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Análise da evolução do acesso a serviços de TV por assinatura e de vídeos sob demanda no Brasil

de Carvalho, Alexandre Ywata,da Silva, Nícolas Nascimento Monteiro,Coutinho, Paulo C.,Oliveira, André L.

Abstract

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Full text

de Carvalho, Alexandre Ywata; da Silva, Nícolas Nascimento Monteiro; Coutinho, Paulo C.; Oliveira, André L. Working Paper Análise da evolução do acesso a serviços de TV por assinatura e de vídeos sob demanda no Brasil Texto para Discussão, No. 2987 Provided in Cooperation with: Institute of Applied Economic Research (ipea), Brasília Suggested Citation: de Carvalho, Alexandre Ywata; da Silva, Nícolas Nascimento Monteiro; Coutinho, Paulo C.; Oliveira, André L. (2024) : Análise da evolução do acesso a serviços de TV por assinatura e de vídeos sob demanda no Brasil, Texto para Discussão, No. 2987, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Brasília, https://doi.org/10.38116/td2987-port This Version is available at: https://hdl.handle.net/10419/299194 Standard-Nutzungsbedingungen: Die Dokumente auf EconStor dürfen zu eigenen wissenschaftlichen Zwecken und zum Privatgebrauch gespeichert und kopiert werden. 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If the documents have been made available under an Open Content Licence (especially Creative Commons Licences), you may exercise further usage rights as specified in the indicated licence. https://creativecommons.org/licenses/by/2.5/br/ 2987 ANÁLISE DA EVOLUÇÃO DO ACESSO A SERVIÇOS DE TV POR ASSINATURA E DE VÍDEOS SOB DEMANDA NO BRASIL ALEXANDRE XAVIER YWATA DE CARVALHO ALEXANDRE XAVIER YWATA DE CARVALHO NÍCOLAS NASCIMENTO MONTEIRO DA SILVA NÍCOLAS NASCIMENTO MONTEIRO DA SILVA PAULO CESAR COUTINHO PAULO CESAR COUTINHO ANDRÉ LUIS ROSSI DE OLIVEIRAANDRÉ LUIS ROSSI DE OLIVEIRA 2987 Rio de Janeiro, abril de 2024 ANÁLISE DA EVOLUÇÃO DO ACESSO A SERVIÇOS DE TV POR ASSINATURA E DE VÍDEOS SOB DEMANDA NO BRASIL ALEXANDRE XAVIER YWATA DE CARVALHO1 NÍCOLAS NASCIMENTO MONTEIRO DA SILVA2 PAULO CESAR COUTINHO3 ANDRÉ LUIS ROSSI DE OLIVEIRA4 1. Técnico de planejamento e pesquisa na Diretoria de Estudos Macroeconômicos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Dimac/Ipea); e professor no programa de mestrado em economia do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP). E-mail: [email protected].br. 2. Mestrando em economia; e bolsista do Centro de Estudos em Regulação de Mercados da Universidade de Brasília (Cerme/UnB). E-mail: [email protected]. 3. Professor titular do departamento de economia e diretor-executivo do Cerme/UnB. E-mail: [email protected]. 4. Professor associado no departamento de economia na Utah Valley University. E-mail: [email protected]. Texto para Discussão Publicação seriada que divulga resultados de estudos e pesquisas em desenvolvimento pelo Ipea com o objetivo de fomentar o debate e oferecer subsídios à formulação e avaliação de políticas públicas. © Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – ipea 2024 Análise da evolução do acesso a serviços de TV por assinatura e de vídeos sob demanda no Brasil / Alexandre Xavier Ywata de Carvalho ... [et al.]. – Rio de Janeiro: Ipea, 2024. 78 p.: il., gráfs. – (Texto para Discussão ; 2987). Inclui Bibliografia. ISSN 1415-4765 1. Video-on-demand. 2. TV por Assinatura. 3. Regressão Logística. 4. Microdados Públicos. I. Carvalho, Alexandre Xavier Ywata de. II. Silva, Nícolas Nascimento Monteiro da. III. Coutinho, Paulo Cesar. IV. Oliveira, André Luis Rossi de. V. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. CDD 384.55 Ficha catalográfica elaborada por Elizabeth Ferreira da Silva CRB-7/6844. Como citar: CARVALHO, Alexandre Xavier Ywata de; SILVA, Nícolas Nascimento Monteiro da; COUTINHO, Paulo Cesar; OLIVEIRA, André Luis Rossi de. Análise da evolução do acesso a serviços de TV por assinatura e de vídeos sob demanda no Brasil. Rio de Janeiro : Ipea, abr. 2024. 78 p. : il. (Texto para Discussão, n. 2987). DOI: http://dx.doi.org/10.38116/ td2987-port JEL: O33; O31. As publicações do Ipea estão disponíveis para download gratuito nos formatos PDF (todas) e EPUB (livros e periódicos). Acesse: https://repositorio.ipea.gov.br/. As opiniões emitidas nesta publicação são de exclusiva e inteira responsabilidade dos autores, não exprimindo, necessariamente, o ponto de vista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada ou do Ministério do Planejamento e Orçamento. É permitida a reprodução deste texto e dos dados nele contidos, desde que citada a fonte. Reproduções para fins comerciais são proibidas. Governo Federal Ministério do Planejamento e Orçamento Ministra Simone Nassar Tebet Fundação pública vinculada ao Ministério do Planejamento e Orçamento, o Ipea fornece suporte técnico e institucional às ações governamentais – possibilitando a formulação de inúmeras políticas públicas e programas de desenvolvimento brasileiros – e disponibiliza, para a sociedade, pesquisas e estudos realizados por seus técnicos. Presidenta LUCIANA MENDES SANTOS SERVO Diretor de Desenvolvimento Institucional FERNANDO GAIGER SILVEIRA Diretora de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e da Democracia LUSENI MARIA CORDEIRO DE AQUINO Diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas CLÁUDIO ROBERTO AMITRANO Diretor de Estudos e Políticas Regionais, Urbanas e Ambientais ARISTIDES MONTEIRO NETO Diretora de Estudos e Políticas Setoriais, de Inovação, Regulação e Infraestrutura FERNANDA DE NEGRI Diretor de Estudos e Políticas Sociais CARLOS HENRIQUE LEITE CORSEUIL Diretor de Estudos Internacionais FÁBIO VÉRAS SOARES Chefe de Gabinete ALEXANDRE DOS SANTOS CUNHA Coordenador-Geral de Imprensa e Comunicação Social (substituto) JOÃO CLAUDIO GARCIA RODRIGUES LIMA Ouvidoria: http://www.ipea.gov.br/ouvidoria URL: http://www.ipea.gov.br SUMÁRIO SINOPSE ABSTRACT 1 INTRODUÇÃO ..........................................................................7 2 MERCADO AUDIOVISUAL E PRINCIPAIS CONCEITOS ACERCA DAS MODALIDADES DE VOD E SERVIÇOS DE TRANSMISSÃO TELEVISIVA ...........................................8 2.1 Classificação dos serviços de VoD e transmissão televisiva ................................................................8 2.2 Classificação das plataformas de VoD baseadas nos modelos de financiamento ...............................................13 3 PANORAMA INTERNACIONAL SOBRE AS TENDÊNCIAS E ELASTICIDADES DA DEMANDA DE SERVIÇOS DE VOD E TV POR ASSINATURA .............................................. 16 3.1 Evolução da demanda por serviços de VoD e TV por assinatura, além de estratégias adotadas pelos players na disputa pelo mercado audiovisual .....................................17 3.2 Discussão sobre estudos empíricos que calculam elasticidades da demanda e analisam os fatores que influenciam a busca por serviços VoD e televisivos ..............20 3.3 Competição entre serviços de TV por assinatura versus VoD ................................................................................26 4 ANALISANDO O MERCADO DE TV POR ASSINATURA E VOD A PARTIR DOS DADOS DA PNAD ...........................29 4.1 Análise dos indicadores de domicílios com acesso à internet que possuem TV por assinatura, assistiram a vídeos pela internet nos três meses anteriores à PNAD Contínua e têm acesso à TV aberta, individualmente ............30 4.2 Análise de indicadores compostos, resultantes da interação entre diferentes indicadores ...................................35 4.3 Análise da competição entre TV por assinatura e VoD nos domicílios brasileiros ........................................................41 5 ANÁLISE DE DESPESAS COM PRODUTOS DE ACESSO À INTERNET, SEAC E VOD, A PARTIR DOS DADOS DA POF 2017-2018 .....................................................................43 5.1 Considerações metodológicas sobre a POF e comparação com a PNAD Contínua .......................................43 5.2 Análise da despesa média domiciliar mensal com produtos de acesso à internet, SeAC e VoD ...........................45 5.3 Análise da despesa média domiciliar mensal com produtos de internet, SeAC e VoD, por faixa de renda domiciliar ..........49 6 ANÁLISE DE INDICADORES DE ACESSO À INTERNET, VOD E SEAC, A PARTIR DOS MICRODADOS DE DOMICÍLIOS E INDIVÍDUOS DA PESQUISA TIC DOMICÍLIOS .........................................52 6.1 Análise de indicadores a partir dos microdados de domicílios .............................................................................54 6.2 Análise de indicadores a partir dos microdados de indivíduos .............................................................................57 7 ANÁLISE DE REGRESSÃO PARA A DEMANDA POR SERVIÇOS DE TV POR ASSINATURA E VÍDEOS PELA INTERNET ...................................................................61 7.1 Metodologia ..............................................................................63 7.2 Discussão dos resultados ........................................................64 7.3 Comentário sobre os resultados, na comparação com as evidências encontradas na literatura acerca do tema ......71 8 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................76 REFERÊNCIAS ..........................................................................77 SINOPSE Este trabalho analisa as recentes transformações no perfil de consumo de serviços de mídia audiovisual, marcadas principalmente pelo uso intensivo da internet. Tal fenômeno reconfigurou as estratégias adotadas pelos fornecedores dos tradicionais serviços lineares de mídia audiovisual, em resposta à entrada no mercado de telecomunicações de empresas do segmento não linear, especialmente os provedores de serviços video-on-demand (VoD). Os dados utilizados, todos provenientes de bases de dados públicas, incluem a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) e a pesquisa TIC Domicílios, conduzida pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br). O objetivo é apresentar um panorama dos serviços lineares de mídia audiovisual, especificamente TV por assinatura, e dos serviços de VoD. Além disso, realizamos estimativas para estudar os fatores que influenciam as decisões de consumo e a substituição dos serviços de TV por assinatura pelos de VoD, utilizando a técnica estatística chamada regressão logística. Palavras-chave: video-on-demand; TV por assinatura; regressão logística; microdados públicos. ABSTRACT This study analyzes the recent transformations in the consumption profile of audiovisual media services, transformations mainly marked by the intensive use of the internet. Such a phenomenon has reconfigured the strategies adopted by providers of traditional linear audiovisual media services, in response to the entry into the telecommunications market of non-linear segment companies, especially video-on-demand (VoD) service providers. The data used, all sourced from public databases, include the Continuous National Household Sample Survey (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – PNAD Contínua), the Family Budget Survey (Pesquisa de Orçamentos Familiares – POF), and the Information and Communication Technologies (ICT) Households survey (Tecnologias da Informação e Comunicação – TIC Domicílios) conducted by the Brazilian Internet Steering Committee (Comitê Gestor da Internet no Brasil – CGI.br). The objective is to present an overview of linear audiovisual media services, specifically subscription TV and VoD services. Furthermore, we conducted estimates to study the factors influencing consumption decisions and the substitution of subscription TV by VoD services, using the statistical technique called logistic regression. Keywords: video-on-demand; subscription TV services; logistic regression; public microdata. TEXTO para DISCUSSÃO 7 2987 1 INTRODUÇÃO Este trabalho apresenta uma análise do acesso a serviços de TV por assinatura e vídeos sob demanda (video-on-demand – VoD) no Brasil, fazendo uso de bases de dados públicas. As bases de dados utilizadas neste estudo incluem a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) e a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), ambas promovidas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e a pesquisa TIC Domicílios, conduzida pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), por meio do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br). Além disso, realizamos estimativas para estudar os fatores que influenciam as decisões de consumo e a substituição de serviços de VoD e TV por assinatura. Além desta seção 1, de introdução, este texto está assim estruturado: a seção 2 traz um quadro teórico acerca dos conceitos e definições que envolvem os