Fronteiras desiguais: Um exame crítico da participação negra interseccionada com sexo na liderança científica brasileira
Abstract
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Full text
Chiarini, Tulio; Pereira, Larissa de Souza; Silva, Carla Pereira; Marinho, Vitor Working Paper Fronteiras desiguais: Um exame crítico da participação negra interseccionada com sexo na liderança científica brasileira Texto para Discussão, No. 3093 Provided in Cooperation with: Institute of Applied Economic Research (ipea), Brasília Suggested Citation: Chiarini, Tulio; Pereira, Larissa de Souza; Silva, Carla Pereira; Marinho, Vitor (2025) : Fronteiras desiguais: Um exame crítico da participação negra interseccionada com sexo na liderança científica brasileira, Texto para Discussão, No. 3093, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Brasília, https://doi.org/10.38116/td3093-port This Version is available at: https://hdl.handle.net/10419/315178 Standard-Nutzungsbedingungen: Die Dokumente auf EconStor dürfen zu eigenen wissenschaftlichen Zwecken und zum Privatgebrauch gespeichert und kopiert werden. Sie dürfen die Dokumente nicht für öffentliche oder kommerzielle Zwecke vervielfältigen, öffentlich ausstellen, öffentlich zugänglich machen, vertreiben oder anderweitig nutzen. Sofern die Verfasser die Dokumente unter Open-Content-Lizenzen (insbesondere CC-Lizenzen) zur Verfügung gestellt haben sollten, gelten abweichend von diesen Nutzungsbedingungen die in der dort genannten Lizenz gewährten Nutzungsrechte. Terms of use: Documents in EconStor may be saved and copied for your personal and scholarly purposes. You are not to copy documents for public or commercial purposes, to exhibit the documents publicly, to make them publicly available on the internet, or to distribute or otherwise use the documents in public. If the documents have been made available under an Open Content Licence (especially Creative Commons Licences), you may exercise further usage rights as specified in the indicated licence. https://creativecommons.org/licenses/by/2.5/br/
3093 FRONTEIRAS DESIGUAIS: UM EXAME CRÍTICO DA PARTICIPAÇÃO NEGRA INTERSECCIONADA COM SEXO NA LIDERANÇA CIENTÍFICA BRASILEIRA TULIO CHIARINITULIO CHIARINI LARISSA PEREIRALARISSA PEREIRA CARLA PEREIRA SILVACARLA PEREIRA SILVA VITOR MARINHOVITOR MARINHO
3093 Brasília, março de 2025 FRONTEIRAS DESIGUAIS: UM EXAME CRÍTICO DA PARTICIPAÇÃO NEGRA INTERSECCIONADA COM SEXO NA LIDERANÇA CIENTÍFICA BRASILEIRA1,2 TULIO CHIARINI3 LARISSA PEREIRA4 CARLA PEREIRA SILVA5 VITOR MARINHO6 1. Uma apresentação preliminar dos dados foi realizada no XX Seminário de Diamantina, em 2024, organizado pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Faculdade de Ciências Econômicas (Cedeplar) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e encontra-se disponível nos anais do evento. Esta versão, no entanto, traz novas interpretações e contribuições. 2. Os autores agradecem aos pareceristas anônimos pela leitura atenta e pelas valiosas sugestões e recomendações. Agradecem também à equipe editorial do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) pelo rigoroso trabalho de revisão gramatical e pela cuidadosa formatação do texto. No entanto, ressaltam que quaisquer erros ou omissões remanescentes são de sua exclusiva responsabilidade. De acordo com a taxonomia CRediT (contributor roles taxonomy), as contribuições dos autores foram distribuídas da seguinte forma: Tulio Chiarini foi responsável pela conceitualização, metodologia e supervisão. A curadoria de dados e a análise formal foram realizadas por Larissa Pereira e Vitor Marinho. Todos os autores contribuíram igualmente para a análise formal, a investigação, a validação e a redação (revisão e edição). 3. Analista em ciência e tecnologia no Centro de Pesquisa em Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) da Diretoria de Estudos e Políticas Setoriais, de Inovação, Regulação e Infraestrutura (Diset) do Ipea. E-mail: [email protected]v.br. 4. Pesquisadora bolsista do Subprograma de Pesquisa para o Desenvolvimento Nacional (PNPD) no CTS da Diset/Ipea. E-mail: larissa.pereir[email protected].br. 5. Professora do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG) Campus Diamantina. E-mail: [email protected]. 6. Pesquisador bolsista do PNPD na Diset/Ipea. E-mail: [email protected].
Governo Federal Ministério do Planejamento e Orçamento Ministra Simone Nassar Tebet Fundação pública vinculada ao Ministério do Planejamento e Orçamento, o Ipea fornece suporte técnico e institucional às ações governamentais – possibilitando a formulação de inúmeras políticas públicas e programas de desenvolvimento brasileiros – e disponibiliza, para a sociedade, pesquisas e estudos realizados por seus técnicos. Presidenta LUCIANA MENDES SANTOS SERVO Diretor de Desenvolvimento Institucional FERNANDO GAIGER SILVEIRA Diretora de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e da Democracia LUSENI MARIA CORDEIRO DE AQUINO Diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas CLÁUDIO ROBERTO AMITRANO Diretor de Estudos e Políticas Regionais, Urbanas e Ambientais ARISTIDES MONTEIRO NETO Diretora de Estudos e Políticas Setoriais, de Inovação, Regulação e Infraestrutura FERNANDA DE NEGRI Diretor de Estudos e Políticas Sociais RAFAEL GUERREIRO OSÓRIO Diretora de Estudos Internacionais KEITI DA ROCHA GOMES Chefe de Gabinete ALEXANDRE DOS SANTOS CUNHA Coordenadora-Geral de Imprensa e Comunicação Social GISELE AMARAL DE SOUZA Ouvidoria: https://www.ipea.gov.br/ouvidoria URL: https://www.ipea.gov.br Texto para Discussão Publicação seriada que divulga resultados de estudos e pesquisas em desenvolvimento pelo Ipea com o objetivo de fomentar o debate e oferecer subsídios à formulação e avaliação de políticas públicas. © Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – ipea 2025 Fronteiras desiguais : um exame crítico da participação negra interseccionada com sexo na liderança científica brasileira / Tulio Chiarini ... [et al.]. – Brasília, DF: Ipea, 2024. 67 p.: il., gráfs. – (Texto para Discussão ; n. 3093). Inclui Bibliografia. ISSN 1415-4765 1. Diretório dos Grupos de Pesquisa. 2. Diversidade na Ciência. 3. Injustiça Epistêmica. 4. Interseccionalidade. 5. Racismo. 6. Mulheres Negras I. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. II. Título. CDD 305.800981 Ficha catalográfica elaborada por Ana Paula Fernandes Abreu CRB-7/4769. Como citar: CHIARINI, Tulio et al. Fronteiras desiguais: um exame crítico da participação negra interseccionada com sexo na liderança científica brasileira. Brasília, DF: Ipea, mar. 2025. 67 p. (Texto para Discussão, n. 3093). DOI: https:// dx.doi.org/10.38116/td3093-port JEL: I23; O15; O34; O38. DOI: https://dx.doi.org/10.38116/td3093-port As publicações do Ipea estão disponíveis para download gratuito nos formatos PDF (todas) e ePUB (livros e periódicos). Acesse: https://www.ipea.gov.br/portal/publicacoes As opiniões emitidas nesta publicação são de exclusiva e inteira responsabilidade dos autores, não exprimindo, necessariamente, o ponto de vista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada ou do Ministério do Planejamento e Orçamento. É permitida a reprodução deste texto e dos dados nele contidos, desde que citada a fonte. Reproduções para fins comerciais são proibidas.
SUMÁRIO SINOPSE ABSTRACT 1 INTRODUÇÃO .......................................................................... 6 2 COMO OS DADOS DE SEXO E COR/RAÇA SÃO APRESENTADOS NO DGP ...................................................10 2.1 Os grupos de pesquisa do DGP: questões metodológicas.... 10 2.2 Participação negra nos grupos de pesquisa .......................... 14 2.3 Liderança negra nos grupos de pesquisa ............................... 16 2.4 Liderança negra por grande área do conhecimento .............. 20 2.5 Liderança negra por região ...................................................... 29 3 ACM ........................................................................................34 3.1 O método ................................................................................... 34 3.2 Aplicação da ACM .................................................................... 36 4 DISCUSSÃO ...........................................................................43 4.1 A diversidade na produção de C&T ......................................... 43 4.2 Injustiça epistêmica ................................................................. 45 5 RECOMENDAÇÕES AO CNPQ .............................................46 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................47 REFERÊNCIAS ..........................................................................50 APÊNDICE A .............................................................................56 APÊNDICE B ..............................................................................64
SINOPSE No Brasil, os grupos de pesquisa são catalogados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) no Diretório dos Grupos de Pesquisa (DGP). Embora esta base de dados seja amplamente utilizada em estudos acadêmicos, até o momento não foram realizadas análises sobre a representatividade negra na liderança desses grupos. Este estudo pioneiro visa compreender a participação negra interseccionada com sexo na liderança científica brasileira, oferecendo subsídios importantes para a formulação de políticas públicas que promovam a equidade de gênero e racial na comunidade científica do país. Para examinar a participação negra nos grupos de pesquisa, este estudo se baseia nos microdados dos participantes, identificando como negros os indivíduos que se autodeclaram pretos ou pardos. Palavras-chave: diretório dos grupos de pesquisa; diversidade na ciência; injustiça epistêmica; interseccionalidade; racismo; mulheres negras. ABSTRACT In Brazil, research groups are cataloged by the CNPq in the “Directory of Research Groups” (DGP). Although this database is widely used in academic studies, to date there has been no analysis of black representation in the leadership of these groups. This pioneering study aims to understand black participation intersected with gender in Brazilian scientific leadership, offering important subsidies for the formulation of public policies that promote gender and racial equity in the country’s scientific community. In order to examine black participation in research groups, this study relies on microdata from participants, identifying individuals who self-declare as black (preto and pardo). Keywords: directory of research groups; diversity in science; epistemic injustice; intersectionality; racism; black women.
