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Contributo da Geografia para os estudos da paisagem em Portugal

Vieira, António

Abstract

[Excerto] O desenvolvimento dos estudos da paisagem em Portugal teve um significativo contributo da Geografia que, acompanhando os impulsos das escolas geográficas europeias que inicialmente influenciaram o desenvolvimento desta ciência, foram afirmando, desde o século XIX e inícios do século XX, a paisagem como seu objeto preferencial de pesquisa. Ainda que o interesse pelo seu estudo tenha “arrefecido” a partir de meados do século XX, a paisagem veio a ressurgir, novamente, nas últimas décadas desse século, não só como objeto de estudo da Geografia, mas também de outras ciências. […]

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1 Universidade de Brasília ICH - Instituto de Ciências Humanas Geografia da Paisagem Múltiplas Abordagens Organizadores: Valdir Adilson Steinke Charlei Aparecido da Silva Edson Soares Fialho Brasília - DF 2022 Conselho Editorial Membros internos: Prof. Dr. André Cabral Honor (HIS/UnB) - Presidente Prof. Dr. Herivelto Pereira de Souza (FIL/UnB) Profª Drª Maria Lucia Lopes da Silva (SER/UnB) Prof. Dr. Rafael Sânzio Araújo dos Anjos (GEA/UnB) Membros externos: Profª Drª Ângela Santana do Amaral (UFPE) Prof. Dr. Fernando Quiles García (Universidad Pablo de Olavide - Espanha); Profª Drª Ilía Alvarado-Sizzo (UniversidadAutonoma de México) Profª Drª Joana Maria Pedro (UFSC) Profª Drª Marine Pereira (UFABC) Profª Drª Paula Vidal Molina (Universidad de Chile) Prof. Dr. Peter Dews (University of Essex - Reino Unido) Prof. Dr. Ricardo Nogueira (UFAM) © 2022. Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International (CC BY-NC-ND 4.0) A responsabilidade pelos direitos autorais de textos e imagens dessa obra é dos autores. [1ª edição] Elaboração e informações Universidade de Brasília ICH - Instituto de Ciências Humanas Campus Universitário Darcy Ribeiro, ICC Norte, Mesanino Bloco 01qr Campus Universitário Darcy Ribeiro - Asa Norte, Brasilia DF CEP: 70297-400 Brasília - DF, Brasil E-mail: [email protected] Contato: (61) 3107-7364 Site: ich.unb.br Equipe técnica Parecerista: Marcelino de Andrade Gonçalves Editoração: Luiz H S Cella Revisão: Amabile Zavattini Capa: Maria Frizarin Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Central da Universidade de Brasília Bibliotecário XXXX - CRB X/XXXXX 11 SUMÁRIO PREFÁCIO ____________________________________________________ .15 A PAISAGEM NA GEOGRAFIA FÍSICA OU PAISAGEM E NATUREZA dirCe Maria antunes suertegaray__________________________________ .18 CONTRIBUTO DA GEOGRAFIA PARA OS ESTUDOS DA PAISAGEM EM PORTUGAL antónio Vieira__________________________________________________ .36 ECOLOGIA DA PAISAGEM E GEOGRAFIA Carlos hiroo saito_____________________________________________ .56 PAISAGENS ANTROPOCÊNICAS: Uma Proposta Taxonômica adriano seVero Figueiró_________________________________________ .80 DAS PAISAGENS ORIGINÁRIAS ÀS PAISAGENS ANTROPOGÊNICAS: As Unidade de Conservação da Natureza Como Testemunho de um Percurso Valdir adilson steinke gabriella eMilly pessoa sandra barbosa_______________________________________________ .107 12 PAISAGEM E PATRIMÔNIO NATURAL: Conexões Históricas e Conceituais JoMary MauríCia l. serra Valdir adilson steinke________________________________________ .131 TURISMO DE NATUREZA, ECOTURISMO, NATUREZA E PAISAGEM: Imbricativos Conceituais Charlei apareCido da silVa patríCia Cristina statella Martins______________________________ .158 A PAISAGEM DA CIDADE PELOS MAPAS MENTAIS: Possibilidades e Percursos na Construção de Uma Leitura Especial Crítica denis riChter igor de araúJo pinheiro______________________________________ .185 CARTOGRAFIA DE PAISAGENS: Fundamentos, Tendências e Reflexões luCas Costa de souza CaValCanti adalto