Full text
Univer sidade do Minho
Instituto de Ciências Sociais
Ana P aula da F onseca Cruz
outubro de 2020
A Sémio-narrativ a em ação, na Mudança
Organizacional
Ana Paula da F onseca Cruz A Sémio-narrativa em ação, na Mudança Organizacional
UMinho|2020
Ana P aula da F onseca Cruz
outubro de 2020
A Sémio-narrativ a em ação, na Mudança
Organizacional
T ese de Dout orament o
Doutor ament o em Ciências da Comunicação
Univer sidade do Minho
Instituto de Ciências Sociais
T rabalho ef e tuado sob a orientação do
Professor Doutor Moisés Lemos Mar tins
e da
Professora Doutora T eresa Augus t a Ruão
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
ii
DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS
Este é um trabalho aca démico que pode ser utilizado por t erceiros desde que respeitad as as regras e
boas práticas internacionalmente aceites, no que con cerne aos direitos de autor e direi tos conexos.
As sim, o pre sente trabalho pode ser utilizado nos t ermos previstos na licença abaixo indicada , com
exclusão do capítulo 7 que não é passível de reprodução.
Caso o utilizador necess ite de permissão para poder faz er um uso do t rabalho em co ndições não prevista s
no licenciame nto i ndicado , deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minh o.
Atribuição-NãoComercial-Compart ilhaIgual
CC BY- NC -SA
https://creativecommons.org/licenses/by- nc -sa/4.0/
iii
AGRADECIMENTOS
Ao Professor Doutor Moisés Ma rtins, pelos imensos con hecimentos que partilhou, no que à Semiót ica e
à vida dizem re speito. Serei s empre uma humilde discípula. À pr ofessora Doutora Teres a Ruão, pe lo s eu
espírito pragmático e minucioso, pelo encorajamento e valioso incentivo. Ao Mestre José Viegas Soares,
por ter despertado em mim o interesse pela Semiótica. Pela inspiração e amizade.
À Sus ana Machado, s ecundada pelos elementos da sua equipa, Dora e Amália , por ter feito deste projeto
um elemento cent ral n as aspirações e objetivo s da s ua secção e da Bosch em Bra ga , o ter defendido e
agido com o sendo seu, lider ando e mobilizando as equi pas e os recur sos necessários . Excelente pessoa,
profissional exigent e e de grande generosidade. Sem ela, esta tese , com a sua dimen são e en volvência
organizacional, t eria sido impos sível.
O meu en orme agradecimento às duas equipas de chefia s Bosch que se dedicaram ao projeto , em meio
a tantas outras exigências, construindo o resultado deste projeto .
À B osch em Braga , que m e acolheu nesta investigação-ação, representada pelos seus adm inistradores,
Sr. Welling, patrono deste doutoramento, e Sr. Rib as, pela confianç a em aceitar em o desafio que propus
e facilitarem os recursos pa ra que ele chega sse a bom termo . A todas as chefias que participaram nas
entrevistas e inquéritos, agradeço a disponibilidade, abertura e participação.
À A lexandra Figueira que me acompanhou neste processo e comigo partilhou as dúvidas, as experiências
boas e más, o s ân imos e desânimos do percurso. Foi o espírito crítico e racion al, motivador sempre ,
mesmo se os ouvi dos se lh e fechavam à palavra Semiótica. O Kilimanjaro aguarda-nos.
E, porque a componente pe ssoal é a mais importante , fica para o fim o enorme agradecimento à minha
família: ao Paulo, pelo amor e solidariedade, apoiando- me para além de t odas as dificuldades; aos meus
pais , força mot riz na minha procura de conhecimento e de enriquecimento pessoal; à Joan a, pela
insistência, pressão e algu ma t roça na insistência para terminar a investigação; à mi nh a irmã e primos
só por estarem na m inha vida; ao meu sobrinho, para quem quero ser exemplo n o estudo e vontad e de
conhecimento.
À Susana Sousa e ao António Gonzalez, por me acompanharem sem baixar a guarda.
Financiamento comparticipado pelo Fundo Social Europeu e por fundos nacionais do MEC
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
iv
DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE
Declaro ter atuado com int egridade n a elaboração do presente trabalh o académ ico e confirmo que não
recorri à pr ática de plágio nem a qualqu er forma de utilização indevida ou falsificação de informa ções ou
resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração.
Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Mi nho.
v
A Sémio-narrativa em ação na M udança Organizacional
Resumo
Mais do que nunca, o mundo está em mudança. Contínua, acelerada, provocada pelos mais distintos
fatores, exigindo de pessoas, g rupos, populações, uma ad aptação constante. Também as orga nizações
vivem na necessidade de mudança, respondendo a desafios qu e ciclicament e se renovam , debatendo -
se ent re n ovos plan os, ações moviment adas, corridas cont ra o t empo, formação constante, n ovos
objetivos, n ovas tecnologias. Vivem narrativas aceleradas, iguais a filmes de açã o e, em cada processo
de transformação, apenas lhes resta serem bem-sucedidas . Dos perdedores não re za a história.
Existem muitas propostas de modelos para a observação e análise da mudança organizacional, na
tentativa de encontrar os fatores q ue levam ao sucesso e insu cesso da mes ma. Esta , não é uma dess as
investigações. Em primeiro l ugar, porque é uma investigação-açã o – não analisa, antes implementa uma
ação de mudan ça numa organização, a Bosch Car Multimédia Portugal, e m Braga , para t al garantindo a
participação de todas as suas ch efia s no processo e potenciando o seu
empowerment
. Em segundo
lugar, porque, numa aplicação de natureza improvável, executa a mudan ça organizacional, at ravés do
recurso ao modelo narrat ivo de Greimas, nas suas e struturas semân tica e narrat iva, como guião para
realizar a passagem de uma situação S1 a S2 , con cretizando, com isso, o
quantum leap
de Greimas do
ambiente narrativo para a a ção . Através de uma morfog énese invertida, a forma que é o guião narrativ o
cria matéria , cria realidade, ao orient ar a ação das c hefias Bosch e defin ir o sent ido da m udança na
organização.
Concebemos , desenhámos e implementámos esse p lan o na organização, colocando no centro da ação ,
como sujeitos da sua histór ia, as ch efias da orga nização B osch . Ao ter posto à prova de forma eficaz ,
um modelo narrativo na execução da mudança organizacional, espe ramos ter contribuído para tornar as
organizações mais apt as aos seus de safios de mudança . Esperamos igualmen te ter contribuído para o
conhecimento científico, com uma proposta de con ciliação ent re mundos teóricos e áreas de
conhecimentos distint os: 1) exploran do um caminho pós -greimasiano, abert o por Petitot e Brandt,
quando propuseram a int erdisciplinaridade entre a Semiótica e a pragmát ica, demonstra ndo que essa
ponte teórica é exequível na realidade organizacion al; 2) abrindo a Semiótica a uma aproximação à teoria
da ação, catapultando-a, desse modo, de uma posição de ciênc ia cen trada na mera observação e análise
do mundo para uma posição de ciência de int ervenção social, uma Semiót ica da ação.
Palavras-chave:
Empower ment
, Investigação-ação , Mudança Organizacional, Sem iótica da Ação,
Semiótica greimasiana ,
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
vi
The Semio-narrative in action in th e Organizational C hange
Abstract
More than ever, th e world is living ch ange as a continuous, fa st phen omena, caused by a multitude of
factors, dem anding constant adaptation from people, groups, an d populations. Among these, also
organizations li ve in the need for change, res ponding to challeng es that are cyclically ren ewed, struggling
between new plans, h igh speed performanc es , race s against time, perman ent t raining, new objectives,
new technologies .. . T hey live fas t-paced narratives, just like in action movies an d, in each transformation
process, th ere is no other ending than to reach success. Those who cann ot make it are he ading for
oblivion.
Many models have been proposed for the observatio n a nd analysis of organizational change, in the
attempt of find ing th e factors which lead to its success or failure. This i s n ot one of th ose investigat ions.
Firstly, because it is an ac t ion-research - it does n ot an aly se chan ge; instead it takes action t o produce
change in an organ ization, in this case Bosch Car Multimédia Portugal, in Braga, through the participation
and empowerment of all its managers throughout the pr ocess. Secon dly, because it implements
organizational change through means of the narrat ive model of Greimas in its s emantic and narrat ive
structures, in an application unlikely t o its nat ure . It served as a guide for m aking the transition from a
situation S1 to S2, while enabling a
quantum leap
of this model from t he narrat ive field to th e real- life
action. Through an inverted morphogen esis, the form of th e narrat ive script creates ma tt er and reality,
by guiding t he action of Bosch managers to wards desired results and defining the direction of t he change.
We created, designed , and implemented a change plan in the organization Bosch in B raga, placing the
company managers as subjects in th e centre of the ir own action. By effectively testing a n arrative model
in th e execution of organization al change, we hope t o h ave cont ributed to making organizations more
capable of dealin g with the challeng es of transformation. We also hope to have contributed to scientific
knowledge with a proposal to reconcile theoretical worlds and different fields of expertis e: 1) exploring a
post-greimasian path, opened by Petitot and B randt, when they proposed the i nterdisciplinarity bet ween
semiotics an d pragmatics and demonstrating tha t t his theoretical bridge is buildable in the organization al
reality; 2) bringing semiotics to a closer relation with th e action t heory, thereby bri nging i t from a positio n
of bein g a science centred on the observation and analysi s of th e wo rld t o on e of a science of social
intervention, a true semiotic of action.
Keywords: Action-Research, Action Semiotics,
empowerment
, Organizational Change, Greimas’ Semiotics
vii
Índice
Introdução .................................................................................................................................... 1
Parte 1 ....................................................................................................................................... 12
Capítulo 1. A apre sentação do caso em estudo, a B osch Car Multimédia, Po rtugal ........................ 13
1.1. Preâmbulo ................................ ....................................................................................... 13
1.2. Dados contextuais do Grupo ............................................................................................. 13
1.3. A Bosch no mundo e em Portugal .................................................................................... 17
1.4. Missão e Visão Bosch Car Multimedia .............................................................................. 19
1.5. Orientações estratégicas e objetivos da Divisão Bosch Car Multimedia para Braga – o mandato
para o Crescimento ...................................................................................................................... 20
1.6. Balanced Sco recard da secção Deployment of Business Ex cellence e do depart ament o de
Human Resources ........................................................................................................................ 24
1.7. O Con trato para o C rescimento através da Mudan ça O rganizacional e do empowerment e a
entrada da investigadora no proces so ........................................................................................... 25
1.8. A estrutura organizativa da empresa ................................................................................ 26
1.8.1. Uma estrutura de Indiretos e Diretos ................................................................ ............ 26
1.8.2. Uma visão da liderança para o Crescimento ................................................................ . 26
1.8.3. A estrutura da liderança na Bosch ................................................................................ 27
1.9. A comunicação na empresa Bosch em Braga ................................................................... 30
1.9.1. O empow erment como suporte da Mudança Organizacional, refletido no Inquérito aos
Colaboradores AS+ 15 e no Management Team Meeting de 11 de novembro 2015 .................. 32
1.10. O mandato para a investigação-ação ................................ ................................................ 34
Capítulo 2. A met odologia de investigação e sua funda mentação ................................................. 36
2.1. A proposta metodológica de partida, o Estudo de Caso ..................................................... 40
2.2. Mudança de abordagem metodológica – as condições de aceitação deste projeto ............. 42
2.3. A investigação -ação – onde a ação tem papel central ....................................................... 44
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
xiv
Índice de Figuras
Figura 1: Representação gráfica das áreas de negócio do Grup o Bosch. Fonte: Manual de Acolhimento (Bosch Car
Multimédia Port ugal, 2016 ) ........................................................................................................................ 15
Figura 2: Símbolos d o progra ma Be One, da Bo sch. ................................................................ ................... 21
Figura 3: Etapas d e uma inv estigação ......................................................................................................... 36
Figura 4: A Esp iral de Invest igação-a ção de Kemmis e McTa ggart. ................................ .............................. 58
Figura 5: O ciclo d e investigação-ação . Fonte: traduzido de C oghlan e Bra nnick (2014, p. 9 ) ....................... 60
Figura 6: Metodolo gia e r esulta dos no p ercurso de mudan ç a. Font e: ada pt ado do Mode lo Narrat ivo d e Greimas a o
caso Bosch ………… ................................................................................................................................... 63
Figura 7: Modelo de drama de Freytag, numa adaptação ao u so narrati vo geral. (Cantar elli, 2018, pp. I V – Um a
melhoria aris totélica: a Pirâm ide de Freytag) ................................ ............................................................. 104
Figura 8: Sumár io do perc urso do herói. Font e: Campbell (1956 , p. 245) ................................................. 105
Figura 9: VPS - Vi sual Portrai t of a Story, adaptado por Ohler a partir de original de Di llingha m (20 01). Fonte: Ohl er
(2013 , p. 103) ......................................................................................................................................... 105
Figura 10: Estrutura elementar da signi ficação, numa formul ação remodelada do que foi proposto p or Greimas
(Greimas, 19 76b). Fonte: Co urtés (1979 , p. 71) ...................................................................................... 122
Figura 11: Quadrado semiót ico ou modelo constitu cional de Greimas e um s e u exem plo de a p licação, na perspe tiva
paradigmática. Fonte: adaptação sup ortada em Grei mas, tal como sintetizado em Evera e rt -Desmed t (Everaert-
Desmedt, 1984 ) ....................................................................................................................................... 124
Figura 12: Quadrado semiótico de Greimas e u m seu exem plo de aplicação, na perspetiva sintagmá tica, no
percurso transitivo e refl exivo. Fonte: ada ptação suportada em Greimas, t al como sintetizado em Everaert-Desmed t
(Everaert-Des medt, 198 4) ................................................................................................ .................. …… 125
Figura 13: Modelo actancial grei masiano. Fonte: Greimas (Courtés, 1979; Everaert-Desmedt, 1984; Greimas,
1976b) …………………………………………………………………………………………………………………………………… 127
Figura 14: Unidades si ntagmáticas da narrativa “canónica”. Fonte: Everaert -Desm edt (Everaert-Desmed t,
1984) ………………………………………………………………………………………………………………………………………… 131
Figura 16: T e orias d e Process o de Desenvolvimen to Organiz aci onal e Mudança. Fo nte: tra duzido de Van de Ven e
Poole (199 5, p. 520) ................................................................................................................................ 163
Figura 17: Instituciona lização e mudança institucio nal: Processos de uma perspetiva dialética. Fonte: traduzido do
original (Seo & Cr e ed, 2002, p . 225) ........................................................................................................ 168
xv
Figura 18: Es tilos e Cultu ra de Liderança Bo sch (“Bosch CM - Be One, CM; B e One CM - parte 2,” 201 5) 218
Figura 19: Modelo cognitivo do empower ment. Fonte: traduz ido a partir do origina l de T homas e V elthouse (1990,
p. 670) ………… ….. .................................................................................................................................. 264
Figura 20: Rede nomológica parcial de empowerment psicológico no local de trabalh o. Font e: reproduzido,
traduzido, a parti r de origina l de S preitzer (199 5, p. 1445 ) ....................................................................... 268
Figura 21: Uma sugestão de model o para o BDF (proposta pelo autor). Fonte: reproduzid o, traduzido, a p artir de
M. Al sada (20 03, p. 36) ................................................................ .......................................................... 271
Figura 22: O Modelo de Proc esso de empowerm ent pro posto pe las autoras . Fon te: r eproduzido, t raduzido a par tir
de Cattaneo e C hapman (20 10, p. 647 ) ................................................................................................... 275
Figura 23: Um modelo multi -ní vel de empowerme nt. Fonte: reprod uzido, traduzido, a partir de Seibert et al. (2004,
p. 333) ……………… . ................................................................................................................................ 277
Figura 24: Modelo c oncept ual de Participação para o e mpowerment de Cavalieri & Ne ves Almeida. Fonte :
reproduzido, trad uzido, a partir de Ca valieri & Nev e s Almeid a (20 18, p. 196) ............................................ 279
Figura 25: Propos t a da investi gadora de Mo delo operaciona l para o empowerme nt na Bosch .................... 282
Figura 26: relação e ntre sema s cont rários, de p artida S1 e chegada S2 na M udança ................................ 300
Figura 27: proposta inicial do s semas con trários, de par tida S1 e c hegada S2 na M u dança da Bosch Braga 301
Figura 28: semas contrários, de p artida S1 e c hegada S2 na Mudança da Bosch Braga, estrutura superior do
quadrado semiót ico .................................................................................................................................. 302
Figura 29: Eixos Semânticos d as mudanças secundárias propostas na i t eração 1 . .................................... 305
Figura 30: Eixos Semânticos d as Mudanças ao nível das P esso as discutidos na it eração 2 ........................ 305
Figura 31: Eixos Semânticos d as Mudanças ao nível dos P rocessos disc utidos na i teração 2 ..................... 306
Figura 32: Eixos Semânticos d as Muda nças ao nível das Ev idências Fís icas discu tidos na itera ção 2 ......... 306
Figura 33: Eixos Semânticos d as Mudanças secundárias dis cutidos na i teração 4 ..................................... 309
Figura 34: Dec isão de afun ilamento da s propostas de transição na iteração 5 ........................................... 310
Figura 35: Quadrado sem i ótico final após a decisão sob re o valor transformado r, baseado no q uadrado semiótico
de Greimas ………… ................................................................................................ ................................ . 311
Figura 36: Quadrado semiótic o da equi pa do Poder/Sist emas e Processos Organizativos, baseado no quadrado
semiótico de Gr eimas ............................................................................................................................... 313
Figura 37: Qua drado semió tico da equipa do Saber/Lid e rança, basead o no quadrado semióti co de Greimas 313
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
xvi
Figura 38: Quadra do semióti co final após a decisão sobre o valor transformado r, na p erspetiva sintagmática,
baseado no q uadrado semiótico de Greimas ................................ ............................................................. 315
Figura 39: Unidades s intagmáticas da nar rativa “canón ica”. Fonte: Everaert -Desm edt (198 4, p. 48) ......... 316
Figura 40: Modelo actancial greimasiano. Fonte: Greimas (Courtés, 1979; Everaert -Desmedt, 1984; Greimas,
1976b) ……………… ................................................................................................................................ . 317
Figura 41: Eixo da comunicação do modelo actancial do Progra ma de Ação ba se, tal como desenhado no caso
Bosch. Fonte própria, desenh ado so bre o modelo actancia l de Greimas (Ev eraert -Desmedt , 1984 ) …………. … 322
Figura 42: Quadro “Projeto Empowerment ” do Management Team Meating de novembro 2015. Fonte:DBE …. 323
Figura 43: Integração do “Projecto Empow e rment” no B alanced S corecard de DBE e HRL e ace itação da parc eria
com a Univers idade do Minho. Fonte: DBE ............................................................................................... 324
Figura 44: modelo act ancia l do Programa de Ação secundário do caso Bosch. Fonte própria, dese nhado sobre o
modelo actancial d e Greimas ( Everaert-Desmed t, 1984) ................................................................ ........... 324
Figura 45: Eixo da comunicação do modelo act anc ial d o Programa de Ação s ecundário do caso Bosch -
Desdpbramen to para a equipa do Saber/Liderança. Fonte própria, desenhado sobre o modelo actancial de
Greimas (Evera ert-Desmedt, 1 984) ........................................................................................................... 325
Figura 46: Eixo da comunicação do modelo act anc ial d o Programa de Ação s ecundário do caso Bosch -
Desdpbramen to para a e qui pa do Poder/Sistemas Organiz ativos. Fonte própria, desenhado sobre o modelo
actancial de Gr eimas (Everae rt-Desmedt, 198 4) ................................................................ ....................... 325
Figura 47 : Metodologia e re sultados no percurso de m udança, tal como a presentado e discutido com a
administração PC da Bosch em Braga . Fonte: própria, ada ptado do Modelo Narrat ivo de Greimas . ........... 326
Figura 48: Sli de de c onsolida ção de Obstáculos ao Empowerment, Fonte: resultado s de entrevistas e inquéri tos,
executada pela i nvestigado ra e consolidado neste slid e em conjunto co m a orie ntadora em p resarial ......... 367
Figura 49: Foto da apresenta ção, p ela investigadora, dos resultado s das e ntrevistas e inquéritos às chefias de
departamento e secção da Bosch em Braga, no Management Team Meeting de 20 de junho de 2016. Fonte:
secção de DBE (D e ploymen t of Business Exc ellence) ................................................................................ 368
Figura 50: Foto d e trab alho de uma das cinco equipas, sobre os resultados das entrevis tas e inq uéritos às chefias
de departam e nto e secção da Bosch em Braga, no Management Team Meeting d e 20 - 06 -2016. Font e: secção de
DBE (Deployme nt of Busi ness Excellen ce) ................................................................................................ 369
Figura 51: Eixo do De sejo do modelo actancial do Prog rama de Ação principal (lado esquerdo) e do secundário
(lado dir eito) do caso Bosch. Fonte própria, desenhado sobre o modelo actancial de Greimas (Everaert-Desmedt,
1984) ………………. .................................................................................................................................. 376
xvii
Figura 52: Eixo do Desejo do modelo actancial do Programa de Ação secundár io da equipa do Saber / Liderança
(lado esquerdo) e da equipa do Poder/Sistemas e Processos Organizativos (lado direito) do caso Bosch. Font e
própria, desenhado sobre o m odelo actancia l de Greimas (E veraert -Desmedt, 1984) ................................ 377
Figura 53: Processo de racionalização do backlog das equipas de projeto. Fonte: orientadora empresarial
……………………. ....................................................................................................................................... 384
Figura 54: Percurso dos trabalhos de cada equip a até à implementação alargada a to das as c hefias. Fonte :
orientadora em presarial ............................................................................................................................ 386
Figura 55: Backlog já com p rioridade votadas (de 1 a 4, a verde) e condicionan tes à sua execução com asterisco
e priorização máx ima (1 a pre to). Fonte: elementos da equip a Poder ........................................................ 388
Figura 56: anotações que leva ram à conc lusão da dependência dos itens do Backlog de uma definição estratégica
anterior. Fonte: elemen tos da equipa Po der .............................................................................................. 389
Figura 57: Modelo de Plane amen to Estratégico T -Plan adaptado pela investigadora ao o bjetivo de trazer o BSC à
ação da e mpresa e a torna r -se um s istema ági l. Fonte: adaptado a par tir d e Tho mpson (1 974) e W est
(1987 ) ………….. ....................................................................................................................................... 390
Figura 58: Processo de desen volvimento do mod elo de planeamento est ratégico ao longo de março 2017. Fo nte:
equipa do Po der ....................................................................................................................................... 391
Figura 59: Condições de partida e objetivo do Backlog que levaram à decisão de desenho de um modelo de
planeamento estratég ico, oponentes e adjuva ntes. Fonte: equipa do Po der da Bosch e m Braga ................ 392
Figura 60: Sistemática para a definição, alinhamento, desdob ramento e revisão do planeamen to estratégico da
Bosch Car Mul timédia em Bra ga. Fonte: equipa do Po der da Bo sch em Braga .......................................... 392
Figura 61: linha temporal e passos para o alargamento do envolvim ento das chefias no planeamento est ratégico .
Fonte: DBE ……….. ............................................................................................................................... … 393
Figura 62: Conceito de suport e ao workshop estratégico de setembro, co m as chefias de departame nto, baseado
no Balanced Scor ecard. Font e: orientado ra empresa rial supo rtada no benchmar king da investigado ra ……… 396
Figura 63: Exemplo de uma das swot e de u ma sowt dinâmica com Iniciat ivas Estratégicas, re sultantes da reunião
de 25 de setembro 2017 e transferênc ia para o ma pa estratégico. Font e: DBE ......................................... 397
Figura 64: Exem plo de trab alho de me lhoria das ini ciativas estratég icas da r eunião de 11 d e outubro ....... 398
Figura 65: Managem ent Team Meeting de 13 de dezembro de 2017, c om apresentaçõ es iniciais e momento de
trabalho de um dos g rupos so bre as 26 inicia tivas estrat égicas. Fonte:DB E ............................................... 399
Figura 66: Exemplo de quadro final de pl aneame nto de ações por c ada i niciativa estratégica, a um ano e com vista
a três. Font e: equipas d e trabalho do M TM dezembro.2 017 ...................................................................... 400
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
xviii
Figura 67: Ciclo de plane ame nto estratégi co a três anos . Fonte: DBE ....................................................... 400
Figura 68: Razões da defini ção de uma sistemát ica de pl aneamento e stratégico par a a Bosch em Braga,
apresentadas no e vento de d ezembro 2017 . Fonte: DBE ............................................................ ………….. 401
Figura 69 – sín tese aproxima tiva dos temas re lacionado s com o empower ment para o seu nivelame nto ……. 404
Figura 70: Ref lex ão introdutó ria da direção HRL sobre as questões de nivelame nto do Empowerment. Fonte:
HRL …………………… ................................................................................................................................ . 405
Figura 71: condições de parti da do backlog que levaram à decisão de desenho de u ma moldura de comp etências ,
posteriormen te denominado Código de Conduta da Liderança. Fonte: equipa do Saber da Bosch em
Braga ……………… ..................................................................................................................................... 407
Figura 72: linha temporal e passo s p ara o alargamento do envolvimento das chefias na defini ção da moldura de
competências. Fon t e: DBE ....................................................................................................................... 407
Figura 73: dimensões e as peto s dentro d elas, definidas na moldura d e competências para o Saber da li deran ça.
Fonte: equipa do Sab er da B osch em Braga ............................................................................................. 408
Figura 74: etapas d a i mplem entação do Código de Conduta, apre sen tada a PT e posteriormente às restantes
chefias. Font e: equipa do Saber da Bosch em Braga ................................................................................. 409
Figura 75: linha temporal e passos para o alargamento do envolvimento das chefias na definição do Código de
Conduta da l iderança. Fon te: DBE ........................................................................................................... 410
Figura 76 - fotos dos quadros de trabalho da reunião de che fias de departamento, PC e PT, com anotações
manuscritas d e melhoria. Fon te: DBE ....................................................................................................... 412
Figura 77: Quadrado semi ótico da equipa do Poder/Sistemas e Processos Organizativos, perspetiva sint agmá tica.
Fonte: Própria, b aseada do quadrado semióti co de Greimas ................................................................ ..... 425
Figura 78: quadrado semi ótico da equip a do Saber/Liderança, perspetiva sintagmát ica. Fonte: Própria, baseado
no quadrado semiótico de Gr eimas ........................................................................................................... 426
xix
Índice de Tabelas
Tabela 1: Fases da rotina de Investigação-ação e como se relacionam com as práticas tradicionais de i nvestiga ção.
………………………………………………………………………………………………………………………………………………. 58
Tabela 2: Correspondên cia do processo gre imasiano canónico à s et apas da investiga ção-ação. Fonte: adaptado
de Stringer (20 07, p. 8) ........................................................................................................................ …… 64
Tabela 3: Corres pondência do processo greimas iano canóni co às etapas d a investigação-ação- f ase Look ... 67
Tabela 4 : C orrespondência do processo greimas iano canónico às etap as da investigação- ação- f ase Think
…………………. ......................................................................................................................... ………………. 69
Tabela 5: Exem plo de codific ação de uma das entrevistas aos chefes de departam entos da Bosch em Braga
………………………….. .................................................................................................................................. 73
Tabela 6: Corres pondência do processo grei masiano ca nónico às eta pas da investigação-ação- f ase Act ..... 78
Tabela 7: Re sumo das pe rspeti vas narrativas de alguns autores fundamentais na teoria narrativa. Fonte: suportado
em Chandler (2 006) e Santos (2013) ................................................................................................ ....... 103
Tabela 8: Def inição de Ato. Fo nt e: traduz ido a partir d e T. A. van Dijk (200 9, p. 277) ................................ 115
Tabela 9: Razões do mundo VUCA e antídotos a aplicar. Fonte: síntese a partir de várias referências, incluindo
Mase (20 11), Lawrence (201 3) (Lawrence, 2013 ) e Bancroft-Turner (2014 ) ............................................. 149
Tabela 10: Qua tro escolas d e análise da mudança orga nizacional. Fonte: Cunha e t al. (20 06, p. 841) ...... 161
Tabela 11: Uma integração de Nove Modelos de Ciclo de Vida. Fonte: parcialmente reproduzido e t raduzido a partir
de R.E. Quinn e Camero n (1983, p. 3 5) .................................................................................................. 175
Tabela 12: CATS como grand e fundame nto de out ros modelos. Fonte: S. C ummings et a l. (2 016, p. 24 ) .. 198
Tabela 13: Et apas, ações e armadilhas da Mudança p or Kotter. Font e: traduzido a partir do original de Kotter
(Kotter et al., 20 05) .................................................................................................................................. 204
Tabela 14 – Mét odos para lidar com a resistência à muda nça. Fonte : t raduzido d o original de Kotter e Schlesinge r
(2008 , p. 11) ………………………………………………………………………………………………………………………… 231
Tabela 15: Uma comparação entre Processo de empowerm ent e Re sultados do emp ower ment aos seus vários
níveis de aná lise. Fonte: Zimmerman (2 000, p. 47) ................................................................ .................. 248
Tabela 16: Cinco estádios do processo de empowerme nt. Fonte: Traduzido a p artir de Conger e Kanungo (1988 ,
p. 475) ……………. ................................................................................................................................... 259
Tabela 17: Fatores c ontextua is que potencialmente reduz em a crença de autoeficácia. Fonte: Traduzido a partir
de Conger e Kan ungo (198 8, p. 477) ....................................................................................................... 260
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
xx
Tabela 18: Dis tribuição da po pulação de i nquiridos, chef es de secção ...................................................... 342
Tabela 19: Si nónimos para o empowerment (SM) ................................................................ ..................... 344
Tabela 20: Ca tegorias dos principais obstác ulos ao e mpowerment (SM) ................................................... 363
Tabela 21: Ca tegorias dos principais obstác ulos ao e mpowerment (SM) ................................................... 364
Tabela 22: Tópicos e asserçõe s de entrevistados e inquiridos asso ciados com a questão da Autonomia na gestão
de recursos humano s. Font e: da dos provenientes do tratamento de entr evistas e inqué ritos às chefias ..... 369
Tabela 23: Soluções para os tópicos e asserçõ es de entrevistados e inquiridos as sociados com a questão da
Autonomia na gestão de recursos humanos. Fonte: Equipa I do Management Te am Meeting de 20 de junho de
2016 …………. ......................................................................................................................................... 370
Tabela 24: Tópicos e ass erções de entrevistados e inquiridos associados com a ques t ão do
Desenvolvimen to/Matur idade dos gestores. Fonte: dados provenientes do trat amen to de entrevistas e inquéritos
às chefias …………. ................................................................................................ .................................. 370
Tabela 25; Tópicos e ass erções de entrevistados e inquiridos associados com a ques t ão do
Desenvolvimen to/Matur idade dos gest ores. Fonte: Equip a II do Management Team Meeti ng de 20 de junho de
2016 ……………… .................................................................................................................................... 371
Tabela 26: Tópicos e asserçõ es de entrevistado s e inquiridos ass ociados com a questão de Falt a de tempo para
liderar. Fonte: dado s proveni entes do tratamento de entrevis t as e inquéri tos às chefias ............................. 371
Tabela 27: Tópicos e asserçõ es de entrevistado s e inquiridos ass ociados com a questão de Falta de tempo para
liderar. Fonte: Eq u ipa III do M anagement Team Meeting de 20 de junho d e 2016 ..................................... 372
Tabela 2 8: Tópicos e ass erções de entrevistados e inquiridos associado s com a questão da Liderança b urocrática
/ Hierarquizada. Fo nte: dados provenientes do tra tamento de entrevistas e inquéritos às c hefias .............. 373
Tabela 2 9: Tópicos e ass erções de entrevistados e inquiridos ass ociados c om q uestão da L id e rança burocráti ca /
Hierarquizada . Fonte: Equi pa IV do Ma nagement Team M eeting de 20 de j unho de 2016 ......................... 373
Tabela 30: Tópicos e asserções de entrevistados e inquir idos associados com a questão da Mentalidade /
Organização forteme nte fun cional. Fonte: dados p rovenient es do tratamento de entrevistas e inquéritos às chefias
……… ……….. ………. .................................................................................................................................. 374
Tabela 3 1: Tópicos e ass erções de entrevistados e inquiridos a ssociados com q uestão da Mentalidade /
Organização fortemente fu ncional. Fonte: Equipa V do Managem ent Team Meeting de 20 de ju nho de 2016
…………………………….. ............................................................................................................................. 374
Tabela 32: Equipa para a Per formance do Pro grama de Açã o sec undário, conjunção com o Objet o empowerment.
Fonte: DBE e HRL da Bosc h em Braga ..................................................................................................... 379
xxi
Tabela 33: Equipas para a Performance dos Programas de Ação secundários, c onju nção com os Obje tos modais
para o empower ment. Font e: DBE e HR L da Bosch em Braga ................................................................... 380
Tabela 34: Evolução da Calendarização e e tapas para implementação do Projeto empowerm ent pela equipa de
projeto. Fonte: DBE e investig adora .......................................................................................................... 382
Tabela 35: Backl og final e t otal a ser alvo das equipas de projeto para o empowerme nt . Fonte: Entrevis t as,
Inquéritos e Manage ment Team Meeting de junho 20 16 ........................................................................... 385
Tabela 36: rote iro de ações dos trabalhos dec orrentes da equipa do Poder até ao Workshop e strat égico. Fonte:
DBE ………………….. ................................ ................................................................................................ . 394
Tabela 37: Ba cklog já com pri oridade votadas ( de 1 a 4, a verde) e condiciona ntes à sua execução com asterisco
e priorização máx ima (1 a pre to). Fonte: elementos da eq uipa Poder ........................................................ 402
Tabela 38: escala preliminar dos níveis de decisão, quanto às dimensões da Moldura d e Competências da
Liderança (Sab er). Fonte: equi pa de projeto Sab er .................................................................................... 406
Tabela 39: Extrat o (ve rsão de trabalho, a inda não f inal) do C ódigo de Conduta da s c hefias, com o aspeto “A cesso
à i nformação p or parte de HoD e de SM”, da dimensão Auto nomia. Fonte: eq uipa do Saber da Bosch em Braga
……………………………………………………………………………………………………………………………………………. 410
Tabela 40: Diferenças entre o estado ideal re ferenc ial do Código de Conduta e as realidades vivida pelas chefias,
dimensão “Po der de Decisão” , aspe to Pesso as ........................................................................................ 415
Tabela 41: Difere nças en tre o estado ideal ref erencial do Có digo de Conduta e as realidades v ivida pelas c hefias,
dimensão “Po der de Decisão ”, aspetos Cus t os e Inves timent os ................................................................ 416
Tabela 42: Diferenças entre o estado ideal re fere ncial do Código de Conduta e as realidades vivida pelas chefias,
dimensão “Po der de Decisão ”, aspeto Decisão dos Es peciali stas .............................................................. 417
Tabela 43: Diferenças entre o estado ideal re ferenc ial do Código de Conduta e as realidades vivida pelas chefias,
dimensão “Au tonomia”, asp eto Gerir confl itos e/ou pr ioridades en tre equipas .......................................... 418
Tabela 44: Diferenças entre o estado ideal re ferenc ial do Código de Conduta e as realidades vivida pelas chefias,
dimensão “Au tonomia”, asp eto Acesso à info rmação por parte do Ho D .................................................... 419
Tabela 45: Diferenças entre o estado ideal re ferenc ial do Código de Conduta e as realidades vivida pelas chefias,
dimensão “Autonom ia”, aspeto Acesso à infor mação por parte do SM ...................................................... 421
Tabela 46: Diferenças entre o estado ideal re ferenc ial do Código de Cond uta e as realidad es vivida pelas chefias,
dimensão “Responsa bilidade”, aspetos Maturidade, Compro misso, Responsabil ização e Pa pel enquanto membros
de equipas d e projeto ............................................................................................................................... 421
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
xxii
Índice de Gráficos
Gráfico 1: Sig nificado de e mpowerment para H oD .................................................................................... 332
Gráfico 2: Nec essidade d e empower ment para H oD ................................................................................. 333
Gráfico 3: Origens da informaç ão so bre o empowermen t para HoD ........................................................... 333
Gráfico 4: O pinião sobre a f orma como soub e do em powerment para HoD ............................................... 334
Gráfico 5: Adjuva ntes do emp owerment para H oD .................................................................................... 334
Gráfico 6: O ponentes do em powerm ent para HoD ................................................................ .................... 335
Gráfico 7: Soluções para o empowerment para HoD ................................................................................. 336
Gráfico 8: Posições q uanto ao reconhe cimento para moti vaç ão do empower ment para Ho D ..................... 337
Gráfico 9: Como s e veem os H oD, quanto a Ter empow erme nt ................................ ................................ . 338
Gráfico 10: Co mo se veem os Ho D, quanto a Dar empow e rment .............................................................. 338
Gráfico 11:Nív el de empow erment dos o utr os para os Ho D ....................................................................... 339
Gráfico 12: Ouvi u falar do e mpowermen t (SM) .......................................................................................... 342
Gráfico 13: Font es a partir da s quais teve ac esso à ide ia de empowe rment (SM) ....................................... 343
Gráfico 14: Opin ião sob re a forma como ouvi u falar do e mpowerment ( SM) .............................................. 343
Gráfico 15: Em powerment em relação ao s colaboradores ( SM) ................................................................ . 345
Gráfico 16: Em powerment em relação aos o utros ch efes de secção do departa mento (SM) ....................... 345
Gráfico 17: Em powerment em relação ao s outros ch efes de secção de outros d epartam entos (SM) ........... 345
Gráfico 18: Autonomia como c hefe de se cção (SM) .................................................................................. 347
Gráfico 19: Res ponsabilidad e como ch efe de se cção (SM) ........................................................................ 347
Gráfico 20: Ca pacidade de d ecisão como c hefe de s ecção (SM) ................................ ................................ 347
Gráfico 21: Co operação com outras c hefias d e secção (SM) ..................................................................... 348
Gráfico 22: In terferência da chefia de departame nto nas dec isões da secção (SM) .................................... 349
Gráfico 23: Apo io da chefia de departamento às d ecisões da c hefia de se cção (SM) .................................. 349
Gráfico 24 – M otivação dada pe la chefia de d epartamen to à chefia de se cção (SM) .................................. 349
Gráfico 25: Re conhecimento d a che fia de de partamento a o desem penho da c hefia de se cção (SM) .......... 350
Gráfico 26: Re conhecimento d a Organização sobre o des empenho da chefia de sec ção (S M) .................... 350
xxiii
Gráfico 27: Co mpetência Quer er mais autonom ia (SM) ............................................................................. 352
Gráfico 28: Co mpetência Quer er mais responsa bilidade (SM) ................................................................... 352
Gráfico 29: Co mpetência Quer er mais poderes de d ecisão (SM ) ................................................................ 352
Gráfico 30: Co mpetência Quer er mais reconh ecimento (SM) ..................................................................... 353
Gráfico 31: Co mpetência Sabe r, vertente dispon ibilização da informação por HoD (SM ) ............................ 354
Gráfico 32: Co mpetência Sabe r, vertente inic iativa para o bter informação (SM) ......................................... 354
Gráfico 33: Co mpetência Sabe r, vertente dispon ibilização da informação por o utros do de partamento (SM) 355
Gráfico 34: Co mpetência Sabe r, vertente dispon ibilização da informação pela orga nização (SM ) ............... 355
Gráfico 35: Co mpetência Sabe r, vertente conh ecimen to técnico na f unção ch efia (SM) ............................. 355
Gráfico 36: Co mpetência Sabe r, vertente capa cidade de mo t ivação na f unção chefia (SM) ........................ 356
Gráfico 37: Co mpetência Sabe r, vertente saber re conhecer o s dependentes na função c hefia (SM) ........... 356
Gráfico 38: Co mpetência Sabe r, vertente conh ecimento de g e stão humana na f unção chefi a (SM) ............ 356
Gráfico 39: Co mpetência Sabe r, vertente conh ecimen to de gestão operaciona l na função c hefia (SM) ....... 357
Gráfico 40: Co mpetência Pode r, recursos de cooperação co m out ros SM do d ep artamento (SM) ............... 358
Gráfico 41: Co mpetência Pode r, recursos de cooperação co m out ros SM d e outros de partamentos ( SM) .. 358
Gráfico 42: Co mpetência Pode r, recursos físi cos para a fun ção (SM ) ........................................................ 35 9
Gráfico 43: Co mpetência Pode r, quantidade de recursos h umanos para a f unção (SM) ............................. 359
Gráfico 44: Co mpetência Pode r, qualidade de r ecursos hu manos para a função (SM) ............................... 359
Gráfico 45: Co mpetência Pode r, adequação da local ização da secção na depend ência hierá rquica (SM) ... 360
Gráfico 46: Co mpetência Pode r, adequação da local ização da secção na depend ência func ional (SM) ....... 360
Gráfico 47: Competência Poder, adequação da estrutura da organização para o melhor exercício da funç ão
(SM) …………………………………………………………………………………………………………………………………………. 360
Gráfico 48: Competência Poder, adequação de p rocesso s e procedimentos para o melhor exercício da funç ão (SM)
…………………….………………………………………………………………………………………………………………………… 361
Gráfico 49: Reafir mação final da Competência Qu erer mais em powerment no f uturo (SM) ………………………… 362
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
6
sustentado nos passos da narrat iva t endente ao suces so dos heróis, n ão muito diferente de um
blockbuster
em que o s her óis/sujeitos das histórias são sempre recompensados (como um filme do
Indiana Jon es, Matrix ou 007, apenas para referir clá ssicos), recentra cont inuamente o estudo naquilo
que lhe é fundamental – as componentes semântica e narrativa do modelo de Greimas. Para falar de
Greimas, iniciam os com u ma breve referência ao Estrut uralismo, de q ue Greimas é um dos pr incipais
marcos. Desenvolve-se o seu pensamento, com alguma s referências aos que o infl uenciaram, explicando
as origens do seu modelo narrat ivo em Propp. Depois de Greimas, int roduzem -se os seus seguidores e
detratores, os clássicos em termos de modelos narrativos .
