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PASSEIO GALERIA MEDIATECA QUIOSQUE CALENDÁRIO MAPA CONTACTOS | EN ARTIGO ANTERIOR ARTIGO SEGUINTE O PRIMEIRO DIA NA (NOVA) TERRINHA O ambiente que consigo perceber deste avião se divide entre brasileiros e portugueses, com poucos viajantes de outras nacionalidades. Ao meu lado, uma mulher loira, de nome T., puxa conversa e pede ajuda para guardar sua mala no compartimento acima. Conversamos brevemente e me confundo quanto à sua nacionalidade, pois o português era bastante hibridizado mas soava mais como o português de Portugal do que o português Brasileiro. T. me diz que é natural do Rio Grande do Sul, mas que sua família é portuguesa e já vive na Terrinha há muitos anos, o que justifica o seu português híbrido. Enquanto procuro algo para me entreter, noto duas adolescentes brasileiras um tanto quanto desesperadas, pois de início o computador de bordo trazia que o voo seria de São Paulo a Lisboa, embora o real destino fosse o Porto. Após alguns minutos de desespero e iniciarem um movimento para saírem do avião, foram tranquilizadas pelas comissárias e retornaram aos seus assentos, exclamando um “ ufa, acho que a minha mãe me matava se eu fosse parar em Lisboa e eu nem sei o que eu faria para chegar no Porto se o avião fosse para lá [Lisboa, no caso]”. Durante o voo, assisti a dois programas turísticos de televisão para me “aclimatar” à nova realidade: um especial sobre Guimarães & Braga (que seria a minha nova casa) e outro sobre o Porto. Anotei algumas recomendações e fiquei fascinado por descobrir os diferentes monumentos medievais, como a Sé de Braga, a Torre de Menagem e o Castelo de Guimarães. Além destes, também me interessei pelo bar Setra, que era vendido como um bar “ super cool ” – curiosamente estes programas turísticos estavam em língua inglesa. Após um breve cochilo e uma enorme dor de cabeça por ter chorado em demasia, finalmente consegui iniciar um filme, ou melhor, dois: Wish (2023), da Disney e A Bela América (2023), filme português do diretor/realizador António Ferreira. O primeiro conta a história de um reino fantástico cujo monarca captura os sonhos de seus súditos para si, tornando-os apáticos e alienados; o segundo conta a história de Lucas, um pobre cozinheiro de Coimbra, que é despejado de sua residência após uma recente mudança na lei de moradia, ficando à deriva junto a sua mãe, que é deficiente visual. Será que ambos os filmes queriam me dizer algo? Ou será que o meu coração, bastante pesado pela mudança, estava a levar muito a sério os conteúdos em questão? De todo modo, aquilo que mais me interessou em A Bela América foi a presença de uma personagem brasileira, que ilustrava a nossa notável presença na sociedade portuguesa contemporânea, apesar dessa personagem ficar renegada a um papel de coadjuvante no gabinete da presidenciável América, protagonista da trama ao lado do já citado Lucas. Isto me levou a algumas reflexões acerca do tipo de trabalhos que estão disponíveis para imigrantes que se deslocam à Terrinha. Também é notável que, apesar desta personagem brasileira, não me recordo de ver nenhum outro imigrante representado no filme, para além de alguns poucos figurantes que eram negros retintos (que podiam ser de qualquer um dos PALOPs, do próprio Brasil ou – pasmem – da própria Terrinha). Acerca deste ponto sobre representação “figurativa” negra no cinema português, é cabível recomendar a tese de Ana Cristina Ribeiro Pereira (2019), que se enfoca nas representações moçambicanas no cinema português e vice-versa. Ao fim de cerca de 9 horas de voo, o avião pousa e os brasileiros ali presentes batem palmas para o pouso seguro, seguido de exclamações do tipo “ graças a Deus” , enquanto o restante dos passageiros não-Brasileiros não tiveram qualquer tipo de reação. Já na fila da imigração, nota-se uma fila menor e mais veloz no lado dos cidadãos portugueses e/ou europeus, todavia, tudo passou sem complicações. Enquanto aguardava a chegada das malas despachadas, noto