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Práticas informadas pelo trauma e qualidade de vida profissional no Sistema Judicial Português

Silva, Grazielly Fernandes da

Abstract

As Práticas Informadas pelo Trauma surgem como uma abordagem fundamental na promoção do bem estar de todos que interagem ou que fazem parte do sistema judicial. O presente estudo teve como objetivo realizar um diagnóstico destas competências nos profissionais do sistema judicial português e avaliar a qualidade de vida dos mesmos. A amostra foi constituída por 249 profissionais, dos quais órgãos de polícia criminal, magistrados, procuradores, auditores de justiça, funcionários judiciais e advogados. De uma forma geral, o conhecimento sobre estas práticas foi insuficiente, tendo os profissionais com acesso a supervisão se autoavaliado mais positivamente. Os homens apresentaram um maior conhecimento do que as mulheres e quanto maior era o tempo se serviço, pior a avaliação efetuada pelos profissionais. Os participantes apresentaram valores moderados de fadiga por compaixão e de satisfação por compaixão. O contacto com o crime contra a autodeterminação sexual aumentou a satisfação por compaixão, enquanto a violência doméstica e a ofensa a integridade física aumentaram o burnout. Por fim, os profissionais apresentaram níveis de resiliência protetores face ao contexto e ao conteúdo traumático ao qual são expostos diariamente.

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Universidade do Minho Escola de Psicologia Grazielly Fernandes da Silva Práticas Informadas Pelo Trauma e Qualidade de Vida Profissional no Sistema Judicial Português junho de 2022 Práticas Informadas Pelo Trauma e Qualidade de Vida Profissional no Sistema Judicial Português Grazielly Silva UMinho | 2022 Universidade do Minho Escola de Psicologia Grazielly Fernandes da Silva Práticas Informadas Pelo Trauma e Qualidade de Vida Profissional no Sistema Judicial Português Dissertação de Mestrado Mestrado Integrado em Psicologia Trabalho efetuado sob a orientação da Doutora Mariana Gonçalves e Professora Doutora Marlene Matos junho de 2022 ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ iii Agradecimentos Deixo neste espaço os meus mais sinceros agradecimentos a todos que me acompanharam neste percurso e que me ajudaram a concluir esta etapa tão importante. Primeiramente, à Doutora Mariana Gonçalves por todo o apoio, disponibilidade, orientação e partilha de conhecimento. À Professora Doutora Marlene Matos pelo incentivo e pelas reflexões críticas fomentadas. Às colegas do grupo de investigação pelas críticas construtivas e pelos contributos prestados. Aos meus pais, Karina e Paulo, por acreditarem em mim e por todo o esforço que fizeram para que eu pudesse chegar até aqui. À minha irmã, Beatriz, pelos abraços apertados e por ser uma grande fonte de felicidade. À minha prima Karen, por todos os momentos partilhados e por sempre ter sido um exemplo de quem eu gostaria de me tornar. Aos meus amigos, pelas partilhas, pelo encorajamento, por todos os desabafos e sobretudo pelo riso. Em especial, à Mariana e ao André, por nunca me deixarem desistir, sem vocês não conseguiria ter chegado até aqui. À família Costa e Pinto, por serem a minha segunda casa. Ao Alberto por ter estado comigo nos bons e nos maus momentos, pela paciência e incentivo incondicional e por ter orgulho no meu crescimento. Por fim, às instituições que aceitaram participar neste estudo e aos profissionais que fizeram parte do mesmo, sem o vosso contributo esta tese não teria sido possível. iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. Universidade do Minho, 6 de junho de 2022 (Grazielly Fernandes da Silva) v Práticas Informadas Pelo Trauma e Qualidade de Vida Profissional no Sistema Judicial Português Resumo As Práticas Informadas pelo Trauma surgem como uma abordagem fundamental na promoção do bemestar de todos que interagem ou que fazem parte do sistema judicial. O presente estudo teve como objetivo realizar um diagnóstico destas competências nos profissionais do sistema judicial português e avaliar a qualidade de vida dos mesmos. A