mercados de TV por assinatura e VoD; a seção 3 apresenta uma discussão fundamentada na literatura internacional sobre experiências e tendências relacionadas à demanda por ambos os tipos de serviços, bem como estudos empíricos que buscam estimar os fatores relevantes para a demanda por serviços de VoD e modalidades de transmissão televisiva, além de cálculos de elasticidade de demanda para as duas modalidades de serviço. Da mesma forma, é lançada uma discussão a respeito da competição que há entre essas modalidades de serviço e que se manifesta de diferentes maneiras. Assim, contribui-se para uma compreensão mais abrangente do alcance desses serviços, com base nas experiências de diferentes países. A seção 4 traz uma análise abrangente de diversos indicadores relacionados ao acesso à internet, penetração de TV por assinatura, consumo de vídeos sob demanda no Brasil e competição entre VoD e TV por assinatura, empregando dados da PNAD Contínua. Os recortes analíticos adotados abrangem tanto aspectos geográficos quanto socioeconômicos. A seção 5 apresenta uma análise das despesas realizadas com serviços de acesso à internet, TV por assinatura e serviços de streaming, empregando os microdados da POF. A análise foca os domicílios que tiveram despesas com produtos dessas categorias, apresentando os valores médios mensais domiciliares gastos com esses produtos, utilizando também recortes analíticos tanto de aspectos geográficos quanto socioeconômicos. A seção 6 oferece um panorama do acesso à internet, TV por assinatura e VoD, com informações da pesquisa TIC Domicílios, que possui microdados tanto a respeito de TEXTO para DISCUSSÃO 8 2987 domicílios quanto de indivíduos. A pesquisa TIC Domicílios avalia o acesso e o uso de tecnologias digitais na sociedade brasileira. A seção 7 apresenta a metodologia e a discussão de resultados quanto aos padrões de consumo nos domicílios brasileiros, empregando uma técnica estatística chamada regressão logística. Os microdados da PNAD Contínua foram utilizados para esse propósito. Como desfecho, a seção 8 traz as considerações finais. 2 MERCADO AUDIOVISUAL E PRINCIPAIS CONCEITOS ACERCA DAS MODALIDADES DE VOD E SERVIÇOS DE TRANSMISSÃO TELEVISIVA Esta seção apresenta os principais conceitos acerca das modalidades de serviços de VoD e dos serviços de transmissão televisiva, com destaque para a TV por assinatura. Na subseção 2.1, abordamos os aspectos referentes aos meios de fornecimento dos serviços e suas formas de consumo, bem como a nomenclatura comumente associada a eles. Na subseção 2.2, levanta-se uma discussão sobre a subdivisão que há no segmento de VoD, com base nas diferentes modalidades de financiamento dessas plataformas. 2.1 Classificação dos serviços de VoD e transmissão televisiva O desenvolvimento tecnológico, expresso tanto na expansão da cobertura de internet como na melhoria da velocidade e da qualidade de acesso, tem impulsionado de forma significativa o crescimento dos serviços oferecidos por meio da internet. O fenômeno denominado convergência digital e as alterações na infraestrutura de acesso à internet, com destaque para o incremento da comunicação móvel, são alguns dos fatores que possibilitaram a ascensão do mercado de VoD. Esses serviços são classificados como over the top (OTT) e desempenham um papel cada vez mais importante no setor de telecomunicações (Ancine, 2019). De maneira mais formal, define-se serviço OTT como “conteúdo, um serviço ou um aplicativo fornecido ao usuário final por meio da internet pública” (Berec, 2016, p. 3, tradução nossa). 1 Há também a modalidade chamada cable VoD, na qual o acesso ocorre por intermédio das chamadas set-up boxes de operadoras a cabo (Massarolo e Mesquita, 2016). Neste estudo, focamos a definição de VoD associada à modalidade OTT. Os prestadores de serviços OTT geralmente são diferentes dos provedores de acesso à internet. É importante destacar que a categoria de serviços OTT 1. O termo OTT pode ser utilizado tanto para se referir a um conjunto de novos atores econômicos como para designar a natureza do serviço do ponto de vista do meio de fornecimento (Berec, 2016). TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 15 2987 A modalidade AVoD tem como principal representante o YouTube, com uma ampla base de usuários. Essa plataforma apresenta um mecanismo de partilha de receitas provenientes de publicidade, com remuneração dos produtores de conteúdo segundo a quantidade de visualizações (Ancine, 2019). Ou seja, uma vez que a criação de vídeos é feita de maneira descentralizada, por diferentes usuários, adota-se esse mecanismo de partilha de receitas publicitárias para remunerar a produção dos conteúdos destinados à plataforma, recompensando mais os produtores que conseguem um maior número de visualizações. Outras plataformas que integram esse modelo de negócios são Pluto.TV e Netmovies. O YouTube oferece um grande potencial comercial aos anunciantes, combinando uma vasta base de usuários com a capacidade de personalizar anúncios. Isso é feito utilizando dados cadastrais, interações em redes sociais e cookies de rastreamento para entender o perfil do consumidor e aumentar a eficácia publicitária. Além disso, os dados coletados ajudam a recomendar conteúdos com base no histórico de buscas e interações do usuário, mantendo-o mais tempo na plataforma (Budzinski e Lindstädt-Dreusicke, 2019). Os anúncios no YouTube são semelhantes aos intervalos comerciais da TV, variando em duração e frequência, conforme o conteúdo e as políticas da plataforma (Brasil, 2021). É importante considerar que um excesso de anúncios pode diminuir a satisfação do usuário com a plataforma, levando-o a buscar alternativas. Conforme Budzinski e Lindstädt-Dreusicke (2019), isso pode ocorrer se o número de anúncios ultrapassar o limite tolerável do usuário. Algumas plataformas, como o YouTube, oferecem assinaturas pagas para uma experiência sem anúncios, como o YouTube Red, lançado em 2015. Este plano permite assistir a conteúdos sem interrupções publicitárias, além de contar com recursos como visualização offline e acesso a conteúdos exclusivos (Massarolo e Mesquita, 2016), visando melhorar a experiência do usuário. Em que pesem as classificações acima apresentadas, vale ressaltar que não são modelos puros. Isto é, grande parte das plataformas operam com mais de um modelo de negócios concomitantemente, a maioria convergindo para o SVoD. Além disso, observa-se uma tendência de diversificação nos últimos anos, com a adoção de diferentes modelos por um mesmo prestador, a fim de variar os seus produtos e alcançar mais clientes. Assim, uma empresa de VoD acaba utilizando mais de uma forma de monetização, criando modelos híbridos. De tal modo, é possível diferenciá-los em quatro grupos principais, conforme descrito a seguir. TEXTO para DISCUSSÃO 16 2987 1) SVoD típico: cujo catálogo foca filmes, séries e documentários, produzidos principalmente por estúdios tradicionais do mercado de produção cinematográfica (as big four de Hollywood, entre outros) e estúdios próprios (como Netflix e HBO). 2) SVoD + catch-up TV: cujo catálogo abrange, além de filmes, séries e documentários, programas de TV e conteúdos esportivos produzidos por canais de televisão linear tradicionais (como Globoplay, Claro Video, Oi Play TV e Vivo Play). 3) AVoD: cujo catálogo abrange principalmente filmes, séries e documentários, além de canais de TV aberta, sendo remunerado por anúncios. 4) TVoD: ofertada por big techs (Google, YouTube, Apple e Microsoft). Ainda assim, os modelos não são puros, valendo destacar algumas plataformas que adotam simultaneamente mais de um modelo de negócio, como: • Netflix – aqui classificada como SVoD, oferece também opção mais barata com anúncios (AVoD + SVoD); • Star+ – aqui categorizada como SVoD, oferece no pacote canal linear em catch-up TV, o ESPN (SVoD + catch-up); • Amazon Prime – também tida aqui como SVoD, oferece conteúdos por aluguel e compra (SVoD + TVoD); e • YouTube – oferece a opção de, por uma assinatura mensal (SVoD), não visualizar os anúncios, entre outras vantagens, além de alugar títulos (TVoD). 3 PANORAMA INTERNACIONAL SOBRE AS TENDÊNCIAS E ELASTICIDADES DA DEMANDA DE SERVIÇOS DE VOD E TV POR ASSINATURA Esta seção está estruturada da seguinte forma: na subseção 3.1, discutimos como os serviços de VoD e TV por assinatura evoluíram em diferentes países, bem como as estratégias adotadas pelos participantes de ambos os segmentos na disputa pelo mercado audiovisual. Em seguida, na subseção 3.2, apresentamos pesquisas empíricas que analisam os fatores que influenciam a demanda por ambos os tipos de serviços, bem como estudos que calculam elasticidades da demanda desses serviços. Já na subseção 3.3, traçamos um panorama da competição que há sob diferentes aspectos entre os provedores de VoD e TV por assinatura na disputa pelo mercado audiovisual. TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 17 2987 3.1 Evolução da demanda por serviços de VoD e TV por assinatura, além de estratégias adotadas pelos players na disputa pelo mercado audiovisual A expansão dos serviços de VoD é um fenômeno que pode ser verificado em diversos países. Nesta subseção, abordamos a evolução da demanda por esses serviços, considerando diferentes experiências internacionais e modalidades de serviços VoD. Busca-se investigar se invariavelmente o aumento da demanda por serviços de VoD está atrelado a uma redução na demanda por serviços lineares, especificamente TV por assinatura. Ainda não há um consenso estabelecido na literatura a respeito da existência de uma relação de complementaridade ou substituição entre os serviços de VoD e TV por assinatura. Para esse propósito, apresentamos nesta subseção uma discussão sobre esses tópicos, com fundamentação na literatura internacional acerca do tema. O número de assinantes da Netflix, em uma série de estudos, é utilizado como proxy da quantidade de usuários do mercado de VoD, tendo em vista que esta é a plataforma de maior adesão, com presença em diversos países. Tal abordagem considera a penetração dessa empresa como um indicador representativo para avaliar a popularidade das plataformas de VoD de maneira abrangente. Em estudo que apresenta um panorama dos serviços de VoD para um grupo de países da América Latina, incluindo Brasil, Argentina, Chile, Colômbia e México, as fontes de dados e informações empregadas foram provenientes de pesquisas realizadas pelos próprios autores, relatórios de mercado e comparação de legislação. A América Latina é marcada por profundas desigualdades, no que diz respeito a aspectos como infraestrutura de acesso à internet, renda e outros fatores (Baladron e Rivero, 2019). Nesse estudo, destaca-se a importância da penetração de internet banda larga para o suporte ao crescimento da demanda por serviços de VoD, com uma média de cobertura de cerca de 14% nos países da região. Chile e Argentina, com os maiores produtos internos brutos (PIBs) per capita da região, lideram também em penetração de banda larga e TV por assinatura, sugerindo que esses serviços são mais complementares do que substitutos. Embora seja classificado como um país de renda média, apresentando PIB per capita superior ao do México e da Colômbia, o Brasil apresenta a menor taxa de penetração tanto de TV paga quanto de serviços VoD nesse grupo de países. Uma explicação para isso é a elevada taxa de penetração que a TV aberta tem em âmbito nacional, diferentemente da tendência de redução nessa taxa tanto em nível regional quanto global. TEXTO para DISCUSSÃO 18 2987 Um fator que distingue alguns desses países em comparação com outras nações ao redor do mundo é a existência de plataformas de VoD estatais. Por exemplo, na Argentina, há a Cine.ar Play e a Cont.ar, enquanto no Chile há as plataformas Onda Media e CNTV video library. Em geral, essas opções fornecem conteúdos como filmes e séries produzidos com recursos públicos. Com base nos dados da OVUM, os autores argumentam que, mesmo diante da presença de diversas plataformas atuantes nesse segmento, a Netflix detém aproximadamente 47% do mercado na América Latina. Essa plataforma ingressou no mercado latino-americano em 2011, apresentando um crescimento inicial modesto, porém contínuo, no número de assinantes (Ovum, 2017 apud Baladron e Rivero, 2019). A Netflix também ocupa uma posição de liderança de mercado em países como Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Dinamarca, Suécia e Noruega. Nos Estados Unidos e na Alemanha, a segunda plataforma de SVoD com maior número de assinantes é a Amazon Prime Video. Já no Reino Unido, a BBC iPlayer é a segunda plataforma com maior número de usuários (Budzinski, Gaenssle e Lindstädt-Dreusickе, 2021). Uma estratégia