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O uso de evidências em macroeconomia: Notas históricas e metodológicas

Pinheiro, Maurício Mota Saboya,Rech, Lucas Trentin,Pompeu, João Cláudio Basso

Abstract

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Pinheiro, Maurício Mota Saboya; Rech, Lucas Trentin; Pompeu, João Cláudio Basso Working Paper O uso de evidências em macroeconomia: Notas históricas e metodológicas Texto para Discussão, No. 3089 Provided in Cooperation with: Institute of Applied Economic Research (ipea), Brasília Suggested Citation: Pinheiro, Maurício Mota Saboya; Rech, Lucas Trentin; Pompeu, João Cláudio Basso (2025) : O uso de evidências em macroeconomia: Notas históricas e metodológicas, Texto para Discussão, No. 3089, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Brasília, https://doi.org/10.38116/td3089-port This Version is available at: https://hdl.handle.net/10419/315146 Standard-Nutzungsbedingungen: Die Dokumente auf EconStor dürfen zu eigenen wissenschaftlichen Zwecken und zum Privatgebrauch gespeichert und kopiert werden. Sie dürfen die Dokumente nicht für öffentliche oder kommerzielle Zwecke vervielfältigen, öffentlich ausstellen, öffentlich zugänglich machen, vertreiben oder anderweitig nutzen. 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If the documents have been made available under an Open Content Licence (especially Creative Commons Licences), you may exercise further usage rights as specified in the indicated licence. https://creativecommons.org/licenses/by/2.5/br/ 3089 O USO DE EVIDÊNCIAS EM MACROECONOMIA: NOTAS HISTÓRICAS E METODOLÓGICAS MAURÍCIO MOTA SABOYA PINHEIROMAURÍCIO MOTA SABOYA PINHEIRO LUCAS TRENTIN RECHLUCAS TRENTIN RECH JOÃO CLÁUDIO BASSO POMPEUJOÃO CLÁUDIO BASSO POMPEU 3089 Brasília, março de 2025 O USO DE EVIDÊNCIAS EM MACROECONOMIA: NOTAS HISTÓRICAS E METODOLÓGICAS1 MAURÍCIO MOTA SABOYA PINHEIRO2 LUCAS TRENTIN RECH3 JOÃO CLÁUDIO BASSO POMPEU4 1. Os autores agradecem a colaboração, como pareceristas ou comentadores deste texto, dos colegas do Ipea Roberto Pires Messenberg, Luís Carlos G. Magalhães, Flávio Lyrio Carneiro, Carlos Wagner A. Oliveira e João Pedro S. Bertogna. Naturalmente, as falhas deste trabalho são de exclusiva responsabilidade dos autores. 2. Técnico de planejamento e pesquisa na Diretoria de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e da Democracia do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Diest/Ipea). E-mail: [email protected].br. 3. Pesquisador bolsista no Ipea e professor do Departamento de Economia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). E-mail: [email protected].br. 4. Especialista em políticas públicas e gestão governamental na Diest/Ipea. E-mail: [email protected].br. Governo Federal Ministério do Planejamento e Orçamento Ministra Simone Nassar Tebet Fundação pública vinculada ao Ministério do Planejamento e Orçamento, o Ipea fornece suporte técnico e institucional às ações governamentais – possibilitando a formulação de inúmeras políticas públicas e programas de desenvolvimento brasileiros – e disponibiliza, para a sociedade, pesquisas e estudos realizados por seus técnicos. Presidenta LUCIANA MENDES SANTOS SERVO Diretor de Desenvolvimento Institucional FERNANDO GAIGER SILVEIRA Diretora de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e da Democracia LUSENI MARIA CORDEIRO DE AQUINO Diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas CLÁUDIO ROBERTO AMITRANO Diretor de Estudos e Políticas Regionais, Urbanas e Ambientais ARISTIDES MONTEIRO NETO Diretora de Estudos e Políticas Setoriais, de Inovação, Regulação e Infraestrutura FERNANDA DE NEGRI Diretor de Estudos e Políticas Sociais RAFAEL GUERREIRO OSÓRIO Diretora de Estudos Internacionais KEITI DA ROCHA GOMES Chefe de Gabinete ALEXANDRE DOS SANTOS CUNHA Coordenadora-Geral de Imprensa e Comunicação Social GISELE AMARAL DE SOUZA Ouvidoria: https://www.ipea.gov.br/ouvidoria URL: https://www.ipea.gov.br Texto para Discussão Publicação seriada que divulga resultados de estudos e pesquisas em desenvolvimento pelo Ipea com o objetivo de fomentar o debate e oferecer subsídios à formulação e avaliação de políticas públicas. © Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – ipea 2025 Pinheiro, Maurício Mota Saboya O Uso de evidências em macroeconomia : notas históricas e metodológicas / Maurício Mota Saboya Pinheiro, Lucas Trentin Rech, João Cláudio Basso Pompeu. – Brasília, DF: Ipea, 2025. 67 p. – (Texto para Discussão ; n. 3089). Inclui Bibliografia. ISSN 1415-4765 1. Filosofia da Ciência. 2. Ciências Econômicas. 3. Metodologia Econômica. 4. Causalidade. 5. Políticas Informadas por Evidências. 6. Políticas Macroeconômicas. I. Rech, Lucas Trentin. II. Pompeu, João Claúdio Basso. III. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. IV. Título. CDD 339.01 Ficha catalográfica elaborada por Elizabeth Ferreira da Silva CRB-7/6844. Como citar: PINHEIRO, Maurício Mota Saboya; RECH, Lucas Trentin; POMPEU, João Cláudio Basso. O Uso de evidências em macroeconomia: notas históricas e metodológicas. Brasília, DF: Ipea, mar. 2025. 67 p. (Texto para Discussão, n. 3089). DOI: https://dx.doi.org/10.38116/td3089-port JEL: B41. DOI: https://dx.doi.org/10.38116/td3089-port As publicações do Ipea estão disponíveis para download gratuito nos formatos PDF (todas) e ePUB (livros e periódicos). Acesse: https://www.ipea.gov.br/portal/publicacoes As opiniões emitidas nesta publicação são de exclusiva e inteira responsabilidade dos autores, não exprimindo, necessariamente, o ponto de vista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada ou do Ministério do Planejamento e Orçamento. É permitida a reprodução deste texto e dos dados nele contidos, desde que citada a fonte. Reproduções para fins comerciais são proibidas. SUMÁRIO SINOPSE ABSTRACT 1 APRESENTAÇÃO .....................................................................7 2 INTRODUÇÃO .......................................................................... 8 3 DOS PRESSUPOSTOS GERAIS E DO MÉTODO DESTA PESQUISA .................................................................10 4 PREPARANDO O TERRENO: TÓPICOS RELEVANTES DE METODOLOGIA DA CIÊNCIA ECONÔMICA .................14 4.1 O que significa submeter uma teoria científica ao “tribunal da experiência”? ......................................................... 14 4.2 Experiência e enunciados empiricamente avaliáveis ............. 17 4.3 Formalização da linguagem, mensuração e progresso científico .................................................................... 20 5 ESCOLAS DE PENSAMENTO ECONÔMICO, FATORES CONTEXTUAIS E USO DE EVIDÊNCIAS .............................22 6 CAUSALIDADE E MÉTODOS EM ECONOMIA ....................30 6.1 Tempo, equilíbrio, expectativa, incerteza e causalidade ....... 30 6.2 Filosofia da causalidade e ciência econômica....................... 37 6.3 Causalidade em macroeconomia ........................................... 42 7 COMO AS DIVERSAS EVIDÊNCIAS CAUSAIS PODEM SERVIR ÀS DECISÕES DE POLÍTICA ECONÔMICA? .........47 8 UM RESUMO DOS POSICIONAMENTOS DEFENDIDOS NESTE TEXTO ........................................................................52 9 CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................59 REFERÊNCIAS ..........................................................................62 BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR .........................................67 SINOPSE O objetivo deste texto para discussão é fornecer subsídios conceituais, metodológicos e históricos acerca do uso de evidências na ciência econômica e, em particular, na macroeconomia. Procura-se abrir caminho para uma compreensão mais profunda sobre os critérios normativos a fim de guiar o bom uso de evidências em políticas macroeconômicas. O texto visa responder às seguintes perguntas: i) a quais redes ou tipos de enunciados (hipóteses, modelos, teorias etc.) se aplica o critério da adequação empírica em ciência econômica?; ii) como a formalização da linguagem e a mensuração das grandezas econômicas condicionam o papel das evidências no progresso científico em economia?; iii) como os critérios de avaliação da adequação empírica variam de acordo com as escolas de pensamento nessa ciência?; iv) quais fatores contextuais (históricos, ideológicos, políticos etc.) poderiam condicionar as escolhas dos economistas com respeito àqueles conjuntos de enunciados?; v) como se elucida o conceito de causalidade em economia e como uma orientação metodologicamente pluralista em relação à causalidade pode servir às decisões de política macroeconômica?; e vi) quais lições a metodologia e a história do pensamento econômico podem dar à governança do uso de evidências para as políticas macroeconômicas? Mais do que apontar para uma solução única ao problema da governança de evidências em teoria e política macroeconômica, este texto convida-nos a uma atitude pluralista – porém moderada – acerca: i) do conceito de evidências em economia; ii) da unidade empiricamente avaliável na teoria e na política econômicas; e iii) do conceito de causalidade envolvido nas análises teóricas e práticas em macroeconomia. Palavras-chave: filosofia da ciência; ciências econômicas; metodologia econômica; causalidade; políticas informadas por evidências; políticas macroeconômicas. ABSTRACT The aim of this paper is to shed light on some conceptual, methodological and historical aspects about the use of evidence in Economics and, in particular, in Macroeconomics. We seek to pave the way for a deeper understanding about the normative criteria to guide the good use of evidence in macroeconomic policies. The text seeks to answer the following questions: i) To which networks or types of statements (hypotheses, models, theories, etc.) does the criterion of empirical adequacy in economic science apply?; ii) How does the formalization of language and the measurement of economic magnitudes affect the role of evidence in scientific progress in Economics? iii) How do the criteria of assessment of empirical adequacy vary according to schools of thought in Economics?; iv) what contextual factors (historical, ideological, political, etc.) could condition economists’ choices with respect to those sets of statements?; v) How is the concept of causality in economics elucidated and how can a methodologically pluralistic orientation towards causality serve macroeconomic policy decisions?; and vi) What lessons can the methodology and history of economic thought give to the governance of the use of evidence for macroeconomic policies? More than pointing to a single solution to the problem of TEXTO para DISCUSSÃO 6 3089 evidence governance in macroeconomic theory and policy, this text invites us to a pluralistic attitude – though moderate – regarding: i) the concept of evidence in Economics; ii) the empirically assessable unity in economic theory and policy; iii) the concept of causality involved in theoretical and practical analyzes in macroeconomics. Keywords: philosophy of science; Economics; economic methodology; causality; evidence-informed policymaking; macroeconomic policies. TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 7 3089 1 APRESENTAÇÃO Este texto para discussão (TD) é um produto da pesquisa “Governança de evidências e políticas macroeconômicas no Brasil”, executada pela Diest/Ipea. Com este trabalho, dá-se continuidade a um processo de pesquisa sobre a abordagem das políticas informadas por evidências (PIEs) e, mais especificamente, sobre a governança do uso de evidências em políticas públicas. Em termos gerais, chamamos de “governança do uso de evidências em políticas públicas” simplesmente um conjunto de ações coordenadas que vise o “melhor uso” das evidências para subsidiar as decisões de políticas públicas. Obviamente, ao falarmos do “melhor uso”, adentramos a esfera dos valores. De fato, o projeto de pesquisa em pauta não pode ignorar valores de diversos tipos, pois as decisões em políticas públicas envolvem necessariamente juízos acerca do que é bom (adequado, correto, desejável) para a sociedade. A natureza conflitiva desses valores significa que os fins coletivos – isto é, os bens que a sociedade deve visar – não são fáceis de se discernir. Consequentemente, em geral, não faz sentido falar de “soluções ótimas” para problemas sociais, a menos que fortes qualificações sejam feitas a priori (Parkhurst, 2017). Esse quadro suscita vários desafios teóricos, sobretudo quando intentamos discutir o bom uso de evidências científicas nas diferentes políticas públicas. Até o momento, os estudos da Diest/Ipea registraram vários achados importantes – por exemplo, o aprofundamento do conhecimento do uso de evidências em áreas e temas selecionados de políticas públicas no Brasil (saúde, educação, políticas sociais, políticas ambientais etc.). Em particular, verificou-se a não preponderância do uso direto de evidências científicas 1 pelos agentes decisórios de políticas públicas. Ora, esse resultado levanta ao menos uma questão importante: quais lições as áreas de políticas públicas mais amadurecidas no uso de evidências científicas podem dar à governança do uso dessas evidências para outras áreas de