Explicamos então em detalhe o modelo semântico e narrativo que será o g uião da nossa atividade na
Bosch. O quadrado semiótic o que teremos que desenhar n a empre sa para sintetizar o sentido por de trás
da t ransformação pretendida, nos seus estados paradig máticos e percursos sint agmát icos, a estrutura
actancial que os atores da mudança irão incorporar, o desenho do “ Programa Narrativo ” (logo assumido
como “Programa de Ação”) , com o seu ” Contrat o ” , a “ A quisição de Competências ” para conjunção com
os objetos modais Querer , Saber e Poder, a “ Performa nce ” e a “ Glorificação ” .
E, porqu e faz sentido, iden tificamos as semelhanças entre estes percurso s defi nidos pela Semiótica
narrativa e uma teoria da ação, arrogando-nos mesmo a sugerir u ma “ Semiótica da Ação ” .
Se bem que Greimas acred ita n o carácter social da produção de significação, ainda assim as grilhetas
do seu modelo estruturali sta a garram -no ao discurs o e ao processo narrativo do texto. Ele próprio refere
ser necessário apresentar ao linguista “uma interrogação sobre as possibilidades de uma teoria
Semiótica generalizada, responsável por todas as for mas e todas as manifestações da significação”
(Greimas, 1968, p. 3) . Era, portant o, necessário iniciar o
quantum leap
para ag arrar o m odelo à ação e
ao mundo vivido . Ligá -lo à teoria da ação foi o começo, mas er a preciso ir m ais longe nesta aproxima ção
ao concret o. É nesta fase que se apresenta, ao leitor deste estudo, René Thom e a te oria das catástrofes .
Ainda que aqui explicada apenas superficialmente, esta t eoria é o ponto de partida da passagem d e um
imanentismo semiótico a um fisicis mo do sent ido (Martins, 2 005) . To rna-se, portan to, pertinente, n este
capítulo, debruçarmo-nos sobre a morfogénese e a morfodinâmica que Petitot e Brandt elaboram a partir
de Thom, na leitura e crítica a Greimas (Petitot , 2003) e na defesa da possibilidade do encon tro aventado
neste projeto : o Estruturalismo é aproximado ao sistema físico por Petitot e Bran dt que propõem a
interdisciplinaridade en tre “a Semiótica e a pragmática” (J. A. Mourão & Babo, 2007, p. 216) . Pela sua
relevância, a viragem morfodinâmica é então visitada, permitind o vislumbrar já formas de aplic ação da
Semiótica n arrativa na sua aproximação à ação na mudança organizacional. Neste percurso, os modelos
Introdução
7
base da Semiótica de Greimas, o quadrado semiótico , os percursos narrat ivos e a estrutura act ancial,
são estruturas conceptuais cujo sent ido encontr a par no mundo das coisas. Assim, com esta
aproximação ao nat ural, t entamos que, a partir da base estruturalista e formaliz ada da Semiótica da
narrativa, e conduzida à natureza das coisas e do m undo vivido (neste caso n a m udança da organização)
pela morfogénese e morfodinâmica, se aprofunde a dimen são social do sentido, especificamente no
contexto da ação para a m udança. Nesta fase, debruçámo -nos consequentemente sobre out ros
modelos
narrativos
, para análise do seu potencial como guião da nossa ação.
O capítulo 5, sobre a
Mudança O rganizacional
, é fundamental na t ese, não fosse esta a ação que se
pretende concret izar. Entramos ent ão n este tema , com a ideia de comparar os seus processos com a
transformação sugerida na narrativa greimasiana. É um mundo teórico de direito próprio, giga nte, pelo
que optámos por int roduzir o conceito tal como a B osch o vive, apresentan do a ideia de um m undo em
transformação, um mundo VUCA ( Volát il , Incerto ou
Uncertain
, Complexo, Ambíguo). Abordam-se os
níveis, individual, grupal e social, da mudança e as várias escolas teóricas que servem de pano de fundo
ao desenvolvimento teórico desta área de conhecimento e as oposições em que se debate o seu
desenvolvimento teórico . Visitam-se os vários modelos da mudança organizaciona l desde Kurt Lewin à
atualidade, mas sem perder de vista aquilo que a própria org anização Bosch Braga entende como tal, e
tentando estabelecer a sua comparação com o modelo narrativo e transformativo de Greimas. Falamos
dos agen tes das várias muda nças e explicamos aqu i porque se cen tra esta investigação nas chefia s
como agentes principais da mudan ça n uma u nidade como a Bosch em B raga, com o seu forte pendor
produtivo. E, s e falamos de agentes, falamos também das suas compet ências para a mudança ,
associando-as à aquisição de competên cias de Greim as (a con junção com o Quer er mudar, o Saber
como mudar, ter o Poder para mudar), bem assim como as suas resistências à conjunção com estes
objetos moda is – na mudança, há sempre quem não queira e/ ou n ão saiba e/ ou não possa. E quando
isso acont ece, a “ Performance ” da mudança será incompleta ou comprometida , a “G lorificação ” final
da narrativa-açã o será nega da .
E porque o processo de mudança na Bosch implica as pessoas terem
Empowerment
para a mudança
enquanto valor transformador, ded icámos o capítul o 6 a este conceito, hoje tão em voga. É ele qu e
assume o eixo inferior do quadrado semiótico que n os orienta n esta açã o . Se as chefias t iverem
empowerment
então o pr ocesso de mudan ça para alcançar o objeto pretendido aco ntecerá. Caso
contrário , o não-
empowerm ent
impl icará que a organização se mante nha no sema d e part ida. Com efei to,
é diagn osticado pela orga nização B osch, at ravés dos seus vá rios mecanismos de comunica ção e ação ,
que a transformação preten dida carece da implement ação de um valor transform ador, no caso um
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
8
empowerment
superi or ao atual, ao n ível da s chefias de departamento e de secção, que possa levá- lo s
a liderar a organização e dirigi- la , com agilidade, de uma situação S1 a uma situação S2.
Nos mom entos iniciais, prelimina res à investigação-ação , ainda chegámos a assumir este con ceito como
o eixo principal da tran sformação pretendida, o sema fundam ental que regu la ria o percurso gerativo da
narrativa em desenvolvimento na organização, perspe tiva essa induzida pelo mandat o de que a
investigadora foi investida – fazer aument ar o nível do
empowerment
da equipa de gestão, chefias de
departamento e chefias de secção, para garantir um crescimento e desenvolvi mento sustentados e
seguros da orga nização. No decurso da investigação -ação, porém, rapidamente se conclui q ue o
empowerment
é o valor axiológico, transformador, individual e humano que virá cont radizer o estado
inicial de coisas e sem o qual a verdadeira m udança pretendida pela empresa não pode acontecer :
concretizar, su portado no
empowerment
, a transformaç ão de uma empresa com petitiva, mas processual,
burocratizada, hierarquizada, com entropias quanto à agilidade e com assimetrias quanto ao
empowerment
, para o seu contrário, uma empresa mais competitiva , de maior dim ensão e com maior
agilidade (em recursos, p essoas e projetos ), atravé s da ação de lideranças que assumem um
empowerment
mais forte e em maior equilíbrio en tre si. Desta forma , a empresa encont rar- se -á mais
capacitada para fazer frente às exigências de um mercado crescentemente agressivo , capaz de colocar
em causa a viabilidade da organização.
É nesta fase da revisão bibliográfica que se define o conceito de
empowerment
e os seus modelos, na
relação com a forma como a próp ria empre sa Bosch Braga o vive. Neste capítulo, apresentamos o
conceito teórico, n as suas perspetivas individuais, grupais e alarga das. Fa lamos de proce ssos
empowering
e de resultados
empowered
, as forma s d e conquista do
empowerment
, a dificuldade de
aplicação generalizada em unidades produtivas. Apresent amos de seguida vários modelos desenvolvidos
até aos dias de hoje e, suport ados neles, propomos um “casamento” , um design integrado, entre um
modelo
empowering
e
empowered
com o nosso programa narrativo greimasiano, des de a “ Aquis ição de
Competências ” ao resultado final. Não fechamos o capítulo sem an tes esclarecer que a desejabi lidade
do
empowerment
é uma miragem difícil de alcan çar – se n a expres são m uitos o referem desejar, na
prática muito é feito contra ele. Será um plano de inv estigação -ação para a mudan ça tam bém ele um
mecanismo para potenciar o
empowerment
? Poderá ser uma forma de
empowerm ent
, a aplicação deste
modelo participativo (ou part icipatório como se traduz muito frequent emente) desta tipologia de
investigação?
Introdução
9
Entramos assim n o capít ulo, talvez cen tral, desta investigação: o capítulo 7 sobre a
Investigação em Ação
na Bosch, que nos mostra como todos estes conceitos f oram postos em prática n um processo de
mudança real , um proces so inicialmente pensado para dois an os e de pois e sten dido a três . Aqui
explicamos o planeamento e implement ação do experi mento na B osch - de acordo com a met odologia
de investigação-ação - suport ados no modelo de Greimas, uma travessia que s e inicia primeiro com u ma
análise prévia e determinação dos objetivos, definindo o modelo n arrativo pretendido e relacionando - o
com as etapas da investigação -ação. Desenha -se o quadrado s emiótico que subjaz ao experimento, após
muito debate sobre o tema, con cretizando os semas e o eixo S1 – S2, sobre o qual ag irá o processo de
mudança. Define-se o quadrado semiótico principal e faz-se derivar para dois q uadrados semióticos
secundários, que presidem ao percurso feito pelas duas equipas int ernas de trabalho que levaram a
cabo, com a investigadora e a sua orientad ora empresarial, t oda esta açã o. A estr utura actan cial visível
foi determinada, quer a principal, quer as secundárias, para da í poder iniciar-se o program a narrat ivo/de
ação principal, também ele a dar origem a dois programas narrativos /de ação secundários .
Todo o proce sso se inicia c om o “ Contrat o ” para a açã o . Para identificar em q ue estado se enc on trava
a sua aceit ação junto às chefias, destinatárias do mesmo (e uma vez que foi feito antes da entrada da
investigadora no processo) , a investigadora procedeu a ent revistas de profundidade junto às chefias de
departamento e um inquérito às ch efias de secção. Pretendia -se entender, através das respostas, se o
“ Contrato ” para a mudança tinh a sido eficazmente executado pelos “ Destinadores ” , se passaram com
clareza um “ Dever Fazer ” e em que medida as ch efias analisadas o t eriam acei tado e at é que pont o
estariam conjuntas com as moda lidades Querer , Saber e Poder para a mudança.
Dos inquéritos e en trevistas, conclui- se que as lideranças da empresa entendem a mudança pretendida
para a orga nização e confirma-se que veem, no
empowerment
, o valor t ransformador que é n ecessário
fortalecer e alinh ar para que possam fazer face à t ransição perspe tivada pela Bo sch . Nesta recolha de
informação, encontram-se dados importantes como o de que as pess oas (leia -se lideranças) t êm
empowerment
, mas que querem mais (o Querer da nar rativa). Também que e stão alinhadas quanto ao
que isso significa no contexto da organização,
Poder de Decisão
,
Autonomia
e
Responsabilidade
a
somarem mais de 70% das opiniões.
Através desta auscultação à população em estudo, f az -se igualmen te o levant amento quanto aos
principais obstáculos ao
empowerment
que se erguem ao nível do Querer, do Saber e do Poder para a
sua con cretização, tal com o a narrativa de Greimas desenha e as chefias da empresa o entendem. Neste
processo, as chefias suger em igualmen te as soluções ao nível do Saber e do Po der para a t ransição
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
10
pretendida, apresentan do o Q uerer como já existente e propiciando o seu reforço através da aquisição
das anteriores.
A part ir deste momento, são constituídas duas equipas de t rabalho com re present antes de chefes de
departamento e chefes de secção (não ligados hierarquicament e). A uma equipa são entregues as
soluções propo stas pelas chefias (nas entrevistas e inquéritos) quanto ao Saber para a m udança através
do
empowerment
(relacionadas maioritariamente com o poder de deci são, a auton omia e a
responsabilidade, informa ção, mat uridade ou conheciment o das chefia s) ; a outra equipa são atribuídas
as soluções relacionadas com o Poder para a mudança e com a aplicação em co ntexto desse
empowerment
. A primeira equipa cham ar - se -á equipa d o Sa ber/Liderança, a segunda equipa será a do
Poder/Sistemas e Processos Orga nizativos. São elas que, sob or ientaçã o da investigadora e com a
liderança da orientadora empresarial, fazem acontecer tudo o que vem a segui r.
De t odos os ob stáculos ide ntificados nas en trevistas e inquéritos, re lativos ao Sa ber e ao Poder, e por
questões de dimensão e exequibilidade do projeto, cad a uma das equipas de traba lho elegeu os 10 itens
que considerou m ais import antes, avan çando par a o desenho de soluções. In ici ou -se as sim a
Performance des tas equipas qu e, seguindo o processo da inve stigação -ação, se desenvolve u em
iterações sequenciais e, em crescendo, no envolvimento das restantes chefia s.
A equipa do Saber/Liderança decidiu que, sem um primeiro tópico essencial estar resolvido , n ão seria
possível avançar para os restant es; esse tópico seria a definição de uma moldura d e competências para
as chefias, mais tarde des ignado “Código de Conduta”, que a s orientasse e fizesse Saber o seu nível d e
Poder de Decisão, Autonomia e Responsabilidade em aspetos vários da sua vida na org anização . Dessa
forma, encontrar - se -ia um nivelamento de at uação
empowered
ent re ch efias de secção de diferentes
departamentos e entre chefias de departamento. O trabalho dest a equipa é levado até ao momento da
definição e distribuição pelas chefias do “ Código de C onduta ”, enquanto referencial de at uação delas
face às dimensões aí presentes. A investigadora fez ainda feita a avaliação, através de no vo inquérito às
chefias, de qual a situação na empresa, n o momento, face a cada uma das suas dimensões e aspetos
desse código . Posteriormente, analisaram-se os
gaps
entre o referencial e a s ituação no momento, para
posterior ação da organ ização (já posterior ao término desta investiga ção) no sent ido de anular as
diferenças entre o referencial ideal e a situação existente .
A equipa Poder/Sistemas e Processos Organ izativos as sumiu o mesmo processo, i dentificando um item
da sua lista de tarefas, o f undam ental sem o qual não con seguiria desenvolver o s restantes itens: teria
que ser criada uma sistemática de planeamento estratégico para a Bosch em Braga, ligado ao seu
Introdução
11
Balancedd Scorecard
, participado e part ilhado por todas as ch efias, que lhes conferisse o Poder
necessário de açã o para a mudança em curso. Este processo incluiu reu niões de chefias de
departamento, workshops estratégicos e reuniões globais das equipas de chefia (
Management Tea m
Meeting
s) que, seguindo o modelo de planeamento estratégico desenhado, trouxeram o envolvimento
das chefias n a estratégia . Assim, n a posse das diretriz es da organização, as chefias teriam o Poder de
agir da forma certa, n o momento certo , com
empowerme nt
face às suas hierarquias. O trabalho desta
equipa foi gigantesco, te ndo levado a organ ização a reflexões estratégicas e ação de formas até aqui não
pensadas ou executadas.
A participação no trabalho de ambas as equipas, da ndo substância ao
empowerment
, foi primeiro
alargado à participação das ch efias de departamento e depois às ch efias de secção, que t iveram amplo
envolvimento em todo o processo. Tratou-se de uma Performance do
empowerment
em ação para a
Mudança Organizacional , que s e pode caracterizar com o de grande dimensão.
O trabalho de ambas as equip as, Saber/Liderança e Poder/Sistemas e Processo Organizativos e das
restantes chefias da Bosch , a “ Performance ” desta ação, teve um momento final de “ Glorificação ”, que
é relatado no capítulo.
Terminamos, no fech o deste trabalho , com o capítulo das
Conclusões
onde, sumariamente, se con clui
da aplicabilidade do mode lo de Greimas na concretização dos fins que foram propostos por esta
investigação-ação , sintetizando, num con junto de e tapas, o que poderá ser uma fór mula de sucesso para
uma m udança real em empr esas e organizações que dela necessitam , envolve ndo, num sistema
participativo e
empowering
, as pessoas que as integram . Sem que os principais ag entes da mudança
queiram, saibam ou possam proceder à mudança ela não será , n unca, concretizada de forma eficaz e
por forma a garant ir a rápida adequação da organização ao seu contexto t ransacional (o de negócio).
Estas etapas, decalcadas sobre a Semiótica narrativa de Greimas constituem- se , no seu conjunto, como
um novo modelo que vemos como generalizável – ou mel hor, como tra nsferível - para lá do caso Bosch,
desta forma propondo-se como o nosso con tributo para o con hecimento científico na área da mudança
organizacional.
Também esta nova utilidade do modelo de Greimas no contexto da m udança organizacional , e que
sustenta a origina lidade da investigação , contribui para uma nova abordagem a o conhecimento científico
na ciênc ia Semiót ica, proporcionan do-lhe o
quantum leap
do mundo da análise e observação, para um
novo mundo , o da intervenção e da ação .
Na esteira destas conclusões, fazem-se igualmente sugestões para futuras ações d e investigação
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
12
P ARTE 1
A apresentação do caso em estudo, a Bosch Car Multimédia, Portugal
13
Capítulo 1. A apr esent ação do caso em estudo, a Bosc h Car Multimédia, P or tugal
1.1. Preâmbulo
Ao assumir-se esta investig ação como de ação, procurando solucionar um problema colocado pela
administração da Bosch Car Multimédia em Braga - efetuar a mudança necessária n a organização, para
resposta mais ág il a um mercado crescentemente competitivo - este capítulo 1 assume-se, n ão como
uma análise exaustiva da o rgan ização, nem como uma abordagem teórica aos problema s que aqui se
colocam, em confronto de perspetivas, sobre que stões como o poder e controlo, papel da liderança na
mudança (o qu e faremos à frente, noutros capítulos), mas, sim, como um
briefing
. Será
intencionalmente, por isso, um conjunto de informa ções necessárias e dados relevantes para a
concretização da tarefa em mãos e para o alcançar de determinados objetivo s (Merriam-Webster.com
Dictionary, 2020). Alguns dados acerca da at ividade da Bosch e a forma como esta se desenvolve, a sua
visão, missão e valor es, da dos sobre a sua performance, entre outros, tran smitem -se, aqui, t al e qual o
original ou em versões aproximadas, para n ão deturpar ou alterar de forma pro fun da aquilo que é
comunicado para o interno e externo da organização e que constituem a intenção da empresa na
definição da sua imagem e de alinhamento dos seus colaboradores qu anto aos objetivo s.
1.2. Dados contextuais do Grupo
O Grupo Bosch é um con junto de empresas, multinacional, de cariz tecnológico, sendo seu objetivo
estratégico “criar soluções para um m undo interligado”, assumindo-se, n a sua as sinatura institucional,
como criador de “Tecnologia para a vida” , com isto rev elando uma intenção : a de passar a mensagem
de que a sua oferta em produtos e serviços t ecnológicos contribui para a vida das pessoas, nos seus
variados usos, profissiona is e privados .
Segundo a filosofia de Robert B osch, o fundador, a orga nização tem como objetivo criar um negócio
sustentável, que garant a independência financeira face ao mercado e face a interesses ext ernos à
organização, nomeadamente evitando participações no seu capital social, de terceiras entidades,
públicas ou privada s, nas várias localizações do mundo em que se encontra. Para esse efeito, segundo
afirma, a B osch atua com o objetivo de prosseguir na curva de crescimento que a sua faturação
demonstra ao longo do tempo, curva e ssa que resulta d a reação positiva dos vários sectores de mercado
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
14
para os quais orienta o seu desenvolvimento e inovação de produtos. Verif ica -se, com efei to, em relatórios
e contas de vári os anos qu e, apesar de algumas variações negativas, a t endência da curv a do
crescimento do s eu negócio é positiva. Segundo as informações apresenta da s nas p restações de con tas
anuais, as suas at ividades produtivas e com erciais são desenvolvidas na perseguição de inovação
constante e de medidas tendentes à preservação dos recursos naturais. São disso exemplo o Veículo
Shuttle Con cept
, um “ pacote de h ardware, software e serviços de mobilidade para a mobilidade urbana
do futuro ” (Grupo Bosch, 2020, p. 20) ou a
Fábrica do Futuro
, cuja manufatura é gerida com recurso à
inteligência art ificial, para m aximização de recursos e minim ização de desperdícios, ambos lan çados em
2019. Igualment e os valores investidos em ino vação, apesar de alg umas variações n egativas,
apresentam tendência positiva acentuada.
Para lá da s s uas at ividade s produtivas e comerciais, a empresa faz questão de sublinhar ainda uma
preocupação social, que anuncia : “A ori entação de cariz social e filantrópico é u ma das part icularidades
do Grupo que, em 1964, criou a Fundação Robert Bosch com o objetivo de desenvolver áreas de
formação, arte, cultura e ciências” (Bosch Car Multimédia Portugal, 2016, p. 9).
Estas afirmaçõ es da organização, nas suas publicações, poderão ser int erpretadas em vários planos,
internos e externos: por um lado, comunicam para o interno da organização, espalhada pelo mund o
inteiro, orientações quant o à s formas que deve tomar o d esemp enho dos colaboradores (nomeadam ente,
no que respeita à import ância e tipo de inovação a desenvolver); por outro, demonstram a su a
preocupação em ir ao encontro dos valores qu e prevalecem na sociedade atual, nomeadamente quanto
às que stões de inovação ori ent ada para o ambiente e para questões sociais; por o ut ro ainda, pretendem
a definição de uma imagem de saúde e robustez financeira, o que repr esenta uma mais valia n o que
respeita ao desenvolvimento de negócio com os gran des client es e ao apoio da s entidad es oficiais dos
países em qu e se instala..
As suas divisões, com indústrias locali zadas um pouco por todo o mundo, concentram as atividades de
produção tecnológica em quat ro áreas: bens de consumo, en ergia e tecnologia de construção, soluções
de m obilidade e tecnolog ia industrial, para as quais i números produtos de hardware e softwa re são
criados, complementados por ser viços associados.
A apresentação do caso em estudo, a Bosch Car Multimédia, Portugal
15
Figura 1: Represen tação gráfic a das áre as de negócio do Gru po Bosch. Fonte: Manu al de Acolh imen to (Bo sch Car
Multimédia Po rtugal, 2016)
A Bosch Car Multimedia (CM), de que faz parte a u nidade de Braga, a Bosc h Car Multimédia Portugal, é
uma das divisões do grupo Bosch e encontra-se integrada n a área de negócio das “Soluções de
Mobilidade”.
De acordo com dados de 2 019, a organização emprega mais de 400 .000 colaboradores, t endo gerado
77,7 mil milhões de euros, para o que concorrem a Ro bert Bosch GmbH e as suas 440 subsidiárias e
empresas regionais em cer ca 126 localizações de en genharia em mais de 60 paí ses . G erou, em 2019,
2,9 mil milhões de euros e m EBIT. Can didata -se anualmente a milhares de patentes em todo o m undo ,
investindo em inovação 6,1 mil mil hões de eu ros e empregando cerca de 72 .600 colaboradores n a área
de investigação e desenvolvimento, em especialidades que vão desde a en genharia e tecnologia, até à
sustentabilidade e sociedade
1
(Robert Bosch, 2020, p. O que fazemos).
O Gru po Bosch apre senta como focos estratégicos , clarificados no seu programa estratégico global para
todas as áreas “We are Bosch” (Bosch GmbH, 2019), os seguintes:
• Foco no cliente – afirmando compreender as necessidades dos seus clientes, a
organização declara que direciona as so luções para resposta às suas exig ências ,
criando, para o efeito, modelos de negócio inovadore s;
1
https://www.bosch .pt/a- noss a-empresa/o- grupo-bos ch- no - mundo/#o-que -fazemos
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
22
controlada pelas elites, at ravés da qual procuram reproduzir as representações de ident idade, imagem
ou marca que julgam ade quar ‑ se melhor ao seu projet o e ao mercado que conhecem” (Ruão, 2010, p.
860) .
Nas mãos da s elites, proce ssos comunicativos , com o os observados em programas como o “Be one,
CM. Be On e CM” , procuram manter presente na mente e comportamentos dos colaboradores, com
extensão a públicos exteriores, a visão da organização para o seu fu turo e o caminho a faz er ,
corroborando a afir mação de que “ a comunicação organizacional n ão é um processo neutro de
transmissão de informação” (Denis K. Mumby & Stohl, 1996, p. 60) .
O uso de inst rumentos de comunicação desta natureza t em capacidade para provocar re ações opostas
nos membros da or ganização. Por um lado, pode observar-se o abraçar dos desígnios assim
comunicados, visões da organização e valores, pelos indivíduos. Coagem -se e controlam -se mutuamente,
com vista a g arantir um ambient e com o qual se identificam e on de se int egram, sendo esta
frequentemente uma forma de co ação mais forte do que a formalmente exercida pelas elites (Modaff,
Butler-Modaff, & DeWine, 2016); relacionados com esta ideia, recordemos os trabalhos de Fo ucault s obre
o controlo e disciplina no cri me, em que afirma que o comportamento dos indivíduos s e torna conforme
ao poder, não só pelo controlo formal do seu comportamento (através de medidas discipl inadora s), com o
através da interioriz ação constante de crenças e valores dominantes, qu e lhes t olhem o compor tamento,
e que são regulados pelos próprios o u pelos grupos a que pertencem (Foucault, 200 8, 2013; Karl
Thompson, 2016; Polla rd, 2019). Por outro lado, es ses instrumentos e programas, representan do o
poder inst itucional, têm o potencial de gerar oposição, principalmente em proces sos que são de mudança
do
status quo
, fazendo das orga nizações locais de conflito de int eresses, de t ensão ou de resistên cia,
que vivem muito frequentemente em sucessões de equilíbr io-de sequilíbrio (Conrad & Poole, 2012).
De forma objetiva, já não em programas e comunicação de alinhamento, mas em reu niões e informações
operacionais, os ob jetivos e estratégias são desdobrados para o
Balanced Scorecard
5
de cad a empresa
da divisão CM, concretizan do com o estes se traduzem e desdobram nos ob jetivos de cada unidad e da
divisão, n as componen tes finan ceira, de pessoas (aprendizagem e crescimento da organ ização), c lientes
e processos internos do negócio.
5
Para mais so bre
Balanced Scorecard
, um mo delo de gestã o empresarial por quadros de objetivos, sug ere-se a leitura de K aplan e Norton (1996).
A apresentação do caso em estudo, a Bosch Car Multimédia, Portugal
23
Na Bosch em Braga, como n as restantes unidades da divisão, depois de definido como mandat o anual
aplicado ao nível da organização, o
Balanced Scorecard
é declinado primeiro ao nív el de departamentos
e, em seguida, ao nível das secções. Ele não define, contudo, o plano estratégico de cada unidade
(empresa, departam ento, secção…) para lá chegar, o que é important e ressaltar, uma vez que esse
“pormenor” é de elevada importância no desenvolvimento deste projeto, como se revela no capítulo 7.
Para alguém que não de uma área de gestão, ou que não está fam iliarizado com a import ância do
planeamento estratégico numa organização, adia ntemos que é ele, n o fundo, que define os trilhos pelos
quais se faz o percurso para chegar aos objetivos. Dê-se o exemplo de um objetivo basilar de fortalecer
a inovação para a m obilidade autom óvel numa organização como a Bosch Braga da área Car Multimédia
– o plano estratégico definirá, co mo resultado de um processo de diagn óstico inicial, qual a tipologia de
inovação a implementar, qu al a formação a incorporar, quais as m aquinarias em que investir, et c.
Simplisticamente explicado nesta fase, claro está. Sem este planeamento estratégico, ter os objetivo s
meramente expressos n um
Balanced Scorecard
é deixar uma organização sem respostas para muitas
questões que se l evan tam durante o caminho para a sua concretização.
Resultante das definições do
Balanced Scorecard
da Bosch em Braga, o processo t ípico de
implementação do mesmo, vigente at é à implemen tação desta inves tigação, seguia uma dinâmica
própria. I ncluía uma série de reuniões anuais da equipa de gestão, para as quais eram mobilizadas
momentaneamente as direções de departament o, as chefias de secção e de proj eto, bem assim como
alguns especialistas ou co nvidados extern os com incumbências mot ivacionais que pudessem fazer
sentido no contexto do momento. Assim, em ocasiões regulares marcad as an ualmente para o efeito,
discutiam-se tópicos e projetos que sobressaíam do normal funcionamento diário da e mpresa e outros
de caráct er mais global como os temas relevantes, resultantes do inquérito bi enal aos colaboradores,
especificamente os negativamen te avaliados ou com variações negativas acent uadas de um inqué rito
para o out ro. A estas reuniões de gestão d á- se o nome, na Bosch, de
Management Team Meeting
s. A s
suas dim ensões, em t ermos de membros e nvolvidos, são vari áveis dependendo do mome nto do ano (as
alargadas são de carácter semestral, por exem plo), alg umas cont ando só com a administração , chefias
de departamento e alguns responsáveis cham ados para abordar um tópico específico; outras, alargando-
se adicionalment e, e de forma transversal, a todas as chefias de secção .
Para o efeito destas
Management Team Meeting
s, e consequência posterior das mesmas, con stituíam -
se equipas de pro jeto ou respon sáveis para t emas que surgiam (por vezes de forma um pouco aleatória),
outras equip as resultando dos process os de trabalho em curso com clientes, outras equipas ainda
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
24
surgindo por opiniões e sugestões partilhadas por muitos, aventadas n as sessõ es de
brainstorming
dinamizadas durante esses eventos.
O
Balanced Scorecard
da organização, orientado para o crescimento, n ão era alvo destas reuniões,
contudo delas poderiam s urgir tópicos para at ribuição aos
Balanced Scorecar d
de departamentos ,
secções ou equipas de projeto .
1.6.
Balanced Scorecard
da secção Deployment of Business Ex cellence e do departamento de
Human Resources
Decorrente dos objetivos de crescimento e das co ndições determinada s como necessárias pela
organização para que este s e desse com s ucesso, no
Man agement Team Meeting
de novembro de 2015
(anterior à entrada da investigadora nos t rabalhos dentro da organização) , dois tópicos foram atribuídos
à secção de DBE,
Deployment of Business Ex cellence
(secção de Com unicação e excelência
operacionais, ant es secção de comunicação) e ao departamento HRL, Human Resources Local
(departamento de Recursos human os), para integração nos s eus
Balanced Scorecard
de 2016.
Os dois tópicos dos
Balanced Scorecard
atribuídos a DBE e HRL, em gestão partilhada, foram então:
• a mudan ça organizacional, necessidade des poletada pelos objetivos gerais de
crescimento da empresa em Portugal en tre 2015 e 2 021 ( sobejame nt e anunciado
nos meios de comunicação social e qu e apresentaremos na in vestigação em ação);
• e o
empowerment
das chefia s, condição que e stas con sideraram crucial para faz erem
face a esse crescimen to e mudança des ejados para a organização, opi nião suportada
na auscultação feita através do Inquérito aos Colaboradores AS+15 (que
apresentaremos à frente, neste capítulo)
A n ecessidade de prossecução destes dois objetivos pa ra poten ciar o crescimento foram a razão de ser
da integração da U niversidade do Minho e da investigadora em parceria com DBE e HRL, s ob patrocínio
da sua administração , no contexto de um projeto de investiga ção residente na B osch em Braga. Os
detalhes sobre essa integração serão apresentados no capítulo da Investigação em Ação (capítulo 7).
É de salient ar que o desenvolvimento da investigação é alvo de um cont rato , que s ujeita a investigação
a confidencialidade em alguns pont os, pelo que a sua exposição neste contexto estará limitada , mas a
profundidade possív el será explorada por forma a fazer entender objetivos e condicionantes ao desenrolar
da investigação.
A apresentação do caso em estudo, a Bosch Car Multimédia, Portugal
25
1.7. O Contrat o para o Crescimento através da Mudan ça Organizacional e do
empowerment
e a
entrada da investiga dora no processo
O crescimento desejado de 2015 a 2021 irá constituir -se assim como o eixo de uma transformação
“contratada” pelas a dministrações da orga nização (destinadores deste c ont rato de mudança
organizacional, enquan to re presentantes do Gr upo e das exigências do mercado) e dirigida à unida de de
desenvolvimento e produção que é a Bosch em Braga. O papel de
Destinatário-Sujeito
desta mudança é
interpretado pelas ch efias da empresa, principalmente as int ermédias (de secção ), defin idas pelo s
próprios como mot ores essenciais da mudança, numa unidad e fortemente marcada pelo seu cariz
produtivo.
Esta ideia de
Contrato
entre
Destinadores
e
Destinatários
, surge nos termos da narrat iva de Greimas,
que virá a ser um centro teórico desta investigação, recurs o que defenderemos em capítulo posterior.
Com este projeto, nasce a parceria da Bosch com o Instituto de Ciências Sociais da Universidade do
Minho, no context o das Ciências da Comunicação e, mais especificamente, da Semiótica. Surge com o
objetivo de apoio na implementação dos dois vetores estratégicos organizacionais, a m udança
organizacional e o
empowerment
(através do qual, aquel a será feita) e, não sendo novidade a parceria
com a Universidade porque frequente n as áreas centrais da Bosch de ino vação tecnológica, proporciona
um projeto inusitado e diferenciador à Sem iótica, sobretudo à Semiótica narrativa: o ocorrer em contexto
empresarial e ao serviço das suas competitividade e mudança organizacionais.