TEXTO para DISCUSSÃO 6 3093 1 INTRODUÇÃO A diversidade é valorizada nas sociedades contemporâneas, pois, além de enriquecer as culturas, promove maior compreensão e tolerância entre as pessoas. Do ponto de vista econômico, a diversidade amplia a criatividade, fomenta a geração de ideias, amplia as oportunidades de inovação (Østergaard, Timmermans e Kristinsson, 2011; Page, 2008; Paulus, Van der Zee e Kenworthy, 2016) e melhora a resolução de problemas e o desempenho das organizações (Herring, 2009). Grupos que apresentam uma variedade de perspectivas superam aqueles compostos por especialistas com ideias semelhantes, levando a resultados superiores (Hong e Page, 2004). No contexto da dinâmica científica, a diversidade desempenha papel crucial devido à sua associação com a diversidade cognitiva (Nielsen, Bloch e Schiebinger, 2018). Há evidências de que a diversidade de gênero, por exemplo, tem o potencial de impulsionar a descoberta científica (Nielsen et al., 2017; Nielsen, Bloch e Schiebinger, 2018) e produzir ciência de melhor qualidade (Campbell et al., 2013). Adicionalmente, a diversidade étnico-racial leva à produção científica de maior impacto (AlShebli, Rahwan e Woon, 2018; Freeman e Huang, 2015). No entanto, apesar do reconhecimento desses impactos positivos, é crucial ressaltar que a comunidade científica permanece socialmente estratificada, com a inequidade na produção de ciência sendo uma questão identificada há mais de um século (Kozlowski et al., 2022). É relevante observar que, historicamente, as preocupações estiveram mais centradas na compreensão das disparidades na participação de homens com diferentes perfis na promoção do progresso da ciência, negligenciando, em grande medida, a atenção à diversidade de gênero e étnico-racial. Por exemplo, em 1926, um artigo publicado no Journal of the Washington Academy of Sciences ressaltava a motivação da pesquisa como sendo “de interesse determinar, se possível, a parte que homens de diferentes calibres contribuem para o progresso da ciência”1 (Lotka, 1926, p. 317, tradução nossa). Compreender a diversidade na ciência é essencial, uma vez que a atividade científica contemporânea tem se afastado da lógica da pesquisa individual em favor da produção baseada em equipes (Wuchty, Jones e Uzzi, 2007). Assim, a pesquisa ocorre de forma coletiva, organizada em grupos de pesquisa. Esses grupos são composições de recursos humanos que incluem pesquisadores com diferentes níveis de formação acadêmica, como professores, graduados, pós-graduados e estagiários em nível 1. Do original: “of interest to determine, if possible, the part which men of different calibre contribute to the progress of science”.
TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 7 3093 pós-doutoral, além de estudantes de iniciação científica ou tecnológica, de graduação e pós-graduação e profissionais técnicos. No Brasil, os grupos de pesquisa de universidades, instituições isoladas de ensino superior, institutos de pesquisa e alguns centros de pesquisa e desenvolvimento (P&D) de empresas estatais começaram a ser formalmente catalogados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) na década de 1990 e formam hoje o Diretório dos Grupos de Pesquisa – DGP (Chiarini et al., 2022). O DGP está vinculado à plataforma Lattes e foi projetado para compilar informações sobre todos os grupos de pesquisa ativos no país. Essa base de dados tem sido explorada em estudos acadêmicos, destacando-se a pesquisa que, por meio de uma revisão sistemática da literatura,2 identificou 244 manuscritos que a utilizaram (Chiarini et al., 2022). Esses estudos revelam a importância de tais dados para a compreensão da produção de conhecimento científico, tecnológico e artístico no contexto brasileiro, especialmente nas interações entre eles e outras organizações. Além disso, a base do DGP é utilizada para analisar a própria dinâmica da produção científica em diversas áreas do conhecimento (op. cit.). Dos 244 manuscritos analisados, 11% abordam temas relacionados às questões de gênero na ciência. 3 Esses dados do DGP têm contribuído para o avanço do entendimento sobre as relações de gênero/sexo e a produção científica. Por exemplo, por meio desses dados, foi possível traçar um panorama da participação feminina na pesquisa médica brasileira, revelando sua presença nos grupos de pesquisa nessa área (Aquino, 2006; Carvalho, 2020). No entanto, os resultados também evidenciam que a liderança continua sendo um obstáculo predominante nas carreiras científicas de mulheres, com uma persistente segregação de especialidades entre elas e os homens (Carvalho, 2020). Diferentemente, em grupos de pesquisa relacionada à segurança alimentar e nutricional, a liderança dos grupos é composta por maioria do sexo feminino (Albuquerque, 2020). Além disso, diversos estudos cientométricos investigaram a participação feminina em grupos de pesquisa em diferentes áreas, como tecnologia da informação (Oliveira, 2017; Oliveira, Mello e Rigolin, 2020; Souza e Ferreira, 2013); física (Ribeiro, 2014); odontologia e ortodontia (Quintão, Barreto e Menezes, 2021); saúde coletiva, com enfoque em gênero, saúde da mulher e sexualidade (Aquino, 2006); educação e ética em enfermagem 2. Foram utilizados o Catálogo de Teses e Dissertações, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes); a base da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações, do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (BDTD/IBICT); e as bases Web of Science, SciVerse Scopus e Scientific Electronic Library Online (SciElo). 3. Nos títulos e resumos dos 244 manuscritos identificados por Chiarini et al. (2022), foram buscados os termos “gênero”, “feminin*”, “sexual”, “sexo” e “mulher”.
TEXTO para DISCUSSÃO 8 3093 (Santos, 2016); educação rural (Hayashi e Gonçalves, 2016), administração e contabilidade (Andrade, Macedo e Oliveira, 2014; Dias et al., 2019; Santiago, Affonso e Dias, 2020). Esses estudos sugerem haver diferenças da participação de mulheres nos grupos de pesquisa de acordo com a área do conhecimento. Outras pesquisas foram capazes de desenvolver indicadores em relação à participação feminina na ciência e tecnologia (Hayashi et al., 2007), no corpo docente feminino da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar (Minotto, 2018) e nos grupos de pesquisa vinculados ao Instituto Federal de Sergipe – IFS (Silva, 2016), assim como ao impacto da produção de conhecimento por feministas brasileiras nas universidades do país (Oliveira, 2015). Por fim, destaca-se um estudo que mapeou a presença das mulheres na divulgação científica brasileira, revelando as diversas funções desempenhadas por elas na pesquisa, no ensino e na comunicação científica (Adabo, 2017). Embora os estudos mencionados, que também utilizaram o DGP, tenham oferecido contribuições significativas, até o momento não foi identificado nenhum trabalho a partir dessa base de dados que tenha analisado a evolução da representatividade negra nos grupos de pesquisa no contexto brasileiro, com foco específico na liderança desses grupos. Conforme pontuou Oliveira (2015), ao identificar os grupos que pesquisam feminismo no país, existe uma dificuldade de acesso às informações sobre a autodeclaração de sexo e cor/raça. No entanto, foi identificado um estudo que usou dados do DGP para abordar questões raciais:4 Silva (2019) mapeou a constituição do campo das relações étnico-raciais e da educação no Brasil via DGP e demonstrou que os grupos de pesquisa que discutem educação e relações étnico-raciais estão concentrados nos estados do Amazonas e do Pará, porém não discutiu a presença de membros negros nos grupos nem na liderança destes. A abordagem analítica focada na liderança dos grupos de pesquisa a partir do DGP difere de estudos anteriores que buscaram entender a diversidade na ciência brasileira. Esses estudos examinaram, por exemplo, a produtividade de mulheres com foco na autoria de publicações científicas (Leta, 2003; 2014); a distribuição de bolsas de produtividade de pesquisa em áreas específicas do conhecimento (Cunha, Dimenstein e Dantas, 2021; Lazzarini et al., 2018); e a participação de negros e indígenas nas ciências duras brasileiras, revelando uma hierarquia que atribui às mulheres negras e indígenas as piores colocações em termos de posições mais estáveis em programas de pós-graduação nas áreas STEM5 (Campos e Candido, 2023). 4. Nos títulos e resumos dos 244 manuscritos identificados por Chiarini et al. (2022), foram buscados os termos “raça”, “racial”, “étnico-racia*”, “negr*” e “cor”. 5. Science, tecnology, engineering and matematics.
TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 15 3093 Dessa forma, parte desse crescimento pode estar associada ao estímulo para que os pesquisadores estabeleçam grupos de pesquisa, com o objetivo de ter acesso a financiamento público. Portanto, isso não necessariamente reflete um aumento real nas atividades de pesquisa, ou pelo menos não na mesma proporção. Essa análise ressalta a importância de considerar os incentivos e as políticas por trás do aumento no número de grupos de pesquisa ao longo do tempo, a fim de compreender melhor a dinâmica e o impacto dessa evolução. Em relação ao percentual de grupos de pesquisa com participação de pessoas negras, independentemente do sexo, observou-se um crescimento ao longo dos anos: em 2000, 48,6% dos grupos tinham pelo menos um participante negro, enquanto em 2023 esse percentual saltou para 89,6%. Em relação ao sexo, em 2000, 34,2% dos grupos tinham pelo menos um participante negro do sexo masculino, enquanto em 2023 esse número saltou para 76,4%. Além disso, observa-se um padrão semelhante na presença de mulheres negras nos grupos de pesquisa. Ao longo das últimas décadas, houve um aumento constante no número e na proporção de grupos que contavam com a participação de pelo menos uma mulher negra. Em 2000, 29,4% dos grupos tinham pelo menos uma mulher negra entre seus membros e em 2023 esse número cresceu para 76,3%. Esses aumentos devem ser vistos também com cuidado, podendo sugerir uma evolução positiva em termos de inclusão de negros nos ambientes de pesquisa brasileiros, porém, como já mencionado, o percentual de dados ausentes (ou não informados) em relação ao sexo e à cor/raça no início da série temporal era considerável. Isso sugere que o percentual real de grupos com membros negros e brancos pode estar subestimado, sobretudo para os primeiros censos. Além disso, é importante considerar a possibilidade de dupla contagem no número de membros cadastrados, em virtude de uma possível participação de um indivíduo em mais de um grupo de pesquisa, o que pode distorcer os resultados.19,20 19. A duplicação ocorre tanto para brancos quanto para negros. Mesmo com duplicações, a ocupação desses espaços continua sendo significativa, pois reflete a presença de indivíduos nesses ambientes, ainda que a mesma pessoa participe de vários grupos. Portanto, a análise permanece válida, mesmo reconhecendo o esforço e a carga mental que muitos membros de grupos de pesquisa enfrentam por precisar estar em tantos espaços. 20. Outro ponto importante é a mudança na identificação racial que vem ocorrendo no Brasil desde o início dos anos 2000. Estudos demonstram que os aumentos observados na porcentagem de negros no total do país foram devidos quase exclusivamente à mudança no modo como as próprias pessoas se veem (Gonçalves de Jesus e Hoffmann, 2020). Seria interessante verificar se essa mudança também ocorreu na autoidentificação dos pesquisadores no Brasil. No entanto, a ausência de dados identificados dificulta o acompanhamento dos indivíduos ao longo do tempo. De todo modo, a forma como as pessoas se percebem é parte essencial da construção racial. Não há uma realidade fixa e sem significado, na qual os significados são apenas aplicados de maneira arbitrária. Nesse contexto, o crescimento da autodeclaração representa, de fato, um aumento da população negra.
