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Organizações e movimentos periféricos nas redes digitais ibero-americanas

Abstract

O livro “Organizações e Movimentos Periféricos nas Redes Digitais Ibero-Americanas” é um esforço coletivo para retratar diferentes aspectos da atuação de forças sociais no ambiente virtual, sob o prisma das periferias, conceito em plena construção, como ressalta a investigadora Mara Rovida (2020). Estudos geográficos e sociológicos atrelam periférico/a à regiões e a indivíduos afastados dos centros urbanos e dos equipamentos sociais, marcados pela pobreza e segregação (D’Andrea, 2013). Essa mesma periferia geraria uma noção identitária de quem produz o território (Santos, 2002), a ponto de ser um local em potência, dada a dinâmica social poderosa realizada por seus sujeitos periféricos (D’Andrea, 2020). No que se refere à comunicação social, as periferias deteriam o potencial do que Rovida chama de diálogo social solidário nas bordas urbanas, (2020. 6), uma reinterpretação da Solidariedade Orgânica (Durkheim, 1977, in 2004), em dinâmica de cooperação necessária ou interdependência, e da prática jornalística como forma de interação social, ação coletiva e dependente da interação entre sujeitos (Medina, 2014).

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Organizações e movimentos periféricos nas redes digitais ibero-americanas Organizações e movimentos periféricos nas redes digitais ibero-americanas Pedro Rodrigues Costa Edson Capoano Daniel Barredo Ibáñez (Editores) 2022 Organizações e movimentos periféricos nas redes digitais ibero-americanas Pedro Rodrigues Costa Edson Capoano Daniel Barredo Ibáñez (Editores) Colección Liberad y conocimiento 4 Primera Edición CIESPAL Centro Internacional de Estudios Superiores de Comunicación para América Latina Av. Diego de Almagro N32-133 y Andrade Marín • Quito, Ecuador Teléfonos: (593 2) 254 8011 www.ciespal.org https://ediciones.ciespal.org/ Diagramación Diego S. Acevedo A. ISBN primera edición: 978-9978-55-209-4 Ediciones Ciespal, 2022 Los textos publicados son de exclusiva responsabilidad de sus autores. Reconocimiento-SinObraDerivada CC BY-ND Esta licencia permite la redistribución, comercial y no comercial, siempre y cuando la obra no se modifique y se transmita en su totalidad, reconociendo su autoría. Índice Organizações e movimentos periféricos nas redes digitais 11 A captura da atenção. De periferia temática à urgência 19 na investigação, no ensino e na legislação Performance digital e alcance de conteúdo nas páginas 45 das ocupações universitárias de 2016 no Ceará Crise, Europa e cartoons: elementos para uma semiótica 71 da identidade europeia no ciberespaço Batalha do Atlântica: um agrupamento em busca 93 de profissionalizar o MC de batalha Wikipédia no feminino. O caso da enciclopédia 115 em língua portuguesa O ativismo estético nas redes: ferramentas teóricas 147 e metodológicas Suicídio e redes sociais. Aproximações ao tema 183 no Facebook, Instagram e YouTube 16 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez a intersecção entre movimentos sociais e internet. Nesta contribuição de revisão, os pesquisadores traçam um banco de dados de artigos associados a cibermovimentos sociais, movimentos sociais na Internet, entre outros termos-chave, de 2000 a 2020. Dentro dos resultados, este capítulo descreve uma lacuna ligada ao uso da teoria interacionista, quando se refere à relação entre os movimentos sociais e a internet. Da mesma forma, na revisão da literatura, propõe-se a ampla utilização de denominações relacionadas aos movimentos sociais. Essa disparidade decorre de uma «polivalência» resultante do mesmo desenvolvimento conceitual, do impulso da tecnologia e da novidade de um campo de estudos em constante crescimento. No nono capítulo, Manuel Santillán e Mathias Mackelmann examinam o ativismo de um grupo específico, os jovens cidadãos de Lima (Peru). Especificamente, interessa aos autores o grau de aceitação que a narrativa política populista desperta a partir da aplicação de pesquisas probabilísticas e segmentadas com base em estratos socioeconômicos. Após o diagnóstico localizado, os autores aplicam um desenho experimental para observar até que ponto os jovens interagem entre o conteúdo falso e o verdadeiro. A pesquisa, entre seus achados, encontra uma alta apropriação de discursos populistas de esquerda e direita neste perfil populacional -jovens de Lima-. Cerca de 8 em cada 10 entrevistados, precisamente, aceitaram esses discursos populistas, especialmente aqueles que estavam ligados às grandes questões de interesse público, como as do Governo, da imigração ou do Congresso. No décimo capítulo, Samária Araújo de Andrade e Fábio Henrique Pereira concentram suas pesquisas nos principais atores do ativismo midiático, particularmente aqueles que fazem parte da Mídia Ninja ou grupos de jornalistas e narradores independentes no Brasil. Esses autores propõem uma abordagem direta do fenômeno por meio da combinação de métodos qualitativos, como entrevistas em profundidade e observação direta. Embora esses movimentos sejam identificados por práticas colaborativas, esta contribuição destaca Organizações e movimentos periféricos... 17 uma estrutura não inteiramente horizontal. Nesse sentido, existem colaboradores da rede que tendem a capitalizar mais responsabilidades do que outros. Da mesma forma, esses comunicadores independentes manifestam um contexto particular, pois, por exemplo, tendem a morar em casas coletivas, o que se reflete nos resultados deliberativos, bem como na legitimidade da participação desses grupos. Em linhas gerais, neste estudo, a partir do exercício vital e profissional desses narradores, observa-se uma ressignificação do próprio sistema capitalista, que, embora em alguns casos, pode estar relacionada à precariedade dos serviços (já que os comunicadores da Mídia Ninja carecem de remuneração), uma gratificação é concedida a partir de elementos que nem sempre são materiais. As relações com outros comunicadores, o prestígio concedido pela busca do bem comum, estabelecem-se como recompensas a serem levadas em conta. A complexidade da gratificação simbólica é abordada tangencialmente no décimo primeiro capítulo. Neste trabalho, Antonela Isoglio reflete sobre a evolução do movimento Open Source para a comercialização de alguns de seus produtos. Para o autor, o conceito de software livre, ao contrário do que pressupõem outros pesquisadores, não foi concebido como uma alternativa sem fins lucrativos. Ao contrário, esse movimento estava vinculado às permissões e ao uso dos resultados do trabalho colaborativo, como sugerido a partir da revisão documental de fontes secundárias das bases de dados Redalyc, SciELO, Google Acadêmico, juntamente com fontes primárias individuais e coletivas. Entre as principais conclusões, este artigo aponta que o movimento do software livre foi mais uma fase do desenvolvimento capitalista, na medida em que ajudou a dispersar a discussão em torno do uso das informações geradas coletivamente. Finalmente, no décimo segundo capítulo, Socorro López Vázquez e Adriana Montserrat Pérez Serrano partem da Teoria Ator-Rede (TAR) -aquela que alude às associações estabelecidas entre atores dentro de uma plataforma-, para estudar os imaginários turísticos. Neste trabalho, as autoras fazem uma revisão das principais contribuições em 18 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez torno desta intersecção. Conforme explicado detalhadamente, a TAR ajuda a explicar a forma como circula o conhecimento que determina a construção de imaginários, algo para o qual os autores recomendam introduzir a “perspectiva histórica de longo prazo”, vital para obter um diagnóstico mais profundo sobre as dinâmicas interativas ligadas ao turismo. O exame das redes sociais a partir dessa abordagem teórica e metodológica pode ajudar a compreender as percepções dos usuários em um momento em que, como efeito da pandemia de covid-19, houve uma redução drástica do turismo globalmente. Esperamos que os leitores apreciem o trabalho dos pesquisadores publicados neste livro, que nos permite descobrir um mosaico da América Latina através da análise das atividades periféricas da região, com todo o potencial que este termo carrega para as plataformas sociotécnicas. Referências Capoano, E., Martini, M. R., & Alencar, V. de. (2021). Identidades, perfiles y procesos: elementos que componen los periodistas de la Agência Mural Jornalismo das Periferias. In J. M. Valero Pastor (Eds.), Plataformas, consumo mediático y nuevas realidades digitales. Hacia una perspectiva integradora (pp. 334-353). Dykinson. D’andrea, T. P. (2013). A formação dos sujeitos periféricos: cultura e política na periferia de São Paulo.São Paulo: FFLCH. D’andrea, T. P. (2020). Contribuições para a definição dos Conceitos periferia e sujeitas e sujeitos perifériCos1.Novos estudos CEBRAP,39, 19-36. Durkheim, É. (1977).Da divisão do trabalho social(Vol. 2). São Paulo: Martins Fontes, 2004. Medina, C. (2014). Narrativas da contemporaneidade: epistemologia do diálogo social.Tríade: comunicação, cultura e mídia,2(4). Rovida, M. (2020). Jornalismo das periferias–o diálogo social solidário nas bordas urbanas.Curitiba: CRV. Organizações e movimentos periféricos... 19 A captura da atenção. De periferia temática à urgência na investigação, no ensino e na legislação Pedro Rodrigues COSTA CECS – Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade [email protected] Edson CAPOANO CECS – Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade [email protected] Daniel BARREDO-IBÁÑEZ Universidad del Rosario (Colombia); Fudan University (China) [email protected] Resumo Este artigo visa refletir sobre a importância de uma ciência social da captura da atenção como modo compreensivo na abordagem e estudo dos atuais fenómenos sociais digitais. Aparentemente tido como assunto lateral e periférico, o fenómeno da captura da atenção está tão presente como ignorado na contemporaneidade, concretizando um poder da ordem do simbólico. A captura da atenção operada pelos média em geral e pelas plataformas digitais em particular, encetada por instituições, empresas ou sujeitos (mais ou menos influentes), está dotada de um poder invisível 20 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez que acaba por ser exercido com grande cumplicidade dos que não querem saber dessa sujeição, ainda que comporte grandes perigos para a ciência, a liberdade e a democracia. A tese aqui implícita é a de que a invisibilidade e aparente periferia temática da questão da atenção capturada acaba por submeter sujeitos e sociedades a fenómenos psicossociais variados, o que nos leva a propor uma reflexão sobre a necessidade de maior estudo, um atento ensino e uma legislação eficaz em torno do problema da captura da atenção que se foca em interesses que escapam a uma inteira noção de bem-comum. Palavras-chave: Atenção; captura; captologia; ciências sociais; redes digitais. Abstract This article aims to reflect on the importance of attention captured in the social sciences as a comprehensive way of approaching and studying current social phenomena that seem peripheral to us, but which are, on the contrary, as present as they are ignored, realizing a power of the symbolic order. The capture of attention on digital platforms, premeditated and initiated either by institutions or companies and even subjects (more or less influential), is endowed with an invisible power that ends up being exercised with the complicity of those who do not want to know that they are subjects. This invisibility, this apparent thematic periphery of the issue of captured attention, put the subjects to various psychosocial phenomena that we are dealing with here, which leads us to propose a reflection on the study and teaching around the theme of capturing attention. Keywords: Attention; captured; captology; social sciences; digital networks. Resumen Este artículo tiene como objetivo reflexionar sobre la importancia de una ciencia social de la atención como una forma integral de abordar y estudiar los fenómenos sociales actuales que nos parecen periféricos, pero que, por el contrario, están presentes e ignorados, realizando un poder de el orden simbólico. La captación de la atención en plataformas digitales, premeditada e iniciada ya sea por instituciones, empresas e incluso Organizações e movimentos periféricos... 21 sujetos (más o menos influyentes), está dotada de un poder invisible que acaba siendo ejercido con la complicidad de quienes no quieren saber que son sometido a ella. La invisibilidad y aparente periferia temática del tema de la atención captada, somete a sujetos a diversos fenómenos psicosociales que aquí nos ocupa, lo que nos lleva a proponer una reflexión sobre el estudio y la enseñanza en torno a la captación de atención. Palabras clave: Aviso; captura; captología; Ciencias Sociales; redes digitales. 1. Introdução A contemporaneidade vive alimentada por ecrãs conectados a momentos mediáticos que desfilam em plataformas digitais. Os diversos momentos mediáticos alimentam, por seu turno, contingências coletivas, marcando agendas e impondo modos de pensar, sentir e agir, quer dizer, criando intelectos contingentes (Costa, 2020a). O tema da captura da atenção contingente, promovida pela fusão entre o mediático e o ecrã e suas plataformas, raramente é tido como assunto de investigação sociológica por si só. A intenção de captura da atenção é geralmente ignorada como tema isolado, e quase sempre relacionada com outros temas: o impacto das notícias, o impacto das fake news, o impacto da desinformação, o impacto das redes digitais, o impacto da opinião, etc. Este assunto, invariavelmente ignorado, gera, em nosso entender, inúmeros dilemas e fenómenos sociais que aqui vamos dar conta, funcionando como gatilho que se basta, ou que então está ao serviço de outros poderes. Concretiza aquilo que Bourdieu (2001) considerava ser, em toda a linha, um fenómeno carregado de poder simbólico. Se até então a imitação, a socialização e a individuação eram os processos mais importantes da vida social, relacional e comunitária, eis que o ecrã, objeto técnico difusor, transmissor, conector, criador e manipulador de imagens e mensagens, intercedeu, acrescentando todo um novo processo: a captura da atenção. Ao longo de 150 anos, acelerado 22 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez por sucessivas acoplações, renovações, convergências e inovações, opera tal como esses três antigos processos: aglutina cada um deles nas dinâmicas geradas, tornando-se, ele mesmo, um fenómeno social total por mérito próprio (Costa, 2020a; 2021a-b). Na esteira do ecrã e da sua capacidade de capturar atenções, este texto visa refletir sobre a importância de uma sociologia da captura da atenção como forma compreensiva na abordagem e no estudo dos fenómenos sociais que nos parecem periféricos, mas que são, pelo contrário, tão presentes como ignorados, gerando algo caro à dinâmica de poder: um “poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem” (Bourdieu, 2001, pp. 7-8). Assim, e para dar conta deste fenómeno, propomos uma reflexão sobre uma ciência social da captura da atenção. 2. Comunicação e sociedade: impactos que não se podem negligenciar Os séculos XIX e XX foram geradores de dicotomias que visavam a construção de muros epistémicos entre razão e emoção, informação e opinião, discurso e ação, social e técnico, entre outros. Porém, uma leitura atenta à obra A Opinião e as Massas, original de 1902 do sociólogo Gabriel Tarde (1992), permitia-nos refletir, já nessa época, como era abstrusa a criação dessas dicotomias. Autores contemporâneos, como Bourdieu (2001), Habermas (2012), Callon (1986), Law (1999) ou Latour (2012), entre outros, insistiram na ligação entre comunicação e informação enquanto objeto de estudo permanente das ciências sociais, tanto na sua vida disciplinar como interdisciplinar. A convergência entre aspetos da sociologia e da comunicação e da Informação pode (se é que não deve) integrar conceitos e metodologias que atualizem ambos os campos, como a eficiência no estudo, no controle, no armazenamento, na recuperação, na acessibilidade, na Organizações e movimentos periféricos... 23 algoritmização e na transmissão de dados, bem como na criatividade, na inovação e na composição de processos sociais, informacionais e comunicativos. Tal agrupamento está sujeito à lógica sociotécnica da convergência em vigor, permitindo o desenvolvimento de novas considerações sobre o ambiente da internet, os nós e as redes geradas, a informação circulante e os processos e produtos comunicacionais realizados em plataformas sociotécnicas (Jenkins, 2009). A proposta de atualização da epistemologia sociológica na sua relação com os processos sociotécnicos de imitação, comunicação e informação, nunca abandonando a complexidade e a subjetividade (Morin, 2017), as emoções e as relações de poder a que estão sujeitos os processos sociotécnicos em geral (Foucault, 2021; Deleuze, 1989; Latour, 2012), é uma proposta de grande relevo atual, ainda que esteja numa situação de interesse periférico. Recorde-se que a integração das componentes emocionais (onde reside, em força, a problemática da captura da atenção), acrescentou, sobretudo a partir de finais do século XX, à Economia, à Neurociência e à Genética, todo uma vasta área de estudo e investigação. Bruno Patino (2018) chamou-lhe, recentemente, de captologia: ciência da captura da atenção. Ciências sociais e humanas, como a Ciência Política, a Psicologia Social, a Filosofia, a Sociologia, as Ciências da Comunicação ou os Estudos Culturais, entre outras, perceberam que o estudo das emoções na sua articulação com outros fenómenos sociais poderia superar dicotomias existentes nas suas áreas disciplinares, como cultura-natureza, cognição-emoção, dentrofora, psicológico-social. Com o desenvolvimento de novos aparatos tecnológicos, emoções e afinidades emocionais, na sua relação com a atenção e a ação, atualizaram-se como um ator social contemporâneo de forte amplificação, recorrendo às potencialidades do machine learning (ML), da robótica e da inteligência artificial (AI) (Costa, 2021a-b-c). Sobre este ponto, importa relembrar os impactos dos agrupamentos de preferências políticas através de ML e AI operados no YouTube: em mais de 330 mil vídeos publicados em 349 canais e em mais de 72 milhões de comentários, o ML do YouTube terá executado 24 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez algoritmos que geraram modelos de representação de conhecimento com base num conjunto de dados históricos do utilizador, permitindolhe a “aprendizagem” sobre as preferências. Neste caso, foram preferências políticas de direita sugeridas pelo algoritmo, sugestões que iam da moderação até ao extremo (Reis, Zanetti e Frizzera, 2019). Algo semelhante à análise obtida a 65 influenciadores políticos em 81 canais do YouTube, em que foi identificada uma “Rede de Influência Alternativa” (AIN) que usou as mesmas técnicas de marketing e propaganda de marcas e influenciadores digitais para aumentar o número de seguidores, expondo os espectadores a ideologias extremas (Johnson, 2018). Dentro deste efeito, note-se que o EdgeRank, algoritmo do Facebook, também se foca na adequação ao sujeito em função das suas preferências (gostos, emoções e partilhas), da sua rede de relações digitais mais requeridas e nos anúncios publicitários mais patrocinados. Desde 2015, este poderoso algoritmo utiliza três grandes técnicas de captura da atenção: i) a ferramenta “reações”, “que representa seis emoções que o usuário pode utilizar para demonstrar o que sentiu ao ler”; ii) a ferramenta “técnicas para deteção de emoção e entrega de conteúdo”; iii) e a ferramenta “aumento da mensagem de texto com informação de emoção”, que consegue analisar sentimentos, emoções e ideias medindo a “velocidade da digitação, a pressão do toque ao digitar, padrões de interação do usuário ou mesmo a sua localização no momento da digitação” (Machado, 2018, pp. 50-51). Por seu turno, o Page Rank, algoritmo semântico da Google, opera nos resultados que são apresentados aos utilizadores do seu motor de busca, analisando a indexação e organização de sites, páginas e informações. A sua oferta de respostas passa por quatro fases: rastreamento, indexação, ordenação e utilidade. Esta certeira atividade de controlo da informação é complementada com anúncios patrocinados no Google Adwords e com técnicas de marketing e remarketing no Google Adsense (Costa, 2021b). Organizações e movimentos periféricos... 25 A par deste tipo de fenómenos, todo um conjunto complexo de efeitos e impactos produzem geram níveis aditivos avassaladores: o efeito slot machine, oriundo de experiências behavoristas em ratos e célebre nos jogos de casino, funcionando como convite a recompensas aleatórias e diversas no gesto de scroll-down no feed das plataformas (Patino, 2019, p. 27); o efeito Zeigarnik, que resulta de um conjunto de ações ligadas e que devem encadear-se sem pausas, gerando incompletude e dosagem subtil de satisfações e frustrações; o efeito de adormecido sentinela, que cria “zombies”: sujeitos que evitam dormir profundamente por terem receio de perder uma notificação do telemóvel, acarretando transtornos no sono, no humor e na atenção (Eisenstein & Estefanon, 2011); o efeito fear of missing out (FOMO), medo de se estar a passar ao lado de outra coisa que não se está a ver – e.g. quando o sujeito se encontra sem internet (Przybylski et al, 2013); a nomofobia (no mobile phobia), pânico de se estar sem telemóvel ou então de se afastar do telemóvel ainda que por instantes (Patino, 2019); o medo do consumo solitário, receio de perda de atualidade relativamente aos conteúdos que estão a ser consumidos (Costa e Capoano, 2021); a síndrome de ansiedade, necessidade permanente de exibir os diferentes momentos da existência, através de fotografias, vídeos ou descrições (Lagrange, 2020; Giansanti & Grigioni, 2018); ou a atazagorafobia, esse medo de ser esquecido pelos pares aquando de uma procura compulsiva por um like, uma partilha, um comentário ou uma menção (Anderson, 2013). A estes impactos acrescem ainda os efeitos de Werther e de Papageno (Gould et al., 2003; Gandy & Terrion, 2015), presentes nos fenómenos MOMO ou Baleia Azul, ou o vasto leque de dinâmicas inscritas nas nomenclaturas de cibercrime, cyberbullying, sexting, ciber-chantagem, entre outros (Barreto, Irineu e Lima, 2017; Ribeiro, 2019). Todo este conjunto de efeitos não pode ser negligenciado quando nos debruçamos sobre o fenómeno da captura da atenção pelo ecrã. 32 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez ainda que indiretamente, esta descontinuidade informacional ao modo como se concederam privilégios à “forma” medo, em detrimento do vírus objeto e do seu conteúdo. O filósofo apelidou o momento pandémico de “O Primeiro Medo Mundial”, reforçando o seu impacto formista (Henry-Levy, 2020, p. 15). Em nosso entender, esta captura da atenção não descriminou o vírus e as suas consequências na totalidade, mas colocou, perigosamente, a tónica no medo, e com essa um certo sensacionalismo emocional, como forma de captura. O medo como novidade, o medo como início, o medo como meio condicionante e o medo como fim a que todas as ações mediáticas retornaram. Vejamos o exemplo de Portugal: desde o dia zero da pandemia que foram sendo anunciados, pela Direção Geral de Saúde (DGS), e depois nos principais meios de comunicação, o número de óbitos diários com teste positivo de Covid-19. Porém, o modo como era comunicado colocava a tónica na expressão “por Covid” ou “de Covid”, ao invés de “com Covid”1. Esta nuance é, em nosso entender, fundamental, pois separa factos de interesses: o facto é a presença da Covid-19 na morte; o interesse é o modo como este é associado à causa de morte. No entender de Latour (2020), deixar a porta aberta para o florescimento de controvérsias e associações que se escondem entre factos gerais e interesses particulares é meio caminho para criar um terreno informacional pantanoso. Colocando a questão da causa de morte com tal leviandade em meios de comunicação social significa duas coisas: há, de facto, um número de óbitos a considerar; e há, implicitamente, uma estratégia indireta (Hart, 2011; Araújo et al, 2021) para os categorizar de acordo com uma ideia de captura da atenção pela perspetiva do perigo e do medo. Estratégia essa que a própria DGS nunca terá escondido (Kotowicz, 2020). 1 Ver, a este respeito, a notícia de 10 de janeiro de 2022 num dos principais jornais nacionais, o Jornal de Notícias (JN), com o título “Internados voltam a aumentar num dia com 20 mortes por covid em Portugal” e com o lead “Portugal registou 20 mortes e 20.212 novos casos de covid-19 nas últimas 24 horas”, em https://www.jn.pt/nacional/internados-voltam-a-aumentar-num-dia-com-20-mortespor-covid-em-portugal-14476251.html Organizações e movimentos periféricos... 33 No nosso entender, uma comunicação rigorosa cientificamente deveria afirmar, sem receios dos seus impactos, que foram registados X óbitos de pessoas com teste positivo à Covid. Evitar-se-ia desconfiança no leitor ou telespectador (Lino, Medeiros e Pinheiro, 2021). Partindo da ideia de captura, percebe-se que os agentes governamentais e mediáticos optaram pelo interesse do medo ou susto como estratégia. Mais do que manipular para uma ação em direção a um suposto bem-estar geral, foi reforçada a tónica de capturar imediatamente, emocionalmente, sensacionalmente. Afinal, o uso do medo é um velho conhecido da manipulação de massas, pois enquanto emoção primária e de sobrevivência o medo condiciona: “o corpo imobiliza-se, nem que seja por um instante, talvez para ter tempo de decidir se esconder-se não será a melhor reação” (Goleman, 2003, p.28). Paralisa-se inicialmente o pensamento e a racionalidade, ativando sistemas de defesa: “o sangue corre para os grandes músculos esqueléticos” (Goleman, 2003, p.28), gerando “preparação dos grandes músculos para uma ação rápida” (Goleman, 2003, p. 40). Aquele que assusta conhece, instintivamente, a reação do assustado: aninhar, esconder, confinar, confortar-se no silêncio (Goleman, 2003) De facto, os agentes de captura da atenção, mais ou menos consertados com estratégias de teor mais particular, optaram, em geral, pela eficácia do medo, não tanto para neutralizar transmissão viral, mas, sobretudo, e em última instância, para obter captura de atenção. Ainda que para uma corrente da psicologia comportamental “a comunicação baseada no medo tem menos eficácia”, existem “países na Europa que têm grupos independentes com especialistas em mudança comportamental e outros que têm subgrupos nas equipas de emergência [task forces] criadas para dar resposta à pandemia” (Marques ao DN, 2021, §2). Isto gera, tendencialmente, desconfiança e recusa no recetor mais atento a este tipo de manipulação (Lino, Medeiros e Pinheiro, 2021). Na Alemanha, por exemplo, foi notícia no jornal Die Welt de que um ministro terá contratado cientistas para criar comunicação que 34 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez instigasse clima de medo ao Covid-19 na população (Esteves, 2021). Entre a troca de emails tornada pública, pode ler-se que o ministro, Seehofer, instruiu o seu Secretário de Estado, Markus Kerber, a apresentar um plano de apoio a medidas mais rigorosas. Kerber terá então contactado vários cientistas, universidades e institutos de investigação a pedir “o pior cenário”, um controlo “mental e sistemático” da situação que ajudaria a planear “medidas de natureza preventiva e repressiva. Entre as sugestões seguiram propostas de campanhas e imagens criadas para induzir “medo e obediência na população”. O Die Welt escreve que os cientistas “negociaram” entre si o possível número de mortes a ser mencionado – o Instituto Robert Kock propôs uma estimativa de 0,56% de pessoas infetadas, mas o RWI, um influente instituto de investigação económica, defendeu a taxa de mortalidade de 1,2%. Nos emails, o funcionário do RWI explicava que: “de acordo com o objetivo do modelo em vista”, de enfatizar “muita pressão para agir” seria mais eficaz apresentar números maus. (Esteves, 2021, §3-4) Sabe-se, de um ponto de vista estatístico, que a captura da atenção é um negócio de milhões. Sem captura, não há retenção. Sem retenção, não há fidelização. Sem fidelização, não há estabilização de números de clientes e de espectadores. Sem estabilização de números de clientes e de espectadores, não há argumentos de venda de publicidade e propaganda, pois o impacto não é mensurável e, assim, os interessados em publicidade e propaganda não validam esse investimento (Martens, 2016; Srnicek, 2017). A captura da atenção, num mundo globalizado e vasto em estimulações visuais e verbais, é um dos principais gatilhos para retenção e posterior fidelização, crescimento e estabilização da “clientela”. Esta sequência reforça não tanto o fenómeno em si mesmo ou os conteúdos, mas, sobretudo, a captura da atenção por si mesma, o que gera uma crise no sistema informacional global. Para Tuschman (2021), o vírus da pandemia Covid-19, bem como as suas consequências globais (infeções, impactos na saúde, restrições de comportamentos, liberdades e direitos, pobreza, estrangulação de mercados devido a Organizações e movimentos periféricos... 