que há um clima de tensão e expectativa, inclusive de minha parte, pois estava pronto para atacar a primeira mala que aparecesse e a minha mente não parava de gritar: “ cadê essa mala? Não posso perder essa mala! Minha vida inteira está nessa mala!! Eu coloquei o nome na minha mala, não é? E se ela não aparecer, o que eu faço? Que roupas eu vou vestir aqui nesse país? ”. Felizmente, a mala apareceu, recolhi tudo o que era meu e parto para a saída, curioso de saber o que eu encontraria do outro lado do portal dimensional. Antes de cruzar o portal, sou abordado por um funcionário do aeroporto, que fez breves questões acerca de minha chegada: “ o que vieste fazer em Portugal? O que carregas nestas malas? ”. É curioso como a nossa mente, em momentos de extremo cansaço mental e em face a “pessoas de autoridade”, parece quase parar de funcionar, pois apesar destas serem as respostas mais simples do mundo, fiquei a balbuciar: “ oi! É, então… bom, eu vim para cá pois… (ligeiro silêncio) vim fazer um… ééé… doutoramento, em-estudosculturais-na-Universidade do… hã… do Minho! Aqui nestas malas eu carrego metade da minha vida, a outra metade ficou lá do outro lado do Atlântico… ”. Para minha surpresa, recebo um “ pois seja bem vindo e boa sorte ” e daí cruzei o portal dimensional. As primeiras coisas a resolver eram obter um SIM card para dados móveis, comer um bolinho/pastel de bacalhau enquanto meu café da manhã e descobrir como que eu chegaria em Braga. Tudo correu muito bem, com as primeiras interações ali no Porto me trazendo à memória uma das razões de eu tanto gostar da Terrinha, isto é, os portuenses quase sempre me foram simpáticos e traziam um sorriso no rosto. Após um bolinho de bacalhau e uma Super Bock (pois eu sou muito fã), me dirijo à paragem de autocarro/ônibus com destino a Braga. No caminho para esta paragem, sou abordado por um mendigo, que ficou deveras contente pelo fato de que eu falava português, embora esta felicidade também pudesse ser pelo cigarro que lhe ofereci. Confesso que estranhei a existência de tal mendigo, não por acreditar que “ no ‘primeiro mundo’ não tem isso ”, mas sim por me recordar que não são lá tão comuns quanto no Brasil, já que durante a minha experiência anterior, quando morei no Porto por 6 meses, acredito que tive contato com apenas 3 mendigos em geral. Figura 1. Café da manhã no aeroporto Francisco Sá Carneiro Enfim apanho o autocarro e mando uma mensagem para minha esposa, comentando que aqui o motorista é “dos nossos” e ouve um rock, pois tocava Should I Stay or Should I Go do The Clash nos auto-falantes, enquanto que no Brasil provavelmente tocaria um sertanejo, gênero musical que estamos longe de sermos fãs. Talvez o motorista tenha se empolgado com o The Clash, pois ele não ficou nem 1 minuto a mais que o esperado e só foi, chegando em Braga em cerca de 40 minutos. Já em Braga, solicitei um Uber e segui em destino ao Airbnb que seria o meu primeiro lar aqui na Terrinha. No Uber, noto um fenômeno que se torna cada vez mais recorrente em minhas experiências aqui na Terrinha: prestadores de serviços brasileiros que iniciam a conversa em um híbrido do português de Portugal e o português brasileiro. A conversa se inicia com um “ chegaste há muito tempo cá em Portugal ou esta é a sua primeira vez? ”, ou seja, num certo grau de formalidade, com a conjugação (correta) da segunda pessoa do singular e com a troca de vários termos, por exemplo, a rotunda é sempre rotunda e não mais rotatória. Entretanto, conforme se percebe que o cliente é brasileiro, o português gradativamente vai alterando para o português brasileiro, tanto na pronúncia quanto na conjugação e na reutilização de expressões brasileiras. No que comentei que havia acabado de chegar, a resposta já mudou para uma informalidade bem brasileira: “ eu cheguei aqui já faz uns 4 anos. Quando eu cheguei aqui, foooogo, ‘tendia nada! Aí é foda…” . Ainda assim, esta informalidade já carrega expressões portuguesas, vide o “foogo!”, que é uma forma mais branda