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Representações da mulher migrante no cinema: Todos os Sonhos do Mundo visto(s) pelos jovens

Author: Carvalho, Beatriz Ferreira
Year: 2025
Source: https://repositorium.uminho.pt/bitstreams/0d4e8ea7-2575-40f8-8cbe-7882e815ed4e/download
Uni e sidade do Minho
Ins i u o de Ciências Sociais
Bea iz Fe ei a Ca alho
Rep esen ações da Mulhe Mig an e no
Cinema
Todos os Sonhos do Mundo
is o(s) pelos jo ens
ou ub o de 2024
Rep esen ações da Mulhe Mig an e no Cinema
Todos os Sonhos do Mundo
is o(s) pelos jo ens
UMinho | 2024
Bea iz Fe ei a Ca alho
Uni e sidade do Minho
Ins i u o de Ciências Sociais
Bea iz Fe ei a Ca alho
Rep esen ações da Mulhe Mig an e no
Cinema
Todos os Sonhos do Mundo
is o(s) pelos jo ens
Disse ação de Mes ado
Mes ado em Comunicação, A e e Cul u a
T abalho e e uado sob a o ien ação da
P o esso a Dou o a Isabel Mo ei a Macedo
P o esso a Dou o a Sil ana Mo a-Ribei o
ou ub o de 2024
i
Di ei os de Au o e Condições de U ilização do T abalho po Te cei os
Es e é um abalho académico que pode se u ilizado po e cei os desde que espei adas as eg as e
boas p á icas in e nacionalmen e acei es, no que conce ne aos di ei os de au o e di ei os conexos.
Assim, o p esen e abalho pode se u ilizado nos e mos p e is os na licença abaixo indicada.
Caso o u ilizado necessi e de pe missão pa a pode aze um uso do abalho em condições não p e is as
no licenciamen o indicado, de e á con ac a o au o , a a és do Reposi ó iUM da Uni e sidade do Minho.
Licença concedida aos u ilizado es des e abalho
A ibuição
CC BY
h ps://c ea i ecommons.o g/licenses/by/4.0/
Ag adecimen os
Nas mais longas páginas que já esc e i, ag adeço since amen e:
À P o esso a Dou o a Isabel Macedo odos os momen os em que eunimos e me guiou de o ma
companhei a. Um abalho de o ien ação, no sen ido mais eal da pala a.
À P o esso a Dou o a Sil ana Mo a-Ribei o oda a con iança.
À minha mad inha, Syl ie, cuja ida semp e me inspi ou, desde que es uda a pa a o p óp io mes ado
comigo sen ada ao seu lado. O seu nome es á esc i o em odos os capí ulos.
À minha a ó, Rosá io, cujas mãos ainda sin o ança o meu cabelo an es de i pa a a escola, e cujo
so iso acolhedo se á semp e pa e de mim.
À Dou o a Ana, cuja pa ce ia me ez comp eende quem sou no mais undo das minha en anhas e
consegui ocupa odos os luga es a que enho di ei o.
Ao Miguel, que segu ou a minha mão po odo o caminho e que, semp e do meu lado esque do, me
eco da como é bom c esce , ama e pa ilha .
Ao meu pai, Ismael, que me e le e como um espelho. Somos pedaços quase iguais, ma é ia da mesma
pa e do uni e so. Uma o ça que gua do desde as con as de ma emá ica na mesa da cozinha a é aqui.
À minha mãe, Fá ima, cujo amo maio nunca conheci. Ag adeço o ab aço an es de odos os se ões de
lei u a, depois de odas as a des cansadas e em qualque momen o necessá io. Desde odas as his ó ias
con adas an es de do mi , egadas de amo incondicional, es amos aqui, onde nada disso mudou.

i
Es e abalho oi ealizado no âmbi o do p oje o Mig aMediaAc s – Mig ações, Média e A i ismos em
Língua Po uguesa: Descoloniza Paisagens Mediá icas e Imagina Fu u os Al e na i os ( e . p dc/com-
css/3121/2021), inanciado pela Fundação pa a a Ciência e Tecnologia ( c ).
ii
DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE
Decla o e a uado com in eg idade na elabo ação do p esen e abalho académico e con i mo que não
eco i à p á ica de plágio nem a qualque o ma de u ilização inde ida ou alsi icação de in o mações ou
esul ados em nenhuma das e apas conducen e à sua elabo ação.
Mais decla o que conheço e que espei ei o Código de Condu a É ica da Uni e sidade do Minho.
Uni e sidade do Minho, 29 de ou ub o de 2024
Bea iz Fe ei a Ca alho
iii
Resumo
Olhando o cinema como uma e amen a capaz de ab i espaço pa a pensa o mundo, o es udo dos
ilmes
Todos os Sonhos do Mundo
(2017) de Lau ence Fe ei a Ba bosa e
A Casa Que Eu Que o
(2010)
de Joana F azão e Raquel Ma ques pe mi e-nos e le i sob e a o ma como as ep esen ações das
mulhe es de o igem po uguesa se c uzam com as ideias de pe ença e iden idade nacional. P ocu ando
esponde à pe gun a
De que o ma são ep esen adas as mulhe es de o igem po uguesa no cinema
luso- ancês?,
discu imos
as elações mig a ó ias en e Po ugal em F ança, a complexidade dos
concei os de nacionalidades, iden idades e ep esen ações, e minando com uma b e e análise do
cinema como meio de comunicação e ep esen ações múl iplas. Reco emos à análise emá ica dos
ilmes an e io men e mencionados e do con eúdo de dois g upos ocais, conduzidos com
Todos os
Sonhos do Mundo
(2017) como obje o de isualização e es ímulo pa a o deba e. O esul ado é um
pe cu so po emas como os papéis adicionais de géne o, a emancipação eminina, a agmen ação
iden i á ia, passando pela ep esen ação es e eo ipada dos po ugueses e de Po ugal, as p essões,
expec a i as e di iculdades das elações amilia es, assim como a isão menos posi i a dos jo ens em
elação ao cinema po uguês. Concluímos que as ob as sob e as quais nos deb uçamos pe pe uam
simul aneamen e os papéis adicionalmen e a ibuídos às mulhe es, assim como azem um caminho no
sen ido de in eg a nas na a i as pe sonagens mais complexas, num pe cu so pa a a emancipação e
mul iplicidade.
Pala as-cha e: Cinema, Iden idades, Mig ações, Mulhe , Rep esen ações.
ix
Abs ac
Looking a cinema as a ool capable o opening space o hink abou he wo ld, he s udy o he ilms
Todos os Sonhos do Mundo
(2017) by Lau ence Fe ei a Ba bosa and
A Casa Que Eu Que o
(2010) by
Joana F azão and Raquel Ma ques allows us o e lec on how he ep esen a ion o women o Po uguese
o igin can in e sec wi h ideas o belonging and na ional iden i y. In an a emp o answe he ques ion
How a e women o Po uguese o igin ep esen ed in Po uguese-F ench cinema?
, we discuss mig a o y
ela ions be ween Po ugal and F ance, he complexi y o he concep s o na ionali ies, iden i ies, and
ep esen a ions, ending wi h a b ie analysis o cinema as a means o communica ion and pe pe a o o
mul iple ep esen a ions. We decided o use hema ic analysis in he s udy o he ilms men ioned abo e
and o wo ocus g oups conduc ed wi h
Todos os Sonhos do Mundo
(2017) as an objec o isualiza ion
and a s imulus o deba e. The esul is a jou ney h ough hemes such as adi ional gende oles, emale
emancipa ion, iden i y agmen a ion, he s e eo yped ep esen a ion o Po uguese and Po ugal, he
p essu es, expec a ions, and di icul ies o amily ela ionships, as well as young people's less posi i e
iew o Po uguese cinema. We concluded ha he wo ks we analysed simul aneously pe pe ua e he
oles adi ionally a ibu ed o women, as well as s i ing o make a mo e owa ds in eg a ing mo e
complex cha ac e s in o he na a i es, on a pa h owa ds emancipa ion and mul iplici y.
Keywo ds: Cinema, Iden i ies, Mig a ions, Rep esen a ions, Women
5
Capí ulo I – Mig ações e Pe cu sos
1.1 As elações mig a ó ias en e Po ugal e F ança
No co ação de Pa is, espi a-se Po ugal
(Gonçal es & Gonçal es, 1991, p.155)
Não é incomum pensa nos po ugueses como um po o de g andes iagens, seguido es do
concei o de pa i pa a no as e as em busca de ecu sos que al am, no o conhecimen o do mundo ou
no os locais pa a habi a (de o ma mais ou menos o çada pe an e aqueles que já azem daquele luga
casa). Os enómenos po ugueses de mig ação podem e início apon ado na época da expansão
ma í ima (Je ónimo e al., 2000), nos con o nos já desc i os, mas oda a his ó ia de mig ação é
e e i amen e de eno me ele ância pa a o país. O p esen e abalho p opõe a a o assun o com
pa icula oco na mig ação po uguesa pa a F ança, passando pelas ca ac e ís icas a ibuídas aos
mig an es, as suas condições de ida e iagem, obje i os e aspi ações.
An es que possamos comp eende de o ma cla a os mo imen os mig a ó ios ei os pelos
po ugueses é necessá ia uma e lexão sob e o p óp io concei o de
imig an e
. Segundo o documen o
Indicado es de In eg ação de Imig an es: Rela ó io Es a ís ico Anual 2019,
p omo ido pelo Obse a ó io
de Mig ações, podemos de ini um imig an e como uma pessoa que se ixa num país que não aquele da
sua o igem du an e um pe íodo supe io a um ano. O documen o ambém coloca a ques ão de não exis i
uma uni o mização do concei o aplicá el bu oc a icamen e pelos ó gãos es a ís icos de odos os países,
a iando em ques ões como a dis inção en e a nacionalidade e o local de nascimen o (Gomes & Oli ei a,
2019, p. 10). Mais ecen emen e, Liliana Aze edo (2024) pensa os concei os de emig an e e imig an e
como duas di e en es “dimensões de um mesmo enómeno” (p.5), e e indo a u ilização do e mo
“mig an e” como mais ampla, sendo capaz oca nas “ci culações en e di e sos espaços geog á icos,
económicos e sociocul u ais”, sem se limi a na “pa ida ou na ausência de um de e minado espaço
nacional” (p. 6).
Podemos ainda pensa a de inição p o ida po Ma ia Eng ácia Leand o no seu ex o
A
Cons ução
Social da Di e ença A a és da Acção Denomina i a. O caso dos Jo ens Po ugueses pe an e as
mig ações in e nacionais,
que coloca ên ase na classi icação ju ídica des e que se desloca pa a p ocu a
uma no a ida num ou o país:
à luz do di ei o in e nacional, é e/imig an e uma pessoa que sai de um país e ai i e pa a ou o sem aí
e nascido e sem se , nes e úl imo caso, um dos seus nacionais. Sendo assim, o local do nascimen o e
a nacionalidade é de e minan e pa a de ini , ju idicamen e, o es a u o do e/imig an e e dis ingui-lo
daquele que não o é. (Leand o, 2000, p. 27)

6
O abalho de Gonçalo Sa ai a Ma ias (2014), ap o unda as nuances da mig ação, colocando
g ande des aque no concei o de cidadania, conside ando o enómeno mig a ó io “como uma ase de
ansição pa a a cidadania” (Ma ias, 2014, p. 51). Menciona as di e en es mo i ações pa a as
deslocações ei as pelas populações, passando pelas mig ações o çadas, no malmen e esul ado de
gue as ou ca ás o es na u ais (exempli icando com a Segunda Gue a Mundial como ca alisado a),
passando pelas mig ações labo ais, na p ocu a “po pa e dos abalhado es mig an es de melho es
condições de abalho e de ida” (p. 9) e e minando no que conside a se uma mig ação de ca iz mais
ecen e, uma ede “complexa de ci culação de pessoas, assen e em a o es como a mig ação económica,
de consumo e de alen o” (p. 10), onde o mig an e não mais co esponde a um exa o pe il único (p.
52). Se pensa mos no caso po uguês, podemos iden i ica na his ó ia mig a ó ia, mo imen os ei os
pelos ês di e en es mo i os, an o em simul âneo, como com décadas de dis ância.
Ma ia Bea iz Rocha-T indade (2000) classi ica as mig ações po uguesas em ês di e en es
ciclos, com di e en es ca ac e ís icas: o Ciclo Clássico, o Ciclo Mode no e o Ciclo Con empo âneo.
Delimi a es es ciclos empo almen e, endo início nos mo imen os ansoceânicos ei os a é ao B asil (e
em meno núme o pa a os Es ados Unidos da Amé ica) no século XIX, passando pelas mig ações dos
anos 50 e 60 do século XX, e minando no pós-25 de ab il e numa conjun u a de abe u a de on ei as
à ci culação li e da União Eu opeia.
Se pensa mos o ciclo clássico, podemos ca ego iza as iagens numa endência de adicação
de ini i a, onde o eg esso se ia in imamen e p o á el. A iagem e a ei a p incipalmen e po mo i os
labo ais, endo sido ei o um g ande ec u amen o, e consequen e mig ação, pa a a a i idade ag ícola
(Rocha-T indade, 2000, p. 2).
O Ciclo Mode no ap esen a uma maio ele ância pa a o abalho que aqui desen ol emos pela
sua ca ac e ís ica in aeu opeia. Pensando nos mo i os pa a a mig ação de Ma ins (2014),
an e io men e mencionados, podemos coloca es e Ciclo Mode no em duas dis in as ca ego ias. Po um
lado, o pós-Segunda Gue a Mundial colocou a Eu opa numa si uação de necessá ia econs ução e os
países que o am g andes palcos do con li o ec u a am eno mes quan idades de mão-de-ob a pa a
econs ui as cidades e e aze aquilo que inha sido des uído – ele ada mig ação labo al (Rocha-
T indade, 2000, p. 3). Po ou o, e mais exclusi o à si uação nacional, a uga clandes ina pa a a F ança,
p incipalmen e pa a e i a o ec u amen o pa a a linha da en e da Gue a Colonial (1961-1974), coloca
a possibilidade de uma mig ação o çada, já que exis ia uma ameaça con a a segu ança e in eg idade
ísica dos jo ens ec u ados (Je ónimo e al., 2000, p. 38).
7
A maio p oximidade geog á ica, compa a i amen e com as mig ações do ciclo an e io , e as
mui o poucas es ições de en ada de mig an es nos países de des ino, ez com que es e osse um luxo
ca ac e izado po um meno sen ido de ini i o, pe mi indo o e o no ( an o pe manen e, quan o de isi a
nas é ias ou na ocasião de alguma eme gência amilia ), ainda que com as es ições impos as po um
go e no de di adu a (Rocha-T indade, 2000, p. 3), que não pe mi ia o eg esso dos homens que inham
ugido ao se iço mili a , co endo o isco de p isão (Leand o & Rod igues, 2007, p. 111). Es as
ca ac e ís icas de uma mig ação de cu a e média du ação são ampli icadas pelas medidas de es ição
mig a ó ia impos as po F ança du an e es e no o Ciclo (Je ónimo e al. 2000, p. 41), ainda a
desen ol e .
No que diz espei o ao pêndulo mig a ó io do Ciclo Con empo âneo, não podemos igno a que a
queda do egime do Es ado No o mudou o pe il da mig ação po uguesa, eliminando a necessidade de
uma uga ao se iço mili a (Rocha-T indade, 2000, p. 4). “No cômpu o ge al, os anos 80 são ma cados
po um dec éscimo dos alo es de emig ação” (Je ónimo e al., 2000, p. 41). Quan o à conjun u a
in e nacional, a abe u a das on ei as aquando da en ada na União Eu opeia é um ou o a o de
in ensa in e e ência nas mig ações, nes e caso an o de Po ugal, como en e os es an es países da UE
(Rocha-T indade, 2000, p. 5).
Se pensa mos em núme os, comp eendemos que “a p esença mig a ó ia em F ança é uma
cons an e ao longo do século XX” (B anco, 2001, p. 2), mesmo conside ando que a Eu opa não e a o
des ino de eleição do início de século (como podemos comp eende pela dis inção do Ciclo Clássico do
Ciclo Mode no, explicado an e io men e po Rocha-T indade). O c escimen o des es mesmos núme os,
no en an o, oi e iginoso. Se pelo início da década de 1920 o egis o e a de 11.000 po ugueses
esiden es em F ança e na década de 40 os egis os mos am o dob o de mig an es (B anco, 2001, p.2),
é na década de 60 e 70 que o luxo mig a ó io oma p opo ções que a é à a ualidade são al o de es udo,
sendo as mais ele adas da his ó ia po uguesa (Leand o, 2002, p. 10). En e 1968 e 1975, 758 mil
pessoas en am no país, deixando pa a ás Po ugal. Os dados mos am que na década de 70 o núme o
de mig an es que aziam a a essia de o ma clandes ina é supe io ao núme o de iagens legais e
ap o adas pelo Go e no po uguês (Je ónimo e al., 2000, p. 36).
Pa a cump i o obje i o da a essia clandes ina, o meio mais u ilizado e a o de eco e a
passado es e engajado es, que inham aumen ado subs ancialmen e de ido à cada ez mais ele ada
p ocu a (Sil a, 2015, p. 160). O se iço e a ca o, o emp és imo de dinhei o e a uma á ica eco en e,
assim como o des aze de bens e p op iedades pa a paga a iagem. E a necessá io paga aos
passado es, subo na polícias e agen es de au o idade, assim como p o e , quando possí el, po comida
8
e po um início de ida no no o país (Pe ei a, 2016, p. 14). O pe cu so e a du o e azia-se em g upos
que iam c escendo ao longo do caminho. Pouco mais le a am que dinhei o e a oupa do co po. Os
ela os ei e am a di iculdade da uga, a ome que le a a a lu as po comida (Fe nandes, 2015, p. 39),
o cansaço e o io, o pe igo de se apanhado a qualque momen o e a iolência do p ocesso, po pa e
dos passado es, que iam a sua ida ameaçada pelo meno e o e pelo pe igo da denúncia:
O sen imen o que mais eco do é o medo. Em ce as ocasiões omos deixados um ou dois dias
abandonados. Pensámos que íamos mo e ali. Um dos homens do g upo pe deu-se pelo caminho –
nunca chegou a F ança. Ou o es e e quase a se dei ado po uma ibancei a pelos passado es. Via mal
e começou a dize , aos g i os, que não podia a ança . Pedia pa a o deixa em pelo caminho. Não podia
se : ou seguia ou mo ia. Vi o podia denunciá-los à polícia. (Fe nandes, 2015, p. 39)
No undo, o “sal o” a é F ança e a das ases mais complicadas do pe cu so do mig an e
clandes ino po uguês, ei e ado po di e sos ela os: “G ande pa e do caminho a é F ança se ia ei a a
pé. ‘Acho que a iagem du ou uns 23 dias, mas pe demos a noção do empo’” (Fe nandes, 2015, p.
38). A ob a
Mig ações e Cidadania
, de Ma ias
(2014), desen ol e o ema, e e indo-se a um pano ama
ge al da mig ação clandes ina, aplicá el igualmen e nes e caso:
A imig ação ilegal implica di e sas consequências mui o nega i as, que pa a os mig an es, que pa a os
países de acolhimen o. Do pon o de is a humani á io, os mig an es são sujei os à explo ação b u al das
edes de imig ação clandes ina que lhes ex o quem quan ias subs anciais a oco de anspo e em
condições deplo á eis, o que ep esen a um isco pa a as suas idas e pa a a sua in eg idade ísica.
(Ma ias, 2014, p. 38)
A p e e ência pela F ança nes e pa icula pe íodo é, segundo Bea iz Rocha T indade, de ido a
ês p incipais a o es que culminam em condições a o á eis pa a a iagem e alocação no país.
Menciona, ela i amen e à mig ação clandes ina, a “acei ação pelas au o idades” ancesas (Je ónimo
e al., 2000, p. 44) e a acilidade de legalização da si uação de es adia e abalho po pa e das
au o idades ancesas, que não complica am o assun o. Quan o à si uação abalhis a, explica a al a de
exigência po pa e dos emp egado es de qualque ipo de quali icações ou expe iência, já que o me cado
de abalho es a a em ase de um desen ol imen o eno me e a necessidade de emp ega não coloca a
mui as exigências aos con a ados (p. 44). Es as acilidades podem se mos adas pelo ac o de exis i em
ca a anas com esc i ó ios das au o idades ancesas p on as a o nece abalho ou sal o-condu os
(documen os que pe mi iam a ci culação li e no país (Fe nandes, 2015), nos locais de concen ação de
ecém-chegados.
A mão de ob a po uguesa e a desp o ida de quali icações, an o p o issionais, como
académicas, já que con a am com “pe cu sos escola es ex emamen e cu os” (B anco, 2001, p. 2),
assim como não inha conhecimen os da língua ancesa, ao con á io de ou os mig an es de locais da
anco onia (B anco, 2001, p. 2). Es as condições le a am a que os abalhado es exe cessem unções,
9
no malmen e, como pa e do “escalão mais baixo da cons ução ci il e ob as públicas” ou na ag icul u a,
o que pode se uma con inuação das a i idades que exe ciam an es de mig a (Rocha-T indade, 1976,
p. 993).
O ele ado núme o de en adas não passa a despe cebido, nem pelos cidadãos anceses, nem
pelas associações de es udan es que se e ol am pelos di ei os das condições de ida dos mig an es
(Reis, 2006, p. 66), que acei a am abalhos p ecá ios e i am em habi ações desumanas, como nos
bidon illes
1
(Je ónimo e al., 2000, p.11).
Em ab il de 1927, o Cong esso dos Sindica os da Cons ução é ma cado pela in e enção de
um po uguês que az e e ência à si uação dos abalhado es es angei os e denuncia os pa ões que
explo am e di e enciam os abalhado es nacionais dos es angei os (Clímaco, 2015, p. 45), mos ando
que a si uação de p eca iedade dos abalhado es mig an es e a uma ques ão deba ida já desde o inal
da década de 20, não esol ida e a as ada a é aos anos sessen a e se en a.
Se, po um lado, exis e, en ão, um associa i ismo e mo imen ação dedicados à p o eção
daqueles que na F ança encon am ab igo e melho es condições de ida, po ou o lado, “c esce am
ambém as mani es ações acis as e xenó obas” (Reis, 2006, p. 67) con a os po ugueses, ainda que
os anceses os conside assem mais “assimilá eis que os mag ebinos, sob e udo a gelinos”
p incipalmen e po se em “b ancos, ca ólicos, es a am habi uados a abalha mui o e a p o es a pouco”
(Pe ei a, 2015, p. 48).
Pa alelamen e, no início da década de se en a, F ança en a numa c ise económica que “le ou
o go e no a ado a medidas isando desenco aja a inda de imig an es e con ola a en ada de ilegais”
(Reis, 2006, p. 66), numa sucessão de medidas de “imig ação ze o” que le an a am con o é sia no
deba e sob e os di ei os humanos (Reis, 2006, p. 67).
Exis e, po an o, uma mudança cla a no pe il das ocas mig a ó ias en e Po ugal e F ança. Se
o luxo mig a ó io e a ma cado pela ilegalidade da uga de Po ugal, é depois des e co e po pa e do
go e no ancês que a mudança do p o agonis a da mig ação oco e. Como já aludimos an e io men e,
“se quise mos aça o pe il do emig an e ípico po uguês é possí el a i ma que e a
p edominan emen e do sexo masculino, sol ei o, em idade a i a e com baixas quali icações escola es”
(Je ónimo e al., 2000, p. 38). No en an o, conside ando que, segundo Ma ias (2014), o eag upamen o
amilia é um di ei o dos mig an es, incluindo o cônjuge e os descenden es (mais comumen e) ou os
ascenden es di e os (de equência menos comum), é esse o ipo de mig ação que c esce
1
Bidon ille
, de adução li e al “bai o de la a”, designa um conjun o de habi ações p ecá ias que, sem egulamen ação,
acolhiam os mig an es ecém-chegados sem possibilidades inancei as. (Aguile a & Vi ale, 2015, p. 69).
10
subs ancialmen e depois dos co es mig a ó ios impos os pelas no as polí icas ancesas: “Pa iam
homens, seguidos po ou os homens, depois mulhe es e, inalmen e, as amílias pude am euni -se”
(Rocha-T indade, 1976, p. 994).
No a-se, pois, uma p og essi a “ eminização” da mig ação, em unção do eag upamen o
amilia , mais isí el a pa i de 1974, e ap oximando os alo es mig a ó ios de ambos os sexos”
(Je ónimo e al., 2000, p. 38). Ainda que o ema da mig ação no eminino (pa icula men e pa a F ança)
enha nes e capí ulo a se discu ido com maio p o undidade, é necessá io menciona es a mudança de
pa adigma que az no os con o nos à ida dos mig an es po ugueses na F ança, p incipalmen e pelas
al e ações p o undas nas dinâmicas amilia es. Es e eag upamen o oco ia, mais equen emen e, em
duas ases (ma ido/pai seguido, depois, da esposa e ilhos numa só iagem), mas é de no a que,
acili ado pelo apoio dos a ós e amilia es, es e eencon o amilia ambém acon eceu em ês ases
(ma ido/pai, seguido de esposa/mãe e, só depois, ilhos) (Leand o, 2002). A ajuda dos a ós nes a
si uação de mig ação aseada e a essencial pa a acili a a ida económica da amília, assim como pa a
libe a a mãe da posição de cuidado a e passa a uma de abalhado a (Nob e & Po ela, 2001). Ou
seja, “sem o ânimo, o es o ço e as a i udes das esposas e a ós ace às ci cuns âncias, os sucessos da
i ência mig a ó ia es a iam segu amen e ameaçados” (p. 1141).
Ma ia Eng ácia Leand o e e e no ex o
Caminhos Mig a ó ios no Feminino
(2002), que na “base
des e p ocesso encon a-se uma ligação p ecisa, alice çada em laços in e pessoais en e as á ias
ge ações de mig an es: imig a-se mais acilmen e, pa a um local onde já se conhece alguém, ou pelo
menos se dispõe de alguma in o mação sob e o mesmo” (p. 8). Sendo “na u al que se busque a ajuda
de pessoas em quem se em con iança” (Rocha-T indade, 1976, p.984), o eag upamen o conec a a
amigos, conhecidos e izinhos nos locais de des ino, uma o ma de c ia uma base segu a e de maio
con o o pa a a amília que seguia.
Os p imei os que chega am cons i uíam, pa a os ou os que se lhes seguiam, um anco adou o onde eles
encon a am segu ança, ajuda e o ien ação nos p imei os con ac os com a no a sociedade: encon a
abalho, alojamen o, p ocesso de legalização pa a os clandes inos, en im, a o ece -lhes o necessá io à
sua ida quo idiana. E udo is o se az na lógica da in e ajuda u o do “ ambém me ajuda am a mim” ou
ainda “em caso de necessidade gos a ia que me ajudassem, pois nunca se sabe o que nos pode
acon ece em e a es angei a” e “nos momen os di íceis emos necessidades de odos”. (Leand o,
1993, p. 348).
O abalho
Po ugueses na egião pa isiense. Rein enção dos laços sociais
é um ex o essencial
de Ma ia Eng ácia Leand o pa a pe cebe es e enómeno das comunidades e laços sociais. A au o a
en ende “po laços sociais udo o que man ém em conjun o uma sociedade ou um g upo,