35 restrições, desigualdade, etc.) foram secundarizados pela campanha mundial de medo que foi levada a cabo pelos meios de comunicação, influencers e opinion makers. Se considerarmos, por exemplo, o excesso de mortalidade não-covid e a sobremortalidade em geral (Neves e Dantas, 2021), ou o facto de a África ser a última a receber vacinas, impedindo que se cobrisse a população mundial de forma equitativa e assim robustecendo os sistemas de defesa contra o vírus (Naranjo, 2021; Atalaia, 2021), ou mesmo o facto de a Suécia ter sido atacada mediaticamente por não ter seguido as políticas da maioria dos países e para o facto de o seu sucesso, quer ao nível de mortalidade, quer ao nível de estabilização financeira, ter sido silenciado (Anderberg, 2021; Gryzinski, 2020; Worldometer, 2022), percebemos que a captura da atenção operada globalmente por agentes mediáticos, governamentais, institucionais e até industriais (note-se que a indústria farmacêutica não libertou as patentes das vacinas mesmo tendo sido financiada por governos), esteve ao serviço de uma gestão de comportamentos à medida de interesses muitas vezes sem sustentação científica, no que concerne ao controlo da pandemia e dos seus inúmeros efeitos colaterais. A estas razões podemos também acrescentar uma imitação orgulhosa, um dos elementos do trio fear-hunger-pride (medo, fome e orgulho), que para Hart (2011) esteve na origem da Primeira Guerra Mundial. Em How Sweden swerved Covid disaster, Anderberg (2021) apresentava a inquietante tese de que só uma imitação orgulhosa dos vários países democráticos que implementaram fortes medidas draconianas e restritivas para conter a pandemia poderia ser capaz de silenciar e ocultar globalmente o sucesso da Suécia e do Estado da Flórida. Esse sucesso estatístico ocultado, tanto da Suécia como do seu imitador mais fiel (a Flórida), pode servir de exemplo a uma estratégia de orgulho-feito-silêncio e de ocultação mediática global. Uma imitação global orgulhosa na imitação de narrativas dominantes que acabou por ocultar factos importantes na informação e na própria gestão da pandemia. Ao não quererem admitir o fracasso de uma parte 36 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez das políticas draconianas tomadas, os responsáveis de governos e de instituições mediáticas pela “imitação-draconiana” trilharam um perigoso caminho que mais não faz do que abrir as portas a todo o tipo de teses de deslegitimação de narrativas institucionais e científicas (Anderberg, 2021). Ainda assim, no meio deste turbilhão, dois jornais nacionais, o BILD na Alemanha, e o Ekstra Bladet na Dinamarca, vieram pedir desculpas aos leitores por considerarem um “falhanço” a respetiva cobertura noticiosa da pandemia que levaram a cabo, alegando que Não fomos vigilantes o suficiente quando as autoridades foram obrigadas a responder o que realmente significava, que as pessoas estavam hospitalizadas com Covid-19 e não por causa da Covid-19. Porque isso faz a diferença. Uma grande diferença. Os números oficiais de hospitalização mostraram ser 27% maiores do que o número real de pessoas que estão no hospital, simplesmente porque têm Covid-19. Só sabemos disso agora. (Brian Weichardt citado em Santos, 2022) O exemplo da pandemia traz então à tona, em nosso entender, uma obsessão pela captura da atenção com focos diversos no controlo e transmissão de mensagens e informações, ignorando precisão científica, como nos casos das utilizações semânticas de “por” e “de”, e gerando ocultação e silenciamento de dados estatísticos relevantes que poderiam ter servido de boas práticas para a gestão da pandemia. O que nos leva a uma outra reflexão: se a informação não serve para a captura da atenção, não se comunica? Se a informação até captura a atenção, mas não serve o alinhamento psicossociológico existente, e o intelecto contingente dominante, deve ser ocultada? Onde está a isenção jornalística? Terá sido morta pela pressão e necessidade económica de captura da atenção? Pela captura da atenção à medida do contingente dominante? Organizações e movimentos periféricos... 37 5. Considerações finais Estas considerações sobre a pandemia são apenas um exemplo da potencialidade da análise tendo em consideração uma sociologia da captura da atenção. São indiscutíveis as implicações dos ecrãs, da internet e das estratégias diretas e indiretas e subtis de captura da atenção alheia, individual, organizacional ou institucionalmente, na atual contingência sociotécnica. Seja com intenções de informação, de contrariar narrativas oficiais (com desinformação ou fake news), de propaganda ou de manipulação comportamental e de consumo, a contemporaneidade vive sob a égide das dinâmicas factuais e interesseiras presentes em contingências coletivas ecrãnicas, mediáticas e plataformizantes que se debruçam, de forma avassaladora, sobre a atenção dos sujeitos (Costa, 2020a-b-c-d; 20201a-b-c). As ciências sociais encontram hoje, como desde os seus primórdios, novos desafios, mas também novas formas de estudar, pensar e agir. Esta proposta, simultaneamente epistémica e metodológica, permite, em nosso entender, enfrentar alguns dos grandes desafios sociotécnicos da contemporaneidade. Assenta, fundamentalmente, na ideia de que o cientista social de hoje e de amanhã será capaz de estudar as relações, as associações e o ser-com numa teia sociodigital densa e complexa, onde o local de investigação é esse emaranhado de dados, redes e clusters alimentado por sistemas e técnicas de captura da atenção, nos média tradicionais e nos novos média em particular. Ter em consideração a tríade sujeitos-ecrãs-captologia permite, em nosso entender, aumentar o foco e a análise sobre humanos, não-humanos e meio-humanos (bots e algoritmos), obrigando o investigador social a uma atenta e renovada bateria de metodologias e técnicas de análise social. De facto, constata-se também a necessidade de uma educação mais atenta e orientada para as vantagens e perigos da captura da atenção, sobretudo quando as emoções são manipuladas e informações importantes cientificamente são ocultadas por não estarem de acordo com agendas que se querem dominantes e 38 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez mediáticas. Torna-se, portanto, fundamental e urgente educar para o consumo de informação tendo em consideraçaõ a existência de estratégias de captura de atenção com fins não informacionais, não científicos e propagandísticos, mesmo que advindos de instituições governamentais com grandes responsabilidades. Para tal, escola e legislação necessitam de se proteger de modo a evitar uma apetência predatória pela captura da atenção que apenas pretende uma obcecada retenção de pessoas-número, concentrando direta e indiretamente o poder em determinados agrupamentos ou setores. Após o maior acontecimento de captura global da atenção de que há registo (a pandemia da Covid-19), e existindo indícios de interesses que se furtaram a uma ideia de bem-comum na sua plenitude, uma vez que os efeitos colaterais foram, em muitos casos, superiores aos efeitos e às lógicas das medidas adotadas, concluímos que a matéria da captura da atenção é sensível e perigosa se os sistemas jurídicos e de ensino continuarem sem enquadramento e sem reforços de capacitação. Corre-se o risco, com uma lógica de captura pela captura propagandística, de se minar a credibilidade de instituições democráticas e científicas em geral. A ideia de uma captura pela captura, atribuindo à manipulação das emoções primárias (medo, ódio, orgulho, etc.) o papel principal para obtenção de diversos fins (políticos, partidários, económico-financeiros ou de agenda mediática), independentemente de processos factuais e científicos, silenciados se não servirem interesses particulares, aumenta, a longo termo, a desconfiança sobre os processos informacionais e, consequentemente, sobre as instituições democráticas em geral. Urge atuar, na Escola e na Lei, de modo a impedir que instituições democráticas, grupos de comunicação e plataformas digitais se foquem em capturas emocionais da atenção, tendo, pelo contrário, um processo científico transparente, equitativo nas várias dimensões do conhecimento e focado nos impactos sobre todos os grupos sociais. A subtileza das abordagens indiretas do medo, da fome e do orgulho, que para Liddell Hart (2011) significaram a origem da Primeira Guerra Mundial, não pode ser, novamente, a Organizações e movimentos periféricos... 39 pedra de toque da contemporaneidade sociotécnica. Como sublinhou Georg Orwell ao seu editor a explicar o livro 1984, numa carta de 1944, “afirmar que tudo vai bem, sem identificar alguns sintomas sinistros, apenas ajuda a fazer do totalitarismo uma possibilidade mais próxima” (Orwell traduzido por Bárbaro, 2022, §5). Referências Anderberg, J. (2021, 8 de novembro). How Sweden swerved Covid disaster. UnHerd. Retirado de https://unherd.com/2021/11/how-sweden-swerved-coviddisaster/ Anderson, C. T. (2013). Athazagoraphobia, The Fear of Forgetting. The Midwest Quarterly. Pittsburg, 54(4), pp. 334-388. Araújo, R., Lopes, F., Magalhães, O. Sá, A. & Aguiar, A. (2021). Behavior Guidance during the Covid-19 Pandemic: Health Literacy as a Weapon against the Virus. 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Retirado de https://veja.abril.com. br/coluna/mundialista/adivinhem-qual-economia-europeia-sofreu-menos-com-coronavirus/ 48 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez os donos do poder; compreendendo que, de outra forma, as pautas e anseios não seriam consideradas e tampouco acolhidas. A onda nacional de ocupações é, pois, um ato de comunicação na medida em que rompe o cotidiano sob intenções de narrar versões outrora silenciadas. É justo notar que esta não foi a única medida adotada para diálogo sobre os anseios estudantis, afinal, estudantes-ocupantes cearenses criaram páginas no Facebook e tomaram esta ambiência como tática prioritária para disposição dos conteúdos e tessitura da história. É neste contexto que nossa pesquisa discute e analisa as possibilidades e limitações da plataforma para produção de comunicação contra-hegemônica diante das questões sociotécnicas do período. 2. Plataformas digitais e acesso à informação para brasileiros Smartphones, tablets e outros equipamentos que permitem mobilidade e conexão se caracterizam em espaços híbridos ao criar “uma relação mais dinâmica com a internet incluindo-a em práticas cotidianas”, destaca Silva (2006, p. 24). A maior parte das relações desenvolvidas no espaço digital por usuários brasileiros no período em análise se dá em plataformas como o Facebook e YouTube, como observam Jonas Valente e Marina Pita (2018). Não por acaso, figuram entre as seis plataformas que concentram 70% dos acessos no Brasil. Confirmamos esse poderio na alta demanda dos usuários que instalam as aplicações do conglomerado Meta nos celulares. O relatório de Valente e Pita (2018, p. 108) identificam que a adesão aos aplicativos Facebook, Facebook Lite, FB Messenger, FB Messenger Lite, WhatsApp e Instagram conformam quase 293 milhões de downloads na Play Store para dispositivos com sistema operacional Android. Em números totais, representam 85% das instalações enquanto Snapchat, Spotify, Netflix e Pinterest estão em casas abaixo dos 5% – não estabelecemos comparativo com os números trazidos sobre as aplicações do Google, Organizações e movimentos periféricos... 49 pois estas já vêm instaladas em conjunto ao sistema operacional aqui discutido. Não por acaso as plataformas digitais de redes sociais são, segundo as pesquisas do DataSenado (2019), os principais mecanismos para obtenção de notícias por brasileiros. Ao comparar os dados de 2013 e 2019, percebemos que elas permanecem imbatíveis na marca de 90%, com oscilações em três pontos percentuais, como o principal espaço para ler e acessar informação. Delimitando o escopo por plataformas a partir dos dados de 2019, verifica-se que 54% dos brasileiros conferem ao Facebook o status de principal plataforma, para se atualizar sobre acontecimentos recentes, com aumento de 2%, quando comparado ao ano anterior. O WhatsApp alcança o quantitativo de 53% após crescimento de 5%; seguido do YouTube com 42% e ampliação de 8%. Vale atentar-se ao quarto colocado que, apesar da posição, é o que mais cresce em número de adeptos com finalidades informativas: o Instagram salta de 16% para 26% em um ano. 3. Vigilância em tempos de mediação algorítmica O Facebook e as demais plataformas do conglomerado Meta não possuem lógicas isonômicas de disposição do conteúdo. Por meio de perfilamentos de interesses do usuário e sob manejos de engenharias de poder, o conteúdo é manejado em mediação algorítmica. Este último, discutido por Macêdo Jr (2020), trata-se da utilização conjunta de tecnologias de Big Data, do emprego de filtros e da aplicação de inteligência artificial como ordenadores em processo lógicocomputacional capaz de redimensionar a entrega do conteúdo a usuários de plataformas. O algoritmo sozinho não conseguiria dispor de um sistema responsivo inteligente dadas suas limitações, de modo que não devemos confundir a ação mediada por algoritmos – onde o código imprime respostas em tela sem interface com outros ordenadores, a exemplo de uma calculadora – 50 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez com mediação algorítmica que, por sua vez, diz respeito ao funcionamento de plataformas sob lógica algorítmica onde o código computacional aciona e se alia a outros ordenadores, a fim de configurar a disposição de conteúdo a partir da conjugação dos componentes lógicos em interface ao banco de dados, aos sistemas inteligentes de agrupamento e às modulações permitidas pelo hardware de consumo para, no fruto da interação destes, dispor curadoria de conteúdos (Macêdo Jr, 2020, p. 100) Dadas as dinâmicas de arquivamento inerentes às tecnologias envolvidas e os exercícios de seleção sintetizados nesta experiência, nos parece justo tomá-las como expressão da vigilância de nossos tempos. Para evitar confusões com a possível carga simbólica sobre segurança e cuidado que o termo ‘vigilância’ possa conter, reafirmamos a delimitação conceitual proposta por Fernanda Bruno (2008, p. 11), que classifica vigilância digital como o “monitoramento sistemático, automatizado e à distância de ações e informações de indivíduos no ciberespaço com o fim de conhecer e intervir nas suas condutas ou escolhas possíveis”. A permanente extração de dados, fornecidos involuntariamente por usuários no Google e no Facebook como observa Zuboff (2018), são objetos lucrativos para empresas que operam a vigilância; nisto, as disposições de conteúdo por mediação algorítmica são inscrições finais da vigilância operada pelas plataformas numa performance que não mais isola e imobiliza indivíduos em espaços de confinamento, mas que se aproxima ou mesmo se confunde com o fluxo cotidiano de trocas informacionais e comunicacionais. Uma vigilância que se exerce menos com o olhar do que com sistemas de coleta, registro e classificação da informação; menos sobre corpos do que sobre dados e rastros deixados no ciberespaço; menos com o fim de corrigir e reformar do que com o fim de projetar tendências, preferências, interesses. (Bruno, 2006, p.153) Não se dá de forma automática e tampouco é um processo natural: a expressão da vigilância no capitalismo se aprofunda a partir da midiatização da vida. Por isso, hoje, pouco podemos avançar no debate sobre composição de imagem pública na internet e disputa de memória Organizações e movimentos periféricos... 51 social – ou quaisquer outros fenômenos da comunicação em espaços digitais – sem considerar as plataformas e os quesitos que a estruturam como interventores. Afinal, a lógica, a finalidade e o funcionamento destas ambiências muito nos dizem sobre as redes que podem ser estruturadas e sobre as formatações dos fenômenos comunicacionais ali possíveis. 4. Movimentos sociais em plataformas digitais Ao observar as atuações de movimentos sociais no Brasil, Maria da Glória Gohn (2017) tem tomado notas sobre a adoção das plataformas como mecanismo para ativação das redes sociais, como tática para mobilização de massas e como expressão de discurso público. Deste modo, a performance enquanto gesto de experiência encarnada pela qual se tecem identidades políticas (Taylor 2013), assume conotações outras no contexto digital diante da possibilidade de inscrição e de leitura de si e dos outros sob mediação tecnológica como dimensiona Bill Worthen em entrevista para Diana Taylor (2007). Assim, plataformas assumem um local privilegiado para performance pública e pela qual tem se firmado na experiência brasileira como prática comum dos movimentos sociais para disputa de narrativas. Observamos, a partir das considerações de Benjamin (1994) ‘sobre o Conceito de História’, que movimentos sociais friccionam versões para composição da memória social a fim de disputá-la. Por isso, faz-se necessário compreender a dinâmica em que estudantes compuseram uma imagem compilada sobre si mesmos, sob dinâmica de relações públicas em ditos até então não apresentados pelas empresas jornalísticas. Ao pautarem narrativas outras a fim de disputar referências sobre a compreensão das ocupações de 2016, lemos a performance dos estudantes como um exercício de confronto à hegemonia das instituições. Por isso, nos amparamos em Raymond Williams 52 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez (1979) para quem a contraposição de discursos resulta em constante movimento e fricção para produzir compreensões sobre os ocorridos. Esta dinâmica admite, pois, lugar de atenção uma vez que se trata de um complexo realizado de experiências, relações e atividades, com pressões e limites específicos e mutáveis. Isto é, na prática a hegemonia não pode nunca ser singular [...] Além do mais (e isso é crucial, lembrando-nos o vigor necessário do conceito), não existe apenas passivamente como forma de dominação. Tem de ser renovada continuamente, recriada, defendida e modificada. Também sofre uma resistência continuada, limitada, alterada, desafiada por pressões que não são as suas próprias pressões (Williams, 1979, p. 115-116) Durante a pesquisa, observamos que estudantes optaram pelo uso do Facebook para circular conteúdos sob intencionalidades contrahegemônicas. É preciso dizer que muitos são os estudos sobre a adoção plataformas por movimentos sociais no Brasil. Ao compor o estado da arte para desenvolvimento em texto dissertativo, notamos que é comum a construção de conclusões que, por um lado, fundamentamse na valorização da utilização das plataformas para disposição de conteúdo sob motivações e argumentos evocados pela lógica de cidadania inspirados em Castells (2001; 2013), considerando que, de outra forma, não teriam condições de inseri-los na cena pública dos debates; por outro, estabelecem tais constatações sem problematizar as configurações sociotécnicas das plataformas, das redes e das dinâmicas de mediações que convencionam a capacidade real de circulação do conteúdo e que estruturam fenômenos comunicacionais estudados. Partindo desta constatação e mobilizados pela inquietação de ação automática de movimentos sociais na adoção do Facebook como plataforma para construção de imagem pública e disputa de narrativas, empreendemos esforços analíticos sobre as possibilidades e as limitações da plataforma para circulação das publicações e para articulação de redes sociais a partir das performances digitais Organizações e movimentos periféricos... 53 das páginas estudantis em face às dinâmicas sociotécnicas. Nisto, debruçamos atenção ao processo de ocupação deste movimento social na pretensa ‘nova arena pública’ de debates que marca os ideários sobre usos das plataformas no país – com ênfase ao uso de perfis com demarcação contra-hegemônica. 4.1. Metodologia Neste contexto, delimitamos o corpus em torno das seis páginas referentes às incidências estudantis na Universidade Federal do Ceará (@greveestudantilUFC), Universidade Federal do Cariri (@ocupaufca), Universidade Regional do Cariri (@ocupaurca2016), Universidade Federal da Integração da Lusofonia Afrobrasileira (@ocupaunilab) e Instituto Federal do Ceará (@ocupaifce e @ocupartes). Com maior especificidade, somaram-se oitocentas e noventa e sete publicações em análise. Para extração das publicações e das informações a elas inerentes, adotamos a plataforma Netvizz. Elegemos o período de 20 de outubro de 2016 à 18 de janeiro de 2017 – que demarca do registro do primeiro post sobre o assunto nas páginas do IFCE Iguatu ao dia de encerramento da ocupação da Reitoria da URCA – para delimitar um espaço temporal das publicações de interesse no objeto da pesquisa. Diante das informações extraídas, realizamos exercícios analíticos em dois sentidos: no primeiro, adotando o traçado teóricometodológico sobre Análise de Redes proposto por Recuero, Bastos e Zago (2015), identificamos as tessituras de redes constituídas a fim de compormos um mapeamento das teias de relações articuladas entre páginas de ocupações; no segundo, a partir da dinâmica proposta por Bardin (2011) para Análise do Conteúdo, estabelecemos classificações a partir de critérios predefinidos, a fim de conformar categorias analíticas do corpus. 54 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez 4.2. Análises e discussões sobre performance digital Para analisar a performance digital, tomamos a constituição de relações e de redes e as implicações delas decorrentes na intervenção política como elemento investigativo. Assim, nos amparamos nas experiências de Recuero, Bastos e Zago (2015) para tomar pistas diante dos circuitos praticados e pelo qual as informações disponíveis nas páginas entram em circulação. Logo, definimos aplicação metodológica de análise em redes egocentradas dado que são construídas a partir da definição de cada página estudada como elemento central no desencadeamento e na definição do conjunto da rede. Nesta perspectiva, as iniciativas estudantis são o nó principal em associação e em interação com outros agentes em atuação na plataforma. Ao analisar a figuração associativa para tomar notas das conexões monitoradas pela plataforma a fim de identificar a rede social ali construída. Temos, deste modo, a seguinte articulação possível na página @greveestudantilUFC: Gráfico 1. Rede Associativa da página @greveestudantilUFC Fonte: Macêdo Jr (2020) Organizações e movimentos periféricos... 55 Temos 21 nós2 e 37 arestas3 nesta rede social. Cada nó está identificado por cores que dizem respeito à configuração política de cada elemento: os rosas dizem respeito a ocupações estudantis e mobilizações grevistas; os verdes constituem as entidades de representação discente; azul e laranja são sobre sindicatos nas pautas de educação. O tamanho dos nós são proporcionais ao indegree que, assim, representam a quantidade de conexões que um determinado nó recebe. Na página utilizada pelas trinta e quatro experiências de ocupação na UFC, obtivemos um ponto orgânico de interação com outras redes. Percebemos que, pela pluralidade de ocupações descentralizadas na instituição, a página @greveestudantilUFC cumpria papel de unificação do conteúdo e, assim, uma síntese sobre o movimento de ocupações referentes à Universidade. Ao analisar @ocupartes do IFCE em Fortaleza, tivemos uma única interação com a página da ocupação do Instituto de Cultura e Arte da UFC. Esta é a única rede construída entre páginas de ocupações de instituições distintas no Ceará e, nisto, é justo constatar que os esforços de comunicação realizados por estudantes nesta plataforma produziam escassas interações digitais entre si, de modo que o contato entre experiências não aparece na visualização dos grafos. A não observância de relações entre as páginas do Ceará, na medida em que @greveestudantilUFC nutria interação com experiências cariocas e, junto destas, listaram-se entre um grupo seleto de rede social, fazem-nos ponderar duas coisas: a) o Comando de Greve Estudantil da UFC se situava dentro do rol nacional de debates e, por isso, desenvolviam estas relações; b) nesta justa medida, possuía maior responsabilidade com a concretização de uma rede de diálogos e compartilhamento no Ceará. 2 Nós são os pontos de interseção na rede que radicam a expressão de um agente. No caso, uma página de Faceboook. 3 Arestas são os vínculos entre os nós e as pontes que realizam em resultado das interações orgânicas. 56 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez Em todas as outras páginas, a figuração se dá na representação do nó ilhado em torno de si mesmo. A não construção de relações virtuais com outras páginas tornou @ocupaufca, @ocupaurca2016, @ ocupaunilab e @ocupaifce isoladas na circulação de conteúdo e na constituição de uma pretensa coletividade na performance digital. Outra observação importante é que, entendendo a relação de abertura que as ocupações estabeleciam com as empresas jornalísticas e o papel que as páginas cumpriam de relações públicas, elas não estabeleceram circuito de interação com páginas da imprensa. 4.3. Perspectivas sobre a circulação do conteúdo Na primeira classificação, perfilamos as páginas a partir das dinâmicas de postagem e das decorrentes interações virtuais em curtidas, reações, comentários e compartilhamentos que estas acumulam. Esta observação é importante porque nos permite caracterizar o alcance a partir de um panorama total das interações digitais com usuários que articulam a rede social das páginas em análise. Assim, temos: Tabela 1. Métricas por interações virtuais Fonte: Macêdo Jr (2020) Dados os valores, destacamos que likes e outras reações se configuram como a principal modalidade de interação entre usuários e, nisto, um importante indicativo sobre as performances ali praticáveis: em tela, realizam prioritariamente ações estimuladas. Entendendo que Organizações e movimentos periféricos... 57 cada post só pode receber uma única resposta estimulada, adotamos a classificação de interação por clique para designar a somatória dos valores em curtidas e em reações disponibilizadas pela plataforma para as publicações analisadas. Ao dividir os valores de cada prática pelo número total de postagens, temos a interação média por postagem em cada página. Tabela 2. Médias de interação por postagem Fonte: Macêdo Jr (2020) Ao analisar estes números e reforçar o exposto sobre o local de centralidade das ações estimuladas, percebemos, ainda, que comentários não são uma prática instantânea de interação dos usuários. Nisto, as métricas de compartilhamento são mais altas que as de comentários em todos os casos. Esta diferença exponencial nos faz denotar que usuários, ao invés de produzir comentários evidenciando posicionamentos políticos, performam tornando o conteúdo disponível mais visível ao circular na própria bolha4. Esta evidência reforça o caráter de disputa de visibilidade em detrimento de uma pretensa arena de argumentação e de debate. Apenas uma página consegue superar a média de três comentários, vinte compartilhamentos e cinquenta interações por cliques a cada postagem. Considerando que o uso dos canais esteve relacionado ao interesse em disputar narrativas e estabelecer diálogo com a população, 4 São, para Pariser (2011, p. 32), motores de previsão que selecionam conteúdo e dimensionam níveis de interação e circulação de conteúdo em plataformas virtuais. Temos, portanto, a bolha como o nível mais íntimo. 64 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez atenção especial as visualidades, sobretudo fotográficas, na relação que estes nutrem para engajamento e disputa de narrativas na plataforma em estudo – objeto de interesse para trabalhos futuros. Esta relação, entretanto, não é meramente matemática. Por isso, agrupamos por dias o engajamento das postagens no intento de compreender os períodos de fluxo na relação entre páginas e usuários. Gráfico 2. Engajamento alcançado por dia Fonte: Macêdo Jr (2020) Estes dados nos fazem perceber três momentos no fluxo de engajamento: a) o primeiro diz respeito ao período entre 21/outubro e 18/novembro em que se deu o início das ocupações, de criação das páginas, do emprego de overposting e, disso, alto engajamento dos usuários; b) o segundo, referente ao intervalo entre 19/novembro e 11/dezembro que também é atravessado por overposting e é marcado por baixas métricas de engajamento; e c) o terceiro, firmado entre 12/ dezembro e 18/dezembro, marcado pelo período de votação da PEC 55/2016 no Senado que convocou mobilização expressiva nas ruas e suscitou as mais expressivas taxas de engajamento diante de uma tessitura articulada da narrativa. Esta percepção dos fluxos reforça duas análises fundamentais para esta pesquisa. A primeira confirmação onde a adoção de overposting, Organizações e movimentos periféricos... 65 para além da saturação na plataforma e de voltar-se contra a lógica de mediação algorítmica, não é método garantido para engajamento dos usuários. Afinal, como observamos, a adoção da tática foi feita no segundo período por quase um mês e não colaborou de modo direto na disputa de sentidos ou no diálogo com agentes externos ao circuito de ocupações. A segunda é possível diante das experiências: é a ruptura com o cotidiano e o efeito de notícia nas postagens do primeiro e do terceiro período que conferem engajamento dos usuários nas publicações. 