adotada pela Netflix no mercado latino-americano foi estabelecer parcerias com empresas do setor televisivo para a aquisição dos direitos de determinadas produções. Por exemplo, na Argentina, a obtenção dos direitos de programas como El Marginal (Telefe) e La Última Hora (TV Pública); no Brasil, a aquisição dos direitos de programas bíblicos transmitidos pela rede de televisão Record; no Chile, a obtenção dos direitos de El Reemplanzante (TVN); na Colômbia, a aquisição dos direitos de El Capo, da Fox-RCN; e, no México, a obtenção de Enemigo Íntimo, da rede de televisão Telemundo. Uma característica marcante do mercado de mídia televisiva nessa região é a existência de grandes grupos, como Televisa, Globo, Clarín, América Móvil e Telefónica, que detêm a maior parte do mercado nos seus respectivos países de atuação (Baladron e Rivero, 2019). Além disso, algumas empresas do segmento VoD têm uma presença mais acentuada em países específicos, como Globoplay no Brasil, Flow na Argentina e Caracol Play na Colômbia (Ovum, 2017 apud Baladron e Rivero, 2019). Embora os serviços de VoD estejam ganhando muita importância no setor de mídia audiovisual, em que dispositivos móveis, como notebooks, smartphones e tablets, são amplamente utilizados para o consumo desses serviços, a televisão continua despontando como um aparelho muito popular no segmento de mídia audiovisual. Segundo dados do IBGE, em 2017, 96,7% dos domicílios brasileiros tinham ao menos uma televisão. Em termos absolutos, isso equivale a 68 milhões de domicílios. Esse índice supera o dos demais países da América Latina, que apresenta uma média regional de 94%. TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 19 2987 Além disso, vale destacar que a taxa de existência de televisão no domicílio para os países da América do Norte é de 98%, uma média superior à do Brasil (OECD, 2020). Conclui-se, portanto, que a elevada disponibilidade de televisão nos domicílios, tanto nos países da América Latina quanto nos países da América do Norte, aponta para um potencial de consumo muito grande dos serviços lineares de mídia audiovisual (OECD, 2020). Dispositivos televisivos mais modernos, como as smart TVs, não apenas permitem o uso tradicional para o consumo de conteúdo de transmissão televisiva, mas possibilitam o acesso a conteúdos de mídia audiovisual não lineares, a exemplo das plataformas de VoD. GRÁFICO 1 Taxa de assinantes de TV a cabo para países da América Latina (Em unidades por cem habitantes) Bahamas 25 20 15 10 5 0 Uruguai Costa Rica Chile 2018 2016 2014 Trindade e Tobago República Dominicana México Peru Venezuela El Salvador Honduras Brasil Equador Bolívia Guiana Colômbia Paraguai Fonte: ITU, 2019 apud OECD (2020). Com base nas informações do gráfico 1, nota-se que os dados da International Telecommunication Union (ITU) indicam que, entre os países da América Latina, o Brasil tinha a quarta menor taxa de assinantes de TV por cem habitantes em 2018, apresentando um número inferior a cinco assinantes por cem habitantes. Em contraste, as Bahamas lideravam com a maior taxa de assinantes por cem habitantes, ultrapassando quinze assinantes, um número mais de três vezes maior que o do Brasil. O Uruguai vinha em segundo lugar, com mais de dez assinantes por cem habitantes. Já a Guiana registrava a menor taxa, aproximando-se de zero assinante por cem habitantes. TEXTO para DISCUSSÃO 20 2987 3.2 Discussão sobre estudos empíricos que calculam elasticidades da demanda e analisam os fatores que influenciam a busca por serviços VoD e televisivos Em estudo realizado com dados da Alemanha, obtidos por meio de questionário, com a participação de 2.920 indivíduos, busca-se investigar uma relação de competição potencial que pode haver entre as modalidades de serviço AVoD, SVoD e TV. Como referência para a modalidade SVoD, a plataforma Netflix foi utilizada. Os autores adotaram a nomenclatura premium video-on-demand (PVoD)5 para categorizar a Netflix, enquanto neste estudo empregamos a terminologia SvoD.6 Em relação à modalidade AVoD, a plataforma analisada foi o YouTube (Budzinski, Gaenssle e Lindstädt-Dreusickе, 2021). A variável resposta utilizada em tal estudo representa a intensidade de uso ou consumo dos conteúdos de mídia audiovisual sob análise. Essa variável resposta possui diferentes escalas, partindo de uma categoria em que os usuários nunca consomem esses serviços, passando por usuários que realizam um consumo moderado ou intermediário desses conteúdos – por exemplo, mensalmente, em média uma hora –, até usuários com um consumo intensivo desse tipo de serviço – várias vezes por dia, mais de três horas diárias. As variáveis explicativas utilizadas para a análise são divididas em quatro grupos: i) intenção de uso: entretenimento, diminuição do tempo de espera, estímulo ao conhecimento e motivação pessoal (como carreira e saúde); ii) gênero do conteúdo de mídia audiovisual consumido (longa-metragem, documentário, série, tutorial, esportes, notícias, comédia e vídeos musicais); iii) período do dia dedicado ao consumo do conteúdo para o serviço i (meio-dia, tarde e noite); e iv) características dos indivíduos respondentes j (categoria de faixa etária, gênero e nível educacional). Os autores optaram por utilizar uma técnica estatística conhecida como seemingly unrelated regression estimation (SURE), um método frequentemente empregado para modelos de oferta e demanda. Foram realizadas três estimativas distintas, cada uma representando a intensidade do consumo de cada modalidade de serviço como variável resposta, ou seja, AVoD, PVoD e TV. Apesar de as três estimativas poderem ser tratadas como regressões linearmente independentes e serem realizadas separadamente, 5. Pode-se definir PVoD como uma categoria de VoD em que o usuário final pode pagar para acessar o conteúdo antes de outros clientes SVoD ou TVoD. Disponível em: https://ottverse.com/ svod-avod-tvod-pvod-monetization-models/. 6. Para manter a denominação original dos autores, nos referiremos à modalidade PVoD ao apresentar e comentar o estudo de Budzinski, Gaenssle e Lindstädt-Dreusickе (2021). TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 21 2987 espera-se que os termos de erro de cada uma dessas equações estejam correlacionados com os termos de erro das demais. Parte-se do pressuposto de que há correlação dos termos de erro para um mesmo indivíduo i, mas não entre indivíduos diferentes. Os resultados serão discutidos e apresentados com base nos distintos grupos de variáveis. Ao analisar o primeiro grupo de variáveis definidas nesse estudo de Budzinski, Gaenssle e Lindstädt-Dreusickе (2021), que representa a intenção ao realizar o consumo de uma das três opções apresentadas, diferentemente do esperado, a variável referente a ficar entretido não apresentou significância estatística nos três modelos. A variável relacionada à redução do tempo de espera apresentou significância estatística e sinal positivo para o modelo cuja variável dependente trata da intensidade de consumo de Netflix, apenas. No que tange à variável sobre busca ou estímulo por conhecimento, conforme o esperado, essa variável apresentou relação positiva e estatisticamente significativa para o modelo cuja variável resposta trata da intensidade de uso da plataforma YouTube. A variável explicativa relacionada à busca por motivação pessoal (saúde ou carreira, por exemplo) apresenta uma relação positiva e estatisticamente significativa no modelo cuja variável resposta é a intensidade do uso de serviços AVoD. No entanto, essa variável apresenta relação negativa e estatisticamente significativa no modelo em que a variável resposta é a intensidade do consumo de serviços de TV. No que se refere às variáveis de gênero de conteúdo, observou-se que a preferência por filmes tem uma relação positiva e significativa com a intensidade do consumo tanto de Netflix quanto de TV, indicando uma competição entre as duas plataformas para esse gênero. Para séries, a relação é positiva e significativa apenas no modelo cuja variável resposta representa a Netflix. Já para esportes, há uma relação negativa e significativa para a modalidade AVoD, e uma relação positiva e significativa com a modalidade de TV. No gênero notícias, a TV mostrou uma relação positiva e significativa, enquanto AVoD apresentou uma negativa e significativa. Conforme o esperado, conteúdos de música e comédia tiveram uma relação positiva e significativa com AVoD. Quanto ao grupo de variáveis relacionadas ao período do dia em que o uso desses serviços ocorre, verifica-se que há maior grau de competição pelo consumo no horário nobre. Nesse horário, as escolhas por consumo de AVoD afetam negativamente o consumo de PVoD; analogamente, também no horário noturno, as escolhas por serviços PVoD afetam negativamente o consumo de serviços AVoD. Ainda no horário nobre, as escolhas por serviços de transmissão televisiva impactam negativamente tanto o consumo de conteúdos das plataformas AVoD quanto PVoD. Para horários no turno TEXTO para DISCUSSÃO 22 2987 da tarde, é possível concluir que há uma intensificação da competição entre as modalidades AVoD e PVoD nesse horário. Analisando os resultados para as diferentes faixas etárias, a partir do intervalo de 20 a 29 anos, verifica-se que os coeficientes no modelo cuja variável resposta é a intensidade de consumo da modalidade AVoD apresentaram significância estatística, indicando uma relação inversa entre essa faixa etária e o consumo de serviços AVoD. Para os intervalos seguintes, ou seja, de 30 a 39 anos, 40 a 49 anos, 50 a 59 anos e indivíduos acima de 60 anos, os coeficientes associados a essas faixas etárias também manifestaram uma relação negativa e significativa com o consumo de serviços AVoD, com valores dos coeficientes aumentando em módulo à medida que as faixas etárias avançam. Para os intervalos de 40 a 49 anos, 50 a 59 anos e acima de 60 anos, os coeficientes dessas faixas etárias referentes ao consumo de serviços de transmissão de TV tiveram relação positiva e significativa, corroborando a hipótese de que há um perfil etário de consumidores com idades mais avançadas que optam pelo consumo de serviços de transmissão televisiva. Em relação aos coeficientes para o modelo cuja variável resposta diz respeito aos serviços PVoD, verifica-se que o único coeficiente com significância estatística foi o da faixa etária acima de 60 anos, que apresentou relação inversa. Quanto às variáveis de gênero e educação dos respondentes, apenas o coeficiente relacionado ao gênero feminino demonstrou significância estatística para os três modelos, indicando uma relação inversa tanto para os serviços AVoD quanto PVoD, e uma relação positiva para o consumo de serviços televisivos. No tocante aos coeficientes associados às variáveis de nível educacional, somente as dummies de ensino superior e PhD apresentaram significância estatística no modelo cuja variável resposta era a intensidade no consumo de AVoD, revelando uma relação negativa. Em resumo, a análise empírica realizada no estudo aponta que, aproximadamente, 48% dos respondentes consideram o conteúdo da plataforma YouTube uma alternativa aos conteúdos de transmissão televisiva. Esse resultado evidencia uma relação competitiva que até então não era muito corroborada na literatura existente – ou seja, da pressão competitiva da modalidade de serviço AVoD sobre a modalidade de serviços de TV –, diferentemente da pressão competitiva que a Netflix exerce no consumo de serviços televisivos, que é uma relação mais documentada na literatura existente a respeito do tema, e que também foi evidenciada nessa pesquisa (Budzinski, Gaenssle e Lindstädt-Dreusickе, 2021). TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 23 2987 Em estudo promovido utilizando dados do Japão sobre três padrões possíveis de assinatura de serviços televisivos – sem assinatura, assinatura de TV a cabo e assinatura de serviços de transmissão de comunicação via satélite – buscou-se desenvolver um modelo que auxiliasse a compreensão do comportamento de demanda do consumidor por esses serviços, bem como realizar o cálculo das elasticidades, usando um modelo de escolha discreta. Além das variáveis que representam os diferentes tipos de transmissão televisiva, o modelo apresenta: uma variável que designa o montante pago pelos respectivos serviços; uma variável dummy que assume valor 1 quando há assinatura de TV a cabo; outra variável dummy que assume valor 1 quando não há assinatura de transmissão paga; e uma variável que representa a renda familiar (Shishikura, Kasuga e Torii, 2005). Os autores realizaram um segundo modelo, no qual inclui-se variáveis que designam o tempo de visualização para cada categoria: básico, básico estendido e