amostra foi constituída por 249 profissionais, dos quais órgãos de polícia criminal, magistrados, procuradores, auditores de justiça, funcionários judiciais e advogados. De uma forma geral, o conhecimento sobre estas práticas foi insuficiente, tendo os profissionais com acesso a supervisão se autoavaliado mais positivamente. Os homens apresentaram um maior conhecimento do que as mulheres e quanto maior era o tempo se serviço, pior a avaliação efetuada pelos profissionais. Os participantes apresentaram valores moderados de fadiga por compaixão e de satisfação por compaixão. O contacto com o crime contra a autodeterminação sexual aumentou a satisfação por compaixão, enquanto a violência doméstica e a ofensa a integridade física aumentaram o burnout . Por fim, os profissionais apresentaram níveis de resiliência protetores face ao contexto e ao conteúdo traumático ao qual são expostos diariamente. Palavras-chave: práticas informadas pelo trauma; qualidade de vida profissional; sistema de justiça vi Trauma Informed Care and Professional Quality of Life in Portuguese Court System Abstract Trauma Informed Care emerge as a fundamental approach in promoting the well-being of all who interact with or are part of the judicial system. The present study´s objective was performing a diagnosis of these skills in the Portuguese judicial system professionals and assessing their quality of life. The sample was composed of 249 professionals, including criminal police officers, magistrates, prosecutors, auditors, court clerks and lawyers. In general, knowledge about these practices was insufficient, and professionals with access to supervision rated themselves more positively. Men presented a higher level of knowledge than women, and the longer the time in service, the worse the evaluation made by the professionals. Participants showed moderate values of compassion fatigue and compassion satisfaction. Contact with sexual crimes increased compassion satisfaction, while domestic violence and physical assault increased burnout. Finally, these professionals showed levels of resilience protective of the context and traumatic content to which they are exposed daily. Keywords: justice system; quality of professional life; trauma informed care vii Índice Resumo .............................................................................................................................................. v Abstract .............................................................................................................................................. vi Práticas Informadas Pelo Trauma e Qualidade de Vida Profissional no Sistema Judicial Português ....... 8 Método ............................................................................................................................................. 14 Participantes ................................................................................................................................ 14 Instrumentos ................................................................................................................................ 16 Procedimentos ............................................................................................................................. 18 Análise dos Dados ........................................................................................................................ 19 Resultados ........................................................................................................................................ 19 Conhecimentos Sobre as PIT ........................................................................................................ 19 Qualidade de Vida Profissional ...................................................................................................... 20 Resiliência .................................................................................................................................... 20 Diferenças Entre os Sexos ............................................................................................................. 