5. Considerações finais Primeiro, é preciso observar que a definição do código de mediação algorítmica que regula o relacionamento entre o Feed de Notícias dos usuários e as publicações realizadas em páginas toma forma no Facebook em resultado: a) às métricas orgânicas resultantes de estratégias articuladas e aplicadas para ampliar engajamento e alcance; b) ou por impulsionamentos pagos. Sem estes, a circulação digital na plataforma possui poucas chances de se fazer efetiva. Valente e Pita (2018) destacam na pesquisa Monopólios Digitais que, no Brasil, das cinquenta páginas com maiores métricas de seguidores, trinta e duas são referentes a canais de circulação de conteúdo. Destas, 40% são perfis pessoais de artistas, 21% são de sites – 9% de jornalismo, 6,2% de entretenimento e 5,8% de assuntos outros – 12,5% de programas de TV, 9% de plataformas de circulação de conteúdos, 9% são de canais de TV e 6,2% são de redes de TV aberta. É nesta ambiência que, em 2016, a construção de páginas no Facebook se dava como principal plataforma de comunicação em espaço digital para movimentos sociais no Brasil. Apesar da funcionalidade não compor um artifício apenas dos grandes conglomerados de comunicação e ser largamente utilizado por agrupamentos da sociedade civil, avaliamos, que não conjugam instrumentos de difusão 66 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez de informação para muitas pessoas e tampouco espaços alternativos de comunicação. Afinal, como destacam Valente e Pita (2018, p. 166), estamos diante de um contexto que demanda pesar, “em primeiro lugar, o domínio de referências culturais (como artistas, canais e programas), reforçando atores já de destaque na indústria cultural. [...] Em segundo lugar, a derrubada significativa do alcance das publicações” que fragiliza a constituição de outras referências sociais e as performances digitais promovidas por sujeitos em enfrentamento. Apesar de um cenário desafiador, não é preciso inventar a roda para produzir brechas e alcançar boas métricas de visibilidade para disputa da imagem pública. Na verdade, temos, no exercício moderado de postagens sobre os atos que alteram o cotidiano, da novidade e da urgência das notícias um conjunto de chaves para romper bolhas e alcançar maior engajamento dos usuários na circulação do conteúdo. Foi na assunção do lugar de sujeito que narra o imediato, amparado em estatutos visuais – sobretudo fotográficos – que conferimos credibilidade e circulação nas publicações que tiveram maior circulação no caso analisado. O que provoca engajamento e ativa redes sociais nas plataformas digitais é, por fim, a produção do fato político. Foi apenas nos casos em que este esteve notoriamente evidente – como nas poucas publicações sobre a tomada de ocupação de prédios públicos ou no enfileiramento de cadeiras na Avenida da Universidade para barrar a PEC 55/2016 – que as páginas conseguiram cumprir a intencionalidade de agendar as ocupações sob perspectiva estudantil para um número maior de pessoas – em comparação com o número comum que nutriam. Não é por acaso, ao fim, que temos as páginas analisadas como potenciais espaços memorialísticos – ainda sob questionamentos, dado o caráter privado das plataformas de arquivamento – mas não essencialmente como mecanismos funcionais para disputa de narrativas. Considerando os dados aqui expostos, observamos que @ greveestudantilUFC se insere no rol das disputas de narrativas para um conjunto mediano de pessoas, na medida em que @ocupartes, @ Organizações e movimentos periféricos... 67 ocupaufca e @ocupaurca2016 conseguem alcançar um conjunto restrito e pequeno de pessoas; enquanto @ocupaifce e @ocupaunilab pouco dialogam e estabelecem vínculos de engajamento. Ponderar sobre este panorama reforça a avaliação de que as plataformas digitais de redes sociais não devem ser idealizadas. Como vimos neste estudo, interações, engajamentos e construção de redes não são dados certeiros em ambiências digitais. Ao contrapor as intencionalidades estudantis e as métricas resultantes do uso das páginas de Facebook, é notório – entre pesquisadores e moderadores das páginas aqui discutidas – a fetichização da falsa ideia onde estar conectado é abrir diálogo constante com o mundo, é falar para muitos e sem fronteiras. Neste rumo, nos deparamos com uma crença nutrida pelos movimentos sociais neste período em que a importância das pautas políticas é suficiente em detrimento das estruturas e das dinâmicas sociotécnicas que operam as plataformas, que modulam a performance digital e a circulação de conteúdo. Como vimos, não é. Nos convoca, assim, a mirar com centralidade as dimensões possíveis nestes espaços de natureza privada e que possuem regras previamente definidas que, apesar de ocultadas aos usuários, definem jogos de poder e de visibilidade. Temos, nas experiências discutidas, um apontamento crítico se ponderado sob o enquadramento de prioridade do Facebook como locus para disputa de narrativas. O uso de plataformas digitais sem planejamento estratégico, sem ativação de redes sociais e ausente da constituição de um panorama interventivo para contrapor ideias – características percebidas nos casos evidenciados – não se constituem em ferramenta expressiva para práticas contra-hegemônicas e resulta em baixas métricas de alcance e de engajamento. Ponderamos isto não apenas pelo que faltou em termos de produção, mas pelas próprias características da plataforma que nos fazem caracterizar que se constituem como ferramentas possíveis, não como resoluções de conflitos que perduram por centenas de anos em face a um sistema 68 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez antidemocrático no manejo das políticas de comunicação. Afinal, o exercício de poderes e a concentração dos meios em processos comunicativos se tratam de questões que são maiores e anteriores. A relação idealista aliada ao pouco tato para manejo da ferramenta ocasiona, como expressão pública deste processo, a prática de overposting e a saturação de conteúdos. Sob o arranjo onde postar é se inserir na nova arena pública, o uso popular da plataforma alia-se a disposição desenfreada e desprogramada de conteúdo que, por sua vez, não alcança a finalidade de dialogar sobre o assunto com muitas pessoas – não porque o conteúdo não seja de interesse do outro, ainda que para discordar; mas porque a estrutura da plataforma limita a circulação. É justo ressaltar que existe um reforço teórico e acadêmico, embalado em escritos de Castells (2001), que estrutura o senso comum onde criar páginas de Facebook, em instantâneo, é uma forma automática para se inserir na disputa de narrativas e nas trincheiras das guerras culturais, como observamos ao refletir sobre a falta de critérios para escolha deste espaço por ocupantes nas universidades cearenses. As experiências bem sucedidas no início da década, no que diz respeito ao agendamento social e que resultaram em alta convulsão social nas ruas, não podem ser tomadas como uma constante para justificar a adoção do Facebook para esta finalidade. Avaliações sobre Ocuppy Wall Street, Primavera Árabe e manifestações de junho de 2013 no Brasil, quando se aplicam como resultantes isoladas das plataformas, tendem à falha na análise porque as redes mobilizadas nas plataformas, nesses casos, são reflexos das ruas e não atuam em separado. São componentes da mesma realidade e, por sua vez, não dá para desprezar a conjunção conjuntural dos elementos e faz sentido alocar o papel das plataformas como parte integrante do cenário e não como resposta única. Quanto ao aspecto de chamamento para ação pública – para além dos isolados casos citados – percebemos, de lá para cá, que muitas Organizações e movimentos periféricos... 69 alterações foram realizadas na arquitetura de gestão dos dados para coibir esta possibilidade. Por isto, a defesa de uma suposição democrática nas plataformas é uma via turva dado que transformações sociais não dependem exclusivamente do universo digital – que, por sua vez, não se propõem e nem se orientam a este fim. Queremos, com isso, dizer que postar não garante uma boa performance de circulação do conteúdo e que as ditas ‘brechas midiáticas’ que amparam expectativas de circulação de muitos produtores de conteúdo contra-hegemônico frente à possibilidade idealizada de difusão de ideias para muitos não é uma ação de resultado certo e imediato em plataformas digitais. Não é, entretanto, impossível. A possibilidade de furar a bolha e de obter engajamentos carece de esforços táticos, tecnológicos e, sobretudo, narrativos a serem explorados considerando as complexas estruturas que edificam as plataformas e que orientam as relações ali possíveis. Trata-se de conhecer e de valorar as possibilidades reais do terreno para erguer planos e estratégias que otimizem os esforços em resultados. Referências Benjamin, Walter. (1994). Magia e Técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Brasiliense, Bruno, F. (2008). Monitoramento, classificação e controle nos dispositivos de vigilância digital. Revista FAMECOS, 36 (1). doi.org/10.15448/19803729.2008.36.4410 Bruno, F. Dispositivos de vigilância no ciberespaço: duplos digitais e identidades simuladas. (2006). Revista Fronteiras Estudos Midiáticos, 7 (2). revistas. unisinos.br/index.php/fronteiras/article/view/6129 Castells, M. (2012). Redes de Indignación e Esperanza. Alianza Editorial. Castells, M. (2001). A sociedade em rede. Paz e Terra. Datasenado. (2009) Redes Sociais, Notícias Falsas e Privacidade de Dados na Internet. Senado Federal e Câmara dos Deputados. Gohn, M. (2017). Manifestações e Protestos no Brasil: Correntes e contracorrentes na atualidade. Cortez Editora. Marcuse, H. (1999). A grande recusa, hoje. Vozes. 70 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez Macêdo Jr, D.. (2020). Das ruas às redes: disputa de narrativas e de memória em tempos de mediação algorítmica sobre as ocupações universitárias de 2016 no Ceará. 2020. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social – Instituto de Cultura e Artes, Universidade Federal do Ceará. Pariser, E. (2011). The filter bubble: what the internet is hiding from you. The Pinguim Press. Recuero, R; Bastos, M; Zago, G. (2015). Análise de redes para mídia social. Sulina. Silva, A. (2006) Do ciber ao híbrido: tecnologias móveis como interfaces de espaços híbridos. IN: Araújo, D. (org). 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Organizações e movimentos periféricos... 71 Crise, Europa e cartoons: elementos para uma semiótica da identidade europeia no ciberespaço Daniel NOVERSA CECS-Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS), Universidade do Minho [email protected] Rita RIBEIRO CECS-Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS), Universidade do Minho [email protected] Resumo Este capítulo visa fazer uma análise da (crise da) identidade europeia através de um conjunto de cartoons coligidos a partir da rede social Facebook, na tentativa de compreender as narrativas produzidas acerca da União Europeia atravessada por eventos críticos mediatizados, designadamente a crise migratória ou dos refugiados e o Brexit. As representações visuais analisadas revelam a complexidade das narrativas identitárias que circulam nesta rede social sobre a Europa, ao sinalizarem contradições, impasses e ameaças da integração europeia na última década, mas também promovem a construção de identidades reflexivas, isto é, ancoradas na relação prática dos europeus com o projeto da União Europeia. Palavras-Passe: Identidade europeia; Facebook; cartoons 72 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez Abstract This chapter aims to analyze the European identity (crisis) through a set of cartoons collected from the social media Facebook in order to understand the narratives produced about the European Union, crossed by mediatized critical events, namely the migratory’s crisis or refugees, and Brexit. The analyzed visual representations, reveal the complexity of the identity narratives about Europe to circulate on this social media, by pointing out contradictions, impasses, and threats of the European integration in the last decade. However, they also promote the construction of reflective identities, that is, anchored in the practical relationship of the Europeans with the European Union project. Key-words: European identity; Facebook; cartoons Resumen Este capítulo tiene como objetivo analizar la (crisis de) identidad europea a través de un conjunto de cartoons recogidos de la red social Facebook, en un intento de comprender las narrativas producidas sobre la Unión Europea atravesadas por hechos críticos mediatizados, a saber, la crisis migratoria o los refugiados y Brexit. Las representaciones visuales analizadas revelan la complejidad de las narrativas identitarias que circulan en esta red social sobre Europa, al señalar contradicciones, impasses y amenazas a la integración europea en la última década, pero también promueven la construcción de identidades reflexivas, es decir, ancladas en el relación práctica de los europeos con el proyecto de la Unión Europea Palabras clave: Identidad europea; Facebook; Cartoons Organizações e movimentos periféricos... 73 A saga da europeização não é só contada por nós, académicos; faz parte da forma como a sociedade se interpreta a si mesma; é a história de todos nós. Hans-Jörg Trenz (2014, p. 10) 1. Aproximações à questão Apesar de há seis décadas a União Europeia se ter constituído como um espaço de pertença de cidadãos livres em direitos e como uma entidade política corporizada em instituições, nas últimas duas décadas, ela vem sendo atingida por experiências críticas que têm intensificado as incertezas quanto à sua ordem política e normativa, e revelado as antinomias da europeização (Stråth, 2019; Trenz, 2014). Desde logo, assiste-se a um estrépito que vem fragmentando os discursos legitimadores na esfera pública, onde opiniões e Estados se dividem em matérias de diverso teor, tais como o Brexit, a crise migratória ou dos refugiados, as eleições europeias, etc. E, numa altura em que, diariamente, a informação é facilmente recebida e partilhada graças aos sofisticados meios de comunicação social e através das redes sociais digitais, sobretudo Facebook e Twitter, torna-se particularmente importante analisar o quanto essas opiniões, mensagens e signos partilhados têm concorrido para a consciencialização e debate público europeu. Vistas como plataformas com potencialidades na concretização de práticas de cidadania, as redes sociais revelam-se como meios propícios para uma livre expressão de opiniões e, por isso, são fortemente suscetíveis para o questionamento político e a crítica social. Alguns autores consideram-nas “como arenas particularmente promissoras para a contestação da solidariedade por parte dos cidadãos” (Trenz et al., 2020, p. 150). Deste ponto de vista, tornam-se espaços mais 80 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez Figura 1. Abandon Ship, cartoon da autoria de Ben Garrison Fonte: Publicado no Jornal Público e partilhado através da sua página do Facebook, a 30-04-2017, https://bit.ly/3nRECNw Esta ilustração é bastante rica e representativa do ambiente de tensões e conflitos que se vive no seio da União Europeia, sinalizando um certo caos na organização e funcionamento das instituições que se vem revelando desde a crise financeira de 2008. A imagem condensa múltiplas leituras, porventura, as mais evidentes (para lá do Brexit) são a da união económica fragilizada pela pressão do mercado de distribuições desiguais entre os Estados-membros e com consequências sociais e económicas tempestuosas para os países da Zona Euro (em particular, destaca-se o caso da dívida grega); por outro lado, temos uma União Europeia composta de instituições tecnocráticas e refém de procedimentos que dificultam a tomada democrática de decisões, desde logo pelo domínio assumido pela Alemanha. Um exemplo disto foi a resposta negligente e inoperante dos líderes da União às vagas migratórias que em 2015 se dirigiam para território europeu. Este Organizações e movimentos periféricos... 81 acontecimento agravou mais o estado da União por eclodir numa altura em que os países da Zona Euro tentavam ainda recuperar da recessão económica. Para além das dimensões política e económica, o cartoon deixa também pistas acerca dos debates culturais e ideológicos, nomeadamente ao colocar a bandeira com o símbolo do Islão a encimar a bandeira da UE, ao aludir à ameaça do “politicamente correto” e ao falhanço dos “globalistas”. Da análise do cartoon acima emerge uma narrativa que sublinha a ameaça das convulsões intraeuropeias e descreve a Europa perdida na sua deriva identitária, uma interpretação que as análises subsequentes ajudarão a esclarecer. 3.1. O Brexit e os seus impasses O ano de 2016 foi decisivo para o rumo do projeto da União Europeia, quando o referendo no Reino Unido ditou a vitória do patriotismo ao invés do europeísmo. Este desenlace não foi de todo surpreendente, até porque, durante a campanha para o referendo, já se vinha a notar o alheamento e desconhecimento dos britânicos para com a política europeia e o funcionamento das instituições da UE. Mais profundamente, o relacionamento do país com a comunidade europeia, desde a sua adesão em 1973, sempre se mostrou descomprometido com o projeto histórico-identitário, o que leva alguns autores a afirmar que “as identidades europeia e britânica foram frequentemente vistas como incompatíveis” (Leith et al., 2019, p. 560). O voto pela saída veio confirmar o compromisso frágil do Reino Unido com a UE, mais acentuado por uma longa campanha de desinformação levada a cabo pelos média de tendência tabloide e populista. Logo após este desfecho histórico, o Brexit (assim designado e difundido pelos média para identificar sucintamente o processo de saída) viria a ser matéria de muitas capas e artigos de jornais, que reverberariam nos comentários nas redes sociais onde se polarizavam as opiniões entre europeístas e anti-europeístas. 82 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez O resultado do referendo levou David Cameron, primeiro-ministro na altura, a renunciar ao cargo, assumido pouco tempo depois por Theresa May, que dali em diante tinha o papel de guiar os destinos do país e negociar o acordo que definisse as condições de saída e as futuras relações entre o Reino Unido e a União Europeia. A 29 de Março de 2017, o governo britânico notifica o Conselho Europeu sobre o seu desejo de saída da UE, acionando o artigo 50º do Tratado de Lisboa, que define o procedimento que permite a um Estado-membro retirar-se da União Europeia6. O cartoon da figura 2 ilustra como a preparação da saída do Reino Unido tem sido encarada pelos dois lados. A União Europeia é representada pela figura da mitologia grega que deu nome à Europa, acompanhada do touro em que se teria disfarçado Zeus para a conquistar, mas aqui domesticado e plácido. Europa segura a porta por onde se espera que o Reino Unido faça uma “saída limpa”, como foi frequentemente referida pelos líderes políticos, que salvaguardasse as expectativas de ambas as partes. Apesar de bem assinalada a porta do Brexit, Theresa May faz uma saída apressada, imprevista e insensata, derrubando a parede e deixando estupefacta a parceira europeia. Precisamente, no decurso das negociações, a União Europeia manteve sempre posições claras e consistentes, num excecional exemplo de coesão entre os Estados-membros. 6 Para saber mais sobre o processo, aceder ao link: https://ec.europa.eu/commission/presscorner/detail/ pt/MEMO_17_648 Organizações e movimentos periféricos... 83 Figura 2.“Brexit”, cartoon da auroria de Marian Kamensky Fonte: Partilhado na página de Facebook de Stand Up for Europe, a 08-04-2018, em https://bit. ly/33L8D8y Incapaz de negociar um acordo comercial que fosse aprovado pelo parlamento britânico e sob o fogo do seu próprio partido, Theresa May desonera-se do cargo de primeiro-ministro, em 2018, vindo a ser substituída nas eleições seguintes por Boris Johnson. Com mais recuos de que avanços, as negociações do acordo para o Brexit criaram instabilidade governativa, fazendo até pairar a ameaça de desmembramento do país, com a possibilidade de independência da Escócia, cuja população expressou, no referendo, vontade de manter a integração na UE. Tal como no cartoon anterior, também na ilustração da figura 3 a União Europeia é identificada com a ponderação, sabedoria e paciência de um mestre que castiga benevolamente um discípulo infantil e travesso. 84 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez Figura 3. “Britain must try harder”, cartoon da autoria de Harry Burton Fonte: Partilhado na página de Facebook de Stand Up for Europe, a 03-09-2018, em https://bit. ly/2EtPIqk Perante sucessivos impasses nas negociações do acordo de saída e as diversas tentativas por parte do Reino Unido de contornar as obrigações e consequências da decisão, a mensagem é clara: “A GrãBretanha [Reino Unido] tem de esforçar-se mais” ou não se encontrará terreno de entendimento que minimize os efeitos da drástica separação do bloco político, económico e institucional comunitário. 3.2. O dilema das migrações Desde a década de 1950, o continente europeu tornou-se um porto de chegada para milhões de migrantes. Os fluxos de imigração intensificaram-se no século XXI, acompanhados da crescente resistência da opinião pública, do impulso de partidos anti-imigração e de políticas efetivas de fechamento das fronteiras a estrangeiros de países terceiros. A este cenário acrescentou-se o fluxo de refugiados Organizações e movimentos periféricos... 85 que, sobretudo a partir de 2014, chegava às fronteiras europeias, sendo a maioria em fuga da violenta guerra civil síria. A “crise dos refugiados”, como foi comummente designada, reportou-se antes de mais à crise que se instalou entre os países da União Europeia em face da sua incapacidade para lidar em sintonia com a grave situação que representava a chegada em massa de pessoas em busca de proteção. É precisamente este o acento colocado nos cartoons que de seguida se analisam. Uma resposta adequada à crise humanitária na UE exigia da parte dos Estados-membros solidariedade para com os países que, tendo fronteiras externas, recebiam os refugiados. Para que isso acontecesse, era necessário consensualizar medidas políticas que configurassem uma visão comum para o problema e para as soluções. Em lugar disso, foram as fraturas internas que emergiram: de um lado, os países que assumiam a responsabilidade de acolhimento e abriram portas aos que procuravam refúgio; do lado oposto, os países que fecharam fronteiras e rejeitaram terminantemente políticas de recolocação dos refugiados; na linha da frente os países mediterrânicos que viam chegar às suas costas milhares de pessoas que tinham de ser acolhidas em campos de refugiados, e que arcaram com os grandes custos económicos, sociais e políticos. Precisamente, o cartoon da figura 4 faz uma leitura crítica, contraintuitiva até, da situação: a perturbação não é trazida pelos refugiados, mas são os países da UE que a provocam. 86 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez Figura 4. Sem título, cartoon da autoria de Luc Vernimmen Fonte: Partilhado na página de Facebook de The Cartoon Movement, a 20-09-2016, em https://bit.ly/33YWoGA À mesa das negociações, vemos os líderes europeus alarmados e tentando, cada um por si, “sacudir” a ameaça trazida numa barca frágil que pode soçobrar com o embate de uma pequena onda. Se no Mediterrâneo as águas alteradas levam ao naufrágio de milhares de vidas entre os que arriscam a travessia, no continente são as ondas desencontradas entre os países europeus que criam a convulsão e põem em risco tanto as populações em migração forçada quanto a própria união da UE. Organizações e movimentos periféricos... 87 Figura 5. “I see. Identity crisis…”, cartoon da autoria de Chappatte Fonte: Partilhado na página de Facebook de European Art, a 06-10-2018, em https://bit.ly/2FWqH7B O cartoon da figura 5 retoma o tema. Num cenário que remete para uma sessão de psicanálise, o paciente que encarna a UE, em estado angustiado, fala ao terapeuta dos refugiados que chegam em barcos abarrotados, podendo deduzir-se a sua origem em países islâmicos pela cabeça coberta das mulheres. O terapeuta parece não ter dúvidas quanto ao diagnóstico: crise de identidade. Neste cartoon sobressaem duas linhas de leitura. A mais evidente denuncia o pânico que o intenso fluxo de refugiados causa às instituições de liderança da UE, ecoando aqui os problemas de definição e operacionalização de políticas comuns para o acolhimento da massa humana que chega e os riscos de enfrentar uma opinião pública dividida quanto ao apoio a políticas de “portas abertas”, matéria muitas vezes aproveitada por grupos políticos extremistas que descrevem a situação como uma ameaça existencial para Europa, uma “invasão” por povos de matriz cultural inconciliável com a europeia, quando não mesmo como uma oportunidade de entrada de terroristas. Todavia, o pânico ou a angústia que o paciente deixa transparecer na ilustração, pode estar ligado a um mal-estar que Zygmunt Bauman (2007, p. 186) designou de proteofobia, para se referir a um “mal-estar de situações em que nos 88 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez sentimos perdidos, confusos, sem meios”, enfim, um sentimento de inaptidão que surge na falta de regras de conduta que auxiliem a gestão e ordenação do espaço social dos Estados modernos, hoje, cada vez mais multiétnicos em virtude das intensas migrações contemporâneas. A segunda linha de leitura é de natureza reflexiva. O terapeuta, da distância do seu olhar clínico e imparcial, não vê o fenómeno na sua dimensão geopolítica, mas desce a algo mais profundo no seu paciente e arranca daí uma crise de outra natureza, porventura “recalcada”, para usar os termos esperados numa sessão de psicanálise. Que crise de identidade é essa? O fluxo de refugiados confronta a UE com as antinomias entre os seus valores e fundamentos e as práticas da realpolitik. No centro da crise identitária parece estar em questão o valor central de solidariedade ou, melhor dizendo, o exercício de “solidariedade diferenciada” (Michailidou & Trenz, 2018) que se instalou nas práticas dos atores políticos da UE. Por um lado, o quadro em que ocorre o fluxo de migrantes é o de uma grave crise humanitária, com foco na guerra civil síria, mas com outros pontos de partida também marcados por conflitos violentos que afetam severamente populações civis do Médio Oriente e de África. A recusa de acolhimento a estas pessoas significaria uma violação do direito internacional (que, pela Convenção de Genebra de 1951, consagra a proteção dos refugiados) e uma rejeição inédita e cínica dos valores estruturantes da União Europeia consagrados nos seus Tratados: a dignidade do ser humano, a defesa dos direitos humanos, a garantia do Estado de Direito, a promoção da paz – portanto, conflituaria com os valores fundamentais da UE. Por conseguinte, os líderes da União Europeia incorreram numa adiaforização (Bauman, 2007, p. 155), ao terem tratado o fenómeno dos refugiados como uma categoria indiferente de avaliação moral. Isto é, numa altura que se urgia o consenso entre o coletivo europeu, alguns Estados-membros viriam a renunciar parcialmente aos princípios político-doutrinários plasmados nos seus tratados. Organizações e movimentos periféricos... 89 É neste sentido que a crise identitária, por outro lado, resvala para o campo das relações internas entre Estados-membros, na medida em que a “crise dos refugiados” atinge fortemente o princípio fundamental da solidariedade, que pressupõe a unidade, a coesão e a consensualização de soluções face a problemas comuns ou que afetem de modo particular algum(ns) Estado(s)-membro(s). Ora, as divergências entre países quanto à urgência de um acolhimento digno dos que procuravam refúgio e ao modo de distribuir essa responsabilidade por todos os Estados-membros acentuou o sentimento de crise identitária, que, na verdade, vem acompanhando a UE pelo menos desde a crise financeira e económica na segunda década do século. Esta responsabilidade desigual que acabamos de enunciar é, porventura, consequência da fragmentação das ações políticas e dos princípios éticos que caracterizam a condição pós-moderna dos sujeitos e das instituições democráticos, na medida em que, no meio dessa “ambivalência irremediável e inexpiável” e da polifonia de vozes “muitas vezes divergentes e de lealdades conflituais e instáveis”, os cidadãos e as instituições são “forçados a enfrentar a sua autonomia moral e, do mesmo modo, a sua responsabilidade moral” (Bauman, 2007, p. 53), mesmo que isso acarrete uma maior volubilidade das relações sociais, uma desvalorização de certos valores fundamentais nas práticas e o desemprego de um princípio ético regulador e de autoentendimento, dentro e entre as instituições dos Estados modernos. Nota conclusiva Da análise da pequena seleção de cartoons aqui desenvolvida podemos concluir que as narrativas mediáticas – visuais, neste caso – que se vêm configurando acerca da integração europeia estão em estreita consonância com a constelação de crises instalada no espaço europeu. Com visões mais positivas ou mais negativas, os desenhos dos artistas fazem notar a anomia política na governança da UE, as respostas 96 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez envolvidos, ou seja, com “enfase nos processos e significados” (Garcia e Quek, 1997, p. 451). Tendo em conta a interdependência dos contextos offline e online (Simões, 2012) do evento, valemo-nos do que alguns autores apelidaram de “netnografia”: A etnografia é um método de investigação oriundo da antropologia, que reúne técnicas que munem o pesquisador para o trabalho de observação, a partir da inserção em comunidades para pesquisa. (…) A transposição dessa metodologia para o estudo de práticas comunicacionais mediadas por computador recebe o nome de netnografia, ou etnografia virtual. (Amaral, Natal e Viana, 2008, p. 35) A nossa pesquisa serve-se ainda de entrevistas em profundidade e da investigação-ação. Além de termos acompanhado a última batalha de 2019, desde a sua preparação à realização, presenciamos uma reunião da organização onde posteriormente conduzimos entrevistas, incluindo as perspetivas dos organizadores pós período crítico da Covid-19 no país.7 Além de vários membros da organização (Dimas, Igor Rosado, MCEL e Scardini), realizamos outras entrevistas com MCs (Feijó, Guerra, L.Brau e Noventa). Tanto no contexto da batalha de rima e na visita ao Espaço Hip-Hop no centro de Vitória, foram recolhidas informações através de comunicações pessoais. Desta forma agradecemos aos contributos de Dudu du Rap (Suspeitos na Mira), DJ Eric Jack e Lilitu Liu durante a visita ao Espaço Hip-Hop, assim como ao Gael (MC e organizador da BDA) e Gabriel Araú (ex-membro da organização da BDA). 3. Brasil enquanto palco de batalha Quando o tema é o hip-hop, Bronx está para os Estados Unidos como São Paulo está para o Brasil. Na segunda parte da década de 1980, a Galeria 24 de Maio e a estação de Metro São Bento foram locais de convívio dos 7 A última BDA de 2019 aconteceu no dia 27 de dezembro, enquanto a reunião da organização e todas as entrevistas mencionadas neste estudo se deram no dia 7 de janeiro de 2020 e 2 de novembro de 2021. Organizações e movimentos periféricos... 