Moreira braz Cristina silVa de oliVeira______________________________________ .207 ESTUDOS DE PAISAGEM E SISTEMA DE INFORMAÇÕES GEOGRÁFICAS: Para Além da Representação Cartográfica edilson de souza bias abiMael Cereda Junior rôMulo José da Costa ribeiro__________________________________ .233 ANÁLISE DA PAISAGEM POR MEIO DE SENSORIAMENTO REMOTO edson eyJi sano daniel Moraes de Freitas______________________________________ .262 13 EL PAISAJE Y LA GESTION DEL TERRITORIO eduardo salinas CháVez_____________________________________ .287 ESTUDOS DE PAISAGEM NA CONTEMPORANEIDADE: Da Paisagem ao Projeto de Planejamento e Gestão Territorial roberto VerduM luCile lopes bier luCiMar de FátiMa dos santos Vieira eber pires Marzulo_________________________________________ .315 PAISAGEM FLUVIAL E O GEOPATRIMÔNIO karen apareCida de oliVeira VeníCius JuVênCio de Miranda Mendes Valdir adilson steinke______________________________________ .340 íCones de paisageM: Um Conceito em Construção bruno de souza liMa_______________________________________ .357 GESTIÓN EDUCATIVA EN UN ANÁLISIS E INTERPRETACIÓN DE UN PAISAJE KÁRSTICO MEDITERRÁNEO alFonso garCía de la Vega__________________________________ .384 geossisteMa CárstiCo e geoeCologia da paisageM raFael brugnolli Medeiros___________________________________ .414 14 paisageM e Cobertura Vegetal: Da Generalização ás Especificidade da Caatinga dr. bartoloMeu israel de souza MsC. Joseilson raMos de Medeiros dr. rubens teixeira de Queiroz_______________________________ .439 nuVens, néVoas e neblinas: DESCORTINANDO PAISAGENS CLIMÁTICAS NA ZONA DA MATA MINEIRA edson soares Fialho_______________________________________ .460 SOBRE OS AUTORES_____________________________________ .496 36 CONTRIBUTO DA GEOGRAFIA PARA OS ESTUDOS DA PAISAGEM EM PORTUGAL António Vieira INTRODUÇÃO O desenvolvimento dos estudos da paisagem em Portugal teve um significativo contributo da Geografia que, acompanhando os impulsos das escolas geográficas europeias que inicialmente influenciaram o desenvolvimento desta ciência, foram afirmando, desde o século XIX e inícios do século XX, a paisagem como seu objeto preferencial de pesquisa. Ainda que o interesse pelo seu estudo tenha “arrefecido” a partir de meados do século XX, a paisagem veio a ressurgir, novamente, nas últimas décadas desse século, não só como objeto de estudo da Geografia, mas também de outras ciências. A este respeito, Medeiros (2001), introduzindo a tradução de um texto de Orlando Ribeiro dedicado à paisagem (Ribeiro, 1989), referia que “se pode afirmar que a paisagem está na moda, melhor dizendo, voltou a estar na moda” (pág. 27). Com efeito, e ainda que o seu estudo seja “tão antigo como a própria geografia”(idem, pág. 27), a conjuntura económica, social e mesmo científica que se seguiu à segunda guerra mundial conduziu a uma “decadência dos estudos sobre paisagens” (Salgueiro, 2001, pág. 43), marcando, também em Portugal, uma redução drástica da produção científica em torno desta temática, apenas retomado nas últimas décadas do século XX, talvez impulsionado pelo interesse crescente evidenciado por outras áreas do saber e pela própria sociedade em geral, em consequência da crescente consciencialização para com os problemas e discussões relacionadas com o ambiente, que se multiplicaram a partir dos anos 70. 