política menos “acostumadas” a esse uso? O contexto motivador da pesquisa “Governança de evidências e políticas macroeconômicas no Brasil” delimita-se sobre a pergunta anterior. O objetivo é entender, sob 1. Para os atuais propósitos, evidências científicas são “os conhecimentos produzidos a partir de métodos sistematizados e reprodutíveis, podendo abranger os seguintes itens (lista não exaustiva): i) identificação precisa de um problema de pesquisa, com variáveis dependentes e independentes bem delimitadas; ii) revisão da literatura acadêmica sobre o assunto; iii) coleta sistemática de dados e informações; iv) tratamento dos dados e informações com métodos quantitativos ou qualitativos rigorosos; v) discussão detalhada dos resultados; vi) publicação dos resultados em periódicos científicos; e vii) publicação em periódicos de universidades ou institutos de pesquisa” (Pinheiro, 2020, p. 17). TEXTO para DISCUSSÃO 8 3089 a óptica de certos paradigmas ou escolas de pensamento econômicos e outros fatores genericamente contextuais, as formas como os atores estatais diretamente envolvidos nas políticas macroeconômicas no Brasil têm usado as informações (científicas e de outros tipos) em seus processos decisórios. A Diest/Ipea vem estudando as PIEs no Brasil desde 2019. Não obstante, várias questões relevantes ainda permanecem sem resposta, por exemplo: por que a literatura das PIEs praticamente não menciona as políticas econômicas? Como as políticas macroeconômicas se enquadrariam nessa abordagem? Assim como a medicina e as políticas de saúde inspiraram avanços no uso de evidências em outras áreas de políticas públicas, quais contribuições as políticas macroeconômicas poderiam dar a esse movimento que visa promover o bom uso de evidências nas políticas públicas? Por seu turno, as próprias políticas macroeconômicas não poderiam se beneficiar de insights provenientes da cultura do uso de evidências em outras áreas de políticas públicas? Este TD procura, por assim dizer, “pavimentar o terreno” para a solução desses problemas, por meio do fornecimento de elementos teóricos e históricos. 2 INTRODUÇÃO Este texto se enquadra na discussão geral sobre o movimento das PIEs, que prescreve o uso sistemático das melhores evidências de pesquisas disponíveis para o desenvolvimento e a implementação das políticas públicas (Davies, 2004). Dado esse quadro, o objetivo geral deste TD é fornecer subsídios conceituais, teórico-filosóficos e históricos a uma compreensão mais profunda dos modos pelos quais os economistas tomam suas decisões teóricas e de políticas econômicas, em face de evidências. Apesar de o conceito de evidência ser tomado, neste estudo, de maneira ampla, considerando as informações científicas e de outros tipos, na ciência econômica, esse conceito aplica-se frequentemente às observações sistemáticas, aos experimentos (quando possíveis), aos dados históricos e a outros tipos de informações e razões que os economistas considerem válidas para orientar suas decisões. Como objetivos específicos, o texto visa responder às seguintes perguntas: i) a quais redes ou tipos de enunciados (hipóteses, modelos, teorias etc.) se aplica o critério de adequação empírica em ciência econômica?; ii) como a formalização da linguagem e a mensuração das grandezas econômicas condicionam o papel das evidências no progresso científico em economia?; iii) como o critério de adequação empírica em economia varia de acordo com as escolas de pensamento econômico?; iv) que fatores contextuais (históricos, ideológicos, políticos etc.) poderiam condicionar as escolhas dos economistas com respeito àqueles conjuntos de enunciados?; v) como se elucida o conceito de causalidade em economia e como uma orientação metodologicamente pluralista em relação TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 15 3089 e na economia em particular, as inferências vinculam premissas a conclusões e juntam argumentos de diferentes partes da teoria. Esses argumentos podem ser apresentados em linguagem natural e não se espera, em geral, que a eles corresponda uma rede de relações e conceitos lógicos ou matemáticos bem definidos.9 As teorias econômicas explicitam enunciados com vários graus de generalidade ou profundidade, sendo os mais profundos aqueles pressupostos mais gerais, que são tomados como pilares fundamentais ou pontos de partida na enunciação de uma teoria. Às vezes os economistas chamam esses pressupostos de “axiomas” ou “hipóteses gerais” dos modelos econômicos. Há enunciados profundos que são mantidos implícitos à teoria, porque, por serem muito básicos e gerais, assume-se que são “intuitivos” e, portanto, não precisam ser explicitados. Já os enunciados com menores graus de generalidade, que podem descrever fatos particulares, são em princípio confrontáveis com a experiência acerca de eventos e fatos que podem ser observados publicamente. No limite, esses últimos enunciados são testáveis empiricamente por técnicas e métodos econométricos. Contudo, o teste de um enunciado singular envolve sempre a pressuposição de um ou mais enunciados com graus de generalidade mais elevados. Por exemplo, a hipótese especial de que fulano (uma pessoa particular) não esteve na cena de um crime (um evento particular) se testa conjuntamente à hipótese geral de que nenhum ser humano pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Por conseguinte, para se verificarem enunciados particulares, é necessário pressupor certas generalizações que nem sempre são explicitadas na teoria. Como nos lembra Machlup (1955, p. 3), “sempre teremos de tomar algo como dado, independentemente do quão avessos sejamos a ‘preconcepções’”. Também Popper (2001, p. 45) fala dos “enunciados básicos”, que são enunciados gerais atuantes como premissas em um teste empírico de uma hipótese ou predição particular. Os enunciados básicos dão sentido aos testes empíricos, embora não sejam sujeitos diretamente a tais testes. O exemplo anterior, sobre uma investigação criminal na qual se descarta um suspeito por se constatar que este tem um bom álibi, é esclarecedor sobre os diferentes papéis desempenhados numa teoria pelas hipóteses gerais (enunciados básicos) e pelas hipóteses particulares (sujeitas a testes empíricos). Diferentemente das ciências formais, como a lógica e a matemática, em qualquer ciência empírica são pertinentes, em princípio, os seguintes métodos: experimentação, observação sistemática, registros históricos, coleta de dados e outros. Do contrário, a 9. Claro, há economistas pertencentes à corrente principal (mainstream) da ciência econômica que valorizam um ideal de formalização da linguagem e procuram atingi-lo ao formularem teorias, modelos e hipóteses. Não obstante, em várias escolas de pensamento em economia, os enunciados teóricos não são reduzidos a alguma linguagem formal. A questão do formalismo em economia será tratada na seção 4.3. TEXTO para DISCUSSÃO 16 3089 teoria seria tão somente uma espécie de jogo linguístico fechado em si mesmo, sem qualquer conexão com a experiência do mundo. Desejamos chamar a atenção para o fato de que até mesmo os enunciados teóricos com os mais elevados graus de generalidade – tais como os enunciados básicos de Popper –são avaliáveis, de uma ou de outra forma, com base na experiência. Entretanto, sobre isso há que se fazer as seguintes ressalvas: i) a experiência com a qual se avalia globalmente uma teoria científica tem de ser concebida lato sensu, incluindo não apenas dados empíricos observáveis e quantificáveis, mas também o variadíssimo mundo da experiência humana do senso comum; ii) a teoria tem de ser avaliada em termos agregados, e não somente a partir de suas hipóteses ou predições singulares (por exemplo, uma teoria que tenha uma ou outra hipótese empiricamente refutada ainda assim pode ter uma boa resiliência contra anomalias, porque seu núcleo teórico é bastante sólido e aceito pela comunidade de cientistas); iii) nem sempre a experiência, mesmo concebida de forma abrangente, é capaz de discriminar explicações científicas conflitantes e, para se efetivar essa discriminação, serão necessários adicionalmente outros critérios e valores;10 e iv) os testes empíricos propriamente ditos costumam aplicar-se a subconjuntos mais ou menos restritos (e não a enunciados isolados, testáveis individualmente) de uma rede de enunciados científicos. Embora uma teoria científica esteja, em muitas de suas partes, permanentemente sujeita ao julgamento pelo “tribunal da experiência”, os testes empíricos propriamente ditos costumam ser aplicados a sub-redes (blocos de enunciados) mais ou menos restritas da teoria – e isto ocorre até mesmo nas chamadas hard sciences. 11 10. Falamos aqui de critérios como a simplicidade, a informatividade, a coerência, a generalidade ou a potencialidade para novas descobertas e resolução de problemas. Desse modo, quando uma teoria se mostrar inadequada do ponto de vista empírico, ela começará a ser revista a partir de seus enunciados mais superficiais, empiricamente testáveis. Nesse primeiro momento da avaliação da teoria, permanecerá intocado o “cinturão protetor” dos enunciados teóricos mais profundos, fundamentais e gerais. Em casos mais raros, quando houver necessidade de se revisarem tais enunciados profundos da teoria, toda a semântica desta sofrerá alteração. Isso representará, dependendo do contexto, uma mudança radical da teoria, o que, na prática, significará sua descontinuidade – ou seja, seu abandono puro e simples ou sua substituição por outra teoria. 11. As origens das expressões hard sciences e soft sciences são obscuras. Tudo leva a crer que essa distinção tenha sido publicada pela primeira vez em 1964, em um artigo intitulado Strong inference, do físico norte-americano John R. Platt (Platt, 1964). Posteriormente, essas expressões se popularizam em filosofia e sociologia da ciência, passando a designar distintas perspectivas de se encarar o desenvolvimento da ciência. Nas hard sciences, que englobam grosso modo as ciências naturais, como a física e a química, o progresso científico se dá pela produção de novos conhecimentos na chamada fronteira do conhecimento, sendo que os conhecimentos passados e superados (teórica ou empiricamente) teriam no máximo uma importância meramente instrumental para o avanço científico. Nas soft sciences – ciências humanas e sociais em geral –, o progresso do conhecimento não dispensa o recurso à história do pensamento (ou das ideias) em cada ramo da ciência. TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 17 3089 Entretanto, quais conjuntos e tipos de proposições de um sistema científico podem e/ou devem ser confrontados com os testes empíricos? Como esse problema se coloca na ciência econômica? A quais conjuntos de enunciados científicos se aplica o conceito de adequação empírica (teste empírico e congêneres) em economia? Essas questões sintetizam bem o problema central da seção seguinte. 4.2 Experiência e enunciados empiricamente avaliáveis Na ciência econômica, devemos levar em conta as ressalvas e as complicações aduzidas na seção anterior sobre a aplicação do conceito de adequação empírica de uma teoria científica. Em particular, devemos considerar: i) um conceito relativamente amplo de experiência, quando usamos a expressão “adequação empírica” no contexto de uma teoria científica; e ii) um criterioso dimensionamento da rede de enunciados teóricos que é sujeita à avaliação empírica. Vejamos cada item em separado. Em economia, certos pressupostos muito gerais tendem a concordar com a experiência do dia a dia das pessoas, e isso basta quanto à sua adequação àquela experiência. Por exemplo, sejam os pressupostos sobre as intenções e os hábitos mais básicos das pessoas quando atuam como agentes econômicos – tais como o de que as pessoas procuram mais riqueza ao menor esforço possível. Ora, esse pressuposto se fundamenta parcialmente na nossa introspecção (experiência interior, subjetiva) e parcialmente em inferências naturais que fazemos a partir da observação do comportamento dos outros indivíduos. Trata-se de evidências de um tipo diferente das observações incorporadas às séries temporais – evidências que constituem “um conhecimento mais ou menos sistematizado sobre o comportamento humano e seus motivos” (Koopmans, 1947, p. 166). O próprio Milton Friedman, um dos principais expoentes do positivismo em economia, afirma que a confiança na hipótese neoclássica de maximização dos retornos justifica-se não porque seus pressupostos sejam testáveis empiricamente, mas em razão de uma “evidência de um caráter muito diferente” (Friedman, 1953, p. 158), a saber: observa-se que os comportamentos empresariais consistentes com decisões de maximização dos retornos, de forma racional e informada, levariam ao resultado geral de prosperidade e expansão das firmas. Por sua vez, também podemos observar, segundo Friedman, que comportamentos inconsistentes com essa regra levariam à perda de recursos, ao endividamento e ao fechamento das empresas. As observações dos comportamentos empresariais e dos efeitos de tais comportamentos são não sistemáticas – no sentido de que, por exemplo, são sistemáticas as observações incorporadas a modelos econométricos. Porém, a despeito