de se falar o “ foda-se ” de Portugal ou o “ aí é foda ” do Brasil. A conversa toda se desenvolveu enquanto um primeiro processo de imersão cultural, em que o motorista J. me trouxe diferentes (supostos) processos de hibridização cultural do “Bragasil” – tal como a culinária que, segundo ele, tem se adaptado ao paladar brasileiro. O termo Bragasil, ou Braguil, tem se popularizado cada vez mais devido à grande presença de brasileiros na cidade (Rattner, 2024). Uma vez já em meu destino, enfim conheço a minha anfitriã C., uma angolana que vive aqui em Portugal há mais de 30 anos. C. se apresenta enquanto psicóloga estoicista, futuróloga, youtuber e host de Airbnb. Mal cheguei e já fui atolado de informações, tendo uma conversa de cerca de 30 minutos com C., que desejava saber mais sobre o Brasil, o que vim fazer aqui na Terrinha, como está a situação política brasileira, entre outros assuntos mais, ao passo em que me sugeria inúmeros passeios diferentes: “ tens de ir à Sé de Braga, mas se quiseres sair para beber, lá é caro e deves buscar sítios mais baratos pelos arredores. Também há o Bom Jesus… ”. A casa de C. era um tanto ou quanto curiosa, repleta de estátuas de diferentes religiões, desde Buda até Vishnu. A sala era um bocado escura, sendo iluminada apenas pela TV (que nunca saía da SIC Notícias), pois C. evitava acender as luzes a fim de economizar na conta de energia. Meu quartinho possuía cerca de 15 m², com um ventilador [ventoinha] extremamente pequeno e fixo, que pouco me ajudava a aguentar o calor de 40ºC, cuja temperatura eu não experimentei nem lá na minha Terrona. O silêncio daquele quarto me acalmava, ao mesmo passo que me irritava, pois na vida paulistana, nunca experienciei tamanho silêncio. Talvez enquanto um mecanismo de sobrevivência, buscando minimizar o choque cultural e desejando “viver uma vida normal”, decidi ir ao supermercado Continente mais próximo. De início, já consegui sentir a inflação que correu de 2020 para cá. De saída, percebi que a expressão de felicidade da caixa de supermercado esvaiuse assim que ouviu o meu “bom dia” claramente brasileiro – é discutível se esta experiência foi uma micro-expressão de cunho xenofóbico ou se a minha ansiedade fez esta interpretação de maneira equivocada. Outrossim, ressalto que Fernandes, Peixoto & Oltramari (2021, p. 55), em estudo recente sobre a última onda migratória de brasileiros em Portugal, coletaram que “ a maioria dos entrevistados relatou que a língua é uma barreira profissional, tendo eles já identificado episódios de violência simbólica pela difícil convergência linguística. Alguns estudantes revelaram que são alvo de racismo e xenofobia quando, pela fala, se identifica que são brasileiros ”. Como último evento de um dia extremamente longo e intenso, decidi jantar e caminhei até próximo da Universidade do Minho, pois desejava comer um hambúrguer do restaurante “ The Good Burger ” que encontrei no Google Maps. O restaurante já estava fechado definitivamente e, portanto, acabei indo ao “ 100 Montaditos ”, especializado em pequenos sanduíches e que realiza uma promoção chamada “Euromania” às quartas e domingos, onde qualquer um dos “100 Montaditos” custa apenas 1 euro. Figura 2. Dois Montaditos Já sentado, tomando uma caneca de Super Bock e aguardando meus “ montaditos ”, começo a reparar no local e noto que não há nenhum português nas mesas do recinto. Todos são imigrantes brasileiros/africanos ou turistas europeus (no caso, italianos e espanhóis), o que é perceptível pela língua e fisionomia dos ali presentes. Reparo que na mesa ao lado da minha, há dois jovens negros a ouvir rap e consigo puxar conversa com ambos, logo me juntando à sua mesa. Um deles, K., era Cabo-Verdiano e não devia ter mais do que 20 anos, o outro, S., já era mais próximo de minha idade (25+) e se apresentava enquanto Angolano-Português, pois era descendente de angolanos, mas nasceu cá em Portugal. K. falava um híbrido de crioulo cabo-verdiano e português de Portugal, citando que a língua