43 2. OS CONTRIBUTOS PARA O ESTUDO DA PAISAGEM EM PORTUGAL, NUMA PERSPETIVA EMINENTEMENTE GEOGRÁFICA 2.1. ESTUDOS GEOGRÁFICOS PIONEIROS Os primeiros trabalhos geográficos apresentaram-se, muito por influência da escola regional francesa, como estudos regionais e incorporando uma grande abrangência de dimensões geográficas, que iam desde a caraterização do relevo, clima ou vegetação, até à dimensão mais social, integrando as componentes demográficas, atividades económicas e até mesmo etnográficas. Não é de estranhar, portanto, que estes estudos geográficos reunissem, frequentemente, informação suficiente para que se pudesse consubstanciar uma caraterização mais ou menos pormenorizada da paisagem das áreas em estudo (por vezes até extensivamente desenvolvida) permitindo uma clara definição das paisagens em análise e sua distinção quando em territórios mais abrangentes. Tratam-se de trabalhos de cariz eminentemente monográfico, onde as diversas dimensões geográficas eram tratadas, conferindo uma perspetiva mais abrangente da análise das caraterísticas dos territórios em estudo. São exemplos disso as primeiras dissertações de doutoramento em Geografia (ou em Ciências Geográficas) desenvolvidas em Portugal nas primeiras décadas do século XX, nomeadamente as elaboradas por Amorim Girão (1922), Virgílio Taborda (1932) e Orlando Ribeiro (1935). A primeira, debruçando-se sobre “A bacia do Vouga”, apresenta-nos uma caraterização física da área em estudo, abordando a “natureza dos terrenos”, o “relêvo do solo”, a “hidrografia e acidentes litorais”, o “clima”, seguindo-se-lhes as “associações vegetais e animais” e os aspetos humanos do território, nomeadamente os relacionados com a “população” e a “ocupação do solo”. Aspeto de destaque, à giza de “Conclusão”, a inclusão de uma identificação e caraterização daquilo que o autor designa de “regiões naturais”. A este propósito refere Amorim Girão que é “a região natural, somatório de todos os aspectos de superfície, «resultado», para nos servirmos da expressão de BRUNHES, da combinação dêsses mesmos aspectos”. Recorrendo às caraterísticas físicas e humanas presentes nos territórios estudados, faz uma identificação e caraterização das regiões naturais e sub-regiões da bacia do Vouga, traduzindo-se tal trabalho na caraterização das paisagens aí presentes naquele primeiro quartel do século XX. Mais 44 tarde viria a estender a metodologia, a uma escala mais abrangente, para identificar as regiões de Portugal continental. Também Virgílio Taborda promove uma caraterização física e humana do território de Trás-os-Montes, num trabalho igualmente de caraterísticas monográficas, definindo as linhas gerais que caraterizam as paisagens tipicamente transmontanas. Por seu lado, Orlando Ribeiro expõe, na sua dissertação sobre “A serra da Arrábida” (1935, 1986 reed.) os elementos marcantes e caraterísticos da sua paisagem, fazendo referência quer à “Arquitetura do solo”, aos “Fatores do relêvo” e “Formas do relêvo”, ao “Litoral” e ao “Clima e vegetação”, enquadrando os fatores físicos que caraterizam a Serra da Arrábida, quer a “Alguns aspetos da geografia humana”, onde considera os aspetos de ocupação do território, população e aspetos económicos e culturais. Conclui que “…a Arrábida é estremenha pela morfologia do solo e pelos aspectos da ocupação humana; pelo clima e pela vegetação difere muito das regiões mais próximas (…) – uma nesga mediterrânea entre terras e águas atlânticas.” (pág. 83). Contudo, mais marcante que a sua tese de doutoramento, no que ao tratamento do tema da paisagem diz respeito, foi sem dúvida o livro “Portugal, o Atlântico e o Mediterrâneo” que estabelece uma descrição das paisagens em Portugal continental, constituindo um marco na análise e descrição das paisagens de Portugal continental, fundamentada num conhecimento profundo do território, das suas gentes e das dinâmicas existentes ao tempo em que foi escrito. Sem dúvida, um documento geográfico fundamental e único para a caraterização das paisagens do nosso território. 