20 Idade e Tempo de Serviço ............................................................................................................. 21 Categoria Profissional ................................................................................................................... 21 Contacto com Vítimas ................................................................................................................... 21 Acesso a Supervisão ..................................................................................................................... 22 Conhecimento Sobre as PIT e Qualidade de Vida Profissional ........................................................ 22 Qualidade de Vida Profissional e Resiliência .................................................................................. 22 Discussão ......................................................................................................................................... 23 Referências ....................................................................................................................................... 28 Anexos ............................................................................................................................................. 32 Índice de Tabelas Tabela 1. Caracterização Sociodemográfica dos Participantes ............................................................ 14 Tabela 2. Valores de Consistência Interna ......................................................................................... 17 Tabela 3. Níveis Percebidos de Práticas Informadas pelo Trauma ...................................................... 19 Tabela 4. Níveis de Qualidade de Vida Profissional ............................................................................ 20 Tabela 5. Adoção de Recursos Protetores .......................................................................................... 20 Práticas Informadas Pelo Trauma e Qualidade de Vida Profissional no Sistema Judicial Português 14 (H4): Maior nível de PIT está relacionado com menor stress traumático secundário, menor burnout e maior satisfação por compaixão; (H5): Maiores níveis de resiliência estão associados a menores valores de burnout e de stress traumático secundário. Método Participantes A amostra foi recolhida através do método de amostragem não probabilística por conveniência e foi constituída por 249 profissionais do sistema de justiça. Os participantes eram maioritariamente do sexo masculino (68.5%), com idade média de 41.01 anos ( DP = 9.19), variável entre os 23 e os 68. Trabalhavam em média há 10.77 anos ( DP = 8.28), variável entre o 1 e os 44. Na tabela 1, encontra-se uma descrição detalhada dos participantes. Tabela 1. Caracterização Sociodemográfica dos Participantes Caracterização da amostra n % Sexo Masculino 170 68.5 Feminino 78 31.5 Nacionalidade Portuguesa 248 99.6 Outro 1 0.4 Estado Civil Casado/a ou União de Facto 170 68.3 Solteiro/a 57 22.9 Divorciado/a ou Separado/a 20 8 Viúvo/a 2 0.8 Nível Socioeconómico Médio 140 56.5 Médio/Baixo 54 21.8 Médio/Alto 51 20.6 Alto 3 1.2 Práticas Informadas Pelo Trauma e Qualidade de Vida Profissional no Sistema Judicial Português 15 Habilitações Literárias Ensino Secundário 101 40.6 Licenciatura 76 30.5 Mestrado 62 24.9 3º Ciclo ou Inferior 7 2.8 Doutoramento 2 0.8 Outros 1 0.4 Profissão OPC 148 59.4 Procurador da República 58 23.3 Auditor de Justiça 28 11.2 Magistrado Judicial 6 2.4 Funcionário do tribunal 4 1.6 Advogado 3 1.2 Outro 2 0.8 Situação Profissional Em exercício profissional 219 88 Em formação 31 12.4 Reformado 1 0.4 Região Norte 66 32.8 Lisboa 66 32.8 Centro 35 17.4 Alentejo 15 7.5 Algarve 14 7 Região Autónoma da Madeira 3 1.5 Região Autónoma dos Açores 2 1 Zona Ambas 110 54.7 Urbana 79 39.3 Rural 12 6 Práticas Informadas Pelo Trauma e Qualidade de Vida Profissional no Sistema Judicial Português 16 Instrumentos De modo a responder aos objetivos do estudo, foi utilizado um questionário sociodemográfico e três questionários de autorrelato. O questionário sociodemográfico era constituído por 15 perguntas de resposta aberta e fechada, que pretendiam