atividades exteriores classificadas por Gehl (2006, p. 17) e as visitas feitas aos condomínios, foi possível perceber que, de todos empreendimentos analisados, o Cabo Branco Residence Prive apresentou maior interação social entre os moradores e maior vitalidade nas ruas. Esse fato pode ter se caracterizado por ser o empreendimento mais antigo do bairro Portal do Sol e ainda pela presença da área comercial, que mostrou ser o principal ponto de concentração de pessoas.
82 Figura 103: concentração de pessoas na área comercial do Condomínio Cabo Branco Residence Prive. Fonte: Christiane Nicolau. Maio/2007 3.2.1 Atividades Necessárias As atividades necessárias sãos aquelas mais ou menos obrigatórias, ou seja, são todas as atividades onde as pessoas estão mais ou menos obrigadas a participar, como por exemplo, ir a escola, ao trabalho, esperar o ônibus, fazer a feira, etc. Essas atividades acontecem predominantemente no início da manhã e início e fim da tarde. Nos três condomínios estudados, entre as 6:00 e 8:00 horas as ruas ficam mais movimentadas pelas saídas de veículos, circulação de vans escolares, saída de pedestres do condomínio para a parada de ônibus e ainda a entrada de empregados, pedreiros, jardineiros e demais funcionários. O mesmo acontece entre as 17:00 e 19:00 horas, onde o fluxo é inverso, ou seja, entrada de veículos e saída dos funcionários. Entre os moradores dos condomínios, essas atividades são realizadas na maioria dos casos, com o auxílio de automóvel o que impossibilita as relações sociais no espaço e, acontecem durante todo o ano. Os jovens e adultos, costumam se deslocar até a área comercial, no caso do Condomínio Cabo Branco Residence Prive, de carro, apenas os moradores que moram mais próximos, vão caminhando.
83 3.2.2 Atividades Opcionais As atividades opcionais, de acordo com Gehl (2006, p. 17) são aquelas que se participa se existir o desejo e se o tempo e o lugar permitirem. Nos condomínios Cabo Branco Residence Prive, Porta do Sol e Bosque das Orquídeas, esse tipo de atividade pode ser observado nos moradores que caminham pelas ruas do condomínio com seus filhos, cachorros, os que praticam corrida como atividade física regular, aqueles moradores ou babás que levam as crianças ao playground, que se dirigem a academia de ginástica ou piscina, etc. Porém, embora esse tipo de atividade aconteça, a frequência com que acontece é muito baixa. Figura 104: crianças brincando na quadra de areia. Cond. Cabo Branco R. Prive. Fonte: Marcela Dimenstein. Julho/2010 Figura 105: duas pessoas passeando com o cachorro. Cond. Cabo Branco R. Prive. Fonte: Marcela Dimenstein. Julho/2010. Ao analisar separadamente cada um dos condomínios estudados, a conclusão foi que no Condomínio Cabo Branco Residence Prive essas atividades acontecem com mais frequência do que nos outros dois condomínios. 3.2.3 Atividades Sociais As atividades sociais são todas aquelas que dependem da presença de outras pessoas nos espaços públicos. No caso dos condomínios, essas atividades dependem da presença de outras pessoas nos espaços de uso coletivo, e incluem jogos infantis, conversas, atividades comunitárias e demais contatos. Nos três condomínios analisados, esse tipo de atividade foi mais observado entre crianças e adolescentes que utilizam as ruas para andar de bicicleta, jogar bola, etc. Entre os adultos, esse tipo de atividade foi identificado com maior intensidade no Condomínio Cabo Branco Residence Prive, por ser o único com área comercial, o que promove encontros entre os moradores para realização de atividades em comum e assim, relações sociais entre os mesmos.