2.2. Os exercícios de identificação de tipos de paisagens em Portugal Relativamente aos estudos da paisagem realizados em Portugal, ainda que não possamos dizer que a produção tenha sido muito profícua ou que tenha contribuído de forma significativa para a discussão dos conceitos e pressupostos teóricos que balizam a sua investigação, especialmente numa primeira fase e num contexto internacional, a realidade é que surgiram, ainda assim, alguns contributos importantes, além dos trabalhos pioneiros referidos anteriormente, para a compreensão das paisagens e sua organização no contexto do território continental português. Com efeito, os principais contributos realizados em Portugal para o estudo da paisagem direcionaram-se essencialmente para a caraterização da paisagem do território nacional e identificação das unidades de paisagem que o compõem. As divisões regionais propostas para o território nacional por diver- 45 sos autores, como Barros Gomes (1875), Amorim Girão (1930, 1933) ou Orlando Ribeiro (1945), traduzem já, de certa forma, as características do território, resultado das cambiantes físicas e humanas que caracterizam as diversas paisagens. É claro que estas propostas suscitaram, no seu tempo, alguma discussão, dada a falta de consenso inerente à própria subjetividade da análise, que está subjacente à metodologia e aos fatores utilizados e também devido à própria dinâmica da paisagem e dos seus elementos. No entanto, consideramos importante a análise destas divisões regionais que traduzem, no fundo, também divisões da paisagem, desenvolvidas por geógrafos ou investigadores de áreas científicas próximas, que acabaram por contribuir para a discussão em torno da problemática da paisagem em Portugal. Barros Gomes, ainda que silvicultor de formação, já no final do século XIX, propunha uma divisão de Portugal, na sua “Carta orográfica e regional” (incluída nas “Cartas elementares de Portugal para uso das escolas”, 1875), baseada em fatores essencialmente físicos/naturais: latitude, exposição e relevo. Esta carta identificava em Portugal doze regiões (Fig. 1), definindo dois eixos principais que estabeleciam segmentação entre o “norte do Tejo” e o “sul do Tejo” e entre o litoral e o interior. Referia B. Barros Gomes (1878) que “se basearmos uma divisão regional do paiz puramente n’estas condições de latitude, exposição e relevo, teremos um ponto de partida seguro para estudos sociaes de primeira ordem. Teremos achado as causas determinantes dos nossos climas locaes e com ellas as differenças principaes que entre elles se possam notar”. Ainda que claramente orientada por fatores exclusivamente naturais (seguindo, se quisermos, a linha naturalista de classificação das paisagens promovida por Humboldt), esta divisão regional de Portugal continental fazia transparecer claramente aspetos gerais de caraterização das paisagens da époFigura 1. Carta orográfica e regional de B. Barros Gomes (1878) 46 ca. Ainda que sem o rigor necessário para uma definição exata das regiões que reuniam caraterísticas similares e identitárias, cada uma incluía carateres claramente distintivos das demais “unidades de paisagem”. Amorim Girão (1933) viria a referir-se à Carta orográfica e regional, adjetivando-a de “a mais perfeita sem dúvida de tôdas as que possuímos”, apontando que representaria “para a época em que foi publicada um acentuado progresso no conhecimento das condições físicas e climatéricas do nosso território”, mas contrapondo que necessitava “sofrer algumas modificações, além de ser omissa quanto às divisões menores” (pág. XIV). É, efetivamente, já no século XX que Amorim Girão retoma esta problemática e define uma divisão do território nacional na “Carta Regional de Portugal” (1930; 1933), tendo a preocupação de introduzir fatores de natureza socio-económica (que estariam na base de algumas críticas), apresentando treze regiões. Apesar do objetivo de divisão regional do território nacional, a perceção quer de Amorim Girão quer de Barros Gomes é guiada pela ideia de homogeneidade dos elementos que constituem as diferentes regiões e, consequentemente, caraterizam as paisagens