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Entrevista com Luandino Vieira

Passos, Joana

Abstract

Entrevista com o escritor angolano Luandino Vieira.

Full text

Áfricas Contemporâneas Contemporary Africas Elena BRUGIONI Joana PASSOS Andreia SARABANDO Marie-Manuelle SILVA ANA LUÍSA / ANA MAFALDA / ANA PAULA / ANDREIA / DAVID / ELENA / JOANA / JOHN / LARS / LIVIA / LUANDINO / LUÍS CARLOS / MARGARIDA CALAFATE / MARIA / MARIE-MANUELLE / MARTA SOFÍA LÓPEZ / MIA / MICHAEL / PEDRO PÉREZ / ROBERTO / TRISTAN / VÉRONIQUE K_africas_2.indd 1 11/02/03 15:44 Africas.indb 188 03-02-2011 07:07:01 ENTREVISTA COM LUANDINO VIEIRA Joana Passos Em primeiro lugar, quero agradecer a delicadeza do Luandino ao ceder -me algum do seu tempo para responder a esta entrevista, que ocorre na sequência da sua participação na conferência Contemporary África(s). Recordemos então algumas das questões debatidas, que serão o nosso ponto de partida para conhecer um pouco melhor a sua obra e a sua visão da literatura. Várias vezes o ouvi sublinhar a importância da história e da necessidade de um povo ter consciência da sua história. Aliás, esta posição era partilhada pela Ana Paula Tavares, e ambos consideravam a história material fundamental para a literatura contemporânea de Angola. Tendo em conta que os seus livros revisitam a guerrilha da luta pela independência (por exemplo O Livro dos Guerrilheiros ou O Livro dos Rios), e que retratam a organização da resistência em Luanda (revivida em Nós, os do Makulusu), é inegável a relação entre a sua visão da literatura e uma certa crónica da história. Por conseguinte, qual a importância da história na temática da sua escrita? Luandino Vieira: Em primeiro lugar, eu acho que a história é sempre importante para qualquer escritor, por muito que ele fi ccione, e por muito que ele se distancie daquilo a que se chama realidade para elaborar universos fi ccionais, que aparentemente não têm nada a ver com a história. Eu não acredito que a humanidade possa viver fora da história. No caso de Africas.indb 189 03-02-2011 07:07:01 190 Joana Passos Angola e dos Angolanos ainda com maior pertinência, porque por um lado, durante o período da ocupação, da conquista, do colonialismo, e mesmo depois, houve sempre a tentação de apagar a história do território e a história das pessoas que aí viviam, e mesmo existindo uma vasta documentação relativa a essa história, essa documentação não está ao alcance dos angolanos, está espalhada por arquivos na Holanda, em Portugal, na Santa Sé, etc... portanto, a parte da história de Angola que corresponde à ocupação, à conquista, ao colonialismo e às lutas de resistência que se iniciaram... não é bem conhecida, ou melhor, nem sequer é conhecida. Nós, angolanos, fi camos muito perplexos, por exemplo, quando um historiador como o Pélissier apresentou o seu grande estudo sobre as guerras em Angola.1 Porque ele teve acesso, procurou as pistas, e demonstrou que desde o primeiro dia em que os europeus chegaram àquele território tinham começado guerras de resistência que duraram até 1945. Porque aquilo a que se chama luta de libertação nacional não foi mais do que o culminar de todas as revoltas populares que já tinham ocorrido. Assim, e tendo em conta a importância deste conhecimento do passado nos dias de hoje, a literatura angolana fatalmente está ancorada na história. Por outro lado, alguns dos autores que escrevem a literatura moderna de Angola, eles próprios participaram numa fase da história de Angola que é mais visível e conhecida, e torna -se imprescindível, se quisermos construir uma fi cção que tenha como contexto o que se chama Angola, e de um ponto de vista que inclua esse conceito que se criou/gestou nos anos quarenta, de angolanidade, é imprescindível conhecer a história, ou privilegiar o conhecimento histórico, ou inventar a história como quadro para a fi cção. Então, a par da história e da literatura, poderíamos colocar um conceito como “identidade”, ou melhor “identidade colectiva”. Luandino Vieira: O conhecimento dessa identidade ou dessas identidades não é possível sem o conhecimento histórico, nem que seja aquilo que os avós nos contam, ou aquilo que vivemos. Mas, em relação à história que é uma ciência, rigorosa, o apelo da literatura é afectivo. 