84 Figura 106: Concentração de moradores na área comercial do Cond. Cabo Branco Residence Prive. Fonte: Arquivo Pessoal. Julho/2009 Figura 107: Grupo de adolescentes caminhando nas ruas do Cond. Cabo Branco Residence Prive. Fonte: Arquivo Pessoal. Set/2009 Durante a pesquisa de campo ainda, foram aplicados questionários para que alguns dados pudessem ser confirmados e apresentados. No Condomínio Porta do Sol, a dificuldade foi maior para conseguir conversar com alguns moradores, a maioria se recusou e questionou a liberação dada pelo condomínio. Mas, ainda assim, algumas características puderam ser obtidas. Dos entrevistados nos três condomínios, 50% dos moradores tinham idade entre 41 e 50 anos e 54% dos entrevistados eram do sexo feminino. Os moradores que tinham mais tempo de moradia dentro de condomínio eram os moradores do Cabo Branco Residence Prive, devido a isso, a maioria dos respondentes diz conhecer mais que a metade dos moradores do condomínio, assim, como afirmam ter um relacionamento muito bom ou bom com os seus vizinhos (Tabela 05) e demais moradores. Tabela 05: Convívio social com os vizinhos. Fonte: Christiane Nicolau. Julho/2011
85 Nos outros dois condomínios investigados, o Condomínio Bosque das Orquídeas e Porta do Sol, os moradores afirmaram ter boas relações com seus vizinhos, porém essas relações se restringiam a cumprimentos ao se encontrarem nos jardins, saindo ou chegando de suas residências. Dessa forma, nos três condomínios, todos os respondentes afirmaram ter contato diário com os moradores e vizinhos, principalmente. Ainda com relação ao convívio social nos condomínios investigados, cita-se o fato de não terem sido relatados pelos respondentes, brigas e/ou conflitos com vizinhos. Em termos gerais, a principal razão observada para explicar o bom relacionamento com os vizinhos, é o estilo de vida similar, que se soma a similaridade socioeconômica. E, aponta para existência de relação entre homogeneidade socioeconômica e cultural e interação social, indicada pela literatura, onde ambientes providos de certa homogeneidade tendem a gerar maiores níveis de interação social entre os moradores. Com relação as áreas de lazer dos condomínios e a frequência com que cada morador utiliza essas áreas, com exceção do Condomínio Bosque das Orquídeas, 46% dos moradores do Condomínio Cabo Branco Residence Prive e 20% dos moradores do Condomínio Porta do Sol, nunca utilizam essas áreas. Quando utilizam, é uma ou duas vezes por mês. O que confirma que essas áreas são muito mais um símbolo de status do que uma necessidade para uma vida cotidiana mais gratificante. Tabela 06: Frequência que se utiliza as áreas de lazer dos condomínios. Fonte: Christiane Nicolau. Julho/2011 Grande parte das propagandas publicitárias de divulgação dos condomínios fechados trazem uma série de imagens dos equipamentos de lazer que irão compor o condomínio e ainda listam as atividades que serão oferecidas. Essas propagandas também mostram pessoas utilizando os espaços e a interação entre essas pessoas. Ao tratar de espaços de uso coletivo e não apenas das áreas lazer, a realidade é diferente, já que ruas e calçadas foram identificadas como áreas de maior utilização pelos moradores, sejam eles crianças, jovens e/ou adultos. De acordo com Becker (2005, p. 29), seis estudos
86 relacionaram alguma forma de interação social ao uso das áreas de uso coletivo, porém, com o baixo uso dessas áreas, é possível observar a baixa interação social entre moradores. O uso desses espaços coletivos está diretamente relacionado com a qualidade desses espaços, e quanto maior a frequência de utilização desses espaços, maior a possibilidade de existir interações sociais entre os residentes. Em geral, aspectos relacionados ao convívio social, segurança e conforto ambiental foram considerados satisfatórios entre os moradores, já alguns aspectos ligados a infraestrutura e localização foram apontados como insatisfatórios. A insatisfação na infraestrutura está diretamente ligada a falta de manutenção de algumas áreas, principalmente no condomínio Cabo Branco Residence Prive: falta de manutenção no campo de futebol; nas caixas de escoamento de água, gerando alagamentos nas ruas; falta de retirada de entulhos nos terrenos vazios, etc. Figura 108: campo gramado de futebol. Falhas no gramado. Fonte: arquivo Pessoal. Julho/2009 Figura 109: Rua principal alagada pelas chuvas. Fonte: arquivo Pessoal. Maio/2009 Os outros dois condomínios, Porta do Sol e Bosque das Orquídeas, não apresentam, segundo os moradores, problemas de infraestrutura que comprometa a qualidade de vida no interior do espaço. E, seria difícil apontar problemas na infraestrutura quando se trata de um condomínio recém construído e ainda pouco habitado, como é o caso do Condomínio Bosque das Orquídeas ou em um condomínio pequeno como o Porta do Sol. Os problemas de infraestrutura começam a aparecer e serem detectados pelos moradores ao longo do tempo e da vivência no espaço. No Cabo Branco Residence Prive, os maiores problemas de infraestrutura foram vistos nas quadras, que estavam desgastadas pelo sol e pela ausência de manutenção frequente; e, nas esquinas das ruas que ficam alagadas devido ao escoamento de águas das chuvas e piscinas, e a ausência de galerias para receber essas águas. Em períodos chuvosos, a água chega a atingir o nível das calçadas (Figura 109), invadindo residências, impossibilitando o uso e causando transtornos. Um fator que tende a repercutir de maneira positiva no uso dos espaços coletivos, apesar do baixo uso, é a segurança interna. Ambientes residenciais percebidos como seguros podem influenciar positivamente na interação social. Sendo a segurança uma característica presente nos três condomínios investigados, sua percepção favorece as interações sociais.