que lhe são inerentes (e que as caraterizam). Na proposta que apresenta (Fig. 2), Amorim Girão (1933) afirma que o que apresenta é “um esboço de carta regional em que todos os elementos e factores que se inscrevem sôbre a superfície do solo foram tomados em consideração, desde a constituição geológica dos terrenos e suas feições geográficas do relevo, clima, hidrografia e associações vegetais – caracteres chamados naturais – até ao revestimento humano nas formas sempre tão contingentes da sua adaptação ao meio, e nas diversas manifestações da sua actividade modificadora – caracteres estes tão naturais como aqueles” (pág. XVIII). Neste contexto o autor reforça a importância do conceito de região geográfica, sinónimo de “tôda a fracção territorial em que o homem intervém como Figura 2. Carta regional de Amorim Girão (1933) 47 elemento integrante da paisagem e agente modificador da superfície; (…) é sempre a expressão última da interdependência e reciprocidade dos diversos elementos e factores que sôbre um determinado território exercem a sua influência – a constituição geológica dos terrenos, o relêvo do solo, o clima, as associações vegetais e animais, o homem, finalmente” (pág. 23). Em 1937 Herman Lautensach apresentou, também, um esboço de divisão regional (Fig. 3), tendo como fator fundamental de definição das regiões a morfologia, a distribuição das massas de relevo no território continental de Portugal. Esta abordagem fica bem patente pela individualização da unidade “Cordilheira Central”, claramente associada à morfologia e estrutura características desta região de Portugal, que condiciona de forma determinante a paisagem. Em 1945 o reconhecido geógrafo Orlando Ribeiro elabora uma divisão geográfica de Portugal continental (Fig. 4), “que constitui uma síntese de altíssimo interesse baseada não só em moderna metodologia científica como também num profundo conhecimento do território” (Caldas e Loureiro, 1966, pág. 129). A respeito desta caracterização das regiões portuguesas e, consequentemente, das suas paisagens, Orlando Ribeiro (1998, 7ª Ed.) refere: “uma região geográfica caracteriza-se por certa identidade de aspetos comuns a toda ela. Não apenas as condições gerais de clima e posição, mas ainda as particularidades da natureza e do relevo do solo, o manto vegetal e as marcas da presença humana, nos darão o sentimento de não sairmos da mesma terra. A consciência desse facto entre os habitantes traduz-se muitas vezes por uma apelação regional; mas nem sempre regiões tradicionais ou circunscrições administrativas coincidem com regiões geográficas” (pág. 140). Figura 3. Carta regional de Portugal de Herman Lautensach (1937) 48 Figura 4. Carta das divisões geográficas da autoria de Orlando Ribeiro (1998, 7ª Ed.) Também J. Pina Manique e Albuquerque apresentou uma divisão do território nacional, baseada essencialmente em critérios ecológicos, definindo regiões naturais. No Atlas do Ambiente é reproduzida uma carta (Carta das regiões naturais de Portugal Continental – Fig. 5) que traduz a divisão elaborada pelo autor. Apesar de identificar os diferentes tipos de paisagem existentes em Portugal continental, a carta não é acompanhada de notícia explicativa, não permitindo esclarecer quais os pressupostos utilizados para a sua elaboração, que se basearão, segundo Pinto-Correia (2005), em trabalhos anteriores do autor desenvolvidos em 1954 e 1961, relacionados com a elaboração da carta ecológica de Portugal e a divisão regional do continente português, respetivamente. 