97 primeiros integrantes da cultura. Pela influência da música ou cinema, o hip-hop começou a criar raízes no Brasil, deslocando identidades e alterando auto-estimas de jovens da periferia. Quando o rap brasileiro já tinha dado frutos e lançado carreiras, como a dos Racionais MCs, o Rio de Janeiro começou a afirmar-se como terreno propício aos freestyles – improvisos de rimas (Vieira da Silva, 2018; Alves & Santos, 2019). Foi em 2003 que a Batalha do Real viria a ser o palco para aqueles que queriam testar suas capacidades no improviso. O nome remete para o valor de entrada a ser pago por cada MC que quisesse participar. O vencedor receberia o montante total no final do evento. As batalhas de rimas viram vários desdobramentos pelo Brasil e deu lugar a novos movimentos. A Liga dos MCs, criada durante o mesmo ano que a Batalha do Real no Rio de Janeiro, tornou-se numa referência nacional e competição com edições anuais. Esta pausaria sua atividade em 2010 e viria a ser reanimada em 2012, em Belo Horizonte e com nova organização, sob o nome Duelo de MCs Nacional. Atualmente os MCs precisam de se qualificar em várias fases, desde etapas locais a estaduais e regionais. O estado do Espírito Santo (ES) concorre com o Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais por duas vagas. Por outras palavras, poderão acontecer edições sem MCs de um destes estados. Em 2017 o ES já produziu um campeão nacional, o César MC. As batalhas de rima começaram a ganhar forma no Espírito Santo no início dos anos 2000. L.Brau, membro do grupo Suspeitos na Mira, esteve entre os organizadores. A primeira aconteceu em sua casa, quando quatro MCs foram convidados para uma batalha experimental. Esta ficaria mais tarde conhecida como a Batalha Interna da BSP. Satisfeitos com o desfecho, organizaram um evento na rua no bairro Andorinhas, em Vitória. O desdobramento de projetos continuou até ao ponto em que várias batalhas eram organizadas em paralelo na cidade. Durante a mesma época, colaborações inter-estaduais também se tinham iniciado: 98 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez (…) a Batalha Interna gerou outros movimentos. Começamos a fazer batalhas na rua, aí depois começou a ficar sério. Aí começamos a fazer o quê?! A fazer intercâmbios. Quem eram os caras do Brasil? Eram os da Brutal Crew, que faziam a Batalha do Real, Liga dos MCs. Aí nós começamos a trazer esses caras para vim aqui para fazer a batalha com nós. Tipo, chegamos a fazer desafio Rio-Vitória em 2003. (L.Brau, MC integrante dos Suspeitos na Mira) Iniciativas como a Escola de Rima e o Projeto Boca a boca derivaram do movimento inicial e, embora a BDA tenha começado em abril de 2018, o evento acaba por ser resultado do fenómeno de proliferação de batalhas, uma vez que segue aproximadamente a mesma estrutura da competição nacional. Mas em quê que consiste realmente uma batalha de rimas? 4. Rounds de sangue, gritos de guerra e a BDA Embora também existam as batalhas do conhecimento, uma modalidade que privilegia a criatividade do MC ao improvisar sobre um determinado tema ou termo, as batalhas de sangue são as mais populares. Apesar da nomenclatura, e do objetivo destes duelos ser mostrar superioridade através da diminuição do outro (do ataque), contato físico agressivo é expressamente proibido. Atualemnte os dois tipos de duelos mais populares são: o “tradicional” e o “bate e volta”. Ambos divididos, no máximo, por três rondas (rounds). Os improvisos podem ser acompanhados de um instrumental (beats), de beat box (percussão vocal) ou acapella (sem acompanhamento). No duelo tradicional, o MC possui cerca de 30 ou 40 segundos8 para formular seu ataque improvisado, dando ao oponente o posterior direito de resposta. O apresentador pede ao público para votar, segundo os seus critérios, no participante com o 8 Não é incomum os MCs desrespeitaram o tempo da sua vez e improvisarem dois, ou até quatro versos acapella adicionais. Organizações e movimentos periféricos... 99 melhor desempenho. O voto da plateia é exercido após o moderador pedir barulho, normalmente palmas, gritos e assobios, para cada um dos MCs envolvidos. E assim se constitui um round. O vencedor da batalha é aquele que conseguir ganhar dois rounds. Por outras palavras, um terceiro apenas acontece em caso de empate. Por vezes, quando a votação se mostra equilibrada, o apresentador pede ao público para que se manifeste ao levantar a mão. Há registo de batalhas que, devido à falta de consenso sobre o vencedor, progridem para o quarto round (em entrevista a L.Brau). No caso do modelo bate e volta, cada MC improvisa quatro versos intercaladamente até que os dois o tenham feito quatro vezes. Este modelo é muitas vezes considerado mais exigente devido ao pouco tempo que o MC dispõe para elaborar uma resposta. Rounds bate e volta são comuns para desempatar batalhas tradicionais. Será relevante destacar que as batalhas podem compreender mais do que dois MCs, isto é, se tratarem de duplas ou trios. No que diz respeito ao conteúdo, os MCs tentam diminuir o oponente, normalmente com rimas de cunho humorístico. Enquanto ofensas são frequentes, metáforas, comparações e associações inteligentes entre palavras e ideias são bastante apreciadas. De facto, no caso da BDA, os organizadores são da opinião que o nível de intelectualidade dos rappers no ES é um dos diferenciais do movimento (Gabriel Aráu, comunicação pessoal, dezembro 27, 2019). Além de moderar a batalha, o apresentador também desempenha o papel de entusiasmar e captar a participação do público. De certa forma, esta acaba por ter a mesma função que um MC exercia em Bronx nas primeiras festas de hip-hop (Gravato, 2017). No dia da batalha que presenciamos, Feijó era o responsável por essas dinâmicas. Além de interagir com o público, promovendo a participação, Feijó também usava cânticos/“gritos de guerra” entre os rounds. Estes não são exclusivos ao apresentador, sendo que qualquer membro da roda pode iniciar um. Na Batalha do Atlântica identificamos três tipos de intervenções: 100 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez 1. O primeiro é de caracter generalista e sempre aborda a cultura hip-hop como um todo. Na BDA ouve-se muitas vezes o seguinte: “Se tu ama essa cultura como eu amo essa cultura grita hip-hop, hip-hop”. O mesmo cântico pode ser ouvido em outras batalhas pelo país. 2. O segundo tipo de intervenção caracteriza-se pela tentativa de aumentar o clima de competitividade das batalhas. Quando o público identifica uma boa punchline (verso de ataque) ou reconhece um MC pela qualidade do seu round, por exemplo, é comum ouvir os demais cantarem “ai eu não deixava… ai eu não deixava”. A ideia é estimular o MC que se segue a ter um bom desempenho. 3. Por fim, existem as intervenções de cunho político ou social. Na última batalha do ano ouviram-se duas. A primeira foi iniciada por uma MC que estava a batalhar e entre rounds decidiu criticar Jair Bolsonaro, o presidente do Brasil. A segunda veio da plateia e abordou a poluição provocada pelo pó de minério libertado pela siderúrgica Vale S.A.. Este problema atinge em particular o bairro de Jardim Camburi, onde acontece a BDA. É curioso notar que o Atlântica Parque, local onde se organiza o evento, foi financiado pela própria Vale. 5. A internet como ferramenta da batalha Um dos objetivos deste estudo era entender as diretrizes seguidas pela organização da BDA, e como ela se identifica. No entanto, antes de abordar o conteúdo das entrevistas, parece-nos interessante retratar a relação desta comunidade com a internet. O seu uso é transversal à BDA. Assim, e mesmo se tratando de um evento que decorre no espaço público, não será razoável ignorar a sua componente online. Identifiquemos então a utilização da internet em seus três principais estágios: na preparação da batalha, no acontecimento e na repercussão pós-evento. Organizações e movimentos periféricos... 101 A organização da batalha já começa na internet. Aplicações de conversação como o WhatsApp ou o Messenger servem para combinar os encontros antes do evento, ou para discutir assuntos relacionados a ele. Nós mesmos os usámos para, horas antes da batalha, nos encontrarmos com Gabriel Aráu na casa de Noventa, considerado um dos MCs mais promissores no estado do Espírito Santo. Este último gravou vídeos para as suas redes sociais (stories para o Instagram) enquanto caminhávamos em direção ao ponto de encontro, a residência de Dimas. Dimas, 29 anos, é organizador geral da BDA, sendo que por vezes exerce a função de apresentador da mesma. Também é MC e responsável pelo canal de YouTube, o qual serve de repositório para os vídeos das batalhas. A troca de mensagens via online continuou até formarmos um pequeno grupo, o qual mais tarde ingressaria num autocarro (ónibus) que nos levaria do bairro Caratoíra ao Atlântica Parque, no bairro Jardim Camburi. Qualquer das práticas supracitadas acontece no que Pierre Lévi (1999) considerou o virtual, no seu sentido informático, uma vez que elas estão ligadas “à digitalização da informação, e à comunicação interativa, sem barreiras geográficas, no ciberespaço.” (Gravato, 2017) Estas dinâmicas de comunicação mediadas pela internet não se encerram no espaço da batalha. Além disso, membros do público usaram seus smartphones para tirar fotos e gravar vídeos. O uso de ferramentas digitais disponibilizadas por redes socais como Facebook e Instagram é diverso, porém, o entretenimento, a informação e a interação social estão entre os mais comuns (Tosun, 2012). Embora não seja o foco deste trabalho, seria relevante entender a motivação na captação e publicação de vídeos e imagens desta comunidade através da teoria U&G: trocar parágrafo por “A estrutura U&G classifica diferentes usos com base em vários tipos de gratificação ou motivação recebida de um determinado meio, como TV, Internet, smartphone ou serviços e aplicativos online, como Instagram ou Facebook. A U&G assume que os usuários de media escolhem ativamente uma mídia ou um serviço online, dependendo do que eles consi- 102 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez deram adequado para satisfazer determinadas necessidades de utilizadores, como a necessidade de informação, entretenimento ou socialização” Membros da organização da BDA habitualmente gravam vídeos das batalhas, para posteriormente serem publicados nas redes sociais do projeto. Esses vídeos geram novas conversações, as quais facilmente podem decorrer fora dos canais oficiais da BDA. Desta forma, os acontecimentos da batalha são recontextualizados no meio online, tanto para o consumo daqueles que não os acompanharam ao vivo, quanto para aqueles que os desejam relembrar. E é pelo novo contexto que se negoceiam os pontos de situação de interação (Goffman, 2001, em Recuero 2014): Um dos elementos fundamentais para compreender aquilo que é dito nas conversações no ciberespaço é o contexto. Todo ator envolvido em uma conversação precisa ser capaz de negociar, construir e recuperar o contexto, que vai formar o pano de fundo sobre o qual as conversações acontecem. Sem esse contexto, é impossível compreender toda a dimensão da conversação no ciberespaço. (Recuero, 2014, p.95) E o que era da rua vive agora também na internet. Este é um momento-chave para “a modelação de uma cultura totalmente diferente da cultura que marcou a modernidade, com clara influência nos modos de vida e nos imaginários sociais”. (Maffesoli & Martins, 2011) A exposição das batalhas nas redes traz novas dinâmicas de comunicação. Além da organização da BDA, os MCs envolvidos também ficam expostos e precisam agora de entrar na negociação, ou o contexto será ditado inteiramente pelos utilizadores. O “rapper comunicador” (Gravato, 2017) tornou-se numa realidade principalmente após a proliferação de plataformas de streaming como Myspace e YouTube, que possibilitaram a divulgação gratuita de músicas e vídeos. Desta forma,: Todo o MC que decidir carregar seu conteúdo na internet, seja ele um vídeo, música, fotografia ou participar de uma simples discussão, será confrontado com variados tipos de repostas dos outros utilizadores. Desabilitar a Organizações e movimentos periféricos... 103 possibilidade de uma pessoa comentar um vídeo no YouTube, ou simplesmente ignorar o retorno dos ouvintes no Facebook podem ser vistas como opções válidas para os MCs, porém, estas práticas não anularam o início de uma conversa entre utilizadores num outro espaço. (Gravato, 2017) Como já foi referido, entrevistamos a organização da BDA e MCs que costumam integrar a roda. Iremos agora analisar os dados recolhidos nessas entrevistas para tentar compreender questões como o planeamento e missão do evento, assim como a sua percepção quanto à imagem que a sociedade possui sobre as batalhas. 6. A organização, a internet e o sonho da profissionalização Uma particularidade comum ao pano de fundo dos organizadores é a sua pluralidade. A equipa é composta por adolescentes e adultos, de vários bairros e cidades, com diferentes áreas de interesse, religiões e formação. O rap e as batalhas são, no entanto, o elo que os une. Na BDA, todos parecem fazer um pouco de tudo, embora algumas atribuições sejam exclusivas de alguns membros. E ainda que nem todos sejam MCs, aqueles que se envolvem com o projeto falam de um bem-estar generalizado, de uma consciencialização social e sentimento de pertença: É um alimento mais espiritual. Me sinto bem! É um dos poucos entretenimentos que me dá vontade de conhecer mais. A batalha é muito mais que uma batalha. Me deu uma consciência de humanidade. Uma consciência de enxergar o que uma pessoa passa. Alguém da Mata da Praia9 não sabe o que é deixar de comer para ir para uma batalha. (…) Pra mim foi um estalo. Eu continuo na batalha por causa desse estalo. (Igor Rosado, 21 anos, logística e tesouraria da BDA) Eu trabalho com sonhos”, disse Dimas quando questionado sobre o que pessoalmente extraía deste projeto. Pela organização do evento, pela 9 Mata da Praia, onde Igor reside, é um bairro de classe média-alta em Vitória. O organizador da BDA mencionou o local para contextualizar a “bolha” social que o rodeia. 104 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez divulgação das batalhas nas suas redes sociais, ou por outras questões relacionadas, Dimas referiu uma gratificação pessoal por poder contribuir para a carreira dos MCs. Já Scardini, de 21 anos, organizador que atua como um relações-públicas e elabora as chaves dos torneios, destacou a sua satisfação de “dar ao público o que ele quer”. O organizador mencionou a batalha entre Dudu e JayA Luuck10, como exemplo de uma que tinha sido antecipada não só pelo movimento estadual, mas também nacional. Além da celebração da cultura hip-hop, a organização vê a Batalha do Atlântica como uma plataforma de gerar oportunidades para os MCs, especialmente para os locais. Aliás, encontrar formas de impulsionar os MCs locais foi um dos tópicos discutidos na reuinião da organização que presenciamos. E tal está alinhado com o que parece ser um dos principais objetivos do projeto – a profissionalização do MC de batalha. Scardini é da opinião de que a inexistência de uma indústria sólida em torno das batalhas de rima, e do baixo retorno financeiro para os MCs, são as razões que levam estes a migrarem para a música ou ao simples afastamento. Dimas fala da ambição de poder pagar aos participantes e até da “carteira assinada”11. Músicos independentes tiram partido das redes sociais e internet em geral para criar fluxos de renda, seja pela venda direta ou monetização de conteúdo (Haynes & Marshal, 2018). Porém, a ideia da BDA é criar MC de batalha enquanto profissão regularizada pelo meio jurídico, ainda que a internet seja uma importante ferramenta para a sua exposição. Como já referimos, o Canal do Dimas serve de repositório para os vídeos das batalhas. Este foi criado primeiramente no Facebook, porém, Dimas rapidamente expandiu para o YouTube após perceber o alcance e a possibilidade de monetização de conteúdo nessa plataforma. Segundo ele, o primeiro continua a ser uma peça importante para a difusão dos vídeos, embora sinta que o segundo agregue os utilizadores de uma forma mais comunitária. Em fevereiro de 2020, a página de Facebook contava com mais de 96 mil seguidores, o YouTube com 290 10 Batalha viralizou e atingiu mais de um mihlão de visualizações em cinco dias. 11 Equivalente a um contrato de trabalho. Organizações e movimentos periféricos... 105 mil seguidores e mais de 46 milhões de visualizações. O projeto possuía ainda um perfil oficial no Instagram com mais de 22 mil seguidores. A organização da BDA menciona que o público online da batalha é muito exigente, isto é, constantemente questiona aspetos do evento. MCEL, um dos organizadores e responsável pela produção de conteúdo, adiantou ainda que os utilizadores que interagem com as publicações ou vídeos constituem um público distinto daquele que frequenta a roda no Atlântica Parque. Além disso, MCEL afirmou que os primeiros costumam ser fãs dos MCs envolvidos na batalha, e que contestações parciais sobre o merecedor da vitória da batalha nos comentários não são incomuns. De forma transversal, os organizadores da BDA reconhecem na internet uma poderosa e importante ferramenta para a divulgação daquilo que fazem no Atlântica Parque. Não só atua como catapulta para a exposição, onde os MCs mostram o seu talento, como possibilita a discussão e representa um caminho independente e autónomo para a contínua profissionalização dos eventos. Os integrantes também usam a internet para se atualizar quanto ao trabalho realizado nas outras batalhas pelo Brasil. É desta forma que alguns MCs acabam por visitar o Espírito Santo e batalhar na BDA. Cabe ainda destacar a utilidade da rede para a cooperação digital inter-projectos, uma vez que, por exemplo, MCEL utiliza a sua página Batalhas da Depressão, com mais de 600 mil seguidores, para promover conteúdo da BDA. Igor destacou também que os vídeos no YouTube contribuem para a desconstrução da má imagem normalmente associada às batalhas, uma vez que Infelizmente nós ainda passamos por situações preconceituosas e racistas. Infelizmente ainda somos marginalizados. Nós vivemos ocasiões de denúncias de tráfico de drogas, boca de fumo… relacionado à batalha, no qual a organização mesmo não sabia. (Dimas, 29 anos) Feijó, já citado como um dos habituais moderadores da BDA, considera que apresentador de batalha já se tornou numa profissão. Segundo ele, o facto de vários jovens conseguirem criar carreiras, ou 112 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez Referências Alves, R. & Santos, G. (2019) “Muitos dizem, mas não são. Muitos são, mas não dizem”. Então, “quem é o rap?” – Identidade a partir do consumo nas batalhas de rima. In: Martins, M. L. & Macedo, I. (eds.) III Congresso Internacional sobre Culturas: Interfaces da Lusofonia. CECS. Amaral, A.; Natal, G.; Viana, L. (2008). Netnografia como aporte metodológico da pesquisa em comunicação digital. Revista Sessões do Imaginário, 20. Pp.34-40. Cura, T. F. (2017) Tramas do rap: um olhar sobre o movimento das rodas culturais e a questão de gênero nas batalhas de rima e slams de poesia do Rio de Janeiro. Intercom, Curitiba. Garcia, L.; Quek, F. (1997), Qualitative research in information systems: time to be subjective?, In: Lee, A. S.; Liebenau, J.; Degross, J. I. (eds.) Information systems and qualitative research, London, UK: Chapman & Hall, pp. 444-465. Gravato, D. (2017) Rap em Portugal: comunidades online, lógicas de comunicação e posicionamentos identitários na internet. Dissertação de Mestrado, Universidade do Minho, Braga, Portugal. Haynes, J. & Marshall, L. (2018). 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Projeto de Lei Legislativo 105/2021 - http://www3.camaracariacica.es.gov.br/Sistema/Protocolo/Processo2/Digital.aspx?id=113373&arquivo=Arquivo/Documents/PLL/ PLL1052021-202109241336033398-assinado.pdf#P113373 Última vez acedido em 20/12/2021. Organizações e movimentos periféricos... 115 Wikipédia no feminino. O caso da enciclopédia em língua portuguesa Pedro Rodrigues COSTA Universidade do Minho (Portugal) [email protected] Vanessa BARROS Universidade do Minho (Portugal) [email protected] Carla CERQUEIRA Universidade Lusófona, CICANT (Portugal) [email protected] Resumo Depois do inquérito sobre o perfil dos editores da Wikipédia em língua portuguesa, onde se concluiu, entre outros aspetos, que a participação das mulheres na construção e edição desta plataforma é de apenas 11% (Costa, 2021a), o nosso objetivo neste artigo foi o de analisar, nessa mesma base de dados (N=231), as perspetivas das mulheres sobre as razões para a colaboração neste gigante informacional, quais os sentimentos no processo de edição/colaboração e quais as ideologias mais incómodas no processo de edição. 116 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez Os resultados revelaram fortes desigualdades de género nesta enciclopédia digital voluntária, tanto no número de editores/as como na edição de verbetes. Além disso, as mulheres distinguem-se neste processo por atribuírem grande importância à edição de verbetes enciclopédicos por três ordens de razões: 1) contribuir para o conhecimento livre; 2) satisfazer interesses pessoais/profissionais; 3) promover a igualdade de género – razões que diferem dos homens. Concluiu-se também que a maioria das mulheres inquiridas sentiu bem-estar, gratificação, felicidade e ânimo nos processos de edição de verbetes, ainda que tenham manifestado uma certa sensação de “dificuldade no uso da plataforma” de edição. Finalmente, concluiu-se que para metade das mulheres editoras inquiridas, existem ideologias incómodas nos processos de edição, e que essas estão relacionadas com os temas do fascismo (11,5%), do machismo e da misoginia (7,7%). Palavras-chave: Mulheres; Wikipédia; Desigualdades; Verbetes digitais. Abstract After the survey about the profile of Wikipedia editors in Portuguese language, which concluded, among other things, that the participation of women in the construction and editing in this platform is only 11% (Costa, 2021a), our goal in this article was to analyze, in the same database (N=231), the female perspectives on the reasons for contributing to this information platform, what are the sensations and feelings in the editing/collaboration process and what are the most uncomfortable ideologies in the process of editing. The results revealed strong gender inequalities in this voluntary digital encyclopedia, both in the number of editors and in the edition of entries. In addition, women stand out in this process for attributing great importance to the edition of encyclopedic entries for three reasons: 1) to contribute to free knowledge; 2) to satisfy personal/professional interests; 3) to promote gender equality – reasons that differ from men. It was also determined that most women surveyed felt well-being, gratification, happiness and enthusiasm in the process of editing entries, even though they expressed a certain “difficulty in using the editing platform”. Finally, it was concluded that for half of the women editors surveyed, there are uncomfortable ideologies in the editing processes, which are related to the themes of fascism (11.5%), sexism and misogyny (7.7%). Keywords: Women; Wikipedia; Inequalities; Digital entries. Organizações e movimentos periféricos... 117 Resumen Luego de la encuesta sobre el perfil de los editores de Wikipedia en portugués, que concluyó, entre otras cosas, que la participación de mujeres en la construcción y edición de esta plataforma es solo del 11% (Costa, 2021a), nuestro objetivo en este artículo fue el de analizando, en esa misma base de datos (N = 231), las perspectivas de las mujeres sobre los motivos para colaborar en este gigante informativo, cuáles son los sentimientos en el proceso de edición / colaboración y cuáles son las ideologías más incómodas en el proceso de edición. Los resultados revelaron fuertes desigualdades de género en esta enciclopedia digital voluntaria, tanto en el número de editores como en la edición de entradas. Además, las mujeres se destacan en este proceso por atribuir gran importancia a la edición de entradas enciclopédicas por tres motivos: 1) contribuir al conocimiento libre; 2) satisfacer intereses personales / profesionales; 3) promover la igualdad de género, razones que difieren de las de los hombres. También se concluyó que la mayoría de las mujeres encuestadas sintieron bienestar, gratificación, felicidad y entusiasmo en el proceso de edición de los trabajos, aunque expresaron cierto sentimiento de “dificultad para utilizar la plataforma de edición”. Finalmente, se concluyó que para la mitad de las editoras entrevistadas, existen ideologías incómodas en los procesos de edición, y que estas están relacionadas con los temas del fascismo (11,5%), machismo y misoginia (7,7%). Palabras llave: Mujeres; Wikipedia; Desigualdades; Entradas digitales. 1. Introdução A Wikipédia é uma das plataformas digitais mais visitadas do mundo: ocupa o 13º lugar no ranking geral Alexa (abril de 2021) e o primeiro lugar entre os sites não comerciais. Em média, quem utiliza visita cerca de 3,1 verbetes por dia, demora cerca de três minutos e 46 segundos nos seus verbetes e, em cerca de 74% dos casos, as visitas obtidas resultam de procuras efetuadas em motores de busca. Esta enciclopédia digital organiza-se por idiomas. Cada idioma possui uma dinâmica wikipedista própria, gerando diferentes forças 118 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez culturais que brotam das diferentes comunidades que a compõe. Não existe, stricto sensu, a Wikipédia ou uma Wikipédia. Existem Wikipédias, cada uma com o seu idioma e o seu dispositivo sociotécnico (Benker & Nissenbaum, 2006; Pestana & Cardoso, 2019; Costa, 2021a). Tal implica uma cultura organizacional própria, composta por comunidades práticas e mediadas por ferramentas e regras próprias na produção colaborativa (Bryant, Forte & Bruckman, 2005; Benker & Nissenbaum, 2006; Hara, Shachaf & Hew, 2010). Cada Wikipédia e seu respetivo idioma fazem parte de um ecossistema mais vasto, funcionando como biomas junto de outros elementos, como o Wikidata, o Wikimedia Commons ou o Movimento Wikimedia. Da interação entre o Movimento e os vários projetos online nascem os afiliados Wikimedia. No mundo lusófono existem, por exemplo, a Wikimedia Portugal e o Wiki Movimento Brasil, ambos com diferentes dinâmicas entre si. Embora exista uma espinha dorsal de regras e modos de ação mais ou menos comuns, encontra-se em cada estrutura idiomática diferentes nuances, individuações e aculturações. Neste estudo, fomos à procura dos sujeitos que compõem estes e outros grupos (Costa, 2021a). A Wikipédia em língua portuguesa registava, no mês de março de 2021, uma dinâmica considerável: no Brasil foram cerca de 270 milhões de visitas aos seus verbetes enciclopédicos; em Portugal, cerca de 43 milhões; em Angola 3 milhões e em Moçambique 2 milhões; um valor semelhante na Alemanha (3 milhões) e no Reino Unido (3 milhões) constavam na lista de países visualizadores. Em geral, verificaram-se aberturas de páginas na Wikipédia em língua portuguesa em quase todos os países do mundo (Costa, 2021a-b-c). Estes dados refletem a dinâmica anual: no final de 2020 existiam mais de 423 milhões de palavras em português em todas as páginas de conteúdo da Wikipédia. Foram cerca de 56 mil o número de ficheiros carregados. Entre os utilizadores que efetuaram pelo menos uma ação nos 30 dias de novembro de 2020, contabilizaram-se cerca de 6 mil edições. No total, só nesse mesmo mês, foram cerca de 196 mil edições (Costa, 2021a-c). Organizações e movimentos periféricos... 119 De acordo com as estatísticas oficiais da Wikipédia, o primeiro editor em língua portuguesa surgiu em maio de 2001. Porém, só a partir de 2004 é que se iniciava um verdadeiro ciclo de crescimento, passando de 162 editores em janeiro desse ano para uma linha estável com uma média de cerca de 1600 editores regulares (Costa, Perneta & Martins, 2021). Mais recentemente, com a introdução do fim das edições por IP e a obrigatoriedade de registo, medida sociotécnica decidida pela comunidade wikipedista a 4 de outubro de 2020, assistiu-se a um forte crescimento no número de editores. Até ao final de novembro de 2020, de acordo com dados escritos na Wikipédia, gerou-se um aumento de 57% em editores registados ativos, um aumento de 20% em novas contas, uma redução de 10% em relação ao ano anterior no total de edições, uma redução de 50% em relação ao ano anterior nas reversões, uma redução de 3% em edições não revertidas, uma diminuição de 85% em relação ao ano anterior nos blocos, uma redução de 3% nas edições de conteúdo não revertido, excluindo edições de bots e uma redução de 7% nas edições não revertidas, excluindo edições de bots. Ainda assim, convém notar que o fim da edição por IP em outubro de 2020 não foi acompanhado por um aumento no número de edições, uma vez que a linha reflete uma continuidade na tendência. Não obstante, o facto de terem ocorrido menos 50% de edições revertidas após essa alteração, significa que se reduziu o número de atos considerados “vandalismo” (Costa, Perneta & Martins, 2021). De acordo com Costa (2021b)14, são apenas 11% as mulheres a editar a Wikipédia em língua portuguesa, dados que revelam um forte desequilíbrio de género. Além disso, é possível perceber diferenças entre homens e mulheres neste processo colaborativo, nomeadamente: 1) nas perspetivas das mulheres sobre as razões para a colaboração; 2) nos sentimentos no processo de edição/colaboração; e nas ideologias 14 Estes dados estão também disponíveis na página destinada à conferência dos 20º aniversário da Wikipédia, em https://meta.wikimedia.org/wiki/File:Perfil_dos_Editores_da_Wikip%C3%A9dia_em_L%- C3%ADngua_Portuguesa.pdf 120 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez mais incómodas no processo de edição. Neste sentido, este artigo pretende contribuir para a reflexão sobre as perceções das editoras em torno da participação na Wikipédia, colmatando uma lacuna de investigação sobre esta temática em língua portuguesa. 