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Torga em Saramago: dos Poemas Ibéricos à Jangada de Pedra

Grossegesse, Orlando

Abstract

A vida cultural e a crítica evitam uma comparação entre Torga e Saramago apesar de chamar ambos ‘telúricos’ e ‘ibéricos’. O próprio Saramago fala quase nunca de Torga. No entanto, comprova-se uma relação de recepção produtiva a partir d’ Os Poemas Possíveis (1966) que glosam Poemas Ibéricos (versão definitiva em 1965). A «lição de coragem mental» de Unamuno bem como a ‘lição’ do próprio Torga ao publicar o Quarto Dia da Criação do Mundo (1939- 40) revelam-se de maior importância para a génese do escritor Saramago em Manual de Pintura e Caligrafia (1977), com reflexos em O ano da morte de Ricardo Reis (1984). Saramago quer inscrever o seu testemunho (vida e obra) na memória da inconformidade com os regimes de Franco e Salazar, tal como o fez Torga. A aproximação do perfil torguiano culmina n’ A Jangada de Pedra (1986), nomeadamente no ‘Adão ibérico’ Pedro Orce que sente tremer o chão peninsular debaixo dos pés.

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TORGA EM SARAMAGO... Torga em Saramago. Dos Poemas Ibéricos à Jangada de Pedra ORLANDO GROSSEGESSE Universidade do Minho A vida cultural e a crítica evitam uma comparação entre Torga e Saramago apesar de chamar ambos ‘telúricos’ e ‘ibéricos’. O próprio Saramago fala quase nunca de Torga. No entanto, comprova-se uma relação de recepção produtiva a partir d’ Os Poemas Possíveis (1966) que glosam Poemas Ibéricos (versão definitiva em 1965). A «lição de coragem mental» de Unamuno bem como a ‘lição’ do próprio Torga ao publicar o Quarto Dia da Criação do Mundo (193940) revelam-se de maior importância para a génese do escritor Saramago em Manual de Pintura e Caligrafia (1977), com reflexos em O ano da morte de Ricardo Reis (1984). Saramago quer inscrever o seu testemunho (vida e obra) na memória da inconformidade com os regimes de Franco e Salazar, tal como o fez Torga. A aproximação do perfil torguiano culmina n’ A Jangada de Pedra (1986), nomeadamente no ‘Adão ibérico’ Pedro Orce que sente tremer o chão peninsular debaixo dos pés. VEREDAS 11 (Santiago de Compostela, 2009), 109-130 ORLANDO GROSSEGESSE Portuguese cultural expression and literary criticism avoid any comparison between Torga and Saramago, despite both being labeled as telluric and Iberian writers. Although Saramago himself rarely mentions Torga, there is clear evidence in his Poemas Possíveis (1966) of productive reception on Torga’s Poemas Ibéricos (complete version, ed. 1965). Unamuno’s «lesson of mental bravery» as well as Torga’s own ‘lesson’ given by writing and publishing his Quarto Dia da Criação do Mundo (1939-40) are most important for the emergence of Saramago as a non-conformist writer in Manual de Pintura e Caligrafia (1977), later echoing in his novel O ano da morte de Ricardo Reis (1984). Like Torga, the younger Saramago wishes to bear witness to his own opposition to Franco and Salazar. Saramago comes even closer to Torga’s telluric and Iberian profile in his novel A Jangada de Pedra (1986), above all via the old man who feels the tremor of the Iberian soil beneath his feet. Quando o Jornal de Letras, Artes e Ideias comemora, com edição especial de 14 de Agosto de 2007 (n.º 961, Ano XXVII), o centenário do nascimento de Miguel Torga, José Saramago está ausente –como autor e como referência.1 É mais uma prova do silêncio acerca de qualquer relacionamento ou comparação entre Torga e Saramago, guardado não só pelos dois autores, mas também pela crítica.2 No entanto, atribuem-se a ambos, ao longo dos anos, os mesmos epítetos de telúrico e ibérico. Esta afinidade é silenciada por um dogma de incomparabilidade que se baseia numa progressiva consagração de Torga,3 no que se refere à obra literária e ao seu contributo construtivo, muitas vezes lido conservador, para com o discurso da identidade portuguesa. 