11
independen emen e da sua dimensão quan i a i a e geog á ica e das suas o mas de o ganização social”
(Leand o, 1993, p. 349).
Uma ca ac e ís ica indissociá el da mig ação po uguesa pa a F ança é “a ‘especialização de
des inos’, ou seja, a endência de indi íduos da mesma o igem p ocu a em os mesmos pon os de
chegada” (Je ónimo e al., 2000, p. 37). C ia-se, po isso, um sen imen o de en eajuda em si uações
como a p ocu a de um emp ego à chegada, que acabou po c esce no sen ido da c iação de
comunidades que chegam a e o ganização o icial e ins i ucional como o caso das Geminações. A
p imei a Geminação ei a en e Po ugal e F ança emon a ao ano de 1977, segundo a Associação
Nacional de Municípios Po ugueses que ap esen a uma lis a ex ensi a des as ligações. Es as “cadeias
de ligação en e dis ância-p oximidade da e a na al” são “baseadas no ele ado núme o de po ugueses
que, sendo o iginá ios des a ou daquela egião, se di igi am e ixa am numa de e minada egião ancesa
(Leand o, 2000, p. 359) e omam g ande impo ância no aumen o das “possibilidades de in e ligação
ma e ial e simbólica” (Leand o, 2000, p. 359).
A concen ação de po ugueses nos
bidon illes –
“As epo agens publicadas en e 1964 e 1965
– quando a si uação oi no ícia nos media anceses – calcula am que exis issem en e 10 a 15 mil
habi an es no
bidon ille
” (Fe nandes, 2015, p. 56) – acili a es e sen ido de en eajuda, an o pela
p oximidade geog á ica com ou as pessoas conhecidas, an o quan o pela ga an ia de que algum local,
po mais p ecá io que seja, os acolhe ia depois de dias de longa e á dua iagem.
Champigny oi o maio bai o de la a habi ado po es a comunidade em F ança. As p imei as cons uções
p ecá ias no planal o o am ei as en e 1956 e 1957, quando i iam ali ce ca de 100 po ugueses. Em
1961, já e am 600. Em ês anos, o núme o c esceu en e 13 a 16 ezes e chegou aos 8 mil ou 10 mil.
(Fe nandes, 2015, p. 55)
O aumen o da “a i mação colec i a dos po ugueses, enquan o um g upo o ganizado” (Leand o,
1993, p. 353), an o em núme o de in e essados na pa icipação a i a, quan o em núme o de
associações des inadas à en eajuda e ao con í io sociocul u al, pode se explicado po uma on ade de
con o na as di iculdades de inse ção ine en es à condição de mig an e. Leand o e e e que as pessoas
mig an es man êm o p óp io código cul u al na p i acidade das suas elações p imá ias e ado am os
aços e modelo da cul u a dominan e onde se inse em nas elações secundá ias, mais públicas e mais
dis an es (Leand o, 1992, p. 31). As e en uais es anhezas da o ma de agi da sociedade onde ago a
se inse em, “ a o ecem a sua adicalização cul u al e a endência pa a o associa i ismo selec i o de
ca iz nacional, egional e local, que desen ol em” (Rocha-T indade, 1976, p. 985). Es a associação e
o ma de inclusão, no en an o, coloca-os numa posição de “comunidade in isí el” (Leand o, 2000, p.
12
18) na sociedade ancesa (exce uando no mundo do abalho), apa en emen e “bem in eg ados” numa
“imig ação sem p oblemas” (Nob e & Po ela, 2001, p. 1119).
Ma ia Bea iz Rocha T indade alude a uma ansplan ação da es u u a social de o igem pa a
F ança, naquela que é a lógica de man e as con i ências que exis iam nas aldeias e cidades onde i iam
an e io men e (Rocha-T indade, 1976, p. 994). Num ou o dos seus abalhos menciona a “ o mação de
comunidades bipola es” (Rocha-T indade, 2000, p.4), aplicada a es a mesma linha de pensamen o. No
ex o
En e Pinela e Pa is
(2001), Nob e e Po ela usam as pala as de Poina d (1983, p. 279) pa a
explica que o sucesso da mig ação es á in imamen e elacionado com es as cole i izações que
uncionam como “pon o de a e agem” (Nob e & Po ela, 2001, p. 1116). Num no o país, “p isionei o
da sua cul u a, o emig an e não consegue dela desliga -se in eg almen e nos mo imen os espaciais e
sociais que ealiza. T anspo a-a e modi ica-a numa dinâmica que ca ac e iza a sua p óp ia exis ência”
(Rocha-T indade, 1976, p. 997).
Ou as conexões são c iadas à e a na al, como os “jo nais egionais, que ainda hoje são pa a
os po ugueses no es angei o um elo de ligação com a egião de o igem e o país onde ela se inse e”
(Leand o, 1993, p. 358). Vão di undindo no país de acolhimen o lojas de ua e supe me cados que
con am com p odu os po ugueses, assim como os es au an es nacionais nas uas de Pa is (que êm
clien ela essencialmen e po uguesa), que nos pe mi em pe cebe es as pon es c iadas, assim como o
alo a ibuído à culiná ia po uguesa que “con inua ainda mui o a eigada nos seus hábi os alimen a es”
(Leand o, 1993, p. 359).
Podemos conclui que es as “comunidades bipola es” (Rocha-T indade, 2000, p. 4) são ambém
mo i o pa a que o eg esso nas é ias (não o e o no, de ini i o, que Paulo Filipe Mon ei o (1994) ac edi a
se um mi o) se ão na u al e uma con inuidade da ida no país de acolhimen o.
Pa a a comunidade e sob e udo pa a os emig an es "em é ias", o e ão é empo de casamen os,
bap izados e cul o dos an epassados; de a aiais, ogue es e p ocissões; de isi as, passeios e
pe eg inações; de banque es, olias e des a ios; de alianças, p endas e leilões; de compe ições, in ejas
e os en ações; de pa ilhas, desa enças e b igas; de in en á ios, encenações e econhecimen os; de
negócios, esc i u as e consumos; de planos, emp eendimen os e acabamen os; de con as, a qui os e
documen os; de ca ó ios, azendas e bancos; de es adas, caminhos e e ei os; de p essas, excessos e
bloqueios. (Gonçal es & Gonçal es, 1991, p. 5)
O e ão é ma co na ida de milha es de amílias, dos dois lados des a equação, uma espe a pelo
eencon o, pelo e i e de dinâmicas e pelo e e e de “um a as amen o geog á ico, enca ado como
empo á io, pois as elações sociais es abelecem-se com in imidade, na u almen e” (Rocha-T indade,
1976, p. 994). É essencialmen e um empo dedicado aos pa en es, an o aos mais elhos, quan o aos
p imos que se ão conhecendo. “Com os eg essos anuais, os laços en e os emig an es e os amilia es
13
que pe manece am na aldeia […] eco da am-se, e i aliza am-se ciclicamen e” (Nob e & Po ela, 2001,
p. 1127). É um ol a aos luga es que solidi icam o sen imen o de ainda pe ence àquele local que o/a
iu nasce , mas não mais ê c esce e en elhece . “A e isi ação dos luga es, campos, lamei os e
cemi é ios e sob e udo os eencon os com amigos, izinhos e gen e conhecida o aleciam, po ce o,
os sen imen os de pe ença e de usão com a gen e e a e a” (Nob e & Po ela, 2001, p. 1127).
As isi as do mês de agos o ( ulgo, é ias), são ambém uma o ma de con i mação que odos
os sonhos (como o da casa p óp ia) e manu enção do bem-es a da amília, pa a os quais en ia am
pa e signi ica i a do salá io, es ão em bom caminho.
Assim, quase odos os inqui idos (86%) ealiza am in es imen os em habi ação, nes es se incluindo a
comp a de e eno e a cons ução de casa p óp ia, ou a aquisição de casa, ou mesmo a ecupe ação de
habi ação an iga. E as « é ias» e am ambém ocasião pa a ca ega e desca ega ma e iais de
cons ução, aze massas, pô chãos, le an a pa edes, en im, aze a casa que saía do co po. (Nob e &
Po ela, 2001, p. 1128)
Sabemos que, desde o Es ado No o, que incu ia ( o ça a) alo es de abalho e poupança na
população (Nob e & Po ela, 2001, p. 1120), es es são o emen e associados aos mig an es
po ugueses. O p ocesso de emessas oi ca ac e ís ica essencial des a mig ação. “Necessi ando da
expo ação de mão de ob a e da impo ação de di isas, o Es ado p ecisou que os mig an es, ainda que
não ol assem, sen issem su icien emen e Po ugal como país de pe ença a pon o de pa a ele en ia em
as suas poupanças” (Mon ei o, 1994, p. 8).
A isi a do Na al ambém é das mais eco en es, seguindo a adição da quad a que ap oxima
a amília. Os pais e a ós en elhecem, a ideia de pe da oma p oximidade e as iagens de cu a isi a ão
omando mais ele ância e eco ência:
São momen os consag ados aos seus: pa en es, amigos, izinhos; luga es, objec os, cos umes. A udo o
que lhes é que ido e lhes alice ça a iden idade. Sonha-se a casa a cons ui , e e namen e inacabada. Lê-
se "A Bola" e o jo nal egional. Fes eja-se, segundo a adição, a consoada. Coze-se bacalhau com ba a as
e cou es. Bebe-se o e dasco. (Gonçal es & Gonçal es, 1991, p. 9)
São pe ce í eis, no eencon o, as mudanças que a con i ência nos países de acolhimen o c iou
po meio de “no os modelos sociocul u ais de elação social e o acesso a ou os ní eis socioeconómicos”
(Leand o, 1993, p. 348). Es es “são alguns ac o es que ão a o ece a eme gência de no os quad os
de pensamen o, in luenciando, assim, as a i udes e os compo amen os em ma é ia de laços sociais”
(Leand o, 1993, p. 348). Os locais de o igem são a e ados pelas no as dinâmicas, p incipalmen e nos
compo amen os:
obse ou-se ambém o impac o da emig ação nas a iá eis sócio-demog á icas do meio u al e ag ícola,
sob e udo em egiões do no e in e io de Po ugal, nomeadamen e no casamen o, nas axas de
na alidade, ecundidade e ilegi imidade, e em ou os compo amen os sexuais e cos umes cul u ais.
(Sil a, 2015, p. 163)
14
E ade indo à mudança, segundo Leand o (2002), as amílias po uguesas mig adas i em em
“cons an e negociação de sen ido en e dois espaços e dois empos dis in os, p ocu ando encon a , em
cada uma des as componen es, os elemen os da sua p óp ia dinâmica e iden idade amilia ” (Leand o,
2002, p. 57).
É nos momen os da isi a que, po ezes, o e o no pode pa ece ainda mais necessá io. A
es a égia mig a ó ia o ien ada pa a o eg esso “quase semp e es á p esen e no imaginá io e na e ó ica
an o dos que ica am como dos que saí am de Po ugal, mas que em mui os ( al ez na maio ia), dos
casos, an igos e ecen es, esse eg esso
não se conc e iza
” (Mon ei o, 1994, p. 8). A es adia que e a
i ida como p o isó ia, “ oi adqui indo, pa a a maio ia, um ca á e de ini i o” (Leand o, 2002, p. 57).
A ob a
Emig ação – O E e no Mi o do Re o no
, de Paulo Filipe Mon ei o (1994), coloca, al como
indica no í ulo, a ideia de um e o no como um mi o, explo ando o po quê des a conclusão. Des aca a
dis inção ei a en e emig ação e êxodo: “Emig an e não é apenas aquele que pa e pa a ou o país, é
aquele que de alguma o ma se man ém ligado ao país de o igem” (Mon ei o, 1994, p. 7). A ob a explo a,
ambém, a condição do “emig ado”, colocando-o num limbo, no meio de duas pa es, um concei o
desen ol ido po Homi Bhabha (1998). Es a “en e luga es” possibili a a c iação de “no os signos de
iden idade e pos os ino ado es de colabo ação e con es ação, no a o de de ini a p óp ia ideia de
sociedade” (p. 20).
a si uação de cada emig ado, em quase semp e de se is a no con ex o da espec i a amília, e ambém
po que mesmo pa a cada emig ado, nes as si uações são especialmen e p o undas as dissonâncias en e
aquilo que se diz e aquilo que se az, e ainda po que a si uação de es a emig ado é uma si uação
ambi alen e, de es a en e dois Es ados e das suas cul u as, com udo o que isso c ia de possibilidades
de escapa ao con olo de qualque das pa es mas, ambém, de possibilidades de desinse ção, não se
pe encendo nem a uma pa e nem à ou a. (Mon ei o, 1994, p. 4)
Mon ei o (1994) a gumen a que exis e algo no mig an e po uguês que não o deixa abandona
o sen imen o de pe ença a Po ugal, e que quando e e i amen e não e o na, a e dade é que não se
en ega ao país que o ecebe. “O po uguês em mani es ado em ge al uma o e ligação sen imen al a
uma e a que equen emen e lhe oi mad as a, mesmo que a in enção de eg essa de ini i amen e não
enha, em mui os casos, a e ec i a -se” (p. 19). A i ma que “o abandono de Po ugal nunca é adical”
(p. 19). Ainda assim, comp eende que milha es de po ugueses que se adica am nou os países são
inse idos na “ ama dos po os que os acolhe am” (p. 7).
Es e en ol imen o é o emen e elacionado aos ilhos que nascem e c escem em F ança.
Leand o (2002, p. 58) menciona uma “ ipla socialização” a que es es dois g upos são subme idos e
a ibui à escola (e a é ao ac o de mui os ilhos a ingi em um ní el de escola ização mais ele ado que os
21
po uguesa de en ão (Leand o, 2002, p. 62). Re e e que exis e uma di e ença en e homens e mulhe es
na adesão des es no os alo es e p á icas, que as mulhe es a azem “de on ade delibe ada, ao passo
que pa a alguns homens ela con ém alguma dose de esignação, pe an e ealidades que pa ecem
escapa -lhes” (Leand o, 2002, p. 62). Es a é uma ese de endida po ou os au o es como José Po ela
e Síl ia Nob e (2001), pe ce í el no ac o de que “com a mig ação ninguém é já o mesmo, mas os
homens mudam menos do que as mulhe es a sua “ isão do mundo” (Nob e & Po ela, 2001, p. 1142),
mas desen ol ida essencialmen e na esis ência ao eg esso a Po ugal. A ol a signi ica uma po encial
pe da de independência e au onomia, que o salá io e a p óp ia sociedade lhes con e ia.
As mulhe es em especial as mais jo ens esis em, mui o mais que os homens, à ideia do e o no
de ini i o, pela ameaça de e ocesso que nele an e êem. Assim se explica, em la ga medida, que em
dez dos doze casais ex-emig an es eins alados na aldeia que es udámos, nos enha sido
pe emp o iamen e a i mado, po um ou po ambos os cônjuges, que na decisão do eg esso p e aleceu
a on ade dos ma idos. As mulhe es, essas, decla adamen e eg essa am con a iadas, quase nunca
sem an es ha e em esgo ado as o mas de oposição, ao seu alcance [...] Vie am, mas i em o eg esso
com um p onunciado sen ido de pe da e, po isso, con inuam a dize que es ão a ependidas de e indo.
(Nob e & Po ela, 2001, p. 1134)
Ainda que econheçam as di iculdades de i e num país que não o seu, con a iamen e aos
homens que à F ança chamam “du a” e dela não êm saudades, a ol a pa a a ida de aldeia mos ou-
se se uma adap ação di ícil (Nob e & Po ela, 2001, p. 1133).
Um ac o de eno me ele ância pa a ca ac e iza a expe iência mig a ó ia eminina oi a di e ença
de idade com que abandona am o país de o igem. Quando c ianças ou jo ens, o p ocesso de adap ação
oi simpli icado e es as “ e elam uma g ande capacidade de assimilação dos alo es da sociedade
en ol en e” (Leand o, 2002, p. 23). No documen o
Caminhos Mig a ó ios no Feminino
(2002) podemos
le que es as o am subme idas a um “duplo p ocesso de socialização”, um lado ela i o à amília, que
lhes ai ansmi indo ca ac e ís icas da cul u a de o igem e ou o lado, o da sociedade onde se inse em,
con ando com a g ande in luência da escola e dos média (Leand o, 2002, p. 23).
Sob e a ansmissão da cul u a de o igem, é necessá io des aca que, mesmo que ece o as em
elação à sociedade onde se inse em no país de acolhimen o, o ac o de es a em en ol idas nas
a i idades das comunidades po uguesas, seja em associa i ismo, de o ma eligiosa ou no
desen ol imen o de a i idades, as coloca numa posição de di uso as da cul u a po uguesa:
São no ó ios os con ibu os das mulhe es, em e mos da ansmissão de ce os aços da cul u a
po uguesa como a culiná ia, o olclo e, os la o es e uma ce a o ma de se elaciona com os ou os,
mas ambém em e mos da in odução de no os elemen os mais conec ados com a cul u a das
sociedades onde esidem. (Leand o, 2002, p. 25)

22
Não podemos esquece que ao longo das décadas, assim como o ca á e da mig ação oi sendo
al e ado, a pa do a anço das sociedades e do início da globalização, as deslocações das mulhe es
ambém omam di e en es con o nos. Po exemplo, a mig ação ei a po mulhe es p é 25 de Ab il é
di e en e da que é ei a depois das al e ações à sociedade po uguesa, pela sua maio abe u a e a anços
cul u ais i enciados (Leand o, 2002, p. 19). As di e enças e, consequen emen e, a mudança são menos
in ensas po que já exis ia um capi al cul u al que pe mi iu ansições mais sólidas (Leand o, 2002, p.
19).
To na-se impossí el, en ão, de ini um pe il que seja ab angen e a odas, ou pelo menos à
maio ia, das mulhe es mig an es. As a ian es como as condições da sua mig ação, “a idade, o es a u o
ci il, o g au de escola ização, as o mas de e/imig ação e as o mas de in es imen o pessoal, amilia e
social” (Leand o, 2002, p. 17) são de al o dem que, desde 2002 a é à a ualidade, cada ez se o na
mais complicada a de inição do pe il das mulhe es que decidem pa i do seu país. Ainda assim, é cla a
a di e ença p o ocada pelos no os capi ais humanos (como o ní el de escola idade e quali icações
p á icas e académicas) de que são de en o as, e des acam-se legislações e e en es à disc iminação de
géne o que colocam as mig an es do século XXI alguns passos à en e das do século XX (Assis, 2007,
p. 750).
Em sín ese, a mig ação eminina em con o nos complexos. A conjun u a do eag upamen o
amilia , concedida ao mo imen o mig a ó io das mulhe es não e a o único mo i o pa a que es as
deslocações ossem ei as, ainda que não possamos igno a a sua ele ância numé ica e na al e ação
das dinâmicas sociais e amilia es. As mulhe es mig a am igualmen e, sozinhas, po mo i os
económicos, assim como o am pa icipan es a i as nos sis emas de mig ação clandes ina. A sua posição
de abalhado a assala iada e mãe az com que ossem elos en e a amília e a sociedade ancesa,
le ando a uma emancipação p óp ia assim como de odo o núcleo amilia .
23
Capí ulo II – Iden idades, Nacionalidades e Rep esen ações
2.1 Iden idades e Nacionalidades
É cu ioso e e elado que o concei o de iden idade seja equen emen e con ocado pa a da con a do
laço que une um po o e es e a um e i ó io (mesmo que mí ico), esse sen imen o de pe ença que ma ca
e iden i ica odos e cada um dos ilhos da e a. (Ribei o, 2008, p. 13)
Pa a comp eende mos es a a i mação, que em mui o é ele an e pa a es a in es igação, é
necessá io de ini e desen ol e dois concei os essenciais, o de iden idade e o de nacionalidade.
O su gimen o do concei o de iden idade e o início da sua conceção como algo que me ece uma
a enção dos es udiosos, dá-se quando o mo imen o e a pe ença a á ios e di e en es g upos c iam uma
necessidade de o nece explicações e aze a i mações que êm como po base a iden idade dos sujei os.
O sujei o pós-mode no é, en ão, ca ac e izado po um conjun o de p ocessos que culminam numa
iden idade em cons an e mo imen o, uma “celeb ação mó el” (Hall, 1992, p. 12).
No abalho
A Iden idade Cul u al na Pós-Mode nidade
, S ua Hall (1992), nome des acado da
á ea dos Es udos Cul u ais, explica que a ideia de uma iden idade em o no do “eu” é uma ilusão, que
o sujei o assume “iden idades di e en es em di e en es momen os” (p.13) e que a mul iplicidade de
ep esen ações cul u ais esul a numa igualmen e múl ipla de inição de iden idade (p.13).
Es e complexo p ocesso não nasce ine en e ao sujei o, mas é algo que se o ma ao longo do
empo (Hall, 1992, p. 38). Podemos conside a que semp e que a iden idade é ap eendida, é em elação
a um empo e a um luga , não de o ma abs a a e que es es dados são essenciais pa a a sua
comp eensão (Sa up, 1996, p. 15). C iadas den o do discu so, as iden idades só podem se
comp eendidas quando analisadas em elação às ins i uições e “locais his ó icos” de o mação e
p odução especí icos (Hall, 2000, p. 109).
Seguindo es a mesma ideia de a o es ex e nos que in luenciam a edi icação da iden idade, o
au o do ex o
Iden i y, Cul u e and he Pos mode n Wo ld
(1996) a gumen a que a iden idade é um
esul ado das ins i uições socializado as, dando como exemplo os pais, es an e amília, escola, local de
es udo ou abalho e amigos (Sa up, 1996, p. 48). Re e e ainda a in luência de ou os elemen os como
a oupa que es imos, coisas que lemos, o que pensamos da sociedade e se ac edi amos nas
ans o mações que ela so e. Relaciona de o ma cla a a ida quo idiana e o p ocesso da cons ução da
iden idade (Sa up, 1996, p. 105). Nes a mesma linha de pensamen o, Tim Edenso (2002) coloca a
epe ição de o inas, a higiene, o abalho e a di e são como coisas que cons i uem “um eino de ‘senso
24
comum’”, que o e ecem uma “comp eensão p o unda da ligação en e cul u al e iden idade” (p. 90) e
são essenciais pa a a c iação de um sen ido de iden idade (p. 96).
Glynis B eakwell (2010) expõe a ideia de Ge a d Du een, que coloca as iden idades como algo
cons uído de o ma ex e na, in luenciadas pelo e pa e do “campo simbólico da cul u a”, e que não são
unicamen e elabo adas de o ma in e na (p. 6.1). Es a e lexão ai de encon o às ideias, an e io men e
expos as. Ainda assim, não exclui que a pessoa em algum ipo de agência na cons ução da sua
iden idade, sendo que signi ica i as mudanças na iden idade do sujei o são ei as po ele p óp io, de
o ma in encional (p. 6.5).
O abalho de B eakwell sob e iden idades esul ou na eo ia da iden idade como p ocesso (a
Iden i y P ocess Theo y ou IPT). Es a é uma o ma de in e p e a a iden idade que a coloca, igualmen e,
como algo c iado num de e minado con ex o social e que, consequen emen e é pa e de um con ex o
his ó ico pa icula (Cabecinhas & Macedo, 2012, p. 184). Po an o, cada indi íduo é um “p odu o social
dinâmico, esul ado das in e ações en e as capacidades da memó ia, da consciência”, que in e p e a
as es u u as e p ocessos de um con ex o social (Macedo, 2016, p. 97). A au o a ac edi a que “a
iden idade eside em p ocessos psicológicos, mas se mani es a a a és do pensamen o, da ação e do
a e o” (B eakwell, 2010, p. 6.3) e que “as iden idades o necem o mas de o ganiza signi icados de
modo a sus en a uma sensação de es abilidade (B eakwell, 2010, p. 6.1).
Apesa de B eakwell (2010) não conside a na sua eo ia a dis inção en e iden idade pessoal e
iden idade social, es e são concei os que nos in e essam desen ol e no p esen e abalho. A p imei a
alude aos “ alo es, a i udes, es ilo cogni i o” do indi íduo, enquan o a segunda é sob e “pe enças,
no mas, ca ego ias sociais” (Cabecinhas & Macedo, 2012, p. 185). Es as são cons uídas e modi icadas
de aco do com as mudanças sociais e no idades cul u ais (Fo una, 1999, p. 24).
De o ma semelhan e, Sa up (2012) dis ingue duas di e en es e en es da iden idade: a
iden idade ‘pública’ e a iden idade ‘p i ada’. A ‘p i ada’, como o nome indica, e e e-se ao nosso
“concei o de
sel
” e à o ma como nos emos, enquan o a pública se ia alusi a a como os ou os nos
ipi ica am, nos o ula am, um p ocesso que ele iden i ica como um dos elemen os da cons ução de
iden idade (p.14).
S ua Hall, em
Cul u al Iden i y and Cinema ic Rep esen a ion
(1989) ê a iden idade cul u al
de duas di e en es e en es. Numa p imei a ins ância comen a a iden idade cul u al como uma cul u a
única e pa ilhada, como que esul an e de um “eu” que é o mais au ên ico e compos o de mui os ou os
“eus” que pa ilham uma his ó ia ou ascendência. Nes a p imei a de inição, a iden idade cul u al é
colocada como e le o a de códigos cul u ais e his ó ias pa ilhadas e que esul am num “só po o” (p
25
.69). Num segundo sen ido, a iden idade cul u al é colocada como uma ques ão de “ o na -se” e “se ”
algo que é an o do u u o quan o do passado, anscende luga , empo, his ó ia e cul u a e es á sujei o
a cons an es ans o mações (p.70).
Os signi icados sociais o ganizam odas as p á icas sociais, “es abelecem eg as, no mas e
con enções pelas quais a ida social é o denada e go e nada” (Hall, 1997, p. 4). Po es e mo i o, o
au o conside a que duas pessoas que pa ilhem da mesma iden idade cul u al são duas pessoas que à
pa ida in e p e am o mundo da mesma manei a e são capazes de exp essa pensamen os e sen imen os
sob e o mundo de o ma a se em comp eendidas pelo ou o que se iden i ica cul u almen e de o ma
igual (Hall, 1997, p. 2). Du kheim (mencionado po Macedo, 2016, p. 104) desen ol e de o ma simila
a ideia de que os indi íduos que pa icipam da mesma sociedade pa ilham alo es que ce i icam que
con inuam in eg ados – o concei o de consciência cole i a. Nenhuma iden idade pode se genuinamen e
indi idual po que é de i ada da cons ução e a iculação en e as disposições indi iduais e
cons angimen os e inci amen os sociais (Ribei o, 2008, p. 16) e o “au oconcei o” de um indi íduo é
consequência do seu conhecimen o do seu g upo social e do sen imen o de pe ença a esse de e minado
cole i o (Macedo, 2016, p. 98).
A ideia da pe ença a uma comunidade é essencial pa a o desen ol imen o des e abalho. Pensa
a comunidade e comp eende o sen imen o e iden i icação adjacen es ajuda á na comp eensão de casos
especí icos como a da mig ação po uguesa pa a F ança, a comunidade de mig an es que se o mou, a
ideia de pe ença a um país onde já não se encon am ou a é mesmo uma possí el ans e ência da
iden i icação nacional pa a o país de acolhimen o.
Benedic Ande son desen ol e o seu abalho
Comunidades Imaginadas
(1983) dedicado
exclusi amen e à comp eensão des e sen ido de comunidade, como es e se ans e e pa a a ideia de
Nação e as implicações sociais do enómeno. Segundo o au o , odas as comunidades são imaginadas
po que os seus in eg an es são unidos po um sen ido de pe ença e comunhão, mesmo quando é
impossí el que e e i amen e se conheçam (p. 32). Mais do que isso, mesmo que den o de si a
comunidade seja cons i uída de eno mes desigualdades e di e enças, exis e um senso de a e nidade,
que designa de “p o unda cama adagem ho izon al” (p. 34). Coloca como p incipal undado des as
comunidades o e en o do capi alismo, a imp ensa, al amen e a e ada pelo an e io , as ecnologias da
comunicação e, po im, a “ a alidade da di e sidade linguís ica humana” (p. 78).
O indi íduo, que é pa e da comunidade, ende, po an o, a in e p e a es a es u u a simbólica
(“imaginada”), como a língua, a cul u a, a solida iedade ab icada, como algo que o dena e coo dena a
sua p óp ia ida. “A consis ência simbólica dos p oje os de ida indi iduais e cole i os” assegu am a
26
ep odução do g upo (Ma ins, 2021, p. 28). Ainda que a es u u a da comunidade seja imaginada, ela
não é do imaginá io, dado que em impac os p o undos e eais na ida das pessoas (Sob al, 2012, p.
84).
É impo an e o papel essencial da língua e da linguagem. Hall (1992) az menção aos pad ões
de al abe ização que, gene alizando uma língua única como p incipal meio de comunicação o nam
possí el uma cul u a homogénea e acili am a exis ência de ins i uições cul u ais nacionais como um
sis ema educacional (p. 49). No en an o, quando mencionada po Ande son (1983), es e conclui que
apesa da sua impo ância inicial, não é mais necessá ia uma homogeneidade linguís ica pa a cons i ui
uma nação (p. 191). Pelo seu ca á e imaginado, são, po an o, ó gãos que se moldam, adap am e
ans o mam ao longo do empo (Macedo, 2016, p. 100) e a língua é um exemplo disso.
A junção de um Es ado com o sen imen o da Nação, que já colocamos como algo imaginado,
esul a numa en idade onde a ibu os como o e i ó io, po o/população e es u u a go e namen al são
insu lados po um espí i o e uma noção de que aquele não é apenas um e i ó io qualque , mas um
espaço com his ó ia, conquis as e “man ido a cus o de sangue” (Ribei o, 2008, p. 28).
Es e é um sen imen o e espí i o que não necessa iamen e é pa ilhado na o ma de um des ino
em comum, mas sim de uma his ó ia que legi ima as ambições do que podem i a c ia (Ribei o, 2008,
p. 32). Os sen idos que a nação p oduz não são apenas os da en idade polí ica, mas sim algo onde os
cidadãos são p incipais pa icipan es (Hall, 1992, p. 49). A cons ução des a iden idade é pa e do
p ocesso polí ico pa a es abelece a ideia de nação (Sa up, 2012, p. 140).
Pa a que as nações, sendo es u u as ideológicas e sociais, enham como que uma cons an e
ea i mação, cons an e supo e, mobiliza-se “em o no delas um conjun o de mecanismos de cons ução
on ológica que as au onomiza e ei ica enquan o en idades simul aneamen e eais e simbólicas” (Ribei o,
2008, p. 12). São, po an o, ei as demons ações o inei as de símbolos e comemo ações nacionais
(Lica a e al., 2011, p. 904), assim como c iados ma cado es ma e iais ób ios como selos, b asões,
moedas, bandei as e hinos (Edenso , 2002, p. 113). Benedic Ande son (1983) e e e o alo dos hinos
nacionais que colocam a população num momen o de simul aneidade, de alimen o da comunidade
imaginada (p. 203) e Madan Sa up (2012) e e e a impo ância das “ adições” pelo seu ca á e de
con inuação, cos ume e he e ogeneidade, impo an e no incula de um po o, e na cons ução de uma
ideia de uma iden idade pa ilhada (p. 182).
As na a i as pe pe uadas na his ó ia, li e a u a, cul u a popula e nos média “simbolizam ou
ep esen am
as expe iências pa ilhadas, as pe das, os iun os e os desas es que dão sen ido à nação”
e os memb os da “comunidade imaginada” pa ilham dessas na a i as (Hall, 1992, p. 52). A

