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Análise dos processos de comunicação e interação com alunos com surdocegueira e multideficiência em Portugal antes e depois da COVID-19

Almeida, Wolney Gomes; Cruz-Santos, Anabela

Abstract

A pandemia causada pela Covid-19 trouxe ao mundo consequências em diversas esferas sociais, políticas e econômicas, e em proporções poucos vivenciadas pela humanidade no ultimo século. Dentre as mudanças emergenciais impulsionadas, os impactos causados no sistema educacional certamente foram potencializados quando o contexto de atendimento se dá aos estudantes com deficiência, cujas necessidades de aprendizagem se estabelecem de formas distintas. Este estudo objetiva analisar o atendimento educacional dado aos alunos com surdocegueira e com multideficiência em Portugal antes e durante o impacto pandêmico da Covid-19. A pesquisa teve abrangência em território nacional através da distribuição de um questionário online em Portugal, tendo sido obtidos 16 questionários referentes a alunos com surdocegueira e/ ou multideficiência. Os resultados obtidos evidenciaram quais as medidas de suporte à aprendizagem que foram aplicadas pelos professores nos processos de comunicação e interação em alunos com surdocegueira e multideficiência, e de que forma a pandemia causada pela Covid-19 tem impacto na comunicação entre os professores e alunos com necessidades educativas especiais.

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Resumo: A pandemia causada pela Covid-19 trouxe ao mundo consequências em diversas esferas sociais, políticas e econômicas, e em proporções poucos vivenciadas pela humanidade no ultimo século. Dentre as mudanças emergenciais impulsionadas, os impactos causados no sistema educacional certamente foram potencializados quando o contexto de atendimento se dá aos estudantes com deficiência, cujas necessidades de aprendizagem se estabelecem de formas distintas. Este estudo objetiva analisar o atendimento educacional dado aos alunos com surdocegueira e com multideficiência em Portugal antes e durante o impacto pandêmico da Covid-19. A pesquisa teve abrangência em território nacional através da distribuição de um questionário online em Portugal, tendo sido obtidos 16 questionários referentes a alunos com surdocegueira e/ ou multideficiência. Os resultados obtidos evidenciaram quais as medidas de suporte à aprendizagem que foram aplicadas pelos professores nos processos de comunicação e interação em alunos com surdocegueira e multideficiência, e de que forma a pandemia causada pela Covid-19 tem impacto na comunicação entre os professores e alunos com necessidades educativas especiais. Palavras-chave: Covid-19. Surdocegueira. Multideficiência. Comunicação. Abstract: The pandemic caused by Covid-19 has brought consequences to the world in different social, political and economic spheres, and in proportions few of those experienced by humanity in the last century. Among the driven emergency changes, the impacts caused on the educational system were certainly enhanced when the context of care is given to students with disabilities, whose learning needs are established in different ways. This study aims to analyze the educational assistance to students with deafblindness and with multiple disabilities in Portugal in view of the pandemic impact of Covid-19. The survey had a national scope through the distribution of an online questionnaire in Portugal, having obtained 16 questionnaires referring to students with deafblindness and/or multiple disability. The results obtained showed which measures of support to learning were applied by teachers in the communication and interaction processes in students with deafblindness and multiple disabilities, and how the pandemic caused by Covid-19 has an impact on communication between teachers and students with special educational needs. Keywords: Covid-19. Deafblindness. Multiple Disabilities. Communication. Doutor em Educação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Professor na Universidade Estadual de Santa Cruz(UESC). Lattes: http://lattes.cnpq.br/0255287881353014. