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Universidade do Minho Escola de Economia e Gestão Ana João Santos Magalhães A contabilidade na Era Digital: a perceção do contabilista ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! outubro de 2023 A contabilidade na Era Digital: a perceção do contabilista UMinho | 2023 Ana João Santos Magalhães
Universidade do Minho Escola de Economia e Gestão Ana João Santos Magalhães A contabilidade na Era Digital: a perceção do contabilista Dissertação de Mestrado Mestrado em Contabilidade Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Delfina Gomes Outubro 2023
ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição Não Comercial Sem Derivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/
iii AGRADECIMENTOS Esta dissertação de mestrado marca o encerramento de uma fase extremamente desafiadora ao longo da minha jornada acadêmica. É o resultado de inúmeras horas de trabalho árduo, dedicação e colaboração, e sou profundamente grata a todos que desempenharam um papel, de forma mais direta ou indireta, na conclusão desta fase. Em primeiro lugar, agradeço à minha família por todo o apoio e em especial aos meus pais que desde o primeiro dia estiveram sempre ao meu lado, independentemente das minhas escolhas, estando sempre lá para me motivarem e nunca me deixarem desistir. Ao meu avô Aurélio por todo o carinho, e à minha avó Emília, que apesar de já não estar entre nós, continua a ser a minha maior fonte de amor e inspiração. Um agradecimento às minhas amigas, Catarina, Diana, Márcia e Maria, por estarem sempre presentes e por serem parte fundamental da minha vida. Às minhas primas, Bruna e Edna, obrigado pelo companheirismo e suporte constante. À Sofia pela colega e amiga que é, esta caminhada não teria sido a mesma sem a tua cooperação indispensável. Expresso a minha profunda gratidão à minha orientadora, Professora Doutora Delfina Gomes, cuja sabedoria e orientação foram fundamentais na formação desta dissertação. Por último, quero estender o meu reconhecimento a todos os contabilistas certificados que generosamente ofereceram o seu tempo e visões para este estudo. Sem as suas contribuições e perspetivas nada disto teria sido possível.
iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à pratica de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho.
v A contabilidade na Era Digital: a perceção do contabilista RESUMO No decorrer dos últimos anos, a profissão de contabilidade passou por grandes mudanças derivadas da necessidade de adaptação à nova realidade. Enquanto as organizações procuram acompanhar os avanços tecnológicos para se meterem competitivas, os contabilistas fazem-no para manter a sua relevância e papel no mercado. Neste sentido, é importante explorar a perceção do contabilista acerca do próprio exercício da profissão e do impacto que as novas tecnologias têm vindo a ter na atividade dos profissionais da contabilidade, desde as tarefas desempenhadas à sua formação. Portanto, é crucial compreender qual a perceção dos contabilistas acerca do futuro da sua profissão, uma vez que essa pode variar dependo do contexto empresarial em que atuam e da sua sensibilidade aos avanços tecnológicos. De modo a serem cumpridos os objetivos propostos, a metodologia foi inserida no paradigma interpretativo e na abordagem qualitativa. Já a coleta de dados foi realizada por meio de entrevistas exploratórias, sendo efetuadas 15 entrevistas a contabilistas certificados tendo em consideração os anos de experiência na área. De modo a examinar as perceções e pontos de vistas dos profissionais optou-se pelo método de análise de conteúdo. Os entrevistados concluem que as inovações tecnológicas tiveram um efeito substancial sobre a atividade contabilística, deixando para trás os métodos altamente manuais em favor de um ambiente amplamente baseado em tecnologias de informação. Quanto ao futuro, embora a digitalização seja inevitável, os contabilistas não acreditam que serão substituídos pela tecnologia, a curto prazo. Em vez disso, esperam agora focar-se mais na análise, aconselhamento e tomada de decisões. Palavras-Chave: Avanços tecnológicos; Contabilidade; Futuro da contabilidade; Perceções; Profissional da contabilidade.
vi Accounting in the Digital Age: The Accountant's Perception ABSTRACT Over the past few years, the accounting profession has undergone significant changes stemming from the need to adapt to the new reality. While organizations strive to keep up with technological advancements to remain competitive, accountants do so to maintain their relevance and role in the market. In this context, it is important to explore the accountant's perception of their own profession and the impact that new technologies have been having on the activities of accounting professionals, from the tasks they perform to their training. Therefore, it is crucial to understand the accountant's perception of the future of their profession, as it may vary depending on the business context in which they operate and their sensitivity to technological advances. To achieve the proposed objectives, the methodology chosen was the interpretive paradigm and adopted a qualitative approach. Data collection was carried out through exploratory interviews, with a total of 15 interviews conducted with certified accountants, considering their years of experience in the field. To examine the perceptions and viewpoints of the professionals, the content analysis method was chosen. The interviewees conclude that technological innovations have had a substantial effect on accounting, moving away from highly manual methods in favor of a technology-driven environment. Regarding the future, while digitization is inevitable, accountants do not believe they will be replaced by technology in the short term. Instead, they now expect to focus more on analysis, advisory, and decision-making. Key Words: Accounting; Accounting professional; Future of accounting; Perceptions; Technological advancements.
vii ÍNDICE AGRADECIMENTOS ................................................................................................................................ iii RESUMO .................................................................................................................................................. v ABSTRACT .............................................................................................................................................. vi ÍNDICE DE TABELAS ............................................................................................................................... viii 1. Introdução ...................................................................................................................................... 1 1.1 Justificação do Estudo ................................................................................................................... 2 1.2 Objetivos do estudo e perguntas de partida ................................................................................ 3 1.3 Metodologia de Investigação ........................................................................................................ 4 1.4 Estrutura do trabalho .................................................................................................................... 5 2. Revisão de Literatura .......................................................................................................................... 6 2.1. A profissão de contabilista certificado ......................................................................................... 6 2.2 A evolução das tecnologias na contabilidade ............................................................................. 10 2.2.1 As tecnologias de informação e a contabilidade ................................................................. 12 2.2.2 As novas tecnologias emergentes e a contabilidade ........................................................... 16 2.3 O impacto dos avanços tecnológicos nos profissionais de contabilidade .................................. 19 2.3.1 As novas competências necessárias perante o avanço tecnológico .................................... 19 2.3.2 Competências que os recém-licenciados/ futuros profissionais de contabilidade devem adquirir ......................................................................................................................................... 25 2.4 O futuro dos profissionais de contabilidade ............................................................................... 27 2.4.1 Perspetivas do futuro da profissão de contabilista .............................................................. 29 2.4.2 Competências/ funções esperadas no futuro da profissão ................................................. 30 2.5 Em resumo .................................................................................................................................. 32 3. Metodologia ..................................................................................................................................... 34 3.1 Posicionamento metodológico ................................................................................................... 34 3.2 Métodos de investigação ............................................................................................................ 35 3.3 Caracterização da população e da amostra ................................................................................ 41 3.4 Em resumo .................................................................................................................................. 43 4. Estudo Empírico ................................................................................................................................ 45 4.1 A perceção dos contabilistas certificados sobre o exercício prático da contabilidade ............... 45 4.2 A evolução das tecnologias na contabilidade ............................................................................. 51 4.3 O futuro dos profissionais da contabilidade ............................................................................... 66 4.4 Em resumo .................................................................................................................................. 75 5. Conclusão .......................................................................................................................................... 77 5.1 Principais conclusões .................................................................................................................. 77 5.2 Contribuições do estudo ............................................................................................................. 79 5.3 Limitações e investigações futuras ............................................................................................. 80 Referências Bibliográficas ..................................................................................................................... 82 Apêndices ............................................................................................................................................. 88 Apêndice 1 – Autorização ................................................................................................................. 88 Apêndice 2 – Guião de entrevista ..................................................................................................... 89
6 2. Revisão de Literatura 2.1. A profissão de contabilista certificado A profissão de contabilista é uma das pedras angulares do mundo empresarial e financeiro, desempenhando um papel fundamental na gestão e na tomada de decisões financeiras. Os contabilistas têm um papel vital na economia, ajudam a fornecer informações financeiras que são essenciais para a tomada de decisões empresariais e para a prestação de contas aos investidores e ao público em geral (Norton & Porter, 2013). A natureza multifacetada da profissão de contabilista exige um conhecimento profundo dos princípios contabilísticos, regulamentos fiscais e legislações financeiras vigentes. Os contabilistas também precisam de estar atualizados, de modo a garantir a precisão e a conformidade das suas atividades profissionais. A contabilidade desempenha um papel vital no monitoramento da saúde financeira de uma organização. De acordo com Albrecht, Stice, Stice e Swain (2010) a figura de um contabilista é essencial para a saúde financeira de uma entidade. Para os autores os contabilistas fazem muito mais do que apenas lançamentos, interpretam as informações financeiras para o auxílio na formulação de estratégias e na tomada de decisões. Além disso, a evolução tecnológica tem transformado o campo da contabilidade de vária formas, permite a automação de tarefas rotineiras, bem como o uso de softwares de contabilidade e a simplificação de muitos processos, permitindo que os contabilistas se concentrem em análises complexas e estratégicas (Norton & Porter, 2013). A história da contabilidade em Portugal remonta a séculos atrás e reflete as influências de diversas culturas e períodos históricos. Após o falecimento de D. João V, no ano de 1750, Portugal encontrava-se numa situação nefasta, com um sistema administrativo inoperante e uma desordem financeira transcendente. As condições contextuais que se verificavam no país levaram a grandiosas e significativas reformas, concretizadas através da criação, em 19 de maio de 1759, da primeira escola de comércio portuguesa, designada de Aula do Comércio (Rodrigues, Gomes & Craig, 2003). A criação da nova escola foi impulsionada por um conjunto de fatores diversos, tais como: encerramento das escolas dos jesuítas, motivado pelo desprezo de Pombal em relação a esse povo; a necessidade incessante de conseguir dar resposta à pouca instrução dos comerciantes portugueses, possibilitando ensino específico para a obtenção de conhecimento mercantil; e também, os condicionalismos económicos e a necessidade de introdução de um novo sistema administrativo e contabilístico (Santana,
7 1989). Os fatores elencados conjugados são os principais motivos para a criação de uma nova escola destinada a criar um grupo de profissionais qualificados, desde negociantes, guardalivros e funcionários, de modo não só a melhorar o comércio, mas também a modernizar a própria administração pública (Rodrigues et al., 2003). Após uma análise minuciosa, foi evidenciado que somente a partir de 1995, com a concretização da há muito desejada regulamentação da profissão e com a criação da Câmara dos Técnicos Oficiais de Contas, a carreira atingiu o patamar de respeitabilidade almejado, encontrando assim um alicerce sólido para prosperar de maneira constante (Rodrigues & Gomes, 2002). A expressão “Técnico Oficial de Contas” engoba, de forma formalizada e reconhecida oficialmente, pessoas com variadas formações, incluindo não somente contabilistas (graduados em Contabilidade), mas também profissionais graduados em outras disciplinas (como Gestão, Economia, entre outras), e mesmo praticantes sem um diploma superior. Atualmente, a designação “Técnico Oficial de Contas” fora substituída por Contabilista Certificado. Ao longo dos anos o número de Contabilistas Certificados tem vindo a crescer exponencialmente, talvez pela área da contabilidade ser uma área que oferece segurança no emprego, oportunidades de carreira e potenciais ganhos financeiros. Albrecht e Sack (2000) exploraram as razões por detrás da escolha de carreira dos estudantes de contabilidade, obtendo sete motivos principais: (1) segurança no emprego, os estudantes percebem a contabilidade como uma carreira estável; (2) variedade de oportunidades profissionais, reconhecem que a contabilidade pode levá-los a diferentes setores como a auditoria, consultoria, fiscalidade, finanças e controlling; (3) potencial ganho financeiro, acreditam que a profissão oferece remuneração competitiva e oportunidade de progredir na carreira com aumentos salarias; (4) influência de pais, professores ou conselheiros de carreira através de uma perceção positiva sobre um futuro como contabilista; (5) Interesse pessoal e aptidões, pelos números, pelas matemáticas e acabam por sentir uma afinidade natural; (6) a perceção da imagem da profissão de contabilista ser respeitada e valorizada e ainda (7) estabilidade da profissão, a qual é vista como uma garantia de emprego contínuo. Ainda em matéria de resultado, a autora Cepa (2015) concluiu com o seu estudo de caso que o interesse e gosto pela área, seguido da experiência e formação académica e, também, as influências pessoais,
8 nomeadamente aconselhamento de pais e familiares, são os principais fatores de influência na escolha da contabilidade como profissão no futuro. Relativamente aos aspetos positivos do exercício da profissão de contabilista pode-se destacar uma série de vantagens, desde a estabilidade no emprego até ao impacto positivo nas empresas e na sociedade como um todo. Esses fatores tornam a carreira contabilística atrativa para aqueles que buscam uma profissão sólida, desafiadora e recompensadora. Para Jui e Wong (2013) os profissionais de contabilidade frequentemente se encontram na linha de frente na proteção da integridade das demonstrações financeiras, têm a tarefa de defender a qualidade das demonstrações financeiras diretamente na fonte onde os números e as informações são produzidos. Sendo assim, segundo os autores os contabilistas desempenham papéis importantes que contribuem para a estabilidade geral e o progresso da sociedade. Um contabilista profissional competente no mundo dos negócios é um ativo inestimável para a empresa. Isso é um ativo valioso para a gestão, especialmente em pequenas e médias empresas, onde os contabilistas frequentemente são os únicos elementos com qualificações profissionais (Jui & Wong, 2013). Concluindo, os contabilistas são um pilar fundamental nas organizações, ajudando a criar e sustentar valor e crescimento. Watson (2023) identificou 5 principais benefícios de trabalhar na área de contabilidade, tais como: (1) a oportunidade de trabalhar com uma ampla gama de clientes, mais no caso de gabinetes de contabilidade, permitindo não só que o seu trabalho se mantenha mais interessante, mas também uma exposição valiosa a uma variedade de realidades, o que pode torná-lo um contabilista mais versátil e completo; (2) trabalhar em contabilidade oferece inúmeras oportunidades para crescimento e desenvolvimento profissional, permitindo que cada profissional amplie os seus conhecimentos e habilidades, o que pode levar a progresso na carreira; (3) ampla exposição a tarefas de contabilidade, o que pode torná-lo um contabilista versátil e fornecer-lhe uma experiência valiosa; (4) oferta de um ambiente de trabalho colaborativo e de apoio, com colegas comprometidos em ajudá-lo a ter sucesso; e por fim (5), pode oferecer maior flexibilidade e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Como em todas as profissões também existem desvantagens e aspetos menos positivos encontrados aquando do exercício da profissão de contabilista. São considerados os atores mais importantes na economia moderna, de modo que as suas funções e
9 responsabilidades têm aumentado. Isso tem levado os profissionais de contabilidade a enfrentar diversos problemas ao desempenharem as suas atividades diárias (Uçar, Kizil & Oğuz, 2018). É possível constatar isso mesmo através da seguinte citação: “We believe that, the constant changes in laws and regulations are making the job of accounting professionals harder at this point. (…) In other words, accounting professionals should definitely acquire reading habit. This is especially critical and important for following changes and updates in tax legislation” (Uçar et al., 2018, p. 24). O facto dos regulamentos e legislação estarem frequentemente a mudar e ase tornarem mais complexas faz com que os contabilistas precisem de acompanhar essas mudanças e garantir que as suas práticas estejam em conformidade. Outro aspeto apontado por Uçar et al. (2018) como uma desvantagem são os próprios clientes. Muito embora os profissionais visem o interesse por parte dos seus clientes em fornecer informações pontuais e suficientes o que muitas vezes tal não se verifica ou é reconhecido pelos clientes. Em conformidade com esta opinião encontra-se o estudo elaborado por Usul e Aslantaş (2007). De acordo com o estudo, foi determinado que existiam conflitos entre os profissionais de contabilidade, os prestadores do serviço, e os clientes que solicitam esses mesmos serviços. Os conflitos ocorreram principalmente devido às diferentes perspetivas dos clientes e a não perceção do trabalho contabilístico. Não obstante, Yıldırıma e Güney (2012) constatam que as frequentes mudanças na legislação e regulamentos prejudicam a relação entre os clientes e os profissionais de contabilidade. Além disso, concluem que os contabilistas enfrentam uma carga de trabalho e dificuldades superiores às vantagens e benefícios da sua ocupação. Para além do já mencionado, as frequentes modificações na legislação e as alterações no sistema tributário, combinadas com a pressão readicionada com os prazos apertados, tornam a tarefa da contabilista mais exigente e completa, exigindo formação contínua (Bruna, Senkus, Subaciene & Sneidere, 2017). Os contabilistas frequentemente trabalham com prazos rígidos, o que pode causar stresse e pressão.