27
ins umen alização de uma na a i a sob e o passado é undamen al pa a uma ideia de memó ia cole i a
e de iden i icação e pe ença a um de e minado g upo, nes e caso, um país (Cabecinhas 2015, p. 337).
O p óp io Es ado, po an o, quando pe cebe que a nação é a sua p incipal on e de legi imidade,
segue num caminho de ele ação de monumen os, de de esa do passado menos “limpo”, de
popula ização de emas nacionais/nacionalis as em publicações que acedidas pela maio ia das pessoas
e não apenas pelos e udi os e académicos (Macedo, 2016, p. 102). Não podemos igno a o papel dos
média no pe pe ua da ep odução da iden idade nacional quando, po exemplo, u ilizam o e mo “nós”
que, sem necessidade de explicação ex a, é e e en e ao “nós” memb os da nação (algo ei o po
polí icos, esc i o es ou a é académicos) (Edenso , 2002, p. 11).
Es as demons ações de nacionalidade, como são obje i amen e áceis de iden i ica como pa e
de uma cul u a nacional, endem a o usca as p á icas quo idianas, assim como as cul u as popula es e
de massa, que são idas como ce as e nem semp e elemb adas como os símbolos po en es e
pe ce í eis que podem se (Edenso , 2002, p. 9). Ainda assim, quando conside amos os hábi os,
p essupos os e o inas de di e sas pessoas, e es as se enquad am num pad ão econhecí el e pa ilhado,
dá-se o início de uma “ins i ucionalização” (Edenso , 2002, p. 19) que não necessa iamen e signi ica
um aco do comum, mas sim uma acili ação da comunicação e es abelecimen o de um maio sen ido
de pe ença nacional (Edenso , 2002, p. 20). Os i mos locais sinc onizam-se com um i mo nacional,
colocado como um “mosaico cul u al nacional” (Edenso , 2002, p.21). Não impo a exa amen e o quão
di e en es podem se os memb os des e ag upamen o em e mos de gêne o ou classe, po exemplo, que
a ideia de uma cul u a nacional p ocu a uma união debaixo da alçada da iden idade da g ande “ amília
nacional” (Hall, 1992, p. 59). É essa a sua unção, a de con e gi com a iden idade nacional pa a ajuda
o indi íduo a in eg a -se na sociedade, assim como si uá-lo em elação ao mundo (Gama, 2017, p. 5).
Conside ando os elemen os acima e e idos, podemos pensa en ão no su gimen o de um
sen imen o de iden idade nacional, de uma p odução de sen idos que cons oem iden idades de pe ença
à nação como pa e da iden idade do sujei o (Hall, 1992, p. 51). Essa iden i icação que a ualmen e
a ibuímos à nacionalidade e a, an e io à mode nidade, dada às ibos, à eligião e à egião de esidência
e oi sendo ans e ida pa a a cul u a nacional nos países e cidades ociden ais (Hall, 1992, p. 49).
Manuel Gama (2017) esume os aspe os undamen ais pa a a c iação de uma iden idade
nacional segundo An hony Smi h. Des aca, em p imei o luga , um e i ó io his ó ico, em segundo luga
um conjun o de mi os e memó ias his ó icas comuns, segue com a menção a uma cul u a de massas
pública comum, di ei os e de e es legais comuns e, po im, uma economia comum (p. 4). Podemos
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ambém en ende a cons ução dessa iden idade como esul ado do p ocesso de in e ação en e
pessoas, ins i uições e p á icas (Sa up, 1996, p. 11).
A demons ação da ideia de iden idade nacional ambém implica “uma consciência de igualdade
legal, consubs anciada nos di ei os e de e es ci is, polí icos e socioeconómicos (Gama, 2017, p. 3), ideia
ei e ada po Tim Edenso quando e e e que a iden idade nacional é exa amen e acili ada pelas p á icas
legisla i as do Es ado, que “delimi a e egula as p á icas em que as pessoas podem pa icipa , os
espaços em que lhes é pe mi ido ci cula e, de mui as ou as o mas, o nece um quad o pa a a
expe iência quo idiana” (Edenso , 2002, p. 20).
Re le indo sob e os e ei os das mig ações na iden idade nacional, Ri a Ribei o (2008) conside a
que é possí el que uma expe iência mig a ó ia de longa du ação ans o me o sen imen o de pe ença
de, po exemplo, Po ugal pa a F ança, sendo a é possí el uma sob eposição dessas duas iden idades e
a sua conjugação se impo an e pa a o indi íduo. A imp e isibilidade e agmen ação das iden idades
dá luga a que alguém sin a g ande pe ença a uma zona de Po ugal e não ao país como um conjun o,
ou a uma Eu opa e não ao país de o igem (Ribei o, 2008, p. 18). Hall (1992) ac escen a que as
iden idades nacionais não subo dinam as es an es o mas de iden i icação dos indi íduos, se indo
como um “cos u a ” das di e enças, di isões e con adições, debaixo de uma iden idade (p. 65).
Pensando nes e ema, é na u al que a globalização seja um a o de e lexão, mas não é cla o que
os p ocessos de globalização enham di e a e imedia a elação com o des anece de uma iden idade
nacional. E e i amen e, podem a é e o çá-la. Ainda assim, exis e um acili amen o da expansão das
iden idades e uma oca que as in luencia (Edenso , 2002, p. 29). O momen o a ual é de plu alização
das iden idades nacionais e de al e ações na o ma como a sociedade se o ganiza pa a compo a es as
e o mulações e ans o mações sociais, ecnológicas, polí icas e económicas cons an es (B asil &
Cabecinhas, 2019, p. 90).
José Sob al (2020) coloca a ques ão de o ma esumida, a i mando que uma iden idade nacional
pode á se analisada em di e sas dimensões: a ‘dimensão psicológica’ que diz espei o à consciência de
pe ença e a inidade ao g upo; a ‘dimensão cul u al’ ela i a às c enças e símbolos que esse g upo
pa ilha, como a língua; uma ‘dimensão polí ica’ que se incula a um sen imen o de lealdade; e his ó ia,
mi ologia, um e i ó io e uma pá ia, aos quais os habi an es es ejam inculados de o ma emocional,
simbólica e ma e ial (Sob al, 2020, p. 174). Todos es es elemen os são, no seu conjun o, a ecei a pa a
a exis ência do sen imen o de pe ença e a sua exis ência, de ele ância mesmo que a bi á ia, é
impo an e pa a que os g upos nacionais se di e enciem, dis ingam e iden i iquem (Sob al, 2012, p. 17).
29
Ande son (1983) ponde a sob e a di e ença cen al en e as na a i as pessoais e as na a i as
nacionais, numa in e essan e e lexão sob e a qual disse amos nes e capí ulo. As p imei as ele explica
que êm um início e um im, u o da gené ica dos pais e dos con ex os sociais, desempenhando um
papel e ême o a é à sua mo e, com a única con inuação possí el sendo a a és da ama ou da in luência
exe cida em ida. Sob e as nações diz que, con a iamen e, não é possí el uma mo e na u al, que não
endo c iado o iginal, não são na u ais, nem podem e a sua his ó ia a não se em “ ecuo”, em
e ospe i a (Ande son, 1983, p. 265). O indi íduo é, po an o, uma junção des as duas na a i as, a sua
iden idade é um conjun o de udo o que i eu, in luenciado sob e a comunidade que é maio que ele,
que o iu nasce e, à pa ida, o ul apassa á.
2.1.1 O Caso Po uguês
Inqué i os sob e o sen imen o da população po uguesa em elação à nação são uma das
e amen as usadas pa a a alia a iden i icação nacional das pessoas, ainda que a amos a nunca seja
os ce ca de 10 milhões de po ugueses e, po an o, os dados possam, pa a alguns, se edu o es e pouco
escla ecedo es. É, de ac o, uma ques ão di ícil po que qualque po o e á as mais di e sas opiniões
sob e o que é se -se do seu país, ou con a iamen e o que não az pa e desse cená io:
Quando nos deb uçamos especi icamen e sob e os g upos nacionais, é necessá io e em con a que cada
g upo é he e ogéneo, sendo cons i uído po uma g ande di e sidade de indi íduos, com di e en es
pe cu sos e expe iências de ida e pe encendo a g upos com di e en es posicionamen os na es u u a
social. (Cabecinhas e al., 2006, p. 7).
O abalho de Ribei o (2008), já ou as ezes mencionado, oca pa icula men e na iden idade
po uguesa em elação à Eu opa. Ainda que não seja esse o nosso p incipal p opósi o, as conclusões
das en e is as ealizadas, assim como a e lexão eó ica sob e o ema, mos am-se pe inen es.
Des acam-se um leque de ca ac e ís icas apon adas como essenciais pa a que se c iasse um sen imen o
de pe ença (ao e i ó io, aos símbolos e à ideia da comunidade nacional) (Ribei o, 2008, p.38):
A ac esce à an iguidade, o país e ela-se um exemplo his ó ico mui o p óximo do ipo-ideal de Es ado-
nação, po sob epo uma au o idade polí ica independen e a um e i ó io solidamen e de inido, um po o
sem di isões é nicas, que desen ol eu uma língua p óp ia, pa ilha uma eligião esmagado amen e
maio i á ia e em uma cul u a comum, com nuances egionais. (Ribei o, 2008, p. 35)
E nesse sen imen o de pe ence es á uma inde inição, uma con adição, que no malmen e se
associa ao “ca á e ” dos po ugueses, o “mui o poé ico se e não se , es a onde não se es á, que e o
que não se pode que e ” (Ribei o, 2008, p. 56). A ob a
O Modo Po uguês de Es a no Mundo
(1998)
de Claúdia Cas elo, e e en e ao luso opicalismo e à colonização po uguesa, c ia a compa ação que
exp ime cla amen e es a dualidade. Coloca Ulisses e o Velho do Res elo, duas igu as do imaginá io
30
po uguês, a ibuindo-lhes as ca ac e ís icas an ónimas da “a en u a e o ina, a mobilidade
anscon inen al e o apego ao solo pá io” (p. 36).
Es e passado his ó ico de “mobilidade anscon inen al” e le e-se nas ca ac e ís icas a ibuídas
ao país a é aos dias de hoje. Os esul ados da eo ia do luso opicalismo, de Gilbe o F ey e, mas ado ada
e disseminada pelo Es ado No o, são isí eis na o ma como se conside a o po o po uguês um bom
an i ião, pací ico no passado de colonização e ole an e no p esen e da mig ação. Cabecinhas (2023)
apon a es e mi o de um colonialismo b ando do “país de b andos cos umes” e de uma in e cul u alidade
acolhedo a, que con as a com uma ealidade de disc iminação pela co de pele, pelo géne o, pela classe
social (p. 768). A mís ica do luso opicalismo pe sis e, não só na alegada pe sonalidade do país, mas
ambém no discu so público, polí ico e cul u al da sociedade po uguesa e nas c enças disc imina ó ias
que colocam g upos acializados e comunidades mig an es mino i á ias na posição de “ou os” (p. 776).
Os au o es de
Os Imig an es e a População Po uguesa: Imagens Recíp ocas
colocam que, nes a
si uação, exis e uma “passagem de um acismo lag an e pa a um acismo sub il” (Lages e al., 2006,
p. 47). No en an o, não deixamos de e nos média casos de acismo lag an e.
Sousa (2017) e e e a ligação des e luso opicalismo dis anciado empo almen e do
colonialismo, com a jus i icação da c iação da comunidade lusó ona e dos p opósi os de coope ação
en e os países que a in eg am (Sousa, 2017, p. 112). Pa icula men e sob e a língua, o au o des aca
o seu papel na cons ução da “iden idade imaginada”, na coesão cul u al do país, mas ambém na
ap oximação que se c ia com os es an es países da luso onia, que acabam po pa icipa , de ce a
o ma, na cons ução das na a i as iden i á ias (p. 312).
Obje i amen e, ainda que en emos desen ol e o ema da pe ença nacional, a e dade é que
Po ugal é um país de desigualdades. Pensemos, po exemplo, em como o in e io e o li o al di e em em
condições de ida, em opo unidades pa a os habi an es, em ecu sos na u ais (Cos a, 2016, p. 10).
Ainda assim, há aços de “ adição e de um des ino nacionais” (Ma ins, 2021, p. 43). O pon o comum
a odos os abalhos lidos sob e es e ema é o saudosismo e exal ação de um “passado de ou o”
con as an e com o Po ugal de ago a (sendo que o ago a em uma di e ença de á ios anos, p o ando
que es e é um sen imen o ans e sal no empo). A isão g andiosa do país, no passado, é o u u o que
a nação de ia es a p eocupada em ecupe a . No en an o, o passado p óximo padece da culpa dos
p oblemas a uais que cons i uem obs áculos à áu ea ecupe ação, sendo necessá io supe a a asos
económicos, polí icos, sociais e cul u ais que mancham esse “idílico e he oico” passado (Ribei o, 2008,
p. 61).
37
Igualmen e, os meios de comunicação em massa são capazes de di ulga di e en es
ep esen ações da nação (Edenso , 2002, p. 141), assim como pe mi i que o mas cul u ais de ou os
luga es sejam p oduzidas no seu con ex o cul u al eal ou longe des e, algo que a globalização dos meios
de comunicação social o nou mais eco en e (como a p odução e consumo ala gado dos ilmes da
indús ia de Hollywood (Edenso , 2002, p. 142). Es e a as amen o geog á ico pode da luga a
ep esen ações es e eo ipadas de nacionalidades, cul u as e, consequen emen e, das iden idades das
pessoas que delas azem pa e.
O ex o de Cabecinhas
P ocessos Cogni i os, Cul u a e Es e eó ipos Sociais
(2004) desen ol e
b e emen e o concei o desen ol ido po Lippmann em 1922, que conside a que as imagens men ais
que se c iam em elação a g upos sociais com os quais o con ac o não é comum ou di e o são de ex ema
“ igidez”. Os es e eó ipos se iam, po an o, o esul ado de um p ocesso “no mal” que é p óp io da o ma
como é p ocessada a in o mação pelo indi íduo (p. 4), assim como uma o ma de p o eção da p óp ia
ealidade (p. 6). Passados pelos “agen es de socialização”, a amília, escola e os meios de comunicação,
e c., e dependen es do con ex o social e his ó ico de um g upo social (p. 11), é eco en e que sejam
abso idos pela maio ia dos memb os desse g upo, sem que es e enha um conhecimen o eal sob e o
g upo isado (p. 6).
Num ou o dos seus ex os,
Es e eó ipos Sociais, P ocessos Cogni i os e No mas Sociais
(2012),
a au o a desen ol e mais o ema, e e indo a ideia de Lippmann de que os “es e eó ipos uncionam
como ‘mapas’ guiando o indi íduo e ajudando-o a lida com in o mação complexa” (p. 152), ei e ando
a ideia de es e se um p ocesso cogni i o que em algo de p o e o da ealidade do indi íduo, do g upo,
ou da posição do indi íduo em de e minado g upo. A dis inção en e es e eó ipos pessoais e es e eó ipos
sociais é ele an e pa a o nosso abalho. O p imei o, conside ado um enómeno psicológico, e e e-se
às associações ei as po um indi íduo em pa icula , enquan o o segundo é ela i o às classi icações
ei as po uma população de o ma consensual (p. 158). Ainda ele an e pa a o abalho que aqui
desen ol emos, Cabecinhas (2012) dis ingue, usando o abalho de Pe ig ew e Mee ens (1995), dois
concei os que se elacionam com os es e eó ipos: o p econcei o lag an e e o p econcei o sub il. O
p imei o isa um g upo-al o como uma ameaça e le a à ejeição de con ac o p óximo com esse mesmo
g upo. Di e en emen e, o p econcei o sub il in eg a ês dimensões: coloca o g upo-al o como não capaz
de se ajus a aos alo es de de e minada sociedade, g upo; acen ua as di e enças cul u ais en e esse
g upo-al o e o “endog upo”; a ejeição de emoções posi i as ela i as aos memb os que in eg am o
g upo-al o (p. 162).