TEXTO para DISCUSSÃO 16 3093 Apesar de os dados anteriores sugerirem uma crescente participação de negros nos grupos de pesquisa, com quase 90,0% deles contando com pelo menos um membro, é importante observar que a proporção de negros total, independentemente do sexo, em relação ao total de membros ainda é modesta, atingindo apenas 32,8% em 2023, embora seja significativamente superior aos 9,3% de 2000 (gráfico 1). GRÁFICO 1 Evolução do número de participantes e da participação de negros ao longo do tempo 147 170 256 303 362 472 654 716 881 9,3 11,0 12,0 13,6 15,9 18,3 24,3 26,0 32,8 4,5 5,2 5,8 6,9 8,3 9,8 13,3 14,2 18,3 0,0 10,0 20,0 30,0 40,0 50,0 60,0 70,0 80,0 90,0 100,0 0 100 200 300 400 500 600 700 800 900 1.000 2000 2002 2004 2006 2008 2010 2014 2016 2023 Participação de negros em relação ao total de membros dos grupos de pesquisa (%) Número de participantes, independentemente de cor/raça e sexo (1 mil) Negros Mulheres negras Fonte: DGP/CNPq. Disponível em: https://lattes.cnpq.br/web/dgp/painel-dgp/. Acesso em: 15 maio 2024. Elaboração dos autores. 2.3 Liderança negra nos grupos de pesquisa Para iniciar uma análise centrada nos líderes dos grupos de pesquisa, é crucial apresentar características gerais da variável. De 2000 a 2023, observa-se um crescimento consistente no valor absoluto no número de líderes ao longo tempo, em paralelo ao aumento do número de grupos de pesquisa (tabela 2), embora o número total de líderes seja superior ao número total de grupos, pois uma parcela significativa deles possui mais de um líder.
TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 17 3093 TABELA 2 Evolução do número de líderes dos grupos de pesquisa, com destaque para participação e liderança negra em relação ao total de líderes 2000 2002 2004 2006 2008 2010 2014 2016 2023 Grupos em geral¹ Com líder 11.760 15.158 19.470 21.024 22.797 27.523 30.688 32.750 37.348 Com um único líder 5.243 6.864 8.711 9.479 10.240 12.646 14.119 14.897 17.581 Com dois líderes 6.517 8.293 10.759 11.545 12.557 14.877 11.400 12.451 14.296 Com três líderes ou mais 0 1 0 0 0 0 5.169 5.402 5.471 Sem líder 0 0 0 0 0 0 4.736 4.890 5.504 Com um único líder (%) 44,6 45,3 44,7 45,1 44,9 45,9 39,9 39,6 41,0 Com dois líderes (%) 55,4 54,7 55,3 54,9 55,1 54,1 32,2 33,1 33,4 Com três líderes ou mais (%) 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 14,6 14,4 12,8 Sem líder (%) 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 13,4 13,0 12,8 Média de líderes por grupo 1,6 1,5 1,6 1,5 1,6 1,5 1,6 1,6 1,5 Grupos com liderança negra Com liderança negra² 1.361 2.018 2.745 3.228 3.970 5.251 7.799 8.771 12.035 Com liderança negra² (%) 11,6 13,3 14,1 15,4 17,4 19,1 22,0 23,3 28,1 Com líderes mulheres negras 553 827 1.136 1.372 1.730 2.343 3.679 4.233 6.013 Com líderes mulheres negras (%) 4,7 5,5 5,8 6,5 7,6 8,5 10,4 11,2 14,0 Com líderes homens negros 853 1.269 1.705 1.978 2.406 3.146 4.748 5.269 7.127 Com líderes homens negros (%) 7,3 8,4 8,8 9,4 10,6 11,4 13,4 14,0 16,6 Líderes Líderes 18.277 23.453 30.229 32.569 35.354 42.400 55.963 59.582 66.142 Líderes negros² 1.485 2.216 3.012 3.549 4.408 5.873 9.444 10.711 14.917 Líderes negros² (%) 8,1 9,4 10,0 10,9 12,5 13,9 16,9 18,0 22,6 Líderes mulheres negras 581 873 1.204 1.452 1.848 2.512 4.139 4.806 6.871 Líderes mulheres negras (%) 3,2 3,7 4,0 4,5 5,2 5,9 7,4 8,1 10,4 Líderes homens negros 903 1.343 1.803 2.096 2.560 3.360 5.305 5.905 8.046 Líderes homens negros (%) 4,9 5,7 6,0 6,4 7,2 7,9 9,5 9,9 12,2 Fonte: DGP/CNPq. Disponível em: https://lattes.cnpq.br/web/dgp/painel-dgp/. Acesso em: 15 maio 2024. Elaboração dos autores. Notas: ¹ Independentemente do sexo e da raça/cor. ² Independentemente do sexo.
TEXTO para DISCUSSÃO 18 3093 Em 2000, por exemplo, 44,6% dos grupos possuíam apenas um líder, enquanto 55,4% tinham dois líderes; em 2023, 41,0% dos grupos possuíam apenas um líder, enquanto 33,4% tinham dois líderes. A partir de 2014, entretanto, observou-se a inclusão de grupos sem líder e de grupos com três ou mais líderes na base de dados, o que contradiz a citação extraída do próprio CNPq de que “um grupo pode admitir até dois líderes”. Em 2023, por exemplo, os grupos sem líderes representaram 12,8% do total de grupos, e os grupos com três líderes ou mais também representaram 12,8%. Em relação à liderança negra, o percentual de grupos com pelo menos um líder da cor preta ou parda (independentemente do sexo) saltou de 11,6%, em 2000, para 28,1%, em 2023. No mesmo período, os grupos liderados por pelo menos uma mulher negra aumentaram de 4,7% para 14,0%. Entre o número total de líderes, também houve um aumento na liderança negra. Em 2000, dos mais de 18 mil líderes cadastrados, 1.485 eram negros: 903 homens e 581 mulheres,21 isto é, 4,9% e 3,2% do total de líderes, respectivamente (tabela 2). Em contrapartida, em 2023, dos mais de 66 mil líderes cadastrados (para um total de 42.852 grupos registrados no CNPq), 14.917 se autodeclararam pardos ou pretos: 8.046 homens e 6.871 mulheres, ou seja, 12,2% e 10,4% do total de líderes, respectivamente. Os dados permitem observar ainda a interseccionalidade entre sexo e raça e verificar que a participação das mulheres negras na liderança dos grupos de pesquisa aumentou, mas se manteve em torno de 40% em relação ao total de líderes negros ao longo de toda a série (gráfico 2A). Sendo assim, homens negros possuem menos liderança em grupos de pesquisa no Brasil, e mulheres negras possuem menos ainda. 21. Em 2000, do total de líderes negros, um não informou o sexo.
TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 19 3093 GRÁFICO 2 Liderança negra por sexo e liderança feminina 2A – Liderança negra, por sexo 2B – Liderança feminina, por cor/raça 1,8 2,5 4,1 4,8 6,9 0,9 1,3 1,8 2,1 2,6 3,4 5,3 5,9 8,0 0,0 10,0 20,0 30,0 40,0 50,0 60,0 70,0 80,0 90,0 100,0 0 5 10 15 20 25 2000 2002 2004 2006 2008 2010 2014 2016 2023 Mulheres negras em relação ao total de líderes negros (%) Números da liderança negra (1 mil) Participação feminina Feminino Masculino 4,5 6,2 8,5 9,8 11,2 13,7 18,3 19,7 21,0 0,6 0,9 1,2 1,5 1,8 2,5 4,1 4,8 6,9 0,0 10,0 20,0 30,0 40,0 50,0 60,0 70,0 80,0 90,0 100,0 0 5 10 15 20 25 2000 2002 2004 2006 2008 2010 2014 2016 2023 Líderes mulheres, brancas e negras, em relação ao total de líderes (%) Número de líderes mulheres, brancas e negras (1 mil) Mulheres brancas (%) Mulheres negras (%) Mulheres brancas Mulheres negras Fonte: DGP/CNPq. Disponível em: https://lattes.cnpq.br/web/dgp/painel-dgp/. Acesso em: 15 maio 2024. Elaboração dos autores. Obs.: Os dados apresentados nos gráficos referem-se apenas aos indivíduos autodeclarados brancos e negros (pretos e pardos). Contudo, os percentuais apresentados são calculados sobre o total de líderes, que engloba também os indivíduos autodeclarados amarelos e indígenas e os que não desejaram declarar, não informaram ou deixaram a variável em branco. Sendo assim, considerando a existência de grupos não discriminados na análise, a soma dos percentuais de mulheres brancas e negras não deve ser entendida como uma representação da participação feminina como um todo. Em termos absolutos, o número de mulheres brancas e negras líderes de grupos de pesquisa aumentou significativamente ao longo do período analisado. Por exemplo, em 2000, havia 4.549 mulheres brancas e 581 mulheres negras liderando grupos de pesquisa, enquanto em 2023 esses números aumentaram para 21 mil mulheres brancas e 6.871 mulheres negras (gráfico 2B). No entanto, ao examinar a proporção de mulheres brancas e negras em relação ao total de líderes, observam-se algumas variações ao longo do tempo. Embora o percentual de mulheres brancas tenha permanecido relativamente estável, oscilando em torno de 24,9% a 31,8% ao longo dos anos, o percentual de mulheres negras apresentou um aumento gradual, passando de 3,2% em 2000 para 10,4% em 2023 (gráfico 2B).