recolher informação sociodemográfica (ex., sexo, idade, nacionalidade, estado civil, nível socioeconómico e habilitações literárias) e profissional (ex., profissão, situação profissional atual, contacto com vítimas, tipologia dos crimes contactados, cargo atual, tempo de serviço, acesso a supervisão, região e zona do país em que exerce a atividade profissional) dos participantes. O Ticometer (Center for Social Innovation, 2016) avalia o nível de conhecimento das organizações e dos profissionais sobre as PIT, através de uma escala Likert variável entre um (Discordo totalmente) e quatro (Concordo totalmente), onde os participantes são convidados a se posicionar de modo a indicar se as práticas da organização estão em concordância com a afirmação apresentada. É constituído por 35 itens e encontra-se organizado em cinco domínios: construção de conhecimentos e competências informadas pelo trauma (cinco itens), estabelecimento de relações de confiança (oito itens), respeito pelos utilizadores do serviço (seis itens), adoção das práticas informadas pelo trauma (dez itens) e promoção de procedimentos e políticas informadas pelo trauma (seis itens). Os resultados podem ser interpretados através de uma análise às pontuações obtidas dentro de cada domínio, esta interpretação permite uma visão privilegiada das necessidades específicas que a organização apresenta e oferece valores de consistência interna mais elevados. Cada domínio contém uma pontuação total possível, traduzida em formato de intervalo. O intervalo de valores mais baixos indica que o conhecimento é insuficiente, o intervalo seguinte traduz-se num nível de conhecimento suficiente, mas que requer melhorias, o intervalo que o segue situa o conhecimento como bom e por fim o intervalo de valores mais elevados avalia o conhecimento como excelente. O primeiro domínio, por exemplo, permite a obtenção de 20 pontos, onde os valores situados entre 1 e 13 indicam um nível de conhecimento insuficiente, entre 14 e 15 um nível suficiente, mas que necessita de melhorias, enquanto pontuações entre 16 – 17 e 18 – 20 são indicadores de um nível de conhecimento bom e excelente, respetivamente. O segundo domínio permite um total de 32 pontos, sendo as pontuações situadas entre 1 – 23, 24 – 26, 27 – 29 e 30 – 32. O terceiro e o quinto domínio apresentam um total de 24 pontos, distribuídos da seguinte forma: 1 – 15, 16 – 18, 18 – 20 e 21 – 24. O quarto domínio permite uma pontuação total de 40 pontos e apresenta a seguinte sequência de valores possível: 1 – 29, 30 – 33, 34 – 37 e 38 – 40. Os autores salientam a existência de uma segunda análise na qual é efetuado o somatório de todos os scores obtidos ao longo dos cinco domínios e posteriormente a divisão por 35. A interpretação é efetuada da mesma Práticas Informadas Pelo Trauma e Qualidade de Vida Profissional no Sistema Judicial Português 17 maneira, o que varia é o intervalo de valores: 2.5 ou menos, 2.51 – 3, 3.01 – 3.5 e 3.51 – 4. Esta forma de interpretação é mais indicada para as situações em que o instrumento é aplicado em múltiplos momentos, de forma a avaliar as melhorias encontradas ao longo do tempo. Na tabela 2 é possível verificar os valores de consistência interna obtidos pelos autores e pelo presente estudo. Tabela 2. Valores de Consistência Interna Domínios Alfa original Alfa para a presente amostra Construção de conhecimentos e práticas 0.85 0.92 Estabelecimento de relações de confiança 0.82 0.93 Respeito pelos utilizadores do serviço 0.73 0.87 Adoção das práticas informadas pelo trauma 0.86 0.95 Promoção de procedimentos e políticas 0.77 0.93 A Escala de Qualidade de Vida Profissional (ProQOL 5; Stamm, 2009 adaptado por Carvalho, 2012) avalia os aspetos positivos e negativos que resultam do trabalho no contexto de ajuda, nomeadamente a satisfação por compaixão e a fadiga por compaixão. A fadiga por compaixão decompõese na escala de burnout e de stress traumático secundário. Enquanto a primeira escala se centra em aspetos como exaustão, frustração, raiva e depressão, a segunda prende-se aos sentimentos negativos derivados do medo e da exposição secundária a