38
Reco en emen e es as associações, es e eó ipos e p econcei os, “p ocessos de ca ego ização,
iden i icação e di e enciação”, são aplicados a mig an es quando se mudam e passam a se pa e da
sociedade, do “endog upo”, o que pode esul a numa ede de compo amen os disc imina ó ios
(Macedo, 2016, p. 99). Po an o, se po um lado, a iden i icação com um g upo é “p é- equisi o” pa a
que se pa ilhem alo es e no mas comuns, assim como um sen imen o de solida iedade e de ação
cole i a, po ou o, a iden i icação den o de um g upo é, mui as ezes, acompanhada de disc iminação
e p econcei o (Lica a e al., 2011, p. 895).
Es es p ocessos de de inição e disc iminação dos g upos ex e nos que se ap oximam do
“endog upo” es ão in imamen e elacionados com o p ocesso de iden idade, nes e caso, nacional. O
sen imen o in ínseco de pe ence a uma nação, pode jus i ica es a a i ude, colocando-a como eação
a uma ameaça, a um “inimigo comum” (Macedo, 2016, p. 97).
A mig ação impac a o país de o igem, mas como podemos comp eende , em g andes
epe cussões no país de acolhimen o. Mui as das g andes cidades do mundo são ago a ma cos de
mul icul u alidade dado o núme o de população que nos dias de hoje se encon a em mo imen o,
o nam-se comunidades di e si icadas. As iden idades são, po an o, moldadas pela mul iplicidade e
podem se deses abilizado as e con es adas, em p ocessos que c iam desigualdade e disc iminação
(Woodwa d, 2000, p. 22). Alguns dos mig an es são ecebidos de o mas menos hos is que ou os,
con an o que, quando o g upo in e no az o seu julgamen o, os indi íduos sejam a aliados de o ma
posi i a ela i amen e às qualidades e habilidades e se es as são necessá ias ou alo izadas nas p á icas
comuns do g upo, assim como se as suas p á icas, alo es e iden idades cul u ais não se a as am mui o
das do g upo que passam a “in eg a ” (Lica a e al., 2011, p. 897). Podemos a e i que a ejeição oma
con o nos mais acen uados quando a mig ação, mino i á ia e com alo es e e e ências cul u ais
di e en es, é is a como uma ameaça à “monocul u alidade” da nação. Quan o mais plu al a nação,
menos es e p ocesso se e i ica (Lica a e al., 2011, p. 906).
Num exemplo pe inen e, no ex o
Iden i y, Immig a ion and P ejudice in Eu ope
(2011),
pe cebemos que as segundas e e cei as ge ações descenden es dos mig an es em F ança não são,
mui as ezes, econhecidos como cidadãos do país, apesa de e em nascido lá e, po an o, e em a
nacionalidade ancesa. São conside ados es angei os, imig an es, mesmo que apenas isi em o país
de o igem dos amilia es ocasionalmen e e man enham um con ac o dis an e. Acon ece que são
conside ados incapazes de esponde às “ob igações cul u ais” do modelo ancês de in eg ação e
con i ência e, po an o, não são is os como e dadei os cidadãos da F ança. A i udes e si uações como
es a demons am que as maio ias en am man e uma dis ância e di e ença das mino ias no país,
39
mesmo que as ba ei as o mais e legais enham sido emo idas. São esponsá eis pela aplicação de
exp essões p econcei uosas como “di e ença cul u al” ou “incompa ibilidade cul u al” (Lica a e al.,
2011, p. 898) e, diz-se que são um país “assimilacionis a”, que espe a que os mig an es ado em a
cul u a ancesa e se in eg em dessa o ma (Lica a e al., 2011, p. 903). Como i emos como pa e da
sociedade, as ep esen ações sob e as pessoas mig an es, nes e caso, são ep oduzidas em con ex o
social, comunicadas a ou os e usadas “como pon o de e e ência na omada de decisões, na assimilação
de no as in o mações e na a aliação das si uações com as quais nos depa amos (Cabecinhas & Macedo,
2012, p. 191).
Pa a e i a es as si uações ão sendo c iados p ocessos legisla i os an i disc imina ó ios, numa
en a i a de e e e o acismo e xeno obia que molda as elações sociais, o compo amen o dos
indi íduos e odo um conjun o de es u u as que padecem do acismo sis émico, o nando a con i ência
in e na menos con li uosa (Lica a e al., 2011, p. 895).
No e so da moeda, as pessoas mig an es podem eagi de di e en es o mas à disc iminação
quando con on ados com ela. Podem c ia pequenas comunidades, es ei ando os seus laços sociais
in e namen e, mos ando “uma en e unida con a o seu op esso ” e, não in eg ando o “g upo
dominan e”, alida e exe ce cole i amen e a sua p óp ia cul u a (como a comunicação na linguagem
na i a ou p a icando a eligião em ce imónias comuni á ias) (Sa up, 1996, p. 3). Es es laços ambém
são acen uados pelas elações amilia es, que no malmen e são lemb ança de casa, da dinâmica i ida
no país de o igem (Edenso , 2002, p. 63). Podemos dize que, mesmo nos países de acolhimen o, pode
exis i um sen imen o de iden idade, pe ença nacional ela i a ao país de o igem, p incipalmen e se a
ligação com es e o ei a egula men e na o ma de isi as ou celeb ações de símbolos da cul u a
nacional no país onde naquele momen o i em. É pe mi ido man e um “sen ido de iden idade que
al e na en e o local ísico habi ado e um local sus en ado i ualmen e” (Edenso , 2002, p. 64).
Consequen emen e, o su gimen o de ep esen ações de expe iências mig an es e das suas elações
in e cul u ais em sido g ande. Ainda que omem di e en es o mas, pa a ele ância nes e abalho
in e essa-nos oca nas ep esen ações disseminadas pelas na a i as cinema og á icas.
É necessá io es abelece que es as his ó ias são dependen es de di e sos a o es como as
ci cuns âncias i idas nos países de o igem e/ou de acolhimen o, polí ica e socialmen e (Macedo, 2016,
p. 120), assim como a elação do p ocesso de p odução do ilme com os países e a ados (de
p oximidade, de pe ença ou, inclusi amen e, nenhuma). Quando se a a de uma au o ep esen ação,
pa icula men e, o nam-se e amen as impo an es na comp eensão das ealidades e expe iências
i idas, assim como de en o as do pode de assumi uma posição de e isionismo de na a i as e
40
his ó icas adicionais e mi os nacionais (Macedo, 2016, p. 120), descons uindo “ e sões únicas sob e
o passado e o p esen e” (Macedo, 2016, p. 121) (como uma e isão do colonialismo po uguês,
e ogando a ideia de e sido ci il e pací ica). A p oximidade é ambém essencial pa a que as
ep esen ações de p á icas cul u ais, o mas de linguagem, a e ac os cul u ais, seja ei a de o ma
espei osa, po meio da elação dos cineas as com esses elemen os, (Macedo, 2016, p. 121). Mui as
das ezes es as na a i as são ep oduzidas em p oje os independen es, que a iculam um sen ido de
iden idade, assim como o mas mais múl iplas e plu ais de e noções de e nia, eligião, sexualidade,
classe, en e ou as ca ego ias sociais.
Hall coloca o cinema, en ão, como não necessa iamen e um espelho des as ealidades já
exis en es, mas sim como uma o ma de ep esen ação que é capaz de cons i ui “no os ipos de sujei os,
e assim nos pe mi i descob i luga es a pa i dos quais ala ” (Hall, 1989, p. 80). Podemos dize , no
en an o, que “os média e em pa icula o cinema, in luenciam as pe ceções das pessoas sob e o mundo”.
Es es p odu os são an o in luenciados pelas es u u as sociais onde são p oduzidos como
in luenciado es e e amen as capazes de a e a essa mesma es u u a (Macedo, 2016, p. 119).
Em suma, pa a que possamos comp eende os p ocessos associados à iden idade nacional,
exis em uma sé ie de concei os base que eque em desen ol imen o. O concei o de iden idade,
ine i a elmen e múl iplo, p opo ciona a possibilidade de in e ceção com ou os concei os, como o de
ep esen ações sociais e de nacionalidade. A sensação de pe ença que é desen ol ida quando alamos
de iden idade nacional apenas pode se en endida e i ida como al po meio da comunidade, c iada e
imaginada pa a que isso acon eça. É a sua o ça, a da comunidade imaginada, que legi ima a ideia de
nação, alimen ada em g ande pa e pelo Es ado. Como pa e de algo, o sujei o em endência de olha
pa a o “ou o”, no caso da mig ação, o g upo exógeno, de o ma edu o a se sen i que a sua iden idade
es á em pe igo e pode ep esen á-lo de o ma edu o a e es e eo ipada, an o no conjun o social, como
nos média, e amen as de disseminação des as ideias edu o as, ou locomo i as que êm o pode de
ans o ma ep esen ações sociais de den o pa a o a.
41
Capí ulo III – Comunicação, Cinema e Rep esen ações
A a e se á en ão o p óp io eal.
(A eal, 2011, p. 238)
A comunicação é um p ocesso de in e ação social po onde são ansmi idas mensagens. Es e
p ocesso pode e á ias o mas e meios a pa i dos quais se ansmi em signi icados e “é legí imo
a i ma que os meios de comunicação social êm um papel de des aque na di ulgação de ep esen ações
sociais” (Ribei o, 2005, p. 49). Po an o, é de g ande ele ância aze uma b e e e lexão sob e as
dinâmicas de ep esen ação que acon ecem e se disseminam pelos média.
As cons uções de ex o, sons e imagem, impo an es no p ocesso de iden idade cul u al, se em
como mediado as en e elações den o de comunidades, en e memb os que se enham deslocado e
en e os g upos e os indi íduos (Macedo & Cabecinhas, 2014, p. 58). É inegá el a acilidade com que
os média são capazes de aze pa a as odas de discussão di e sos emas e p oblemá icas que
necessi am de um amplo deba e na sociedade. De ido à sua p esença em di e en es meios e con ex os,
podem in luencia a população e a on ade de desen ol e ou e e polí icas públicas ela i as aos emas
discu idos (Se a im & Ramos, 2016, p. 464). “Os media êm um papel undamen al na in e ace en e
discu sos p oduzidos pelos pode es dominan es e a sociedade em ge al” (Ribei o & Ta king on, 2019,
p. 154).
Mais do que aze um anspo e passi o de in o mação e mensagens, os média a uam no
in e médio en e a nossa comp eensão do passado, a nossa de inição das expe iências i idas e a
mudança e ação a oma no u u o (Macedo, 2016, p. 275). A cons ução que azem da memó ia social,
um concei o que “supõe a exis ência de o mas de mediação das ep esen ações do passado”, é de
pa icula ele ância quando pensamos que são uma impo an e ia na ap eensão do conhecimen o da
his ó ia e do passado po mui as pessoas (Ho a, 2009, p. 12).
A imagem, pa e essencial da comunicação pelos média, é, segundo Leono A eal (2011), a
p óp ia ep esen ação e o seu in e so é equi alen e. Na sua opinião, odas as ep esen ações são uma
imagem po que es as pa em “do p essupos o de que o que concebemos ( ep esen amos) é uma
in e p e ação daquilo que emos e expe ienciamos” (p. 353).
O cinema, pa icula men e, em um papel de ele ância pela sua p oximidade com a
ep esen ação da ida e da sua uni e salidade. No malmen e, em uma linguagem capaz de se cap ada
po qualque pessoa, mesmo que não ale a língua do ilme em ques ão. Es a é uma o ma de a e que
c uza o imaginado e a memó ia, em p ocessos que se a ualizam, pe du am e eciclam signi icados
quando con on ados com di e en es espe ado es. A sua maio ambição é ep esen a a consciência
42
humana nas suas o mas mais dinâmicas (A eal, 2011, p. 306). Alimen ando-se do eal (po meio de
na a i as, a e amen a capaz de ansmi i de o ma o ganizada as c enças, as his ó ias, os mi os, os
p ecei os e aquilo que é undamen al em cada cul u a) (p. 315), é ambém seu cla o alimen o,
in luenciando a ida (p. 309), p oduzindo e ep oduzindo signi icados, ideologias e alo es (Pe ei a, 2016,
p. 138). “Memó ias e imaginações, ep esen ações e imagens, são da mesma na u eza; pe encem a
um ní el de pensamen o em que se undem os dados da expe iência e se encon a nexo dos ac os de
uma na a i a, seja ela nossa ou alheia ou pa ilhada” (A eal, 2011, p. 363).
Apela-se a uma e lexão c í ica dos códigos cinema og á icos, pela sua g ande capacidade de
ep odução das es u u as sociais, hie a quizadas (Kami a, 2017, p. 1398) e econhece o impac o
desses meios na sociedade an o ao e idencia em pad ões exis en es, como ao es imula em
“ ansg essões ao
s a us
quo
” (p. 1393). Como mencionado, o con ac o com o cinema pode e
signi ican e impac o nas opiniões sob e “discu sos e p á icas cul u ais” e le a as pessoas a “ e le i
sob e a sua p óp ia iden idade, p omo endo a mudança social” (Macedo e al., 2021, p. 15).
3.1 Pon os de e lexão sob e os cinemas po uguês e ancês
Nes a secção a emos um pequeno pe cu so sob e o cinema ancês, assim como o cinema
po uguês e a ligação en e es as duas indús ias. De o ma simples, in e essa-nos ala sob e as ligações
en e os dois países e discu i sob e as ep esen ações de géne o e das pessoas mig an es nas indús ias
dos dois locais. Passamos, ainda, po ou os assun os de ele ância desde o nascimen o do cinema,
quando os i mãos Lumiè e ize am a p ojeção num ca é de Pa is das p imei as imagens em mo imen o
(1895) (Pe ei a, 2016, p. 28).
Pensemos o conjun o do cinema eu opeu, como ende a se ca ac e izado em con as e com o
cinema de Hollywood ou de Bollywood, numa amálgama de países com mais ou menos ele ância na
p odução cinema og á ica de um con inen e in ei o. “Apesa das suas di e enças, os ilmes eu opeus
man êm en e si um de e minado ní el de in e ligação” (A ela , 2019, p. 43). O au o da ob a
O Cinema
Po uguês: a dis ibuição no espaço eu opeu
des aca como p incipais eixos de ligação, a o ma como os
ilmes são p oduzidos, os mé odos de dis ibuição e es a égias de exibição, bem como o io condu o
des es p incípios: o inanciamen o (p. 43). Salien a ambém o cinema de au o , uma “ adição eu opeia”,
des acando a impo ância do papel do ealizado no géne o e o esul ado possí el de ilmes mais pessoais
e menos ocados num sucesso come cial, oco mui o a ibuído ao cinema ame icano (p. 44).
In e essa-nos, no en an o, aze menção a um cinema independen e que é pa e essencial do
cinema eu opeu, com “ eminiscências da nou elle ague”, ainda a es uda nes e capí ulo (A aújo & Rosa,

43
2021, p. 394). Longe dos g andes es údios, é alice çado num ca á e de libe dade, de c iação di e sa e
um “ca á e semp e eno ado”. A dis ância dos g andes es údios e das p oduções de Hollywood e suas
“ eg as”, le a a uma “explo ação a ís ica di e enciada pelos alo es es é icos, modelos na a i os e
meios de p odução” (p. 393). Es e abalho é a o ecido pelos a anços de o dem écnica, pelas no as
ecnologias digi ais, que pe mi i am que o çamen os meno es ossem necessá ios pa a desen ol e um
ilme (Ma ie, 2011, p. 60).
O es a u o do cinema ancês é de lide ança no con ex o do cinema eu opeu de au o . A
epu ação oi cons uída ao longo de á ios anos, alice çada numa junção do ilme de au o e no ilme
popula cómico (Ma ie, 2011, p. 59), e com ecuo a é aos anos 30, onde a adição obscu a e a o e
he ança li e á ia das p oduções ancesas ouxe am uma ama in e nacional e um espei o e
legi imidade que in luencia am o cinema ame icano de o ma ele an e nas décadas seguin es (po
exemplo, no géne o do
ilm noi
) (Vincendeau, 1975, p. 116).
Ainda assim, podemos apon a o pós Segunda Gue a Mundial como um g ande solidi icado do
sucesso do cinema ancês, que se e i ica a é aos dias de hoje, num culmina de um conjun o de a o es.
A ela (2019) des aca a c iação do Cen e Na ional de Cinema og aphie (CNC) logo em 1946, uma
ins i uição do go e no ancês que inha como p incipal obje i o p o ege a indús ia cinema og á ica do
país da impo ação de ilmes indos de Hollywood que se iam apoiados pelo público em de imen o das
p oduções nacionais, assim como o acili amen o de acesso a undos pa a ealizado es. Socialmen e, a
“ adição in elec ual e a ís ica” do país con ibuiu pa a que o deba e sob e o cinema e a omen ação da
indús ia acon ecesse, seja po pa e dos polí icos assim como do público em ge al (p. 51).
Podemos dize que, du an e a Segunda Gue a e o pós-gue a na F ança, a ba alha da legi imidade
cul u al do cinema es a a ganha. O mo imen o dos cineclubes, no pe íodo da Libe ação, aduziu essa
impo ância do cinema como ins umen o de democ a ização cul u al e como um laço en e as eli es
cul as e as camadas médias e popula es. (Veiga & Sil a, 2014, p. 351)
A cul u a da cine ilia c esce em F ança. Um in e esse pelos es udos ílmicos le a ao
desen ol imen o do cinema, mas, con a iamen e à ideia de democ a ização cul u al mencionada
an e io men e, de o ma excluden e. O g upo ciné ilo dos anos 50 e 60, undado dos céleb es
Cahie s
du Cinéma
, excluía a mulhe , num au ên ico
boy’s
club
, e o cinema de au o com que a cine ilia ancesa
se p eocupa a oca a num ideal do cinema que di icilmen e e a de cla o acesso in elec ual e se di igia a
uma eli e e udi a (p. 351).
As ans o mações sociais i e am semp e uma in luência di e a no abalho dos cineas as. A
Nou elle Vague oi um mo imen o ca ac e ís ico do cinema ancês que ajudou na sua solidi icação
pe an e o es o do mundo, em pa e pela in e e ência que e e nos es ilos e nas o mas de aze cinema
44
de di e sos países, do inal da década de 50 e da década de 60. Nasce e é exp essão da on ade de
mudança que se azia sen i no ce ne da sociedade ancesa (Cunha, 2014, p. 22). A agi ação dos anos
60 e a cla a ambém no in e io do mo imen o de p odução cinema og á ica, assim como daqueles que
a pensa am e discu iam, num clima de “ adicalização polí ica e de agi ação social” (p. 376) que le ou à
c iação de um discu so de “con a-cinema” ou “an i-cinema” (p. 377).
No en an o, sen e-se um alheamen o das mudanças da Nou elle Vague em elação à pa icipação
eminina e a mulhe ica de o a do cí culo de con e sação e p odução. O mo imen o eminis a ancês
ap op ia-se da a e pa a c ia o que se ia um cinema eminis a mili an e que não e e be ou nem
académica nem poli icamen e, alhando as en a i as de ins i ucionalização (Veiga & Sil a, 2014. p. 352).
O cinema de au o , en e 1957 e 1962, con a com um ele ado núme o de homens cineas as eme gen es
e apenas Agnés Va da em a sua p á ica cinema og á ica econhecida, ainda que semp e se enha
ecusado a associa a um mo imen o (p. 355). A ualmen e, a F ança é um dos países onde a p odução
de cinema ei o po mulhe es a inge núme os mais al os, ainda que os núme os se e elem longe da
equidade (p. 356).
Com o passa dos anos, ap oximando-nos c onologicamen e do momen o de esc i a des e
abalho, pe cebemos uma eno ação ge acional na p á ica cinema og á ica em F ança e mudanças
emá icas, es é icas e me odológicas (A aújo & Rosa, 2021, p. 398). Comp eendemos, que apesa des as
ans o mações que oco e am den o do cinema do país (e eu opeu no ge al), semp e se man e e cla o
o po encial do cinema ancês pa a a sua expo ação. Es e ac o é esul ado de uma longa adição e
in es imen o no p ocesso de cop oduções, an o a ní el a ís ico como a ní el ins i ucional, já que o país
em aco dos com mais de qua en a países pa e de odos os con inen es do mundo (A ela , 2019, p.
52). Como e emos, a adição de abalho em conjun o é ambém de ele ância pa a o cinema
po uguês e coloca em ligação a a e p oduzida pelos dois países.
A p odução cinema og á ica em Po ugal pa e de um local obje i o com Au élio da Paz dos Reis,
“a se iço da di ulgação e p ese ação do pa imónio cul u al po uguês” (Pena ia, 2013, p. 21). É um
pon o de pa ida que não se oca exa amen e na expe imen ação a ís ica e c ia i a cinema og á ica. O
cinema já inha sido in oduzido em Po ugal, uma expo ação, mas a p odução, a e dadei a “in enção
do cinema po uguês”, dá-se po Paz dos Reis (p. 6).
A p odução sob o egime da década de 60 é pa icula men e es udada pelo seu ompimen o com
um passado cinema og á ico e a a i mação do No o Cinema Po uguês (Cunha, 2013, p. 142). As
in luências (cau elosas) são de no as e mode nas agas, e pe cebe-se uma in e nacionalização dos
ilmes, p imei amen e pa a o B asil e Espanha e mais a de pa a o cen o da Eu opa, pa icula men e
45
F ança pela “in luência da no a ge ação ciné ila que elege a Pa is como a no a capi al do cinema”
(Cunha, 2014, p. 429). I onicamen e o seu ap eciamen o e a maio no es angei o que no p óp io país,
condenado a anos de censu a e “isolamen o cul u al” (p. 155).
As pe sonagens da Nou elle Vague inham uma libe dade, emancipação e independência que,
como se ia de espe a , as pe sonagens emininas do No o Cinema alha am em conquis a (Pe ei a,
2016, p. 121). No en an o, icam pa a ás as “con enções do ‘ elho cinema’, na igu a das comédias
dos anos 30 e 40, bem como a es agnação p odu i a dos anos 50” (p. 121) e p epa a-se o e eno pa a
um cinema li e.
O acon ecimen o do 25 de Ab il de 1974 é ex ao diná io pa a a sociedade e o cí culo a ís ico
po uguês, onde um “cinema escondido”, censu ado, e e a opo unidade de se exibido (Ba oso &
Ribas, 2008, p. 143). Despole ou um c escimen o eno me do géne o documen á io (que nos dois anos
seguin es oi p oduzido num núme o supe io às ob as iccionais), uma “ eação ine i á el à u gência das
ques ões sociais e a um come imen o polí ico inadiá el” (A eal, 2011, p. 22). Ainda que a e olução
enha e i ado o peso da censu a na p odução de a e, p oblemas como a al a de inanciamen o e apoios
aos cineas as, num me cado dé ice, são ques ões que ainda assolam e di icul am a c iação (p. 22).
A en ada das mulhe es na p odução cinema og á ica po uguesa (que não podíamos ainda
conside a uma indús ia), dá-se com Bá ba a Vi gínia (de nome ci il Ma ia de Lu des Dias Cos a) com
T ês Dias sem Deus
na década de 40 (Pe ei a, 2016, p. 175), sendo o único ilme ealizado po uma
cineas a du an e o pe íodo do egime di a o ial do Es ado No o (p. 178). Ma ga ida Co dei o pa icipa na
idealização de
Jaime
(1973) (Cunha, 2014, p. 318), e assume o icialmen e um papel de ealização
depois do acon ecimen o da Re olução de Ab il com
T ás-os-Mon es
(1976) (p. 436). No en an o, não
ica sólido o caminho pa a ou as mulhe es ilha em e só um in e alo de 30 anos, nos anos 70 as
mulhe es omam um papel mais a i o na ealização (Liz & Tedesco, 2020, p. 63). Des acamos Noémia
Delgado e Manuela Se a que, c iado as depois de 1974, não desen ol e am longas ca ei as no cinema
e deixa am cla o o eno me machismo p esen e no meio (A eal, 2011, p. 100). E a cla o o desequilíb io
no acesso aos meios de p odução e inanciamen o (escassos, como dissemos), um en a e pa a que
pudesse p oli e a a di eção de ilmes po mãos de mulhe es (p. 99). Quando Leono A eal (2011) se
deba e sob e os mo i os da exp essão cinema og á ica se acedida po ão poucas mulhe es menciona
o ac o de o “imaginá io dos ilmes” se , como diz, “essencialmen e – e i emedia elmen e – masculino”
(p. 99).
Fala de cinema po uguês no eminino é analisa uma b e e, mas in e essan e His ó ia das mulhe es
que in e e am os adicionais papéis de “a iz ilmada po um ealizado ”, assumindo o comando do
46
olha po de ás das câma as. Po ou o lado, implica con o na uma ce a “in isibilidade” que cons ange
os cineas as po ugueses con empo âneos (Pe ei a, 2016, p. 175).
A década de 80 é de uma eal ans o mação na p odução de cinema no país, com no os
mé odos de abalho, no os pa cei os de inanciamen o, alguns deles in e nacionais. A é ao momen o,
nunca o cinema po uguês inha sido ão in e nacional, nos seus inanciamen os, nos seus es ilos, nas
di ulgações. Podemos dize que es es o am anos da consolidação de uma “Escola Po uguesa” de
cinema e o a i ma dos cineas as do No o Cinema (Ba oso & Ribas, 2008, p. 147). Pa alelamen e,
Po ugal ecebe p oduções es angei as que escolhiam o país pa a oda , com quem chega am no as
ideias, ino ação (Cunha, 2013, p. 193). Es a in e nacionalização e e uma g ande epe cussão no
con ex o ancês. As elações en e os dois países, o íssimas em di e sos campos, são ambém
signi ica i as nes e amo. A p esença dos ilmes po ugueses em es i ais de cinema e em e is as
ancesas, nes a década, ajudou a uma conquis a de epu ação (Bap is a, 2009, p. 10).
O aco do de 1981, ela i o às colabo ações cinema og á icas (Dec e o n.º 79/81, de 19 de maio)
solidi ica a colabo ação mais p odu i a do cinema po uguês. Os incen i os e pa ce ias de p odu o as
ancesas e a é canais de ele isão, ajuda am na solidi icação in e nacional de nomes como João Bo elho,
An ónio-Ped o Vasconcelos e, em pa icula , de Manoel de Oli ei a (Fe ei a, 2013, p. 199).
Os anos 90 e 2000 con inua am o sen ido de p odu i idade, numa di e si icação de géne os,
p o issionalização cada ez maio , uma p oli e ação de no os au o es (Ribas, 2013, p. 222), que
eno am o sen ido da “Escola Po uguesa” (Ba oso & Ribas, 2008, p. 148). Pa icula men e o no o
milénio oi impo an e pelo c escen e núme o de p oduções apoiadas que pe mi iu a á ios ealizado es
e ealizado as a possibilidade de uma ca eia (Ribas, 2013, p. 224). O cinema come cial implan a-se,
le ando um maio núme o de espe ado es às salas de cinema pa a ap ecia em p oduções nacionais (p.
234). O me cado in e nacional ê uma a i mação de au o es com ca ac e ís icas p óp ias, p incipalmen e
no ci cui o de es i ais, mas a ingindo ambém lançamen o come cial (p. 244).
Os úl imos anos são os de uma no a ge ação de ealizado es que êm is o o seu abalho
di ulgado, assis ido e p emiado enquan o, pa alelamen e, abalho de ou os cineas as como Ped o Cos a
e João Canijo c iam um alice ce na his ó ia do cinema po uguês e são consag ados (Pe ei a, 2016, p.
175). Des acamos Te esa Villa e de que começa a p oduzi nos anos 90, com ma co impo an e no seu
ilme Os Mu an es
(1998), e em o seu abalho econhecido an o em Po ugal, como in e nacionalmen e
(Pe ei a, 2016, p. 347). T a a-se de abalhos que e i am o uso de na a i as con encionais e op am po
“na a i as o emen e isuais onde p edominam planos demo ados e me a ó icos na adição de um
53
3.3 As ep esen ações de pessoas mig an es
As ep esen ações das mig ações e diáspo as são ão ab angen es quan o as ep esen ações de
géne o na sua p esença nos média, endo nos úl imos anos ganho um ainda maio espaço nas na a i as
de in o mação e cinema og á icas (Cabecinhas e al., 2019, p. 5).
Podemos des aca o papel dos média na cons ução da memó ia social, como mencionado no
início do capí ulo, e, consequen emen e, na c iação de es igmas ela i os a “espaços e a populações que
neles habi am” (Macedo, 2016, p. 285). Uma “ isão dominan e” é ep oduzida sob e g upos mino i á ios
(nes e caso, população mig an e), omen ando es e eó ipos que não são con es ados e são alimen ados
pela p ocu a de g andes audiências e pela o ça de me cado (Cunha & San os, 2006, p. 25), e que
acabam po se disseminados po á ias ge ações, moldando as linhas de pensamen o e, e en ualmen e,
sendo “na u alizadas po meio da cul u a” (Cabecinhas & Posch, 2023, p. 245).
A imp ensa, pa icula men e, em pa icipado de um discu so, imensamen e p esen e na polí ica,
onde pessoas mig an es e em p ocu a de asilo são colocadas numa posição de ameaça à segu ança,
como “peso nos ecu sos nacionais”, uma ameaça ao
s a us quo
. Es as cons uções discu si as êm
le ado à di iculdade nos p ocessos de adap ação desses mig an es, assim como à sua ejeição po pa e
dos na i os dos países onde chegam (Ribei o & To king on, 2019, p. 152).
Ainda que ep esen ações de acolhimen o de e ugiados, po exemplo, enham um sen ido de
inclusão e solida iedade em algum dos discu sos associados, é no á el que uma e lexão sob e a
di e ença e a ans o mação dessa di e ença num discu so nega i o é mais mediá ica e,
consequen emen e, mais en á el (p. 153).
Os media, enquan o agências públicas de obse ação, in e p e ação, ep esen ação e disseminação,
combinam sen idos emocionais e concep uais de o ma a alcança e ei o máximo no público-al o. Assim,
odas as ep esen ações mediá icas e le em a in e p e ação, pe spe i as e a i udes bem como as
cons uções, ou seja as ideologias pessoais, ins i ucionais e co po a i as dos p odu o es dos media em
conjun o com ou os a o es sociais. (p. 154)
A ep esen ação dos mig an es nos meios de comunicação social é ei a, mui as ezes, de o ma
pad ão, uma imagem gene alizada do mig an e como uma “en idade sem oz e iden idade” (San os-
Sil a & Gue ei o, 2020, p. 134). As au o as ac escen am que exis e uma sob e alo ização da
c iminalidade come ida po mig an es, compa a i amen e às no ícias de deli os e o ensas de na i os (p.
127), uma ên ase nos emas de má ia, p os i uição, á ico e ex o sões (Cunha, 2007, p. 199).
Pa icula men e quando alamos das ep esen ações da mig ação eminina, o ema oma
con o nos ainda mais complexos, ao c uza dois a o es que ge am desigualdades múl iplas. Pa ícia
Je ónimo (2019) desen ol e o ema da o ma como é discu ida a eminização das mig ações. No seu