87 Além de que, a segurança proporcionada pelos condomínios é um pressuposto para se morar em casa (ANDRADE, 2008, p.310). Os atributos físico-espaciais característicos dos condomínios fechados: vigilância 24 horas, acesso único, restrito e controlado, barreiras funcionais e visuais, câmeras e circuitos de TV, fazem com que seus residentes se sintam protegidos do crime e da violência urbana, como aferido por outros estudos, por exemplo, Caldeira (2000). Em termos gerais, os moradores dos três condomínios investigados apresentam níveis de satisfação elevados com os espaços de uso coletivo, apesar do baixo uso das áreas de lazer, tanto por parte dos respondentes quanto por parte das crianças e jovens que compõem as famílias. Percebe-se que apesar de todos os equipamentos oferecidos nas propagandas publicitárias, as ruas e calçadas são os espaços coletivos mais utilizados, para passeios de bicicleta, prática de atividades físicas, como caminhadas e corridas. É encontrada também uma relação entre quem utiliza e quem não utilizada os espaços de uso coletivo. Após mapeamentos, aplicação de questionários e visitas em campo para apreensão do espaço urbano, constatou-se que os moradores que usam os espaços de uso coletivo estão mais satisfeitos com o ambiente residencial do que aqueles que não usam. Ou seja, moradores do Condomínio Cabo Branco Residence Prive, estão mais satisfeitos com o ambiente residencial, apesar dos fatores negativos apontados, como a infraestrutura, por exemplo. A presença de vegetação também é uma característica marcante nos condomínios investigados, presente nas ruas internas, áreas de lazer ou ainda, em áreas reservadas por questões de preservação. Jardins, árvores e arbustos melhoram a aparência do espaço interno se tornando característico do ambiente. Nota-se que a proximidade da vegetação representa um dos principais motivos que levaram os moradores a optar por morar em condomínio, tanto pela presença quanto pela possibilidade de se ter áreas de jardins em casa. Parece que a existência dos espaços de uso coletivo dos condomínios investigados afeta a satisfação dos residentes com o ambiente do condomínio, pelo fato de que esses espaços estão diretamente ligados as residências e estilo de vida dos moradores. A boa aparência interna dos condomínios é uma característica de grande importância e prioridade para a satisfação geral, devido a isso, espaços de lazer são importantes mesmo quando não são utilizados. A partir dos resultados obtidos conclui-se que os condomínios horizontais fechados investigados apresentam um bom desempenho interno. Como apontado pela literatura, o ambiente interno é homogêneo socioeconômico e culturalmente, constituído por famílias formadas, na maioria das vezes, por um casal com filhos. Não foi registrado conflitos entre os moradores que indicassem problemas de interação social, ao contrário, esse estudo evidencia a existência de boas relações sociais. É importante notar que para a satisfação residencial, a presença das barreiras funcionais e visuais é um fator fundamental. Os sentimentos de segurança dos moradores estão fortemente vinculados a essas barreiras, e são fundamentais para a obtenção de privacidade visual em relação ao espaço público.