indivíduos que experienciaram eventos traumáticos ou muito stressantes. Por fim, a satisfação por compaixão relaciona-se com o prazer obtido pelo profissional em realizar o seu trabalho de forma eficaz. É constituído por 30 itens, sendo que cada dimensão é composta por dez itens. É requisitado aos profissionais que se posicionem acerca da frequência com que foram confrontados com os sentimentos ou situações apresentadas nos últimos trinta dias, dentro de uma escala Likert variável entre um (Nunca) e cinco (Muito frequentemente). A interpretação dos resultados é efetuada através de uma análise aos scores obtidos dentro de cada domínio. Para o efeito é necessário efetuar o somatório dos itens que dizem respeito a cada domínio e posteriormente comparar esta pontuação com os intervalos de valores, onde valores situados em 22 ou menos significam nível baixo, entre 23 e 41 indicam um nível moderado e entre 42 ou mais um nível elevado. A consistência interna obtida na validação portuguesa (Carvalho, 2011) foi de a = 0.90 e no presente estudo foi de a = 0.68. Práticas Informadas Pelo Trauma e Qualidade de Vida Profissional no Sistema Judicial Português 18 A Escala de Resiliência para Adultos (ERA; Friborg et al., 2005 adaptada por Pereira et al., 2016) avalia os recursos protetores que promovem a resiliência através de seis subescalas: Perceção do Self (seis itens) que diz respeito à autoconfiança do sujeito nas capacidades e julgamentos, bem como autoeficácia e expetativas realistas; Planeamento do Futuro (quatro itens) analisa a capacidade de planeamento, a visão otimista e a orientação para objetivos claros e alcançáveis; Competências Sociais (seis itens) averigua a capacidade do sujeito em criar novas amizades e a utilização positiva do humor; Estilo Estruturado (quatro itens) avalia a capacidade em ter e seguir rotinas, a gestão do tempo e a preferência por objetivos claros em relação à realização de tarefas; Coesão Familiar (seis itens) avalia os valores partilhados/discordantes na família e a apreciação em passar tempo com a mesma; Recursos Sociais (sete itens) analisa a presença de apoio social a nível dos pares. O instrumento conta com um total de 33 itens e as respostas estão organizadas através de um diferencial semântico variável entre um e sete. Os autores indicam duas possibilidades de cotação dos resultados, através da média dos resultados obtidos por cada um dos fatores e média total ou através do somatório de todos os itens. No último caso os valores podem variar entre 33 e 231. Os resultados devem ser interpretados a ter em consideração que quanto maior for a pontuação obtida pelo indivíduo, maior é a sua resiliência. O alfa de Cronbach obtido por Pereira et al. (2016) foi de 0.90 e no presente estudo foi de 0.94. Procedimentos O estudo foi submetido à Comissão de Ética para a investigação em Ciência Sociais e Humanas da Universidade do Minho, da qual obteve aprovação (processo 097/2021). Posteriormente, foi efetuado um pedido de autorização e divulgação, por correio eletrónico, aos representantes das seguintes entidades: Guarda Nacional Republicana, Polícia de Segurança Pública, Polícia Judiciária, Conselho Superior de Magistratura, Procuradoria Geral da República, Ordem dos Advogados, Centro de Estudos Judiciários e Conselho dos Oficiais de Justiça. Aquando do pedido foram expostos os objetivos da investigação, anexado o parecer da Comissão de Ética e o inventário em formato PDF. Foi ainda disponibilizado o link de acesso ao questionário que se encontrava na plataforma Qualtrics e onde era possível visualizar o consentimento informado. Este apresentava os objetivos do estudo, esclarecia que a participação era voluntária e assegurava a utilização dos dados para fins académicos, bem como o anonimato e a confidencialidade dos dados. A recolha decorreu entre o dia 25 de novembro de 2021 e 25 de fevereiro de 2022. Das referidas instituições, apenas não se obteve aprovação por parte do diretor do Departamento de Formação da PSP e do Bastonário da Ordem dos Advogados. Práticas Informadas Pelo Trauma e Qualidade de Vida Profissional no Sistema Judicial