especial, indicando preferências de visualização, além de características do domicílio. A diferença entre os serviços de TV a cabo e serviços de comunicação via satélite é expressa no número de canais básicos e especiais adicionais que eles proporcionam acesso e no ônus do custo. A escolha de assinar um ou outro é feita levando-se em consideração os canais disponíveis para não assinantes e as preferências e o ônus do custo dos usuários em relação aos canais básicos e especiais. Os autores ressaltam que as análises de demanda por serviços de transmissão televisiva geralmente se concentram na medição do seu valor econômico ou na avaliação das condições competitivas desse mercado. Nos Estados Unidos, o último tipo de estudo é mais comumente conduzido devido às políticas antitruste. Ressalta-se que o cálculo de elasticidades-preço e dispêndio desses tipos de serviços é comumente realizado por meio de sistemas de equações de demanda. A participação do gasto com tais serviços em relação à totalidade dos gastos é geralmente utilizada para a estimação das elasticidades, em que se avalia como a mudança de preços de determinados bens ou serviços impacta a distribuição da participação de gastos entre esses bens ou serviços. Embora a elasticidade-preço seja um indicador útil do progresso da competição em um mercado, os resultados apresentados neste trabalho sinalizam que fatores além do preço continuam a ter uma forte influência no comportamento da demanda (escolhas de assinatura) no mercado japonês de transmissão regular e paga (o mercado multicanal). TEXTO para DISCUSSÃO 24 2987 Conforme o esperado, a elasticidade-preço da demanda foi baixa para os não assinantes de serviços televisivos. Em relação aos resultados obtidos para os serviços de TV a cabo e de transmissão via satélite, verifica-se que as elasticidades-preço da demanda foram baixas. Esses resultados contrastam com outros estudos que utilizaram dados dos Estados Unidos, os quais indicaram alta elasticidade-preço para serviços de transmissão paga. A partir desses resultados, é possível concluir que outros fatores além do preço são relevantes para determinar o comportamento da demanda do consumidor por serviços de transmissão televisiva (Shishikura, Kasuga e Torii, 2005). Em outro estudo, utilizando dados trimestrais dos Estados Unidos que abrangem o período de 2008 a 2015, busca-se estudar os fatores associados ao consumo de serviços de VoD e seus substitutos potenciais, como a TV a cabo. O objetivo do estudo é analisar o impacto da popularização das chamadas internet communication technologies, representadas pelos serviços de VoD, na competição com os serviços de TV a cabo. Mais especificamente, a pesquisa busca calcular a variação no número de assinantes da Time Warner Cable (TWC) diante de um aumento no número de assinantes da Netflix. Isso envolve avaliar como a ascensão dos serviços de VoD, representados pela Netflix, pode influenciar a demanda por serviços de TV a cabo, medindo a sensibilidade das variações na quantidade de assinantes de um serviço em resposta às mudanças no número de assinantes do outro serviço (Gorodetsky, 2015). O autor realiza duas estimativas no estudo. A primeira delas representa o cálculo das elasticidades, enquanto a segunda corresponde à estimação via ordinary least squares (OLS), usando os dados transformados por meio de diferenças de primeira ordem. O objetivo dessas estimativas é elucidar os mecanismos subjacentes ao processo decisório dos consumidores, destacando quais incentivos geram maior resposta por parte deles e quais são as preferências desses consumidores em relação a tais serviços. O autor aponta que a estimação das elasticidades enfrenta o problema de multicolinearidade, o que coloca em risco a confiabilidade dos resultados. A especificação do modelo é feita da seguinte forma: a variável resposta representa o número de assinantes da TWC, que é utilizada como proxy para o número de assinantes de TV a cabo. As variáveis explicativas incluem: i) o ln do número de assinantes da Netflix (utilizada como proxy para a quantidade de assinantes de serviços VoD); ii) a taxa de penetração do acesso à internet; iii) o número de assinantes de serviços de vídeo móvel que assistem a vídeos em dispositivos telefones celulares; iv) o número de consoles Wii vendidos (pois esses dispositivos oferecem acesso a serviços VoD e TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 31 2987 De acordo com os dados da pesquisa suplementar TIC da PNAD Contínua 2016, primeiro ano dessa pesquisa suplementar, o gráfico 2 indica que cerca de 71% dos domicílios brasileiros (aproximadamente 47,8 milhões) possuíam acesso à internet, enquanto, em 2021, esse indicador atingiu cerca de 90% dos domicílios (aproximadamente 65,6 milhões), um aumento de 19 pontos percentuais (p.p.). Em 2016, 33% dos domicílios brasileiros (aproximadamente 22,2 milhões) tinham TV por assinatura, também conforme o gráfico 2. Em 2021, esse percentual caiu para cerca de 27% (aproximadamente 19,4 milhões), uma redução de 6 p.p. Esse resultado pode sinalizar uma tendência de queda da representatividade desse modelo de serviço audiovisual linear. No que diz respeito ao percentual de domicílios que assistiram a vídeos, incluindo programas e filmes, pela internet nos três meses anteriores ao período de referência da respectiva pesquisa, em 2016, esse número era cerca de 42% (aproximadamente 28,5 milhões), enquanto, em 2021, esse indicador aumentou para cerca de 72% (em torno de 52,2 milhões). Esse expressivo aumento de 30 p.p. no período sinaliza a popularização da modalidade de VoD. GRÁFICO 3 Acesso à TV aberta por tipos de sinais (Em %) 2016 2017 2018 2019 2021 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 Percentual de domicílios com sinal digital de TV aberta Percentual de domicílios com sinal analógico de TV aberta Percentual de domicílios com televisão com sinal digital e analógico de TV aberta Fonte: PNAD/IBGE. Elaboração dos autores. De acordo com as informações do gráfico 3, o percentual de domicílios com TV aberta (digital ou analógico) ficou estável entre 2016 e 2021, passando de 81% para TEXTO para DISCUSSÃO 32 2987 85%, um aumento de apenas 4 p.p. Em relação às duas modalidades de sinal de TV aberta separadamente, é possível notar uma tendência da substituição do sinal de TV aberta analógico pelo digital. Quanto ao percentual de domicílios com sinal digital de TV aberta, nota-se que houve um aumento de 24 p.p. no índice de domicílios com acesso a esse serviço ao longo do período de 2016 a 2021, de 56% dos domicílios para 80%. Já o percentual de domicílios com sinal analógico de TV aberta passou de 25% em 2016 para apenas 6% em 2021, uma redução de 19 p.p. Esse resultado pode ser explicado pelo desligamento do sinal analógico em algumas cidades, que requer a substituição por conversores digitais ou o uso de sinal via satélite. Em relação à análise por Unidade da Federação (UF), de acordo com os dados do módulo suplementar TIC da PNAD Contínua 2016, Distrito Federal, com 52,6%, e Rio de Janeiro, com 52,4%, foram as UFs com maior penetração de TV por assinatura. Ainda, Distrito Federal, com 65,6%, e Rio de Janeiro, com 51,4%, foram as UFs com maior percentual de domicílios que, em 2016, assistiram a vídeos, incluindo filmes e programas, pela internet nos três meses anteriores à realização da pesquisa. Já de acordo com os dados de 2021, Rio de Janeiro, com 43,5%, e Santa Catarina, com 39%, foram os estados com maior penetração de TV por assinatura. Distrito Federal, com 88%, e Amapá, com 84%, foram as UFs com maior percentual de domicílios que assistiram a vídeos pela internet em 2021. GRÁFICO 4 Domicílios com TV por assinatura por macrorregião (Em %) 2016 2017 2018 2019 2021 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste Fonte: PNAD/IBGE. Elaboração dos autores. TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 33 2987 Analisando os dados agregados por macrorregiões, nota-se que o percentual de domicílios com TV por assinatura apresenta tendência de queda para todas as regiões do país, conforme o gráfico 4 indica. Para o Sudeste, verifica-se a maior diminuição em p.p, embora ainda seja a região do país com maior cobertura de domicílios com TV por assinatura. Em 2016, 44% dos domicílios dessa localidade tinham TV por assinatura, enquanto, em 2021, esse percentual desceu para 34%, um declínio de 10 p.p. A região Sul apresentou a menor redução (apenas 3 p.p.) da cobertura de domicílios com TV por assinatura, passando de 34% dos domicílios com esse serviço em 2016 para 31% em 2021. GRÁFICO 5 Acesso à TV aberta digital e analógica por macrorregião (Em %) 2016 2017 2018 2019 2021 Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste 65 70 75 80 85 90 Fonte: PNAD/IBGE. Elaboração dos autores. Quanto ao percentual de domicílios com sinal de TV aberta (digital ou analógico) por macrorregião, conforme o gráfico 5 indica, as regiões Sudeste e Sul apresentam uma pequena evolução, com pico em 2019. A partir de então, houve um pequeno decréscimo entre 2019 e 2021 na região Sudeste e estabilidade na região Sul. Com base nesses dados, é possível afirmar que essa modalidade de serviço audiovisual linear ainda tem grande adesão de usuários, com números em torno de 80% para todas as regiões do país. TEXTO para DISCUSSÃO 34 2987 GRÁFICO 6 Domicílios com TV por assinatura, por faixa de renda domiciliar per capita (Em %) 2016 2017 2018 2019 2021 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 Até ¼ SM Mais de ¼ SM até ½ SM Mais de ½ SM até 1 SM Mais de 1 SM até 2 SMs Mais de 2 SMs até 3 SMs Mais de 3 SMs até 5 SMs Mais de 5 SMs Fonte: PNAD/IBGE. Elaboração dos autores. Os dados da PNAD Contínua possibilitam uma análise detalhada dos indicadores já discutidos por diferentes faixas de rendimento domiciliar per capita. Ao avaliar o percentual de domicílios que tinham TV por assinatura, percebe-se que, com base nas informações do gráfico 6, com exceção da faixa de rendimento mais baixa, “até um quarto de salário mínimo (SM)”, todas as outras apresentam uma diminuição no número de domicílios com disponibilidade desse serviço ao longo do período estudado. Em relação às faixas de rendimento mais altas, destaca-se uma queda significativa de 15 p.p. nos domicílios com faixa de rendimento “mais de cinco SMs” que deixaram de utilizar esse serviço, passando de 81% em 2016 para 66% em 2021. Essa é a maior redução observada entre todas as faixas de rendimento para a penetração de domicílios com TV por assinatura. A segunda maior redução, de 14 p.p., ocorreu na faixa de rendimento “mais de três até cinco SMs”, em que também houve uma diminuição significativa dos domicílios com acesso a esse serviço ao longo do período de 2016 a 2021, de 66% dos domicílios para 52%, indicando uma possível perda de relevância dessa modalidade de serviço, em decorrência de novas formas de consumir conteúdos de mídia audiovisual. Embora as maiores reduções em p.p. tenham ocorrido nas maiores faixas de rendimento, para as duas maiores faixas de rendimento, mais da metade desses domicílios ainda possui TV por assinatura. TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 35 2987 GRÁFICO 7 Acesso à TV aberta digital e analógica, por faixa de renda domiciliar per capita (Em %) 2016 2017 2018 2019 2021 Até ¼ SM Mais de ¼ SM até ½ SM Mais de ½ SM até 1 SM Mais de 1 SM até 2 SMs Mais de 2 SMs até 3 SMs Mais de 3 SMs até 5 SMs Mais de 5 SMs 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 Fonte: PNAD/IBGE. Elaboração dos autores. Ao analisar a proporção de domicílios com acesso ao sinal de TV aberta digital ou analógica por diferentes faixas de rendimento, o gráfico 7 indica que houve um ligeiro aumento desse indicador nas faixas de rendimento mais baixas e uma estabilidade nos indicadores para as faixas de renda mais altas. Este fato pode sinalizar um perfil de consumo de conteúdos de mídia audiovisual da população com menor rendimento, em que os serviços lineares de mídia audiovisual continuam sendo relevantes para esse perfil socioeconômico. Em 2016, aproximadamente 89% dos domicílios com renda familiar per capita acima de cinco SMs tinham acesso ao sinal de TV aberta. Em 2021, esse indicador aumentou para 90%. Para as três faixas de rendimento mais baixas, ou seja, “até um quarto do SM”, “mais de um quarto até meio SM” e “mais de meio até um SM”, houve um aumento de três, seis e cinco p.p., respectivamente. 