1 Não dá o seu testemunho tal como Eduardo Lourenço, Guilherme d’Oliveira Martins, António Ramalho Eanes, Mário Soares ou Manuel Alegre, nem participa no inquérito «O que representa hoje Miguel Torga e qual a importância do escritor para si?», nem merece uma menção de comparação ou de confronto nos ensaios críticos de Carlos Reis, Fernando J.B. Martinho, Maria Alzira Seixo ou Maria Fernanda Abreu. 2 A título de exemplo, no sentido inverso, Laura Fernanda Bulger (1997: 332) refere, como «vozes de autores-modelos» em Jangada de Pedra «uma constelação notável de que fazem parte Camões, Eça, Pessoa, Rodrigues Miguéis, Vergílio Ferreira, Antonio Machado e Unamuno», sem sequer mencionar Torga. Silva (2002: 113) sugere somente, numa nota de rodapé, o confronto da «personalidade» da Península Ibérica [no poemapórtico «Ibéria» dos Poemas Ibéricos] com a que se encontra ficcionalmente retratada na obra de José Saramago Jangada de Pedra.» 3 Sob o título «A maldição dos consagrados», Maria Alzira Seixo (2007: 11) afirma: «Torga, como Pessoa e Aquilino, é hoje um autor de certo modo maldito». 110 TORGA EM SARAMAGO... Esta incomparabilidade ficou recentemente confirmada quando Saramago, neste ano comemorativo, opinou que Portugal acabaria por se tornar uma província de Espanha e propôs a fusão num país chamado Ibéria para não ofender «os brios» dos portugueses, numa entrevista publicada em 15 de Julho de 2007 (Diário de Notícias). Um mês depois, no centenário do nascimento de Torga, em 12 de Agosto de 2007, é o poeta e político Manuel Alegre que utiliza o Iberismo torguiano para combater as ideias saramaguianas: «o Iberismo de Miguel Torga não põe em causa aquilo a que ele chamava a sua pátria cívica, nem a viabilidade e independência de Portugal, que é um dado adquirido». Deste modo, a conhecida exclamação «Meu pobre Portugal, há 800 anos a resistir às seduções de uma Espanha irresistível» de 23 de Setembro de 1961 (Diário IX, 1964: 984) enobrece um patriotismo light harmonizado com um iberismo light, politicamente mais correcto do que a proposta de uma federação ibérica, defendida por José Saramago, que já no século XIX não teve adeptos suficientes perante o quadro europeu de poderes estabelecidos, ficando por um «Iberismo cultural» (vd. Molina 1990). Em 4 de Setembro de 2007, tal proposta continua a ser classificada como absurda pelo Presidente da República, Cavaco Silva, quando interrogado por uma jornalista espanhola aquando da sua visita ao Parlamento Europeu, em Estrasburgo.4 Tendo em conta este impacto mediático, a entrevista no Diário de Notícias pode ser considerada, de uma forma mais ou menos intencionada, o contributo de Saramago para este centenário. Quem leu e quem relê Torga, verifica logo que a Ibéria proposta por Saramago nasce do ideário torguiano. Por ocasião da entrada de Portugal e Espanha na Comunidade Europeia (posteriormente rebaptizada União Europeia), Torga fala do «perigo […] igual para todos os povos da Ibéria» (in Molina 1989), continuando a reivindicar um legado cultural e um destino comuns para os povos da Península como colectividade de nações, histórica 4 «Basta conhecer a história de Portugal para dizer que essa hipótese é um total absurdo», respondeu Aníbal Cavaco Silva a uma questão colocada por uma jornalista da agência de notícias espanhola EFE. 111 ORLANDO GROSSEGESSE e culturalmente unidas num espaço comum; daí a necessidade urgente de ultrapassar o «espírito centrípeto» de Castela5, mas também o desconhecimento cultural mútuo, com Torga lembrando a sua conhecida auto-definição no prólogo da edição espanhola de Bichos (1946: 242): A minha pátria cívica acaba em Barca de Alva, mas a minha pátria telúrica só termina nos Pirinéus. Tenho no peito angústias que necessitam da aridez de Castela, da tenacidade basca, dos perfumes do Levante e