Português 19 Análise dos Dados Os dados foram analisados através do software Statistical Package for the Social Sciences (IBM SPSS; versão 25.0 para macOS). Realizou-se uma análise descritiva com o intuito de efetuar a caracterização da amostra e analisar as pontuações médias obtidas pelos participantes nos diferentes domínios dos instrumentos utilizados. Procedeu-se à análise de comparação de médias através dos testes não paramétricos (ex., teste de MannWhitney e KruskalWallis) e paramétricos (ex., testes t e ANOVA unidirecional) com o objetivo de identificar as variáveis associadas ao nível de conhecimento sobre as PIT, a qualidade de vida profissional e a resiliência. Dado que os pressupostos subjacentes à utilização dos testes paramétricos não se verificaram e uma vez que os resultados encontrados entre os testes diferiram entre si, optou-se por utilizar as análises obtidas pelos testes não paramétricos. Por fim, efetuaram-se correlações de Spearman a fim de averiguar a existência de relações entre as variáveis estudadas. Resultados Conhecimentos Sobre as PIT De um modo geral, a avaliação realizada pelos profissionais sobre o conhecimento que apresentam sobre as PIT e a sua adoção nas instituições situou-os num nível insuficiente, tendo sido obtido o valor médio de 2.3 ( DP = 0.6). As pontuações obtidas por domínio evidenciaram que os profissionais pontuaram num nível insuficiente em todas as dimensões avaliadas. Ao nível da construção de conhecimentos e práticas o valor médio foi de 10.5 ( DP = 3.5), no estabelecimento das relações de confiança foi de 18.1 ( DP = 5.4), no respeito pelos utilizadores do serviço foi de 14.2 ( DP = 3.7), na adoção das PIT foi 23.0 ( DP = 6.6) e na promoção de procedimentos e políticas foi de 12.9 ( DP = 4.2) (Tabela 3). Tabela 3. Níveis Percebidos de Práticas Informadas Pelo Trauma Domínios n M DP Min-Max Construção de conhecimentos e práticas 85 10.5 3.5 5 – 18 Estabelecimento de relações de confiança 81 18.1 5.4 8 – 31 Respeito pelos utilizadores do serviço 81 14.2 3.7 6 – 24 Adoção das práticas informadas pelo trauma 79 23 6.6 10 – 40 Promoção de procedimentos e políticas 82 12.9 4.2 6 – 24 Práticas Informadas Pelo Trauma e Qualidade de Vida Profissional no Sistema Judicial Português 20 Qualidade de Vida Profissional Os profissionais apresentaram valores médios situados no nível moderado em todos os domínios. Pontuaram mais alto na satisfação por compaixão ( M = 37.4 e DP = 6.4), seguido pelo burnout ( M = 24.7 e DP = 5.8) e, por fim, pelo stress traumático secundário ( M = 24.6 e DP = 6.1) (Tabela 4). Tabela 4. Níveis de Qualidade de Vida Profissional Domínios n M DP Min-Max Satisfação por compaixão 77 37.4 6.4 21 - 50 Burnout 77 24.7 5.8 10 - 39 Stress traumático secundário 77 24.6 6.1 13 - 40 Resiliência Os participantes avaliaram-se positivamente em relação a adoção de recursos protetores que promovem a resiliência. O valor médio mais elevado foi obtido na dimensão recursos sociais ( M = 5.9 e DP = 1), seguido pela coesão familiar ( M = 5.7 e DP = 0.9), perceção do self ( M = 5.5 e DP = 1.1), perceção do futuro ( M = 5.3 e DP = 1.2), competências sociais ( M = 5.3 e DP = 1.3) e estilo estruturado ( M = 5.1 e DP = 1) (Tabela 5). Tabela 5. Adoção de Recursos Protetores Domínios n M DP Min-Max Recursos socias 73 5.9 1 2.9 – 7 Coesão familiar 73 5.7 0.9 3.2 – 7 Perceção do self 73 5.5 1.1 2.7 – 7 Perceção do futuro 73 5.3 1.2 2.3 – 7 Competências sociais 73 5.3 1.3 1 – 7 Estilo estruturado 73 5.1 1 2.8 – 7 Diferenças Entre os Sexos Através do teste de Mann-Whitney verificou-se a existência de diferenças estatisticamente significativas em função do sexo a nível do estabelecimento de relações de confiança, U = 464.5, p = Práticas Informadas Pelo Trauma e Qualidade de Vida Profissional no Sistema Judicial Português 21 .049 e a nível do respeito pelos utilizadores do serviço, U = 404.5, p = .014. A mediana dos valores obtidos pelos homens foi superior à das mulheres. Idade e Tempo de Serviço Não se verificou qualquer associação estatisticamente significativa entre a idade dos participantes e os domínios avaliados. Por outro