de sua assistematicidade, elas não deixam de servir como evidências para apoiar o pressuposto de que os empresários geralmente tomam suas decisões visando à maximização dos retornos das firmas. TEXTO para DISCUSSÃO 18 3089 É claro, qualquer ciência empírica tem seu rol de hipóteses puramente empíricas, 12 e a economia não é uma exceção a essa regra. Tais hipóteses são a princípio sujeitas a testes por novas observações. Entretanto, os testes das hipóteses puramente empíricas não esgotam a avaliação da adequação empírica da teoria em questão, muito menos determinam, por si sós, se a teoria como um todo deve ser mantida ou descartada em face de teorias alternativas ou rivais. Isso nos leva a uma segunda questão: na ciência econômica, como delimitar a rede de enunciados teóricos que se sujeita à avaliação empírica? Sobre isso, já foi dito que testes empíricos de enunciados (hipóteses) singulares não são suficientes para uma avaliação da adequação empírica de uma teoria. A história da ciência nos dá pistas importantes para entendermos o porquê disso. As revoluções por que passou a física na primeira metade do século XX – por exemplo, a mecânica quântica e a teoria da relatividade – mostraram que uma teoria científica é um todo no qual suas partes interagem profundamente. Nesse sentido, uma teoria científica pode ser concebida como mais análoga a um organismo vivo do que a uma máquina, porquanto a teoria, assim como o organismo, reage de modo complexo a mudanças no ambiente (novos fatos) com o qual ela troca informações. Então, a teoria deve funcionar como uma unidade complexa, uma rede de enunciados profundamente interconectados cujas funções podem ser compartilhadas sob certas circunstâncias. Logo, faz mais sentido avaliar uma teoria em seu conjunto, ou ao menos em seus blocos de enunciados, do que com base em suas proposições elementares, tomadas uma a uma. Acompanhando os avanços científicos, hoje em dia, a maioria dos filósofos da ciência, sob a influência de Kuhn (2003) e Lakatos (1978), acredita que a avaliação empírica, na verdade, é um processo que deve levar vários critérios em consideração, não apenas testes de hipóteses empíricas. Assim, a escolha entre teorias alternativas (grupos de teorias ou programas de pesquisa) torna-se um processo bem mais complicado do que o simples teste empírico de predições particulares das respectivas teorias. Isso é verdade tanto para as ciências naturais como para as ciências sociais. Adicionalmente, há dificuldades específicas quanto à avaliação empírica de enunciados singulares em economia. Por exemplo, Machlup (1955, p. 18) levanta uma dificuldade relacionada com o caráter em geral não reprodutível dos “experimentos” em economia. Isso significa que os fenômenos econômicos normalmente não se repetem nas mesmas circunstâncias. Nesse sentido, não são análogos ao comportamento de 12. Uma hipótese estritamente empírica é “uma proposição que predica uma relação regular entre dois ou mais conjuntos de dados observacionais, que não podem ser deduzidos de uma hipótese geral (...) do corpo teórico da disciplina em questão” (Machlup, 1955, p. 19-20). TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 19 3089 sistemas físicos. Consequentemente, os testes das teorias econômicas terão graus de confiabilidade menores, em comparação com os experimentos controláveis e repetíveis, típicos da física e de outras ciências naturais. Isso implica adicionalmente o seguinte: i) os testes em economia não produzirão conclusões tão epistemicamente garantidas como suas congêneres nas ciências naturais ou nas hard sciences; e ii) tais testes não serão convincentes o suficiente para serem de aceitação generalizada por toda a comunidade de economistas.13 Por sua vez, as macrorredes de enunciados tampouco se prestam como unidades ideais para uma avaliação empírica, em razão do caráter “arquetípico” dessas redes. Dito de outro modo, essas macrorredes funcionam como molduras fundamentais para dar sentido às teorias, às hipóteses e aos próprios testes empíricos. Assim, ainda que escolas de pensamento, paradigmas, programas de pesquisa etc. possam ser abandonados por não darem mais conta de explicar novos fatos, dados e observações, esses grandes agregados de enunciados somente são substituídos por outros após um processo secular de interação entre os membros das comunidades científicas, inclusive até que ocorram mudanças de gerações de cientistas.14 Além disso, dado seu alto grau de abrangência, as ditas macrorredes pretendem interpretar grandes classes de fenômenos altamente complexos. É claro, a ciência em geral e a economia em particular têm feito progressos no entendimento de fenômenos de complexidade organizada, mas o avanço do conhecimento parece se dar por sínteses teóricas e estatísticas de certos “pedaços” dos processos complexos. Hayek, que chama tais sínteses de blocos de “predições de padrões”, recorda-nos de que, à medida que avançamos no conhecimento em economia, convencemo-nos cada vez mais que podemos determinar apenas algumas, mas não todas as circunstâncias particulares que determinam o resultado de um dado processo; consequentemente, somos capazes de predizer apenas algumas, mas não todas as propriedades do resultado que temos que esperar (1989, p. 7). 13. Um interessante conjunto de questões, que não será aprofundado neste estudo, é o seguinte: até que ponto os novos métodos e técnicas experimentais em economia (experimentos naturais, experimentos em “laboratório”, simulações computacionais etc.) aproximam os contextos experimentais da economia e da física? Até que ponto permitem aproximações aos padrões dos ambientes estritamente controlados dos experimentos das ciências naturais? Até que ponto aumentam o grau de confiança dos enunciados causais ou explicativos na ciência econômica? 14. Falando dos paradigmas, Kuhn ilustra esse aspecto afirmando que a história da ciência indica que a formação de consensos estáveis – mesmo na astronomia, na física e na química – pode ser uma “estrada extraordinariamente árdua” (2003, p. 35). TEXTO para DISCUSSÃO 20 3089 Não obstante, mesmo nas explicações parciais, a partir de blocos ou de padrões, às vezes é possível produzirem-se predições empiricamente falseáveis. Pelas razões apresentadas, é mais razoável situar a unidade básica de avaliação empírica de uma teoria científica em um nível que nós chamamos aqui de “mesoteórico”, ou seja, uma unidade de dimensões intermediárias entre as mencionadas macrorredes e os enunciados particulares. Em especial, na ciência econômica, propomos duas possibilidades plausíveis: i) os “paradigmas de orientação”, isto é, estruturas argumentativas que funcionam como pontos de referência (orientação) para as pesquisas em economia (Hoyningen-Huene e Kincaid, 2023, p. 191);15 e ii) os “modelos heurísticos”, ou seja, certos modelos gerais desenvolvidos para “coordenar um conjunto de modelos elaborados para se lidar com problemas específicos e sugerir instruções para o seu uso adequado para a construção de novos modelos”, de Vercelli (1991, p. 5).16 Na prática, modelos heurísticos e paradigmas de orientação há muito têm desempenhado, entre os economistas, um importante papel instrumental para o esclarecimento de problemas econômicos e para o encaminhamento das soluções destes. 4.3 Formalização da linguagem, mensuração e progresso científico A economia tem experimentado um processo de formalização de sua linguagem. Ao menos na tradição da teoria neoclássica do equilíbrio, que inclui os modelos de equilíbrio geral novo-clássicos, essa formalização reflete um desejo do mainstream da ciência econômica de enquadrar cada vez mais essa ciência nos padrões metodológicos das ciências naturais, especialmente da física. Entretanto, o assemelhar-se da linguagem econômica com a da física não tem levado a um aumento significativo das taxas de acerto das predições em economia, sobretudo quando os alvos dessas predições são os movimentos dos grandes agregados macroeconômicos. Tampouco o avanço das técnicas econométricas, nos últimos anos, parece ter redundado em melhoria significativa daquelas taxas. 15. Vejamos alguns exemplos históricos de paradigmas de orientação (POs) na economia. A economia política clássica gerou uma série desse tipo de paradigma, sob a forma de modelos de produção e troca: i) o modelo de maximização limitado a um indivíduo, sem mercados ou preços; ii) o mesmo modelo expandido para dois indivíduos – a chamada caixa de Edgeworth; iii) o modelo de demanda do consumidor com preços; e iv) o modelo geral de equilíbrio com preços, trocas, múltiplos indivíduos, bem como funções de oferta e demanda. O modelo de equilíbrio entre oferta e demanda e a teoria da utilidade também podem ser considerados POs no sentido de Hoyningen-Huene e Kincaid (2023). 16. Por exemplo, na teoria geral, Keynes fornece vários conceitos e insights metodológicos que podem ser agrupados em modelos heurísticos: o conceito de desemprego de equilíbrio, o princípio da demanda efetiva, o esquema da preferência pela liquidez, a influência das expectativas de longo prazo, o papel crucial dos salários nominais etc. O modelo heurístico tem um uso estratégico em qualquer programa de pesquisa em economia, segundo Vercelli (1991). TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 21 3089 Ora, esse fato não deixa de ser intrigante. Afinal, a atualização da capacidade de previsão de uma ciência empírica, para âmbitos cada vez mais abrangentes de fenômenos, é um critério assente para se avaliar o progresso do conhecimento nesse tipo de ciência. Portanto, ainda que o relativo fracasso da capacidade de a economia fazer previsões acerca dos fenômenos de interesse possa ter suas razões (Reis, 2017), isso lança a suspeita de que a ciência econômica possa estar trilhando um caminho metodologicamente equivocado. Hayek chamou esse caminho de “cientificismo”, isto é, “uma aplicação acrítica e mecânica de hábitos de pensamento [habits of thought] a campos diferentes daqueles nos quais [aqueles hábitos] foram formados” (1989, p. 3). Em outras palavras, a economia pode estar tentando aplicar os hábitos de pensamento da física, de forma acrítica e mecânica, ao âmbito de fenômenos econômicos, e esse cientificismo pode estar – de forma irônica e, à primeira vista, paradoxal – acarretando dificuldades ao progresso científico na ciência econômica. Por um lado, o cientificismo sobrevaloriza a teoria econômica em detrimento do papel das evidências; por outro, o avanço das técnicas econométricas e computacionais tem levado ao desenvolvimento de modelos a-teóricos de análises de dados. A nosso ver, essas tendências são os dois lados de uma única moeda e refletem o caráter cada vez mais problemático do uso de evidências pela ciência econômica. Nesse sentido, mesmo quem defende critérios de demarcação científica alinhados ao falsificacionismo popperiano, como Blaug (1992, p. 238), não deixa de notar certa “relutância e indisposição” dos economistas em confrontarem proposições teóricas com as evidências empíricas. Paralelamente ao problema da formalização, há o da mensuração. Em economia, pode ser muito difícil a mensuração de certas grandezas – ou, por outra, a operacionalização de certos conceitos –, a qual dependa de consensos dos economistas acerca de certos enunciados básicos. Como os econometristas poderiam mensurar, por exemplo, as “preferências de consumidores”, a “melhoria da qualidade da técnica”, a “qualidade do ambiente de negócios” e outras variáveis que remetem a aspectos mais valorativos, normativos e subjetivos da realidade econômica? Claro, progressos foram feitos na operacionalização dessas variáveis, entretanto os problemas de mensuração persistem e podem levar não apenas a erros de mensuração – que per se é um problema clássico em econometria –, mas também à omissão de variáveis que, de outro modo, seriam essenciais para explicar o fenômeno de interesse. Assim, certas variáveis são omitidas porque não podem ser medidas ou porque não se sabe como fazê-lo. O contrário também ocorre: o hábito de se omitir certas variáveis – considerando-as como parte de “constantes”, “parâmetros” ou “termos autônomos” – leva à crença de que é desnecessário o esforço de tentar medir essas variáveis. Configura-se, assim, uma espécie de círculo vicioso. Como consequência, TEXTO para DISCUSSÃO 22 3089 pode ser que, em alguns modelos econômicos, certos fatores sejam considerados importantes para uma explicação não porque estes tenham sido previamente selecionados pela teoria, mas apenas porque estejam disponíveis à mensuração. Ao mesmo tempo, outros fatores, realmente importantes, ficam de fora da explicação. Portanto, tais dificuldades de mensuração problematizam ainda mais o papel das evidências no progresso do conhecimento científico em economia. 