TEXTO para DISCUSSÃO 20 3093 Esses dados indicam um progresso na representatividade de mulheres negras como líderes de grupos de pesquisa, refletindo um movimento em direção à maior diversidade e inclusão nesse campo. No entanto, ainda há uma disparidade significativa entre o número de mulheres brancas e negras ocupando posições de liderança, com as mulheres brancas representando uma proporção maior em relação ao total de líderes. 2.4 Liderança negra por grande área do conhecimento22 Para a análise por área do conhecimento, os dados foram agrupados em “ciências duras” (ciências exatas e da terra; e engenharias e computação), “ciências da vida” (ciências agrárias; ciências biológicas; e ciências da saúde), “humanidades” (ciências humanas; linguística; letras e artes; e sociais aplicadas) e “outras”. 2.4.1 Ciências da vida Considerando as trinta áreas do conhecimento pertencentes às ciências da vida, em 2000, homens negros não predominavam em nenhuma área do conhecimento. Em medicina, por exemplo, apenas 2,4% dos líderes eram homens negros. As áreas com maior percentual de liderança masculina negra eram engenharia da pesca (10,9%) e engenharia florestal (14,0%). Da mesma forma, mulheres negras não eram majoritárias em nenhuma área, com sua maior presença em saúde coletiva (8,7%), farmácia (9,0%) e enfermagem (15,5%). Em áreas de maior prestígio social, como medicina e odontologia, mulheres negras lideravam apenas 1,4% e 1,2% dos grupos, respectivamente. 22. Os dados apresentados nesta seção foram parcialmente discutidos em Pereira et al. (2024). Para uma análise considerando apenas áreas STEM, ver Chiarini, Pereira e Silva (2025). O texto vai sair no próximo Radar: CHIARINI, T.; PEREIRA, L. S.; SILVA, L. A. A liderança negra nos grupos de pesquisa no Brasil: um panorama por áreas STEM de 2000 a 2023. Radar, n. 78, 2025. No prelo.
TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 21 3093 TABELA 3 Mapa de calor dos líderes dos grupos de pesquisa por área de conhecimento das ciências da vida, por cor/raça e sexo (Em %) Área do conhecimento 2000 2010 2023 Total Branco Negro Branco Negro Branco Negro 2000 2010 2023 Homem Mulher Homem Mulher Homem Mulher Homem Mulher Homem Mulher Homem Mulher Agronomia 48,1 13,1 7,8 2,3 52,4 19,2 10,5 4,1 45,3 21,9 14,7 8,2 876 1696 2029 Biofísica 42,4 18,2 4,5 1,5 44,4 30,6 7,4 2,8 34,5 27,4 13,1 6,0 66 108 84 Biologia geral 27,4 39,3 7,1 2,4 36,1 32,8 6,6 3,3 25,5 33,2 10,5 15,0 84 61 220 Bioquímica 36,4 26,6 3,2 3,2 32,9 38,4 5,1 4,3 32,7 40,4 4,2 3,6 308 554 450 Biotecnologia 0 0 0 0 0 0 0 0 33,8 36,5 7,5 8,6 0 0 266 Botânica 18,6 40,0 6,8 4,1 21,4 41,8 7,0 7,5 26,4 36,2 11,0 9,5 220 388 390 Ciência e tecnologia de alimentos 26,9 34,8 2,0 3,3 31,6 42,2 6,8 4,6 25,2 44,1 8,7 10,8 305 561 759 Ecologia 37,6 28,0 3,5 2,9 34,8 30,6 7,3 6,5 34,7 24,8 12,1 9,2 314 765 876 Educação física 44,0 23,3 8,0 2,7 43,9 29,0 11,2 4,1 44,6 24,2 14,7 5,7 150 748 1289 Enfermagem 5,0 55,8 0,7 15,5 5,9 67,4 2,3 14,5 9,6 60,3 5,1 19,8 303 791 1.515 Engenharia agrícola 67,3 7,1 7,1 0,0 66,7 12,3 8,7 1,8 50,2 21,8 12,9 5,0 98 219 303 Farmácia 23,4 34,7 5,4 9,0 24,4 48,9 5,8 8,0 27,0 40,4 9,1 12,3 167 585 684 Farmacologia 38,0 29,7 3,2 1,9 33,3 42,1 8,0 4,2 30,0 37,5 11,6 6,5 158 261 293 Fisiologia 39,6 26,8 3,0 4,3 37,4 40,8 4,2 3,5 36,3 33,7 10,4 6,3 164 289 347 Fisioterapia e terapia ocupacional 12,5 54,2 1,4 5,6 26,8 56,5 2,9 4,1 23,1 54,2 6,5 8,6 72 340 706 Fonoaudiologia 16,7 66,7 0,0 0,0 5,1 83,2 0,7 0,7 10,9 77,6 1,4 5,4 36 137 147 Genética 27,6 38,1 2,7 1,4 30,2 37,9 6,3 3,6 30,3 37,7 6,5 9,5 294 556 475 Imunologia 30,8 25,9 2,1 2,8 29,5 42,7 5,8 3,3 26,9 42,3 6,5 8,0 143 241 201 Medicina 47,3 22,1 2,4 1,4 48,1 32,0 4,1 3,2 35,8 38,2 7,0 9,2 1.104 2.172 2.065 Medicina veterinária 43,5 21,6 4,6 1,6 41,8 30,8 6,8 4,4 39,3 35,2 8,9 5,7 370 779 809 Microbiologia 22,9 39,1 5,3 5,6 24,0 43,2 4,2 6,7 28,0 39,4 8,2 11,4 284 475 510 Morfologia 25,9 36,1 1,3 2,5 37,5 39,2 6,5 4,8 31,8 40,5 8,3 9,3 158 293 289 Nutrição 13,5 53,2 4,5 1,8 10,3 59,9 4,4 13,2 12,2 58,0 2,6 19,5 111 272 498 Odontologia 43,2 21,9 2,9 1,2 43,3 36,7 4,5 3,7 35,7 42,9 6,0 6,0 407 867 739 Parasitologia 26,6 32,4 4,0 3,5 28,5 37,9 3,6 5,9 28,4 31,4 8,4 11,7 173 253 299
TEXTO para DISCUSSÃO 22 3093 Área do conhecimento 2000 2010 2023 Total Branco Negro Branco Negro Branco Negro 2000 2010 2023 Homem Mulher Homem Mulher Homem Mulher Homem Mulher Homem Mulher Homem Mulher Recursos florestais e engenharia florestal 50,3 11,2 14,0 2,1 51,9 16,6 13,6 4,4 43,7 21,3 17,0 5,9 143 295 389 Recursos pesqueiros e engenharia de pesca 35,9 13,0 10,9 1,1 49,7 19,5 8,9 4,1 42,8 13,6 21,8 10,5 92 169 257 Saúde coletiva 27,4 32,7 3,3 8,7 22,8 49,1 5,1 12,7 19,9 44,2 9,7 18,4 449 1.149 2.046 Zoologia 30,9 24,0 4,4 2,9 40,1 25,4 3,8 2,7 34,9 25,3 10,1 4,9 275 449 467 Zootecnia 51,8 9,6 7,0 2,7 53,7 18,1 10,6 3,4 41,6 29,3 13,1 6,6 301 585 694 Fonte: DGP/CNPq. Disponível em: https://lattes.cnpq.br/web/dgp/painel-dgp/. Acesso em: 15 maio 2024. Elaboração dos autores. Obs.: Os dados apresentados referem-se apenas aos indivíduos autodeclarados brancos e negros (pretos e pardos). Contudo, os percentuais apresentados são calculados sobre o total de líderes, que engloba também os indivíduos autodeclarados amarelos e indígenase os que não desejaram declarar, não informaram ou deixaram a variável em branco. Sendo assim, considerando a existência de grupos não discriminados na análise, a soma dos percentuais observados não corresponderá a 100%.
TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 23 3093 Em 2023, embora a liderança de homens negros continue sendo relativamente baixa, houve crescimento em sua participação em todas as áreas das ciências da vida. Em medicina, por exemplo, a proporção de líderes homens negros aumentou de 2,4% em 2000 para 7,0% em 2023; em odontologia, saltou de 2,9% para 6,0%. Mulheres negras, embora ainda com representação relativamente baixa, também aumentaram sua participação na liderança de pesquisa em todas as áreas: em medicina, passaram de 1,4% em 2000 para 9,2% em 2023; em odontologia, de 1,2% para 6,0%; e em genética, de 1,4% para 9,5%. 2.4.2 Ciências duras De forma ainda mais acentuada que nas ciências da vida, a presença de áreas do conhecimento em que a liderança é predominantemente composta por homens brancos é muito significativa nas ciências duras. Em 2000, a participação de homens negros na liderança era mais expressiva em matemática (10,7%) – embora ainda inferior à das mulheres brancas (31,0%) – e em física (7,8%), em que superavam as mulheres brancas (6,5%). Homens negros também predominavam sobre mulheres brancas em engenharia de minas, engenharia elétrica e engenharia mecânica. Por outro lado, mulheres negras tinham maior liderança relativa em engenharia química (4,9%) e em probabilidade e estatística (4,8%); e, em diversas áreas, não havia nenhuma liderança feminina negra, como em astronomia, desenho industrial, engenharia aeroespacial, engenharia mecânica, engenharia naval e engenharia nuclear, além de algumas áreas com apenas uma líder negra: engenharia biomédica, engenharia de minas, engenharia de produção, engenharia elétrica e oceanografia.