da lua da Andaluzia. Sou, pela graça da vida, peninsular. (Coimbra, 18 de Maio de 1944; Diário III, 1946) Desconhecemos se Torga leu A Jangada de Pedra.6 Não se pronunciou sobre este romance que pode ser entendido como transposição narrativa da sua definição plural ibero-cêntrica e como reposicionamento deste pequeno continente7 no meio do triângulo Europa–África–América (do Sul e do Norte), conforme a transibericidade definida por Saramago (1988). Os estudos de Claudius Armbruster sobre a construção da identidade ibérica nas literaturas espanhola e portuguesa, analisada sob uma perspectiva pós-colonial, devem ser dos poucos que se atrevem a juntar Torga e Saramago. A leitura comparativa, obviamente centrada nos Poemas Ibéricos e n’ A Jangada de Pedra, destaca aspectos em comum: refere a utopia portuguesa-galaicaandaluza de uma vida comunitária simples, de raízes telúricas, a 5 Cf. a lamentação sobre «Castela a centrípeta, Castela a dominadora, Castela a contraditória» no apontamento de 1 de Setembro de 1962 em Santa Tecla, La Guardia (Diário IX, 1964: 1009). 6 No entanto, é muito provável. Torga também leu História do Cerco de Lisboa (Vasconcelos 1989). 7 Torga afirma não só o conceito de nação no sentido romântico de nação-povo de Herder mas também a comparação da Península com um continente próprio: «Considero que os povos ibéricos são nações. São mais do que aglomerados de povos; quer dizer, nações. A Península funciona para mim como um continente. Os povos não têm fronteiras visíveis, mas têm fronteiras individuais e dentro delas são irredutíveis. Porque não há dúvida nenhuma de que o povo galego não tem nada a ver, mas mesmo nada, com o castelhano, nem o andaluz com o catalão, e o mesmo se aplica ao basco.» (in Molina 1989). 112 TORGA EM SARAMAGO... idealização de Andaluzia como berço da Ibéria (Diário VI, 1953) e a transposição intra-ibérica da História trágico-marítima e da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto (Armbruster 1999: 149091). Na tentativa de definir as limitações e aporias da construção da identidade ibérica, Armbruster destaca em ambos a persistência de conceitos essencialistas da psicologia dos povos e a influência que, a seu ver, ainda exerce o discurso parcialmente irracional de Miguel de Unamuno e de Ángel Ganivet,8 portanto a herança da Geração de 98, sobre a visão de uma Ibéria autónoma, cuja definição telúrica culmina num sincretismo próprio entre pagão e cristão (ibid.: 1490; 1496-97). Estes elementos, aqui enumerados, sugerem uma relação de recepção produtiva, contudo não analisada por Armbruster. Conforme a nossa tese, a génese do Saramago telúrico e ibérico passa pela leitura intensa de Torga. O silêncio acerca deste diálogo, precisamente por isso eloquente, é quebrado por um apontamento dos Cadernos de Lanzarote (Diário III), datado no dia da morte de Torga, em 17 de Janeiro de 1995, referindo não só uma leitura (sem especificar) e a ocasião perdida de um encontro em vida, mas também a união entre obra, homem e terra em Torga como algo superior e desejável: Achava que havia em Torga algo que eu gostaria de ter, e não tinha: o direito ganho por uma obra com uma dimensão em todos os sentidos fora do comum, a música profunda de uma sabedoria que nascera da vida e que à vida voltava, para se tornarem ambas, mais ricas e generosas. Que Torga não era generoso, dizem-me. Mas eu falo de outra generosidade, a que se entranha nesse movimento de vaivém que em raríssimos casos une o homem à sua terra e a terra toda ao homem. (Cadernos III: 21-22) O apontamento necrológico conclui, retomando o lugarcomum inicial «Sempre se morre demasiado cedo» com a afirmação «Demasiado cedo morre Miguel Torga», porque a «diferença entre 8 Armbruster (1999: 1497) refere a transformação da península em isla já presente em Ganivet: «Somos una isla colocada en la conjunción de dos continentes». 