10 2.2 A evolução das tecnologias na contabilidade Numa era dominada pelo avanço tecnológico, tanto na sociedade como nas organizações, é necessária a constante inovação dos processos sociais para as entidades estarem aptas a atuar no mercado (S. Ferreira, 2021). Tal possibilidade é oferecida pela informática, ao facilitar os processos. Torna-se assim essencial para o presente estudo, voltar atrás no tempo e perceber como tudo começou a evoluir ao nível informático, ao ponto de ser possível afirmar que a informática é a principal ferramenta administrativa de apoio à contabilidade. Para Marion (2006) a contabilidade é vista como a linguagem do negócio, na qual há avaliação dos resultados e desempenhos das empresas, de modo a direcionar a tomada de decisões. Ou seja, os seus profissionais são comunicadores e transmissores das informações contabilísticas, daí a importância do seu acompanhamento perante uma profissão que se encontra em constante mutação no cenário tecnológico. Inicialmente o profissional da contabilidade era conhecido como “guarda-livros”, possuía conhecimentos de partidas dobradas e análise de contas, utilizava meios rudimentares e manuais na contabilização (Silva, Ferreira, Ferreira, Henrique & Silva, 2020). Realizavam manualmente toda a preparação de relatórios, orçamentos e demonstrações financeiras, sendo as tarefas desempenhadas muito rotineiras e sem qualquer poder no papel de tomada de decisão (Martins & Francisco, 2021). No entanto, à medida que a profissão crescia e evoluía, começava a aumentar a necessidade de executar as tarefas mais rapidamente, o que significa a inevitabilidade na criação de instrumentos de apoio ao exercício da profissão. Ngwakwe (2021) constata que se analisarmos o caminho centenário do desenvolvimento contabilístico e tecnológico, o primeiro instrumento a surgir foi o Abacus. Criado no início do séc. VII, é um antigo instrumento de apoio ao cálculo, considerado como a primeira representação bem-sucedida do sistema decimal. A demanda de construir uma ferramenta de cálculo mais rápida e eficaz, leva à criação da primeira “Adding Machine”, em 1623 (Ngwakwe, 2021). Para além de efetuar contas, também imprimia os resultados obtidos numa folha de papel, o que começa a facilitar o trabalho dos contabilistas (Coelho, 2012). Anos depois surgem as primeiras calculadoras eletrónicas, que foram sofrendo melhorias até
11 se tornarem a ferramenta de cálculo que conhecemos atualmente. No entanto, conforme Pepe (2011) tanto o Abacus, a “Adding Machine”, como as primeiras calculadoras não podiam ser consideradas tecnologia, pois simplesmente ofereciam soluções matemáticas. Essas ferramentas, embora limitadas em comparação com as tecnologias atuais, eram fundamentais para auxiliar os profissionais de contabilidade a realizar suas tarefas de maneira precisa e eficiente. Antes da adoção generalizada de computadores e softwares contábeis, a escrituração por decalque manual era uma técnica comum e para a sua execução os instrumentos principais era a prancheta e um ficheiro organizado (Henriques, 2012): havia vários tipos de pranchetas, de simples manuseamento, a mais utilizada possuía um “guia” que indicava a última linha do “Diário”, para não originar sobreposição de lançamentos. No ficheiro cada conta do razão era separada com um cartão hidráulico apropriado, no qual se colocava um “cavaleiro” com o nome da conta inscrito. No estudo elaborado por Henriques (2012), o autor explica como eram executados os lançamentos em decalque. Primeiramente colocava-se na prancheta o diário com a respetiva tecla. De seguida era colocado o papel químico, de forma a obter o decalque. Por último, retirava-se do ficheiro a ficha correspondente ao lançamento que se pretendia realizar, de modo a fazer coincidir a primeira linha da ficha por escriturar com a do diário. Sendo assim, a prancheta, é vista como uma superfície plana, geralmente de madeira ou metal, na qual os contabilistas realizavam cálculos, lançamentos e anotações manuais. Uma outra ferramenta muito importante antes da era digital e das calculadoras foi as máquinas mecânicas. Foram projetas para o reconhecimento e armazenamento das informações referentes às informações das empresas, estas informações eram feitas por meio de fichas e cartões perfurados (Henriques, 2012). Elas foram uma evolução das ferramentas manuais, ajudaram a aumentar a eficiência e a precisão nos cálculos e dos lançamentos contabilísticos. A introdução destes equipamentos apenas veio melhorar a viabilidade dos números, uma vez que o trabalho contabilístico ainda era muito processado e documentado fisicamente (Ngwakwe, 2021). No entanto, no desenrolar do séc. XX dá-se a criação do computador, uma ferreamente que permitiu conjugar num só aparelho todos os instrumentos até então criados de apoio à contabilidade. Para Ngwakwe (2021), exatidão, rapidez, conservação e
12 comunicação são alguns dos inputs acrescentados às funções de contabilidade após a introdução do computador no mundo empresarial. Segundo Doost (1999), a contabilidade foi uma das primeiras áreas a beneficiar da informatização aquando da introdução dos computadores nas organizações, devido à necessidade de pragmatizar as funções, de automatizar o processo de contabilização, de reduzir o tempo de tomada de decisão e de implementar tarefas com valor acrescentado. O surgimento desta ciência adveio da necessidade de criação de instrumentos de apoio à gestão. Antes do surgimento dos computadores, a contabilidade era limitada a processos manuais no tratamento de dados financeiros, a associação ao papel e ao arquivo era iminente. No entanto, com o surgimento desta máquina eletrônica tornou-se possível aceder à informação de forma mais rápida e simples, melhorando a eficiência do trabalho (Dias, 2012). Sendo assim, os lançamentos contabilísticos passam a ser efetuados por meio de computadores e tal como Silva (2020) refere para além do surgimento desta máquina eletrónica também foram desenvolvidos softwares contabilísticos específicos. De modo que, apôs os lançamentos serem efetuados, formem uma base de dados utilizada para apurar balanços, anexos ao balanço, demonstração de resultados, entre muitos outros relatórios fundamentais (Silva, 2020). 2.2.1 As tecnologias de informação e a contabilidade A aceleração na inovação e dinamização das mudanças verificadas faz com que as Tecnologias de Informação (TI) se tornem essenciais perante um mundo globalizado. De acordo com Attaran (2003), “Information technology is defined as capabilities offered to organizations by computers, software applications, and telecommunications to deliver data, information, and knowledge to individuals and processes”. Por outras palavras, a TI está estruturada em elementos como softwares, hardwares, sistemas de telecomunicações e armazenamento de dados. Passa a ser uma ferramenta indispensável no universo contabilístico, aliada à contabilidade permite atribuir características peculiares às transações e à análise económica e financeira, através da inserção de modelos de gerência mais sofisticados (Cruz et al., 2004). Por sua vez, Barbosa (2000) refere que as funções desempenhadas pelos contabilistas estão a ser reformuladas a cada passo do processo de
13 transformação, e que a utilização das TI como uma aliada na aquisição e desenvolvimento de competências é uma alternativa para agregar valor à empresa e ao trabalho do contabilista. O conceito de TI também é definido por Nolan (2001) como “The various types of equipment, applications, and processes that organizations use to solve problems, create opportunities, or transform their business processes.” E também por Laudon e Laudon (2007) como “Information technologies are a set of tools, processes, and methodologies (such as hardware, software, networks, telecommunications, and data management) to collect, store, and distribute information.”. Ou seja, as TI, são um campo amplo que engloba o uso de hardware, software, redes e processos para coletar, armazenar, processar, transmitir e gerir informações. Não obstante, a Internet adveio do desenvolvimento tecnológico que impulsionou a integração da capacidade de cada sistema. A sua introdução e os respetivos avanços tecnológicos da informação proporcionaram diversas alterações no ambiente contabilístico, devido à infinita base de dados dos servidores e à apropriação rápida de informação em tempo real (Cruz et al., 2004 ). Segundo Ghasemi, Shafeiepour, Mohammad e Barvayeh (2011), os computadores, os servidores, a Internet, o wireless e os dispositivos digitais transformaram para sempre a forma das empresas conduzirem o negócio. A contabilidade trabalha agora em colaboração com os softwares de contabilidade, estes automatizaram os tradicionais livros de registo contabilísticos desenvolvendo processos digitais de contabilidade, de modo a localizar, organizar, armazenar e analisar toda a informação (Ngwakwe, 2021). A contabilidade beneficia de várias vantagens trazidas pela informática e os softwares de contabilidade são de muita importância para os profissionais de contabilidade, permitindo a redução de tarefas, despesas, erros e melhoria de certos procedimentos (Superprof Blog, 2023). É importante lembrar que a escolha do software de contabilidade deve ser baseada nas necessidades específicas da sua empresa, tamanho, setor e requisitos de conformidade. De seguida são apresentados alguns softwares de contabilidade: ¨ Eticadata: é uma das várias empresas que oferecem soluções de software para gestão empresarial e contabilidade. Possibilita soluções tecnológicas abrangentes para auxiliar as empresas nas suas operações diárias, incluindo
14 contabilidade, gestão financeira, recursos humanos, facturamento e outras áreas relacionadas. ¨ Sage: é amplamente reconhecido como o principal programa utilizado por profissionais de contabilidade. Este software não é meramente uma ferramenta contábil, pois oferece capacidades que vão desde contabilidade, fiscalidade e administração. Permite não apenas gerir tarefas financeiras e fiscais, mas também se estende a outras áreas. Este sistema facilita o acompanhamento do negócio na cloud, o que possibilita o trabalho remoto. Além disso, oferece a gestão de recursos humanos, processamento de salários, faturação e ainda outras soluções, como armazenamento de dados e informações cruciais. (Superprof Blog, 2023). ¨ PHC: o componente "Contabilidade" representa o software de contabilidade que faz parte da abrangente solução financeira PHC. Ele oferece, tanto de forma autônoma quanto em integração com o restante do software PHC, um controle completo das demandas contabilísticas em termos gerais, analíticos e orçamentais. Esta é a solução perfeita para aceder de maneira direta os dados contábeis do seu sistema, garantindo a segurança necessária para lidar com informações financeiras. (PHC CS, n.d.). ¨ Primavera: abrange uma ampla gama de soluções para ajudar as empresas a gerenciar diversas áreas, desde contabilidade e finanças até recursos humanos, vendas, faturação, gestão de projetos e etc. Este programa encontra-se inserido cada vez mais no digital. Nas empresas tradicionais de contabilidade e gestão, a rotina diária é intensa, envolvendo tarefas como organização, lançamentos e reconciliação de documentos financeiros, cumprimento de obrigações legais e fiscais, fecho contabilísticos e de balanços. Quanto maior o número de clientes, maior a carga de trabalho para os profissionais. No entanto, na era da Contabilidade, a tecnologia desempenha um papel crucial ao automatizar tarefas repetitivas, permitindo que os contabilistas foquem na análise dos dados. Isso possibilita que se tornem consultores de negócios próativos, agregando valor e contribuindo para as decisões estratégicas das empresas clientes. (Cegid Primavera, n.d.).
15 ¨ SAP: O SAP FI possui cinco subcomponentes: Contabilidade Geral, Contabilidade de Fornecedores, Contabilidade de Imobilizado e Contabilidade Bancária. Estas etapas diferentes relacionam-se com as transações financeiras típicas de empresas. A utilização do SAP permite automatização de processos manuais e fornecimento de eficiência e tomada de decisões mais fiáveis. O SAP Contabilidade é amplamente utilizado por empresas de grande e médio porte em diversas indústrias, proporcionando uma visão abrangente das finanças e permitindo a tomada de decisões informadas com base em dados precisos e atualizados. (SAP, n.d.). Os softwares criados de apoio à contabilidade têm vindo a facilitar o trabalho dos contabilistas ao longo dos anos e a tornar o mesmo mais automático e informático. No entanto, estes softwares também são alvo de mudanças conforme o surgimento das inovações. Assim, os sistemas também devem ser treinados e melhorados, tal como os profissionais da contabilidade, para se tornarem mais competitivos no meio empresarial. Conforme Martins e Francisco (2021) dentro deste tópico devemos ainda dar especial destaque a um dos pontos mais importantes ao nível dos sistemas de informação e da contabilidade, que são os sistemas integrados de gestão ou Enterprise Resource Planning (ERP). Romney e Steinbart (2015) definem ERP como um sistema de informação que integra as atividades de diferentes departamentos de uma empresa, como a produção, a financeira, os recursos humanos, as compras, as vendas, entre outros. O uso desta ferramenta torna mais simples a partilha de informação em tempo real e dados entre os diferentes departamentos, permitindo à empresa um processo de tomada de decisão mais eficaz e eficiente. Para Martins e Francisco (2021) a introdução dos sistemas integrados de gestão (ERP) numa organização permite: ¨ Reduzir o tempo de conclusão dos processos; ¨ Tornar eficaz e rápido o processamento da informação; ¨ Reduzir os custos operacionais; ¨ Aumentar a satisfação do cliente; ¨ Maior integração da informação;
22 interna; sistemas e operações computacionais; e por último, processos de melhoria. Para além disso, o IMA em 1999 também apresentou um conjunto de competências, conhecimentos e habilidade que deviam ser desenvolvidas nos cinco anos seguintes: tecnologia e rede de dados/computadores; softwares de contabilidade; educação e orientação; comunicação e partilha de informação; e, projetos de gestão e desenvolvimento. Já no ano de 2021 o IMA juntamente com o AICPA reformularam essas mesmas competências de contabilidade necessárias para o futuro, ou seja, para aqueles que futuramente irão ingressar na profissão, tendo especial atenção o impacto da evolução da tecnologia e da análise de dados vivenciada em todas as partes da profissão de contabilidade, incluindo relatórios financeiros, auditoria, impostos e controlling (Lawson, Jiles, Sergeant, Venkatesh, & Wolcott, 2022). As competências são classificadas em 6 categorias distintas, essencialmente direcionadas para a contabilidade de gestão: 1. “Champion” – liderança: habilidades de liderança no início da carreira; 2. “Visionary” – estratégia, planeamento e performance: aumento da gestão de desempenho para além das demonstrações financeiras; estratégias de valor acrescentado; foco num conjunto de stakeholders de elevada qualidade; usar a tecnologia e as análises para melhorar a estratégia, planeamento e a performance; capacidade de analisar de forma mais completa; 3. “Steward” – relatório e controlo: melhorar o foco nos relatórios internos incluindo a gestão da performance e o ambiente social, e a performance administrativa; controlo interno para relatório interno; utilizar a tecnologia e análises para os relatórios internos; 4. “Catalyst” – tecnologia e análise: acelerar o processo de mudança tecnológica; mudar a informação passada para a informação em tempo real; aumento do uso de visualização de dados; participar no desenvolvimento e monotorização da TI no processamento de dados com integridade, ética e segurança; 5. “Partner” – visão de negócio e operações: maior conhecimento operacional e aplicativo/interventivo; gestão contextualizada de receitas, custo e lucratividade; aprendizagem contínua para contabilistas e organizações; trabalhar com equipas internas na qualidade, nas mudanças e nos projetos; inclusão de entidades com fins lucrativos, de entidades sem fins lucrativos e
23 entidades governamentais; aprender e aplicar nos negócios modelos e frameworks; utilizar tecnologias e analises para as operações; 6. “Guide” – ética e valores profissionais: maior atenção para a ética organizacional; utilizar tecnologias e análises para a ética; Todas estas competências conjugadas são necessárias para os contabilistas atuarem como parceiros estratégicos de negócios, o que requer a capacidade de entenderem e abordarem os diversos fatores que alteram o sucesso organizacional (Lawson et al., 2022). Conforme citado em Bressler e Pence (2019) o AICPA define as competências que os estudantes vão precisar assim que ingressarem no seu percurso profissional, independentemente da área e serviço que eventualmente prefiram ou acabarão por trabalhar. O Framework elaborado pelo AICPA foca-se nas competências e habilidades críticas em vez do conteúdo tradicional, devido ao facto da profissão encontrar-se em constante mudança. As competências são elaboradas e divididas em três pilares: competências de contabilidade, competências empresariais e competências profissionais. Deste modo, o AICPA (2018) entende que as competências de contabilidade devem basear-se no julgamento profissional e ceticismo na avaliação, análise e gestão de riscos de forma a tomarem decisões informadas e conscientes. Também o reporting de todo o conteúdo de forma clara e objetiva e, ainda, usufruir do uso das novas tecnologias e ferramentas para analisar dados, executar tarefas e ser um possível suporte de outras competências. No que diz respeito às competências empresariais devem ter uma visão estratégica tanto em relação à análise de dados e informações como no seu planeamento, implementação e superintendência, suportado numa perspetiva real dos ambientes relacionados e na perspetiva e feedback de todas as partes relacionadas e principalmente do seu público-alvo. Por fim, em relação às competências profissionais os futuros contabilistas devem comportarse segundo a conduta ética, tendo sempre em atenção os princípios, o respeito pela diversidade, o compromisso, a colaboração aquando do exercício da profissão. Os contabilistas dependem fortemente dos computadores, fazendo uso intensivo das IT através de softwares de contabilidade, fiscalidade e auditoria, spreadsheets, bases de dados, análises estatísticas e sistemas ERP (Boulianne, 2016).