TEXTO para DISCUSSÃO 24 3093 TABELA 4 Mapa de calor dos líderes dos grupos de pesquisa por área de conhecimento das ciências duras, por cor/raça e sexo (Em %) Área do conhecimento 2000 2010 2023 Total Branco Negro Branco Negro Branco Negro 2000 2010 2023 Homem Mulher Homem Mulher Homem Mulher Homem Mulher Homem Mulher Homem Mulher Astronomia 37,7 11,5 3,3 0,0 40,0 8,6 5,7 0,0 43,8 12,3 12,3 1,4 61 70 73 Ciência da computação 46,1 13,9 4,9 1,8 48,5 16,2 10,0 3,0 48,7 13,7 17,3 5,3 488 1198 1800 Desenho industrial 35,7 50,0 0,0 0,0 31,0 39,0 6,4 5,3 27,7 44,6 8,6 6,8 14 187 325 Engenharia aeroespacial 57,1 0,0 0,0 0,0 68,0 6,0 0,0 0,0 70,0 5,7 7,1 0,0 56 50 70 Engenharia biomédica 55,0 10,0 5,0 1,7 48,5 16,4 9,0 2,2 39,0 22,9 10,3 2,2 60 134 223 Engenharia civil 52,9 9,7 4,9 1,9 53,4 18,8 7,7 2,8 46,7 21,8 13,0 6,4 412 639 886 Engenharia de energia 0 0 0 0 0 0 0 0 48,0 13,6 13,6 6,4 0 0 125 Engenharia de materiais e metalúrgica 47,5 14,7 4,4 1,9 44,9 22,5 6,4 3,6 44,9 19,2 11,3 8,1 320 472 577 Engenharia de minas 56,1 4,9 7,3 2,4 57,6 6,8 15,3 3,4 48,7 15,4 15,4 5,1 41 59 39 Engenharia de produção 52,4 15,1 3,8 0,5 56,9 18,2 7,4 1,1 48,6 22,4 13,5 2,7 185 457 666 Engenharia de transportes 55,3 7,9 5,3 0,0 50,6 16,5 12,9 1,2 40,4 32,6 5,6 11,2 38 85 89 Engenharia elétrica 55,5 4,7 7,0 0,2 57,6 6,3 14,5 1,0 57,8 7,7 16,6 2,8 427 874 1245 Engenharia mecânica 61,9 3,5 4,4 0,0 65,3 5,6 10,5 0,6 55,0 10,3 18,5 2,2 339 533 687 Engenharia naval e oceânica 50,0 6,3 0,0 0,0 73,3 0,0 0,0 0,0 75,9 6,9 6,9 0,0 16 15 29 Engenharia nuclear 50,6 15,7 4,8 0,0 49,6 18,7 7,3 1,6 40,4 5,8 15,4 7,7 83 123 52 Engenharia química 39,1 26,7 8,6 4,9 39,4 33,5 8,1 4,3 35,1 33,8 12,1 6,4 266 442 530 Engenharia sanitária 49,3 14,2 5,4 3,4 42,1 22,8 10,9 5,5 40,0 30,5 12,0 7,8 148 311 400 Física 45,9 6,5 7,8 0,9 48,1 10,0 12,2 1,7 40,6 9,9 22,6 4,4 771 1.111 1.246 Geociências 47,0 12,8 7,3 1,5 47,4 21,0 9,9 3,6 41,4 17,9 15,4 6,7 615 860 1.017 Matemática 32,5 11,5 10,7 1,2 35,8 17,9 14,8 2,1 33,5 19,6 22,5 6,9 243 559 849
TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 31 3093 2.5.2 Liderança negra por região A análise dos dados sobre a participação de liderança negra (independentemente do sexo) nos grupos de pesquisa por região do Brasil revela algumas tendências ao longo do tempo. Primeiramente, é possível observar um aumento consistente na representação da liderança negra em todas as regiões do país ao longo dos anos (gráfico B.2 no apêndice B). Por exemplo, entre 2000 e 2023, a participação de liderança negra na região Centro-Oeste cresceu de 10,2% para 24,2%, enquanto no Nordeste passou de 22,3% para 37,7%. Similarmente, tanto a região Norte quanto a região Sudeste mostraram um crescimento notório, com a participação de liderança negra subindo de 33,0% para 44,4% no Norte e de 4,5% para 15,1% no Sudeste. Por outro lado, a região Sul teve um crescimento mais moderado, com a participação de liderança negra subindo de 2,7% para 7,8% ao longo do mesmo período, sendo a região com menos negros, independentemente do sexo, em papel de liderança nos grupos de pesquisa no Brasil. Em relação aos dados sobre a participação de mulheres negras como líderes de grupos de pesquisa por região no Brasil, podem-se observar tendências semelhantes, porém com algumas nuances específicas. Em primeiro lugar, há um crescimento geral na representação de mulheres negras como líderes de grupos de pesquisa em todas as regiões ao longo dos anos. Entre 2000 e 2023, o percentual de mulheres negras líderes de grupos de pesquisa na região Centro-Oeste aumentou de 4,2% para 10,5%, enquanto no Nordeste passou de 9,4% para 18,1%. Similarmente, tanto a região Norte quanto a região Sudeste mostraram um crescimento significativo, com o percentual de liderança de mulheres negras subindo de 11,7% para 19,4% no Norte e de 1,7% para 7,0% no Sudeste (gráfico B.3 no apêndice B). No entanto, assim como na análise anterior, a região Sul apresenta o menor crescimento relativo, com o percentual de liderança de mulheres negras subindo de apenas 0,9% para 3,2% ao longo do período analisado. Esses dados interseccionais destacam um avanço na representação de mulheres negras como líderes de grupos de pesquisa em todo o Brasil, mas também evidenciam a persistência de disparidades regionais, de sexo e raciais importantes. Por exemplo, em 2023, na região Sul, enquanto 39,1% são mulheres líderes autodeclaradas brancas, as mulheres negras representam apenas 3,2% do total de líderes; na região Sudeste, as mulheres líderes brancas representam 35,5%, enquanto as negras, 7,0%; na região Centro-Oeste, as mulheres líderes brancas somam 31,9%, e as negras, 10,5%. As regiões menos desiguais em termos de cor/raça entre o sexo feminino são Norte e Nordeste: também em 2023, no Norte, 20,6% dos líderes de grupos de pesquisa são
TEXTO para DISCUSSÃO 32 3093 mulheres brancas, contra 19,4% de mulheres negras; e, para o Nordeste, 24,0% são mulheres brancas, enquanto 18,1% são mulheres negras. Esses dados sugerem uma mudança na composição demográfica dos líderes nas regiões brasileiras ao longo do tempo, com um aumento na representação de líderes negros, tanto homens quanto mulheres. No entanto, persistem disparidades regionais, e negros são sub-representados em todas as regiões, principalmente no Sul e no Sudeste, locais em que, conforme apontam dados do Censo Demográfico 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),24 a presença da população negra chega a 26,7% e 49,3%, respectivamente. Considerando a distribuição das mulheres negras líderes de grupos de pesquisa nas regiões, assim como nas análises anteriores, a região Nordeste se destaca, com 45,8% das líderes mulheres negras em 2000 e 47,3% em 2023. Apesar de o percentual de mulheres negras líderes sobre o total de líderes no Sudeste não ser tão expressivo, os dados evidenciam que, ao longo da série, do total de mulheres negras líderes, mais de 20,0% pertenciam a grupos do Sudeste; todavia, esse percentual apresentou queda de 29,6%, em 2000, para 25,0%, em 2023. Na região Centro-Oeste, a distribuição se manteve estável, enquanto as regiões Norte e Sul tiveram aumentos marginais na distribuição de mulheres negras líderes. Sendo assim, observa-se uma redução na atuação de líderes mulheres negras na região Sudeste e um aumento nas regiões Nordeste, Norte e Sul. 2.5.3 O perfil demográfico regional e a liderança dos grupos de pesquisa Para investigar a sub-representação de determinados perfis na liderança dos grupos de pesquisa no Brasil e nas Grandes Regiões, foram utilizados dados do número de líderes com cada um desses perfis e da população pertencente a cada um deles. Para essa análise, adotou-se o cálculo do número de líderes por 10 mil habitantes como padronização, permitindo a comparabilidade entre populações de tamanhos diferentes. Foram utilizados os dados de população dos Censos Demográficos 2010 e 2022, do IBGE, e os dados de líderes dos Censos DGP 2010 e 2023. A escolha desses anos deveu-se à disponibilidade de estatísticas recentes para a população com recorte de sexo/gênero e cor/raça, presentes apenas no censo demográfico. Além disso, os dados de população de 2022 foram utilizados para comparar com os dados do Censo DGP de 2023, considerando estes como uma proxy da população para 2023. 24. Disponível em: https://sidra.ibge.gov.br/tabela/1209. Acesso em: 18 jun. 2024.
TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 33 3093 As tabelas 6 e 7 apresentam os números de líderes de grupos do DGP com determinada característica por 10 mil habitantes com a mesma característica – por exemplo, número de mulheres negras líderes de grupos de pesquisa por 10 mil mulheres negras na população brasileira. As colunas apresentam as características dos indivíduos analisados e as linhas, as unidades territoriais. Para fins de simplificação, adotamos como nomenclatura para a relação analisada o termo “índice”, de modo que “índice de brancos”, por exemplo, corresponderá ao número de brancos líderes de grupos de pesquisa por 10 mil habitantes brancos. Considerando os perfis analisados, houve um aumento no número de líderes por 10 mil habitantes em todas as regiões entre 2010 e 2023. Em todas as características avaliadas, a região Norte apresentou o menor número de líderes por 10 mil habitantes. Contudo, destaca-se que nessa região o índice de negros é maior que o de brancos, principalmente devido ao índice de homens negros, que é maior que o de homens brancos nos dois períodos analisados. Em contrapartida, a região Sul apresentou o maior índice de brancos, independentemente do sexo, nos dois períodos. No entanto, em termos percentuais, os aumentos observados nos índices para negros foram superiores aos observados para brancos nessa região. Destaca-se ainda que a região Nordeste apresentou o maior aumento do índice de negros entre 2010 e 2023. Os menores crescimentos nos índices entre os períodos, com exceção do observado para mulheres negras, foram verificados na região Sudeste. O menor crescimento do índice de mulheres negras foi observado na região Centro-Oeste. TABELA 6 Número de líderes por 10 mil habitantes com a mesma característica (2010) Região Total Mulheres brancas Mulheres negras Homens brancos Homens negros Brancos Negros Homens Mulheres Brasil 3,210 0,607 2,495 1,960 2,893 0,519 3,555 0,694 Centro-Oeste 5,403 0,494 2,039 1,833 5,080 0,477 5,743 0,510 Nordeste 2,700 0,673 1,671 1,359 2,484 0,596 2,939 0,751 Norte 0,227 0,249 0,312 0,238 0,203 0,210 0,253 0,287 Sudeste 6,625 2,718 8,000 6,220 6,035 2,263 7,250 3,156 Sul 13,190 0,550 7,695 6,055 11,756 0,374 14,707 0,721 Fontes: DGP/CNPq (disponível em: https://lattes.cnpq.br/web/dgp/painel-dgp/; acesso em: 15 maio 2024) e IBGE (disponível em: https://sidra.ibge.gov.br/tabela/9606). Elaboração dos autores.
TEXTO para DISCUSSÃO 34 3093 TABELA 7 Número de líderes por 10 mil habitantes com a mesma característica (2022-2023) Região Total Mulheres brancas Mulheres negras Homens brancos Homens negros Brancos Negros Homens Mulheres Brasil 4,795 1,323 3,506 3,022 4,520 1,205 5,101 1,444 Centro-Oeste 8,710 0,914 3,002 2,729 8,503 0,798 8,932 1,029 Nordeste 6,033 1,708 3,565 3,034 5,600 1,599 6,519 1,822 Norte 0,503 0,514 0,652 0,496 0,446 0,444 0,569 0,585 Sudeste 7,842 4,603 8,537 7,745 7,643 4,342 8,057 4,858 Sul 18,587 1,093 9,251 7,939 17,344 0,879 19,943 1,307 Fontes: DGP/CNPq (disponível em: https://lattes.cnpq.br/web/dgp/painel-dgp/; acesso em: 15 maio 2024) e IBGE (disponível em: https://sidra.ibge.gov.br/tabela/1209; acesso em: 18 jun. 2024). Elaboração dos autores. 3 ACM 3.1 O método A ACM é uma técnica estatística multivariada que visa explorar e visualizar as relações entre diversas variáveis categóricas. Ela é uma extensão da análise de correspondência simples (CA), que é utilizada para analisar tabelas de contingência bidimensionais. Ao analisar mais de duas variáveis categóricas, a ACM permite a construção de biplots, que representam as associações entre diferentes categorias de variáveis, facilitando a interpretação dos dados de maneira visual e intuitiva. O método ACM é conceitualmente semelhante à análise de componentes principais (PCA), mas aplicada a dados categóricos. Em vez de utilizar uma matriz de dados contínuos, a ACM trabalha com uma matriz de indicadores , em que cada coluna representa um nível de categoria de uma variável categórica. Essa matriz é composta por 0s e 1s, indicando a presença de um nível específico de uma categoria para cada amostra. A matriz de indicadores é criada combinando as matrizes de indicadores individuais para cada variável categórica. Por exemplo, uma variável categórica “titulação”, com níveis “doutorado”, “mestrado” e “graduação”, seria codificada em uma matriz com quatro colunas, cada uma representando um nível de titulação do indivíduo. A análise da ACM envolve a decomposição em valores singulares (SVD) da matriz ajustada. A decomposição é feita na matriz , em que é uma matriz diagonal contendo as frequências das categorias. Os vetores singulares resultantes representam as coordenadas das categorias e das amostras no espaço de baixa dimensão (Greenacre, 2017; Le Roux e Rouanet, 2010).
TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 35 3093 Os biplots gerados pela ACM representam graficamente as relações entre as categorias das variáveis. Pontos próximos uns dos outros indicam categorias com perfis semelhantes. Em outras palavras, quanto mais próximos estão os pontos, maior a similaridade entre eles em relação às variáveis consideradas. A contribuição de cada categoria para a variabilidade total é representada pela intensidade da cor dos pontos no biplot. Essas representações visuais mostram padrões de associação, mas não implicam necessariamente causalidade entre as categorias. A contribuição de cada categoria em uma ACM é calculada para entender como cada ponto (categoria) influencia a formação das dimensões. Esse cálculo é baseado na decomposição da inércia total associada à variância explicada pelas dimensões da ACM. A inércia total é a variância total explicada pelas dimensões da ACM e é calculada a partir da soma dos quadrados das distâncias dos pontos (categorias) ao centro do gráfico, ponderada pelas frequências das categorias. A inércia total (IT) é dada por: (1) Na equação (1), é a frequência observada da combinação da categoria na variável ; é a frequência observada; e é a frequência esperada sob a independência das variáveis. Para cada categoria, calcula-se a inércia parcial, que é a contribuição da categoria para a inércia total. Isso envolve calcular a distância do ponto ao centro, ponderada pela frequência da categoria. A contribuição absoluta de uma categoria para uma dimensão específica é dada pelo produto da coordenada da categoria nessa dimensão ao quadrado e pela frequência da categoria. A contribuição absoluta da categoria ( ) na dimensão é dada por: (2) Na equação (2), é a frequência da categoria i e é a coordenada da categoria na dimensão d. A contribuição relativa é a contribuição absoluta dividida pela inércia total da dimensão. Isso expressa quanto da variação explicada por uma dimensão é devido a uma categoria específica. Logo, a contribuição relativa da categoria na dimensão é: (3) Na equação (3), é a inércia total da dimensão . Nos gráficos gerados pela ACM, a cor das categorias (variando de azul a vermelho) indica a magnitude da contribuição relativa. Categorias em vermelho contribuem mais para a formação da dimensão específica, enquanto categorias em azul contribuem menos. Se uma categoria “homem
TEXTO para DISCUSSÃO 36 3093 negro” apresenta uma frequência alta e uma distância significativa do centro do gráfico em uma dimensão, essa categoria terá uma contribuição relativa alta, refletida na cor vermelha no gráfico. 3.2 Aplicação da ACM As variáveis categóricas a serem analisadas são apresentadas no quadro 1. QUADRO 1 Categorias das variáveis utilizadas na ACM Líder do grupo pesquisa Área do conhecimento Titulação Região Sexo e cor/raça Sim Ciências da vida Doutorado Centro-Oeste Homem branco Não Ciências duras Graduação Nordeste Homem negro Humanidades Mestrado Norte Mulher branca Outras Sudeste Mulher negra Sul Elaboração dos autores. As variáveis “líder grupo pesquisa”, “área do conhecimento”, “titulação”, “região” e “sexo e cor/raça” foram utilizadas para explorar as associações entre as diferentes categorias nos grupos de pesquisa. A variável “líder grupo pesquisa” (sim/não) permite identificar a influência do papel de liderança na dinâmica dos grupos. A variável “área do conhecimento” (ciências da vida, ciências duras, humanidades, entre outras) revela como diferentes campos do saber se associam entre si e com outras variáveis. A variável “titulação” (graduação, mestrado e doutorado) evidencia o impacto do nível educacional nas características dos grupos e de suas lideranças. A variável “região” (Centro-Oeste, Nordeste, Norte, Sudeste e Sul) explora as variações geográficas, destacando possíveis desigualdades regionais. Por fim, a variável “sexo e cor/raça” (homem branco, homem negro, mulher branca e mulher negra) investiga as interações de gênero e cor/raça nos grupos, oferecendo uma visão sobre diversidade e inclusão nas pesquisas. Juntas, essas variáveis ajudam a mapear as complexas relações e padrões nos grupos de pesquisa brasileiros. No gráfico 4, referente aos dados do Censo DGP 2000, observa-se uma clara correlação entre as categorias “lider_sim”, “doutorado”, “ciências duras” e “homem branco”. Essa proximidade no gráfico indica que as categorias anteriores estão associadas de forma mais forte, ou seja, indivíduos com o título de doutorado que atuam em áreas das
TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 37 3093 ciências duras têm maior probabilidade de ocupar posições de liderança em grupos de pesquisa. Embora essa correlação não implique causalidade direta, ela permite levantar hipóteses sobre fatores que podem influenciar as chances de liderança, como a valorização da educação avançada e o acesso privilegiado a determinadas áreas do conhecimento, frequentemente ocupadas por homens brancos. Assim, ainda que a análise não comprove causalidade, ela aponta para a plausibilidade de que a formação acadêmica avançada e o perfil demográfico estejam associados ao acesso a essas posições. Por outro lado, as categorias “mulher negra” e “homem negro” estão distantes das categorias de liderança e doutorado, sugerindo que indivíduos desses grupos têm menor probabilidade de ocupar posições de liderança. Essa dissociação de qualquer característica de titulação reflete uma disparidade significativa em termos de gênero e cor/raça. No gráfico 5, observa-se a correlação para os dados do Censo DGP 2023, uma vez que a contínua associação de “lider_sim”, “homem branco” e “doutorado” indica que os homens brancos ainda dominam as posições de liderança, agora com uma maior concentração nas ciências da vida. As categorias “mulher negra” e “homem negro” continuam relativamente distantes das posições de liderança, indicando que esses grupos ainda enfrentam barreiras significativas para alcançar essas posições. A análise revela que as mulheres negras estão principalmente associadas à área de humanidades e à titulação de mestre, enquanto os homens negros estão relacionados às regiões Norte e Nordeste, bem como a outras áreas do conhecimento. Esses padrões sugerem que, embora haja progresso, ainda há uma forte segregação de cor/raça e gênero na distribuição das posições de liderança. Os dados descritivos mostraram que o percentual de grupos com pelo menos um líder negro aumentou de 11,6% em 2000 para 28,1% em 2023, e os grupos liderados por pelo menos uma mulher negra aumentaram de 4,7% para 14,0% no mesmo período. No entanto, a ACM destaca que mulheres negras e homens negros ainda estão distantes das posições de liderança, enquanto ser “branco” – em especial homem branco – era em 2000 e continua sendo em 2023 uma variável relevante para ter doutorado e ocupar a liderança de grupos. Em termos práticos, a distância entre as variáveis indica que essas características ocorrem frequentemente juntas nas observações. A distância maior de “mulher negra” e “lider_sim” sugere que essa combinação é rara e evidencia uma desigualdade de representação em termos das categorias avaliadas.
TEXTO para DISCUSSÃO 38 3093 GRÁFICO 4 Análise de correspondência (2000) Líder do G. Pesquisa LÍDER_NÃO Ciências da vida Ciências duras Humanidades Doutorado Graduação Mestrado Centro-Oeste Nordeste Norte Sudeste Sul Homem branco Homem negro Mulher branca Mulher negra Brasileira Estrangeira -2 -1 0 1 2 -2 -1 0 1 2 Dim1 (11.9%) Dim2 (9.9%) 3 6 9 12 MCA − 2000 contrib Elaboração dos autores. GRÁFICO 5 Análise de correspondência (2023) Líder do G. Pesquisa LIDER_NÃO Ciências da vida Ciências duras Humanidades Outras Doutorado Graduação Mestrado Centro-Oeste Nordeste Norte Sudeste Sul Homem branco Homem negro Mulher branca Mulher negra Brasileira Estrangeira -2 -1 0 1 2 -2 -1 0 1 2 Dim1 (10.3%) Dim2 (8.7%) contrib 2.5 5.0 7.5 10.0 12.5 MCA − 2023 Elaboração dos autores.
TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 39 3093 Nas ciências duras, a liderança é majoritariamente exercida por homens brancos, com uma leve diminuição ao longo do tempo, mas ainda predominante. As mulheres e os homens negros tiveram um aumento significativo em sua representatividade, mas continuam sub-representados. Esse padrão é consistente com os resultados da ACM, os quais mostram a proximidade das categorias “lider_sim”, “doutorado” e “ciências duras” e a persistente distância das categorias “mulher negra” e “homem negro”. Essas distâncias podem sugerir barreiras estruturais ou históricas que mantêm grupos como mulheres negras mais afastados das posições de liderança, assim como categorias posicionadas em quadrantes opostos ou significativamente afastadas indicam uma relação de exclusão mútua. Por exemplo, “homem negro” e “ciências duras” distantes de “lider_sim” sugerem que essas características são raramente encontradas juntas com a liderança. Pode-se também interpretar que a proximidade de algumas categorias indica uma hierarquia implícita de acesso. A posição de “doutorado” próxima de “lider_sim” sugere que o doutorado é um facilitador de acesso à liderança ou um pré-requisito, enquanto “graduação” e “mestrado” estão mais distantes, indicando menos impacto. Para compreender melhor a estrutura dos dados, foi realizada uma análise de clusterização dos indivíduos com base nos resultados da ACM para o ano de 2023. Utilizou-se o algoritmo k-means para agrupar os indivíduos em três clusters distintos. O método de Elbow foi empregado para determinar o número ideal de clusters. No gráfico 6, observa-se o ponto em que a soma dos quadrados dos erros (within-cluster sum of squares – WSS) começa a diminuir a uma taxa decrescente, formando um “cotovelo”. O WSS é uma medida usada na análise de clusterização para avaliar a compactação dos clusters formados. Basicamente, o WSS é a soma dos quadrados das distâncias de cada ponto de dados ao centro do cluster ao qual ele pertence. No contexto do algoritmo k-means, o objetivo é minimizar o WSS, o que indica que os pontos de dados dentro de cada cluster estão próximos uns dos outros, formando clusters mais compactos. Portanto, o ponto do “cotovelo” no gráfico 6 indica o número de clusters após o qual a adição de mais clusters não resulta em uma melhoria significativa na compactação dos clusters – neste caso, três clusters.