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1454-8213. E-mail: [email protected]. Doutora em Estudos da Criança, pela Universidade do Minho, Portugal. Professora Auxiliar do Instituto de Educação da Universidade do Minho. Ciência Vitae: https://www.cienciavitae.pt/portal/pt/6C15-15C7-DA96 ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9985-8466. E-mail: [email protected] Wolney Gomes Almeida Anabela Cruz-Santos ANALYSIS OF COMMUNICATION AND INTERACTION PROCESSES WITH DEAFBLINDING STUDENTS AND MULTIPLE DISABILITIES IN PORTUGAL BEFORE AND AFTER COVID-19. ANÁLISE DOS PROCESSOS DE COMUNICAÇÃO E INTERAÇÃO COM ALUNOS COM SURDOCEGUEIRA E MULTIDEFICIÊNCIA EM PORTUGAL ANTES E DEPOIS DA COVID-19 1 2 1 2 137 Revista Humanidades e Inovação v.8, n.63 Introdução Frente à realidade pandêmica da Covid-19, instaurada por um vírus de transmissão e alcance planetário, a principal estratégia estabelecida para contenção da infecção em um cenário social complexo e marcado por condições sanitárias e econômicas consideravelmente desiguais, deu-se pelas ações e políticas de isolamento social sistematicamente propostas à população em estado de vulnerabilidade quanto à pandemia. Diante dos inúmeros enfrentamentos impostos pela crise sanitária instaurada, desde as condições políticas, econômicas, e, principalmente de saúde pública pelas quais o mundo foi impactado, a realidade educacional em tempos de isolamento social tem se tornado palco de diversas discussões no cenário internacional, afetando diretamente um número consideravelmente alarmante de estudantes desde a educação infantil ao ensino superior. Os modelos educacionais, historicamente construídos e pautados em paradigmas tradicionais, apresentam-se atualmente, frente às condições pandêmicas, como modelos ainda mais engessados e sujeitos a desconstruções, principalmente quando pensadas as condições de atendimento educacional especializado, cujas necessidades e demandas tornam-se ainda mais afetadas para o público de alunos com necessidades educativas especiais. Dados da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO, 2020) revelam que 186 países ou regiões decidiram pelo fechamento de suas instituições de ensino desde o início de março do ano de 2020, como uma das principais formas de controlar a infecção em massa. Como resultado destas ações, a organização estima que 70% dos alunos foram atingidos em todos os níveis de ensino. Em Portugal, assim como na maioria destes países elencados pela UNESCO, todas as escolas e universidades adotaram o fechamento de seus espaços no início do mês de março deste ano de 2020, determinando que a modalidade de ensino fosse oferecida mediada por tecnologia em ensino remoto. Ao considerarmos que o sistema educacional em si já apresenta questões geradoras de reflexões quanto à universalidade do atendimento e do ensino para todos os alunos, levantamos neste estudo, o importante questionamento sobre como tem se estabelecido o atendimento educacional em tempo de pandemia e de isolamento social no contexto da educação de alunos com deficiência em Portugal? Mais especificamente, como se estabelecem os atendimentos educacionais mediados pela comunicação com alunos com surdocegueira e multideficiência neste contexto nacional? Assim, o objetivo traçado neste estudo consiste em analisar o atendimento educacional aos alunos surdocegos e com multideficiência em Portugal frente ao impacto pandêmico da Covid-19. Segundo dados apresentados por Gaspar (2015), a surdocegueira, apesar de rara, afeta milhares de pessoas no mundo. Números exatos de pessoas surdocegas são desconhecidos. Nos Estados Unidos estima-se que vivam 70.000 a 100.000 pessoas surdocegas (NARUC, 2008), na Aústrália 288.000 (Access Economics, 2007), alcançando os 400.000 na Índia (Paul et al., n.d.). Num estudo realizado no Reino Unido, estima-se que aproximadamente 212 pessoas por cada 100.000 habitantes possuam uma acentuada perda de visão e audição. Em 2013, este número aumentou para 343 pessoas por cada 100.000 (Robertson & Emerson, 2010). Em Portugal não existe