54
ex o e e e que acon ece uma di e enciação na o ma como as expe iências no eminino e no masculino
são abo dadas. Ainda que em ambos os casos sejam colocados como um p oblema, comp eende que
enquan o a mig ação de um homem é colocada como uma ameaça pa a os que o odeiam (pelo oco
no c ime e insegu ança), a mig ação de uma mulhe é uma ameaça pa a ela p óp ia, que pode á co e
um isco (como “ í ima de á ico, casamen os o çados e c imes de hon a”) (p. 41). Não des alo izando
os pe igos eais de que mulhe es mig an es são equen emen e al o e as disc iminações especialmen e
desp opo cionadas que so em (p. 45), ale a pa a a possibilidade de um ei e a dos es e eó ipos de
géne o (e aça e eligião) e pa a um esquecimen o do po encial emancipa ó io da mudança de país e da
posição da mulhe como agen e do seu des ino (p. 42). Em con apa ida, numa b e e no a, podemos
des aca o ipo de ep esen ação ei a em Po ugal ela i a aos seus mig an es, que gozam de uma
epu ação posi i a, de “ abalhado es á duos” que êm um g ande con ibu o pa a com o seu país, em
p es ígio, pela ação cul u al, mas, p incipalmen e, pelo e o no inancei o (Ribei o & To king on, 2019,
p. 162).
É impo an e e le i mos sob e o papel nega i o que é a ibuído aos média, como “po enciais
ins umen os de disc iminação”, po odos os mo i os já e e idos, mas ambém que pensemos na
possibilidade de se i em como aliados na edi icação do que é uma Eu opa, um mundo, “mul icul u al
e abe o à di e ença” (Cunha & San os, 2006, p. 26).
Des acamos, po an o, o papel do cinema na discussão sob e as mig ações, an o e e indo o
cinema iccional, quan o o géne o documen al que abo da de o ma signi ica i a “a ques ão do
deslocamen o e da diáspo a (Se a im & Ramos, 2016, p. 465). A sua capacidade de omen a o
conhecimen o e denuncia exp essões de acismo, de disc iminação, é essencial pa a que in e oguemos
as nossas pe ceções sob e o passado, o p esen e e o u u o (Macedo e al., 2021, p. 11).
Desde o início da c iação de na a i as cinema og á icas, ecuando a é aos clássicos
wes e ns
são
p oduzidas his ó ias de mig ação (Assis & San os, 2020, p. 155), mas após a Segunda Gue a Mundial
a na a i a de mig ação oma uma maio p opo ção e ocupa um luga impo an e no campo do cinema
de au o (Be ellini, 2013, p. 1505). Vemos como um e lexo do que acon ecia no mundo no momen o,
o p ocesso de descolonização e im dos con li os coloniais e o aumen o dos luxos mig a ó ios das
pessoas colonizadas em di eção aos países colonizado es (Se a im & Ramos, 2015, p.3075).
As á ias ondas de mig ação pa a e den o da Eu opa, as polí icas nacionais de exclusão ‘é nica’ e a
sob e i ência do colonialismo, bem como a disc epância económica en e a Eu opa e os seus ‘Ou os’,
es ão in imamen e ligadas ao desen ol imen o do cinema eu opeu. (Macedo e al., 2023, p. 1.4)
Nas úl imas décadas es e mesmo cinema eu opeu em dado um maio espaço a c iado es com
an eceden es mig a ó ios, ilhos e ne os, se não mig an es eles p óp ios, pa a uma c iação a ís ica com
55
“in e esse c escen e pelas dinâmicas do mul icul u alismo” e uma ep esen ação de “ elações
in e cul u ais” em luga de des aque. Es as imagens con apõem ep esen ações es e eo ipadas e
homogéneas das comunidades mig an es. São c iadas na a i as “complexas, ma izadas e
humanizado as” (p. 1.5) e é dada à comunidade mig an e uma opo unidade de iden i icação comum e
pe encimen o (Macedo & Cabecinhas, 2014, p. 58). Ainda assim, pe sis em as imagens es e eo ipadas
e edu o as mencionadas an e io men e nos p odu os cinema og á icos sob e es as populações (Maia,
2021, p. 48).
As na a i as diaspó icas são essenciais quando con apos as com as his ó ias, no malmen e
unila e ais, c iadas pelos di e en es países que se ocam numa iden idade e his ó ias nacionais (Macedo
e al., 2023, p. 1.4). É essencial e le i e descons ui essas “na a i as hegemónicas do passado pa a
ambém comp eende como ecoam no p esen e” (Maia, 2021, p. 49), já que po mais que o cinema
sob e mig ações possa se en elaça com elemen os simbólicos e imagina i os, as suas “condições
his ó icas” não podem acilmen e se apagadas (Be ellini, 2013, p. 1507). Mui as das his ó ias ocam
no “á duo caminho de conquis a de um no o sen imen o de coe ência pa a um sen ido biog á ico”
(Teixei a, 2017, p 277), e é possí el à chegada a um local aze “c í icas e lexi as” em elação ao sí io
que encon am quando se mudam (p. 282).
Os sujei os deslocados e mó eis não podiam pe manece pe i é icos às na a i as cinema og á icas
nacionais da Eu opa: eles expõem as polí icas e p á icas impe ialis as do passado, o nando-as isí eis
nas no as paisagens sociais e aciais das á eas cen ais dos cen os me opoli anos, audí eis nas no as
endências musicais e legí eis em p oduções li e á ias ino ado as bem-concei uadas. (Be ellini, 2013,
p. 1505).
Impo a-nos des aca o abalho de Ch is ian de Chalonge, que colocou no ec ã do cinema, de
o ma memo á el, as his ó ias da a essia dos po ugueses, de o ma clandes ina, pa a F ança. Con ou
his ó ias de pessoas que ugiam de um país amo daçado pela di adu a, e ido pela gue a e en aquecido
pela pob eza.
O Sal o (Le Sau )
(1967) é e e ência quando alamos num cinema que a a os emas da
mig ação po uguesa pa a F ança (Cabecinhas, 2020, p. 115). Mais ecen emen e, José Viei a ol a a
abalha o ema da aga mig a ó ia dos anos 60 no documen á io
A Fo og a ia Rasgada
(2002) (p. 116).
Quan o às na a i as de eg esso a casa, esse apelo ine i á el, mas mui as ezes ecusado,
podemos equen emen e enca á-las como um “con li o en e iden idades passada e p esen e” (A eal,
2011, p. 110). F equen emen e um mi o, an o cinema og a icamen e, como na ealidade (como
ap o undamos no capí ulo ela i o à mig ação po uguesa pa a F ança), ende a se um mecanismo pa a
aze a pe sonagem e le i , ques iona o pe cu so da sua ida e pensa os mo i os pelos quais e e de
abandona o país de o igem.
56
As na a i as mig a ó ias es ão in e ligadas com os meios de comunicação de uma o ma
i e e sí el, sendo assun os de c iação consecu i a de imagens sob e populações pa icula es (Be ellini,
2013, p. 1506). O g ande incen i o pa a a c iação de ob as audio isuais que inculem imagens sob e
as populações mig an es necessi a de um luga onde passado e p esen e se encon am e se p omo a a
e lexão sob e as elações in e cul u ais. Onde o “conhecimen o mú uo” conside e “os di e sos con ex os
de p odução de sen ido – social, polí ica, his ó ica e economicamen e cons uídos” (Cabecinhas e al.,
2019, p. 5), cujos “discu sos de iden i icação” na em uma cul u a de “ eno ação, esis ência e
essigni icação (Teixei a, 2017, p. 274).
Em suma, podemos a e i que as imagens ep oduzidas pelos média p ocu am ep esen a uma
ealidade social, sendo ambém agen es in luenciado es dessa mesma ealidade social. O cinema, em
es udo nes e abalho, ainda que em p opo ções e con o nos di e en es em F ança e em Po ugal é um
mecanismo essencial nessa e lexão e in luência da conjun u a em que é p oduzido. Essas imagens
isuais, que c ia am “imagens men ais e sociais” são, pensando as ep esen ações de géne o,
impulsionado as de uma cul u a de c iação de “ec ãs isuais, supe ícies es é icas” que não podem se
compa adas à inde iní el, mas não idealizada, ealidade da mulhe (Ribei o, 2005, p. 201). A pa , as
ep esen ações das pessoas mig an es, de igual complexidade, podem mos a uma mul iplicidade de
expe iências do que pode se uma ida di e en e, num país di e en e.
57
Capí ulo IV – Me odologia
O p esen e capí ulo dedica-se a uma explo ação sob e os caminhos omados e as escolhas ei as
pa a a ealização des e abalho. O e ecendo um b e e con ex o, desen ol emos as ques ões que
guia am a in es igação e lhe se i am de alen o. Explo amos pon os como o p ocesso longo que nos
le ou à escolha do ilme, que oi sujei o uma análise ap o undada, e os elemen os complemen a es que
ajuda am a sus en a a in es igação e as suas e en uais conclusões. Além disso, desc e emos o mé odo
de análise dos dados.
As elações mig a ó ias en e Po ugal e F ança são um assun o p esen e no seio de um g ande
núme o de amílias po uguesas. Não é incomum que o io mig ado e a p ima ancesa es ejam p esen es
na ida ou no imaginá io de miúdos e g aúdos. As ans o mações dos mo imen os mig a ó ios e elam
que a p e alência numé ica não é, como an e io men e, com des ino a F ança. O amanho da
comunidade, no en an o, mos a a impo ância e longe idade das elações es abelecidas e indica a
ele ância des e es udo. Nes e abalho, ap esen amos a ecolha de dados ela i os ao assun o, a ámos
e c uzámos es as in o mações com as si uações e acon ecimen os dos ilmes em análise.
As dinâmicas com que con ac amos du an e o p ocesso ab em po as pa a uma in e essan e
explo ação sob e o papel das mulhe es no con ex o da mig ação. O que as a as a e ap oxima de odas
as ou as mulhe es? O que sen em, ap endem, quem são quando deslocadas? Es as pe gun as
ca apul a am o es udo pa a o caminho das ep esen ações das mulhe es mig an es e, pa icula men e
nes e caso, o das mulhe es de o igem po uguesa mig adas em F ança. O ópico das ep esen ações de
géne o nos média omou o leme das páginas que esc e emos.
Temos como obje i o, en ão, comp eende o papel das mulhe es de o igem po uguesa no país
onde se inse em e pe cebe como as suas iden idades e elação ela i amen e ao país de o igem é
a e ada pela mudança. Pe cebemos a ex ensão e a mul iplicidade das idas, das pe sonalidades, das
ci cuns âncias, mas uma explo ação do ema pode á o nece lucidez sob e o ópico. Os con eúdos
cinema og á icos selecionados omam um papel impo an e nes a p ocu a, endo sido selecionados pa a
análise um ilme de icção e um documen á io.
O p ocesso pe mi iu-nos e uma noção sob e o modo como as mulhe es mig an es em F ança,
de o igem po uguesa, são ep esen adas nos ilmes selecionados. A seleção, ainda a explica , pe mi iu
o con ac o com di e sas i e ações da mulhe po uguesa no cinema ancês e luso- ancês.
A p incipal ques ão de in es igação, co po essencial na discussão das conclusões e esul ados,
Como é que as mulhe es de o igem po uguesa são ep esen adas no cinema?
pa icula men e no caso
58
do cinema luso- ancês, se e como um pon o de pa ida pa a um conjun o de ou as ques ões
subsequen es. Uma das p incipais pe gun as é se obse amos ep esen ações es e eo ipadas, epe indo
as conceções que são adicionalmen e associadas às mulhe es, como “papéis secunda izados semp e
em elação aos homens” sendo “donas de casa, as suas i mãs, as suas esposas ou in e esse omân ico
(Maia, 2021, p. 41) e esignadas à es e a p i ada, em esponsabilidades domés icas e amilia es
(Pe ei a, 2014, p. 201) ou se obse amos ep esen ações polémicas, que con es am es e eó ipos e
p omo em uma p o undidade e mul idimensionalidade das pe sonagens. Igualmen e, impo a ques iona
se es as ep esen ações se encon am associadas a mig ações mais ecuadas empo almen e ou mais
ecen es, e que ca ac e ís icas nos le am a e essa pe ceção.
Pa a comp eende es a ques ão, é pe inen e analisa , en ão, a cons ução da pe sonagem, no
caso do ilme de icção. É impo an e pe cebe se a pe sonagem é “apenas o execu an e e não a
enca nação” (Aumon & Ma ie, 2001, p. 226) do es e eó ipo da mulhe de o igem po uguesa.
4.1 Escolhas me odológicas e pe cu so da in es igação
Pa a ealização das p opos as ei as pa a o p esen e abalho, a in es igação seguiu ês g andes
es a égias de ecolha e análise de dados.
P imei amen e, e po que um “in es igado nunca pa e do ze o”, p ocu ámos o “co po de
conhecimen o que oi es abelecido po ou os in es igado es” (Cou inho, 2013, p. 59) e izemos um
le an amen o de lei u as e e en es aos emas, a e iguando pon os impo an es sob e as p incipais
g andes bases eó icas: as elações mig a ó ias en e Po ugal e F ança, as ques ões de nacionalidade e
iden idade e as ep esen ações, pa icula men e nos média e no cinema. A e isão de li e a u a pe mi e-
nos um conhecimen o mais as o sob e os emas de o ma que seja possí el aze uma análise in o mada
dos elemen os cinema og á icos e das discussões nos g upos ocais.
O segundo abalho essencial ecaiu sob e a explo ação de ob as cinema og á icas sob e o ema.
Pa a comp eende o es ado mais ge al das ob as ílmicas que abo dam a ep esen ação da mulhe de
o igem po uguesa, c iámos uma abela [apêndice I], endo como base a ecolha online po meio de
pla a o mas que ca alogam ilmes e as suas ichas écnicas como o
Le e boxd
e
IMDB
. A abela di ide-
se em co es, de aco do com a p obabilidade de se adequa ao p oje o (sendo e de mais p o á el e
e melho ecusado). A isualização p é ia daqueles ilmes que o am possí eis localiza e acede cons i ui
um c i é io de seleção c ucial que in luenciou as opções e os caminhos de in es igação seguidos. Foi
dada uma a enção pa icula a ilmes em que as pe sonagens cen ais na na a i a ossem mulhe es.

59
En e ilmes p oduzidos po cineas as lusodescenden es, ob as em cop odução e ilmes cuja
emá ica oca nas mig ações Po ugal-F ança, decidimos ab i o nosso co pus a á ias possibilidades,
não esquecendo a longa adição de cop odução en e os dois países, e po ha e inclusi e, e amen as
de inanciamen o especí icas pa a es as p oduções (ex.: Fundo Luso-F ancês do Ins i u o do Cinema e
do Audio isual, ICA). In e essa-nos es a pon e e pensa de que o ma ela in luencia a c iação das
pe sonagens.
4.1.1 Seleção dos ilmes
A escolha dos ilmes e elou-se um p ocesso di ícil pela de inição dos c i é ios de seleção já
apon ados. A decisão ecaiu sob e
Todos os Sonhos do Mundo
(2017) e
A Casa que Eu Que o
(2010),
ob as que p o a am a sua ele ância pa a o es udo ao longo da in es igação, que po es a em
disponí eis pa a isualização, que pelo ac o de as pe sonagens cen ais se em mulhe es.
Um ilme essencialmen e sob e c esce ,
Todos os Sonhos do Mundo
(2017), mos a-nos a lu a
en e a indi idualidade, as expec a i as que colocam nos nossos omb os e o encon a de um caminho
ce o. Pamela, 18 anos, pa ece p esa numa enc uzilhada que lhe chega pela idade e pela necessidade
de escolhe um u u o que não pa ece consegui alcança ou ou o que não pa ece que e . A meio de
mui as discussões e con li os, a amília isi a Po ugal num idílico e ão, de con ac o com en es-que idos,
a na u eza e amigos que já se inham pe dido. O p ocesso de descobe a é con ínuo du an e o pe íodo
de é ias e, no eg esso à ida em F ança, Pamela ê-se o çada a oma decisões que desag adam os
pais. O abalho de Lau ence Fe ei a Ba bosa mos a cla amen e os opeços e e idas de se o na
adul o e o b ilho que emana quando es amos mais pe o da espos a do que alguma ez es i emos –
como Pamela nos úl imos minu os da longa-me agem, a co e a ás de odos os sonhos do mundo.
A ligação com Po ugal, que Lau ence con essou que apenas se oi acen uando com os anos,
mo i ou-a a inalmen e, depois de anos de ca ei a, me gulha no país e c ia a e que com ele se
elacionasse (B anco, 2017).
Todos os Sonhos do Mundo
(2017) é uma ino ação no seu pe cu so, já
que a sua “o igem po uguesa nunca oi pa a ela uma ques ão (uma ques ão de cinema, en enda-se)”
(Oli ei a, 2017). A sua pe inência eside essencialmen e no a iado leque de pe sonagens ele an es ao
nosso es udo. Pamela e Raquel, sua i mã, assim como a amiga Claúdia, ep esen am a ge ação que
nasceu em F ança e que man ém laços com a comunidade po uguesa, maio es ou meno es, po meio
da amília, da Associação de mig an es e das isi as a Po ugal, assim como Linda, mãe de Pamela e a
a ó de Claúdia ep esen am uma ge ação mig an e mais ecuada empo almen e e que en en a ou as
ques ões e di iculdades.
60
A posição de Pamela ela i amen e a Po ugal é cu iosa, endo o país como uma solução e um
pa aíso, onde no malmen e se eencon a, mas que no momen o da sua ida que acompanhamos,
ambém lhe p o oca p oblemas, ques ões e mais ince ezas (Boni ácio, 2017). No im de con as, é ele
que, já não no e ão, isi a na on ade de c esce no seu p óp io co po. Con a iamen e, Claúdia deseja
apenas que Po ugal lhe ique pelas cos as, onde se sen e p esa e cas igada, li e al e igu a i amen e. As
duas pe sonagens são con as an es, numa dico omia in e essan e ela i amen e ao modo como eem
Po ugal, aos seus cos umes e às suas gen es.
Linda, mãe de Pamela, e a a ó de Claúdia, com quem es á a i e em Po ugal, são, en ão, a
pon e com a o igem po uguesa. A elação en e Linda e Pamela é ele an e na sua complexidade e nas
di e enças que as sepa am – a passi idade con a a obs inação, a calma con a a eação. O ilme o na-
se um mecanismo pa a pensa emas como iden idade, cul u a, iden idade cul u al, saudade, amo ,
amizade e o “pe ence ” (Boni ácio, 2017).
Complemen a iamen e,
A Casa que Eu Que o
(2010) ab e as po as ancadas das casas
con uídas numa aldeia do concelho de Pa edes de Cou a. As janelas echadas, o chei o do mo o, os
panos endados, os ja dins cuidados pelos izinhos e amília, o esul ado do suo . Jun am-se as his ó ias
de cinco di e en es amílias de Vascões que em comum êm a pa ida pa a F ança, o eg esso do e ão
e as pa edes que cons uí am na e a na al. O abalho de Joana F azão e Raquel Ma ques, cujas ozes
ou imos de ez em quando, é enxu o e deixa que as en e is adas (pe cebem-se e ou em-se as
pe gun as) sejam a pa e maio do que emos. São as suas his ó ias que dão co po ao documen á io.
Mesmo que as casas sejam o mo o , não necessa iamen e são as p o agonis as.
O documen á io, em o ma o de en e is a/con e sa e di igido po duas mulhe es po uguesas
se e como um con apon o, pe mi indo às mulhe es de o igem po uguesa mig adas em F ança a
opo unidade de se ep esen a em a si p óp ias. Es a é uma si uação que nos pe mi e aça
compa ações ou dis inções com o p odu o de icção. A sua escolha oi ei a essencialmen e pela
p oximidade do sujei o com a câma a e como essa in imidade nos pe mi e comp eende nuances
essenciais que ajudam na comp eensão de
Todos os Sonhos do Mundo
(2017).
Colocamos lado a lado
o abalho ei o em Po ugal po mulhe es po uguesas e o que pa e de um olha com in luências á ias,
de Lau ence Fe ei a Ba bosa.
Ambos os con eúdos audio isuais êm como ânco a o pon o do p ocesso mig a ó io que az com
que as amílias eg essem ao país no e ão. Es e é um momen o de pa icula ele ância pa a a dinâmica
mig a ó ia, an o do país de acolhimen o, quan o pa a o país de o igem, que ê as suas uas mais
mo imen adas, as salas de es a cheias e o comé cio a p ospe a . O e ão do (e)mig an e é de alguma
61
amilia idade pa a nós, e, mesmo a iando a idade dos p incipais en e is ados/pe sonagens, as
his ó ias pa ilham semelhanças en e si e com milha es de ou os po ugueses.
Ainda sob e as suas semelhanças, podemos e e i o ca á e documen al, p esen e em
A Casa
que Eu Que o
(2010), mas ambém elemen o impo an e em
Todos
os Sonhos do Mundo
(2017). O
abalho que iniciou como um documen á io, disse a ealizado a numa en e is a, ei e a a p oximidade
da ealidade. A di e o a, con ac ando com Pamela, a a iz, decidiu usa mui o da sua ida como
inspi ação pa a um ilme que já há mui o que ia c ia , mas não inha ainda o pon o de pa ida necessá io.
Pamela, a adolescen e, o na-se en ão Pamela a a iz e Pamela a pe sonagem, num c uzamen o en e o
eal e o ic ício que o na odas as linhas e ba ei as ex emamen e énues. Os es an es a o es não são,
igualmen e, p o issionais, seguindo es a busca pela au en icidade (B anco, 2017). Es e é um pon o que
conside amos jus i ica a escolha pa icula des as ob as.
Em con apa ida, a di e ença en e ambos é cla a na sua ep esen a i idade online, ainda que
não possamos decla a que nenhum dos dois seja conhecido do público ge al. Ainda assim,
Todos os
Sonhos do Mundo
(2017) em um núme o mais conside á el de comen á ios publicados em locais
dedicados ao comen á io de ilme pelos aman es de cinema.
A Casa que Eu Que o
(2010) em um meno
núme o de isualizações e não ap esen a comen á ios ei os pelos usuá ios da pla a o ma
Le e boxd
.
Podemos conside a es e caso, como já mencionado, como possí el esul ado da meno p ojeção da
ob a, assim como a sua p esença numa pla a o ma paga, con a iamen e ao ou o que nos p opomos
abalha . Ainda que com econhecimen o,
Filmin
é uma pla a o ma que não em o alcance de ou os
conco en es como a
Ne lix
, nem em a acilidade de acesso amplamen e dis ibuído pela pla a o ma da
ele isão pública, a
RTP Play
(onde se encon a disponí el
Todos os Sonhos do Mundo
)
2
. O meno
econhecimen o de ambos os ilmes o na-os impo an es pa a a nossa discussão, azendo com que a
in es igação enha um pon o de ino ação, po seleciona mos ilmes que ainda não são conhecidos do
g ande público ou mui o es udados. T abalha ob as que azem no os pon os de is a sob e o p ocesso
mig a ó io dá-nos a opo unidade de abo da esses emas de ângulos possi elmen e menos is os.
Podemos igualmen e e le i sob e a di e ença de p odução dos ilmes, com
Todos os Sonhos do
Mundo
(2017), um ilme de icção com maio supo e e o çamen o. Es as di e enças colocam o aspe o
come cial em di e en es pa ama es, in luenciando o seu alcance. A di e ença de da a de lançamen o, de
2010 pa a 2017, ambém a e a a sua p esença online, dado que e sido p oduzido mais ecen emen e
2
Os ilmes encon am-se nas pla a o mas indicadas du an e o pe íodo do abalho de in es igação, a é meados de ou ub o
de 2024. É possí el que sejam e i adas ou mig em pa a ou as pla a o mas a qualque momen o.
62
coloca a ob a de Lau ence Fe ei a numa ap oximação a ecnologias a que o documen á io pode não e
conseguido acede .
A isualização eco en e des as ob as oi essencial pa a que osse ei a uma análise minuciosa.
Os ilmes o am is os du an e á ias pa es do p ocesso, numa p imei a isualização mais
descomp ome ida, du an e o momen o de e isão de li e a u a, a é ao isionamen o epe ido
acompanhado de um momen o de análise ap o undada. P ocu ámos aze o es udo do a co p incipal
das pe sonagens, assim como os seus a cos secundá ios, pa a que osse possí el esponde às ques ões
de in es igação.
Todos os Sonhos do Mundo
(2017) cons i uiu o nosso obje o de análise p incipal e oi u ilizado
como es ímulo na ealização de dois g upos ocais. Ac edi amos que es e mé odo é uma mais- alia pa a
a pe ceção das eações p oduzidas pelo ilme, assim como pa a a dinamização do deba e sob e as
ep esen ações que pe pe ua.
Po im, oi ei a a isualização e análise, de o ma menos ap o undada, do documen á io
A Casa
Que Eu Que o
(2010) que, embo a não en ol a na equipa de ealização pessoas de o igem ancesa ou
lusodescenden e, coloca amílias mig an es, pa icula men e as suas ma ia cas, numa posição em que
se au o ep esen am.
Ti emos ainda em a enção elemen os que comunicam mensagens ele an es pa a o abalho,
como en e is as às di e o as dos ilmes obje o de es udo. Es es con ibu os o e ece em
insigh s
menos
pe ce í eis sob e a p odução dos ilmes, explicam os p ocessos de c iação, assim como as in enções
p esen es nas ep esen ações eiculadas. T a a-se de uma “au o e elação” das isões que a pessoa em
das suas expe iências” mencionada po Bogdan e Biklen (1994), que enca am es e elemen o que
analisa emos, en ão, como documen os pessoais (p. 177).
4.1.2 G upos Focais sob e
Todos os Sonhos do Mundo
Pa a comp eende de o ma mais p o unda o impac o das ep esen ações pe pe uadas pelo ilme
e como es as con e sam com a sua audiência, decidimos conduzi dois g upos ocais com alunos
uni e si á ios como pa icipan es. Na sua cons i uição (apêndice II), 16 pa icipan es di ididos em dois
g upos (7 e 9 elemen os), encon amos 6 elemen os que se iden i icam como sendo do géne o eminino
e 10 do géne o masculino, comp eendendo idades en e os 20 e os 26 anos. Todos são es udan es da
Uni e sidade do Minho, nas mais di e sas á eas, lis adas na abela de ca ac e ização dos pa icipan es
dos g upos ocais. Op a pelo mé odo pe mi iu-nos obse a a discussão de o ma p óxima, num g upo
de alunos que se espe a a olha o ilme e os emas ap esen ados de o ma mais p o unda e dinâmica.
69
Impo a e e i algumas cenas em pa icula pa a discu i mos a ep esen ação do p ocesso
mig a ó io no ilme. O aze as malas em amília, os p odu os po ugueses na mesa em F ança, a iagem
de ca o e o alí io de e a paisagem de Po ugal, o chega e no a qualque que seja a mudança ei a
na con igu ação das uas ( o og ama 6), da cidade, da casa po uguesas. Pe cebe que o local não se
encon a como na memó ia, imu á el, inal e ado. Os momen os em Po ugal, de encon o da amília,
dos p imos anceses que se são de di e en es zonas desse país en ão ambém se eencon am em
Po ugal, o ca o no o, as mesas comp idas e a ca ne a assa ( o og ama 5). As pe gun as e a ualizações,
o con a de udo o que se passou du an e um ano em b e es minu os.
De o ma menos posi i a, “A F ança le ou-
me odos os ilhos” (
Todos os Sonhos do Mundo
, 2017), é uma do comum nas uas de milha es de
aldeias. O sen imen o de já não se is o como pa e do uncionamen o, mas sim como uma o ça
ex e io , pa asi a, que em e oma os luga es de es acionamen o, a comida do supe me cado, uma
e dadei a in asão (pa icula men e explíci a na cena do me cadinho “olhe, omos in adidos, os
anceses ol a am”) (
Todos os Sonhos do Mundo
, 2017). Es e é um sen imen o de se uma o ça
ex e io , um mig an e dos dois países, desen ol ido po Homi Bhabha (1998), como mencionado
an e io men e, no seu uso do e mo “en e luga es”. O indi íduo simul aneamen e pode c ia “no os
signos de iden idade” (p. 20), pela sua bagagem cul u al, mas igualmen e pode se al o de
disc iminações e es e eó ipos como no caso de Pamela na cena desc i a.
5.2 As ocas de pe ceções F ança – Po ugal
Numa das p imei as cenas, quando os jo ens da Associação discu em a sua on ade de isi a
Lisboa, um dos apazes diz “pa ece que lá são odos uns an a ões” (
Todos os Sonhos do Mundo
,
2017), uma ideia que eme e pa a um conjun o de es e eó ipos sociais sob e a sociedade lisboe a.
Fo og ama 5 – Jan a da nume osa amília (
TSM
, 2017)
Fo og ama 6 – An ónio epa a no no o banco (
TSM,
2017)