TEXTO para DISCUSSÃO 40 3093 GRÁFICO 6 Determinação do número de clusters 1e+05 2e+05 3e+05 4e+05 2.5 5.0 7.5 10.0 Número de clusters (k) Soma total dos quadrados (WSS) Método Elbow Elaboração dos autores. No gráfico 7, a distribuição dos indivíduos é apresentada em três clusters distintos, representados pelas cores vermelho, azul e verde para os dados de 2000. O cluster 1, em vermelho, é caracterizado por mulheres brancas da área de humanidades, principalmente da região Sul. Embora essas mulheres não estejam tão fortemente associadas às categorias de liderança quanto os indivíduos do cluster 2 (azul), elas ainda possuem alguma representação em posições de liderança. As mulheres deste cluster têm maior probabilidade de ocupar posições de liderança em comparação com os indivíduos do cluster 3 (verde), mas ainda enfrentam desafios significativos para atingir o nível de liderança observado no cluster 2.
TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 47 3093 Para realizar análises mais completas, que considerem não apenas a composição dos grupos, mas também sua produção e suas parcerias, seria necessária a divulgação de dados já coletados, como instituições parceiras e produção científica, tecnológica e artística (CT&A) dos grupos de pesquisa, de forma conjunta com os dados dos participantes dos grupos de pesquisa ou de modo a permitir uma análise simultânea dos dados. Apesar de o número de variáveis com dados ausentes ter diminuído ao longo do tempo, ainda é expressivo, especialmente nos casos de participantes dos grupos de pesquisa como um todo, não apenas dos de líderes. Considerando esse cenário, é relevante reforçar que o preenchimento das variáveis existentes é essencial para identificar a composição dos grupos e sua diversidade, bem como de que forma esta tem se alterado ao longo do tempo. Reitera-se ainda a importância de os membros de grupos manterem seus currículos Lattes atualizados, uma vez que informações de produção CT&A e de cor/raça, por exemplo, são retiradas dessa plataforma. Recomenda-se também que o CNPq inclua um identificador único para cada pessoa, pois, mesmo sem identificação, esse código permitiria acompanhar a trajetória dos líderes e dos membros de grupos ao longo do tempo, assim como sua participação em múltiplos grupos. Isso enriqueceria a análise, facilitando o rastreamento de suas contribuições e seus movimentos nos grupos de pesquisa. Por fim, embora exista uma página on-line em formato PowerBI contendo os dados de todos os censos disponíveis para download e visualização de algumas estatísticas, o caminho até essas informações não é trivial, dificultando o acesso aos dados. Garantir que estes estejam acessíveis é fundamental para a realização de estudos que permitam evidenciar desigualdades e visibilizar a produção científica de pessoas negras. 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS Embora a população negra brasileira represente 55,5% do total, de acordo com o Censo Demográfico 2022, do IBGE, a liderança de pesquisa ocupada por negros corresponde a apenas 22,6% do total em 2023. Essa disparidade é ainda mais evidente em regiões com menor percentual de negros na população: no Sudeste e no Sul, onde 49,3% e 26,7% da população se autodeclaram negras, respectivamente, apenas 15,1% e 7,9% dos líderes de pesquisa são negros. Nas regiões onde a população negra é majoritária – Norte (76,0%), Nordeste (72,6%) e Centro-Oeste (61,6%) –, a liderança negra nos grupos de pesquisa também está sub-representada, com percentuais de 44,3%, 37,7% e 24,2%, respectivamente. Esses dados revelam a persistência de desigualdades estruturais e permitem afirmar que o racismo está presente na ciência brasileira.
TEXTO para DISCUSSÃO 48 3093 Em sua análise, Marinho (2024, p. 12) destaca que o racismo é “um poderoso e destrutivo elemento estruturante e desestruturador de nossa sociedade”. No Brasil, ele se manifesta de diversas formas, desde a negação de sua existência até práticas explícitas e agressivas, incluindo atitudes disfarçadas ou “cordiais”. Embora socialmente condenado e com manifestações explícitas criminalizadas, o racismo persiste de maneira velada, o que dificulta sua identificação e mensuração (op. cit.). O autor identifica dois tipos principais de racismo no país: o primeiro é a negação de sua existência, que revitimiza a população negra ao acusá-la de buscar vantagens, como as cotas raciais, sobre algo supostamente inexistente; o segundo reforça desigualdades ao atribuir desvantagens aos negros em aspectos como inteligência e esforço, frequentemente valorizados em áreas de maior prestígio social. Reconhecer o racismo na liderança de grupos de pesquisa no Brasil é fundamental para o desenho de políticas públicas que promovam a diversidade e a inclusão em todas as regiões do país e em todas as áreas do conhecimento. É imprescindível ampliar iniciativas que busquem uma representação mais equitativa na liderança científica, contribuindo para a construção de uma ciência nacional mais inclusiva, abrangente e alinhada às demandas de uma sociedade plural. A dupla desvantagem de mulheres negras destaca-se como um desafio particularmente crítico, que requer atenção específica. Intervenções como a elaboração de programas de mentorias direcionadas, a disponibilização de bolsas de estudo para mulheres negras nas áreas de “ciências duras” e “ciências da vida” e a implementação de políticas institucionais que promovam a inclusão e a diversidade podem ajudar a mitigar essas desigualdades. Compreender e abordar as variações regionais nessas dinâmicas também será crucial para o sucesso de quaisquer intervenções propostas. Relações sociais democráticas, inclusive na produção de CT&A devem abraçar o pluralismo como um valor e um objetivo democrático. Entretanto, o apelo à diversidade desejável é aquele em que grupos marginalizados são efetivamente representados nas deliberações democráticas sobre tipos e formas de pesquisa que melhor atendam aos objetivos das democracias multiculturais (Harding, 2015). Ou seja, a diversidade entre os membros de um grupo de pesquisa é fundamental, entretanto, mais ainda, é a existência de líderes e pesquisadores seniores que possam tomar decisões conscientes da existência de injustiças epistêmicas no fazer científico e tecnológico. A proposta de Fricker (2023) para superar a injustiça epistêmica envolve o desenvolvimento de virtudes de justiça, que permitam ao indivíduo reconhecer e corrigir preconceitos contra identidades de grupos de indivíduos, além da criação de uma sensibilidade reflexiva que favoreça um clima hermenêutico mais inclusivo, sem preconceitos estruturais de identidade. Todavia, afirma Anderson (2012), injustiças estruturais exigem soluções estruturais.
TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 49 3093 Um remédio estrutural para a injustiça epistêmica é uma virtude dos sistemas de pesquisa em larga escala. A virtude epistêmica é necessária tanto na escala individual quanto na escala estrutural. Nesse sentido, se a segregação de grupos é a base estrutural dos diversos tipos de injustiça epistêmica, então a integração de grupos é um remédio estrutural – uma virtude das instituições epistêmicas (Anderson, 2012). Bohman (2012), assim, propõe o desenvolvimento de uma epistemologia republicana, na qual os preceitos republicanos da não dominação de um grupo sobre outros e da partilha de direitos e estatutos para participação na tomada de decisão sejam concedidos a todos.30 O contexto de desigualdade que está na base desse tipo de marginalização deve ser visto como uma forma de dominação, e, como tal, os remédios para essa injustiça epistêmica só podem ser eficazes se forem institucionais e motivados pelo fato de alguns grupos poderem ser mais vulneráveis à dominação do que outros (Bohman, 2012). A solução é criar instituições que resolvam as consequências estruturais. Ultrapassar a marginalização é um empreendimento coletivo, e não apenas uma questão de virtude epistêmica (op. cit.). Para além da questão de justiça, a busca pela diversidade é fundamental para promover a inovação, a resiliência e a adaptabilidade dos sistemas econômicos. Diversidade de perspectivas e abordagens fomenta a criação de novas ideias e tecnologias, o que estimula o progresso e o desenvolvimento econômico. Este TD abre caminhos para diversas investigações futuras. Uma das possibilidades é investigar as causas das desigualdades na liderança de grupos de pesquisa, considerando os marcadores de cor/raça e sexo. Essa abordagem é relevante porque, assim como existem diferenças entre homens e mulheres e entre áreas de conhecimento, é provável que essas desigualdades também estejam presentes em grandes áreas, temas de pesquisa, setores institucionais e outras clivagens ainda pouco exploradas. Outra linha de investigação a ser trilhada seria analisar se o CNPq e outros órgãos de fomento à CT&A no Brasil têm, de fato, implementado políticas significativas e sistemáticas para reduzir as desigualdades raciais na comunidade científica. Nesse contexto, também é importante verificar se há uma tendência de acomodação ou naturalização dessa disparidade, algo que não deveria ser aceito em uma sociedade que busca consolidar valores democráticos e igualitários. 30. “Tal como é entendida na tradição republicana, a não dominação exige que as instituições respondam às exigências adequadas daqueles que sofrem injustiças” (Bohman, 2012, p. 181, tradução nossa). No original: “As understood in the republican tradition, non-domination requires that institutions respond to the proper demands of those who suffer injustice".