5 ESCOLAS DE PENSAMENTO ECONÔMICO, FATORES CONTEXTUAIS E USO DE EVIDÊNCIAS O “método científico” é o resultado de um longo processo histórico, motivado por diversos problemas científicos, inovações analíticas (conceitos matemáticos e escalas, por exemplo) e materiais (instrumentos de medida e outros). Ademais, a história da ciência nos ensina que o desenvolvimento das teorias científicas depende da demarcação de certos domínios de validade dessas teorias e que a extensão desses domínios é mutável, interagindo com as evidências empíricas e outros fatores. O progresso do conhecimento científico não se apoia apenas em elementos da lógica interna do método científico, tampouco na pura evidência. Na verdade, fundamenta-se em decisões da comunidade científica, as quais não dispensam o senso comum,17 as normatividades e os valores – sejam estes de natureza cognitiva (epistêmica), sejam de natureza ética ou social. Em relação às decisões das comunidades científicas, são especialmente importantes os processos de formação de consensos na solução de controvérsias e em torno de novas verdades científicas. Tais consensos são o ápice de um processo árduo e demorado, assim como um resultado bastante provável do debate público desimpedido no seio da comunidade científica. Não obstante, eles são mutáveis e podem variar muito, consoante o campo do conhecimento científico em questão e, em muitas ciências, algumas controvérsias ainda estão longe de serem resolvidas. 17. A propósito, defendemos que a ciência e o senso comum não se opõem por princípio. Sobre isso, Bunge (2005, p. 191) afirma que o senso comum é a “faculdade ou juízo situado entre a livre especulação por um lado e a afirmação bem fundamentada e a conjetura educada por outro”. Por exemplo, vimos (seção 4.2) que os enunciados psicológicos, estabelecidos por introspecção e típicos do senso comum – por exemplo, “as pessoas procuram mais riqueza” –, foram apontados por John Stuart Mill e outros economistas como fundamentais à ciência econômica. Mesmo certas premissas antropológicas que pretendem fundamentar a teoria econômica – como o dito utilitarista de que o prazer e a dor “nos governam [a nós, seres humanos] em tudo o que fazemos, em tudo o que dizemos, em tudo o que pensamos” (Bentham, 1907 apud Driver, 2022) ou a premissa do “egoísmo hobbesiano” (ou do homo œconomicus autointeressado) – são derivações de crenças do senso comum. TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 23 3089 O modo como se desenvolvem essas controvérsias ao longo da HPE é particularmente ilustrativo. Elas dificilmente são consideradas superadas em definitivo pela maioria da comunidade dos economistas. O acúmulo de evidências em economia parece ter menos peso – relativamente à física, por exemplo – para galvanizar os debatedores em torno de um ou de outro posicionamento teórico, sobretudo se esse posicionamento está bem ancorado nos princípios de uma grande matriz teórica. Assim, podem coexistir matrizes teóricas fundamentadas em modos muito diferentes (até antagônicos) de se conceber a realidade econômica como um todo – tais como as matrizes de pensamento dos novos clássicos e dos pós-keynesianos –, sem que as evidências levem a comunidade a uma escolha consensual em favor desta ou daquela. Cada uma dessas matrizes pode gerar um número indefinidamente elevado de modelos, cujas eventuais refutações por testes empíricos não produzirão (até certo ponto) grandes abalos nas principais construções da teoria econômica. Então, é comum também que as controvérsias teóricas em economia jamais sejam resolvidas, ou o sejam apenas parcialmente, como aquela que ficou conhecida como a controvérsia de Cambridge,18 em torno da teoria do capital (ou da distribuição funcional da renda). Essa discussão sobre as grandes escolas ou matrizes teóricas do pensamento eco - nômico é útil para se avaliar o papel desempenhado pelas evidências na estrutura de uma explicação científica em economia. Aqui, a premissa central é que a visão de mundo condiciona fortemente o modo como o economista concebe a natureza (ontologia) dos fenômenos econômicos; a ciência econômica e sua metodologia; e o papel das evidências, como instrumentos para subsidiar as decisões teóricas (escolha de hipóteses, modelos etc.). A perspectiva metodológica que, até os dias de hoje, predomina na corrente principal da ciência econômica é a que nós chamamos de positivista. Esse termo é usado neste TD em um sentido diferente dos positivismos de Comte e do Círculo de Viena. Neste estudo, “positivismo” indica o aspecto “positivo” da ciência empírica – isto é, associado aos fatos, e não aos valores. O positivo, nesse contexto, diz respeito “ao que a realidade é”, e não “ao que ela deveria ser” – ou a como a realidade seria se ela fosse como nós quiséssemos. Enfim, o positivo opõe-se ao normativo ou prescritivo, e a dicotomia “fatos versus valores” constitui o coração daquilo que chamamos neste texto de “positivismo”. 18. As controvérsias de Cambridge giraram, por certo tempo, em torno de “fatos estilizados”, tais como a constância da relação capital-produto ou da participação relativa do fator trabalho no produto, até que finalmente se demonstrou que tais hipóteses não eram fatos de forma alguma. Porém, “na medida em que o debate acontece no contexto de uma teoria de crescimento de steady-state e que ambos os lados concordam que [tal teoria] (...) jamais é uma aproximação do mundo real, as controvérsias de Cambridge (...) não podem ser resolvidas pela pesquisa empírica” (Blaug, 1992, p. 242). TEXTO para DISCUSSÃO 24 3089 No tocante ao papel das evidências nas escolhas teóricas dos economistas, a visão positivista normalmente tende a adotar uma perspectiva verificacionista, confirmacionista ou falseabilista (falsificacionista)19. Esta última corrente parece predominar entre os economistas do mainstream até os dias atuais. O falseabilismo em economia tem tido, ao longo da história, defensores e opositores de peso. Entre os primeiros, encontra-se Blaug (1992), para quem o falsificacionismo é a única abordagem capaz de proporcionar um legítimo progresso na ciência econômica, posto que explicita um critério objetivo para se distinguir os enunciados aderentes à realidade (empiricamente adequados) dos outros. Com isso, haveria razões sólidas para se escolher certas teorias em vez de outras e, consequentemente, para acumular conhecimento confiável na ciência econômica. Entretanto, o falseabilismo é criticado por autores como McCloskey (1985), Hausman (1989, 2008), Arida (1996), Reuten (1996) e Hoyningen-Huene e Kincaid (2023). Para estes, por várias razões, a aplicação do falsificacionismo é muito difícil em economia, e a prática cotidiana da pesquisa comprova que essa abordagem metodológica raramente é aplicada. Menos afeitos a uma visão positivista e mais adeptos de um pluralismo metodológico, esses economistas e metodólogos consideram o falsificacionismo inadequado à economia, em parte por ser um critério baseado em procedimentos das ciências naturais, não das ciências sociais. Alguns desses autores, seguindo a linha de McCloskey (1985), sustentam a aplicação de uma epistemologia baseada em critérios “retóricos” para a ciência econômica, tais como a simplicidade, a coerência, a abrangência e a generalidade dos enunciados, das hipóteses e das teorias. Por seu turno, contrastando com a visão positivista, à qual adere a corrente vinculada ao projeto de pesquisa neoclássico em economia, o modo de pensar20 keynesiano tem as seguintes características essenciais: i) a incorporação do tempo, da incerteza 19. Não abordaremos cada um desses termos neste texto. Cabe apenas um esclarecimento sobre o significado de “falseabilismo” ou “falsificacionismo”. Tomados como sinônimos neste contexto, ambos os termos designam basicamente o posicionamento do filósofo austríaco Karl Popper, segundo o qual a ciência se caracteriza por produzir enunciados falseáveis, ou seja, passíveis de serem provados falsos por meio de observações empíricas ou experimentos (Popper, 2001). Se um enunciado não puder ser provado falso por esses meios e se não desempenhar uma função instrumental muito precisa num corpo teórico – tal como o papel dos enunciados básicos –, então não deve ser considerado científico. 20. Em geral, “modo de pensar” ou “modo de pensamento” – expressão usada por Chick (2003) – significa o modo como os argumentos ou as teorias são construídos e apresentados, a partir da visão mais geral sobre a realidade investigada. Trata-se, enfim, do conjunto de pressupostos epistemológicos e ontológicos sobre o grupo de fenômenos estudados – pressupostos a partir dos quais as teorias ou os argumentos científicos são construídos. O modo de pensamento é a categoria mais abrangente do estudo de uma ciência, servindo de base para a análise tanto de um corpus teórico como de um método particular usado pelo cientista. TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 31 3089 A definição do tempo está longe de ser algo simples ou consensual.24 Não obstante, Currie e Steedman (1990, p. 241) sustentam que um progresso substantivo do conhecimento em economia só pode ser obtido com o reconhecimento das dificuldades associadas à definição do tempo. Tal reconhecimento, como nos diz Madsen (2023, p. 76), estabelece as condições básicas – que podem incluir desde a escolha de uma unidade de tempo, até a aplicação de conceitos como passado, presente e futuro – para que conduzamos análises econômicas. Por exemplo, é na definição dos símbolos descritivos do tempo que podemos conceber determinada descrição como dinâmica ou estática. Em uma percepção mais geral do tempo, entendemos que nos movemos de um passado conhecido em direção a um futuro desconhecido. A causalidade está amplamente associada a essa percepção, afinal, na nossa intuitiva concepção do fluxo temporal linear, a causa precede cronologicamente o efeito. “Se você quebra a casca de um ovo e bate a gema, não há volta. Esse fenômeno tem uma contraparte na física, ou seja, a segunda lei da termodinâmica” (Madsen, 2023, p. 77). Embora essa concepção não seja a única a articular o tempo e a causalidade, podemos partir dela nesta discussão, que culminará com os fundamentos das inferências causais em macroeconometria. Keynes (1903), influenciado pela teoria desenvolvida pelo filósofo McTaggart (Madsen, 2023, p. 78), compreende que o tempo só pode ser entendido como uma variável dinâmica, já que implica em mudanças, e estas requerem que pelo menos um aspecto do presente seja diferente do passado.25 Dessa forma, dois dos pressupostos fundamentais da revolução keynesiana estão na compreensão de que o tempo é irreversível e de que o futuro é imprevisível. A partir dessa compreensão, o equilíbrio não é tendencial, muito menos necessário, o que somente seria o caso em um cenário em que não houvesse mudanças significativas e/ou que quaisquer mudanças resultassem sempre em outras mudanças perfeitamente previsíveis. A questão crucial é se há (e quais são) atividades econômicas que podem ser compreendidas no fluxo do tempo real e, mesmo assim, analisadas por meio de modelos abstratos, formulados a partir de um conjunto discreto de regras gerais (Madsen, 2023, p. 79) e atemporais. Ou ainda, se modelos gerais de equilíbrio estático, como os 24. “O que é o tempo? Comecemos perguntando aos filósofos. A maioria deles concorda que o tempo existe, mas discorda sobre o que é. Sem surpresa, os filósofos gregos antigos estavam preocupados com a questão. Tempo é uma imagem móvel da eternidade, diz Platão. Não, o tempo é o número do movimento com respeito ao antes e ao depois, diz Aristóteles. De jeito nenhum, diz Fílon, o tempo expressa apenas um número de dias e noites. Ou então, Cícero, invocando o divino: o tempo é o deus que estabelece os anos e os dias” (Madsen, 2023, p. 75, tradução nossa). 