uma estimativa precisa do número de pessoas surdocegas, mas estudos atuais revela, uma baixa prevalência entre as pessoas com a deficiência em idade escolar. De acordo com os censos do Instituto Nacional de Estatística, no ano de 2001, existiam 634.408 pessoas com deficiência, 6,8% da população residente no país (INE, 2002). Todavia, desconhece-se o número de pessoas surdocegas incluídas neste grupo. A importância desta análise centra-se na possibilidade de construção de novos olhares sobre os paradigmas do sistema educacional em Portugal no contexto da educação de alunos com deficiência, em particular os surdocegos e com multideficiência principalmente ao considerarmos a realidade da educação mediada por tecnologias. Dentre diversas questões passíveis de análises, atentamo-nos, neste estudo, a considerar quais as formas de comunicação são desenvolvidas pelos estudantes surdocegos e com multideficiência, quais destas formas de comunicação são efetivamente utilizadas pelos alunos nos espaços escolares e no espaços familiares, quais atendimentos mediante as políti- 138 Revista Humanidades e Inovação v.8, n.63 cas publicas nacionais são aplicadas a estes estudantes quando ao tipo de programa utilizado e quais profissionais em contexto educacional estão inseridos neste atendimento, e por fim, qual impacto trazido pela condição pandêmica e as consequências do isolamento social e da modalidade de educação mediada pelas tecnologias foram apontadas pelos participantes da pesquisa. Espera-se com estas reflexões, provocar a necessidade de construção de novas práticas educacionais, bem como, a promoção de novas políticas públicas que adequem o ensino mediado por tecnologias às necessidades educativas dos estudantes que, pelas suas especificidades marcadas por suas necessidades e dificuldades, vivenciam também diferentes formas de aprendizagem e de relações comunicacionais nos contextos educacionais. Método O presente estudo se constitui, metodologicamente, por uma pesquisa quantitativa, de forma a analisar o atendimento educacional aos estudantes surdocegos e com multideficiência antes e durante o impacto da pandemia causada pela Covid-19. Assim, os dados foram recolhidos recorrendo ao uso de questionários online distribuídos aos professores de alunos em idade escolar (6 a 18 anos) em escolas de Portugal Continental e Regiões Autônomas. Foi elaborado um questionário online (Anexo A) através do qual foram recolhidos dados genéricos (gênero e idade), dados escolares (ano e ciclo de escolaridade frequentado pelo aluno) e dados sociodemográficos (tipo de deficiência, formas de comunicação conhecidas pelos estudantes, as que efetivamente são utilizadas em espaços escolares e em contexto familiar, bem como questões referentes aos serviços e programas de apoio dispensados no contexto domiciliar e rotinas de aprendizagem à distância) de cada aluno. Quanto à recolha dos dados, o link para o acesso e preenchimento do questionário foi enviado por e-mail a todas as: a) Escolas de referência para educação bilíngue; b) Escolas de referência no domínio da visão; c) Escolas da Rede Pública; d) Instituições Privadas de Solidariedade Social (IPSS); e e) Instituições Privadas/Particulares. Além do envio por correio eletrônico, o questionário foi também difundido nas redes sociais, sobretudo em grupos fechados de professores/educadores dedicados à educação inclusiva e ao ensino especializado de alunos com surdocegueira e multideficiência. A disponibilização do link para o preenchimento pelos professores dos alunos foi precedida pela explicação dos objetivos do estudo, o seu público-alvo, nomeadamente aos professores de alunos surdocegos ou com multideficiência, assim como todos os profissionais que desempenham funções pedagógicas (Professores de Educação Especial) ou técnicas (Intérpretes de Língua Gestual Portuguesa, Terapeutas da Fala, Técnicos de Orientação e Mobilidade, etc.) com estes alunos. Por fim, foram garantidos o anonimato e a confidencialidade dos dados fornecidos. Foram empregados esforços para que a recolha dos dados atingisse todas as instituições