113 ORLANDO GROSSEGESSE estar morto Torga e estar Torga vivo» significa para Saramago a impossibilidade de realizar o desejo nunca antes expresso: «Compreendo agora quanto gostaria de tê-lo conhecido. Demasiado tarde.» (Cadernos III: 22). Salvo erro, este apontamento é o único texto publicado que fala de Torga: um facto algo surpreendente, tendo em conta que Saramago se declara leitor mais do que ocasional dos livros dele; surpreende ainda que a admiração, embora parcial, não tenha motivado nunca um contacto directo, no âmbito da vida cultural portuguesa, ao longo de quase três décadas. Ponto inicial desta contagem é a (re-)entrada de Saramago na cena literária, em 1966, com o volume de poesia chamado Os Poemas Possíveis, um ano depois da publicação definitiva de Poemas Ibéricos de Miguel Torga. Pelos motivos referidos, não existe análise acerca da presença de Torga em Saramago. No entanto, na recepção imediata d’ Os Poemas Possíveis não faltou a menção do nome de Torga, por exemplo numa breve resenha de António Paulouro, publicado no seu Jornal do Fundão, ao falar da «sombra ténue de Torga, Régio, Gedeão ou Reinaldo Ferreira (Paulouro 1966)». Saramago respondeu numa carta de 5 de Outubro de 1966, dizendo «Aceito o Torga, o Gedeão e o Régio (faltou-lhe mencionar o Sena), mas não posso aceitar a do Reinaldo Ferreira, porque só fiquei a conhecer a obra dele agora, […].» (in Ferreira 2002: 45). Posteriormente, só a influência de Régio é assumida, numa entrevista com Carlos Reis (1998: 110): «houve, de facto, uma coincidência entre a leitura do Filho do Homem de José Régio» e «uma experiência de ordem sentimental (1962-63, anterior a Isabel de Nóbrega)», «que me levou a escrever poesia». Esta auto-interpretação, na qual destaca o elemento feminino como espécie de catalisador da escrita, coadunase perfeitamente com constelações recorrentes nos romances, desde Manual de Pintura e Caligrafia (1977); no entanto, nenhuma palavra sobre Torga como referência relevante para a afirmação da incipiente auto-definição telúrica e ibérica n’ Os Poemas Possíveis. 114 TORGA EM SARAMAGO... A epígrafe, retirada dos Proverbios y cantares que Antonio Machado dedicara em 1919 a Ortega y Gasset, inaugura um relacionamento não só com a poesia mas também com a filosofia machadiana, nomeadamente com a teoria do apócrifo de Juan de Mairena, que será de influência decisiva na génese e na evolução da escrita saramaguiana no sentido da «profecia do passado» (Grossegesse 1999: 32-33) que se opõe aos conceitos petrificados de organização temporal e espacial da História. Neste sentido, o posterior romance A Jangada de Pedra constitui uma homenagem a Antonio Machado (vd. Grossegesse 2001), apelidado por Saramago, numa entrevista por ocasião do lançamento, «talvez o maior poeta deste século» (in Pedrosa 1986: 26). Tal como as implicações desta afirmação ficaram ignoradas –compreensivelmente, perante o discurso português de poética moderna fixada em Pessoa–, também o elo de alguns d’ Os Poemas Possíveis com Poemas Ibéricos de Torga passou desapercebido.9 Ao analisar esta intertextualidade não se trata de revelar em Saramago um Iberismo de segunda mão. Isto obedeceria ao pensamento romântico de originalidade ou à procura de plágio literário, ao estilo do século XIX. No entanto, podemos interpretar o silêncio de Saramago acerca de Torga como indício de uma autoafirmação que prescinde da mão de um autor português contemporâneo, bem conhecido na vida literária portuguesa pelo seu Iberismo, para beber directamente nas fontes da cultura e literatura hispânicas e chegar a um conceito ibérico original. No entanto, este silêncio só abrange os comentários e entrevistas. A complexidade do texto literário é mais eloquente. Na leitura machadiana de Saramago não se pode detectar o papel intermediário de Torga; no entanto, é manifesto na relevância de Unamuno, o que nos leva a rever os fundamentos da nossa interpretação da «profecia do passado» (Grossegesse 1999: 32-49) – 9 Saramago preservou o ténue diálogo intertextual d’ Os Poemas Possíveis com Torga mesmo na sua reescrita destes poemas em 1980-81. Citaremos conforme esta edição de 1982 (curiosamente coincidindo com a 2ª edição dos Poemas Ibéricos), deixando uma análise comparativa com a primeira edição de 1966 para outra ocasião. 