24 Spraakman, O´Grady, Askarany e Akrody (2015) refere que os conhecimento e habilidade em TI são crucialmente importantes, essencialmente, para os profissionais da contabilidade de gestão em qualquer organização. O autor evidencia o aumento da presença da TI na contabilidade de gestão, anteriormente o fornecimento de informação para a tomada de decisão era efetuado em papel, atualmente esse mesmo papel de fornecimento de informações é efetuado através da TI. A ideia da alta presença da TI na contabilidade é ainda reforçada pelo autor quando expõe que a contabilidade de gestão tem uma dependência absoluta pelas unidades de TI no processamento das funções primordiais nas atividades de produção, nas transações e na informação. Para além disso, são apresentadas um conjunto de conhecimentos e habilidades ditas essenciais para os futuros profissionais da contabilidade, tais como: análise e implementação de projetos de sistema de informação; competências computacionais; spreadsheeets, sofwares e programas de contabilidade; sistemas integrados de gestão (ERP); conhecimento e prática em Excel, Word e Powerpoint; bases de dados; internet. No início dos anos 90 as spreadsheets eram utilizadas para elaborar os relatórios financeiros e particularmente para preparar consolidações. Atualmente, são sistemas de ERP que preparam as consolidações e o Excel é apenas utilizado para simples análises (Spraakman et al., 2015). No entanto, com a elaboração do seu estudo de caso o autor chega à conclusão de que todas as empresas inquiridas consideram o Excel como a principal e mais importante ferramenta de TI, sendo que existe uma interligação entre as duas ferramentas. Através do Excel conseguimos preparar toda a informação, em grandes quantidades, fornecida pelos ERP. Igualmente, o estudo de Cory e Pruske (2012) aponta para o Excel como a ferramenta número 1 exigida aos licenciados em contabilidade. No entanto, para Spraakman et al. (2015) ainda não foram executados os esforços suficientes no ensinamento das IT ao nível académico, visto que, é transmitida aos estudantes muita informação relativa às regras e princípios numa perspetiva teórica enquanto a vertente prática e tecnicista é esquecida. Bressler e Pence (2019) consideram que as universidades deviam ensinar competências e habilidades como a interpretação e aplicação de métodos estatísticos, práticas de auditoria contínua, capacidade de tratamento de dados, domínio da língua inglesa, sistemas ERP, sistemas de informação contabilística (AIS). Por outro lado, as empresas/organizações empregadoras devem ter a responsabilidade de ensinar outro
25 conjunto de competências e habilidades focadas na análise do negócio, na resolução de problemas e prevenção de risco, no trabalho em equipa e aprendizagem contínua e uma visão estratégica. Conforme vários autores mencionados a existência da problemática, da falta de competências, habilidades e conhecimento em novas tecnologias na contabilidade começa na formação académica. As universidades devem ter a função de preparar e enriquecer o conhecimento dos alunos ao nível prático e não apenas teórico (Thatong, 2016). 2.3.2 Competências que os recém-licenciados/ futuros profissionais de contabilidade devem adquirir À medida que a contabilidade evoluiu do uso de lápis, borracha e folhas de papel de 12 colunas para a adoção da tecnologia no exercício das suas funções, os contabilistas começaram a demonstrar insatisfação com o nível de conhecimento, habilidades e competências associados às inovações tecnológicas dos seus recém-contratados após a sua formação universitária (Cory & Pruske, 2012). O mundo empresarial transformou-se e continua em constante mudança e essa mesma mudança deve ser refletida no mundo académico. No entanto, conforme Thatong (2016) isso acaba por não se verificar. Os estudantes de contabilidade estão ainda a receber ensinamentos do séc. XX em pleno séc. XXI. Acabam por adquirir conhecimento que não se aplica, na medida certa, às habilidades e competências necessárias para o seu futuro emprego. Vários autores e pesquisas sugerem que os estudantes de contabilidade devem, por si só, desenvolver mais competências técnicas de modo a se destacarem, sendo que estas competências são consideradas a base para qualquer indivíduo exercer a profissão de contabilista (Thatong, 2016). Porém, Bressler e Pence (2019) afirmam que os recémlicenciados em contabilidade podem não possuir as competências necessárias para serem bem-sucedidos. Em consonância, Benasik e Jubb (2021) reforçam a ideia de que a contabilidade é ainda uma área reconhecida pela falta de novas habilidades por parte dos seus profissionais. Klibi e Oussii (2013), conforme citado em Thatonng (2016), acabam por justificar o facto de os estudantes não possuírem as competências técnicas essências, com o desconhecimento por partes dos mesmos em relação aos conhecimentos, habilidades e competências necessárias para os futuros contabilistas num mercado com uma crescente
26 evolução mundial. Já Bressler e Pence (2019) reforçam que o motivo pode ser explicado porque os professores de contabilidade não acompanham o desenvolvimento das habilidades nas ferramentas tecnológicas, fulcrais num ambiente de alta tecnologia mutável. Assim, começaram a ser desenvolvidos e reestruturadas programas e aulas de contabilidade para ajudar os alunos a obter conhecimentos básicos de contabilidade e habilidade em software como Excel, Word, intranets e emails (Cory & Pruske, 2012). Para os autores a controvérsia do plano curricular de contabilidade continuará no futuro previsível. Cada vez será mais difícil oferecer cursos e programas que abranjam todas as competências necessárias face ao mercado de trabalho em que a entidade se encontra inserida, seja no setor público ou privado. No entanto, de um modo geral torna-se essencial garantir que certas competências estejam asseguradas e incluídas no currículo dos recém-licenciados. Perante o estudo efetuado os autores chegam a oito competências críticas: (1) Excel, (2) Word, (3) capacidade de resolução de problemas, (4) Windows, (5) consciencialização nas questões éticas, (6) pesquisa na internet, (7) Powerpoint e (8) software de base de dados (Access) (Cory & Pruske, 2012). Já face ao estudo elaborado por Thatong (2016), é possível concluir que as entidades empregadoras inquiridas consideram importante os professores de contabilidade adotarem e desenvolverem um plano curricular de forma a ajudar os alunos a evoluir e priorizar as competências que mais apresentam falhas, ou seja, o seguinte conjunto de competências: comunicação, oral e escrita; colaboração; autossuficiência e automatização; criatividade; e, liderança. Não obstante, destaca-se a relevância do uso eficiente e eficaz da tecnologia em consonância com as competências enumeradas, para aceder, organizar, avaliar e partilhar informação de forma mais rápida e com menos margem para erro (Thatong (2016). Uma excelente alternativa para o desenvolvimento das enunciadas competências em falta são os estágios. Ao estarem no “campo de batalha” os futuros profissionais vão poder aplicar todo o conhecimento arrecadado e ter consciência dos pontos que devem ainda ser melhorados. Muitos alunos acabam por progredirem no desenvolvimento de algumas habilidades muito valorizadas pelas entidades empresadoras durante o seu estágio. Bressler e Pence (2019) sugerem ainda que os programas de estágio em contabilidade devem ser uma exigência obrigatória. Em Portugal, é um requisito obrigatório a elaboração de um estágio profissional para um futuro contabilista certificado poder executar o exame à OCC. Este
27 estágio deve decorrer depois de o individuo considerar que possui as habilitações necessárias e antes do exame de avaliação profissional (OCC, 2022). Segundo Benasik e Jubb (2021) outro caminho para o progredir na aquisição de competências essenciais é a inscrição num mestrado de contabilidade, visto que qualifica os indivíduos com um nível mais avançado de conhecimento em contexto da prática profissional. Estes indivíduos terão habilidades cognitivas, técnicas e criativas para investigar, analisar e sintetizar informações complexas, capacidade para resolver problemas e uma maior facilidade em aplicar conhecimento obtido em práticas de trabalho, de forma criativa e com alto nível de autonomia pessoal e responsabilidade. As universidades têm então um papel fulcral no que diz respeito à reformulação dos currículos de contabilidade para melhorar e incorporar o conhecimento e aplicação de tecnologias digitais nos programas de contabilidade (Benasik e Jubb 2021). Dessarte, conforme Cruz et al. (2004, p. 12 citado por Cornachione, 1994, p. 143-144), se o profissional obtiver uma formação adequada, irá adquirir várias competências consideradas competitivas no mercado de trabalho, nomeadamente: compreender os sistemas de computação; ocupar o seu lugar profissional na gerência de sistemas de informações contabilísticas das organizações; dominar a operacionalização e redes dos microcomputadores e aplicar a terminologia dessa área; operar em aplicativos que atendem às suas necessidades de cálculo, de texto, de banco de dados e ao nível gráfico; tornar-se mais participativo no processo produtivo dos sistemas de informação estratégica e operacional; envergar uma posição participativa na análise dos sistemas contabilísticos; compreender que a informática e os seus componentes são parte do processo de informação; utilizar a informação obtida como meio para otimizar as soluções de contabilidade; e por fim, proporcionar informações que reflitam a realidade de todas as áreas da organização. 2.4 O futuro dos profissionais de contabilidade As novas tecnologias têm vindo a revolucionar o mercado atual e podem, cada vez mais, alterar substancialmente o ambiente e as práticas contabilísticas. Atualmente, para um profissional estar apto a enfrentar os diferentes meios de comunicação e TI não basta ser um bom contabilista (Grosanu & Cordos 2021). É essencial que os profissionais redefinam as suas
28 expectativas, de modo a atender às novas tendências e desafios da época (Andrade, 2020). Neste sentido, Rodrigues (2018) conforme citado por Andrade (2020) demonstra a necessidade de projetar metas futuras e construir expectativas, com o propósito de resistir às transformações de um mercado muito mais competitivo e desafiante e, consequentemente, exigir resultados à altura do expectado pelo mundo empresarial. Brynjolfsson & Mcafee (2014) exploram as profundas transformações causadas pela digitalização e pela tecnologia. Primeiramente destacam como a digitalização está a alterar as bases da economia, criando modelos de negócios e redefinindo a forma como as empresas operam. Isso levanta questões sobre como os profissionais devem agora trabalhar, devendo adquirir novas competências e habilidades. As ferramentas digitais estão a transformar os processos tradicionais, como os lançamentos de dados, as reconciliações e a elaboração de relatórios. Os autores exploram ainda a forma como a digitalização afeta a produtividade econômica e o crescimento a longo prazo. Do modo que, as tecnologias digitais podem impulsionar a eficiência, a inovação e a criação de valor em diversas áreas, como é o caso da contabilidade. A digitalização da profissão de contabilidade passa de uma necessidade para uma obrigatoriedade, porque se todas as entidades e organizações utilizam este tipo de sistemas, o profissional para conseguir se integrar e acompanhar o desenvolvimento também os deve utilizar (Grosanu & Cordos 2021). A digitalização é, sem dúvida, um processo desafiador, mas que pode levar a melhorias significativas na eficiência e na qualidade dos serviços contábeis. Porém, está repleta de desafios, como por exemplo a evolução rápida da tecnologia. O que é uma solução eficaz hoje pode se tornar obsoleto em breve exigindo atualizações constantes e adaptações. Além disso, a resistência à mudança de parte dos funcionários e clientes pode dificultar a transição suave para a digitalização. Quem explica essa realidade é Carlos Latourrette (2022): “Hoje em dia os processos de digitalização estão a evoluir, mas, mesmo assim, a maior parte dos gabinetes de contabilidade trabalham ainda com papel. E mesmo os que começam a trabalhar com documentos digitais não têm ferramentas apropriadas para trabalhar bem os documentos em formato digital. Agora cada vez mais as empresas enviam documentos por email, mas os contabilistas não têm um software dedicado para tratar bem de tudo isso”.
29 Silva (2020) considera que enquanto existir o ser humano e o anseio por melhorias, o avanço tecnológico não possui qualquer tipo de limitação, tendo sempre abertura para a constante inovação. Porém, Grosanu e Cordos (2021) entendem que esta mesma inovação e evolução vivenciada na profissão atingiu um patamar perigoso, visto que os contabilistas podem dar abertura a esta nova realidade da profissão ou continuarem ligados ao paradigma mais tradicional. A Bastonária da Ordem dos Contabilistas Certificados, Paula Franco (2018) declara: “Com a revolução digital muitos empregos serão destruídos, mas outros sofrerão uma grande reinvenção. O de contabilista certificado é um deles. Temos de nos preparar para essa transformação. Os que melhor souberem agarrar as oportunidades vão sair valorizados face aos restantes (...)”. Realça a demanda na reavaliação das funções do profissional, devido ao impacto dos avanços tecnológicos. Não obstante existe uma certa incerteza relativamente ao futuro do profissional contabilista e do seu papel dentro de uma empresa (Silva, 2020). O aumento do uso da tecnologia na execução do trabalho causa nos profissionais algum receio de puderem a vir a ser substituídos pela tecnologia (Grosanu & Cordos, 2021). Segundo Lawson et al. (2022) o futuro da profissão vai depender da preparação sólida e adequada das competências essências perante o novo panorama. 2.4.1 Perspetivas do futuro da profissão de contabilista Conforme o estudo elaborado por Silva (2020), quando os indivíduos são questionados relativamente ao impacto da IA na profissão de contabilidade a maioria considera que IA não poderá em algum momento substituir o profissional, em contrapartida uma pequena percentagem vê a possibilidade de isso acontecer. Já quando questionados em relação ao futuro da profissão e do impacto negativo da tecnologia, mais de 70% dos interrogados não acreditam que a profissão possa desaparecer, no entanto assumem que o futuro é incerto e o avanço tecnológico têm atingido patamares inacreditáveis e não se deve descartar por completo essa opção. Em geral, todos estão em concordância que a tecnologia é uma ferramenta fundamental para o trabalho e auxilia na redução do tempo e viabilidade do fornecimento de informação.