TEXTO para DISCUSSÃO 50 3093 Além disso, seria interessante investigar a trajetória de egressos do ensino superior e da pós-graduação ao longo do tempo, seguindo uma abordagem semelhante à proposta por Colombo (2023), mas com a inclusão de marcadores de cor/raça, sexo e a distinção entre setores educacionais. Caso fosse viável rastrear esses egressos, seria possível acompanhar sua evolução acadêmica e profissional, de modo a identificar se chegam a ocupar posições de liderança em grupos de pesquisa e mapear os fatores que promovem ou limitam essa ascensão. Por fim, outra trilha de pesquisa envolve avaliar o impacto de políticas públicas, como a Lei de Cotas (Lei no 12.711/2012, alterada pela Lei no 14.723/2023), na representatividade de negros na liderança de grupos de pesquisa. Essa análise permitiria compreender os efeitos dessas políticas ao longo do tempo e em diferentes contextos institucionais, oferecendo subsídios para aprimorar iniciativas voltadas à promoção da equidade racial na ciência brasileira. REFERÊNCIAS ADABO, G. M. Divulgadoras de ciência no Brasil. Campinas: Unicamp, 2017. ALBUQUERQUE, E. M. et al. A distribuição espacial da produção científica e tecnológica brasileira: uma descrição de estatísticas de produção local de patentes e artigos científicos. Revista Brasileira de Inovação, v. 1, n. 2, p. 225-251, 2002. ALBUQUERQUE, J. P. de. Segurança alimentar e nutricional no Brasil: reflexões sobre o campo científico e características dos grupos de pesquisa. Campinas: Unicamp, 2020. ALSHEBLI, B. K.; RAHWAN, T.; WOON, W. L. The preeminence of ethnic diversity in scientific collaboration. Nature Communications, v. 9, n. 5163, 2018. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s41467-018-07634-8. ANDERSON, E. Epistemic justice as a virtue of social institutions. Social Epistemology, v. 26, n. 2, p. 163-173, 2012. Disponível em: https://doi.org/10.1080/02691728.2011. 652211. ANDRADE, L. F. S.; MACEDO, A. dos S.; OLIVEIRA, M. de L. S. A produção científica em gênero no Brasil: um panorama dos grupos de pesquisa de Administração. RAM – Revista de Administração Mackenzie, v. 15, n. 6, p. 48-75, 2014. Disponível em: https:// doi.org/10.1590/1678-69712014/administracao.v15n6p48-75. AQUINO, E. M. L. Gênero e saúde: perfil e tendências da produção científica no Brasil. Revista de Saúde Pública, v. 40. n. spe, p. 121-132, 2006. Disponível em: https://doi. org/10.1590/S0034-89102006000400017.
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TEXTO para DISCUSSÃO 56 3093 APÊNDICE A PERCENTUAL DE MISSING A.1 Missing da variável raça/cor TABELA A.1 Missing de raça/cor – Grandes Regiões (Em %) Região 2000 2002 2004 2006 2008 2010 2014 2016 2023 Centro-Oeste 29,2 23,8 21,7 17,5 14,2 13,7 12,1 11,5 11,1 Nordeste 27,4 24,0 21,8 18,8 17,1 15,2 13,1 13,0 11,6 Norte 21,9 18,0 16,0 15,4 13,9 12,0 10,8 9,3 9,7 Sudeste 29,2 25,5 23,1 20,4 17,7 16,4 14,3 13,9 12,9 Sul 26,9 22,8 19,8 17,5 15,4 13,3 10,4 10,8 10,2 Não informada - - - - - - - - 13,3 Fonte: Diretório dos Grupos de Pesquisa (DGP)/Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Disponível em: https://lattes.cnpq.br/web/dgp/painel-dgp/. Acesso em: 15 maio 2024. Elaboração dos autores. TABELA A.2 Missing de raça/cor, ciências da vida (Em %) Área do conhecimento 2000 2002 2004 2006 2008 2010 2014 2016 2023 Ciências da vida 26,5 22,1 19,6 16,5 13,9 12,2 9,8 9,5 9,0 Agronomia 26,4 23,3 19,4 17,1 13,6 10,6 7,6 7,8 7,7 Biofísica 33,3 32,2 30,4 25,3 16,1 14,8 19,5 20,4 17,9 Biologia geral 21,4 16,2 16,0 16,5 20,5 18,0 14,1 10,5 11,8 Bioquímica 28,2 23,8 22,5 20,3 19,1 17,0 14,6 13,9 16,9 Biotecnologia - - - - - - - 8,8 10,5 Botânica 27,7 26,7 24,8 24,2 22,1 19,6 17,2 16,4 14,6 Ciência e tecnologia de alimentos 29,8 22,0 18,6 15,0 13,0 9,3 9,9 9,2 7,0
TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 63 3093 TABELA A.8 Missing de sexo, humanidades (Em %) Área do conhecimento 2000 2002 2004 2006 2008 2010 2014 2016 2023 Humanidades 0,1 0,2 0,1 0,0 0,0 0,0 0,0 0,2 0,0 Administração 0,0 1,1 0,3 0,0 0,0 0,0 0,0 0,4 0,0 Antropologia 0,0 0,0 0,7 0,3 0,3 0,0 0,0 0,6 0,0 Arqueologia 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 Arquitetura e urbanismo 1,3 0,0 0,3 0,0 0,0 0,0 0,0 0,4 0,0 Artes 0,0 0,5 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,1 0,0 Ciência da informação 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 Ciência política 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 Comunicação 0,0 0,9 0,3 0,0 0,0 0,0 0,0 0,3 0,0 Demografia 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 Direito 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 Economia 0,0 0,7 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,4 0,0 Economia doméstica 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 Educação 0,1 0,1 0,2 0,0 0,1 0,0 0,0 0,2 0,0 Filosofia 0,0 0,4 0,3 0,3 0,2 0,0 0,0 0,5 0,0 Geografia 1,0 0,6 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,2 0,0 História 0,0 0,0 0,0 0,0 0,1 0,0 0,0 0,1 0,0 Letras 0,3 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,1 0,0 Linguística 0,0 0,0 0,2 0,2 0,1 0,0 0,0 0,2 0,0 Museologia 0,0 0,0 8,3 0,0 0,0 0,0 0,0 2,2 0,0 Planejamento urbano e regional 0,0 0,0 0,6 0,0 0,0 0,0 0,0 0,3 0,0 Psicologia 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 Serviço social 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 Sociologia 0,3 0,3 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,2 0,0 Teologia 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 Turismo 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 Fonte: DGP/CNPq. Disponível em: https://lattes.cnpq.br/web/dgp/painel-dgp/. Acesso em: 15 maio 2024. Elaboração dos autores.
TEXTO para DISCUSSÃO 64 3093 APÊNDICE B DADOS REGIONAIS GRÁFICO B.1 Líderes dos grupos de pesquisa, por sexo, cor/raça e região B.1a – Região Centro-Oeste B.1b – Região Nordeste 1,0 1,3 1,8 2,0 2,3 3,1 4,2 4,6 5,0 0 5 10 15 20 25 30 2000 2002 2004 2006 2008 2010 2014 2016 2023 Número de líderes (1 mil) 2,8 3,7 4,5 5,2 6,2 8,0 11,2 12,1 18,0 0,0 10,0 20,0 30,0 40,0 50,0 60,0 70,0 80,0 90,0 100,0 2000 2002 2004 2006 2008 2010 2014 2016 2023 Participação em relação ao total de líderes (%) B.1c – Região Norte B.1d – Região Sudeste 0,6 0,9 1,2 1,5 1,7 2,2 3,2 3,7 4,8 0 5 10 15 20 25 30 2000 2002 2004 2006 2008 2010 2014 2016 2023 Número de líderes (1 mil) 10,2 11,9 15,5 16,0 16,9 19,4 24,7 25,4 24,3 0,0 10,0 20,0 30,0 40,0 50,0 60,0 70,0 80,0 90,0 100,0 2000 2002 2004 2006 2008 2010 2014 2016 2023 Participação em relação ao total de líderes (%)
TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 65 3093 B.1e – Região Sul 3,6 5,6 7,2 7,8 8,3 9,7 12,7 13,7 14,0 0,0 10,0 20,0 30,0 40,0 50,0 60,0 70,0 80,0 90,0 100,0 0 5 10 15 20 25 30 2000 2002 2004 2006 2008 2010 2014 2016 2023 Participação em relação ao total de líderes (%) Número de líderes (1 mil) Homens brancos Mulheres brancas Homens negros Mulheres negras Total Fonte: Diretório dos Grupos de Pesquisa (DGP)/Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Disponível em: https://lattes.cnpq.br/web/dgp/painel-dgp/. Acesso em: 15 maio 2024. Elaboração dos autores. Obs.: Os dados apresentados referem-se apenas aos indivíduos autodeclarados brancos e negros (pretos e pardos). Contudo, os percentuais apresentados são calculados sobre o total de líderes, que engloba também os indivíduos autodeclarados amarelos e indígenas e os que não desejaram declarar, não informaram ou deixaram a variável em branco. Sendo assim, considerando a existência de grupos não discriminados na análise, a soma dos percentuais observados não corresponderá a 100%. GRÁFICO B.2 Participação da liderança negra em relação ao total de líderes – Grandes Regiões (Em %) 0 25 50 2000 2002 2004 2006 2008 2010 2014 2016 2023 Centro-Oeste Nordeste Norte Sudeste Sul Fonte: DGP/ CNPq. Disponível em: https://lattes.cnpq.br/web/dgp/painel-dgp/. Acesso em: 15 maio 2024. Elaboração dos autores.
TEXTO para DISCUSSÃO 66 3093 GRÁFICO B.3 Participação da liderança negra feminina e liderança branca feminina em relação ao total de líderes – Grandes Regiões (Em %) B.3a – Liderança feminina negra B.3b – Liderança feminina branca 0,0 12,5 25,0 37,5 50,0 2000 2002 2004 2006 2008 2010 2014 2016 2023 0,0 12,5 25,0 37,5 50,0 2000 2002 2004 2006 2008 2010 2014 2016 2023 Centro-Oeste Nordeste Norte Sudeste Sul Centro-Oeste Nordeste Norte Sudeste Sul Fonte: DGP/CNPq. Disponível em: https://lattes.cnpq.br/web/dgp/painel-dgp/. Acesso em: 15 maio 2024. Elaboração dos autores. Obs.: Os dados apresentados referem-se apenas aos indivíduos autodeclarados brancos e negros (pretos e pardos). Contudo, os percentuais apresentados são calculados sobre o total de líderes, que engloba também os indivíduos autodeclarados amarelos e indígenas e os que não desejaram declarar, não informaram ou deixaram a variável em branco. Sendo assim, considerando a existência de grupos não discriminados na análise, a soma dos percentuais de mulheres brancas e negras não deve ser entendida como uma representação da participação feminina como um todo.
TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 67 3093 GRÁFICO B.4 Distribuição da liderança negra feminina, por região (2000-2023) 0,6 0,9 1,2 1,5 1,8 2,5 4,1 4,8 6,9 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 0,0 10,0 20,0 30,0 40,0 50,0 60,0 70,0 80,0 90,0 100,0 2000 2002 2004 2006 2008 2010 2014 2016 2023 Número total de líderes, mulheres negras (1 mil) Líderes mulheres negras, por região (%) Centro-Oeste Nordeste Norte Sudeste Sul Outra Total Fonte: DGP/CNPq. Disponível em: https://lattes.cnpq.br/web/dgp/painel-dgp/. Acesso em: 15 maio 2024. Elaboração dos autores.
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