70
Um dos pe sonagens com quem Pamela se c uza no seu pe cu so académico, desc e e Po ugal
como um país lindo, elogia as suas gen es “encan ado as”, “simpá icas” e “educadas”, o que não deixa
de se pa e de isões “hipe simpli icadas” da ealidade (Cabecinhas, 2012, p. 152).
Os comen á ios de Ke in, essencialmen e sob e os homens po ugueses, e idenciam uma
dis ância maio , já que não pa em de um sí io como uma isi a a Po ugal, mas ainda assim são
in luenciados pelos po ugueses com quem se c uza em F ança. “E u, encon as e algum ben iquis a
peludo?” e “Não discu as! Também sei se um macho po uguês” (
Todos os Sonhos do Mundo
, 2017)
e elam uma ideia p é-cons uída da masculinidade po uguesa, o e e no ma i a, conse ado a.
A cena pa icula en e Jé émie e Pamela ambém ece um núme o de ideias sob e os
po ugueses, de igual o ma di igidas à população mig an e:
Jé émie – Aquilo não é cul u a, é olclo e. E o olclo e é Salaza . Sabes quem é? O ascismo, isso udo, diz- e
alguma coisa?
Pamela – Não ejo qual seja a elação.
Jé émie – O p oblema é esse, não ês a ligação, es ás comple amen e condicionada. Não e ape ece acaba com
essa me da?
Pamela – Não ejo as coisas como u e não me ape ece discu i .
Jé émie – Saís e-me uma e dadei a po uguesa. “Sou disc e a, abalho como uma mula e enho saudades”. É
isso?
Pamela – Não enho é e gonha de se po uguesa.
Jé émie – Mas eu ambém não! Mas não me deixo subjuga , pe cebes? E não me egozijo da minha nulidade.
(
Todos os Sonhos do Mundo
, 2017)
As pe ceções de Jé émie, que p o a elmen e e le em memb os da sua amília que são pa e do
p ocesso mig a ó io, ou a é mesmo esiden es em Po ugal, sendo edu o as, não são o iginais. Os
adje i os que a ibui são ep oduzidos po ou as camadas sociais e po ou os mig an es no ilme que
o am c iando dis ância com Po ugal, ou mesmo na i os quando se e e em à comunidade mig an e.
Es a ideia da saudade é ep oduzida inúme as ezes quando e e en e a Po ugal, em pa e po o gulho,
em pa e po cliché. A mís ica da g ande ca ga de abalho, pa icula men e dos mig an es, ecua aos
anos 70 e 80, nas condições de habi ação p ecá ia, as pesadas ho as ex a e o en io de emessas pa a
Po ugal. Não necessa iamen e e adas, es as são noções que não ob iga o iamen e ca ac e izam os
po ugueses a ualmen e, mas que azem pa e do imaginá io da mig ação po uguesa pa a F ança.
Ou os jo ens e e em Po ugal de uma o ma idílica em á ios momen os do ilme. Pamela
comen a num
pos
do
Facebook
que em Po ugal odas as pessoas são iguais e ninguém julga ninguém
e na cena com á ios jo ens lusodescenden es em oda ou imos “quando es ou em Po ugal, pe cebo
melho quais são os meus alo es” (
Todos os Sonhos do Mundo
, 2017). Quando compa ado com as
pe sonagens mais elhas, como a a ó de Claúdia, ou a é Linda que não ece comen á ios sob e Po ugal,
mesmo que a sua mãe ainda nele i a, pe cebemos que não se pensa o país da mesma o ma quando
exis e um passado mais complexo elacionado com ele. Pa a es as pessoas, Po ugal é mais eal, com
71
do es e suo , algo que os jo ens pe sonagens não i e am. Podemos en ão dize que as pe ceções de
Po ugal a iam ambém con o me a ge ação e as expe iências i idas.
Como podemos e , os comen á ios di igidos aos po ugueses e a Po ugal no ilme não são
necessa iamen e homogéneos e eme em pa a uma imagem complexa e mul i ace ada da expe iência
mig a ó ia. Claúdia Cas elo ala sob e uma isão dos po ugueses como pessoas de “uma eno me
capacidade de adap ação a odas as coisas, ideias e se es, sem que isso implique na pe da de ca á e ”
(1998, p. 126) e Jo ge Dias a ibui adje i os como “sonhado ”, “humano”; sensí el” “amo oso e
bondoso”, indi idualis a, mas ambém solidá io, i ónico e com di iculdade em lida com o o gulho e ido
(Cabecinhas & Cunha, 2003, p. 26), o que con as a com a ideia que Jé émie apon a aos po ugueses,
de submissão e nulidade. No en an o, não podemos igno a que exis e uma onda de pensamen o que
associa Po ugal à ideia do “p imo pob e da Eu opa”, aquele que ica pa a ás, que e olui mais a de
(Ribei o, 2008, p. 234), e age com “b andos cos umes” (Cabecinhas, 2023, p. 768), pe ceções mais
alinhadas com a e lexão do jo em pe sonagem.
Face à di e sidade de opiniões, e em es e eó ipos cole i os não se consegue p ecisa
necessa iamen e uma “iden idade nacional” (Sob al, 2020, p. 172). Pe cebemos, no en an o,
ep esen ações associadas à mig ação po uguesa pa a F ança do século an e io no molda des as
ideias pa ilhadas.
5.3 O núcleo eminino de Todos os Sonhos do Mundo
O núcleo eminino p esen e no ilme de Lau ence Fe ei a Ba bosa é o que conside amos se a
sua alma e o ça mo iz. Pa a p opósi os des e abalho, in e essa-nos um maio oco nas pe sonagens
mais no as, Pamela, a p o agonis a, Raquel, sua i mã e Claúdia, a sua amiga pela complexidade da
cons ução das suas iden idades, agmen adas e múl iplas ela i amen e ao sen imen o de pe ença a
uma cul u a e nacionalidade.
Mui as p oduções ílmicas colocam as na a i as emininas como um pon o secundá io, se indo
as his ó ias dos pe sonagens masculinos, que a ançam a quem lhes é pe mi ido p og esso. São donas
de casa, ilhas, i mãs, esposas ou um obje o de desejo omân ico ou sexual. É comum a di isão en e
os pe sonagens masculinos como a i os e os emininos como passi os, an o na a i amen e, como na
sa is ação de desejos, uma ideia desen ol ida po Lau a Mul ey no seu abalho
Visual Pleasu e and
Na a i e Cinema
(Maia, 2021, p. 41). Em
Todos os Sonhos do Mundo
(2017) os papéis no ma i os de
géne o es ão p esen es, numa ep esen ação que e le e a ealidade de mui as amílias po uguesas,
an o em e i ó io nacional como adicadas no es angei o, mas a mulhe é colocada como um mo o
72
da ação. Pamela é uma p o agonis a com ambições em cons ução, desen ol imen os e p io idades que
ocupa um espaço ulc al, assim como a sua amiga Claúdia cuja na a i a é um pon o essencial no a ança
da jo nada da p o agonis a e da his ó ia do ilme. Os seus co pos não são explo ados sexualmen e ainda
que p esen es e de Pamela emos dis ância e desin e esse em qualque in e esse omân ico. Explo ando,
nas p óximas páginas, de o ma mais p óxima cada uma das pe sonagens mais ele an es, dis inguimos
uma ge ação an e io mais no ma i amen e ep esen ada a uma mais no a num caminho de passos
la gos em en e.
5.3.1 C escimen o e emancipação de Pamela
Podemos pensa a jo nada de Pamela como um pe cu so de c escimen o a caminho da sua
emancipação. Du an e á ios momen os do ilme pe cebemos uma p og essão en e uma menina que
p ocu a a ende às expec a i as dos pais, a é chega mos a uma mulhe que decide o que aze com o
seu p óp io dinhei o, omando decisões que con a iam qualque on ade dos seus p ogeni o es pa a si.
A p imei a dessas cenas, onde apenas se incluem Raquel e Linda, essencial pa a
comp eende mos o momen o da ida em que Pamela se encon a e e mos um
insigh
sob e as on ades
da sua mãe em elação ao seu u u o é quando Pamela, alha o
bac
, a e apa que lhe pe mi e e mina o
ensino secundá io egula e ing essa no ensino supe io . O e ão de Pamela ese a-lhe decisões sob e
o u u o que não necessa iamen e que oma . Linda pede-lhe p oa i idade em elação ao seu des ino,
demons ando sen imen os de is eza e desilusão ainda que, econheça, mais a de na na a i a, que
Pamela nunca a desiludiu. Aga a-se a um plano de ida pa a a ilha (que Pamela ac edi a não se
possí el ealiza ) e em espe ança de que alguma das conexões que c iou na sociedade onde se inse e,
po meio da pa oa (médico-legis a, e exce o abaixo), possam da um empu ão a Pamela. A mãe ai
sendo chamada à azão po Raquel, que pa ece es a do lado da i mã mais no a e comp eende que es a
conexão não necessa iamen e se i á no u u o dela. Pe cebemos nes a cena, al ez mais que nas
p óximas, que Raquel é empá ica com Pamela, apelando a que a mãe ambém o seja, en ando ali ia a
p essão dos omb os da i mã. Ainda que Pamela exp esse que não que epe i os exames, no inal da
cena, pedindo que pa em de decidi coisas po ela, não é necessa iamen e ou ida, e es e é um assun o
que e o na du an e odo o ilme.
A cena seguin e ambém inclui An ónio, pai de Pamela e Raquel. O om é bas an e mais
emocional que na cena an e io , dando pa a comp eende que não se a a de uma passi idade como
pode ia pa ece , mas sim um mis o de sen imen os mais complexos como culpa, us ação e desilusão
que se alojam den o da p o agonis a ( o og ama 7):
73
An ónio – Es i es e a cho a ?
Pamela – Não, po quê?
Linda – Es i es e!
Pamela – Não, mas…
Linda – Mas o quê?
Pamela – Não que o con inua a se um a do pa a ocês. Es i e a pensa que não ou a Po ugal es e ano. Vou
ica cá, a anja abalho, e assim posso da - os uma ajuda. E gos a a de comp a um piano no o.
Linda – Mas que dispa a e é esse?
Pamela – Vocês abalham an o!
An ónio – Nós só que emos que encon es o eu caminho, Pamela. Combinámos que e pagá amos os es udos.
Linda – Vais epe i os exames!
An ónio – Pa a lá de cha ea com os exames!
Linda – Ligas e ao médico-legis a?
Pamela – Ti e essa ideia de se médica-legis a quando inha 14 anos. Ago a não ale a pena. Nunca lá chega ei.
Linda – En ão ais desis i ? Semp e disses e que que ias ajuda os mo os, Pamela!
Pamela – Sim, e a o meu sonho! Tu não inhas sonhos quando e as no a? Es ás a e ? Po a o , não es ejas
semp e a ala disso.
Linda – Es á bem, não digo mais nada. Mas se ainda i e es uma pon a de co agem, peço- e que en es epe i-
los. Po i, mas ambém po nós. Já pensas e como ica emos desiludidos se não e mina es o secundá io?
Pamela – É isso mesmo, es ou a a de os desiludi .
Linda – Mas nunca me desiludis e! São coisas que acon ecem. (
Todos os Sonhos do Mundo
, 2017)
A se iedade com que exp essa a o ma como se sen e, con as a com uma das cenas
an e io es, onde Pamela con a que ado a i a Po ugal. A sua p oximidade com o país se á ainda
explo ada, mas comp eendendo que é um sí io que ela gos a e onde se sen e bem, coloca na
mesa que ica á em F ança du an e o e ão pa a p ocu a um emp ego e le e uma consciência
das esponsabilidades que as suas decisões aca e am pa a os seus pais. Linda mos a se o
memb o da amília mais insis en e no obje i o de passa nos exames, demons ando ce a
indignação pela ideia de a ilha desis i , ainda que es a osse já a e cei a en a i a, con as ando
com o pai, que pede que se e mine com o assun o. Quando lhe pede co agem, á-lo num om
que podemos le como emocional, solici ando que Pamela cump a os desejos de u u o pela
amília, pa a não os desiludi . Os limi es en e a mo i ação, espe ança e desilusão pa ecem
dissol e -se no seio amilia .
As ou as duas cenas que nos in e essam pensa nes e con ex o acon ecem depois da
iagem de e ão a Po ugal, que acabou po inclui odos os memb os da amília, apesa da
Fo og ama 7 – Pamela cho a em con e sa com os pais (
TSM
, 2017)
74
p opos a de Pamela. Pensamos en ão nes e co e, nes a mudança de espaço, como um p incipal
pi o
nas mudanças in e nas de Pamela. Os momen os em Po ugal pe mi i am-lhe e le i e
pe cebe que as espos as que p ocu a a não se encon am no idílico e ão. O con ac o com as
pessoas em Po ugal, como o seu p imo que não comp eende o seu desejo de ab i um ingue de
pa inagem, pode e sido ca alisado nes a mudança. Ainda assim, não podemos igno a o
po encial de ans o mação causado pelo con ac o com Claúdia que, como ela p óp ia ac edi a, é
mui o di e en e de si. Nes a di e ença, Pamela pode amilia iza -se com uma o ma di e en e de
e o mundo, uma i e e ência e um ema con a as expec a i as que, de ce a o ma, a pa ecem
inspi a .
É exa amen e sob e Claúdia a cena onde Pamela ma ca cla amen e um di e en e
compasso mo al ace ao dos seus pais e en am em con on o. De um lado emos a e gonha de
uma amília conse ado a, nes e caso ela i amen e ao ema do abo o, uma p eocupação com a
imagem que a ação da ilha pode passa pa a os amigos e conhecidos, al e a a pe ceção eca ada
da amília. De ou o, a compaixão e comp eensão de uma amiga:
An ónio – Ago a ais p ocu a abalho, não me in e essa o quê. Chega das uas con usões.
Pamela – Não são con usões.
An ónio – Não e ila.
Pamela – Não espondi, es a a só a explica .
Linda – Não econheço a minha ilha. Como pudes e aze is o?
Pamela – Fui ajuda uma amiga. Semp e me ensina am que de ia se solidá ia.
An ónio – Ajudas e uma meno a abo a , achas isso bem?
Linda – Os pais da Claúdia es ão u iosos con igo. O que é que as pessoas ão pensa de nós?
An ónio – Es ou-me nas in as pa a isso!
Linda – Se i esses ei o um dispa a e po amo , ainda comp eendia, mas po uma miúda idio a!
An ónio – Nem po amo ! Es ás doida?
Linda – Não e a ependes do que izes e?
Pamela – Não. (
Todos os Sonhos do Mundo
, 2017)
A posição dema cada de Pamela, que em momen o algum se a epende das suas ações,
dis ancia-se da pe sonagem que podemos e no início do ilme. Ainda que o ema da discussão
não seja o mesmo, é nes e momen o que An ónio acei a de o ma cla a que Pamela i á abalha .
Enuncia em om de cas igo aquilo que a ilha pa eceu p ocu a du an e odo o ilme. A obs inação
e omada de decisões de Pamela, sozinha, de aco do com o que que e ac edi a, e en ualmen e
le am-na a esse momen o.
A úl ima cena des a jo nada coincide com o inal do ilme, a úl ima cena alada, an es do
des echo.
Pamela – Não os disse, mas no p óximo im de semana ou a Lisboa.
An ónio – O quê?
Pamela – Comp ei uma iagem em p omoção. E a Lond es ou Lisboa. Também gos a a de i a Lond es, mas
Lisboa…
Linda – E ais com alguém?

75
Pamela – Não, ou sozinha. Nunca ui a Lisboa, achei que e a de ap o ei a .
Linda – Eu ambém nunca ui a Lisboa!
An ónio – Não podes i sozinha! Se quise es, amos odos es e e ão.
Pamela – Já comp ei o bilhe e. E ape ece-me i sozinha.
Linda – Vais muda - e pa a Po ugal?
Pamela – Quem disse que que ia i i e pa a lá? Vou só em u ismo. Semp e os disse que que ia iaja .
An ónio – E o abalho?
Pamela – Despedi-me.
Linda – Mas es ás louca?!
Pamela – Eles que iam que eu icasse, mas não podia despe diça a p omoção.
An ónio – Es ás a goza connosco?
Pamela – Não.
An ónio – Vais cancela a iagem! Amanhã ol as ao abalho e pedes desculpa.
Linda – Se eles quise em ol a a acei a - e.
Pamela – Ago a já não ol o a ás. Pa o sex a à noi e e ol o segunda de manhã.
Linda – E que ais aze quando ol a es?
Pamela – A anjo ou o abalho.
An ónio – Se o es, escusas de ol a !
Linda – Pa a, An ónio.
An ónio – Pa a o quê? Ela que pa e!
Linda – Já disses e à ua i mã? (
Todos os Sonhos do Mundo
, 2017)
No que pa ecem se alguns meses passados desde o e ão em Po ugal, Pamela e ela
aos pais que ai iaja pa a Lisboa e que se despediu do seu emp ego pa a o aze . Não
su p eenden emen e, é con on ada com a indignação e e aliação do pai e a p eocupação da
mãe, não se deixando abala po nenhuma das duas. Podemos con apo com a p imei a cena do
ilme quando Pamela não se jun a à iagem de g upo da Associação Po uguesa, alegando que
não que ia aze planos pa a um p óximo ano ince o. No en an o, supomos que a decisão de
iaja não pode ia i de uma Pamela do início do ilme, inancei amen e é ce o, mas
emocionalmen e é possí el obse a um c escimen o desde a cena em que se es anha no espelho
depois de uma mudança de co de cabelo, e o momen o em que az as malas e pa e sozinha.
Nes a cena emos um con apon o en e uma Pamela que não ajudou Claúdia inicialmen e e uma
ou a que lhe deu a mão, li e al e igu a i amen e, no consul ó io, no hospi al, e na ecupe ação
após a in e upção olun á ia da g a idez (IVG).
Podemos pe cebe uma Pamela i me igualmen e na sua elação com Ke in, que não
a ança pa a além de uma amizade e cujos limi es ela coloca. Em á ios momen os Ke in insis e
numa elação de ca iz omân ico, desde an es de Pamela e iajado pa a Po ugal e essa
insinuação pe manece ao longo do ilme. Podemos e uma maio abe u a na p o agonis a ao
longo do ilme em elação a es a amizade, mas com de e minação em man e a elação assim. É
ambém a a és de Ke in que emos a ibuídos a Pamela adje i os que não necessa iamen e
conseguimos associa -lhe quando a emos, no início, em si uações amilia es e ela i as ao seu
u u o, como “obs inada”.
76
Ac edi amos que a aje ó ia de Pamela não seja assim ão dis an e da pessoa que ela
semp e oi, mas algo a bloquea a de cump i as suas on ades quando se a a a de oma
decisões pa a o u u o e con a ia as expec a i as que os pais pa a ela c ia am. Quando Ke in
con a a his ó ia em que Pamela diz a odos os colegas da sua u ma que os pais são os seus
he óis, pe cebemos que a elação que es abelece com eles não é só a e i a, mas de admi ação.
Cump i com os desejos da amília pode se uma o ma de e a ce eza que os es o ços
mig a ó ios não o am ei os em ão.
Es as expec a i as são p incipalmen e no adas na elação com Linda, a sua mãe, mais do
que qualque memb o da sua amília. Não pa ece se possí el que a mãe deixe pa a ás o u u o
que ac edi a que a ilha consegue a ingi , uma di iculdade de acei a que a ilha c esce, e ol e e
muda, a inal, ela não em mais 14 anos e pode não sonha mais com a p o issão de médica legis a
(não são a os os adolescen es que an asiam sob e as mais di e sas ca ei as, uma a ás da
ou a, às ezes sem ligação necessa iamen e lógica). Ainda que o seu p imo a apon e como a
p ima “mais espe a”, as capacidades que emos po pa e de Pamela ao longo do ilme, a
pa inagem, o piano, uma a eição pela música e pelo cinema, não são as que lhe são elogiadas.
As suas compe ências a ís icas pode iam con ui -lhe um u u o que a deixa ia eliz, mas essa
não é uma possibilidade colocada du an e o ilme. Se o seu sonho de ab i um ingue de pa inagem
não é colocado como possí el, como se ia ecebida a ideia de se pa inado a p o issional ou
pianis a?
No inal do ilme não sabemos ainda qual se á o u u o p o issional de Pamela, ela e e e
que é boa no seu abalho, p incipalmen e na unção de caixa, mas “não gos o nada. Mas consigo
di e i -me um bocado” (
Todos os Sonhos do Mundo,
2017). A sua emancipação não
necessa iamen e es á a elada a es e abalho, do qual acaba po se despedi , mas sim à
possibilidade de ela o pode escolhe , decidi quando o abandona , e o que az com o dinhei o
que dele ecebe. A sua emancipação conc e iza-se numa con e sa de igual pa a igual com os pais,
mas onde o seu pode de decisão sob e si p óp ia é ma can e.
5.3.2 Claúdia, libe dade e es ições sociais
Ainda que se jun e ao ilme apenas na pa e que se passa em Po ugal, a sua his ó ia é
um dos g andes mo o es na a i os, u o das suas escolhas, os seus pe calços e as ap endizagens
que isso p opo cionou. An es mesmo de apa ece , quando se ala de Cláudia no ilme o om não
é a o á el e os olha es nega i os sob e as suas opções co em pela aldeia de boca em boca, em
comen á io ou em oça, mesmo que Pamela escolha men i e não pa ilha isso com ela. O
77
consumo de d oga, o ac o de e sido expulsa da escola, o seu cas igo em Po ugal dão índicos e
p epa am-nos pa a uma pe sonagem di e en e de Pamela. Pe cebemos que odas es as pe ceções
sob e Cláudia não são men i as espalhadas, mas quando a pe sonagem nos é e e i amen e
ap esen ada a cena é enquad ada numa luz que lhe a ibui um ca á e posi i o e aleg e, a as ando-
se da o ma du a como é desc i a.
Pensa mos no seu cas igo, que a az ol a a Po ugal mais cedo, ica sem elemó el e
aze as a e as do campo, é pe cebe mos que não há mui o que a ap oxime a es a ida u al.
Con as a com Pamela o olha sob e o abalho do campo. T a a dos animais só lhe é sa is a ó io
pela possibilidade de não e de se c uza eco en emen e com os habi an es da aldeia e se pode
a as a das ideias que são ansmi idas sob e ela e sob e udo o es o. Dis ancia-se, en ão, desde
o início, das ou as pessoas, in oduzindo na na a i a uma oz mais libe al e libe á ia. Ao longo
do ilme pe cebemos que as mudanças que i e são in luenciadas po amigos e, p incipalmen e
pelo namo ado, Jé émie. Quando se discu e o inal da amizade en e Pamela e Claúdia,
comp eendemos que a p oximidade e amizade delas (imp essa num quad o na pa ede do qua o
de Cláudia onde apa ecem mais no as) so eu mudanças e que se a as a am.
Claúdia – Vou mos a - e a minha plan a de canábis. É linda, ais e ! Es ás a e como é linda? E ai
c esce . Quando a a anjei, e a des e amanho. Não é ixe? Fico con en e po me e es indo isi a .
Já nem me lemb o po que é que nos zangámos.
Pamela – Eu lemb o-me bem.
Claúdia – En ão diz lá.
Pamela – A anjas e um g upo e icas e hipóc i a e in luenciá el.
Claúdia – Ob igadinha!
Pamela – E es ás cada ez mais a mada em p incesa.
Claúdia – En ão, i i o- e. Lemb o-me da mensagem que me en ias e. “Somos demasiado di e en es,
não posso mais se ua amiga. Esquece-me.”
Pamela – É e dade que somos di e en es. (
Todos os Sonhos do Mundo
, 2017)
Mui o do seu pe cu so inclui o namo ado dez anos mais elho, desde o cas igo, à en a i a de o
con ac a , culminando na sua g a idez e uma eap oximação já em F ança. Es a é uma elação que o
ilme não nos pede pa a oman iza , nem é is a como aspi acional em qualque momen o, mas que
e a a si uações eais i idas po mulhe es jo ens. É uma elação que embo a sem indícios de iolência,
não é espei ado a.
O g ande ma co do seu a co é quando descob e a sua g a idez. A o ma como lida com a
si uação não é algo que cause es anheza no espe ado . Ela pa ece se de e minada, ainda que se mos e
assus ada. O ac o de ugi de casa e apanha um au oca o pa a F ança são indicado es des a
obs inação e busca po independência que, mesmo p ecoce, não é inespe ada. Du an e o pe cu so a é
ao abo o encon amos uma Claúdia mais ponde ada e insegu a ( o og ama 8). Nos momen os da
consul a, Pamela acompanha-a, e Claúdia deixa-a assumi a con e sa. Depois cho a ( o og ama 9). A
78
sua ulne abilidade não se con unde com aqueza. A possibilidade de eco e a uma IVG de o ma
segu a o na es e p ocesso mais simples, menos exaus i o, ainda que seja uma si uação di ícil. Es a
abo dagem em descons ui uma ideia e aquilo que oi uma ealidade há algumas décadas, em que se
azia a IVG de o ma insegu a e clandes ina pa a e i a cons angimen os da sociedade e penas de p isão.
Es udos ei os em p oximidade com adolescen es g á idas mos a que em g ande núme o os seus
pa cei os são adul os, mui os la gos anos mais elhos que as adolescen es (Figuei edo e al., 2006, p.
103), como acon ece nes e caso.
Claúdia não comunica o oco ido aos pais, a é depois de e e i amen e acon ece . Os pais
inicialmen e acham que ugiu pa a F ança po causa do namo ado. Assume que es es não
comp eende iam e a cas iga iam mais do que se iam coope a i os e comp eensi os.
Ainda que azendo pa e de uma sociedade apa en emen e abe a, numa cidade di e sa e
mul icul u al em 2016, o abo o é is o como abu e a é, se conside a mos o en ol imen o em p á icas
eligiosas da amília, como “pecado”. Os di ei os alcançados pelas mulhe es nas úl imas décadas e a
libe dade de decidi em sob e o seu co po es ão semp e em con apon o com uma sociedade
iminen emen e pa ia cal, que associa a mulhe a papéis adicionais ligados ao ambien e domés ico e
ques iona e julga quando es a isão do mundo é con es ada.
Es a de e minação do seu p óp io u u o, com a ajuda de Pamela como a “adul a” p esen e, não
se ans e e, no en an o, pa a a sua elação. Depois de odas as di iculdades de comunicação, a ecusa
de Jé émie que se a as a de Claúdia, ele ol a, mais a de, ocupando o apa amen o que a jo em usa e
que não é dela. No inal, Claúdia esc e e um bilhe e a con a a Pamela que chamou os pais e ol ou
pa a casa. O seu pe cu so no ilme é in e essan e do pon o de is a do espe ado e az ao ilme uma
maio p o undidade, deixando que seja mais do que um e a o de mig ação, mas um pedaço complexo
de ida, uma imagem de uma mulhe pin ada com di e sas co es, con as e e p o undidade.
Fo og ama 8 – Claúdia emocionada ao con a que es á g á ida
(
TSM
, 2017)
Fo og ama 9 – Claúdia emocionada depois da in e upção da
g a idez (
TSM
, 2017)
85
No en an o, não podemos esquece que o con ac o com a cul u a po uguesa não é apenas
pon ual. Se é pa e essencial da iden idade dos pais se um mig an e em F ança, es a si uação e á
algum c uzamen o com as suas p óp ias iden idades. A p imei a cena do ilme (Fo og amas 14 e 15)
coloca-nos exa amen e numa a i idade da Associação po uguesa, onde se dança olclo e, onde se
se em bolos, onde se con i e em po uguês. E emos Pamela e ou os jo ens p esen es (Claúdia é a é
mencionada), em a i idades que pa ecem deixá-los elizes, com maio ou meno g au de in e esse. A
pa icipação (e menção) eco en e da Associação coloca-as di e amen e em p oximidade ou nes a bolha
que pa ece ep esen a a comunidade de o igem po uguesa em F ança.
O a o in eg ação e en eajuda ainda se man ém como o ça mo iz do uncionamen o des as
associações, mas ac esce ago a uma unção de ansmissão da cul u a po uguesa pa a as ge ações
mais no as, um pon o de c uzamen o en e o que ap endem na escola da cul u a ancesa, e o que
ap endem lá da cul u a po uguesa. A iden idade das pe sonagens cons ói-se e é insepa á el da
pa icipação de di e en es g upos sociais:
A iden idade social de uma pessoa esul a do econhecimen o da sua pe ença a ce os g upos sociais e
do signi icado emocional a ibuído a essas pe enças. Na comp eensão das dinâmicas iden i á ias é
necessá io e em con a que cada indi iduo pe ence simul aneamen e a á ios g upos sociais, sendo que
a saliência das di e sas pe enças g upais depende do con ex o e do es a u o ela i o dos g upos numa
dada es u u a social e num dado momen o his ó ico. (Cabecinhas, 2015, p. 337).
Pamela é desc i a como endo uma elação mais p óxima com Po ugal do que a amiga Claúdia,
como podemos a e i no diálogo ansc i o acima. Embo a ambém seja descenden e de pais
po ugueses, Jé émie a as a-se iolen amen e de Po ugal e da o ma como ê a sua cul u a. A discussão
com Pamela ( ansc i a an e io men e) deixa cla o que coloca o olclo e como uma descendência di e a
do egime salaza is a, mas não admi indo que enha sido en ão omado pelo po o e o nado um símbolo
de adição p incipalmen e do no e do país. Quando Jé émie se e e e à submissão, inclusi amen e
acusando Pamela de se encaixa nes e “pe il po uguês”, não podemos deixa de e le i se es a
pe ceção e á a e com e en uais ensões i idas pela sua p óp ia amília no p ocesso mig a ó io. A
Fo og ama 14 – Pamela em ensaio de dança olcló ica
po uguesa (
TSM
, 2017)
Fo og ama 15 – Con í io na Associação (
TSM
, 2017)