25. “A changeless state is a timeless state” (Madsen, 2023, p. 78). TEXTO para DISCUSSÃO 32 3089 de Walras e Pareto, têm alguma validade, já que nesses modelos é ausente a categoria do tempo. Em uma interpretação mais branda de Keynes, entenderíamos que o tempo envolve mudanças e que, portanto, os modelos macroeconômicos somente podem oferecer uma lista de opções plausíveis, mas nunca certezas. Já em uma interpretação, digamos, mais radical, entenderíamos que certas decisões humanas, que são “voláteis” e frutos do livre arbítrio, desarmonizam-se com aquele quadro conceptual geral de um tempo contínuo, linear e homogêneo. É dizer que, quando os agentes econômicos fazem certas escolhas (investir, não investir, comprar ações etc.), fazem-no com base em expectativas sobre o futuro. Essas expectativas baseiam-se em conhecimentos e cálculos racionais, mas também em apostas, palpites, intuições, criatividade, enfim, no rico mundo das capacidades subjetivas humanas. Nessa linha interpretativa, decisões econômicas apoiadas em expectativas impõem certas “rupturas” no modelo tradicional do tempo (contínuo, linear, homogêneo, unidirecional). Por exemplo, uma inovação técnica ou de produto que cause a abertura de um novo mercado, revolucionando hábitos e preferências das pessoas, introduz uma nova temporalidade no sistema econômico e quebra aquela continuidade monótona da concepção tradicional do tempo. Nessas condições, os modelos abstratos de equilíbrio estático dificilmente teriam alguma validade. Ou então, pelo menos, só teriam validade para descrever certos estados das relações econômicas em que, por hipótese, não ocorressem aquelas rupturas temporais. Em uma mediação de posições, que não necessariamente representa a opinião dos autores deste texto, previsões determinísticas em economia devem ser rejeitadas, embora possam oferecer insights interessantes sobre o que poderá ocorrer. É dizer, por fim, que o tempo é indispensável à economia e que, quando o tempo é incorporado à análise econômica, esta tem de levar em conta a tendência permanente de mudança dos sistemas econômicos. Vejamos agora o papel do conceito de equilíbrio em economia. Não é novidade a afirmação de que esse conceito é normalmente visto como uma linha divisória entre escolas de pensamento (Milgate, 1987; Dow, 1996). A corrente principal da ciência econômica, derivada da economia neoclássica, é identificada como a “economia do equilíbrio”, ao passo que as escolas concorrentes ao mainstream seriam “antiequilibristas”. O problema com a divisão equilíbrio/antiequilíbrio é a sua falta de clareza. É grande o número de conceitos de equilíbrio usados em teoria econômica, de tal modo que é virtualmente impossível saber qual o objetivo preciso dos ataques à economia do equilíbrio. É o equilíbrio geral ou parcial? De curto ou de longo prazo? Estático ou dinâmico? (Tieben, 2023, p. 108, tradução nossa). TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 33 3089 Tieben (2023, p. 108-109) aponta que, por muito tempo, a noção de equilíbrio era considerada indispensável à teoria econômica. Se Joan Robinson ganhou notoriedade por sua crítica ao equilíbrio (Robinson, 1974), também foi ela quem disse que “o conceito de equilíbrio, sem dúvida, é uma ferramenta de análise indispensável” (Robinson, 1962, p. 81). Por mais que, para a autora, o equilíbrio tivesse uma função meramente analítica e sua crítica se baseasse no uso irrestrito do equilíbrio geral pela escola neoclássica, pensadores como Backhouse (2004) entendem que os ataques atuais, que seguem a linha dos de Robinson, ignoram o fato de que o mainstream é muito menos centrado na teoria do equilíbrio geral do que pensam seus críticos. Ao mesmo tempo, Backhouse (2006) entende que o equilíbrio é uma característica dos modelos em questão – que não passam de instrumentos para solucionar problemas –, e não uma característica da economia real. Isto é, para Backhouse (2004, 2006), mesmo que não sejam precisamente ancorados na realidade, os modelos equilibristas podem desempenhar importantes funções analíticas e heurísticas. Evitando, por enquanto, entrar nesse debate, é importante que compreendamos as diferentes definições de equilíbrio presentes na economia e de que forma impactam os modelos e, mais adiante, o uso de evidências. Em trabalho pioneiro, Robbins (1930) diferencia o equilíbrio em posição estacionária (sem nenhuma tendência intrínseca à mudança) do equilíbrio resultante da correlação de forças (que indica forças opostas pressionando o sistema para uma posição de repouso). A macroeconomia comparada (estática por pressuposto) estuda mudanças dinâmicas comparando uma sequência de equilíbrios: a posição inicial de repouso é alterada por alguma força exógena ao sistema, então se move para uma nova posição de equilíbrio até que este seja novamente perturbado por alguma força exógena. “Tais noções mecânicas de equilíbrio excluem a dependência de trajetória [path dependency] e outras mudanças associadas à duração do tempo per se. Elas têm lugar num tempo lógico ao invés de em um tempo-calendário” (Dow, 1996 apud Tieben, 2023, p. 110, tradução nossa). Percebe-se, mais uma vez, a simbiótica relação entre tempo e equilíbrio. Não há como definir o equilíbrio sem definir o tempo, ainda que isso restrinja o tempo a uma regra ou relação lógica. Não bastasse isso, outra variável, intrinsecamente relacionada ao conceito de incerteza, aparece lado a lado às definições de tempo e equilíbrio: a expectativa. Na leitura de Bakchouse (2004, 2006), a inclusão das expectativas altera fundamentalmente o conceito de equilíbrio. Especificamente, [a noção de expectativa] anula a metáfora mecanicista como uma descrição adequada da natureza do equilíbrio. O argumento [de Keynes] é que os planos de diferentes agentes são compatíveis ou não. Não há qualquer mecanismo capaz de realinhar as expectativas, uma vez que as projeções de TEXTO para DISCUSSÃO 34 3089 diferentes pessoas sobre eventos futuros tenham se mostrado incongruentes. Em outras palavras, “gravitar” e “balancear” não são qualidades para economias que evoluem ao longo do tempo, em que pessoas têm expectativas sobre o futuro (Madsen, 2023, p. 110, tradução nossa). Como a temática das expectativas será retomada mais adiante, passemos a um problema central dos modelos de equilíbrio geral. Como argumentou Ackerman (2002), os modelos de equilíbrio, largamente utilizados por economistas, tendem a definir os seres humanos de forma atomizada, 26 isto é, a raiz do problema está nos muitos graus de liberdade individual. Levando ao limite a crítica do autor, é como se as decisões e as ações econômicas fossem tomadas em um vácuo. Entretanto, em um sistema social de tipo capitalista, as pessoas são interdependentes, tornando irrealistas as modelagens que partem de outras premissas. No modelo walrasiano, por exemplo, não há nem tempo nem pessoas reais, nem instituições (como a moeda), o que faz do equilíbrio de mercado descrito pelo autor um mero diletantismo intelectual. A ausência de realismo nos modelos do mainstream já foi abordada por Friedman (1953), para quem não cabe falar em “realismo (ou falta de realismo) dos pressupostos” dos modelos em economia. Por sua vez, a atratividade dos modelos mainstream pode estar mais em sua consistência interna do que em sua capacidade de solucionar problemas econômicos reais. Isto é, os economistas da corrente principal seriam atraídos para o uso de modelos abstratos, nos quais o equilíbrio apenas aponta caminhos para refinamentos teóricos do modelo, e não para soluções reais. Robinson (1962, p. 81) afirma que o equilíbrio, mesmo com suas limitações, é uma ferramenta de análise indispensável à economia. O que parece confirmar essa tese é que, mesmo as escolas críticas da definição de equilíbrio do mainstream (keynesiana, pós-keynesiana e austríaca 27 ) valem-se de algum tipo de equilíbrio. 28 Enfim, o equilíbrio, enquanto balizador dos modelos econômicos, é bastante problemático e está amplamente associado à definição de tempo. Quanto mais próximos 26. O pressuposto da atomização, como entendemos, envolve tanto o individualismo metodológico (indivíduos tomados isoladamente como unidades básicas de análise) quanto a independência de ação entre os indivíduos. Isso porque, ao tomar os agentes de forma isolada, como unidades básicas na análise microeconômica, e integrá-los, em um modelo macro, suas ações aparecerão como independentes. 27. Aqui não há menção à escola marxista por entendermos que esta se constitui não apenas em uma crítica de ajuste ao arcabouço teórico do mainstream econômico, mas sim em uma crítica que busca superar, sob os mais diferentes aspectos (desde a definição de valor até a compreensão dos mercados), o pensamento econômico burguês. 28. “Even the harshest critics of ‘equilibrium’, however defined, adopt some kind of alternative equilibrium construct, which may not be called equilibrium but does provide a way for theories to deal with the complexities of actual economic systems” (Madsen, 2023, p. 117). TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 35 3089 de uma definição de tempo real, mais distantes estaremos de modelos de equilíbrio e, quanto mais próximos de uma definição de tempo meramente lógica, mais próximos estaremos daqueles modelos. Nesse sentido, a utilização dos conceitos de incerteza (keynesianos,29 pós-keynesianos30 e austríacos31) ou de risco quantificável,32 na parametrização de modelos, estará estritamente vinculada às definições anteriores de tempo e equilíbrio. Como vimos anteriormente, a definição de incerteza em economia é comumente associada a Knight (1921) e Keynes (2014) e classificada como incerteza radical. Entretanto, deve-se destacar que, se para Knight a incerteza era uma exceção, para Keynes ela seria a regra. De modo divergente da compreensão Knight-Keynes, o mainstream compreende a incerteza como uma variância mensurável, derivada do comportamento estritamente racional dos agentes econômicos. Esse tipo de racionalidade é um pressuposto dos mais diversos modelos incluídos no que estamos chamando aqui de mainstream. Dessa forma, se a incerteza é associada à variância e essa variância é conhecida, não há, de fato, incerteza, mas um grau de certeza reduzido – um risco calculável. Considerando as distinções expostas, Dow (2023) atribui, a partir de uma revisão da literatura, ao nível ontológico da construção dos diversos sistemas teóricos em economia os qualificativos de fechados (mainstream) ou abertos (Knight e Keynes). A incerteza epistemológica na tradicional economia mainstream é representada pela variância estatística, isto é, pelo que é visto como uma medida objetiva do mundo real. O conhecimento é incerto apenas porque há uma aleatoriedade (conhecida) na natureza. (…) A teoria da utilidade esperada subjetiva [SEU – sigla em inglês] descreve a formação de expectativas em termos de distribuições de probabilidade quantificadas, ainda que com base em crenças e como um entendimento diferente acerca da probabilidade. (…) Sendo representadas por distribuições de probabilidade quantificadas, as crenças conformam-se a uma hipótese de trabalho de que o sistema real é fechado. 29. Ver Keynes (2014). 30. “In Post-Keynesian macroeconomics in particular, uncertainty refers to an inability to quantify risk as the general case for expectations-formation as well as to uncertainty as input into structural forces. Uncertainty of some degree is regarded as the norm rather than an aberration or an exogenous shock” (Dow, 2023, p. 85). 31. Ver Backhouse (2006). 32. “While conflating uncertainty with quantifiable risk in this way has been the traditional mainstream approach to uncertainty, it has been modified to encompass uncertainty variously as asymmetric information with respect to that variance, or as an exogenous shock” (Dow, 2023, p. 85). TEXTO para DISCUSSÃO 36 3089 (...) Uma vez que se assume que o sistema econômico real é aberto de alguma forma, a variância estatística torna-se inadequada para medir a incerteza ontológica [Knight-Keynes]. A criatividade e a evolução das instituições, por exemplo, alteram o leque de possiblidades dos resultados futuros de modo indeterminado, de sorte que, na ausência de processos estacionários, as distribuições de frequência são inadequadas como guia para as expectativas. Em geral, como Keynes (1921) argumentou, se os sistemas reais são orgânicos ao invés de atomísticos, então o conhecimento é incerto no sentido não frequentista de que os argumentos são em geral não conclusivos (Dow, 2023, p. 88-89, tradução nossa). Um exemplo claro de sistema ontologicamente fechado é a teoria das expectativas racionais, referência da macroeconomia mainstream,33 desde sua elaboração teórica por Robert Lucas. A partir da compreensão de uma formação de expectativas racionais, Sargent (1984) argumenta que apenas decisões inesperadas de política monetária são capazes de alterar, temporariamente, o comportamento dos agentes econômicos. Isso poderia, contudo, levar a múltiplos equilíbrios durante o processo de ajuste do comportamento dos agentes, o que é logicamente contrário à teoria de Lucas (1976, 1980). Não obstante, “macroeconomistas mainstream têm se debruçado cada vez mais34 sobre a possibilidade de indeterminação decorrente da possibilidade de múltiplos equilíbrios de expectativas racionais, uma tendência estimulada pela experiência da crise financeira [de 2007-2008]” (Dow, 2023, p. 92). É preciso destacar que a evolução dos modelos mainstream no que tange à abordagem da incerteza esteve sempre limitada pela epistemologia dos sistemas fechados. Isto é, os recentes desenvolvimentos, mesmo que interessantes, seguem vinculados a uma definição de incerteza equivalente a risco quantificável. Dow (2023, p. 94) aponta que, diferentemente da abordagem mainstream, as abordagens austríacas (empreendedorismo criativo), institucionalistas (evolução das instituições), pós-keynesianas (indeterminação como regra) e marxistas (luta de classes) podem ser identificadas com uma epistemologia de sistemas abertos. É dizer que, nos termos da autora, poderíamos diferenciar a heterodoxia da ortodoxia a partir da definição ontológica dos sistemas (abertos e fechados). Embora essa leitura não seja única, 33. “The focus of these models is equilibrium identified with the continual fulfilment of rational expectations even through economic fluctuations. Empirical testing and technical advance promote improvements to the models to be better analogues, just as observation and market competition induce economic agents to improve their own expectation formation in a manner consistent with economists’ models” (Dow, 2023, p. 91). 