2. Wikipédia no feminino: um estado da arte No final de 2006, a revista americana TIME selecionou o consumidor/ utilizador de internet como pessoa do ano, categoria onde se inserem as comunidades de wikipedistas (Grossman, 2006). A democracia digital, ao trabalhar gratuitamente e a impor-se em várias áreas do saber, fez a revista TIME reconhecer a crescente importância que a generalidade dos internautas desempenham na criação de conteúdos que se propagam nas várias plataformas virtuais, constituindo aquilo a que se designa de era da informação. No entender de Castells (2007), a comunicação é o poder central na sociedade contemporânea global. Trata-se, simultaneamente, de uma lógica de comunicação em massa, uma vez que tem potencial para atingir um público global, e de autocomunicação, na medida em que a produção da mensagem é autogerada, a definição dos recetores potenciais é autodirigida e a recuperação de mensagens específicas ou o conteúdo da World Wide Web é autoselecionado (Fuchs, 2009; Costa, 2021d). Neste sentido, a expressão UGM (media gerados pelos utilizadores), que se refere aos “novos meios cujo conteúdo é disponibilizado publicamente na Internet, reflete uma certa quantidade de esforço criativo e é criado fora das rotinas e práticas profissionais” (WunschVincent & Vichery citados em Shao, 2009, p. 8). De facto, o uso de UGM envolve duas atividades importantes: a criação do conteúdo e a sua partilha online (Omar & Wang, 2020). No entender de Shao (2009), a forma como as pessoas utilizam o UGM pode ser resumida em três tipos de ações: consumir, participar e Organizações e movimentos periféricos... 121 produzir. Consumir refere-se a quem assiste ou lê, mas nunca participa. Participar significa interagir com conteúdos ou com outros utilizadores, mas sem criar nenhum conteúdo. Finalmente, produzir significa, neste contexto, a criação e publicação de imagens, textos, áudios ou vídeos. Entre os editores da Wikipédia em particular, consumir e participar implica, por definição de wikipedista editor, participar no processo e na discussão e criar, partes ou conjuntos, resistir com informação dentro de um processo supervisionado por uma comunidade (Benker & Nissenbaum, 2006). Entre as principais razões, convocadas por McQuail (2003) acerca do uso dos media (informação, identidade pessoal, integração, interação social e entretenimento), parte-se do pressuposto de que diferentes usos são movidos por diferentes motivações. No entender de Shao (2009, p. 9), “as pessoas consomem o conteúdo para informação e entretenimento; participam pela interação social e desenvolvimento comunitário; e produzem conteúdos para autoexpressão e autoatualização”. Ora, o surgimento do UGM, no qual a Wikipédia é uma das plataformas mais resistentes, adaptativas e preservadoras do processo de geração por comunidade, reformulou o mundo da criação e difusão de conhecimento aberto e colaborativo (Autor, 202c; Autor, Perneta & Martins, 2021). É nesta linha que se insere também o conceito de produsage de Bruns (2008), enquanto modelo alternativo de produção e circulação do conhecimento, de criatividade, democratização da cultura e de colaboração mediada pelas tecnologias em rede. Para Shao (2009), as plataformas em UGM, em geral, mudaram o mundo do entretenimento, da comunicação e da informação, especialmente devido à sua natureza autossustentável e a um público cada vez maior. No caso concreto da Wikipédia em particular, um conjunto de pilares fundacionais e de regras norteiam a ação, exigindo neutralidade, verificabilidade e nada de produção inédita (Costa, 2021c). Mas existem diferenças no processo subjetivo de colaboração entre homens e mulheres? Segundo Anti e colaboradores (2011), homens e 128 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez Sobre a questão da segmentação da amostra em função dos dados sociodemográficos, é importante realçar que não é possível determinar, através de registo efetuado na plataforma, o género, a idade ou a profissão. Também não é possível fazer uma amostragem por distribuição geográfica, já que esses dados são facultativos no registo. Por isso mesmo, foram colocadas essas questões no inquérito. Obtivemos, no total, 238 respostas. Porém, três foram anuladas devido à invalidez das respostas, o que perfez um total de 235 respostas válidas. Este número corresponde a cerca de 15% do total médio de editores da Wikipédia em língua portuguesa ao longo dos últimos 10 anos, representando um valor significativo no seio do universo total desta comunidade (Costa, Perneta & Martins, 2021). Tabela 2. Estrutura do inquérito por questionário aplicado online Fonte: Elaboração própria a partir de Lopes (2007) Ainda assim, estas respostas refletem apenas aqueles que consideraram importante revelar o seu perfil enquanto wikipedistas. As estatísticas que se seguem representam, fundamentalmente, os que quiseram participar e não necessariamente todo o universo de wikipedistas em língua portuguesa. 4. Resultados e discussão Antes de avançarmos para as respostas às nossas questões, recordamos que quanto à distribuição da amostra por género, a esmagadora maioria indicou, já em Costa (2021a-b-c), ser do género masculino em Organizações e movimentos periféricos... 129 82,7%, apenas 11,1% alega ser do género feminino e 1,7% refere pertencer à categoria “outro”. Figura 1. Distribuição por género (N= 235) Fuente: elaboración propia Da amostra de 235 respondentes, o número total que se identifica como sendo mulher é de apenas 26. As respostas que a seguir apresentaremos têm em consideração este valor. Além disso, é importante ter em consideração que existem diferenças percentuais do ponto de vista da distribuição por género com a amostra total. Um dos aspetos diferentes é o local de origem por género. A diferença entre editores masculinos, entre o Brasil e Portugal, é muito superior à diferença entre editores femininos nesses dois países. Ou seja, percentualmente o número de mulheres é mais equilibrado entre as mulheres (das 26 editoras respondentes, 15 são brasileiras e 11 são portuguesas). 130 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez Figura 2. Cruzamento entre género e nacionalidade (N= 235) Fuente: elaboración propia Por outro lado, cerca de 30,7% tem menos de licenciatura e 69,3% tem licenciatura, mestrado ou doutoramento, o que difere dos homens, em que a percentagem está mais equilibrada (onde mais de 50% tem menos do que licenciatura). Estes dados revelam que estas editoras possuem um nível educacional superior. Sobre as diferenças gerais da amostra em causa, é também importante constatar que existem diferenças quanto à correlação entre volumes de edição e género: com um menor número de wikipedistas do género feminino, existem também menores volumes de edição. Para além de serem menos presentes, não existem nem mulheres nem pessoas que se identifiquem como “outros” entre os wikipedistas mais ativos (com volumes de edição iguais ou superiores a 10.000). Organizações e movimentos periféricos... 131 Figura 3. Número de edições por género (N= 235) Fuente: elaboración propia 4.1. Sobre as razões das mulheres para colaboração Quanto às respostas a RQ1, importa primeiro recordar que esta amostra revela semelhança com a primeira frase do quarto pilar fundacional da Wikipédia: “uma enciclopédia de conteúdo livre que qualquer pessoa pode editar”. Na amostra geral, mais de metade dos respondentes invoca essa razão, “contribuir para o conhecimento livre” (26,4%), ou “aumentar e melhorar a informação” (26%). Porém, quando analisamos as diferenças de género nestas questões, percebemos que as mulheres registam 39% na opção “contribuir para o conhecimento”, bem como um valor muito superior à média total na questão da “igualdade de género” (8%). Por seu turno, os editores de conteúdo que se identificam como sendo homens estão mais alinhados com o total da amostra. 132 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez Figura 4. Razões de contribuição para a Wikipédia por género (N= 235) Fuente: elaboración propia Esta correlação entre género e razões é de intensidade médiaforte (com um R de Pearson´s de 0,667 σ). As mulheres atribuem maior importância a três ordens de razões (contribuir para o conhecimento livre, satisfazer interesses pessoais/profissionais e promover a igualdade de género), ao passo que os homens tendem a distribuir as suas razões pelas várias possibilidades. O género “outro” demonstra também um forte apreço pelo aumento e melhoria da informação (50%), ainda que o número de respostas seja, neste grupo, estatisticamente baixo. 4.2. Sobre as sensações e sentimentos das mulheres nos processos de edição e colaboração Relativamente a RQ2, as respostas sobre as sensações à primeira edição (figura 5) mostram que a maioria das mulheres (15,4%) sentiu “Bem-estar/gratificação/felicidade/ânimo” seguido de outras três sensações positivas “Euforia/empolgação/animação/viciante”; “utilidade”; “satisfação” com o número equilibrado de resposta em Organizações e movimentos periféricos... 133 cada uma delas (11,5%). Embora as respostas mais recorrentes sejam sensações positivas, chama atenção outros dois indicadores: o nível de satisfação dos respondentes de género masculino é substancialmente superior ao feminino, e apenas mulheres (ainda que seja um número estatisticamente reduzido) indicaram sentir “dificuldade no uso da plataforma”. Figura 5. Sensações à primeira edição, por género (N= 235) Fuente: elaboración propia Em relação à edição mais recente (figura 6), a sensação de “Bemestar/gratificação/felicidade/ânimo” (19%2) foi ainda maior do que na primeira edição, mas desta vez a sensação mais indicada entre as mulheres foi a de dever cumprido (23,1%). O nível de satisfação na edição mais recente foi inferior à primeira (caiu de 11,5% para 7,7%) e continua sendo menor que a satisfação dos homens. 134 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez Figura 6. Sensações na edição mais recente, por género (N= 235) Fuente: elaboración propia Os níveis de satisfação atual para a edição (figura 7) foram mensurados em escalas de 0 a 10 onde pode-se considerar que “0” e os números mais à esquerda representam nenhuma e/ou baixos níveis de satisfação para a edição atual, e os números mais à direita até o “10” representam alto nível de satisfação. Nesta secção há níveis bastantes variados estatisticamente, o nível 8 de satisfação foi o mais indicado pelas mulheres (mais de 25% delas) o mais alto nível de satisfação (10) foi indicado por quase 20% das mulheres e é superior ao número de homens que se sentem plenamente satisfeitos e não ouve mulheres nos níveis mais baixos (0 e 1). Alguns estudos sobre as desigualdades de género na Wikipédia concluíram que as mulheres são muitas vezes relutantes em editar porque a interface não é muito acessível e porque o caminho para a participação efetiva é realmente quebrado (Hargittai e Shaw, 2015; Shaw e Hargittai, 2018). Organizações e movimentos periféricos... 135 Figura 7. Satisfação atual para a edição, por género (N= 231) Fuente: elaboración propia Também nos chama atenção que os altos níveis de satisfação das mulheres para edição futura (figura 8) a maior quantidade de mulheres assinalou nos três indicadores mais altos (8, 9 e 10) e em todos eles o número é superior aos homens. Nesta pergunta também não houve mulheres com os níveis mais baixos de satisfação (0, 1 e 2). Figura 8. Satisfação para a edição futura, por género (N= 231) Fuente: elaboración propia 136 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez Os respondentes também exemplificaram o significado de Wikipédia para cada um deles em apenas uma palavra (figura 9). “Conhecimento” foi a palavra mais mencionada entre os dois géneros, mas é a única palavra em que o número de menções de homens supera o das mulheres. As outras três palavras mais citadas foram “informação”; “partilha” e “liberdade”, as duas primeiras estatisticamente empatadas entre as mulheres no número de menções, mas as três substancialmente menos citadas entre os homens, se comparamos os dois géneros. Também chama atenção que há maior variedade de palavras entre as mulheres, “contribuição”; cooperação”; “harmonia”; “poder” e “potencial”; são palavras que apareceram somente entre elas e ainda que estatisticamente essas respostas nos deem poucas informações objetivas sobre as interpretações das mulheres, um estudo mais aprofundado pode ajudar a perceber com mais aprofundamento e por uma perspetiva de género, como as editoras se relacionam e estabelecem vínculos com as atividades colaborativas que desempenham na Wikipédia. Figura 9. Significado da Wikipédia para as mulheres, com apenas uma palavra, e comparação com respostas dos homens (N= 231) Fuente: elaboración propia Organizações e movimentos periféricos... 137 4.4. Sobre as ideologias mais incómodas, entre as mulheres, no processo de edição Acerca da existência de alguma nacionalidade de editores que as incomode no processo de edição de artigos/verbetes na Wikipédia em português (figura 10), a maioria das mulheres indicaram ‘Não’ (69,2%), mas o número de mulheres que responderam ‘sim’ (23,1%) é superior aos homens (19,5%). Figura 10. Existe alguma nacionalidade de editores que o incomode no processo de edição de artigos/verbetes na Wikipédia em português? Se sim, qual nacionalidade? (N= 231) Fuente: elaboración propia Ainda sobre a questão anterior, entre as editoras que responderam ‘Sim’ os incómodos dão-se entre as nacionalidades portuguesa e brasileira com um número equilibrado entre ambas as nacionalidades: 11,5% cada uma (figura 11). Entre os homens, essas duas nacionalidades também são as que causam maiores incómodos, ainda que o número de menções seja estatisticamente irrelevante. 144 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez Costa, P. R. 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No final, concluise que uso de ferramentas qualitativas de investigação-experimental, uso da auto-etnografia e o envolvimento pessoal na pesquisa, de forma ética e epistemologicamente controlada, envolve os agentes principais e, acima de tudo, a serem capazes de esboçar e comparar experimentações metodologicamente controladas e dialógicas. Palavras-chave: ativismo; estética; redes digitais; teoria; metodologia 17 Este trabalho foi realizado com apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia através da Bolsa de Pós-Doutoramento SFRH/BPD/42559/2007. 148 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez Abstract In this article, some theoretical and methodological tools are described that allow us to understand the phenomenon of aesthetic activism in digital networks. It is intended to answer two central questions: 1. How to study, what is the best methodology to understand the phenomenon of aesthetic activism in digital networks? 2. What are the most appropriate concepts to characterize it? To this end, a theoretical and epistemic journey is made about the theories of new media, followed by an analysis of some activist memes that circulate, albeit in a peripheral way, on Facebook. In the end, it is concluded that the use of qualitative research-experimental tools, the use of auto-ethnography and personal involvement in research, in an ethical and epistemologically controlled way, involves the main agents and, above all, being able to sketch and to compare methodologically controlled and dialogic experiments. Keywords: activism; aesthetics; digital networks; theory; methodology Resumen En este artículo se describen algunas herramientas teóricas y metodológicas que permiten comprender el fenómeno del activismo estético en las redes digitales. Pretende responder a dos preguntas centrales: 1. ¿Cómo estudiar, cuál es la mejor metodología para comprender el fenómeno del activismo estético en las redes digitales? 2. ¿Cuáles son los conceptos más apropiados para caracterizarlo? Para ello, se realiza un recorrido teórico y epistémico sobre las teorías de los nuevos medios, seguido de un análisis de algunos memes activistas que circulan, aunque de forma periférica, en Facebook. Al final, se concluye que el uso de herramientas de investigación-experimental cualitativas, el uso de la autoetnografía y la implicación personal en la investigación, de forma ética y epistemológicamente controlada, involucra a los principales agentes y, sobre todo, ser capaces de esbozar y comparar experimentos metodológicamente controlados y dialógicos. Palabras-clave: activismo; estética; redes digitales; teoría; metodología Organizações e movimentos periféricos... 149 1. Introdução Dar-se como uma coisa que sente e agarrar uma coisa que sente, esta é a nova experiência que se impõe ao sentir contemporâneo, experiência radical e extrema (Perniola, 2005, p.21). Este artigo tem como objetivo responder a dois problemas centrais. 1. Como estudar o fenómeno do ativismo de tipo estético nas redes digitais? Como combinar a investigação com a ação/experimentação 2. Quais os conceitos mais adequados? Como pensar a partir da ideia de hibridez, a noção de ativismo feito de deserção, o ativismo estético emergente? A maioria dos estudos sobre o social-software, no âmbito da cultura digital e dos cyberstudies, adotam uma perspetiva baseada em duas ideias fortes. Primeiro: uma epistemologia positivista assente no empirismo ingénuo. Assumem que o estudo dos new media, nomeadamente a cultura digital, obedece às lógicas da evidência semelhante aos estudos dos fenómenos físicos. Segundo: uma divisão ingénua entre o mundo real da vida e o mundo virtual das novas redes digitais. Estas duas ideias de base devem ser criticadas. Partimos então de uma primeira premissa: as redes não devem ser apenas estudadas como “coisas”. As redes sociais, cada vez mais eco-híbridas de humanos e não humanos, não são uma coisa empírica que apenas deve ser explicada quantitativamente. As redes sociais devem ser tratadas como coisas, glosando Émile Durkheim, até certo ponto. Para compreender a rede é necessário valorizar a autonomia, a capacidade imaginária dos diversos actantes no ecossistema (Felice, 2013, p. 64). Tal como afirma Brabham (2008), uma grande parte dos estudiosos dos novos media analisam os “fenómenos nas redes através de um paradigma empírico que assume que são uma coisa real, uma 150 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez essência que pode ser conhecida” (Brabham, 2008, p. 23). Ora, esta abordagem necessita de ser melhorada pois impede um conhecimento aprofundado das redes emergentes. “O problema dessa abordagem, a abordagem empírica das novas mídias, é que ela pretende congelar os fluxos e a interatividade de pessoas e idéias num momento concreto e presente como um objeto de estudo” (Brabham, 2008, p.24). De acordo com Corrêa (2008, p. 312), José Luís Braga (2008), Vilém Flusser (2011), Marshall McLuhan (2001), Jean Baudrillard (1988) e Roland Barthes (2015) defendem a premissa de que a produção de conhecimento no campo da comunicação não pode ser similar ao usado nas ciências naturais, pois é necessário interpretar e criar significados. Os atores sociais são autoconstruções mentais em redes complexas, em ecossistemas de ação e significação, não são um objeto empírico de estudo bem delimitado e sincrónico. A opção anterior implica um processo de observação da prática, de associação dos significados, uma ciência mais baseada no indicial (Ginzburg, 1990): Uma contribuição significativa de Flusser, juntando-se a outros pensadores apontados por Braga (2007), é a visão de que a produção de conhecimento em Comunicação não pode ser similar àquela das ciências naturais, pois para ele há uma disciplina interpretativa, tendo que criar significados. Com isso, podemos concluir que os fenômenos comunicacionais não são coisas fechadas em si mesmas, mais sim objeto de observação caso a caso. Por sua diversidade, não são, no dizer de Flusser, “a mesma coisa”, portanto há que se observar uma sucessão de fenômenos para encontrarmos as singularidades em comum. É deste processo de observação da prática, da associação dos significados que se produz o conhecimento. (Corrêa, 2008, p. 312) O segundo ponto que sustenta os estudos tradicionais sobre redes, é a defesa de uma divisão dominante entre o mundo dito “real” e o mundo “virtual” ou “digital”. Segundo Fischer (2008), a produção de conhecimento nos novos media efetua-se também no real, faz-se na vida misturando-se com outras redes e criando híbridos sociotécnicos. Ou Organizações e movimentos periféricos... 151 seja, o ciberespaço não é imaterialidade sendo antes um espaço também “real” eletrónico de circulação da comunicação e da sociabilidade, que possui a mesma “materialidade de efeitos” dos simulacros na linha de Baudrillard (1988, p. 184), feito de interatividades e de abundância de hiper-real. É um outro real onde predomina a “interatividade” e o simulacro em vez da interação entre “corpos”. Um outro ecossistema. 2. Como estudar o ativismo de tipo estético nas redes digitais? De acordo com Fischer (2008), a questão principal não é a diferença entre o real e o virtual invasor, “não é a resistência da realidade versus um mundo paralelo virtual triunfante ou um real que está desaparecendo no virtual, mas a hibridização próxima e criativa entre a realidade e seu poderoso simulacro digital em expansão” (Fischer, 2008, p.18). O mundo virtual apenas poderá ser estudado a partir da sua hibridez, da sua articulação com redes do mundo “real”, como simulacros poderosos em expansão, imaginários que nos moldam na sua hiper-realidade. A abstração de hoje já não é a do mapa, do duplo, do espelho ou do conceito. A simulação já não é a de um território, de um ser referencial ou de uma substância. É a geração por modelos de um real sem origem ou realidade: um hiperreal. O território já não precede o mapa, nem sobrevive. Doravante, é o mapa que precede o território – precessão de simulacro – é o mapa que gera o território e se hoje reavivarmos a fábula, seria o território cujos fragmentos estão lentamente a apodrecer em todo o mapa. É o verdadeiro, e não o mapa, cujos vestígios subsistem aqui e ali, nos desertos que já não são os do Império, mas os nossos. O deserto do real em si. (Baudrillard, 1988, p. 166) 152 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez 2.1. Evitar o empirismo e a dicotomia real/virtual Tal como defende Recuero (2017), as redes apresentam os seus perigos derivados da valorização da dicotomia real/virtual. O Facebook, em si, não apresenta redes sociais, não é suficiente para consolidar uma rede: o Facebook, por si só, não apresenta redes sociais. É o modo de apropriação que as pessoas fazem dele que é capaz de desvelar redes que existem ou que estão baseadas em estruturas sociais construídas por essas pessoas. (Recuero, 2017, p. 16) De algum modo, a componente mais técnica pode ser importante numa lógica viral de quantidades, mimética, pois ampliam a ressonância de redes de ativismo já existentes. Podem aumentar a sua visibilidade (um dos capitais sociais baseado na quantidade de relações), podem, no limite, ampliar a sua ressonância e provocar algum envolvimento: os sites de redes sociais somente são eficientes para o gerenciamento do capital social mais básico [o relacionamento, a visibilidade]. Eles são, por exemplo, capazes de manter uma rede social, mas não de aprofundar os laços dessa rede. Para isso, é preciso a participação ativa dos atores sociais envolvidos. Assim, o uso dos sites de redes sociais para a construção de capital social é eficiente e modificador apenas para o primeiro nível, ou seja, influenciar os valores mais direcionados à construção e à manutenção da rede dos indivíduos. (Recuero, 2014, p. 115) Contudo, e este é um argumento fundamental para os ativistas, quando se pretende consolidar essas redes, não é suficiente o dito “virtual” das redes digitais como o Facebook, ficar apenas pelo capital social. Há algo de mais profundo. Existe a necessidade das relações de interação, relações de face a face. De passar das afeições que marcam a interatividade, aos “afetos” da interação que implicam corpos, comunicação analógica, como defendiam os autores da Escola de Palo Alto (Bateson, 1972). Com efeito, já os valores associados ao segundo nível, voltados para a institucionalização de um grupo social, não são facilmente construídos e nem facilmente Organizações e movimentos periféricos... 153 obtidos nas redes sociais. São valores de grupo, associados à presença deste e aos atores que ali estão. (Recuero, 2014, p. 115) Neste sentido, procura-se uma comunicação mais saudável onde o “grupo” ou “comunidade” seja um elemento agregador numa tensão permanente e gerida entre autonomia e coletivo. 2.2. Uma ciência “indicial” dos fenómenos emergentes Elizabeth Corrêa (2008, pp. 312-313) defende que os new media studies apresentam uma série de características que requerem uma epistemologia e uma metodologia específicas para o seu estudo assente na inserção do estudo dos new media no campo da comunicação; na tríade complexa da tecnologia/comunicação/sociedade; na vinculação entre a teoria e a prática. Um novo modelo epistemológico deve, por isso, seguir estas orientações: o estudo de casos singulares; a busca de indícios que remetem a fenómenos não imediatamente evidentes; a distinção entre indícios essenciais e acidentais; a articulação entre os indícios selecionados; a derivação de inferências. Desta forma, é necessário efetuar um levantamento extensivo e detalhado dos traços caracterizadores do objeto, uma redução do objeto aos seus elementos mais significativos, uma separação dos indícios essenciais dos acidentais por meio de tentativas e uma articulação dos conjuntos de indícios que possibilitem as inferências sobre o fenómeno. Temos então aqui presente uma tríade: situação empírica, bases teóricas e problemas de pesquisa. De acordo com a autora (Corrêa, 2008), e também para autores como Fidler, Hayles, Lunenfeld, Janet Murray, Lev Manovitch, Bolder, Jenkis & Thornburn, Salaverría e Bertocchi, a comunicação em rede é policrónica e multidirecional. A comunicação por meio das redes digitais interativas se caracteriza, em primeiro lugar, pela ruptura de dois condicionantes clássicos de toda a Comunicação: o tempo e o espaço. As mensagens na rede possuem elasticidade temporal e não estão submetidas às distâncias físicas. Nesse 256 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez importante incluir la medición del monopolio de la verdad, dividiendo el cuestionario de medición entre factores cognitivos y factores de comportamiento. A Dono et al. (2018) le interesó, como a nosotros, saber acerca de la subestimación de los demás y la creencia en una sola verdad (monopolio de la verdad). Con eso se busca identificar si es que las posturas populistas tienden a alejarse del centro democrático y de una cultura de diálogo mesurada (Neu, 2009). En la segunda encuesta el objetivo era determinar con mayor precisión, cuáles eran los argumentos populistas que tienen mayor aceptación entre el público encuestado. Al cuestionario se le agregaron preguntas relacionadas a los usos de internet y de redes sociales, así como acerca del grado de instrucción académica. Importó también preguntar por la identificación ideológica de acuerdo a escalas de autoubicación. En ambas encuestas se indagó sobre aspectos sociodemográficos. El trabajo de campo, tanto para la encuesta piloto (33 distritos) como para la encuesta principal (32 distritos) consideró un universo de jóvenes residentes en Lima Metropolitana pertenecientes a los niveles socioeconómicos: Alto (A), medio (B), bajo (C), muy bajo (D) y extrema pobreza (E); de uno y otro sexo, entre 18 a 30 años de edad. El marco muestral se basó en la información estadística sobre población del Perú del Censo Nacional 2017, elaborado por el Instituto Nacional de Estadística e Informática (INEI). Con el propósito de cumplir con las exigencias de un marco muestral adecuado y actualizado, se trabajó con material de cartografía nacional a nivel de distrito, manzana y calle, información que fue obtenida de las páginas web del INEI, la Guía de Calles del Perú y el servidor de aplicaciones de mapas Google Maps. El diseño muestral ocurrió a través del procedimiento de selección trietápico, probabilístico y estratificado por niveles socioeconómicos. El tamaño de la muestra fue calculado bajo el supuesto de la máxima dispersión (p = q = 0.5) resultando un tamaño de 500 casos para ambas encuestas. El nivel de confianza fue de 95% y el margen de error máximo de ± 4.4%. Las etapas del proceso Organizações e movimentos periféricos... 