Entenda- se que este “enco ntro” se dá como u ma coincidência, cheia de per ipécias e p ercalços iniciais,
em que a principal perplexidade é a da investigadora: com efeito, a abord agem que faz à empresa, no
arranque, para propor este projeto é resultado da leitura de uma notícia dos meios de comunicação
sobre o crescimento previs to e mudanças intencionadas de que a organ ização passasse de unidade
produtiva para centro de desenvolvi mento e produção. Daí decorren te, a int enção original da inves tigação
era de observação do fenómeno de mudança a ocorrer na Bosch através da lent e da Sem iótica narrativa.
Contudo, é colocada à investigadora uma condição para a sua entrada n a B osch: a empresa,
considerando o seu currículo em process os de comunicação, pretendia que es ta fizesse, não a “leitura”
e análise do processo, mas a implementação da mudança. Uma investigação -ação.
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
26
1.8. A estrutura organ izativa da empresa
Para entendermos todo o proces so que a partir daqui se apresenta, temos de entender a estrutura da
organização da Bosch em Braga, ainda que limitados por algum grau de confidencialidade. Nesta breve
ap resentação do caso Bosch sobre o qual nos vamos debruçar, apresentaremos por isso o que é passível
de ser público, esforçando -nos apesar disso por da r um retrato fidedigno, que permita fazer ent ender o
projeto.
1.8.1. Uma estrutura de In diretos e Diretos
Decorrente da sua estrutura produtiva, a empresa Bosch em Braga a tribui design ações aos seus
colaboradores pelo seu t ipo de atividade – os que chama Diretos, essencialmente colaborad ores com
atividades de cariz produtivo, associados às linhas de man u fatura e dependentes de chefias de secção ;
e os restantes (a que raram ente refere como I n diretos) onde inclui a clas se exec utiva, ou seja, chefia s
dos vários níveis e colaboradores tipicamente ligados aos serviços de engenharia, desenvolvimento e de
apoio aos mais variados nív eis. A liderança da empresa, entre administração, chefias de departam ento ,
chefias de secção e
Team L eaders
ou responsáveis de e quipas de p rojeto encont ram-se entre esta última
tipologia de colaboradores. Tópicos como horário s de traba lho e isenções, p lanos d e desenvolvimento e
gestão de carreira, formas de avaliaçã o de talento e de colaboradores, formaçã o con tínua, entre outros
aspetos, são dife renciados de acordo com a especificidade de localização e r esponsabilidade dos
colaboradores (do que não falaremos aqui).
1.8.2. Uma visão da lide rança para o Crescimento
“Be One C M”, explica como lideramos e cooperamos com vista a alcançar o “Be One, CM” (“Bosch CM
- Be One, CM; Be One CM - parte 2,” 20 15)
Para o man dato que nos orienta a partir da definição dos objetivos, e para con cretização das orientaçõ es
estratégicas da organização CM em B raga, o papel da liderança é considerado fundam ental na Bosch.
Falaremos sobre ele mais profundamen te no capít ulo 5 , sobre a Mudança, cumprindo -nos aqui o dever
de clarificar os objetivos pretendidos a esse n ível: para u ma liderança de mercado, a organização deverá
pôr em prática o exato equilíbr io en tre uma liderança vermelha (comando e controlo, interventiva,
necessária em períodos de cris e), uma liderança azul (orientada para os resultados, interventiva apenas
quando necessário ou requerido, para uma fase de criação de con fiança) e uma liderança verde
A apresentação do caso em estudo, a Bosch Car Multimédia, Portugal
27
(democrática e inspiradora, que delega , dá liberdade e espaço para o empreendedorismo individual e
que confere
empowerment
às equ ipas):
O contexto dinâmico do mer cado e m que CM atua requer rapidez nas decisões e na implementação ,
com exi gên cias c rescentes relativament e aos nossos projetos e qualidade. Por esta razão, preci samos
de uma liderança f le xível, ca paz de se a daptar a cada sit uação específica.
Para nós, uma lid erança bem-suced ida é carac terizada por t rês estilos:
•
Command and con trol
(comm ando e control)
•
Target agreeme nt and fo llow- up
(acordo e s eguimento d e resultados)
•
Inspiration through v ision and mission
(inspiração através da visão e missão)
Todos os estilos de l iderança são necessários e têm de ser conhecidos e aplicados de acordo com a
situação específica. Para garantirmos o sucesso do nosso negócio a longo pra zo e p ara o
desenvolvermos de a cordo com as exigências futuras, queremos alcançar o máx imo poss ível do “Verde”
e o máximo necessário do “Azul” e do “Vermelho”. Por isso, queremos promover o t rabalho em equipas
auto-organizada s e auto rresponsá veis: e quipas que se organizam de forma autónoma e que são
caracterizada s por um elevado nível de responsabilida de individual (“Bosch CM - Be One, CM; Be One
CM - parte 2,” 201 5)
1.8.3. A estrutura da liderança na Bosch
A B osch em Brag a espelha a estrutura da divisão Car Multimedia, em traços largos, apresent and o uma
administração com dois responsáveis por áreas distintas e depart amentos e secções que lhes respondem
hierarquicamente.
Acrescem, a esta estrutura hierárquica, as equipas de projeto, de dimensão variada, que se orientam
para a tarefa ou projeto a executar, muito frequentemente projetos decorrentes das encomendas de
grandes marcas automóveis, projetos de melhoria contínua, de inovação tecnológica, etc.
A empresa, na cidade de Braga, alberga unidades de outras divisões que não a de C ar Multimedia, sobre
as quai s não iremos debruçarmo -nos uma vez q ue não são ela s o al vo da investigaçã o. Mencionamos,
apenas, qu e são departamentos com uma autonomia funcional grande, face à estrutura hierárquica local,
dependendo essencialmente da unidade a que pertencem e que se encontra no exterior da Bosch Braga,
numa outra divisão Bosch, em qualquer outra localização.
A administração da unidade de Braga é dividida e ntre PC ou administrador comercial e PT ou
administrador técnico. Como exemplo, PC é responsá vel pelas áreas de suporte e administ rativas, a
quem re spondem os departamen tos Financeiro, Recursos humanos ( HRL), Logístic a, P ós -venda, secção
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
28
de Comunicação e excelência operacionais (DBE), Tecn ologias de informação, C ompr as, en tre outros;
PT é responsável pelas áreas de Engenharia, Desenvolvimento e produção de artigos multimédia
automóvel, respondendo-lhe departamentos como o de Desenvolvi mento, a unidade produtiva de
Inserção au tomát ica, a u nidade produtiva de Montagem final, Saúde, higiene e ambiente, Engenharia de
produção, Gestão da qualidade, ent re outros de cariz produtivo. A larga maioria dos departamentos tem
secções na sua depen dência. Exis tem casos isolados de departamentos sem s ecções e de secções com
dependência direta da administração (caso de DBE).
É aqui que necessitamos enquadrar o t ópico que dá origem a este projeto de investigação-ação , o
empowerment
, tema que se apresenta com destaque n o Inquérito aos colaboradores de 2013 e 2015
(estes, doravan te t ambém denominados AS+13 e AS+15 , designação derivada d e
Associates Survey
),
.
Foi de facto definido, pelas pessoas da organ ização, mais especificamente as chefias, que obter mais
empowerment
seria condição necessária para o des envolvimento e crescimento pretendido para a
organização at é 2021, objetivo s apresentados já no “Be One”.
Sendo o
empowerment
um con ceito a explorar teoricamente no capítulo 6 , devemos preliminarmente
dar uma breve n oção do que significa o termo para m elhor enquadrament o face ao desafio que n os foi
colocado. Podemos introduzi- lo pelo que significa literalmente, e que é “reforçar ou adquirir poder”
(Calvès, 20 09a, p. 785) ou , de forma m ais elaborada, afirmando que é a capacidade de ter impacto
sobre os outros ou sobr e as coisas, seja esse impact o intencional ou não (Lord & H utch ison, 1993 ). Não
ter
empowerment
é não ter, então, o poder necessário para agir sobre as coisas e os outros.
E porque é o
empowerment
uma necessidade crescent e numa estrutu ra como a B osch? E porque é a
estrutura da organização, à uma funcional e mat ricial, um po ssível problema p ara o
empowerment
?
Descobriremos à f rente, quando falarmos sobre o tema n o contexto do Inquérito aos colaboradores
(
Associates Survey
ou AS+), m as po demos levantar um pou co do véu desse mistério. Estas são algumas
das razões, sumariamente:
• A n ecessidade de m aior agilidade n o crescimento da organização, mantendo o número
existente de chefias ao mesmo tempo que aumentando colaboradores;
• A integração de p rofissionais especialistas e chefias de secção em simultâneo em
departamentos e em equipas de projeto (com resposta a várias vozes de comando);
• Funções de ch efia com resposta hierárquica local, mas também funcional ao
departamento ou secção internacionais;
A apresentação do caso em estudo, a Bosch Car Multimédia, Portugal
29
• Chefias de departam ento com diferentes balizas e critérios, q uanto à noçã o do que é
empowerment
.
As questões qu e se levantam resultantes da estrutura organizati va da Bosch - por u m lado, formada por
departamentos e secções, n uma estrutura funcional, hierárquica e verticalizada e, por outro, por equip as
de projeto, numa estrutura matricial marcada por fluxos horizont ais de informação e pela con vivência
entre equipas multidisciplinares de trabalh o – estão suficientemente documenta das na literatura que
versa a gestão e n a relativa à t eoria das organ izações. Em jeito de resumo, não poderíamos deixar de
mencionar Taylor, Fayol e Max Weber, n omes maiores das teorias clá ssicas da ge stão, Ma yo, Ma slow e
McGregor, teóricos das áreas comportam entais da gestão, mas apenas como referências que antecedem
a sistemática d e gestão que veio a ser conhecida como desenvolvimento organizacional, essa sim, uma
área da gestão que se apr oxima já do tópico principal deste estudo, a mudança organ izacional. Com
efeito, para o desenvolvimento organizacional, a mudança das organ izações é sua parte integrante e
desejável, fruto da ação das pessoas e com fins de aument o da sua eficácia. Ao desen volvimento
organizacional sucedem-se teorias prag máticas da gestão, de que o m arketing é o filho q uerido da
atualidade (Bilhim, 2009; Min tzberg, 2010). Não sendo, a gestão, o cam po teórico desta investigação,
não iremos desenvolver a teoria das organizações.
A área da com unicação organizacion al, por sua ve z, debruça -se sobre as questões da estrutura das
organizações e na forma como aquela impacta o seu funcionamento e cultura, propondo perspetivas
críticas quant o à democracia e relações de pode r decorrent es da sua estrutura (Christensen, Ch eney ,
Zorn, & Ganesh, 2010). Este seu sentido, relacionad o, de forma mais remota ou mais próxima , com a
gestão da comunicação organizacional, seja nas suas compon entes mais estratégicas ou mais
pragmáticas, não s erá o ângulo da nossa investigação. A nossa abordagem assu me - se mais com o “ uma
preocupação com a ação coletiva , a atividade humana, mensagens, símbolos e discurso ” (Denis K.
Mumby & Stoh l, 1996 , p. 53) , que, sendo também uma visão mais ampla da com unicação
organizacional, n os aproxima mais do campo semiótico, origem e natureza do modelo semiótico que
usaremos como guião de ação nesta in vestigação.
Quanto à mudança organizacional, na sua ligação com o campo t eórico do desenvolvimento
organizacional, será tratada no capítulo dedicado ao t ema (capítulo 5 ).
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
30
1.9. A comunicaçã o na empresa Bosch em Brag a
Como suporte à gestão e à vida quotidiana da empresa, esta desenvolve e faz chegar vári as ferramentas
de comunicação interna, para passagem de informação em sentido vertical, ascendente e descendente
e para c irculação da infor mação entre t odos. Com isto, a empresa v isa mant er os colaborad ores
motivados e envolvidos nos projetos aos mais variad os níveis. A par de muitas outras informações,
podemos en contrar t odas ess as fer ramentas formalizadas e explicadas det alhadamente no Manual de
acolhimento da Bosch em Braga (Bosch Car Multimédia Por tugal, 2016).
Dentro da Bosch em Braga, há a mencionar as reuniões como um dos tipos mais com uns de formatos
de comunicação:
• Diálogo da administra ção com os Colaboradores – sã o reuniões bianuai s, em que a
administração se senta em diálogo com os colaboradores para disc utir a empre sa e
sua situação no momento e sobre orientações do Grupo Bosch. Os colaboradores
podem partilhar opiniões e colocar questões;
• Reunião de departam ento / secção – reuniões mensais a trimestrais, conforme os
casos, onde se fala sobre a situação da empresa e impact o ao n ível do departamento
e secção, onde se divulgam notícias B osch importantes e se tiram dúvidas aos
envolvidos;
• Reunião de 5 m inutos (produção) – ant es de iniciarem os turnos de trabalho, há
reuniões de pon to de situação da produção e alinh amento com os objetivo s
operacionais.
Embora não formalizadas no Manual de acolhimento, podemos acrescentar a estas reuniões os
steering
committees
(uso sem tradu ção na empresa, mas que se podem definir como co mité s de direção para
orientação), reuniões com o objetivo de orientar o t rabalho das equipas, algumas de caráct er regular,
outras de cará cter ext raordinário, com a particip ação de vários elementos das chefias, dependen do do
tipo de projeto .
Circulam também vários meios impressos locais, o que inclui:
• Bosch+ (Jornal Interno) que trimestralmente partilha informação variada sobre
projetos, ben efícios e protocolos, ent revistas e art igos s obre a Bosch em B raga, s obre
a Divisão e sobre o Grupo;
A apresentação do caso em estudo, a Bosch Car Multimédia, Portugal
31
• Infor+ (Newsletter int erna) – sem periodicidade fixa, s erve para divulgar “alterações
organizacionais marcantes, assuntos relacionados com recursos humanos ou notícias
relevantes do Grupo B osch” (Bosch Car Multimédia Portugal, 2016, p. 50);
• Guia de protocolos & ben efícios - todo s os protocolos com benefícios aos
colaboradores e familiares se encontram aq ui;
• Verso dos recibos de vencimento – veicula informações sobre t emas de recursos
humanos, eventos e comunicações da empres a.
Existem vários meios que supor tam a com unicação ascendente:
• Caixas de perguntas e resp ostas - servem para colocar questões ou p ropor temas de
debate à ad ministração nas reuniões da administração com os colaborad ores;
• Grupos de f oco – em gr upos de discussão, debatem - se t emas variados sobre a
empresa, para melhoria contínua ;
• Inquérito aos colaboradores (AS+) – efetuado de dois em dois anos a nível mundial,
avalia a satisfação dos colaboradores relativamente a diferent es tópicos da vida da
empresa, para, posteriormente, propor medidas de melhoria. Nesta investiga ção,
contámos com os dados do AS+ 13 e AS+ 15 (não passíveis de partilha n esta tese);
• Programa de sugestões – os colaboradores, através de ste programa, podem sugerir
melhorias para a empresa, que, sendo de valor para a organização, pode dar lugar a
uma retribuição.
Como meios físicos de supo rte, existem ain da quadros informat ivos gerais, quadros de event os e quadros
de classificados. Como meios digitais e multimédia, existem quiosqu es m ultimédia , m onitores
informativos , e-mail (BrgP Comunicação), B GN – Bosch GlobalNet (Intranet do Grupo Bosch), Bosch
connect (rede social interna).
Além das ferramentas locais, exis tem ferramentas da div isão CM e ferramentas do Grupo Bosch.
Ferramentas da Divisão CM:
• Comunidade “Be One CM” (no B osch connect) – é uma comunidad e no Bosch connect
criada pela adm inistração da divisão CM com o int uito de fomentar o diálogo sobre
estratégia com toda a divisão, a nível mundial;
• Driving convenience letter (DCL) - É a newsletter mensal da Divisão Car Multimedia;
• CMagazin (Revista CM) – é uma revista bianual, distribuída por email, co m notícias
sobre a divisão, sua estratégia e produtos, nas suas diferentes localizações.
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
38
Outros autores ainda referem o mét odo do Realismo (Bryman, 2004), segundo o qual as ciências sociais
podem e devem aplicar o mesmo t ipo de abordagem que as ciênc ias nat urais, para a recolha de dados
e s ua explicação, mas aceitando que existe um con texto social e humano a que s e deve pr estar atenção
na investigação.
Considerando estas perspetivas , a investigação que aqui se desenvolve p oderia ser em s imultâneo
positivista e int erpretativista. Positivista, no sentido em que part e de t eorias existen tes e vai testar
postulados teóricos sobre d ados empíricos. I nterpretativista no sentido em que, enquant o investigação -
ação, com uma abordagem interventiva sobre contextos sociais da m udança, per mite potencialmente
redefinir e/ou desenvolver a teoria de partida a pa rtir dos fenómenos observados . Há que sublinhar,
contudo, que uma da s tradições teóricas da in vestigação-ação , con cretamente a ciência -ação à frente
referida, clama a necessidade de ter os dois tipos de abordagem, partir de uma dada teoria e colocando -
a à prova na ação para daí gerar generalizações que reafirmam, acrescent am ou alteram a t eoria ini cial
(Argyris, Putnam, & McLain Smith, 1985) .
Outras abord agens, de corren tes m ais con te mporâneas, são revisitadas por Ruão . A autora destaca a
corrente normativa ou pós -positivista, como decorrendo da tradição positivista centrando - se “ na
regularidade e normalização dos fenómen os comunic ativos, com objetivos prescritivos … que usa a
tradicional análise de variáv eis e busca generalizações nos fenóm enos observados ” (2008, p. 35), uma
opção epistemológica que encara a investigação como uma ferrament a n a resolu ção de problemas
organizacionais e n uma lógica da adequação ao mercado. Esta corrente não serviria como pano de fundo
da nossa investiga ção, já que se afasta, na sua n atureza de observação e análise, da essência de açã o
sobre o mundo concreto que imperará durante o nosso percurs o.
De entre as abordagen s contemporâneas, é forçoso referir a teoria crítica , considerando a natureza de
“encomenda” ou “prescrição” desta i nvestigaçã o-ação, emanada da admi nistração da Bosch, conforme
explicado no capítulo 1 .
A t eoria crítica é uma corrent e, fruto do contributo de muitos pensadore s e de campos cient íficos
variados, originalmente ligada às questões do t rabalho e que se a largou para os campos da filosofia,
sociologia, direito, psicologia, psicanálise e comunicação social, entre outros. A Esc ola de Frankfurt on de
se consolidou, nasce fortemente i nfluenciada pelas obra s de Karl Marx (1 818-1883) , Max Weber (1864-
1920), Georg Hegel (1 770- 183 1) e Sigmund Freud (1856-1939). É dirigida por Max Horkheimer (1895-
1973), junt ando ao seu movimento nom es de referência como Herbert Ma rcuse (1898 -1 979), Theodor
Adorno (1903-1969) e Jürgen Habermas (nascido em 1929), entre muitos outros.
A metodologia de investi gação e sua fundamentação
39
Não tendo prete nsões de ser exaustivos quanto a esta teoria, nem quanto ao seu percurs o histórico, já
distante dos interesses de açã o desta investigação, em t ermos gerais podemos resumir a ideia
fundamental na sua base, de que incide sobre as socied ade e a cultura, procu rando entender as relações
de poder que nelas se cruzam, desta forma proporcionando um olhar crítico que as permita contestar e
combater (Corradetti, 2018; Ingram & Simon -Ingram, 1992 ) .
Situando a t eoria crítica no con texto da s organizações, podemos avan çar que uma das suas
preocupações abrange o exercício do poder nesse âm bito, sendo objeto de estudo alargado e analisado
de muitas perspetivas. O poder n as organizações é e xercido ao lon go das linhas hierárq uicas, en tre
grupos e cargos, e através de múltiplos recursos, hav endo no seu exercício uma natureza formal ou
informal, direta ou in direta e sendo sofrido com ou sem consciência por parte dos seus alvo s, com ou
sem aceitação (Christensen et al., 2010) .
Também o conceito de hegemonia do poder é um conceito basilar da t eoria crítica n o contexto das
organizações, referindo-se às formas e métodos como se exerce ent re g rupos, g arantind o a influência
dominante de uns sobre os outros. S ubmetidos a estes métodos, con segue -se o apoio ativo dos
do minados na prossecução das m etas dos g rupos dominadores, mesmo se estes não são do interesse
dos primeiro s. Daí decor rem, por vezes, processos de luta, ciclicamente reproduzidos, que ora geram
aceitação do exercício do poder, ora de contestação (Denis K. Mu mby, 1997; Dennis K. Mumby, 19 94) .
A ideia de resistência ao poder inscreve-se tam bém, assim, na abordagem crític a, que observa, n os
dominados, a reação às estratégias de controlo dos dominadores.
Poderíamos, nas questões de poder e dom inância ligados à comunicaçã o n as organizações, referir ain da
a corrente pós-modernista ou dialógica, de que se destacam referências como Baudrillard, Bordieu,
Derrida ou Foucault (R. M. Mourão, Miran da, & Gonçalves, 2016). Contudo, vê as ques tões da
dominação, não como ação con creta de grupos ou pessoas sobre outros, mas como alg o de cariz difuso ,
vago e sem ori gem (Deetz, 20 01). Para Foucault (1926-1984), um pós-estruturalista ( que não se deixou
rotular, apesar de vi sto como pós-modernista por muitos), que em muito da s ua obra se inscreve no
movimento crí tico, o poder, o controlo e a mudanç a soc ial caminham juntos. E, para ele, sempre que s e
revela a ação do poder e co ntrolo, há necessariamente resistência, mesmo se simbólica (Christensen e t
al., 2 010). A re sistência ao poder é vista, hoje, nas manifestações políticas, nos mov imentos instantâneos
das re des sociais e, nas org an izações, em escala meno r, nas greves, na inércia ou re sistência passiva à
mudança, entre outras formas, o que poderia ser um trilho a percorrer n esta noss a investiga ção. Uma
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
40
vez mais, a s ua natureza de açã o, e não de análise, e a s ua natureza de tarefa qu e concretiza um objetivo ,
afasta-nos desta abordag em.
Esta investiga ção, sendo uma açã o com um objetivo det erminado pela Bosch, apesar de seguramen te
po der seguir uma abordag em crít ica, obten do dados de análise sobre as relações de poder, na esteira
de Foucault e da su a visão de cont rolo social, não pode, pela sua natureza, seguir esta linha de at uação.
Com efeito, numa investigação de cariz mais tradicional, de observação dos mecanismos profundos de
uma organização co m o a Bosch, onde existe m relações de poder e domínio, faria t odo o sentido o papel
crítico do investiga dor, dando perspetivas n ovas e meios de ação à relação de dominadores e domina dos
como o defende Mumby (1997). Numa investigação -ação, em que o objetivo p rincipal, se cen tra na
resolução de um problema, n este caso, especificamente, de levar a ca bo uma ação de mudança, cujo
sentido é pré-determinado pela adm inistração , sujeita que está às exigências de compet itividade do
mercado, n ão coloca o foco do investiga dor n essa lente e abordagem crítica. Coloca -o na execução da
incumbência, o que à frente, apresentando a metodologia da investigação -açã o, defenderemos.
Avançando para lá da questão epistemológica , afirmam os que esta não deve ser confundida com a
distinção entre pesquis a q uantitativa e qualitativa , uma vez que isso diz r espeito ao t ipo de dado s
coligidos e analisados e à forma de os recolher (Bhattacherjee, 2012)
.
As metodologias de investigação podem classificar-se em vários tipos: a pesquis a de opinião, através de
questionários e ent revistas; a pesquisa experiment al, em que variáveis e sujeitos da experiência são
manipulados e observados os resultados dessa manipulação; o estudo de caso, aplicado a um ou mais
casos que são estudados in tensivamente nos aspetos relevantes para a investigação ; a pesquisa
interpretativa que analisa a realidade social enquanto fru to da experiência humana e dos cont extos
sociais (Bhattacherjee, 2012).
2.1. A proposta m etodológica de partida, o E studo de Caso
Por ter sido pensado inicialm ente com o um estudo sobre uma organ ização, de observação apenas do
processo de m udança, a investigação foi de início sugerida como seguindo a t ipologia de estudo de caso ,
um mét odo que analisa profundamen te, entre outros, um fenómeno, situação ou estruturas
organizativas:
A metodologia de investi gação e sua fundamentação
41
O estudo de caso é o método de e studar i ntensivam e nte um fen ómeno ao l ongo do tempo, dentro de
seu cenário natural em um ou algun s locais ... A investigaçã o do caso pode ser apl icada d e uma forma
positivista para fins de teste de t eoria ou de maneira interpretativa para construção de te oria
(Bhattacherje e, 2012, p. 93 )
Além de poder ser alvo de uma abordag em mais positivista ou m ais interpretativa, o método de estudo
de caso, como qualquer outro método, apresenta vantagens e desvantagens.
Uma vantagem imediata é o facto de permitir conclusões context ualizadas, detalhada s e pr ofusas; outra
vantagem é que t anto permite testar teoria existente, como fundamentar a construção de n ova t eoria; é
ideal para gerar h ipóteses ( Flyvbjerg, 2006) e permite também, se considerado necessário, alt erar a s
perguntas d e pesquisa du ran te o processo de recolha , caso estas se revelem pouco adequadas; pela
profundidade de context uali zação dá azo a interpretações mais profundas do fenómeno em an álise; outra
vantagem é que o fenómeno pode ser vi sto a partir da perspetiva de m últiplos pa rticipantes e de mais
do que um n ível de análise (ex .: organizacional ou individual) (Bryman , 2000). É também adequado a
perguntas de pesquisa “qu e exigem com preensão detalhada dos processos socia is ou organ izacionais
devida à riqueza de dados coligidos no con texto ” (Cassell & Symon, 2004, p. 32 3).
Obviamente, a opção por estudo de caso também apres enta desvantagens. Pela ausência de controlo
experimental, é usualmente fraco o índ ice de validação interna das inferências do estudo (o que é comum
à maioria dos métodos de pesquisa, à exceção dos ex perimentais); a qualidade o bjetiva das inferências
depende fortemente do nível de experiência do investigador; por outro lado, dado que as inferências são
contextualizadas e relacionadas com o caso em estudo, fica grandemente limitada a capacidad e de
generalização; igualment e, enquanto investiga ção apresenta um enviesamento para a con firmação das
hipóteses (Bryman, 2000; Flyvbjerg, 2006).
Segundo alguns aut ores (Cassell & Symon , 2004), o estudo de caso n ão é , na realidade, um método,
mas uma estratégia de inv estigação. Com efeito, na prát ica poderá utilizar múlt iplos e com binados
métodos de investigação, definindo -se assim, não pelo s métodos que utiliza, mas pela sua orient ação
teórica e por colocar a tón ica no estudo e con hecimento dos proces s os e do s cont extos em que os
fenómenos se desenrolam (Hartley, 2004) . São úteis a “capt urar as prop riedades emergent es e em
mudança da v ida nas organizações” (Hartley, 2004, p . 325). O desenh o deste tipo de investigação é,
por isso, necessariamente flexível, sendo plausível o seu uso na pro va de teoria existente ou na
construção de teorias novas ou em desenvolvimento.
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
42
Esta investigação seria um estudo de caso, no sentido que aborda e analisa profundamente o contexto
e a ação da mudança n uma empresa única, a Bosch Car Multimédia em Braga. Contudo , essa via
inicialmente aberta para esta investigação foi apenas o princípio de algo muito diferente.
2.2. Mudança d e abordagem metodológica – as condiçõe s de aceitação deste projeto
A intenção de investigação por estudo de caso, previsto inicialmente, teve de ser abandonada.
Com efeito, ao ter mudado a administração da Bosch em Braga antes do início dos trabalhos, e ao ter -
se de novo debatido a pertinência da execuçã o desta i n vestigação na organização, deu - se
necessariamente uma mudança dram ática nas opções met odológicas, limitadas que foram por uma
nova condição de aceitaçã o do projeto: pretendia-se que, dada a experiência da investigadora, esta
passasse de m era observadora de uma situação de mudan ça, para um motor dessa mudança. E sta
investigação, preparada à priori para uma abordagem de estudo de caso, recorre ndo a métodos
qualitativos e mistos, num sistema de triangulação, onde estavam supostos a entrevista, a obser vação
direta e a recolh a documen tal, para a qual uma profunda revisão bibliográfica tinha já sido p reparada,
passou a ter como objetivos, não desenvolver o con hecimen to teórico a partir de uma perspetiva de
observação, mas sobretudo
gerar efeitos de mudança a partir da açã o do inves tigador
com os seus
eventuais associados internos, quer ao nível da evolução dos indivíduos, qu er ao n ível do desenvolvimento
da orga nizaç ão . Uma das perspe tivas q ue valid ou esta opção metodológica foi a de Heller (2004) q uando
afirm ou que a família dos mét odos orientados para a açã o são programas facilitadores da mudança.
Estes programas, basead os em t eorias validadas , qu e serão desta forma postas à prova , produzirão,
eventualmente, n ovo conhecimento e teoria sobre o fenómeno em estudo , enquanto intervêm sobre a
realidade em estudo. U ma posição em linha com a ciência -ação de Argyris, que à frente
desenvolveremos.
Estava assim declarada pela primeira vez a necessidade de, neste projeto, se considerar uma perspetiva
científica orient ada para a ação. A investiga ção-açã o seria, pois, abraça da, como a melhor altern ativa
para es tabelecer a relação entre con hecimento e a ção , c om mútuos benefícios : aos alvos do experimento,
a empresa e suas ch efias, a execução do projeto de mudança pretendido e, à investigadora, maior
conhecimento e mestria a crescida à sua experiência profissional na aplicação desta abordagem
metodológica .
A metodologia de investi gação e sua fundamentação
43
Este tipo de investiga ção, intervencionista sobre o meio, tem sido cada vez m ais alvo de um int eresse
generalizado, interesse esse sustentado por explicações de cariz económico global. Com efeito, a procura
de conhecimento a partir da prática profissional e a provável introdução de m aior profissionalização das
forças produtivas são vi stas como sendo respostas potenciais para a recuperação econ ómica e
sustentabilidade social de empresas e países (McNiff & Whiteh ead, 201 0b).
A investigação -ação é primeiramente int roduzida por Kurt Lewin , em 1946, como uma parte do campo
mais amplo do Desenvolvimento Organizacional, resultando da preocupação do inves tigador em
combinar a expe rimentação, ação e teoria para efeitos de mudança social. Só desta forma se g arantiria
o envolvimento dos elementos de uma organização, a obtenção de melhores da dos que suportassem a
teoria e a concretização efetiv a da mudança . Foi assim qu e “ Lewin enquadrou a interdependência entre
teoria, pesquisa e prática ” (Cog hlan, 2011, p. 4 6)..
Argyris, a referência que repegaremos à frent e como iniciador de uma das tradições alt ernativas de
Investigação -ação, resumiu o conceito de investigação -ação de Lewin nos seguintes pon tos, que n unca
terão sido sistematizados pelo fundador:
1. A investigação-ação e nvolve experimentos de mudança em problemas reais dos sist emas sociais.
C on centra- se num problema e specífico e procura fo rnecer ajuda ao siste ma do cliente.
2. A i nvestigação-ação , tal como a gest ão social em geral, envolve ciclos iterativos de identificação de
um problema, p l aneamento, ação e ava liação.
3. A mudança pretendida n ormalm ente envolve reeduca ç ão, um termo que se refere à mudança de
padrões de pensamento e de ação que estão at ualm ente bem e nra iz ado s e m indivíduos e grupos. A
mudança pretendida é tipica mente no ní vel de normas e valores expressos em ação. A reeducação
eficaz depende da participação dos clientes no diag nóstico e desco berta de fa ctos e na livre escolha em
se envolver em novo s tipos de ação.
4. A investigação-a ção desafia o
status quo
a partir de uma perspetiva de valores democráticos. Essa
orientação de valor é congrue nte com os r equisitos de r eeducação ef icaz (partici pação e l ivre escolha).
5. A investigação-ação visa contribuir, simultaneamen te, p ara o conhecime nto fundamen tal em ciência s
sociais e para a ação social na vida qu otidiana. Os altos padrões de desenvolvimen to d e te oria e o teste
empírico de proposições organizadas pela teoria não devem ser sacrificados, ne m a relação com a
prática deve se r perdida (Argyris et a l., 1985 , p. 9; Coghlan, 2011 , p. 47).
Resumindo destas linhas , podemos perceber que Lewin vê a investiga ção-ação como um processo que
atua em duas frentes: a mudança requer uma ação orient ada para a sua concretização; pressupõe que
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
44
essa ação se suporta num diagnóstico e avaliação para a definição do plano mais adequado para a
eficácia dessa ação , em ciclos que se repetem. Também do resumo at rás se depreende que a eficácia
da ação para a mudança está dependen te da consciênc ia da necessidade de muda r e da aprendizagem
por parte das pessoas que a vivem, o que n os t ransporta a algumas das Competên cias do modelo
greimasiano de que partimos neste projeto – de que será preciso Querer a mudança para que ela
aconteça e de que será necessário Saber pa ra o fazer. O entendimento e o processo de aprendizagem
são vi stos como tão importantes qu anto a mudança pr etendida ela mes ma, po rque leva a mudanças de
comportamento, o que na realidade sustenta temporalmente a manutenção da m udança. A possibilidade
de escolha quanto à participação - o p rocesso ser part icipativo e colaborativo - é outro do s fatores
enfatizados n a investigação-ação de Lewin (Burnes, 2017; Lewin, 1 946). Também a ocorrência da
mudança ao nível da integração e dinâm ica de grupos é defendida por Lewin. O trabalho de Lewin sobre
dinâmica de g rupos e eq uipas de trabalho e a s suas teorias de mudança organ izacional forneceram
informações relevant es de como desenvolver as relações int ra e inte rgrupos ao nível orga nizacional .
Sublinharam igualmente a importância da produção de sent ido e comunicação em g eral, bem como a
importância de formas distintas, m ais autocrát icas ou dem ocráticas, de lideran ça , n o at ingir de
determinados resultados (Adelman, 1993) .
2.3. A investigação -ação – onde a ação t em papel central
A investigação qu e s e desenvolve neste documento segue então, não uma abordagem de mera
observação e interpretação de fenómen os, mas de ação e intervenção sobre o caso em estudo, para
com isso obter mudança do estado de coisas, seguindo o propósito da organização Bosch C ar Mul timédia
em B raga, alvo desta inve stigação, já explicado na apres entação da Bosc h (c apítulo 1). Pretende a
empresa que se p laneie e aplique uma mud ança fundamental ao crescimento, suportado n um trabalho
da investigadora, em conjunto com elementos int ernos da organ ização, e enquadrado no âmbito
semiótico que define a investigação .
Assim, após aba ndono da abordagem de Estudo de Caso, e a partir da vis ão atrás referida do pai
fundador desta abordagem metodológica, procedeu-se então a uma revisão de literatura s obre a
metodologia de investigação-açã o aplicável n um experiment o social sobre um ambiente com
necessidades espec íficas d e t ransformação . Da pesquisa sobre a literatura, concluímos ser esta uma
metodologia de investiga ção com muitas denomina ções, muitas área s de especialização e diferentes
origens . As mais comuns são referidas por Herr e An derson:
A metodologia de investi gação e sua fundamentação
45
Investigação-ação; inve stigaç ão-ação part icipativa (PAR); investigação profissional; ciência-ação ;
investigação-ação colaborativa; investigação cooperativa ; investigação educativa; investigação
apreciativa; práxis emancipatória; investigação comunitár ia p artici pativa; investigação de ensino ;
avaliação ru ral parti cipativa; invest igação-ação feminista; invest igação-ação p articipa tiva feminista e
antirracista; ativ ismo militante ou investiga ção militante (Herr & And e rson, 2005 , p. 2).
Há outras perspetivas que identi ficam, por out ro lado, e apen as para referir algumas, “ várias
modalidades de açã o: apren dizagem-ação , ciência -ação, investigação apreciativa (
appreciative inquiry
) ,
investigação cooperativa e investigação-açã o de desenvolvi mento ” (Coghlan, 2011, p. 52 ).
Independente das denomi nações ou aplicações em distint os ambientes ou causas, esta forma de
investigação partilha características t anto com as inves tigações quant itativas como com as qu al itativas,
mas disting ue-se de ambas no sentido em que, os que são tradicionalmente objetos de estudo – os
indivíduos ou os g rupos que integram – controlam, definem ou participam no desenh o e/ou aplicação
da investigação. Feita
por
e
com
os internos de uma organização, tal como é sublinhado por vários
autores. Segundo os t eóricos deste tipo de Investigação, os fe nómenos s ociais com plexos são mais bem
entendidos e com maior impacto através da intervenção e açã o e da observação dos efeitos das mesmas.
Na execução de um proces so de mudança em direção a um qualqu er ponto ideal, processo esse qu e s e
revela em geral t raumático, pode supor-se que este será mais bem -sucedido quando os que o irão viver
estarão t ambém na sua definição e génese : “ Ajuda-os a trabalh ar com a complexidade, às vezes
desconcertante, dos problemas que enfrent am, para tornar o seu trabalh o mais significativo e
gratificant e” (Stringer, 2007, p. 1).
A definição deste tipo de investiga ção -ação não é consensual, mas não há dúvida, nas diferent es
perspetivas, de que a sua palavra cent ral é o termo ação, uma ação que se orienta para a solução de
situações problemáticas ou essenciais (Wadsworth, 1998) , ao mesmo tempo que origina novo
conhecimento . É vista pelo seu fu ndador, Kurt Lewin, como uma
abordagem pioneira em relação à pesquisa so cial q ue combi na a ge ração de teoria co m a mudan ça do
sistema social por meio d a atividade do investigador a o agir sobre ou dentro do sistema social. O ato
em si é apresentado como o meio de mu dar o sistema e simultaneament e g erar c onhecimento crítico
sobre ele (Sus man, Evered, Susman, & Evered, 2012, p. 586 ).
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
46
Outros referem que “ A i nvestigação -ação é a forma de investigação sistemática para todos os
participantes, na busca de maior eficácia por meio da participação democrática ” (Adelman, 1993).