34. Para exemplos de modelos que incorporam múltiplos equilíbrios, ver Dow (2023, p. 91-93). TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 37 3089 para o que nos cabe nesta seção, a definição de causa e efeito estará intrinsecamente vinculada à opção metodológica dos economistas. Tempo, equilíbrio, expectativas e incerteza, longe de serem definições consensuais entre economistas, acabam por estabelecer a estrutura dos modelos. Então, depreende-se que relações de causa e efeito variarão sempre de acordo com essas definições. Mais ainda, a relação paramétrica estabelecida entre as variáveis de um modelo, a partir do uso da econometria, também estará intimamente vinculada às definições apriorísticas de tempo, equilíbrio e incerteza. 6.2 Filosofia da causalidade e ciência econômica Na ciência econômica, desde seu alvorecer, a questão da causalidade figura com proeminência. John Stuart Mill já defendia que a verdadeira explicação científica de um processo econômico necessita de uma interpretação acerca das causas básicas desse processo, a despeito do fato de que o grau de confiabilidade das inferências causais em economia seria menor do que, por exemplo, na física. Dado o caráter “perturbado” das relações econômicas reais, nas quais atuam muitas forças e tendências dificilmente detectáveis pelo pesquisador, as relações de causalidade são estabelecidas de forma inexata – assim acreditava Mill. Porém, para esse autor inglês, tanto na economia como na física, a estrutura de uma explicação científica segue o mesmo estilo ou padrão geral de argumentação, baseado em leis ou premissas abstratas que refletem certas forças, propensões ou tendências de natureza causal. O conceito de causalidade em economia tem uma longa história. Esse é um tema que, como tantos outros tratados neste estudo, situa-se na fronteira da filosofia com a ciência econômica e “orbita” de perto a preocupação central da nossa pesquisa: a questão do uso de evidências científicas nas políticas macroeconômicas. Na ciência, assim como no senso comum, explicar um fenômeno é dizer por que ele ocorre, ou seja, é de alguma forma determinar suas causas ou razões. Por isso, com frequência, as explicações causais são consideradas explicações científicas por excelência, embora alguns cientistas e filósofos considerem a causalidade como um mero recurso heurístico para as descobertas científicas.35 Além disso, no campo da avaliação de políticas públicas, é fundamental a construção de enunciados bem fundamentados 35. Planck (1963, p. 73) defende que a lei da causalidade seria um princípio heurístico, uma espécie de “bússola” que ajuda o cientista a se orientar em meio a um emaranhado de ocorrências. Nesse entendimento, o princípio da causalidade serviria apenas como um instrumento para a pesquisa científica atingir resultados férteis (Adler, 1990, p. 128). Por sua vez, adotando um posicionamento mais radical, Russell (1918) chega a afirmar que a noção de causa está ultrapassada e deveria ser banida da ciência. TEXTO para DISCUSSÃO 38 3089 sobre os efeitos (possíveis ou reais) dessas políticas. De todo modo, tanto no campo da ciência como no das políticas públicas, temos aqui ao menos dois problemas fundamentais: i) quais tipos de evidências apoiam epistemicamente as inferências e os enunciados causais?; e ii) quais são os métodos adequados para isso? Maziarz (2020) fornece uma excelente contribuição sobre esse assunto nos campos da economia e das políticas econômicas. Em particular, esse autor nos informa sobre as condições sob as quais as evidências causais – sintetizadas pelos principais métodos e técnicas usadas pelos economistas do mainstream – podem justificar epistemicamente análises e proposições de política econômica. Dito de outro modo, seu livro intitulado The philosophy of causality in economics busca respostas para a seguinte pergunta: sob quais condições as inferências causais constituem evidências sólidas para guiar políticas econômicas? Além disso, essa obra conecta, de modo claro e sistemático, temas sumamente relevantes para esta pesquisa, tais como o uso de evidências em ciência econômica, o método em economia, a relação desse método com um pano de fundo filosófico-epistemológico mais amplo e a relação disso tudo com as políticas macroeconômicas. Por essas razões, a análise procedida nesta seção baseia-se fortemente nesse autor polonês. Os economistas dificilmente explicitam os conceitos teóricos de causalidade que têm em mente em suas pesquisas, embora frequentemente façam inferências e enunciados causais. Então, uma das tarefas da filosofia e da epistemologia da ciência econômica consiste em trazer à tona e avaliar os pressupostos filosóficos dos métodos e das técnicas causais dos economistas. Em particular, esses pressupostos devem ser apreciados em relação à sua coerência com as diferentes famílias teóricas da causalidade, para então se avaliar sua adequação para a política econômica. Maziarz (2020) seleciona cinco grandes “famílias” de teorias filosóficas da causali - dade: i) regularidade; ii) probabilidade condicional; iii) contrafatualidade; iv) mecanismo; e v) intervenção ou manipulabilidade. Com base nessas teorias – que não esgotam toda a secular e intrincada discussão filosófica em torno da causalidade –, ele procede a uma análise dos enunciados causais feitos pelos economistas. Vejamos a seguir, de forma panorâmica, como essas cinco famílias teóricas da causalidade são tradicionalmente aplicadas na análise e na política econômicas. 6.2.1 Regularidade A teoria mais tradicional da causalidade, que é propagada desde pelo menos o século XVIII por Hume (1990, p. 457-485, passim), é a da regularidade. Para esta, as relações causais se definem em termos de regularidades empíricas observáveis. TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 39 3089 A causalidade aqui se reduz a conjunções espaço-temporalmente constantes entre dois eventos. O evento A é causa do evento B se, e somente se (necessariamente), A precede B no tempo e há entre esses eventos uma contiguidade espacial – de fato, Hume (1990) diz que causa e efeito estão constantemente conjugados. Em outras palavras, há uma conexão espaço-temporal necessária entre A e B.36 As teorias da regularidade são pressupostas em geral pelos seguintes métodos utilizados em economia: i) econometria orientada teoricamente (por exemplo, modelos de equações estruturais); e ii) estudos cliométricos da história econômica. Com esses métodos, pretende-se revelar regularidades empíricas, que supostamente instanciam leis da natureza ou conexões necessárias entre certos fenômenos, fatos, eventos, objetos etc. Na econometria orientada teoricamente, temos um tradicional método de pesquisa em economia, consolidado a partir dos anos 1930 com os trabalhos da Comissão Cowles. De acordo com esse método, a teoria econômica fornece as relações causais que serão operacionalizadas por estudos econométricos, que procurarão estimar os valores de parâmetros das relações. As relações causais e suas respectivas “intensidades” seriam assim medidas pela significância dos parâmetros. A cliometria, por sua vez, usa vários métodos para descobrir conexões estáveis entre eventos históricos – isto é, associados espaço-temporalmente. Tipicamente, usam-se bases de dados quantitativos nos estudos cliométricos. Porém, mais recentemente, têm sido usadas também bases de registros narrativos, os quais são transformados em estatísticas. 6.2.2 Probabilidade condicional Para esta abordagem da causalidade, as causas alteram as probabilidades condicionais dos efeitos. Suppes (1970) é um dos expoentes de tal visão, que abriga, por exemplo, as chamadas teorias bayesianas. As teorias probabilísticas da causalidade demandam um método para se mostrar a dependência probabilística entre a variável-causa e a variável-efeito, uma vez controlados os chamados “fatores de confundimento”. 36. Embora o conceito clássico de causação como regularidade seja atribuído a Hume, é certo que, para esse autor escocês, as relações de causa e efeito não podem ser conhecidas. Na verdade, ele toma o termo “causa” como expressão de um sentimento que a experiência da regularidade produz em nós. Porém, não podemos conhecer, com certeza, nem tampouco garantir ou justificar epistemicamente que esse sentimento de regularidade corresponda a uma conexão necessária na natureza das coisas. Sobre o ceticismo de Hume acerca do conhecimento da causação, ver Broadbent (2022). TEXTO para DISCUSSÃO 40 3089 Essa concepção é assumida por estudos econométricos de séries temporais que procuram inferir relações de causalidade – por exemplo, os métodos de Granger37. É pressuposta também em modelos a-teóricos cross-section, que produzem correlações, as quais são, por sua vez, interpretadas causalmente com base no conhecimento prévio que se tem sobre as relações de precedência temporal entre as variáveis envolvidas. Em modelos do tipo cross-section, em que as variáveis não são indexadas ao tempo – ao contrário dos modelos que usam séries temporais –, os economistas em geral atribuem ordem temporal com base no conhecimento acerca dos fenômenos representados pelo conjunto de dados e de como esses dados foram gerados. Por exemplo, um estudo propõe-se a avaliar a relação entre o peso do indivíduo ao nascer e sua renda quando adulto. Embora as variáveis não sejam indexadas ao tempo, a conjectura razoável nesse contexto é que o peso do indivíduo foi registrado antes de sua renda. Assim, tem-se uma ordem de precedência temporal, que permite a conjectura de que o peso ao nascer (p) e a renda quando adulto (r) figuram numa relação causal p → r que produz uma correlação positiva. 6.2.3 Contrafatualidade As teorias da contrafatualidade explicam que as causas são condições que “fazem a diferença” para os efeitos, de forma que, se a causa não tivesse ocorrido, o efeito não teria ocorrido. Essa ideia básica já estava presente em Hume (século XVIII), mas só viria a ser desenvolvida formalmente com os trabalhos do filósofo norte-americano David Lewis, a partir dos anos 1970 (Lewis, 1973). Um exemplo intuitivo de uma interpretação causal contrafatual é “beber um copo d’água causou a eliminação da minha sede”, que equivale a dizer que “se eu não tivesse bebido um copo d’água, minha sede não teria sido eliminada”. Destacam-se aqui basicamente dois conjuntos de métodos: i) contrafatuais de Galileu (modelos teóricos ou modelos econométricos interpretados contrafatualmente, quando neles se simula “o que teria acontecido” caso uma ou outra condição fosse diferente); e ii) por meio de estudos de casos, estabelecem-se enunciados causais singulares e se definem causas como as condições que levaram à ocorrência do caso em questão. Para Mariarz (2020, p. 197), os contrafatuais de Galileu e os estudos de casos são insuficientes para uma avaliação completa do sucesso ou insucesso de uma política 37. O método de Granger será abordado na seção 6.3. TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 47 3089 A compreensão dos limites da causalidade de Granger teria forçado, mais tarde, a adoção pelos economistas de parâmetros estruturais aos modelos vectorial auto-regressive (VAR). Os modelos structural vectorial auto-regressive (SVAR) tornam-se, então, dominantes na abordagem novo-clássica. Por fim, Vercelli (2023) aponta para os modelos de causas estruturais (SCM), propostos por Pearl (2009) e construídos a partir dos conceitos de correlação e outros afins, tais como os de dependência, probabilidade e regressão. Pearl fornece-nos uma linguagem para entender a causação por meio dos chamados directed acyclic graphs (DAG). Esses artefatos nos ajudam a entender as dependências contrafatuais envolvidas nas relações causais, no seguinte sentido: o que teria acontecido se tivesse havido uma intervenção que alterasse algum valor específico de alguma variável? 43 Tais modelos, de acordo com Vercelli (2023), são construídos a partir da efervescente literatura em inteligência artificial (IA) e machine learning (ML) e elevam o papel dos “modelos gráficos causais como instrumentos essenciais de uma análise causal minuciosa, por meio do fornecimento de uma rigorosa sintaxe e semântica a essa linguagem [causal]” (Vercelli, 2003, p. 133, tradução nossa). Apesar do número crescente de pesquisadores interessados nesses modelos, estes seguem com aplicações empíricas bastante limitadas. Entretanto, acredita Vercelli (2023) que sua estrutura colabora para uma “visão teórica pluralista da causalidade”. Nas seções 7 e 8, bem como nas considerações finais deste estudo, adotaremos um posicionamento favorável a uma perspectiva pluralista moderada com respeito à aplicação do conceito de causalidade em economia e em política macroeconômica. 7 COMO AS DIVERSAS EVIDÊNCIAS CAUSAIS PODEM SERVIR ÀS DECISÕES DE POLÍTICA ECONÔMICA? Na seção 6.2 deste texto, analisamos brevemente cinco famílias de teorias filosóficas da causalidade e suas relações com métodos de análise econômica. É chegado o momento de estender aquela análise, com vistas à avaliação dos usos que os economistas fazem dos diferentes métodos de inferência causal para subsidiar suas decisões de política macroeconômica. 