257 de muestreo se dieron de la siguiente manera: Selección de manzanas de viviendas al interior de cada distrito, por muestreo aleatorio. Selección aleatoria de viviendas al interior de cada manzana Selección de las personas a encuestar por cuotas de sexo y edad Representatividad De acuerdo con la información sobre población electoral del RENIEC, los 32 distritos comprendidos en la muestra representan el 91.20% de la población de jóvenes de 18 a 30 años, residente el Lima Metropolitana. Universo: 2 191 433 100.00% Muestra: 1 981 824 90.43% (Representatividad) Para el trabajo de campo, la técnica empleada fue una encuesta personal mediante un cuestionario estructurado aplicado por un equipo de encuestadores en viviendas en 50 puntos de muestreo seleccionados al azar en Lima Metropolitana. El cuestionario de la primera encuesta se aplicó entre el 04 y el 18 de octubre y la segunda encuesta entre el 15 y el 29 de noviembre de 2019. Se procedió a supervisar el 30% de la producción individual de cuestionarios de cada encuestador con la finalidad de garantizar la calidad de la información obtenida. La supervisión se realizó empleando la técnica de la re-entrevista parcial mediante visita personal. Los datos fueron ponderados mediante el empleo del método de post estratificación proporcional al tamaño de la muestra, reproduciendo la estructura original del universo de estudio. El procesamiento de datos se realizó empleando el paquete estadístico SPSS versión 25. Experimento El experimento buscó determinar en qué medida posturas populistas convertidas en noticias falsas como arma de comunicación propagandística en redes sociales, tanto de izquierda como de derecha, impactan entre jóvenes electores. Interesó especialmente identificar los tipos y grados de interacción que los jóvenes tienen frente a contenidos 258 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez noticiosos falsos en las redes sociales que apelan a la subjetividad del usuario. Para esta etapa experimental se consideraron a 20 personas de cada NSE, identificados en la encuesta principal, que indicaron un alto nivel de uso de redes sociales. El experimento consideró 8 noticias falsas, en 4 de ellas se reforzó algún aspecto populista de izquierda y en 4 se reforzó el populismo de derecha. Para la creación de esos contenidos falsos utilizamos los enunciados más significativos identificados con ayuda de la encuesta principal realizada. A estas noticias falsas creadas se les adjuntó 8 noticias verdaderas sustraídas de la agenda mediática, como grupo control, teniendo un total de 16 noticias. Construimos las noticias falsas, lo más parecido al aspecto real que caracteriza las noticias en las redes sociales Twitter y Facebook, buscando apelar a las emociones y la exageración, sin dejar de indicar una fuente periodística relacionada al post. Los posts se elaboraron con las siguientes características: la fuente (foto perfil), la noticia (foto, titular, copy, hashtags, hipervínculo), los botones de interacción. No consideramos el vínculo social de la persona que comparte un contenido con el participante del experimento como factor fuerza de credibilidad y para compartir contenidos (SamuelAzran y Hayat, 2019). Por lo tanto, los contenidos elaborados para nuestro caso no especificaron a la persona que los compartió, sino se mostraron como publicaciones de distintos medios de comunicación en los perfiles de redes sociales. Los participantes fueron expuestos a noticias seleccionadas de manera aleatoria, en formato impreso y presencial, dándoles las siguientes opciones de interacción: reacción (solo me gusta), comenta, comparte, ingresa al enlace para leer artículo (fact check) y no interactúa. Gracias a estudios previos se conocen procesos de interacción en redes sociales (Rúas y Capdevilla, 2017; Álvaro, 2018; Arroyas, 2016; Álvarez, 2016), pero no las dinámicas específicas de interacción frente a contenidos en línea ubicados en extremos políticos contrapuestos. Con el experimento quisimos identificar si los jóvenes limeños están predispuestos a aceptar y compartir noticias de corte populista Organizações e movimentos periféricos... 259 de izquierda y derecha en las redes sociales. Partimos de la premisa que los usuarios de Facebook tienden a seleccionar información que va de acuerdo a sus sistemas de creencias y forman grupos polarizados, dentro de lo que se conoce como cámaras de resonancia (Del Vicario et al., 2016). Obviamos posibles criterios algorítmicos de cada red social como se consideraron en otros estudios (Cardenal et al., 2019; Flaxman et al., 2016; Bozdag et al, 2015). Nos importó identificar qué tan proclives son los jóvenes a compartir noticias en el entorno digital, dependiendo de sus preferencias políticas, sus hábitos en internet, su grado de instrucción y su nivel socio económico. No fue menester identificar el grado de credibilidad que se le otorga a los nuevos medios (Pont et al., 2019). Relación entre técnicas de investigación En conclusión, la netnografía se utilizó para identificar los enunciados que luego fueron utilizados para formular las preguntas del cuestionario piloto. La primera encuesta tuvo como finalidad identificar el número de frecuencias por enunciado para quedarnos con los enunciados más consolidados, que luego fueron llevados a la encuesta principal. Esto responde a una secuencia de técnicas para elaborar un cuestionario afín a nuestros objetivos. Por su lado el experimento sirvió para corroborar la reacción de los participantes frente a enunciados todavía más específicos que provinieron de la frecuencia de las respuestas del cuestionario principal. El estudio cuantitativo se realizó con el objetivo de obtener frecuencias expresadas en porcentajes de acuerdo con las respuestas de los encuestados. No se realizaron correlaciones estadísticas, sino que se optó por un carácter descriptivo de los resultados. 260 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez Resultados A través de la encuesta principal, donde nos propusimos dar respuesta a la pregunta de investigación, acerca de si el electorado joven de la ciudad de Lima tiende a aceptar e interactuar con los discursos populistas que se presentan en redes sociales, identificamos que, entre los 15 enunciados de mayor aceptación, 4 se dejan clasificar como populismo de izquierda y 5 de derecha. Seis enunciados se dejan clasificar como de ambas tendencias políticas (véase tabla 3). Tabla 3. Aceptación de enunciados populistas entre jóvenes de Lima Enunciados Muy de acuerdo / De acuerdo (f %) Total (f %) Orientación Un Congreso que no funciona, tiene que ser cerrado 24.1 58.1 82.2 Izq. + der. El aumento de los extranjeros incrementa el desempleo 21.3 43 64.3 Der. Los políticos solo se preocupan por defender sus propios intereses económicos 34 57.9 91.9 Izq. + der. El pueblo debería tener la facultad de remover al presidente y al congreso 25.8 57.5 83.3 Izq. + der. La pena de muerte debería aplicarse en caso de violación y asesinato de menores de edad 42.8 38.5 81.3 Der. Los poderes económicos internacionales son los que realmente dominan el mundo 19.8 63.7 83.5 Izq. El Estado debe dar más prioridad a los peruanos que a los extranjeros 32.6 54 86.6 Der. Las inversiones extranjeras se adueñan de nuestro país 21.8 56.4 78.2 Izq. La prensa peruana manipula a la ciudadanía 24 54.9 78.9 Izq. + der. Organizações e movimentos periféricos... 261 El gobierno utiliza a los medios de comunicación para defender sus propios intereses 24 61.3 85.3 Izq. + der. La clase política es un grupo de amigos que se favorecen entre ellos 26.5 64.9 91.4 Izq. + der. Todos los criminales extranjeros deben ser deportados 45.8 45.2 91 Der. Decidir sobre los recursos naturales debe estar en manos del pueblo 19.6 59.1 78.7 Izq. El Estado no actúa frente a la llegada masiva de extranjeros 20.9 64.7 85.6 Der. Las inversiones extranjeras solo quieren nuestros recursos naturales 20.3 65.4 85.7 Izq. Fuente: elaboración propia Temáticamente los enunciados que encontraron una aceptación muy alta fueron aquellos relacionados a la corrupción de la clase política y la deportación de criminales extranjeros (90-100%). Aquellos enunciados populistas relacionados a la prensa peruana, los recursos naturales y las inversiones extranjeras obtuvieron una aceptación relativamente alta (80-90%). Nos interesó en particular identificar qué diferencias había en la aceptación del discurso populista entre niveles socioeconómicos y grados de instrucción. Fue posible constatar que, respecto al enunciado sobre el incremento del desempleo a causa de la llegada de extranjeros, éste obtuvo una alta aceptación en los niveles socioeconómicos más bajos (80%), mientras solo alcanzó una aprobación de alrededor del 45% en los niveles altos. Sobre este mismo enunciado, vimos que un alto porcentaje de los sectores de grado de instrucción más baja tienden a estar de acuerdo con la afirmación en comparación con los grados de instrucción altos (80% vs 50%). Del mismo modo se pudo identificar que los niveles socioeconómicos y grados de instrucción bajos se inclinan más que los sectores altos por aceptar la pena de muerte en casos de violación y asesinato a menores de edad. 262 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez Es posible determinar que en los niveles socioeconómicos y grados de instrucción bajos se sostiene en mayor medida que el Estado debe dar más prioridad a los peruanos que a los extranjeros y que el Estado no actúa frente a la llegada de éstos (90%), comparado con los sectores altos (80%). En cuanto a la pregunta sobre si el pueblo debería tener la facultad de decidir sobre la explotación de recursos naturales, se registra una tendencia de mayor aprobación en los sectores medios y bajos. El enunciado que plantea que las inversiones extranjeras se adueñan del país recibe relativamente altos índices de aprobación, siendo más contundentes (70%) en los sectores de instrucción más bajos. Finalmente, sobre la afirmación de que la inversión extranjera se quiere llevar los recursos naturales del país, ésta es ligeramente más compartida por los sectores de nivel de instrucción baja (90%) que en los altos (80%). En cuanto al primer objetivo específico (OE1), sobre si el electorado joven de la ciudad de Lima tiende a aceptar más los discursos populistas de izquierda o de derecha, encontramos que, en cuanto a los enunciados relacionados a política y medios de comunicación, hubo aceptación en ambos extremos políticos. Mientras que el populismo de derecha se relaciona a temas relacionados a la inmigración, la aceptación del discurso populista de izquierda se concentró en temas de economía y recursos naturales. En términos generales se pudo identificar que los enunciados populistas de derecha obtuvieron una ligera aceptación mayor que los de izquierda. En la pregunta sobre la autoubicación ideológica, la mayor parte de los jóvenes de Lima encuestados se ubicaron en una posición de centro (54.6%). Las tendencias políticas de derecha en la escala de medición obtuvieron un 32.8%, mientras que solamente un 11.9% de los jóvenes se ubicaron hacia la izquierda. Entre aquellos jóvenes que cuentan con un grado de instrucción bajo (secundaria incompleta), se registró una tendencia clara hacia una autoubicación ideológica de la derecha. Aquellos jóvenes que se ubican políticamente a la izquierda se Organizações e movimentos periféricos... 263 encuentran en los grados de instrucción intermedios entre secundaria completa y superior técnica completa. Tabla 4. Autoubicación ideológica, género y nivel socioeconómico Autoubicación ideológica Total (f %) NSE (f %) Género (f%) A B C D E Masc. Fem. Derecha 52.8 0.0 1.0 4.3 2.0 5.0 1.2 4.4 42.9 0.5 4.0 2.1 2.0 6.2 3.5 2.3 314.2 16.3 13.0 17.1 11.0 8.7 14.9 13.5 29.7 13.8 14.0 7.9 9.0 5.0 1.8 8.5 13.2 6.2 10.0 0.0 2.0 1.3 2.8 3.5 Centro 54.6 45.0 50.0 55.7 57.0 62.5 53.1 56.1 1 2 3.7 3.0 0.7 3.0 1.3 1.0 3.0 23.3 3.7 2.0 4.3 3.0 2.5 4.6 2.1 3 4 3.7 2.0 5.0 4.0 5.0 3.8 4.2 41.9 1.3 1.0 1.4 4.0 1.3 1.7 2.2 50.7 1.3 0.0 1.4 0.0 0.0 1.2 0.1 Izquierda Ninguna 0.1 0 0 0 0 1.3 00.1 No contesta 0.7 0 0 0 3 0 1.5 0 (Base: total de encuestados) 500 80 100 140 100 80 248 252 Fuente: elaboración propia En cuanto a las preguntas relacionadas al monopolio de la verdad (Dono, 2018), entendido como la subestimación de los demás y la creencia en una sola verdad, un notable número de jóvenes encuestados considera sus ideas más justas que las de los demás (60.1%). También afirman que sus ideas defienden el bienestar de todos y no de unos 264 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez pocos (59.1%). En relación a factores comportamentales (Dono, 2018), un 40.8% de los encuestados respondieron que la mejora de la sociedad puede justificar una acción que en otro caso sería cuestionable. 36.5% respondieron que dialogar y ponerse de acuerdo con los opositores puede llevarlos a fracasar en la búsqueda de una sociedad mejor. Por otro lado, un 23% sostiene que para defender los intereses de la gente es legítimo recurrir a la fuerza, frente a un 51% que está en desacuerdo con dicha afirmación. Un 37.4% de los encuestados respondieron que cuando una idea es objetivamente buena para el conjunto de la sociedad, es legítimo imponerla contra la voluntad de un sector de la población. Respecto al interés por la política, se pudo identificar que aproximadamente el 70% de los encuestados está algo interesado, interesado o muy interesado en la política, mientras que solamente un 30% manifiesta estar poco o nada interesado en la política. Los sectores socioeconómicos medios y bajos mostraron un interés mayor en temas políticos que los niveles altos. Al mismo tiempo, las mujeres encuestadas afirmaron estar ligeramente más interesadas en la política que los hombres. Tabla 5. Interés en política Total (f %) NSE (f %) Género (f %) A B C D E Masc Fem Muy interesado 9.8 7.5 9.0 9.3 11.0 13.8 10.3 9.3 Interesado 34.1 20.0 28.0 34.3 41.0 38.7 29.9 38.2 Algo interesado 28.5 35.0 42.0 25.7 19.0 30.0 30.8 26.4 Poco interesado 21.1 27.5 14.0 24.3 24.0 10.0 22.5 19.8 Nada interesado 6.4 10.0 7.0 6.4 5.0 7.5 6.6 6.3 No contesta 0.0 0.0 0.0 0.0 0.0 0.0 0.0 0.0 (Base: total de encuestados) 500 80 100 140 100 80 248 252 Fuente: elaboración propia Organizações e movimentos periféricos... 265 Con relación al objetivo específico dos (OE2) que buscó identificar en qué medida el fenómeno de la posverdad como arma de comunicación propagandística del populismo en redes sociales impacta entre un grupo experimental de jóvenes electores, se exploró sus reacciones a través de un experimento con noticias falsas populistas. Los resultados del experimento sobre las 8 noticias falsas con contenido populista de izquierda y derecha, cuyo procedimiento se describe en el acápite de metodología, evidenciaron un grado de interacción significativo por parte de los 20 jóvenes participantes (Tabla 6). Tabla 6. Reacciones ante noticias falsas Noticias Falsas D = Noticia falsa que muestra populismo de derecha; I = Noticia falsa que muestra populismo de izquierda Interacciones Total de interacciones Me Gusta Comenta Comparte Ingresa al enlace Facebook Presidente podrá cerrar el congreso mediante decreto (D) 10 3 8 7 28 Perú aprueba pena de muerte a violadores y se separa de la CIDH (D) 8 4 5 7 24 Secreto bancario de congresistas se mantiene (I) 2 4 8 8 22 Revocatoria del Presidente vía referéndum (I) 8 3 4 7 22 Twitter Becas de estudio para venezolanos (D) 9 9 6 7 31 Aumento del precio de medicamentos de marca(I) 5 5 8 8 26 Gobierno abre fronteras a migrantes (D) 5 7 7 6 25 Shell adquiere acciones de refinería Talara (I) 5 2 6 11 24 Fuente: elaboración propia 272 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez pe. Recuperado de https://rm.coe.int/information-disorder-toward-an-interdisciplinary-framework-for-researc/168076277c Organizações e movimentos periféricos... 273 O modelo coletivo e a Mídia Ninja: diferenças e particularidades no midiativismo. Uma investigação a partir de observação direta e entrevistas em profundidade Samária Araújo de Andrade UESPI - Universidade Estadual do Piauí/ UnB - Universidade de Brasília [email protected] Fábio Henrique Pereira Université Laval/ UnB - Universidade de Brasília [email protected] Resumo Esse estudo investiga atores de movimentos de midiativismo, com destaque para coletivos de comunicação e a Mídia Ninja - sigla para Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação - que irrompe em 2013, junto a grandes manifestações de rua no Brasil, e se torna modelo para outras iniciativas midiativistas. Utilizando como metodologias principais entrevistas em profundidade e observação direta propõe-se um elenco de diferenciais que caracterizam o modelo coletivo desses agentes midiáticos (prática colaborativa, tendência à horizontalidade, narrativa não neutra), e aspectos exclusivos da Mídia Ninja (casas e caixa coletivo). Conclui-se que esses diferenciais estimulam o surgimento de valores que emergem nessas configurações, importantes para a compreensão de como esses agentes atuam e mantêm seus participantes em engajamento. 274 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez Palavras chave: esfera digital; ativismo digital; meios alternativos; coletivos. Abstract This study investigates actors of media activism movements, with emphasis on communication collectives and Mídia Ninja - acronym for Independent Narratives, Journalism and Action - which erupted in 2013, along with large street demonstrations in Brazil, and became a model for other media activist initiatives. Using as main methodologies in-depth interviews and direct observation, we propose a list of differentials that characterize the collective model of these media agents (collaborative practice, tendency to horizontality, non-neutral narrative), and exclusive aspects of Mídia Ninja (collective houses and funding). It is concluded that these differentials stimulate the emergence of values in those settings, which are important for understanding how these agents act and keep their participants engaged. Keywords: digital sphere; digital activism; alternative media, collective. Resumen Este estudio investiga los actores de los movimientos de activismo mediático, especialmente los colectivos de comunicación y Mídia Ninja - sigla en portugués para Narrativas Independientes, Periodismo y Action. Mídia Ninja emerge en 2013 en el contexto de las grandes manifestaciones callejeras en Brasil y se torna el modelo para otras experiencias de activismo mediático. Utilizando como metodologías principales las entrevistas en profundidad y la observación directa, proponemos una lista de diferenciales que caracterizan al modelo colectivo (práctica colaborativa, tendencia a la horizontalidad, narrativa no neutra), y aspectos singulares de Mídia Ninja(casas y caja colectiva). Concluimos que estosdiferencialesayudan a reflexionar sobre los valores que emergen en estas configuraciones, que son importantes para la comprensión de cómo estos agentes actúan y ejercen su engajamento. Palabras clave: esfera digital; activismo digital; medios alternativos; colectivo. Organizações e movimentos periféricos... 275 1. Introdução A expansão da internet e das redes sociais digitais permitiu a emergência de uma esfera digital com uma pluralidade de canais de participação. Tão múltiplo quanto esses canais têm se apresentado os estudos desse campo. De modo geral as pesquisas partiram de um entusiasmo com as inovações nas Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) e suas promessas democratizantes, até chegarem a desconfianças e/ou decepções com o que, ao final, desembocou em polarizações, interferências em processos políticos e aumento do poder das empresas de plataformas digitais (Holt et al., 2013; Halpern et al., 2017; Rocha & Klein, 2018; Sebbah, et al., 2020). Nesse contexto contraditório, o potencial da esfera digital na promoção de um debate público plural e democrático tem sido objeto de discussão nos meios acadêmico e profissional. Avançar nessa discussão exige uma reflexão que escape a um debate meramente normativo sobre riscos e benefícios dessas modalidades de ação política (Markham, 2016) ou ainda dos discursos de caráter tecnodeterministas que desconsideram a heterogeneidade de atores envolvidos nessas práticas. Argumenta-se aqui pela necessidade de se considerar a realidade empírica dos agentes que se utilizam dos dispositivos digitais no dia a dia de suas práticas, incluindo o contexto em que elas ocorrem, suas tensões e contradições. Um caminho é uma maior aproximação com atores que têm buscado ressignificar as plataformas digitais, por meio de modalidades desviantes de uso (Vidal, 2013; Le Carof, 2018). Assim, o objetivo deste estudo é analisar as modalidades de apropriação desses dispositivos por grupos sociais relativamente marginalizados no espaço público a partir de um duplo movimento. Primeiro, de construção de modalidades de comunicação militante - ou midiativistas - destinadas a participar (ou mesmo subverter) a agenda midiática (Vila Seoane e Hornidge, 2018). Segundo, nos vínculos que esses agentes estabelecem com os dispositivos que produzem formas de realização de si a partir 276 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez de suas experiências individuais e coletivas. Nesse sentido, nossa hipótese é que tais atores possuem diferenciais e singularidades que não apenas os distinguem de outros formatos, mas que também ajudam a compreender as motivações de engajamento dos seus participantes - que atuam quase sempre à margem de contratos trabalhistas e muitas vezes de modo voluntário, sentindo-se recompensados de outras formas que não a diretamente financeira. Esta pesquisa se concentra nos chamados “coletivos de comunicação” – escolhidos pelo protagonismo que adquiriram -, com especial atenção para a Mídia Ninja (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação), que, no Brasil, capitalizou o modelo, influenciando outras iniciativas. A reflexão vai elencar um conjunto de diferenciais que caracterizam esses agentes, permitindo reconhecê-los e sugerindo que esse elenco de singularidades possa ser aplicado em outras análises. As principais características elencadas no que chamamos aqui de modelo brasileiro de midiativismo digital são: a) práticas colaborativas; b) tendência à horizontalidade; c) não neutralidade - aspectos presentes em outros arranjos independentes na arena da comunicação no século XXI (Fígaro, 2018; Rovai, 2018; Cabral, 2019). Também serão apresentadas duas características até o momento exclusivas da Mídia Ninja: d) adoção de casas coletivas – onde os ninjas vivem e trabalham-; e e) adoção de caixa coletivo para despesas. Ainda que estas últimas características sejam adotadas em outros grupos e/ou comunidades ao longo da história, na comunicação eram novidade até o surgimento da Ninja. Para avançar na compreensão dessa experiência, será realizada uma revisão do contexto de emergência dos movimentos de midiativismo no Brasil - com destaque para a Mídia Ninja. Em seguida, será descrita a pesquisa de campo conduzida aqui e que buscou analisar as práticas dos participantes dessa iniciativa e a forma como eles se apropriam desse novo modelo de engajamento político-midiático. Organizações e movimentos periféricos... 277 2. Contexto e Midiativismo Os coletivos de comunicação emergem no século XXI produzindo uma mídia de tipo novo: digital, colaborativa e militante. Eles se equilibram entre a concentração da mídia e uma contratendência que abre espaço a formas contestadoras. No Brasil, ganharam impulso com as manifestações conhecidas como Jornadas de Junho, em 201330, valendo-se das TICs para produzir imagens e relatos junto aos próprios manifestantes, que rejeitavam canais de comunicação convencionais. A Mídia Ninja se projeta ao cobrir essas manifestações, surgindo a partir do Fora do Eixo (FdE), rede de coletivos de eventos musicais, criada em 2005, em Cuiabá (MT), que investia em produções, especialmente de música e audiovisual, fora das cidades centrais, já experimentando, além de uma comunicação alternativa, práticas colaborativas depois adotadas pela Ninja (Vila Seoane e Hornidge, 2018). Ainda que nem os protestos de Junho de 2013 nem a Mídia Ninja gozem de interpretação consensual, sendo vistos ora como novas oportunidades de participação, ora como manobras de exploração capitalista, a Ninja se estabeleceu ao engendrar um rompimento com o mercado concentrado das mídias, constituindo-se em uma crítica concreta a essa questão. Mesmo se diferenciando das empresas de mídia hegemônica, os coletivos incorporaram ferramentas próprias do jornalismo, utilizando marcadores jornalísticos clássicos como entrevistas, manchetes, fotojornalismo, recursos audiovisuais, narração de acontecimentos diários, atuando especialmente na produção de notícias segundo a lógica das hardnews. As novas modalidades de produção e circulação de informações que permitem o surgimento desses atores digitais são resultado da confluência entre disponibilidade tecnológica, mobilização social e crise no mundo do trabalho, com incertezas ligadas à reestruturação 30 Maior onda de protestos de rua desde o movimento pelo impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Melo, em 1992. 278 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez produtiva, convergência de meios e concentração da mídia (Fígaro, 2018). Soma-se a isso um desgaste em modelos representativos, que atinge partidos, escola, igreja (Touraine, 2011) e também os meios de comunicação. Isso tudo acontece num cenário de capitalismo globalizado, com o ambiente digital desregulado e inserido em plataformas tornadas gigantes do setor das TICs, que tiram proveito de seu poder para ampliar atuação, se utilizando da manipulação de dados e controle de algoritmos (Newell & Marabelli, 2015; Morozov, 2018). Nesse ambiente, os canais digitais emergentes adotam diferentes atuações e interesses, indo dos de extrema-direita aos mais progressistas; dos altamente financiados aos com poucos recursos; dos ligados a grupos de comunicação internacionais aos surgidos localmente; dos formados por profissionais aos que reúnem amadores. No contexto desse “novo ecossistema midiático” (Rovai, 2018), atores progressistas têm em comum com conservadores a insatisfação por não se verem representados de forma “justa” pelo jornalismo mainstream, o que lhes confere caráterreativo (Haller et al., 2019). Os coletivos de comunicação são influenciados pelas ideias de indymedia - a mídia alternativa que desde o final do século XX acompanhava movimentos sociais e questionava a mídia convencional, o capitalismo e hierarquias, usando as TICs para instituir coberturas paralelas de eventos, com sites abastecidos de forma colaborativa por jornalistas independentes e ativistas (Poell & Borra, 2012; Malini & Antoun, 2013; Rovai, 2018). As iniciativas das chamadas mídias livres que surgem no Brasil e no mundo nas primeiras décadas do século XXI são principalmente digitais (Rovai, 2018) e se disseminam adotando o formato coletivo (Castell, 2013). A partir de 2011, ganham impulso com mobilizações de rua como Primavera Árabe, Indignados, na Espanha, e Occupy, nos Estados Unidos (Tufekci & Wilson, 2012) - que influenciam os protestos brasileiros de 2013 (Alves, 2012; Castell, 2013; Gohn & Bringel, 2014). Organizações e movimentos periféricos... 279 Os coletivos surpreenderam a imprensa convencional pela atuação em rede - usando as recentes mídias sociais- , a grande repercussão do que publicavam e o uso de poucos recursos financeiros, mas atraindo grande quantidade de participantes, a maioria de modo voluntário. Esses coletivos passaram a definir o que faziam como “midiativismo” - termo cunhado por Pasquinelli (2002) para diferenciar a experiência de mídias progressistas contemporâneas das mídias alternativas anteriores. Para o autor, midiativismo representaria um laboratório de experimentos de modelos sociais, atuando na construção de subjetividades políticas, com o midiativista sendo uma nova figura social, que experimentaria formas de autogestão de comunicação (Pasquinelli, 2002). Essa experiência traz a potência de “emancipar” a comunicação de mero transporte de informações, permitindo o uso da mídia em defesa de causas que unem os participantes (Malini & Antoun, 2013). Para compreendermos como isso tudo se reflete na prática, elencamos a seguir os diferenciais dos coletivos. 3. Metodologia A metodologia adotada neste estudo adota uma perspectiva indutiva e qualitativa, baseada em orientação etnográfica (Allard & Anderson, 2005), particularmente no uso de entrevistas semiestruturadas em profundidade com participantes da Mídia Ninja em diferentes graus de envolvimento, e na observação direta desses participantes em atividades de coberturas de comunicação, treinamentos e discussões. Um total de 15 entrevistas foram conduzidas com os ninjas - como são chamados os participantes desse coletivo - e ocorreram entre novembro de 2018 e julho de 2019. Elas se deram de modo presencial ou por videoconferência, quando não era possível o presencial, e cada uma teve duração de cerca de uma hora e meia a duas horas. Elas abordaram temas como: o ingresso da pessoa no coletivo ou como se aproximou 280 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez (no caso dos que não participam diretamente, mas colaboram), como avalia a imprensa convencional, que distinção acreditam possuir, o que experimentam ou sentem ao participar/contribuir com o coletivo. Todos os entrevistados autorizaram o uso do próprio nome nos relatos na pesquisa. Já a observação direta permite a aproximação com o modo de viver e pensar do grupo pesquisado, baseando-se na presença física do pesquisador e em sua observação in loco, na busca de avaliar comportamentos e perceber crenças e valores (Angrosino, 2009). Entre os anos de 2016 a 2019 foram conduzidas observações de campo, em diferentes atividades dos ninjas. Foram observadas as coberturas de eventos em Brasília, como manifestações de rua, ocupação em escolas públicas e na UnB (Universidade de Brasília). Um dos autores também participou de eventos e treinamentos organizados pelo coletivo, como a “Imersão”, atividade em que, durante quatro dias, a Ninja recebeu em sua casa coletiva no Distrito Federal interessados em discutir coberturas de comunicação, modalidades de jornalismo e de ações políticas, culturais e de organização social. A pesquisa de campo inclui ainda a participação em eventos do coletivo realizados fora das casas coletivas, como a Oficina de mídias digitais realizada para estudantes de Comunicação da UnB e um treinamento de cobertura coletiva, realizado no espaço físico da UnB e reunindo estudantes universitários e de ensino médio. As situações observadas foram registradas em um caderno de notas. Também foi realizado um registro fotográfico parcial do campo, recorrendo a procedimentos da sociologia visual (Becker, 1974) O conjunto de dados - notas de campo e a transcrição integral das entrevistas - foi codificado por meio de uma tabela de indução analítica (Becker, 2009), que considerou os seguintes elementos: a. as motivações que explicam/justificam o ingresso e a permanência desses atores na Mídia Ninja; b. as modalidades de gestão das interações com outros ninjas e com atores externos ao coletivo de comunicação; c. as situações de uso dos dispositivos sociotécnicos na sua prática midiativista; d. o Organizações e movimentos periféricos... 281 papel das emoções na construção de um vínculo desses atores com o trabalho realizado na Ninja. Essa codagem permitiu, em seguida, reinserir o conjunto de práticas associadas à comunicação midiativista, com as motivações e representações que os informantes fazem de suas experiências. 