115 ORLANDO GROSSEGESSE os centenários têm esta virtude das descobertas e redescobertas. O poema que Torga dedica a Unamuno parece-nos a chave não só para a leitura duma sequência de quatro d’ Os Poemas Possíveis, mas também –juntamente com o Quarto Dia da Criação do Mundo– para todo o significado que Unamuno adquire, servindo de exemplo proeminente na revisitação saramaguiana da teoria do apócrifo de Juan de Mairena. O retrato de Unamuno incluído no Quarto Dia da Criação do Mundo aquando da visita à cidade de Salamanca, refere (na segunda edição refundida de 1971, em maior pormenor) a «lição de coragem mental» (Torga 1991: 278) liricamente transfigurada no respectivo Poema Ibérico: O grito de «morte à inteligência!», a que a estupidez fardada se atrevera na sua presença, quando, como reitor da Universidade, presidia a uma cerimónia oficial, recebera a resposta adequada: – Este é o templo do intelecto, de que eu sou o sumo-sacerdote. Sois vós quem profanais os paços sagrados. Vencereis, porque possuis força bruta mais que suficiente. Mas não convencereis, porque para convencer é necessário persuadir. E para persuadir seria preciso possuirdes aquilo de que careceis nesta luta: razão e direito. Custara-lhe a morte, o desagravo heróico. Mas redimira-o do erro lamentável de ter aderido momentaneamente à causa nacionalista. Fiel a si próprio, na hora crucial não hesitara. Entre o silêncio cobarde e a retórica conivente, escolhera o tom natural da sua voz: o protesto desassombrado. –Yo pertenezco al régimen eterno…– proclamara um dia. E nessa condição se finara, livre e reencontrado. Místico sem Deus, enraizado numa Espanha que lhe doía, atravessara os anos devorado pela fome do absoluto. E desse absoluto morrera sacramentado. (Torga 1991: 278-79) Concordando plenamente com as observações de Maria Manuela Gouveia Delille acerca das duas edições do Quarto Dia, pensamos que não só a leitura da edição de 1971 mas também a memória das circunstâncias e consequências da sua primeira 116 TORGA EM SARAMAGO... publicação em 1939-40 (a denúncia, a apreensão do livro e a prisão do autor) se tornaram relevantes na demorada génese do «ensaio de romance» Manual de Pintura e Caligrafia, publicado em 1977. Antes de nos dedicarmos a esta influência, resta saber se Saramago, ao escrever Os Poemas Possíveis, já possuía plena consciência para reconhecer no poema «Unamuno» a mudança do velho filósofo iberista, passando em poucas semanas da «miragem» do apoio a Franco (20 de Agosto de 1936) para a atitude de protesto público na Universidade de Salamanca, na celebração do Día de la Hispanidad em 12 de Outubro de 1936, dois meses e meio antes da sua morte (31 de Dezembro de 1936). O poema torguiano refere o acordar da «noite tumular», indo «de novo o cavaleiro andante/ Desafiar/ Cada torvo gigante/ Que impedia o delírio de passar», logo seguido pela morte. Na figuração quixotesca de Miguel de Unamuno, defensor de «outra Dulcineia,/ Ilusória, também/ (Pátria, mãe,/ Ideia/ E namorada)», importa frisar a diferença entre o D. Quixote cervantino, que falece –de Alonso Quijano– abdicando da sua identidade de cavaleiro andante, e as afirmações no poema: «Morreu louco./ O seu amor, por ser demais, foi pouco/ Para rasgar o ventre da Donzela.» Portanto, o seu amor não realiza o acto necessário para a génese concreta, telúrica da Ibéria; tal como não o realiza Santa Teresa, apelidada de «irmã mais velha» de Unamuno, cujo «amor podia / Ser sem