30 Do mesmo modo, ao analisarmos o estudo de caso efetuado por Grosanu e Cordos (2021), os especialistas inquiridos não veem o perigo de o contabilista ser substituído pela tecnologia. Apenas 10% dos indivíduos interrogados esperam uma redução significativa no número de funcionários. Os restantes acreditam que a contabilidade mudará muito nos próximos anos, mas consideram a presença do profissional primordial, visto que muitas das decisões são baseadas no julgamento profissional e esse não é facilmente alcançado pela tecnologia, pois deve haver pessoas por de trás das decisões. O estudo de Martins e Francisco (2021) contraria a previsão de que a profissão se irá extinguir pois reclassificam a contabilidade como uma disciplina automatizada devido à falta de competências que podem ser facilmente imitáveis pela máquina. 2.4.2 Competências/ funções esperadas no futuro da profissão É percetível que o profissional da contabilidade continue a sua atuação no mercado futuro, no entanto ele deve efetuar regularmente atualizações nas suas funções, com foco nos sistemas tecnológicos e nas tendências futuras (Silva, 2020). Ao analisar as modificações ocorridas na contabilidade decorrentes da utilização da tecnologia, Martins e Francisco (2021) concluem que estas podem criar estabilidade na carreira, bem como diversas oportunidades profissionais, tais como: novas áreas de especialização; maior disponibilidade para analise de dados; maior eficiência com a integração de novos programas e sistemas; maior intervenção na resolução e deteção de problemas. O relatório elaborado pela ACCA (2016) identifica os principais motores de mudança e com impacto na profissão, tal como as competências e conhecimentos técnicos, éticos e interpessoais que serão exigidos no futuro da profissão. Assim, a Association of Chartered Certified Accountants apresenta quais as alterações que possivelmente terão mais impacto na profissão até ao ano de 2025, sendo estas: maior regulamentação e aumento das regras de divulgação e transferência de dados; globalização constante criará mais oportunidades e desafios para os profissionais; e por fim, a disseminação das tecnologias vão transformar a prática da contabilidade e as competências exigidas aos seus profissionais. Softwares e sistemas inteligentes vão acabar por substituir o trabalho manual, vão automatizar processos
31 complexos e multifacetados e vão permitir rapidez na execução de relatórios e demonstrações financeiras, e consequentemente aumentará a análise preditiva. Face ao momento que nos encontramos, é crucial o investimento na formação de competências tecnológicas e digitais. Um estudo elaborado em 2020 pela ACCA concluiu que cerca de 89% dos contabilistas inquiridos consideram as competências digitais como ferramenta relevante ou muito relevante para o exercício da sua função. No entanto, é evidente a discrepância de alfabetização digital entre as gerações, os chamados “nativos digitais”, possuem uma maior adaptação ao uso das tecnologias (ACCA, 2020). Cada geração oferece o seu respetivo ponto de referência no ambiente digital, possuindo os seus próprios benchmarks, sendo que a partilha de sabedoria construi um quadro inestimável da organização (ACCA, 2020). Um nativo digital tem por natureza mais à vontade com a tecnologia e acaba por executar as tarefas mais naturalmente e rapidamente do que quem não está tão acostumado. Por outro lado, conforme um Framework concedido pela IMA (2017) são identificados seis domínios de conhecimentos de contabilidade e gestão fulcrais para a permanência dos profissionais da contabilidade no mercado corrente e no futuro, tais como: competências estratégicas para prever e planear o futuro, medir a performance e expor os resultados; competências para controlar o desempenho de uma organização conforme as normas e regras previstas; competências digitais, tecnológicas; competências multidisciplinares de forma a operar em todas as operações da entidade; competência de liderança e colaboração perante a equipa; e por último, competências éticas e socias. Em relação às competências sociais estas não são trabalhadas como as competências técnicas num contexto educacional (C. Ferreira, 2021). Por sua vez, derivam das características intrínsecas de cada pessoa. A comunicação, perseverança, paciência, condescendência e flexibilidade são traços de personalidade e competências sociais que estão a ganhar força no seio dos contabilistas. Essas mesmas competências podem vir a ser melhoradas à medida que o trabalhador ganhe experiência e maturidade no trabalho. É evidente o quão importante é para os membros do setor da contabilidade de uma empresa possuir competências digitais, no entanto conforme Rashika Fernando, diretor de projetos cooperativos do ScotiaBank, evidencia “It is a container of a number of skills sets and
38 O que entende por Tecnologias de Informação? Considera as TI como uma ferramenta indispensável no universo contabilístico? Porquê? “Information technology is defined as capabilities offered to organizations by computers, software applications, and telecommunications to deliver data, information, and knowledge to individuals and processes”. - Attaran (2003) “As TI passam a ser uma ferramenta indispensável no universo contabilístico, aliada à contabilidade permite atribuir características peculiares às transações e à análise económica e financeira, através da inserção de modelos de gerência mais sofisticados” - Cruz, et al., (2004) Qual a perceção dos contabilistas sobre o exercício da profissão e de que forma as novas tecnologias têm vindo a influenciar a atividade dos profissionais da contabilidade? Sabe o que são sistemas integrados de gestão ou Enterprise Resource Planning (ERP)? Na sua empresa trabalha com algum? Se sim, quais as principais vantagens e desvantagens associados à sua implementação? E associados à sua utilização? “ERP como um sistema de informação que integra as atividades de diferentes departamentos de uma empresa, como a produção, a financeira, os recursos humanos, as compras, as vendas, entre outros.” - Romney e Steinbart (2015 Qual a perceção dos contabilistas sobre o exercício da profissão e de que forma as novas tecnologias têm vindo a influenciar a atividade dos profissionais da contabilidade? No que respeita às tecnologias emergentes conhece alguma? Inteligência Artificial, Blockchain, Cloud Computing e Big Data. Se sim, utiliza alguma no exercício das suas tarefas? “Há o surgimento de outras transformações derivadas das mudanças tecnológicas, como é o caso da Inteligência Artificial, Blockchain, Cloud Computing e Big Data” - (S. Ferreira (2021) Qual a perceção dos contabilistas sobre o exercício da profissão e de que forma as novas tecnologias têm vindo a influenciar a atividade dos profissionais da contabilidade? Considera necessário o aprimoramento dos seus conhecimentos, habilidades e competências, dadas as evoluções tecnológicas ocorridas? Porquê? A sua organização ou você, individualmente, busca aprender e conhecer as novas ferramentas de apoio à contabilidade? “O avanço constante da tecnologia ocasiona a necessidade de aprimoramento dos conhecimentos, habilidades e competências dos profissionais da contabilidade, visto que estes precisam de cumprir uma série de deveres e funções” – Georgieva (2019) “Devem ser feitos os esforços necessários para possibilitar aos contabilistas a obtenção de conhecimentos, competências e habilidades de modo a estarem aptos a conhecer e utilizar todas as novas técnicas e ferramentas a seu favor“ - Andrade (2020). Qual a perceção dos contabilistas sobre o exercício da profissão e de que forma as novas tecnologias têm vindo a influenciar a atividade dos profissionais da contabilidade? Na sua opinião qual a ferramenta de apoio à contabilidade que considera mais importante? Porquê? Qual a ferramenta de “Atualmente, são sistemas de ERP que preparam as consolidações e o Excel é apenas utilizado para simples análises” - Spraakman et al. (2015) Qual a perceção dos contabilistas sobre o exercício da profissão e de que forma as novas
39 apoio à contabilidade que utiliza mais no seu trabalho? tecnologias têm vindo a influenciar a atividade dos profissionais da contabilidade? Quais considera ser as competências de contabilidade necessárias no futuro? Para os aspirantes profissionais de contabilidade quais considera as competências e conhecimentos que os mesmos devem investir/adquirir? “IMA juntamente com o AICPA reformularam essas mesmas as competências de contabilidade necessárias para o futuro” - Lawson et al. (2022). “A norma três da IES prescreve a combinação de competências e conhecimentos que os aspirantes profissionais da contabilidade devem adquirir.” - Martins e Francisco (2021) Qual a perceção dos contabilistas sobre o exercício da profissão e de que forma as novas tecnologias têm vindo a influenciar a atividade dos profissionais da contabilidade? Quais os principais desafios que realça para quem entra nesta profissão? E no seu caso em concreto? “São impostos desafios no exercício da profissão, principalmente ao nível das competências tecnológicas. Há uma alteração do modo de trabalho, daí a necessidade de formação constante em novas tecnologias emergentes.” - C. Ferreira (2021). Qual a perceção dos contabilistas sobre o exercício da profissão e de que forma as novas tecnologias têm vindo a influenciar a atividade dos profissionais da contabilidade? Na sua opinião considera essencial redefinir as suas funções e técnicas de modo a atender às novas tendências e desafios? Porquê? “É essencial que os profissionais redefinam as suas expectativas, de modo a atender às novas tendências e desafios da época” Andrade (2020). Qual o papel do contabilista no futuro, perante a transformação digital? Considera que a digitalização na contabilidade uma obrigatoriedade? Porquê? “A digitalização da profissão de contabilidade passa de uma necessidade para uma obrigatoriedade, porque se todas as entidades e organizações utilizam este tipo de sistemas, o profissional para conseguir se integrar e acompanhar o desenvolvimento também os deve utilizar.” - Grosanu & Cordos (2021) Qual o papel do contabilista no futuro, perante a transformação digital? Considera que a inovação e evolução atingiu um patamar perigoso? Porquê? “Entendem que esta mesma inovação e evolução vivenciada na profissão atingiu um patamar perigoso, visto que os contabilistas podem dar abertura a esta nova realidade da profissão ou continuarem ligados ao paradigma mais tradicional.” - Grosanu e Cordos (2021) Qual o papel do contabilista no futuro, perante a transformação digital? Na sua opinião o futuro do contabilista e o seu papel dentro de uma empresa está em risco? Os profissionais de contabilidade no futuro serão substituídos pela tecnologia? “A existência de uma certa incerteza relativamente ao futuro do profissional contabilista e do seu papel dentro de uma empresa” - Silva (2020) “O aumento do uso da tecnologia na execução do trabalho causa nos profissionais algum receio de puderem a vir a ser substituídos pela tecnologia” - Grosanu & Cordos (2021) Qual o papel do contabilista no futuro, perante a transformação digital?
40 O futuro da profissão vai depender da preparação sólida das competências necessárias perante o novo panorama? Porquê? “o futuro da profissão vai depender da preparação sólida e adequada das competências essências perante o novo panorama.” Lawson et al. (2022) Qual o papel do contabilista no futuro, perante a transformação digital? Como vê a profissão de contabilidade no futuro? “A existência de uma certa incerteza relativamente ao futuro do profissional contabilista e do seu papel dentro de uma empresa.” – Silva (2020). Qual o papel do contabilista no futuro, perante a transformação digital? Gostaria de acrescentar algo acerca do tema? Não se aplica Não se aplica Tabela 1 - Guião de entrevistas Conforme já mencionado cada pergunta do guião de entrevista é diretamente relacionada a uma fonte bibliográfica mencionada na revisão de literatura, juntamente a uma das questões de partida previamente definidas. Destarte, o guião de entrevistas é composto por 22 perguntas e encontra-se estruturado em três partes. A primeira relativa às questões básicas de apresentação, que facilitaram à investigadora traçar melhor o perfil do entrevistado, visto que englobava questões como por exemplo quantos anos de experiência tem na função de contabilista e se exerce a profissão num gabinete de contabilidade ou numa empresa. A segunda e a terceira parte são compostas por dois grupos de perguntas que pretendem obter resposta para as duas questões de partida. Deste modo, para dar resposta à questão de partida “Qual a perceção dos contabilistas sobre o exercício da profissão e de que forma as novas tecnologias têm vindo a influenciar a atividade dos profissionais da contabilidade?” foram desenvolvidas catorze questões. As três perguntas iniciais são dedicadas a questões de contextualização pessoal, de modo a construir uma visão inicial da perspetiva de cada participante acerca do gosto, da motivação, ou insatisfação pela profissão. Já para a questão “Qual o papel do contabilista no futuro, perante a transformação digital?” foram elaboradas seis perguntas. As duas primeiras entrevistas, à Entrevistada 1 e ao Entrevistado 2, foram utilizadas como entrevistas teste, com o intuito de salientarem alguns ajustes necessários ao guião. A investigadora percebeu que duas das questões, nomeadamente “Na sua opinião considera essencial redefinir as suas funções e técnicas de modo a atender às novas tendências e desafios?” e “O futuro da profissão vai depender da preparação sólida das competências necessárias perante o novo panorama?” acabavam por já serem respondidas na resposta dada
41 no desenvolvimento de outras questões, logo as mesmas não foram postas nas seguintes entrevistas devido ao seu caracter repetitivo. De referir ainda, em algumas questões do guião foram adicionadas outras perguntas para aprofundar ou contextualizar melhor esses tópicos para os entrevistados. 3.3 Caracterização da população e da amostra No momento de escolha da população-alvo do presente estudo considerou-se a natureza do fenómeno a estudar, bem como a persecução do objetivo previamente definido. Assim, a dissertação tem como público-alvo contabilistas certificados. A seleção dos entrevistados teve em conta os anos de experiência na área, de modo a adquirir uma melhor perceção das alterações ocorridas ao longo dos anos na profissão. Além disso, outro fator a ter em conta foi o vínculo profissional, contabilistas certificados de empresas e contabilistas certificados de gabinetes de contabilidade, sendo que o grupo de participantes se encaixa nesse fator, garantindo uma gama variada de experiências profissionais. Após a agilização de datas e disponibilidade dos participantes foram agendadas um total de 15 entrevistas, com duração média de 40 minutos. As entrevistas ocorreram nos meses de maio, julho e agosto, sendo que apenas duas delas foram por vídeo chamada pela aplicação WhatsApp, por falta de disponibilidade dos entrevistados na realização presencial. Já as restantes entrevistas foram reuniões presenciais em locais e horas convenientes para os entrevistados. Todos os entrevistados são contabilistas certificados em atividade, à exceção de três que já se encontram reformados apesar de ainda exercerem a função, mas não com tanta regularidade. Foram selecionados indivíduos cujas idades estão situadas entre 30 e 68 anos, alinhando-se com o objetivo de obter uma compreensão mais ampla da realidade presenciada. Para formar a devida amostra de estudo a técnica de amostragem selecionada foi a amostragem não probabilística, esta é uma estratégia de seleção de amostra na qual a probabilidade de qualquer membro da população ser selecionado não é conhecida, visto que os participantes são escolhidos com base em critérios específicos ou na sua disponibilidade (Creswell, 2013). De modo mais minucioso, foi escolhida a técnica de amostragem por “bola de neve” (snowball). A investigadora entrou em contacto com os primeiros participantes e estes expandiram a amostragem através de indicações de outros elementos da sua rede de contactos relevantes para o estudo. A amostragem “bola de neve” permitiu um mais fácil e
42 rápido contacto com os contabilistas certificados, bem como uma amostra mais diversificada tendo em conta que muitos dos entrevistados não seriam alcançados de outra forma. De modo a facilitar a distinção de cada entrevistado, assegurando que a identidade dos envolvidos e a privacidade das informações compartilhadas neste estudo acadêmico são protegidas, estes serão identificados por números, por exemplo “Entrevistado 1”. Com o objetivo de uma análise mais detalha dos participantes, é apresentada a Tabela 2. Entrevistada/o Área de Formação Idade Sexo Anos de experiência Local de trabalho Duração da entrevista (minutos) 1 Licenciatura em Contabilidade 46 F 22 Empresa 48 2 Licenciatura em Auditoria 54 M 27 Empresa 37 3 Curso profissional em Contabilidade 57 M 37 Gabinete de Contabilidade 50 4 Licenciatura em Contabilidade e Gestão 55 M 35 Gabinete de Contabilidade 46 5 Bacharelato em Contabilidade e Administração 68 M 47 Gabinete de Contabilidade 37 6 Bacharelato em Contabilidade 59 M 30 Gabinete de Contabilidade 31
43 3.4 Em resumo A metodologia selecionada no estudo é qualitativa, inserida no paradigma interpretativo. A pesquisa visa entender e interpretar profundamente os fenômenos relacionados às mudanças tecnológicas na profissão de contabilidade. Para a coleta de dados, foram realizadas entrevistas exploratórias, conduzidas de forma semiestruturada, de modo a 7 Licenciatura em Fiscalidade 52 F 30 Gabinete de Contabilidade 34 8 Licenciatura em Contabilidade e Gestão 57 M 35 Empresa 36 9 Licenciatura em Solicitadoria e PósGraduação em Contabilidade 50 F 26 Gabinete de Contabilidade 62 10 Bacharelato em contabilidade 68 M 49 Gabinete de Contabilidade 73 11 Curso profissional em Contabilidade 60 M 31 Gabinete de Contabilidade 33 12 Licenciatura em Contabilidade 43 F 19 Empresa 33 13 Curso profissional em contabilidade de administração 67 M 46 Gabinete de Contabilidade 40 14 Licenciatura em Contabilidade 30 F 9 Gabinete de Contabilidade 23 15 Bacharelato em contabilidade e administração 47 F 26 Gabinete de Contabilidade 31 Tabela 2 - Caracterização da amostra
44 fornecer flexibilidade para explorar tópicos emergentes com base nas respostas dos entrevistados. A pesquisa concentra-se em compreender as perspetivas dos contabilistas certificados sobre as evoluções tecnológicas na contabilidade ao longo dos anos. Após a coleta de dados por meio das entrevistas, a etapa seguinte envolveu a avaliação da informação por meio da análise de conteúdo. O estudo não tem como intuito obter respostas definitivas, mas sim analisar perspetivas e compreender as opiniões dos participantes, oferecendo diretrizes para pesquisas futuras. A população-alvo são contabilistas certificados, escolhidos com base em critérios específicos, como anos de experiência e vínculo profissional. A amostragem não probabilística, especificamente a amostragem "bola de neve", foi utilizada para selecionar os participantes. Cada entrevistado é identificado por um número para proteger sua identidade e privacidade.