4.2 Análise de indicadores compostos, resultantes da interação entre diferentes indicadores Os dados da PNAD Contínua e suas pesquisas suplementares permitem não apenas a análise dos resultados de variáveis individualmente, tais como as perguntas sobre os hábitos de assistir a vídeos pela internet e a respeito da disponibilidade de TV por assinatura, mas também permitem a criação de indicadores compostos ao combinar diferentes respostas, de forma a caracterizar os distintos perfis de consumidores, modos de acesso e múltiplos serviços consumidos por um mesmo domicílio. TEXTO para DISCUSSÃO 36 2987 GRÁFICO 8 Acesso a vídeos pela internet, utilizando a televisão, em domicílios com acesso à internet com banda larga (Em %) 2016 2017 2018 2019 2021 Percentual de domicílios que acessam internet com banda larga (ADSL, VDSL etc.) Percentual de domicílios que possuem banda larga, acessam internet pela televisão e assistiram a vídeo nos três meses anteriores à pesquisa pela internet Percentual de domicílios com internet banda larga que assistiu a vídeo pela internet, na televisão, nos três meses anteriores à pesquisa 0 10 20 30 40 50 60 70 80 Fonte: PNAD/IBGE. Elaboração dos autores. Entre as análises possíveis, os dados de acesso à internet podem ser segmentados por conexões banda larga – Asymmetric Digital Subscriber Line (ADSL) e Very-high-bit-rate Digital Subscriber Line (VDSL), entre outras. Conforme o gráfico 8, cerca de 50% dos domicílios brasileiros tinham banda larga em 2016, subindo para 75% em 2021, um aumento de 25 p.p. Esse crescimento é notável, pois a banda larga proporciona elevada estabilidade e velocidade, essenciais para serviços como streaming. A partir do gráfico 8, podemos analisar o percentual de domicílios que possuíam acesso à banda larga, utilizaram a internet pela televisão e assistiram a vídeos nos três meses anteriores ao levantamento. Nota-se que apenas 7% dos domicílios atendiam a esses critérios em 2016. Já em 2021, houve um aumento considerável desse número, chegando a 35% dos domicílios, representando um expressivo acréscimo de 28 p.p. Esse resultado sinaliza não apenas a expansão do consumo de conteúdos de mídia audiovisual não lineares, especificamente VoD, mas também um dos possíveis meios pelos quais o consumo desses serviços pode estar ocorrendo, ou seja, pela televisão. Conforme pode ser observado no gráfico 8, entre os domicílios que acessaram a internet por conexão banda larga (ADSL, VDSL, entre outras), de acordo com os dados do módulo TIC da PNAD Contínua 2016, cerca de 14% dos domicílios assistiram a vídeos na internet pela televisão, nos três meses anteriores à pesquisa. Em 2021, o percentual subiu para 47%, representando um expressivo aumento de 33 p.p. Esse resultado pode TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 37 2987 sinalizar que uma melhor conexão de internet permite o aumento do consumo de serviços de VoD, bem como a popularização do acesso à internet pela televisão para os domicílios com conexão de internet banda larga. GRÁFICO 9 Domicílios que possuíam banda larga, acessaram internet pela televisão e assistiram a vídeos pela internet nos três meses anteriores à pesquisa (Em %) 2016 2017 2018 2019 2021 Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 Fonte: PNAD/IBGE. Elaboração dos autores. Conforme as informações do gráfico 9, o percentual de domicílios que possuíam banda larga, acessaram internet pela televisão e assistiram a vídeos pela internet nos três meses anteriores à pesquisa cresceu para todas as macrorregiões do país. Os dois maiores aumentos em p.p. ocorreram nas regiões Sul e Centro-Oeste, de 34 e 31 p.p., respectivamente. O menor aumento em p.p. para esse indicador ocorreu na região Norte, de 3% em 2016 para 22% em 2021. Novamente, percebe-se que há uma popularização dessas modalidades de serviços utilizados por meio da televisão, e o fato de a região Norte manifestar o menor aumento em p.p. entre todas as regiões pode ser um reflexo dos indicadores socioeconômicos desfavoráveis que essa região apresenta. Ainda segundo o módulo TIC da PNAD 2021, 83% dos domicílios com TV por assinatura declararam ter assistido a vídeos pela internet nos três meses que antecederam a pesquisa. Cabe salientar que 31% dos domicílios que assistiram a vídeos pela internet também possuem TV por assinatura. TEXTO para DISCUSSÃO 38 2987 GRÁFICO 10 UFs com maiores percentuais de domicílios com banda larga que acessaram internet pela televisão e assistiram a vídeos pela internet nos três meses anteriores à pesquisa (Em %) 2016 2017 2018 2019 2021 0 10 20 30 40 50 60 Distrito Federal Rio Grande do Sul Santa Catarina São Paulo Fonte: PNAD/IBGE. Elaboração dos autores. As quatro UFs com os maiores valores percentuais de domicílios que assistiram a vídeos pela internet nos três meses anteriores à pesquisa, possuíam acesso à internet banda larga e acessaram a internet pela TV são: Distrito Federal, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo, conforme destaque no gráfico 10. No caso do Distrito Federal, em 2016, apenas 17% dos domicílios atendiam a esses três critérios simultaneamente, enquanto, em 2021, observou-se um aumento significativo nesse número, alcançando cerca de 53% dos domicílios, o que representa um incremento de 36 p.p. Para o Rio Grande do Sul, em 2016, apenas 8% dos domicílios atendiam simultaneamente aos três critérios mencionados. Em 2021, esse número aumentou para 41% dos domicílios, um acréscimo de 33 p.p. Para o estado de Santa Catarina, cerca de 10% dos domicílios atendiam aos três critérios em 2016. Em 2021, esse número subiu para 51% dos domicílios, representando um aumento expressivo de 41 p.p. Por fim, no estado de São Paulo, o mais populoso do país, em 2016, apenas 11% dos domicílios atendiam aos três critérios simultaneamente. Em 2021, esse indicador alcançou 42% dos domicílios, representando um acréscimo de 31 p.p. TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 39 2987 GRÁFICO 11 Domicílios com TV por assinatura nas UFs analisadas (Em %) 2016 2017 2018 2019 2021 0 10 20 30 40 50 60 Distrito Federal Rio Grande do Sul Santa Catarina São Paulo Fonte: PNAD/IBGE. Elaboração dos autores. Observamos o percentual de domicílios com TV por assinatura, restringindo a análise para as quatro UFs do gráfico 10 com maior percentual de domicílios que assistiram a vídeos pela internet nos três meses que antecederam a pesquisa, possuíam acesso à internet banda larga, e acessaram a internet pela TV, para dar um panorama mais completo do perfil de consumo de conteúdos de mídia audiovisual dessas quatro UFs. Em 2016, conforme as informações do gráfico 11, cerca de 53% dos domicílios do Distrito Federal tinham TV por assinatura. Em 2021, esse índice caiu para 37% dos domicílios, uma redução de 16 p.p. Para o estado do Rio Grande do Sul, em 2016, cerca de 39% dos domicílios tinham TV por assinatura. Em 2021, esse percentual foi reduzido para 32%, uma diminuição de 7 p.p. O estado de Santa Catarina foi o único que apresentou um aumento da cobertura de TV por assinatura entre as quatro UFs em análise. Em 2016, cerca de 36% dos domicílios tinham TV por assinatura, enquanto, em 2021, esse percentual subiu para 39%, um pequeno aumento de 3 p.p. Por fim, o estado de São Paulo tinha, em 2016, cerca de 48% dos domicílios com TV por assinatura. Em 2021, esse número passou para 34% dos domicílios, uma redução de 14 p.p. no período. Nota-se que o estado de Santa Catarina foi o que teve o maior aumento do indicador do gráfico 10 e, simultaneamente, foi o único que expandiu a cobertura de TV por assinatura entre as quatro UFs analisadas. TEXTO para DISCUSSÃO 40 2987 GRÁFICO 12 Domicílios com banda larga que acessaram internet pela televisão e assistiram a vídeos pela internet nos três meses anteriores à pesquisa, por faixa de renda domiciliar per capita (Em %) 2016 2017 2018 2019 2021 0 10 20 30 40 60 80 Até ¼ SM Mais de ¼ SM até ½ SM Mais de ½ SM até 1 SM Mais de 1 SM até 2 SMs Mais de 2 SMs até 3 SMs Mais de 3 SMs até 5 SMs Mais de 5 SMs 50 70 Fonte: PNAD/IBGE. Elaboração dos autores. Podemos analisar o percentual de domicílios que possuíam banda larga, acessaram internet pela televisão e assistiram a vídeos pela internet nos três meses antecedentes ao levantamento para as diferentes faixas de rendimento domiciliar per capita. Para todas as faixas de rendimento houve elevação desse indicador. Analisando a variação em p.p., nota-se que, para as três faixas de rendimento mais altas, ocorreram os maiores aumentos, conforme as informações do gráfico 12. Para a faixa de rendimento “mais de cinco SMs”, em 2016, 34% dos domicílios atendiam aos três critérios simultaneamente, enquanto, em 2021, esse número subiu para 70%, uma diferença de 36 p.p. Para a segunda maior faixa de rendimento, “mais de três SMs até cinco SMs”, houve o maior aumento em p.p. entre todas as faixas de rendimento, passando de 22% em 2016 para 62% em 2021, um acréscimo de 40 p.p. Para a faixa de rendimento “mais de dois até três SMs”, houve uma alta de 38 p.p., passando de 13% em 2016 para 51% em 2021. Para a menor faixa de rendimento, “até um quarto de SM”, houve o menor aumento em p.p. (13 p.p), passando de 1% em 2016 para 14% em 2021. Esses resultados podem ser analisados tanto do ponto de vista do consumo de serviços de VoD, como também em relação ao acesso à internet pela televisão para essa finalidade. Possivelmente o consumo desses serviços pela televisão está associado a um perfil de consumidor com maior poder aquisitivo devido à sofisticação tecnológica das smart TVs, cuja disponibilidade no domicílio pode estar mais associada a rendimentos mais altos. TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 47 2987 GRÁFICO 16 Despesa média domiciliar mensal com o produto acesso à internet (discada, banda larga, via satélite, via rádio etc.) (Em R$) 80 100 120 140 0 Rondônia Acre Amazonas Roraima Pará Amapá Tocantins Maranhão Piauí Ceará Rio Grande do Norte Paraíba Pernambuco Alagoas Sergipe Bahia Minas Gerais Espírito Santo Rio de Janeiro São Paulo Paraná Santa Catarina Rio Grande do Sul Mato Grosso do Sul Mato Grosso Goiás Distrito Federal 60 40 20 81 90 111 127 98 121 83 82 81 67 67 60 51 56 57 54 77 71 77 84 83 81 82 90 104 90 100 Fonte: POF 2017-2018/IBGE. Elaboração dos autores. Obs.: Valores deflacionados para a data de 15 de janeiro de 2018. Conforme as informações do gráfico 16, para a maior parte das UFs do Brasil, a despesa média mensal domiciliar com o produto “acesso à internet (discada, banda larga, via satélite, via rádio etc.)” é de até R$ 100. Novamente, o estado de Roraima apresenta a maior despesa média mensal domiciliar com esse produto, com valor de R$ 127. O estado do Amapá, também da região Norte, apresenta o segundo maior valor, de R$ 121. É possível notar que a maioria dos estados do Nordeste apresenta as menores despesas médias mensais domiciliares em comparação com as UFs das demais regiões do país. Destacam-se os estados de Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia, que são onde menos se gasta por mês com acesso à internet, em média, por domicílio. Da mesma maneira, não há distinção dos provedores de acesso à internet. A despesa média mensal domiciliar nacional com esse produto foi de R$ 76. TEXTO para DISCUSSÃO 48 2987 GRÁFICO 17 Despesa média domiciliar mensal com o produto serviços de streaming (filmes, músicas, jogos etc.) (Em R$) 10 0 5 Rondônia Acre Amazonas Roraima Pará Amapá Tocantins Maranhão Piauí Ceará Rio Grande do Norte Paraíba Pernambuco Alagoas Sergipe Bahia Minas Gerais Espírito Santo Rio de Janeiro São Paulo Paraná Santa Catarina Rio Grande do Sul Mato Grosso do Sul Mato Grosso Goiás Distrito Federal 15 20 25 30 35 40 45 36 33 22 29 24 30 22 42 31 27 32 33 31 27 29 28 31 29 34 33 33 28 32 37 26 32 32 Fonte: POF 2017-2018/IBGE. Elaboração dos autores. Obs.: Valores deflacionados para a data de 15 de janeiro de 2018. O gráfico 17 apresenta as despesas médias mensais domiciliares por UF com o produto “serviços de streaming de filmes, músicas, jogos etc.”