43. Com frequência, estamos interessados em predizer o valor de Y = y, dado que fixamos um valor para X = x, ou seja, dado que interviemos para fixar o valor de x. Pearl escreve P (Y = y/ do(X = x) para caracterizar essa probabilidade. Quando fixamos o valor de X, intervimos artificialmente no sistema causal, forçando a variável a assumir um valor que ela não teria assumido numa observação natural do sistema. Assim, o “valor da variável é determinado completamente por nossa intervenção, sendo que a influência causal de outras variáveis é completamente cessada” (Hitchcock, 2021, p. 18). TEXTO para DISCUSSÃO 48 3089 O primeiro aspecto a se observar é que as diferentes famílias de teorias da causalidade podem guardar semelhanças entre si. Por exemplo, aproximam-se as teorias da regularidade e da probabilidade, sendo aquela talvez um caso particular desta (regularidade é probabilidade igual a um). Por sua vez, as teorias da contrafatualidade e da manipulabilidade também se assemelham. 44 Assim, um mesmo método ou técnica para se inferir causalidade pode radicar em mais de uma abordagem filosófica da causalidade. Portanto, dada a pluralidade de teorias causais e de suas semelhanças em diferentes graus, pode ser uma tarefa difícil para o economista identificar os pressupostos de cada método ou técnica de inferência causal utilizada. Felizmente, não é necessário que os profissionais da economia se engajem em complicada análise filosófica a fim de usarem seus métodos causais, seja na pesquisa econômica pura, seja na política. Eles podem usar, às vezes, em um único contexto de pesquisa, vários métodos de pesquisa e de inferência causal, os quais podem indicar várias abordagens teóricas de causalidade. Ou seja, podem adotar uma atitude pluralista, em que diferentes métodos de pesquisa pressupõem diferentes visões acerca da causalidade. Em princípio, o pluralismo causal não é necessariamente ruim, muito pelo contrário: considerando-se que os sistemas econômicos são complexos, em que vários tipos de relações operam ao mesmo tempo, parece prudente a adoção de um posicionamento pluralista em relação à causalidade. Os vários métodos disponíveis, quando usados isoladamente, terão naturalmente seus limites e vantagens no que concerne à revelação de relações causais no sistema econômico. No entanto, dificilmente o uso de um único método permitirá uma visão ampla do sistema, de modo a daí derivarem-se diagnósticos abrangentes em relação aos problemas que a política econômica será chamada a resolver. Uma espécie de corolário do pluralismo causal é que, em última análise, não há o “melhor” método, em um sentido absoluto, para se descobrir a estrutura causal de um fenômeno. Uma postura filosoficamente sensata aqui é supor que cada concepção de causalidade saliente um (ou alguns) aspecto(s) relevante(s) das complicadas redes causais que devem atuar no mundo real. O maior problema para o analista ou gestor da política macroeconômica não é o de ser incapaz de tomar uma decisão diante de um número indefinido de possibilidades 44. Perguntar o que aconteceria se manipulássemos o valor de uma variável equivale a raciocinar de modo contrafatual. TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 49 3089 de uso de métodos de inferência causal, tal qual a alegoria do asno de Buridanus45. O maior problema consiste em, tomando sua decisão, não o fazer a partir de uma atitude prudente e responsável quanto ao uso desses métodos. Essa atitude exige um conhecimento dos pressupostos filosóficos dos diferentes métodos de inferência causal. A negligência em relação a esses pressupostos frequentemente leva o policymaker a confusões e mal-entendidos sobre as potencialidades e as limitações dos referidos métodos e, consequentemente, a decisões equivocadas de política econômica. Uma regra de bolso para se evitarem os problemas supramencionados é sintetizada no seguinte dito: “não traduzirás enunciados causais” (Maziarz, 2020, p. 44-45), ou seja, não se deve tomar um enunciado causal para usá-lo em desacordo com os pressupostos da evidência que o apoia. Por exemplo, se a evidência causal serve apenas para apoiar um enunciado causal que está de acordo com a visão probabilística, mas o policymaker decide intervir mudando os termos dos enunciados causais, então ele compromete-se a traduzir o enunciado causal de um entendimento probabilístico em uma noção manipulacionista. Essa tradução, sem um apoio empírico adicional, é injustificada (Maziarz, 2020, p. 45). Da mesma forma, se um economista desenha uma pesquisa usando um método contrafatual de Galileu, ele não pode, a partir desse método, extrapolar conclusões para prever os efeitos de determinada intervenção de política econômica, porque tal extrapolação não se apoia nos pressupostos do contrafatual de Galileu. Previsões decorrentes de intervenções de política requereriam conhecimentos adicionais, de natureza teórica e/ou empírica, sobre as condições em torno da política em pauta, de modo que fossem controlados os fatores de confundimento. Em tese, as evidências capazes de apoiar confiavelmente uma política pública são aquelas que garantem a invariância da relação causal sob uma intervenção ou manipulação. Para produzirem tais evidências, os economistas precisariam conhecer a estrutura causal real dos fenômenos estudados a fim de ter certeza de que a intervenção de interesse não mudaria essa estrutura. O melhor meio de se obter esse conhecimento, 45. A alegoria, atribuída ao lógico medieval Buridanus, refere-se a um asno faminto que, colocado em face de dois maços de capim igualmente apetitosos, morreu de fome, porque foi incapaz de decidir qual dos dois maços comer em primeiro lugar. Entre outras coisas, essa alegoria ilustra bem a que absurdos podem nos levar raciocínios analógicos para explicar operações mentais – envolvidas em um processo de decisão pessoal, por exemplo –, com base em comparações com propriedades dos corpos físicos (o equilíbrio estável dos pesos iguais de uma balança). TEXTO para DISCUSSÃO 50 3089 tanto quanto seja possível em economia, é por meio de estudos experimentais em linha com a abordagem manipulacionista. Aqui é preciso fazer um esclarecimento e uma advertência. Uma visão tradicional acerca do uso de evidências em políticas públicas atribui aos estudos experimentais o título de “padrão-ouro” metodológico para as análises de política, tanto para subsidiar as decisões como para avaliar as políticas. Porém, diz-se que os métodos experimentais são os melhores, no sentido preciso em que permitam a aleatorização dos fatores de confundimento, de modo que a diferença entre os grupos de controle e tratamento se deva exclusivamente (ao menos em tese) à intervenção. Porém, em economia, as técnicas usadas para se proporcionar essa aleatorização, por mais criativas e rigorosas, jamais serão, na prática, inteiramente bem-sucedidas na consecução desse objetivo.46 Assim, pode ser que um economista, fiando-se na excelência dos atributos teóricos de um experimento aleatório controlado (um RCT) para decidir sobre um conjunto de políticas econômicas alternativas, faça inferências causais inválidas com o uso desse método por ter superestimado o controle dos fatores de confundimento de seu desenho de pesquisa. Concentrando sua análise apenas no experimento, ele corre o risco de cair em equívocos em suas decisões de política. Melhora faria se, em vez de confiar apenas nas propriedades teóricas ideais de seu método, adotasse uma atitude mais “pluralista” e lançasse mão de um conjunto de métodos que “prometessem menos” que os experimentos controlados, mas que, cooperando entre si, produzissem, no conjunto, um conhecimento mais ajustado ao contexto dos problemas e das decisões que o economista tenha de enfrentar. Fato é que, na política econômica real, é impossível eliminar totalmente o risco de influência de fatores de confundimento. Por essa razão, o policymaker pode se beneficiar das evidências causais produzidas por métodos teoricamente mais frágeis que os métodos experimentais, sobretudo quando os métodos escolhidos são usados de modo complementar e cooperativo. Por exemplo, métodos não experimentais, observacionais, tais como análises correlacionais, podem ser muito úteis para se tomar decisões em políticas públicas. Um exemplo dado por Maziarz (2020, p. 199) é o de um estudo correlacional para a tomada de decisões em que se usa a cor de um carro para se predizer a probabilidade de acidentes. Companhias de seguro observam sistematicamente que há uma alta correlação entre a cor vermelha de um carro e seu risco de 46. Sobre os problemas em que se pode incorrer na aplicação prática dos experimentos aleatórios controlados em políticas públicas, ver Scriven (2008). Sua crítica enfoca aspectos metodológicos, epistemológicos e filosóficos, com destaque para a inadequação desse método para revelar certas relações causais ocultas sob a superfície dos fenômenos envolvidos. TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 51 3089 envolver-se em acidentes. Independentemente das possivelmente intrincadas relações de causação atuantes aqui, essa observação correlacional é suficiente para a tomada de decisões bem-informadas da parte dos analistas e dos gestores das políticas de seguro de automóveis. Provavelmente, não é o vermelho de um carro que causa o acidente. Talvez haja alguma característica psicológica do dono do carro, que cause tanto o comportamento de direção perigosa – que leva a um alto risco de acidentes – quanto a preferência pela cor vermelha. No entanto, no contexto de uma companhia de seguros, que procura precificar seus serviços, não importa desvendar as causas do fenômeno, basta o conhecimento das correlações para que se tomem decisões razoavelmente acertadas em relação à precificação de seus produtos. De modo semelhante, os policymakers podem usar correlações para guiar suas ações nas políticas públicas, dentro de certos limites e sempre de modo amparado por uma rede de conhecimentos causais, mutuamente complementares e derivados de outros métodos. Da mesma forma, contrafatuais de Galileu e estudos de casos podem fornecer subsídios preliminares para a análise da política, ainda que não se prestem a uma análise completa e confiável acerca dos efeitos de uma intervenção de política. Entre os contrafatuais de Galileu incluem-se desenhos de pesquisa que procuram estimar o que aconteceria com certa variável se determinado programa (ou política) não tivesse sido implementado. Um exemplo de análise útil às políticas públicas é o dos estudos de casos process-tracing ou process-induction, que podem suscitar insights teóricos e hipóteses acerca dos mecanismos causais no fenômeno estudado.47 Por fim, economistas não deveriam ignorar os avanços epistemológicos nas outras disciplinas e ciências sociais. Por exemplo, nos últimos trinta anos, progressos têm sido experimentados a partir da obra de King, Keohane e Verba (1994). Na senda aberta por esses três autores, desenvolve-se uma pluralidade de lógicas inferenciais causais em sociologia e ciência política. Seria muito interessante para a economia e para a política econômica que esse debate nas ciências sociais fosse assimilado pelos economistas. 47. Conquanto não sejam muito populares em políticas econômicas, os estudos de casos são bastante usados na análise de políticas sociais em geral, inclusive com propósitos de avaliação causal. Por exemplo, De Graaf (2007) defende o método dos estudos de casos para a análise das causas da corrupção. Tais estudos podem levantar uma massa de dados e informações que, uma vez organizados e analisados, poderão fazer avançar o conhecimento causal sobre o fenômeno da corrupção. Aqui, o estabelecimento de analogias entre os diferentes casos pode ser fundamental. TEXTO para DISCUSSÃO 52 3089 8 UM RESUMO DOS POSICIONAMENTOS DEFENDIDOS NESTE TEXTO Este estudo estrutura-se a partir de alguns temas-chave, os quais, por sua vez, são referidos por seis perguntas orientadoras, descritas na introdução. Os temas são os seguintes: i) tipos de enunciados aos quais se aplica a avaliação da adequação empírica em ciência econômica; ii) papéis da formalização da linguagem e da mensuração das grandezas econômicas no uso das evidências e no progresso científico em economia; iii) modo como as escolas de pensamento econômico podem afetar as formas de uso de evidências e de avaliação da adequação empírica nessa ciência; iv) fatores contextuais que podem condicionar as escolhas dos economistas a respeito de suas decisões teóricas; v) conceito de causalidade em economia, incluindo relações da causalidade com certos métodos de análise econômica e certas decisões de política macroeconômica; e vi) inspirações que a metodologia e a HPE podem dar à governança do uso de evidências para as políticas macroeconômicas. Nesta seção, daremos destaque a posicionamentos e resultados desta pesquisa, relacionando alguns dos temas mencionados. No que concerne à adequação empírica, resumimos assim os nossos resultados: i) a experiência que valida globalmente uma teoria científica tem de ser concebida lato sensu, incluindo não apenas dados empíricos observáveis e quantificáveis, mas também o variadíssimo mundo da experiência humana do senso comum; ii) a teoria tem de ser avaliada em termos agregados, e não somente a partir de suas hipóteses ou predições singulares; por exemplo, uma teoria que tenha uma ou outra hipótese empiricamente refutada ainda pode ter uma boa resiliência contra anomalias, porque seu núcleo teórico (o “cinturão protetor” de