45 4. Estudo Empírico 4.1 A perceção dos contabilistas certificados sobre o exercício prático da contabilidade Inicialmente optou-se por elaborar três questões de contextualização pessoal, de modo a obter informações sobre a experiência, histórico e características pessoais de cada um dos entrevistados, a fim de compreender o contexto em que as suas opiniões, atitudes ou comportamentos se desenrolam de forma a responder a parte da pergunta de partida 1 (Qual a perceção dos contabilistas sobre o exercício da profissão e de que forma as novas tecnologias têm vindo a influenciar a atividade dos profissionais da contabilidade?). As questões de contextualização pessoal enriquem a pesquisa qualitativa ao permitir compreender não só as opiniões dos participantes, mas também os fatores pessoais, culturais e históricos que contribuem para essas perspetivas. Assim, na primeira questão analisar-seão as respostas destes elementos em torno dos motivos pelos quais escolheram a profissão de contabilista. Para alguns dos entrevistados a escolha da contabilidade derivou do gosto pelos números e pela área em si, o que vai ao encontro do estudo elaborado por Cepa (2015), conforme podemos verificar nos excertos seguintes: “Na altura os testes psicotécnicos demonstraram o gosto pela área de ciências e números e foi esse o caminho que acabei por seguir.” (E1) “Na altura não sabia muito bem o que queria, eu gostava de números e orientaram-me para as economias, dentro da zona mais próxima de casa e das opções que havia optei por escolher contabilidade.” (E12) “Uma das áreas que sempre me interessou foram os números, portanto, era algo que acho que teria de estar presente na minha escolha académica. Matemática sempre foi uma daquelas coisas que… e a contabilidade acabou por conjugar um bocadinho esses dois mundos… trabalho com contas, trabalho com números e posso aplicar também outro tipo de conhecimentos, nomeadamente é um poderoso instrumento de ajuda mesmo à gestão e ao apoio às empresas.” (E15) Já para outros a influência familiar teve peso no momento da decisão, o que vai ao encontro dos estudos efetuados por Albrecht e Sack (2000) e Cepa (2015), os quais ambos reforçam como um fator de influência na escolha da profissão os pais, os professores ou os conselheiros profissionais. Em conformidade com os subsequentes fragmentos:
46 “Influência de familiares, o meu pai já era contabilista estava ligado à área administrativa e sofri um bocado de influência dele para essa área.” (E8) “Influência familiar, as pessoas do meu círculo eram todos contabilistas então optei por seguir também.” (E13) “(...) o meu pai também sempre foi contabilista e a minha irmã também seguiu contabilidade, como não sabia ao certo o que queria então optei por me direcionar para contabilidade e correu bem.” (E14) Para além dos motivos já apresentados, alguns dos entrevistados relatam que a contabilidade foi uma oportunidade que surgiu, visto que inicialmente não era esse o caminho que pensavam seguir. Assim sendo, podemos observar essas opiniões a seguir enunciadas: “Números. Eu na altura cheguei a pensar em seguir economia. Aliás, cheguei a inscrever-me na faculdade. A contabilidade, se calhar foi mais apelativa e eu optei por contabilidade, não estou triste, estou satisfeito. Adoro contabilidade, gosto muito. É claro que é uma atividade que nos obriga permanentemente a uma atualização do inerente.” (E5) “Na verdade, eu estava em informática, no início, tirei um curso de informática, só que na empresa surgiu uma oportunidade de contabilidade. Como também estava a fazer contabilidade como complementar, pronto, foi por aí que surgiu, foi a vida prática que me levou no fundo, o trabalho que me levou a enveredar” (E7) “Na altura eu concorri a professora primária e as candidaturas fecharam e não consegui. Como vinha de ciências económicas, seguir contabilidade seria o caminho mais normal prosseguir. Tinha ideia de voltar atrás e seguir o meu sonho, mas as coisas ficaram mais difíceis e não voltei atrás. Portanto, a escolha de contabilidade não foi uma verdadeiramente informada.” (E9) “Foi a contingência, porque eu era para ser advogado, mas comecei a trabalhar nisto e acabei por ficar.” (E11) No momento em são colocadas as duas próximas questões (Quais os aspetos positivos que realça no exercício da profissão? e Quais as maiores dificuldades encontradas por si no exercício da profissão?), de um modo geral todos os contabilistas acabam por ter dificuldades em dar resposta à segunda questão, que visa realçar quais os aspetos positivos do exercício da profissão de contabilista. No entanto, todos conseguem chegar a uma conclusão à exceção do Entrevistado 13 que não consegue apresentar nenhum aspeto positivo, revelando “Sinceramente não vejo nenhum. Eu dediquei muito na minha vida à contabilidade, há uns
47 anos o aspeto positivo era a remuneração, atualmente não porque estagnou e o nível de vida aumentou.” Em contrapartida, a maioria dá enfâse ao facto de ser necessário e crucial gostar muito daquilo que se faz, como referem os seguintes entrevistados: “Gostar do que faz, receber os papeis, analisar os papeis, andar à procura dos valores em falta para efetuar por exemplo uma consolidação bancária.” (E1) “É preciso gostar de trabalhar nesta área, eu sou muito rigoroso, meticuloso. Tento sempre fazer um bom trabalho e um trabalho cuidadoso.” (E10) “Se você gostar daquilo faz, a ajuda que pode ser para os clientes e forma como faz é extramente importante.” (E11) “Eu gosto do que faço, gosto um bocado de tudo no geral, preparar IVA´s, a parte mais maçadora é preparar os documentos que as vezes chegam em montes. (E14) Uma outra primazia que vários entrevistados abordam e que se encontra em conformidade com o estudo de Merlo (2018), é a importância da figura do contabilista certificado no dia-a-dia das várias empresas e famílias, sendo vista como uma ferramenta de auxílio à gestão e à tomada de decisão. Como os entrevistados a seguir enunciados abordam: “Contribuir para ajudar os gestores a tomar as melhores decisões, conseguir fornecer informação precisa a tempo e horas, de modo a tomar as melhores decisões de gestão.” (E2) “Poder facultar os dados aos clientes e os poder aconselhar e orientar de forma a eles gerirem o negócio da melhor forma, também ao nível fiscal.” (E3) “Ter de dar informação precisa e atempada a quem tem a tomada de decisão.” (E4) Do mesmo modo, a opinião do Entrevistado 9, quando diz “O facto é o contabilista ter aqui um papel muito importante na atividade das empresas, principalmente dessas empresas do segmento micro e pequeno. O contabilista tem uma grande responsabilidade de apoio à gestão”, encontra-se em plena concordância com os autores Jui e Wong (2013) quando afirmam que um contabilista profissional competente no mundo dos negócios é um ativo inestimável para a empresa. O Contabilista é um ativo valioso para a gestão, especialmente em pequenas e médias empresas, onde os contabilistas frequentemente são os únicos elementos com qualificações profissionais.
54 “Em termos de informação era muito mais simples, a contabilidade era toda feita à mão, utilizava as pranchetas. No início tínhamos uma máquina mecânica, não me recordo do nome, parecia um tear, fazia um barulho, metíamos uma ficha e aquilo imprimia na própria ficha.” (E3) “Havia uma prancheta, tinha umas molas metia-se um diário por baixo, depois um químico e ia-se metendo as fichas. Pegava-se no cliente e fazíamos o lançamento da fatura e ia ficando gravado no diário (...) Já existiam as máquinas mecanográficas, que era uma máquina de contabilidade. Metia-se a folha/ ficha metia-se os dados, já o respetivo código para identificar o tipo de documento e ela descarregava logo, dava os saldos, já era um avanço e já era mecânico não era escrito manual.” (E10) “Havia a prancheta, folha que colocávamos em cima de uma tinta e íamos fazendo os lançamentos. Depois aquilo ia criando os diários e o balancete. Calculávamos tudo na máquina de calcular e não podia falhar um cêntimo.” (E13) “No início tínhamos uma impressora de agulhas, não me recordo do nome, papel picotado para efetuar os balancetes e demonstrações de resultados, era tudo manual desde os lançamentos dos dados ao próprio balancete. Utilizavam o livro de letras, o razão, diário de caixa. Podiam introduzir de forma eletrónica, mas acabava por ser tudo transferido para o papel.” (E1) Para os elementos a que se enquadrava a seguinte questão: “Quais considera as principais mudanças ocorridas decorrentes da utilização do computador no exercício das suas funções?” foi possível chegar a resultados que vão ao encontro ao pensamento de vários autores presentes na revisão de literatura. Os seguintes excertos vão ao encontro do pensamento de Dias (2012), quando o mesmo afirma que antes do surgimento dos computadores as tarefas eram maioritariamente manuais e com o seu surgimento houve muitas melhorias associadas: “Facilitou muito. Houve várias tarefas a desaparecer. Era praticamente tudo manual e agora é tudo parametrizado o que economiza tempo (...)” (E1); “Houve mais rapidez nas funções e o desaparecimento de certas tarefas” (E2); “Essencialmente a rapidez no trabalho e a forma como foram transformadas certas tarefas” (E3); e também:
55 “Eu não sei como era possível nós hoje processar as contabilidades manualmente, ou até nos computadores iniciais. Houve algumas tarefas que desapareceram, logo a primeira que me estou a lembrar é que nós fazíamos tudo na máquina de escrever, era muito complicado. Outra tarefa era esse registo manual, os lançamentos, os processamentos e os procedimentos a grande maioria ainda se mantém, embora feitos de forma mais célere” (E13). Destarte, essa realidade mudou drasticamente com o advento da tecnologia da informação. Os sistemas de contabilidade informatizada, os softwares de gestão financeira e a crescente capacidade de processamento de dados revolucionaram a profissão. Hoje, a contabilidade é menos sobre tarefas manuais repetitivas e mais sobre a interpretação de dados, análise financeira estratégica e aconselhamento às empresas. A opinião do Entrevistado 5 converge com Ngwakwe (2021, p. 227): “exatidão, rapidez, conservação e comunicação são alguns dos inputs acrescentados às funções de contabilidade após a introdução do computador” quando o participante profere “O poder usar o computador para tudo e mais alguma coisa foi umas coisas maravilhosas que foram implementadas. Podemos fazer tudo por aqui, finanças, pagamentos, processos fiscais, reclamação IRS, fazemos tudo muito mais rapidamente através do computador. Colocamos as questões que temos dúvidas e a resposta é instantânea, poupamos muito tempo.”. O surgimento dos computadores levou ao desenvolvimento de softwares de contabilidade, que vieram a facilitar os lançamentos e o trabalho no geral (Silva, 2020). Tal e qual como afirmam o Entrevistado 8 “Estes softwares são imprescindíveis, se fizéssemos contabilidade à mão estávamos tramados” e o Entrevistado 13 “Os softwares são essenciais principalmente a nível de registo, atualmente sem eles não há hipótese.”. Nesta temática, foram questionados os entrevistados sobre “Qual a sua opinião relativamente aos softwares contabilísticos? Sempre trabalhou com os mesmos? Qual/ais softwares utiliza/ou?”. Foram vários os softwares de contabilidade enunciados pelos participantes no estudo, sendo que estes variam conforme as necessidades específicas de cada empresa. É importante referir que os softwares contabilísticos utilizados pelos contabilistas certificados em diferentes épocas e entidades, e ainda que alguns utilizam mais do que um software de contabilidade. Assim, os softwares mais utilizados são: Primavera, Sage, SAP, PHC e Eticadata.