1 Pélissier, René (1997), História das Campanhas de Angola – Resistência e Revoltas 1845 -1941, Lisboa, Editorial Estampa. Africas.indb 190 03-02-2011 07:07:01 191 ENTREVISTA COM LUANDINO VIEIRA Luandino Vieira: Pretende -se que a história seja assim, rigorosa, mas a história é uma outra forma de fi cção, pois a história é escrita por humanos. No entanto, a escrita fi ccional não obedece a pressupostos históricos, nem se pretende deixar a história de Angola acrescentada ou diminuída. A parte histórica é ditada pelo peso que a realidade, ou a visão que eu tenho da realidade objectiva, tem na minha fi cção. Não sou capaz de efabular fora de um quadro histórico, porque também não fui capaz de viver a minha própria vida e a minha experiência fora de um quadro histórico. Um dia contou -me que se bateu para evitar a construção de determinado edifício em Luanda, e mais tarde, quando pensaram demoli -lo, viu -se na posição de se bater pela sua defesa. Não será este o caminho que aqueles que fazem a história das literaturas africanas têm de fazer? No sentido em que as modernas literaturas africanas, escritas, com excepção das literaturas árabes ou daquelas em qualquer outra escrita autóctone, como por exemplo a da Etiópia, cresceram em contraponto com uma literatura colonial que de certa forma as circundava, pelo menos na sua fase inicial. Mais tarde, dentro do movimento de afi rmação identitária da luta de libertação muitos destes primeiros autores foram marginalizados ou suprimidos, por serem da fase colonial... Luandino Vieira: No meu caso particular, eu vivi muitos anos, muito tempo, o que dá, em períodos de grande aceleração da história, a possibilidade de dizermos sim e não à mesma coisa. Levantei contra a construção de determinado edifício – que nós achávamos que era de um estilo mais do que ultrapassado, uma coisa neoclássica, com uns detalhes quase barrocos, quando o que nós queríamos era ferro, alumínio e vidro – e quarenta ou cinquenta anos depois tive de me bater para que não destruíssem aquilo, porque aquilo era realmente uma belíssima obra dentro daquele estilo e já se tinha tornado património nacional, e o último argumento foi que quem construiu aquilo foram os angolanos, o arquitecto pode ter sido A ou B, os engenheiros C, D e F, os materiais podem ter vindo do estrangeiro, mas a força de trabalho, quem fez aquele edifício, foi o povo de Angola. Esse mesmo povo teria legitimidade para o deitar abaixo, mas não faz sentido destruir o que as gerações anteriores fi zeram com o seu trabalho. E assim fi cou. Quanto à questão das gerações literárias, toda a geração, grupo ou época literária, de um modo geral, para construir qualquer coisa tem de destruir o que foi feito anteriormente. Quando essa geração age num contexto muito claro e muito determinado como o foi o pós Segunda Guerra Africas.indb 191 03-02-2011 07:07:01 192 Joana Passos mundial, com um quadro de referência muito claro que foi a luta de libertação, obviamente que a noção do que valia a pena canonizar se tornou muito estreita. Depois da vitória dessa luta, o valor do que estava em jogo fez com que essas questões fossem reavivadas e se tornassem objecto de novas leituras, ao ponto de muito do que antes era posto de lado apenas com um rótulo, voltasse a ser reavaliado em função das novas conquistas teóricas que a nação independente fez, porque limitar a literatura angolana ao que se fez depois de 1948 é uma questão puramente arbitrária. Porquê 48 e não 58? E porque não 38? As questões literárias não se resolvem meramente com datas ou rótulos: literatura colonial, literatura anticolonial, literatura pós -colonial, literatura pré -colonial, literatura pré -angolana... Os rótulos são úteis como plataforma de diálogo, e também em termos pedagógicos. Luandino Vieira: As questões metodológicas são necessárias, mas devem ser apagadas depois de o trabalho estar feito. E o que está nos arquivos? Todos nós começamos por ler com espanto uma obra publicada pela Agência Geral do Ultramar, A História Geral das Guerras Angolanas2 e que nos levou a levantar algumas questões. Quem escrevia assim no século XVII? Não tem essa escrita sinais do que consideramos hoje a angolanidade? Tem. Essa questão (de quem faz parte da história literária) nunca vai estar terminada. É também uma questão ideológica, que se une à teoria da literatura, e é também uma questão política... à medida que a nação se for consolidando, as pessoas vão perguntar “porque discutem uma coisa tão clara?” É o que eu penso. E a questão da tensão entre literatura de combate e literatura? Será uma questão de tempo até se fazer uma selecção pela qualidade de escrita? E mesmo assim não terá lugar nos estudos dos jovens angolanos uma amostra dessa poesia de combate? Luandino Vieira: Acho que sim. Que é um questão de tempo é. Todos sabemos que o tempo é o grande... Escultor... 