88 As expectativas dos moradores partem da identificação dos motivos para escolha do local de moradia, o que nos permite entender que tipos de características residenciais são indicadas como mais importantes. Conforme as considerações teóricas apresentadas nos capítulos anteriores, a procura de moradia em condomínios horizontais fechados vem crescendo a cada ano e a justificativa para escolha desta nova modalidade de moradia, marcada pela segregação urbana e distante do centro é em parte referida, como procura por segurança. Os principais motivos que guiam as pessoas na hora de escolher onde morar são: a busca por maior segurança e privacidade; um ambiente socioeconômico homogêneo, a aparência e se é agradável, próximo ao verde; a existência de espaços coletivos de lazer privado; uma vida em comunidade; e, o desejo de morar em casa. Ainda, tais motivos se referem a aspectos simbólicos como a opção por um estilo de vida diferente, a imagem de status social e prestígio, obtidos justamente por tais características, aparentemente existentes no interior desses empreendimentos. Para tais motivações, a pesquisa de campo verificou as mesmas respostas nos três condomínios estudados, sendo a segurança em primeiro lugar. Em resumo, essas motivações representam a procura por uma melhor qualidade de vida e por isso, tais motivos compõem a maioria dos anúncios publicitários de venda dos condomínios fechados. Tabela 07: Motivos de escolha por Condomínios Horizontais Fechados. Fonte: Christiane Nicolau. Julho/2011 Outro fator negativo apontado pelos moradores foi a distância até locais de necessidades diárias ou de emergências, como: supermercados, universidades e hospitais, onde gasta-se um tempo médio de 15 minutos com o auxílio de automóvel. O que se extrai da fala de alguns moradores é que estes já haviam experimentado morar em bairros tradicionais e identificam que há mudanças no modo de vida e também compreendem a questão da segregação, porém,
89 colocam o condomínio como consequência de uma segregação e não a causa, ou seja, os condomínios fechados são a “solução” para os problemas de insegurança e violência urbana. A partir destas informações, ao analisar os resultados relacionados a cada condomínio investigado percebe-se certa constância na indicação das respostas. Os moradores foram mais influenciados pela busca por segurança, tranquilidade e pela vontade de morar em casa, do que pela estrutura de lazer tão divulgada. Assim, valorizam a “liberdade” promovida pelo empreendimento, ou seja, os moradores sentem que podem fazer no interior do condomínio, o que deixaram de fazer nas grandes cidades.
96 RAPOSO, Rita. Condomínios fechados em Lisboa: paradigma e paisagem. Análise Social. [online]. jan. 2008 [citado 29 Maio 2009]. Acesso: 25 de maio de 2009. REGIMENTO INTERNO do Condomínio Cabo Branco Residence Privê. João Pessoa.1998. RIBEIRO, Luiz Cesar de Queiroz. Proximidade territorial e distância social: reflexões sobre o efeito do lugar a partir de um enclave urbano In: CARNEIRO, Sandra de Sá; SANT’ANNA, Maria Josefina Gabriel (Orgs.), Cidade: olhares e trajetórias. Rio de Janeiro: Garamond, 2009. ROMERO, Marcelo A., ORNSTEIN, Sheila W.. Avaliação Pós-Ocupação: Métodos e técnicas aplicados à habitação social. Coleção Habitare ANTAC. Porto Alegre, 2003. SERPA, Ângelo. O espaço público na cidade contemporânea. São Paulo: Contexto, 2007. SENNETT, Richard. O Declínio do Homem Público: as tiranias da intimidade. Companhia das Letras. São Paulo, 1988. SOUZA, Célia Ferraz de.; PESAVENTO, Sandra Jatahy. Imagens Urbanas: os diversos olhares na formação do imaginário urbano. 2ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2008. TRAMONTANO, M. ; SANTOS, D. M. . Atrás dos muros: unidades habitacionais em condomínios horizontais fechados.. In: II Congresso Internacional El Habitar. Buenos Aires, 1999, Buenos Aires. Anales, 1999. 210mmx297mm. 03p. Disponível em: http://www.nomads. usp.br/site/livraria/livraria.html Acessado em: 28 / dezembro / 2011. VAZ, Lilian Fessler; ANDRADE, Luciana da Silva; GUERRA, Max Welch. Os espaços públicos nas políticas urbanas: estudos sobre o Rio de Janeiro e Berlim. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008. VILLAÇA, Flávio. Espaço intra-urbano no Brasil. São Paulo: Studio Nobel, 2001. ZAKABI, Rosana. Viver em Condomínio. In: Revista Veja, 15 mai. 2002.