86
pa icula idade des a cena é a o ma como e e e es e eó ipos associados aos po ugueses, como já
explo ámos, mas p o e idos po alguém que mui os conside a iam “ i de den o”. No en an o, a
ascendência de Jé émie não o az necessa iamen e e de se sen i po uguês ou de que o ma em de
o aze . Das inúme as o mas de se sen i algo e de mani es a alguma indignação, a dele é uma de
hos ilidade e e ol a. Pe cebemos que as ep esen ações c iadas socialmen e in luenciam es e e os
ou os pe sonagens e a manei a como se elacionam com as pessoas à sua ol a, o ien ando o seu
compo amen o (Cabecinhas, 2004, p. 2).
A cons ução da iden idade das jo ens ilhas de mig an es que nasce am e semp e i e am no
país que os ecebeu, nes e caso F ança, é g adualmen e o mada a pa i das in e ações sociais e da
acul u ação o mal (Leand o, 1992, p. 31), du an e um longo espaço do empo, cons uindo e
econs uindo iden idades e o nando-os uma ge ação ex emamen e plu al (Leand o, 2000, p. 25).
In e essa-nos ainda e le i sob e ou o aspe o iden i á io abo dado no ilme. Se em F ança
epa am no apelido de Pamela e começam uma e lexão sob e como Po ugal é boni o e as suas pessoas
são simpá icas, em Po ugal ou e “olhe, omos in adidos, os anceses ol a am” (
Todos os Sonhos do
Mundo
, 2017). Em alguns casos, “os imig an es de segunda/ e cei a ge ação mui as ezes não são
econhecidos como e dadei os cidadãos, apesa do seu acesso à cidadania o mal” (Lica a e al., 2011,
p. 898). Conside ando en ão a F ança como um país de endências assimilacionis as (p.48), como já oi
mencionado, podemos pe cebe que es a di iculdade em se is as como cidadãs “ eais” é esul ado de
um es e eó ipo social que e le e um p econcei o sub il, que não p omo e a ejeição de um g upo al o
po assumi-lo como uma ameaça, mas sim desen ol e uma ideia de que es e g upo al o não é capaz de
se ajus a à o ma como unciona a sociedade onde se inse e, ou en ão acen uam pelo discu so as
di e enças cul u ais en e ambos (Cabecinhas, 2012, p. 162).
Há semp e um momen o em que se é anspo ado e colocado nou o país. Se mig an e e/ou
lusodescenden e, ealmen e pa ece, como é demons ado nes e ilme, um cons an e pa ece pe ence ,
não pe ence , se ou não se , quando na ealidade se é, de ce a o ma, pa e de ambos os países:
Os co pos mig an es não podem, po an o, se en endidos simplesmen e como es ando de um lado ou de
ou o da iden idade, ou de um lado ou de ou o da comunidade: em ez disso, é o es anho es anhamen o
da p óp ia mig ação que pe mi e aos sujei os mig an es e aze em aquilo que podem i a e em comum
(Ahmed, 1999, p. 345).
Ao mesmo empo em que se lidam com as peculia idades da mig ação, o ac esce da condição
de se mulhe em duas sociedades di e en es assume con o nos mais complicados. Pamela encon a-se
en e uma sociedade ancesa ep esen ada como mais emancipada e uma u alidade po uguesa onde
se a am as coisas de uma ou a o ma. Ao mesmo empo que ê a mãe obedien e aos pedidos do pai
87
e ê uma amiga e a i mã em elações insa is a ó ias e pouco saudá eis, ambém em opo unidade de
e ou as possibilidades. Mais do que ema con a a on ade dos pais, em de ema con a as
concessões no seu pon o de pa ida, onde os pais o am c iados e, se hou e algum momen o da sua
ida em que gos a a desse sen imen o de udo es a epe idamen e igual, pa ece-lhe ago a azia essa
simila idade.
O limbo en e duas cul u as não é, como imos, uma posição ácil de se es a . C esce com
in luências de luga es ão di e en es pode igualmen e se elemen o essencial na c iação de iden idades
ha monicamen e complexas, assim como con ibui pa a con li os in e nos.
5.5 P incipais Temas
A análise dos códigos p esen es no ilme le ou-nos a qua o emas que eúnem de o ma sucin a
os assun os que o ien a am a análise acima desen ol ida.
Emancipação Feminina
– o pe cu so das pe sonagens emininas e le e a anços no caminho da
sua emancipação, mesmo que em di e en es medidas. As pe sonagens mais no as c escem e caminham
na di eção de adul as libe as dos cons angimen os a que as pe sonagens mais elhas es ão p esas ou
apenas ago a pe cebem e ap endem a, pouco e pouco, queb a .
Di e enças Ge acionais
– o con li o en e ge ações es á p esen e ao longo de odo o ilme, seja
nas con icções em elação a Po ugal e os po ugueses, nas ideias mais libe ais e menos conse ado as
em elação a assun os como o abo o, ou na o ma como se en am queb a os papéis de géne o
adicionalmen e a ibuídos e p esen es na ob a.
Iden idades Múl iplas e F agmen adas
– a si uação de es a en e di e sos an eceden es e en e
cul u as c ia iden idades ocadas po di e sas in luências, an o pelos pe sonagens que nascem num
país e expe ienciam ou a o ma de i e no país de acolhimen o, como aqueles que so em uma
socialização dupla, com uma cul u a p i ada e uma ap eendida o icialmen e po ó gãos como a escola
P essões e Expec a i as
– sob e o lida com as di iculdades das expec a i as do ou o,
pa icula men e quando se a a de amília e a é amigos e como es as ideias que o ou o p oje o no
indi íduo acabam po in luencia a o ma como es e se en ende e se o ma.
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Capí ulo VI –
A Casa Que Eu Que o
(2010)
Na F ança a gen e ale an a-se de manhã, ai pa a o abalho, em à noi e, chega à noi e az um bocado
de limpeza, az o come , ai do mi e ao ou o dia o na. (A Casa que Eu Que o, 2010)
O documen á io de Joana F azão e Raquel Ma ques ab e, li e almen e, as casas de seis casais
de o igem mig an es numa aldeia do no e do país, du an e o mês de agos o, momen o de eg essos
como imos em
Todos os Sonhos do Mundo
(2017).
É às pessoas comuns e à ida de odos os dias que o géne o do documen á io dá oz e as coloca
num luga especial (Pena ia, 2021, p. 424). Como já mencionámos, c esce am nas úl imas décadas as
ep esen ações das expe iências ela i amen e à mig ação e “ elações in e cul u ais” (Macedo e al.,
2023, p. 1.5) e pa icula men e o documen á io em dedicado uma “ e en e signi ica i a” pa a “abo da
em mui as ob as a ques ão do deslocamen o e da diáspo a (Se a im & Ramos, 2016, p. 465).
Pena ia desen ol e sob e as en e is as nos documen á ios ( ilmes in e a i os) que se aplicam
à ob a, que analisamos. Os en e is ados, nes e caso desconhecidos com uma ligação à mig ação,
di igem-se di e amen e pa a a audiência, onde a “ eg a de ‘não olha pa a a câma a” ão ca a aos
au o es do ‘cinema di e o’ é igno ada” (Pena ia, 1999, p. 67).
O Obse a ó io da Emig ação publica no seu si e, ela i amen e à exibição do ilme na Cinema eca
Po uguesa a 11 de e e ei o de 2010, alguns comen á ios das ealizado as. Explicam que ize am
en e is as guiadas pelos p op ie á ios das casas, onde cada di isão e oca memó ias e his ó ias que
conside am ale a pena con a . T ansmi em-se sonhos em o ma de pa edes e e o, que p opo cionam
e lexões sob e o sucesso mig a ó io, as di iculdades encon adas, o u u o e a amília.
“Faz odo o sen ido pega no ema da emig ação pelas casas, po que, na ealidade, a cons ução de uma
habi ação p óp ia é, quase semp e, o p imei o mo i o que le a a e con inua a le a os po ugueses a i
abalha pa a o es angei o', e e iu Joana F azão. (Obse a ó io da Emig ação, 2010)
Na idealização de
Todos os Sonhos do Mundo
(2017) Lau ence Ba bosa comen a que con ac a
com Paméla Ramos, a a iz, in oca a sua ealidade, se iu como inspi ação pa a um ilme que já há
mui o que ia c ia e não inha ainda conseguido o pon o de pa ida necessá io. Es e é um pon o que
conside amos jus i ica es e en elaça dos dois abalhos.
Pa a além do passado de documen á io de
Todos os Sonhos do Mundo
(2017), ambas as ob as
se passam no mesmo momen o empo al, agos o (ainda que com alguns anos de dis ância), numa aldeia
do no e e mos am imagens de uma es a eligiosa e popula ( o og amas 15 e 16), ca ac e is icamen e
comuns du an e o e ão um pouco po odo o país. P ocissões eligiosas ( o og amas 17 e 18), anchos
olcló icos e música popula po uguesa são en ão colocados em des aque, na ob a de Lau ence Fe ei a
89
Ba bosa como pa e da na a i a, com pa icipação dos pe sonagens, e no documen á io de F azão e
Ma ques de o ma e i ada, pe mi indo que as adições acon eçam, sem in e enção, na en e da
câma a.
As seis in e enções são ela os icos sob e a expe iência mig a ó ia, a maio ia pa a F ança,
con i madas pela menção ao país e com o c uzamen o da língua ancesa em á ios momen os, an o
pelos so aques, as pala as que se in ome em no po uguês ou as ilhas cuja p imei a língua é o ancês.
A in e enção da amília mig an e na Espanha e na Nica água, incluída no ilme, não se á explo ada
nes e abalho.
Ainda que ejamos a pa icipação de homens na en e das câma as, comen ando e o necendo
in o mações sob e as casas, a mulhe oma uma posição p eponde an e no p ocesso o al des as
en e is as. É no malmen e ela que conduz e adiciona de alhes sob e o espaço, e é em ou os casos, a
única que pa icipa. Há uma ligação di e a com a ideia da mulhe ese ada ao domínio do domicílio,
mesmo que não se a e de uma dona de casa.
Em odas as pa icipações, a amília oma um luga p eponde an e. As casas são cons uídas com
a ideia da eunião da amília, seja de o ma pon ual, ou pa a os acolhe em qualque necessidade e
eme gência. O pensamen o sob e o u u o, ilhos e ne os, es á p esen e nas in e enções, onde se explica
a possibilidade de cons ui anexos, aze modi icações, qua os des inados a amilia es, um luga onde
Fo og ama 15 – Ig eja iluminada em es a popula (
A Casa
Que Eu Que o, ACEQ,
2010)
Fo og ama 16 – Cená io de es a popula (
TSM
, 2017)
Fo og ama 17 – P ocissão eligiosa (
ACEQ,
2010)
Fo og ama 18 – P ocissão eligiosa (
TSM
, 2017)
90
se ab em as po as pa a quem nelas p ecisa de en a . A si uação de Raquel, no seu eg esso e do seu
ilho a casa dos pais depois da discussão com Ludo ic, é um es emunho des e en elaça da amília, da
cons ução de uma ede de apoio, que ampa a em qualque si uação. Ainda que na casa dos
pe sonagens enha sido necessá io um ea anja de espaços e dinâmicas, em nenhum momen o é a
Raquel ecusado ou indesejado o eg esso.
A cons ução des a casa pa a as é ias, po ezes mais do que uma ez no ano, nem semp e em
um p opósi o maio que esse de isi a . O eg esso a Po ugal de o ma de ini i a demons ado nes e
ilme oma apenas o ma quando se a inge a e o ma, não sendo eal o desejo de pa icipa da ida a i a
p o issional em Po ugal. Mais do que o abalho que exe cem du an e o ano em F ança, os ilhos,
nascidos e ixados no país, não con emplam o eg esso, o que pe cebemos com a ilha de He culano e
Ma ia (4º) que inha planos de es uda em Po ugal a é encon a um namo ado, e com as jo ens da
amília Dan as Ba bosa (2º) que, achando que a ida em Po ugal não se ia assim ão dis an e daquela
que i em no país de o igem, mas que “pa a semp e não sei se conseguia i e aqui”, é “mais deixa a
minha amília e os meus amigos” (
A Casa que Eu Que o
, 2010). É di ícil não associa as jo ens a Pamela,
Raquel e Cláudia, que es a iam numa si uação simila de idas cimen adas em F ança e colocando
Po ugal a as ado ao papel de isi a. As p e isões não são as de que alguma ez decidam i e em
Po ugal de o ma de ini i a. Quando Linda pe gun a a Pamela se es a se ai muda pa a Po ugal em
sequência da discussão sob e a sua iagem a Lisboa, Pamela esponde “Quem disse que que ia i i e
pa a lá? Vou só em u ismo. Semp e os disse que que ia iaja ” (
Todos os Sonhos do Mundo
, 2017).
Em espos a ao seu sonho de ab i um ingue de pa inagem, o p imo eage idicula izando a sua ideia.
As pe spe i as de u u o de Pamela, assim como das ou as pe sonagens que mencionámos, não passam
pela aldeia onde os pais nasce am, nem mesmo po Mon aleg e.
Ou o sinal da não pe manência ixa nas casas que nos são ap esen adas po F azão e Ma ques
é o ac o de não es a em e minadas, ou em longos p ocessos de cons ui e mobila . A associação das
casas inacabadas, echadas du an e meses, de ja dins mo os pelo descuido, espaços ma can es pa a
mig an es e que as ealizado as des acam no seu abalho.
Todos os Sonhos do Mundo
(2017) ambém
o az, mos ando a casa da amília de Claúdia, que ainda que na cena in e io a ejamos adicionalmen e
mobilada e comple a, no ex e io os mu os não são supo e de nenhum po ão ( o og ama 19) e ped as
encon am-se num ja dim que não exis e ( o og ama 20).

91
O o ma o do documen á io, na o ma de en e is as ine i a elmen e é um e eno é il pa a que
se explo em memó ias, an o da mig ação, quan o das i ências an e io es à saída do local de nascença.
A p imei a in e enção, de Ma ia Pe ei a Ba ei o mos a-nos um es ido de noi a, num ecua de 30
anos. Na segunda in e enção eco da-se uma ju en ude de con i ência p óxima na aldeia (que se
lamen a não mais exis i ). Na qua a um casal eco da a o ma como se conheceu e apaixonou. As
memó ias in ocadas em Po ugal são de épocas ma can es e elizes, algo que gua dam com ca inho. “A
mig ação é ambém uma ques ão de a os ge acionais de con a his ó ias sob e his ó ias an e io es de
mo imen o e deslocamen o” (Ahmed, 1999, p. 342). De ce a o ma há uma semelhança à manei a
como em
Todos os Sonhos do Mundo
(2017) Po ugal é colocado como um u ópico luga , onde odos
são iguais, onde se ai pa a p ocu a a e dade do se , mesmo que na ealidade es as expec a i as
enham a se go adas. Também aqui o passado é oman izado e o luga que se deixou ai sendo pin ado
de co -de- osa, ao longo do empo.
Quan o à ida em F ança, os comen á ios a iam. Na qua a in e enção pe cebemos que o casal
(e a sua amília) se sen em mais em casa na ida que cons uí am no país pa a onde mig a am, sen em-
se mais con o á eis na ou a casa que cons uí am em de imen o da que emos no documen á io.
A pa icula idade des a discussão ab e espaço pa a que pensemos no concei o de la ,
desen ol ido po Sa ah Ahmed no ex o
Home and Away
(1999). A au o a desen ol e a elação en e a
diáspo a e a cons ução de um la , pa a além do concei o ma e ial, mas sim a ideia de pe ença. O
signi icado de “la ”, como explica, pode oma di e sas de inições, desde o local em que o indi iduo i e
habi ualmen e, o sí io onde se encon a a sua amília, ou a é pode se colocada numa escala maio ,
e e en e ao país de o igem:
Pode dize -se que enho á ios la es, cada um com um ipo de la di e en e: o meu la é a Ingla e a, onde
nasci e i o ago a, o meu la é a Aus ália, onde c esci, e o meu la é o Paquis ão, onde i e o es o da
minha amília. (p. 338)
Fo og ama 19 – Casa da amília de Cláudia
(TSM,
2017)
Fo og ama 20 – Casa da amília de Cláudia
(TSM,
2017)
92
Quando in oduzimos a ques ão da mig ação, como a au o a e e e na passagem acima ci ada,
o na-se cla o que es a ideia de la não pode se uma noção ixa (p. 339). Po an o, ai se cons uindo
po cada um de uma o ma di e en e, e é possí el apenas quando não se pensa nas implicações de es a
num de e minado luga (p. 339). É sob e pe ence de o ma descomplicada, conside ando o a e o e não
necessa iamen e a o igem e as “ an asias” de pe ence : “es a em casa é aqui uma ques ão de como
alguém se sen e ou de como pode deixa de sen i ” (p. 341).
Po ou o lado, Ma ia Pe ei a Ba oso essal a a sua o ina em F ança de o ma menos posi i a
explicando a du eza de uma o ina de abalho, cansaço e epe ição.
Cla inda Ribei o ab e o assun o da iagem do ma ido pa a F ança a sal o, al como o ídeo que
podemos e no Facebook que Pamela consul a em
Todos os Sonhos do Mundo
(2017):
Ui, nós es á amos escondidas no meio das á o es, assim pa a aqui, e depois imos o ba co que inha
daquele lado. Is o p aí duas e meia da noi e, ês ho as da manhã. Sen imos os emos, e assim amos
olha, lá em ele. E chegá amo-nos ao… ninguém ala a, e chegá amos à bei a daquilo, do io, íamos que
e a o homenzinho, me emos e ele disse ‘Dei ai- os!’. Disse pa a o al casal que ia comigo e à minha ilha
‘Se ie um ca abinei o, ninguém oge!’ po que sabe que… um i o… podiam da i o e assim a gen e, se
ossemos p esas não… se ugíssemos a i a am. E passamos, puxámos a oupa pa a a cabeça e p on o, lá
omos, assim… coisa, lá omos. E passámos. Foi uma coisa mui o du a pa a oda a gen e que oi nes a
si uação. O a quem oi que já inha lá casas e amílias, isso não cus ou, po que já inham quem lhe de a
mão. Nós não ínhamos lá ninguém.
Como e e imos, es as his ó ias são ainda pa e de uma pa cela a i a da mig ação po uguesa,
passados os 50 anos em que o enómeno deixou de acon ece pela en ada de Po ugal na Democ acia.
Cla inda elemb a as di iculdades da adap ação, p incipalmen e pelo ac o de não ala a língua. A
in eg ação no me cado de abalho oi acili ando a jo nada da amília, mas ica a is eza com que econ a
o inicio da sua ida em F ança, de di iculdades e sac i ícios. A mig ação ei a an es da es abilização de
uma comunidade po uguesa sólida que p o idencia ajuda e apoio demons a-se um p ocesso con ínuo
de pe se e ança e supe ação.
Quan o às mo i ações da cons ução da casa p óp ia na e a onde se nasceu ou c esceu, mesmo
que não o enham odos necessa iamen e ei o com o mesmo obje i o, passando desde o u u o plano
de e o ma, o albe ga da amília, um in es imen o, um luga pa a passa é ias, ou o assegu a da
ascensão social que a F ança pe mi iu e demons a “pe an e os seus pa es na aldeia” o êxi o mig a ó io
(Nob e & Po ela, 2001, p. 1141), pa a a maio ia, a a-se de algum ipo de sonho. O conquis a ísico e
a ma e ialização de odo o es o ço ei o du an e anos a io em ou o país.
Na e dade, que nunca na ida pensamos se p op ie á ios, um dia, assim, duma casa assim, com e eno.
Foi um sonho que se ealiza e po acaso ainda bas an e no os. Ago a o p incipal é e saúde pa a pode
i e nela mui os momen os bons, não é? Aqui como lá, que nós lá ambém emos a casa dos nossos
sonhos, não emos assim um e eno, mas p on o. A gen e i e na cidade, não se pode e udo. Fo am 21
93
anos de ida jun os e como a gen e conc e izou bas an es p oje os, p oje os que ie am assim de um dia
pa a o ou o, mas que semp e chegamos ao im. E só enho mui a pena o meu pai não es a cá pa a e .
Foi-se embo a um pouco cedo, mas sei que ele gos a ia mui o de e is o assim acabado. É a única coisa
que me deixa mais nos algia. (
A Casa Que Eu Que o
, 2010).
Du an e o documen á io emos ep esen adas mulhe es num papel semelhan e ao de Linda e a
a ó de Claúdia, cuidado as dos ne os que deambulam pelo espaço ilmado, p incipais comen ado as dos
espaços da cozinha, que decidi am e mobila am com b io, con ado as das his ó ias, do es e elicidades
do p ocesso mig a ó io, enquan o os ma idos se ocupam desin e essadamen e nos bas ido es. Tal como
em
Todos os Sonhos do Mundo
(2017), An ónio ica numa posição menos sen imen al, a é de quem se
cha eia mais do que se aleg a (com exceção nos momen os em con í io em Po ugal), enquan o Linda
se ap oxima de Pamela e, consequen emen e, da audiência, como acon ece na maio ia des as
in e enções.
A úl ima in e enção, é mais silenciosa e ilus a i a que as es an es. As janelas das di isões
echadas ab em-se, li e almen e, pa a a câma a. Os colchões es ão le an ados, ho izon almen e no
es ado, pa ados e à espe a. A in e ação p óxima é da a ó com o ne o, mais do que com as ealizado as.
Rosa ai andando pela casa que deixa ilma e eicula-se emoções associadas aos espaços, casa echada
e inacabada de odo o documen á io, um pe cu so de elemb a o que es a a pa ado e esquecido. Os
planos são escu os, a pouca luz é c uzada pelas janelas que ab em ocasionalmen e ( o og amas 21 e
22). O documen á io e mina com Rosa Isalina a echá-las, con e sando com o ne o enquan o odam os
c édi os, uma a ó de co ação abe o pa a os seus e de eca o pa a com o mundo.
6.1 P incipais Temas
A b e e análise de
A Casa Que Eu Que o
(2010) p opo cionou o ecolhe dos seguin es emas:
Valo ização da Família
– a e e ência à amília como p eponde an e ao longo de odo o
documen á io, não só pela p esença ísica em cena, como mencionada como mo i ação da cons ução
de casas e dos es o ços mig a ó ios.
Fo og ama 21 – Rosa e o ne o na sala com a inacabado
(
ACEQ
, 2010)
Fo og ama 22 – Rosa à janela (
ACEQ,
2010)
94
Relu ância no Reg esso
– á ios dos in e enien es, das mais a iadas idades, mos am que não
con emplam um eg esso, seja po conside a em que F ança se o nou la onde es ão sólidas aízes,
seja po se o país onde nasce am e colocam Po ugal como um idílico luga onde se passam é ias e se
isi a a amília e o passado.
Papéis de Géne o T adicionalmen e A ibuídos
– um pe pe ua de imagens que ei e am o papel
da mulhe como cuidado a da amília e esponsá el po assun os elacionados ao domicilio.
Valo ização da Casa P óp ia
– a cons ução de uma casa colocada como um obje i o pa a os
en e is ados, u o do abalho e do es o ço, mesmo se a iam as mo i ações pa a essa ob a.
101
a lado nenhum, acho que é só supos o mos a uma ce a ealidade, acho que e a essa a inalidade do ilme.
(Ma ia acena em conco dância) (
G upo 2
)
Se nos ol a mos pa a os pe sonagens, as opiniões não são necessa iamen e as mais a o á eis.
De o ma ge al odos os pa icipan es mos a am desag ado pelo pe sonagem da a ó de Pamela, an o
pela qualidade da in e p e ação como pela pouca ele ância que conside a am que ela inha no esquema
o al do ilme.
Igualmen e mos am e ol a di ecionada ao pe sonagem de Jé émie, de o ma mais p o unda e
mais ex ensi a do que qualque ou o pe sonagem. Exp essões u ilizadas passam pelo “ene ou-me”,
“sen i-me ag edida” e a conclusão de que o desdém que o pe sonagem demons a pela cul u a
po uguesa acaba po se o na uma o ma de a exal a , al o ní el de a e são e an ipa ia pelo jo em.
Mais do que pela mensagem passada, mesmo que não conco dassem com ela, os pa icipan es
des acam-no pela nega i a pela o ma como se ap esen a e como pa ece que e impo as suas ideias e
c enças a Pamela e in luenciado Claúdia, com quem se elaciona. Mesmo que conside ado de es á el,
Ma ia e o 2º g upo pa ece am conside a ele an e a sua in e enção sob e a cul u a po uguesa,
azendo pa a a discussão pon os impo an es sob e o alo do olclo e, a p oximidade que ele
p opo ciona pa a as comunidades po uguesas mig adas po odo o mundo e que mo i os e ão o nado
Jé émie a pe sonagem que emos.
Coinciden emen e, quando Claúdia é mencionada, ainda que des acadas algumas ações que
possam se conside adas menos posi i as, como en a ap o ei a -se de Pamela pa a chega à es ação
de au oca os, a pe sonagem é conside ada uma i ima e, p incipalmen e o 2º g upo, achou ácil
simpa iza como uma adolescen e que, mesmo com más in luências, consegue conquis a o espe ado .
Re le e-se sob e o seu papel na emancipação de Pamela e eo iza-se sob e a possibilidade de Pamela e
Claúdia se em pe sonagens que, pa indo de luga es semelhan es, an o pode iam se “o mesmo
pe sonagem”, quan o, como i am, são le adas po caminhos di e en es po e ei os ex e nos e uma ce a
maio ação de Claúdia e maio in ospeção de Pamela.
As maio es discussões p endem-se sob e o núcleo amilia p incipal do ilme: Pamela, a sua
mãe, o seu pai e, em meno medida, a sua i mã.
Sob e o pai, colocam-no numa posição de “pai adicional po uguês”, que ecebeu uma
educação ígida e an iquada e que en a o ça nas ilhas que azem pa e de uma ou a ge ação e i em
numa ou a sociedade. Re e em a exage ada p o eção de Pamela ela i amen e a Ke in, assim como a
maio di iculdade de o ag ada , compa a i amen e ao es o da amília. Adje i os como conse ado , ígido
e a caico são mencionados quando se ala do pe sonagem.