4. Diferenciais dos coletivos de comunicação e da Mídia NINJA 4.1. Práticas colaborativas É próprio do modelo coletivo a prática colaborativa e voluntária, útil para equacionar receitas esparsas e sem garantia de continuidade. A dificuldade de obtenção de recursos reforça o modelo colaborativo, que tende à supressão de contratos ou remuneração oficial. Essas supressões encontram apoio na flexibilização de leis trabalhistas e na diminuição das garantias no emprego nos últimos anos. Tudo isso suscita questionamentos sobre precarização da mão de obra, tema a ser enfrentado pelo modelo colaborativo. Renata Mielli, jornalista, coordenadora do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) e colunista no site da Mídia Ninja, discorda que o modelo colaborativo dos coletivos promova a precarização. O argumento que ela usa dialoga com a ideia de midiativismo: Quem precariza o trabalho de jornalista é a Globo, Folha de S. Paulo, Estadão, e fazem isso há muitos anos, com a pejotização, chancelada desde a reforma trabalhista. Ele (Ninja) não trabalha só com jornalistas, é uma rede de colaboradores, que vê a produção de conteúdo não como meio de sobreviver ou meio profissional, vê essa produção como uma ação militante, ativista. (Renata Mielli. Entrevista pessoal N ° 1. Julho 2019) A ausência de remuneração oficial exige explicações de outra natureza que justifiquem o engajamento dos participantes. Essa 288 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez Figura 2: Galeria de imagens do protesto #15M. Fonte: Mídia Ninja. 19 maio 2019. Para Renata Mielli, a não neutralidade da Ninja e outros coletivos é o seu diferencial mais importante, porque desmistifica a ideia de jornalismo como imparcial e desnuda a carência de fontes plurais de informação. Essa ideia de neutralidade é uma construção dos veículos mainstream como parte do seu modelo de negócio. Qualquer pessoa que passe por um banco de faculdade de comunicação sabe que não existe imparcialidade, neutralidade. O fato de ser notícia já é um processo de seleção. Eu escolho o que noticio, o que dou visibilidade, as pessoas que vão comentar, a abordagem do fato. Então, quando um coletivo como Mídia Ninja adota uma perspectiva distinta da adotada pelos meios hegemônicos, ele tá mostrando que o mesmo fato pode ser descrito e analisado a partir de várias perspectivas. (Renata Mielli. Entrevista pessoal N ° 1. Julho 2019) Organizações e movimentos periféricos... 289 A postura militante difere da mídia convencional. Mesmo quando, hoje, grande parte do meio acadêmico concorda que a notícia é uma construção da realidade, persiste no meio profissional, particularmente junto à mídia empresarial, uma ideologia de defesa da imparcialidade como garantia da qualidade jornalística e correção no trabalho. 4.4. Casas coletivas e caixa coletivo Dois elementos distinguem a Mídia Ninja de outras iniciativas alternativas de comunicação: a adoção de casas coletivas para trabalhar e viver e de caixa coletivo para despesas. Em fevereiro de 2021 havia quatro casas coletivas do FdE/Mídia Ninja, em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte. Elas abrigam cerca de 50 colaboradores fixos. Em 2012, o número de casas do FdE era de cinco, saltando para 18 em 2013, quando surge a Mídia Ninja. Depois essa quantidade de casas vai variando ao longo do tempo. Não há remuneração formal mesmo para os ninjas fixos. Eles são recompensados pelo acesso material ao que pertence a todos σ como o uso das casas e outros bens comuns σ, e por recompensas não materiais, como a oportunidade de desenvolver um trabalho ou viver uma vida que não teriam de outra forma. Os colaboradores eventuais, que rapidamente chegam a 200 pessoas e, em coberturas ao vivo, podem somar cerca de mil, não recebem qualquer benefício imediato. Aqui a recompensa é a experiência de participar e as ligações que podem passar a estabelecer com o núcleo central As casas coletivas funcionam como espaço de redação e residência, em que os moradores trabalham na cobertura da comunicação e na manutenção da casa, compartilhando responsabilidades. Clayton Nobre admite que morar em casas coletivas é um processo exigente. Casa é muito difícil, de fato. Quando você consegue pegar seu coletivo e montar uma casa e todo mundo passa a morar junto, é porque você avançou várias etapas. Muita gente fez isso, mas não conseguiu sustentar. A gente fala: as casas têm um tempo de duração de mais ou menos seis meses, aí 290 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez elas continuam ou não. Quando alguém fala: montamos uma casa - todo mundo alegre-, a gente fala: vamos ver se daqui a seis meses eles tão nessa animação (Clayton Nobre. Entrevista pessoal N ° 2. Novembro 2018). Sobre os critérios de seleção dos moradores da casa, Clayton enfatiza a importância do conhecimento das ferramentas de comunicação, mas também destaca a capacidade de viver em um espaço coletivo: “A gente faz entrevistas e elas funcionam pra gente sacar isso, que é muito subjetivo: como a pessoa pode lidar numa convivência com outras numa casa? Porque tem gente que não conseguiria se adaptar conosco” (Clayton Nobre. Entrevista pessoal N ° 2. Novembro 2018). A vida comunitária da Ninja inclui desde partilhar roupas a trabalhar juntos para criar os filhos que moram nestes espaços. Em fevereiro de 2021 eram cinco crianças, entre dois a seis anos. As decisões sobre modo de educar, em que casa morar, são tomadas em comum acordo, tentando seguir um formato horizontalizado, ainda que as resoluções possam ter influência de quem tem o chamado lastro. Isis Juvêncio, ninja fixa, é mãe de duas das crianças criadas coletivamente - uma, no momento da pesquisa, morando com ela na casa coletiva de Brasília, e outra que, por decisão do grupo, foi encaminhada para a casa coletiva do Rio de Janeiro. Isis fala da quantidade de negociações exigidas por uma vida coletiva: Tudo é negociado: pode fumar na sala ou não? A fumaça irrita outras pessoas? Ouvir música alta atrapalha? Você vai ter filho? Como vai criar as crianças? Precisa de uma casa maior? Quanto isso vai causar de impacto na nossa grana e dia a dia? Como a gente vai se organizar pra todo mundo fazer o que precisa e as crianças ficarem bem cuidadas? Alguém vai pagar pensão? Se a mãe saiu do coletivo e levou a filha, a gente vai pagar pensão? A menina vai ficar com a gente? [...]. Você cria novos métodos pra fazer coisas e é sempre em conjunto. O modo de criar as crianças, por exemplo, cada um foi trazendo os acúmulos que tinha, juntou com coisas que a gente pesquisou e fomos criando o método juntos. Talvez o maior exercício seja levar isso com leveza. (Isis Juvêncio. Entrevista pessoal N ° 5. Novembro 2018) Organizações e movimentos periféricos... 291 A manutenção das casas, despesas da vida cotidiana e aquisição de equipamentos são asseguradas pelo caixa coletivo, abastecido por diferentes formas de financiamento: realização de eventos culturais (como festivais de música e audiovisuais), crowdfunding, coberturas de comunicação para outros grupos (principalmente em audiovisual e na área cultural ou para movimentos sociais. Eles não aceitam qualquer “cliente”), cursos e oficinas de uso de mídias digitais, participações em editais e leis de incentivo. As múltiplas formas de financiamento, comuns nos coletivos, atestam a dificuldade de obter recursos. As casas não têm luxo e alguns móveis são doados por amigos ou familiares. Mas são espaços para uma vida com certos confortos - a casa de Brasília, por exemplo, tem piscina - e, dentro do que os ninjas acreditam e estabelecem, são espaços para uma vida e trabalho mais livres. Fred Maia, jornalista que ajudou a construir a casa coletiva de Belo Horizonte e hoje vive em Portugal, diz adorar a vida em comunidade, mas considera natural que nem todos se adaptem. Não é que nas casas seja um sufoco. Pelo contrário. As casas vivem com pouco dinheiro, mas são bem estruturadas, tudo é construído com zelo, as contas são abertas, o caixa é coletivo. Agora, muita gente vai lá, convive, aprende, gosta, mas, a partir de um certo momento, quer ter uma vida de forma mais tradicional, digamos mais “normal” para os padrões capitalistas: quer comprar seu carro, ter seu apartamento, seu quarto, sua cama, não quer ficar dividindo o mesmo quarto com outras pessoas. É natural [...]. É difícil abrir mão de certos privilégios pra viver coletivamente. Mas é muito gratificante. (Fred Maia. Entrevista pessoal N ° 6. Fevereiro 2019) Os quartos e camas são coletivos, porém os ninjas criaram, como estratégia de convivência, a σgaveta do apegoσ, onde guardam objetos σ em geral roupas ou calçados σ que desejam usar com exclusividade. Cada casa tem caixa próprio e sistema de prestação de contas via apresentação de nota fiscal de compras. Uma casa pode contribuir com 292 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez outra e há projetos em que os recursos são distribuídos entre todas as casas. Falando sobre o caixa coletivo, Clayton justifica o não pagamento de salários, exemplificando com a quantidade de pessoas que vivem na casa coletiva de Brasília: Hoje, em Brasília, somos seis pessoas adultas. Se a gente fosse destinar salário de dois mil reais pra cada, precisaria levantar uns doze mil reais por mês. Tem meses que a gente consegue, tem meses que não. A maioria dos meses a gente não consegue. E ainda tem contas de luz, água, internet, aluguel – todas as casas são alugadas. Então a primeira coisa que a gente falou foi: nossos recursos precisam ser coletivos, porque se forem individuais a casa não vai durar. (Clayton Nobre. Entrevista pessoal N ° 2. Novembro 2018) Outro artifício utilizado para diminuir despesas é o que os ninjas chamam de “xepa” e consiste em recolher alimentos em feiras populares de hortaliças por meio de doações. Também percorrem supermercados e mercadinhos em busca de doação de alimentos com validade próxima do vencimento. Todas essas medidas contribuem com a sustentação financeira do coletivo. Mas, mais do que estratégias de viabilidade econômica, se convertem na escolha por um modelo em que são criados vínculos diversos, com influência na adesão e permanência no coletivo. Mesmo com a busca de manter transparência nas receitas e despesas, em um grupo esses pontos sempre podem se tornar fontes de conflito e cristalizar rivalidades, sendo motivo de desgastes e rompimentos. Conclusões Neste capítulo, buscamos descrever as práticas que estão subjacentes às modalidades de adesão de apropriação do dispositivo Mídia Ninja pelos atores que buscaram ao longo dos anos participar e colaborar Organizações e movimentos periféricos... 293 com a iniciativa. O estudo reconhece a heterogeneidade dos agentes da esfera digital e defende a necessidade de se aprofundar o conhecimento sobre atores relevantes em interação nesse campo. Com base em uma perspectiva etnográfica, buscamos compreender agentes vinculados a movimentos de midiativismo, nos aproximando dos coletivos de comunicação e da Mídia Ninja – por sua relevância e influência no campo. Dada a inexistência de literatura consolidada que teorize sobre os coletivos (os estudos, em sua maioria, se concentram em dados empíricos e sobre o que é produzido), tomamos o caminho de elencar os diferenciais dos coletivos e da Mídia Ninja, apresentando uma forma de (re)conhecê-los por meio de suas diferenças. Elencamos como principais características do modelo brasileiro de midiativismo digital: prática colaborativa, tendência à horizontalidade e narrativa sem neutralidade – comuns a muitos coletivos-; e, como diferenciais exclusivos da Ninja: casas e caixa coletivo. Alguns desses distintivos são mais pacíficos dentro dos grupos e até servem à coesão, como o reconhecimento de uma prática parcial. Outros podem ser motivo de tensões e conflitos, como o modelo colaborativo e a horizontalidade, mesmo quando parte desses conflitos tendam a ficar recalcados nas relações. A prática colaborativa, por não exigir remuneração formal, permite que muitos coletivos proliferem. Essa ressignificação do sistema capitalista sugere o desenvolvimento de uma nova tecnologia social (Lohorgue e Maheirie, 2019), ao instituir relações baseadas nas trocas de serviços. A observação do campo, contudo, mostra que a ausência de contratos e pagamentos leva a questionamentos sobre precarização do trabalho, em consonância com o que aponta Teixeira (2020). Também conduz a observar que os engajados nesses modelos usufruem de recompensas nem sempre diretamente materiais, podendo sentirem-se gratificados pela atividade que desenvolvem, tipo de vida que experimentam, relações que estabelecem, prestígio que alcançam. O modelo colaborativo não deixa de ser conflituoso, atravessado por tensões e sujeito a desvirtuamentos. 294 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez A análise das relações de poder no interior da Ninja mostrou um descolamento entre os discurso público adotado pela Ninja em defesa do caráter coletivo da produção de informações (Rodrigues & Baroni, 2018; Costa, 2019; Ramalho & Maia, 2019) e a existência de hierarquias no interior do coletivo, expressas pelo uso da termo nativo “lastro”, para se referir a participantes com ascendência sobre o grupo. Essa constatação sugere a existência de clivagens no interior dessa prática e pode provocar potenciais tensões entre os participantes da Ninja. Ainda assim, não deixa de ser um modo de organizar um grupo diverso, que termina por adotar dinâmicas onde horizontalidade e verticalidade se alternam ou sobrepõem. Mas a adoção do discurso da horizontalidade também pode fazer referência ao esforço da Ninja e de outros coletivos de comunicação de democratizar o espaço público brasileiro com sua abertura a novas vozes (Lahorgue & Maheirie, 2019; Gantz & Paulino, 2021). E, nesse sentido, existe uma coerência maior em relação às práticas observadas nesta pesquisa, como a escolha de temáticas “alternativas” ao mainstream midiático e a mobilização de fontes de informação alinhadas a movimentos sociais e progressistas (Vila Seoane & Hornidge, 2018; Aguiar & Rodrigues, 2019; Ramalho & Maia, 2019; Vidotti & Gama, 2020). Por isso, é possível falar em estratégias de promoção de um acesso mais “horizontal” de certos grupos de atores ao espaço público midiático. Essa constatação está estreitamente vinculada ao modelo de engajamento jornalístico adotado pelos participantes da Ninja. Trata-se de uma característica editorial comum a uma constelação de iniciativas de mídia independente no Brasil, como assinalam Grohmann et al. (2019) e Gantz e Paulino (2021), embora existam especificidades que permitam distinguir o modelo adotado pela Ninja de outras experiências similares. De fato, desde 2013, sua atuação tem sido marcada por um um comportamento ativista – ou midiativista –, que não esconde as causas que defende e ultrapassa a produção de narrativas, desenvolvendo ações concretas e ajudando a (re)organizar Organizações e movimentos periféricos... 295 movimentos (Waltz, 2017). Assim, a não neutralidade é ainda um diferencial que na, relação com os públicos, serve a um duplo propósito. Primeiro, ajuda a estabelecer uma distinção entre coletivos alternativos e mídias empresariais. Segundo, e talvez mais importante, permite um reconhecimento do contrato de leitura pactuado com esses emissores na medida em que os leitores são capazes não só de compreenderem os posicionamentos da Ninja, mas de se reconhecerem enquanto públicos - jornalísticos e políticos - desse meio (Cefaï & Pasquier, 2003) Finalmente, as casas e o caixa coletivo, mais do que racionalização de custos, permitem vivenciar experiências. Se podem garantir gratificações não-materiais - como companhia e solidariedade, fortalecendo vínculos e engajamentos-, por outro lado não deixam de ser um modelo exigente, ao qual nem todos se adaptam. Além disso, seriam espaços de articulação da NINJA com outros movimentos sociais e de mobilização da rede de colaboradores (Aguiar e Rodrigues, 2019). Esta experiência de vida coletiva - extremamente original mesmo no contexto do jornalismo independente (Lahorgue & Maheirie, 2019) - revela um esforço importante dos seus idealizadores de construir uma experiência radical de vivência política e midiática. A originalidade desse objeto e as dificuldade de se acessar esses espaços como pesquisador, atestam as contribuições que este capítulo pode oferecer aos debates sobre o tema. Referências Aguiar, L. A. & Rodrigues, C. M. (2019). As rotinas produtivas do coletivo Mídia Ninja: narrativas jornalísticas e midiativismo. Estudos de Jornalismo e Mídia 16(1), pp. 157-168. https://doi.org/10.5007/1984-6924.2019v16n1p Allard, F. & Anderson, E. (2005). Ethnography. In: K. Kempf-Leonard (ed.), Encyclopedia of Social Measurement (pp. 833-843). Elsevier. https://doi. org/10.1016/B0-12-369398-5/00028-1. Alves, G. (2012). Ocupar Wall Street...e depois? In: Harvey, D. et al. Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas (pp. 31-38). 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La hipótesis de este trabajo es que este fenómeno no responde al azar, sino que es consecuencia de un esfuerzo deliberado por hacer más comprensible y aceptable la producción entre pares de software libre en el ámbito empresarial. Desde una perspectiva de economía política de la información que se asienta en un marco teórico originado en estas latitudes, el materialismo cognitivo (Zukerfeld, 2010), este ensayo propone un análisis crítico de la estrategia de comunicación persuasiva36 que propició, a través de un conjunto de tácticas, la adopción de la producción entre pares de software libre por parte de las empresas. ¿Quiénes fueron los actores involucrados en la definición de la estrategia comunicacional para promover la nueva modalidad organizativa en el ámbito corporativo? ¿Cuáles fueron las tácticas de comunicación persuasiva implementadas para poner de manifiesto ante grandes empresas, como Microsoft, que el software libre no es esquivo a la mercantilización? Estos son algunos interrogantes que buscamos responder en este trabajo, el cual resulta de una investigación cualitativa en curso acerca de la producción entre pares de tecnologías abiertas en el capitalismo informacional. Para responder a estas preguntas, recurrimos a la técnica de análisis documental, a partir de la búsqueda de fuentes secundarias 36 La comunicación persuasiva tiene como finalidad conseguir el apoyo de los públicos a los que se dirigen las estrategias comunicacionales, sea para vender un producto o servicio, lograr la adhesión a un partido político o adoptar una actitud de preferencia hacia una innovación organizacional, entre otros casos (Calvo Gutiérrez, 2016; Lalueza, 2006). Organizações e movimentos periféricos... 305 que reseñan la emergencia del movimiento Open Source durante la década de 1990, el cual constituye la unidad de análisis. Las bases de datos bibliográficas utilizadas para la búsqueda documental fueron el Sistema de Información Científica de la Red de Revistas Científicas de América Latina y el Caribe, España y Portugal (Redalyc) y Scientific Electronic Library Online (SciELO). Asimismo, utilizamos el buscador especializado Google Académico para obtener libros y tesis de doctorado. También se incorporan fuentes primarias mediante el acceso a los sitios Web oficiales de los sujetos individuales y colectivos. La estructura de este ensayo presenta, en primer lugar, una descripción sociohistórica orientada a situar el contexto espacial y temporal donde se gestó la nueva forma organizativa, con miras a analizar, en segundo lugar, el despliegue de la estrategia de comunicación persuasiva para la promoción de esta forma organizacional en las empresas, teniendo en cuenta a los actores involucrados y las tácticas implementadas. Finalmente, las conclusiones pretenden aportar una reflexión crítica, desde la economía política de la información, acerca de la emergencia del movimiento Open Source en el contexto del capitalismo informacional (Castells, 2000; Zukerfeld, 2010). 2. Producción entre pares de software libre En la década de 1990, el desarrollo de software libre delineó una nueva forma organizativa de los procesos productivos. El caso típico lo constituye el desarrollo del núcleo o kernel Linux a comienzos de la década, que comportó un cambio de escala significativo en la participación de aficionados en su producción (Himanen, 2001; Weber, 2004). La emergencia de la nueva modalidad organizativa fue posibilitada por la difusión de computadoras personales, relativamente económicas pero potentes, y el cableado global de internet, que permitió conectarlas entre sí (Moody, 2002). Particularmente, el proyecto Linux inició en el ámbito doméstico de un estudiante universitario, Linus 306 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez Torvalds, quien vivía en Finlandia, un país pionero en la conectividad de red temprana. Anteriormente, algunos programas del Proyecto GNU habían sido distribuidos a través de internet (Levy, 2010). Pero, en aquel momento, pocas personas obtuvieron acceso al código fuente mediante esta vía de distribución, dado que la red aún era incipiente. En cambio, en el desarrollo de Linux, internet adquirió centralidad tanto en la distribución como en la producción del programa. Según Moody (2002): «Linux explotó lo que podría llamarse el “método Minix” mejor que Minix lo empleó porque Tanenbaum permitió que su sistema operativo creciera lentamente y solo de ciertas maneras»37 (p. 60). Minix había formado parte del andamiaje de tecnologías proporcionadas por la Universidad de Helsinki, que le permitió a Torvalds iniciar el proyecto Linux. Tanto el libro Operating Systems: Design and Implementation como el software ilustrativo que lo acompañaba, Minix, habían sido creados por el profesor Andrew Tanenbaum como medios didácticos para la enseñanza del funcionamiento de sistemas operativos (Moody, 2002). Cuando el código fuente de la versión 7 de Unix dejó de estar disponible para los estudiantes, el docente se vio obligado a crear un sistema operativo de su autoría, que fuera compatible con Unix, para poder impartir clases prácticas. Asimismo, creó un grupo de discusión en Usenet (Users Network), comp.os.minix, en el cual recibió cientos de sugerencias para mejorar dicho software de sistema. Sin embargo, Tanenbaum no atendió a la mayor parte de las demandas de los usuarios, ante el temor de que el sistema operativo resultante pudiera resultar de difícil comprensión para los estudiantes (Moody, 2002). A partir de la lectura del libro de Tanenbaum, Torvalds aprendió que era posible obtener un núcleo de sistema operativo compatible con Unix para PC. En 1991, un préstamo estudiantil respaldado por el gobierno finlandés le permitió adquirir una PC con chip Intel 80386, el 37 Traducción propia. Organizações e movimentos periféricos... 307 cual tenía la capacidad de cambiar entre tareas, que a su vez era una de las características de Unix (Weber, 2004). Posteriormente, instaló 386-Minix, una versión de Minix que podía utilizarse en dicha PC. La experimentación que Torvalds realizó en lenguaje ensamblador y en C por entonces se convertiría en la base de Linux (Moody, 2002). Por su parte, Ari Lemmke, un programador de la Teknillinen korkeakoulu (TKK), ofreció a Torvalds un directorio en un servidor de internet, conectado a la red FUNET (Finnish University and Research Network), para que pudiera almacenar los archivos producidos. De este modo, los usuarios conectados al servidor podrían descargar los archivos utilizando el File Transfer Protocol (FTP). A este directorio, lo designó con el nombre de trabajo de Torvalds: «Linux» (Moody, 2002, p. 41). El 25 de agosto de 1991, en el grupo de discusión en Usenet, comp. os.minix, Torvalds anunció públicamente el proyecto de creación de un sistema operativo libre, orientado a ser un clon de Minix. Aclaró que su motivación era intrínseca y preguntó a los participantes del grupo de discusión qué características deseaban que tuviese el sistema. Posteriormente lo caracterizó como un software para hackers, creado por un hacker (Weber, 2004). Torvalds señaló que éste no aspiraba a ser un proyecto profesional como GNU, distinguiéndose del proceso productivo que se estaba desarrollando —lenta pero simultáneamente— en torno del kernel GNU Hurd (FSF, 2009). El 17 de septiembre de 1991, Torvalds almacenó el código fuente de la primera versión del núcleo (Linux 0.01) en el directorio creado por Lemmke y lo informó por correo electrónico a los usuarios que habían reaccionado a su publicación en el grupo de discusión comp.os.minix (Moody, 2002). En su construcción, Torvalds utilizó software del Proyecto GNU, lo que demuestra la simbiosis entre ambos proyectos (Moody, 2002). Aunque los programas del Proyecto GNU estaban regulados mediante GNU GPL, el kernel desarrollado por Torvalds no adoptó esta licencia para su primera publicación. El código fuente de Linux 0.01 en 308 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez el directorio estuvo acompañado de una licencia ad hoc que impidió la venta de disquetes, dando preferencia a su distribución a través de internet (Moody, 2002). Los comentarios acerca del kernel que Torvalds recibió por parte de los usuarios, lo motivaron a continuar trabajando en el proyecto. También los usuarios se vieron estimulados a contribuir a su desarrollo, dado que podían acceder al código fuente, probar el software y enviar los aportes o informes de errores directamente al autor. Estos intercambios se produjeron a través del correo electrónico, los grupos de discusión y el directorio. Tras una discusión con Tanenbaum, Torvalds dejó de escribir en el grupo comp.os.minix y pasó a utilizar el espacio de discusión comp.os.linux en Usenet. En torno del núcleo, se fue conformando una comunidad de usuarios que contribuirían a su desarrollo de manera inédita (Himanen, 2001; Weber, 2004). Aunque la publicación del código fuente de un software, las pruebas de los usuarios y la modificación del programa a partir de dicha retroalimentación no eran prácticas novedosas en las comunidades de hackers (Levy, 2010), se advierte el origen de una forma organizativa singular en el proceso productivo de Linux, a partir de su desarrollo en plataformas soportadas en internet: la producción entre pares (peer production) (Bauwens, 2005; Benkler, 2006; Zukerfeld, 2010). El depósito de las versiones de Linux en servidores FTP en Alemania y los Estados Unidos permitió incrementar las contribuciones realizadas por personas localizadas en distintas partes del mundo (Moody, 2002). Esta colaboración en red para la producción del núcleo ha sido posible porque su diseño es altamente modular, con interfaces entre las partes (Moody, 2002; Weber, 2004). A medida que el núcleo iba adquiriendo más tamaño y características, el desarrollo de sus piezas progresivamente requirió de la especialización brindada por distintos hackers. Pero, dado que la comunidad de Linux no estaba estructurada a partir de una jerarquía formal de actores, cualquier persona que se preocupara lo suficiente por desarrollar o depurar un módulo en particular podía asumir la responsabilidad de la tarea (Moody, 2002; Weber, 2004). Organizações e movimentos periféricos... 309 El lanzamiento de la versión de Linux 0.12 constituye un punto de inflexión en el proceso productivo, ya que Torvalds anunció que el núcleo quedaría regulado bajo la GNU GPL a partir del 1 de febrero de 1992, en respuesta a un conjunto de peticiones (Torvalds, 1992). El líder del proyecto justificó este cambio normativo ante la necesidad manifestada por algunos usuarios interesados en copiar el núcleo y distribuirlo a las personas que vivían en la misma área geográfica, pero cobrando al menos por el precio del disquete (Moody, 2002). Esta regulación posibilitó la generación de las distribuciones comerciales del sistema operativo libre GNU/Linux, resultante de la combinación del núcleo Linux con los programas publicados por el Proyecto GNU, que prosperaron a lo largo de la década de 1990 (Zukerfeld, 2010). En el mismo año, el lanzamiento de Windows 3.1 consolidó el dominio de Microsoft en el mercado de computadoras de escritorio. Pero, según Moody (2002), el éxito de Windows permitió a GNU/ Linux tener un punto de apoyo, dado que las computadoras podían ejecutar ambos sistemas operativos. Por ende, los aficionados de Linux podían probarlo sin tener que descartar Windows. De acuerdo con el autor, «[...] incluso en esta etapa temprana, GNU/Linux tenía ventajas cruciales sobre Windows»38 (Moody, 2002, pp. 57-58). Mientras que el sistema operativo privativo de Microsoft resultaba una caja negra para sus usuarios, el sistema operativo libre GNU/Linux tenía el potencial de ser mejorado por una comunidad creciente de usuarios. Cuando se lanzó la primera versión completa del núcleo (Linux 1.0), la comunidad de usuarios ya se componía de miles de aficionados en todo el mundo (Weber, 2004). Con el tiempo, el ciclo de actualización del kernel Linux adoptó un estilo de lanzamiento singular, dado que en la industria del software no había precedentes de publicación de nuevas versiones a los pocos días de una misma semana (Moody, 2002). Esto demostró que la nueva forma organizativa, combinada con la regulación libre de los bienes informacionales resultantes, posibilita circuitos 38 Traducción propia. 310 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez virtuosos de innovación. Cuantos más programas informáticos fueron licenciados con GNU GPL, mayor ha sido el conjunto de software libre al cual se puede recurrir para la producción, aumentando la eficiencia de los procesos de programación. Pero estas ventajas de la producción entre pares de software libre, ¿serían solo aprovechadas en procesos sin fines de lucro? 3. La emergencia del movimiento Open Source En la segunda mitad de los años noventa, el contexto espacial de Silicon Valley, la región sur del Área de la Bahía de San Francisco, en el norte de California (Estados Unidos), cobra centralidad para nuestro análisis. En las ciudades de Mountain View y Palo Alto se realizó una serie de reuniones, que produjo una concertación de actores acerca de la necesidad de elaborar una estrategia de comunicación persuasiva acerca de la metodología de desarrollo de software libre en el ámbito empresarial. Entre las personas que brindaron su apoyo, se encuentran Bruce Perens, Larry Augustin, Jon maddog Hall y Eric S. Raymond, cuyas posiciones en el campo de producción del software libre describimos a continuación. Bruce Perens era el líder del Proyecto Debian, el cual consiste en una distribución del sistema operativo GNU/Linux. Desde 1996 reemplazó a Ian Murdock, quien había iniciado el proyecto en 1993 y había logrado obtener financiamiento de la Free Software Foundation. Para Stallman, Debian representaba la concreción del Proyecto GNU, dirigido a combinar las herramientas existentes para la distribución de un sistema operativo libre completo, compatible con Unix. Sin embargo, sus pretensiones entraron en tensión con los conocimientos compartidos por los voluntarios tanto de la comunidad Debian como de la comunidad Linux. Por un lado, Stallman quería participar en la dirección técnica del Proyecto Debian, lo cual fue rechazado por los integrantes de dicha comunidad. Ellos consideraban que los vínculos Organizações e movimentos periféricos... 