. Esse produto não distingue os provedores dos serviços de streaming das diferentes categorias elencadas, ou seja, filmes, músicas, jogos etc. O estado do Maranhão tem o maior valor médio gasto com esse produto, de R$ 42. Os estados que desembolsam os menores valores são Amazonas e Tocantins, ambos com o valor de R$ 22. Não é possível identificar um padrão ou nível de gastos ao analisar as UFs que compõem as diferentes regiões do país. De modo geral, as despesas com esse produto ficam em torno de R$ 20 a R$ 40 para a maior parte das UFs. A despesa média mensal domiciliar, em âmbito nacional, com esse produto foi de R$ 31,55. TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 49 2987 GRÁFICO 18 Despesa média domiciliar mensal com o produto pacote com internet e TV por assinatura (Em R$) 190 170 218 149 156 206 152 215 141 177 126 178 183 191 183 134 157 161 189 190 183 156 203 175 149 161 198 50 100 150 200 250 0 Rondônia Acre Amazonas Roraima Pará Amapá Tocantins Maranhão Piauí Ceará Rio Grande do Norte Paraíba Pernambuco Alagoas Sergipe Bahia Minas Gerais Espírito Santo Rio de Janeiro São Paulo Paraná Santa Catarina Rio Grande do Sul Mato Grosso do Sul Mato Grosso Goiás Distrito Federal Fonte: POF 2017-2018/IBGE. Elaboração dos autores. Obs.: Valores deflacionados para a data de 15 de janeiro de 2018. O gráfico 18 apresenta informações sobre a despesa média domiciliar mensal com o produto “pacote com internet e TV por assinatura”. Os estados nos quais mais se gasta com esse produto são Amazonas, com valor de R$ 218, e Maranhão, com valor de R$ 215. Os estados que apresentaram menores valores médios mensais domiciliares gastos com esse produto são Rio Grande do Norte, com valor de R$ 126, e Bahia, com valor de R$ 134. Não é possível identificar um padrão ou nível de gastos analisando as UFs que compõem as diferentes regiões do país. A despesa média mensal domiciliar nacional com esse produto foi de R$ 182. 5.3 Análise da despesa média domiciliar mensal com produtos de internet, SeAC e VoD, por faixa de renda domiciliar A partir dos microdados da POF é possível não apenas utilizar como critério analítico o recorte por UF, mas também avaliar os dados de gastos com produtos ou serviços com outras linhas de investigação, como faixas de renda domiciliar em SMs com valores correntes do ano de 2018.7 Esta subseção apresenta uma análise tendo como critério a 7. O valor do SM em 2018 era de R$ 954,00. TEXTO para DISCUSSÃO 50 2987 despesa média mensal domiciliar por faixa de rendimento em SM, em valores nominais para o nível geográfico Brasil. GRÁFICO 19 Despesa média mensal domiciliar com o produto acesso à internet (discada, banda larga, via satélite, via rádio etc.), por faixa de rendimento (Em R$) 0 40 60 80 100 120 Até 1.908 Mais de 1.908 a 2.862 Mais de 2.862 a 5.724 Mais de 5.724 a 9.540 Mais de 9.540 a 14.310 Mais de 14.310 a 23.850 Mais de 23.850 20 62 68 75 82 88 106 107 Fonte: POF 2017-2018/IBGE. Elaboração dos autores. Obs.: Valores deflacionados para a data de 15 de janeiro de 2018. De acordo com as informações do gráfico 19, a faixa de renda mais alta, “mais de R$ 23.850”, gasta em torno de R$ 107 por mês com internet, enquanto a faixa de menor renda, “até R$ 1.908”, despende R$ 62 mensalmente com esse produto. Ao compararmos a diferença das despesas dessas duas faixas de rendimento, nota-se que a despesa média mensal domiciliar da faixa de rendimento mais alta é aproximadamente 70% maior do que a despesa da menor faixa de rendimento. No entanto, é importante observar que estamos comparando faixas de rendimento muito díspares, ou seja, a menor delas consiste em até 2 SMs em valores correntes de 2018, enquanto a maior corresponde a mais de 25 SMs em valores correntes. O gráfico 20 apresenta os valores médios mensais domiciliares gastos com o produto “TV por assinatura (mensalidade e/ou pay-per-view)”, por faixa de rendimento. Para a maior faixa de rendimento, “mais de R$ 23.850”, despende-se em torno de R$ 223 por mês com serviços de TV por assinatura, o que corresponde a aproximadamente duas vezes e meia a mais do que é pago pela faixa de menor renda. A faixa de menor renda, “até R$ 1.908”, desembolsa R$ 91 mensalmente. É importante destacar que os valores médios pagos pelas três menores faixas de renda são similares, em torno de R$ 90 por mês. TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 51 2987 GRÁFICO 20 Despesa média mensal domiciliar com o produto TV por assinatura (mensalidade e/ou pay-per-view), por faixa de rendimento (Em R$) 0 50 100 150 200 250 Até 1.908 Mais de 1.908 a 2.862 Mais de 2.862 a 5.724 Mais de 5.724 a 9.540 Mais de 9.540 a 14.310 Mais de 14.310 a 23.850 Mais de 23.850 91 86 95 113 131 143 223 Fonte: POF 2017-2018/IBGE. Elaboração dos autores. Obs.: Valores deflacionados para a data de 15 de janeiro de 2018. GRÁFICO 21 Despesa média mensal domiciliar com o produto pacote com internet e TV por assinatura, por faixa de rendimento (Em R$) 0 50 100 150 200 250 300 Até 1.908 Mais de 1.908 a 2.862 Mais de 2.862 a 5.724 Mais de 5.724 a 9.540 Mais de 9.540 a 14.310 Mais de 14.310 a 23.850 Mais de 23.850 136 147 155 169 191 233 272 Fonte: POF 2017-2018/IBGE. Elaboração dos autores. Obs.: Valores deflacionados para a data de 15 de janeiro de 2018. O gráfico 21 apresenta informações sobre a despesa média mensal domiciliar por faixa de rendimento com o produto “pacote com internet e TV por assinatura”. Para esse produto, as famílias de maior renda pagam, em média, cerca de R$ 272 por mês, o que corresponde ao dobro do que é pago pelas famílias de menor renda, que gastam R$ 136 mensalmente com esse produto. TEXTO para DISCUSSÃO 52 2987 GRÁFICO 22 Despesa média mensal domiciliar com o produto serviços de streaming (filmes, músicas, jogos etc.), por faixa de rendimento (Em R$) 29 27 28 31 32 34 40 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 Até 1.908 Mais de 1.908 a 2.862 Mais de 2.862 a 5.724 Mais de 5.724 a 9.540 Mais de 9.540 a 14.310 Mais de 14.310 a 23.850 Mais de 23.850 Fonte: POF 2017-2018/IBGE. Elaboração dos autores. Obs.: Valores deflacionados para a data de 15 de janeiro de 2018. Por fim, segundo as informações do gráfico 22, que apresenta a despesa média mensal domiciliar com o produto “serviços de streaming de filmes, músicas, jogos etc.”, nota-se que para esse produto o valor pago pelas diferentes faixas de rendimento é mais homogêneo, possivelmente devido aos preços similares das assinaturas desses serviços. As famílias da faixa de maior renda pagam, em média, R$ 40 por mês, enquanto as famílias da faixa de menor renda pagam, em média, R$ 29 mensalmente. Ou seja, embora a diferença das faixas de rendimento seja de pelo menos 23 SMs, a faixa de rendimento mais alta tem um gasto aproximadamente 37% superior em relação à faixa de rendimento mais baixa. 6 ANÁLISE DE INDICADORES DE ACESSO À INTERNET, VOD E SEAC, A PARTIR DOS MICRODADOS DE DOMICÍLIOS E INDIVÍDUOS DA PESQUISA TIC DOMICÍLIOS As pesquisas TIC avaliam o acesso e o uso de tecnologias digitais na sociedade brasileira, conduzidas pelo CGI.br, por meio do Cetic.br. Os levantamentos abrangem diferentes segmentos da sociedade, incluindo domicílios, empresas, escolas e organizações sem fins lucrativos. Sua realização contribui para as políticas públicas, fornecendo dados e informações para a tomada de decisões esclarecidas. As pesquisas TIC também são úteis para empresas de tecnologia e inovação, pois fornecem informações sobre as tendências e padrões de uso de tecnologia no Brasil. Os dados recolhidos permitem TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 53 2987 compreender melhor como as diferentes partes da sociedade brasileira estão adotando e usando as TICs. Os resultados das pesquisas são compartilhados publicamente, ajudando a informar o debate público sobre as TICs no Brasil por parte de diferentes segmentos da sociedade. As pesquisas TIC são realizadas anualmente, permitindo o acompanhamento das tendências e mudanças no uso de tecnologias digitais. As informações coletadas podem indicar disparidades no acesso e no uso de tecnologias, o que é útil para identificar e resolver a exclusão digital. Além disso, os resultados destacam as oportunidades e desafios associados à adoção das TICs. As pesquisas também contribuem para a literatura acadêmica sobre tecnologias digitais, com dados de pesquisas longitudinais que permitem comparações com o passar dos anos. Acompanhar a dinâmica da adoção das TICs ao longo do tempo é importante para avaliar os locais que eventualmente possam estar com um crescimento mais lento no acesso às TICs, em paralelo com outras áreas. Os resultados das pesquisas TIC também podem ser usados para entender o impacto da digitalização na economia e na sociedade. As pesquisas ajudam a identificar quais áreas geográficas e demográficas estão sub-representadas no uso das TICs, possibilitando iniciativas para a inclusão digital. As pesquisas TIC também estudam a implementação e o uso de tecnologias emergentes, como inteligência artificial e internet das coisas, permitindo avaliar o impacto da adoção dessas tecnologias emergentes em curto prazo. As perguntas das pesquisas abrangem uma variedade de temas, desde a posse de dispositivos digitais até o uso de serviços digitais, como e-commerce e e-learning. A pesquisa TIC Domicílios tem dois questionários aplicados anualmente, de indivíduos e domicílios.8 As perguntas compreendem aspectos mais associados a hábitos de utilização de TICs para indivíduos e domicílios. Na subseção 6.1, apresentamos os resultados atrelados ao questionário de domicílios. Na subseção 6.2, trazemos os achados relacionados ao questionário de indivíduos. 8. No ano de 2020, por conta da pandemia do covid-19, a pesquisa foi realizada por telefone, diferentemente dos demais anos em que ocorreu de forma presencial. TEXTO para DISCUSSÃO 54 2987 6.1 Análise de indicadores a partir dos microdados de domicílios A TIC Domicílios é um levantamento que tem como objetivo mapear o acesso às TICs nas residências brasileiras e as formas de uso por indivíduos de dez anos de idade ou mais. A metodologia de coleta da pesquisa é composta pelas seguintes etapas: • amostragem: o Cetic.br seleciona uma amostra representativa dos domicílios brasileiros com base nos dados do IBGE; • coleta de dados: os dados da pesquisa são levantados por meio de entrevistas telefônicas com os chefes de domicílio e com os indivíduos de dez anos de idade ou mais que residem nos domicílios selecionados; • tratamento dos dados: os dados coletados são tratados por meio de técnicas estatísticas para garantir a sua confiabilidade e validade; e • publicação dos resultados: os resultados da pesquisa TIC Domicílios são publicados em um relatório anual que está disponível no site do Cetic.br. As variáveis provenientes dos microdados de domicílios estão mais atreladas a serviços de aquisição e uso coletivo, tais como acesso à internet e disponibilidade de TV por assinatura. GRÁFICO 23 Domicílios que têm acesso à internet, por macrorregião (Em %) 0 10 30 50 80 90 100 2015 2016 2017 2020 2021 20222018 2019 Nordeste Norte Sudeste SulCentro-Oeste 60 70 40 20 Fonte: TIC Domicílios. Elaboração dos autores. TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 55 2987 De acordo com as informações do gráfico 23, nota-se que há uma tendência na expansão da cobertura de acesso à internet para todas as regiões do país. Os dois maiores aumentos em p.p. no período de 2015 a 2022 ocorreram nas regiões Nordeste e Norte. Em 2015, o Nordeste tinha cerca de 38,5% dos domicílios com acesso à internet, enquanto, em 2022, esse número atingiu 78,2%, uma alta de aproximadamente 40 p.p. Já na região Norte, em 2015, cerca de 36,4% dos domicílios tinham acesso à internet, enquanto, em 2022, esse número subiu para cerca de 75,5%, um aumento de mais de 39 p.p. A alta ocorrida nessa localidade levou a uma redução no gap que existia entre todas as regiões do país. Em outras palavras, podemos observar uma diminuição na desigualdade regional em relação à cobertura de acesso à internet em 2022, comparativamente ao cenário de sete anos antes. Durante toda a série histórica, é possível notar que a região Sudeste apresenta a maior penetração de acesso à internet. Em 2015, 63,7% dos domicílios dessa localidade tinham acesso à internet, enquanto, em 2022, esse número atingiu cerca de 81,6% dos domicílios, um acréscimo de aproximadamente 18 p.p. no período. GRÁFICO 24 Domicílios com TV por assinatura, por macrorregião (Em %) 0 15 20 35 40 45 2015 2016 2017 2020 2021 20222018 2019 Nordeste Norte Sudeste SulCentro-Oeste 25 30 5 10 Fonte: TIC Domicílios. Elaboração dos autores. TEXTO para DISCUSSÃO 56 2987 O gráfico 24 mostra o percentual de domicílios com TV por assinatura por macrorregião. Consonante com o que tem sido evidenciado em outras fontes de dados, há um declínio do percentual de domicílios que possuem TV por assinatura. A maior redução em p.p. ocorreu na região Sudeste. Em 2015, cerca de 37% dos domicílios brasileiros dessa região tinham TV por assinatura, enquanto, em 2022, esse número caiu para cerca de 30%, uma diminuição de 7 p.p. As regiões Centro-Oeste e Sul, por seu turno, apresentaram uma oscilação positiva para esse indicador. GRÁFICO 25 Domicílios que têm acesso à internet, por faixa de renda (Em %) 0 20 40 60 80 120 100 2015 2016 2017 2020 2021 20222018 2019 Mais de 1 SM até 2 SMs Mais de 2 SMs até 3 SMs Até 1 SM Mais de 3 SMs até 5 SMs Mais de 5 SMs até 10 SMs Mais de 10 SMs Fonte: TIC Domicílios. Elaboração dos autores. Os microdados da pesquisa TIC Domicílios permitem que utilizemos recortes de análise por alguns critérios socioeconômicos. O gráfico 25 apresenta informações