Outros, pondo a t ónica na relação com as pessoas, defendem que a investigação -ação é feita pelas
pessoas ou com elas, num grupo, com unidade ou organização, não sendo feita para elas ou exercida
sobre elas. Ainda, que é u ma investig ação que se con stitui com o “ um processo r eflexivo, mas diferente
da reflexão isolada e espon tânea, n a m edida em que é deliberada e sistema ticamente realizada e
geralmente requer que alguma forma de evidência se ja apresentada para apoiar afirmações ” (Herr &
Anderson, 2005, p. 3).
O caso concreto em estudo, o da Bosch em Braga, corrobora estas ideias: pretende -se uma ação ou
conjunto de ações para a identificação e implementação de mudanças, que se entendem fundamentais
para o futuro próximo da organização, suportadas n uma forma de produção conju nta de sent ido, que
seja tendent e à apropriação dessa(s) mudança(s) p or aqueles q ue a vivem. Pressupõe uma ação
colaborativa e participativa, t endente à resolu ção de problemas, que m elhora a prática e a vida daqueles
que são seu alvo, mas também seus agent es: “ A investigação-ação é um método usado para melhorar
a prática. Envolve açã o, avaliação e reflexão crítica e , com base nas evidências recolhidas, as m udanças
na atividade prática são imp lement adas ” (Koshy, Koshy, & Wa terman, 20 11, p. 2) . Cria conhecimento a
partir da ação, reflexão e inte rpretação dos participantes, o que Lewin defende desde o seu início: "Você
não pode entender um sistema até tentar alterá - lo (Lewin, 1946 citado em Macdonald, 2012, p. 34).
Como corrobora Stringer (2007) , esta forma de Investigação é uma abordagem s istemática que permite
às pessoas encont rarem soluções para as questões e p roble mas que enfrentam na sua vida diária, não
procurando explicações generalis tas, mas focando - se em situações específicas e em soluções adequadas
aos problemas concretos das pess oa s e organizações.
Alguns autores defendem que as opções do investigador têm , contudo, que ser suportad as na teoria de
forma a que expliquem como a própria In vestigação-ação pode introduzir as mudanças pretendidas
(Bhattacherjee, 2012) . É essa aliás a posição da ciência-ação de A rgyris.
Algumas das t radições da investigação -açã o, que desenvolveram a abordagem à mudan ça das
organizações, evoluíram desde uma perspetiva enquant o t écnica manipulativa na mão do poder, até à
ideia, mais atual, de que potencia uma maior e mais democrática participação dos colaboradores na
procura de soluções para os problemas. Contudo, ao sustentar - se em “práticas colaborativas e
democráticas isso torna- a política” (McNiff, 2 014, p. 14) , o que será o mesm o que dizer q ue tem
intenções específicas por trás, sociais, económicas ou de outra espécie, int enções essas que poderão
A metodologia de investi gação e sua fundamentação
47
ter propósitos que vão desde a mera ajuda, à influência ou ao con trolo. Ser colaborativa e participativa
não implica deixar de estar ideologicamente imbuída de uma perspetiva, que muito frequentement e pode
ser a de um poder polí tico o u económico.
2.4. Vant agens e desvantagens da investigação -ação
A investigação-ação apre senta-se como uma re sposta às deficiências de uma ciência positivista face aos
problemas que as orga nizações enfrent am no seu dia-a-dia (para mais sobre essas deficiências con sultar
Susman et al., 2012).
Podemos sintetizar, da pe rspetiva de alg uns autores, as van tagens e desvan tagen s da investiga ção -ação.
As vantag ens incluem o fact o de ser um processo part icipativo e por isso levar as pessoas à melhoria
das s uas práticas e a novas apre ndizagens, ao mesmo tempo que estas se envolvem com as mudanças
produzidas e se apropriam d elas como suas. Os processos cíclicos da investigação -ação sobre os quais
é feita uma reflexão, também ela cíclica, permite a autocrítica dos envolvidos n o sentido da sua própria
prática e melhoria do processo e das etapas futuras. Ao exigir uma recolha si stemá tica de evidências
relevantes para esse efeito, suporta a elaboração de teorizações que irão suportar a aprendizagem de
académicos, a metodologia dos investigadores de cam po e a prática dos intervenientes da organização.
Para isso, a flexibilidade que o sistema proporciona, comparat ivamente com a investigação mais
tradicional, m enos capaz de se ajustar e rapidamente adaptar -se a ambientes incertos, é t ambém uma
vantagem fundamental. Dentro dessa flexibilidade, podemos fazer ressaltar que o processo se ajusta a
ambientes complexos, multifacetados e caóticos, t anto respondendo a pequenas mudanças, como a
grandes, com poucos ou muitos envolvidos. A inda, podendo iniciar -se pelo pouco e pequeno, pode
alargar-se ao m uito e vasto. Assim, constitui -se como inst rumento de mudanças t ão simples como a
melhoria da prática de uma função, ou alteração no disc urso e linguagem organizacionais, às mu danças
nas relações sociais, forma s processuais e de sistemas organizativos e até às mudanças de rumo de
uma organização (Burnes , 2017; He rr & Anderson, 2 005; Kemmis, 2 005; Kemmis & McTaggart, 2007 ;
McTaggart, 1994; Ripamonti, Galuppo, Gorli, Scaratti, & Cunliffe, 2016) .
Na comparação com a ciência positivista, a vant agem pende para a investigação -ação porque ela faz as
coisas acontecer ao invés d e fazer previsões, conjetura ao invés de ind uzir ou ded uzir, permitindo assim
imaginação e criatividade, en volve o investigador e suas equipas nos projetos ao invés de os desligar e
distanciar, atua nas soluções ao invés de m eramente co ntemplar ou teorizar como seria ag ir (Susman et
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
54
potenciar o diálogo, permite melhoria de relacionamentos e consequ entemente de aprendizag ens e
formas de vida.
Outras for mas de abordar este conceito da posicionalidade, noutros autores, sugerem um prisma distinto,
definindo-se o termo na relação entre agentes da m u dança, internos e/ou ext ernos (Herr & Anderson,
2005; Reason et al., 2008).
Tradicionalmente, os investigadores da in vestigação-ação eram agentes ext ernos e eram eles quem
iniciava a investigação, geralmente contratada, do que resultava precisamente um dos problemas dos
processos de mudan ça, a f alta de en volvimento da s pessoas da o rganização. A ideia seria, de partida,
diagnosticar ou resolver um problema ou avaliar uma qualquer atividade da organ ização (Argyris et al.,
1985) .
A introdução de apoios e programas de profissionais com alta fo rmaçã o e que pretendia analisar ou
intervir a partir do seu posto de trabalho, sobre o seu próprio caso ou sobre a organização, veio introduz ir
outras posicionalidades, que n ão m eramente a do agente externo, nesta categoria de investigação,
havendo perspetivas positivas e negativas para ambos os tipos, interno e externo, mas sendo essa
posicionalidade que determi n a “como enquadram as questões e pistemológicas, metodológicas e ét icas”
(Herr & Anderson, 2005, p. 30) no estudo em curso.
Já para Bhattacherjee (2012), este tipo de inves tigação pressupõe s empre que o investigador se encontr a
inserido n o contexto social do objeto em estudo, ind ependentemente de o con sultor ser externo ou um
agente interno. E, sendo uma organização o caso em an álise, é o consultor ou o interno quem inicia a
ação a estudar, sejam dessa ação exemplo a introdução de novos procedimentos organizacionais ou a
mudança de uma linha de produção com a introdução de novas tecno logias.
Stringer (2007) , por seu lad o, coloca o investigador, independente da sua inserção no projeto, no papel
de facilitador, alguém que orienta, mas não faz parte verdadeiramente do trabalho da equipa:
… o p apel do investigador não é o de um especialista que faz i nvestigação, mas o de uma pe ssoa de
recursos. Ele ou ela torna- se um facil itador ou consultor que atua c omo um catalisador para ajudar os
stakeholders
a definir claramente seus p roblemas e a apoiá-los e nquanto trabalham em bus ca de
so luções eficaz es para os prob lemas que lhes diz em respeito (Stringer, 2007, p. 2 4).
A metodologia de investi gação e sua fundamentação
55
Em contrapartida, numa abordagem mais abrangente, posicionalidade em investigaç ão -ação, tal como
sintetizada por Herr e A nderson (2005) a partir de vári os campos de investigação e de vários aut ores,
pode ser categorizada em 6 tipos:
1. Elemento Interno que analisa a sua própria atividade ;
2. Int erno que conta com a col aboraçã o de outros Internos;
3. Int erno em colaboração co m Externos;
4. Colaboração recíproca entre Internos e Ex ternos em equipas mis tas;
5. Externo em colaboração com os I nternos;
6. Externo estuda os Internos.
Sobre esse
continuum
de posicionalidades sugere-s e a consulta da Tabela 3 .1 “
Continuum and
Implications of Positionality
” (
Continuum
e implicações da posicionalidade) em He rr e Anderson ( 2005,
p. 31), que apresenta um resu mo de artigos, livros e dissertações quanto aos diferentes enquadramentos
do investiga dor na investigação-ação em termos de posicionalidade, con tributos e trad ições. McNiff
(2014) , suportando -se n a classificação de Herr e Anderson (2005), acre scenta a esta classificação a
hipótese de recurso a multiposicionalidades.
Este nosso projeto apresenta uma posicionalidade de tipo cinco, isto é, é a abordagem de um Externo à
organização em colaboração com os Int ernos . Apresenta as van tagens de trabalh ar a base de
conhecimento que o investigador traz como ponto de partida teórico , de melhorar ou criticar a prática,
de contribuir para o desenvolvi mento e transformação organizacionais para, e ntre outras pos sibilidades,
obter mudan ças mais ou m enos radicais. A Bosch em Braga quer levar a cabo um processo de mudan ça
que, seguindo um m odelo semiótico proposto por um ext er no, quer, no entanto , que o mesmo seja
aplicado em cooperaçã o com as hierarquias da organização , como forma de obter o seu envolv imento.
Esta posicionalidade cinco, de investigador externo em colaboração com equipas int ernas, oferece
precisamente à orga nização uma forma de ultrapassar os c onstrang imentos comuns na investigação -
ação, como este caso confirma, sobretudo aos m ais altos n íveis da hierarquia – a falta de disponibilidade
total das equipas participantes e o envolvi mento desigual que as dife rentes p essoas poderão ter (Herr &
Anderson, 2005 ) . O trabalho cooperante e facilitador do ext erno traz grandes vant agens aos
desenvolvimentos do trabalho em equipa, o qu e lhe permite trazer alguma influência ao processo,
conduzindo-o e guiando-o, suportado no seu con hecimento técnico e teórico. Deve evitar, contudo, a
posição de consultor especialista externo à ação, sob risco de não conseguir verdadeira participação dos
internos no projeto que é de ambas as partes (Meulen, 2011; Royle et al., 2007).
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
56
Contudo, a influência da posicionalidade deste investigador ext erno , que colabora com internos no
desenvolvimento da investigação em curso, não se define somente n a relação Intern o/ Externo. É
relevante t ambém a “por ta organ izacional” pela qual lh e é da do acesso à estrutura em estudo, posição
na hierarquia des se departamen to e relação de poder com
stakeholders
e outros departam entos desta
porta de entrada. No caso Bosch, a secção que é a plataforma a partir da qual se des enrola a int ervenção
do investigador externo é denominado
Deployment of Business Excellence
(DBE), chefiado pela
orientadora empresarial, sendo esta dependente do administrador PC ou da área com ercial, patron o da
investigação . Recorde-s e que a gestão da Bosch em Braga é bicéfala, es tando dividida na área comercial
ou PC e área técnica ou PT, sendo a primeira responsável pelo s serviços da empresa, como a área
financeira, de recursos human os, logística, entre outr as, e a segunda responsável por to da a parte
produtiva e serviços de apoio à produção. Uma da s etapas que se tornou fundament al para o
desenvolvimento do pr ojeto foi a apresent ação e ben eplácito de ambas as adm inistrações, e não somente
da c omercial de que depend e o departamento DBE, com o for ma de garantir a cooper ação das hierarquias
das várias áreas envolvidas nesta investigação -ação .
2.8. Etapas da I nvestigação -ação
É n esta parte da nossa explan ação que iremos ent ender que o modelo apresen tado n o início deste
capítulo não se aplica à investigação -ação.
Não se parte da definição de um problema, antes existe um problema a resolver com a ação
implementada, as perguntas fe itas, a discussão levantada durant e a investigação.
Não se for mulam hipóteses a confirmar ou infirmar da f orma tradicional já que “ a explicação pragmática
embebida na ação é, por si só, a hipótese a se r testada. Se as consequências pretendidas da ação
ocorrerem, a hipótese é c onfirmada; se não, então (ou as hipóteses auxiliare s representad as por
condições de fundo assumidas) n ão são confirmadas ” (Argyris et al., 1985, p. 40). Na realidade, “ o
propósito da investigação-açã o é muito clarament e m elhorar a vida do punhado de pessoas que
participam nela, bem assim como da comunidade que as circunda” (Reason et al., 2008), pro vocando
a mudança nas suas vidas e não particularmente pôr à prova uma afirmação e provar a s ua veracidade.
Muito frequentemen te pode definir-se um enquadrament o teórico de partida, mas frequ e nt emente
também se con strói teoria a partir da açã o, como já e xplicado na apresentação das várias tradições da
investigação-ação .
A metodologia de investi gação e sua fundamentação
57
A an álise de dados e sua discussão podem não existir , sendo substituídas por ciclos sequenciais de
análise, planeamento, reflexão e melhoria, dan do lugar a novo planeamento.
Vejamos as etapas da investigação -ação que põem uma nova ordem e novos element os na sequência
de investigação face aos modelos mais tradicionais.
Na per spetiva de L ewin, o fun dador desta abordagem, a investig ação-açã o inicia- se “com um apurament o
de fact os a que cham a diagnóstico, prefer encialmente complementado por estudos experimentais
comparativos da eficácia de várias técnicas de mudança ” (Lewin, 1946, p. 37), prosseguindo depois
“ numa espiral de etapas, cada uma das qu ais composta por um ciclo de planeam ento, açã o e
apuramento de factos sobre o resultado da açã o" (Lewin, 1946, p. 38).
Existem propostas que integram já a fase de diagnóstico como uma das e tapas, não a exteriorizando ao
processo como um momento anterior e definindo qu e as etapas inclu em (1) diag nóstico, (2) planeam ento
da açã o, (3) implementação da ação, (4) avaliação da açã o e (5) aprendiza gem; acrescenta -se o
momento pós-avaliação como o de gerar
insights
sobre o problema, o de s ugerir melhorias ao processo
para o futuro e o de identificação de conclusões teóricas generalizáveis (Baskerville, 1997; Bhattach erjee ,
2012; Susman et al., 2012).
Stringer (2007) , por seu lado, resume que e ste tipo de investigação é suporta do em três gran des etapas,
não desenvolvidas e implem entadas de forma linear, mas sim em espiral: Look (observar); Think (refletir) ;
Act (agir). Analisadas estas etapas, podemos talvez co ncluir que elas n ão se const ituem, n a realidade,
como um ciclo distinto de outras propostas, apenas propondo uma sucessão dos mom entos distinta: a
incorporação da compon ente de diagnóstico de Le win como uma etapa integrada no ciclo; a
aprendizagem e a generalização/teorização sugeridas com o finais (Bh attacherjee, 201 2; Susman et al.,
2012) são antecipadas, mais em l inha com a ciência -ação de Argyris (que, por sua vez, antecipa a t odo
o processo a proposta teórica de suporte).
Rotina básica d a Investigação -açã o
Loo k (Observar)
• Reunir informação relevante ( reco lha de info rmação)
• Construir uma ima gem: descreve r a situação ( definir e descrever)
Think ( Refletir)
• Explorar e analis ar: o que s e passa aqui? ( analisar)
• Interpretar e explic ar: Como/por qu ê são as co isas como são? ( teo rizar)
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
58
Act (Agir)
• Planear (relatório )
• Implementar
• Avaliar
Tabela 1: Fases d a rotina de In vestigação -ação e como s e relacionam com as práticas tr adicionais de in vestigação.
Fonte: traduzido de S tringer (2007, p. 8)
Esta é, contudo, apenas uma das perspetivas possíveis da rotina da
investigação-ação , sendo de contrapor a proposta de Kemmis e
McTaggart (Herr & Anderson, 2005, p. 5; Kemmis & McTaggart,
2007, p. 2 78; Stringer, 2007, p. 8) de que est e mét odo segue uma
atividade em espiral com 4 etapas , mais próximas das originais
sugeridas por Lewin :
Plan
(planear),
A ct
(agir),
Observe
(observar),
Reflect
(refletir) .
Nestas tapas, o investigador , e as eventuais e quipas com as quais
colabora, fazem acontecer a investigação em ciclos que se repetem
uma vez m ais num ciclo em espiral. Na pri m eira etapa, de
planeamento, desenvolve-se o plano para a investigação; na segunda
etapa age-se, implementando o plano, ao mesmo tempo que se
observa os eventos em cur so e os impact os que a aç ão g erou; em
seguida, na última etapa, p rocede-se a uma reflexão sobre a ação e
seus efeitos n o context o, sendo o fruto dessa reflexão o desenh o de
um novo plano ou melhoria do existente e a ação subsequ ente… e
sucessivamente assim, em iter ações consecutivas (Herr & Anderson,
2005, p. 5).
Nesta perspetiva , o plano de açã o propõe-se int roduzir melhorias ou alt erações à situação e, ao fazê -lo,
permitir uma obser vação que garantirá alime n to a uma reflexão sobre os fen ómenos causados por efeito
da ação. Daí, surgirão as bases para um novo planeamento e ação subsequentes o que n os centra na
importância da reflexão em todo o processo:
O agente (da ação), confrontado com um conjunto complexo, i ntrigante e ambíguo de ci rcunstân cias,
baseia-se em conhecime nto tácito para enquadrar a situaç ão e agir. As conseq uências dessa ação
geram i nformaçõ es sobre a situação e sobre a adequação do e nquadramento e ação do agente. O
Figura 4 : A Es piral de In vestigação - ação
de Kemmis e McTa ggart.
Fonte: desenhado e traduzido a parti r de
Kemmis e McTaggar t (2007, p. 2 78)
A metodologia de investi gação e sua fundamentação
59
agente in terpreta essas informações, recorre ndo nov amente ao conh ecimen to tácito. Se a ação
exploratória gerar informações i nconsis tentes com o enquadramento original, se a ação em movim e nto
não atingir as consequên cias pretendidas ou levar a consequências não intencionais, ou se a ação como
hipótese não for confirmada, o agent e poderá ser levado a refletir sobre os entendimento s tácitos que
definiram o e nquadramento e a ação origin ais. Ess a r e flexão pode ou não levar a uma reformula ção da
situação e a u ma nova sequê ncia de mov imentos (Argyris e t al., 19 85, p. 51).
Centramo-nos igualmente, n esta forma de inves tigação, na ideia de colabora ção entre as partes
envolvidas é uma condição central, sobretudo se se as sume como participativa:
a investigação-ação é frequentemen te um p rocesso solitário de auto rreflexão sistemática. Admitimos ,
com efeito, que geralment e é assim; no entanto, sustentamo s que a inve stigação-ação part icipativa é
mais bem definida em termo s colaborativos. A investiga ç ão-ação p articipativa é, ela própria, um
processo social e e ducaciona l. Os “sujeitos” da investiga ção- ação participativa empreendem a sua
pesquisa como uma prática so cial. Além disso, o “objeto” da inve stigação-ação partici pativa é social; a
investigação-ação participativa é direcionada ao e studo, reformula ção e reconstrução de práticas sociais
(Kemmis & M cTaggart, 200 7, p. 277).
Durante a aplicação da ação de investigação poderão ser feitas mudanças sempre que n ecessário, como
resultado da aprendizag em e observação da sua implement ação. Daqui resultam tam bém perspetivas
teóricas e generalizações que servirão para validar, acrescentar ou alterar o quadro t eórico de partida,
na mesma medida em que a açã o poderá ou não resolver o problema colocado ao investigador. É esta
capacidade mista de resolver o problema de part ida e de gerar novas perspetivas que distingue esta
abordagem de investigação de outras tipologias.
Há propostas alt ernativas que, na realidade, mais n ã o são do que a aplicação do já apresentado às
investigações em organ ização própria, como investigadores internos. É o caso do p roposto por Cog hlan
Brannick, que sugerem um ciclo constituído por uma fase de pré-investigação para análise do contexto
e definição dos propósitos da investigação na organização onde se insere o investigador e outra de
investigação-ação propriamente dita, que com preende quatro et apas semelhan tes ao que já visitámos
anteriormente: “ construção, planeamento da ação , ação e avaliação da açã o ” (Coghlan & Brannick,
2014, p. 9).
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
60
Figura 5: O ciclo de inve stigação -ação. Fo nte: traduzido de Co ghlan e Brannick (2014, p. 9)
Para os autores, a com preensão do con texto e objetivos é es sencial para a realizaçã o da investigação.
Deverá ent ender-se a sua necessidade e quais são as circunstâncias context uais em que se desenrola,
nomeadamente as de cará cter político, económico e social que impulsionam a mudan ça, bem como a
sensibilidade da organização aos mesmos. Igualmen te, nesta fase, se definirá qual o estad o futuro
desejável, no que podemos estabelecer um paraleli smo com o quadrado semiótico e o sema de ch egada,
motor da mudança pretendida. É nesta fase que se defin em as colaboraç ões com os interessados e as
equipas de trabalho.
A primeira etapa, definida como Construção, res ulta de uma atividade dialóg ica co m os
stakeholders
na
definição dos tema s de t rabalho que orient arão todo o planeamento e ação subsequentes, at ividade essa
sustentada tanto em questões práticas como em matéria t eórica de suporte. Os t emas devem ficar
claramente definidos no início, ainda que, em iterações subsequen tes do ciclo de investigação -açã o ,
possam ter de ser sujeitos a revisões. Essas revisões devem ser registadas e justificadas, bem como as
suas alterações posteriores , para que os sentidos partilhados da mudança em curso sejam abraçad os
pelos que a implementam.
O plano de ação desenha-se em seguida, seja passo a passo ou o con junto tot al de passos, para o que
será necessário garan tir t ambém aqui a colaboração dos grupos de interesse, seguindo -se a
implementação colaborat iva e a avaliação. Na avaliaçã o dever- se - á t er em cont a “se a construção origina l
está ajustada; se a s ações t omadas corresponderam à con strução; se a ação foi c oncretizada de forma
adequada. I sto alimenta rá o próximo ciclo de construção, plan eamento e ação ” (Cog hlan & Brannick,
2014, p. 11). O ciclo da Figura 5 repete-se as vezes que for necessário.
A metodologia de investi gação e sua fundamentação
61
Os autores referem-se ainda a um p rocesso paralelo à açã o e q ue é o processo d a tese do inve stigador
e sua aprendizagem, que decorrerá em simultâneo. Inclui as fases de reflexão em t ermos de conteúdo
(pensar sobre os problemas e o que se pen sa estar a acont ecer), processo ( pensar nas estratégias e
procedimentos e em como as coisas são feitas) e premis sas (abordag em crítica às perspetivas impl ícitas).
A este processo, os aut ores chamam meta -aprendizagem. É esta meta -aprendizagem sobre as etapas
atravessadas que deve estar subjacente à investigação, pois só assim se conseguirá trazer con hecimento
útil, aplicável e g eneralizável para além do cont exto, corroborando assim o que defen de Argyris n a sua
ciência-ação quanto às questões ligadas à aprendizagem (Argy ris, 200 3).
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
62
Capítulo 3. O guião da inve stigação-ação – a Semiótica nar rativa de Gr eimas
Sendo o campo m etodológico a investiga ção-ação , o estudo em mãos implicou, conforme o descrito
anteriormente, a definição de um plano, precedido de um diag nóstico, tal como defendido pela maioria
dos autores apresentados.
Neste nosso caso, o plan o da investigação -açã o foi definido à partida, con siderando que o objetivo do
estudo seria precisamente provar que o modelo narrativo de Greimas é adequado e fórmula de sucesso
enquanto guião para a execução de um processo de mudança.
A frase ou
claim
que orient a esta investigação e constitui por i sso o seu objetivo e resumo, definiu -se,
pois, assim:
Apesar de originalmente amarrado à narrativa e a um imanentismo fechado, cerca do por u m refere ncial
estruturalis ta, o modelo sé mio-n arrativo de Greimas, nos seus níveis semântico e n arrativo, é capaz de
constituir-se, em contexto organ izaciona l, como um process o orientad or, um g ui ão para a ação, que
permite concretizar com êxito a mudan ça de uma situação S1 para S2. Para t al levaremos os sujeitos
desta açã o, as chefias da empresa, à ident ificação e aquis ição das com petências necessárias – o se u
Querer , Sa ber e Poder – que permitirão, no percu rso de uma Performance em busca de um valor
transformador, produzir a mudança que a organização pretende, obtendo a conjunção com o Objeto
desejado.
Ao assumir Greimas e o seu modelo narrativo como o guião d a ação, evitava -se precisamente a falta de
orientações específicas dur ante a aplicação da investigação-açã o que por vezes se constitui como uma
das sua s críticas – a de qu e este t ipo de investigação será uma espécie de impro viso de métodos ao
longo do percurso. Neste capít ulo, iremos tão soment e explicar a sua forma de aplicação na investigação -
ação, uma vez que a fundamentação teórica detalhada do modelo greimasiano, em si, se encont ra já
desenvolvida no capít ulo respeitante à Semiótica Narrativa de Greimas (capítulo 3). Por outro lado, o
detalhe da sua aplicação ser á explanado no c apítulo s obre a I nvestigação em Ação (c ap ítulo 7) . Como já
apresentado, o modelo narrativo que suporta a t ransição sobre o Quadrado Semiót ico, na passagem
pretendida de S a S’ ap resenta os momentos principais do Contrato, Aquisição de Competências (Q uerer ,
Saber e Poder), Performance e Glorificação. O desenho do modelo, com a clarificação dos objetivos de
partida a da r substância ao Con trato da narrativa, e o modo com o esse modelo foi adaptad o ao caso,
corresponde à fase do Planeamento da investigação -ação .
O guião da investigação-ação – A Semióti ca narra tiva de Greimas
63
A colocação em marcha do plano, seguindo a opinião dos vários autores visitados neste capítulo, foi,
contudo, antecedida pela execução de um diag nóstico de situação, por sua vez condicionad o de partida
pelo tipo de plano a executar.
Figura 6: Metodolo gia e resultado s n o percurso de mudança. Fon te: adaptado do Modelo Narrativo de Greimas ao caso
Bosch
No diag nóstico, que de seguida detalharemos , pretendeu-se aferir o estado das C ompetências exigidas
para a execução da Performance, isto é, qual a situação dos alvos da investigação, quanto ao Querer ,
Saber e Poder para a Mud ança, objetos Modais da Prova Q ualificadora da narrativa, apurando se o
Su jeito coletivo, constituído pelas chefias de departament o e secção da Bosch , seria já Virtual e/ou
Atualizado, isto é, se estariam reunidas as condições para iniciar a Prova Principal, ou seja, a
Performance para a Mudança. Con siderando os ciclos em espira l previament e apresentados, construiu-
se um qu adro-resumo das et apas da investigação -ação s eguindo o original de natureza cíclica de Kemmis
e McTagg art (2007) , m as implementadas sobre um plano que tem por base o modelo greimasiano e
sustentadas na visão em três tempos de “Look”, “Think” e “Act” (Stringer, 2007).
Rotina da Inve stigação- ação na Bo sch
Loo k (Observar)
• Reunir informação
relevante (Recolha de
informação)
• Reuniões de diagnóstico inicial
• Construir u ma ima gem:
descrever a si tuação
(Definir e Des crever)
• Desenho do Quadrado Semió tico da mudança p retendid a
• Desenho do Programa Narrativo
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
70
As entrevistas na Bosch foram ainda de tipo intensivo, isto é, centrando - se “…num indivíduo ou num
grupo pequeno que, sem li mite de tempo e com ampla liberdade, expo nha os seus pon tos de vista…”
(Sousa & Baptista, 2011, p. 81).
A investigação assumia desta forma que os alvos das entrevistas exploratórias e, posteriormente, todos
os out ros chefes de depa rtamento , possuíam con heciment o relevante sobre o ambiente vivi do na
organização face ao crescimento, suas facilidades e dificuldades, dados con cretos e experiência direta
quanto à posição e estad o das chefias de secção nesse cont exto e perspetivas enriquecedoras e plurais
quanto a eventuais soluções para um cam inho idealmente com menos percalços na concretização da
mudança (Stringer, 2007).
A opção pela focagem inicial no grupo das chefias de d epartamento da organ ização, depois alargada às
de secção, é suporta do pela teoria de intervenção de Argyris quando refere q ue, apesar de o investigador
intervencionista poder ter que limitar-se ao con tacto com alguns elementos do grupo e m estudo, o
investigador não deverá dei xar de se preocupar com o sistema com o um todo, considerando que a sua
atuação, limitada a alguns de início, terá event ual e desejavelmente impactos, em eficácia e compet ência,
sobre os restantes (Argyris, 1970) .
A en trevista permite descrever a situaçã o, t al com o a vivem os seus at ores, possibilita ndo ao investiga dor
perceber as ideias dos entr evistados sobre os fenómenos vividos q uanto ao t ema em estudo, nos seus
termos próprios e individuais. Facilita que o investigador explore as perspetivas do en trevistado em vez
das suas, com respeito à forma como estrutura e en quadra as suas respostas. Ma is, permite que ambos,
entrevistado e entrevistador, aprendam no processo de partilha de informação (Macdonald, 2012) .
Contudo, sendo uma conversa privada e s abendo que faz parte de uma investigação com objetivos, existe
uma con sciência, por parte do entrevistado, quanto ao valor público da informa ção (Bergold & Thomas,
2012), que poderá assim enviesar a informação t ransmitida consciente ou inconscientemente. Por seu
lado, o entrevistador pode t razer as suas próprias interpretações individuais sujeitas que estão às suas
vivências, perspetivas e experiência (Arksey & Knight, 2011a) , fator que se ap onta com o uma das
desvantagens da entrevista.
Uma técnica de recolha de dados em que se investe muito tempo ( Arksey & Knight, 2011b), a entrevista
tem a van tagem de recolher grande quantidade de informaçã o; essa g rande quantidad e pode ser em
excesso, tanto relevante quant o irrelevante, tor nando -se por is so de difícil análise ( King, 200 4). T anto na
recolha, como no t ratamento dos dados assim obtidos, a subjetividade dos investigadores e dos
entrevistados pode levar a um en viesamento dos dados já que “ é o mundo das crenças e significados,
O guião da investigação-ação – A Semióti ca narra tiva de Greimas
71
não das ações, que é esclarecido pela investiga ção at ravés de entrevistas (Arksey & Knight, 2011a, p.
18) . Decorre daí, que as me todologias de recolha e trat amento devam ser cuidadosamente concretizadas
para o evitar, ativando os m étodos que compensem os enviesament os de interpretaçã o e vivência de
ambos os envolvidos no p rocesso ou como refere Nigel King “ o pesquisador deve refletir sobre os
pressupostos que mant êm e permanecer alerta sobre como eles podem colorir todas as etapas do
processo de pesquisa ” (Cassell & Symon, 2004, p. 13).
Analisadas as vantag ens e desvantag ens da t écnica, determinou -se que, para os objetivos em causa - a
recolha das perceções dos entrevistados ch efes de dep artamento face ao nível dos seus subordinados,
chefes de secção sobre a conjunção com os Objetos Mo dais, Querer , Saber e Poder, bem como as razões
e dados contextuais da organização subjacentes a esses estados - a ent revista teria capacidade de
recolher muita informação e de levant ar as pistas necessárias para a elaboração do inquérito, com os
mesmos propósitos, aos chefes de secção.
O guião da entrevista foi constru ído, considerando uma parte introdutória de definição do seu propósito,
subjacente, contudo, a noção de que a investigação e os seus objetivos eram já de conhecimento comum
às chefias da organização, por terem sido com unicadas em pelo menos dois dos
Management Team
Meetings
an teriores às mesm as. Recordar q ue e ste pr ojeto teve o “percalço” de t er sido aprovado po r
uma administração cessante e reaprovado por uma nova adm inistração, o que fez com que o tempo de
“gestação” da sua entrada fosse sobejamente vivido e conhecido internamente ao nível das chefia s
superiores.
As perguntas elaboradas que constituíram o Guião tiveram por base, não o vocabulári o algo hermético
da Semiótica n arrativa que lhe estava subjacente, mas a linguagem empres arial reconhecida, li gada aos
objetivos gerais de mudanç a da organização e reconhecida pelas chefias. N esse se ntido, segui ram-se as
indicações de ad equar as pergunt as ao universo ent revistado, n um “vocabulário claro, acessível e
rigoroso” (Sousa & Baptista, 2011, p. 84) . O tópico central foi o
empowerment
e a situação das chefia s
face a ele, tendo este concei to sido definido
à priori
precisamente pela população em análise, como o
valor transformador que permit iria a Mudança pretendida da organ ização. Nas dimensões em análise,
considerou-se como essencial entender face ao
empow erment
:
• se a população de chefias Bosch Car Multimédia em B raga partilharia um
entendimento comum do conceito ( Objeto do Querer do Sujeito)
• e com o se sentiam pessoalmente, face às suas h ierarquias inferiores e superiores
quanto ao mesmo,
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
72
• como avaliaram a comunicação que lhes despertou a sua necessidade (qualidade do
fazer do destinador no Contrato, da Semiótica narrativa),
• situação das chefias quanto ao Querer , Sa ber e Poder da s chefias para o
empowerment
(Aquisição de Competências) ,
• fatores que propiciariam e principais obstáculos a essas Competências (Adjuvantes e
Oponentes na açã o do Sujeito coletivo, as chefia s)
• soluções sugeridas para a conjunção com o Querer , Saber e Poder, incluindo de partida
as formas de reconhecimento do mesmo.
O guião foi pen sado para conceder liberdade ao entrevis tado face às perguntas e i nterações com o
investigador, seguindo o co nselho de ter “flexibilidade para ordenar e reordenar as perguntas, bem como
elaborar n ovas perguntas cuja pertinência t eórico -empíri ca se desvela no encon tro con versacional que
se desenrola” (Ferraz & Mac-Allister da Silva, 2015, p. 47).
As en trevistas pautaram -se por g rande informalidade e à -vont ade, na sua larguíssima maioria, tendo,
para o efeito, sido conduzid as n os gabinetes das chefias de departament o, ao ritmo e tempo que cada
respondente pretendeu inc utir. As respostas foram transcritas en quanto decorriam, de forma quase
integral, algumas vezes optan do -se pela sua sumarização (sempre que as respost as se desviavam do
fulcro e ssencial da pergunta), a m aioria replicando textualmente a resposta. As ent revistas n ão estão
disponíveis para con sulta, dada a confidencialidade e s ensibilidade de alguns aspetos relativos à
empresa. O seu tratamento estatístico, no entanto, estará disponível
O t ratamento dos dados foi feito com recurso à análise de conteúdo, num processo int enci on almente
manual e evitando o recurs o a software automatizado como o NVivo, com o objetivo de permitir à
investigadora rever t odos os sign ificados que foram sendo g erados ao longo de entrevistas, para além
das palavras.
A análise de conteúdo é uma t écnica que permite an alisar o resultado das entrevistas, integra ndo formas
objetivas e sistemáticas para o seu estudo, e ten dente a tornar os dados quantificáveis e fiáveis face ao
contexto de on de advêm (Hernández Sam pieri et al., 1997) . Há qu em classifique as diferentes formas
de abordagem ao cont eúdo, com o fim de interpretar os seus sign ificados, em convencionais, dirigidas e
sumativas, sendo as suas principais diferenças na forma de codificação, origem dos códigos e no que
ameaça a sua fiabilidade: na forma convencion al as categorias e cod ificação são induzidas pelos dados
em análise, n a forma dirigida, cat egorias e codificação surgem de partida, sendo grelhas propostas por
teoria ou descobertas an teriores; a sumativa implica co ntagens e comparações, por exem plo de palavras
O guião da investigação-ação – A Semióti ca narra tiva de Greimas
73
específicas do conteúdo, t entando explorar e interpretar con text os (Hsie h & Shannon, 2 005, p. 1277) . O
que usamos aqu i é um sistema misto, por um lado, o si stema dirigido, procurando cod ificar e cat egorizar
em função dos t emas que estão subjacent es à teoria que nos rege, a Semiót ica da n arrativa e que o
próprio guião já procurava explorar, por outro lado, o conven cional, permitind o ao material em análise
tornar-se falante e acrescentando aspetos que antecipadamente não foram aventad os. Bardin (2016)
classifica o mét odo de categorização, resul t ante da classificação ao longo da análise, como sendo “por
milhas” e a categorização definida à priori como procedimento “por caixas”.
Após as primeiras entrevist as explorat órias, deu - se im ediat amente início ao tratamento dos conteúdos
obtidos e fizeram-se as primeiras an álises de dados e sua respetiva apresentação int erna a o
administrador PC e n um dos
Management Team Meeting
s, ao mesmo tempo que se foram desenrolando
as entrevistas restan tes, tão depressa se decidiu pelo alargamento da amostra de chefias de
departamento .
Começou-se inicialmen te pela redução de dados, transformando dados brutos em dados úteis para
análise (Berg, 20 01) , num processo de codificação, “ o processo pelo qual a s cara ct erísticas relevantes
do conteúdo de uma mensa gem são transformadas em unidades que permitem a sua descri ção e análise
precisas. O important e da mensagem torna -se em algo que pode s er desc r ito e analisado” (Hernández
Sampieri et al., 1997, p. 171) . Além da definição do universo em an álise, neste caso as entrevistas, a
tarefa de codificar a an álise de con teúdo, segundo estes autores, inclui definir as u nidades de an álise a
as categorias.