limites como a alma quer! …/ E ser fecundo como a luz do dia / E dar um filho, porque eu fui mulher!». O seu amor possivelmente fecundo corresponde ao amor ilimitado unamuniano, na «fome do absoluto», no entanto, limitando a sua acção geradora a fazer «pombas brancas de papel/ Que voavam da Ibéria ao fim do mundo.» Precisamente este «ao fim do mundo» do poema «Unamuno» é retomado por Saramago no incipit do poema «Inês de Castro». A união entre Castela e Portugal é reivindicada como projecto concreto no apelo de «Antes do fim do mundo, despertar» e no pedido de «fidelidade humana / Ao mito do poeta, à linda Inês…/ À eterna Julieta castelhana / Do Romeu português», que defende uma futura concretização real e humana do amor que, pelo 117 ORLANDO GROSSEGESSE consciência crítica heterodoxa que se exprime desde já na recusa de se afiliar na Mocidade Portuguesa: «O meu destino não era aquele» (ibid.: 143). É nestes detalhes da inscrição autobiográfica na História que se exprime a pretensão de se aproximar do perfil torguiano ibérico, mesmo com a diferença da sua adolescência face a Torga, escritor jovem de 28 a 29 anos naquela altura. Daí o manto de silêncio relativamente à leitura torguiana que o próprio texto d’ A Jangada de Pedra levanta, quando lido sob o conhecimento da autoficcionalização de Torga em Poemas Ibéricos e n’ A Criação do Mundo. É precisamente quando num «grande mapa pregado na parede da sala, ia acompanhando de coração apertado cada ofensiva» que o Eu, no fim do Terceiro Dia, sente «oscilar o chão peninsular debaixo dos pés, em pânico existencial» (Torga 1991: 252). Isto repercute claramente na qualidade idêntica do velho Pedro Orce, figuração mais densa do Homem ibérico, «com este chão sempre a tremer-me debaixo dos pés» (Saramago, 1986: 94) que decide ir a Portugal, juntando-se aos viajantes portugueses que o procuraram. No Terceiro Dia, é neste estado hipersensível para o tremor do chão peninsular que o Eu escreve «páginas que […] eram gráficos de febre», em concreto o poema «Não passarão!», a composição politicamente mais comprometida da tríade intitulada «O Pesadelo». Com isto regressamos ao ciclo de Poemas Ibéricos, destacando entre as múltiplas analogias estruturantes a relação entre o poema «Inês de Castro», já referido, que entende a união amorosa como questão mortífera, e os versos dedicados a Federico García Lorca, poeta andaluz assassinado pelos falangistas em 18 ou 19 de Agosto de 1936, que afirmam o potencial desta mesma união num momento da opressão da Ibéria pelos regimes de Salazar e Franco. Nesta libertação possível através da arte e do amor inclui-se a própria identidade do poeta Miguel Torga13, que se dirige a «Garcia Lorca, irmão». de peregrino «enquanto houver poesia,/ Povo e sonho na Ibéria». A união desejada transfigura-se no juntar da 13 Cf. também Diário VI (1953: 534): poema «A Garcia Lorca, em Granada», incipit: «As torgas que te dei torno a levá-las». 124 TORGA EM SARAMAGO... vegetação simbólica entre Norte e Sul: «Deixa um pobre poeta da montanha/ Trazer torgas à rosa de Granada!» O «aceno do amado que há de vir…» do poema «Inês de Castro» é retomado pela «luz que é o aceno da verdade» e que se abre onde os versos de García Lorca «vão abrindo…/ A eternidade, […].» Esta transfiguração lírica da união entre Torga e Lorca repercute n’A Jangada de Pedra: em primeiro lugar, na caracterização de Orce como lugar onde teve «o diabo a sua primeira morada», «deserto final onde o próprio Cristo se teria deixado tentar-se do mesmo diabo» e, finalmente, «desterro» onde «deve ter escrito o poeta que nunca foi a Granada» (Saramago 1986: 81), antonomásia de García Lorca aludindo à famosa Balada del que nunca fue a Granada de Rafael Alberti dedicado ao poeta assassinado que culmina no apelo: «Venid por montañas, por mares y campos. Entraré en Granada. » Torga corresponde a este apelo, tal como