do percentual de domicílios com acesso à internet para o nível geográfico Brasil por diferentes faixas de renda. Esse indicador apresenta um aumento considerável para as famílias de menor renda e uma estabilidade em um nível já elevado desse indicador nas faixas de renda mais altas. Ou seja, houve uma redução na disparidade do acesso à internet levando em consideração as distintas faixas de rendimento, embora a diferença de domicílios da faixa de renda mais alta para a mais baixa ainda seja de aproximadamente 30 p.p. em 2022. Analisando a variação em p.p. desse indicador no período 2015 a 2022 para a faixa de rendimento mais baixa, até um SM, em 2015, esse indicador era em torno de 23%, enquanto, em 2022, esse número subiu para cerca de 67%, um crescimento expressivo de 44 p.p. TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 63 2987 na capital e efeitos temporais – isto é, influência do ano nos quais os dados foram coletados – são aqueles com maior influência na chance de o domicílio atender aos três critérios simultaneamente. Em relação ao número de residentes por faixa etária, a que apresentou maior chance de cumprir os três critérios ao mesmo tempo foi a faixa etária entre 21 e 34 anos. Para analisar a relação de competição entre os serviços de TV por assinatura e VoD, foi estimado um modelo cuja variável resposta representa “domicílio não tem TV por assinatura porque assiste a vídeos pela internet”, conforme o questionário de entrevista da PNAD Contínua. As estimativas encontradas neste estudo indicam que fatores como renda domiciliar per capita, decorrer dos anos abordados no painel, domicílio situado na capital e número de residentes no domicílio por faixa etária, em que as menores faixas etárias indicaram maior relevância para esse comportamento, são os fatores que estão associados a uma maior chance de substituir serviços de TV por assinatura por VoD. Budzinski, Gaenssle e Lindstädt-Dreusicke (2021) encontraram resultados estatisticamente significativos que apontam para a substituição entre a modalidade AVoD, representada pela plataforma YouTube, e os serviços de transmissão televisiva, que até então ainda não havia sido mensurada. Além disso, apresentaram a relação de substituição entre SVoD, simbolizada pela plataforma Netflix, e os serviços de transmissão televisiva, sendo essa relação mais documentada na literatura sobre o tema. Gorodetsky (2015) obteve um resultado que indica uma relação competitiva entre os serviços VoD e TV a cabo. 7.1 Metodologia A técnica conhecida por regressão logística é amplamente consolidada na literatura estatística. A regressão logística parte da construção de que a variável resposta pode ser representada por uma variável que assume valores estritamente 0 ou 1. Em geral, a variável de interesse é representada pela letra Y, e o evento de interesse é representado pelo valor Y = 1; já a não ocorrência do evento de interesse é representada pelo valor Y = 0. As variáveis que ajudam a explicar o comportamento da variável resposta, ou variável dependente Y, são representadas pela letra X. No nosso caso, estudamos diferentes variáveis de interesse separadamente: i) se o domicílio possui (Y = 1) ou não (Y = 0) TV por assinatura; ii) se o domicílio assistiu (Y = 1) ou não (Y = 0) a vídeo pela internet, nos três meses anteriores ao questionário da pesquisa; iii) se o domicílio possui o conjunto acesso à internet pela TV e internet TEXTO para DISCUSSÃO 64 2987 banda larga, e assistiu a vídeo pela internet nos três meses que antecederam o levantamento (Y = 1) ou não (Y = 0); e iv) se o domicílio respondeu que não possui TV por assinatura porque assiste a vídeo pela internet. Dessa forma são ao todo quatro modelos de regressão com base nessas variáveis respostas.Os dados utilizados são referentes aos domicílios brasileiros para os anos de 2016 a 2021, a partir dos microdados da PNAD Contínua. Em relação às variáveis utilizadas para explicar o comportamento da demanda por diferentes serviços, listados anteriormente, estas correspondem a características presentes na PNAD ao longo dos anos analisados. As variáveis que ajudam a explicar o comportamento da variável resposta são: i) variáveis de renda do domicílio; ii) variáveis de composição etária dos moradores do domicílio; iii) variáveis de composição de escolaridade dos moradores do domicílio; iv) variáveis de localização geográfica do domicílio; v) variáveis de características específicas do chefe de família; e vi) variáveis de características de infraestrutura do domicílio (disponíveis para os anos de 2016 a 2019). Podemos expressar matematicamente o modelo de regressão logística por meio da equação: (1) Em que o subscrito i representa a i-ésima unidade de observação, no caso os domicílios, e o subscrito k representa a k-ésima variável explicativa. Para estimar os coeficientes das regressões, utilizamos o método de máxima verossimilhança, conforme descrito em Carvalho, Cajueiro e Camargo (2015) e McCullagh e Nelder (1989). 7.2 Discussão dos resultados Os resultados da estimação estatística são apresentados na tabela 1 e foram expressos em termos das razões de chance (odds ratio) para cada uma das variáveis respostas, sem considerar as variáveis de controle por características do domicílio. Ao dispor os resultados dessa forma facilita-se a interpretação dos coeficientes. No caso da variável renda per capita, apresentamos o impacto sobre a razão de chances, quando há um aumento de R$ 1 mil na renda per capita do domicílio. TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 65 2987 7.2.1 Painel de domicílios de 2016 a 2021, sem informações de características dos domicílios Os resultados abaixo consideram informações de 2016 a 2021, sem a inclusão de variáveis referentes às características dos domicílios. O motivo é que essas informações estão disponíveis apenas até a PNAD de 2019. Na próxima subseção, considera-se uma regressão incluindo dezessete variáveis para caracterizar os domicílios, excluindo-se da amostra as observações referentes ao ano de 2021. TABELA 1 Impactos sobre as razões de chance (odds-ratio) (2016-2021) Variável Domicílio possui TV por assinatura Domicílio assistiu a vídeos pela internet nos três meses anteriores à pesquisa Domicílio assistiu a vídeos, tem banda larga e acessa internet pela TV Domicílio não tem TV por assinatura porque assiste a vídeos pela internet Capital do estado 1.763 *** 1.603 *** 2.200 *** 2.745 *** Região metropolitana 1.261 *** 1.577 *** 1.799 *** 2.249 *** Área urbana não metropolitana 1.264 *** 1.474 *** 1.936 *** 2.171 *** Renda domiciliar per capita 1.302 *** 1.071 *** 1.181 *** 1.086 *** Mulher como chefe de família 0.889 *** 0.856 *** 0.831 *** 0.810 *** Número de moradores 1.028 *** 0.990 * 0.996 1.018 Anos de estudo do chefe do domicílio 1.110 *** 1.070 *** 1.106 *** 1.104 *** Chefe do domicílio possui graduação 1.141 *** 1.223 *** 1.361 *** 1.097 *** Chefe do domicílio entre 21 e 34 anos 1.063 . 0.720 *** 1.008 0.844 * Chefe do domicílio entre 35 e 44 anos 1.231 *** 0.634 *** 1.159 *** 0.883 . Chefe do domicílio entre 45 e 54 anos 1.406 *** 0.537 *** 1.285 *** 0.999 Chefe do domicílio entre 55 e 64 anos 1.524 *** 0.417 *** 1.324 *** 1.063 Chefe do domicílio com mais de 64 anos 1.839 *** 0.305 *** 1.414 *** 0.906 Número de residentes menores de 10 anos 1.087 *** 0.982 1.207 *** 1.081 Número de residentes entre 10 e 14 anos 1.123 *** 1.028 1.291 *** 1.109 . Número de residentes entre 15 e 20 anos 0.980 1.245 *** 1.377 *** 1.585 *** Número de residentes entre 21 e 34 anos 1.397 *** 1.428 *** 2.017 *** 2.021 *** Número de residentes entre 35 e 44 anos 1.538 *** 1.204 *** 1.683 *** 1.513 *** Número residentes entre 45 e 54 anos 1.279 *** 0.935 ** 1.141 *** 0.890 * Número de residentes entre 55 e 64 anos 1.248 *** 0.834 *** 0.858 *** 0.603 *** Número de residentes acima de 64 anos 1.079 *** 0.763 *** 0.582 *** 0.503 *** (Continua) TEXTO para DISCUSSÃO 66 2987 (Continuação) Variável Domicílio possui TV por assinatura Domicílio assistiu a vídeos pela internet nos três meses anteriores à pesquisa Domicílio assistiu a vídeos, tem banda larga e acessa internet pela TV Domicílio não tem TV por assinatura porque assiste a vídeos pela internet Ano 2017 0.959 *** 1.539 *** 1.715 *** 1.529 *** Ano 2018 0.907 *** 2.267 *** 2.930 *** 2.113 *** Ano 2019 0.831 *** 2.829 *** 4.727 *** 2.796 *** Ano 2021 0.716 *** 3.209 *** 9.421 *** 4.670 *** Inclusão de variáveis dummies para UFs Número de observações válidas 864.180 561.800 532.497 353.998 R2 de Cox & Snell (%) 17,6 4,8 10,8 1,4 R2 de McFadden (%) 17,2 7,8 17,4 8,9 R2 de Nagelkerke/Cragg e Uhler’s (%) 26,4 11,9 26,2 10,7 AUC (%) 77,5 69,8 78,3 73,9 Fonte: PNAD/IBGE. Elaboração dos autores. Obs.: 1. Não contém informações sobre as características dos domicílios. 2. Os resultados trazem indicadores sobre a significância estatística das estimativas (***, **, * e . indicam significância com probabilidade de erro tipo I de 0,1%, 1%, 5% e 10%, respectivamente). 3. Em todas as regressões, utilizaram-se efeitos fixos para UFs. Os resultados apresentam também as estatísticas do tipo pseudo R 2 para regressão logística (Carvalho, Cajueiro e Camargo, 2015; McCullagh e Nelder, 1989). Um cuidado deve ser tomado ao ler as estatísticas, porque elas não necessariamente se enquadram no intervalo [0,1], como no caso da regressão linear. De acordo com os resultados apresentados na tabela 1, para a variável renda domi - ciliar per capita, conforme discutido na literatura, o uso de TV por assinatura é mais sensível do que os serviços de vídeo pela internet. Um aumento de R$ 1 mil de renda per capita domiciliar aumenta em 30% as chances de um domicílio utilizar serviços de TV por assinatura. No caso de vídeos pela internet, com acesso à internet pela TV e com banda larga, esse aumento de renda per capita implica em aumento de 18% nas chances de utilização desse conjunto. O número total de moradores no domicílio não parece influenciar o uso dos serviços de vídeo pela internet, apesar de impactar a demanda de TV por assinatura. TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 67 2987 Uma característica importante para analisar o perfil dos usuários dos serviços de mídia audiovisual é a faixa etária. A utilização de TV por assinatura parece aumentar de forma consistente com a idade do chefe da família. Esse resultado pode indicar que o consumo de serviços lineares de mídia audiovisual está mais relacionado a uma faixa etária mais elevada. Em relação aos domicílios que assistem a vídeos pela internet, nota-se um efeito inverso, ou seja, de que quanto mais jovem é o chefe do domicílio, maior o consumo desse serviço. Além da análise por chefe do domicílio, os coeficientes associados aos totais de residentes do domicílio por faixa etária permitem identificar o perfil de consumo dos serviços de mídia audiovisual. Com base nos resultados reportados na tabela 1, residentes adicionais, além do chefe do domicílio, aparentam ter um impacto maior sobre a demanda de TV por assinatura na faixa de 35 a 44 anos. Residentes adicionais, além do chefe do domicílio, por sua vez, aparentam ter um impacto maior sobre o uso de vídeos pela internet na faixa de 21 a 34 anos. A faixa etária de 21 a 34 anos de moradores, além do chefe de família, parece ser também a mais relevante para a demanda do conjunto TV por assinatura, banda larga e vídeos pela internet. Esses resultados novamente sinalizam que pode haver um perfil de consumo de serviços de mídia audiovisual lineares e não lineares com base na faixa etária. A partir dos resultados do modelo cuja variável resposta é “domicílio não tem TV por assinatura porque assiste a vídeos pela internet”, é possível analisar mais detidamente o perfil daqueles que substituem os serviços de TV por assinatura por serviços de VoD. Entre as faixas etárias do chefe do domicílio, a que apresenta maior significância estatística para explicar essa variável resposta é a faixa etária de 21 a 34 anos. De maneira análoga para o total de residentes, além do chefe do domicílio, verifica-se que as faixas etárias entre 15 e 20 anos, entre 21 e 34 anos e entre 34 e 44 anos parecem ser as mais relevantes para determinar se um domicílio responde que não tem TV por assinatura por assistir a vídeos pela internet. A variável explicativa referente à escolaridade do chefe do domicílio parece ter um efeito maior sobre a demanda pelo conjunto TV por assinatura, banda larga e vídeos pela internet. De fato, domicílios com chefe de família com nível superior têm 36% mais chances de consumirem esse conjunto do que domicílios nos quais o chefe do domicílio não tem nível superior. A variável explicativa referente a uma dummy indicando se o domicílio está situado em uma capital parece ter uma relevância muito grande para os serviços de TV por assinatura e de banda larga, o que pode sinalizar uma maior disponibilidade desses serviços nos domicílios da capital. Por fim, com base nos resultados TEXTO para DISCUSSÃO 68 2987 apresentados na tabela 1, domicílios chefiados por mulheres aparentam utilizar menos TV por assinatura e visualizar menos vídeos pela internet. 