49 Mais recentemente, com o objetivo de identificar as unidades de paisagem em Portugal continental na atualidade, Abreu et al. (2004) elaboraram um estudo, intitulado “Contributos para a identificação e caracterização da paisagem de Portugal continental”, no qual procederam à realização de uma cartografia de unidades de paisagem. Foram, assim, individualizadas 128 unidade de paisagem, reunidas em 22 grupos de paisagens (Fig. 6) Tendo como objetivo geral a compreensão da paisagem, os autores adotaram “uma abordagem holística, integrando as suas várias dimensões: a ecológica, que inclui as componentes físicas e biológicas dos ecossistemas; a cultural, em que são considerados tanto os fatores históricos como as questões de identidade e capacidade narrativa da paisagem; a socioeconómica, referente aos fatores sociais e às atividades humanas que permanentemente constroem e alFigura 5. Carta das regiões naturais elaborada por J. de Pina Manique e Albuquerque (Fonte: Atlas do Ambiente, 1985) Figura 6. Unidades e grupos de unidades de paisagem em Portugal Continental (extraído de Abreu et al., 2004) 50 teram a paisagem (também os regulamentos e instrumentos que condicionam tais atividades); e, finalmente, a dimensão sensorial, ligada ao modo como as paisagens são apreciadas por diferentes pessoas ou grupos de pessoas” (pág. 10). É importante referir que os autores consideraram como unidades de paisagem, para este estudo, “as áreas com caraterísticas relativamente homogéneas, não por serem exatamente iguais em toda a sua superfície, mas por terem um padrão específico que diferencia a unidade em causa das envolventes” (pág. 32). Os autores consideraram, ainda, “que devia existir coerência interna (…) e um carácter próprio, identificável do interior e do exterior e, eventualmente, associado às representações da paisagem mais fortes na identidade local e/ou regional”. O processo de análise das unidades de paisagem baseou-se numa metodologia “fundamentada na Análise de Clusters, que pressupõe um conjunto vasto de procedimentos de análise espacial em Sistemas de Informação Geográfica, associados a Estatística Multivariada” (Abreu et al., 2004, pág. 58) (Fig. 7). Apesar da importância da sistematização desenvolvida, os próprios autores referem que este trabalho “constitui mais uma base de reflexão para a compreensão e conhecimento das paisagens portuguesas, deixando em aberto várias pistas para aprofundamentos futuros” (Pinto-Correia et al., 2001, pág. 205). 2.3. A RECENTE DIVERSIFICAÇÃO DOS ESTUDOS DA PAISAGEM E DAS PERSPETIVAS DE ANÁLISE As últimas décadas do séc. XX e inícios do séc. XXI viram crescer, de forma exponencial, a investigação sobre a paisagem nas diversas áreas científicas e também na Geografia. O âmbito deste trabalho não nos permite fazer uma análise exaustiva das inúmeras contribuições que têm sido feitas, Figura 7. Síntese da modelação espacial (extraído de Abreu et al., 2004) 51 pelo que iremos salientar as que nos parecem mais relevantes. Gaspar (1993), num trabalho intitulado “As regiões portuguesas”, evidencia a importância da paisagem na definição das diferentes regiões de Portugal, referindo que aquela é um poderoso elemento de identificação cultural, comparável à língua e à religião. Uma obra que sistematiza um vasto conjunto de informações (nomeadamente estatística, mas também aspetos físicos e históricos) nas quais se baseia para a individualização das várias unidades consideradas. Um outro contributo importante foi dado por Campar de Almeida que, após desenvolver a problemática da paisagem numa perspetiva ecológica na sua tese de doutoramento sobre as Dunas de Quiaios, Gândara e Serra da Boa Viagem (Centro litoral de Portugal), promoveu, à imagem dos trabalhos de Kevin Lynch, K. D. Fines e A. Bailly, uma avaliação do valor da paisagem, apoiada na perspetiva do observador, aplicada a duas áreas também do centro litoral de Portugal (Almeida, 1999a, 1999b, respetivamente). Através da aplicação de inquéritos, procedeu ao “reconhecimento das paisagens mais qualificadas” e identificou os “indicadores mais valorativos dessa paisagem” (Almeida, 2006, pág. 