os peregrinos portugueses à curiosidade de encontrar aquele Pedro Orce, «o homem da terra trémula» (ibid.: 75), cujo nome evoca o apóstolo homónimo e as palavras de Jesus quando diz que sobre a tua pedra edificarei a minha igreja. A homonímia do seu apelido com o lugar realça o segundo aspecto, a centralidade de Orce (lugar / personagem) para a narrativa da viagem colectiva de homens e mulheres vindo de diversos lugares da Península, permitindo a identificação de Pedro Orce como figuração destacada da unidade entre homem e terra que Saramago admira em Torga como algo superior e desejável. Em Orce (lugar/personagem) afirma-se a dupla ética e estética da união entre terra e homem e da «circunvagação» pela Ibéria,14 inscrita em Torga. Em vez de García Lorca, a narrativa saramaguiana evoca Antonio Machado, a sua morte em Collioure em 22 de Fevereiro de 1939, fugindo dos vencedores da Guerra Civil (Saramago, 1986: 30), e o desejado regresso dos seus ossos àquela terra de Soria (ibid: 74) que foi cantada por ele nos Campos 14 Termo inspirado por Torga que, em 21 de Setembro de 1962, fala de «circunvagação geoliterária» (Diário IX, 1964: 1014). 125 ORLANDO GROSSEGESSE de Castilla (1907-17), ciclo de poesia fundador não só da ética e estética acima referida mas também do significado utópico do apócrifo que se opõe aos conceitos petrificados de organização temporal e espacial da História. Embora opinemos que Torga não tenha tido papel intermediário na recepção de Machado, já manifesta n’ Os Poemas Possíveis, a leitura do Diário IX (1973) pode ter contribuído para a integração específica da memória de Antonio Machado n’ A Jangada de Pedra. Em 9 de Setembro de 1970, Torga deixa o seguinte registo da sua passagem por Soria: Campos de Soria / donde parece que las rocas sueñan. A força da poesia, grande Antonio Machado! Os milagres de que ela é capaz! Desde que assim cantaste, que não há outra realidade aqui senão a do teu canto! Mesmo a trincar os bagos dum cacho de uvas, é a polpa dos teus versos que sinto na boca. De nada valeu a guerra levar-te nos seus braços sinistros e fazer-te morrer no desterro. Contra todas as violências passadas e futuras, continuarás eterno neste segundo berço que elegeste. Tão íntimo da terra, que lhe sabes nos frutos… (Diário IX, 1973: 1196) No entanto, A Jangada de Pedra revisita –no sentido mais profundo da união entre homem e terra e da utopia do apócrifo– um lugar da Andaluzia, pátria não só de Antonio Machado, García Lorca e Juan Ramón Jiménez, poetas cuja memória acompanha esta circunvagação, mas também berço do primeiro Homem da Ibéria e ainda da Europa, por ser Orce/Venta Micena o lugar onde os arqueólogos encontraram o crânio do europeu mais antigo. Esta espécie de Adão ibérico é reencarnada por Pedro Orce que nasceu neste lugar e que será, no fim provisório da circunvagação colectiva pela Península feita ilha e pequeno continente, ali enterrado: Depois Joana Carda espetou a vara de negrilho à altura da cabeça de Pedro Orce. Não é cruz, como bem se vê, não é um sinal fúnebre, é só uma vara que perdeu a virtude que tinha, mas pode ainda ter esta simples serventia, ser relógio de sol num deserto calcinado, talvez árvore renascida, se um pau seco, espetado no 126 TORGA EM SARAMAGO... chão, é capaz de milagres, criar raízes, libertar dos olhos de Pedro Orce a nuvem escura, amanhã choverá sobre estes campos. (Saramago 1986: 330) A ausência da cruz é significativa tal como o florescer possível da vara espetada à altura da cabeça deste novo Adão, realçado pela última frase do romance: «A vara de negrilho está verde, talvez floresça no ano que vem» (ibid.: 330), porque esta morte fértil reivindica a herança espiritual da Geração de 98 para um novo florescer de toda a Ibéria através de um Deus da terra cantado por Machado em Campos de Castilla, sobretudo nos poemas «Las encinas» e «El Dios ibero» no