Para esse efeito, a investigadora começou por resumir cada parág rafo das entrevistas em frases curtas,
mantendo todo o seu manancial de informa ção intacto. Como exemplo, transcrevemos:
O que co nsidero ser
empowerment
(E.)?
Unidades de análise
É alguém qu e tem auton omia para tomar as decisõ es e tem também autoridade,
ou seja, autono mia, responsabilid ade, autorida de, as co mpetênci as pa ra o fazer.
Basicamente, u ma equipa com
empowerment
é uma equ ipa que não está
dependente, demasiado de pende nte de outras entidades para tom ar decisões e
para avançar co m os seu s projetos . De uma forma simplist a.
O E. é au tonomia para tomar deci sõ es
/ e autoridade, /responsabilid ade / e
as competências para o fazer.
Uma equipa com E. não está
dependente de ou tras entidades.
Tabela 5: Exemplo de codifica ção de uma das entrevist as aos chefes de departamen tos da Bosch em Braga
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
74
Para posterior e mais fácil i dentificação da origem da s asserções, nas t abelas de tratam ento de dados ,
a cada entrevistado foi atribuído uma letra, por ordem cronológica de entrevista (ordem aleatória,
dependente da disponibilidade de agenda do entrevis tad o, até ao 13º), A, B, C, D … e uma numeração,
relacionada com a pergunta respondida, mesmo q ue esta desse lugar a vária s asserções. As f rases
abaixo seriam todas, portan to, com origem na entrevista F e relativas à pe rgunta 1 “O que é para si o
empowerment
? ” .
As unidades de análise, passaram a ser, portanto, as frases decorrentes de uma primeira simplificação
para a codificação. Est as frases, con stituíram -se como unidad es de an álise, tendo sido po steriormente
recortadas em unidades de registo, que neste caso, era o t ema ou frase simpl es, con densada ou
composta como unidade de significação mínima e única, int erpretada de acordo com a sua unidade de
contexto, seguindo o sugerido por Bardin (1977, 201 6) . Assim, a unidade de análise no exemplo da
Tabela 5, teria as seguintes unidades de registo:
• F1 - O
empowerment
é autonomia para tomar decisões
• F1 - O
empowerment
é ter autoridade
• F1 - O
empowerment
é ter res ponsabilidade
• F1 - O
empowerment
é ter as competências para o fazer
• F1 - O
empowerment
das equ ipas é não depender de outras entidades
Esta metodologia foi aplicada aos conteúdos de todas a s entrevistas, de forma exaus tiv a. Os critérios de
enumeração foram simples: contou -se apenas uma presença desde que surja uma unidade de registo
na mesma resposta e mesmo que nessa resposta surja m ais uma vez. Contou -se como segunda
presença se surge na reposta a outra pergunta, provavelmen te agregada a outro contexto ou tópico.
Após o trabalho de simplificação das unidades de anális e e a sua separação em unidades de registo,
temas/frase com uma significação única, procedeu - se à sua entrada em categorias. Estas, “ são rúbricas
ou classes, as quais reúnem um grupo de elementos (unidades de registo, n o caso da análise de
conteúdo) sob um título genérico, agrupamento esse efetuado em razão dos caracteres com uns destes
elementos ” (Bardin, 2016, p. 147) . A grelha de categorias deve auxiliar ao rigor científico, tal como
sugere a autora, pelo que devem ser pertinentes para a an álise e ser ho mogéneas, excluir -se
mutuamente, cumprir com requisitos de objetividade, fidelidade e produtividade. As cat egorias definiram -
se por um método por milhas, aind a que relacionadas com as perguntas de partida, pelo que a
classificação da s asserções foi simultaneamente dirigida pelo context o da frase. C omo exemplo: se a
frase “
empowerment
é saber t écnico” surgir na pergunta relativa à definição do que é
empowerment
,
O guião da investigação-ação – A Semióti ca narra tiva de Greimas
75
será at ribuída à catego ria “
empowerment
(enquanto) competências e conhecimentos”; surgindo como
resultado das pe rguntas sobre o que pot encia o
empo werm ent
um frase como “
empowerment
(depende
do) conhecimento técnico” entrará , então, nas categorias relacionad as com os
Condicionantes/Oponentes ao
empowerment
, especificamente as associadas à informação e
conhecimento (Saber).
A an álise categorial t emática a que se procedeu, após trat amento estatístico percentual simples, permitiu
concluir que havia um ent endi mento com um quanto ao que era o
empowerment
, origens da perceção
da sua importância na organ ização, oponen tes e adjuvantes inst itucionais n o momento das entrevistas,
condições para que exist a, como motivar para o
empowerment
, se as ch efias de departamento se
sentiam
empowered
e
empowering
e como viam o
empowerment
nas outras chefias de departam ento .
Estes resultados são apresent ados em detalhe no capítulo sobre a Investigação em Ação n a Bosch
(capítulo 7).
Saliente-se que, de início, o objetivo das entrevistas aos chefes de departamento ( e que seriam três ou
quatro, número final a definir no decurso das m esmas) era que se constituíssem com o um exercício
exploratório para obter pistas para a elaboração do inquérito à s chefias de secção , enquanto alvo principal
desta investigação . Contudo, percebeu- se , e isso ressaltou do t ratamento dos resultados das primeiras
entrevistas, que h averia igualment e perceções de falta de
empowerment
ao nív el das chefias de
departamento, pelo que se alterou o plano e inc luiu a população de chefias de departamento no estudo,
seguindo as metodologias de observação e alteração de planos em ação característicos da investigação-
ação. De considerar que, e ste mom ento inicial exploratório an tes do alarg amento aos restant es chefes
de departamento, serviu igualmente, tal como defendem C ampenhoudt e Quivy (1998), para trazer à
consciência do investigador aspetos das questões em estudo que não t eria con siderado inicialmente,
podendo dessa forma aprimorar as entrevistas seguinte s.
Tão ou mais importan te do que t raçar o retrato quanto ao valor t ransformador (
empowerment
) da ação
de mudança na Bosch (para mais co mpetitiva), estas entrevis tas, posteriormente c omplementadas com
os resultados dos inquéritos às ch efias de secção, trouxeram soluções práticas para os momen tos
seguintes da investigação-ação e que explicaremos na fase
Act.
3.2.2. Os inquéritos à s chefias de secção
Os inquéritos são uma for ma de recolha de dados ba stan te frequente em ciências sociais e humanas,
definindo-se por ser um grupo de pe rguntas sobre um ou mais conjuntos de variáveis qu e se pretendem
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
76
medir (Hernández Sampieri et al., 1997) . O mét odo “pode ser utilizado em investiga ção descritiva,
exploratória ou explicat iva ” (Bhattach erjee, 2012, p. 7 3) . I nclui o recurso a pergu ntas estan dardizadas,
o que se revela uma vantagem na recolha de dados sob re “… pessoas e suas prefe rências, pensamentos
e comportamentos, de um a forma sistemática” (Bh attacherjee, 201 2, p. 73), permitindo m edi-los e
quantificá-los.
Argumenta- se (Stringer, 2007), contudo, que o uso do inquérito, numa fase inicial da investigação, t erá
limitações quanto à sua u tilidade, sendo os dados resultantes escassos e provavelmente fruto das
“ perspetiva , int eresses e agen da do(s) investigador(es)…” (Stringer, 2007, p. 78), con taminados
possivelmente pelo conhecimento ai nda insuficiente do investigador à altura. Por outro lado, está s ujeita
igualmente ao enviesamento pelo rácio de não -respostas, pelo t ipo ou qualidade da amostra, por
questões relativas à des ej abilidade social (responder da forma adequadas nos termos sociais do
respondente) e pela memória, motivação ou capacidade de responder (Bhat tacherjee, 2012).
A sua utilidade é, apes ar disso, inquestionável na recolha de dados em grupos alargados, proporcionando
formas de verificar se os d ados, obt idos inicialmente junto a grupos mais restritos, são válidos para
grupos maiores (Stringer, 2007).
Seguindo as propostas de Stringer (2007) , após clarificar o objetivo do inquérito, a informação a obter e
a popu lação sobre a q ual este incide, deverão s er pensadas as perguntas que ir ão forn ecer dados sobre
cada tópico. A s perguntas deverão ser clara s, curta s, sem linguagem técn ica ou académ ica e formuladas
na perspetiva positiva, uma por cada tópico a obt er informação.
Por sua vez, as respostas a cada perguntas deverão ser selecion adas entre um leque alargado de
respostas, aberta s ou de tipo fechad o: “ Uma pe rgunta f ech ada inclu i uma lis ta predefinida de opções de
resposta, en quanto uma pergunta aberta pede ao respondente que forneça um a resposta com suas
próprias palavr as ” (“Types of survey ques tions,” 2019) . A plataforma na i nternet, Survey Monkey, a que
se recorreu n esta investiga ção, é basta nte exaustiva no tipo de alt ernativas fechadas, mencion ando nós
aqui apenas as alternativas mais comuns: de resposta dual (por exemplo, Sim/Não), escolha múltipla,
classificação por escalas, entre as quais a de Likert, respostas em matriz, respostas em ranking .
Na apresent ação do questionário aos re spondentes, deverá haver informação de c on texto, explican do o
objetivo, a duração estimada para responder, exemplos do tipo de resposta em caso de situações m ais
complexas. Idealmente, se a situação o permitir, de ver - se -á testar a adequação do questionário at ravés
de um pequeno t este piloto com alguns dos e lementos da população em estudo, com vista a analisar
eventuais problemas do question ário e modificar adequadamente o que for necessário (St ringer, 2007).
O guião da investigação-ação – A Semióti ca narra tiva de Greimas
77
O questionário desta investigação inc idiu sobre a totalidad e do grupo -alvo chefias de secção, como já
anteriormente referido, debruçando -se sobre os tópicos que as ent revistas aos chefes de departam ento
já tinham levantado como relevantes no contexto do
empowerment
para a mudança. Aplicaram- se
alternativas de resposta fechadas duais, escala de Likert e escolha múltipla, de ranking e abert as de
resposta curta. Acrescentaram-se ainda algumas de tipo dem ográfico e de localiz ação no contexto
organizacional (ex.: se eram área PC ou PT), mas com limitações que g arantissem o anonimato do
respondente. Os tópicos desenvolvidos foram sensi velmente os mesmos que os dos chefes de
departamento:
• Se con heciam o conceito
empowerment
, como tiveram conhecimento dele e at é que
ponto consideravam a comunicação dele adequada (Objeto do Querer do Sujeito)
• Se entendiam o que era, sugerindo sinónimos
• Como avaliavam o seu nível de Ter e Dar
empowermen t
, considerando esses
sinónimos
• Desejabilidade de aumentar, manter ou diminuir o Ter e Dar
empowerment
• Situação das chefias de secção quanto ao Querer , Saber e Poder das chefias para o
empowerment
(Aquisição de Compet ências), recorrendo para o efeito a uma série de
afirmações sinónimas para cada objeto modal (em forma de matriz)
• Identificação aberta dos principais obstáculos a essas Competên cias (Adjuvante s e
Oponentes na açã o do Sujeito coletivo, as chefias) para o Ter e D ar
empowerment
• Identificação aberta de soluções para a conjunção com o Q uerer , Sa ber e Poder para
o Ter e Dar
empowerment
O questionário em detalhe pode ser consultado no Apêndice 3 deste documento.
Além das indicações atrás descritas, seguimos igualment e as orientações de Bhattacherjee (2012) ,
aplicando o inquérito sob a forma de questionár io on line, numa sess ão única em grupo, m arcada para
o efeito, e ten do-se explicado oralmente os objetivos da ses são (se bem que já os conheciam, por
previamente terem s ido in formados num dos
Management Team Meeting
s, qu ando o projeto foi
apresentado a todas as chefia s) . O s chefes de secção, disponíveis à data (51 ent revistados, 85% desta
população), reuniram-se na cantina da Bosch em Braga, com os seus computadores portáteis, em data
e horário acordados previa mente por email , e cada entrevistado preenche u o questionário, de forma
independente, no local . A plataforma on line usada, o Survey Monkey, foi selecionada e controlada
exclusivamente e de forma independen te, pela investiga dora. Es te formato online com presença física
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
78
garantiu uma elevada participação e permitiu esclarecer alguns re sponden tes no momen to, quant o a
dúvidas espe cíficas .
Implementado o questionário, recolhidos e processados os dados, retiraram -se deles as estatísticas
pretendidas. Poden do essa estatística alarg ar -se a somas, percentagens, médias, medianas e moda s,
desvios-padrões e correlações quan do se justifica (St ringer, 20 07), no nosso caso o interesse em dados
significantes sustentou-se exc lusivamente n as percentagens de respos tas, focadas n o Ter
empowerment
face a os ch efes de departamento , el aborando-se o relatório final a partir de gráficos de resumo e de fácil
leitura. Excluíram-se, dos dados apresentados em rela tório, aqueles referentes ao Dar
empowerment
,
das chefias de secção aos s eus su bordina dos, por se encontrarem fora do âmbito do trabalho, centrado
no
empowerment
das chefias menos elevadas face às mais elevadas.
3.3.
Act
– Desenhar, implementar e avaliar o plan o
Act (Agir)
• Planear (Relatório)
• Desenhar a forma de implementar o Programa Narrativo para a conjun ção
com os Objeto s Mo dais – constituição das equipas de Trabalho para o s
Objetos Modais disju ntos, o Sab er e o Poder ; seleção do s tópico s -chave
para cada equipa
• Implementar
• Implementar – garantir as Competências é também execu tar a
Performance
o trabalho da equipa do Saber/Lid erança – co nstruir e partilh ar uma
ferramenta de referência de comportamento quanto ao
empowerment
o trabalho da equip a do Po der/Sistemas Organiza tivos – co n struir e
implementar um modelo de planeamento estraté gico participativo ao
nível de to das as ch efias e adaptado à reali dade Bo sch em B raga
• Avaliar
• Avaliação – Perfor mance e Glo rificação
o Saber/Liderança – Ferrament a de Referência de comportamento –
inquérito para valid ação do nível desejável des se referencial e aferição
do estado atual face ao mes mo
o Poder/Sistemas Organizativos – rea lização bem-sucedid a da sua
implementação . Correspondên cia co m o fin al da Performance e
Glorificação
Tabela 6: Co rrespondência do proces so greimasiano canó nico às etap as da investi gação -ação - fase
Act
Os da dos recolhidos permitiram concluir do estado das chefias face à Aquisição de Com petências, o qu e
pode ser consultado no capítulo sobre a investigação em ação . Aqui importa apenas informa r que s e
concluiu que o objeto modal Querer o
empowerment
pa ra a mudança da organização existia, pelo que o
O guião da investigação-ação – A Semióti ca narra tiva de Greimas
79
trabalho a partir desta fase se cent rou sobre o Saber e o Poder das ch efias (de dep artamento e secção )
para o
empowerment
necess ário à mudança o rganizacional.
3.3.1. Planear – desenh ar o Plano de açã o, o Program a Narrativo de Greimas
Em proposta e debate com a adm inistração PC, propôs-se a seguinte metodologia para a açã o:
• Apresentação dos resultados n a
Management Team Meet ing
de 20 junho 2016 –
resultados pre liminares so bre adjuvantes, oponen tes e soluções ao
empowerment
concluídos a partir das Entrevis tas e Inquéritos às ch efia s;
• Na
Management Team Meeting
de 20 junho 2016, a totalidade das equipas de chefia s
envolvidas n um conjunto alargado de pr ogramas da B osch debruçam -se tam bém so bre
o tópico do
empowerment
, refletind o e junt ando solu ções aos re sultados preliminares,
para os oponentes/con dicionantes ao
empowerment
; esta foi uma forma de
envolvimento inten cional do todo das ch efias no trabalho em curso (que à frente seria
limitado a equipas menores) (Reason et al., 2008);
• É efetuada uma racion alização da Lista de soluções e obstáculos decorrent es das
Entrevistas, dos In quéritos e do
Management Team Meet ing
de 20 de junho para evitar
repetições de conceitos formulados de forma diferente, mas sinónimos;
• O con junto total de tópicos é dividido em dois g randes grupos pela investigadora e
orientadora empresarial – Sab er (questões relativas a o exercício e conheciment o dos
processos de Liderança e de alinhamento dos mesmos en tre c hefias) e Poder
(questões relativas aos recursos da empresa em sistemas e proces sos organizativos);
• Criação de duas equipas de t rabalho, a quem seriam atribuídos, re spetivamente, os
tópicos relacionados com o Saber e o com o Poder das ch efias da empresa para o
empowerment
e para a Mudança nele suportada. O objetivo final era encontrar e
implementar soluções para a con junção, das chefias da Bosch Car Multimédia em
Braga, com estes objetos modais, at ravés da melhoria dos tópicos inc luídos nessa
Lista.
Compete aqui, fazer uma paragem no desenho do plano, para esclarecer o pr ocesso de defin ição destas
duas equip as do Saber /Lideran ça e do Poder/Processos e Sistemas Organizativos.
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
86
Não s erá demais de sublinh ar que esta investigação -ação foi s empre executada pelo método de iter ações ,
em todas as fases, com análise e revisão das ações implementadas.
Estas e outras consideraçõ es de det alhe serão explicadas na implementação da investigação em ação ,
tendo este capítulo presente apenas a função de relato do método.
Reabilitar Greimas como suporte à investi gação -ação para a mudança da Bosch em Braga
87
Capítulo 4. Re abilitar G re imas como supor te à investigaç ão-ação para a mudança da
Bosch em Braga
A int enção de princípio da investigadora no seu projeto de doutoram ento foi sempre pôr à prova o modelo
da n arrativa Semiótica de Grei mas na sua com paração com os processos de mudan ça das organ izações.
Na realidade, a ideia amadurecida pela investigadora durant e anos - de relação profissional com o mundo
empresarial e de alguns de aproximação ao m undo da Semiótica por via académica - era a de t entar
perceber, comparando, se um processo de mudança nu ma organização e uma qualquer narrat iva de um
filme de ação como os da s ag a India na Jones ou Ma trix teriam a mesma estrutura profunda ( semântica)
e narrativa à luz da Semiótica de Greimas.
Como já se t ornou claro n o capítulo 1, de apresent ação da Bosch Car Multimédia em Braga, o desafio
lançado à investiga dora passou a ser, a partir de det erminado momento, n ão de obs ervar a mudança,
mas de fazê-la acontecer, o que levo u ao aba ndono da ideia original. Tentar entender se o processo de
mudança seguiria um m odelo semelhant e ao prescrito pela Semiótica narrativa de Greimas, através de
uma abordagem interpretativista e de u m mét odo de estudo de caso, deixou de ser possível, passando
a partir dessa altura a um projeto dependente da imersão e intervenção da investigadora n a ação da
mudança.
Desde o princípio um modelo questionável por tan tos desenvolvimentos posteriores da ci ência Semiótica ,
inclusive pelo p róprio Greimas, teria a proposta deste modelo narrat ivo o poder necessário para sai r do
seu campo limitado ao enunciado n arrativo e constituir -se como um g uião, n ão já para a l eitura, m as
para a execução da mudança organizacion al? Seria um cam inho com abrangência suficiente para
delimitar e orientar a investigação-açã o que se pretendi a?
E, ao deixar de ser uma comparação entre a estrutura de uma narrativa fílmica ou livres ca e uma
“estrutura” do mundo n atural, estaríamos ai n da n o campo semiótico? Sendo o objetivo fazer acont ecer
a mudança, t ratar- se - ia ainda, n este t rabalho, de um estudo sobre “ as condições da apreensão e da
produção do sentido, quaisquer que sejam os regimes semiót icos em jogo” (J. A. Mourão & Babo, 2007) ?
Este projeto assumiu, com corag em, a alte ração do seu desígnio de partida, trazendo Greimas à
atualidade e torn ando-o num instrumen to ao servi ço das exigências de um m undo natural em mudança,
n um “salto quântico” que t ran sforma a Semiótica narrativa de Greimas no que poderia chamar -se uma
Semióti ca da ação para a mudança.
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
88
Para entender esse processo comecemos pelo princípio.
4.1. A Semiótica, essa C iência da Com unicação de inúmeras faces
Podemos avançar que a Semiótica é, de facto, uma ciência da comunicação, contudo não enquadrad a
na vertente de transmiss ão de fluxos de informação e processos, con siderados d e forma simplista de
Estímulo-Resposta, e s im n a corrente de investigação q ue olha para a comunicação como u ma forma de
produção de sentido (Fidalgo, 1999).
Se bem que a temática estudada pela Semiótica seja t ão antiga quanto o pensamento filos ófico, é s ó de
facto no início do séc. XX que se encontra u ma proposta de uma teoria geral dos signos que a enquadra
epistemologicamente, demarcando -a do pensamento an tigo. A partir de meados do mesmo século
institui-se como ciência (Fidalgo & Gradim, 2005; J. A. Mourão & Babo, 2007).
Definem-se n este contexto du as g randes tradições e dois n omes ma iores para designar a mesma ciência
dos s ignos: a tradição eu ropeia (e m ais es pecificamen te fra ncesa ou Escola de Paris) que opta
inicialmente pelo termo Semiologia e cujo nom e fundador é Saussure; a tradição an glo -saxónica, que
denomina a nova ciência com o Semiótica cujo fundador é Peirce. As duas tradições , con temporâneas,
refletem, porém, diferenças que não só as de terminologia. Sintetizado por Eduardo Prado Coelho, no
seu livro
Universos da Crítica
(1987, p. 501-505 cit ado em Fidalgo, 1998) , as diferenças entre ambas
sã o essencialmente três:
• Quanto ao ponto de partida : Saussure acredita no at o sémico como social,
estabelecendo a relação entre indivíduos a partir da fala ; em contrapart ida, Peirce faz
sustentar a ideia de semiose a partir da função do interpretant e ao comp reender a
lógica de funcionamento dos signos, mesmo que não os da fala;
• Quanto aos limites de ambas: Saussure considera a Semiologia enquanto dentro da
psicologia social, que esta tem limites e que fora dela h á objeto s não semiotizáveis; ao
invés, para Peirce a Semiótica não tem limites e tudo é integrável na semios e;
• Quanto às suas conceções de signo: Saussure concebe o sign o como binário,
composto pelo significado e significante em mútua dependência; em Peirce, o signo é
triádico, com posto por signo, o objeto e o int erpretante, sendo o papel deste último o
de mediação.
Será a conceção de signo que, mais claramente, distingue as duas linhas de pensament o semiótico.
Reabilitar Greimas como suporte à investi gação -ação para a mudança da Bosch em Braga
89
É com Saussure e Barth es que a Sem iótica se inicia co mo a ciência que se ocupa dos signos ling uísticos,
amarrada de pe rto às questões da significação pela linguag em, de tradição formal e estruturalista, para,
nos an os sessenta, passar a debruçar -se sobre as q uestões mais vastas da produção de sentido,
sustentada n a perspetiva de Peirce, de inspiração lógica e matemática (Martins, 2004) . Há, con tudo,
quem defenda que a Semiótica enquanto ciência tem origem, não em S aussure e Peirce, mas em John
Locke (Jensen, 1995).
Na perspetiva de Carm elo (2003), Semiótica é uma atividade interpretativa do entendimento e da
significação ligada ao sig no e aos seus instrumentos , isto é, é “a área de saber que an alisa os signos e
que estuda o funcionament o de múltiplos conjuntos de signos. Seja no plano geral, no quadro de uma
Semiótica filosófica, seja no plano particular, no quadro de Semióticas aplicadas a áreas específicas”
(Carmelo, 2003, p. 10), seja aind a no quadro de uma t eoria Semiótica social inter essada no significado
(
meaning
) em todas as suas formas, decorrendo de a mbient es sociais diversos e da s inter ações sociai s
(Kress, 2010).
Assumindo-se como ciência que convive de perto com o utras ciências, a Semiótica deixa-se imbuir , desde
a sua origem, por outros campos de saber que não apenas os relacionados com a linguagem, opondo -
se nesse asp eto à semiologi a:
… semiologia” é mais “literário” e mais atingido por uma vis ão geral de ordem da linguage m, enquanto
que “Semiótica” (termo utiliz ado na tradição anglo -saxónica e na corrente post -hjems leveana em
França) conota a ideia de um projeto c ientífi co e globalizant e em que intervém não apenas a linguís tica,
mas a a ntropologia e a f enomenologia com va lor decisivo na formação do se u quadro c onceptual e dos
seus teoremas centrais (J. A. M ourão & Bab o, 200 7, p. 14).
O objetivo da Semiótica escapa, ao longo da sua história de um âmbito es tritamente ligado à linguagem
e à linguística e à ideia de significação para explicitar, sob a forma de uma construção con ceptual, as
condições da apreensão e da produção de sentido, qu aisquer que sejam o s suportes significantes em
jogo (J. A . Mourão & Babo, 2007). E até m esmo Saussure lhe conferi u e ssa ab rangência referindo que
a Semiótica é a ciência da vida dos signos em sociedade (Saussure, 1974 citado em Hodg e & Kress,
1995), conferindo aos signos uma existência viva numa sociedade que nunca poderá deixar de ser
complexa em produção de s ignificação, perspetiva que a larga o campo de estudo dos sistema s de signos
para os sistemas da significação.
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
90
Na atualidade, a Semiótica abraça inúmeros cam pos de estudo, repartind o-se “ hoje por secções q ue vão
da epistemologia à aplicação prática, alternativamente, a par da lógica ou da com unicação ou da
semântica ” (J. A . Mourão & Babo, 2007), m uitas vezes socorrida de outras áreas d o saber, con fundindo -
se com elas , com o em áreas como antropologia ou a psicologia social, ou especializando -se em áreas
de estudo part iculares ou técnicas, com o a Semiótica da imagem ou a Semiótica social ou multimoda l
de Halliday e de Kress (Hodge & Kress, 2 007; Kress, 2010; K. O’ Halloran, 2012) .
4.1.1. Exploração de alternat ivas Semiótica s para a investigação - Semiót ica Orga nizacional
Apesar da ideia de part ida, a comparação da ação da mudança ao modelo narrativo de Greimas (e
posteriormente, o seu uso como guião para uma ação de mudan ça), e considerando a pluralidade de
pontos de vista semió ticos, esta inve stigação aventou a possibilidade de t rilhar outras d isciplinas
Semiótica s.
Considerando o tema aqui desenvolvido, a mudan ça das orga nizações, a Semiót ica organizacional
poderia, pelo seu nome e natureza, parecer a área científica mais indicada para o nosso projeto.
Iniciada por Ronald St amp e r em 1973 (St amper, 1 973; W. M. Gazendam, 2004) , n o contexto do seu
tra balho n a área dos sis temas de informação e na an álise das organizações com o “sis temas de
informação” (Gazendam & Liu, 2005) , a Semiótica Organizacional analisa a n atureza, cara cterísticas e
funções da informação e estuda como pode , esta , ser usada no cont exto da s organizações e do seu
negócio, incluindo os seus sistemas de informa ção, processos de criação, processamento, distribuição,
armazenamento e uso da in formação. Sintetizam- se em três, as suas principais abordagens: abordagem
de Sistema de Signos, abordagem Comportamental e abordagem do Conhecimento. A primeira debruça -
se sobre os m eios (incluindo linguagem falada, textos, inst rumentos e
interfaces
de computador) como
sistemas de sinais. A segunda, a m ais influente desta á rea de conh ecimen to, fu ndamenta -se no facto de
não haver conhecimento sem um ator e sem ação . Divide-se em Semiót ica Organizacional baseada no
Campo de I nformação, em que os ind ivíduos são vistos como agentes influenciados por
potencialidades/possibili da des (
affordances
) físicas e potencialidades/possibilidades sociais e pelas
normas a elas as sociadas; e Semiót ica Organizacional baseada na Est rutura de I nt er ação, focada nas
ações e atores que executam ess as ações e em que os indivíduos são atores podendo agir em nome da
uma organização. A terceira, relativa ao Con heciment o na organização, aborda -o enquanto representação
ou estrutura de signos na ment e humana e atua na área de análise de tarefas, an álise e cara cterização
Reabilitar Greimas como suporte à investi gação -ação para a mudança da Bosch em Braga
91
do conhecimento organizaci onal, dos seus processos d e construção do conhecimento e desenvolvendo
modelos multiator das organizações (W. M. Gazendam, 2004) .
Contudo, em qualquer destas perspetivas, a Sem iótica organizacional é principalmente vista como um
instrumento de iden tificação e anális e dos fl uxos de inf ormação e da forma como definem ou estruturam
comportamentos, padrões sociais e metáforas (como por exemplo a ideia d e mercado), criados e
desenvolvidos pelos meios de comunicação (Gazendam & Liu, 200 5).
Observadora, an alítica e dis tanciada, esta área não demonstrou t er meios para ser interventiva,
concretizando os objetivo s de ação deste projeto: o de fazer acont ecer o process o de mudança, n a
passagem de um estado S 1 a um estado S2, pelo que foi abandon ada a hipótese de uso do seu
referencial teórico.
4.1.2. Exploração de alternat ivas Semiótica s para a investigação - Semiót ica Social
Passou igualmente pelo crivo da avaliação, quanto ao campo semiótico de enquadramento da n ossa
investigação, a Semiótica Social.
Halliday, em 1978, com a sua teoria Sem iótica Social (Halliday, 1982), fornece as fundações para o
estudo futuro de outros recursos semiót icos que n ão os da linguagem, com o as imagens, a arquitet ura,
a música, o g esto, o vestuá rio, entre outros (Jewitt, 20 09; Machin, 2007; O’Hallo ran , 2011 cit ados em
K. L. O’ Halloran, 2014) .
Numa abordagem a que chama uma teoria socio-Sem iótica da linguagem, Halliday expande a sua
perspetiva para int egrar element os com o “o t exto, a situação, a variedade d o texto ou regis to, código ( no
sentido que lhe dá Bernstein), sistema linguístico (que inclui o sistema semântico) e estrutura social”
(Halliday, 1982, p. 143), est a última part icularmente important e no sent ido em que é nela que se trocam
os significados. Com a integração dest es elementos, a Semiótica social de Halliday dá o en quadramento
para a análise empírica de fen ómenos sociais, numa observação dos recursos se mióticos vários e suas
relações uns com os outros. Esses recursos semióticos são definidos como sistemas semânticos inter -
relacionados com quatro funções: interpretar a nossa experiência do mundo (significado experiencial),
criar relações lógicas en tre significados experienciais (significado lógico), promulgar as r elações sociais
(significado int erpessoal) e organizar s ignificados em mensagens coerentes sob a forma de t exto
(significado textual). No sistema de Hall iday, os recursos semióticos e seus sistemas s ubjacentes são as
ferramentas para criação de significação (K. O’ Halloran, 2012) .
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
92
Hodge e Kress (1995) , por seu lado, são reconhecidos como tendo iniciado, com o seu livro
Social
Semiotics
, os estudos em Semiót ica Social aplicada a text os (no sentido lato de mensagen s com uma
unidade socialment e at ribu ída) relacionan do -os com o discurso (processo social em que o text o está
embebido) e em relação com um sistema de signos, vistos, n ão como estáticos, mas com o produto de
processos de s emiose. Nes ta obra, os autores marcam a mudança , de uma corrente Semiótica
“principal” ou “
mainstream
” com génese em Saussu re, para a Semiótica Social. Fazem esse corte a
partir da posição de Voloshino v que refere que “A forma dos signos é condicionada sobretudo pela
organização social dos participant es e t ambém pelas condições imediatas d a sua interaçã o ” (1973, p.
21 citado em Hodge & Kress, 1995, p. 18), posição pa ra a qual também con vocam Benveniste, Hymes
e Halliday. Mensagem, texto e discurso estariam envoltos pelos sentidos (
meanings
) e valores de uma
cultura. Logo, seriam uma produção de sentido eminentemente social, em que semiose e realidade estão
necessariamente interligadas. Decorre daqui que a a ção social, o seu cont exto e os usos dados às
mensagens têm, portanto, um papel crucial na prod ução de sentido, não pode ndo ser a Sem iótica
limitada à análise de texto ou mesmo de mensagens.
Martins defende igualmen te a ideia de uma Semiótica Social que vê o s istema social como u m grupo de
sistemas semióticos, do qual a linguagem faz parte , mas não sendo o único sistema (Martins, 2002).
Esta “n ova Semiótica” (por oposição à dos fundadores na esteira de Saussure) inclui ent ão o estudo de
com ponentes mais amplas do qu e as at é aí estudadas. D esde logo, a cultura, s ociedade e política como
intrínsecas ao estudo semiótico; outros sistemas semióticos que não apen as a linguagem verbal; o ato
de fala bem como outras pr áticas significantes, com outros códigos; diacronia, t empo, história, pr ocesso
e mudança; os processos de significação, as tran s ações ent re sistemas signific antes e estruturas de
referência; estruturas do sign ificado; a natureza material dos signos.
No fundo, no entender dos aut ores atrás referidos, a Semiótica propõe-se faze r um estudo aos fenómenos
da comunicaçã o n o sentido lato (e n ão apen as a parcelas dela), fazendo-o de forma sistemática, global
e coerente. A Semiótica social, especificament e, define- se pelo e studo do cruzament o interdisciplinar e
pela valorização do contexto social e suas p ráticas produtoras de sentido (Hodg e & Kress, 1995).
Destaca-se, como ponto de partida, o estudo do discurso (T. a. Van Dijk, 1 985), b em assim com o dos
sistemas visuais (Kress & van Leeuwen, 2006; Van Leeuwen et al., 20 08) o u, me nos com um, o estudo
dos artefactos sociais (Keane, 2003), apenas para nomear algumas áreas de estudo.
Não deixa de ser curioso e de assinalar que, apesar de a abordag em social da Semiótica de Hodg e e
Kress se apre sentar sustentada no contexto enquanto
meaning
, essencialment e de inspiração pe irciana,
Reabilitar Greimas como suporte à investi gação -ação para a mudança da Bosch em Braga
93
definam muito da sua sustent ação t eórica por oposição e c rítica a Saussure. Tam bém Jensen (1995) ,
baseando a sua Semiótica social para a comunicação de massas em Peirce, não deixa de o fazer por
contraponto a Saussure.
A S emiótica Social tem como objetivo explorar o uso dos recursos semiót icos, explorando as suas
diferenças e semelhanças e tentando an alisar com o são usados nas situações sociais, em simultâneo,
em circunstân cias que são por n atureza multimodais. O seu foco, mais do que ap enas debruçar-se sobre
o estudo dos recursos ele s mesmos, é investigar a maneira com o as pessoas deles fazem uso,
produzindo e interpretando sentidos na vivência social. A Semiótica social parece ser igualment e
orientada para a “intervenção social, para a descoberta de novos recursos semióticos e novas maneiras
de usar os recursos semióticos existentes ” (Van Leeuwen, 200 5, p. Prefácio).
Apesar desta referência sobre a intervenção s ocial da Semiótica Social, não decorre da le itura dos aut ores
visitados nad a mais que a sua dimensão de análise, cen trando -se no estudo dos recursos mat eriais,
humanos e tecn ológicos, nas suas formas de uso co mo inst rumentos de comunicação e nas regras
sociais que presidem ao seu uso. Cent ra-se em quatro dimensões de análise, ainda que elas n ão possam
discutir-se separadamente (Van Leeuwen, 2005):
• O discurso – trata- se de “o quê” da comunicação, ou seja, da for ma como o discurso é usado
para definir e representar o mundo;
• O género – es tá, n a base, n a forma como os recurs os s emióticos são usados como formas de
interação entre pessoas, se ja em forma direta pela fala, ou seja, através de livros , m eios de
comunicação social e outros recursos;
• Estilo - é a man eira como as pe ssoas usam os recursos semióticos para ex pressar quem são
e os valores que as regem, nomeadamente ao recorrerem a um determinado género que
determina por si um estilo;
• A 'm odalidade' - é um conceito que permite entender com o as pessoas usam os “ recursos
semióticos para criar a verdade ou valores de realidade n as suas representações, para indicar ,
por exemplo, se devem ser t om ados como facto ou ficção, verdade comprovada ou conjetura ”
(Van Leeuwen, 2005, p. 104). Fala-se em modalidades linguísticas, de imag em, de som, do
vestuário…
A partir do sistema modal da linguagem, o conceito de m odalidade foi assim ampliado e adaptado para
fenómenos semióticos mais vastos e meios não -verbais. É neste press uposto que se inicia a busca por
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
94
uma teoria geral da moda lidade e se ent ra numa outra área, que parece estar a fazer um percurso de
autonomização face à Semiótica Social, a Semiótica Mu ltimodal, de que falaremos em seguida.
Em relação a qualqu er dos conceitos, discurso, género, es tilo, modalidade, a proposta que nos sugere a
Semiótica Social é a da análise para o q ue, muito frequent emente, é “ estruturaliza da ” (por irónico que
possa parecer) a realidade em observação.
Esta área da Semiótica teria abert o cam inhos a esta investiga ção m uito distintos e seguramente com
grande int eresse. Teríamos podido optar por com parações dicot ómicas como, por exem plo, analisar o
discurso do poder económico versus o di scurso da força laboral ou a representação da organização
Bosch nos media; os géneros e os estilos de comunicação da s área s direta s e d as áreas indireta s da
Bosch como forma de definir realidades distintas numa mesma organização; as modalidades resultan tes
de uma aut operceção de alguns departam entos da Bosch enquant o uma unidade produtiva versus a
perceção de outros enquan to unidade de desenvolviment o tecnológico… Possibilidades de estudos
semióticos muito variados, na realidade.
Contudo, qualquer uma da s muitas via s possíveis da Semiót ica Social são aparen temente, e uma vez
mais, uma perspetiva de i nvestigação pela an álise de factos consumados ou em curso. E n ão de
intervenção como nos é requerido nesta investigação.
4.1.3. Exploração de alternat ivas Semiótica s para a investigação – Semiótica M ultimodal
No início deste p rojeto, a possibilidade de enveredar por um projeto de an álise multimodal tam bém foi
considerada, tendo em conta a complexidade e ema ranhado de recursos semióticos pres entes num
processo de mudança.