Lakatos) é bastante sólido e aceito pela comunidade de cientistas; iii) nem sempre a experiência, mesmo concebida de forma abrangente, é capaz de discriminar explicações científicas conflitantes – para se efetivar essa discriminação, serão necessários adicionalmente outros critérios e valores; e iv) os testes empíricos propriamente ditos costumam aplicar-se a subconjuntos mais ou menos restritos – e não a enunciados isolados, testáveis individualmente – de uma macrorrede de enunciados científicos. Boa parte da seção 4.2 buscou uma resposta para a questão acerca da caracterização mais adequada para os conjuntos de enunciados, em ciência econômica, destinados à avaliação empírica. Nossa reflexão situa o dito conjunto de enunciados em um nível de análise entre duas perspectivas de certa forma opostas. Em uma dessas perspectivas, estão certos conjuntos amplos de enunciados, tais como cosmovisões, modos de pensamento, paradigmas kuhnianos, programas de pesquisa lakatosianos etc. Esses conjuntos situam-se em um registro ontológico da realidade, provendo uma visão maximamente abrangente sobre os fundamentos da realidade econômica. Dado seu caráter fundamentalíssimo, TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 53 3089 as cosmovisões e seus congêneres não se prestam à adequação empírica; antes, elas estabelecem as bases epistemológicas para que os enunciados científicos sejam empiricamente avaliados. No outro extremo da “escala” das perspectivas analíticas, situam-se os enunciados singulares, como as proposições e as hipóteses individuais, que procuram descrever fatos e relações particulares. Nesse nível, dificilmente os testes empíricos serão suficientes para se decidir sobre a adequação empírica de uma explicação científica acerca de determinado âmbito de fenômenos. Como se disse na seção 4.2, há muitas outras condições envolvidas na avaliação da adequação empírica, além do simples teste empírico de enunciados singulares de uma teoria. A nosso ver, a solução para o problema da avaliação da adequação empírica em ciência econômica encontra-se em um nível que poderíamos chamar de “mesoanalítico”, no qual estão certos conjuntos de enunciados que foram caracterizados de modo diverso na literatura em economia. Seguindo a argumentação de Vercelli (1991) e de Hoyningen-Huene e Kincaid (2023), que aduzem sólidas razões metodológicas e históricas, sustentamos os paradigmas de orientação e os modelos heurísticos como as unidades empiricamente avaliáveis na ciência econômica. Além disso, defendemos que os modelos heurísticos e os paradigmas de orientação têm um valor mais prático do que alético. Quer dizer, a avaliação empírica desses conjuntos de enunciados está mais relacionada a saber se eles são úteis para a resolução de problemas que a saber se são verdadeiros ou falsos. Na história da ciência econômica, modelos heurísticos e paradigmas de orientação têm sido usados frequentemente por economistas para a solução de problemas. No que concerne à formalização de sua linguagem, ao menos na tradição da teoria neoclássica do equilíbrio – que inclui os modelos de equilíbrio geral novo-clássicos –, sustentamos que essa formalização reflete um desejo do mainstream da ciência econômica de enquadrá-la cada vez mais nos padrões metodológicos das ciências naturais, especialmente da física. Entretanto, verifica-se que essa tentativa de aproximação metodológica com a física não tem levado a um aumento significativo das taxas de acerto das predições na ciência econômica, sobretudo quando os alvos dessas predições são os movimentos dos grandes agregados macroeconômicos. Tampouco o avanço das técnicas econométricas nos últimos anos parece ter redundado em melhoria significativa daquelas taxas. Poderíamos supor, a partir dos elementos apresentados ao longo do texto, que parte do insucesso preditivo em economia esteja vinculada à prevalência de uma atitude cientificista, no sentido de Hayek (1989) (seção 4.3). Em outras palavras, a economia mainstream pode estar tentando aplicar os hábitos de pensamento da física, de forma acrítica e mecânica, ao âmbito de fenômenos econômicos. Assim, a crescente TEXTO para DISCUSSÃO 54 3089 formalização da linguagem em economia e complexificação das técnicas econométricas refletiria, em parte, uma atitude cientificista. Esta, em vez de proporcionar um genuíno avanço do conhecimento, confundiria esse avanço com o aumento do grau de formalização da linguagem, transformando a economia cada vez mais em um jogo linguístico fechado e insensível ao papel das evidências (Summers, 1991; Romer, 2016; Fiani, 2022). Um corolário da formalização crescente, podemos intuir, é também a formação de economistas cada vez mais distantes do “problema econômico” e mais próximos do “problema matemático”. Paralelamente ao problema da formalização, há o da mensuração. Pode ser que, em modelos econômicos, certos fatores sejam considerados importantes para uma explicação, não porque tenham sido previamente selecionados pela teoria, mas apenas porque estejam disponíveis à mensuração. Afinal, em economia, pode ser muito difícil a mensuração de certas grandezas. Fecha-se o círculo vicioso: variáveis de difícil mensuração – embora relevantes para a explicação – são omitidas; por seu turno, variáveis omitidas levam a uma deficiente mensuração do fenômeno. Em suma, sustentamos que as dificuldades de mensuração das variáveis econômicas problematizam adicionalmente o papel das evidências no progresso do conhecimento científico em economia. Na seção 5, procuramos fundamentar uma discussão sobre o papel das evidências na estrutura de uma explicação científica em economia. A premissa central é que a visão de mundo (ou o modo de pensamento) do economista condiciona fortemente seu modo de conceber: i) a ontologia dos fenômenos econômicos; ii) a metodologia da ciência econômica; e iii) o papel das evidências nas escolhas teóricas do economista. A grande visão metodológica que, até os dias de hoje, predomina na corrente principal da ciência econômica é a que nós chamamos de positivista. O positivismo em economia exalta o aspecto “positivo” dessa ciência empírica – isto é, os fatos econômicos, como contrapostos de certa forma aos valores. No tocante ao papel das evidências nas escolhas teóricas dos economistas, a visão positivista normalmente tende a adotar uma perspectiva verificacionista, confirmacionista ou falseabilista (falsificacionista) popperiana. Como vimos na seção 5, o falseabilismo se destaca como critério normativo para o uso de evidências, ao menos na corrente principal da ciência econômica. Blaug (1992), por exemplo, opina que o falsificacionismo seria a única abordagem capaz de proporcionar um legítimo progresso na ciência econômica, posto que apenas ele explicita um critério objetivo para se identificarem os enunciados empiricamente adequados. Contudo, afastando-nos do posicionamento de Blaug e nos aproximando da visão de metodólogos como Arida (1996) e Hausman (1989; 2008), defendemos a insuficiência do TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 55 3089 falsificacionismo como critério metodológico para se avaliar o progresso do conhecimento científico em economia. Dois argumentos apoiam nosso ponto de vista: i) a aplicação do falsificacionismo é muito difícil na prática real e cotidiana da pesquisa econômica, o que se reforça pelo fato histórico de que pouquíssimas controvérsias teóricas em economia têm sido resolvidas pelo critério falsificacionista; e ii) o falsificacionismo tem uma aplicação muito restrita à economia, em parte porque é baseado em procedimentos das ciências naturais. Assim, insistir na exclusividade do falsificacionismo em economia significa uma atitude “cientificista” no sentido de Hayek (1989). Por seu turno, contrastando com a visão positivista, à qual adere a corrente vinculada ao projeto de pesquisa neoclássico em economia, o modo de pensar keynesiano incorpora a incerteza e o conhecimento parcial à análise econômica; abre as portas para certa subjetividade na caracterização do comportamento dos agentes econômicos; opõe-se ao atomismo ou individualismo metodológico, adotando uma perspectiva organicista do sistema econômico; e rompe com certas dicotomias típicas do paradigma neoclássico- -positivista. Além disso, ao contrário do positivismo, que acredita em uma forte unidade essencial entre os métodos de todas as ciências – sejam elas físicas, naturais, sociais ou humanas –, a visão baseada no conceito de incerteza no sentido Knight-Keynes lança dúvidas quanto às supostas leis regulares de comportamento humano. Tomamos aqui uma posição em favor do modo de pensar keynesiano, por contraste ao modo de pensar neoclássico-positivista (mainstream). Em particular, a incerteza, a incompletude do conhecimento, a organicidade (por oposição ao individualismo metodológico) e o pluralismo metodológico são características as quais a cosmovisão keynesiana reputa como essenciais ao sistema econômico, e isso nos parece adequado como ponto de partida metodológico para uma avaliação do papel das evidências em economia. É claro que tais características impõem enormes desafios de construção de uma linguagem clara e precisa, de operacionalização dos conceitos, de construção de ferramentas analíticas para a tomada de decisões de política econômica etc. Porém, em nosso entender, esse é o preço a ser pago para se obterem teorias econômicas que façam jus à complexidade da realidade econômica e, consequentemente, à complexidade do papel desempenhado pelas evidências. Vimos (seção 5) que, para Keynes, a economia é uma ciência empírica particular, que procura entender cada vez melhor os sistemas econômicos por meio do aperfeiçoamento contínuo dos modelos. A abstração e a generalidade dos modelos econômicos não requerem necessariamente sua expressão em linguagem exata, lógico-matemática. O próprio Keynes, em sua teoria geral, fornece-nos exemplos de modelos heurísticos (Vercelli, 1991), tais como a influência das expectativas de longo prazo sobre as decisões de investimento dos empresários, a qual pode ser expressa em linguagem natural. TEXTO para DISCUSSÃO 56 3089 Logo, as evidências que servem de guia para o aperfeiçoamento dos modelos não se restringem aos dados quantitativos usados em econometria. Isso porque modelos descritos em linguagem natural (narrativa, qualitativa) são mais bem avaliados por registros fatuais expressos em linguagem natural do que por conjuntos de dados quantitativos. Embora dados quantitativos possam ser usados de modo complementar em avaliações de modelos descritivos, isso se dá sob a forma de tabelas, séries de tempo etc. Assim, estudos históricos criteriosos, crônicas e matérias jornalísticas podem constituir-se de evidências relevantes para a avaliação de modelos econômicos. Fora a questão da linguagem em que se expressam os modelos e os fatos que os checam, há outra razão pela qual Keynes tem de se valer de um conceito de evidências mais amplo que aquele restrito aos dados quantitativos. Trata-se do fato de que, por um lado, a economia é uma ciência moral e, ao mesmo tempo, tem por objeto uma realidade não homogênea no espaço-tempo, no sentido de que um fenômeno natural é homogêneo. Ademais, essa realidade é condicionada por uma subjetividade radical. Enfim, estamos falando de fenômenos econômicos cuja realidade subjacente se constitui de forma contextual – por meio de convenções, instituições, história – e é intrinsecamente dependente de um sujeito econômico que pode criar, decidir, inovar, “romper com o passado”. Os aspectos citados no parágrafo anterior, se não impedem, pelo menos colocam sérias dificuldades para a econometria fazer previsões e identificar relações de causalidade estáveis nas relações dos sistemas econômicos. Além disso, praticamente obrigam o economista a cultivar a qualidade da “observação vigilante” e sistemática dos fenômenos econômicos, sobre a qual Keynes (2013) falava em sua carta a Harrod. Essa qualidade se complementa com a capacidade de o economista “traduzir” a observação da realidade em modelos cada vez mais adequados para a descrição, explicação e, no caso da política econômica, intervenção sobre o sistema econômico. O trabalho de aperfeiçoamento de modelos, pela complexidade que emana da própria realidade econômica, requer o uso de um variado conjunto de evidências e informações. Em certas circunstâncias, o economista pode ter de recorrer a evidências geradas diretamente pelos agentes econômicos, tal como fizeram Hall e Hitch (1939). Estes coletaram informações por meio da aplicação de questionários a apenas 38 empresários de grandes firmas e, a despeito das limitações metodológicas de seu trabalho, obtiveram importantes consequências para o entendimento do processo de formação de preços sob oligopólio. Assim, esses autores elaboraram uma nova teoria da formação de preços (mark-up sobre custos diretos de produção) em oligopólio, levando a significativo aperfeiçoamento nos modelos então vigentes. TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 63 3089 DOW, S. C. The methodology of macroeconomic thought: a conceptual analysis of schools of thought in economics. 2. ed. 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