lado, encontrou-se uma correlação estatisticamente significativa e negativa rs = -.260, p < 0.05 entre o tempo de serviço e a adoção das PIT, isto é, os profissionais que exerciam o cargo há mais anos, obtiveram menor pontuação. Por fim, o tempo de serviço estava correlacionado negativamente rs = -.258 e p < 0.05 com a promoção de políticas e procedimentos. Categoria Profissional De modo a averiguar a existência de diferenças estatisticamente significativas entre as diferentes categoriais profissionais e os resultados obtidos nos diferentes domínios, foi necessário efetuar uma recodificação da variável categoria profissional. Uma vez que profissionais como auditores de justiça ( n = 28), magistrados ( n = 6), funcionários judiciais ( n = 4), agentes de segurança pública ( n = 3), advogados ( n = 3) e inspetores da polícia judiciária ( n = 1) apresentavam uma diminuta expressão na amostra, efetuou-se a recodificação de modo a existir uma categoria denominada por juízes, OPC e outros. Os procuradores da república e os magistrados foram agrupados na categoria juízes, enquanto os guardas, os agentes e os inspetores foram agrupados na categoria OPC e os demais profissionais foram recolocados na categoria outros. Através do teste de Kruskal-Wallis verificou-se diferenças estatisticamente significativas, ao nível do respeito pelos utilizadores do serviço X 2 (2) = 7.284, p = .026. Com recurso a um teste post-hoc de Bonferroni ( p = .023) observou-se que a diferença residia entre os juízes e os outros, sendo a mediana dos últimos superior. Verificou-se ainda diferenças entre os juízes e os OPC, onde os juízes apresentaram uma mediana superior ao nível da coesão familiar, X2 (2) = 7.264, p = .026, post-hoc de Bonferroni com p = .031 e dos recursos sociais, X2 (2) = 12.925, p = .002 e post-hoc de Bonferroni com p = .004. Contacto com Vítimas A maioria dos profissionais (68.7%) contacta com vítimas no âmbito do exercício das suas funções. Foi questionado a estes profissionais quais eram os crimes contra as pessoas com os quais contactavam, tendo sido possível escolher mais do que uma opção. Verificou-se que o crime de ofensa à integridade física simples ou grave (45%) era o mais proeminente, seguido pelo crime de violência doméstica (43.4%), maus-tratos (38.3%), crimes contra a liberdade sexual (29.7%), crimes contra a Práticas Informadas Pelo Trauma e Qualidade de Vida Profissional no Sistema Judicial Português 22 autodeterminação sexual (26.1%), sequestro (19.7%), tráfico de pessoas (16.1%), rapto (14.1%), escravidão (11.6%) e outros (9.6%). Os profissionais que contactaram com vítimas apresentaram uma mediana superior ao nível do burnout quando comparados com os profissionais que não contactam com vítimas no exercício das suas funções ( U = 379.000 e p = .042). No que concerne ao tipo de crime, os profissionais que contactam com vítimas do crime de ofensa à integridade física simples ou grave apresentaram valores mais elevados no stress traumático secundário ( U = 481.000 e p = .016) e no burnout ( U = 506.500 e p = .032) quando comparados com os profissionais que não contactam com vítimas deste crime. Os profissionais que contactam com o crime de violência doméstica apresentaram uma mediana superior aos que não contactam, ao nível do burnout ( U = 535.000 e p = .049). Por fim, os profissionais que contactam com os crimes contra a autodeterminação sexual apresentaram uma mediana superior aos que não contactam na satisfação por compaixão ( U = 454.500 e p = .033). Acesso a Supervisão Em relação a supervisão, 78.6% dos profissionais reportaram ter acesso à mesma. Estes profissionais apresentaram valores superiores ao nível do estabelecimento de relações de confiança ( U = 267.000 e p = .024) e da promoção de procedimentos e políticas ( U = 276.000 e p = .027), quando comparados aos profissionais sem acesso a supervisão. Conhecimento Sobre as PIT e Qualidade de Vida Profissional O nível geral de conhecimento das PIT e a satisfação por compaixão estavam correlacionados positivamente, rs = .350 e p < 0.01. Por outras palavras, maiores níveis de conhecimento estavam associados