56 De forma comprovar os dados apresentados, são expostas algumas respostas dos elementos: “Uso a SAGE, antes utilizava o Primavera. A SAGE, antes era Infologia que também utilizei.” (E3) “Há muitos bons programas, nós usamos o SAGE é um programa versátil e, portanto, nós, eu, adapta-nos bem. Hoje estão melhores, cada vez mais atualizados, sempre atualizados.” (E5) “Já trabalhei com o Primavera e estou a trabalhar com o PHC noutra empresa. PHC é mais completo, onde estou a trabalhar, tem faturação, tem gestão (...)” (E6) “Trabalhei com o SAP, não é nada intuitivo, mas tem especialistas que customizam o programa conforme a realidade empresarial.” (E9) “Nós utilizamos a SAGE, desde sempre. Tenho conhecimento do PHC, algum do Primavera e do TOConline. Mas melhor a SAGE, desde que existimos trabalhamos sempre com a SAGE.” (E11) De seguida, de forma a explorar a perceção dos entrevistados em torno do conceito de Tecnologias de Informação (IT), foi-lhes também questionado “O que entende por Tecnologias de Informação?”. Os Entrevistados/as 6, 10, 13 e 14 desconheciam o conceito e não conseguiram chegar a nenhuma resposta, todos os restantes deram uma resposta. O conceito de IT definido por Attaran (2003) “Information technology is defined as capabilities offered to organizations by computers, software applications, and telecommunications to deliver data, information, and knowledge to individuals and processes” é consistente com os seguintes excertos: “O telemóvel, o computador… repare tudo que o nos traz qualidade de vida, que em excesso pode ser mau, mas que é extremamente útil. (...) Tecnologias de informação são um aumento da qualidade de vida das pessoas, essencialmente das que trabalham em determinadas áreas” (E11); “Tecnologia de informação… não são só os softwares, mas é tudo o que está ao nosso dispor neste momento. (...) são tudo ferramentas que neste momento são indispensáveis e estão ao nosso dispor a um clique” (E15); e “Por exemplo um software contabilístico porque nos vai permitir colaborar uma informação financeira que vamos transmitir ao administrador, dando uma posição da empresa, o que permitirá ao gestor tomar certas decisões para o futuro” (E2). A resposta do Entrevistado 2 vai ao encontro ainda do estudo de Barbosa (2000) tal como a da Entrevistada
57 7 “São as ferramentas que nós temos ao nosso dispor para conseguir levar a cabo o trabalho no fundo.”. As constatações dos Entrevistados/as 1, 4 e 8 são, respetivamente: a “parte que retira de informações dos programas, tudo o que se consegue retirar dos softwares.”, “É tudo aquilo que é necessário ou que existe para nos facilitar no trabalho” e “São softwares que nos permitem dar uma ajuda integral no nosso trabalho e no nosso dia-a-dia.”. Estas respostas encontram-se em concordância com a definição de Nolan (2001, p. 301) “The various types of equipment, applications, and processes that organizations use to solve problems, create opportunities, or transform their business processes”. Já o conceito apresentado por Laudon e Laudon (2007, p. 192) “Information technologies are a set of tools, processes, and methodologies (such as hardware, software, networks, telecommunications, and data management) to collect, store, and distribute information”, encaminha-se nas subsequentes prespetivas: “Novas tecnologias que existem ao nível informático, telecomunicações, programas de contabilidade.” (E3) “Tecnologia da informação são os computadores, todas as tecnologias envolventes, essas tecnologias cada vez mais evoluídas e isso é uma arma, uma arma fortíssima para nós, que lidamos com os computadores e que temos qualquer resposta, encontramos nos computadores e na tecnologia.” (E5) “Tecnologias de informação é, digamos, que são as ferramentas, hardware, software que nos vão permitir tratar a informação de forma mais eficaz e mais eficiente e fazer report dessa informação.” (E9) “É toda a tecnologia que nos permite obter informação útil para a nossa atividade. A TI pode ser útil para quem está a lançar, pode ser útil para quem nos quer comprar, pode ser útil para tudo. Permite-me armazenar toda a informação, de forma que seja fácil essa ser transmitida rapidamente externa e internamente.” (E12) Dentro deste contexto, é crucial enfatizar um dos aspetos de maior relevância ao nível dos sistemas de informação e contabilidade, que diz respeito aos sistemas integrados de gestão, também conhecidos como Enterprise Resource Planning (ERP) (Martins & Francisco, 2021). O conceito de ERP é definido por Romney e Steinbart (2015) como um sistema de informação que unifica as operações de diversos setores de uma empresa, incluindo
58 produção, finanças, recursos humanos, aquisições e vendas, entre outras áreas. Vários entrevistados, mesmo aqueles que não utilizam um ERP diariamente, exploram o conceito da mesma forma que os autores Romney e Steinbart (2015), como podemos constatar nos fragmentos: “Sei, permitem integrar todas as vertentes de uma empresa, desde logística, produção, tudo o que é ativo, depreciações, o aspeto contabilístico” (E2); “Não usamos, mas penso que sejam os programas onde o gestor pode consultador toda a parte contabilística, fiscal, gestão de pessoal, stocks” (E3); “É um software vertical, que integra tudo desde os salários, à gestão, imobilizado, própria produção, os inventários (...) São empresas muito organizadas, que tem tudo integrado, desde a encomenda, fornecedores, clientes tudo é informatizado.” (E4); “(...) onde tu tens tudo integrado no software, consegues consultar os documentos de origem todos”(E7) e por último: “Faz com que todas as áreas da empresa participem na colaboração da informação, desde o armazém que recebe as mercadorias, desde a área de produção que exibe as necessidades e nisto dá-nos uma provisão de necessidade e uma provisão monetária de quanto vamos precisar de liquidez para investir nessas necessidades”; e por fim, “São módulos que trabalham entre eles, pode ser de contabilidade, de gestão, logística, são para empresas de maior dimensão, nós aqui não trabalhamos com nenhum.” (E13). Deste modo, as opiniões dos entrevistados destacam a importância dos ERP nas empresas modernas. Esses sistemas abrangentes permitem a integração de várias vertentes da empresa, proporcionando uma visão completa das operações e facilitando a colaboração e a gestão eficaz em todas as áreas da empresa. Embora seja mais comum em empresas de maior dimensão, os benefícios dos ERP’s são evidentes, possibilitando maior eficiência e controlo sobre as operações empresariais. O Entrevistado 8 afirma que “É mais versátil, mais dinâmico, muito aberto, permite programar determinadas tarefas, próprias e adequadas à atividade da empresa ao setor em que a empresa está inserida (...) dá para parametrizar ao nosso gosto” e o Entrevistado 2 declara que “A informação vai ser cada vez mais automática e não manual”. As afirmações encontram-se em concordância com os seguintes benefícios decorrentes da implementação de um ERP numa empresa enumerados por Martins e Francisco (2021): reduzir o tempo de conclusão dos processos; tornar eficaz e rápido o processamento da informação; e padronizar o processo de negócio.
59 Já no que diz respeito às desvantagens apresentadas pelos autores (Martins & Francisco, 2021), como as funcionalidades limitadas, inflexibilidade, longos períodos de implementação, processo de implementação complexo, estas desvantagens são ilustradas nas opiniões a seguir apresentadas: “(...) aquilo é fantástico em termos de informação, só que depois em termos de apresentação fiscal de acordo com as normas aqui em Portugal deixa um bocadinho a desejar porque acaba por ser um software internacional, portanto eles têm que ter ideia de grupo.” (E15) “(...) dificuldade do SAP em se adaptar à nossa realidade fiscal porque como existem muitas alterações fiscais estes programas necessitam de uma grande adaptação que requer algum tempo e cuidado.” (E2) “O grande problema são as parametrizações de todos esses dados, se as coisas não forem bem parametrizas pode dar asneira (...) Parametrizar é um trabalho trabalhoso, meticuloso, mas depois vamos tirar rentabilidade no futuro.” (E4) No seguinte ponto da Revisão de Literatura foi abordado as novas tecnologias emergentes, tais como a Inteligência Artificial, o Blockchain, a Cloud Computing e o Big Data (S. Ferreira, 2021). Assim, foi questionado aos participantes: “No que respeita às tecnologias emergentes conhece alguma? Inteligência Artificial, Blockchain, Cloud Computing e Big Data. Se sim, utiliza alguma no exercício das suas tarefas?”. Foi possível concluir que o conhecimento acerca desta matéria é reduzido devido ao facto de ainda não ser uma realidade nas empresas e gabinetes de contabilidade dos elementos entrevistados. A IA é uma tecnologia em acensão, da qual a profissão de contabilidade pretende retirar rentabilidade e eficiência (Liang e Wu, 2022), tal como é evidenciado pelo Entrevistado 2; “A empresa está a trabalhar para conseguir utilizar a IA, por exemplo na leitura da fatura sem intervenção humana e ter o lançamento automático, o que irá permitir uma automatização das tarefas”; e também pelo Entrevistado 8: “A IA fala-se muito, mas nós aqui a nível prático ainda não estamos a colher frutos. Embora eu pessoalmente, quando quero colocar alguma questão já tenho utilizado o chatgpt, etc. Mas a IA tem bastantes potencialidades que podem ser aproveitadas, num futuro próximo, que já se fala que está a ser implementado em várias áreas de negócio”.
60 Em contrapartida os Entrevistados 4, 5 e 6 acabam por demonstrar receio e apreensão no desenvolvimento da IA, tal como Ford (2015) quando demonstra receio na diminuição geral na demanda por trabalho humano: “(...) ainda não utilizamos a IA e vai chegar a um ponto que não sabemos se é isso que queremos. Não sei até que ponto “não fazer nada” vai ser bom para a humanidade. Há um desvio de informação e de emprego, aquelas áreas que dão mais trabalho têm de ser as máquinas a fazer, mas em outras funções continuará a ser o humano.” (E4) “Já se fala tanto inteligência artificial que acredito que seja mais rápido do que se espera, e que possa haver substituição de pessoas.” (E5) “Até acaba por ser um pouco assustador, porque rouba empregos às pessoas, para mim não afeta muito que já estou a caminhar para a reforma, mas por exemplo para os jovens pode ser um pouco apreensivo.” (E6) A tecnologia emergente Cloud Computing, termo também designado como “cloud” (ACCA, 2013) ou “nuvem” é das tecnologias apresentadas a mais conhecida e também a mais utilizada. Quando o Entrevistado 5 refere: “A cloud é a nuvem que é basicamente a rede onde tem os documentos. Tudo começa assim que os documentos são guardados numa nuvem, que basicamente é uma rede, a qual interliga vários computadores”, vai ao encontro do definido no estudo de ACCA (2013). Deste modo, também os seguintes elementos do estudo oferecem um ponto de vista acerca desta tecnologia emergente: “Apenas utilizo a cloud, para guardar dados e ir buscar a informação, os próprios computadores tem essa capacidade, mas a cloud dá outra segurança” (E1). Bem como, “Utilizo a cloud, por exemplo para trocar informação com o cliente. Mais prático do que pedir por email, os documentos mais solicitados pelos gestores colocamos na rede para os mesmos os poderem consultar” (E3). Neste caso, a opinião dos entrevistados representada nas respostas da Entrevistada 1 e do Entrevistado 3 é consistente com as vantagens enumeradas no estudo de Merlugo et al. (2021), segundo o qual é uma solução confiável para a recuperação de dados aumenta a produtividade e facilita o acesso aos dados e ao software. Relativamente às restantes tecnologias, Big Data e Blockchain, uns já ouviram o termo, no entanto não sabem a sua utilidade, outros nunca ouviram sequer falar. Quando colocada a questão “Considera necessário o aprimoramento dos seus conhecimentos, habilidades e competências, dadas as evoluções tecnológicas ocorridas?
61 Porquê?”, todos os participantes responderam afirmativamente com certezas e sem indecisão da sua opinião. Logo, sem exceção, todos vão ao encontro do parecer de Georgieva (2019), de que devido aos constantes avanços tecnológicos é primordial melhorar os conhecimentos, habilidades e competência, de modo a conseguir cumprir as suas tarefas com distinção. Como exemplo, algumas das opiniões convergem nos seguintes termos: “Em termos tecnológicos tem vindo a haver grandes transformações nos softwares e aí também temos de acompanhar porque cada vez mais temos de produzir informação mais rápida para os gestores, torna-se obrigatório acompanhar todas estas evoluções contabilísticas e tecnológicas” (E2); “Permanentes todos os dias temos de fazer leituras (...) Temos de estar sempre em linha com as novas atualizações, até porque caso os nossos clientes nos questionem temos de saber dar resposta” (E5); e “Sim, temos de acompanhar sempre todas as evoluções, quer a nível de hardware, software e até a nível de conhecimento. Na contabilidade ou se está a 100% ou não se está” (E13). Deste modo, a Entrevistada 12 acrescenta uma visão aprofundada no tema: “Sem dúvida, porque esta evolução permite a automatização de tarefas e com esta automatização de tarefas simples, nós podemos utilizar esse tempo para analisar e estudar e evoluir tudo o que nos possa facilitar. Com a automatização das tarefas alguém de ganharmos mais tempo, diminuímos a margem do erro, porque se é feito de uma forma automática, em princípio a máquina não se engana tanto como o humano. Portanto, com a automatização das tarefas ganhamos tempo, porque na nossa profissão também é preciso tempo para refletir sobre as medidas que devemos tomar e o que devemos fazer e diminui a margem de erro. Por isso, acho muito importante nós estarmos sempre a evoluir porque se nós tivermos sempre atentos às inovações tecnológicas podemos sempre melhorar e facilitar o nosso trabalho.” No que diz respeito à formação, os próprios elementos ou então a entidade em que se encontra inserido, buscam aprimorar a obtenção de conhecimentos, competências e habilidades de modo a retirarem o melhor proveito das novas técnicas e ferramentas disponíveis (Andrade, 2020). No entanto, de modo geral todos os entrevistados identificam a OCC como o principal fornecedor de formação contínua. Para os mesmos as formações oferecidas pela OCC ajudam os profissionais a se manterem atualizados e a compreenderem as mudanças ocorridas. Além disso, as formações online têm facilitado o acesso à formação, especialmente durante a pandemia. Portanto, a formação contínua é vista como uma parte
62 essencial da profissão, permitindo que os profissionais se adaptem às mudanças e se mantenham competitivos no mercado. Como pode ser visto: “Está sempre a mudar, tem de se estar sempre sem cima do acontecimento. A ordem ajuda muito, a parte das formações online ajuda em termos de logística.” (E1) “Acompanha a evolução através da ordem, reaviva certos assuntos que tem sido alvo de alterações. A própria ordem lançou o programa online das formações, o que veio a ser implementado com a pandemia.” (E2) “É muito importante a formação. Tem de se estar sempre atualizado, porque estão sempre a alterar coisas. (...) a ordem acaba por fornecer essas mesmas formações (...).” (E7) “É sempre necessário. Por acaso sou um bocadinho auto ditada e vou procurando sempre atualizar-me em determinados temas. Embora a OCC tem muitas ações de formação, até porque nos obriga a cumprir um conjunto de créditos anuais e eu procuro sempre ligados a temas de tecnologias, de novas tecnologias.” (E8) “Além de ter a formação continua, disponibilizada pela OCC, aborda os temas pertinentes, até ir assistir às reuniões livres faz-nos pensar em coisas que até então não pensavamos e tão importante como ter a formação é ter acesso a uma forma de esclarecer uma dúvida.” (E9) “(...) toda a gente faz formação e eu até o incentivo, maioritariamente as da ordem (...)” (E15) Posteriormente, no tópico das ferramentas de apoio à contabilidade procurou-se saber “Qual a ferramenta de apoio à contabilidade que considera mais importante?”. Existem várias ferramentas de trabalho de apoio à contabilidade que são amplamente utilizadas para facilitar e melhorar o trabalho do contabilista. Cada uma dessas ferramentas desempenha um papel importante, desde a coleta e organização de dados até a análise e relatórios, em conformidade com os regulamentos. A escolha das ferramentas depende das necessidades específicas da organização e das preferências de cada profissional. Nos seguintes excertos encontra-se reunidas as opiniões dos entrevistados/as que consideram o Excel como a ferramenta mais importante e mais utilizada na contabilidade: “Tanto o Excel como os softwares contabilísticos são importantes (...) Atualmente, o Excel é mais uma dinâmica para tratamento de dados, os softwares oferecem os mapas de análise, para conseguir dar a melhor análise possível. O software é mais introdução de dados, Excel é para trabalhar a informação.” (E2) “O Excel é uma ferramenta imprescindível, eu próprio utilizo maioritariamente o Excel.” (E3)