35). Idêntico exercício foi aplicado por Vieira (2001), no contexto da avaliação da qualidade da paisagem para a prática turística na Serra de Montemuro, considerando diversos fatores abióticos, bióticos, antrópicos e potencialidades paisagísticas para a prática do turismo. Noutra perspetiva se apresenta o trabalho desenvolvido por Casimiro (2002) e aplicado ao concelho de Mértola, que explora a aplicação de métricas da paisagem, baseada nos conceitos da Ecologia da Paisagem, de forma a compreender as dinâmicas ocorridas na paisagem e analisar os seus padrões espaciais. Estas metodologias têm vindo a ser aplicadas por outros autores (Viana e Aranha, 2008; Vieira, 2008; Cruz et al., 2013), constatando-se a pertinência destas metodologias para o apoio à caraterização das paisagens, especificamente no que à sua dinâmica e padrões de ocorrência diz respeito. Uma publicação que consideramos importante também referir aqui, especialmente pela diversidade de abordagens e de autores envolvidos e por um certo carácter de síntese que apresenta, é o volume 36, número 72 da revista Finisterra, especificamente dedicado à Paisagem, publicado em 2001. Associado à comemoração dos 35 anos desta revista e ao evento organizado para o efeito sob o tema da Paisagem, permitiu a reunião de um conjunto de textos relativos à temática em causa. Das diversas contribuições, de realçar a abordagem feita por Salgueiro (2001), que analisa a evolução do conceito e dos estudos da paisagem, 52 salientando a importância da paisagem na Geografia e identificando as diferentes perspetivas que se foram desenvolvendo, referindo, no que diz respeito às correntes atuais, o destaque que tem vindo a ganhar a perspetiva essencialmente subjetiva, em que “a paisagem é essencialmente uma construção mental a partir da percepção e vivência no território” (pág. 44). Também Gaspar (2001), fazendo uma resenha evolutiva dos estudos da paisagem, reforça as novas perspetivas de análise, focadas nas “«novas» dimensões sensoriais da paisagem: a olfativa, a sonora e a táctil” (pág. 83), referindo-se também às paisagens biográficas e/ou literárias. Nesta sequência, é interessante trazer também aqui a perspetiva das paisagens fílmicas, de que são exemplo os trabalhos de Azevedo (2005, 2006), explorando a produção e o universo fílmico português, desde o período do cinema mudo até ao contemporâneo (2006). 3. ASPETOS CONCLUSIVOS O presente texto claramente não faz justiça ao significativo contributo que a Geografia e os diversos geógrafos deram para o estudo da paisagem em Portugal. Tratando-se de uma síntese, muito ficou por dizer e muitos ficaram por citar, especialmente os inúmeros geógrafos que têm, nestas últimas décadas, contribuído para a diversificação das formas de análise da paisagem e das multiplicidade de contributos que têm vindo a público. Contudo, estas breves notas permitem-nos ter uma perceção do caminho trilhado nesta temática em Portugal e das referências maiores que fizeram evoluir o conhecimento neste que é um objeto de estudo maior da Geografia. Efetivamente, a paisagem é objeto de estudo da geografia! Como refere Medeiros (2001), “uma das mais penetrantes e, ao mesmo tempo, mais simples definições de geografia (…) era a de «descrição e interpretação das paisagens da superfície terrestre»” (pág. 27). Em jeito de conclusão, sobressai, desta síntese, que ainda que a perspetiva naturalista tenha dominado durante um longo tempo na análise da paisagem em Portugal e ainda esteja muito presente, especialmente no âmbito do planeamento do território, diferentes perspetivas, com um caráter mais subjetivo, se têm vindo a evidenciar e a ganhar protagonismo nas ultimas décadas, diversificando as formas de perceber a paisagem no contexto geográfico português. Acompanhando aquele que foi o desenvolvimento do estudo da paisa-