a maiores níveis de satisfação por compaixão. Por outro lado, o nível de conhecimento apresentou-se negativamente correlacionado com os níveis de burnout, rs = -.314 e p < 0.01, isto é, maiores níveis de conhecimento estavam relacionados com menores pontuações ao nível do burnout . Qualidade de Vida Profissional e Resiliência Ao analisar a relação entre a qualidade de vida profissional e a média dos valores obtidos na resiliência, observou-se que a resiliência esteve positivamente correlacionada com a satisfação por compaixão rs = .591 e p < 0.01. Em contrapartida, a resiliência esteve negativamente correlacionada com o stress traumático secundário rs = -.455, p < 0.01 e com o burnout rs = -.616, p < 0.01. Práticas Informadas Pelo Trauma e Qualidade de Vida Profissional no Sistema Judicial Português 23 Discussão A presente investigação permitiu preencher algumas lacunas existentes na literatura nacional acerca do conhecimento que os profissionais do sistema judicial apresentam sobre as PIT, bem como aferir a qualidade de vida destes profissionais e analisar a existência de fatores protetores e de risco ao nível individual e organizacional. De forma geral, todos os domínios que analisam as PIT foram avaliados num nível insuficiente. Esta avaliação permite concluir que a nível individual os profissionais demonstram alguma dificuldade na adoção das PIT, isto é, no estabelecimento de relações de confiança e respeito, fundamentais para a promoção de resiliência e cura; na comunicação clara e transparente acerca do processo; na utilização de uma linguagem focada no sujeito; nas questões relacionadas com a diversidade e sensibilidade cultural; e no envolvimento da vítima de forma proativa no seu processo. Por outro lado, a nível organizacional percebe-se que as instituições não dispõem de uma política documentada que apoie o desenvolvimento de conhecimento sobre o trauma; não fornecem, não exigem e não incentivam formação a este nível; não fornecem supervisão direcionada à prevenção do stress traumático secundário; não têm em consideração o feedback dos utilizadores do serviço; não proporcionam locais fisicamente e emocionalmente seguros. Em suma, verifica-se que os profissionais apresentam dificuldade em aderir às práticas. No entanto, tendo em consideração que 40.6% da amostra tem apenas o ensino secundário, é expectável que não tenham conhecimento específico sobre esta temática. Aliado a isto está a falta de formação fornecida pelas instituições, o que implica que grande parte destes profissionais podem nem sequer ter acesso a este conhecimento. Atendendo ao estudo de Burge et al. (2021) que reportou os scores obtidos pelos profissionais numa fase pré e pós formação das PIT, percebe-se que os resultados obtidos no presente estudo são semelhantes ou inferiores aos valores obtidos pelos profissionais antes de receberem formação específica. Atendendo às diferenças encontradas entre os sexos, os homens apresentaram uma pontuação superior à das mulheres no estabelecimento de relações de confiança e ao nível do respeito pelos utilizadores do serviço. A autoavaliação efetuada pelos homens sugere que estes adotam interações que têm em conta as necessidades das vítimas, fornecem descrições que permitem a previsibilidade do que irá acontecer e têm em conta as questões culturais inerentes às vítimas. Para além disso, sugere que as instituições em que estes trabalham adotam um conjunto de estratégias com o intuito de promover um ambiente acolhedor e seguro para as vítimas. Estes resultados vão parcialmente de encontro com os resultados de Unick et al. (2019), onde os homens obtiveram maiores pontuações que as mulheres em 75% dos domínios que avaliavam as PIT. Práticas Informadas Pelo Trauma e Qualidade de Vida Profissional no Sistema Judicial Português 30 https://www.proquest.com/openview/5e734675c335c66b6533ce3b0c813305/1?pqorigsite=gscholar&cbl=44156 Flores, D. M., Miller, M. K., Chamberlain, J., Richardson, J. T., & Bornstein, B. H. (2009). Judges’ Perspectives on Stress and Safety in the Courtroom: An Exploratory Study. 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