63 “O Excel, nós apenas utilizamos 5/10% das suas capacidades. Considero a melhor ferramenta de apoio à contabilidade.” (E4) “O Excel é extraordinário, tanto como ferramenta de cálculo, como de organização de dados, elaboração de dados e análises financeiras.” (E10) “O Excel é importante para nós, é um complemento. No meu caso, utilizo mais o Excel, embora vamos buscar dados ao software.” (E11) “Excel, mas apesar de um complementar o outro. O SAP trabalha muito com tabelas Excel, exporto para Excel e trabalho muito com as duas ferramentas. O SAP tem muitos módulos e as empresas nem sempre compram todos os módulos e o Excel ajuda a tratar os dados.” (E12) “Eu pessoalmente uso muito o Excel, para qualquer coisa faço uma folha Excel, como domíno mais ao menos.” (E Neste caso, as opiniões anteriormente enunciadas vão ao encontro dos estudos de Spraakman et al. (2015) e de Cory e Pruske (2012), nos quais o Excel é apontado como a ferramenta principal de apoio à contabilidade, permitindo tratar de forma prática e eficaz toda a informação retirada do software. Por sua vez há entrevistados que não partilham da mesma opinião dos elementos já evidenciados, ou seja, o seu ponto de vista não converge com os estudos dos autores abordados na presente temática. Logo, os restantes dividem a opinião de que o software de contabilidade é mais importante, conforme podemos constatar: “Principalmente o software porque é lá que tem toda a contabilidade, o Excel também é uma ferramenta muito boa porque ajuda a apoiar na elaboração de mapas e relatórios.” (E1) “Para mim o software de contabilidade, o Excel é espantoso, mas eu acho que o software de contabilidade é aquilo que mais ajuda nos dá.” (E5) “Não considero o Excel o mais importante, mas sim o software.” (E6) “Eu uso ambos, mas é mais importante o software de contabilidade. Se não tiveres um software de contabilidade, não consegues fazer contabilidade (...) complementam-se, mas o mais importante é o software de contabilidade, sem dúvida.” (E7) “Software sem dúvida, embora o Excel para mim seja uma ferramenta também muito importante também faz parte do meu dia-a-dia.” (E9) “Sem dúvida o software de apoio à contabilidade. O Excel é uma ferramenta importantíssima para dar apoio no tratamento de determinada informação, que o próprio software não faz.” (E8) “Além do software de contabilidade, que é o principal e sem dúvida o que eu utilizo mais. Também utilizo o Excel como ferramenta de apoio, é uma ferramenta complementar.” (E14)
70 Acho que vai sempre fazer falta o contabilista. Eu acho… se calhar depois pode é libertar certos trabalhos do contabilista para outras coisas que são mais importantes” (E7); “Não, o contabilista tem de se atualizar, acompanhar o progresso, não pode ficar para trás no comboio. A contabilidade tal como outras áreas tem de acompanhar o progresso” (E8); “Não, eu sinceramente não acho. Se o contabilista tiver numa posição em que a sua função é de tratar papel então sim, se for essa a perspetiva não” (E9); e “Eu acho que não, é completamente um absurdo a nossa profissão deixar de fazer sentido porque é impensável um contribuinte enviar uma declaração, ou seja, eu acho que seria um descalabre a profissão deixar de existir” (E14). Já a Entrevistada 12, apesar de não considerar que a inovação e a evolução atingiram um patamar perigoso para o contabilista, afirma que “existe sempre o medo de a máquina substituir o homem, mas eu não sou defensora dessa teoria porque eu acho que tem sempre de haver uma cabeça a pensar. A máquina pode nos retirar a tarefa de maior trabalho físico, maior demora, mas cria-nos outras tarefas”. Assim, é verificado algum receio por parte da contabilista certificada de poder a vir ser substituída pela tecnologia (Grosanu & Cordos, 2021). Porém, não acredita que haverá a substituição do homem pela máquina. Neste sentido, a entrevistada já estaria a dar resposta às questões, complementares, seguintes: “Na sua opinião o futuro do contabilista e o seu papel dentro de uma organização está em risco? Os profissionais de contabilidade no futuro serão substituídos pela tecnologia?”. Assim a Entrevistada 12 acrescenta ainda que “um contabilista faz muito mais do que lançar faturas, faz muitas análises. A tarefa de um contabilista, é muito redutora dizer que um contabilista só lança faturas é muito injusta. (...) Temos de abrir a mentalidade e inovar no serviço”. Relativamente às respostas às perguntas enunciadas, todos os contabilistas certificados consideram a impossibilidade de os profissionais de contabilidade serem substituídos pela tecnologia. Tal também é verificado por Silva (2020) e Grosanu e Cordos (2021), quando os especialistas inquiridos nos estudos não veem perigo de o contabilista vir a ser substituído pela tecnologia. Como verificado: “Não acredito que no futuro os CC sejam substituídos por completo pela tecnologia. O computador vai precisar sempre de alguém que insira os dados, que os confirme, que os submeta” (E1); “Eu pelo que ouço, muitos colegas falar, está em risco, mas desaparecer o contabilista acho que não. Acho que tem de haver sempre a figura do contabilista” (E6); “Eu acho que não, não, não considero. Pelo menos num
71 curto prazo. A longo prazo não sei” (E7); e ainda “Não, vai ser cada vez mais importante. (...) A tecnologia em si não faz tudo, a figura humana é sempre importante. Agora que possa reduzir o número de pessoas a trabalhar na área pode, mas a importância vai ser cada vez maior” (E11). Assim, para os entrevistados, enquanto a tecnologia está a transformar a contabilidade, os contabilistas permanecem essenciais, desempenhando um papel mais estratégico e consultivo, à medida que as tarefas repetitivas são automatizadas. A relação entre os contabilistas e a tecnologia é vista como complementar, sendo que é primordial o profissional adaptar as suas competências à nova realidade Lawson et al. (2022). Como se percebe com os posteriores excertos: “Não, vai ter sempre um papel, se calhar as tarefas podem alterar. O contabilista vai ter sempre um papel fundamental e vai ser sempre uma ferramenta de informação. Contabilistas vão continuar a existir, vão continuar a prestar um excelente serviço, independentemente destas coisas.” (E5) “Não, poderá sofrer alterações na designação do papel do contabilista em si e mais concretamente nas suas funções.” (E2) “O papel do contabilista será mais de aconselhar e orientar para os riscos, para os proveitos, nas vantagens e desvantagens. O contabilista terá sempre um papel importante, mais que não seja no aconselhamento na tomada de decisão.” (E3) “Se calhar não vão ser precisas tantas pessoas ou as posições é que vão ser definidas. Se calhar não vai ser executado todo aquele processo de lançamento e classificação e será mais tomada de decisão.” (E4) “Se calhar vão deixar de fazer certas tarefas e essas virem a ser reduzidas. Muitas vezes com tudo o trabalho que tem, não terá tempo para fazer determinadas tarefas e assim vai passar a ter tempo. Consequentemente, dar uma informação muito melhor a quem dirige.” (E5) “Não considero que esteja em risco, considero que grande parte das tarefas que o contabilista faz possam vir a ser complementadas com a IA e com o avanço da informática. (...) A tendência é as tarefas serem cada vez mais automatizadas (...)” (E8) “Na minha opinião não, (...) claro que depois iria haver muita mais margem de erro, porque nem tudo que é informatizado está correto, é por isso que existe a figura humana para verificar.” (E14)
72 Deste modo, a Entrevistada 15 enfatiza ainda o facto de o papel dos contabilistas vir a ser cada vez mais valorizado e destacado, especialmente pelos empresários: “Não, acho que não. Acho que neste momento o papel do contabilista tem vindo a ser cada vez mais evidenciado e os próprios empresários estão cada vez mais sensibilizados. Principalmente os novos empresários já entram com uma perceção completamente diferente. Já entram mesmo com a perceção de que o contabilista não deixa de ser, se calhar, a pessoa mais importante dentro de uma organização. Porque a informação que é produzida pelo contabilista, se não for bem produzida, pode induzir em táticas de gestão e de negócio completamente erradas.” (E15) No estudo de Silva (2020), os indivíduos realçam ainda uma certa incerteza relativamente ao futuro da profissão, devido aos constantes avanços tecnológicos. Tal como os Entrevistados 3 e 13, respetivamente: “Num futuro muito longínquo considero que os profissionais de contabilidade no futuro possam ser substituídos pela tecnologia” (E3) e “Está um bocado em risco. (...) Há um risco, a qualquer momento o governo pode dizer que não é necessário ter um contabilista certificado para processar a contabilidade” (E13). Os excertos refletem perspetivas diferentes em relação ao futuro dos profissionais de contabilidade. O primeiro excerto, do entrevistado E3, sugere que, em algum momento muito distante no futuro, a tecnologia pode substituir completamente os profissionais de contabilidade.1 No entanto, o segundo excerto, do entrevistado E13, apresenta uma visão mais imediata e preocupante. Ademais, a opinião do Entrevistado 10 encontra-se em consonância com a Bastonária da OCC, Paula Franco (2018). Visto que, ambas as perspetivas apontam para a importância da adaptação ao novo panorama e da aprendizagem contínua, num cenário de constante mudança tecnológica. A Bastonária enfatiza a necessidade de preparação e diferenciação, o Entrevistado 10 adota uma perspetiva mais otimista, destacando as oportunidades de crescimento e evolução que a tecnologia pode proporcionar aos contabilistas certificados. Como se pode comprovar: 1 A entrevista ao Entrevistado 13 aconteceu depois do conflito criado com a proposta de alteração do estatuto da profissão. A proposta permitiria que qualquer pessoa possa submeter as declarações fiscais, deixando de ser obrigatória a assinatura de um contabilista certificado.
73 “Eu diria que a tecnologia, vamos ver ao longo dos anos, isto é uma questão de análise da história, a tecnologia tirou sempre alguns postos de trabalho, mas criou outros. Os contabilistas podem evoluir. Dentro da escala do que é ser contabilista há muita margem para subir, crescer, evoluir, não vejo isso verdadeiramente como um risco. A tecnologia vais mudar a profissão, vai permitir evoluir, é provável que algumas pessoas não se adaptem, é provável que custa a adaptação, a mudança custa a vários níveis, mas eu acho que era ótimo.” A contabilidade ainda é amplamente valorizada e necessária. Os contabilistas vão continuar a desempenhar papéis importantes no apoio empresarial e na tomada de decisões. O futuro da profissão de contabilista irá envolver adaptações e evoluções à medida que a tecnologia avança. Deste modo, e de forma conclusiva, foi colocada a última questão “Como vê a profissão de contabilidade no futuro?”. O profissional da contabilidade vai continuar a atuar num mercado futuro, no entanto é crucial que estes estejam dispostos a atualizar constantemente as suas habilidades e conhecimentos, especialmente em relação aos sistemas tecnológicos e às tendências emergentes (Silva, 2020). Em concordância encontra-se as duas perspetivas seguintes: “O contabilista terá de possuir uma melhor capacidade de controle sobre a tecnologia, que tudo se enquadre da mesma forma” (E2) e “Eu acho que o contabilista vai ser o que tem sido, vai ter que se adaptar sempre às mudanças” (E6). As opiniões expressas pela ACCA (2016) e pelos excertos dos entrevistados a seguir divulgados, estão alinhadas no sentido de que a tecnologia, incluindo os softwares, estão a transformar a profissão de maneira fundamental. Tarefas que anteriormente eram imprescindíveis, hoje vão desaparecer ou então serão redefinidas, permitindo mais tempo de análise prévia. Portanto, ambas as fontes concordam que a tecnologia está revolucionando a contabilidade, tornando-a mais rápida, automatizada e orientada para análise e aconselhamento, destacando a importância da atualização constante das competências dos contabilistas de modo a se manterem relevantes neste ambiente em evolução. Como se pode observar nos respetivos excertos: “Essencialmente diferente, onde as coisas vão cair, entre aspas, quase feitas e o nosso papel será mais de análise, de estudo, de tratamento de dados e informação e principalmente de aconselhamento. Vamos ser o elo entre a emissão do documento e a transmissão de dados aos gestores.” (E3)
74 “O contabilista irá prestar um serviço de informação mais precisa e mais rápida do que aquilo que faz hoje, muitas vezes o empresário nem tem digamos tempo para tomar uma decisão cuidada.” (E4) “Mais do que tratar documentos, é um apoio à gestão, é uma ferramenta de gestão. Até agora o contabilista era muito de tratar documentação e apresentar declarações fiscais, todo esse processo já está muito mais... é muito mais célere, as coisas acontecem muito mais… portanto, qual é o nosso papel? É depois analisar. Acho que o papel do contabilista vai tender a evoluir e a tornar-se cada vez mais importante.” (E15) “Mais informatizada, a informação estar quase disponível ao minuto, vai ser muito mais fácil aceder aos dados e os analisar.” (E1) As modificações decorrentes das evoluções tecnológicas podem, para Martins e Francisco (2021), criar estabilidade na carreira, bem como diversas oportunidades profissionais, como é o caso de novas áreas de especialização. Tal como defende o Entrevistado 5, “A profissão vai sempre coexistir com outras atividades que são absolutamente indispensáveis e poderá até surgir novas áreas e novas atividades.”. Outras duas oportunidades que os autores realçam é maior disponibilidade para analise de dados e a maior eficiência com a integração de novos programas e sistemas. Nesta perspetiva, o Entrevistado 8 afirma: “Tenho consciência que a IA vai provocar uma pressão enorme nos contabilistas que existem no mercado, embora eu acredito que vão conseguir ultrapassar essa situação, adaptando-se e atualizando-se. O próprio mercado também reage e adapta-se à própria realidade, não é? Embora não me acredite que haja a extinção do posto de contabilista, acredito que isso não vai acontecer. Pode é ser mais restritivo devido a esta questão da IA e dos softwares a estarem sempre a se atualizar, cada vez mais aperfeiçoados, mais dinâmicos, mais versáteis. Os contabilistas vão estar mais virados para o tratamento/análise de dados e para o cumprimento fiscal e depois relatórios, balanços, indicadores económicos e financeiros começam a ser todos cada vez mais automatizados.” Numa outra perspetiva relatada na revisão de literatura, Bressler e Pence (2019) consideram que no futuro serão necessárias as chamadas “habilidades de empregabilidade”, tais como as competências interpessoais, inteligência emocional, independência, ect. Tal como reflete o Entrevistado 10: “Tem de ser de facto uma pessoa aberta à informação, aberta
75 à novidade e que tem de saber de facto, estar muito bem informada.” O profissional do futuro não só lidará com números, mas também será um consultor que compreende as complexidades das funções”. Portanto, a preparação para o futuro da contabilidade não se limita apenas à tecnologia, mas também abrange o desenvolvimento de habilidades essenciais de empregabilidade. O entrevistado esclarece ainda: “Deixamos de ser tanto o trabalhador de tratar documentos e fazer lançamentos e mais o consultor, análise e consulta. De facto, os programas vão cada vez mais evoluir. Nós temos de estar preparados, as nossas tarefas e preocupações do dia-a-dia vão desaparecer porque a informática vai passar a fazer. Isso vai exigir um grau cada vez maior de especificação aos contabilistas (...) A nossa tarefa vai ser pegar nos dados, analisá-los.” Já a opinião do Entrevistado 11 sobre o futuro da profissão é diferenciada das demais e destaca um ponto crucial que merece reflexão. Ele enfatiza que, embora o avanço das tecnologias de informação seja inegavelmente importante para a evolução da profissão de contabilista, não se deve negligenciar o papel fundamental do ser humano nesse cenário. O entrevistado levanta uma questão crítica sobre a priorização das tecnologias em relação às pessoas. Ele argumenta que “Gastamos demasiado dinheiro na evolução das tecnologias de informação e esquecemo-nos do ser humano. Devíamos investir mais no ser humano, porque não há economia sem ser humano, não tenho dúvida, sem esquecer as tecnologias de informação. O problema é que eu acho que estamos a tornar as tecnologias de informação mais importantes que o ser humano (...)”. É importante encontrar um equilíbrio entre o avanço tecnológico e o desenvolvimento humano. A tecnologia pode aprimorar a eficiência e a automatização das tarefas, mas o verdadeiro valor do contabilista reside na capacidade de interpretar os dados, fornecer aconselhamento estratégico e compreender as nuances das operações empresariais. Portanto, o ser humano continua a ser insubstituível e deve ser valorizado como um elemento essencial na evolução da contabilidade. A busca por esse equilíbrio é fundamental para um futuro bem-sucedido da profissão de contabilista. 4.4 Em resumo Este capítulo começa por elaborar três questões de contextualização pessoal para entender o histórico e as características pessoais dos entrevistados. As respostas revelam que alguns escolheram a profissão de contabilista devido ao gosto por números, enquanto outros
76 foram influenciados pela família ou por oportunidades que surgiram. Quando questionados sobre os aspetos positivos da profissão, os entrevistados destacaram a importância de gostar do que fazem e a capacidade de ajudar os clientes na gestão de negócios. A figura do contabilista é vista como crucial para empresas e famílias, auxiliando na tomada de decisões. Por outro lado, as principais dificuldades encontradas no exercício da profissão incluem a pressão de cumprir prazos, mudanças constantes na legislação, burocracia, e desafios ao lidar com clientes que nem sempre fornecem informações prontamente. Além disso, a falta de compreensão por parte dos clientes sobre o valor do trabalho contabilístico também é destacada como um desafio. É abordada a questão de como as novas tecnologias estão a mudar a atividade dos profissionais da contabilidade. Alguns entrevistados veem a tecnologia como uma aliada, outros destacam como o uso de computadores e softwares facilitou e acelerou todo o processo contabilístico. Há uma concordância geral de que a tecnologia trouxe rapidez, exatidão e eficiência ao trabalho. Destacam a importância da atualização constante de conhecimentos e habilidades devido às mudanças tecnológicas na contabilidade, bem como a necessidade de melhorias na formação prática nas universidades e o papel crucial da formação contínua e das ferramentas de apoio à contabilidade. Alguns veem a digitalização como uma obrigatoriedade devido às mudanças na profissão, enquanto outros acreditam que pelo menos para já não é algo exigido. Há debates sobre se a inovação e a evolução tecnológica representam um perigo para a profissão, com algumas preocupações, mas também otimismo sobre as oportunidades que essas mudanças podem trazer. No entanto, a maioria dos entrevistados concorda que os contabilistas continuarão a desempenhar um papel essencial. Além disso, destaca-se a importância de equilibrar o avanço tecnológico com o desenvolvimento das habilidades humanas para garantir um futuro sólido para a profissão de contabilidade.