de ensino que realizassem atendimento ao público desta pesquisa, sendo assim enviados e- -mails para todas as instituições, além de contatos institucionais através das redes sociais e chamadas telefônicas, bem como através de inúmeros contatos com diretores e coordenadores das escolas, e a grupos de trabalho e pesquisas por meio dos profissionais das áreas correlatas ao atendimento educacional destes alunos. Consta que o período total para recolha dos dados foi de oito meses, considerando o início em dezembro de 2019 e o período final em julho de 2020. Os dados coletados através dos questionários online foram importados para o software estatístico SPSS (Statistical Package for Social Sciencies) e analisados. Após os inúmeros esforços realizados para que todos os contextos educacionais deste público alvo da pesquisa fossem contactados, e, ao final dos oitos meses de recolha dos dados, a amostra deste estudo constitui-se por 16 (dezesseis) alunos, dos quais 5 (cinco) são identificados como surdocegos e 11 como alunos com multideficiência sem apresentar surdocegueira. Dos 5 (cinco) alunos surdocegos, 4 (quatro) foram também identificados como alunos com multideficiência. Relativamente à distribuição por gênero, 6 (seis) alunos são do 139 Revista Humanidades e Inovação v.8, n.63 gênero feminino e 10 (dez) do gênero masculino. Com relação à natureza da surdocegueira, 4 (quatro) alunos apresentam surdocegueira congênita e 1 (um) surdocegueira adquirida. Todos os questionários recebidos e analisados foram preenchidos por professores dos alunos com as caracteristicas pretendidas para este estudo. De acordo com estudos nacionais e internacionais, no que diz respeito à prevalência de alunos com Necessidades Educativas Especiais, em Portugal estima-se que a prevalência dos alunos com surdocegueira seja baixa, rodando 0,02%, e dos alunos com multideficiência rodando 1,95% numa percentagem de 15% de alunos com NEE em idade escolar (Correia, 2008; 2017). Salientamos que não foram encontrados, até o momento da pesquisa, dados precisos do Ministério da Educação em Portugal que revelassem o quantitativo de alunos com surdocegueira e com multideficiência inscritos/matriculados nas instituições educacionais do país. Assim, a pesquisa, de modo quantitativo, representa o número de professores disponíveis à participação da pesquisa, e que possuíssem, no momento da coleta, experiências no ensino à estudantes com estas condições de deficiência. Assim, de acordo com o objetivo deste estudo foram analisados os dados em função de três grupos de alunos, tendo em conta o seu tipo de necessidades educativas, nomeadamente: a) Alunos com surdocegueira; b) Alunos com multideficiência sem apresentar surdocegueira; e c) Alunos com surdocegueira com multideficiência. Quanto à escolaridade, 5 (cinco) alunos estão inseridos no 1ºAno/1ºCiclo da educação básica, 5 (cinco) alunos estão no 2ºAno/1ºCiclo e 6 (seis) alunos estão no 3ºAno/1ºCiclo da educação básica, distribuídos na seguinte tipologia escolar: 15 (quinze) alunos matriculados em escolas da Rede Pública, 1 (um) aluno matriculado em Instituição Privada. A descrição de variáveis que nortearam as perguntas do nosso questionário, permitida pela análise descritiva, estabeleceu-se a partir das formas de comunicação desenvolvidas pelos alunos, e destas, quais são utilizadas em sala de aula com os seus professores e em casa com seus familiares. Outras variáveis se configuraram a partir do tipo de apoio pedagógico oferecido e quais ações neste contexto são ofertadas. Assim, as variáveis estão assim definidas: a) quanto às medidas de apoio oferecidas aos alunos com surdocegueira e com multideficiência; b) quanto ás formas de comunicação utilizadas entre os alunos, docentes e familiares; c) quanto aos recursos tecnológicos utilizados para atendimento educacional, antes e depois do ensino remoto; d) relação familiar durante o ensino remoto; e) impacto da pandemia no processo de ensino/aprendizagem e; e) percepções dos estudantes face ao atendimento educacional e suas dificuldades de aprendizagem. Com exceção da última