7.2.2 Painel de domicílios de 2016 a 2021, com informações de características dos domicílios Os resultados discutidos na subseção anterior referem-se às regressões sem considerar variáveis de características dos domicílios. O motivo é que essas informações não estão disponíveis para o ano de 2021. Para termos uma ideia da sensibilidade dos resultados a essas informações adicionais, consideramos também, neste exercício de regressão, variáveis sobre as características dos domicílios. Os resultados apresentados a seguir não contêm, portanto, observações relativas a 2021. Diante do avanço significativo dos produtos de vídeo sob demanda no Brasil nos últimos anos, os dados de 2021, na nossa avaliação, são muito importantes para termos uma análise mais acurada da dinâmica dessa transformação digital no Brasil. Em todo caso, os resultados considerando informações dos domicílios, mesmo não incluindo dados para 2021, oferecem uma oportunidade de examinar a robustez das conclusões encontradas neste exercício econométrico. De maneira geral, os resultados expressos na tabela 2 corroboram as conclusões anteriores para a penetração dos serviços de TV por assinatura e de vídeos pela internet. Levamos em conta as mesmas quatro regressões, conforme modelos anteriores, mas incluímos as seguintes variáveis, para caracterizar as condições dos domicílios: •sinal digital para TV aberta; •quantidade de cômodos; •quantidade de banheiros com chuveiro e privada; •domicílio do tipo casa; •domicílio do tipo apartamento; •paredes de alvenaria ou taipa com revestimento; •paredes de alvenaria ou taipa sem revestimento; •piso de cerâmica, lajota ou pedra; TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 69 2987 •piso de madeira ou cimento; •abastecimento de água na rede geral; •fossa séptica ou esgoto ligado à rede; •coleta diária de lixo; •coleta diária por caçamba; •acesso à energia elétrica; •gás encanado ou gás de botijão; •geladeira; e •máquina de lavar roupa. Quando consideramos a inclusão das características dos domicílios, novamente temos que, para a variável renda domiciliar per capita, conforme discutido na literatura, o uso de TV por assinatura é mais sensível do que os serviços de vídeo pela internet. Um aumento de R$ 1 mil de renda per capita domiciliar aumenta em 23% as chances de um domicílio aderir a serviços de TV por assinatura. No caso de vídeos pela internet, com TV acessando a internet e com banda larga, esse incremento de renda per capita leva a um aumento de 12% nas chances de utilização desse conjunto. TABELA 2 Impactos sobre as razões de chance (odds-ratio) (2016-2019) Variável Domicílio possui TV por assinatura Domicílio assistiu a vídeos pela internet nos três meses anteriores à pesquisa Domicílio assistiu a vídeos, tem banda larga e acessa internet pela TV Domicílio não tem TV por assinatura porque assiste a vídeos pela internet Capital do estado 1.111 *** 1.122 *** 1.238 *** 1.470 *** Região metropolitana 0.880 *** 1.175 *** 1.130 *** 1.325 *** Área urbana não metropolitana 0.926 *** 1.113 *** 1.307 *** 1.405 *** Renda domiciliar per capita 1.230 *** 1.046 *** 1.115 *** 1.071 *** Mulher como chefe de família 0.887 *** 0.846 *** 0.815 *** 0.813 *** Número de moradores 1.020 *** 0.984 * 0.989 1.007 (Continua) TEXTO para DISCUSSÃO 70 2987 (Continuação) Variável Domicílio possui TV por assinatura Domicílio assistiu a vídeos pela internet nos três meses anteriores à pesquisa Domicílio assistiu a vídeos, tem banda larga e acessa internet pela TV Domicílio não tem TV por assinatura porque assiste a vídeos pela internet Anos de estudo do chefe do domicílio 1.080 *** 1.057 *** 1.084 *** 1.097 *** Chefe do domicílio possui graduação 1.093 *** 1.219 *** 1.247 *** 0.996 Chefe do domicílio entre 21 e 34 anos 1.082 . 0.726 *** 0.965 0.788 * Chefe do domicílio entre 35 e 44 anos 1.149 ** 0.632 *** 1.045 0.831 . Chefe do domicílio entre 45 e 54 anos 1.211 *** 0.512 *** 1.053 0.855 Chefe do domicílio entre 55 e 64 anos 1.286 *** 0.393 *** 1.069 0.914 Chefe do domicílio com mais de 64 anos 1.472 *** 0.280 *** 1.035 0.664 ** Número de residentes menores de 10 anos 1.212 *** 1.029 1.272 *** 1.248 ** Número de residentes entre 10 e 14 anos 1.166 *** 1.042 1.361 *** 1.078 Número de residentes entre 15 e 20 anos 0.976 1.242 *** 1.489 *** 1.704 *** Número de residentes entre 21 e 34 anos 1.302 *** 1.395 *** 1.956 *** 1.989 *** Número de residentes entre 35 e 44 anos 1.417 *** 1.118 *** 1.499 *** 1.319 *** Número de residentes entre 45 e 54 anos 1.207 *** 0.902 *** 1.024 0.862 * Número de residentes entre 55 e 64 anos 1.120 *** 0.794 *** 0.709 *** 0.524 *** Número de residentes acima de 64 anos 0.910 *** 0.724 *** 0.447 *** 0.486 *** Ano 2017 0.909 *** 1.546 *** 1.751 *** 1.529 *** Ano 2018 0.820 *** 2.195 *** 3.044 *** 2.075 *** Ano 2019 0.728 *** 2.747 *** 5.028 *** 2.677 *** Inclusão de dezessete variáveis relativas às características dos domicílios e inserção de variáveis dummies para UFs Número de observações válidas 522.526 317.855 301.274 200.212 R2 de Cox & Snell (%) 37,0 18,1 20,1 4,0 R2 de McFadden (%) 20,2 7,8 18,7 9,4 R2 de NagelkerkeCragg e Uhler’s (%) 30,6 12,0 27,2 11,0 AUC (%) 79,5 69,6 79,4 74,9 Fonte: PNAD/IBGE. Elaboração dos autores. Obs.: 1. Com informações sobre as características dos domicílios. 2. AUC – area under the receiver operating characteristic (ROC) curve. Para mais detalhes, ver: McCullagh e Nelder, 1989. A utilização de TV por assinatura parece aumentar de forma consistente com a idade do chefe da família, o que condiz com o que foi discutido na subseção anterior. TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 71 2987 Esse feito é exatamente inverso para o caso de uso de vídeo pela internet: quanto mais novo o chefe de família, maior o uso desse serviço. Residentes adicionais, além do chefe do domicílio, aparentam ter um impacto maior sobre a demanda de TV por assinatura na faixa de 35 a 44 anos. Quando esse público se restringe à faixa de 21 a 34 anos, por sua vez, parece ter um impacto maior sobre o uso de vídeos pela internet. Novamente, a faixa etária de 21 a 34 anos, de moradores além do chefe de família, aparenta ser também a mais relevante para a demanda do conjunto TV por assinatura, banda larga e vídeos pela internet. Ademais, essa faixa etária de 21 a 34 anos de moradores adicionais parece ser a mais relevante para determinar se um domicílio responde que não tem TV por assinatura por assistir a vídeos pela internet. O número total de moradores no domicílio não aparenta influenciar significativamente a demanda dos serviços de vídeo pela internet, apesar de impactar a demanda de TV por assinatura. A escolaridade do chefe do domicílio parece ter um efeito maior sobre a busca pelo conjunto TV por assinatura, banda larga e vídeos pela internet. De fato, domicílios com chefe de família com nível superior têm 25% mais chances de consumirem esse conjunto do que domicílios nos quais o chefe do domicílio não tem nível superior. O efeito domicílio situado em capital aparenta ter uma relevância muito significativa para os serviços de TV por assinatura e de banda larga, o que pode indicar uma maior disponibilidade desses serviços nos domicílios da capital. Novamente, domicílios chefiados por mulheres parecem ter menor utilização tanto de TV por assinatura quanto de vídeos pela internet. 7.3 Comentário sobre os resultados, na comparação com as evidências encontradas na literatura acerca do tema Os resultados encontrados neste estudo corroboram algumas conclusões já consolidadas na literatura e levantam novas questões sobre o uso de serviços de mídia audiovisual, com maior foco para serviços de VoD e TV por assinatura, além da relação de competição potencial que há entre eles. Conforme ilustrado por estudos anteriores acerca do tema e a partir dos resultados deste estudo, o consumo de serviços de transmissão televisiva, em particular TV por assinatura, está mais associado a um público com faixas etárias mais elevadas. No que se refere ao consumo de serviços VoD, constata-se, a partir da discussão de resultados da subseção 7.2, que esse consumo está mais associado a um público com faixas etárias mais baixas. TEXTO para DISCUSSÃO 72 2987 No tocante à existência de TV por assinatura no domicílio, os lares cujos chefes têm entre 35 e 44 anos apresentam 23% mais chances de possuírem TV por assinatura no modelo sem controle por características do domicílio, e 15% mais chances no modelo com controle por características do domicílio. À medida que as faixas etárias do chefe do domicílio sobem, observa-se também um aumento da chance de disponibilidade de TV por assinatura no domicílio. Para a última faixa etária, mais de 64 anos, os resultados indicam que há uma maior chance (84%) na disponibilidade de TV por assinatura no domicílio no modelo sem controle por características do domicílio. No modelo com variáveis de controle por aspectos do domicílio esse índice é de 47,2%. Em relação aos resultados sobre o uso de serviços VoD, conclui-se que para as diferentes faixas etárias do chefe do domicílio também se observa um padrão, em que a faixa etária de 21 a 34 anos apresenta uma maior chance de o domicílio ter utilizado serviços VoD em comparação com as demais faixas etárias. Os valores dos coeficientes são decrescentes à medida que as faixas etárias aumentam, resultado corroborado pela literatura sobre o tema. A localização do domicílio na capital é um fator que sinaliza uma relação estatisticamente significativa e positiva, indicando uma maior chance de os residentes possuírem TV por assinatura e utilizarem serviços de VoD. Isso é válido tanto no modelo que não emprega variáveis de controle por características do domicílio quanto no modelo com esses controles. Com base na discussão levantada na subseção 2.1, na qual apresentamos uma associação entre o consumo de serviços VoD e uma forma de consumo mais individualizada, decorrente da popularização de dispositivos de uso individual, como smartphones, tablets e computadores, argumentamos que o consumo de serviços televisivos pode ser considerado de natureza mais coletiva no domicílio, tendo em vista que os dispositivos televisivos costumam estar disponíveis em ambientes de convívio comum. Dessa forma, se considerarmos os valores referentes aos coeficientes do número de moradores no domicílio, levando em conta também os modelos sem controle por características dos domicílios, é possível constatar que domicílios com um maior número de moradores indicam mais chances de adesão à TV por assinatura. Portanto, pode-se concluir que essa perspectiva de consumo coletivo dos serviços lineares é evidenciada a partir dos resultados encontrados neste estudo. Em relação ao consumo de serviços VoD, o número de moradores no domicílio não indica ser muito influente para determinar se houve uso de serviços VoD, um resultado que pode ser explicado pelo fato de este ser um tipo de serviço de consumo de natureza mais individualizada e, portanto, não estar suscetível ao número de moradores no domicílio. Ipea – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada EDITORIAL Coordenação Aeromilson Trajano de Mesquita Assistentes da Coordenação Rafael Augusto Ferreira Cardoso Samuel Elias de Souza Supervisão Aline Cristine Torres da Silva Martins Revisão Bruna Neves de Souza da Cruz Bruna Oliveira Ranquine da Rocha Carlos Eduardo Gonçalves de Melo Crislayne Andrade de Araújo Elaine Oliveira Couto Luciana Bastos Dias Rebeca Raimundo Cardoso dos Santos Vivian Barros Volotão Santos Deborah Baldino Marte (estagiária) Maria Eduarda Mendes Laguardia (estagiária) Editoração Aline Cristine Torres da Silva Martins Camila Guimarães Simas Leonardo Simão Lago Alvite Mayara Barros da Mota Capa Aline Cristine Torres da Silva Martins Projeto Gráfico Aline Cristine Torres da Silva Martins The manuscripts in languages other than Portuguese published herein have not been proofread. TEXTO para DISCUSSÃO Missão do Ipea Aprimorar as políticas públicas essenciais ao desenvolvimento brasileiro por meio da produção e disseminação de conhecimentos e da assessoria ao Estado nas suas decisões estratégicas. Missão do Ipea Aprimorar as políticas públicas essenciais ao desenvolvimento brasileiro por meio da produção e disseminação de conhecimentos e da assessoria ao Estado nas suas decisões estratégicas.