O conceito “multimodalidade” decorre da Sem iótica Social, definind o -se com o um n ovo campo da
Semiótica a que se chama análise multimodal ou multimodalidade (K. L. O’ Halloran, 2014) .
A ideia de multimoda lidade parte da ideia de con gregação ou presença de várias moda lidades na
produção de sentido. “M odalidade é o termo que descreve a posição/postura dos participantes no
processo semiótico em rela ção ao estado e stat us do s istema de classificação do plan o mimét ico. Isto
inclui a categorização de pessoas sociais, lugares e con junt os de relações, que são, deste pont o de vista,
lugares culturais e valores com o quaisquer outros ” (Hodge & Kress, 1995, p. 122) . A modalidade estará,
portanto, nesta perspetiva presente em todos os at os semióticos. A moda lidade expres sa afinidade, ou
Reabilitar Greimas como suporte à investi gação -ação para a mudança da Bosch em Braga
95
falta dela, dos participantes em relação a qualquer siste ma. A modalidade aponta para a construção
social ou contestação de sistemas de conhecimento.
Não podendo deixar de ligar-se a determina ção e evolução deste conceito a Kress e Hodge , no contexto
da sua Semiótica Social (Hodge & Kress, 2007) , n ão podemos t ambém deixa r de referir que o termo
modalidade era já referido pelo próprio Greimas, em plena era estruturalista .
Com efeito, o ter mo modali dade é apresentado por Gr eimas, pe la primeir a vez, n a revista Langages, e m
1976 no artigo
Por uma t eoria das modalidades
voltando a referi-lo em
Du Sen s II
e a defini-lo no seu
Dicionário de Semiótica
(Calbucci, 2009), se bem que muito centrado n as questões da n arrativa: “A
partir da definição tradicional de modalidade, entendida como “o que modifica o predicado” de um
enunciado, pode-se conceber a m odalidade como a pr odução de um enunc iado dito modal que
sobredetermina um enunciado descritivo” (Greimas & Courtés, 1979, p. 282 ) . Neste sentido, o
entendimento de modalidade é o de algo que age sobre um ato de produção de sen tido, determinando-
o (que em Greimas era sobre o texto, mas que n o presente multimodal pode ser entendido como ação
sobre qual quer outro recur so semiótico). A inc idência de uma modalidade sobre o text o é inequívoca
enquanto de t erminante de uma forma de ver dade: “a estru tura da mensagem impõe uma certa visão do
mundo” (Greimas, 1976b, p. 175).
Apesar des sa origem em Greimas, profundament e enraizada na ling uística do estudo das modalidades
(Greimas, 1976a), a definiç ão e enten dimento da ideia de modalidade n ão é una. Na esteira ling uística,
as várias definições encontradas têm em comum serem derivadas da definição de G reimas:
…modalidade é uma mane ira de o enunciador caract erizar o conteúdo de s eu enunciado , dando -lhe
uma feição específica, o que pode ser feito, p or exemplo, pel o tempo ou pelo modo verb al, pelo verbo
auxiliar, pelo advérb i o. Assim, categorias como p ossível, necessá rio, obrigatório, verdadeiro, crível,
interdito fazem p arte do u niverso modal, uma vez que exprimem a atitude, a avaliação do e nunciado r
em relação ao e nunciado (Cal bucci, 2009 , p. 70).
Hoje, já n uma abordagem m ultimodal que parece afastar -se destes primórdios, são os modos que são
analisados e não as linguagens, sendo modos o resultado de uma formação his tórica e social dos
materiais que uma dada sociedad e escolhe como representação e a linguagem apenas mais um m odo
de construir sentido (Kress, 2010) .
Os estudos avançam para a multimodalidade , vis an do investiga r os principais modos de representação
em função dos quai s um de terminado texto é produzido e realizado, bem como com preender o potencial
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
102
conflito em que está em jogo o poder” (Abbott, 2008, p. 55), dando ao conflito um papel essencial na
estrutura narrativa.
Viaja por n ovos suportes e meios que não apenas os escritos, desenvolvendo -se a teoria narrat iva em
estreita ligaçã o com os
media studies
, com o des envolviment o das n arrativas t ransmediáticas (Noronha,
Zagalo, & Martins, 2012), com o
storytelling
nas suas mais variadas formas e usos, do en sino , à
comunicação nas organizações e ao marketing (Chaitin, 200 3; Denning , 2001) .
Numa mistura de várias linguagens e formas passíveis de serem usadas n a narrativa, reconh ecem -se
hoje muitos géneros de narrativa para além do que é classicamente con siderado como tal. À “N ovela,
poema épico, conto, saga, tragédia, comédia, farsa, balad a, “western”” (Abbott, 2008, p. 2) junt am-se
hoje formatos como as n arrativas publicitárias, as letras de músicas, os filmes, as n otícias do telejornal
ou como o definia Roland Barthes, há algum tempo já:
Entre os veículos da narrativa estão a linguagem articulada , seja oral ou escrita, figuras, estáticas ou
em movimento, gestos e uma mistura ordenada de todas essas substânci as; a narrativa está present e
em mitos, lendas, fábu las, contos, historietas, épicos, história, tragédia, drama [drama de suspe nse],
comédia, pantomima, pinturas (em Santa Ursula por Carpa ccio, por exemplo), vitrais, filmes, no tícias
locais, conversação (B arthes, 1975 , p. 237).
Apesar da diversidade de narrat ivas, das abordagens e teorias sobre a s mesmas, t em ha vido desde cedo
um esforço n o sentido de encontrar m odelos narrat ivos que organizem ou d eem sent ido à análise ou
construção de narrativas, procurando elementos constan tes e discrepâncias que expliquem a sua
natureza e diversidade (Barthes, 1975), esfo rço de sentido que se estende, desde o início do s eu estudo
na esfera da literatura, até aos dias de hoje na esfera de multigéneros transmediáticos.
Diz Barth es que, na sua “infinita variedade de formas, a narrativa está presente em todos os tempos,
todos os locais, todas as sociedades… tal com o a vida, está lá, internacional, trans -histórica e
transcultural” (Barthes, 1975, p. 2 37). Sendo fruto da arte, t alento ou génio de um autor, poderia ser
um con junto aleatório de event os mas, n a gen eralidade, partilharia com outras narrativas um “sistema
implícito de unidades e regras” (Barthes, 1975, p. 238).
Não tendo a pretensão de sermos exa ustivos nem t emporalmente sequenci ais, iremos abordar
superficialmente algumas das estruturas, que recortam ou conferem sentido ao processo narrat ivo.
Propostas com origem em abord agens t eóricas distintas, surgem em conte x tos de produção narrativa
tão díspares como a literat ura, filme s, jogo s ou document ários. O que se pretende é t ão somente dar
Reabilitar Greimas como suporte à investi gação -ação para a mudança da Bosch em Braga
103
uma noção qu e es ta é uma área de con hecimento em desenvolvimento em múltiplas direções, que é de
uma enorme riqueza e at ualidade, mas igualment e que os modelos q ue se apresent am limitam o seu
potencial de aplicação à con strução ou análise de n arrativas, não demonstrando de forma evidente a sua
capacidade de alargamento à esfera da ação humana, em que o mandato da Bosch irá situar a nossa
investigação.
Podemos desde logo, fazer um resumo das perspetivas clássicas (de que excluire mos Greimas, a ser
desenvolvido posteriormente), que grande parte dos autores vis itados destacam com o basilares:
Vladimir Propp
Levi-S trauss
Tzvetan Todo rov
Roland Barthes
Identifica, nos co ntos
tradicionais, 31 funções e
7 papéis / personagens
recorrentes (a que, por
vezes, se acrescenta uma
oitava.
As narra tivas apresentam
estas co nstantes, sendo
as relaçõ es es tabelecidas
entre elas que
determinam a evolu ção
narrativa.
Todo o arg umento
proppiano po de ser
sintetizado em fases :
Preparação,
Complicação,
Transferência, Lut a,
Retorno,
Reconhecimen to
No seu estudo so bre o
mito, o autor propõe
que a s ua n arrativa se
constrói sobre u ma
estrutura de
oposiçõ es binárias,
entre n atureza versus
cultura.
Amor-Ódio; Luz-
Escuridão; Guerra-
Paz; Riqueza-
Pobreza; etc.
A significação
subjacente ao mito
estaria intimamente
ligada aos padrões
subterrâneos dos
mitos de uma cu ltura.
A narrativa desen volve -s e
seguindo um percurso:
Equilíbrio – Desequilíbrio –
Equilíbrio.
A narrativa in icia-s e a partir de
um estado de equilíbrio o u
estabilidade inicial.
Dá -se uma disrupção causada
por elementos o u ações da
história (fu nção que abre o
processo) e o reconhec imento
da sua oco rrência, instalando -
se a situação de des equilíbrio.
Dá -se a ação n o sen tido de
reparar a situ ação disrup tante
(função que fecha o process o).
Após o su cesso da mesma,
volta-se a u m novo estado de
equilíbrio.
O autor define cinco c ódigos
narrativos: ação (atividade s
básicas, signi ficantes pa ra a
história)-
proairetic code ou
enigma, um a qu estão que se
coloca o u um mo mento decisiv o
que prende a audiência à t rama;
hermeneutic co de
ou código
émico, o que a audiên cia
reconh ece através de cono tações
relacionadas com a su a class e,
género idade;
simbolic co de
o u
código simbólico, algo que
simboliza algo mais co nceptual,
como a ideia de
masculinidade/feminilid ade;
justiça, injus tiça;
cultural code
ou
código cultural o u referencial ,
informação o u ideias baseadas
em estereótipos culturais, atitu des
e mo ral so cial cu jo entendimen to
depende da integ ração so cial.
Tabela 7: Resu mo das perspe tivas narrativas de al guns auto res fundamentais na teoria narr ativa. Fon te: suportado em
Chandler (2006) e Santos (2013)
Abordados em Vieira (2001), de forma sumarizada, entendem os não desenvolver aqui Bremond (1966)
com a alt ernância de degradação -melhoria, desequilíbrio-equilíbrio, próxima das o posições de Strauss;
Jung (1984 ) com o modelo do drama/narrativa estruturado em quat ro fases, Exposição,
Desenvolvimento, Peripé cia e Resultado; Labov e Waletzky (1967) q ue, com base nos seus estudos sobre
narrativas orais, concluem que elas evoluem sob r e quat ro m omentos, O rientação, C omplicação, Ação
ou Avaliação, Resolução, C on clusão ou Mora l; Thornd yke (1977) com o seu esquema de Exposição,
Tema, Int riga e Resolução … n em outros cont emporâneos da fase estruturalista. Da s ua análise br eve,
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
104
concluímos que per seguiam uma estrutura final do m odelo narrativo, fosse atrav és da identificação dos
seus e lementos, da su a cronologia ou da sequ enciação dos eventos. Para estes autores, “a condição de
existência de uma narrat iva estava ligada 1) uma relação cronológi ca e lógica entre os event os e às ações
dos atores; e, 2) que os eventos tenham uma organização macro proposicional ” (Vieira, 2001, p. 604).
Analisando estas várias propostas em t ermos de sequenciação narrativa, podemos concluir que
apresentam constantes: partem da definição de um m omento de princíp io, evo luindo até um final,
maioritariamente distint o do inicial. Pelo meio, os dife rent es autores identificam um número distinto de
momentos, mas depara-se sempre com , pelo menos, um evento ou situação que dá origem à
necessidade de transformação e um momento de ação para resolução do desequilíbrio criado.
Como podemos con cluir da análise feita aos clássicos, igualment e na estrutura de uma narrativa
canónica, a disposição dos elementos narrat ivos, personagens, espaços e ações é suportad a
maioritariamente numa lineari dade temporal, cronológica, encadeando em sequência uns momentos
nos outros, sendo os m omen tos posteriores consequê ncia dos seus an teriores. C omo bom exemplo de
síntese dessas estrutura s
lineares encontram os a
pirâmide de Freytag, que,
apesar de cen trada no
dr ama, propõe um modelo
que, n a modernidad e da
prática narrativa, é ainda
usado e adaptado em
estilos narrat ivos diversos.
Podemos encont rar o seu
original com a proposta de
transformação em cin co partes e três mom entos de crise (Freyt ag, 1900, p. 115), mas optám os aqui
por apresentar graficamente uma sua adaptação moderna que a generaliza para utilizações on de a
catástrofe final pode ser substituída por um desfecho, seja ele posit ivo ou negativo, sendo usado em
muitas formas literárias (Cantarelli, 2018) .
O diag rama toma a forma de uma pirâmide ou triân gulo: no início apresenta -se a situação de partida,
após o que se dá um incidente inicial a partir do qual a ação começa: “ a ação se acirra (ação ascendente)
em direção ao clímax, o mo ment o de maior tensão ou drama, depois a açã o descende, t emos a resolução
Figura 7: Modelo de drama de Fr eytag, numa adaptação ao uso narrativo ger al.
(Cantarelli, 2018, p. IV – Uma melh oria aristotélic a: a Pirâmi de de Freytag)
Reabilitar Greimas como suporte à investi gação -ação para a mudança da Bosch em Braga
105
e terminamos com um desfecho (onde, n o romance, nos é mostrado o que houve com as personagen s )”
(Cantarelli, 2018, pp. IV – Uma melhoria aristotélica: a Pirâmide de Freytag).
Outro clássico da narrat iva can ónica ou li near, Campbell, faz a sua an álise do monomito através do
percurs o do herói (Campbell, 1956). Com
base no seu livro, pode mos identificar
momentos principais n a narrativa que na
sua per spetiva traduzem a estrutura do mito
que at ravessa todas as cu lturas: o herói é
convocado para uma aventura, deverá
passar determina dos desafios ou gran des
dificuldades, domina as situações de conflito
e volta a casa. Também nesta sequenciação
dos eventos a estru tura não é
substancialmente distinta de anteriores e
posteriores propostas para as narrativas
canónicas.
Se com pararmos com modelos mais recentes de
storytelling
, suportados sob re meios tecn ológicos,
podemos verificar que,
esta ideia de crescendo a
partir de um problema que
se instala e da sua
resolução, con tinua a ser
um percurso inalterado.
Veja-se o exemplo do
modelo Retrato Visual de
uma História (ou VPS -
Visual Portrait of a Story
)
anotado por Ohler, a partir
de um original
“desenvolvido por Brett Dillingham (2001 , 2005)” (Ohler, 2013, p. 103) .
Figura 9: VPS -
Visual Po rtrait of a Story
, ada ptado po r Ohler a par tir de original de
Dillingham (2001). Fonte: Ohler (2013, p. 103)
Figura 8 : Sumário do percurso do h erói. Fo nte: Campbell (1956, p.
245)
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
106
Neste, podemos observar que, en tre o princípio e o fim da narrativa, se dá uma trans formação, sendo
esse m omento intercalado pelo declarar de um prob lema, um percurs o de tensã o e resolução com a
solução do problema e o fecho da narrativa com lições tiradas durante o percurso.
Estes modelos, separados por décadas, mantém uma disposição li n ear e cronológica, mas a forma de
usar o tempo é algo que as narrativas atuais vêm alterar. Aliás, é opinião de alguns autores, sustent ados
em Bart hes, que essa forma linear é a mais tradicional e am plamente utilizada em narrativas que correm
em meios físicos como os text os ou filmes, permitindo, dada o seu esquema construído, n a sucessão de
um evento após o outro, obt er maior con trolo sobre as audiências e, n a sua e struturação calculada, criar
efeitos amplificados e diret o s (Copplestone & Dunne, 2017) . C orroborando esta perspetiva, a ideia de
argumento ou enredo acrescenta -se aqui como algo essencial à trama narrativa, a q ue traz um desfecho:
“… é uma sequência t eleológica de eventos ligados por algum princípio de causalidade; isto é, os eventos
são unidos numa trajetória que, n ormalmente , leva a alguma forma de resoluç ão ou convergência ”
(Richardson, 2005, p. 167) .
O desenvolvimento da teoria narrat iva da modernidade pós -estruturalista, veio introduzir alterações à
organização t emporal da estrutura narrat iva, dispondo muito frequentemente os seus elementos n ão já
numa linearidade temporal, em sequências cronológicas, mas an tes em formas não lineares, com
sequenciação construída pela lógica. Barthes já anunciava esta diferente part ição do tempo narrativo:
“ Assim, prevalece uma espécie de t empo lógico, com pouca semelhan ça com o tempo real e com a
aparente fratura de unidades, intimamente subordinada à lógica que une os n úcleos da sequência ”
(Barthes, 1975, p. 267). Esta ideia de lógica narrativa a unir os eventos num enredo, por oposição a
um a linearidade temporal que une os eventos evolutivamente, vem assim permitir estruturas fraturadas
ou fragmentadas, intercaladas ou enquadradas (narrat ivas den tro de outra n arrativa) e mesmo até
circulares, resultando em argumentos que, no século XX são “ insistentemente fragmentários, abertos,
contraditórios ” (Richardson, 2005, p. 167) ou mesmo em narrat ivas sem enredo.
Para além das estruturas narrativas terem evoluído da linearidade para a não linearidade temporal,
evoluíram também na c omplexidade narrativa, podendo apres entar -se, nos seus mais variados formatos
atuais, en tre literatura pop, filmes ou jogo s int erativos, não já n uma trama ou fio único (
single strand
)
mas sim n uma multitram a (
multi-strand
), não já com um único enredo, m as com m ultienredos. Nesta
situação de multiplicidade, podemos verificar a existência de estruturas narrativas em que vários
percurs os narrat ivos se entrelaçam dentro de uma n arrativa única maior, desenvolvendo -se de forma
autónoma, sem se t ocarem, ou con dicionadas mutuamente, por elementos com uns que se cruzam , aqui
Reabilitar Greimas como suporte à investi gação -ação para a mudança da Bosch em Braga
107
e ali, ao lon go do enredo ou apen as no seu final. Estes ti pos de narrativa diferem “… ain da m ais do modo
canónico, pois a narrat iva de múltiplos segment os con t ém mais do que uma cadeia de eventos que, na
ausência de relações causais entre as cad eias, resulta em diferentes segmentos que são unidos por
temas, símbolos e imperativos morais comuns ” (Halvatzis, 2011, p. 154).
Considerando o estudo da narratologia que assim resumimos em amplo e largo desenho, temos algumas
justificações para a teimosa opção que n os agarra ao modelo narrativo original canónico de Greimas e
que convictamente mantemos no projeto executad o:
• Implica um contrato, em que um destina dor “faz fazer” algo aos destina tários – na
Bosch, o mercado -destinador, por várias vias, des ti na uma mudança à empresa
coletivamente;
• Implica um processo de Aquisição de C ompetências por part e daqueles que, sen do
destinatários de um man dato, se t ornam os sujeitos de uma ação – as chefias da
Bosch serão os sujeitos e mot ores de uma mudança mais al arg ada, para o que
necessitam adquirir algumas competências fundamentais ;
• Permite a orga nização de uma Performance, de uma açã o real que concretize o
contrato – na realidade, ao propor um m omento de ação narrat iva para efetuar uma
transição, o modelo em causa permite-nos um salto quânt ico da n arrativa literária,
desenvolvida sob a forma de texto, para uma ação no mundo concreto;
• a estrutura narrativa greimas iana segue as etapas atrás referidas , de forma equivalent e
à linearidade cronológica do mundo concre to, e mais especificamen te ao de um
processo de mudança, o que não se pode dizer da s propostas mais atuais, com o já
explanado.
Explicaremos nos próximos pontos dest e capítulo o modelo n arrativo de Greimas, detalhando estes
pontos, no seu poten cial de análi se ou de con strução de uma n arrativa, acendendo a luz quanto à sua
futura aplicação na impl ementação de uma aç ão de mudança na orga nização Bos ch e quanto às razões
que nos fizeram optar por ele.
4.3. O Paradigma E struturalista e Greimas
Falar de Semiót ica e de Greimas, implica obrigat oriamente referir, ainda que assumidamente de forma
breve, o Estru turalismo, à luz da qual a ob ra de Greimas nasce e s e de senvolve, servindo -lhe de pano d e
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
108
fundo epistemológico e metodológico ao ponto de ser rotulado como um ultraes truturalista. E, se é
necessário ent ender o estru t uralismo, an tes disso será n ecessário clarificar a noção de estrutura que lhe
está implícita, uma vez que, de Greimas, ire mos usar, n a nossa investigação -açã o, várias es truturas.
4.3.1. A Estrutura
Estruturas são d efinidas como “padrões e formas de rel ações sociais e combinações entre um conjunto
de elementos sociais constituint es ou suas partes com ponent es, tais como posições, unidades, n íveis,
regiões e locais e f ormaç ões sociais ” (H eydebrand, 20 01, p. 15230) .
Basten (2012) , seguindo a perspetiva de alguns e studos da área da biologia, define a ideia de estrutura
como distinta da de organ ização, em que a primeira in corpora a segunda. “ A orga nização determina a
identidade de um sistema; a estrutura determina como as suas partes são fisicamente articuladas ”
(Basten, 2012, p. 53) . A or gan ização reú ne , assim, um con junto de relações existen tes entre as partes
de um sistema; a estrutura con sidera, não só as partes, como t ambém as relações existentes entre essas
partes. Estrutura é, portan to, uma con strução que reúne as componentes de um s istema e as relações
que estabelecem en tre si e que podem, por isso, ser esquematizados, desenh ados, colocados uns
perante os outros através de u m modelo, ou mesmo repre sentação gráfica, executada de uma qu alquer
forma. Esta perspetiva do c on ceito Estrutura, contudo, é a sua forma mais funda mental, uma vez que os
vários a utores, ao longo dos tempos e lent es cie ntíficas, a foram alargando ou especificando,
desenvolvida de acordo com a sua própria perspetiva teórica (Barbosa de Almeida, 2015), ou mesmo
atingindo uma ontologia das es truturas com Chomsy (Dosse, 1998).
Inevitavelmente uma ideia complexa, a Estrutura coloca uma ordem ou uma forma de le itura, ainda qu e
artificial, s obre a reali dade, mas da qu al não é indiss ociável. Dizem Mourão e Babo que estrutura é “um
conjunto hierarquizado de relações cuja definição prevalece sobre a dos seus elementos constituintes”
(J. A. Mourão & Babo, 2007, p. 97) . A Estrutura, diz Pet itot, é “um objeto teórico e não um facto… não
destacável da substância em que é atua lizada” (Petitot , 2003). Nada mais nat ural, pois, que se t en ha
dado o desenvolvimento de toda uma área de conhecimento paradigmática que se debruça sobre a
natureza social deste con ceito, n as mais variadas área s de aplicação, do m undo q uotidiano, ao mundo
natural e mundo científico. “Estruturalismo é uma linh a inte lectual que procura en tender e explicar a
realidade social em termos de estruturas sociais” (He ydebran d, 2001, p. 1 5230) , mas, mais ainda, “ um
modo de conh ecimento da nat ureza e da vida human a que se interessa mais por rela ções do que por
Reabilitar Greimas como suporte à investi gação -ação para a mudança da Bosch em Braga
109
objetos individuais ou, altern ativamente, em que os objetos são definidos pelo con ju nto de rela ções d as
quais fazem parte e não pelas suas qualidades isolad ament e” (Barbosa de Almeida, 2015, p. 626).
4.3.2. Visão breve sobre o E struturalismo
Nesta investigação não é de todo n ossa inten ção aprofundar o Est ruturalismo, já tão revisto e, sob retudo,
criticado, mas apenas apresentar esta corrente de forma sumária dada a sua relação com Greimas.
No livro q ue se apr esenta como uma ampla pesquisa h istórica sobre esta cor rente, a História do
Estruturalismo, int roduz- se o tema com uma frase de Michel Foucault defendendo que “O Estruturalismo
n ão é um método novo, é a con sciência desperta e pertur bada do pensamento mo derno” (Dos se, 1997,
p. Abertura). Apesar disso, a perspetiva do autor quanto às razões do sucesso desta corrente é a de que
“o Estruturalismo p rometeu um método rigoroso e algu ma esperança de fazer p rogressos deci sivos em
direção à cientificidade” (Dosse, 1997, p. xix), uma forma de g arantir uma maior aceitação na
comunidade científica de sectores do conhecimento que at é aí eram vistos co mo menores face às
ciências exat as. O projeto do Estruturalismo estaria, por isso, sustentado num método que consistiria
“na (re)constituição do objeto, de forma a encontrar as invariantes e as funções q ue essas invarian tes
cumprem n o sistema” (J. A. Mourão & B abo, 2007, p. 97), incluindo a construção de um simulacro
desse objeto por forma a torná-lo int eligível.
A história desta corrente de pensamento é moviment ada , compreendendo vários períodos nos quais
autores e escolas se o põe m ou justapõem para definirem essa nova e mais substan cial cient ificidade
nas áreas humanas e sociais.
Na sua génese em França com o an tropólogo Claude Lévi -Strauss, e a pa rtir da sua aprop riação por
Saussure, a ideia do “Estruturalismo” é suportada pelo modelo da linguística moderna, “para se expandir
a diversos tipos de fenómenos e con stituindo -se com o mais do que um método e m enos do que uma
filosofia” (Dosse, 1997, p. xix) .
E o que defende esta corrente? Q ue tudo o que resulta da atividade humana, dos seus produtos aos seus
atos, dos seus pen samentos às suas pe rceções, é uma construção, logo n ão n atural. Ademais, qu e essa
construção é plena de sentido (
meaning
) devido à linguagem (ou linguag ens) a que recorremos para
interagir com os outros e c om o ambient e. Mann, evocando os seus a utores, r eforça isso exat amente
quando defende que “Uma explicação simples do Estruturalis mo é que ele compreende fenómenos
usando a metáfora da linguagem” (Mann, 199 4, p. 1). Não é de admirar, pois , que a génese da Semiótica
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
110
se tenh a dado em estreita proximidade, se não mes mo subjugação, ao movimento estruturalis ta,
preocupada que estava c om a construção e entendiment o das formas de produção de sentido.
Acrescente-se que o ob jeto estruturali sta poder ia ser ori undo, não só da sua origem linguística e literária,
como de outros quadrantes do conh ecimento, mais próximos da vivência social human a, como os
campos sociológico ou antropológico, t entando “impor uma ordem simbólica sobre o real e sobre o
imaginário” (J. A. Mourão & B abo, 2007, p. 98). Log o, o campo da Semiótica estruturali sta t em pot encial
de abarcar outras áreas do sent ido que não apenas a linguagem e o discurso, aprofundando as suas
dimensões simbólicas.
São subjacentes ao Estruturalismo algumas ideias base , às quai s as várias escolas dão diferentes
interpretações. Desde logo, que todos os sistemas apre sentam uma estrutura e que é esta que define a
posição relativa de cada uma das suas part es face ao todo , det erminadas por leis que regulam as suas
relações e até mud anças. Outra importante ideia é de que o fenómeno, ele mesmo , e a sua aparên cia,
é menos important e do que a estru tura que lhe subjaz ( Mastin, 2008 ). Barthes, na sua perspetiva própria
de Est ruturalismo, avança com a ideia pela qual “o obje tivo de toda atividade estruturalista ... é
reconstituir um objeto de forma a revelar as regras pela s quais o objeto funciona. A estrutura é, portant o,
de facto, um simulacro do objeto ” (citado em Dosse, 1997, p. 207).
O surgimento e sucesso do Estruturalismo deve u-se ao desejo das diver sas disciplinas sociais de at ingir
a cientificidade de área mais duras: alinh ando por este movimento, perseguiam um homem estrutural
que bus cava, através do método , o encontro com a objetividade científica. Na li nguística, na semiologia ,
na Semiótica, essa obsess ão traduzia-se no estudo do a to de produção de sen tido , reconstituindo o objeto
para revelar as leis pelo qual este f unciona ria . O Estruturalismo era “ atividade de imit ação” do objeto
baseada numa analogia, não da sua substância, mas da sua função. Neste percurso de fortalecimento
do Estruturalismo, a linguística de Saussure a ssum ia a liderança face às ciências sociais do moment o,
a antropologia de Lévi-strauss, a p sicanálise de Laca n, a filosofia de Foucault, entre outros, que eram
assim arrastadas pelo seu ri gor e formalização (matematização, m esmo), assimilando os seus programas
e m étodos. Estes nomes assumem -se como definind o o auge do movimento, sendo Laca n e Barth es,
juntamente com Strauss e F oucault, reconhecidos como o “Gang of Four” do Estruturali smo.
Condenado como anti -historicis ta e ant i-humanista, o Estruturalis mo é critica do e negado já no final dos
anos 60, com os anos 80 a marcarem o que parece se r o seu canto do cisne, coinciden te com a mort e
ou desgraça de a lguns d esses nomes maiores do movimento, entre os quai s Barth es, Lacan e Althusser.
Há, contudo, quem defenda que o estruturalismo não morreu verdadeirament e:
Reabilitar Greimas como suporte à investi gação -ação para a mudança da Bosch em Braga
111
Esse c anto do c isne preconiza do por Dosse, que se estende de 1967 aos nossos dias, parece qu e
nunca foi ouvido integral mente e isso p orq ue foram tantas as linhas de fuga p roduzidas pelo p aradigma
que se torna difí cil entend er a sua morte definiti va (Assis Car valho, 1994, p. 2).
Assis de Carvalho (1994) reforça esta ideia recordando uma das muitas entrevistas feitas a Lévi-Strauss
em que e ste, de n ovo instad o a defin ir E struturalismo , defende que é u ma moda fra ncesa que se r enova
de cinco em cinco anos . L onge de morrer, estaria ainda em curso e em recriação regular.
A rigidez das estruturas que a corrente propôs em várias fases ao long o dos anos, nas várias arenas do
conhecimento que ajudou a desenvolver - e que assume como intencionalmente limitativa da escolha e
liberdade - são, apesar de toda s as crít icas, um olhar d isciplinado sobre a experiência, o con hecimento
e o comportamento humanos. Permitem uma primeira abord agem a uma realidade aparentemente
caótica, recortando-a co m estru turas inteligíveis. É o qu e acontece também no estudo da narrativa .
4.3.3. O percurso da Narratologia e de Greimas no Estr uturalismo
A narratologia é uma das áreas do con hecimento abran gida inicialmente pelo rigor do Estruturalismo e
resulta da li gação e n tre tradições m últiplas e suas linhas de oposição e crítica, t endo sido constru ída “a o
longo de década s, cont in entes, n ações, escolas de pensamento e de investigadores individuais”
(Herman, 2005, p. 2 0). Nela, a distinção fundamental Saussuriana en tre
langue
(linguagem como
sistema) e
parole
(enunciado produzido e int erpretado) inspirou autores de refe rência do momento, entre
os quai s B arthes, Claude Bremond, Gérard Genette, A. J. Greimas e Todorov , levan do- os a “interpretar
histórias particulares como mensagen s narrativas individuais suportadas por um sistema semiótico
partilhado” (H erman, 2005, p. 26). Desta distinção ent re
langue
e
parole
, a investigação sobre a
narratividade ampliou o seu âmbito, passando, do estudo d o significado de sistemas de signos
narrativamente organizados, para o estudo da forma como as n arrativas significam at ravés da sua
estrutura enquanto narrat ivas. Greimas, o arquiestruturalista, terá sido um dos grandes responsáveis
desta transição.
A vida e obra de Gr eimas est ão profundamente enraizada s no estruturalismo, sendo a fase inicial do seu
trabalho (1956) influenciada pela linguística estrutural e por um estrutu ralismo l ing uístico baseado na
antropologia e no folclore. I nspirado por Saussure q uanto à visão estruturalista da linguística que abre
campo à semântica e à semiologia, e influenciado por Vladimir Propp no estudo da es trutura narrativa a
partir da morfologia do conto (Propp, 2 001), a estas agregou as ideias de Lévi-Strauss s obre as estruturas
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
118
De salientar que, anteriores ao estudo narrativo, havia já quem visse a linguagem como um “modo de
ação ” e a produção de sentido como uma força para além do âmbito do discurso e q ue, decorrendo
dessa ideia, o próprio Greimas e Courtés avent aram uma Sem iótica da ação a partir da análise de
modelos semióticos da ação n arrativa ficcional (Padoan & Sedda, 2014).
4.4. A Semiótica n arrativa de Greimas
Parece ter sido Jean -Paul S artre quem disse q ue não h á histórias verdadeiras e que, as sim sendo, da
mais simples anedota às históri as mais complexas ou det alhadas com o as biografias ou as mais
fidedignas com o as da ciência , não podem corresponder “ao mundo rea l, que é tot almente
desorganizado ou pelo menos totalmente incognoscível ” (Abbot t, 2008, p. 22). Talvez essa desordem
seja o q ue an gustia o ser humano e o faz en gendrar as estruturas q ue lhe parecem impor uma ordem
sobre o caos, estruturas, e squemas que recortam a vida e lhe conferem sig n ificado. As narrativas e seus
modelos podem bem ser um desses recursos que criam equilíbrio e orientação n a desordem. Os
oponentes de Sartre, sobre esta matéria, referem, precisament e, que na vida e no seu ciclo de vida e
morte há qualqu er coisa semelhante às h istórias, sendo u m percurs o feito de momen tos constantes, de
princípios, meios e fins (Abbot t, 2008), as sim impondo ao olhar a leitura ar t ificial de um percurso que
parece ser sempre o mesmo.
Considerando tudo isto que falámos at é aqui, p oderá o esquema narrativo de Greimas, n as suas
estruturas iman entes (subjacen tes e profundas, como o semânt ico e o narrat ivo), impor -se sobre o
mundo concret o, guiando um percurs o pretendido pa ra a con cretização de um obj etivo e conferindo-lhe
sentido? Poderá ele saltar de re alidades ficcionadas para realidades vividas? E será a linearidade temporal
desse modelo con sentânea com a necessidade de det erminar um a cron ologia e uma sucessão de
eventos num processo de mudança?
Deixar de lado a narrativa textual, fílmica, de documentários, dos jogos ou outros sistemas artificiais,
sejam eles int erativos ou não, e aproximarmo -nos ao mundo concreto, agarra -nos inevitavelmente à
linearidade da sucessão temporal cronológica a que es tamos t odos presos na ação quotidian a. É facto
que, esse mundo concreto, pode desenrolar -se em m últipl as t ramas em simultâneo, que se cruzam e
descruzam frequentemen te, com interferências mútua s, mas… a linearidade t emporal é inevitável, pelo
menos enquanto as t eorias da modern idade que dizem que passado, present e e futuros são simultâneos
não forem comprovadas em experiência vivida.
Reabilitar Greimas como suporte à investi gação -ação para a mudança da Bosch em Braga
119
O potencial do modelo narrativo se impor sobre o mundo concre ta era uma hipótese já avent ada pela
investigadora, ainda que m eramente aflorada e ainda pouco estruturada , n o IV Sopcom “Repensar os
Media: n ovos context os da comunicação e da informação”
7
(Cruz, 2005). Neste esboço de artigo, a
autora não demonstra, mas afirma a sua crença nas potencialidades do modelo a este nível da mudanç a
organizacional, quer ao níve l da aplicação das estruturas profundas, quer ao nível dos percursos
narrativos, acreditan do na sua capacidade de sair da s esferas f iccionais e unir -se ao mundo concreto e
ao tempo real e seu decurso inevitável.
O modelo sémio-narrativo de Greimas permite -nos a imposição de um modelo, semâ ntico e narrativo,
cumprindo com a linearidade temporal do mundo concreto. Esta é a sua convicção.
Expliquemos então, profundamente (ou recordemo - lo, considerando a sua “ancestralidade”), o mo delo
narrativo de Greimas e observemos até que ponto é ele adequado aos objetivo s da investigação -ação.
Tendo a Semiótica Narrativa sido desenvolvida na esteira do Estruturalismo e da obra de Saussure, e
sendo A. J. Greimas um dos pensadores definido como o apog eu deste m ovimento (J. A. Mourão & Babo ,
2007), poderia concluir-se desde logo que so fre da estát ica e esquematismo est rutural. Igualment e,
também, sofreria de uma cert a forma de “cegueira social”, logo , incapaz de ler a realidade social
complexa da mudança organizacional. E is to mesmo se considerando que, quando apli cado a contextos
narrativos, lhes garant e paradoxalmente a dinâmica int erna (J. A . Mourão & Babo, 2007 ) e a
complexidade que lhes pode estar subjacente.
É nessa din âmica que s e define o percurso generat ivo da significação, um dos aspetos mais
característicos da Semiótica de Greimas (Santos, 2013). Respeitando à forma do conteúdo, o percurso
generativo greimasiano per mite ao projeto explorar e interferir sob re o sentido a part ir das manifestações
do conteúdo decorrentes de um processo dinâmico de m udança. Precisament e porque o processo de
mudança é um percurso e é no percurso (na transform ação, deslocação, modificação) que se produz
sentido (J. A. Mourão & Babo, 2007). Que o percurso gen erativo de Greimas se limite à forma do
conteúdo é algo que n esta inves tigação não será um pr oblema, já que o cont exto da mu dan ça sobre o
qual incide poderá apresentar os mais variados conteú dos (como exemplos, mudança de políticas de
produção ou alteração de objetivos) e, já agora, as mais variadas manifestações ao nível discursivo (por
exemplo, discurso dos pode res instituído s ant es e depoi s de uma g reve). Já no que r espeita às estr uturas
7
http://www.sopcom. pt/sub/ pag/ congresso s
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
120
que lhe estão subjacentes preferencialmente ser ão fixas, dessa maneira podendo constituir-se como u m
modelo g eneralizável a outras mudanças organizacionais . A sua “estát ica" é de profundidade , mas capaz
de se colocar ao serviço de uma prática mutável em função do contexto.
