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Amizade como Escola: colaboração e cuidado na construção de comunidades artísticas Susana Gaudêncio Coordenação de (E) vidência Futura Segundo Aristóteles, a amizade é uma forma de amor recíproco essencial para o funcionamento adequado da polis e da sua comunidade. Na sua obra Ética a Nicômaco (335 AEC-322 AEC), o autor afirma que é possível ser “amigo” por motivos de utilidade ou prazer, mas que isso não representa a verdadeira amizade, pois são motivos transitórios. A forma mais elevada de amizade, conhecida como amizade pura, encontra-se ancorada na virtude, onde os amigos desejam o bem um do outro, pelo próprio bem do outro. Esse tipo de amizade é a realização plena do amor recíproco. Poder-se-ia afirmar que o princípio aristotélico da amizade é muitas vezes utilizado como base para modelos de colaboração que promovem o bem-estar, o cuidado coletivo e a prosperidade. Com base nestas três ideias fundamentais – práticas coletivas/colaborativas, cuidar e amizade, apresentam-se três famílias de imagens, no início deste livro (pp. 33-62), que resultam de três grupos de trabalho que unem docentes e estudantes da Universidade do Minho da área das Artes Visuais: Carla Cruz, Catarina Marques, Ester Matos, Madalena Aguiar, Natacha Antão, Rafael Pereira, Sofia Silva e Susana Gaudêncio. Na conceção dessas imagens, foi adotado como mote, nomeadamente: diferentes métodos e jogos sujeitos às regras do automatismo e da actividade coletiva, como o cadáver esquisito (jogo inventado por volta de 1925 pelo movimento surrealista); experiências artísticas coletivas a partir de três objetos, três materiais aglutinadores, e três materiais discursivos, incluindo um segmento do texto da Suely Rolnik, Esferas da Insurreição – Notas para uma vida não chulada (2018), entendido como um guia de resistência micropolítica em 197
198 tempos de contrarevolução; e ainda o ensaio de Ursula K. Le Guin, A ficção como cesta: Uma teoria (1986), no qual se imagina, partindo de pressupostos feministas o que sucederia se os objetos que contêm outras coisas – a cesta, o contentor, etc. fossem a invenção mais importante da humanidade, em substituição da lança ou da espada, destituindo de importância o modelo progressista do tecno-herói? O trabalho, colaborativo, em coletivo, ou entre coletivos, tornou-se uma forma de expressão artística por si só. Os membros de um coletivo compartilham conhecimentos e habilidades, cuidam uns dos outros, ampliando e diversificando as capacidades do grupo, enfatizando a cooperação e a amizade. É esta dinâmica de colaboração, troca de saberes e suporte mútuo que também desejamos da universidade. Escolas, cursos, recursos humanos, deveriam espelhar esta lógica coletiva, incentivando a criação de redes de conhecimento que transcendam a hierarquia tradicional entre professores e estudantes, e promovam uma cultura de colaboração entre diferentes áreas do saber e do fazer. A formação académica não deverá ser apenas sobre adquirir conhecimento, mas também sobre aprender a colaborar, criar e transformar o mundo em conjunto, exprimindo um verdadeiro espírito cívico e de comunidade. Susana Gaudêncio