102
Os pa icipan es do g upo 2 conside am a i mã de Pamela uma opo unidade pe dida, no sen ido
em que a sua si uação não con encional, dis an e da ígida men alidade que os pais pe pe uam du an e
o ilme, de eg essa a casa dos pais, de e um bebé apa en emen e o a do casamen o e c iá-lo
sepa ada do pai da c iança se ia um ema in e essan e a explo a e que icou po aze . Em ambos os
g upos a compa am a Pamela, conside ando que a di e ença en e as expec a i as colocadas na i mã
mais elha são bas an e eduzidas compa ado ao que assis i am acon ece com ela no deco e do ilme.
Teo izam que isso pode e a e com os pais pensa em que “já em a ida dela pe dida” (g upo 2) e já
desis i am, ou conside a em que a Pamela semp e e á sido mais in eligen e que ela e inha, à pa ida,
um u u o bem mais b ilhan e. Julgam a elação das i mãs um an o dis an e, a ibuindo ao ac o de elas
se em bas an e di e en es, assim como ao ac o de uma se mais elha e e um ilho e a ou a es a
ainda numa ase de c escimen o e amadu ecimen o.
Sob e Linda, a opinião ge al é que ela é mais libe al e mais p óxima da ilha em compa ação ao
pai. Momen os de maio empa ia e con e sas mais emo i as en e mãe e ilha o am essenciais pa a
que se chegasse a es a conclusão. No en an o, e e em que exis e uma cla a dis ância en e quem a
Pamela p ocu a se (ou encon a em si p óp ia) e o que ela espe a dela. Momen os de al uísmo e
sac i ício po pa e da mãe ainda são em unção de um e mina do ensino e de um caminho que Pamela
não pa ece consegui conc e iza nem em o apoio no oma de um no o umo. Ma ia (G2) conside a
que a mãe ep esen a uma ansição en e um lado mais conse ado e adicional do pai e o seu amo
po Pamela que a az muda . Es a acaba po se uma opinião que e a a bem o que os pa icipan es de
ambos os g upos o am mencionando.
Quando ins igados a aça uma compa ação en e Pamela e a sua mãe, as opiniões di e gi am,
ainda que na maio ia, em ambos os g upos, enham sido colocadas como pa ecidas. No g upo 1, na
gene alidade, ac edi am que as pe sonagens são pa ecidas, dis anciando-as em elação ao pai, mas não
en e si. No g upo 2 a discussão oma ou as p opo ções com pa icipan es a conside a em que Pamela
e a mãe são di e en es, associando a mãe e o pai como uma o ça conse ado a e opondo Pamela na
sua on ade de emancipa e se alguém que os ho izon es dos pais não conseguem concebe . Ou os
pa icipan es acham que Pamela e a mãe pa em de um pon o mui o semelhan e, uma p oximidade e
esignação à no ma c iada pela men alidade da sua amília, pe soni icada na sua mãe adicional, mas
no deco e do ilme a emancipação de Pamela ai le ando a que se c ie um maio abismo en e as
duas:
So ia – Eu acho que a mãe e a Pamela, não é? São o almen e di e en es. Acho que a mãe, o con ex o, a cena
dela e a p on o, e ali a amília emig ada e a ilha e algum u u o na ida e ica ali… p on o, mais do mesmo,
103
aze a ida mais do mesmo. Enquan o a ilha que ia c esce , que ia se alguém, não e aquela p essão oda
dos pais que ela sen ia e acaba a po acon ece , ela que ia e ou os ho izon es e mãe, os pais em si, a
amília, po não deixa que isso acon ecesse.
Manuel – Eu acho que a mãe é supos o demons a um bocado aquela men alidade po uguesa mais
conse ado a, a é mesmo como o ilme es a a a e a a um bocado a men alidade dos po ugueses como o
Jé émie disse, acho que a mãe acaba po se um bocado a pe soni icação daquilo que ele disse. Enquan o
que a Pamela é alguém que, lá es á, como es a as a dize , não ou se edundan e, que se di e en e dos
país e des a cul u a po uguesa mais conse ado a.
Ma ia – Eu disco do, acho que jus amen e esse lado conse ado e adicional é ep esen ado pelo pai e a
mãe já ep esen a uma espécie de ansição en e a men alidade po uguesa de uma ge ação que sac i icou
mui o pelos ilhos e uma men alidade já um bocadinho mais abe a, o çada pelo amo que em pela ilha, a
en a comp eende a ilha e a e olui com ela. Jus amen e é uma ansição en e o an igo e o u u o, digamos.
Não sei explica mui o bem, mas disco do. E ao con á io ambém do que disses e (apon a pa a So ia),
ambém disco do. Acho que ela é mui o pa ecida com a mãe, especialmen e no início do ilme, ao longo do
ilme ai-se emancipando dos pais e jus amen e ai adqui indo ou a men alidade, mas no início acho que ela
ep esen a um bocadinho a cópia po que é a men alidade que lhe oi incu ida. Da mesma o ma que lhe é
incu ida uma saudade do país que ela nunca conheceu a não se no con ex o do é ias, que é exa amen e o
que o Jé émie ala e ela ai e oluindo nessa, nessa o ma de lida com o país e com a men alidade, da mesma
o ma que ai e oluindo com os pais, emancipando-se, mas ao mesmo empo gua dando uma ligação.
(G upo
2)
Sob e a pe sonagem p incipal, algumas das opiniões são con adi ó ias. Reconhecem que se
encon a numa jo nada, pa e do c escimen o, com o obje i o de se encon a , de pe cebe o que que
aze com o u u o e que o ilme caminha no sen ido de pe cebe mos o pe cu so da sua emancipação,
disco dando apenas se essa emancipação e e i amen e oco e ou não. No g upo 2 es e deba e a inca-
se mais, p incipalmen e quando se ala na si uação da sepa ação de Pamela do que é a men alidade da
sua amília, com que conside am não e mui a ligação. Pe cebemos uma meno empa ia pela
pe sonagem no g upo 1, que des aca uma al a de p oa i idade. No segundo g upo comp eendemos
uma maio iden i icação dos pa icipan es com a jo nada de Pamela e empa ia pelas si uações que
en en a.
Os g upos alo izam a ligação de Pamela com a a e, ab indo a discussão pa a a des alo ização
a ís ica em Po ugal, pa icula men e no in e io do país, assim como a meno acei ação de ca ei as
a ís icas como um u u o es á el e desejá el pa a um ilho.
Vasco – Nesse pon o acho que… no ei mais na pa e ambém da… po exemplo nós imos a Pamela na
F ança a aze as a i idades odas mais a ís icas, o piano, a pa inagem, po aí adian e, enquan o ela… az
104
esse ema em con e sa com o p imo naquele jan a e o p imo au oma icamen e desca a como “eu não ou
e essa… essa olice”. Enquan o em Po ugal se calha essa pa e mais a ís ica, mais humanís ica, é logo…
Madalena – Mas eu acho que é nessas zonas…
João – Sim.
Madalena – Onde há al a da in o mação.
Vasco – Eu achei que o ilme ambém e a um bocado mais an igo como…
João – Sim. É mais ácil ipo dize es numa zona u bana que ais aze um ingue de pa inagem, do que dize
ao meu a ô “olha ‘ ô ou aze um ingue de pa inagem” e le o logo um calduço.
(G upo 1)
No g upo 2 algumas c í icas são ecidas a Pamela ela i amen e à o ma como se es e en a
no campo da ca ica u a e po não pa ece ocada pela cul u a ancesa que, conside ando que i e lá,
de ia e pe meado mais da sua pe sonalidade (Ma ia).
Quando alamos da ep esen ação de Po ugal no ilme, pa icipan es não mos a am ag ado
nem conco dância com o país que i am no ec ã, imedia amen e conside ando que é de uma u alidade
que não necessa iamen e econhecem e que pensam pe pe ua ideias p ejudiciais sob e Po ugal, no
caso de alguém es angei o se c uza com o ilme. No 1º g upo a discussão é mais li e al no seu
descon en amen o com a ep esen ação u al, conside ando que o ilme de ia e ep esen ado a pa e
ci adina do país, pa icula men e a isi a de Pamela a Lisboa. Usam di e sas ezes o concei o
“es e eó ipo” pa a se e e i em a uma ep esen ação que conside am se á ias ezes epe ida.
Mencionam uma al a de mode nização e o despo oamen o nas aldeias, o que pode se um mo i o
impulsionado da mig ação, e que o ilme ep esen a es es luga es onde acham que a in o mação não
chega e es ão dis an es da ealidade do li o al po uguês. Ficam descon en es com a mensagem de que
“em Po ugal não há hipó ese”.
No 2º g upo a discussão inclui es a ideia de que a ep esen ação do país é “mais do mesmo”,
mas conside am que a aldeia es á “em condições”, ainda que al ez um an o pa ado no empo pelas
écnicas de ag icul u a mos adas no ilme. Concluem que o obje i o do ilme se ia ep esen a uma
aldeia impac ada pela mig ação e is a pelos olhos de uma amília, en e mui as, que eg essa, e não
a ia sen ido um c uzamen o com ou as zonas mais u banas do país.
Du an e o deba e é possí el comp eende que os pa icipan es não se iden i icam com a ideia de
“se po uguês” p esen e no ilme. Dis anciam-se do que conside am se uma “men alidade que e olui
mui o de aga ”, um “país de e cei o mundo”, um po o que não expande ho izon es e se oca
excessi amen e na sua cul u a e eligião.
105
Ma ia – […] Pa a quem não é po uguês ou de cul u a po uguesa acho que ai con inua a e uma imagem
do ilme de somos um “paíszinho” de e cei o mundo, que não ai e olui , que somos mui o echados na
eligião e na cul u a po uguesa. Ou seja… con inua a se uma ep esen ação que eu não gos a a que es i esse
na in e ne . (B uno e Manuel acena am em conco dância)
(G upo 2)
Quando colocados os dois países p esen es no ilme em compa ação, des acam, no g upo 2, a
g ande di e ença en e uma F ança mul icul u al e uma aldeia po uguesa sem di e sidade. Em aco do,
os g upos mencionam o con as e en e uma F ança is e, “a ogan e”, ia e associada exclusi amen e
ao abalho, enquan o Po ugal se coloca num sola engo con í io, uma elicidade mesmo du an e o
abalho e um alí io da o ina do país de acolhimen o.
Diogo – Sim. En ão, basicamen e, Po ugal é mui o mais anquilo, mais de con í io, mais de… social.
Enquan o que a F ança é mais… mos a mais a ogância e mui o ocada em… pode-se… a F ança é mui o
p o issional e… e Po ugal é mais de que e es a com amília e assim.
(G upo 2)
7.3 Mulhe es, mig ações e papéis de géne o
Ao longo de odo o deba e oi-nos possí el i egis ando algumas opiniões ela i amen e à
ep esen ação das mulhe es e, em ainda maio núme o, sob e as pessoas mig an es, mesmo an es de
se em colocadas pe gun as especialmen e di igidas ao assun o.
Sob e a o ma como as pe sonagens emininas são ep esen adas são imedia amen e
des acados os mesmos dois exemplos em ambos os g upos, que conside am se uma espos a cla a de
uma men alidade sexis a den o da p óp ia dinâmica amilia , assim como nos p ocedimen os sociais na
aldeia. Re e em-se à cena em que o ma ido pede a Linda que lhe á busca um ca é enquan o con inua
sen ado na pon a da mesa, independen emen e de es a es a cla amen e já ocupada a a uma a mesa
de jan a e à cena em que os abalhado es na aldeia se eúnem numa e eição ex e io comuni á ia,
com des aque da p o agonis a se i o inho a odos os p esen es e Raquel e uma igu an e que
o ganizam a “mesa”.
No g upo 1 as conclusões e e em uma posição da mulhe de “se is a e não ou ida” já que
conside am que o pai e a quem oma a as decisões na amília. Reconhecem um papel da mulhe como
se en e à amília ambém po que ac edi am que a mãe de Pamela es a a semp e em casa, a i mã e a
quem cuida a do ilho e o seu pai es a a o a da imagem na maio ia do empo. Acham ainda que se
106
mos a uma F ança mais libe al pa a as mulhe es, em de imen o de uma aldeia conse ado a,
ep esen ado pela on ade de Claúdia ol a a F ança pa a o abo o (Vasco).
No g upo 2, a pa des a ideia do pa adigma da amília conse ado a, es á bas an e p esen e a
ideia de uma ep esen ação da mulhe po uguesa como um se mais emocional, an o em elação ao
pai e à o ma de educa as ilhas, como já mencionado, mas ambém açando uma compa ação com
as mulhe es ancesas mos adas pelo ilme. A ligação ei a po Ma ia, mas com que os ou os
pa icipan es pa ece am conco da , é que quando uma mulhe ancesa é ep esen ada ela em uma
ligação di e a com uma ca ei a, mos ada a se p o issional (médica, p o esso a, di e o a).
Con a iamen e, conside am que as mulhe es po uguesas não são colocadas em p o issões com
ca ei as desen ol idas, não as acompanhamos no seu local de abalho e, mais impo an e, quando
es as abalham é em de imen o do amo à amília mais do que pelo gos o da p o issão e do
desen ol imen o p o issional e pessoal. Conclui, en ão, que es a o ma de ep esen a a mulhe
po uguesa como um se o almen e dedicado à amília é um ei e a de es e eó ipos que associam as
mulhe es a luga es adicionais de géne o, à emo i idade, e não as êm como agen es da sua ida.
Ma ia – […] Todas as mulhe es que não são de cul u a po uguesa que… que são is as no ilme que é
basicamen e a médica, ginecologis a, não sei exa amen e qual e a a p o issão dela, a especialis a, po
exemplo, na escola e isso udo são semp e mulhe es com ca gos p o issionais ela i amen e impo an es,
mulhe es com es udos ela i amen e emancipadas e são mos adas pela p o issão delas e não pelo lado mais
ma e no ou amical ou esse ipo de coisas. Enquan o que as mulhe es po uguesas que são is as, são semp e
ep esen adas não pelo lado p o issional, mas pelo lado emocional, amilia , esse ipo de coisas. Todas elas
êm uma ligação de sangue, amília com a Pamela, ou uma ligação amical… são ep esen adas como se es
emocionais. A é a a ó da Claúdia é um se emocional, é um se que es á lá e as únicas alas que em são
sob e a sob e as saudades dela de F ança e como o ma ido a ob igou a sai de F ança e nem que ia.
(G upo
2)
Quan o à ep esen ação da mig ação, as opiniões a iam essencialmen e en e os pa icipan es
com passado mig a ó io e aqueles que semp e i e am no seu país na al e, mesmo aí, não encon amos
um consenso. Uma pa e, essencialmen e no 1º g upo, conside a que o ilme não ep esen a de o ma
adequada as pessoas mig an es, colocando-as em ca ego ias edu o as que não necessa iamen e
e le em a ealidade – es e eó ipos de “padei o”, “ olha”, e c. (João). A pala a cliché oi
eco en emen e usada e a exp essão “e se calha a é é p opaganda pa a os po ugueses não
emig a em” (Ezequiel) é essencialmen e um esumo dessa opinião.

107
Po ou o lado, um núme o g ande de pa icipan es conside ou o ilme uma boa ep esen ação
da mig ação po uguesa. Os pa icipan es que não mig a am, econhece am as dinâmicas de amilia es
p óximos e consegui am e ê-los na amília de
Todos os Sonhos do Mundo
(2017) e a aldeia que no
e ão os ê eg essa . Sen em-se pa e de um agos o que ambém os a e a al o impac o do eg esso de
ios e p imos mig ados, e econhecem-nos nos con í ios, nos encon os, nos chu ascos e na “o e dose
de cul u a po uguesa” que o ilme lhes ap esen ou.
Saman a – [ i] Desculpa. Eu acho que oda aquela mudança de ambien e quando chega a amília emig ada
eu iden i iquei-me nisso. Po que ealmen e no a-se, eu ambém no o na minha ua, a minha ua ica cheia de
ca os es angei os no mês de agos o e se emb o en ão iden i iquei-me assim nessa mudança. (pa icipan es
acenam em conco dância)
(G upo 2)
Quan o aos ês pa icipan es que êm um passado de mig ação pa a países ancó onos, odos
se iden i ica am com a ep esen ação no ec ã. Ma ilde e Diogo (G1) econhecem um ca á e cliché, mas
não lhe negam ealidade e p oximidade com as p óp ias idas. Iden i icam-se com Pamela e o sen imen o
de nunca pe ence , nem em F ança onde sen em saudades de Po ugal, nem em Po ugal que pode
da a imp essão de se pequeno demais. Reco da am a a és do ilme a “ ealidade al e na i a” onde
não pe encem a lado nenhum e a ideia de ecomeça a ida, mesmo que essa não seja a pa e da
mig ação e a ada no ilme. As saudades da a ó de Claúdia que eg essou a Po ugal e es á en ol a
numa solidão de um eg esso o çado pelo ma ido, ambém eles as econhecem, mencionadas po
Ma ilde pa icula men e.
Mode ado – Diogo, Ma ilde…
Diogo – Uh, eu posso comen a … p on o, é como já inha di o, que o ilme e a decen e uh… há aquelas cenas
que podiam e sido não g a adas… uh, mas quan o à his ó ia em si, o ilme, p on o, alando de mim, que já
emig ei e udo... uh… mos a bem o que é i e sendo emig an e, os pais e em emig ado e ‘ a ipo o a do
país, mos a bem…
Diogo - … Como é que é a ida o a, que, p on o, os pais basicamen e ma am-se a abalha , que, p a ganha
dinhei o p ós ilhos e… e ya é basicamen e os pais o çam- e mais ou menos a que e es que u…
João – Tenhas sucesso.
Mode ado – Ma ilde que es comen a ?
Ma ilde –Sim eu ambém acho que passa bem a imagem disso…. E mesmo o ac o de ela que e ol a p a
Po ugal é semp e o que acon ece quando há emig an es na F ança. No malmen e os ilhos semp e que em
ol a p a Po ugal… sim [ i]. Po que êm aquela imagem, po que em basicamen e a amília oda lá e e c. e
108
êm a imagem de que ali é a elicidade e na F ança u só és p essionado, p essionado p a, p a e es o u u o,
um u u o decen e que aqui não consegues.
[silêncio]
Mode ado – Podes só explica mais a ideia de Po ugal como a elicidade?
Ma ilde – Po que há alguém que diz no ilme que… não, oi o con á io, mas não in e essa. Há alguém que
diz no ilme que se sen e sozinha uh onde es a a…
Mode ado – A a ó da Cláudia.
Ma ilde – Foi isso! A a ó da Claúdia diz que se sen e sozinha e isso acon ece mui o quando u ais emig a
po que u sen es, no caso, no meu, eu es a lá não me sen ia uh… como eles, nem como os anceses e
ambém quando ol ei, não me sen i uh po uguesa. En endes? En ão de ce a o ma há semp e aquele
sen imen o de solidão e que ninguém e en ende…
Madalena – Eu acho que isso é po que u acabas po não e um sí io onde pa ece que u pe ences…
(G upo
1)
Ma ia (G2) desen ol e ex ensi amen e o assun o. Iden i ica g ande pa e da sua ida num
esumo de ce ca de 1h40min, apon ando ambém o sen imen o de elicidade ao e o na a Po ugal nas
é ias, a oman ização do país (mencionada po Vasco (G1), igualmen e), mas a ealização de mui os
adolescen es e jo ens de segunda e e cei a ge ação, no momen o de en ende que odos os e ões da
sua ida a isi a a Po ugal os impede, al ez, de conhece o es o do mundo. Quan o à cena da
despedida, um ma co essencial de mui as amílias no inal do e ão, ece elogios, assim como ou os
pa icipan es a iden i icam de o ma posi i a, es ando do lado daqueles que icam e não dos que pa em.
Ma ia – Uh… acho que globalmen e consegui-me iden i ica mui o no ilme, po que é um ilme que e a a
uma ealidade com a qual eu i i, mui o pa ecida. Acho que a ep esen ação da emig ação es á ela i amen e
mui o bem ei a, a men alidade é essa, a sensação de quem a i e é mais ou menos essa…
(G upo 2)
De igual ele ância indaga sob e o ilme demons a um Po ugal que não pode se acedido pelos
po ugueses que habi am nele du an e odo o ano, mas sim um país que é is o po quem apenas o
isi a e eco da:
Ma ia – Eu… que ia só, se pude comen a o que a So ia, ce o? [So ia: Sim, sim] que eu não conco do. É que
não é o Po ugal, Po ugal de quem i e cá. É o Po ugal de quem emig a e pa a esse lado eu acho que es á
ex emamen e bem ep esen ado. A men alidade, a ida is e que u dizes que no undo não é mais do que
a ealidade po que é ealmen e mui o eal nes a ques ão e a é a p óp ia eceção das pessoas udo is o é mui o
mos ado, não dos olhos, ep esen ado de uma pessoa que i eu em Po ugal, mas de quem em. Eu achei
o ilme, nisso, ex amen e ealis a
. (G upo 2)
109
Rela i amen e à compa ação do ilme com ou os p odu os de média, os pa icipan es
menciona am
A Gaiola Dou ada
(2013), a i mando que a ep esen ação de
Todos os Sonhos do Mundo
(2017) é mais ealis a, ainda que menos apela i a e, po an o, menos p o á el de e e ;
Lis en
(2020),
um ilme que conside am e um uma his ó ia mui o is e e mais dis an e da ealidade e
Fes a é Fes a
(2021), que az um melho abalho quando se a a de um dos g andes p oblemas de
Todos os Sonhos
do Mundo
(2017), o so aque e as ocas en e po uguês e ancês.
Quando alamos de iden i icação, a espos a mais comum ecai nos encon os de e ão de
amília e no eg esso sazonal dos mig an es. Rela i amen e à iden i icação de pe sonagens emininas do
ilme na ida dos pa icipan es, e e em em g ande pa e uma iden i icação de Linda às p óp ias mães
ou ias (que mig a am ou não). Es a associação no malmen e é ei a po mo i os como a jo nada
domés ica ei a pela ma ia ca da amília, uma p eocupação com o que os ou os pensam da amília, um
que e impingi as suas ideias aos ilhos e uma p eocupação e dedicação exage adas aos ilhos.
Mode ado – Vês mui as semelhanças en e a mãe da Pamela e a ua ia…
Vasco – Sim é quase uma cópia mui o ealis a a é. Mas ambém não é aquilo que eu conside o ambém… ah
um bocado mau dize , mas ipo um bom exemplo.
(G upo 1)
A iden i icação com Pamela é ambém e e ida, p incipalmen e ela i a à p essão que ela sen e
dos pais, como já mencionado, o e uma o ça pa a lu a con a aquilo que os ou os que em pa a si,
e de lu a con a essa imposição e o seu sen imen o de es a pe dida e p ecisa de se encon a .
7.4 P incipais emas
Iden i icamos cinco p incipais emas, comuns aos dois g upos ocais, condu o es de oda a
discussão.
Des alo ização do cinema po uguês
– um a as amen o cla o ela i amen e à p odução
cinema og á ica nacional, em de imen o de ou os me cados impo ados. O pe pe ua de uma ideia de
que as p oduções po uguesas são de alo in e io , incapazes de p oduzi ob as com a dimensão e
qualidade de ou os países, assim como uma uni o mização edu o a dos géne os p oduzidos.
Rep esen ações es e eo ipadas dos po ugueses e Po ugal
– não iden i icação com as imagens
dos po ugueses e do país pe pe uadas pelo ilme, pelo ep esen a de um meio meno e pa es da
cul u a nacional mais adicionais.
110
Des alo ização das a es
– oco na pe ceção de que o se o das a es é des alo izado no país e
não é is o como uma possibilidade de ca ei a. Acon ece na o ma dos alen os a ís icos de Pamela
que não são omen ados.
Di iculdades das dinâmicas amilia es
– essal a das p essões colocadas pela amília nos jo ens,
no amen e na o ma da elação e con li o en e Linda e Pamela, assim como o econhece do sac i ício
e al uísmo da amília na p ocu a de que os ilhos a injam es es obje i os.
Papéis de géne o adicionais e conse ado es
– e e ências à o ma como Linda e An ónio,
assim como ou os pe sonagens, e le em os papéis de géne o a ibuídos adicionalmen e na sociedade.
7.5 Conside ações
Pe cebemos que os hábi os cinema og á icos dos pa icipan es, na sua maio ia, os coloca numa
posição de es anheza pe an e o cinema po uguês menos come cial, assim como o cinema ancês na
sua quase o alidade (com exceção das e en uais comédias). Conside ando que
Todos os Sonhos do
Mundo
(2017) é um ilme eu opeu, ealizado po uma ancesa lusodescenden e, o pon o de pa ida pa a
que pudessem a alia o ilme com alguma bagagem in e na de apoio não e a ão sólido no G upo 1 (que
demons ou meno conhecimen o sob e o cinema nacional e ancês), quan o nos pa eceu no g upo 2:
Ma ia – […] Globalmen e achei que pa ecia um ilme po uguês pela o ma como es a as a explica (apon a
pa a Saman a) de echo de ida, mui as imagens umas a en e das ou as, pa ecia um ilme es ilo po uguês,
mas pa ecia um ilme desenhado po anceses po que a o ma como e a a am as coisas, a p óp ia
deco ação da casa, inha ali meia dúzia de elemen os po ugueses, mas e a demasiado pouco e demasiado…
liso, pe ei o, pa a pa ece um ilme po uguês ep esen ando a ealidade po uguesa. Pa ecia uma ca ica u a,
não no sen ido de uma ca ica u a exage ada, mas uma ca ica u a demasiado lisa e pe ei a do que de e ia
se uma casa po uguesa após qua en a anos em F ança.
(G upo 2)
Algumas in o mações o am pe didas e ep oduzidas com e os, o que pode indica alguma al a
de a enção e desin e esse, an o pelo ilme, quan o pelo pe il e gos os pessoais di e gen es dos
pa icipan es. Foi-nos possí el ambém comp eende o e ei o do ilme na audiência e desen ol e um
deba e à sua ol a que en iquece es a in es igação. Foi de ex ema impo ância comp eende que os
pa icipan es não se e êm na ep esen ação ei a de Po ugal e dos po ugueses. O ac o de não se
iden i ica em não necessa iamen e signi ica que não lhe ejam aspe os da ealidade, mas sim que não
é a sua ealidade. A amos a dos g upos, cons i uída po jo ens, a as a-se da men alidade que
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