É opinião da autora, numa perspetiva suporta da em Mourão e Babo (2007) , qu e o modelo narrativo e
“ estruturaliz ado ” de G reimas pode, ao integrar a dinâmica transformacio nal da mudança organizacional ,
alcançar u m novo nível de fu são com o social através da sua aplicação sobre contextos e m anifestações,
não já textuais, mas de uma ação. Na defesa deste encont ro entre a perspetiva greimasiana
(originalmente do tex to, da n arrativa e do discurso) e a amplitude da ação do mundo concreto, as próprias
palavras de Greimas confirmam a porta aberta para um univers o social que se afasta da origem :
A Se miótica, no sentido de Greimas (1970 , 1976b), focaliza-se na organização dos sistemas
significantes a par tir do e studo das c ondições da apreensão (e da produção) dos efeitos de sentido. (…)
Autonomizando o est udo da significação a partir do princípio da i manência do sen tido, em que é a form a
que é determinant e e não a matéria formada, a Semió tica de Gre imas r elac iona a significação , não com
a sociologia, mas c om a organização da troca simbólica, e , portanto, social (Greimas, 1976 ci tado em
J. A. Mourão & Ba bo, 20 07, p. 24).
Na proposta de encontros entre u niversos semióticos distintos , Greimas não está isolado. Apenas como
exemplo, também Parmen tier aceita o desafio de Saussure para estudar a "vida dos signos na sociedade"
usando ferramentas Semiótica s propostas por Peirce e usando a teoria Semiót ica para iluminar as
práticas sociais e culturais de gran de complexidade (Parmen tier, 1994). Rece ntemente, inclusive,
debruça-se o autor sobre o contexto da mudan ça, uma prática social de elevada complexidade, usando
o olhar semiótico para conclu ir que “a experiência da mudança repentina pode envolver um excesso de
signos ou a sua ausência” (Parmentier, 2012, p. 235).
O uso da Semiótica para ler ou int erpretar a prática soci al de qualq uer cont exto não é, pois, apan ágio de
um autor ou de uma escola Semiótica. Já recorrer à Semiótica para alterar s ituações sociais complexas,
pela extensa consulta efetuada nesta investigação, aparenta ser bastan te menos comum.
Por isso mesmo, a ssumimos com con vicção que, na revisão dos principais con ceitos relacionad os com
a n arrativa de Greimas, nos iremos focar excl usivamente na organização fundamental do quadrado
semiótico, nas suas perspetivas paradigmát icas e percursos sintag máticos, no modelo act ancial como
sistema e nas estruturas n arrativas. Deve- se isto ao f acto de o nosso campo de investigação ser o da
ação humana, o da tran sfor mação e mudança pela at ividade de ag entes e por introdução de objetivo s,
Reabilitar Greimas como suporte à investi gação -ação para a mudança da Bosch em Braga
121
suportando-nos, port anto, numa ideia de ação e sua implementação e não na análise de man ifestações
textuais ou do discurso. Entendemos por isso que as questões morfológicas da componente semântica,
a definição de complexas ligações entre semas, sememas e meta ssememas, isotopias e outros conceitos
ligados ao uso linguístico não fariam s entido aqui. Igualmen te, e pela mesma razão, apesar de
mencionado, o nível discursivo, nom eadamente nos tópi cos relacion ados com os percursos figurativos,
serão apresentado s de forma ligeira. Isso seria possível, mas esta tornar - se -ia obviamente uma outra
investigação.
Como já antes m encionad o, a partir de conceitos com origem em Propp
8
, Greim as desenvolveu um
método qu e possibilita a an álise, a um nível imanente, das man ifestações t extuais e da sua organ ização,
partindo de um conceito de narratividade e com o objetivo de encontrar os seu s sentidos e significações
e as estruturas fixas q ue a s sustentam. O t ermo “narrativa” designa, para Greimas, a representação de
um acont ecimen to (Everaert-Desmedt, 1984), ou seja, o relato da transformação de um estado S par a
um estado S’ por ação de um ou mais actant es (tal como a teoria da ação nos transporta de um estado
inicial a um final por meio do at o de agentes) . Por outro lado, “narratividade” é o princípio organ izador
do discurso, seja ele de que tipo for.
Segundo Greimas, prefacian do o livro de Courtés (1979), as e struturas narrativa s manifestam -se em
qualquer tipo de discurso , desenvolvendo-se em três níveis, desde uma pro fundidade com plexa,
imanente, que organiza e estrutura logica e semanticamente um conteúdo, num plano ant erior ao da
manifestação, passando pelo nível n arrativo, onde se es t ruturam os tempos da açã o, de forma sequ encial
e linear, orga nizando-se numa direção que corre sobre o primeiro n ível (de S para S’), a t é chegarem a
um n ível de superfície, aparent e, ag arrado às m anifestações discursivas. M . d e L. Martin s (2 004)
confirma que a organização da significação em Grei mas se processa a um nível profundo (lógico -
semântico ou semiótico); a um n ível narrativo (actancial); e a um nível discursivo (figurativo) . Para
entender com o fizemos uso deles enquanto guião de uma mudan ça, iremos apresentá -los suportados
maioritariamente no autor que lhe dá origem, Greimas, Courtés e n as aplicações práticas de Everaert -
Desmedt.
8
Para uma compar ação entre G reimas e Propp ver Sim o nsen , 1984, pp. 51- 54 e 57 - 58 (Hébert, 20 11); ver igualmente
Vi eira (2001), que aprofunda a aborda gem histórica nome adamen te a p artir de Pro pp (Pro pp, 2001) .
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
122
4.4.1. Nível semânt ico
Esta estrutura é a mais profunda e abstrata da significação. É t ambém a mais geral e mais generaliz ável
no que respeita à sua estrutura. Apresenta, n um modelo, uma relação de oposições que regula e gere
toda a t ransformação que é rep resentada na n arrativa, organizada em redor de um eixo semântico, que
é an terior à sua manifestação (Gees t, 200 3) . Aí se art iculam oposições organizadas em dois eixos, entre
determinados termos (semas) e seus equivalent es contrários ou seus equivalentes contradit órios, numa
estrutura de quatro vértices.
Na constituição e base desse m odelo, encontram -se os semas, unidades mínim as de significação, que
definem e sintetizam o es tado inicial ( S) e o estado fi nal da narrativa (S’). Nes te projeto exis te a int enção
de criar uma ação s ustentada neste es quema s emântico profundo da n arrativa e definir u m process o de
transformação de S para S’ , det erminando a(s) oposição(ões) semânt ica(s) a partir das quais se
desenvolve rá o sentido do en redo.
A relação en tre semas fundadores é representada num modelo, o quadrado semiótico ou modelo
constitucional, que sintetiza a estrutura elementar da significação (Courtés, 1979 ).
Relação de
contrários ou de
contrariedade
Relação de
contraditórios ou
de contradição
Relação de
pressuposição ou
implicação
É uma representação visu al das relações que sustentam qualquer oposição conceptual capaz de produzir
sentido., seja ela um belo c onto de fadas, na man ifestação text ual ou o proce sso de mudança de uma
organização numa manifestação social. O quadrado semiótico é considerado por Greimas (Courtés,
1979) como ponto de partida do process o gerador de sentido e igualmente por nós c onsiderado essencial
Figura 10 : Estrutur a elementar d a significação, numa formulaç ão remodelad a do que foi proposto po r Greimas (G reimas,
1976b). Fon te: Courtés (1979, p . 71)
S1
S2
S2’
S1’
S
S ’
Reabilitar Greimas como suporte à investi gação -ação para a mudança da Bosch em Braga
123
na medida em que é da definição destes semas f undadores q ue terá origem a implement ação do projeto
de mudança a levar a cabo nesta investigação -ação.
Entre os eixos do quadrado estabelecem-se relações que são definidas ext ensamente pela literatura
visitada. Con tudo, em algumas referências parece haver alguma confusão, g erada t alvez pela t radução,
sobre o t ipo de relações estabelecidas entre os semas dos eixos superior e inferior, trocando do original
francês a relação de cont rários e contraditórios, o que n os obrigou a retornar à origem do quadrado,
Greimas (Bart hes et al., 1981; Courtés, 1979; Grei mas, 1968, 1970, 1976b, 1983, 1987, 1 990;
Greimas & Courtés, 1979; Greimas et al., 1989), para clarificar as relações que se estabelecem.
No quadrado semiótico, ide ntificamos dois eixos, u m superior, o eixo com plexo e outro inferior, o eixo do
neutro. À relação estabelecida ent re os semas de cada eixo é de contrarieda de, em que a existência de
um contraria a do outro, isto é, uma situação inicial de in felicidade, por exemplo, é contrária à da s ituação
final de felicidade ou o inverso. Podemos aventar toda uma série de out ras oposições no modelo
constitucional, como “ na turez a versus c ultura, ind ivíduo versus s ociedade, vida versus mort e, ser versus
parecer ” (Geest, 2003) , sem as “cada um dos quais ao mesmo tempo s uscetível de projetar um novo
termo que será o seu cont raditório” (Greimas, 1970, p . 160). Os termos no eixo do neutro ou inferior,
contraditórios dos termos do primeiro eixo são organ izados igualmente por uma relação de contraried ade
e “podem, por sua vez entrar numa relação de pressuposição em relação ao t ermo contrário a que se
opõe ” (Greimas, 1970, p. 160).
Reportando a Cou rtés (1979), n a sua interpretação de Greimas e do seu quadrado semiótico na
perspetiva paradig mática, podemos sintetizar relações e dimensões en tre os se mas con stituintes do
quadrado, o que a ação na investigação n os ajudará a encontrar:
• De tipo hierárquico
o Relação de hiponímia entre S1 e S2 e S, em que S é um sema hiperonímico; no exempl o
de S1 - Infelicidade e S2 – Felicidade, o sema hiper oní mico ser ia por exemplo “Estados
de Espírito ” ; a mes ma or dem hie rárquic a se estabelece e ntre S2’ - Desobediência
e S1’ – O bediência em relação a S’ “Condições da Felicidade” que os “supervisiona”
hiperonimicamente.
• De tipo categórico:
o Seguindo o exemplo, no n ível superior do q uadrado, a relação de contrariedade dá -se
entre S1 e S2, num
eixo do complexo
“Estados de Espí rito” em que a
Infelicidade
é
contrária à
Felicidade
; igualmente, no eixo inferior do quadrado, a relação de
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
124
contrariedade é estabelecida entre S2’ e S1’, em que se organiza, n o
eixo do n eutro
(que neutraliza) do primeiro eixo, a
Desobediência
como contrária à
Obediência
. Es tas
são dimensões organizadas em
eixos
.
o Na relação en tre os n íveis superior e inferior do quadrado, dão -se as relaçõe s de
contradição, que podem acontecer nos dois sentidos: assim, se exis tir
Obediência
(S1’)
isso irá contradizer a situação inicial de
Infelicidade
; se se mantiver a
Desobediência
(S2’) isso irá contradizer a
Felicidade
(S2) desejada. Est as dimensões chamam -se
esquemas
.
o Nas relações de implicaçã o ou pressuposição, se se mant iver a
Desobediência
isso
implica ou pressupõe o continuar da
Infelicidade
; a
Obediência
implica ou pressupõe a
Felicidade
. Estas dimensões chamam -se
deixis
.
Apresentam-se como as fundações que permitirão organizar t odo um percurso generativo numa situação
de ação, como aplicaremos no capítulo 7 na investigação em açã o na Bosch.
Figura 11 : Quad rado semiótico o u modelo constitucion al de Greimas e um seu exemplo de aplicação, na perspetiva
paradigmática. Fo nte: adapt ação su portada em Grei mas, tal como sintetizado em E veraert- Desmed t (Everaert- De smed t,
1984)
Tal como no exemplo apresentado, a investiga ção -ação tentará desenhar, ao nível do
sistema
, a
perspetiva paradigmática
da narrativa-açã o da Bosch.
Aos s emas que se opõem nos eixos ch amaremos termos i sotópicos tal como Greim as e Courtés o f izeram
no seu Dicionário de Semiótica (1979) , já que concretizam algo da ideia de isotopi a no nosso con texto,
ainda que sem con cretizarem um
continuum
de um contrário ao outro. Sen do a isotopia resultado da
recorrência de semas contextuais ou classemas, mantidos debaixo de uma certa h omogeneidade numa
sequ ência discursiva, e com is so permitind o uma “leitur a uniforme da narrativa” (Courtés, 1979, p. 63) ,
Infelicidade
Felicidade
Desobediên cia
Obediência
Contraria
Implica
Contradiz
Reabilitar Greimas como suporte à investi gação -ação para a mudança da Bosch em Braga
125
não nos parece lícito o seu uso num contexto de implementação de uma ação para a mudança.
Provavelmente, se fizéssemos a análise de um processo de mudança, n as suas manifestações
discursivas e com o se de uma narrat iva se tratasse, iríamos encontrar as reco rrências cujo apog eu
seriam esses semas cont extuais redundantes; talvez m esmo o pudéssemos fazer se a nossa
investigação-ação chegasse ao nível discursivo e usássemos o discurso como for ma de concretizar a
mudança. Não é, cont udo, es se o caso. Defendemos, apesar disso, o uso do t ermo isotópico porque no
momento inicial e fi nal da nossa ação, os s emas são contextuais e orient am o pe rcurso da investigação -
ação.
Durante a fase de campo, com a implementação da inves tigação -açã o, iremos tentar encontrar os termos
isotópicos que r do eixo su perior q uer do eixo inferior, se bem que à partida as direções dadas pela
empresa Bosch fossem já algo orientativas a esse n ível. Sabia -se, da auscultação feita aos agentes
intervenientes da mudança, as ch efias, que o eixo inferior, o do n eutro – que neutrali zaria por con tradizer
o estado inicial – seria o
empowermen t
dess es agentes.
O
empowerment
é, pois, o valor transformador e Objeto de des ejo do Sujei to coletivo que são as chefia s
da Bosch, alvo e agentes da nossa investigação -ação, o que desenvolvemos no capítulo 6.
Sobre este quadrado, t al como a ação com a qual a comparamos, a narrativa desenvolve-se sobre um
“eixo semântico que se inscreve n uma sucessão t emporal” (Everaert-Desmedt, 1984), ou seja, num
percurs o sint agmát ico e organizado em função da situação final. Nesse percurs o, dá-se uma
transformação (uma mudança), que tant o poderá ser de carácter t ransitivo (mudando para uma situação
distinta), como reflexivo (depois de passar à situação S2 de Felicidade, dá-se a contradição das condições
de transformação – n este exemplo, no vas situações de Desobediência - e consequentemente o retorno
à situação inicial).
Figura 12 : Quad rado semiótico d e Greimas e um seu exemplo de aplic ação, na pe rspetiva sinta gmática, no percurso
transitivo e reflexivo . Fon te: adaptação su portada em Greim as , t al como s intetizado em E veraert- Desmedt (Eve raert-
Desmedt, 1984)
Infelicidad
Felicidade
Obediência
Narrativa Transitiv a
In feli cidade
Felicidade
Desobediência
Obediência
Narrativa Reflexiva
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
126
No caso da B osch, iremos tentar encontrar o desenho do
processo
, isto é, a
perspetiva sintagm ática
,
dinâmica, de eventuais quadrados semióticos pr incipais e secundários.
Com efeito, considerando a dimensão do desafio que nos foi coloca do pela Bosch e a sua complexidade,
é expectável desdobrar este quadrado semiótico principal em novos quadrados, em que o e ixo
hierarquicamente inferior passará por sua vez a ser o eixo s uperior de um novo quadrado – a
transformação principal (a mudança pretendida e referida no capítulo 1 ) poderá depender de várias
outras tran sformações secundárias (cada uma com o seu quadrado semiótico), alg umas podendo ser
transformações hierarquizadas, dependendo da prime ira, outras tran sformações s ucessivas, em q ue o
fim de uma t ransformação é o início de outra ou, se bem que menos prováveis por serem parte de outras
narrativas/ações, t ransformações independen tes, que n ão têm relação estruturalmente com a principal
(Everaert-Desmedt, 1984).
Serão, pois, tentativamente encontrados quadrados sem ióticos principais e secundários que servirão de
guião para a mudança organizacional na Bosch, tanto enquanto sistema, isto é , na sua perspetiva
paradigmática, como en quanto processo, ou seja, na sua pers petiva sint agmát ica, no percurso dinâmico
que iremos trilhar.
Esse guião s erá segurament e desenhado à priori an tes do início da ação de mudança propriamente dito,
porque é esse modelo profundo que iremos pôr à prova durant e a investigação-ação.
4.4.2. Nível actancial e nível n arrativo
Antes de explicar o modelo actancial, “estruturação par adigmática do inventário dos actant es” (Gr eimas,
1966, p. 173 citado em Courtés, 1979, p. 8 0), e de nos embren harmo s posteriormente no nível narrativo
do percurso gerador de sentido, devemos talvez aq ui parar para esclarecer o que s ignifica narrativa para
Greimas:
O termo narrativa é utilizado para designar o discurso narrativo de carácter figurativo* (que comporta
personagens* que realizam ações *)… um sucessão temporal de funções* (no sentido de ações )… a
passagem de um e stado ante rior (…) a um e stado u lterior (…), operado com a ajuda de um fazer (ou
de um processo ) (Greimas & Courtés, 1979 , p. 2 94) .
Reabilitar Greimas como suporte à investi gação -ação para a mudança da Bosch em Braga
127
Serve esta definição para nos cen trarmos de novo sobre a questão da ação e nos d istanciarmos da ideia
original de análise n arrativa centrado nos t extos, contos, histórias, enredos de filmes… em q ue uma
análise actancial será fazer corresponder cada elemento da açã o debaixo de observação a uma da s
classes act anciais (Hébert, 2011). O que p retendemos da revisão a este nível é e nt ender as relações
entre actantes e a forma como, estruturadas em eixo s, estas nos permitirão concret izar uma ação de
mudança empresarial. Assumam os, portan to, que em toda esta explicação de act antes e sua atualização
em papéis actanciais, es senciais ao desenrolar narrativo, estaremos sempre, como ant es no semântico,
a falar da execução de uma ação e n unca enquanto análise de um enunciado narrativo, t extual e
discursivo.
Greimas, que at ribui o termo a L. Tesnière, esclarece que actante “pode ser conceb ido como aquele que
realiza ou sofre o at o (…), seres ou coisas (…) q ue part icipam do processo” (Greimas & Courtés, 1979,
p. 12) . Autores mais con temporâneos corroboram, ampliando, que actantes são “papéis fundamentais
ao n ível da est rutura narrat iva profunda (…) ou categorias gerais (de ser ou fazer) p or baixo de toda s as
narrativas” (Herman et al., 2010, p. A ctante) . É a partir dos inventários de Propp e de Souriau, que
Greimas sintetiza o seu modelo act ancial com seis actantes (Greimas, 1976b), ou seja, personagens
com funções que as definem:
Figura 13 : Modelo actancial grei masiano. Fon te: Greimas (Courté s, 1979; Everaert-Des medt, 1984 ; Greimas, 1976 b)
Os act antes definem -se uns perante os outros, n esta estrutura act ancial, pelas funções que
desempenham na n arrativa ou, n a nossa investigação, na ação da mudança, o que ocorre numa
organização em eixos, em que uns querem, outros sã o queridos; uns d ão a saber ou destina m alguma
coisa e outros ficam a sabe r ou são destina dos a algo; uns ajudam e outros opõe m - se aos t rabalhos do
sujeito na conquista do seu objeto .
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
230
participação e en volvimento. Empat ia e suporte pressupõe a auscu ltação, o ouvir da s pessoas quant o às
razões que lhes ditam um comportamento antagonista à mudança, para depois pr ovidenciar os
mecanismos de aprendizagem e recursos que pe rmita às pessoas fazer face à m udança. A comunicação
é um instrumento importa nte para manter as pessoas informadas quanto a razões e direções da
mudança (Kotter, 1996b) e, com isso, fazer desapar ecer as incertezas quanto aos cenários que se
desenvolvem à medida que a mudança prossegue; i gualment e, uma comunicação eficaz reduz as
situações de especulação ao mesmo tempo que dá orientaçõ es sobre as et apas e expectat ivas. A
participação e o en volviment o na definição e implementação da mudança são defendid os, pelo s autores,
como formas de garantir a anulação da oposição à mudança, já qu e, ao participar, é dada às pes soas a
oportunidade de intervir e melhorar o caminho trilhado na mudança.
Durante o processo, adicionalment e, a liderança poderá introduzir medidas ou alterar decisões por forma
a aproxim ar-se mais das ex pectativas da s pessoas, levan do -os a uma maior adesão com o modelo
proposto para a mudança e assim ve ncendo resistências. A estratégia pode optar p or u ma de duas vi as:
ou corrigir a atuação de processos e pessoas, o u leva r as pessoas à reflexão e alteração de m odelos
mentais que melhor se adequem ao processo de mudança em curso (Van de Ven & Sun, 2011 ).
Também Kotter e Schlesinger (2008) ident ificam fo rmas de lidar com a resistência à mudan ça,
discriminando diferentes abordagens para diferentes situações:
Abordagem
Utilizado normalmente em
situações de…
Vantagens
Desvantagens
Educação +
comunicação
Quando há falta de informação o u
informação e análises
imprecisas.
Uma vez persuadidas, as
pessoas irão frequentemente
auxiliar na mudança.
Pode co nsumir muito te mpo,
se muitas pessoas es tiverem
envolvidas.
Participação +
envolvimen to
Quando os iniciadores não têm
toda a informa ção e nec essitam
de des enhar a mudança, mas
outros têm um poder
considerável para resis tir.
As pessoas que particip am
ficarão comp rometidas com a
implementação da mudança e
qualquer info rmação relevante
que possuam será in tegrada no
plano de imple mentação.
Pode cons umir muito tempo
se os participantes
desenharem uma mudanç a
inapropriada.
Facilitação +
suporte
Quando as pessoas que res istem
têm problemas de adaptaç ão.
Nenhu ma ou tra for ma fun ciona
tão bem em p roblemas de
adaptação.
Pode co nsumir muito te mpo,
ser cara e ainda assi m falh ar.
Negociação +
acordo
Quando alguém ou um grupo
claramente p erdem numa
mudança e esse gru po tem um
poder considerável de
resistência.
Algumas vezes é uma for ma
relativamente si mples de evitar
uma grande resistência.
Pode tornar-se demasiado
cara, em muito s casos, se
alertar outros a negocia r para
obter o mesmo.
A Mudança organizacional
231
Manipulação +
cooptação
Quando o utras tá ticas n ão
funcion am ou são muito caras de
implementar.
Pode ser uma forma
relativamente rápida e não cara
para problemas de resistência.
Pode levar a problemas
futuros, se as pessoas
perceberem que es tão a ser
manipuladas.
Coerção explícita
+ implícita
Quando a velocidade é ess encial
e os in iciadores da mudança têm
muito poder.
É rápida e pode ultrap assar
qualquer tipo de resistência.
Pode ser arriscado, se deixar
as pessoas zang adas co m os
iniciadores.
Tabela 14 – Méto dos para lida r co m a resistência à mu dança. Fo nte: t r aduzido do original de Kotter e Schle singer (2 008, p.
11)
Da literatura sobre a resistência à mudança, parece depreender-se que esta é um obstáculo a ser
ultrapassado pelos gestores e líderes no processo de t ransformação e que deve ser removido. (Kot ter,
1996b) ou ad voga-se que o principal papel dos agent es da mudança é precisament e ultrapassar es sa
resistência: “ Ge stores e agentes de mudança t êm o direito legítimo de introduzir mudan ças, mas, para
isso, devem u sar capacidad es políticas, de man eira pragmát ica, para criar apoio e superar ou ev itar
resistência ” (Burnes, 2017, p. 384). Perant e a ambivalência gerada pela mudança organ izacional nos
indivíduos e perante a ambiguidade do processo de mudança ele mesmo, é função da g estão entender
as motivações e per spetivas dos colaboradores e atua r sobre o processo, por f orma a dar sentido à
mudança e, dessa forma, criar condições para a sua (Todnem B y & Burnes, 2011) . Muitas vezes i sso
incluirá a criação de coliga ções de indivíduo s com caris ma e credibilidade, qu e induzam os restantes a
segui-los (Kotter, 1996a, 2007).
Há quem advogue, no entanto, que, muito frequentement e, a resis tência é algo s alutar impedindo que
as organ izações cedam a todo o tipo de iniciativas de mudança já que n em todas serão a bem da
organização e dos seus in teresses. Há mesmo quem con sidere a resistência uma força que renova a
organização (Burnes, 2017), resu ltando do confro nto en tre u ma cultura que pe rmanece e uma que surge.
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
232
Capítulo 6.
Empo werment
– o val or transformador do cas o Bosch
No decurso des ta investigação ent enderemos o conceito do
empowerment
na Bosch em Braga, e nquanto
o valor tran sformador que tentativamente propiciará a m udança desejada nesta u nidade portuguesa da
Bosch Car M ultimédia e já que “ a orientação de valor do
empowerment
suger e metas, objetivos e
estratégias para implementar a mudança” (Zimmerman, 2000, p. 43).
Previamente à demon stração do seu papel neste projeto, temos, no entanto, de ter uma visã o de como
é apresentado o conceito na literat ura. Apesar da amplitude das abordag ens que vão da psicológica, à
organizacional e comunitária, considerando o projeto que abraçámos aqui, f ocar-nos-emos mais
especificamente no contexto das organizações e o papel do
empowerment
na mu dança organizacional.
Antes de mais, e porq ue é polémica a opção, defender e assumir a internacionalidade n o uso do t ermo
ao longo deste projeto: se bem que defendendo a força e beleza da palavra em português, que apesar
do contexto internacional opt ámos por abraçar, o termo anglo -saxónico
empowerment
tem vindo a
vulgarizar-se nos mais variados contextos, seja relacionado com âmbitos como os do trabalh o, do
indivíduo, do género, ou das culturas e civilizações, s eja ainda relacionado c om as áreas de con hecimento
como a psicologia, a sociologia, a gestão ou a economia, apenas para dar alguns exemplos.
Empowerment
em português diz-se Empoderam ento, sendo este termo uma adaptação do ing lês, dado
o seu uso ba stant e generalizado pelos nos sos n ativos, quer na versão original quer na sua t radução. A
vulgarização do termo “empoderamento” pode t er sido a razão da sua inclusão n o Dicionário da Língua
Portuguesa Contemporânea (Lisboa: Academia das Ciências/Verbo, 2001) con forme é atestado nas
Dúvidas Linguísticas do dicionário online Flip, onde o definem como
“ obtenção, alargamento ou r eforço de pod er". Este neo logismo, cuja formação respeit a as re gras
morfológicas da lí ngua portuguesa, refere-se maioritariame nte ao aumento da força política, social ou
económica de grupos alvo de disc riminação (ét nica, religiosa, sexu al ou outra). Na esfera individual,
refere-se ao des e nvolvimento das capacidades de um indivíduo, à sua realização pessoa l (Pinto, 2005 ,
p. Empodera mento).
Contudo, n ão deixa por isso de ser uma adaptação de um neologismo, sendo a palavra portuguesa
substancialmente mais pobre em significados. No original, de aco rdo com o M erriam Webster pode
significar “dar autoridade oficial ou poder legal para”; e ainda “potenciar, p roporcionar, elevar”,
“promover a autorrealizaçã o ou influência”, entre outros en tendimentos sobre esta palavra (Merriam-
Empowerment
– o valor transformador do caso Bosch
233
Webster, 2018, p. Em powerment) . É, em todo o caso, e se é permitido à aut ora o desabafo opinat ivo e
motivo confessado de preterência, um aportuguesamento feio.
Ao procurarmos as origens do termo, e antes dos seu s us os na gestão e na vida das organizações, uma
das constatações a que chegam os é de que são muitos os m ovimentos humanos, ideologias e atm osferas
onde perpassa e se dese nvolve esta n oção. Dado esse conte xto amplo é proposta uma definição
igualmente ampla de
empowerment
por Page e Czuba:
(…) é um processo social multidimensional que ajuda as p essoa s a ganhar controle sobre suas próprias
vidas. É um p rocesso qu e pro move o pod er (ou seja, a c apacidade d e im p lementar) nas p essoas, para
uso em suas próprias vidas, e m suas com unidades e em sua sociedade, agi ndo em questões que el es
definem como im p ortantes (N. Page & Czuba, 1 999, p. 2).
É visto como um processo, um mecanismo através do qual as pessoas, orga nizações e c omunidades
têm controlo sobre as áreas ou assuntos em que atua m (Julian Rappaport, 1987) .
Podemos afir mar, mais ainda, que o termo
empowerm ent
é um constructo n ão ex clusivo do cont exto da
gestão, da comunicação ou da cultura organ izacional , áreas em que agora estamos envolvidos, não
sendo nenhum des tes campos de conheciment o dos primeiros a deb ruçar -se s obre o tópico. Refer e- se a
propósito que:
As raízes intelectuais do
empo werment
podem ser encontrada s, ao l ongo dos últimos séculos, numa
ampla variedade de movimen tos e i deias, culminando numa aplicação alargada de ideias, c om ele
relacionadas, a movimentos de reforma social nas déc adas de 1960 e 1970. ... movimentos de reforma
social como o movi mento pelos direitos c ivis, femin ismo e outros (Potterfield, 1999 , p. 38) .
O int eresse científico n o t ópico não foi repentino , sendo o seu estudo introduzido gradualmen te conforme
o ind icam Perkins e Zimm erman (1995) . A pesquisa que levaram a cabo sobre o desenvolvimento
histórico do estudo deste constructo levaram-nos a concluir qu e, na literatura da psicologia, ter á havido,
entre 1974 e 1986, numa época em que a produçã o científica não era tão prolixa, cerca de 96 artigos
cujo título ou abstrat o utilizavam a palavra “Em power”. Seguindo segurament e a crescent e profusão de
literatura de outras áreas ci entíficas, a psicologia viu o número aumentar para 68 6 art igos científicos e
283 capít ulos de livros en tre 1987 e 1 993. O int eresse pelo t ópico alargou- se , en tretanto, a outras
ciências, t endo a área de conhecimento sociológico apres entado 861 art igos so bre
empowerment
de
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
234
1974 a 1994. Na investiga ção levada a cabo na área educacional, o n úmero de art igos sobre o tema
aumentou dos 66 entre 1966 e os finais dos anos 90 at é aos 2 261 entre 1982 e março de 1994.
É óbvio que, considerando as exigências coloca das hoje a aca démicos e cientistas, a produção cient ífica,
em geral, aumentou significativamente pelo que outros con structos de tipo individual (ex: liderança),
organizacional (ex.: mudança) ou comunitário (ex.: cidadania) terão sofrido o mesmo, se não maior, tipo
de profusa produção. C ontudo, o constructo
empowerment
t ornou-se quase uma moda inc ontornável a
que não é imune o n osso projeto – as lideranças da empres a B osch, qua ndo colocadas peran te a
pergunta de qual o valor essencial para efetuar a mudança o rganizacional pretendida “gritaram à uma”
ser o
empowerment
. Moda ou consciência, essa não foi uma questão que ten hamos tent ado responder
aqui.
Em todo o caso, independe n te de ser moda ou valor de mudança, atualmente, como exemplo, uma das
atmosferas de t endên cia da con sagração do seu estudo, é a do desenvolvimento comunitário, de
populações em estado de pobreza ou em vias de desenvolvimento. Outra é, cada vez mais, a dos
movimentos de defesa dos direitos e poder das mulheres:
• em sociedades referenciadas c omo avan çadas, at ravés de moviment os pe lo “poder das
mulheres” ad vogados por campeãs de renome com o a an tiga primeira da ma dos Estados
Unidos, Michelle Obama , com a sua famosa música “
This is for my girls
”
10
ou , como a ex -
candidata dem ocrata Hillary Clint on, que afirma ter dado forma à sua carreira ten do sido
obrigada a ser duas vezes m elhor que os homens, conforme referido no Hufftington Post por
Gillon (2016) ;
• em sociedades ditas em desenvolvimento, através do apoio às at ividades de emancipação
financeira da m ulher, elemento fulcral para a estabilidade económica e social de clãs, tribos,
comunidades.
Também em fórum de práticas específicas, como é o caso da enfermagem, da psicologia, da educação,
da política e da economia, da assistência social, das questões laborais, entre outras, se fala de
empowerment
,, se implem entam programas ao redor do seu aumen to e se adquirem ou constroem
instrumentos de gestão com o objetivo de o fomentar.
10
Isto é para as minhas miúdas.
Empowerment
– o valor transformador do caso Bosch
235
Como anedota, alguns autores referem mesmo o exagero da sua apologia com a publicação, em 1997,
do livro “ Too Proud to Beg: Self-
empowerment
for Today's D og ” (Demasiado orgulhoso para pedir: auto-
empowerment
para o cão de hoje) de John Tere nce Ols on .
No m eio da panóplia de abordagens possíveis, e seja qual for o seu paradi gma de referência, a
abordagem ao
empowerm ent
parece ser, con tudo, situada sempre n um de 3 níveis, individual,
organizacional (seja qual for o seu tipo) ou no contexto da comunidade alargada (Z immerman, 2000).
O conceito sugere tanto a determinação individual sobr e a própria vida quanto a pa rticipação
democrática na vida da comunidade, muitas vezes através de estruturas mediadoras, como escolas,
vizinhanças, igrejas e outras organizações voluntárias. O
empowerme nt
transmite tanto um sentido
psicológico de controle ou influência pessoal quanto uma preocupação com a i nfluênc ia social re al, o
poder político e os direitos lega is. É um c onstru cto multinível aplicável a cidadãos individuai s, bem como
a organizações e ba irros; suge re o estudo da s pessoa s no contexto (Julian Rappapor t, 1987 , p. 121).
As origens do termo
empowerment
são incertos e parecem ser becos sem saída por onde n ão enveredar,
perplexidade partilhad a por especialistas quer de gestão quer da área específica do
empowerment
de
acordo com a auscultação feita por Potterfield (1999) . M. Al sada (2003) , situa a origem do conceito
em contexto organizacional na abordagem social de Kurt Lewin (1951) e n a ideia de en riquecimento
profissional e participação dos colaboradores de Herz berg, (1968). É altam ente provável, n o entan to,
que a origem do termo
empowermen t
, t al com o é entendido n o cont exto organizacional, surja além -
fronteiras das orga nizações, situando -se a sua importação em contextos mais amplos, nom eadament e
nos movimentos de direitos civis ame ricanos dos anos 50, com centro n os afro -americanos (Gillon,
2016). Segundo este jornalista, a h istória de Rosa Parks terá sido o primeiro v erdadeiro g atilh o da
consciencialização para o tópico: esta cidadã afro -americana, com o pequeno passo de recusar ceder o
seu lugar a um branco no aut ocarro em que seguia, deu início a um gran de passo na luta pelos direitos
civis e no criar de uma atitude crítica face às estruturas de poder e stabelecidas. E esta atitude ext ravasou
durante os anos 60 e 70 para muitos outros contextos, um dos quais este nosso, onde agora nos
centramos.
É referido em Fernandez e Moldogaziev (2011) , no entanto que, no que respeita as organizações, a
consciencialização e crescente importância do tópico n ão foi imediata, havendo algum m enosprezo
inicial, se não mesmo um descrédito ou d esconfiança t otais. É apenas n os anos 80 que a força de
mercado se impõe na ne cessidade de motivar os colaboradores nos objetivos e conquistas das
organizações privadas e públicas:
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
236
as raízes int electua is do
empo werment
dos co laborado res remontam a muitas décadas, ao a dvento do
movimento de Relações Hum anas na te oria organizacional (Herrenkohl, Judson e Heffner , 1999). Das
décadas de 1940 a 1970, as id eias sobre o
empow erment
dos funci onários foram t ratadas “quando
muito como de interesse para debates académ icos” (Potterfield, 1999, p. 30) ou, na pior hipótese,
como “socialismo, democracia enl ouquec ida ou, pior ainda, uma forma de comunismo” (Lawler, 1986,
p. 9). Só a p artir da déc ada de 198 0, a concorrência global e a forte p ressão p ara mel horar
continuame nte a qualidade lev aram então muitas firmas americanas proeminentes a adotar p rograma s
de
empowemen t
de c olab oradores (Bowen e Lawler, 1992; 1995; Lawler, Mohrman e L edford, 1995;
Conger e Kanungo, 1988 ; Thomas e Velthouse, 1990; Spreitz er, 1995, 1996 ; Pott erfield, 1999)
(Fernandez & Mo ldogaziev, 20 11, p. 2)
Procurando, para além das origen s, uma clarificação q uanto ao que significa este conceito, a riqueza e
vastidão de quadros referenciais já percebida atrás traz-nos dificuldades e será pouco útil ao nosso
propósito. Com efeito, uma revisão de literat ura em am plitude não o con seguirá pr ecisar, es pecialmente
quando se procura uma t entativa de definição e en te ndimento que ext ravase as front eiras disciplinares
(N. Page & C zuba, 1999). A ssim, para ultrapas sar est a dificuldade, e considerando o propósito desta
investigação aban donamos, conscient es, outros refe rentes teóricos na procura da definição de
empowerment
para n os cent rarmos definitivamente nos ambient es da gestão, mais especificament e da
mudança organizacional e o papel do
empowerment
na ação (como se fora narrat iva) para a mudan ça.
Não ten hamos ilusões, cont udo, já que a sua definição exa ta parece tarefa difícil como sublinham
Thomas e Velthou se :
O
empow erment
tornou-se uma p alavra amplamente usada na ciência organ izacional (.. .). Nesta fase
inicial do seu uso, no entanto, o
empow erment
não tem u ma definição sobre a qual haja acordo. Em
vez disso, o termo t em sido usado, muitas vezes de forma i mprecisa, para i ntegrar um conjunto de
significados de alguma maneira relacio nados. Por exemplo, o termo tem sido usado não só par a
descrever uma variedade de intervenções espe cíficas, como também os efeitos pres umidos dessas
intervenções s obre os trabalhado res (Thomas & V elthouse, 1 990, p. 666 ).