variável, respondida pelos alunos com deficiência com a mediação de seus respectivos professores participantes da pesquisa, todos os questionários representando as respostas coletados pelos docentes partícipes. Tais variáveis passam a ser confrontadas com os aspectos enfrentados pelos professores no período de pandemia, após o encerramento das escolas e ao início das atividades mediadas pelas tecnologias em momento de distanciamento social. Assim, passam a ser considerados os recursos tecnológicos utilizados no desenvolvimento das aulas em teletrabalho e as dificuldades enfrentadas pelos docentes durante o período pandêmico. Importante se faz considerar que parte dos dados coletados (sete questionários) foram realizados antes do fechamento das escolas, que se deu na segunda semana do mês de março de 2020. Os demais (nove questionários) foram coletados quando o atendimento educacional já acontecia com o estudo remoto. As análises realizadas aos dados obtidos no estudo permitiu determinar que medidas de suporte à aprendizagem foram aplicadas no apoio aos alunos após a interrupção das aulas presenciais. 140 Revista Humanidades e Inovação v.8, n.63 Resultados Partimos para a nossa discussão dos dados, tomando como elemento conceitual a compreensão sobre a surdocegueira enquanto deficiência única , e da multideficiência em suas condições plurais. Assim, nos posicionamos na compreensão de que a surdocegueira se caracteriza pela associação das perdas, parcial ou total, dos sentidos da visão e audição em um mesmo indivíduo. Os indivíduos que apresentam essa condição possuem, em maior ou menor nível, problemas de comunicação, informação e mobilidade, dependendo da etiologia da surdocegueira (GASPAR, 2015). Já a multideficiência implica em um conjunto de duas ou mais incapacidades ou diminuições de ordem física, psíquica ou sensorial (CONTRERAS, 1997). A multideficiência é mais do que a mera combinação ou associação de deficiências, constituindo um grupo muito heterogêneo entre si, apesar de apresentarem características específicas/ particulares (NUNES, 2001) Ao considerar a educação um pilar de sustentabilidade social, o governo de Portugal, no intuito de controle do surto pandêmico pela Covid-19, decide em 12 de março pelo encerramento (fechamento) de todos os estabelecimentos de ensino, decorrendo desta tomada de decisão e do seu impacto social, dispondo de apoio excepcional disponibilizado às famílias e aos trabalhadores. No proposto, aqueles trabalhadores que exerçam atividade por conta de outrem e que faltem ao trabalho por motivos de assistência aos filhos, ou outros menores a cargo, menores de 12 anos, aqui destacamos “com deficiência/doença crônica independente da idade”, auferem o correspondente a 2/3 da sua remuneração base (PORTUGAL, 2020). Em situações consideradas excepcionais, como é o da pandemia, observamos que os funcionamentos de uma sociedade se confrontam, por um lado, pela busca do equilíbrio econômico e estrutural de uma política, e por outro, pela necessidade de manutenção de novas aprendizagens frente aos padrões que passam a ser impostos aos comportamentos sociais, alterando por vezes, a normalidade vigente da sociedade atual capitalista em que vivemos (SANTOS, 2020). O Decreto-Lei nº 14-G (PORTUGAL, 2020) estabelece diversas diretrizes relativas às medidas excepcionais e temporárias na área de educação, com uma normatividade voltada à a educação em tempos de estado de emergência. Na norma consta, expressamente, a necessidade de assegurar a continuidade do ano letivo de 2019/2020, de uma forma justa, equitativa e de forma mais normalizada possível. Decorrente do fechamento das escolas, estima-se que, em Portugal, 2 milhões de estudantes ficaram em casa sem aulas presenciais, assegurando-lhes a continuidade dos estudos em abordagem multimídia. Todavia, a realidade heterogênea dos contextos sociais pelos quais tanto alunos quanto professores vivem, leva-nos, nesta investigação, a analisar descritivamente os impactos da pandemia para este público com necessidades educativas especiais. Assim, investigarmos se o sistema educacional dispõe e oferece medidas de apoio para o atendimento aos alunos, e se dispõem de algum Programa Educativo Individual (PEI) ou Plano Individual de Transição (PIT), a tabela 01 revela que todos os alunos são atendidos por alguma medida de apoio em atendimento ao que prevê a política pública educacional (Decreto-Lei n.