portuguesa era “ bué difícil, por isso mais fácil falar crioulo, tás a ver? Com o crioulo […] percebes? ” – as reticências aí constam pois eu não percebi tudo o que ele me disse. S. é rapper e estava a nos apresentar algumas de suas músicas, enquanto discutíamos sobre o recente conflito Drake-Kendrick Lamar. Esta conversa levou a ouvirmos “ Not Like Us ” de Kendrick Lamar, trazendo uma incandescente sinergia destes jovens negros fãs de hip-hop e descendentes de ex-colônias desta Terrinha que agora nos acolhe. Como se a nossa dança e cantos de “ they not like us ” [eles não são como nós] fossem um grito de guerra simbólico face à opressão racial que passamos por conta da herança de um passado colonial. Após algumas músicas e cervejas, acabou-se a bateria da caixinha/coluna de som de K., fato que o deixou “ bué sad, man. Se não estou a ouvir música alta, chateio-me, não gosto de silêncio, ‘tás a ver? ”. Eu, já cansado e com algumas cervejas na mente, liguei o instinto de sobrevivência paulistano e pensava comigo mesmo: “ será que eu deveria estar aqui na rua até agora? Eu vim até com o passaporte, e se me acontecesse alguma coisa? Esse menino aqui até parece comigo, tem a pele clara e um black power como eu, ele poderia usar o meu passaporte despercebido… ” – chacoalho as paranoias de imigrante “terceiro-mundista” e relembro-me de que o nível de segurança daqui é bastante diferente da minha São Paulo, onde o perigo pode estar presente em qualquer esquina. Enquanto eu assim pensava, K. me contava um pouco de sua vida, citando que era “ bué de esperto, man. Tenho até o 12º ano já, ‘tás a ver? ” – adicionando uma pitada de sal à ferida moral que eu já sentia por, mesmo que brevemente, achar que ele pudesse querer algo com meu passaporte brasileiro. Desde esse dia, encontrei K. apenas 2 vezes, acompanhando-o somente pelo Instagram, onde regularmente posta fotos com todo o “ drip ” [vestimenta] de um rapper, mas que curiosamente nunca mostra o rosto (todas as fotos são olhando para baixo). Já o S., pude encontrar mais algumas vezes, mas sempre de passagem na rua e cuja conversa dificilmente passa de um “ e aí irmão? ‘Tás fixe? ”. Outrossim, uma dúvida ficava em minha mente: “ aqui na Terrinha, será que eu serei mais bem recebido por imigrantes do que pelos portuguese s ? Afinal, como diria o Kendrick: eles não são como nós ” – e enquanto eu lembrava da dança com meus “primos” da mama África, também me vinha à mente, paralelamente, o sumiço do sorriso da caixa portuguesa. Texto e imagens: Lucas Novais (CECS/Universidade do Minho) Publicado em 19 de dezembro de 2024 Este micro-ensaio é a segunda parte de um micro-ensaio entitulado “ A chegada: últimas impressões da minha terra e as primeiras impressões do (novo) velho mundo “. Referências Fernandes, D., Peixotto, J., & Oltramari, A. P. (2021). A quarta onda da imigração brasileira em Portugal: uma história breve. RELAP – Revista Latinoamericana de Población , 15 (29), 34-63. http://doi.org/10.31406/relap2021.v15.i2.n29.2 Pereira, A. C. R. (2019). Alteridade e identidade na ficção cinematográfica em Portugal e em Moçambique . Tese de doutoramento, Universidade do Minho, Braga. Retirado de https://repositorium.sdum.uminho.pt/handle/1822/65858 Rattner, J. (2024, Setembro 14). “É estar no Brasil. Isso é o que eu mais escuto aqui” — como foi a festa em Braga. Público Brasil . https://www.publico.pt/2024/09/14/publico-brasil/noticia/estar-brasil-escuto-aqui-festa-braga-2104174 LOCALIZAÇÃO Map Satellite Report a map errorKeyboard shortcuts Map data ©2024 Google Terms LOCAL: BRAGA LATITUDE: 41.55811229999999 LONGITUDE: -8.3984007 SIGA-NOS ©Universidade do Minho. Todos os direitos reservados. Com apoio do FCT. O site da passeio.pt foi desenvolvido no âmbito do projeto UID/CCI/00736/2013, financiado pelo COMPETE: POCI-01-0145-FEDER007560 e pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), sendo atualmente apoiado pelo projeto UIDB/00736/2020, financiado
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