2 Cadornega, António Oliveira de (1680), História Geral das Guerras Angolanas, anotado e corrigido por Delgado, José Matias (1972), Lisboa, Agência Geral do Ultramar. Africas.indb 192 03-02-2011 07:07:01 193 ENTREVISTA COM LUANDINO VIEIRA Luandino Vieira: (Risos) Isso ainda é elogiar o tempo. O tempo é o grande recolhedor de lixo, que anda de noite, a apanhar tudo, e nem sabe o que é que leva; mas o tempo irá ajudar nessa distinção da literatura de combate, que era literatura feita expressamente pelos seus autores com um fi m político. Se os autores tinham na verdade algum talento, esse talento fi cava expresso, e passada a urgência da época, se algum talento havia na construção literária, esse talento está lá. E se está lá, deve ser avaliado e reavaliado... e incluído ou não... Quanto aos estudos académicos, devem tomar por objecto tudo o que for relevante... tudo o que ajuda a manter vivo um sistema literário, que se revitaliza ao ser problematizado. Quando escreve, o Luandino tem também em mente um público que não é só o angolano? Repare, é muito estimado em Portugal, mas por vezes também é incompreendido... Como vê a necessidade de os portugueses lerem literaturas africanas para se compreenderem melhor a si próprios? Luandino Vieira: Dada a profunda interconexão entre a história dos dois países, entre a história de Portugal e a história de Angola, que foi profunda, longa e muito, muito importante, acho que não sofre contestação dizer -se que a leitura da literatura angolana ajuda os leitores portugueses a compreenderem um pouco melhor o que foi a relação entre Portugal e o território de Angola, como Portugal ajudou e não ajudou à formação daquela nação, etc... Não vejo que essa relação possa ser trocada por nenhuma outra. Mesmo a relação Portugal – Brasil, que é uma relação que já está mais clarifi cada, estratifi cada, que já está mais digerida por ambas as partes, não sei se no sentido de um afastamento dos dois universos, se de aproximação – ainda ontem li que o Dário Castro Alves se considerava bi -cidadão de Portugal e do Brasil – deve ser mais conhecida. Mas não tenho dúvidas que tal como os escritores da minha geração puderam entrar num movimento político, num movimento cultural, e mesmo no movimento da luta de libertação com conhecimento histórico de Portugal – pois nós estudamos a história de Portugal, e ainda hoje, os escritores da minha geração e da seguinte, sabem a história de Portugal às vezes de uma maneira, como me dou conta, não digo mais profunda, mas com mais pormenores do que os interlocutores portugueses, porque nos ensinavam a história de uma maneira quase mnemónica (risos) – outras gerações devem ter esse conhecimento, acho que é fundamental. Africas.indb 193 03-02-2011 07:07:01 194 Joana Passos Vou fazer -lhe uma pergunta um pouco pessoal. Quando lhe foi atribuído o Grande Prémio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores, em 1965, como reagiu? Luandino Vieira – Eu estava no Tarrafal e não soube logo... repare, nós sabemos muito bem que durante os anos quarenta, cinquenta, sessenta havia em Portugal, houve sempre, uma identidade de interesses e propósitos entre, e isto dito de uma maneira geral, genérica, entre a oposição portuguesa e o movimento de libertação. Essa consciência temos todos, dessa sintonia até à independência, mais, hoje em dia (e foi o Mia Couto que no outro dia tocou essa corda) falam muito da descolonização e de Portugal, mas a descolonização começou a ser feita muito antes disso a que se chama o terceiro “D” da revolução do 25 de Abril3. Os capitães de Abril só deram seguimento a algo que