º 54/2018). 141 Revista Humanidades e Inovação v.8, n.63 Tabela 1. O aluno tem medidas de suporte à aprendizagem ou um Programa Educativo Individual (PEI)? Medidas Seletivas Medidas adicionais Programa Educativo Individual (PEI) Plano Individual de Transição (PIT) total Surdocegos 5 1 4 4 1 Com multideficiência sem surdocegueira 11 1 10 11 0 Surdocegos com multideficiência 4 1 3 4 0 Fonte: Dados obtidos em questionário online com os participantes. Quando questionados quais exemplos de medidas de apoio que são oferecidos no atendimento aos alunos, 5 (cinco) professores responderam: Tabela 02. Que medidas de suporte à aprendizagem são oferecidas aos alunos? Que medidas de apoio são oferecidas aos alunos? Computador com câmera e conteúdos adequados As adaptações curriculares significativas com introdução de competências e aprendizagens substitutivas das previstas no quadro de documentos curriculares em vigor: APS (Comunicação, Motricidade, Autonomia, AVDs) e nas disciplinas de Educação Musical, educação Visual e TIC; Desenvolvimento de metodologias e estratégias de ensino estruturado na Unidade de Apoio à Multideficiência; Desenvolvimento de competências de autonomia pessoal e social, através da criação da área curricular Autonomia Pessoal e Social e da participação nas disciplinas de Educação Musical, Educação Visual e TIC em contexto de turma. Computador com PC Eye Go para efetuar aprendizagens, comunicar e trabalhos As adaptações curriculares não significativas; Apoio psicopedagógico; A antecipação e o reforço das aprendizagens; Apoio tutorial. APP, ACS, Apoio Psic. PEI, PIT. Fonte: Dados obtidos em questionário online com os participantes. O uso de medidas de suporte à aprendizagem mediado por tecnologias aparece como elemento importante no atendimento aos alunos, considerando, principalmente a modalidade não presencial que passa a ser instaurada na continuidade do período letivo para todos os alunos, invariavelmente às condições de deficiência. De forma a explorar as práticas comunicativas da população com surdocegueira e com multideficiência em Portugal, consideramos que a linguagem é o conhecimento que nos permite estruturar o pensamento e o nosso conhecimento de mundo (FREITAS, 2004), e pela qual 142 Revista Humanidades e Inovação v.8, n.63 nos expressamos através de uma língua, e, a privação ou o não desenvolvimento de linguagem implicam em questões interacionistas entre os indivíduos e com o mundo. Certamente, o uso de medidas de apoio no atendimento aos alunos com deficiência vem ao encontro da necessidade de que os modelos educacionais tradicionais sejam revistos em todo o sistema educativo, oportunizando enxergar o aluno a partir de duas demandas e de suas necessidades, que serão sempre individuais, independente da presença ou ausência de uma deficiência. Assim, rompe-se com o que Morán (2015, p. 16) considera como modelo de escola padronizada onde se “ensina e avalia a todos de forma igual e exige resultados previsíveis”, configurando uma postura que ignora a sociedade do conhecimento e suas interseções com as competências cognitivas, pessoais e sociais, que, para ele, são competências que só se adquire a partir da “proatividade, colaboração, personalização e visão empreendedora”. Para aqueles indivíduos que apresentam combinações de perda sensorial (visão e audição) e àqueles que apresentam mais de uma deficiência de ordem física/motora e de comprometimentos neurais e cognitivos, o desenvolvimento de linguagem e de comunicação torna-se de extrema importância para o seu desenvolvimento psicossocial, permitindo-os interagir com o mundo de formas distintas e com compatibilidade das suas competências. Assim, preocupamo-nos em identificar todas as formas de comunicação que são desenvolvidas pelos