311 de reconocimiento construidos entre los voluntarios de la comunidad Linux constituían un ejemplo a seguir, por lo cual el liderazgo debía resultar como resultado de la participación en el desarrollo del proyecto (Moody, 2002). Por otro lado, Stallman pretendió instalar el término lingüístico «LiGNUx» para nombrar al núcleo Linux, afirmando que la comunidad Linux no existiría sin todo el software libre producido por el Proyecto GNU (Moody, 2002, p. 92). Pero este último no tenía participación directa en el desarrollo del núcleo, sólo había creado las herramientas necesarias que se incorporaban al kernel. Por lo tanto, esto fue percibido por los voluntarios de la comunidad de Linux como una imposición lingüística y semántica sobre un producto que ellos habían creado. Finalmente, la comunidad Debian acordó llamar a su distribución «Debian GNU/Linux», reconociendo el aporte del Proyecto GNU, pero formó una organización propia, separada de la Free Software Foundation (Moody, 2002, p. 92). Mientras que las opiniones de los participantes de los procesos productivos del núcleo Linux y el sistema GNU tendían a la polarización, algunos actores capitalistas encontraron oportunidades de negocio en el aprovechamiento del software libre producido por los aficionados de forma no remunerada. En la segunda mitad de la década de 1990, surgieron compañías dedicadas a la comercialización de paquetes de software de GNU/Linux y la provisión de servicios de soporte técnico de los productos. Este esquema de negocios se vio favorecido con el abaratamiento de un artefacto tecnológico, el CD-ROM, que resultó un medio de distribución conveniente por unas pocas decenas de dólares (Moody, 2002). Para legitimarse entre los usuarios, las nuevas compañías contribuyeron con hardware y financiamiento a los proyectos de desarrollo de software libre, incorporándose a sus comunidades (Zukerfeld, 2010). En este contexto, también se produjo un avance del capital en las capas de software y contenidos de internet (Zukerfeld, 2014). Larry Augustin formó parte de este proceso de mercantilización, escribiendo planes de negocios para empresas en internet, junto a los colegas de la 312 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez Stanford University David Filo y Jerry Yang Chih-Yuan, quienes estaban desarrollando el directorio de sitios Web Yahoo! (Richardson, 1997). Por su parte, Augustin creó la empresa VA Research, dedicada a fabricar hardware que ejecuta software GNU/Linux (Moody, 2002). VA Research proporcionó máquinas y acceso a internet para los sitios de Silicon Valley Linux User Group (SVLUG) y el Proyecto Debian. Asimismo, patrocinó SVLUG proporcionando espacio para realizar festivales y talleres (Richardson, 1997). Por su parte, Jon maddog Hall trabajaba como gerente de marketing en Digital Equipment Corporation (DEC) cuando invitó a Torvalds a una reunión de Digital Equipment Computer Users’ Society (DECUS) (Moody, 2002). Hall intercedió con DEC para conseguir que la empresa le entregue a Torvalds una potente computadora personal basada en el chip microprocesador Alpha, con el objetivo de portar el sistema GNU/Linux a una arquitectura de chip radicalmente diferente de Intel (Moody, 2002). Cabe aclarar que portar se refiere al proceso de convertir un programa para que funcione en un nuevo hardware. Entre 1994 y 1995, Torvalds aprovechó la oportunidad para revisar el código y realizar cambios drásticos en el núcleo Linux. Estas transformaciones posibilitaron que el sistema operativo libre GNU/Linux sea equivalente a un clon completo de Unix y pueda tener rendimiento en minicomputadoras, mainframes y supercomputadoras. El lanzamiento de Linux 2.0 además incorporó un logotipo, creado por Larry Ewing (Moody, 2002). Por último, Eric S. Raymond asumió el papel de jefe teórico de esta nueva forma de organización productiva del software libre. Hijo de un programador de mainframe y ejecutivo de Sperry Rand, Raymond se autopercibió como hacker de segunda generación (Moody, 2002, p. 144). Sus estudios de grado fueron en filosofía y matemáticas en la University of Pennsylvania, pero no de computación. En este campo, sus conocimientos han resultado del aprendizaje autodidacta. En 1990, Raymond se topó con una copia de Jargon File, el glosario de la jerga hacker iniciado en 1975 por Raphael Finkel en el Laboratorio Organizações e movimentos periféricos... 313 de Inteligencia Artificial de la Universidad de Stanford (Moody, 2002). Éste consiste en un archivo de texto simple (.txt), que ha circulado por las redes de computadoras de los nodos universitarios en los orígenes de internet, siendo compartido y mejorado por las comunidades de hackers. Sus actualizaciones han sido construidas colaborativamente. En 1983, los términos del glosario fueron reunidos y publicados en el libro The hacker’s dictionary: a guide to the world of computer wizards (Steele et al., 1983). En 1991, Raymond decidió actualizar Jargon File y hacer una nueva edición del libro, que The MIT Press publicó con el título The New Hacker’s Dictionary (Raymond, 1991). Mientras que esta última obra se convirtió en un best seller y brindó al compilador notoriedad en los medios masivos de comunicación, en el campo informático generó controversia en torno a la representatividad de la comunidad hacker. Parte de estas críticas se encuentran plasmadas por Raymond (2003) en su descargo. En 1996, Raymond conoció a Torvalds en The First Conference on Freely Redistributable Software, realizada en Cambridge, del 2 al 5 de febrero (Salus, 1996). Aunque este encuentro fue patrocinado por la Free Software Foundation, la centralidad no recayó en Stallman ni en la defensa de las libertades de los usuarios del software. Por el contrario, la metodología de desarrollo abierta y distribuida fue el tema de mayor interés. Así lo comprendió Raymond, quien presentó el ensayo The cathedral and the bazaar en Linux Kongress el 21 de mayo de 1997 y posteriormente lo publicó en su sitio Web personal. En éste, presenta una analogía entre el estilo de desarrollo de software libre con el bazar, en oposición al desarrollo de software privativo, que relaciona con el estilo catedral (Raymond, 2000). Una diferencia esencial entre un estilo de programación y otro, radica en lo que Raymond (2001) expresó como la Ley de Linus: «Dada una base suficientemente grande de betatesters y co-desarrolladores, casi todos los problemas se caracterizarán rápidamente y la solución será obvia para alguien»39 (p. 30). Mientras 39 Traducción propia. 320 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez Recuperado de https://smaldone.com.ar/documentos/libros/opensources. pdf Himanen, P. (2001). The Hacker Ethic and the Spirit of the Information Age. New York: Random House Trade Paperbacks. [Autor/a]. (2020). Conocimientos doblemente libres en la expansión sistémica de la propiedad intelectual. Hipertextos. Capitalismo, Técnica y Sociedad en debate, 8(14), 137-163. 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El objetivo del artículo es discutir la pertinencia de la Teoría Actor–Red, para el estudio de los imaginarios turísticos y de las controversias que se generan desde las redes sociodigitales; lo que es relevante dado que éstos son considerados espejos sociotécnicos de la práctica turística. Palabras clave: Internet; redes sociodigitales; turismo; actores. 42 El presente documento es parte de la investigación en curso intitulada “Imaginarios Turísticos y redes sociodigitales en Tlaxcala, México” 324 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez Abstract Tourism imaginaries are the symbolic mental constructions of a destination or an event tourism, and they function as tourism drivers. These are built through the interaction of people and objects such as photographs, videos or monuments, through which they are represented and transformed. The objective of the article is to discuss the relevance of the Actor - Network Theory, for the study of tourist imaginaries and the controversies that are generated from socio-digital networks; which is relevant because these are considered sociotechnical mirrors of tourist practice. Keywords: Internet; socio-digital networks; tourism; actors. Resumo Os imaginários turísticos são as construções mentais simbólicas de um destino ou de um fato turístico que impulsionam o turismo. Os mesmos são construídos através da interação das pessoas e objetos como fotografias, vídeos ou monumentos através dos quais são representados e transformados. O objetivo desse artigo é discutir a pertinência da Teoria ator – Rede para os estudos dos imaginários turísticos e das controversas que geram a partir das redes socio – digitais, e sua relevância, devido a que são considerados espelhos socio – técnicos da pratica turística. Palvras – Chaves: Internet; redes socio – digitais; turismo; atores. Introducción Internet y en especial las redes sociodigitales han modificado la forma de hacer turismo; estas plataformas se han convertido en el recurso principal de las personas para buscar, consumir y compartir información sobre viajes, además de la posibilidad de comprar productos y servicios turísticos (Altamirano, Túñez & Marín, 2018; Sung-Eun, Kyung, Soo & Sung-Byung, 2017; Wichels, 2014). El informe Digital 2021 Digital Overview Report elaborado por We Are Social Hootsuite estimó que seis de cada 10 personas en el Organizações e movimentos periféricos... 325 mundo utilizan internet y el 53 por ciento hace uso de al menos una red sociodigital. De los motivos para utilizar internet, 38.7 por ciento lo hace para obtener información acerca de destinos, viajes o vacaciones, ubicándola dentro de las 11 razones principales para conectarse al espacio virtual. En el turismo, antes del 2019, las redes sociodigitales ya eran tendencia en los modelos de relaciones públicas, herramientas de comunicación y marketing, así como entre los propios turistas para obtener información o compartir experiencias de viajes; pero fue a raíz de la pandemia causada por el virus SARS-CoV-2 que incrementó el uso de estas plataformas y en general de las Tecnologías de Información y Comunicación (TIC), con la finalidad de implementar acciones novedosas que paliaran los efectos negativos que trajo al turismo el confinamiento y cierre de fronteras aplicado prácticamente en todo el mundo (Zaldívar & Gutiérrez, 2020). Es así que los destinos turísticos aceleraron las estrategias de innovación digital para mantenerse vigentes y presentes en el imaginario de las personas (Rangel, 2020; Muros, 2020). Lo anterior ha funcionado gracias a que las estrategias de innovación digital han sido complementadas y difundidas a través de las redes sociodigitales; entendidas éstas como plataformas virtuales de interacción y comunicación social (Zeng & Gerritsen, 2014). En el turismo, las redes sociodigitales son ampliamente utilizadas; por ejemplo TripAdvisor, Facebook, Instagram y YouTube, entre otras, permiten conocer, valorar y calificar los destinos turísticos por parte de los usuarios. En esta interacción, diversos estudios han demostrado que las opiniones de los turistas tienen mayor peso y credibilidad que la información emitida por empresarios o gobiernos (Camprubiσ, Guia & Comas, 2013; Garay & Cánove, 2015; Mariné & Anton, 2017), por lo que éstos últimos invierten cada vez más en estrategias de promoción y marketing en el espacio virtual (de San Eugenio, 2012; Sorjen, 2020). El éxito que ha tenido internet y en especial las redes sociodigitales se debe, entre otras cosas, a la dinámica de comunicación denominada 326 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez Web 2.0 que permite procesos de interacción múltiple, de tal forma que los diferentes actores del turismo cuentan con las mismas posibilidades de producir, emitir y compartir información, a diferencia de lo que sucedía con los medios tradicionales como la prensa, la radio y la televisión; lo anterior ha provocado nuevas lógicas de producción y consumo simbólico entre la sociedad (Fuentes, 2005; Castells, 2009; Cebrián, 2018). Esta dinámica de comunicación, interacción y organización social remite no sólo al aparato tecnológico sino a los modos de percepción y de lenguaje, de escrituras y lecturas de lo real (Martín-Barbero, 2010; Pineda, 2011), de modo que los sujetos intercambian concepciones mentales, percepciones, valores, imaginarios sociales y significaciones (Pineda, 2010). En este sentido, la interacción que emerge en las redes sociodigitales, entre los diferentes actores del turismo, repercuten en la negociación, reconfiguración y transformación de los imaginarios turísticos (Salazar, 2012; Zhu, 2012). Ante la creciente penetración de las redes sociodigitales en el turismo, se considera relevante el estudio de los imaginarios turísticos que se configuran en el espacio virtual, pues éstos son espejos sociotécnicos del turismo, al incidir en la práctica turística realizada en los destinos y territorios. En ese orden de ideas, el objetivo de este artículo es discutir, a partir de revisión documental, la pertinencia de la Teoría Actor-Red (Latour, 1984) para el estudio de los imaginarios turísticos y de las controversias que se generan desde las redes sociodigitales; para ello, primero se expone la noción de imaginarios turísticos, seguida de las premisas de la Teoría Actor-Red; posteriormente se analiza porqué los imaginarios turísticos, configurados desde las redes sociodigitales, se han convertido en espejos sociotécnicos del fenómeno turístico. A continuación se discute en torno a las controversias de los imaginarios turísticos en las plataformas virtuales, para terminar con reflexiones sobre los alcances y limitaciones de adoptar esta perspectiva. Organizações e movimentos periféricos... 327 Aproximación conceptual a los Imaginarios Turísticos Los Imaginarios Turísticos (IT) son construcciones mentales simbólicas, que pueden ser colectivas o particulares, que hacen posible las relaciones entre personas, objetos, imágenes y lugares de un determinado destino turístico, y que operan como uno de los principales impulsores de esta actividad, al estar presente en todos los momentos de la práctica turística (Hiernaux, 2002; Salazar, 2012). De acuerdo con Hiernaux (2002), los imaginarios turísticos (IT) son la porción del imaginario social referido al hecho turístico, siendo el imaginario social “el conjunto de creencias, imágenes y valoraciones que se definen en torno a una actividad, un espacio, un periodo o una persona (o sociedad) en un momento dado” (p.8). Se les considera impulsores de la actividad turística porque intervienen en todos los momentos del viaje, desde la elección del destino hasta en el propio lugar, e incluso después, orientando o impidiendo ciertas prácticas por parte de los turistas y también de los locales (Gravari-Barbas & Graburn, 2012). Los IT son una construcción mental temporal, son un proceso vivo y subjetivo y por tanto, sujeto a cambios y con posibilidad de transformarse (Hiernaux, 2002). En algunos destinos, los imaginarios son difusos y pueden sufrir variaciones fácilmente, pero en otros casos pueden ser más fuertes y difícilmente modificables (Salazar, 2012); esto puede ser explicado porque se considera que los imaginarios turísticos están asociados a la lucha de poderes, de tal manera que al ser producto de las significaciones e interacciones de quienes forman parte del entramado turístico σpoblación local, instituciones, prestadores de productos y servicios, mediadores y turistas (Salazar, 2012)σ los imaginarios pueden ser construidos por los agentes dominantes del turismo (Hiernaux, 2015), como empresarios o gobiernos, pero también son intervenidos por los actores o los residentes para crear nuevos imaginarios (Gravari-Barbas & Graburn, 2012). 328 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez En ese sentido, para Castoriadis (2000) existen los imaginarios instituidos e instituyentes, donde los primeros tienen la función de manteneryjustificarel orden social existente, a través de la legitimación, la integracióny el consenso. Mientras que los segundos se refieren a las fuerzas movilizadoras y portadoras del cambio social; es decir, a nuevas significaciones que disputan el entramado de lo instituido, pues su función es cuestionar el orden social establecido (Vera, 2014). Ejemplo de lo anterior es el imaginario turístico de sol y playa que, como mencionan Sánchez y Santamaría (2015 p. 1004) “es probablemente el […] mejor vendido en el mundo”; éste IT hace referencia a espacios oníricos y permisivos, que se producen y reproducen particularmente por agentes privados y que se han interiorizado y acentuado en el imaginario de las personas. En contraposición, se encuentran las propuestas sociales y comunitarias que emergen como alternativas al turismo masivo que apuestan por modos distintos de viajar y, también, por formas alternas de pensar e imaginar el tiempo libre, el ocio y lo turístico (Hiernaux, 2020). Debido a que los imaginarios son intangibles, Salazar (2012) refiere que la única forma de estudiarlos es a través de los medios por donde se hacen visibles en forma de imágenes y discursos tales como fotografías, videos o relatos de los propios turistas o bien, por medio de la información boca-oído, publicidad y el marketing. Hiernaux (2002) coincide al mencionar que los imaginarios se transmiten a través de los subterfugios como fotografías, videos, objetos, así como del relato de la experiencia vivida. Es por lo anterior que se considera que para lograr la identificación y descripción de los Imaginarios Turísticos, la Teoría de Actor-Red (TAR) es de gran utilidad, dado que bajo esta perspectiva los objetos no solo son intermediarios pasivos de las interacciones colectivas, sino que también son mediadores activos con potencial transformador (Pozas, 2018). La TAR propone una sociología de las asociaciones que considera la constitución de redes heterogéneas interconectadas y articuladas, que Organizações e movimentos periféricos... 329 se configuran con la participación de actores humanos y no humanos (Latour, 2008), entre éstos últimos se incluyen los elementos simbólicos, pues los objetos intervienen en la construcción de significados, otorgando soporte a las representaciones simbólicas colectivas (Girola, 2020). Teoría de Actor-Red para el estudio de los imaginarios turísticos La Teoría de Actor-Red (TAR) surgió en la década de los 80 como una propuesta realizada por Bruno Latour, Michel Callon y John Law, como critica a las ciencias sociales tradicionales de esa época. En términos generales, se trata de un enfoque teórico-metodológico que busca redefinir la noción de lo social restituyéndole la capacidad de rastrear conexiones, pues de acuerdo con Latour (2008), lo social debe repensarse, pero ya no más como cosa, lugar, factor o dominio específico, sino como asociaciones. De acuerdo con la TAR, lo social puede describirse a través del rastreo de los elementos que forman redes sociotécnicas de entidades heterogéneas, conformadas por actores humanos y no-humanos, dotados de agencia o de capacidad de acción (Pozas, 2018); esta noción de simetría entre personas y objetos es la mayor innovación de este enfoque, pues elimina las dicotomías de los análisis sociológicos tradicionales, como objeto-sujeto, micro-macro, naturaleza-sociedad. Por rastreo se entiende el seguimiento a la configuración de las redes sociotécnicas, en el entendido de que éstas no son pre-existentes, sino dinámicas (Latour, 2008). De esta manera, la TAR no sólo dota a los objetos de capacidad para mediar todo tipo de interacciones, sino “para mantener la vigencia del mundo” (Pozas, 2018, p. 402). Es así como los no humanos tienen un papel activo en el espacio-tiempo que, además de intervenir en la construcción de significados, otorgan soporte y materialidad a las 336 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez El mapeo de controversias es una metodología cada vez más utilizada en los estudios sobre Sociedad, Ciencias y Tecnología para observar y describir los fenómenos sociales con base en la Teoría ActorRed. Éste se realiza bajo la premisa de que la TAR no busca solo observar a los actores o las redes sociales una vez que están estabilizadas, sino que presta atención a los desencuentros donde los actores están renegociando las redes para crear otras que redefinen su identidad (Venturini, 2010). Respecto a los imaginarios turísticos, las controversias se evidencian cuando emergen nuevos imaginarios que cuestionan el orden establecido, que pugnan contra los imaginarios hegemónicos en un determinado lugar, tiempo y espacio; son debates respecto a las percepciones y mentalidades de los turistas, gente local y empresarios sobre un determinado destino o respecto a un hecho turístico. Es así que los IT como procesos vivos y sujetos a cambios, constantemente son sometidos a procesos de traducción, a partir de los intereses y propósitos de los actores que intervienen en el fenómeno turístico. En el panorama turístico en torno a la pandemia por la COVID-19, han surgido diversas controversias respecto al futuro del turismo, algunos autores se inclinan por la reconfiguración de las prácticas turísticas para hacerlas más sustentables, de respeto e incluyentes de las comunidades locales, mientras que otros simplemente consideran que no habrá cambios sustanciales en la forma de hacer turismo y, por el contrario, la masificación de algunos destinos será inevitable, regresando a escenarios de contaminación del ambiente y priorización de la acumulación de capital por parte de empresarios y gobiernos (Zaldívar & Gutiérrez, 2020; Palomo et al., 2020; Vega et al., 2020; Huertas et al., 2020). Ante la inminente penetración de las redes sociodigitales en la cotidianidad, las controversias pueden ser rastreadas a través de métodos digitales, pues la tecnología otorga a las ciencias sociales la posibilidad de seguir cada interacción y mostrar cómo la vida social se entreteje a partir de su ensamblaje, toda vez que cada interacción Organizações e movimentos periféricos... 337 en el espacio virtual deja huellas que se pueden registrar fácilmente, almacenar masivamente y recuperar de forma económica (Venturini & Latour, 2010), situación que hace dos décadas resultaba muy costosa de hacer. En el turismo, el espacio virtual ya no puede concebirse como un espacio separado de lo real, toda vez que todo el proceso turístico se realiza a través de internet, se busca información sobre viajes, ocio o vacaciones en buscadores; se adquieren productos y servicios turísticos a través de diversas plataformas; se consultan, valoran y emiten opiniones sobre los destinos o lugares en las redes sociodigitales; se realiza el viaje con apoyo de aplicaciones conectadas al GPS y se comparte la experiencia a través de los perfiles de las redes sociodigitales. Con el mapeo digital, se pueden evidenciar las controversias de los imaginarios turísticos desde el punto de vista de todos los actores, sus interacciones y sus procesos de traducción a través de los cuales los imaginarios son negociados y transformados, pero sobretodo que tienen incidencia en las prácticas turistas tanto de visitantes como de locales e intermediarios en el mundo real. Para el estudio de los IT, algunas herramientas metodológicas utilizadas son el análisis del discurso, ya sea de revistas, periódicos, folletos o de una página web en un determinado tiempo; o bien, entrevistas o encuestas a turistas u otros actores, dadas las limitaciones de la investigación social. Sin embargo, desde la perspectiva de la TAR y con el apoyo de las redes sociodigitales, la posibilidad de describir los imaginarios turísticos a través de las huellas que dejan los actores durante sus interacciones digitales, se hace integral y holística. Al respecto, Venturini & Latour (2010) resaltan que para el estudio de las controversias es necesario aplicar métodos “cuali-cuantitativos” que posibiliten el seguimiento de los procesos de construcción, deconstrucción y reconstrucción de los fenómenos sociales o en este caso, de los imaginarios turísticos. Estos métodos requieren recopilar y procesar gran cantidad de datos, para rastrear a cada uno de los actores 338 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez involucrados y cada una de las interacciones entre ellos, lo cual no sería posible sin las tecnologías digitales. Los métodos cuali-cuantitativos descritos por Venturini & Latour (2010) no se refieren al análisis estadístico combinado con la observación etnográfica, sino que se evita el dualismo micro – macro, al integrar ambas perspectivas. En este sentido el mapeo y rastreo de controversias en las redes sociodigitales, no solo posibilita el seguimiento de las interacciones entre los actores, humanos y objetos, que intervienen en la construcción de imaginarios turísticos, sino que también permite distinguir la contribución específica que cada una de éstas hace para su institucionalización. Consideraciones finales En la última década, cada vez más investigaciones sobre turismo han adoptado la Teoría Actor–Red, en parte, porque permite explicar las relaciones entre actores (humanos y no-humanos) de manera simétrica, dada la materialidad del fenómeno turístico, así como su complejidad al tejer redes con otras esferas sociales como la economía, la política y la comunicación, entre otras (Van der Duim et al. 2017). Al hacer un recuento de los estudios turísticos que han adoptado el enfoque de la TAR, Van der Duim et al. (2017) señalan que estas investigaciones tienen en común un enfoque de interdependencia entre humanos, objetos, tecnologías y espacios y, con las posibilidades analíticas que otorga la TAR, se ha logrado generar descripciones en profundidad de las prácticas turísticas. En el caso particular de los Imaginarios Turísticos, su estudio desde el enfoque de la TAR es emergente; no obstante, Zhu (2012) afirma que la Teoría Actor–Red enriquece la descripción de la construcción y producción dinámica de imaginarios turísticos lo que resulta especialmente relevante, en la permanente y controversial incertidumbre en que se desarrolla la práctica turística, y la vida en general, hoy en día. Organizações e movimentos periféricos... 339 En contraparte a lo expuesto, Salazar (2012) reconoce que si bien la TAR ofrece formas innovadoras de describir la circulación de los imaginarios, la fuerza explicativa de este marco analítico es débil, dado que solo ayuda a comprender en qué direcciones se mueven y se transforman las imágenes e ideas, pero no necesariamente por qué eso sucede así. En este sentido se recomienda que los estudios de los destinos turísticos y particularmente de los imaginarios turísticos, desde la TAR, integren la perspectiva histórica de larga duración, con la cual es posible aproximarse a la comprensión de la compleja red de relaciones y dinámicas entre lo humano y lo no humano (Aceituno & Iglesias, 2019). Otra de las limitaciones que se reconoce del marco teóricometodológico de la TAR, está relacionada con el hecho de que el espacio virtual no es accesible para todos. A pesar de que en los últimos años y en especial en el 2020, a causa de la pandemia, la penetración de las tecnologías de comunicación ha ido en aumento persiste la desigualdad, no solo respecto a los contextos sociales (países en desarrollo o subdesarrollados), sino a los segmentos sociales (jóvenes, adultos, profesionales, analfabetas) que pueden acceder al internet, lo que de alguna manera sesga la identificación de imaginarios turísticos. Empero, aun así, la Teoría Actor Red ofrece la posibilidad de dar seguimiento a gran diversidad de redes sociotécnicas; particularmente a través de redes sociodigitales como Facebook, Instagram, Twitter o YouTube, entre otras. Lo anterior es posible porque las plataformas digitales enunciadas facilitan el mapeo y rastreo de controversias y, a partir de ello, permiten la descripción y comprensión de los procesos por los cuáles los imaginarios turísticos se transforman e institucionalizan, así como el grado de participación de los actores que intervienen en éstos. En este sentido Venturini & Latour (2010) resaltan que los estudios con métodos digitales son representativos solo si su procesamiento -identificación, extracción, integración, análisis y publicación de los 340 Rodrigues Costa, Capoano & Barredo Ibáñez datoses fidedigno y próximo a las representaciones expresadas por los actores involucrados. Hoy por hoy el turismo atraviesa por la mayor crisis causada por la pandemia del virus SARS-CoV-2; el confinamiento obligatorio, el cierre de fronteras y restricciones de actividades no esenciales causaron un efecto negativo al crecimiento turístico en la mayoría de los destinos del planeta, pero potencializaron la interacción en el espacio virtual, esto ha incidido en el posicionamiento privilegiado de las redes sociodigitales para la interacción social, lo que multiplica y diversifica las redes sociotécnicas y, con ello, el flujo de ideas, imágenes y discursos que, incrementan también el tipo y número de controversias. En este panorama, los imaginarios se negocian y reconfiguran permanentemente; por tanto la Teoría Actor – Red representa un enfoque teórico, analítico y metodológico pertinente para el estudio de los Imaginarios Turísticos, producidos y reproducidos desde las redes sociodigitales. Referencias Aceituno, D. & Iglesias, R. 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