Independente da sua definição, mais con creta ou mais vaga, n ão podemos criar a ilusão de que ele é
uma única coisa ou passível de ser abordado por um a única perspe tiva. A té porque as suas próprias
manifestações parecerão diferentes de pessoa para pessoa, de organização para orga nização e de
contexto para contexto (Julian Rappaport, 198 7) .
Empowerment
– o valor transformador do caso Bosch
237
6.1.
Empowerment
para um contexto organizacional
O
empow erment
mudou, desde seus primórdios como um processo de conscientização e mobilização
de base política visando a transformação radical de estrutura s polí ticas injustas, para um conceito vago
e falsa mente consensual. Transf ormou-se na assimilação entre poder e tomada de decisão individual e
económica, despolitizando-se o poder coletivo, e é usado para legitimar as políticas e p rogramas de
desenvolvimento e xistentes d e tipo descend e nte (Calv ès, 2009b , p. 735).
Eis-nos portant o e definitivamente na esfera econ ómica do
empowerment
, ligada às empresas e aos
indivíduos que nelas desenvolvem a su a at ividade laboral.
O
empowerment
é constantemente reafirmado, por muitos dos autores , com o um constructo s ocial para
explicar a eficácia organizacional, se bem que percebido como um conceito confuso ou usado de forma
limitada (Conger & Kanungo, 1988) . Com efeito, n o con texto organizacional tanto pode ser visto como
um conjunto de t écnicas de g estão (suportadas na relação e n os processos) , esq uecendo as questões
mais psicológicas ou a natureza dos indivíduos por trás do mesmo , como o inv erso, mas raramen te
numa abordagem conjunta.
As várias definições encontrada s nos mais diferentes referenciais mostram- nos, contudo, que ambas as
perspetivas, relacional/processual e psicológica, são necessárias para entender o conceito e, muito
provavelmente, a opção mais abran gente e completa para a con junção das pessoas com o
empowerment
, na busca de maior eficácia e competitividade pessoal e organizacional.
Cornwall e Perlman (1990, p. 87) definem
empowerment
como o “processo de de ter poder, conferido
por g estores t radiciona lmente poderosos, sendo dessa forma in cutido em t odos ” . Esta posição
transporta-nos, por um lado, para a ideia de cedên cia de podere s de quem hierárquica ou fu ncionalmente
os tem e, por outro, considera o processo e a estrutura ao longo da qual circula o p oder, ou seja,
destacando as condições organizacionais e relacionais que proporcionam
empowerment
.
Outras perspetivas afir mam que o
empowerment
é um a forma de potenciar a se nsação de au toeficácia,
entre as pessoas de uma organização, para tal identificando as condições que criam impotência e
anulando-as através de prát icas organizativas formais, mas também de técnicas mais informais (Conger
& Kanung o, 1988). Assim, as práticas de gestão para o
empowerment
poderão ser fruto de mecanismos
organizacionais/formais ou características individuais/informais, sendo disso exemplo os programas
internos de envolvimento e part icipação (como o q ue acabou na realidade por s er esta investigação ) que
atribuem às pessoas da or ganização um poder e aut oridade formais. Mas, para que e sta partilha de
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
238
empowerment
seja real, ao nível individual os colaborad ores deverão sentir que o s eu nível de eficácia e
performance aumenta, o que se pode conseguir através de práticas de gestão mais informais (Conger &
Kanungo, 1988) .
Nesta abordagem, ao mesmo tempo que se vê o
empowermen t
como um con structo motivacional
(perspetiva psicológica, portant o) não deixa de estar subjacente, no ent anto, que este resulta de
condições organizacionais (e relacionais, portanto) que o condicionam, su blinhando-se desta forma uma
duplicidade que torna o conceito ambíguo aos olhos da gestão.
Outras abordagens teóricas ainda, propõem que as pessoas det êm um
empowerment
prévio que pode
e deve ser usado, em s eu fa vor, nas orga nizações (Rand olph, 1995 ) o que fala por um pendor de estudo
mais individual e de abordagens de foro mais psicológico.
Para precisar a sua definição com ideias mais concretas sobre
empowerment
temos entretanto que partir
de outros constructos que, na perspetiva dos a utores co nsultados, lhe são anteriores – as ideias de Poder
e Controlo.
6.1.1. Por trás do empow erment, as ideias de poder, controlo, infl uência
Há quem sugira q ue o
empowermen t
não é um novo conceito em si m esmo, m as t ão somen te um
sinónimo de delegação (de poder) e de participação dos colaboradores na vida da organ ização, como é
aliás referido por Tan (2007). “Em muitos casos, o s aca démicos assumem que
empowerment
é o
mesmo que delega r ou p artilhar poder com os subo rdina dos” (Cong er & Kanungo, 1988 , p. 471 ) ,
restringindo a sua n oção à análise e conceptualização da ideia de poder, n o que se tornaria uma ideia
limitada. Limitativa seria ainda a ideia de que
empowerment
"é um processo em que os esforços para
exercer controlo são centrais" (Zimmerman, 2000, p. 44). Conclui-se, no ent anto, que, para os autores,
este constructo t em uma existência por si, ainda que parta das ideias de poder e con trolo. “Poder é fazer
com que as coisas sejam feitas (…) é uma ferramenta que permite que as orga nizações funcionem de
forma produtiva e eficaz. ” (Pfeffer, 1992, p. 32) ; é ain da visto como “influência e controlo” (N. Page &
Czuba, 1999, p. 2), podendo ser de uns sobre os o utros ou do ind ivíduo sobre a sua própria forma de
estar e atividade.
Os dois termos, poder e co nt rolo, são por isso explorados, na literatura que se de senvolveu a partir dos
anos 50, de fo rma alargada (ver o trabalho quanto à definição de Poder de Tew, 2006). Daqui se
depreende que a ideia de po der está enraizada nas int erações sociais, s eja n o exercício de dom ínio sobre
Empowerment
– o valor transformador do caso Bosch
239
os outros, seja nas relações de influência que as pessoas estabelecem entre si, situ ações que raramen te
se pautam pela simplicidade. Para Foucault, uma referência inc ontornável n a t eoria do Poder, “ o ser
humano, ao mesmo t empo que é colocado em relações de produção e de significação, é igualmente
colocado em relações de poder que são muito complexas” (Foucault, 1982, p. 778).
Desde logo , no nosso contexto organizacional, o poder pode ser ent endido e abordado numa dupla
perspetiva: enquanto um poder oficial, o exercício de uma autoridade óbvia de h ierarqu ias dominan tes
sobre outros em nívei s infe riores, ou seja, relações de dominância de uns sobre outros, tacitamente
aceites pelo enquadramento organ izacional; enquanto um poder simbólico, invisível, que se define em
interações tam bém elas simbólicas e baseadas numa crença comum sobre a noção de pod er. “Poder
simbólico é aquele poder invisível que apen as pode s er exercido com a cumplicidade daqueles que não
querem saber que es tão sujeitos a ele ou até mesmo daqueles qu e não qu erem saber qu e eles própr ios
o exercem” (Bourdieu, 1992, p. 164) .
A distinção entre o poder simbólico e o poder oficial não é uma linha de investigação e, portant o de
revisão da literatura que nos int eresse seguir no nosso cont exto, já que todo o trabalh o desenvolvido se
centrou n o
empowerment
enquanto forma de transferência ou de expansão de um poder oficial, que se
aumenta ao lo ngo de u m pr ocesso. Sublinham Cattaneo e C hapman (2010, p. 647) que “o aumento de
poder é o aumento da influência de cada um, nas relações sociais estabelecidas em qualquer nível da
interação h umana, desde a s interações diádicas às inter ações entre uma pessoa e um sistema.”
A noção de
empowerment
enquanto ideia de exercício de poder, influência e controlo, con cedidos ou
adquiridos, é cunhada, portant o, ao longo de duas linhas de investiga ção , uma a ver com o aspeto a)
Psicológico e mot ivacional face ao poder, relacionada com a forma como o indivíduo se relaciona com
os outros e gere essa relação no contexto da sua própria vida; a outra b) Com a transferência de Poder
ao longo de uma estrutura (Tan, 2007), relacional, port anto, e fundada na ideia de que alguém exerce
poder, controlo ou influ ência sobre o outro, no que é fa cilitado ou dificultado por um proces so instituído.
6.1.1.1. O
empowerment
como um constructo psicológico e mot ivacional
Ao nível ind ividual, Conger e Kanungo (1988) concluem que a ideia de poder está ligada a vários fatores ,
nomeadamente com a posição estrutural do ator, com as suas cara cterísticas pessoais, com as suas
qualidades técnicas em determinada área e com o domínio ou acesso que t em à informação ou
conhecimento. Co m referencial na ps icologia, a tónica do
empowerment
é, assim, colocada no indivíduo
e na sua necessidade de ter poder ou con trolo sobre as circunstâncias e poder ou influência sobre outros ,
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
246
quem foi delegada autoridade trace o seu próprio per curso (Kan ter, 1989). Do l ado de quem recebe
delegação, muitas vezes, pelas mais variadas razões n ão existe a vontade de ter essa autorida de já que
acarreta respons abilidade, a que nem sempre corresponde recompensa à medida. Aliás, a falta de
incentivos é, de forma geral, normalmente um entrave à vontade de assumir a delegação conferida.
Frequentemente, a falta de confiança pró pria ou o ine xistent e ou escasso s uporte n a decisão, o receio
de não estar á altura ou de críticas são também fatores que inibem o assumir de novas responsabilidades
(Nels on, 1994).
Si stemas de gestão de desempen ho
– uma das condi ções para o
empowerment
é a exi stência, nas
organizações, de sistemas de gestão de desempenho qu e definam as responsabilidades de indivíduos e
funções, que determinem os objetivos a ser-lhes at ribuídos, que cla rifiquem os indicad ores de sucesso e
municiem o sistema com as ferramentas ou formas para a sua medição. É dessa forma que se torna
claro, para as pessoas, o que é esperado delas e os padrões pelos quai s devem pautar a sua at uação,
em cada momento, seja em termos de qualidade, quantidade, t empo para a tarefa ou outro qualquer
critério de referência em termos organizacionais. Havendo um sistema de gestão de desempenho, os
padrões definidos pelo mesmo permitem avaliar a conformidade da s t arefas e facilitam o retorno a da r
ao indivíduo quant o à correção da sua atuação face aos objetivos. A o clari ficar os critérios de avaliação
do desempenho, permite ainda aumentar a confiança no s istema, pe lo potencial de u ma maior
transparência (M Al sada, 200 3). O propósito de definir metas e de con seguir critérios para avaliação de
desempenho, parece ter impacto no esforço e no desempenho dos colaboradores.
Uma ampla gama de estudos mostrou que a definição de met as, e specia l mente as mais desafiantes,
resulta em maior esfo rço e persistência diante de con tratempos (ver Locke e La tham, 1990; Latham e
Locke, 1991). Metas mais específicas também concentram o esforço na direçã o desejada,
comunicando prioridades aos func ionários. O feedback de dese mpenho alerta os funcio nários sobre
erros e pode incluir sugestões p ara corrigir esses erros (Fernandez & M oldogaziev, 2 011, p . 8).
Daqui depreende-se também que um sistema de avaliação claro permite mais facilmen te orientar a
atuação na direção desejada e, por outro lado, dá marg em para a correção de erros à medida que a
ação se desenrola.
Sistemas de recompensa
– a questão das re compensas do trabalho feito é segurament e um dos tópicos
que parece estar na consciência de todos numa investigação como esta (o que as entrevistas e inquéritos
corroboram), o que n ão significa n ecessariamente falar sobre din heiro. Recompensar as pessoas como
Empowerment
– o valor transformador do caso Bosch
247
forma de reconhecer o t rabalh o bem feito é o utra forma de da r
empowerment
(M Al sada, 2003). O out ro
lado da moeda será a desmot ivação, já que n ão int eressando o esforço ou o resultado obtido, as p essoas
não terão a vontade de se distinguir n o que fazem. Para s er “ empowering” a organ ização deve, por isso,
garantir um sistema que reconheça a participação dos indivíduos nos objetivos do todo , já que muitas
vezes estes perdem de vi sta o valor e importâ n cia da sua part icipação n os m esmos. Existe aliás uma
expressão dep reciativa que revela o s resultados qu e a desmotivação, causada pelo ign orar das
necessidades dos colaboradores a ess e nível, pode gerar: “tal dinheirinho, tal trabalhinho” é uma forma
popular para dizer q ue se não é dado à pess oa o valor qu e ela pensa merecer, ent ão a organização terá
o mínimo que o dinheiro pode dar.
Recompensas baseadas no desempenho individual são c onsideradas imp ortan tes para o
empowermen t
. Os incentivos i ndividuais aumentam o
empo werment
ao: 1. reconhec er e reforçar as
competências pessoais e 2. fornecer incentivos aos i ndivíd uos para participarem e afeta rem o p rocesso
de tomada de dec isão no trab alho (Spreitzer, 199 5, p. 1448 ).
No que re speita ao
empowerment
há quem se foque no estudo ou des envolvimento do aspeto
motivacional ou psicológico (Spreitzer, 1995), quem se cen tre nas questões relacionais ou de contexto
(Cattaneo & C hapman, 2010; Conger & Kanungo, 1988) e quem ainda sugira que ambas as perspetivas
de vam ser consideradas (M A l sada, 2003; R. E. Quinn & Spreitzer, 1997) , t endo em conta que objetivo s
individuais e organizacionais devem estar em sinton ia para maior eficácia. Na realid ade, con clui-se que
uma perspe tiva não é mais i mportante qu e a outra, sendo cada uma das abordagens relevant e para que
a outra possa existir e apresentan do cad a uma delas apenas uma visão limitada e incompleta. Con ferir
empowerment
implica portan to todo uma orientaçã o da organ ização para programas que inc luam
elementos de ambas as abordagens (R. E. Quinn & Spreitzer, 1997) .
6.1.2. De um constructo com o processo, a uma perspetiva do
empowerment
como resultado – Teoria
do
empowerment
Uma Teori a para o
empowerment
define-o, por um lado, como um processo em qu e ações , atividades e
estruturas r esultam “
empowering ”,
ou seja,
conferindo poder e, por o utro, com o um resultado desse
processo em que as pessoas ficam “
empowered ”
, ou seja, det entoras de poder. Avaliar a dim ensão do
empowerment
e definir a forma como deve ser é tarefa impensável, considerando que estabelecer
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
248
padrões para o mesmo, dependerá das circunstâncias, do con texto, das pessoas envolvidas, entre muitos
outros fatores a considerar, seja ele abordado enquanto processo ou enquanto resultado.
Processos empowering
são aqueles que pot enciam o
empowerment
e incluem conquis tar ou aumen tar
o controlo, aceder a recursos e compreender o ambiente de forma crítica e que per mit em que as pessoas
se tornem independentes, capazes de decidir e de solucion ar problemas.
Resultados empowered
s ão os efeitos de programas para conferir
empowerment
ou são a consequência
das ações dos que buscam
empowerment
ou já o detê m (Zimmerman, 2000).
Para a profundar a teoria do
empowerment
quan to ao Processo (
empowering
) e Res ultados (
empowered
)
Zimmerman pr opõe t rês n íveis de análise, o individual, o organizativo e o comunitário, con siderando que
são mutuamente interdependentes e simu ltaneamente causa e ef e ito uns dos outros. Cada um dos níveis
é definido por atribuições distintas:
Nível de análise
Processo (
empowering
)
Resultado (
empowered
)
Individual
Incorporar capacidades de to mada de decisão
Gestão de recurso s
Trabalhar em equ ipa
Sensação de con trolo
Consciência crítica
Comportamentos participativos
Organizacional
Oportunidades de partici par na tomada de decis ão
Responsabilidade partilhada
Liderança partilhad a
Compete eficaz mente por recurs os
Trabalho em rede com ou tras organizações
Influên cia sobre políticas
Comunitário
Acesso a recurso s
Estrutura de governaç ão abert a
Tolerância com a diversid ade
Alianças ou parceri as organiz acionais
Liderança pluralist a
Capacidades par ticipativas do s habitantes
Tabela 15 : Uma comp aração entre Proces so de
empowerment
e Resultados do
empowerment
aos seus vários níve is de
análise. Fon te: Zimmerman (200 0, p. 47)
Começando pelo
nível individual,
aquele que nos pon tos anteriores definimos com o a bordagem
Psicológica, as ações que r evelam que os indivíduos tê m uma forma “
empowering
” de at uar incluem a
sua atividade de controlo e participação na tomada de decisão ou na resolução de problemas em vários
níveis de ação: iniciativas de part icipação do indivíduo ao nível de organizações e at ividades comunitárias,
do seu envolvimento autónomo e res ponsável em equipas de gestão no local de trabalho, bem como na
sua adesão a processos de aprendizagem de novas competências. Processos tais como aplicar
competências cognitivas (ex.: tomada de decisão, gerir con flitos, responsabilização), gerir recursos ou
trabalhar com outros nu m objetivo comum podem, todos, ter u m potencial
empowering
.
Empowerment
– o valor transformador do caso Bosch
249
Para alguém ser referido c omo “
empowered
”, isto é, para se declararem resulta dos de
empowerment
ao nível individual, deverá exibir-se uma cert a noção de cont rolo, apresentar-se uma at itude e consciência
críticas face ao am biente que nos rodeia, neste caso o ambiente organizacional, e que apresente os
comportamentos necessários para exercer con trolo sobre o ambiente circundante. Estas diferent es
dimensões podem ocorrer a vários níveis incluindo:
• o intrapess oal, em asp etos com o a personalidade enquanto cen tro do controlo, a cognição (em
questões como a autoeficá cia ou a tomada de decisão) e aspetos mot ivacionais relacionados
com o controlo nos âmbitos pessoais, interpessoais e s ociopolíticos;
• o int eracional, a ver com a forma como as pessoas usam as suas características específicas
nomeadamente de análise, avaliação e re solução de problemas na inter ação com o seu meio
ambiente;
• o comportamental, que ref ere às ações de exercício d o con trolo, em contex to de participação
em organizações ou atividades comunitá rias.
Considerando em seguida o
nível organizacional
, podemos dizer q ue é uma org anização
empowering
aquela que detém ou trabal ha proces sos que facilitem condições que pe rmitam às pes soas maior poder
e controlo n as suas ativida des relacionadas com organização; é uma organ ização
empowered
aquela
que con segue resultados fr utíferos n o exercício da sua atividade, t em poder para influenciar decisões
políticas ou administrativas con textuais ou que t em capac idades e con trolo quanto às altern ativas
necessárias para melh or prestar os seus serviços. Ape sar da distinção, as organizações podem ser as
duas coisas e apre sentar características de am bos os aspetos, como igualment e serem apenas uma
delas.
Os
processos
que concorrem para o
empowering
das pessoas deverão con siderar mecanismos e
estruturas q ue proporcionem oportunidades e promov am a participação dos seus membros n a tom ada
de decisão, seja ela coletiva ou específica de um sector. Devem inc entivar e increment ar a partilha de
liderança entre sujeitos e uma distribuição de responsabilidades que levem os indivíduos a apropriar - se
das m esmas como suas. O resultado disto será uma organização qu e com pete no seu meio circundan te
de forma eficaz pelos recursos que l he serão relevantes (económicos, físicos, humanos…), que trabalha
com eficácia em rede co m outras orga nizações e que tem poten cial de influ ência sobre políticas.
(Zimmerman, 2000).
Ao
nível da comunidade,
os processos tendentes ao
empowering
concorrerão p ara melhor facilitar o
acesso coletivo a recursos, sejam eles governamen tais ou comunitários (de q ualquer nível). Concorrerão
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
250
para a integração da diversidade de qualquer tipo (d e gén ero, raça, credo…) e permitirão formas de
governação aberta e part icipativa. Os resultados de ste
empowerment
em termos comunitários tenderão
a proporcionar alianças e parcerias ent re organ izações, increment o da capac idade participativa dos
membros de uma com unidade, tendência para lideranças pluralistas e para um pluralismo alargado,
bem assim como acesso facilitado a recursos comunitários.
Dos aspetos apresentad os, o projeto t eve uma ação direta sobre os Processos
empowering
ao nível
organizativo da Bosch em Braga e sobre os Resultados
empowered
ao nível individual, especificamente
sobre as chefias de secção (mais tarde alargado também para o s chefes de departamento). Tudo isto,
para concretizar o percurso de uma situação A a uma situação B (ou S a S’), e dessa forma suportar o
processo de mudança organizacional através de um percurso sobre um modelo em tudo semelhante ao
percurs o narrativo de Gr eimas.
6.1.2.1. Na Bosch - Fo rtalecer processos para uma O rganização empowering e obtenção de
Resultados
empowered
no âmbito individual
Os aspetos em que nos centrámos ao longo deste trabalho foram , portanto, o organizacional ao nível da
alteração de alguns dos process os pa ra facilitar o
empowering
de indivíduos e, ao nível ind ividual,
focagem nos resultados
empowered
assim preten didos já que se esp era “…qu e organ izações com
responsabilidades compartil hadas, uma atmosfera de apoio e atividades sociais sejam mais
empowering
do que organizações hierarquizadas” (Zimmerman , 2000, p. 52) . (Zimmerman, 2000)No primeiro
aspeto, optou-se pela centragem na defin ição de um planeamento estratégico para a Bosch em Brag a
de características verdadeiramente participativas bem como na construção de um padrão referencial do
nível ideal e, sobretudo, balanceado, de
empowerment
entre ch efias. No segundo aspeto, aspirar obter
resultados
empowered
quanto ao Saber para a m udança (mais informação, que o con hecimento t écnico
é pressuposto ao nível h ierárquico que falamos) bem assim quanto ao Poder para at uar, enquadrado
pela estratégia enquant o moldura referencial de poder de decisão, aut onomia e r esponsabilização das
chefias. O objeto modal Q uer er da Aquisição de Competências do pe rcurso n arrativo greimasiano, foi
intencionalmente deixado de lado, considerando os resultados de ent revistas e inquéritos que o revelaram
adquirido à priori.
O aspeto que aqui s e desenvolve não explora, portant o, as componentes da organização
empowered
no
seu ambiente, ou seja, não é centrada n os resultados da organização, ela mesmo, n o seu con texto
externo, antes se focan do na orga nização en quanto organismo que se revela
empowering
para os seus
Empowerment
– o valor transformador do caso Bosch
251
membros; por outro lado, não tenta explorar os mecanismos
empowering
ao nível das chefias de secção
e chefias de departam ento, isto é, nas formas como gerem recursos físicos e humanos, como trabalham
em equipa ou como se dá o exercício do poder de decis ão, an tes se orientand o para os resultados
empowered
neles pretendidos: poder de decisão, aut onomia e responsabilização, com o objetivo de criar
um padrão equilibr ado entre as diferentes chefias e entre diferentes departament os.
A propósito desta ideia de multinível, organ izacional
empowering
e individual
empowered
, é de salientar
que o trajeto da mudança que se pretendeu implemen tar visava alterar
processos o rganizacionais
empowering
através de:
• Melhoria de
processos
ao nível da organização bem como criação de mec anismos que
permitissem uma participação mais forte e em m ais larga escala na tomada de decisão;
• Colocando a tónica nas
relações
estabelecidas en tre pessoas, entre funções e entre
departamentos;
• Centragem em fortalecer atributos da organ ização que proporcionassem
resultados
generalizados de
empowermen t
ao nível das funções de chefia e não no fort aleciment o de
características psicológicas individuais de cada um dos chefes de secção.
Por outro lado, ao nível individual, visava obter
resultados individuais empowered,
ao nível das chefias:
• Visando uma liderança e responsabilização partilhadas na tomada de decisão
• Obtendo equilíbrio de
empowermen t
entre chefias que à partida era desequ ilibrado
• Aumentando a confiança das ch efias quanto ao suporte da organ ização nesse exe rcício de
poder e controlo - fortalecendo o seu poder de decisão, autonom ia e responsabilização.
Concretizar estas alterações processuais organizacionais e resultados individuais ao n ível do
empowerment
foi feito at ravés de uma participação da quase t otalidade das ch efias (não total por
qu estões de gestão laboral), con scientes que “práticas organizacionais formais e técnicas informais de
proporcionar informação eficaz” (Conger & Kanungo, 1988, p. 474) podem desempenh ar um papel
central no
empowerment
dos seus participantes. Cientes também que essas práticas, sendo
participadas, com um si stema de crenças partilhado, com oportunidad es ao n ível de novos papéis na
organização e um sistema de supor te e liderança n utritivos trazem bons resultados ao nível da satisfaçã o,
autoestima e bem-estar dos ind ivíduos (Maton & Salem, 1995) e com isso visando o aumento da
confiança na organização para o exercício do poder.
Numa revisão de literat ura suportada em investiga ção de cam po de vários autores , nomead amente de
Spreitzer e Rappaport, Maton e Salem (1995) concluem que uma mudança, feita ao long o de um eixo
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
252
no sent ido do crescimento (de A para B ou de S1 para S2) como o que se pr etende aqui, deve ser
suportada n um sistema de crenças partilhado, dado o potencial de orientar as pessoas e motivá -las de
forma consistente enquanto o fazem, obtendo dessa forma maior
empowerment.
Mais, quando a organização apresenta uma estrutura de funções com oportun idades facilitadas de
rotação (
job rotation
como denom inado na Bosch) , que pot encialmente expõe as pessoas a novas
experiências, conhecimentos e aprendizagen s es tá com isso a potenciar a aplicação dos novos at ributos
ao serviço de objetivo s com o o de levar a cabo uma mudança .
Ainda, as con clusões dos autores levam a crer que, para um
empowerment
que pot encie um projeto
como este criando uma maior abertura à mudança, será essencial um sistem a de apoio alargado da
organização e dos pares, já que cria um es pírito de corpo e atitude persistente que facilitará o lidar com
os contratempos e dificuldades de um processo assim.
Nas investigações fe itas, parecem ser traços comuns para o sucesso da mud an ça características
específicas da liderança, nomeadamente: a sua capacidade de criar uma visão inspiradora e força
mobilizadora, con stituindo -se frequentemente como modelos de referência; o possuírem t alento na
gestão da s relações interpessoais e o rganiz acionais, mobilizando pessoas e r ecursos, man tendo o
ambiente estável, apoiando os outros na sua própria mudança e evolução e protegendo a equipa perante
ameaças externas; o partilharem o seu poder com os restan tes e à medida que as circunstâncias criam
ou fazem emergir novos l íderes; o comprometerem -s e com a mudança e com os novos objetivos,
promovendo a participação na tomada de decisões como condição desejável para a mudança.
Estas características das organ izações bem -sucedidas em percursos de mudança n ão são obviamente
exaustivas, mas vêm cont ribuir para uma noção da i mportân cia dos papéis da lideran ça e do suporte
que providenciam na aprendizagem, motivação e confiança dos demais, bem como na promoção de u m
ambiente nutritivo e protetor para quem se pr etende cresça em
empowerment
para executar a mudan ça.
As li deranças de uma organização são o pivot a p artir do qu al roda em simultâneo a açã o de
transferências de poder e o polo de crescimento do poder a partir da s entidades que o pretendem
assumir, sejam elas indivíd uos, organizações ou comunidades. E mais, que o
empowering
dos outros
depende do fact o de aqueles que detém o poder, con trolo e/ou influência se as sumirem como m eros
gestores ou como verdadeiros líderes (Burke, 1986a).
Temos assim, de um lado, os gestore s que podem ser verdadeiras lideranças ( ou não), do outro os
chefiados ou liderados.
Empowerment
– o valor transformador do caso Bosch
253
6.1.3.
Empowerment
– os papéis de uma relação de poder na Bosch
Na literatura, a gran de maioria de perspetivas opõe, nas orga nizações, como liderança e liderados as
suas chefia s e colaboradores (ou trabalhadores, como alg uns preferem chamar, por n ão se colaborar e
sim trabalhar). Ora, neste nosso caso… não é o caso.
Quando confrontados com a ideia de que uma inocula ção de
empowerment
se torna necessária numa
organização, tendemos a considerar que esta será sempre uma relação complexa entre dois lados
desequilibrados de um único campo. Divididos por int eresses, ag endas e funções distint os e pela
detenção de um poder desigual, opõem-se n um dos lados a liderança, ges tores ou chefias, n o outro dos
lados os liderados, geridos ou ch efiados, designaçõ es estas que variam pelo re curso a uma gestão
transformacional ou a uma gestão m eramente t ransacional, como o define Zaleznik (1977, cit ado em
Burke, 1986a) . Nesta relação de poderes, muitos há que consideram desejável o equilíbrio n a relação
entre ambos “os prat os” e muitos outros con sideram que esta pretensão, ou mesmo possibi lidade , é um
absurdo (Burke, 1986b).
Parece, contudo, uma evidência , do ponto de vista orga nizacional, a cunhagem do termo à volta d a
detenção do poder - de quem o tem e de quem não o tem , de um lado as chefias do outro os
colaboradores ou trabalh adores da organização . Com efeito, n este contexto das organ izações,
desenvolve-se muito frequentemente a ideia de
empow erment
sustentada nesta opos ição :
• De um lado a ges tão, enqu anto detendo o poder, seja esta uma liderança insp irada ou seja uma
gestão m eramente funcional , a primeira re velando em si e mot ivando nos outros um
compromisso interno , a segunda assumindo por si ou cunhando nos outros um mero
com promisso externo (Argyris, 1998) – exercendo ou não, correspondentem ente, atributos
empowering
;
• Do outro os liderados, os colaboradores, inspirados por um compromisso interno de uma
liderança ou funcion almente orient ados pela inst ilação de um compromisso extern o por uma
gestão ou chefia - colaboradores esses variando do m uito ao nada
empowered
.
Apesar desta oposição, que poderia empurrar-nos para um a abordag em teórica relacionada com a
e conomia política, a luta de classes e para ide ias relacion adas com uma “democracia ind ustrial”, e em
que parece subsumida no conceito de
empowerment
a transferência de poderes en tre uma “gestão
dominante e uma força de trabalh o dominada” (Dought y, 2004, p. 4), assumimos que esse não é o
nosso ângulo neste estudo, por raz ões que se tornarão claras ao longo deste capítulo.
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
254
No nosso caso em estudo, esta ideia de elos fortes e fracos no
empowerment
é peculiar, já que as
condições específicas desta unidade industrial podem fazer questionar quanto à utilidade de todos
participarem nos processos de
empowerment
: se nas áreas de inovação e engenharia eletrónica, o
empowerment
é quase um requisito para um po sto de trabalho que se pretende com autonomia e
decisão para criar, nas áre as fabris e de execução industrial, das p roduções em linh a e operação de
máquinas, os requ isitos da função estão pré-definidos e não há co m o fu gir ao co ntrolo dos pr ocessos de
trabalho: trata-se da execução de tarefas que, muitas vezes, ao seg undo ou ao mi límetro, n ão podem
variar, deixando muito pouca manobra para o liv re arbít rio e autog overnação do colaborador n a execução
da tarefa.
Há quem defenda essa impossibilidade, precisamente , naqueles que são os trabalh os rotineiros, o que,
aliás, já referimos, ainda que brevemente, no capítulo sobre a Mudan ça (capítulo 5):
Podemos pergu ntar se todos d evem par ticipar para q ue o
empowerme nt
exista n u ma org anização. E m
princípio, a re sposta é “sim”; n a realidade, existe um “ mas”. Não é realista esp era r que a administração
permita que milhares de funcionários participe m plenamente na autogovernação (…) Além disso, a
extensão da par ticipação nos ob jeti vos e aspirações cor pora tivas irá variar de acordo com os desejos e
intenções de cada funcionár io (Argyris, 1998 , p. 100).
As tentat ivas de
empowerment
são consideradas, nestes cont extos, mais do que desnecessárias, um
foco de desilusão e, sobret udo, de ineficiência, que pode, em última instância, resultar no insucesso de
uma organização n o seu ambiente competitivo, um ambiente que exi ge respostas rápidas e resultados.
Assim, como primeira prec aução de um processo par a o
empowerment
das pessoas, sugere-se que se
“distinga entre as funções que necessitam de com promisso int erno daquelas que n ão o n ecessitam”
(Argyris, 1998, p. 105) , sen do a ideia de com promisso int e rno relacionad a com a motivação interna,
responsabilização e partici pação nas at ividades na or ganização (incluindo definição e alarg amento de
objetivos e percursos para o seu at ingimento), por oposição ao com promisso externo g erado por
circunstâncias de traba lho e m qu e nada mais pode ser pedido às pessoas qu e faz erem aquilo que delas
se espera.
Deixando aqui de lado a separação en tre os con ceitos de Liderança e gestão/ ch efia, sobejamente
abordados especialmente no capítulo sobre a mudança, e um pouco por t oda a t ese, precisamente pelos
motivos acima referidos mas também por consciên cia da organização qu anto aos mesmos, nest a nossa
investigação colocámo-n os numa dim ensão m enos usual: o
empowerment
das lideranças, en quanto
Empowerment
– o valor transformador do caso Bosch
255
chefias de fact o, independentemente da s suas capac idades humanas e mobilizadoras. Neste projeto , a
investigação-ação foi assim desenhada para con ferir Saber e Poder às lideran ças intermédias da
organização, os chefes de secção, enquanto necessitadas de mais
empowerment
para garantir um
crescimento su stentado da empresa Bosch, ao mesmo t empo que m elhorando em agilidade e ati ngindo
melhores performances e rentabilidade . Esta necessidade é corroborada pelos resultados da s entrevistas
e inquéritos reali zados que diag nosticaram, de forma clara, as lacun as existent es a esse nível e a s razões
da sua necessidade.
Empowerment
de lideranças, de chefias intermédias, frise-se, q ue por requisito de trabalho devem ser
intrínseca e extrinsecamente
empowered
. Intrinsecam ente, por capacidades psicológicas e pessoais ,
mas que, em simultâneo, e por se constituírem como liderados face aos chefes de departam ento, são
extrinsecamente dependentes do maior ou menor grau de at itude
empowering
que estes serão capazes
de ter.
Durante o desenrolar da açã o, foi apenas uma consequência nat ural que, afina l, o processo para o
empowerment
se alargasse às chefias de departamento, t ambém elas n o papel de lideradas na relação
com dois Administradores de diferentes perf is da Bosch em Braga.
Assumimos, portanto, pelo desígn io da organização e pela necessidade do processo, posição que a
literatura também sustentou, que as pessoas sobre quem se ag e para aumento do
empowerment
são
as lideranças da empresa - chefes de departament o e de secção - e não os rest antes colaboradores da
organização.
6.1.4. Conquistar o
empowerment
– transferência ou expansão
Page e Czuba (1999) observam que subsumida na palavra
empowerment ,
se encontra a noção de poder,
sendo poder o exercício de levar outros a fazer o que desejamos; consideram, ain da, que é uma forma
de influência e con trolo. Sus tenta - se n a relação entre pessoas e/ou coisas, sendo criado ou definido na
relação entre elas.
A esta n oção estão ligadas duas ideias principais: a pri meira é a de que o poder pode mudar (de mãos,
de dimensão, de pessoas, de posições) e de que, se não puder mudar, ent ão não há
empowerment
em
nenhuma forma possível; a segunda con ceção é relacionada com a experiência de que o
empowerment
pode expandir, aumentar, fortalecer-se pessoalmente nos indivíduos.
A sémio-n arrativa em ação, na mudança o rganizacional
262
É de destacar, da experiência B osch, a referê ncia generalizada e fr equente nos inqu iridos à neces sidade
de formação “
on site/on job
”, ou seja, no local de t rabalho e com observação de pares para
aprendizagem mútua.
Persuasão verbal – É conc lusão dos autores que a s palavras fazem a diferença . Quando a liderança
en coraja e dá retorno sobre o desempenho provoca maior con fiança e, com isso, conseguem maior
mobilização para as tarefas. O desencorajar a pessoa através da depreciação surte , n o en tanto, maior
impacto (negativo) que o seu oposto.
Excitação emocional – Para o
empowerment
, é essencial a perceção individual de um ambiente de
confiança e suporte nas atividades orga nizacionais e já que a perceção da capacidade de cada um está
muitas vezes dependente dis so. Um ambiente n egativo, stressante ou ameaçador, mesmo que a pe ssoa
tenha elevados desempenh os, acabará por causar a sensação de incapacidade e impot ência nas
circunstâncias. A forma de reduzir o impacto de situaç ões angustiant es e de t ensã o é at ravés de açõ es
em qu e “os gestores claramente definem os papéis dos colaboradores, re duzem o e xcesso de informação
e lhes oferecem assistência t écnica para com pletar as tarefas das s uas f unções” (Con ger & Kanungo,
1988, p. 479).
No estágio final, os autores indicam que sentir- se -ão os
efeitos comportamentais
re sultantes dos estágios
anteriores, nomeadamente quanto a uma perceção melhorada da autoeficácia dos ind ivíduos e que,
portanto, estes exibirão comportamentos que serão mais pers istentes nas tarefas e no cumpr imento dos
objetivo s.
6.2.2. O Modelo de Thomas e Velth ouse
Construído a partir da teori zação de Cong er e Kanungo em que o
empowerment
é estudado enquant o
um con ceito associado à mot ivação e aut oeficácia, os autores Thomas e Velthouse sugerem con struir
um novo modelo, em primeiro lugar a) propondo uma maior precisão de associação do constructo
empowerment
a um tipo es pecífico de m otivação, a “motivação intrínseca para a tare fa” (Thomas &
Velthouse, 1990, p. 667); em segundo lugar, b) alargando a dependência da perceção dos indivíduos
quanto ao seu
empowermen t
para três outros aspetos para além da a utoeficácia, considerada pelos
autores insuficiente; em terceiro lugar, c) definindo a forma como os indivíduos se veem quanto a esses
aspetos, não já somente através de “…avaliações individuais em relação à eficácia pessoal (que) refletem
condições/eventos objetivos e informações q ue fl uem desses e ventos ” (Thomas & Velthouse, 1990, p.
667) , mas int egrando também pr ocessos de avaliação subje tivos, suportados por diferenças individuais.
[Document text truncated for crawler view.]