participantes-alvo deste estudo, considerando que as metodologias de atendimento educacional para este alunos dependerão das relações comunicativas desenvolvidas por eles, e, consequentemente da instrumentalização dos profissionais no contexto educacional, e, de igual modo, das interações comunicativas também desenvolvidas com os familiares destes alunos. Dentre as diversas formas de comunicação que as pessoas surdocegas podem desenvolver, e dos diversos mecanismos de interação que os as pessoas com multideficiências também são capazes de utilizar em contextos sociais, os alunos alcançados nesta pesquisa demonstraram saber usar: Tabela 3. Quais as formas de comunicação que o aluno sabe utilizar? TOTAL Língua Portuguesa escrita Escrita Braille Braille Tátil Língua Portuguesa Oral Língua Gestual Portuguesa Língua Gestual Portuguesa Tátil Alfabeto Manual Tátil Tadoma Outra Surdocegos 5 0 1 0 1 2 2 2 1 1 Com multideficiência sem surdocegueira 11 5 1 0 2 1 0 1 0 4 Surdocegos com multideficiência 4 0 0 0 1 2 1 1 1 1 Fonte: Dados obtidos em questionário online com os participantes. Observou-se que, entre os indivíduos com surdocegueira, houve uma predominância de 40% para aqueles que sabem utilizar a Língua Gestual Portuguesa (LGP), 40% para aqueles sabem utilizar a Língua Gestual Portuguesa Tátil (LGP Tátil) e 40% para aqueles que sabem utilizar o Alfabeto Manual Tátil. A segunda predominância quanto as formas de comunicação está para 20% daqueles que sabe utilizar a Escrita Braille, 20% daqueles que conseguem se comunicar por Língua Portuguesa Oral e 20% que utilizam a método Tadoma de comunicação. Aqueles alunos que apresentam multideficiência, sem estar acompanhada da surdocegueira, apresentam uma prevalência de 45,5% para o uso de Língua Portuguesa escrita e de 143 Revista Humanidades e Inovação v.8, n.63 18,2 % para a Língua Portuguesa oral, dado este que revela uma relação direta entre a surdocegueira e o desenvolvimento de formas de comunicação ligadas muito mais à modalidade espacial e motora da LGP em comparado à modalidade oral-auditiva da Língua Portuguesa. Ao questionados sobre quais formas de comunicação são utilizadas com estes alunos em sala de aula em interação com os professores e com os demais servidores no atendimento educacional, os dados revelam que: Tabela 4. Quais as formas de comunicação o aluno utiliza na sala de aula? TOTAL Língua Portuguesa escrita Escrita Braille Braille Tátil Língua Portuguesa Oral Língua Gestual Portuguesa Língua Gestual Portuguesa Tátil Alfabeto Manual Tátil Tadoma Outra Surdocegos 5 0 1 0 1 2 1 3 0 1 Com multideficiência sem surdocegueira 11 5 0 1 2 0 0 1 0 2 Surdocegos com multideficiência 4 0 0 0 1 2 0 2 0 1 Fonte: Dados obtidos em questionário online com os participantes. Quando observadas as formas de comunicação em que os alunos sabem utilizar e quais, de fato, são utilizadas junto aos professores, os dados descrevem que nem sempre os alunos são atendidos por todas as formas expressivas de linguagem em que eles dominam, o que pode revelar a necessidade de instrumentalização profissional quanto à comunicação específica dos alunos com surdocegueira / com multideficiência, principalmente com relação ao uso da LGP e LGP tátil, consideradas as principais formas de comunicação utilizadas pelos alunos. Em contrapartida, observou-se uma prevalência quanto à manutenção das formas de comunicação diretamente ligadas ao uso da Língua Portuguesa em suas modalidades escrita e oral, muitas vezes não dominada, principalmente pelos alunos surdocegos. Aqueles docentes que informaram utilizar outras formas de comunicação com seus alunos, em sua totalidade informam utilizar o computador como mediador da comunicação através do GRID-3, que é um software adequado para uso de pessoas com especificidades neuromotoras, cognitivas ou da fala, necessitando do uso de acessórios adaptados à especificidade da condição de cada utilizador, sendo também possível ser utilizado em qualquer equipamento com o sistema operativo Windows RT. Assim, aqueles alunos com multideficiência, e que em sua maioria apresentam comprometimentos