77 5. Conclusão 5.1 Principais conclusões A presente investigação tinha como principal objetivo explorar as perceções dos contabilistas sobre as mudanças tecnológicas e o seu impacto no futuro da profissão. Neste momento é esperado ser possível descrever e compreender a perceção dos contabilistas acerca do exercício da profissão, do avanço e evolução das novas tecnologias, bem como o impacto na profissão de contabilistas e no final analisar a expectativa relativa ao futuro da profissão. Considerou-se apropriado estabelecer uma conexão entre os avanços tecnológicos e a ocupação dos contabilistas no mundo empresarial. Existe uma relação direta entre ambas, uma vez que é notório como a Era Digital está a provocar alterações na forma como os contabilistas realizam o seu trabalho. Diariamente, os profissionais enfrentam desafios que demandam competências e conhecimentos abrangentes devido à crescente evolução das suas tarefas. Cabe aos contabilistas reconhecerem a inevitabilidade do avanço tecnológico. No entanto, é legitimo questionar se todos têm plena consciência das mudanças em curso. Assim, este estudo qualitativo realizado com o recurso a 15 entrevistas exploratórias teve primeiramente como objetivo compreender como os progressos tecnológicos têm gradualmente vindo a transformar a forma como a profissão evoluiu ao longo dos anos. Isso não só inclui as mudanças na prática profissional, mas também a forma como esses avanços impactaram a formação e a mentalidade dos profissionais que a exercem. Para tal, foi formulada a seguinte pergunta de investigação: “Qual a perceção dos contabilistas sobre o exercício da profissão e de que forma as novas tecnologias têm vindo a influenciar a atividade dos profissionais da contabilidade?” Conforme as perceções dos entrevistados em relação ao exercício da profissão, foi possível destacar aspetos positivos como o facto de serem uma figura indispensável de apoio à gestão e o coração de uma empresa, para além do gosto e dedicação pelo que se faz. Por outro lado, foram várias as dificuldades expostas recorrentes do exercício da profissão, como a pressão no cumprimento de prazos, a necessidade de se adaptar às mudanças frequentes na legislação e os desafios constantes em trabalhar com clientes que nem sempre são compreensivos relativamente ao valor e exigência do trabalho contabilístico.
78 Pôde-se também concluir que as novas tecnologias tiveram um impacto significativo no exercício profissão de contabilidade. Reconhecem que a contabilidade evoluiu ao longo dos anos, passando de um processo altamente manual para um ambiente bastante informatizado, onde o uso de computadores e softwares de contabilidade se tornou indispensável. Destacam a importância da tecnologia na melhoria da eficiência e eficácia, bem como na simplificação dos processos contabilísticos. Além disso, para os entrevistados a figura de contabilista tornou-se mais do que apenas um registador de informação financeira, desempenhando agora um papel mais estratégico, oferecendo aconselhamento e orientação às empresas. Porém, é importante realçar que a adaptação aos avanços tecnológicos variou entre os entrevistados, dependendo do ambiente em que se encontram inseridos e dos anos de experiência. É possível também concluir que a formação contínua é considerada essencial para os profissionais de contabilidade se manterem atualizados e competitivos no mercado. A OCC é amplamente reconhecida pelos entrevistados como o principal fornecedor de formação contínua, com formações presenciais e online que ajudam os profissionais a compreender as mudanças na profissão e a adquirir novos conhecimentos e competências. Verificou-se uma crítica geral em relação à educação universitária, os entrevistados afirmam que a maioria dos recém-licenciados saem das universidades com uma compreensão teórica, mas com pouca experiência prática e limitados conhecimentos das ferramentas de contabilidade. Para combater essa lacuna, os mesmos sugerem que os recém-licenciados ingressem em estágios profissionais, onde podem ganhar experiência prática e se familiarizarem com as operações do mundo real. Assim, as novas tecnologias têm vindo a mudar os conhecimentos e a própria atividade dos contabilistas, trazendo mudanças significativas para a contabilidade, tornandoa mais eficiente e estratégica. A formação contínua e a obtenção de experiências práticas são consideradas fundamentais para o desenvolvimento das competências e conhecimentos necessários para os profissionais de contabilidade acompanharem essa transformação. A formação oferecida pela OCC desempenha um papel crucial nesse processo, enquanto a formação universitária ainda precisa de melhorar a preparação eficaz dos estudantes na profissão. A segunda questão “Qual o papel do contabilista no futuro, perante a transformação digital?” surge da dicotomia homem-máquina, uma vez que ambos desempenham funções
79 laborais. Mesmo em sociedades altamente avançadas em termos tecnológicos, a substituição completa das pessoas por máquinas levanta questões que procuraram ser respondidas pelos entrevistados. Com base nas opiniões e perceções dos entrevistados, é possível concluir que as novas tecnologias estão a causar mudanças significativas na profissão de contabilidade. A digitalização é vista como uma tendência inevitável, no entanto, alguns dos entrevistados demostram preocupações sobre a velocidade e a viabilidade dessa transformação, especialmente considerando a resistência de alguns clientes e a falta de recursos das empresas. Num curto prazo, a maioria dos entrevistados não considera que a profissão de contabilista esteja em risco de ser completamente substituída pela tecnologia. Os entrevistados acreditam que os contabilistas certificados vão continuar a desempenhar papéis importantes, mas esses podem mudar, passando a focalizar-se mais na análise, no aconselhamento e na tomada de decisão. Além disso, os entrevistados enfatizam a importância da adaptação e atualização constante das competências dos contabilistas de modo a acompanhar as mudanças tecnológicas. Eles também reconhecem que a tecnologia pode criar oportunidades profissionais e áreas de especialização, além de aumentar a eficiência na análise de dados. Uma opinião levantada por um dos entrevistados foi a necessidade de equilibrar o avanço tecnológico com o desenvolvimento humano, destacando que o ser humano não deve ser negligenciado em detrimento da tecnologia. Em suma, os entrevistados acreditam que a profissão de contabilidade continuará a existir, mas será transformada pela tecnologia. A adaptação e a aprendizagem contínua serão essenciais para o sucesso dos contabilistas no futuro. 5.2 Contribuições do estudo Como é esperado os estudos oferecem vários contributos e este não é exceção. Nomeadamente o presente estudo oferece importantes contributos relacionados com a interligação entre os avanços tecnológicos e a ocupação dos contabilistas no mundo empresarial.
86 Pepe, A. A. (2011, April 19). The evolution of technology for the accounting profession. CPA Practice Advisor. https://www.cpapracticeadvisor.com/2011/04/19/the-evolution-of-technology-for-theaccounting-profession/1159/ Petani, F. J., Ramirez, C., & Gendron, Y. (2021). Special issue on digital, work and professions. Critical perspectives on accounting, 79(3), 10-15. PHC CS. (n.d.). PHC CS módulo contabilidade. https://phccs.net/modulos/contabilidade/ Rasid, S., Saruchi, S., & Tamin, R. (2019). The eminence of the 4th industrial revolution: How it transformed management accountants. Paper presented to the 16th International Symposium on Management, Manado, Indonesia. Rodrigues, A. T. L. (2018, August 22). Disrupção Contávil. Jornal do Comércio. https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/cadernos/jc_contabilidade/2018/08/644164disrupcao-contabil.html Rodrigues, L. L., Gomes, D., & Craig, R. (2003). Corporatism, liberalism and the accounting profession in Portugal since 1755. Accounting Historians Journal, 30(1), 95-128. Rodrigues, L. L., & Gomes, D. (2002). Evolução da profissão dos técnicos de contas em Portugal: Do Marquês de Pombal até aos nossos dias. Jornal de Contabilidade, 302, 131-141. Romney, M., & Steinbart, P. J. (2015). Accounting information systems (13th ed.). Pearson Education, Inc. Santana, F. (1989). A aula do comércio de Lisboa (1759-1844). Revista Municipal. SAP. (n.d.). Contabilidade e fecho de contas. https://www.sap.com/portugal/products/financialmanagement/accounting-financial-close.html Silva, G. O., Ferreira, L. A. S., Ferreira, T. F., Henrique, M. R., & Silva, S. B. (2020). O impacto da techologia na profissão contábil sob perspectivas de pessoas com formação e/ou experiência profissional na área. ICMAInternacional Conference in Management and Accoutanting, 72(3), 1-23. Spanò, R., Massaro, M., Ferri, L., Dumay, J., & Schmitz, J. (2022). Blockchain in accounting, accountability and assurance: An overview. Accounting, Auditing & Accountability Journal, 35(7), 14931506. Spraakman, G., O´Grady, W., Askarany, D., & Akrody, C. (2015). Employer’s perceptions of information technology competency requirements for management accounting graduates. Accounting Education, 24(5), 403-422. Stancheva-Todorova, E. P. (2020). Blockchain application in the accounting domain. Economic & Business Journal, 14(1), 183-201. Superprof Blog. (2023, March 17). Contabilidade Portugal: Conheça os 10 softwares mais interessantes!. https://www.superprof.pt/blog/softwares-para-fazer-uma-formacao-emcontabilidade/
87 Thatong, S. (2016). Accouting graduate employer´s expectation and the accouting curriculum: The case of Thailand. Catalyst, 13(1), 64-74. Uçar, M., Kizil, C., & Oğuz, O. (2018). Problems of accounting professionals residing in Istanbul and the suggested solutions. Emerging Markets Journal, 8(1), 17-26. Usul, H., & Aslantaş, B. A. (2007). Muhasebeci-Mükellef Çatışması. Muhasebe ve Denetime Bakış Dergisi, Sayı, 22, 85-103. Warren, J. D., Moffitt, K. C., & Byrnes, P. (2015). How Big Data will change accounting. Accounting Horizons, 29(2), 397-407. Watson, C. (2023, February 2). The Benefits of a Career in Accountancy Practice: Why it's Better than Moving to Industry. Linkedin. https://www.linkedin.com/pulse/benefits-career-accountancy-practicewhy-its-better-than-watson/ Yermack, D. (2017). Corporate governance and blockchains. Review of finance, 21(1), 7-31. Yıldırım, S., & Güney, S. (2012). General problems of certified public accountants: The case of Erzurum Province. Journal of Accounting and Auditing Review, 36, 35-48.
88 Apêndices Apêndice 1 – Autorização Autorização Eu, _Ana João Santos Magalhães, aluna do 2º ano do Mestrado em Contabilidade da Universidade do Minho, com o objetivo de obter o grau de mestre em contabilidade, irei elaborar um relatório de estágio cujo tema é “A Contabilidade na Era Digital: a perceção dos contabilistas”. Como o título indica pretendo obter a opinião acerca da perceção dos contabilistas perante a nova realidade tecnológica. Para tal, utilizarei como método de recolha de dados a realização de entrevistas, constituídas por um conjunto de 22 perguntas, as quais pretendo gravar através de áudio. Para alcançar este propósito solicito a sua autorização para gravar a entrevista. Desde já agradeço a disponibilidade e contributo. ! ! ! ! ! ! Eu ………………………………………………………………………………………………… , Contabilista Certificado, autorizo que a minha entrevista seja gravada. ! ! ! ! ! Data: ……/……/2023 ! ! ! ! ! ! ! ! …………………………………………………… (Assinatura do entrevistado)
89 Apêndice 2 – Guião de entrevista Guião de Entrevistas 1 PARTE 1. Primeiramente, irei colocar-lhe breves questões de contextualização pessoal, uma vez que foram consideradas pertinentes para enquadrar as analises do tema em questão: - Nome; - Idade; - Habilitações académicas; - Anos de experiência; - Anos de inscrição na ordem como Contabilista Certificado (podem ter mais experiência antes de terem sido CC); - Função exercida atualmente (se é num escritório ou numa empresa). 2 PARTE (Objetivo responder à Questão de Partida: “Qual a perceção dos contabilistas sobre o exercício da profissão e de que forma as novas tecnologias têm vindo a influenciar a atividade dos profissionais da contabilidade?”) 2. O que o/a levou a optar pela profissão de contabilista? 3. Quais os aspetos positivos que realça no exercício da profissão? 4. Quais as maiores dificuldades encontradas por si no exercício da profissão? 5. Ao nível das questões dos avanços tecnológicos, de que forma vê a contabilidade atualmente? O que é a contabilidade para si?
90 6. No início do exercício da profissão como eram desempenhas as suas tarefas? Quais as ferramentas de apoio à contabilidade que utilizava? 7. Quais considera as principais mudanças ocorridas decorrentes da utilização do computador no exercício das suas funções? Houve tarefas que desapareçam? Quais as principais vantagens? 8. Qual a sua opinião relativamente aos softwares contabilísticos? Sempre trabalhou com os mesmos? Qual/ais softwares utiliza/ou? 9. O que entende por Tecnologias de Informação? Considera as TI como uma ferramenta indispensável no universo contabilístico? Porquê? 10. Sabe o que são sistemas integrados de gestão ou Enterprise Resource Planning (ERP)? Na sua empresa trabalha com algum? Se sim, quais as principais vantagens e desvantagens associados à sua implementação? E associados à sua utilização? 11. No que respeita às tecnologias emergentes conhece alguma? Inteligência Artificial, Blockchain, Cloud Computing e Big Data. Se sim, utiliza alguma no exercício das suas tarefas? 12. Considera necessário o aprimoramento dos seus conhecimentos, habilidades e competências, dadas as evoluções tecnológicas ocorridas? Porquê? A sua organização ou você, individualmente, busca aprender e conhecer as novas ferramentas de apoio à contabilidade? 13. Na sua opinião qual a ferramenta de apoio à contabilidade que considera mais importante? Porquê? Qual a ferramenta de apoio à contabilidade que utiliza mais no seu trabalho? 14. Quais considera ser as competências de contabilidade necessárias no futuro? Para os aspirantes profissionais de contabilidade quais considera as competências e conhecimentos que os mesmos devem investir/adquirir? 15. Quais os principais desafios que realça para quem entra nesta profissão? E no seu caso em concreto?
91 3 PARTE (Objetivo responder à Questão de Partida: “Qual o papel do contabilista no futuro, perante a transformação digital?”) 16. Na sua opinião considera essencial redefinir as suas funções e técnicas de modo a atender às novas tendências e desafios? Porquê? 17. Considera que a digitalização na contabilidade uma obrigatoriedade? Porquê? 18. Considera que a inovação e evolução atingiu um patamar perigoso? Porquê? 19. Na sua opinião o futuro do contabilista e o seu papel dentro de uma empresa está em risco? Os profissionais de contabilidade no futuro serão substituídos pela tecnologia? 20. O futuro da profissão vai depender da preparação sólida das competências necessárias perante o novo panorama? Porquê? 21. O futuro da profissão vai depender da preparação sólida das competências necessárias perante o novo panorama? Porquê? FINAL 22. Gostaria de acrescentar algo acerca do tema?