qual conflui a visão telúrica e a utopia do apócrifo (vd. Grossegesse 2001: 175-79). O enterro de Pedro Orce espelha não só o enterro desejado para Antonio Machado «em qualquer parte dos campos de Soria, debaixo de uma azinheira, que em castelhano se diz encina, sem cruz nem pedra tumular» (Saramago, 1986: 74). mas lembra também a romaria de um «pobre poeta da montanha» ao «Filho novo de Espanha» cantada no poema «Frederico Garcia Lorca». Os versos adoptam integralmente a visão telúrica e a utopia do apócrifo, sugerindo uma leitura machadiana por parte de Torga15: O teu génio floresce cada ano… Venho ver-te crescer da sepultura! Bruxo das trevas onde alguém te quis Nelas arde a paixão do que escreveste! Sete palmos de terra, e nenhum diz Que secou a raiz, Que partiste ou morreste! 15 Na crítica torguiana, uma análise da influência de Antonio Machado em Torga é ausente (cf. Silva 2002; sem sequer referência de Diário IX, 1973: 1196, citado supra). 127 ORLANDO GROSSEGESSE A ausência desta homenagem a Federico Garcia Lorca n’ A Jangada de Pedra, tal como a ausência de referências explícitas aos Poemas Ibéricos ou ao Iberismo de Miguel Torga em geral, é eloquente. Na personagem de Pedro Orce traduz-se o desejo de preencher, de forma ficcionada, o lugar ibérico e telúrico já exemplarmente assumido pelo escritor português que constrói, em 1934, o seu nome literário na combinação entre a linhagem dos escritores Miguel de Molinos, Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno e a planta bravia (urze) que nasce espontânea no chão da terra natal.16 Contudo, no subtexto d’ A Jangada de Pedra permanece a indelével marca torguiana, resultado de uma leitura activa de duas décadas desde Os Poemas Possíveis (1966), que culmina no homem que sente tremer o chão peninsular debaixo dos pés. REFERÊNCIAS ABELLA, Rafael. La vida durante la guerra civil, Barcelona: Planeta, 1973. ARMBRUSTER, Claudius. «Iberien und / oder Europa: iberische Identitätskonstruktionen in den Literaturen Spaniens und Portugals», em: Sybille Große e Axel Schönberger (eds.): Dulce et decorum est philologiam colere: Festschrift für Dietrich 16 A homofonia aproximada entre ‘Orce’ e ‘urze’ pode ser considerado um elemento que revela a identidade torguiana de Pedro Orce, tendo em conta a dupla poética dos nomes próprios de lugares e personagens e da deslocação / replantação em Saramago, activada no caso de Orce como «uma comédia de enganos» e interligada tenuemente com a sua própria identidade, deslocada para Saramago precisamente no registo civil de Golegã: «Outra prova desta verdade é ter-se dado o nome de Homem de Orce a um osso encontrado, não precisamente em Orce, mas em Venta Micena, que daria um formoso título para a paleontologia, não fosse aquele nome, Venta, signo sinal de comércio grosseiro e pobre. Estranho é o destino das palavras. Se Micena não foi nome de mulher, antes de não ter podido ser de homem, como aquela célebre galega que em Portugal deu o nome à vila de Golegã, talvez que a estas remotíssimas paragens tenham chegado uns gregos de Micenas, fugidos à loucura dos Átridas, em algum sítio haveriam eles de replantar o toponímico pátrio, calhou ser aqui, bem mais longe que Cerbère, no coração do inferno, e nunca tão longe como agora, que vamos navegando.» (Saramago 1986: 79). 128 TORGA EM SARAMAGO... Briesemeister. Berlin: Domus Editoria Europaea 1999, pp. 14851514. BULGER, Laura Fernanda.«A Jangada de Pedra, de José Saramago. Viagem em busca de um futuro, de um tempo, de um destino», em: Literatura de Viagem. Narrativa, história, mito, (orgs.) Ana Margarida Falcão, Maria Teresa Nascimento, Maria Luísa Leal. Lisboa: Cosmos, 1997, pp. 321-335. FERREIRA, Serafim. «Nos 80 anos de José Saramago», A Página da Educação, ano 11, nº 117, Novembro, 2002, p. 45. Grossegesse, Orlando. Saramago lesen. 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