motores e neurais mais severos, beneficiam-se desta tecnologia assistiva. Outra questão que se tornou pertinente a esta análise descritiva, é a de investigar quais formas de comunicação são utilizadas por estes alunos em casa com seus familiares, principalmente quando levadas em consideração as condições de aulas realizadas fora da escola, e tendo a família como principal apoio para o desenvolvimento das atividades realizadas com a mediação das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs). A tabela 5 revela que; 144 Revista Humanidades e Inovação v.8, n.63 Tabela 5. Quais as formas de comunicação o aluno utiliza com a família? TOTAL Língua Portuguesa escrita Escrita Braille Braille Tátil Língua Portuguesa Oral Língua Gestual Portuguesa Língua Gestual Portuguesa Tátil Alfabeto Manual Tátil Tadoma Outra Surdocegos 5 0 0 0 1 2 1 2 0 0 Com multideficiência sem surdocegueira 11 5 0 1 3 1 0 1 0 1 Surdocegos com multideficiência 4 0 0 0 1 1 0 1 0 1 Fonte: Dados obtidos em questionário online com os participantes. A par das dificuldades inerentes ao isolamento, num contexto familiar onde o teletrabalho oferecido aos estudantes concorre entre a necessidade de apoio pedagógico agora realizado pelos familiares e cuidadores, e em consequência, as problemáticas socioeconômicas coexistentes em todo contexto família, a comunicação realizada entre os indivíduos em torno de qualquer deficiência, torna-se primordial para o sucesso e insucesso da uma educação ofertada não presencialmente. Ao tornar a família principal agente de apoio pedagógico nesta modalidade de ensino, independem das condições sensoriais, motoras e neurais dos estudantes, a grande problemática se potencializa quando as formas de comunicação utilizadas pelos alunos não são, em sua maioria, as mesmas conhecidas e utilizadas pelos seus familiares. Com isso, os dados coletados expressam a realidade de esforço dos familiares por parte dos surdocegos, quando a LGP, LGP tátil e Alfabeto Manual Tátil, são as principais formas de comunicação em que os alunos pesquisados utilizam em ambiente familiar, tendo a Língua Portuguesa escrita e oral ocupado a prevalência do uso dos alunos com multideficiência sem surdocegueira ao vivenciarem as relações comunicativas com seus pais. Sobretudo, este fator ainda não implica no sucesso do desenvolvimento educacional mediada por tecnologias, uma vez que as condições disponíveis aos pais para atuarem no apoio pedagógico em contexto familiar têm sido marcadas por inúmeras questões que tangem á presença/ausência do profissional da educação e sua equipe multidisciplinar ao acompanhamento pedagógico destes alunos. O impacto da pandemia – problematizando a questão Ao considerarmos o prolongado distanciamento social causado pela multiplicação dos casos e incertezas diárias que levaram ao fechamento das escolas a milhares de crianças e jovens sujeitados à necessária suspensão das aulas presenciais para impedir à propagação do novo Coronavírus, a necessidade de reflexão contínua sobre meios para assegurar o direito à educação de qualidade aos membros da comunidade escolar tornou-se ponto crucial das políticas de atendimento educacional. É necessário considerar que ao se tratar de educação estamos falando de uma área na qual os profissionais e os beneficiários precisam ser considerados para a tomada de decisões, sendo o respeito à diversidade princípio basilar, o que leva a necessidade de atentar para o impacto da interrupção prolongada dos estudos. A partir das mudanças trazidas pela realidade da pandemia, viu-se a necessidade de 151 Revista Humanidades e Inovação v.8, n.63 Robertson, J. & Emerson, E. Estimating the Number of People with Co‐Occurring Vision and Hearing Impairments in the UK. Lancaster: Centre for Disability Research, Lancaster University, 2010. SANTOS, Boaventura de Souza. A cruel pedagogia do vírus. Coimbra: Edições Almeida, S.A, 2020. UNESCO. COVID‐19 impact on education. Disponível em: https://en.unesco. org/covid19/educationresponse. Acesso em: 17 set. 2020. Recebido em: 29 de setembro de 2020. Aceito em: 14 de outubro de 2021.