já vinha de trás, da aliança das forças democráticas e das forças anti -ditadura. E os militantes da luta de libertação e a oposição portuguesa correspondiam -se... olhe por exemplo, no domínio da literatura, em Angola nós recebemos toda a colecção dos Cadernos de Poesia4, a colecção do Novo Cancioneiro5, tudo quanto o movimento neo -realista produziu de melhor chegava imediatamente a Luanda. Nós tínhamos acesso a esses livros. E em Moçambique, os escritores e intelectuais do tempo relacionavam -se com portugueses que tinham sido degredados para Moçambique, que estavam lá, e tinham contactos no Brasil... Agora vou falar um pouco de questões de género e modo, questões mais formais. A par da narrativa, onde maioritariamente se enquadra a sua escrita, está sempre presente a poesia. Sentiu que de alguma forma a poesia não era tão plástica para tratar as temáticas de forte pendor social e político que costuma abordar? Por outro lado, a sua narrativa tem sempre uma sensibilidade lírica. Para mim é poesia... por exemplo, quando eu leio O Livro dos Guerrilheiros e O Livro dos Rios, este último é o contraponto poético de O Livro dos Guerrilheiros. Lembra -se que experimentámos ler um trecho 3 Os três principais objectivos da Revolução dos Cravos de 25 de Abril de 1974 seriam “Democratizar, Desenvolver, Descolonizar”, de acordo com o programa da Junta de Salvação Nacional que então assumiu o governo. 4 Revista editada em Lisboa, colaboradores vários, três séries, 1940 -1942. 5 Novo Cancioneiro: colecção de poemas publicada em 1941 por um grupo de jovens poetas: Fernando Namora, Mário Dionísio, João José Cachofel, Joaquim Namorado, Álvaro Feijó, Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira, Sidónio Muralha, Francisco José Tenreiro, Políbio Gomes dos Santos. Podemos enquadrar os 10 volumes da colecção do Novo Cancioneiro no movimento neo -realista, que se afirmou em rotura com padrões modernistas. Africas.indb 194 03-02-2011 07:07:01 195 ENTREVISTA COM LUANDINO VIEIRA narrativo como poesia, em Braga, e o público aderiu, funcionou como poesia! Como gere esta omnipresença da poesia na sua narrativa e, apesar desse forte pendor poético, o que é que o faz identifi car -se mais com o modo narrativo? Luandino Vieira: (Risos) Como é que eu posso responder de uma maneira simples? Eu formei -me na narrativa, no romance. Desde muito novo que lia, lia muito, e o grande corpus que lia era romance, novela, contos, os grandes escritores, e muito menos a poesia, mas... o desenvolvimento do meu trabalho literário no sentido da prosa e da narrativa deve -se a esse facto, mas eu pessoalmente sou uma pessoa com uma visão do mundo que quando não é poética, tendo sempre a poetizá -la, ou a ver as coisas de uma maneira lírica. Há aí uma questão de temperamento... De sensibilidade pessoal... Luandino Vieira – De sensibilidade pessoal, e depois... o trabalho com a prosa, a narrativa... é também a infl uência de Fernão Lopes, do Padre António Vieira, para referir autores que me marcaram na língua portuguesa. E os meus professores deram -me um conhecimento afectivo da língua portuguesa, que me faz estar muito à -vontade quando estou a escrever, e aí, se calhar, o meu modo poético de ver o mundo sobressai. Por outro lado, quando a prosa que escrevia deixou de estar dependente da urgência de atender a questões de combate, o que fi cou foi o lastro mais literário, mais poético e que efectivamente marca a prosa que escrevo nos últimos tempos. Também porque já não fazia sentido escrever de um modo realista, cru. Porque, o que eu pretendia, e sei que não consegui, era elevar um pouco a narrativa daquela fase, relativa àqueles factos e personagens, da narrativa, do romance, para a épica, e uma das muletas para essa passagem foi deixar transbordar a parte mais poética do real e do imaginário. Então e a questão do bilinguismo, a presença do quimbundo na sua escrita? Luandino Vieira – Essa é a questão da língua ou da linguagem que eu emprego para escrever. O quimbundo ajudou -me a ser mais conciso, mas também muito mais atento ao ritmo e à musicalidade da língua. Esse bilinguismo não reproduz a tal bi -cidadania, o estar entre dois mundos e os dois mundos terem de ser expressos? Africas.indb 195 03-02-2011 07:07:01